Anaïs nin delta de vênus, Notas de aula de Cultura. Universidade Estadual do Ceará (UECE)
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francisco_tulio23 de Setembro de 2015

Anaïs nin delta de vênus, Notas de aula de Cultura. Universidade Estadual do Ceará (UECE)

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Contos eróticos
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Delta de Vênus

Prostitutas que satisfazem os mais estranhos desejos de seus clientes. Mulheres que se aventuram com desconhecidos para descobrir sua própria sexualidade. Triângulos amorosos e orgias. Modelos e artistas que se envolvem num misto de culto ao sexo e à beleza. Aristocratas excêntricos e homens que enlouquecem as mulheres. Estes são alguns dos personagens que habitam os contos – eróticos – de Delta de Vênus, de Anaïs Nin. Escritas no início da década de 40 sob a encomenda de um cliente misterioso, estas histórias se passam num mundo europeu-aristocrático decadente, no qual as crenças de alguns personagens são corrompidas por novas experiências sexuais e emocionais.

Discípula das descobertas freudianas, Anaïs Nin aplicou nestes textos a delicadeza de estilo que lhe era característica e a pungência sexual que experimentou na sua própria vida. Mais do que contos eróticos, Delta de Vênus oferece ao leitor histórias de libertação e superação.

Prefácio (Abril, 1940)

Um colecionador de livros ofereceu a Henry Miller cem dólares por mês para que ele escrevesse histórias eróticas. Era uma punição dantesca condenar Henry a escrever sobre o tema erótico a um dólar a página. Ele rebelou-se porque seu estado de espírito à época era o oposto do que se poderia chamar de rabelaisiano, pois escrever por encomenda era uma ocupação castradora, e trabalhar com um voyeur espiando no buraco da fechadura tirava todo o prazer e a espontaneidade de suas imaginarias aventuras.

(Dezembro, 1940)

Henry me falou a respeito do colecionador. Os dois tinham almoçado juntos. Ele comprou um trabalho de Henry e lhe sugeriu que escrevesse algo para um de seus clientes, homem rico e idoso. Não podia falar muito a respeito desse cliente, exceto que ele estava interessado no tema erótico.

Henry lançou-se ao trabalho alegremente. Inventou loucas histórias de que muito nos rimos. Ele se atirou àquela atividade como a uma experiência, e no princípio pareceu-lhe fácil. Mas após algum tempo perdeu o estímulo. Como não queria usar o material que vinha planejando empregar em seu verdadeiro trabalho, viu-se condenado a forçar sua criatividade e sua disposição.

Henry jamais recebeu uma palavra de reconhecimento do estranho cliente. Seria natural que essa pessoa não desejasse revelar sua identidade. Mas Henry começou a brincar com o colecionador.

"Adaptado do diário de Anaïs Nin, volume III".

Esse cliente realmente existia? Ou aquelas páginas eram para o próprio colecionador, destinadas a alegrar sua melancólica vida? Não seriam os dois a mesma pessoa? Henry e eu discutimos amplamente esses pontos, intrigados e divertidos.

Então o colecionador anunciou que seu cliente viria a Nova York e que

Henry o conheceria. Mas o encontro acabou por jamais se realizar. O colecionador foi minucioso em suas descrições ao lhe dizer como remetera os originais pelo correio aéreo, dizendo quanto custara e dando pequenos detalhes que visavam a acrescentar realismo às alegações que fazia sobre a existência de seu cliente.

Um dia ele pediu um exemplar de Black spring com uma dedicatória.

Henry lhe disse:

— Mas você não me disse que ele já tem todos os meus livros, com as edições assinadas?

— Ele perdeu seu exemplar de Black spring.

— E a quem devo dedicá-lo? — perguntou Henry

— Basta que você escreva: "A um bom amigo" e assine.

Algumas semanas depois Henry precisou de um exemplar do mesmo Black spring e não conseguiu encontrar nenhum. Decidiu pedir o do colecionador. Foi a seu escritório. A secretária mandou-o esperar. Ele pôs- se a examinar os livros que se encontravam na estante. Viu um exemplar de Black spring e o apanhou. Era o que tinha dedicado "a um bom amigo".

Quando o colecionador apareceu, Henry lhe falou a esse respeito, rindo. Com o mesmo bom humor, o colecionador explicou:

— Oh, sim, o velho ficou tão impaciente que lhe mandei o meu livro antes que você assinasse esse, na intenção de trocar quando ele vier de novo a Nova York. Quando nos encontramos, Henry me disse:

— Estou mais confuso do que nunca.

Quando Henry perguntou como o cliente reagia a seu trabalho, o colecionador respondeu:

— Oh, ele gosta muito. Tudo é maravilhoso. Entretanto, ele gosta mais quando é uma narrativa, só a história, sem análises, sem filosofia.

Assim que precisou de dinheiro para suas despesas de viagens, Henry

sugeriu que eu aproveitasse o intervalo para escrever um pouco. Decidi que não queria apresentar nada de excepcional e criei uma mistura de histórias que ouvira com invenções minhas, supondo que se tratava do diário de uma mulher. Jamais me encontrei com o colecionador. O trato era que ele leria meu trabalho e depois me diria o que achara. Recebi hoje um telefonema. Uma voz disse:

— É bom. Mas deixe de fora a poesia e as descrições de qualquer coisa que não seja sexo. Concentre-se em sexo.

Assim, comecei a me aplicar para tornar-me bizarra e criativa, exagerando tanto que pensei que ele fosse perceber que eu estava caricaturando a sexualidade. Mas não houve protesto. Passei dias na biblioteca estudando o Kama Sutra, e ouvi as mais disparatadas aventuras dos amigos.

— Menos poesia — disse-me a voz pelo telefone. — Seja específica.

Será que alguém terá retirado alguma vez prazer da leitura de uma descrição clínica? Não saberia o velho como as palavras podem introduzir cores e sons em nossa carne? Toda manhã, depois do café, eu me sentava para escrever um pouco. E um dia datilografei: "Era uma vez um aventureiro húngaro". Dei-lhe muitas vantagens: beleza, elegância, graça, talento de ator, conhecimento de muitas línguas, o dom da intriga, a capacidade para se livrar de dificuldades e para evitar as leis da permanência e da responsabilidade. Outro telefonema:

— O velho está satisfeito. Concentre-se em sexo. Deixe de fora a poesia.

Isso deflagrou uma epidemia de "diários" eróticos. Todos passaram a escrever suas experiências sexuais. Inventadas, ouvidas por acaso, pesquisadas no livro de Krafft-Ebing e em livros médicos. Tínhamos conversas cômicas. Contávamos uma história e as pessoas tinham que decidir se era falsa ou verdadeira. Ou plausível. Essa o era? Robert Duncan se oferecia para experimentar, para testar nossas invenções, para confirmar ou negar nossas fantasias. Todos nós precisávamos de dinheiro e, assim, somávamos nossas histórias.

Eu estava certa de que o tal velho nada sabia a respeito da beleza, dos êxtases e das deslumbrantes reverberações de um encontro sexual. Cortar a poesia era a sua mensagem. Sexo clínico, privado de todo o calor que só o

amor lhe pode dar — a orquestração de todos os sentidos, tato, audição, visão e paladar; todos os acompanhamentos eufóricos, música de fundo, estados de espírito, atmosfera, variações — forçava-o a recorrer a afrodisíacos literários.

Poderíamos ter reunido melhores segredos para lhe contar, mas a tais segredos ele seria surdo. Contudo, um dia, quando ele alcançasse a saturação, eu lhe diria como quase nos fizera perder o interesse na paixão, em razão de sua obsessão de gestos vazios de emoções, e também como nós o detestávamos por quase ter nos obrigado a fazer votos de castidade ao querer que excluíssemos aquilo que era o nosso próprio afrodisíaco: a poesia.

Recebi cem dólares pela minha história erótica. Gonzalo precisava de dinheiro para o dentista; Helba, de um espelho para suas danças; e Henry, de dinheiro para sua viagem. Gonzalo me contou a história do Basco e de Bijou e eu a escrevi para o colecionador.

(Fevereiro, 1941)

A conta do telefone não tinha sido paga. A rede das dificuldades econômicas se fechava sobre mim. Todas as pessoas que se achavam à minha volta eram irresponsáveis, estavam inconscientes do naufrágio. Escrevi trinta páginas eróticas.

Mais uma vez vi-me cônscia do fato de estar sem um centavo e telefonei para o colecionador. Ele tinha tido notícias de seu rico cliente e do último original que eu mandara? Não, não tinha, mas ficaria com o que eu acabara de escrever e me pagaria. Henry tinha que ir ao médico. Gonzalo precisava de óculos. Robert apareceu com B. e me pediu dinheiro para ir ao cinema. A fuligem da bandeira da porta caía sobre meu papel de datilografia e sobre meu trabalho. Robert adiantou-se e levou minha caixa de papel.

Não estaria o velho cansado de pornografia? Será que não seria possível ocorrer um milagre? Comecei a imaginá-lo dizendo: “Dê-me tudo o que ela escrever, quero tudo, gosto de tudo. Eu lhe mandarei um bom presente, um polpudo cheque por tudo o que ela tem escrito”.

Minha máquina de escrever estava quebrada. Com cem dólares no bolso, recuperei o otimismo. Eu disse para Henry:

— O colecionador gosta de mulheres simples, não intelectuais, mas me convida para jantar.

Eu tinha a impressão de que a caixa de Pandora continha os mistérios da sensualidade feminina, tão diferente da do homem e para a qual a linguagem masculina era inadequada. A linguagem do sexo ainda tinha que ser inventada. A linguagem dos sentidos ainda tinha que ser explorada. D. H. Lawrence começou a dar uma linguagem ao instinto, tentou fugir do relato clínico, do científico, que captura apenas o que o corpo sente.

(Outubro, 1941)

Quando Henry chegou, trouxe várias afirmativas contraditórias. Que poderia viver sem nada, que se sentia tão bem que era capaz até mesmo de arranjar um emprego, que sua integridade impedia que ele fosse escrever enredos em Hollywood. Então eu lhe disse:

— E o que lhe diz sua integridade quando você escreve história erótica por dinheiro?

Henry riu, admitiu o paradoxo, as contradições e mudou de assunto.

A França tem uma tradição de literatura erótica escrita em estilo fino e elegante. Assim que comecei a escrever para o colecionador, pensei que houvesse uma tradição similar aqui, mas nada encontrei. Tudo o que vi era de baixo nível, trabalho de escritores de segunda classe. Nenhum bom escritor jamais fizera qualquer tentativa para usar a linguagem erótica.

Contei a George Barker como Caresse Crosby, Robert, Virginia Admiral e outros estavam escrevendo. Aquilo agradou ao seu senso de humor, ou seja, a idéia de eu ser a madame daquela casa literária de prostituição de que a vulgaridade era excluída. Rindo, eu expliquei:

— Eu dou o papel e o carbono, remeto o original anonimamente e protejo o bom nome de todos.

George Barker considerou que era uma solução muito mais bem- humorada e criativa que implorar, pedir emprestado ou fazer os amigos pagarem nossas refeições. Reuni poetas à minha volta e juntos escrevemos belas páginas eróticas. E como éramos condenados a nos concentrar

apenas em sensualidade, tivemos violentas explosões de poesia. Escrever na linguagem sensual tornou-se mais uma estrada para a santidade que para o deboche.

Harvey Breit, Robert Duncan, George Barker, Caresse Grosby, todos nós concentramos nossos talentos em um tour de orce, suprindo o velho com tal abundância de perversa felicidade que ele passou a nos implorar por mais.

Os homossexuais escreviam como se fossem mulheres. Os tímidos escreviam sobre orgias. Os frígidos, sobre êxtases frenéticos. Os mais poéticos abandonavam-se à total bestialidade; e os mais puros, a incríveis perversões. Éramos perseguidos pelas histórias maravilhosas que não podíamos contar. Sentávamos em círculo, imaginávamos o velho, falávamos sobre quanto o odiávamos porque ele não permitia que fundíssemos sexualidade com sentimento, sensualidade com emoção.

(Dezembro, 1941)

George Barker estava em uma penúria terrível. Quis escrever mais histórias lascivas. Escreveu oitenta e cinco laudas. O colecionador as julgou por demais surrealistas. Eu as adorei. Suas cenas de amor eram desordenadas e fantásticas. Amor entre trapézios.

Ele bebeu seu primeiro lucro e eu não pude emprestar-lhe mais que papel e carbono. George Barker, o excelente poeta inglês, escrevia sobre erotismo para beber, tal como Utrillo pintara por uma garrafa de vinho. Comecei a pensar a respeito do velho que odiávamos. Decidi escrever-lhe diretamente, falar-lhe a respeito de nossos sentimentos.

“Caro Colecionador, nós odiamos você. O sexo perde todo o seu poder e sua magia quando se torna explícito, mecânico, exagerado, quando se torna uma obsessão mecanizada. Fica enfadonho. Você nos ensinou mais do que qualquer outra pessoa que eu conheça como é errado não misturar sexo com emoção, fome, desejo, luxúria, caprichos, laços pessoais, relações mais profundas que modificam sua cor, seu gosto, seu ritmo e sua intensidade.

Você não sabe o que está perdendo com seu exame microscópico da atividade sexual a ponto de excluir aspectos que são o combustível que lhe ateiam fogo. Intelectual, imaginativo, romântico, emocional.

É isso que dá ao sexo sua tessitura surpreendente, suas transformações sutis, seus elementos afrodisíacos. Você está reduzindo seu mundo de sensações, matando-o de fome, drenando seu sangue.

Se você alimentar sua vida sexual com todas as excitações e aventuras que o amor injeta na sensualidade, será o homem mais potente do mundo. A fonte da potência sexual é a curiosidade, a paixão. Mas você está vendo sua pequena chama morrer asfixiada. O sexo não viceja na monotonia. Sem sentimento, invenções ou surpresas na cama. O sexo deve ser misturado com lágrimas, risos, palavras, promessas, cenas, ciúme, inveja, todos os condimentos do medo, da viagem ao estrangeiro, novos rostos, romances, histórias, sonhos, fantasias, música, dança, ópio, vinho.

Quanto você perde por usar esse periscópio em tão pequena parte de uma coisa tão grande, quando poderia desfrutar um harém de maravilhas diferentes e jamais repetidas? Não há um fio de cabelo igual ao outro, mas você nunca permitirá que desperdicemos palavras com a descrição de um cabelo; não há dois odores iguais, mas se nos expandirmos sobre isso você gritará para que cortemos a poesia. Não existem duas peles com a mesma textura, e nunca o mesmo tom, temperatura, sombras, jamais o mesmo gesto; pois o amante, quando incendiado pelo verdadeiro amor, é capaz de percorrer a escala da sabedoria de muitos séculos. Quanta coisa, quantas variações de idade, de maturidade e inocência, de perversidade e arte...

Sentamo-nos juntos por horas e imaginamos como será você. Caso tenha fechado seus sentidos para a luz, a cor, o caráter, o temperamento, deve estar agora completamente paralisado. Há muitos sentidos menores, todos tributários do sexo, afluentes que o alimentam. Apenas o ritmo simultâneo do sexo e do amor pode criar o êxtase."

Pós-escrito Naquele tempo em que estávamos todos escrevendo sobre erotismo a um dólar a página, dei-me conta de que por séculos tínhamos tido um único modelo para esse gênero literário, ou seja: trabalhos escritos por homens. Eu já era então consciente da diferença entre o tratamento masculino e o feminino para com a experiência sexual. Sabia que havia grande disparidade entre a clareza de Henry Miller e as minhas ambigüidades; entre sua visão do sexo, rabelaisiana e bem-humorada, e as minhas descrições poéticas de relações sexuais como apareciam nas partes não publicadas do diário.

Conforme escrevi no volume três do Diário, eu tinha a impressão de que a caixa de Pandora continha os mistérios da sensualidade feminina, tão diferente da do homem e para a qual a linguagem masculina era inadequada.

As mulheres, pensava eu, eram mais aptas a fundir sexo com emoção ou amor, assim como a se dedicar a um único homem em vez de se tornarem promíscuas. Isso se tornou evidente para mim à época em que eu escrevia os romances e o Diário, e ficou ainda mais claro quando comecei a lecionar. Embora a atitude das mulheres para com o sexo fosse bem diferente da dos homens, não tínhamos ainda aprendido a escrever sobre isso.

Nestas histórias eróticas eu escrevia para distrair o leitor, sob a pressão de um cliente que queria que eu "cortasse a poesia”. Achei que meu estilo se derivava da leitura de trabalhos escritos por homens, e por esse motivo sempre julguei que houvesse comprometido meu eu feminino. Pus o erotismo de lado. Relendo as histórias muitos anos depois, vi que minha própria voz não tinha sido silenciada de todo. Em numerosas passagens eu usara intuitivamente uma linguagem de mulher, vendo a experiência sexual de um ponto de vista feminino. E, finalmente, decidi liberar os textos para publicação porque eles mostram os primeiros esforços de uma mulher em um mundo que sempre fora dominado pelos homens.

Se o Diário algum dia vier a ser publicado sem cortes, o ponto de vista feminino será estabelecido com mais clareza, demonstrando que as mulheres (e eu, no Diário) nunca separaram o sexo do sentimento, ou do amor do homem integral.

ANAïS NiN

O aventureiro húngaro

Era uma vez um aventureiro húngaro, dono de uma beleza estonteante, sedução infalível, graça, talento de um ator experiente, cultura, conhecimento de muitas línguas, maneiras aristocráticas. Por trás disso tudo havia uma grande capacidade para a intriga, para livrar-se de dificuldades e para entrar e sair com facilidade de qualquer país.

Ele viajava em grande estilo, com quinze arcas cheias das mais finas roupas e dois grandes cães dinamarqueses. Seu ar autoritário lhe granjeara o apelido de Barão. O Barão era visto nos mais luxuosos hotéis, em estâncias hidrominerais, corridas de cavalo, viagens ao redor do mundo, excursões ao Egito, viagens pelo deserto, safáris na África.

Aonde quer que ele fosse, era o centro de atração das mulheres. Como o mais versátil dos atores, passava de um papel para outro a fim de satisfazer o gosto de todas. Era o dançarino mais elegante, o mais animado dos convivas em um jantar, o mais decadentista dos anfitriões em tête-à- tétes; era capaz de velejar, montar, dirigir. Conhecia cada cidade como se tivesse morado nela toda a sua vida. Conhecia toda a sociedade. Era indispensável.

Quando precisava de dinheiro, casava-se com uma mulher rica, saqueava-a e partia para outro país. Nunca as mulheres se rebelavam contra ele ou se queixavam à polícia. As poucas semanas ou meses em que o tiveram como marido deixavam uma sensação mais forte do que o choque de perder o dinheiro. Por um instante tinham compreendido o que era viver com fortes asas, voando acima da cabeça dos medíocres.

Ele as levava tão alto, fazia-as girar tão depressa em sua série de encantamentos, que em sua partida era como se houvesse algo semelhante a um vôo. Parecia quase natural; nenhuma delas poderia seguir o Barão em seu vôo de águia.

O aventureiro livre e incapturável, pulando assim de um ramo dourado para outro, quase caiu em uma armadilha de amor, quando uma noite conheceu uma bailarina brasileira chamada Anita em um teatro peruano.

Os olhos amendoados de Anita não se fechavam como os das outras mulheres, e sim como os dos tigres, dos pumas e dos leopardos; as duas pálpebras se encontravam lenta e preguiçosamente; aqueles olhos pareciam implantados um tanto próximos do nariz, o que os fazia estreitos, com um jeito lascivo e oblíquo, como o olhar de uma mulher que não deseja ver o que está sendo feito de seu corpo. Tudo isso lhe dava o ar de uma criatura com quem estivessem fazendo amor, o que excitou o Barão ao conhecê-la.

Quando ele foi vê-la no camarim, Anita estava se preparando entre uma profusão de flores; e para a delícia dos admiradores que se achavam sentados à sua volta, pintava seu sexo com um batom, sem permitir que fizessem qualquer gesto em sua direção.

Com a entrada do Barão, ela limitou-se a erguer a cabeça e a sorrir para ele. Tinha um pé sobre uma mesinha, e seu requintado vestido brasileiro estava erguido; com as mãos cheias de anéis ela voltou à pintura, rindo da excitação dos homens que a cercavam.

Seu sexo era como uma gigantesca flor de estufa, maior do que qualquer um que o Barão já tinha visto, envolto por pêlos abundantes e crespos, lustrosos e negros. Eram os lábios que ela pintava como se fossem uma boca, com todo o cuidado até que ficaram semelhantes a camélias vermelho-sangue, abertos à força, mostrando o botão inferior fechado, o coração mais pálido, de fina pele de flor.

O Barão não conseguia persuadi-la a ir cear com ele. A aparição de Anita no palco era apenas o prelúdio de seu trabalho no teatro. Seguia-se depois o espetáculo pelo qual era famosa em toda a América do Sul, com os camarotes às escuras e de cortinas semicerradas cheios de homens da sociedade vindos de todas as partes do mundo. Não se levavam mulheres a esse espetáculo burlesco de alta classe.

Anita se vestira de novo; pusera um vestido de saia rodada que usava em cena para suas canções brasileiras, mas sem o xale. A parte superior não tinha alças, e seus seios ricos e abundantes, comprimidos pela roupa de cintura apertada, precipitavam-se para cima, oferecendo-se quase que por inteiro ao olhar de todos.

Enquanto o resto do espetáculo prosseguia, ela circulou pelos camarotes

nesse traje. Diante de um deles, a pedido, ajoelhou-se à frente de um homem, desabotoou suas calças, tomou-lhe o pênis entre suas mãos cheias de anéis, e com uma destreza, uma perícia, uma sutileza que poucas mulheres jamais haviam conseguido desenvolver, chupou-o até que o homem ficasse satisfeito. Suas mãos eram tão ativas quanto sua boca. A excitação era tanta que quase fazia os homens perderem os sentidos. A habilidade de suas mãos; a variedade de ritmos; a mudança de um aperto firme no pênis inteiro para o mais leve toque em sua extremidade, de uma vigorosa massagem em todas as partes com um quase imperceptível puxão nos pêlos, à volta — tudo isso feito por uma mulher excepcionalmente bela e voluptuosa, enquanto a atenção do público estava voltada para o palco. Ver o pênis entrar em sua boca magnífica por entre os dentes cintilantes, enquanto seus seios arfavam, dava aos homens um prazer pelo qual pagavam generosamente.

A presença de Anita no palco os preparava para sua aparição nos camarotes. Ela os provocava com a boca, com os olhos, com os seios. E chegarem ao clímax juntamente com a música, as luzes e as canções, em um camarote escuro, com as cortinas semicerradas e situado em um plano superior ao da platéia, era uma forma de diversão excepcionalmente excitante.

O Barão quase se apaixonou por Anita e ficou em sua companhia por mais tempo do que com qualquer outra mulher.

Ela apaixonou-se por ele e lhe deu duas filhas. Mas poucos anos depois ele partiu mais uma vez. O hábito era demasiado forte; o hábito de liberdade e mudança.

Ele foi para Roma e alugou no Grand Hotel uma suíte que, por acaso, situava-se ao lado do apartamento do embaixador espanhol, que lá morava com a mulher e duas filhas. O Barão encantou a todos. A mulher do embaixador o admirava.

Ficaram muito amigos, e ele era tão agradável às crianças, que não sabiam como se distrair naquele hotel, que logo ambas adquiriram o hábito de ir visitá-lo de manhã bem cedo a fim de acordá-lo com risos e brincadeiras, o que não era permitido fazer com os pais, bem mais solenes.

Uma das garotas tinha cerca de dez anos; a outra, doze. Eram bonitas,

tinham grandes olhos negros e aveludados, cabelos compridos e sedosos, e pele dourada. Usavam vestidos brancos curtos e meias também brancas. Com agudos gritinhos as duas garotas entravam correndo no quarto do Barão e se atiravam em sua imensa cama. Ele brincava com elas e as acariciava.

É que o Barão, como muitos homens, sempre despertava com o pênis em um estado particularmente sensível. Na verdade, ele se sentia muito vulnerável. Não tinha tempo de se levantar e acalmar sua condição urinando. Antes que pudesse fazê-lo, as crianças já tinham cruzado correndo o soalho lustroso e se atirado sobre ele e sobre seu pênis proeminente, que de certa forma o grande acolchoado azul-claro conseguia ocultar.

As duas meninas não se importavam com o fato de suas saias ficarem totalmente levantadas e com o modo como suas esbeltas pernas de dançarina se trançavam e pressionavam o pênis dele, intumescido sob a coberta. Rindo, rolavam sobre o Barão, sentavam-se em cima dele, montavam-no e o tratavam como se fosse um cavalo, instando para que ele balançasse a cama com um movimento de seu corpo. Além disso, beijavam- no, puxavam seus cabelos e mantinham com ele conversas infantis. O prazer do Barão em ser tratado assim crescia tanto que se transformava em suspense excruciante.

Com uma das garotas deitada de bruços, tudo o que ele tinha a fazer era mover-se um pouco contra ela para alcançar seu prazer. E ele assim o fez brincando, como se sua intenção fosse empurrá-la para fora da cama. E disse:

— Aposto como você cairá se eu a empurrar.

— Eu não caio — retrucou a menina, agarrando-se ao Barão por cima das cobertas enquanto ele se movia como se fosse forçá-la a rolar para fora da cama.

Rindo, ele se ergueu um pouco, mas ela continuou deitada e colada a seu corpo, com suas pequenas pernas, suas calcinhas, se esfregando nele, esforçando-se para não escorregar; o Barão deu seguimento à brincadeira enquanto riam. A outra menina, querendo equilibrar o jogo, montou a cavalo nele, em frente à irmã, o que permitiu que ele pudesse se mexer

com selvagem liberdade. Seu pênis, oculto pela grossa coberta, ergueu-se vezes sem conta por entre as pequenas pernas, e foi assim que ele gozou, com uma força que raramente conhecera, dando-se como perdedor na batalha que as duas meninas tinham vencido de um modo de que jamais suspeitariam.

De outra feita, quando elas foram brincar com o Barão, ele pôs suas mãos sob a coberta. Depois ergueu o indicador e desafiou-as a pegá-lo. Assim, com grande animação, elas se puseram a caçar seu dedo — que desaparecia e reaparecia em diferentes partes da cama —, agarrando-o firmemente. Em pouco tempo não era mais o dedo e sim o pênis que as duas pegavam repetidas vezes, e quando tentava libertá-lo, o Barão obrigava-as a agarrá-lo com mais força ainda. Fazia-o desaparecer completamente sob as cobertas e depois, pegando-o com a mão, jogava-o para cima a fim de que elas o pegassem.

O Barão também fingia que era um animal que tentava agarrá-las e mordê- las, às vezes bem perto dos lugares onde realmente o desejava fazer, e elas gostavam muito disso. Com o "animal" elas também brincavam de esconder. O "animal" queria lançar-se sobre elas de algum canto escondido. Ele se ocultava em um armário e se cobria de roupas. Uma das meninas abria a porta. Ele podia ver através do tecido; agarrava-a e a mordia de brincadeira nas coxas.

Tão quentes eram os jogos, tão grandes eram a confusão da batalha e o abandono das duas garotinhas na brincadeira, que com muita freqüência a mão dele passava por todas as partes que queria apalpar.

Um dia o Barão acabou por se mudar de novo, mas seus vôos no trapézio da fortuna foram se deteriorando à medida que seu impulso sexual foi se tornando mais forte que sua ânsia de dinheiro e poder. Era como se a força de seu desejo por mulheres não mais pudesse ser controlada. Ele se mostrava ansioso por se livrar de suas esposas para que pudesse prosseguir em sua busca de sensações pelo mundo afora.

Um dia soube que a bailarina brasileira a quem havia amado tinha morrido de uma dose excessiva de ópio. Suas filhas já estavam com quinze e dezesseis anos respectivamente e queriam que ele tomasse conta delas. O Barão mandou buscá-las.

Estava vivendo então em Nova York com uma mulher de quem tivera um filho. A mulher não ficou satisfeita com a notícia da chegada das filhas do Barão. Sentia ciúme pelo filho, então com apenas catorze anos. Depois de tantas aventuras, o Barão desejava um lar e descanso de tantas dificuldades e farsas. Tinha uma mulher de quem podia dizer que gostava e três filhos.

A idéia de estar de novo com as filhas o interessou. Recebeu-as com grandes demonstrações de afeto. Uma era linda; a outra menos bonita, mas muito interessante. Ambas tinham sido criadas testemunhando a vida que a mãe levava e não eram pudicas nem reprimidas.

A beleza do pai as impressionou. Por sua vez ele recordou as brincadeiras com as duas meninas de Roma, porém suas filhas eram um pouco mais velhas, o que adicionava grande atrativo à situação.

Uma grande cama foi destinada às duas mocinhas, e mais tarde, quando elas ainda estavam falando da viagem e do reencontro com o pai, ele entrou para lhes dizer boa-noite. Deitou-se ao lado delas e beijou-as. Elas retribuíram seus beijos. Mas quando ele as beijou de novo, correu as mãos pelo seu corpo, que podia sentir através da camisola.

As carícias agradaram às duas. E o Barão disse:

— Vocês. — Como vocês são bonitas! Estou muito orgulhoso de vocês. Não posso deixar que durmam sozinhas. Faz muito tempo não as vejo.

Segurando-as paternalmente, com as duas cabeças sobre o peito, acariciando-as protetoramente, ele deixou que dormissem, ladeando-o. Aqueles corpos jovens, com pequenos seios ainda em formação, o afetaram tanto que ele não pôde dormir. Afagou uma e depois a outra, mas após algum tempo seu desejo se tornou tão violento que ele acordou uma e começou a forçá-la. A outra também não lhe escapou. Elas resistiram e choraram um pouco, mas já tinham visto tantas coisas durante o tempo em que viveram com a mãe que não se rebelaram contra o pai.

No entanto, não se tratou de um caso comum de incesto, porque a fúria sexual do Barão crescia cada vez mais e se tornara uma obsessão. Gozar com elas não o libertava, não o acalmava. Saía da companhia das filhas e ia fazer amor com a mulher. Era como um excitante.

Com receio de que as filhas o abandonassem e fugissem, o Barão passou a espioná-las e praticamente as aprisionou.

Sua mulher acabou por descobrir e fez cenas violentas. Mas o Barão mais parecia um louco. Não se importava mais com suas roupas, sua elegância, suas aventuras, sua fortuna. Ficava em casa e só pensava no momento em que pegaria as filhas juntas. Ensinara-lhes todas as carícias imagináveis. Elas aprenderam a se beijar em sua presença até que ele se excitasse bastante para possuí-las.

Mas sua obsessão, seus excessos, começaram a pesar sobre elas. A mulher acabou por desertar.

Uma noite, após ter deixado as filhas, ficou vagueando pelo apartamento, ainda uma presa de seu desejo, de suas febris fantasias eróticas. Tinha exaurido as garotas, que caíram no sono. Porém seu desejo o atormentava de novo. Estava cego por ele. Abriu a porta do quarto do filho. O garoto estava dormindo calmamente, de barriga para cima, a boca ligeiramente aberta. O Barão o observou, fascinado. Seu pênis tumefacto continuava a atormentá-lo. Ele apanhou um tamborete e colocou-o junto da cama. Ajoelhou-se nele e inseriu o pênis na boca do filho, que acordou engasgado e o golpeou. As garotas também acordaram.

A rebelião dos três contra a loucura do pai os empolgou, e eles abandonaram o desvairado e velho Barão.

Mathilde

Mathilde era uma chapeleira de Paris e mal havia completado vinte anos quando foi seduzida pelo Barão. Embora o romance não tivesse durado mais que duas semanas, sua filosofia de vida a contagiara e adotara seu modo de fugir a passos largos dos problemas. Uma coisa que o Barão lhe dissera certa noite, casualmente, a deixara intrigada: que as mulheres parisienses eram altamente valorizadas na América do Sul em virtude de sua perícia nas questões de amor, de sua vivacidade e sabedoria, o que fazia grande contraste com a maioria das mulheres sul-americanas, que ainda cultivam uma tradição de obediência e se colocam em segundo plano; isso lhes enfraquece a personalidade e possivelmente se deve à relutância dos maridos daquele continente em fazerem de suas esposas amantes.

Tal como o Barão, Mathilde tinha desenvolvido uma fórmula para levar a vida desempenhando uma série de papéis; para isso, bastava dizer ao espelho, enquanto pela manhã escovava os louros cabelos:

— Hoje eu quero ser tal pessoa.

Um dia ela decidiu que seria uma elegantíssima representante de uma modista parisiense muito conhecida e que iria para o Peru. Portanto, foi preciso apenas que vivesse seu papel. Assim, vestiu-se com apuro, apresentou-se com extraordinária segurança na casa de modas, foi contratada e recebeu uma passagem marítima para Lima.

A bordo do navio, comportou-se como uma missionária francesa da elegância. Seu talento inato para reconhecer bons vinhos, bons perfumes e boas roupas a marcou como uma dama refinada. Seu paladar era o de um gourmet.

Mathilde tinha aptidão especial para bem viver o papel que escolhera. Ria o tempo todo, fosse o que fosse que lhe acontecesse. Quando sumiu uma valise, ela riu. Quando lhe pisaram o pé, também riu.

Foi seu riso que atraiu o representante da Spanish Line, Dai-vedo, que a

convidou para jantar à mesa do comandante.

Dalvedo era uma figura agradável em seu traje de noite, com a pose de um comandante e com muitas histórias para contar.

Na noite subseqüente ao jantar, ele a levou a um baile. Sabia muito bem que a viagem era curta demais para o tempo normal de namoro, e por isso se pôs a louvar, de imediato, uma pequena verruga que Mathilde tinha no queixo. A meia-noite perguntou se ela gostava de fruta de cacto. Ela nunca provara essa fruta. Ele disse que tinha algumas em seu camarote.

Mathilde desejava aumentar seu valor pela resistência, e estava em guarda quando entraram no aposento. Sempre conseguira se livrar com facilidade das mãos audaciosas dos homens quando ia ao mercado, bem como das palmadinhas que os maridos de suas clientes lhe davam às escondidas, dos beliscões no bico dos seios aplicados pelos amigos que a levavam ao cinema. Nada disso a excitava. Mathilde tinha uma idéia vaga mas persistente sobre o que a excitaria. Queria que lhe fizessem a corte usando uma linguagem misteriosa, o que fora determinado pela sua primeira aventura, quando tinha dezesseis anos.

Um escritor, que era uma celebridade em Paris, entrara um dia em sua loja. Não estava procurando um chapéu. Perguntou-lhe se vendia umas flores luminosas de que tinha ouvido falar, flores que brilhavam no escuro. Ele as queria, explicou, para uma mulher que brilhava no escuro. Era capaz de jurar que, quando a levava ao teatro e ela se recostava na cadeira do camarote às escuras, sua pele era tão luminosa quanto uma finíssima concha marinha, com um suave brilho cor-de-rosa. E ele queria as flores para que ela as usasse nos cabelos.

Mathilde não tinha as flores. Mas assim que o homem saiu, foi se olhar ao espelho. Aquele era o tipo de sentimento que desejava inspirar. Será que poderia? Seu brilho não era daquele tipo. Ela era mais como fogo do que como luz. Seus olhos eram ardentes, cor de violeta. O cabelo era pintado de louro, mas irradiava uma sombra de cobre à sua volta. Sua pele também tinha um tom acobreado, uma pele firme e sem nada de transparente. O corpo enchia o vestido com generosidade.

Não usava modelador, mas a forma de seu corpo era igual à das mulheres que o usavam. Quando se arqueava para trás, os seios se projetavam para

a frente e as nádegas ficavam mais altas.

O homem voltou. Mas dessa vez não desejava comprar nada. Ficou parado olhando para ela, o rosto comprido e finamente esculpido, sorridente, os gestos elegantes transformando o ato de acender um cigarro em um ritual, e disse:

— Desta vez eu voltei para ver você.

O coração de Mathilde bateu tão depressa que ela sentiu ser aquele o momento esperado havia tantos anos. Quase ficou na ponta dos pés para ouvir o resto de suas palavras. Era como se fosse a mulher luminosa sentada no camarote escuro recebendo as insólitas flores. Mas o simpático escritor grisalho disse com voz aristocrática:

— Assim que vi você, meu membro ficou duro dentro das minhas calças.

A crueza daquelas palavras foi como um insulto. Ela enrubesceu e o esbofeteou.

A cena foi repetida diversas ocasiões. Mathilde descobriu que, quando aparecia, os homens geralmente ficavam sem fala, privados de qualquer inclinação para um namoro romântico. Palavras como aquelas eram pronunciadas assim que a viam. O efeito produzido por Mathilde era tão direto que eles eram capazes apenas de exprimir sua perturbação física. Em vez de considerar isso um tributo, ela se magoava profundamente.

Encontrava-se, então, no camarote com Dalvedo, o gentil espanhol. Ele descascava frutos de cacto para ela, e falava.

Mathilde foi recuperando a autoconfiança. Seu vestido de noite era de veludo vermelho. Ela se sentou sobre o braço de uma poltrona.

Mas a tarefa de descascar as frutas foi interrompida. Dalvedo levantou-se e disse:

— Essa verruguinha que você tem no queixo é incrivelmente sedutora.

Mathilde pensou que ele fosse beijá-la. Mas ele não o fez. Desabotoou as calças rapidamente, puxou o pênis para fora e, com o gesto de um apache

para uma mulher das ruas, disse:

— Ajoelhe-se.

Mais uma vez Mathilde teve de dar uma bofetada, após o que correu para a porta.

— Não vá — implorou ele —, você me deixa louco. Olhe só o estado em que me deixou. Fiquei assim a noite toda enquanto estávamos dançando. Agora você não pode me abandonar.

Dalvedo tentou abraçá-la. Durante o tempo em que ela lutava para livrar- se, ele gozou em cima de seu vestido. Mathilde teve de se cobrir com a capa de noite para poder retornar ao próprio camarote.

Contudo, assim que chegou a Lima, conseguiu realizar seu sonho. Os homens se aproximavam com palavras rebuscadas, disfarçando as intenções com grande charme. Esse prelúdio ao ato sexual a satisfazia. Gostava de um pouco de incenso. E em Lima recebia muito incenso; fazia parte do ritual. Era colocada sobre um pedestal de poesia, de modo que quando caía subjugada pelo abraço final, mais parecia um milagre. Vendeu muito mais noites do que chapéus.

Naquele tempo, Lima era fortemente influenciada por sua grande população chinesa. Prevalecia o vício de fumar ópio.

Rapazes ricos andavam em bandos, de bordel em bordel; ou passavam as noites nos antros de fumantes de ópio, onde havia prostitutas disponíveis; ou então alugavam cômodos vazios em casas de zona de meretrício, onde podiam usar a droga em grupos e onde as prostitutas os visitavam.

Os rapazes gostavam de se encontrar com Mathilde. Ela transformou sua loja em um boudoir, cheio de espreguiçadeiras, rendas, cetins, cortinas e almofadas. Martínez, um aristocrata peruano, a iniciou no ópio. E ele levava seus amigos até lá para fumar. As vezes passavam dois ou três dias perdidos para o mundo, para sua família. As cortinas eram mantidas cerradas. A atmosfera era velada, calma. O ópio os fazia mais voluptuosos que sensuais. Podiam passar horas acariciando as pernas de Mathilde. Um deles talvez segurasse um de seus seios, outro concentraria os beijos na carne macia de seu pescoço, encostando apenas os lábios, porque o ópio

ampliava cada sensação.

Mathilde se deixava ficar nua, deitada no chão. Todos os movimentos eram vagarosos. Os três ou quatro homens ficavam deitados por entre as almofadas. Preguiçosamente, um dedo procurava seu sexo, entrava e ficava entre os lábios da vulva, sem se mexer. Outra mão depois se mexia, contentando-se com os círculos em torno do sexo, procurando o outro orifício.

Um homem oferecia-lhe o pênis, bem junto à boca. Ela o chupava lentamente, cada toque magnificado pela droga.

Depois ficavam quietos por horas, sonhando. Imagens eróticas se formariam de novo. Martínez via o corpo de uma mulher, estendido, sem cabeça, com os seios de uma balinesa, o ventre de uma africana, as nádegas altas de uma negra; tudo isso se confundia em uma imagem de carne móvel, uma carne que parecia ser feita de elástico. Os seios rijos inchavam na direção de sua boca, e a mão de Martínez se adiantava para eles; mas então eram as outras partes do corpo que se expandiam, tornavam-se proeminentes, pairavam sobre o corpo dele. As pernas se abriam de modo inumano, impossível, como se tivessem sido cortadas da mulher, para deixar o sexo exposto, aberto, como se alguém tivesse apanhado uma tulipa, abrindo-a completamente à força.

O sexo também era móvel, como borracha esticada por mãos invisíveis, mãos curiosas que desejavam despedaçar o corpo para chegar a seu interior. Depois as nádegas se voltavam totalmente para ele e começavam a perder a forma. Cada movimento tendia a abrir por completo o corpo, visando rasgá-lo. Martínez ficava furioso porque outras mãos manipulavam aquele corpo. Levantava um pouco o tronco, procurava o seio de Mathilde, e se visse a mão de alguém sobre ele, ou uma boca chupando-o, procuraria seu ventre, como se aquele ainda fosse a imagem que o assombrara no sonho provocado pelo ópio; inclinando-se um pouco, ele a beijava entre as pernas abertas.

O prazer de Mathilde ao acariciar os homens era tão grande, e as mãos deles passando em seu corpo a agradavam de modo tão completo, tão contínuo, que ela raramente tinha um orgasmo. Só se dava conta disso depois que os homens partiam. Acordava dos sonhos de ópio com o corpo

ainda inquieto.

Lixava e pintava as unhas, fazia um traje requintado para futuras ocasiões, escovava os cabelos louros. Sentada ao sol, pintava os pêlos púbicos com pequenos chumaços de algodão, querendo-os tão louros quanto seus cabelos.

Sozinha, via-se perseguida pela lembrança daquelas mãos que acariciavam seu corpo. Podia sentir então uma sob o braço, escorregando para a cintura. Lembrou-se de Martínez, de seu jeito de abrir seu sexo como se fosse uma flor, de sua língua rápida, cobrindo a distância dos pêlos púbicos às nádegas, terminando na covinha que Mathilde tinha na base da coluna. Como ele adorava aquela covinha, de onde seus dedos e sua língua seguiam para baixo, desaparecendo entre os dois abundantes montes de carne.

Pensando em Martínez, Mathilde sentiu-se arrebatada de paixão. Não podia esperar pelo seu retorno. Abaixou os olhos para as pernas. De tanto viver dentro de casa elas estavam muito brancas, fascinantes, com o tom branco de giz da pele das mulheres chinesas, a palidez mórbida de estufa que os homens, particularmente os peruanos de pele escura, tanto gostavam.

Olhou para seu ventre sem defeitos, sem uma única linha que não devesse estar presente. Os pêlos púbicos, ruivos, cintilavam ao sol.

"Como ele me vê?", perguntou-se ela. Levantou-se e pegou um espelho comprido que colocou no chão, encostado a uma cadeira. Sentou-se então diante do espelho e abriu lentamente as pernas. A visão que teve foi encantadora. A pele era imaculada; a vulva, rósea e cheia. Pensou nela como a folha da seringueira com seu leite secreto que poderia ser produzido pela pressão de um dedo, o líquido oloroso que vinha como o que se desprende das conchas do mar. Assim tinha nascido Vênus do oceano, com aquela pequena semente de salgado mel dentro de si; apenas carícias poderiam revelar os ocultos segredos de seu corpo.

Mathilde perguntou-se se seria capaz de retirar o seu favo de mel do esconderijo misterioso. Com os dedos, abriu os pequenos lábios da vulva e se pôs a acariciá-la com felina suavidade. Para a frente e para trás, como Martínez fazia com seus dedos escuros e nervosos. Lembrou-se do

contraste dos dedos morenos dele com sua pele clara, a pele grossa representando mais uma promessa de dor do que de prazer. Mas como seu toque era delicado, como ele retinha a vulva entre os dedos, como se estivesse segurando veludo! Ela o imitou, com o dedo indicador e o polegar. Com a outra mão continuou as carícias. E teve a mesma sensação maravilhosa de que ia se dissolver. De algum lugar surgia um líquido salgado, cobrindo os lados de seu sexo, que brilhava no centro.

Mathilde quis saber então qual sua aparência quando Martínez mandava que se virasse. Deitou-se sobre seu lado esquerdo e expôs a bunda ao espelho. Podia ver, assim, seu sexo de outro ângulo. Moveu-se como se movia para Martínez. Viu sua própria mão aparecer sobre a colina formada pelas nádegas, que ela começou a esfregar. A outra mão passou por entre as pernas e apareceu no espelho, vinda por trás. E foi essa mão que esfregou seu sexo para trás e para a frente. Ela introduziu o dedo indicador na vagina e começou a se esfregar de encontro a ele. Tomada pelo desejo de ser assaltada pelos dois lados, inseriu o outro indicador no orifício anal. Quando balançava o corpo para a frente, sentia o dedo enfiado no sexo, e quando recuava, sentia o outro dedo, como sucedia nas vezes em que Martínez e algum amigo a acariciavam ao mesmo tempo. A aproximação do orgasmo excitou-a mais ainda e seus gestos passaram a ser convulsivos, como que para arrancar a última fruta de um galho, puxando, puxando o galho para trazer tudo abaixo, num selvagem orgasmo, que veio enquanto ela se admirava ao espelho, vendo suas mãos se moverem, o mel brilhando, o sexo, as nádegas, tudo cintilando por entre as pernas.

Depois de acompanhar seus movimentos no espelho, ela compreendeu a história que lhe fora contada por um marinheiro a respeito dos marinheiros de seu navio, que tinham feito uma mulher de borracha para passar o tempo e satisfazer seus desejos durante os seis ou sete meses que passavam em alto-mar. A boneca de borracha tinha sido feita com capricho e lhes dava uma ilusão perfeita. Os marinheiros a amavam. Levavam-na para a cama. Fora construída de tal modo que todos os orifícios podiam satisfazê-los.

Tinha a qualidade que um velho índio uma vez atribuíra a sua jovem esposa: logo depois do casamento, a esposa passou a ser amante de todos os rapazes que viviam na hacienda. O proprietário chamou o índio velho

para informa-lo da conduta escandalosa da jovem esposa e lhe disse que tomasse conta dela melhor. O índio meneou a cabeça ceticamente e respondeu: "Bem, não sei por que devo me preocupar tanto. Minha mulher não é feita de sabão, não vai gastar".

O mesmo ocorria com a mulher de borracha. Os marinheiros a viam como incansável e submissa; uma companhia verdadeiramente maravilhosa. Não havia ciúme, não havia brigas entre eles, nada de possessividade. A mulher de borracha era muito amada. Mas apesar de sua inocência, de sua natureza dócil e boa, de sua generosidade, de seu silêncio, não obstante sua fidelidade para com os marinheiros, ela transmitiu sífilis a todos.

Mathilde riu quando se lembrou do jovem marinheiro peruano que lhe contara essa história, de como ele lhe descrevera o ato de deitar-se sobre a boneca que se assemelhava a um colchão de ar, e de como às vezes ela o derrubava por efeito de sua elasticidade. Mathilde se sentia exatamente como a mulher de borracha quando fumava ópio. Como era agradável a sensação de abandono total! Sua única ocupação era contar o dinheiro que os amigos lhe deixavam.

Um deles, Antonio, não parecia contente com o luxo de seu quarto. Vivia implorando que fosse visitá-lo. Ele era lutador profissional e parecia saber exatamente o que fazer para as mulheres trabalharem para sustentá-lo. Tinha a necessária elegância para fazê-las orgulhosas dele, o ar bem tratado do homem que não trabalha, ao mesmo tempo em que se podia sentir que seu jeito suave poderia se transformar em violência no momento necessário. A expressão de seus olhos lembrava um gato, que inspira desejos de carícias mas não ama ninguém, e acha que jamais deve corresponder aos impulsos que desperta. Antonio tinha uma amante com quem fazia bom par, que lhe era igual em força e vigor, capaz de resistir lascivamente a seus golpes; uma mulher que usava sua feminilidade com honra e que não exigia piedade dos homens; uma mulher de verdade que sabia ser uma boa luta algo maravilhoso, estimulante para o sangue (ao contrário da piedade, que só serve para enfraquece-lo), e que as melhores reconciliações só podem ocorrer após bom combate. Sabia que quando Antonio não se encontrava com ela estava com a francesa tomando ópio, mas não se importava com isso, como se não soubesse onde ele se achava.

Naquele instante ele acabara de escovar o bigode, satisfeito, e estava se

preparando para um festim de ópio. A fim de acalmar sua amante, começou a beliscá-la e a dar-lhe palmadas nas nádegas. Ela era uma mulher diferente, com um pouco de sangue africano nas veias. Seus seios eram mais altos do que os de qualquer outra mulher que ele jamais tivesse visto, implantados em uma linha quase paralela à do ombro, absolutamente redondos e grandes. Foram os seios que primeiro o atraíram. O fato de serem implantados de forma tão provocante, tão perto da boca, apontando para cima, despertara nele uma reação direta. Era como se o sexo dele tivesse uma afinidade peculiar com aqueles seios, pois assim que eles ficaram à mostra no prostíbulo onde a encontrara, seu pênis ergueu-se para desafiá-los em igualdade de condições.

Sentira o mesmo todas as vezes em que fora àquele lugar. Finalmente tirou a mulher de lá e passou a viver com ela. No princípio, só era capaz de fazer amor com aqueles seios. Eles o assombravam, o perseguiam. Quando introduzia o pênis em sua boca, os seios pareciam tudo observar com ciúme e gula; então Antonio deitava sobre eles fazendo-os apertar seu pênis.

Os bicos eram grandes e ficavam túrgidos como semente de fruta em sua boca.

Excitada com suas carícias, sua amante ficava com a metade inferior do corpo completamente esquecida. As pernas tremiam, suplicando por violência, e seu sexo se abria, mas ele não lhe dava a menor atenção. Enchia a boca com os seios e repousava o pênis sobre eles; gostava de ver o esperma regando-os. O resto do corpo da mulher se contorcia no espaço, pernas e sexo se dobrando como uma folha ante cada carícia, espancando o ar até ela colocar lá as próprias mãos e se masturbar.

Naquela manhã, pouco antes de sair, ele repetiu as carícias. Mordeu os seios dela. Ela lhe ofereceu o sexo, mas Antonio não quis. Ela ajoelhou-se, pôs o pênis na boca. Esfregou os sexos nele. As vezes isso a fazia gozar, mas Antonio deixou-a e foi à casa de Mathilde. Encontrou a porta parcialmente aberta. Entrou com passos felinos, sem fazer qualquer ruído no tapete. Viu Mathilde ainda deitada no chão, diante do espelho. Ela estava apoiada nas mãos e nos joelhos, olhando sua imagem por entre as pernas.

— Não se mexa, Mathilde — disse ele. — Aí está uma pose de que eu gosto.

Antonio se agachou sobre ela como um gato gigantesco e seu pênis penetrou-a. Deu-lhe o que não dava à amante. Finalmente, o peso dele derrubou-a, fazendo-a se estirar no tapete. Então ele ergueu-lhe a bunda com ambas as mãos e caiu sobre ela repetidas vezes. Seu pênis parecia feito de ferro quente. Era comprido e estreito, e ele o movia em todas as direções, arremessando-o dentro dela com uma agilidade que Mathilde nunca vira. Acelerando ainda mais seus movimentos, ele disse com a voz rouca:

— Vamos agora, vamos agora, vamos, estou mandando. Dê tudo para mim agora. Me dê tudo. Como você nunca deu.

— Entregue-se agora!

Ao ouvir essas palavras, ela começou a se lançar com violência contra ele, e sobreveio o orgasmo como um raio que os atingisse simultaneamente.

Os outros amigos os encontraram ainda abraçados, deitados no tapete. Riram quando perceberam o espelho, que a tudo testemunhara. Começaram a preparar os cachimbos de ópio. Mathilde sentia-se lânguida. Martínez começou a ter sonhos com mulheres abertas. Antonio reteve a ereção e pediu a Mathilde que se sentasse sobre ele, ao que ela obedeceu.

Quando os cachimbos de ópio se apagaram e todos, menos Antonio, haviam saído, ele repetiu o pedido para que Mathilde o acompanhasse a seu retiro especial. Ela ainda ardia toda por dentro e cedeu, ansiosa por estar com ele e repetir a relação sexual.

Caminharam em silêncio pelas ruas estreitas do bairro chinês. Mulheres vindas de todas as partes do mundo sorriam para eles por trás de janelas abertas, e as que estavam em pé nos portais os convidavam a entrar. Da rua se podiam ver alguns quartos. Apenas uma cortina ocultava as camas. Podiam-se ver casais abraçados. Havia mulheres sírias envergando costumes nativos. Mulheres árabes com o corpo seminu coberto de jóias, japonesas e chinesas acenando dissimuladamente, grandes mulheres africanas de cócoras, em círculos, conversando. Havia uma casa cheia de prostitutas francesas que usavam curtas camisas cor-de-rosa; elas tricotavam e costuravam como se estivessem em seu lar. As francesas

sempre saudavam os transeuntes com promessas de suas especialidades.

As casas eram pequenas, mal iluminadas, empoeiradas, enfumaçadas, cheias de vozes tristes, de murmúrios de bêbados, de sons do amor. As chinesas, com seu gosto por decoração, tornavam tudo mais confuso com biombos e cortinas, lanternas, incenso, budas de ouro. Uma confusão de enfeites, flores de papel, pinturas em seda e tapetes, com mulheres de aspecto tão diversificado quanto os desenhos e as cores, que convidavam os homens que passavam para dormir com elas.

Era naquele bairro que Antonio tinha seu refúgio. Ele subiu com Mathilde a escada velha e mal-conservada, abriu uma porta que já estava caindo aos pedaços e a fez entrar. Não havia qualquer mobília no cômodo. Somente um tapete chinês, sobre o qual se achava um homem esfarrapado, esquelético e com um ar tão doentio que Mathilde recuou.

— Oh, você está aqui — disse Antonio, irritado.

— Não tinha para onde ir.

— Você sabe que não pode ficar aqui. A polícia o procura.

— Eu sei.

— Foi você quem roubou aquela cocaína, não foi? Vi logo que só podia ter sido você.

— Fui eu — concordou o homem, sonolento, indiferente.

Mathilde viu então que o corpo do infeliz estava coberto de arranhões e de pequenas feridas. Ele ergueu-se com esforço e se sentou. Em uma das mãos tinha uma ampola e na outra, uma caneta-tinteiro e um canivete.

Ela o observou, horrorizada.Ele quebrou a parte superior da ampola com um dedo, jogando longe os fragmentos. Depois, em vez de usar uma seringa hipodérmica, mergulhou a caneta-tinteiro na ampola e puxou o líquido. Com o canivete, fez um corte no braço que já estava coberto de feridas antigas e outras recentes; nesse corte mergulhou a pena da caneta e empurrou a cocaína para dentro da própria carne.

— Ele é pobre demais para conseguir uma seringa — explicou Antonio. — E eu não lhe dei dinheiro porque pensei que assim seria capaz de impedir que roubasse essas coisas. Mas aí está o que conseguiu.

Mathilde quis sair. Mas Antonio não deixou. Quis que ela tomasse cocaína com ele. O homem andrajoso deitou-se de costas, os olhos fechados. Antonio apanhou uma seringa e fez uma injeção em Mathilde.

Os dois se deitaram no chão; Mathilde sentiu-se tomada por uma tonteira invencível. Antonio lhe disse:

— Você está se sentindo como morta, não é?

Era como se lhe tivessem dado éter. A voz dele parecia estar vindo de muito longe. Ela fez um gesto indicando que achava que ia desmaiar.

— Isso passa.

Começou então o pesadelo. Muito longe estava a figura do homem prostrado, deitado de costas na esteira; mais perto se encontrava Antonio, muito grande e escuro. Ele pegou o canivete e se inclinou sobre Mathilde. Ela sentiu seu pênis penetrá-la, e foi bom e agradável; moveu-se devagar, relaxada e irresolutamente. O pênis foi retirado. Ela o sentiu pulsando fora da sedosa umidade que tinha entre as pernas, mas ainda não estava satisfeita e fez um movimento, como se quisesse prendê-lo.

O pesadelo prosseguiu; Antonio abria o canivete, inclinava-se sobre suas pernas abertas, tocava-a com a ponta do canivete, empurrando-o ligeiramente para dentro. Mathilde não sentia dor, não tinha energias para se mexer; era como se estivesse hipnotizada pela lâmina. Foi só então que se tornou totalmente consciente do que estava se passando, de que não se tratava de um pesadelo. Antonio estava admirando a ponta da lâmina, que se achava encostada em seu sexo. Ela gritou. A porta abriu-se. Era a polícia, que tinha vindo prender o ladrão de cocaína.

Mathilde foi salva do homem que tantas vezes atacara o orifício sexual de prostitutas, e que por essa razão jamais tocara a parte genital de sua amante. Tinha estado a salvo apenas enquanto vivera com ela, porque seus seios provocantes conservavam sua atenção desviada de seu sexo, a mórbida atração do que ele chamava de "pequeno talho das mulheres", e

que tão violentamente se sentia tentado a alargar.

O internato

Esta é uma história da vida no Brasil há muitos anos, longe das cidades, onde ainda prevaleciam os costumes de um catolicismo muito rígido. Os meninos bem-nascidos eram mandados para internatos dirigidos por jesuítas, que persistiam nos severos hábitos da Idade Média. Os meninos dormiam em camas de madeira, levantavam-se de madrugada, iam à missa em jejum, confessavam-se todos os dias e eram observados e espionados constantemente. O ambiente era austero e opressor. Os padres faziam suas refeições à parte e criavam uma aura de santidade em torno de si. Seus gestos e seu modo de falar eram padronizados.

Entre os jesuítas, havia um com um pouco de sangue indígena, muito moreno, o rosto de um sátiro, orelhas enormes grudadas na cabeça, olhos penetrantes, boca de lábios moles sempre babando, cabelos grossos e cheiro de animal. Por baixo de sua batina castanha os meninos observavam com freqüência uma protuberância que os mais moços não sabiam explicar e de que os mais velhos riam às escondidas. Essa protuberância aparecia inesperadamente e a qualquer instante: quando a classe lia o Dom Quixote ou Rabelais, ou às vezes quando ele meramente observava os meninos — e um deles em particular, o único louro da escola, com os olhos e a pele de uma garota.

O padre gostava de chamar esse menino e lhe mostrar os livros de sua coleção particular. Eram livros que continham reproduções da cerâmica inca com muitas figuras de homens de pé uns contra os outros. O menino fazia perguntas a que o velho padre tinha que responder ardilosamente. As vezes as figuras eram bem claras; um longo membro saía do meio de um homem e penetrava em outro, por trás.

Na confissão, esse padre atormentava os meninos com perguntas. Quanto mais inocentes parecessem ser, mais perguntas lhes fazia na escuridão do pequeno confessionário. Os meninos, ajoelhados, não podiam vê-lo, pois o padre estava sentado no escuro. Sua voz grave vinha através da tela de uma janelinha:

— Você teve fantasias sensuais? Tentou imaginar uma mulher nua? Como

se comporta à noite, na cama? Algum dia você já se apalpou? Já se acariciou? O que você faz de manhã, quando se levanta? Tem ereção? Já tentou olhar os outros meninos quando eles estão trocando de roupa? Ou na hora do banho?

Orientado por essas perguntas, o menino que não sabia nada logo aprendia o que era esperado dele. Os que sabiam sentiam prazer em contar cada detalhe de suas emoções e de seus sonhos. Certo menino sonhava todas as noites. Não sabia como eram as mulheres, como eram feitas. Mas tinha visto os índios fazerem amor com vicunhas, animais que se parecem com um mimoso veado. E sonhava que fazia amor com vicunhas, e acordava todo molhado manhã após manhã. O velho padre encorajava essas confissões. Impunha estranhas penitências. A um garoto que se masturbava continuamente mandou que fosse à capela com ele, quando ninguém mais estava presente, e mergulhasse o pênis na água benta, para assim ser purificado.

Tal cerimônia foi realizada com grande sigilo, a noite.

Um dos meninos parecia um príncipe mouro com seu rosto escuro, feições nobres, porte aristocrático e um belo corpo tão macio que não aparecia um único osso, esbelto e polido como uma estátua. Esse menino se rebelava contra o uso de camisas de dormir. Estava acostumado a dormir nu e o camisolão o afrontava, o abafava. Assim, todas as noites ele se vestia como os companheiros e depois se despia às escondidas, sob as cobertas.

Não se passava uma noite sem que o velho jesuíta fizesse suas rondas, cuidando para que nenhum menino visitasse outro na cama, ou se masturbasse, ou ficasse conversando com o vizinho no escuro. Quando chegava à cama do indisciplinado, erguia sua coberta lenta e cautelosamente para olhar seu corpo nu. Se o garoto acordava, ele o recriminava:

— Vim ver se você estava dormindo de novo sem seu camisolão!

Mas se ele não acordava, o velho jesuíta se contentava em dirigir um longo olhar ao jovem e belo corpo.

Um dia, durante uma aula de anatomia, quando ele estava no tablado dos professores e o garoto louro que parecia uma menina se encontrava bem à

sua frente, a protuberância que havia por baixo da batina se tornou evidente aos olhos de todos.

Ele perguntou ao menino louro:

— Quantos ossos o homem tem no corpo?

O garoto respondeu meigamente:

— Duzentos e oito.

Outra voz infantil veio do fundo da sala:

— Mas o padre Dobo tem duzentos e nove!

Foi logo após esse incidente que os meninos foram levados a uma excursão botânica. Dez deles se perderam. Entre eles se encontrava o garoto louro. Eles foram parar em uma floresta, bem longe dos professores e do resto dos colegas. Sentaram-se para descansar e decidir que linha de ação deveriam tomar. Começaram a comer amoras. Como iniciou, ninguém soube, mas depois de algum tempo o menino louro foi jogado ao chão, despido, virado de bruços e os outros nove meninos passaram por cima dele, tratando-o como o fariam com uma prostituta, brutalmente. Os garotos experimentados meteram em seu ânus a fim de satisfazer seu desejo, enquanto os menos experientes se esfregaram em suas pernas, cuja pele era tão fina quanto a de uma mulher. Cuspiram nas mãos e esfregaram saliva nos pênis. O menino louro gritou, esperneou e chorou, mas os outros o seguraram e o usaram até que se saciaram.

O anel

>No Peru os índios têm o costume de trocar anéis quando ficam noivos, anéis esses cuja posse é antiga na família. As vezes muitos deles têm a forma de uma corrente.

>Um índio muito bonito apaixonou-se por uma peruana descendente de espanhóis, mas houve violenta oposição da parte da família da moça. Os índios eram considerados preguiçosos e degenerados e se dizia que geravam crianças fracas e instáveis, particularmente quando desposavam filhos de espanhóis.

>Apesar da oposição, os dois jovens realizaram a cerimônia de noivado entre os amigos. O pai da moça apareceu durante a festa e disse que, se um dia encontrasse o índio usando o anel que a filha já lhe dera, o arrancaria do modo mais brutal possível, cortando-lhe o dedo, se necessário. O incidente estragou a festa. Todos foram para casa, e o jovem casal se separou com promessas de se ver secretamente.

>Encontraram-se uma noite, após muitas dificuldades, e beijaram-se com ardor por longo tempo. A moça ficou excitada com os beijos do noivo. Ela estava pronta para se entregar, pois achava que aquele poderia ser o último instante deles juntos, visto que a cólera de seu pai crescia mais a cada dia. Mas o índio estava determinado a desposá-la, disposto a não possuí-la em segredo. Então ela notou que ele não trazia no dedo o anel que lhe dera. Seus olhos o interrogaram. Ele lhe disse ao ouvido:

— >Estou usando o anel, mas não onde possa ser visto, em um lugar onde ele me impedirá de possuí-la ou a qualquer outra mulher antes do casamento.

— >Não compreendo — disse a moça. — Onde está o anel?

>Ele pegou sua mão e colocou-a em um certo lugar, entre suas pernas. Primeiro, os dedos dela sentiram seu pênis, mas ele os guiou até que tocassem no anel, que estava enfiado na base do membro. Ao toque da mão da jovem, contudo, o pênis intumesceu e ele gritou em razão da dor terrível

provocada pelo anel que entrara em sua carne.

>A moça quase desmaiou, horrorizada. Era como se ele quisesse matar o desejo que sentia. Ao mesmo tempo, a idéia do pênis dele preso pelo seu anel a despertou sexualmente, e seu corpo ficou morno e sensível a toda sorte de fantasias eróticas.

>Continuou a beijá-lo, mas ele suplicou que não o fizesse, porque aquilo lhe trazia uma dor cada vez maior.

>Poucos dias depois, o índio se viu novamente em uma situação desesperadora, mas não conseguiu tirar o anel. Foi preciso chamar o médico, e o anel teve de ser serrado.

>A moça procurou-o e se ofereceu para fugir com ele. Ele concordou com ela. Montaram em dois cavalos e viajaram a noite inteira até uma aldeia próxima. Ele a escondeu em um quarto e saiu para arranjar trabalho em uma hacienda. Ela não saiu do quarto enquanto seu pai não se cansou de procurá-la. O rapaz que trabalhava como vigia noturno da cidadezinha era a única pessoa a ter conhecimento de sua presença. Ele tinha ajudado a escondê-la. De sua janela, a moça podia vê-lo caminhando de um lado para o outro, carregando as chaves das casas e gritando:

— >A noite está tranqüila e tudo está bem na aldeia.

>Quando alguém chegava em casa tarde da noite, batia palmas e chamava o vigia. Então ele abria a porta da casa dessa pessoa. Enquanto o índio estava fora, trabalhando, o vigia e a mulher tagarelavam inocentemente.

>Ele lhe falou sobre o crime que ocorrera recentemente na aldeia: os índios que deixavam a montanha e seu trabalho nas haciendas e desciam para a selva se tornavam selvagens e animalescos. Suas feições nobres adquiriam traços de bestial brutalidade.

Essa transformação ocorrera havia pouco tempo com um índio que fora o homem mais bonito da aldeia, um rapaz gracioso, quieto, com um humor estranho e reservada sensualidade. Ele descera para a floresta e se dedicara à caça. Depois retornou cheio de saudade, pobre e sem ter onde morar. Ninguém o reconheceu ou se lembrou dele.

>Um dia ele pegou uma menininha na estrada e cortou suas partes íntimas com uma faca comprida usada para retirar a pele de animais. Não a violou, mas pegou a faca e a enfiou em seu sexo. Toda a aldeia ficou tumultuada. Não podiam decidir como puni-lo. Então resolveram reviver um velho costume indígena. Ele seria açoitado até morrer. E colocariam em suas feridas cera misturada com um forte ácido que os índios conheciam, a fim de aumentar a dor.

>Enquanto o vigia contava essa história, o índio voltava do trabalho. De longe, viu a mulher à janela, olhando para o vigia. Ao chegar, obrigou-a a ir correndo para o quarto e apareceu diante dela com os cabelos negros caindo em torno do rosto, os olhos faiscantes de ódio e ciúme. Começou a amaldiçoá-la e a torturá-la com dúvidas e perguntas.

>Desde o acidente com o anel, seu pênis ficara muito sensível. O ato sexual era acompanhado de dor, e por isso ele não podia deliciar-se com a freqüência que desejava. Seu pênis inchava e ficava dolorido durante alguns dias. Ele estava sempre com medo de não satisfazer a esposa e de que, por essa razão, ela procurasse outro. Quando viu o vigia conversando com ela, ficou certo de que ambos estavam tendo um caso às escondidas. Teve vontade de machucá-la, de fazê-la sofrer tanto quanto ele tinha sofrido por sua causa. Forçou-a a descer ao porão, onde o vinho era guardado em barris.

>Amarrou uma corda a uma das vigas do teto. A mulher pensou que fosse ser espancada. Não podia entender por que ele estava preparando uma espécie de roldana. Então ele amarrou suas mãos e se pôs a puxá-la pela corda, que havia passado na viga, de modo que seu corpo foi levantado no ar, com todo o peso sustentado pelos pulsos, causando-lhe imensa dor. Ela chorou e jurou que lhe tinha sido fiel, mas ele estava como louco. Quando ela desmaiou, enquanto a corda era puxada novamente, ele se deu conta do que estava fazendo. Colocou-a no chão e começou a abraçá-la e a acariciá-la. Ela abriu os olhos e sorriu.

>Ele se sentiu tomado de desejo por ela e atirou-se sobre seu corpo. Pensou que fosse encontrar resistência, que depois de toda aquela dor ela tivesse ficado com raiva. Mas não houve qualquer oposição. Ao contrário, ela continuou a sorrir. E quando ele tocou em seu sexo, descobriu que estava úmido. Ele possuiu-a com fúria e ela correspondeu com a mesma

exaltação. Foi a melhor noite que os dois jamais tiveram, deitados ali no chão frio da adega escura.

Maiorca

Eu estava passando o verão em Deya, na ilha de Maiorca, em um local próximo ao mosteiro onde se hospedaram George Sand e Chopin. De manhã cedo montávamos em pequenos jumentos para descer as estradas que davam acesso ao mar. A viagem tomava cerca de uma hora por trilhas de terra vermelha, pedras, perigosos blocos de rochas, por entre as oliveiras cor de prata até as aldeias de pescadores com seus casebres construídos ao sopé das montanhas.

Todos os dias eu descia até uma enseada onde a água do mar era tão transparente que se podia ver os recifes de coral e a insólita vegetação no fundo.

Uma estranha história a respeito daquele lugar nos foi contada pelos pescadores. As mulheres de Maiorca eram inacessíveis, puritanas e muito religiosas. Só iam nadar com os maiôs de saiote comprido e as meias pretas de antigamente.

A maioria delas não gostava de nadar e deixava isso para as européias sem-vergonhas que passavam o verão na ilha. Os pescadores também condenavam os trajes de banho modernos e o comportamento obsceno das européias. Viam-nas como nudistas que aguardavam apenas uma oportunidade qualquer para tirar toda a roupa e se deitar nuas ao sol, como pagãs. Desaprovavam também os banhos da meia-noite inventados pelos americanos.

Uma certa noite, há alguns anos, a filha de um pescador, moça de dezoito anos, estava caminhando ao longo da orla do mar, pulando de pedra em pedra, com o vestido branco grudado no corpo. Andando e sonhando, observando o efeito do luar na água, ela acabou por chegar a uma pequena enseada escondida e notou que havia uma pessoa nadando. Só conseguia ver uma cabeça e, ocasionalmente, um braço. Quem quer que estivesse nadando estava muito longe. Ouviu então uma voz suave chamando-a.

— Venha nadar. Está ótimo.

As palavras tinham sido ditas em espanhol, com sotaque estrangeiro.

— Olá, María — cumprimentou a estranha, que parecia conhecê-la. Devia ser uma das muitas moças americanas que iam tomar banho de mar ali durante o dia.

— Quem é você? — quis saber María.

— Sou Evelyn — respondeu a moça. — Venha nadar comigo!

O convite era tentador. Seria fácil tirar o vestido branco e ficar só com a combinação curta. María olhou para todos os lados. Não havia ninguém por perto. O mar estava calmo e salpicado de luar. Pela primeira vez María compreendeu o amor dos europeus pelo banho da meia-noite. Tirou o vestido. Tinha longos cabelos negros, o rosto pálido, olhos verdes bem grandes e mais verdes que o mar. Seu porte era magnífico, com os seios altos, pernas compridas, verdadeiramente elegante. Sabia que era capaz de nadar melhor que qualquer outra mulher da ilha. Mergulhou e nadou na direção de Evelyn com braçadas fortes e graciosas.

Evelyn mergulhou para ir ao seu encontro e lhe segurou as pernas. Dentro d'água, as duas se puseram a brincar. A semi-escuridão e a touca de banho tornavam difícil que uma visse o rosto da outra claramente. A voz das moças americanas se assemelhava à de rapazes.

Evelyn lutou com María, abraçou-a sob a água. Quando subiram para respirar estavam rindo, e ficaram nadando para trás e para a frente, despreocupadas. A combinação de María flutuava em torno de seus ombros e lhe atrapalhava os movimentos; finalmente saiu e deixou-a nua. Evelyn nadou por baixo dela e a segurou, lutando e passando por entre suas pernas.

Depois foi a vez de Evelyn abrir as pernas para que a amiga pudesse mergulhar e passar por baixo, reaparecendo do lado oposto. Ela flutuava e deixava María nadar por baixo de suas costas arqueadas.

María viu que a americana também estava nua. De repente, sentiu Evelyn abraçando-a pelas costas, cobrindo todo o seu corpo com o dela. A água estava morna e era tão salgada que as sustentava, ajudando-as a flutuar e a nadar sem esforço.

— Você é linda, María — disse a voz grave, e Evelyn a envolveu com seus braços. María quis se afastar, mas ficou presa pela tepidez da água, pelo contato constante do corpo da amiga. Deixou-se abraçar. Não sentia os seios da outra, mas sabia que as jovens americanas geralmente não tinham seios. María sentiu-se lânguida e quis fechar os olhos.

Subitamente, o que sentiu entre as pernas não era uma mão e sim algo bem diferente; fora tão inesperado e perturbador, que gritou. Não era Evelyn, e sim um rapaz, o irmão mais novo da moça, que colocara seu pênis ereto entre as pernas dela.

María gritou mas ninguém ouviu, e seu grito foi apenas algo que se esperava da parte dela. Na realidade, o abraço dele era tão quente e carinhoso quanto a água. O mar, o pênis e as mãos dele conspiraram para estimular seu corpo. Ela tentou fugir, mas o rapaz nadou por sob seu corpo, acariciou-a, segurou suas pernas, e por fim montou de novo em suas costas.

Os dois lutaram, mas cada movimento servia apenas para excitá-la ainda mais, para torná-la consciente do corpo dele de encontro ao seu, de suas mãos sobre ela. A água agitava seus seios para a frente e para trás, como dois pesados nenúfares.

Ele beijou seus seios. Com o movimento constante não era possível penetrá-la, mas seu pênis tocava vezes sem conta a parte mais vulnerável de seu sexo, e María sentiu que estava perdendo as forças. Nadou para a praia e o rapaz a seguiu. Os dois caíram na areia. As ondas quebravam sobre eles; ambos ficaram algum tempo ofegantes, sem se mexer. Então o rapaz possuiu a moça e o mar veio e os alcançou, lavando o sangue da virgem.

Daquela noite em diante, o irmão de Evelyn e María passaram a se encontrar somente àquela hora. Ele a possuía na água, balançando, flutuando. A ondulação de seus corpos quando desfrutavam um ao outro parecia fazer parte do mar.

Descobriram uma posição segura na base de um rochedo e ali ficavam, acariciados pelas ondas, trêmulos em razão de seus orgasmos.

Quando eu ia à praia à noite, imaginava sempre que seria capaz de vê-los

nadando, fazendo amor.

Artistas e modelos

Uma certa manhã fui chamada a um estúdio em Greenwich Village, onde um escultor estava começando a trabalhar em uma estatueta. O nome dele era Millard. Já tinha uma primeira versão da figura que queria e atingira o estágio em que precisava de um modelo.

A estatueta era de uma mulher com um vestido colante, e seu corpo aparecia em cada linha ou curva. O escultor me pediu que eu me despisse porque de outra forma seria impossível trabalhar. Como parecia totalmente absorto ante a estatueta e como me olhasse de forma tão distraída, fui capaz de ficar nua e fazer a pose desejada sem qualquer hesitação. Embora eu fosse bem inocente naquele tempo, ele me fez sentir como se meu corpo não fosse diferente de meu rosto, como se eu e a estatueta fôssemos a mesma coisa.

Enquanto Millard trabalhava, falava sobre os tempos em que vivera em Montparnasse, e assim o tempo passava depressa. Eu não sabia se suas histórias visavam a excitar minha imaginação, mas ele não dava sinais de estar interessado em mim. Sentia prazer em recriar a atmosfera de Montparnasse. Eis uma das histórias que ele me contou:

"A mulher de um certo pintor moderno era ninfomaníaca". Acredito que fosse tuberculosa. Seu rosto era branco como cera, os ardentes olhos negros eram fundos e as pálpebras estavam sempre pintadas de verde. Procurava realçar o corpo voluptuoso com vestidos de cetim negro. Sua cintura era estreita em comparação ao resto. Em torno da cintura ela usava um cinturão grego, de prata, cravejado de pedras, que teria aproximadamente doze centímetros de largura; era fascinante. Parecia o cinturão de uma escrava. Podia-se sentir que no fundo ela era uma escrava — de seu apetite sexual. Que bastava agarrá-la pelo cinturão e abri-lo para que ela caísse nos braços de qualquer um. Algo muito semelhante ao cinto de castidade existente no Musée Cluny, que se dizia que os cruzados punham nas mulheres: um cinto de prata muito largo e com um apêndice que cobria o sexo e que era trancado pelo tempo que durassem as cruzadas. Por falar nisso, alguém me contou uma história deliciosa a respeito de um cruzado que pusera o cinto de castidade na mulher e

deixara a chave com seu melhor amigo, caso morresse. Mal tinha cavalgado umas poucas milhas quando o amigo foi galopando furiosamente atrás dele, gritando:

— 'Você me deu a chave errada!'

Tais eram os sentimentos que o cinturão de Louise inspirava em todos. Quando a víamos chegar a um café, examinar a todos nós com seus olhos famintos, procurando uma reação, um convite para que se sentasse, sabíamos que estava caçando.

Seu marido não podia ignorar tudo. Era uma figura digna de pena, sempre procurando por ela, sendo informado pelos amigos de que a mulher estava em um ou outro café; quando chegava a encontrá-la, ela já tivera tempo para se esconder em um hotel com alguém. Então todos tentavam fazê-la saber onde o marido a procurava. Por fim, em completo desespero, o marido começara a implorar que seus melhores amigos ficassem com ela para que pelo menos não caísse em mãos estranhas.

Ele tinha pavor de estrangeiros, em particular de sul-americanos, de negros e de cubanos. Ouvira falar do extraordinário vigor sexual dessa gente e achava que se a mulher caísse nas mãos de um deles jamais retornaria a casa. Contudo, depois de ter dormido com todos os seus melhores amigos, Louise acabou mesmo por conhecer um dos estrangeiros que ele tanto temia.

Era um cubano, um tremendo mulato, extraordinariamente belo, de cabelos compridos e lisos como os de um indiano e de feições nobres e másculas. Quando ele encontrava uma mulher que desejava, desaparecia com ela por dois ou três dias, trancado em um quarto de hotel, e não reaparecia enquanto os dois não estivessem saciados. Acreditava que vivendo tal orgia com uma única mulher nenhum dos dois jamais ia querer ver o outro de novo. Quando tudo terminava, ele era visto de novo no café, conversando brilhantemente. Era também um notável pintor de afrescos.

Quando ele e Louise se encontraram, saíram juntos de imediato. Antonio viu-se fortemente fascinado pela brancura da pele de Louise, pela abundância de seus seios, pela sua cintura estreita, pelos seus bastos cabelos louros compridos e lisos. E ela se viu fascinada pela sua cabeça e pelo seu corpo poderoso, pela graça de seus músculos atléticos. Tudo o

fazia rir. Era como se nada mais existisse no mundo senão aquela orgia sexual que ele estava prestes a viver, como se não houvesse futuro ou encontros com quaisquer outras pessoas — somente aquele quarto, aquela tarde, aquela cama.

Quando Louise se deteve ao lado da grande cama de ferro, esperando, ele disse:

— Fique com o cinturão.

E começou calmamente a rasgar a roupa dela ao redor do cinto. Devagar, e sem o menor esforço, Antonio transformou tudo em tiras, como se a roupa fosse feita de papel. Louise tremia, vendo a força de suas mãos. Por fim deixou-a nua, mas ainda com o pesado cinturão de prata. Ele soltou-lhe os cabelos que caíram sobre seus ombros. E foi só então que a jogou de costas na cama e a beijou interminavelmente, as mãos sobre seus seios. Ela sentia a dor provocada tanto pelo peso do cinturão quanto pelas mãos dele, que apertavam com força sua carne nua. O desejo deixou-a louca, cega. Era tão urgente que não podia esperar. Mas Antonio ignorou seus gestos de impaciência. Não só continuou a beijá-la, como se estivesse bebendo toda a sua boca, sua língua, seu fôlego, tudo, com a enorme boca escura, como também as mãos dele a maltratavam cada vez mais, entrando fundo em sua carne, deixando marcas e dores em toda parte. Ela estava úmida e trêmula; abria as pernas e tentava cavalgar por cima dele. Procurou abrir as calças de Antonio.

— Há tempo — disse ele. — Há muito tempo. Vamos ficar neste quarto por alguns dias. Há muito tempo para nós dois.

Antonio então virou-se e se despiu. Seu corpo escuro tinha tons de dourado; a pele era muito lisa, e o pênis, de pele tão macia quanto o resto do corpo, era grande e firme como um lustroso bastão de madeira. Louise caiu sobre ele e tomou-o em sua boca. Os dedos de Antonio andavam por toda parte, dentro de seu anus, de seu sexo; a língua dele entrava em sua boca, em suas orelhas. Mordeu-lhe o bico dos seios, beijou e mordeu seu ventre. Louise tentou satisfazer-se esfregando-se de encontro à sua perna, mas Antonio não deixou. Ele a empurrava como se ela fosse feita de borracha, fazia-a assumir todas as posições. Com suas mãos poderosas, Antonio apanhava qualquer parte de seu corpo que desejasse e a trazia à

boca como se fosse um bocado de comida, sem se importar com o medo como o resto do corpo de Louise caía no espaço. Foi exatamente assim que ergueu sua bunda para beijar e morder. Ela suplicava:

— Vem, Antonio, vem que não agüento mais!

Mas ele não a atendia.

Chegou o instante em que o desejo que havia no interior de seu ventre a consumia como um fogo selvagem. Pensou que fosse enlouquecer. Tudo o que tentava para atingir o orgasmo, ele impedia. Mesmo quando um beijo seu demorava demais, ele o interrompia. O cinturão tilintava sempre que ela se mexia, como a corrente de um escravo. E na verdade ela não passava de uma escrava daquele enorme mulato. Ele era seu rei. O prazer dela era subordinado ao dele. Louise percebeu que nada poderia fazer contra sua força e sua vontade. Antonio exigia submissão. O desejo dela morreu de pura exaustão.

Toda a tensão abandonou seu corpo. Ela ficou mole como algodão. E foi nesse algodão que ele continuou a trabalhar com maior prazer ainda. Aquele corpo quebrado, ofegante, maleável, que ficava cada vez mais macio sob suas mãos, era de sua exclusiva propriedade. Suas mãos pesquisaram cada recanto do corpo de Louise, sem esquecer nada, massageando, amassando a carne segundo sua fantasia, retorcendo-a para junto da boca, para marcá-la com os dentes brancos e grandes.

Pela primeira vez o desejo que sempre estivera à superfície da pele de Louise como uma irritação recuou para uma parte mais profunda de seu corpo. Recuou e foi se acumulando, transformando-se em um núcleo de fogo que para explodir aguardava a ocasião e o ritmo que Antonio determinaria. Enquanto isso, executavam como que uma dança, com os dois corpos se virando e transformando-se em novos arranjos, novos desenhos. Ora estavam grudados, o pênis dele de encontro à sua bunda, os seios vibrando como ondas do mar sob suas mãos, penosamente despertos, conscientes, sensíveis. Em outro instante, quando ele estava deitado sobre ela, esmagando sua barriga como um imenso leão, Louise enfiou os dois pulsos por baixo da própria cintura procurando erguer-se para o pênis dele. Só então Antonio a penetrou pela primeira vez e a encheu como nenhum outro homem jamais havia feito, tocando as profundezas de seu

ventre.

O mel estava pingando do interior de Louise. Quando Antonio introduziu o pênis dentro dela, fez algum ruído — todo o ar estava sendo expulso de seu ventre por aquele pênis que a satisfazia de modo tão completo, entrando e saindo interminavelmente, tocando a porta de seu útero. Mas assim que a respiração dela ficava mais acelerada, Antonio se retirava por completo e dava início a outro tipo de carícia. Deitava-se de costas na cama, as pernas abertas, o pênis ereto, e a fazia sentar-se sobre ele, engolindo-o por completo, de forma que os pêlos púbicos de ambos se confundissem. Quando Antonio a segurava, fazia-a dançar à volta de seu pênis. Louise caía sobre ele e esfregava os seios em seu tórax, procurava sua boca e depois recomeçava os movimentos junto do pênis. As vezes se erguia só um pouco, de forma a deixar apenas a cabeça do pênis dentro de seu sexo e se movia devagar, o suficiente apenas para conserva-lo em seu interior, tocando os lábios de sua vagina que apertavam o pênis como se fossem os lábios de sua boca. De repente, ela se deixava cair, engolfando o pênis todo e soluçando de alegria, para logo depois procurar sua boca de novo. As mãos de Antonio permaneciam o tempo todo em sua bunda, segurando-a para controlar seus movimentos e impedir que de repente os acelerasse para gozar.

Por fim, Antonio a tirou de cima da cama e a colocou de quatro no chão.

— Mexa-se — disse-lhe. Louise obedeceu e pôs-se a engatinhar pelo quarto semicoberta pelos longos cabelos louros, o cinturão forçando-lhe a cintura para baixo. Então ele ajoelhou-se atrás dela e inseriu seu pênis, o corpo todo sobre o de Louise, engatinhando também sobre os joelhos fortes e os braços compridos. Depois de ter ficado satisfeito, Antonio enfiou a cabeça por baixo dela para poder sugar seus seios abundantes, como se ela fosse um animal, segurando-a com as mãos e a boca. Quando ambos estavam ofegantes e se retorcendo, ele a ergueu e a carregou para a cama, pondo as pernas dela sobre os ombros. Possuiu-a então com violência e os dois se sacudiram e tremeram quando gozaram juntos. Louise sentiu-se como se estivesse se dissolvendo e soluçou histericamente. O orgasmo fora tão forte que ela pensara que fosse enlouquecer, com uma paixão e uma alegria que jamais conhecera. Antonio estava sorrindo, ainda ofegante. Logo depois, ele e Louise viraram para o lado e dormiram."

No dia seguinte, Miilard me contou a história de Mafouka, a mulher-homem de Montparnasse:

"Ninguém sabia exatamente o que ela era. Vestia-se como homem. Era baixa, magra e não tinha seios. Usava os cabelos curtos, lisos. Tinha o rosto de um rapaz. Jogava bilhar como um homem. Bebia como um homem, com o pé na balaustrada do bar. Contava histórias obscenas como um homem. O traço de seus desenhos tinha uma força que não se encontra nos trabalhos feitos por mulher. Mas seu nome tinha um som feminino, seu andar era feminino e se dizia que não tinha pênis. Os homens não sabiam como tratá- la. As vezes davam tapinhas em suas costas, animados de sentimentos fraternais.

Ela morava com duas garotas em um estúdio. Uma era modelo; a outra, cantora de um clube noturno. Mas ninguém sabia qual era o relacionamento que havia entre elas. As duas garotas se tratavam como marido e mulher. Que papel desempenharia ali Mafouka? Nenhuma das três jamais respondia a qualquer pergunta. Montparnasse sempre gostava de saber dessas coisas com detalhes. Uns poucos homossexuais, atraídos por Mafouka, tinham procurado chegar-se a ela, mas todos foram repelidos. Mafouka discutia violentamente e golpeava com força.

Um dia eu estava um tanto bêbado e passei no estúdio dela. A porta estava aberta. Quando entrei, ouvi risadinhas no andar superior, uma espécie de jirau. Era evidente que as duas garotas estavam fazendo amor. As vozes ficavam mais ternas e mais baixas, depois violentas e ininteligíveis, transformavam-se em gemidos e sussurros. De vez em quando o silêncio era completo.

Mafouka apareceu e me encontrou prestando atenção. Pedi-lhe que me deixasse ir ver.

— Não me importo — disse ela. — Siga-me, sem fazer ruído. Elas não param se pensarem que estou sozinha. Gostam de que eu as veja.

Subimos as escadas estreitas. Mafouka exclamou:

— Sou eu.

Os sussurros não foram interrompidos. Quando chegamos, inclinei-me para

que elas não pudessem me ver. Mafouka aproximou-se da cama. As duas garotas estavam nuas. Pressionavam o corpo um contra o outro e se esfregavam. Aquilo lhes dava prazer. Mafouka inclinou-se e acariciou-as. Elas disseram:

— Venha, Mafouka, deite-se conosco.

Mas Mafouka as deixou e levou-me de novo para baixo. Mafouka — perguntei —, o que você é? Homem ou mulher? Por que mora com essas garotas? Se você é homem, por que não tem uma mulher só sua? E se é mulher, por que de vez em quando não arranja um homem?

Mafouka sorriu para mim.

— Todo mundo quer saber. Todos acham que não sou homem. As mulheres sentem isso. Os homens não sabem ao certo.

O que sou pode ser resumido em uma palavra: artista.

— O que você quer dizer com isso?

— Que, como muitos artistas, sou bissexual.

— Sim, mas a bissexualidade dos artistas está em sua natureza. Você pode ser homem com natureza feminina, mas não com um físico tão equívoco como o seu.

— Meu corpo é hermafrodita.

— Oh, Mafouka, deixe-me ver seu corpo.

— Você não fará amor comigo?

— Prometo que não.

Primeiro ela tirou a camisa e mostrou o torso de um jovem rapaz. Não tinha seios, apenas os mamilos, como um homem.

Depois baixou as calças compridas. Estava usando calcinhas de mulher, cor-de-carne, enfeitadas com renda. Tinha as pernas e as coxas lindamente torneadas, cheias. Estava com meias femininas e ligas. Pedi-lhe:

— Deixe-me tirar as ligas. Adoro ligas.

Ela estendeu a perna com elegância, com o gesto de uma bailarina. Rolei a liga perna abaixo lentamente. Fiquei com seu pé delicado e gracioso na mão. Ergui os olhos para as pernas, que eram perfeitas. Baixei a meia e vi uma pele de mulher, bonita e suave. Seus pés eram delicados e estavam bem tratados, as unhas pintadas de esmalte vermelho. Eu ia ficando mais e mais intrigado. Acariciei sua perna. Ela disse:

— Você prometeu que não iria fazer amor comigo.

Ergui-me. Então ela arriou as calcinhas. E eu vi, por baixo de seus delicados e cacheados pêlos púbicos, que tinham a forma triangular dos pêlos das mulheres, que ela possuía um pequenino pênis atrofiado, como o de um menino. Olhei diretamente para o rosto dela — ou dele, como achava que deveria dizer.

— Por que você adota um nome de mulher, Mafouka? Na verdade, você e um menino, exceto pela forma das pernas e dos braços.

Mafouka deu então uma risada, dessa vez bem feminina, e disse:

— Venha ver.

Ela se deitou no sofá, abriu as pernas e me mostrou uma perfeita vulva, rósea e macia, por sob o pênis.

— Mafouka!

Senti-me excitado. Era o mais estranho dos desejos. Desejava possuir alguém que fosse ao mesmo tempo homem e mulher. Ela percebeu meu estado e sentou-se. Tentei conquistá-la com uma carícia, mas ela fugiu de mim.

— Você não gosta de homens? — perguntei-lhe. — Nunca fez amor com um homem?

— Sou virgem. Não gosto de homens. Só sinto desejo por mulheres, mas não tenho como possuí-las. Meu pênis é como o de uma criança pequena, não posso ter uma ereção.

— Você é uma verdadeira hermafrodita, Mafouka — disse eu. — Isso é o que a época de hoje parece ter produzido, porque a tensão entre o masculino e o feminino se quebrou. Mais que nunca as pessoas se compôem das duas metades. Porém eu nunca tinha visto isso antes, de modo real, físico. Ser hermafrodita deve torná-la muito infeliz. Você é feliz com as mulheres?

— Sinto atração pelas mulheres, mas na verdade sofro com isso, porque não posso fazer amor com elas, como um homem, e também porque quando elas me aceitam como lésbica não me sinto satisfeita. Mas não me sinto atraída pelos homens. Apaixonei-me por Matilda, a modelo. No entanto, não fui capaz de retê-la. Ela encontrou uma verdadeira lésbica, a quem pensa que pode satisfazer. Meu pênis sempre lhe dá a sensação de que não sou uma lésbica de verdade. E ela sabe que não tem poder sobre mim, muito embora eu tivesse sido atraída pela sua beleza. Assim, as duas formaram uma outra ligação, só delas. Fico entre ambas, perpetuamente insatisfeita. Por outro lado, também não gosto da companhia das mulheres. São mesquinhas e personalistas. Só se preocupam com seus mistérios e segredos, representam e fingem. Gosto mais do caráter dos homens.

— Pobre Mafouka.

— Pobre Mafouka. Sim, quando nasci não sabiam que nome me dar. Nasci em uma pequena aldeia da Rússia. Pensaram que eu era um monstro e que talvez devesse ser destruída para o meu próprio bem. Quando vim para Paris, sofri menos. Descobri que era uma boa artista.

Sempre que saía do estúdio do escultor, eu parava em um café das proximidades e ponderava a respeito de tudo o que Millard me contara. Perguntava-me se algo parecido com aquilo tudo não estaria ocorrendo comigo, em Greenwich Village.

Começava a gostar de posar, pelo aspecto de aventura que isso implicava. Assim, decidi comparecer a uma festa, em uma noite de sábado, a que fora convidada por um pintor chamado Brown. Sentia-me ansiosa e cheia de curiosidade por tudo.

Aluguei um vestido de noite no departamento de costumes do Art Model Club, sem esquecer da capa e dos sapatos.

Duas modelos me acompanharam: Molhe, uma ruiva, e Ethel, que com seu corpo de estátua era a favorita dos escultores.

As histórias da vida em Montparnasse, que me tinham sido contadas pelo escultor, não saíam de minha cabeça, e pude sentir isso perfeitamente quando entrei no local da festa. Meu primeiro desapontamento foi ver que o estúdio era muito pobre; os dois sofás não tinham almofadas, a iluminação era forte. Não havia, enfim, nenhum dos enfeites que eu imaginava necessários a uma festa.

As garrafas estavam espalhadas pelo chão, ao lado de copos e de potes com tira-gostos. Uma escada dava para o jirau onde Brown guardava suas pinturas. Uma cortina transparente não chegava a ocultar o lavabo e um fogãozinho a gás. A frente do aposento havia uma pintura erótica de uma mulher sendo possuída por dois homens. Ela estava fora de si, com o corpo arqueado, os olhos esgazeados. Os dois homens a cobriam, um com o pênis dentro dela, o outro com o pênis enfiado em sua boca. O quadro era de tamanho natural e sua crueza era animalesca. Todos o contemplavam, admirando-o. Fiquei fascinada. Era a primeira pintura daquele tipo que eu via, e produzia em mim um tremendo choque das mais diversas emoções.

Ao lado desse quadro havia um outro que achei ainda mais perturbador. Mostrava um quarto pobremente decorado, onde se destacava uma enorme cama de ferro. Sentado na cama, um homem de pouco mais de quarenta anos, com a barba por fazer, a boca flácida, as pálpebras meio caídas, uma expressão completamente degenerada. Suas calças estavam semi-abaixadas, e sentada sobre seus joelhos nus via-se uma menina de saias muito curtas, a quem ele dava uma barra de chocolate. As perninhas nuas dela repousavam sobre as dele, também nuas e cabeludas.

O que senti depois de ter visto aquelas duas pinturas foi o que se sente quando se bebe, uma tonteira súbita, um calor pelo corpo todo, uma total confusão dos sentidos. Algo novo desperta dentro do corpo, uma sensação nova e indefinida, uma ansiedade e uma inquietude diferentes.

Olhei para as outras pessoas. Mas aquela gente tinha visto tantas coisas daquele tipo que não se deixava afetar como eu.

Riam e comentavam.

Uma modelo estava contando suas experiências em uma loja de roupas de baixo:

Resolvi atender a um anúncio em que se pedia um modelo para posar com roupa íntima. Já tinha feito isso muitas vezes antes e o pagamento era o normal: um dólar por hora. Geralmente diversos desenhistas trabalhavam comigo ao mesmo tempo e havia muitas pessoas por perto — secretárias, estenógrafas, rapazes destinados a executar pequenos serviços. Mas dessa vez o lugar estava vazio. Era tão-somente um escritório com uma escrivaninha, arquivos e material de desenho. Havia um homem à minha espera, sentado a sua prancheta. Havia também uma pilha de lingerie e um biombo para se trocar de roupa. Comecei vestindo uma combinação. Posava por quinze minutos de cada vez, enquanto ele fazia seus desenhos.

Trabalhávamos em silêncio. Quando ele dava o sinal, eu ia para trás do biombo e trocava de roupa. Toda a roupa, por sinal, era da mais alta qualidade e muito bonita, quase sempre com acabamento de renda e finos bordados. Usei um conjunto de calças e sutiãs. O homem fumava e desenhava. No final da pilha havia um conjunto de calças e sutiã totalmente de renda negra. Como eu já posara nua diversas vezes, não me incomodei por vestir aquilo. Eram duas peças muito bonitas.

O tempo todo eu olhava pela janela, e não para o desenhista. Uma certa hora não ouvi mais o barulho do lápis no papel e me virei um pouquinho na direção dele, sem querer mudar minha pose. Vi que ele estava sentado atrás da prancheta com o olhar fixo em mim. Só depois é que percebi que tinha tirado o pênis para fora e que estava em uma espécie de transe.

Achando que aquilo ia me dar problema, já que estávamos sozinhos, dirigi- me para o biombo a fim de me vestir.

— Não vá — disse ele. — Não tocarei em você. Simplesmente eu adoro ver uma mulher com uma bonita roupa intima.

— Não sairei daqui. E se você quiser que eu lhe pague mais, tudo o que tem a fazer é usar minhas peças favoritas e posar por quinze minutos. Eu lhe darei mais cinco dólares. Se quiser, você mesma pode apanhar a roupa de que falei. Está bem acima de sua cabeça, na prateleira.

Bem, resolvi concordar e apanhei o pacote. Era realmente um conjunto

lindo, de finíssima renda preta, tão fina que lembrava uma teia de aranha. As calcinhas tinham um corte atrás e na frente, e o sutiã deixava aparecer o bico dos seios através de dois triângulos. Hesitei um pouco, receando vir a ser atacada pelo homem se aquilo tudo viesse a excitá-lo demais.

Ele disse:

— Não se preocupe. Na verdade, eu não gosto de mulheres. Nunca toquei em uma mulher. Só gosto de ver. Adoro ver mulheres usando uma roupa de baixo bonita. Se eu tentasse tocar em você, ficaria impotente no mesmo instante. Não sairei daqui.

Ele afastou a prancheta e limitou-se a ficar sentado, com o pênis de fora. De vez em quando seu pênis estremecia. Mas ele não saiu da cadeira.

Decidi vestir a tal roupa. Os cinco dólares me tentavam. Ele não era muito forte e achei que eu seria capaz de me defender. Enfiei as calcinhas abertas e de vez em quando me virava para que ele me visse de todos os ângulos.

Então ele disse:

— Chega.

Parecia perturbado, e seu rosto estava congestionado. Mandou que eu me vestisse depressa e me fosse embora. Entregou-me o dinheiro rapidamente, e eu saí. Acho que só estava esperando que eu me fosse para se masturbar.

“Já vi casos assim, de homens que fazem coisas estranhas como roubar o sapato de uma mulher bonita para que possam se masturbar enquanto o seguram e admiram."

Todos riram da história dela.

— Acho — disse Brown — que quando crianças somos mais inclinados a ser fetichistas de um ou outro modo. Lembro-me de me esconder dentro do armário de minha mãe, extasiado com o cheiro e o contato das roupas dela. Ainda hoje não sei resistir a uma mulher que esteja usando um véu, ou um vestido de tule ou também qualquer coisa que tenha plumas,

porque tudo isso desperta as estranhas sensações que eu tinha dentro do corpo.

Enquanto ele estava contando isso, lembrei-me de como me escondi no armário de um rapaz quando tinha apenas treze anos, pelo mesmo motivo. Ele tinha vinte e cinco anos e me tratava como uma menina. Eu estava apaixonada. Sentada a seu lado quando ele nos levava a todos para longos passeios, eu me sentia em êxtase só por ter sua perna junto à minha. A noite, quando eu ia para a cama, apagava a luz e apanhava uma lata de leite condensado em que antes tinha feito um buraquinho.

E ficava sentada no escuro, sugando o leite doce com uma sensação voluptuosa em todo o corpo, que não saberia explicar.

Naquele tempo eu pensava apenas que havia uma certa relação entre estar apaixonada e sugar leite condensado. Muito mais

tarde me lembrei disso quando provei esperma pela primeira vez.

Molhe lembrou que na mesma idade gostava de comer gengibre ao mesmo tempo em que cheirava bolas de cânfora. O gengibre tornava seu corpo morno e lânguido e a cânfora a deixava meio tonta. Conseguia, assim, entrar em uma espécie de transe que durava horas.

Ethel virou-se para mim e disse:

— Espero que você jamais venha a se casar com um homem a quem não ame sexualmente. Pois foi exatamente isso o que me aconteceu. Adoro tudo nele: seu jeito, seu rosto, seu corpo, o modo como trabalha e como me trata, suas idéias, seu jeito de sorrir, de falar, tudo, exceto sua sexualidade. Pensei que também amava isso, antes de nos casarmos. Não há nada de errado nele. É o amante perfeito. É sentimental e romântico, demonstra ser um homem de sentimentos.

— É sensível e adorável.

Ontem à noite, eu já estava meio adormecida quando ele me procurou em minha cama. Como não estava inteiramente desperta, não pude me controlar como geralmente faço, pois não desejo magoá-lo. Ele se meteu do meu lado e começou a fazer amor comigo muito lentamente. Em geral tudo

acaba depressa, o que facilita as coisas para mim. Se possível, nem deixo que ele me beije. Odeio sentir-lhe a boca sobre meus lábios. Geralmente viro o rosto; foi o que fiz ontem. Bem, lá estava meu marido, e o que você pensa que fiz? De repente comecei a bater nele com meus punhos fechados, a enterrar as unhas em sua carne. Mas isso foi interpretado como sendo um sinal de que eu estava gostando, ficando maluca de prazer, e ele prosseguiu.

Em dado momento murmurei, o mais baixo que pude: "Eu odeio você". Logo a seguir perguntei-me se teria sido ouvida. O que pensaria ele? Teria ficado magoado? Bem, tudo terminou; ele ficou sonolento e me deu um beijo de boa-noite antes de voltar para sua cama. Na manhã seguinte, fiquei esperando para ver o que ele iria me dizer. Pensava que talvez tivesse me ouvido dizer que o odiava. Mas não, eu devo ter formado as palavras sem pronunciá-las. Tudo o que ele disse, sorrindo como se tivesse ficado muito satisfeito, foi: "Puxa, você ficou bem maluquinha, ontem, não foi?"

Brown ligou a vitrola e começamos a dançar. Apesar de ter bebido pouco, o álcool me subira à cabeça. Sentia a extensão de todo o universo. Tudo me parecia claro e simples. Era, na verdade, como a encosta gelada de uma montanha onde eu deslizava sem qualquer esforço. Nunca me vira tão amável, parecia que eu conhecia todas aquelas pessoas intimamente. Mas escolhi o mais tímido dos pintores para dançar. Achei que, de certa forma, ele estava fingindo — como eu — estar familiarizado com tudo aquilo. Era capaz de apostar como no fundo ele não se sentia totalmente à vontade. Os outros pintores acariciavam Ethel e Molhe enquanto dançavam. O meu parceiro não se atreveu. Intimamente eu dava gargalhadas por tê-lo descoberto. Brown percebeu que o meu pintor não fazia quaisquer avanços e bateu no ombro dele, passando a ser meu par. Pôs-se a fazer comentários maliciosos sobre virgens, e julguei que estivesse se referindo a mim. Como ele poderia saber? Apertou-me de encontro a ele, mas recuei. Retornei ao pintor tímido.

Uma mulher que trabalhava como ilustradora estava flertando com ele. Achei que ficou contente quando me viu. Voltamos a dançar juntos, refugiando-nos em nossa timidez. Todas as pessoas que se achavam à nossa volta já estavam se beijando.

A ilustradora já tinha tirado a blusa, e dançava só de anágua. O pintor tímido me disse:

— Se ficarmos aqui, daqui a pouco teremos que nos deitar no chão e fazer amor. Você quer sair?

— Sim, quero — respondi.

E assim fizemos. Em vez de tentar me possuir ele se pôs a falar ininterruptamente. Eu o ouvia como se estivesse em transe. Ele tinha uma idéia para um quadro. Queria me pintar como se eu fosse uma mulher do mar, nebulosa, transparente, verde, exceto pela boca e por uma flor muito vermelha. A flor estaria em meus cabelos. Gostaria de posar para ele? Não respondi depressa em razão dos efeitos do álcool, e ele me perguntou, em tom de quem pedia desculpas:

— Você por acaso não estará lamentando o fato de eu não ter sido mais rude?

— Não, não estou lamentando coisa alguma. Escolhi você porque sabia que não seria grosseiro comigo.

— É a minha primeira festa — disse ele, com humildade —e você não e mulher que se possa tratar assim. Como chegou a ser modelo? O que fazia antes? Sei que modelos não precisamser prostitutas, mas na verdade têm que agüentar muitas passadas de mão e investidas.

— Consigo me safar muito bem — retruquei, não gostando da conversa.

— Mesmo assim continuarei a me preocupar com você. Conheço alguns artistas que são objetivos quando trabalham. Sei dessas coisas pela minha própria experiência. Mas há sempre um instante, antes e depois, quando o modelo está se despindo ou se vestindo, em que me sinto perturbado. É a primeira surpresa de ver o corpo. O que você sentiu da primeira vez?

— Absolutamente nada. Foi como se eu já fosse uma pintura. Ou uma estátua. Para mim o meu corpo era como um objeto, um objeto qualquer totalmente impessoal.

Eu estava ficando triste, aborrecida com minha inquietação e meu desejo.

Sentia que nada iria me acontecer. Estava desesperada com a vontade que tinha de ser uma mulher integral, de começar a viver. Por que motivo haveria de ser uma escrava dessa necessidade de primeiro me apaixonar? Onde começaria minha vida? Eu entraria em cada estúdio esperando por um milagre que não ocorreria. Passava ao meu lado uma grande corrente, que me deixava de fora. Tinha que encontrar alguém que sentisse as mesmas coisas que eu. Mas onde? Onde?

A mulher do escultor tomava conta dele, era fácil constatar isso. Ela entrava no estúdio inesperadamente, com muita freqüência. E ele se mostrava assustado. Não sei o que o assustava. Os dois me convidaram para passar com eles duas semanas em sua casa de campo — ou melhor, foi ela que me convidou. Disse-me que o marido não gostava de parar de trabalhar durante as férias, e eu poderia continuar a posar para ele. Mas assim que saiu, ele me disse:

— Você tem que encontrar uma desculpa para não ir. Ela fará você sofrer. Não está bem, coitada. Tem obsessões. Acha que todas as mulheres que posam para mim são minhas amantes.

Seguiram-se alguns dias de grande confusão; eu corria de um estúdio para outro com muito pouco tempo para almoçar, posando para capas e ilustrações de revistas e também para anúncios. Eu podia ver meu rosto em toda parte, até no metrô.

E me perguntava se as pessoas não me reconheceriam.

O escultor se tornara meu melhor amigo. Eu observava com ansiedade a estatueta ir chegando ao fim. Até que um dia, ao chegar ao seu estúdio, vi que o trabalho tinha sido arruinado. Ele me disse que tentara trabalhar sem minha presença. Mas não parecia muito infeliz ou preocupado. Fiquei triste, achando que podia ter si do sabotagem. Mas não tive dúvidas de que ele parecia feliz por ter de começar tudo de novo.

Foi no cinema que encontrei John e descobri o poder de uma voz. Ele usou sua voz como um órgão, fazendo-me vibrar. Quando pronunciou meu nome de modo errado, repetindo-o, aquilo SOOU aos meus ouvidos como uma carícia. Era a voz mais grave, mais rica que eu jamais ouvira. Mal podia fitá- lo. Sabia que seus olhos eram grandes, de um azul intenso e magnético, e que ele era alto. Estava muito inquieto. Seu pé movia-se sem parar, como

um cavalo de corrida. Sua presença anulava tudo mais: o cinema, o filme, a amiga sentada ao meu lado. Ele se comportava como se eu o tivesse encantado, como se tivesse sido hipnotizado por mim. Falava sem parar, sem desviar os olhos de meu rosto, mas eu não o estava ouvindo mais. Desaparecera a mocinha inexperiente que eu era. Sentia-me mergulhando em uma espiral de loucura, tonta com o timbre daquela voz linda, que agia, na verdade, como uma droga. Quando finalmente ele me "seqüestrou" — como disse —, chamou um táxi.

Não trocamos uma palavra até chegarmos a seu apartamento. Ele não me tocara. Nem precisava. Sua proximidade me excitara de tal modo que era como se estivesse me acariciando há longo tempo.

John limitou-se a dizer meu nome duas vezes, como se o achasse suficientemente bonito para merecer uma repetição. Era um homem forte, deslumbrante. Seus olhos eram de um azul tão intenso que relampejavam quando ele piscava. E eu tinha medo. O medo de uma tempestade que me engolfaria por completo.

Por fim ele me beijou. Sua língua circulou em torno da minha vezes sem conta, até que parou para tocar apenas na ponta da minha língua. Enquanto me beijou, levantou lentamente minha saia. Abaixou as ligas e as meias. Depois me carregou para a cama. Eu me sentia tão dissolvida em prazer que era como se ele já tivesse me penetrado. Sua voz parecia já ter aberto todo o meu corpo. Ele sentiu meu estado, e por isso ficou espantado com a resistência encontrada pelo seu pênis.

John parou para fitar-me no rosto. Ao ver uma enorme receptividade emocional, aumentou a pressão. Senti-me sendo dolorosamente rasgada, mas o calor dissolveu tudo, o calor de sua voz ao meu ouvido, dizendo:

— Você me quer como eu a quero?

Ele gemeu de prazer. E, com todo o seu peso sobre mim, comprimindo meu corpo, o momento de dor desapareceu. Senti a felicidade de ser deflorada. E deixei-me ficar deitada, quase sonhando.

— Machuquei você — disse John. — Você não gostou. —Não pude me forçar a dizer naquele instante que queria mais.

Minha mão procurou seu pênis. Acariciei-o. Ele pulou para cima, muito túmido. John beijou-me até que senti uma nova onda de desejo, o desejo de reagir com toda a plenitude de meu corpo. Mas ele disse: — Agora vai doer. Espere um pouco. Você pode ficar comigo a noite toda? Quer ficar?

Vi que havia um pouco de sangue em minha perna e quis lavá-lo. Senti que ainda não fora possuída por completo, que aquilo eram apenas as preliminares de algo bem melhor. Queria ser possuída e conhecer o que seria a felicidade plena. Caminhei um tanto sem firmeza e caí na cama de novo.

John estava adormecido; seu grande corpo ainda se achava curvado como quando estivera colado ao meu, o braço atirado sobre o local onde estivera minha cabeça. Ajeitei-me a seu lado, sonolenta. Quis segurar seu pênis de novo. E o fiz bem de leve para que ele não despertasse. Então adormeci, para ser acordada algum tempo depois pelos seus beijos.

Flutuamos em um mundo de sensualidade, sentindo apenas a vibração de nossa carne, e cada contato que havia entre nós era uma alegria. John puxou-me pelos quadris. Temia me machucar. Abri as pernas. Quando ele meteu o pênis, doeu um pouco, mas o gozo que senti foi bem maior. Foi uma pequena dor anulada pelo prazer imenso da presença de seu pênis que se movia bem fundo dentro de mim. Desloquei-me para a frente, louca para ir ao seu encontro.

Dessa vez ele ficou passivo e disse:

— Você é quem se mexe; agora você vai gozar.

Movi-me delicadamente em torno de seu pênis. Coloquei os punhos fechados nas costas para erguer o corpo na direção dele. John colocou minhas pernas sobre seus ombros. Aí então a dor aumentou muito e ele recuou.

Quando saí de manhã, estava meio tonta, mas feliz por sentir que tinha chegado tão perto da paixão. Fui para casa e dormi até que ele telefonou.

— Quando você vem? — perguntou ele. — Tenho que vê-la de novo. Logo. Vai posar hoje?

— Sim, tenho que posar. Irei depois.

— Por favor, não pose — pediu John —, por favor. Fico desesperado só de pensar nisso. Venha me ver primeiro. Quero falar com você. Por favor, venha me ver primeiro.

Fui ao seu apartamento.

— Oh — disse ele, queimando meu rosto com o ardor de seu desejo —, não posso suportar a idéia de saber que você está posando, expondo seu corpo. Você não pode fazer mais isso. Tem que permitir que eu passe a cuidar de você. Não posso desposá-la porque tenho mulher e filhos. Deixe que eu tome conta de você até que descubramos como poderemos resolver o problema. Deixe que eu lhe arranje um lugar aonde possa ir vê-la a qualquer hora. Você não pode continuar posando. Você me pertence.

Então, dei início a uma vida secreta; quando todos pensavam que eu estava posando no mesmo ritmo anterior, na verdade estava trancada em um belo quarto, esperando por John. Sempre que ia me ver, ele levava um presente, um livro, blocos coloridos para eu escrever. Sentia-me inquieta, aguardando por ele.

A única pessoa que sabia do segredo era o escultor, porque ele adivinhou o que estava ocorrendo. Não queria permitir que eu parasse de posar, e me fez perguntas. Predisse como seria minha vida.

A primeira vez que tive um orgasmo com John cheguei a chorar. Foi algo tão forte e maravilhoso que não acreditei ser possível acontecer de novo. Os únicos momentos dolorosos eram os que eu passava esperando por John. Tomava banho, pintava as unhas, me perfumava, passava ruge no bico dos seios, escovava os cabelos e todos esses preparativos acendiam minha imaginação para as cenas que viveria.

Queria que ele me encontrasse no banho. John dizia que estava a caminho. Mas não vinha. Atrasava-se com freqüência.

Quando chegava, eu estava fria, ressentida. A espera esgotava meus sentimentos. Eu me rebelava. Uma vez não atendi quando ele tocou a campainha. Então ele bateu de leve, humildemente. Aquilo me comoveu tanto que abri a porta. Mas eu estava furiosa e queria magoá-lo. Não

correspondi ao seu beijo. Ele ficou triste; enfiou a mão por baixo do meu roupão e descobriu que eu estava úmida, apesar de conservar as pernas fortemente cerradas. Feliz de novo, John obrigou-me a ceder.

Puni-o então ao não reagir sexualmente; ele ficou magoado porque gostava de me ver sentir prazer. Sabia pelas violentas batidas do meu coração, pelas mudanças na voz, pelas contrações das pernas quanto eu gozava. Dessa vez comportei-me com a indiferença de uma prostituta. Isso realmente o ofendeu. Nunca podíamos sair juntos. Ele era por demais conhecido, bem como sua mulher. Ele era produtor. Ela, autora de peças teatrais.

John não tentou se modificar depois que descobriu quanto eu ficava zangada por esperá-lo. Cada vez chegava mais tarde. Dizia que ia chegar às dez horas e chegava à meia-noite. Um dia ele não me encontrou. Ficou desesperado. Pensava que eu não fosse voltar. Quanto a mim, julgava que John se comportava daquele modo de propósito, por gostar de me ver zangada. Implorou tanto que acabei retornando ao cabo de dois dias. Estávamos muito tensos e zangados. Ele disse:

— Você voltou a posar. Gosta de posar. Na verdade, você gosta de se exibir.

— Por que você me faz esperar tanto? Sabe que isso mata meu desejo de ficar com você, John. Quando você chega tarde, me encontra fria.

— Não tão fria. — Fechei minhas pernas com toda a força de encontro a ele, que assim não podia me tocar. Mas ele acabou por se livrar e me acariciou por trás. — Nem tão fria assim

— disse, com um sorriso.

Na cama ele colocou o joelho entre minhas pernas e forçou-me a abri-las.

— Quando você está furiosa — disse —, sinto-me como se a estivesse estuprando.

Acho que você me ama tanto que não pode resistir a mim; vejo que você está molhada e gosto de sua resistência e também de sua derrota.

— John, você me irrita tanto que vou deixá-lo.

Ele ficou assustado e me beijou. Prometeu não mais agir daquele modo. O que eu não podia compreender era que, a despeito de nossas brigas, o fato de John fazer amor comigo tornara-me sensível. Ele despertara meu corpo. Eu desejava ainda mais do que antes entregar-me a todos os seus caprichos. John devia ter percebido isso, porque quanto mais me acariciava e me excitava, mais temia que eu voltasse a posar. Mas, lentamente, foi o que fiz. Tinha tempo demais sozinha, ficava demasiado isolada com minhas lembranças de John.

Millard foi um dos que ficaram mais contentes por me ver. Ele devia ter estragado a estatueta novamente — de propósito, eu tinha certeza — de modo a poder me conservar na pose de que gostava.

Na noite anterior ele tinha fumado maconha com alguns amigos. E me disse:

— Você sabia que é comum a maconha dar a quem fuma a impressão de estar se transformando em um animal? Ontem uma mulher foi totalmente tomada por uma transformação desse tipo. Caiu de quatro no chão e começou a andar de um lado para o outro como um cachorro. Nós tiramos suas roupas. Ela quis amamentar. Queria que fizéssemos como cachorrinhos, que nos deitássemos no chão e sugássemos seus seios. Sempre de quatro, ela ofereceu os seios a todos nós. Queria que andássemos como cachorro — atrás dela. Insistiu em ser possuída assim, por trás, e eu o fiz, mas senti-me terrivelmente tentado a mordê-la quando montei nela. Mordi-a no ombro com mais força do que jamais tinha mordido qualquer pessoa. A mulher não ficou assustada. Mas eu fiquei. Aquilo foi para mim um choque tão grande que me deixou sóbrio. Ergui-me e vi um amigo seguindo-a, também de quatro, mas sem acariciá-la ou querer montar nela. Limitava-se a cheirá-la, exatamente como um cachorro faria, e isso me fez lembrar com muita intensidade minha primeira experiência sexual, que me perturbou demais.

“Quando éramos crianças, no interior, tínhamos em casa uma empregada nascida na Martinica. Era uma moça enorme, que usava compridas saias rodadas e lenço na cabeça. Era uma mulata clara, muito bonita. Gostava que brincássemos de esconder. Quando chegava a minha vez, ela me escondia sob sua saia. E lá ficava eu sentado, meio sufocado, escondido entre suas pernas. Lembro-me até hoje do odor sexual que se desprendia

dela e que me excitava, mesmo sendo eu bem pequeno. Uma vez tentei acariciá-la, mas levei um tapa na mão."

Eu estava posando em silêncio, e ele se aproximou de mim para me medir com um instrumento. Senti sua mão em minhas coxas, acariciando-me de leve. Sorri. Continuei no tablado e Millard passou a acariciar minhas pernas, como seestivesse me modelando, como se eu fosse feita de barro. Ele beijou meus pés, passou inúmeras vezes as mãos em minhaspernas e em minhas nádegas. Depois me beijou na boca, pegou-me pela cintura e me colocou no chão. Apertou-me com muita força, acariciando-me as costas. Estremeci. As mãos dele eram suaves e flexíveis. Tocava-me como o fizera com aestatueta, com um carinho infinito.

Dirigimo-nos ao sofá. Millard deitou-me de bruços e se despiu. Caiu em cima de mim, e senti seu pênis sobre minha bunda. Passou as mãos pela minha cintura, depois me ergueu um pouco para que pudesse me penetrar. Seus movimentos eram ritmados. Fechei os olhos para senti-lo melhor e ouvir o barulho do pênis ao entrar e sair. Eu estava toda molhada e ele metia com tanta violência que esses ruídos eram inevitáveis e eu me deleitava com isso.

Os dedos de Millard entravam em minha carne. Suas unhas eram pontudas e me machucavam. Eu estava tão excitada com seus movimentos vigorosos que tive de abrir a boca e morder a coberta do sofá. Então ouvimos um barulho na porta. Millard ergueu-se depressa, apanhou a roupa e dirigiu- se ao jirau, onde guardava seus trabalhos. Sumi atrás do biombo.

Ouviu-se uma segunda batida à porta do estúdio e a mulher de Millard entrou. Eu tremia, não de medo, e sim pelo choque de ter sido obrigada a parar no meio do ato. A mulher de Millard viu o estúdio vazio e retirou-se. Ele reapareceu, já vestido. Eu disse:

— Espere um pouco — e comecei a me vestir de novo. Mas nosso momento estava destruído. Eu ainda estava úmida e trêmula. Quando vesti as calcinhas, o contato da seda me excitou tremendamente. Não pude mais suportar a tensão e o desejo que sentia. Pus ambas as mãos sobre meu sexo, como Millard fizera, e pressionei com força, fechando os olhos e imaginando que era ele quem estava me acariciando. Finalmente gozei, tremendo dos pés à cabeça.

Millard quis me ver de novo, mas não no estúdio, onde podíamos ser surpreendidos por sua mulher, de modo que concordei que procurasse um outro lugar. Conseguiu para nós um quarto de um amigo. A cama ficava no fundo de um cômodo comprido, com espelhos e lâmpadas no teto. Ele quis apagar tudo, dizendo que queria ficar comigo no escuro.

— Já vi todo o seu corpo, e o conheço tão bem que agora quero senti-lo com os olhos fechados. Desejo apenas sentir sua pele, a maciez de sua carne. Suas pernas são tão firmes e fortes, e, no entanto, tão macias. Amo seus pés de dedinhos separados; eles lembram os dedos de uma mão; gosto de você toda. Adoro a parte inferior de suas pernas. — Ele falava, e ia passando as mãos em todo o meu corpo, lentamente, pressionando minha carne, sentindo cada curva. — Sente minha mão aqui entre suas pernas? Gosta? Quer senti-la mais perto?

— Mais perto, mais perto.

— Vou ensinar uma coisa a você. Quer aprender? — Nem era preciso responder. Millard pôs o dedo dentro de meu sexo.

— Quero agora que você aperte meu dedo. Há um músculo feminino que pode se contrair e se expandir em torno do pênis. Tente.

Tentei. Naquela posição, o dedo de Millard representava um verdadeiro suplício para mim. Ele o mantinha imóvel, e eu tentei forçá-lo a entrar mais e mais. Foi assim que senti o músculo de que falara, muito fraco a princípio, abrindo e fechando em torno do dedo.Millard aprovou.

— Sim, é isso mesmo. Mais força agora.

E assim eu prossegui abrindo e fechando, abrindo e fechando. Era como uma boca querendo sugar aquele dedo e obriga-lo a entrar.

Millard me disse que iria fazer o mesmo com o pênis; mandou que eu continuasse com as contrações. Eu obedeci, executando os movimentos cada vez com mais força. Tudo aquilo estava me excitando tanto que eu achava que a qualquer momento atingiria o meu orgasmo, mas foi ele quem subitamente gemeu de prazer e acelerou o ritmo, incapaz de continuar se contendo. Limitei-me a prosseguir com meus movimentos vaginais e gozei também do modo mais maravilhoso, bem lá dentro de mim.

— John algum dia lhe mostrou isso?

— Não.

— O que foi que ele lhe ensinou?

— Isto: você se ajoelha em cima de mim e mete seu pênis.

Millard obedeceu. Seu pênis não estava com muita força, pois tinha se passado muito pouco tempo após o primeiro orgasmo, mas ele conseguiu meter, ajudando com a mão. Segurei-o então com ambas as mãos, acariciei seus bagos, pus dois dedos na base de seu pênis e esfreguei. Millard excitou-se instantaneamente. Seu pênis enrijeceu e ele começou a se movimentar de novo. De repente, se deteve.

— Não devo ser tão exigente — explicou, em um tom de voz estranho. — Você ficará cansada demais para John.

Ficamos deitados, fumando. Eu me perguntava se Millard não teria sentido algo mais do que o desejo sexual, se meu amor por John não pesara em seus sentimentos. Embora houvesse sempre um certo tom magoado em suas palavras, ele continuou a me fazer perguntas.

— John fez amor com você hoje? Quantas vezes? Como ele a possuiu?

Nas semanas que se seguiram, Millard me ensinou muitas coisas novas, e assim que eu as aprendia, experimentava com John. Finalmente, ele ficou curioso, querendo saber onde eu estava aprendendo aquelas posições. Afinal, eu era virgem até conhecê-lo. E a primeira vez que apertei seu pênis como Millard me ensinara, ficou muito espantado.

Era muito difícil manter secretas aquelas duas relações, mas eu adorava o perigo e a intensidade daquilo tudo.

Lilith

Lilith era sexualmente frígida e seu marido tinha quase certeza disso, não obstante todo o fingimento dela. Foi esse fato que causou o seguinte incidente:

Ela nunca se servia de açúcar porque não queria engordar e usava um adoçante. Eram pequenas pílulas brancas que carregava o tempo todo na bolsa. Um dia Lilith ficou sem seu adoçante e pediu ao marido que o comprasse quando viesse para casa. Assim, ele lhe trouxe um frasquinho igual ao que ela pedira, e Lilith pôs duas pílulas em seu café, depois do jantar.

Os dois sentaram-se juntos. Billy a fitava com a expressão de jovial tolerância que usava com freqüência, quando de seus ataques de nervos, suas crises de egoísmo, de auto-acusação, de pânico. A todo seu comportamento dramático ele reagia com inabalável bom humor e paciência. E Lilith ficava brigando sozinha, furiosa, passando por vastas crises emocionais em que ele não tomava parte.

Possivelmente tudo isso era um símbolo da tensão que não ocorria entre eles no plano sexual. Ele recusava todas as suas hostilidades, seus desafios violentos e primitivos, não se permitia entrar nessa arena emocional com Lilith e reagir à sua necessidade de ciúme, temores e batalhas.

Talvez se Billy tivesse aceito os desafios de Lilith e participado dos jogos de que ela gostava, Lilith poderia ter sentido sua presença como algo mais que um mero impacto físico. Mas o marido de Lilith não conhecia os prelúdios do desejo sexual, ou os estimulantes que certas naturezas selvagens exigem, e assim, em vez de reagir corretamente logo que via seus cabelos ficarem elétricos, seu rosto mais cheio de vida, seus olhos cintilantes, seu corpo irrequieto como o de um cavalo de corrida, retirava- se para sua parede de compreensão objetiva, de brincadeiras gentis e de plena aceitação de sua natureza, como alguém que observa um animal em um jardim zoológico e sorri de suas excentricidades, mas não se deixa envolver. Era isso que deixava Lilith em um estado de total isolamento — como um animal selvagem que habitasse uma região deserta.

Quando Lilith brigava e sua temperatura subia, o marido não era visto em parte alguma. Era como um céu sereno olhando para ela de cima, esperando que a tempestade passasse. Se Billy, como outro animal selvagem, aparecesse do outro lado do deserto, fitando-a com a mesma tensão elétrica nos cabelos, na pele e nos olhos, se aparecesse com o mesmo corpo selvagem, pisando forte e querendo achar qualquer pretexto para lançar-se sobre ela, abraçá-la com fúria, sentir-lhe o calor e a força, podia ser que acabassem rolando na cama, que os sorrisos sarcásticos se transformassem em mordidas de paixão e que a luta passasse a ser um combate de amor. Os puxões de cabelo uniriam suas bocas, seus dentes, suas línguas. E de toda essa fúria podia ser que seus aparelhos genitais se esfregassem um contra o outro, soltando centelhas, e tivessem os dois corpos que se interpenetrar para pôr fim à formidável tensão.

Naquela noite Billy mais uma vez se sentou com a expressão costumeira nos olhos, enquanto ela se colocou perto do abajur, pintando um objeto qualquer com tanta fúria que dava a impressão de que iria devorá-lo quando terminasse. O silêncio foi quebrado por ele, quando disse:

— Sabe, não era adoçante aquela pílula que eu trouxe e que você pôs no café. Era cantárida, um pó excitante.

Lilith ficou atônita.

— E você teve coragem de me dar isso?

— Sim, eu queria ver você ficar excitada. Pensei que podia ser bem agradável para nós dois.

— Oh, Billy — disse ela —, o que você fez comigo! E eu prometi a Mabel que iríamos ao cinema. Não posso desaponta-la.

Há uma semana que Mabel está trancada em casa. E se essa droga começar a fazer efeito quando eu estiver no cinema?

— Bem, se você prometeu, tem de ir. Mas eu estarei à sua espera.

Assim, meio febril e muito tensa, Lilith foi ao encontro de Mabel. Não se atreveu a contar o que o marido havia feito com ela. Não saíam de sua cabeça todas as histórias que ouvira a respeito da cantárida. Esse

afrodisíaco fora muito usado pelos homens na França do século XVIII. Lembrava-se da história de um certo aristocrata que, aos quarenta anos, já um pouco enfraquecido por ter assiduamente feito amor com todas as mulheres atraentes de seu tempo, apaixonou-se violentamente por uma dançarina de apenas vinte anos e passou três dias e três noites tendo relações sexuais com ela com a ajuda da cantárida.

Lilith tentou imaginar como poderia ser uma experiência dessas, receando que a droga fizesse efeito a qualquer instante, obrigando-a talvez a ir correndo para casa e confessar seu desejo ao marido.

Lilith não conseguiu concentrar-se no que se passava na tela do cinema. Sua cabeça era um caos. Sentou-se muito tensa, tentando sentir os efeitos da droga. E teve um sobressalto quando percebeu que se sentara com as pernas muito abertas e a saia bem levantada, acima dos joelhos.

Recompôs-se, achando que aquilo já deveria ser indício de uma febre sexual que a estava acometendo e que se agravava a cada instante. Tentou lembrar se algum dia já se sentara daquela maneira no cinema. No seu modo de entender, aquela posição era a mais obscena que jamais imaginara. Sabia que quem estivesse sentado na fila da frente, colocada muito abaixo da sua, seria capaz de, com uma simples olhada para trás, regalar-se com o espetáculo das calcinhas e das ligas novas que comprara naquele mesmo dia. Tudo parecia conspirar em benefício de uma noite de orgia. Deveria ter sido dominada por uma premonição quando resolvera comprar aquelas calcinhas rendadas e um par de ligas cor de coral que ia tão bem com suas pernas de dançarina.

Foi com raiva que fechou as pernas. Se fosse envolvida por uma selvagem torrente de desejo, não saberia o que fazer.

Deveria se levantar de repente, dizer que estava com dor de cabeça e ir embora? Talvez pudesse se virar para Mabel — Mabel sempre a adorara. Teria coragem de se voltar para Mabel e acaricia-la? Já ouvira falar de mulheres que se acariciavam. Uma conhecida sua já se sentara daquele modo na escuridão do cinema e, muito lentamente, a mão da amiga que estava a seu lado abrira sua saia, escorregara até seu sexo e a acariciara até que ela gozasse. Não saberia dizer com que freqüência essa sua conhecida vivera aquela deliciosa situação de ter que ficar quieta,

controlando a parte superior do corpo, enquanto estava sendo acariciada no escuro, secreta, lenta e misteriosamente. Nunca tinha acariciado uma outra mulher. Diversas vezes pensara que deveria ser algo maravilhoso afagar uma mulher, acompanhar a curva de suas nádegas, sentir a suavidade do seu ventre e da pele entre as pernas. Já tentara se acariciar na cama, à noite, só para ver como seria tocar outra mulher.

Reiteradamente fizera isso com seus próprios seios, imaginando que fossem de outra mulher. Fechando os olhos imaginou o corpo de Mabel em traje de banho, Os seios redondos eram tão grandes que pareciam querer pular para fora do maiô a qualquer instante. Ela estava sempre sorrindo, e sua boca de lábios grossos prometia ser muito suave. Como deveria ser maravilhoso! Mas até então Lilith não sentia nenhum calor entre as pernas que pudesse fazê-la perder o controle e esticar a mão na direção de Mabel. As pílulas ainda não tinham produzido efeito. Estava frígida, constrangida, entre as pernas; havia mesmo uma evidente tensão lá. Não podia relaxar. Se tocasse em Mabel, não poderia prosseguir depois com um gesto mais ousado. E, no entanto, a saia de sua amiga abria-se lateralmente. Será que Mabel gostaria de ser acariciada? Lilith estava ficando inquieta. Sempre que se descuidava, suas pernas se abriam de novo, tomando aquela posição que lhe parecia tão obscena, tão convidativa e que a fazia recordar certos passos de dança das bailarinasnativas da ilha de Bali.

O filme terminou. Em silêncio, Lilith dirigiu seu carro pelas estradas escuras. De repente os faróis iluminaram um carro que se achava estacionado no acostamento. Dentro dele havia um casal que não estava se acariciando do modo usual. A mulher estava sentada no colo do homem, de costas para ele; o homem se erguia todo de encontro a ela, o corpo na pose característica de quem estava gozando. Seu estado era tal que ele não foi capaz de parar quando os faróis do carro de Lilith o iluminaram. Pelo contrário, esticou-se mais ainda, para sentir melhor a mulher que tinha nos joelhos, enquanto ela dava a impressão de estar meio desmaiada de prazer.

Lilith permaneceu em silêncio, tomada de espanto, e Mabel comentou:

— Sem dúvida nós os pegamos no melhor momento.

E riu. Então Mabel conhecia o clímax que Lilith jamais experimentara e que

tanto ansiava por conhecer. Gostaria de perguntar como era, mas se conteve. Logo saberia. Ver-se-ia obrigada a liberar todos aqueles desejos experimentados em geral apenas nas fantasias, em longos devaneios que enchiam suas horas quando ficava sozinha em casa. Ficava pintando e pensava: "Agora entra aqui um homem por quem estou muito apaixonada. Ele aparece no quarto e vai dizendo: 'Deixe-me despir você'. Meu marido jamais tira minha roupa; ele se despe sozinho; mete-se na cama e, se me quer, apaga a luz. Mas esse homem virá e me despirá lentamente, peça por peça. Isso me dará bastante tempo para senti-lo, para ter as mãos dele sobre mim. Antes de tudo, ele abrirá meu cinto, tocará em minha cintura com ambas as mãos e dirá: 'Que linda cintura você tem; como é estreita, que belas curvas'. Então desabotoará minha blusa muito devagar; eu sentirei suas mãos em cada botão, e depois tocando meus seios pouco a pouco, até que eles saiam da blusa. Ele os amara e sugará os bicos como se fosse uma criança, machucando-me um pouco com seus dentes. E eu sentirei tudo isso se espalhando pelo meu corpo, liberando todos os meus nervos e me dissolvendo em um mar de desejo. Ficará impaciente com a saia. Estará desesperado de paixão. Não apagará a luz. Ficará me olhando, me admirando, me adorando, aquecendo meu corpo com suas mãos, esperando até que eu esteja totalmente excitada, até que cada poro de minha pele tenha despertado para o amor.

Será que já estaria sendo perturbada pela cantárida? Não, sentia-se lânguida, perseguida por todas aquelas fantasias que se repetiam interminavelmente — mas era só. E, contudo, gostaria de conhecer o êxtase que observara no casal surpreendido pelos faróis do seu carro.

Quando chegou em casa encontrou o marido lendo. Ele ergueu os olhos para ela e sorriu com malícia. Lilith não quis confessar que não tinha sentido os efeitos do afrodisíaco. Estava imensamente desapontada consigo mesma. Que mulher glacial ela devia ser, a quem nada perturbava, nem mesmo algo que fizera um nobre do século XVIII passar três dias e três noites fazendo amor sem parar. Ela era um verdadeiro monstro. E seu próprio marido já devia saber disso. Iria rir dela.

E acabaria por procurar uma mulher mais sensível. Assim, ela começou a se despir na frente dele, andando de um lado para o outro seminua, escovando os cabelos ao espelho. Em geral não fazia nada disso. Não queria que ele a desejasse. Não sentia nenhum prazer com o ato sexual.

Era algo que tinha de ser feito o mais rápido possível apenas por causa dele. Para ela era um sacrifício. A excitação e o prazer que não compartilhava lhe eram repulsivos. Sentia-se como uma prostituta paga para aquilo. Era uma prostituta sem sentimentos, que em troca de seu amor e de sua devoção lhe dava um corpo totalmente frígido. Sentia vergonha de ser assim.

Mas quando finalmente se deitou, ele lhe disse:

— Não creio que a cantárida tenha produzido efeito suficiente em você, e estou com sono. Acorde-me se.

Lilith tentou dormir mas não conseguiu, aguardando que seu corpo se enchesse de desejo. Depois de uma hora levantou-se e foi até o banheiro. Pegou o vidrinho que Billy lhe comprara e tomou dez pílulas de uma só vez, pensando: "Isto vai resolver o problema". Deitou-se de novo, esperando. Durante a noite seu marido foi procurá-la. Mas ela estava tão tensa e seca entre as pernas que ele teve de umedecer o pênis com saliva.

Na manhã seguinte Lilith acordou chorando. Billy interrogou-a e ela lhe disse a verdade. Ele soltou uma risada.

— Mas, Lilith, tudo não passou de uma brincadeira. O que você tomou não era cantárida.

Mas daquele momento em diante Lilith passou a ser perseguida pela idéia de que deveriam existir modos de se excitar artificialmente. Tentou todas as fórmulas de que já ouvira falar. Bebeu enormes copos de chocolate com grandes quantidades de baunilha. Comeu montanhas de cebolas. O álcool não a afetava como a outras pessoas, porque já estava em guarda quando começava a beber. Na verdade, não conseguia deixar de pensar em si própria e em seu problema.

Já tinha ouvido falar de umas bolinhas que eram usadas como afrodisíaco nas Indias Orientais. Mas como poderia obtê-las? Onde poderia se informar a esse respeito? As mulheres nativas daquele país as inseriam dentro da vagina. Eram bolinhas de borracha muito macia, revestidas de um material bem parecido com pele. Quando eram introduzidas na vagina, essas bolinhas se acomodavam e passavam a se agitar toda vez que a mulher se movia, causando um efeito muito mais excitante do que um dedo ou um

pênis. Lilith gostaria de conseguir essas bolinhas, para andar com elas dentro de si dia e noite.

Marianne

Creio que o mais adequado seja me definir como a cafetina de uma casa de prostituição literária que trabalha como líder de um grupo de escritores pobres que produzem textos eróticos para vender a um "colecionador". Fui a primeira a escrever e todos os dias dava meus manuscritos a uma jovem para que ela os datilografasse.

Essa jovem, Marianne, era uma pintora que à noite fazia trabalhos de datilografia para ganhar a vida. Tinha cabelos louros, olhos azuis, rosto redondo, seios grandes e firmes, mas ao invés de exibir a exuberância de seu corpo, tentava ocultá-la em disformes roupas boêmias, casacos largos, saias plissadas, capas de chuva. Marianne nascera em uma cidadezinha do interior. Mas lera Proust, Krafft-Ebing, Marx e Freud.

É claro que Marianne já tivera aventuras sexuais, mas há um tipo de aventura em que o corpo realmente não chega a participar totalmente. Ela se iludia. Acreditava que, porque já se deitara com alguns homens, os acariciara e fizera todos os gestos que se devem fazer, tinha experimentado a verdadeira vida sexual.

Mas tudo aquilo era apenas uma ilusão. Na verdade, seu corpo ainda não amadurecera. Nada a atingira profundamente.

Ainda era virgem. Pude sentir isso no instante em que entrou em meu escritório. Contudo Marianne jamais admitiria que fosse frígida, como um soldado nunca confessará já ter sentido medo. Mesmo assim, estava se submetendo à psicanálise.

Eu não podia deixar de me perguntar, quando lhe entregava minhas histórias eróticas para que datilografasse, como aquilo iria atingi-la. Junto com sua curiosidade intelectual — pois quanto a isso era uma criatura aberta —, havia nela intenso pudor físico que se esforçava para não revelar e que eu descobrira acidentalmente quando soube que jamais tomara banho de sol nua e que a simples idéia de fazê-lo a intimidava.

A lembrança que a perseguia mais intensamente era a de uma aventura

que tivera em seu estúdio. Quando um conhecido seu ia se retirando, apertara-a com força de encontro a uma parede, erguera uma de suas pernas e empurrara seu membro entre suas coxas. O estranho nesse caso é que na hora ela não sentira nada, mas depois, sempre que se lembrava do caso, ficava inquieta e excitada. Suas pernas fraquejavam e ela daria qualquer coisa para sentir de novo aquele corpo enorme esmagando o seu, prendendo-a contra a parede, cortando-lhe todas as possibilidades de fuga.

Um dia ela se atrasou na entrega do trabalho e resolvi ir até seu estúdio. Bati e ninguém atendeu. Empurrei a porta, que se abriu. Marianne devia ter ido fazer compras nas proximidades de sua casa.

Fui até a máquina de escrever para verificar o andamento do trabalho e vi um texto que não reconheci. Achei que talvez estivesse começando a esquecer o que escrevera. Mas não podia ser. Aquilo não fora escrito por mim. Comecei a ler. E então entendi.

No meio do serviço Marianne cedera ao desejo de contar suas próprias experiências. Eis o que escreveu:

"Há coisas que ao lermos nos convencem de que não vivemos, não sentimos ou não experimentamos nada até aquele momento. Vejo agora que a maior parte do que já me aconteceu foi clínico, anatômico. É fato que os sexos se tocavam e se misturavam, mas sem qualquer centelha, loucura ou sensação mais profunda. Como poderei obter isso? Como começar a sentir — a sentir? Quero me apaixonar de tal modo que a simples visão de um homem, mesmo a um quarteirão de distância, me faça estremecer e me sentir penetrada, fraca, trêmula, e me deixe úmida entre as pernas. É assim que desejo me apaixonar: tão completamente que o simples fato de pensar no meu homem me leve ao orgasmo.”

“Hoje de manhã, quando eu estava pintando, alguém bateu à porta com delicadeza. Fui atender e encontrei um rapaz muito bonito, mas evidentemente tímido, e de quem gostei assim que vi”.

"Ele entrou sem tirar os olhos de cima de mim, com ar súplice, e disse:

Foi um amigo que me mandou aqui. Você é pintora; quero que um certo trabalho seja feito. Gostaria de saber se você. . . aceitaria a encomenda.

“Seu jeito de falar não podia ser mais encabulado, e ele corou. Parecia mais uma mulher, pensei”.

"Eu lhe pedi que se sentasse, querendo pô-lo à vontade. Só então ele notou minhas pinturas, que eram todas abstratas. E perguntou:

"— Mas você também sabe pintar a figura humana, não sabe?

— Claro que sei. — Mostrei-lhe meus desenhos.

"— O traço é muito forte — comentou, totalmente absorto na contemplação de um dos meus desenhos representando um atleta musculoso.

"— Você quer um retrato seu?

"— Bem, sim — sim e não. Quero um retrato. Ao mesmo tempo, sei que o que desejo é um tipo de retrato nada comum, de modo que não sei se você.., concordará em fazê-lo.

"— Fazer o quê? — eu quis saber.

"— Bem — ele finalmente se abriu —, você me faria esse tipo de retrato? — Mostrou-me um atleta nu.

"Ele esperava uma reação qualquer de minha parte. Mas eu estava tão acostumada com a nudez masculina na escola de arte que sorri de sua timidez. Não achei que houvesse algo de estranho em seu pedido, embora fosse ligeiramente diferente do normal pintar um nu sendo paga pelo modelo. Era essa minha única observação, que lhe transmiti. Enquanto isso, com o direito de encarar os outros que eu atribuía aos pintores, estudei seus olhos violeta, a fina penugem dourada de suas mãos e — quase invisível — da ponta de sua orelha. Ele tinha um certo ar de fauno e algo de feminino que me atraía.

"Apesar de sua timidez, parecia saudável e um tanto aristocrático. Suas mãos eram macias e bem tratadas. Sua postura era boa. Demonstrei um certo entusiasmo profissional que pareceu deleitá-lo e entusiasmá-lo.

Quer começar agora? — perguntou-me. — Trouxe algum dinheiro comigo. Posso trazer o resto amanhã.

"Apontei para um canto do estúdio onde havia um biombo que ocultava minhas roupas e a pia. Mas ele voltou os olhos violeta para mim e perguntou com ar inocente:

"— Posso me despir aqui?

"Fiquei meio sem graça, mas aquiesci. Deliberadamente, concentrei-me nos preparativos. Apanhei papel, ajeitei uma cadeira, apontei alguns carvões. Parecia-me que ele estava sendo deliberadamente lento para tirar a roupa, como se estivesse aguardando minha atenção. Resolvi fitá-lo sem deixar transparecer o que pensava, com o ar mais profissional possível, como se já estivesse começando o estudo de sua figura.

"Ele ainda estava se despindo e o fazia lentamente, como se aquilo fosse um ritual. Só uma vez fitou-me nos olhos e sorriu, exibindo seus belos dentes. Sua pele era tão delicada que refletia a luz que entrava pela grande janela do estúdio, como se fosse caríssima seda.

"Naquele instante, o pedaço de carvão que eu tinha nas mãos pareceu ter adquirido vida, e eu imaginei que seria um prazer desenhar as feições daquele rapaz, quase como se o acariciasse. Ele já tinha tirado o casaco, a camisa, os sapatos e as meias. Só faltavam as calças. Segurava-as como uma artista de striptease segura o vestido no início da parte principal do número, sempre olhando para mim. Eu ainda não podia entender o brilho de prazer que animava seu rosto.

"Então ele desafivelou a cinta, inclinou-se um pouco e deixou as calças escorregarem. Ficou totalmente nu à minha frente, no mais completo estado de excitação sexual. Quando o vi assim, houve um momento de suspense. Se eu protestasse, perderia um dinheiro de que precisava demais.

"Tentei ler a expressão de seus olhos. Eles pareciam dizer:

— 'Não fique zangada. Perdoe-me'.

"E assim tentei desenhar. Foi uma estranha experiência. Quando estava concentrada na sua cabeça, no pescoço, nos braços, tudo ia bem. Mas assim que meus olhos desviavam para o resto de seu corpo, eu podia sentir o efeito sobre ele. Seu sexo estremecia de modo quase imperceptível. Senti-

me tentada a representar aquilo em meu desenho com a mesma calma que tivera ao desenhar seu joelho. Mas a virgem defensiva que havia em mim estava perturbada. Achei que tinha que trabalhar lenta e atentamente para ver se a crise passava, a fim de que ele não dirigisse sua excitação para mim. Mas não, o rapaz não fez qualquer movimento. Estava paralisado e contente. Era eu quem estava perturbada, e sabia por quê.

"Quando terminei, ele se vestiu com toda a calma, parecendo totalmente senhor de si. Aproximou-se de mim, apertou minha mão polidamente e perguntou:

"— Posso voltar amanhã à mesma hora?"

Nesse ponto terminava o trabalho. Por coincidência, eu estava acabando de ler quando Marianne entrou, sorrindo.

— Não foi uma aventura estranha? — perguntou-me ela.

— Foi, claro, e eu gostaria de saber como você se sentiu após ele ter saído.

— Depois — confessou ela — fiquei excitada o dia inteiro, recordando o seu corpo, lembrando seu lindo membro rígido.

Revi todos os meus croquis, e a um deles acrescentei a imagem completa do incidente.

Na verdade, fiquei atormentada de desejo. Mas um homem como aquele só estava interessado mesmo em olhar para mim.

Aquilo poderia nunca ter passado de uma simples aventura, mas para Marianne teve grande importância. Pude ver como ficava cada vez mais obcecada pelo rapaz. Evidentemente, a segunda sessão foi uma cópia da primeira. Nada foi dito. Marianne não revelara qualquer emoção. Fingia não tomar conhecimento do prazer que ele auferia em se ver olhado por ela. E a cada dia que se passava Marianne descobria maiores maravilhas. Cada detalhe do corpo dele era perfeito. Seria ótimo se ele deixasse transparecer o menor interesse que fosse pelo corpo dela, mas isso não ocorria. E Marianne estava emagrecendo e definhando de desejo insatisfeito.

Seu trabalho de datilografia também a afetava, pois continuamente copiava as aventuras dos outros. Todo o nosso grupo lhe entregava os originais, pois ela ganhara a confiança de todos. E assim, todas as noites a pequenina Marianne debruçava os seios generosos e maduros sobre sua máquina e escrevia palavras tórridas, descrevendo violentos incidentes físicos. Certos fatos a perturbavam mais que outros.

Ela gostava de violência. Era por isso que sua situação com o rapaz era a mais impossível de todas. Não podia acreditar que ele pudesse ficar tanto tempo naquele estado de total excitação física pelo simples fato de ter os olhos dela fixos sobre seu corpo, como se o estivesse acariciando.

Quanto mais passivo era o comportamento dele, mais ela ansiava por tratá- lo com violência. Sonhava em subjugá-lo à força, mas como isso seria possível? Já que não podia tentá-lo com sua presença, como seria capaz de fazê-lo desejá-la?

Se ele dormisse, teria uma chance de acariciá-lo. Podia ser que ele a possuísse quando estivesse meio adormecido, meio acordado. Gostaria também que ele a surpreendesse quando estivesse trocando de roupa, e que, assim, a visão de seu corpo o excitasse.

Uma vez ela deixou a porta entreaberta enquanto trocava de roupa. Mas ele desviou os olhos e apanhou um livro.

Impossível excitá-lo senão de um jeito: olhando para o seu corpo nu. E Marianne já estava desesperada de desejo pelo seu modelo. O trabalho acabou. E ela conhecia todas as partes do seu corpo, a cor de sua pele dourada, o formato de todos os seus músculos, e, acima de tudo, seu sexo constantemente ereto, macio, firme, polido, tentador.

Aproximou-se dele para ajeitar um pedaço de cartolina branca que funcionava como uma espécie de superfície refletora que projetava sombras mais nítidas em seu corpo. Mas acabou por perder o controle e caiu de joelhos diante de seu membro ereto. Não tocou nele. Limitou-se a fitá-lo e a murmurar:

— Como é lindo!

Em razão disso, ele ficou visivelmente mais excitado. Seu membro se

tornou mais rígido de prazer. Ela ajoelhou-se mais perto — o sexo dele estava ao alcance de sua boca — e novamente disse apenas:

— Como é lindo!

Como ele não se mexia, ela se aproximou mais, entreabriu ligeiramente os lábios e, com toda a delicadeza, encostou a língua na ponta de seu sexo. Ele não se afastou. Ficou olhando para o seu rosto e para o modo como sua língua se projetava carinhosamente para tocar-lhe a extremidade do sexo.

Ela o lambeu devagar, com a delicadeza de um gato, e depois inseriu uma pequena parte do membro na boca e fechou os lábios em torno dele. Estava tremendo.

Conteve-se para não prosseguir, temendo encontrar resistência. E quando parou ele não a encorajou a continuar. Parecia satisfeito. Marianne achou que aquilo era tudo o que podia lhe pedir. Pôs-se de pé e retornou ao trabalho. Intimamente sentia-se perdida em um turbilhão de emoções. Imagens violentas passavam diante de seus olhos. Lembrava de alguns filmes que vira em Paris, corpos rolando na grama, mãos incansáveis, calças abertas por dedos ávidos, muitas carícias e o enorme prazer que fazia os corpos se dobrarem, prazer que se espalhava pela pele dos amantes como se fosse água, fazendo-os estremecer quando a onda de paixão envolvia seu ventre ou seus quadris.

No entanto Marianne controlou-se devido ao conhecimento intuitivo que a mulher tem a respeito do homem a quem deseja. Ele permaneceu em transe, o sexo ereto, o corpo as vezes estremecendo ligeiramente, como se tivesse sido atravessado pelo prazer da lembrança da boca de Marianne.

No dia seguinte a esse episódio, Marianne repetiu sua pose de adoração diante da beleza do membro do rapaz.

Novamente ela se ajoelhou e rendeu homenagem àquele estranho falo que só exigia admiração. Mais uma vez acariciou-o com a língua, com todo o ardor de sua paixão, e de novo o beijou e o envolveu com seus lábios como se fosse um fruto maravilhoso. Novamente ele estremeceu. E, para espanto de Marianne, uma gotinha de uma substância salgada, branca como leite, dissolveu-se em sua boca. Era uma gota precursora de seu desejo, e ela aumentou a pressão e os movimentos da língua.

Quando viu que ele estava se dissolvendo de prazer, Marianne parou, imaginando que ao se ver privado de algo tão bom ele talvez mudasse de atitude e procurasse o prazer completo. A princípio ele não se mexeu. Seu sexo tremia todo, era óbvio que estava atormentado de prazer. De repente ela espantou-se ao ver sua mão movendo-se para o próprio sexo como se tivesse decidido satisfazer-se sozinho.

Marianne ficou desesperada. Empurrou a mão dele, tomou seu membro outra vez na boca e com ambas as mãos pôs-se a acariciá-lo. Pouco tempo depois ele gozava. Inclinando-se sobre ela com muita gratidão e ternura, ele murmurou:

— Você é a primeira mulher, a primeira mulher, a primeira mulher.

Fred mudou-se para o estúdio. Mas, como Marianne explicou, não progrediu a partir da aceitação de suas carícias. Os dois se deixavam ficar deitados na cama, nus, e Fred agia como se fosse totalmente assexuado. Recebia, excitadíssimo, os tributos dela, mas Marianne ficava insatisfeita. Tudo o que fazia era colocar as mãos entre suas pernas. Quando o acariciava com a boca, as mãos dele abriam-lhe o sexo como se procurasse o pistilo de uma flor. Sentindo as contrações, gostava de fazer-lhe carícias, ao que Marianne era capaz de reagir, mas que na verdade não satisfazia a fome que sentia do seu corpo.

E ficava ansiando por ser possuída de modo mais completo, por ser penetrada.

Ocorreu-lhe mostrar a Fred os originais que datilografava. Achou que isso talvez o excitasse. Os dois se deitavam e liam juntos. Fred lia alto, com prazer. Demorava-se nas descrições. Lia e relia e de novo tirava a roupa e se exibia; mas fosse qual fosse o seu grau de excitação, não ia além disso.

Marianne queria que ele fizesse psicanálise. Contou-lhe quanto a análise a liberara. Fred ouviu com interesse, mas resistiu à idéia. Marianne também lhe sugeriu que escrevesse, registrando suas experiências.

A princípio Fred se mostrou tímido, envergonhado. Depois, quase sub- repticiamente, começou a escrever, escondendo o papel quando Marianne aparecia, usando um toco de lápis, agindo como se se tratasse de uma confissão criminal. Foi por acaso que Marianne leu o que ele escrevera.

Fred estava precisando desesperadamente de dinheiro. Já tinha empenhado sua máquina de escrever, seu sobretudo, seu relógio, e nada mais tinha que pudesse empenhar.

Não podia continuar vivendo à custa de Marianne. Mesmo trabalhando até tarde da noite, com os olhos vermelhos de tanto escrever à máquina, Marianne não conseguia mais que o dinheiro do aluguel e um mínimo para a comida. Assim, Fred procurou o colecionador a quem Marianne entregava seu trabalho e ofereceu o que escrevera, pedindo desculpas por estar escrito à mão. O colecionador, encontrando dificuldades para ler, inocentemente deu o manuscrito para Marianne datilografar.

Foi assim que Marianne se viu com o manuscrito do amante nas mãos. Leu- o avidamente antes de datilografá-lo, incapaz de controlar sua curiosidade, em busca do segredo da passividade de Fred. Eis o que ela leu:

"A vida sexual é quase sempre um segredo. Todos conspiram para que seja assim. Até mesmo os melhores amigos não contam uns aos outros os verdadeiros detalhes de sua vida. Marianne e eu vivemos em uma estranha atmosfera. Só falamos, lemos e escrevemos a respeito de sexualidade".

"Lembro-me de um incidente de que tinha me esquecido completamente. Aconteceu quando eu tinha cerca de quinze anos e era inocente. Minha família alugara em Paris um apartamento com muitas varandas e portas que davam para elas. No verso, eu costumava andar nu pelo meu quarto. Uma vez, eu estava fazendo isso com as portas abertas, quando observei que havia uma mulher me olhando de um apartamento fronteiro ao meu".

"Ela estava sentada em sua varanda, me observando, sem demonstrar que estivesse sentindo a menor vergonha, e algo fez que eu resolvesse fingir que não havia percebido sua presença. Temia que ela fosse embora se percebesse que eu tomara conhecimento dela".

"E ser observado por ela me deu o mais extraordinário dos prazeres. Eu andava de um lado para o outro ou ficava deitado na cama. Ela jamais se movia. Repetimos a cena todos os dias durante uma semana, mas no terceiro dia tive uma ereção".

"Poderia ela perceber a mudança ocorrida em mim, de onde estava?

Poderia ver? Comecei a me tocar, sempre sentindo a total atenção dela para cada gesto meu. Senti-me envolto em uma onda de deliciosa excitação. Podia ver suas formas luxuriantes. Encarando-a diretamente, fiquei brincando com meu sexo até que acabei gozando".

"A mulher não tirava os olhos de mim. Será que me faria algum sinal? Ficaria excitada por me observar? Tinha que ficar. No dia seguinte aguardei com ansiedade que ela aparecesse. Ela o fez na mesma hora de sempre. Daquela distância eu não poderia dizer se ela estava sorrindo ou não. Deitei-me na cama de novo".

"Não tentamos nos encontrar na rua, embora fôssemos vizinhos. Tudo de que me lembro é o prazer que eu sentia, um prazer tão grande como nenhum outro que jamais sentira em toda a minha vida. Basta recordar esses episódios que até hoje me sinto excitado. De certa forma, Marianne me dá o mesmo prazer. Gosto do jeito faminto como ela me olha, me admirando, me adorando."

Quando Marianne leu isso, percebeu que jamais conseguiria vencer a passividade de Fred. Chegou a derramar umas lágrimas, sentindo-se traída como mulher. Mesmo assim ela o amava. Ele era sensível, gentil, terno. Nunca magoava seus sentimentos. Não era exatamente um tipo protetor, mas em compensação era fraternal. Ele a tratava como a artista da família, respeitava sua pintura, carregava suas telas, sempre querendo ser útil.

Marianne trabalhava como pintora em uma classe de pintura. Ele gostava de acompanhá-la até a sala, todas as manhãs, sob o pretexto de carregar suas telas. Mas logo Marianne viu que ele tinha outro objetivo. Fred estava apaixonadamente interessado nos modelos. Não como pessoas humanas, mas em sua experiência de posar. Ele também queria ser modelo.

Marianne se rebelou. Se Fred não sentisse tanto prazer sexual em ser olhado, ela não teria se importado. Mas sabendo disso, sentia como se ele estivesse querendo se entregar por inteiro a toda a turma. Não podia suportar essa idéia. Brigou com ele.

Mas Fred estava firmemente decidido e finalmente foi aceito. Naquele dia, Marianne recusou-se a comparecer à aula.ficou em casa e chorou como uma mulher ciumenta quando sabe que o amante está com outra. Teve um ataque de fúria. Rasgou todos os desenhos que fizera dele, como se

quisesse arrancar sua imagem dos olhos, aquela imagem de um corpo dourado, macio, perfeito. Mesmo que os estudantes fossem indiferentes aos modelos, ele estaria reagindo aos seus olhares, e Marianne não podia tolerar uma coisa dessas.

Esse incidente começou a separá-los. Parecia que quanto mais prazer ela lhe dava, mais ele sucumbia ao vício e procurava satisfazê-lo sem cessar.

Em pouco tempo a relação de ambos estava completamente estremecida. E Marianne foi deixada em paz para datilografar os nossos textos eróticos.

A mulher velada

George foi uma vez a um bar sueco de que gostava e sentou-se a uma mesa, disposto a ter uma noite agradável. Notou que na mesa ao lado já se encontrava um casal muito elegante e distinto; o homem tinha aparência cortês e estava vestido com grande apuro; a mulher, toda de preto, tinha o rosto radiante coberto por um véu e estava cheia de jóias brilhantemente coloridas. Os dois sorriam para ele. Mas nada disseram um ao outro, como se já fossem velhos conhecidos e não mais precisassem falar.

Os três ficaram observando o movimento do bar — casais que bebiam juntos, uma mulher que tomava seu drinque sozinha, um homem em busca de aventuras — e todos pareciam estar pensando nas mesmas coisas.

Finalmente o homem bem vestido entabulou conversação com George, que assim teve uma chance de observar melhor a mulher e descobrir que ela era ainda mais bela do que pensara. Mas justamente quando esperava que ela participasse da conversa ouviu-a dizer algumas palavras para seu companheiro —palavras cujo sentido não pôde apreender — e viu-a sair.

George sentiu-se frustrado. Lá se fora uma noite que prometia ser agradável. Além disso, não tinha muito dinheiro, de sorte que não podia convidar o homem para tomar uma bebida em sua companhia e descobrir algo a respeito da misteriosa mulher velada. Contudo, para sua surpresa, foi o homem que se virou para ele e disse:

— Gostaria de tomar um drinque comigo?

George aceitou. A conversa dos dois girou em torno de hotéis no sul da França até a confissão feita por George de que estava muito necessitado de dinheiro. A resposta de seu interlocutor deu a entender que era extremamente fácil consegui-lo.

Mas não explicou como. Instou para que George lhe fizesse mais algumas confissões.

Ora, George tinha uma fraqueza comum a muitos homens:

quando seu estado de espírito era expansivo, adorava narrar suas conquistas. Foi o que fez, em meias palavras. Deu a entender que assim que punha o pé na rua aparecia-lhe alguma aventura, que jamais se vira sem perspectiva de uma noitada ou de uma mulher interessante.

Seu companheiro limitava-se a ouvir e sorrir.

Quando George acabou de falar, o outro homem disse:

— Era exatamente isso o que eu esperava de você. Você é o sujeito que eu estava procurando. O caso é que estou às voltas com um problema delicadíssimo. Algo extremamente raro. Não sei se você já esteve envolvido com mulheres difíceis, neuróticas. Não? Dá para deduzir isso de suas histórias. Pois bem, isso me acontece com freqüência. Talvez eu as atraia.

Agora, por exemplo, estou em uma situação que não poderia ser mais complicada. Nem sei como achar uma saída. Preciso de sua ajuda. Você disse que precisa de dinheiro. Pois bem, posso lhe sugerir um modo bastante agradável de ganhar algum.

Ouça com atenção. Existe uma mulher que é riquíssima e verdadeiramente linda; para ser mais preciso, eu deveria dizer que ela é perfeita. Poderia ser devotadamente amada por qualquer homem que lhe agradasse, poderia se casar com quem bem entendesse. Mas, por um perverso acidente de sua natureza, ela só gosta do desconhecido.

— Mas todo mundo gosta do desconhecido — contrapôs George, pensando imediatamente em viagens, encontros inesperados, situações românticas.

— Não, não do modo que ela gosta. Essa mulher só se interessa por homens a quem nunca tenha visto e que nunca voltará a ver. Por esse homem será capaz de fazer qualquer coisa.

George estava ardendo de desejo de perguntar se a mulher a quem se referiam era a mesma que estivera sentada perto dele. Mas não se atreveu. O homem lhe parecia um tanto desconcertado e infeliz por ter de contar aquelas coisas, e continuou, como se cumprisse uma pesada missão:

— Tenho a obrigação de cuidar da felicidade dessa mulher. Eu seria capaz de fazer qualquer coisa por ela. Devotei minha vida inteira a satisfazer

seus caprichos.

— Compreendo — comentou George. — Eu seria capaz de me sentir da mesma forma.

— Agora — prosseguiu o elegante estranho —, se você quiser me acompanhar, talvez resolva suas dificuldades financeiras por uma semana e, paralelamente, satisfaça também o seu desejo de aventuras.

George corou de prazer. Ambos deixaram o bar juntos. O homem acenou para um táxi. No carro, deu cinqüenta dólares a George e lhe disse que seria obrigado a vendá-lo, pois George não deveria ver a casa para onde estava indo, nem a rua, já que nunca deveria repetir aquela experiência.

George estava morrendo de curiosidade, assombrado por visões da mulher velada, vendo a cada instante seus lábios ardentes e seus olhos brilhantes por trás do véu. Mas tinha gostado mais de seus cabelos. Gostava de uma cabeleira basta, emoldurando um rosto bonito; era uma de suas paixões.

A corrida não foi muito longa. E George submeteu-se de boa vontade a todo aquele mistério. A venda foi retirada de seus olhos pouco antes de saltar do táxi, para não chamar a atenção do motorista ou do porteiro, mas o estranho contara, muito sabiamente, com o brilho das luzes da entrada. Elas cegaram George por completo, e ele não pôde ver nada além de fortes lâmpadas e espelhos.

George foi conduzido a um dos ambientes mais suntuosos que jamais tinha visto — tudo branco e espelhado, com plantas exóticas, móveis artísticos, colchas de damasco e um tapete tão grosso que amortecia por completo o barulho de seus passos.

Foi levado de um cômodo para outro, de tonalidades diferentes e igualmente espelhados, de modo que acabou por perder completamente o senso de direção. Quando chegaram ao último aposento, George deixou escapar um leve suspiro.

Havia naquele quarto uma cama com dossel colocada sobre um estrado. Diversas peles tinham sido espalhadas pelo chão; as janelas tinham sido decoradas com vaporosas cortinas brancas, e, por toda parte, espelhos e mais espelhos. Ainda bem que não o aborrecia ver tantas reproduções de

si próprio, infinitas reproduções de um homem de boa aparência a quem o mistério daquela situação dera um ar alerta, de expectativa, que nunca tivera. O que poderia significar tudo aquilo? Não teve tempo de formular mentalmente a pergunta.

A mulher que estivera no bar apareceu, e, no mesmo instante, o homem que o trouxera sumiu como que por encanto.Ela havia mudado de roupa. Usava um impressionante vestido de cetim que lhe deixava os ombros de fora, preso apenas por um franzido no busto. George teve a impressão nítida de que o vestido cairia a qualquer instante, deixando-a totalmente nua, e também que a pele de seu corpo seria tão macia e brilhante quanto o cetim do vestido.

George teve de se conter. Ainda não podia acreditar que aquela linda mulher estivesse realmente se oferecendo a ele, um completo estranho.

Também sentia-se um tanto encabulado. O que ela esperava dele? O que buscaria? Seria por acaso uma ninfomaníaca?

Teria apenas aquela noite para encantá-la com tudo o que sabia. Nunca mais a veria. Ou conseguiria descobrir o segredo de sua natureza e assim poderia possuí-la mais de uma vez? Gostaria de saber quantos homens já teriam entrado naquele quarto.

A mulher era extraordinariamente bela. Seus olhos eram negros e amendoados, sua boca cintilava, sua pele refletia a luz. O corpo era perfeitamente escultural. Tinha as linhas bem definidas das magras, amaciadas pelas curvas necessárias nos lugares corretos.

A cintura fina aumentava a proeminência dos seios. Suas costas pareciam as de uma dançarina, e cada ondulação destacava mais a generosidade de seus quadris. Ela sorriu para George, com os lábios carnudos entreabertos. Ele aproximou-se e colou a boca naqueles ombros nus tão perfeitos. Nada poderia ser mais macio do que sua pele. Que tentação de puxar o frágil vestido e desnudar os seios que pareciam querer saltar de sob o tecido! Que vontade de despi-la imediatamente!

Mas George sentiu que aquela mulher não poderia ser tratada de modo tão sumário, que ela merecia sutileza e habilidade. Nunca em toda a sua vida ele pensou tanto em cada gesto, nunca agira com tanta ciência e arte.

Mostrava-se determinado a um longo cerco e ela não dava sinais de pressa. Demorou-se sobre seus ombros nus, inalando, deliciado, o perfume maravilhoso que se desprendia daquele corpo.

Poderia tê-la possuído ali mesmo e naquele instante, tão poderoso era o seu encanto, mas queria que ela primeiro fizesse qualquer sinal indicando que desejava ser excitada. Não queria senti-la dócil ou apática ao contato de seus dedos.

Ela parecia surpreendentemente frígida, obediente, mas sem emoção. Não havia uma só agitação em sua pele. Embora sua boca estivesse entreaberta para o beijo, ela não reagiu com ardor.

Ambos ficaram parados perto da cama, sem se falar. Ele passou a mão pelas curvas de seu corpo, como se quisesse se familiarizar com ele. Ela não reagiu, nem se moveu. George deixou-se escorregar vagarosamente até cair de joelhos enquanto lhe beijava e acariciava o corpo. Pelo tato podia dizer que estava nua por sob o vestido. Levou-a até a beira da cama e ela se sentou. Tirou-lhe os sapatos e segurou seus pés.

Ela sorriu, delicada e convidativamente. George beijou-lhe os pés, e suas mãos subiram por baixo do vestido comprido até a pele macia das coxas.

Ela libertou os pés e com eles pressionou o peito de George, cujas mãos voltaram a acariciar suas pernas por sob o vestido. Se a pele dela era tão macia nas coxas, como seria então onde é sempre macia, nas proximidades do sexo? As coxas estavam firmemente juntas, para que George não continuasse sua exploração. Ele se ergueu e depois debruçou-se sobre ela a fim de beija-la, forçando-a a se reclinar. Quando ela se deitou, suas pernas se abriram ligeiramente.

George continuou a acariciar-lhe todo o corpo, querendo incendiar cada poro com o toque ardente de suas mãos, procurando estimulá-la dos ombros aos pés, querendo prepará-la para o momento em que escorregaria a mão por entre suas pernas, mais abertas então a um ponto que quase poderia alcançar-lhe o sexo.

Com os beijos, ela se despenteara e o vestido escorregara, descobrindo-lhe parcialmente o busto. George acabou de puxá-lo com a boca, revelando os seios que imaginara, tentadores, firmes, imaculados, e com os bicos cor-de-

rosa semelhantes aos de uma menina.

A submissão dela quase fazia George desejar machucá-la, de modo a conseguir estimulá-la. As carícias o haviam excitado, mas não a ela. Mas não era possível. Seu corpo prometia muita sensualidade. A pele era tão sensível; a boca, tão generosa! Impossível que ela nada sentisse. Continuou a acariciá-la sem parar, de modo sonhador, fingindo não ter a menor pressa, esperando que a chama se acendesse.

Dezenas de espelhos os cercavam, repetindo a imagem de uma linda mulher deitada, com o vestido puxado para baixo do busto, os pés perfeitos e nus balançando para fora da cama, as pernas ligeiramente abertas.

Tinha que despi-la por completo, deitar-se ao seu lado, sentir-lhe todo o corpo colado ao seu. Começou a baixar o vestido e ela o ajudou. Seu corpo apareceu como o de Vênus, nua, saindo do mar. Ergueu-a um pouco para deitá-la por inteiro na cama, e nem por um instante parou de beijá-la em todas as partes.

Foi então que aconteceu algo estranho. Quando George se inclinou para regalar os olhos com a beleza de seu sexo, ela estremeceu e ele quase gritou de alegria.

Ela murmurou:

— Tire a roupa.

Ele se despiu. Nu, conhecia sua força. Sentia-se mais à vontade desnudo do que vestido, porque fora atleta, nadara, fizera muitas caminhadas, praticara montanhismo. Viu então que poderia agradá-la.

Ela o contemplou.

Teria gostado? Ao se deitar, encontrou-a reagindo melhor. Não poderia dizer com certeza. Já a desejava tanto que não podia mais esperar para tocá-la com a extremidade de seu sexo, mas ela o deteve. Queria antes beijá-lo e acariciá-lo, e se pôs a fazê-lo com tanta ansiedade e abandono, que o deixou inteiramente à vontade para, por sua vez, acariciá-la e beijá- la onde bem desejasse.

E George cedeu à deliciosa tentação de explorar e tocar cada canto de seu corpo. Abriu a entrada de seu sexo com dois dedos, e, excitados, seus olhos se deleitaram no delicado fluxo de mel, nos pêlos cacheados tão sedosos. A boca de George ficou cada vez mais ávida, como se ela própria fosse um órgão sexual capaz de conduzi-lo a um patamar de prazer absolutamente desconhecido se ele continuasse a acariciá-la. E quando, presa de tão deliciosa sensação, George mordeu-a, sentiu-a de novo estremecer de prazer. Então afastou-a de seu sexo, temendo que ela pudesse atingir o orgasmo simplesmente por beijá-lo, acabando por frustrá-lo em seu desejo de sentir-se dentro daquele corpo maravilhoso. Era como se ambos tivessem se tornado vorazmente famintos um da carne do outro, e foi assim que suas bocas se confundiram, que suas línguas se misturaram com sofreguidão.

Ela estava excitadíssima. A atuação lenta de George parecia ter, finalmente, surtido efeito. Seus olhos cintilavam, sua boca não podia se afastar do corpo dele. Finalmente ele a penetrou, quando ela se ofereceu, abrindo a vulva com os dedos adoráveis, como se não pudesse esperar mais. Mesmo nessa hora os dois se contiveram sustando seu prazer. Ela sentiu George em silêncio, contida.

De repente apontou para um dos espelhos e disse, rindo:

— Olhe só, até parece que não estamos fazendo amor... como se eu estivesse apenas sentada em seus joelhos. E você, seu tratante, está todo dentro de mim e nem estremece.

Ah, não posso suportar mais isso, esse fingimento, como se eu fosse oca. Estou me sentindo queimar por dentro. Mexa-se agora, mexa-se!

E se atirou sobre ele para poder girar em torno do seu pênis ereto, conseguindo com tão exótica dança tanto prazer que chegou a gritar. Ao mesmo tempo, um relâmpago de prazer cortou ao meio o corpo de George.

Apesar da intensidade com que haviam feito amor, ela não lhe perguntou o nome quando ele saiu, ou tampouco lhe pediu que retornasse. Deu-lhe um rápido beijo nos lábios e mandou-o embora. Meses depois a lembrança daquela noite ainda o perseguia e ele não foi capaz de repetir a mesma experiência com nenhuma outra mulher.

Um dia encontrou um amigo que acabara de ser regiamente pago por uns artigos que escrevera e que o convidou para um drinque. No bar, ele contou a George a história espetacular de uma cena que tinha testemunhado. Estava gastando dinheiro a rodo em um bar quando um cavalheiro de aparência muito distinta o abordou e sugeriu-lhe um agradável passatempo: observar uma magnífica cena de amor. Como, por acaso, o amigo de George era um voyeur convicto, a sugestão havia sido aceita e pronto. Ele fora levado a uma casa misteriosa onde o esconderam em um quarto escuro de onde vira uma ninfomaníaca fazer amor com um homem especialmente bem-dotado e potente.

O coração de George parou de bater.

— Descreva essa mulher — pediu ele.

Seu amigo descreveu a mulher com quem George fizera amor, até mesmo o vestido de cetim. Descreveu também a cama com dossel, os espelhos, tudo. Pagara cem dólares pelo espetáculo, mas valera a pena, pois tinha durado algumas horas.

Pobre George. Durante meses a fio ficou desconfiado de todas as mulheres.

Não podia acreditar em tanta perfídia, em tamanha capacidade de fingir. George ficou obcecado pela idéia de que todas as mulheres que o convidavam para seu apartamento estavam escondendo um espectador atrás de alguma cortina.

Elena

Enquanto esperava o trem para Monteux, Elena examinava as pessoas que a cercavam na plataforma. Toda viagem lhe despertava a mesma curiosidade e esperança que se sente diante de uma cortina que é erguida em um teatro, a mesma expectativa e ansiedade.

Separou mentalmente vários homens com quem gostaria de conversar, perguntando-se se eles iriam viajar ou se estariam presentes apenas para se despedir de outros passageiros. Seus anseios eram vagos, poéticos. Se alguém lhe perguntasse o que estava esperando, poderia muito bem responder: "Le merveilleux". O tipo da coisa imprecisa, que não se originava de qualquer região precisa de seu corpo. Era verdade o que alguém lhe dissera depois de ter criticado um escritor que conhecera: "Você não pode vê-lo como ele realmente é, você não é capaz de ver ninguém com seu rosto e sua verdadeira personalidade. Sempre se sentirá desapontada porque sempre estará esperando por um certo alguém.

Sim, ela estava esperando que aparecesse alguém muito especial, toda vez que uma porta se abria, sempre que ia a uma festa, que se aproximava de qualquer grupo de pessoas, quando entrava em um café ou em um teatro.

Nenhum dos homens que selecionara como companhias desejáveis para sua viagem tomou o trem. Restava-lhe o livro que trouxera: O amante de Lady Chatterley.

Tempos depois, Elena de nada mais se lembraria a respeito daquela viagem, exceto uma sensação de calor no corpo todo, como se tivesse bebido uma garrafa de vinho, e a imensa raiva que sentiu com a descoberta de um segredo que lhe pareceu ser criminosamente oculto de todo mundo. Em primeiro lugar, descobriu que jamais conhecera as sensações descritas por Lawrence. Em segundo, que era esse fato a razão de todos os seus anseios. Algo criara dentro dela um estado de perpétua defesa contra as possibilidades de experiência, um impulso de fugir que a retirava das cenas de prazer onde poderia se expandir. Por muitas vezes atingira esse limiar, mas fugira. E só podia culpar a si própria pelo que perdera e ignorara.

Era a mulher do livro de Lawrence que se escondia dentro dela, finalmente exposta e sensibilizada, como que preparada por uma infinidade de carícias para a chegada de alguém.

Foi uma nova Elena que saltou do trem em Caux. Não era lá que gostaria de começar sua viagem. Caux ficava no topo de uma montanha, isolada, debruçada sobre o lago Léman. Era primavera, a neve estava derretendo e o trem subia com dificuldade a montanha. Elena sentiu-se irritada com sua lentidão, com os gestos calmos dos suíços, os movimentos vagarosos dos animais, a paisagem estática e pesada, enquanto suas emoções jorravam como torrentes dentro de seu corpo.

Não planejava ficar lá por muito tempo. Demorar-se-ia somente até que seu novo livro estivesse pronto para ser publicado.

Da estação ela foi caminhando até um chalé que parecia uma casa de conto de fadas. A mulher que abriu a porta sem dúvida parecia uma bruxa. Primeiro encarou Elena com seus olhos negros como carvão, e depois convidou-a a entrar. Elena teve a impressão de que tudo na casa havia sido construído expressa-mente para aquela mulher, com as portas e a mobília menores do que o usual. Não era só impressão, porque a mulher se virou para ela e disse:

— Cortei as pernas das mesas e das cadeiras. Gosta de minha casa? Eu a chamo de Casutza — "casinha", em romeno.

Elena tropeçou numa pilha de sapatos de neve, casacos, gorros de pele, capas e bastões, que se achava perto da entrada. Eram coisas que tinham caído do interior do armário e haviam sido deixadas no chão. A louça do café da manhã ainda estava sobre a mesa.

Os sapatos da bruxa pareciam de madeira, pelo barulho que fizeram quando ela subiu a escada. Sua voz era grave, e seu buço era o de um rapaz que estivesse entrando na adolescência.

Ela mostrou a Elena aquele que seria o seu quarto. Dava para uma varanda, limitada por divisões de bambu e que acompanhava toda a extensão do lado ensolarado da casa, de frente para o lago. Logo Elena estava se expondo ao sol, embora detestasse banhos de sol. Deixavam-na excitada e extremamente cônscia do próprio corpo. De vez em quando

cedia à tentação e se acariciava. Depois, fechou os olhos e recordou algumas cenas de O amante de Lady Chatterley.

Nos dias seguintes ela empreendeu longas caminhadas. Chegava sempre atrasada para o almoço. Então Mme Kazimir lhe dirigia um olhar de ódio e não falava enquanto servia a comida. Todos os dias apareciam pessoas para ver se Mme Kazimir efetuaria o pagamento da hipoteca da casa. Ameaçavam vendê-la. Elena não tinha dúvidas de que se ela perdesse a casa, sua casca protetora, seu único abrigo, morreria. Não obstante, ela não aceitava hóspedes com quem não simpatizasse e recusava-se a aceitar homens.

Finalmente ela consentiu em ficar com uma família — marido, mulher e uma menina — que chegou certa manhã vinda diretamente da estação, cativada pela fantástica aparência da Casutza. Pouco tempo depois, os três estavam acomodados na varanda ao lado da de Elena, tomando seu café da manhã ao sol.

Um dia Elena encontrou o homem, que caminhava sozinho na direção do pico da montanha que ficava por trás do chalé.

Ele andava bem depressa. Sorriu para ela quando passou, e prosseguiu como se fosse perseguido por mil inimigos. Ele tinha tirado a camisa para pegar sol, e Elena pôde ver um magnífico torso de atleta já bronzeado. A cabeça dele era jovem e alerta, mas coberta por cabelos grisalhos. Não poderia dizer que seus olhos fossem totalmente humanos. Tinham a expressão fixa e hipnótica de um domador de animais, algo de muito autoritário e violento. Elena vira expressão semelhante nos cafetões que ficavam nas esquinas de Montmartre, com suas capas e seus xales brilhantes coloridos.

Exceto os olhos, o homem era um aristocrata. Seus movimentos eram jovens e inocentes. Ele oscilava um pouco quando caminhava, como se estivesse meio bêbado. Toda a sua força se concentrou no olhar que dirigiu a Elena, mas depois sorriu inocente e graciosamente, e se foi. Elena foi detida por aquele olhar e quase ficou furiosa com a ousadia nele contida. Mas seu sorriso dissolveu o cáustico efeito do olhar, deixando-a às voltas com emoções que não saberia definir. Resolveu voltar.

Quando chegou à Casutza, não estava certa do que queria. Pensou em ir

embora. O desejo de fugir já estava tomando corpo, e por isso soube reconhecer que estava enfrentando um perigo. Pensou em retornar a Paris. Acabou ficando.

Um dia o piano, que até então estivera enferrujando no andar térreo, começou a produzir música. As notas ligeiramente desafinadas lembravam pianos de pequenos bares enfumaçados. Elena sorriu. O estranho estava se divertindo. Na verdade, tocava de acordo com a natureza do piano, produzindo um som completamente estranho à aparência pequeno- burguesa e decrépita do instrumento, em nada semelhante ao conseguido antes por meninas suiças de tranças compridas.

De repente a casa ficou alegre, e Elena teve vontade de dançar. O piano parou, mas não antes de lhe dar corda, como se ela fosse uma boneca mecânica. Sozinha na varanda, ela se virou na ponta dos pés, como uma bailarina. E, inesperadamente, Elena ouviu uma voz masculina bem próxima dizer:

— Afinal de contas há gente viva nesta casa!

Ele riu. Estava fitando-a calmamente através da cerca de bambu. Elena, ao vê-lo, lembrou-se de um animal aprisionado em uma jaula.

— Não quer sair para andar um pouco? — perguntou ele.

— Acho que este lugar é um verdadeiro mausoléu. A Casa da Morte. Mme Kazimir é a Grande Petrificadora. Vai nos transformar em estalactites. Teremos permissão para chorar uma lágrima por hora, pendurados no teto de alguma caverna. Lágrimas de estalactite.

E assim Elena e seu vizinho foram passear. Quando saíram, a primeira coisa que ele disse foi:

— Você tem o hábito de regressar, iniciar uma caminhada e regressar. Isso é mau.

É o primeiro dos crimes contra a vida. Acredito em audácia.

— As pessoas expressam sua audácia de diversos modos — respondeu Elena. — Geralmente eu volto, como você diz. Volto, vou para casa e

escrevo um livro que se transforma na obsessão dos censores.

— Mau emprego das forças naturais.

— Mas eu uso meu livro como dinamite, que coloco onde quero que se dê a explosão, e depois abro meu caminho com ele!

Quando ela pronunciou essas palavras, houve uma explosão em alguma parte da montanha onde estavam construindo uma estrada e os dois riram da coincidência.

— Então você é uma escritora. Pois eu sou um homem que faz de tudo. Sou pintor, escritor, músico e vagabundo. A mulher e a criança foram alugadas por temporada, para salvar as aparências. Fui forçado a usar o passaporte de um amigo que, por sua vez, se viu forçado a me emprestar sua mulher e sua filha. Sem elas eu não estaria aqui. Tenho o dom de irritar a polícia francesa. Mas não assassinei a zeladora do meu prédio, embora devesse tê-lo feito. Ela já me provocou demais. Como tantos outros revolucionários de boca. Tenho apenas exaltado a revolução alto demais em inúmeras noites e no mesmo café.

Um detetive à paisana era um de meus mais ardentes seguidores — seguidores, veja só! Meus melhores discursos são feitos quando estou bêbado.

E ele continuou:

— Você nunca esteve lá, você nunca vai a cafés. A mulher que mais desejamos é a que não podemos encontrar em um café cheio de gente quando estamos procurando por ela, é a que nos obriga a caçá-la e descobrir quem é na verdade por meio dos disfarces de suas histórias.

Seus olhos sorridentes permaneceram fixos em Elena o tempo todo em que ele falava. Tinham eles o exato conhecimento de suas fugas e indefinições, e agiam como um catalisador, mantendo-a presa no lugar em que estava como se tivesse criado raízes. O vento erguia a saia de Elena, transformando-a em uma saia de bailarina, e inflava seus cabelos, preparando-a para velejar para bem longe. Aquele homem tinha ciência da capacidade de Elena de se tornar invisível. Mas sua força era maior, e ele poderia conservá-la presa ao chão durante o tempo que quisesse. Ela só se

viu livre de novo quando virou a cabeça. Embora não estivesse livre para fugir dele.

Após três horas de caminhada, eles se deixaram cair em um monte de folhas de pinheiro. Estavam bem perto de um chalé, e podiam ouvir o som de uma pianola.

Ele sorriu e disse:

— Seria um lugar maravilhoso para passar o dia e a noite. Você gostaria?

Ele deixou que Elena fumasse em silêncio, deitada sobre as folhas. Ela não respondeu. Limitou-se a sorrir.

Foram então caminhando até o chalé e pediram uma refeição e um quarto, para onde a refeição deveria ser levada. Ele ordenou tudo com tranqüila eficiência, não deixando quaisquer dúvidas a respeito do que desejava. Seu jeito decidido em pequenas coisas como aquela deu a Elena a impressão de que seria igualmente capaz de afastar todos os obstáculos que prejudicassem seus mais urgentes desejos.

Não estava tentada a retornar, a fugir dele. Sentia crescendo dentro de si uma poderosa onda de excitação; parecia estar prestes a atingir um pináculo de emoções onde seu verdadeiro eu seria revelado definitivamente, fazendo-a se entregar a um estranho. Não sabia sequer o seu nome, nem ele o dela. O modo como ele a olhava já era como uma penetração. Enquanto subiam a escada, Elena tremia.

Quando se viram sozinhos no quarto com a imensa cama de madeira trabalhada, o primeiro gesto dela foi ir até a varanda. Ele a seguiu. Sabia que o primeiro ato dele seria algo bem possessivo, de que não poderia fugir. Ela aguardou o que estava por vir. Mas o que aconteceu não tinha esperado.

Não foi Elena quem hesitou, e sim aquele homem cuja autoridade a levara até aquela casa. Repentinamente ele parou diante dela sem jeito, incerto, e disse, com um sorriso que a desarmou:

— Você deve saber, é claro, que é a primeira mulher de verdade que já conheci, uma mulher que eu poderia amar. Obriguei-a a vir até aqui. Quero

saber agora se é isso mesmo o que deseja. Eu...

Ao tomar conhecimento de sua timidez, ela se viu envolvida por uma onda de ternura, tão grande como jamais experimentara. A força dele estava cedendo diante dela, mostrava-se hesitante antes que fosse transformado em realidade o sonho que crescera entre eles. A onda de meiguice engolfou-a, e foi Elena quem se adiantou para ele e ofereceu-lhe a boca.

Então ele a beijou, colocando ambas as mãos em seus seios. Ela sentiu-lhe os dentes. Ele beijou-a no pescoço, onde as veias palpitavam, e na garganta, com as mãos em volta de seu pescoço como se quisesse separar sua cabeça do resto do corpo. O corpo de Elena dobrou-se presa do desejo de ser possuída integralmente. Enquanto a beijava, ele ia se despindo.

As roupas foram caindo a seus pés e eles continuaram se beijando. Depois, sem olhar para ela, com a boca ainda em seu rosto, em seu pescoço, em seus cabelos, ele a carregou para a cama.Suas carícias tinham uma estranha qualidade: às vezes eram ternas e suaves, às vezes eram ferozes, como as que ela esperava ao fitá-lo nos olhos, as carícias de um animal selvagem. Havia mesmo algo de animalesco em suas mãos, que ele passava sem parar por todo o seu corpo; foi com elas que segurou seu sexo e os pêlos que o cercavam como se quisesse arrancá-los do corpo de Elena, como se tivesse agarrado grama e terra ao mesmo tempo.

Quando ela fechou os olhos, sentiu que ele tinha muitas mãos que a tocavam por inteiro, e muitas bocas que passavam velozmente por toda a sua pele, com os dentes afiados sempre pegando as partes mais carnudas. Já despido, elese deitou por inteiro sobre Elena. E ela gostou de sentir seu peso, de sentir-se esmagada por ele. Desejava-o soldado a ela, da boca aos pés. Arrepios passavam-lhe pelo corpo. Ele murmurava de vez em quando, dizendo-lhe que levantasse as pernas como nunca tinha feito antes, até que os joelhos tocassem o queixo; ou mandando que se virasse, e abrindo-lhe as nádegas com as mãos.

Finalmente ele a penetrou, mas logo recuou e ficou esperando. Então foi a vez de Elena recuar. Sentou-se, totalmente despenteada e meio tonta, e o viu deitado de costas. Escorregou da cama até que sua boca alcançasse o pênis dele. Começou por beijá-lo em toda a volta. Ele suspirou. O pênis estremecia ligeiramente a cada beijo. Ele não tirava os olhos dela. Suas

mãos estavam sobre a cabeça de Elena e em dado momento ele fez pressão para que sua boca caísse sobre o pênis. A mão continuou sobre sua cabeça enquanto ela se movia para cima e para baixo; então ela deitou-se com um suspiro de prazer intolerável, indo descansar sobre seu estômago. Ele se deixou ficar com os olhos fechados, saboreando a alegria de Elena.

Ela não podia fitá-lo do modo como ele o fazia. Sua visão estava obscurecida pela violência de seus sentimentos. Ao fitá-lo, sentiu-se magneticamente atraída a tocar de novo sua carne, com a boca ou as mãos, ou com todo o corpo. Esfregou o corpo inteiro de encontro ao dele, com a exuberância de um animal, sentindo intenso prazer com aquela fricção. Depois caiu ao seu lado e deixou-se ficar deitada, tocando sua boca como se fosse cega e quisesse descobrir-lhe o formato dos lábios, do nariz, a textura de sua pele, o comprimento de seus cabelos. Seus dedos faziam explorações muito de leve, mas de repente ficavam nervosos e penetravam fundo sua carne, machucando-o, querendo se assegurar da realidade de sua presença mediante a violência.

Eram essas as sensações externas de dois corpos que estavam se descobrindo. De tantas carícias os dois ficaram meio drogados. Seus gestos passaram a ser lentos, como em um sonho. As mãos ficaram pesadas. As bocas não mais se fechavam.

Como o mel fluía do interior dela! Ele mergulhou demoradamente os dedos em Elena, depois o pênis e moveu-a para que ela se deitasse sobre ele, com as pernas passadas sobre suas pernas. Quando a penetrou, podia se ver entrando nela.

Elena, da mesma forma, também podia ver tudo. Os dois observaram seus corpos ondulando juntos, procurando o clímax. Ele ficou esperando por ela, observando seus movimentos. Percebendo que Elena não acelerava o ritmo, ele mudou-a de posição, fazendo-a deitar de costas. Esmagou-a com seu peso para possuí-la com mais força, para tocar no fundo de seu ventre. Em pouco tempo ela experimentou a sensação de que novas células despertavam dentro de seu corpo e reagiam à entrada dele, adotando o mesmo movimento rítmico. Seu prazer aumentava cada vez mais e ela teve de acelerar seus movimentos para atingir o orgasmo. Ao notar isso, ele também se movimentou mais rápido e a incitou a gozar com ele, com palavras, com carícias e finalmente com a boca grudada na dela, de modo

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