Edmarachaves 2006
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edmaracosta18 de Maio de 2015

Edmarachaves 2006

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Dissertação de Mestrado - Saúde Pública.
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(Microsoft Word - EDMARA - DISSERTA\307\303O.doc)

1

Universidade Estadual do Ceará

Edmara Chaves Costa

ANIMAIS DE ESTIMAÇÃO: uma abordagem psico-sociológica da concepção

dos idosos

Fortaleza – Ceará 2006

2

______ Costa, Edmara Chaves Animais de estimação: uma abordagem psico-

sociológica da concepção dos idosos. ___2006.

195p. Orientadora: Profa. Dra. Maria Irismar de Almeida Dissertação (Mestrado Acadêmico em Saúde

Pública) – Universidade Estadual do Ceará, Centro de Ciências da Saúde.

1. Animal de estimação 2. Idoso 3. Representações Sociais. I. Universidade Estadual do Ceará, Centro de Ciências da Saúde. CDD:

3

Universidade Estadual do Ceará Edmara Chaves Costa

ANIMAIS DE ESTIMAÇÃO: uma abordagem psico-sociológica da concepção

dos idosos

Dissertação apresentada ao Curso de Mestrado Acadêmico em Saúde Pública do Centro de Ciências da Saúde, da Universidade Estadual do Ceará, como requisito parcial para obtenção do título de Mestre em Saúde Pública. Orientadora: Profa. Dra. Maria Irismar de Almeida

Fortaleza – Ceará 2006

4

U.E.C.E

Universidade Estadual do Ceará _____________________________________________________

Curso de Mestrado Acadêmico em Saúde Pública

FOLHA DE AVALIAÇÃO

Título da dissertação: “ANIMAIS DE ESTIMAÇÃO: UMA ABORDAGEM PSICO- SOCIOLÓGICA NA CONCEPÇÃO DOS IDOSOS” Nome da Mestranda: Edmara Chaves Costa Nome da Orientadora: Profa. Dra. Maria Irismar de Almeida DISSERTAÇÃO APRESENTADA AO CURSO DE MESTRADO ACADÊMICO EM SAÚDE PÚBLICA/CCS/UECE, COMO REQUISITO PARCIAL PARA OBTENÇÃO DO GRAU DE MESTRE EM SAÚDE PÚBLICA, ÁREA DE CONCENTRAÇÃO EM ”SAÚDE E SOCIEDADE”.

BANCA EXAMINADORA

_________________________________________ Profa. Dra. Maria Irismar de Almeida (Orientadora e Presidente) _________________________________________ Profa. Dra. Sheva Maia da Nóbrega (1o membro da banca) __________________________________________ Profa. Dra. Maria Dalva Santos Alves (2o membro da banca)

Data da Defesa em: 23 / 02 / 2006

5

Dedicatória

A Deus, pois é essa dimensão espiritual que nos

impulsiona em todos os momentos da vida.

Ao meu amor, Alexandro, exemplo de perseverança,

organização e força, marido dedicado, amoroso e

responsável.

Ao meu filhinho querido, objeto do amor mais

profundo que um ser humano pode dedicar a outro.

Às três mulheres da minha vida: minha mãe

Deuzinda, minha irmã Larissa, ou “Lá”, como a chamo, e

minha vó Neném [in memorian], pelo cuidado extremo que

me dispensam, pois sempre olham por mim onde quer

que estejam.

Ao meu pai, Edmar, e a meu irmão, Wander, que

nunca me faltaram nas horas em que mais precisei.

Às mulheres do Grupo de Convivência, pelo carinho

maternal que me dispensaram.

6

Agradecimentos

À Universidade Estadual do Ceará por ser um porto seguro, abrindo seus

braços para me receber de volta aos seus bancos sempre que necessito. Fazer

parte dessa realidade acadêmica é, antes de tudo, um privilégio e uma conquista.

À professora doutora Maria Irismar de Almeida, minha orientadora, que

me aceitou como orientanda e possibilitou a realização de um sonho.

À professora doutora Maria Salete Bessa Jorge por ser um exemplo de

fibra, uma guerreira incansável, por ter-me estendido a mão amiga apesar das

atribulações do seu cotidiano. Sua coragem me inspira a procurar forças, mesmo

quando não parece existir mais sequer esperança.

À professora doutora Sheva Maia da Nóbrega que, apesar da distância,

valorizou meu trabalho e o fez tornar-se realidade, que ajudou a transformar carvão

em diamante com doçura e desapego comoventes.

À professora doutora Maria Dalva Santos Alves por ter aceito o desafio de

examinar meu trabalho com grande simpatia.

À minha família por ser meu ego auxiliar, dar-me cobertura, por ocupar as

vagas (não-remuneradas) de pesquisadores auxiliares, equipe de apoio, fonte de

inspiração, torcida organizada, meus fãs, meus ídolos, meus amores, pois foi essa

turma que sofreu comigo, caminhou ao meu lado e resistiu, com dignidade, à minha

ausência diária.

Ao SESC-Fortaleza por abrir suas portas e acolher minha pesquisa.

À equipe do TSI (Trabalho Social com Idosos do SESC) por me

incorporarem à equipe, minimizando, o quanto pôde, o sentimento de “estranho no

ninho” que cerca o encontro com o desconhecido, por ser disponível e alegre apesar

da correria do seu dia-a-dia.

7

Aos professores do Mestrado Acadêmico em Saúde Pública por

compartilharem seus conhecimentos e experiências, por estimularem nossa

curiosidade científica e nos apresentarem as ferramentas para a construção de

novos saberes.

Aos funcionários(as) do Mestrado Acadêmico em Saúde Pública,

especialmente, Mairla, Maria e Cirilo, pela dedicação, simpatia e empenho que

dedicam ao trabalho e aos alunos. O que seria de mim sem o cafezinho da Maria?

Aos meus colegas de curso que experienciaram comigo todas as fases

dessa jornada e, mesmo assim, não perderam o senso de humor, a alegria e

irreverência característicos da turma.

À minha orientadora da graduação, professora Telma Cavalcante

Campos, sem cujo apoio eu sequer teria ingressado no mestrado.

Ao professor Itamar Filgueiras por corrigir minha dissertação de um jeito

como só ele é capaz, mas, acima de tudo, por ser um exemplo de amor à profissão

de mestre.

À CAPES por ter possibilitado, financeiramente, minha dedicação

exclusiva no último ano.

Às mulheres do Grupo de Convivência do SESC-Fortaleza, pela

participação nesse estudo, pelo acolhimento nos meses em que estive lá, uma

intrusa que se sentiu querida nos muitos abraços que recebeu. Sem vocês,

essa pesquisa não se tornaria realidade.

8

RESUMO

Esta pesquisa dedica-se ao estudo das concepções dos idosos sobre os animais de estimação numa perspectiva psico-sociológica. Neste contexto, buscou-se apreender as representações sociais do idoso sobre a convivência com animais de estimação, suas representações em relação aos riscos e benefícios atribuídos a essa convivência, bem como, apreender os processos sociocognitivos que se encontram refletidos nos sentimentos, concepções e atitudes dos idosos frente aos animais de estimação, enquanto representações sociais. O estudo tem como eixo a Teoria das Representações Sociais, sua natureza é, por excelência, qualitativa, mas apresenta duas etapas quantitativas. Foi desenvolvido no Grupo de Convivência do SESC-Fortaleza (Serviço Social do Comércio), tendo como sujeitos 200 mulheres com idade igual ou superior a 60 anos. Em primeiro lugar, utilizou-se o Teste de Associação de Palavras, com as 200 mulheres (100 delas convivem com animais de estimação e 100 não convivem com animais). Os estímulos indutores foram: (1) animal de estimação, (2) riscos da convivência com animais de estimação, (3) benefícios da convivência com animais de estimação, (4) saúde, (5) doença, (6) velhice e (7) si mesma. Em associação com o teste, utilizamos um questionário para obter o perfil sociodemográfico dos grupos, assim como algumas particularidades sobre a convivência com animais de estimação. Subseqüentemente, a partir da entrevista semi-estruturada coletamos os depoimentos de 20 mulheres que convivem com animais de estimação com a pergunta inicial: ”O que representa para você o animal de estimação?”. O desenho-estória com tema foi a técnica auxiliar empregada na coleta dos dados qualitativos. As palavras evocadas no TAL sofreram processamento pelo software TRI-DEUX-MOTS, sendo submetidas à Análise Fatorial de Correspondência. Os dados do questionário sociodemográfico foram processados no pacote estatístico SPSS, sendo, posteriormente, organizados em quadros, tabelas e figuras. As narrativas oriundas das entrevistas e do desenho-estória com tema foram analisadas pela técnica de análise de conteúdo do tipo categorial. As representações apreendidas foram distribuídas em cinco categorias: quando a solidão se revela; benefícios da convivência com animais de estimação; riscos da convivência com animais de estimação; antropoformização do animal de estimação e perda do animal de estimação. Observou-se, na execução das várias técnicas e instrumentos, um enaltecimento dos benefícios da convivência com o animal de estimação, seguido por momentos de silêncio e negação, num posicionamento defensivo, em relação aos riscos dessa convivência. São mulheres solitárias, carentes de suporte social que ancoram seu adoecimento em termos como desânimo e dor. Nesse contexto, o animal de estimação é investido de papel social, fonte de conforto afetivo, mas não de cura. Palavras-chave: Idoso; Animal de estimação; Representações sociais.

9

ABSTRACT

This research is dedicated to the study of elderly conceptions about pets in a psico- socialogical perspective. In this context, the purposes of the search were apprehend the social representations of elderly people about the sociability with pets, their representation about risk and benefits of this close association and the sociocognitive processes that reflect feelings, conceptions and attitudes of the elderly about pets. It’s a qualitative search and its theoretical approach was the Social Representation Theory and the use of the multi- methods. Its investigation field was SESC, an elderly people sociability center. The people who take part in the research were two hundred women aged 60 years-old or more. First, it was used the Test of Free Association of words with the 200 subjects (100 that live together pets and 100 that don’t live together them). The inductor stimulus were: (1) pets, (2) risks of the close association with pets, (3) benefits of the close association with pets, (4) health, (5) disease, (6) old age, and (7) “self”. In association with the test, it was done a socialdemografic profile questionnaire. Subsequently, it was applied the interview technique with 20 women who live together pets using the question: “what pets represents to you?” It was used the drawing-story with theme technique to complement the qualitative data collection. The evoked words in the Test of Free Association were processed in the Tri-Deux- Mots software and submitted to the Factorial Correspondence Analyze. The socialdemografic questionnaire data were processed in SPSS statistic package and organized in tables and figures. The interviews and drawing-story narratives were analyzed by the content analysis technique (categorical kind). The apprehended representations were organized in five categories: when the loneliness become unveiled, benefits of the close association with pets, pets anthropophormization and pets lost. It was observed, with the multi-method techniques, that the benefits of pet close association are exalted and the risks are kept silent and refused. They’re lonely women who need social support an anchor their illness in words like discouragement and pain. In this context, a social role is given to pets, they’re source of affective comfort, but not the cure to emotional problems.

Keywords: Elderly; Pets; Social Representations.

10

SUMÁRIO

Lista de abreviaturas e siglas .......................................................................... 12

Lista de desenhos............................................................................................ 13

Lista de figuras ................................................................................................ 13

Lista de gráficos .............................................................................................. 14

Lista de quadros .............................................................................................. 14

Lista de tabelas ............................................................................................... 15

1 INTRODUÇÃO À TEMÁTICA EM QUESTÃO ............................................. 16

1.1 Aproximação com o objeto de pesquisa ............................................... 18

1.2 Objeto da pesquisa ............................................................................... 20

2 OBJETIVOS DO ESTUDO ........................................................................... 22

3 A LITERATURA ........................................................................................... 23

3.1 O idoso: produto de seus adoecimentos?............................................. 23

3.2 Os riscos e benefícios da convivência do idoso com animais de estimação ....................................................................................................

29

4 REFERENCIAL TEÓRICO: A TEORIA DAS REPRESENTAÇOES SOCIAIS ....................................................................................................

33

5 DESENHO METODOLÓGICO .................................................................... 44

5.1 Natureza do estudo .............................................................................. 44

5.2 Campo da pesquisa .............................................................................. 44

5.3 População Alvo/Amostra ...................................................................... 44

5.4 Mecanismos e estratégias de coleta de dados...................................... 46

5.5 Tratamento dos dados .......................................................................... 49

5.6 Questões éticas .................................................................................... 51

6 ENCONTROS E DESENCONTROS NO ATO DE PESQUISAR ................. 52

7 CONHECENDO OS SUJEITOS DA PESQUISA ......................................... 58

7.1 Particularidades das idosas que convivem com animais de estimação..............................................................................................

67

7.2 Particularidades das idosas que não convivem com animais de estimação..............................................................................................

70

8 ANIMAIS DE ESTIMAÇÃO: Quando os afetos implicam riscos à saúde...........................................................................................................

75

9 ANIMAIS DE ESTIMAÇÃO: O que diz o senso comum?............................. 91

11

9.1 Categoria 1: Quando a solidão se revela (QSR) ................................... 92

9.2 Categoria 2: Benefícios da convivência com o animal de estimação (BCAE) ........................................................................................................

94

9.3 Categoria 3: Riscos da convivência com animal de estimação (RCAE) 105

9.4 Categoria 4: Antropoformização do animal de estimação (AAE) .......... 111

9.5 Categoria 5: Perda do animal de estimação (PAE) .............................. 113

10 DESENHO-ESTÓRIA COM TEMA ............................................................ 117

11 CONSIDERAÇÕES FINAIS ....................................................................... 128

REFERÊNCIAS ............................................................................................... 130

APÊNDICES ................................................................................................... 138

Apêndice I – Termo de Consentimento Livre e Esclarecido............................ 139

Apêndice II – Termo de Consentimento da Instituição.................................... 140 Apêndice III – Teste de Associação de Palavras............................................. 141 Apêndice IV – Questionário de perfil do grupo que convive com animal de

estimação...................................................................................

142

Apêndice V – Questionário de perfil do grupo que não convive com animal de estimação..............................................................................

143

Apêndice VI – Pergunta de partida para a entrevista...................................... 144

Apêndice VII – Dicionário de palavras............................................................. 145

ANEXOS ......................................................................................................... 176 Anexo I – Banco de dados............................................................................... 177 Anexo II – Arquivo IMPMOT do software TRI-DEUX-MOT.............................. 186 Anexo III – Arquivo ANECAR do software TRI-DEUX-MOT............................ 192 Anexo IV – Parecer do Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade

Estadual do Ceará .....................................................................

195

12

LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS

AFC – Análise fatorial de Correspondência

IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística

PMF - Prefeitura Municipal de Fortaleza

SER - Secretaria Executiva Regional

SESC - Serviço Social do Comércio

SPSS - Statiscal Package for the Social Science

TAL - Teste de Associação Livre

TSI - Trabalho Social com Idosos

13

LISTA DE DESENHOS

DESENHO 1 - O gato ................................................................................ 117

DESENHO 2 - O pássaro .......................................................................... 117

DESENHO 3 - A beleza dos pássaros ....................................................... 117

DESENHO 4 - Os brinquedos do D ........................................................... 119

DESENHO 5 - A casa ................................................................................ 119

DESENHO 6 - O cachorro ......................................................................... 119

DESENHO 7 - O gatinho ........................................................................... 119

DESENHO 8 - Petinho ............................................................................... 119

DESENHO 9 - A gatinha feliz .................................................................... 120

DESENHO 10 - Meu canil ............................................................................ 120

DESENHO 11 - Rauf ................................................................................... 122

DESENHO 12 - História triste ...................................................................... 122

DESENHO 13 - A queda .............................................................................. 123

DESENHO 14 - O dia que ele quase morre ................................................ 123

DESENHO 15 - Herança ............................................................................. 124

DESENHO 16 - Desencontro ....................................................................... 124

DESENHO 17 - Passeio da tarde ................................................................ 125

DESENHO 18 - A caminhada ...................................................................... 125

DESENHO 19 - Cão herói ........................................................................... 126

DESENHO 20 - Vida .................................................................................... 126

LISTA DE FIGURAS

FIGURA 1- Divisão administrativa da cidade de Fortaleza-Ce em seis secretarias regionais – Ano 1997 ........................................

44

FIGURA 2 - Escolaridade dos idosos nos grupos 1 e 2 .......................... 60

14

FIGURA 3 - Arranjo familiar dos idosos dos grupos 1 e 2 ....................... 62

FIGURA 4 - Animal de estimação como membro da família.................... 68

FIGURA 5 - Animal de estimação como companhia................................ 68

FIGURA 6 - Animal de estimação como fonte de preocupação............... 69

FIGURA 7 - Animal de estimação como amigo........................................ 69

FIGURA 8 - Animal de estimação como fonte de diversão...................... 69

FIGURA 9 - Número de pessoas que já tiveram animal de estimação.... 70

FIGURA 10 - Esquema ilustrativo da estruturação do sistema central e periféricos das representações manifestas nos principais estímulos contemplados na pesquisa...................................

87

LISTA DE GRÁFICOS

GRÁFICO 1 - Representação gráfica dos fatores 1 e 2 .............................. 76

LISTA DE QUADROS

QUADRO 1 - Freqüência relativa (Fr) das evocações e estímulos indutores .............................................................................

83

QUADRO 2 - Freqüência relativa (Fr) das evocações e estímulos indutores (complementares) ................................................

84

QUADRO 3 - Freqüência relativa (Fr) das evocações e estímulos indutores nos distintos grupos .............................................

85

QUADRO 4 - Freqüência relativa (Fr) das evocações e estímulos indutores complementares nos distintos grupos ..................

85

QUADRO 5 - Distribuição das categorias e subcategorias simbólicas emergidas dos discursos dos sujeitos .................................

91

15

QUADRO 6- Verbalizações da categoria quando a solidão se revela e suas subcategorias .............................................................

92

QUADRO 7 - Verbalizações da categoria benefícios da convivência com animais de estimação e suas subcategorias .......................

94

QUADRO 8 - Verbalizações da categoria riscos da convivência com animais de estimuação e suas subcategorias......................

106

QUADRO 9 - Verbalizações da categoria antropoformização do animal de estimação e suas subcategorias ....................................

111

QUADRO 10 - Verbalizações da categoria perda do animal de estimação e suas subcategorias ...........................................................

114

QUADRO 11 - Distribuição das categorias simbólicas emergidas das narrativas dos sujeitos no Desenho-estória com Tema .......

117

LISTA DE TABELAS

TABELA 1 - Distribuição da característica idade das integrantes dos grupos 1 e 2 ..........................................................................

58

TABELA 2 - Estado civil das idosas dos grupos 1 e 2 .............................. 59

TABELA 3 - Tempo de viuvez das idosas dos grupos 1 e 2 ..................... 59

TABELA 4 - Tipo de ocupação das idosas dos grupos 1 e 2..................... 61

TABELA 5 - Autopercepção da saúde pelas idosas dos grupos 1 e 2 ...... 63

TABELA 6 - Percepção da saúde em relação aos pares das idosas dos grupos 1 e 2 ..........................................................................

64

TABELA 7 - Relato de doenças crônico-degenerativas pelas idosas dos grupos 1 e 2 ..........................................................................

64

TABELA 8 - Correlação entre autopercepção da saúde entre as idosas com o relato de doenças crônico-degenerativas nos grupos 1 e 2 .......................................................................................

66

TABELA 9 - Correlação entre autopercepção da saúde pelas idosas em relação aos seus pares nos grupos 1 e 2 ..............................

66

TABELA 10 - Classificação dos animais de estimação pelas idosas do grupo 1 .................................................................................

68

TABELA 11 - Classificação dos animais de estimação pelas idosas do grupo 2 ..................................................................................

70

TABELA 12 - Relação de motivos para não ter animal de estimação.........

71

16

1 INTRODUÇÃO À TEMÁTICA EM QUESTÃO

A princípio, o projeto de pesquisa estava centrado na execução de um

estudo eminentemente epidemiológico, do tipo transversal, estatisticamente

representativo da população que focalizasse os riscos e benefícios de se possuir

animais de estimação1. Entretanto, durante a entrevista de seleção para o Curso de

Mestrado Acadêmico em Saúde Pública, fui confrontada com o seguinte

questionamento por parte da banca: “Você não acha que este tema é muito subjetivo

para estudar assim?” De início, essa pergunta provocou um significativo impacto em

minhas expectativas, mas, em seguida, me fez despertar e me instigou a perceber

um lado da questão para o qual nunca havia antes atentado. Portanto, a partir desse

marco, vi-me obrigada a rever parâmetros e repensar situações vividas no cotidiano

acadêmico e profissional por uma óptica diferente.

Tenho uma formação biomédica, calcada no ser biológico, no tratamento

e cura do corpo doente. Aprendi, na Faculdade de Veterinária, a proteger o homem

cuidando dos animais; assim, esmerei-me no estudo da patologia, farmacologia,

clínica médica e de todas as demais disciplinas curriculares que encontrei pelo

caminho. Todavia a integridade da saúde humana, apesar de ser uma preocupação

constante, aparecia sempre de forma indireta e nos moldes biológicos da medicina

tradicional. A partir do questionamento desse modelo, passei a relembrar as

experiências com os clientes de clínicas veterinárias por onde passei. Eram pessoas

das mais diversas idades, gêneros e etnias, com os mais variados graus de apego

aos seus animais de estimação, pessoas que se auto-intitulavam pais, mães e, até

mesmo, avós de seus bichinhos, uma verdadeira “rede familiar” permeada por

sentimentos e experiências compartilhadas durante a consulta médica que,

geralmente, ultrapassava os limites biológicos.

Muitas vezes, deparei com as lágrimas dos clientes frente ao adoecimento

animal, sem falar como era constante ouvir-se sobre a importância vital representada

1 ‘Animal de estimação’ é o termo utilizado para traduzir ‘pets’ do inglês (Dicionário Michaelis), podendo-se utilizar como sinônimo do termo ‘animal de companhia’. Tomamos como animais de estimação cães, gatos, peixes, aves, ferrets, algumas espécies de jabuti, hamsters, iguanas entre outros animais domésticos e exóticos que convivam no ambiente familiar.

17

por esses seres para as suas vidas. A academia não nos prepara para isso; sequer

fui avisada de que teria que lidar com a subjetividade humana. Então, a partir

daquela entrevista de seleção, percebi que, trabalhando com a saúde animal,

influenciaria não só a integridade física do ser humano, mas, junto com ela, uma

carga emocional imensa que a ciência pouco conhece e que, quando tenta estudar,

escolhe as ferramentas inadequadas.

Após um longo percurso de incertezas, descobertas, construção,

desconstrução e reconstrução, redescobri minha pesquisa e, agora, a vejo com

outros olhos. Tenho a visão aberta para tudo que represente possibilidade de

aprofundamento do meu trabalho sem ter que abdicar do rigor, que é próprio da

ciência.

Desde então, foi grande a busca por literatura que abordasse a temática

da interação homem-animal de estimação. Nesse sentido, Grant e Olsen (1999)

relatam que a relação entre humanos e animais tem sido reconhecida nos últimos

anos, e a posse de animais de estimação está associada a benefícios para a saúde

tanto emocional quanto física, todavia, a convivência com animais também pode

representar riscos para a saúde devido à transmissão zoonótica de doenças

infecciosas, especialmente em pessoas imunologicamente comprometidas. Nessa

perspectiva, Johnson et al. (2003) analisam que o componente benefício na relação

risco-benefício, freqüentemente, pode ser incompreendido ou subestimado por

profissionais de saúde ao considerarem a interação homem-animal nesse contexto,

que é, muitas vezes, desencorajada.

Sob essa ótica, o objeto de estudo passa a exibir forte conotação de

interesse para o campo da saúde pública, especialmente no que tange ao domínio

da medicina veterinária, pois, como ressalta Pfuetzenreiter (2004), a luta contra as

zoonoses se constitui em uma das principais atividades da saúde pública veterinária,

considerando-se que essas enfermidades constituem um importante fator de

morbidade e pobreza pelas infecções agudas e crônicas que causam aos seres

humanos. Entretanto, ao considerar a veterinária como profissão cruzada, voltando-

se simultaneamente aos seres humanos e aos animais, deseja-se, nesse caminho

de investigação, abraçar tanto a preocupação com a integridade física dos sujeitos

como com a carga afetiva agregada ao tema de estudo e às suas repercussões no

bem-estar psicossocial desses indivíduos.

18

1.1 Aproximação com o objeto de pesquisa

Alguma literatura específica existe disponível sobre o assunto, na quase

totalidade internacional. Em âmbito nacional, o que se encontra são trabalhos

empíricos sobre Atividades Assistidas por Animais e Terapias Assistidas por Animais

conhecidas como zooterapias. Em São Paulo, existe um trabalho denominado o Cão

do Idoso – um projeto iniciado no ano 2000 por voluntários, em que cães são

levados a asilos no intuito de promover o bem-estar aos idosos, mas, infelizmente,

não há dados sistemáticos disponíveis no país sobre a influência de animais de

estimação na saúde das pessoas e suas conseqüências. Em pesquisa empreendida

no portal da CAPES, apenas duas dissertações de mestrado e uma tese de

doutorado abordam a temática da posse de animais de estimação (ROSSANO,

2003; SCHOENDORFER, 2001; MARTINS, 1999).

O estudo elaborado por Rossano (2003), “Representações de animal na

contemporaneidade: uma análise na mídia impressa”, demonstra o mosaico de

representações de animal na cultura contemporânea através da perspectiva dos

estudos culturais pela análise de matérias jornalísticas e de peças publicitárias

veiculadas na mídia impressa.

Schoendorfer (2001) levanta, em seu trabalho, a questão da “Interação

homem-animal de estimação na cidade de São Paulo: o manejo inadequado e as

conseqüências em saúde pública”. O estudo citado traça um diagnóstico sobre a

relação entre o manejo inadequado dos animais e o risco para a saúde tanto animal

quanto humana.

Por sua vez, Martins (1999) publicou a dissertação: “Indivíduos HIV-

Positivos e animais de estimação: Um estudo com pacientes, profissionais da saúde

humana e veterinários no Distrito Federal” que trata das relações e interações entre

indivíduos portadores do HIV e seus animais de estimação e de como os

profissionais de saúde humana e veterinários se comportam diante dessa

problemática. Observa -se, portanto, que, no âmbito das produções acadêmicas

nacionais, a produção é incipiente.

Na MedLine, cinco títulos internacionais, nos últimos cinco anos,

relacionam, especificamente, animais de estimação à saúde do idoso (BAUN e

19

McCABE, 2003; JOHNSON e MEADOWS, 2002; McCABE et al, 2002; BARAK et al,

2001; RAINA et al, 1999). Baun e McCabe (2003) trabalharam o tema “Animais de

companhia e pessoas com demência do tipo Alzheimer”, ao pesquisarem evidências

de que a presença de um animal de companhia pode aumentar a socialização de

pessoas diagnosticadas com demência do tipo Alzheimer e reduzir comportamentos

de agitação nas diversas fases de evolução da doença. Adicionalmente, as autoras

evidenciaram o potencial benefício sobre os cuidadores através da redução do

estresse psicológico pela presença do animal de companhia.

Johnson e Meadows (2002) no artigo “Idosos latinos, Animais de

estimação e Saúde”, estudaram a extensão do relacionamento entre pessoas idosas

de origem latina e seus animais de estimação e como essa relação poderia

beneficiar a saúde desses indivíduos. Por sua vez, McCabe et al. (2002), com o

trabalho: “Cão residente na Unidade de Cuidados Especiais de Alzheimer”,

evidenciaram os efeitos terapêuticos de cães sobre pessoas residentes em

Unidades de Cuidados Especiais de Alzheimer. Barak et al. (2001), em “Terapia

Assistida por Animais para pacientes idosos esquizofrênicos” mostraram a atividade

como adequada para o incremento da socialização e do bem-estar geral dos

pacientes.

Por fim, Raina et al. (1999), com o trabalho intitulado “A influência de

animais de companhia na saúde física e psicológica de pessoas idosas: uma análise

do estudo longitudinal de um ano”, examinaram como a relação com animais de

companhia está associada a mudanças na saúde física ou psicológica em pessoas

idosas e se a relação entre saúde física e psicológica é modificada pela presença ou

ausência de um animal de estimação. O interessante desse último artigo reside num

comentário realizado nas conclusões, em que o autor afirma que “os resultados

demonstram os benefícios da posse de animais de estimação em manter ou

aumentar levemente os níveis de atividade da vida diária de pessoas idosas.

Entretanto, uma ligação mais complexa foi observada entre a posse de animais de

estimação e o bem-estar das pessoas idosas”.

Dentre os trabalhos apresentados, faz-se mister observar a dominância

da abordagem quantitativa. Apenas um título abrangia a associação entre

representações e animais de estimação - “Representações dos animais de

estimação nas redes sociais das crianças”, por McNicholas et al. (2001), em que os

20

autores perceberam que animais de estimação são citados pelas crianças em nível

mais alto quanto a seus relacionamentos sociais do que certos tipos de

relacionamentos humanos; os animais são vistos como fonte de conforto,

funcionando como suporte para a estima e como confidentes para um segredo. Por

outro lado, vale salientar que um número significativo de artigos pôde ser listado na

MedLine quando se leva em consideração o tema geral envolvendo o processo de

saúde/doença em grupos humanos relacionados com a posse de animais de

estimação e os riscos/benefícios dessa relação. Nenhum título associado ao tema foi

identificado na SciELO.

1.2 O objeto da pesquisa

Através da Teoria das Representações Sociais, busca-se apreender as

representações pelos idosos dos animais de estimação através de uma abordagem

psico-sociológica. Entende-se que as pessoas tendem a construir teorias do senso

comum que, por um lado, funcionam no sentido de explicar os fenômenos que estão

sendo representados e, por outro , podem sustentar suas práticas sociais.

O foco da pesquisa é o idoso não-institucionalizado ou hospitalizado.

Optou-se, assim, por trabalhar com a população idosa, pois os indivíduos desse

grupo fazem parte do rol das pessoas imunocomprometidas e, portanto, correm risco

de adquirirem doenças do tipo oportunista pela convivência com animais de

estimação; além do mais, constituem uma parcela da população que mais cresce no

contexto mundial2, que está sujeita a perdas dos mais variados tipos em seu

cotidiano, bem como necessitam de maior suporte social, podendo, portanto, ser

beneficiados pela convivência com animais de estimação. Nesse contexto, deseja-se

fazer emergir a representação do idoso quanto à problemática em questão, para

que, a partir daí, se possa averiguar e explorar a importância dessa representação

na determinação dos fenômenos responsáveis pelo processo de saúde-doença na

população idosa.

2 Segundo Filho e Ramos (1999, p.446) na cidade de Fortaleza observa-se um percentual de idosos de quase 8%, sendo, deste modo, similar ao registrado na cidade de São Paulo e superior à média nacional.

21

Esse estudo preenche lacuna do conhecimento acerca do tema. Numa

sociedade que envelhece, nota-se, cada vez mais, a presença dos animais de

estimação nos lares e o papel desempenhado por eles no suporte psicossocial às

pessoas. Levando-se em consideração não apenas o fato de que vivemos no país

um processo de transição demográfica, mas ressaltando, também, um perfil de

transição epidemiológica, em que se convive, lado a lado, com doenças infecto-

parasitárias e crônico-degenerativas, a pesquisa tenta despertar a investigação

científica para uma face pouco explorada do processo de saúde/doença na

população.

Espera-se que os resultados possam funcionar como um alerta para a

necessidade de criação de programas educacionais em saúde, envolvendo temas

como a posse responsável de animais de estimação e a prevenção de zoonoses,

assim como chamar a atenção dos profissionais e da sociedade para aspectos

pouco suscitados da vida da população idosa, que podem, de alguma maneira,

interferir na sua saúde, de forma positiva e/ou negativa.

22

2 OBJETIVOS DO ESTUDO

Apreender:

as representações sociais do idoso sobre a convivência com os animais

de estimação no seu cotidiano;

as representações sociais do idoso em relação aos riscos e benefícios

atribuídos à convivência com animais de estimação;

os processos sociocognitivos que se encontram refletidos nos sentimentos,

concepções e atitudes dos idosos frente aos animais de estimação enquanto

representações sociais.

23

3 A LITERATURA

3.1 O idoso: produto de seus adoecimentos?

O adoecer constitui-se um evento atrelado à vida e permeado de

incertezas, independe da faixa etária considerada. Mas, enquanto fenômeno, pode

assumir significados distintos em cada grupo social. Pela ordem natural da vida, o

processo de envelhecimento está associado ao incremento gradativo da

susceptibilidade tanto física quanto emocional a manifestações de doença. O

processo de construção desse parâmetro está na dependência de uma complexa

rede de fatores físicos, psicológicos, sociais, econômicos e culturais que interagem

entre si, fazendo do envelhecer um fenômeno extremamente heterogêneo e

individualizado, influenciado por padrões históricos e culturais de uma sociedade.

Neste sentido, Guerreiro e Rodrigues (1999, p.52 e 53) afirmam que:

“a maneira como o grupo social encara a velhice, como interpreta os adoecimentos e como lida com a perspectiva da morte interfere, sobremaneira, na vida de cada indivíduo em sua auto-imagem, na relação consigo mesmo, na sua capacidade de construir seu próprio caminho, de se adaptar ao meio ou transformá-lo em seu benefício, e na sua relação com os outros, idosos ou não”.

Apesar disso, as ciências da saúde, através da literatura médica, têm

encontrado formas de categorizar o processo de envelhecimento humano em função

das transformações biológicas a que são submetidos os sujeitos, especialmente em

seus estágios mais avançados de senescência. Essas descrições são

acompanhadas por limitações próprias da tentativa de se padronizarem os seres

humanos. De todo modo, recorre-se às descrições enunciadas por Néri e Debert

(1999) no intuito de adotar um ponto referencial para as discussões do tópico. Em

sua obra, os autores admitem três categorias de envelhecimento segundo as

alterações que encerram: o primário, o secundário e o terciário.

O padrão de envelhecimento primário ou normal corresponde às

mudanças que são próprias do processo de envelhecimento; têm um caráter

irreversível, progressivo e universal, porém não se configuram como patologias.

Essas mudanças típicas são reconhecíveis pelo embranquecimento dos cabelos, o

aparecimento de rugas, as perdas em massa óssea e muscular, o declínio em

equilíbrio, força e rapidez, além de perdas cognitivas.

24

O padrão de envelhecimento secundário remete a desvios condicionados

pelos adoecimentos próprios da idade, na medida em que o tempo vivido significa

incremento da probabilidade de exposição a fatores de risco. O efeitos deletérios

advindos dessas mudanças são cumulativos, o que imprime ao organismo crescente

vulnerabilidade com o avanço da idade. Fazem parte dessa categoria os distúrbios

cérebro-vasculares e as doenças cardiovasculares, assim como a depressão. As

manifestações depressivas decorrem das experiências de adoecimento e do

acúmulo, associado ou não, de perdas afetivas, afastamento social, isolamento,

solidão emocional ou conflitos familiares. Ademais, algumas doenças, decorrentes

de fatores intrínsecos de degeneração, se agravam cronologicamente, abrangendo a

esclerose múltipla e o Mal de Alzheimer.

Por fim, o padrão de envelhecimento terciário faz referência ao declínio

terminal do ser humano, conseqüente à velhice avançada, sendo caracterizado por

um aumento abrupto das perdas num espaços de tempo relativamente curto, ao fim

do qual sobrevém a morte.

Seguindo esse raciocínio, entende-se por que nunca se falou tanto em

‘envelhecimento bem-sucedido’, num contexto dos modelos ideais de velhice,

Groisman (2002, p.77) argumenta que “pequenos desvios parecem ser cada vez

menos tolerados, as dificuldades e a dependência causadas pelo envelhecimento

passam a ser patologizadas e medicalizáveis”. A velhice passa, cada vez mais, a ser

encarada como um processo patológico do que parte do desenvolvimento humano

normal.

Paradoxalmente, não existe consonância entre pesquisadores quanto à

definição de ‘envelhecimento bem-sucedido’ ou ‘envelhecimento ideal’. A tendência

consiste em tomar como foco as medidas de funcionamento físico, cognitivo ou

psicológico, fazendo-se uso de exames de funcionamento cardiovascular,

capacidade intelectual ou saúde mental, os quais são aplicáveis a qualquer pessoa

em qualquer idade e a respeito dos quais existe considerável consenso quanto aos

resultados desejáveis. Entretanto não se pode inferir que um ‘envelhecimento bem-

sucedido’ seja a extensão de um conjunto de parâmetros médicos normais, ou seja,

“ter um coração ou pulmões fortes e funcionamento mental normal não indica êxito

na vida” (PAPALIA e OLDS, 2000).

25

Cabe, nesse contexto, comentar sobre a avaliação das percepções e

sentimentos da pessoa idosa em relação às alterações em sua saúde. Essa

perspectiva é abordada por LIMA COSTA et al. (2003) quando descrevem a

percepção da própria saúde pelos idosos como um indicador relevante do seu

estado de saúde, à medida que predizem, de forma consciente, a sobrevida dessa

população. Assim, os indivíduos que relatam condições de saúde escassa ou pobre

têm riscos de mortalidade mais altos que aqueles que relatam melhor estado de

saúde, ou seja, uma pior percepção da saúde tem sido consistentemente descrita

como um importante preditor de dependência e de menor sobrevivência entre

idosos.

Romero (2002) reitera, por sua vez, a relevância da captação das

percepções auto-referidas de saúde na população idosa em inquéritos de saúde. O

autor ressalta a autopercepção de saúde como um referencial da qualidade de vida

e da morbidade nesse grupo etário, bem como um importante preditor quanto à sua

subseqüente mortalidade. Sua interpretação varia conforme a idade e o gênero e

incorpora uma variedade de componentes físicos, culturais e emocionais. Não

obstante, deve-se ressaltar que a auto-avaliação da saúde pelos idosos é um

parâmetro subjetivo e, como tal, sofre a influência de particularidades cognitivas,

culturais, da linguagem e da escolaridade.

No Brasil, são escassos os estudos de base populacional que avaliam a

distribuição da auto-avaliação da saúde em idosos. Os dados mais significativos

sobre esse tema foram coletados no suplemento de saúde da Pesquisa Nacional por

Amostras de Domicílio, conduzida em 1998 pela Fundação Instituto Brasileiro de

Geografia e Estatística (IBGE) (LIMA-COSTA, FIRMO E UCHÔA, 2004). Evidencio-

se que somente 24,5% da população idosa brasileira classificava a sua saúde como

boa ou muito boa, situação sintomática num país com índices crescentes de

envelhecimento. Entretanto, os autores ressaltam que esse resultado deve sofrer

uma leitura cautelosa, pois a percepção da saúde se refere a um julgamento

subjetivo que não pode ser determinado por outra pessoa sob pena de se incorrer

em falácias interpretativas.

Investigações conduzidas por esses pesquisadores revelaram a

existência de associações entre auto-avaliação da saúde e rede social de apoio,

condições de saúde, incluindo sintomas depressivos, acesso a serviços de saúde e

26

visitas a médicos e hospitalizações. Os resultados encontrados mostram uma

estrutura multidimensional da auto-avaliação da saúde em idosos, compreendendo a

situação socioeconômica, o suporte social, as condições de saúde (destacando-se a

saúde mental), o acesso e uso de serviços de saúde. O autor explicita a

necessidade de investimento permanente e ostensivo no campo da promoção da

saúde, bem como um maior aprofundamento das questões ligadas à subjetividade

desse grupo nos círculos acadêmicos.

Essa discussão suscita o levantamento da temática referente ao auto-

cuidado no envelhecimento. Envelhecer de maneira saudável, na concepção de

Duarte (1998), significa, fundamentalmente, que, além da manutenção de um bom

estado de saúde física, as pessoas necessitam de reconhecimento, respeito,

segurança e sentir-se participantes de sua comunidade, onde podem investir e

compartilhar sua experiência e seu interesse.

Nessa perspectiva, o autor nos mostra a necessidade veemente dos

cuidados em relação aos problemas de saúde que se apresentam nessa etapa da

vida. Além disso, os idosos querem ser aceitos como seres humanos com

necessidades e possibilidades especiais; desejam ver seus direitos cumpridos e não

querem ser discriminados.

Atualmente, tem-se enfocado bastante o desenvolvimento de atividades

de proteção à saúde, incluindo-se a prevenção de doenças e combate a fatores de

risco associados a doenças crônico-degenerativas capazes de debilitar as condições

de vida a longo prazo, além do investimento com a promoção da saúde. Groisman

(2002, p.77) discute esse enfoque:

“A prevenção parece ser a saída encontrada pela gerontologia para escapar do binômio saúde-doença. Com o discurso de ‘prevenção’, todos os sujeitos são passíveis de intervenção, independentemente de seu estado de saúde ou de sua inserção na ‘normalidade’. Pela urgência da prevenção, não importa também quando começa a velhice, pois a prevenção deve começar muito antes. Lutando por um envelhecimento bem-sucedido, a geriatria/ gerontologia parece delinear o seu mais ambicioso projeto, que é disciplinar a vida humana em toda a sua extensão”.

Assim, o significado do cuidar de si na vida cotidiana do idoso vai além da

manutenção de um estado de autonomia individual, mas, adicionalmente, perpassa

o jargão médico-científico da prevenção e adentra o terreno da promoção da saúde,

27

alcançando uma perspectiva mais abrangente do ideal de saúde tão discutido no

contexto da transição demográfica.

O contexto mundial de diminuição da natalidade, do desenvolvimento da

medicina e o crescente envelhecimento da população contribuíram para que a

velhice se tornasse um objeto de representação social, de políticas públicas e de

pesquisas científicas. A própria Psicologia do Desenvolvimento propôs, em seus

primórdios, teorias explicativas dessa idade da vida, situando-a na fase de declínio

biológico e, portanto, de limitações e disfuncionalidade (ALMEIDA, 1999).

Contudo, na década de 1970, a Psicologia passou a incluir a velhice no

processo de desenvolvimento humano como uma fase que envolve não apenas

perdas, mas também ganhos e conquistas. Socialmente, no entanto, ainda parece

prevalecer a idéia de idoso associado a uma figura decadente, necessitada e, por

isso, dependente. Tais concepções, segundo o mesmo autor, tiveram importantes

implicações na estruturação da identidade do idoso, assim como nas práticas sociais

a ele dirigidas. Confinado em locais à margem da sociedade (asilos, hospitais, casas

de repouso), o velho tem sido representado como uma pessoa cansada, doente,

debilitada, enfim improdutiva.

Partindo do quadro pintado por Almeida (1999), entende-se que, em

nossa sociedade, o ser velho e o próprio envelhecimento são alvos de uma

estereotipia social negativa que tende a se basear estritamente no declínio biológico,

fundamentando uma idéia falsa de que o envelhecimento causa, obrigatoriamente,

incompetência comportamental. Okuma (1998, p.14) complementa essa idéia ao

afirmar que:

“Em conseqüência desse estereótipo, parte daqueles que chegam à velhice, sobretudo à aposentadoria, perde poderes político e econômico, perdendo também status, respeito e valor. Se, ao mesmo tempo, houver o acometimento de doenças e pobreza, a situação do velho se agrava, pois somam-se à falta de prestígio e de poder a dependência física, psicológica e financeira em relação à família e à sociedade. Este conjunto de mudanças pode ter reflexos na identidade pessoal da pessoa idosa”.

Embora se admita que a grande maioria dos idosos seja portadora de,

pelo menos, uma doença crônica, vale a pena salientar que nem todos ficam

limitados por essas patologias e muitos levam uma vida perfeitamente normal, com

suas enfermidades controladas e expressando satisfação em viver. Um idoso

portador de uma ou mais doenças crônicas pode ser considerado um idoso

28

saudável, se comparado com um idoso com as mesmas doenças, porém sem

controle delas, com seqüelas decorrentes e incapacitantes.

Nesse contexto, a definição clássica, empregada sobre saúde e

preconizada pela Organização Mundial de Saúde (OMS), segundo a qual a saúde é

“o estado de completo bem-estar físico, mental e social”, é inadequada para

descrever o padrão de saúde de indivíduos idosos, visto que a ausência de doença é

privilégio de poucos, independentemente da faixa etária, e o completo bem-estar

pode ser atingido por muitos, na ausência de processos patológicos ou apesar deles

(RAMOS, 2003). A saúde, portanto, deve ser compreendida como algo muito mais

abrangente do que a ausência de doença.

Faz-se necessário alterar a visão que se tem da velhice como sinônimo

de perdas e finitude, caracterizada pela negatividade, pelo medo e pela repulsa.

Urge que se invista numa contra-cultura positiva, não só para se reeditar a

perspectiva do envelhecimento enquanto concepção filosófica, mas também no

sentido de transformar atitudes sociais frente ao idoso sujeito, para que ele possa

ser reconhecido, em sua plenitude, como elemento indispensável de qualquer

sociedade.

29

3.2 Os riscos e benefícios da convivência do idoso com animais de estimação

Pesquisas têm provado que humanos, especialmente pessoas idosas,

consideram seus animais de estimação como membros da família. A relação

homem-animal é talvez mais forte e mais profunda na velhice do que em outra idade.

Animais que proviam segurança na juventude assumem maior importância na

velhice como auxílio aos mais velhos na adaptação à sua mudança de “status”. A

interação entre humanos e animais constitui um relacionamento mutuamente

benéfico e dinâmico que inclui, mas que não está limitado a interações emocionais,

psicológicas e física, entre as pessoas, seus animais de companhia e o ambiente

(SUTHERS-McCABE, 2001).

É oportuno destacar que há, no contexto contemporâneo, segundo

Faraco e Seminotti (2004, p.58),

“organizações sociais que são produtos da interação homem-animal compondo grupos multiespécies. Entre esses se encontram grupos familiares, que, em alguns casos, nos sugerem a revisão da própria concepção de família. São casos em que o animal é considerado membro da família, e noutros, inclusive, um substituto de filhos e outros familiares que têm suas ausências preenchidas por animais de estimação”.

Os animais de companhia proporcionam significativa melhoria na

qualidade de vida das pessoas, aumentando estados de felicidade, reduzindo

sentimentos de solidão e melhorando as funções físicas e a saúde emocional. A vida

das pessoas idosas é freqüentemente desorganizada por perdas e mudanças;

nesses casos, animais de companhia podem aliviar os efeitos das perdas e trazer

conforto nos momentos estressantes de transição, como a aposentadoria.

Para Suthers-McCabe (2001), animais de estimação são companhias

íntimas que não oferecem competição e podem ser amados sem o medo da

rejeição. Eles promovem experiências estimulantes e inspiram humor e brincadeira.

A auto-estima em pessoas idosas pode ser aumentada ou restaurada pelo

sentimento de que os animais que eles cuidam os amam em troca. Ademais,

animais de estimação podem funcionar como um ‘lubrificante social’, pois sua

presença acaba funcionando como estímulo à conversa com outras pessoas. Assim,

a ligação com animais de estimação influencia, positivamente, a saúde das pessoas

idosas.

30

Estudos realizados por Allen et al. (2002) associam a posse de animais de

estimação à redução de alguns fatores de risco cardiovascular, incluindo-se pressão

arterial e níveis de triglicérides. Além disso, após experienciarem um ataque

cardíaco, proprietários de animais de estimação apresentaram taxa de sobrevivência

maior do que não-proprietários. A posse de animais de estimação está, também,

associada a menos visitas a médicos. No estudo realizado por Raina et al (1999),

quando as variáveis sexo, idade, etnia, educação, renda, ocupação, suporte social e

problemas crônicos de saúde são controladas, informantes com animais de

estimação relatam menos contato médico durante o ano do que aqueles sem

animais.

A vida muda na velhice com uma perda de intimidade com companhias

humanas como cônjuges e amigos, com a separação dos filhos e de colegas de

trabalho e com mudanças nos papéis sociais. Todos esses fatores tendem a reduzir

a rede de suporte social ao idoso. A tendência de viver sozinho aumenta com a

idade. A solidão constante passa a ser uma fonte de estresse e pode ser traumática.

Fisiologicamente, a resposta a esse estresse inclui alterações na produção

hormonal, que, em reflexo, altera a função de muitas outras partes do corpo. Assim,

o estresse tem sido abordado como contribuinte no surgimento ou agravamento de

doenças cardiovasculares, distúrbios gastrointestinais e desordens auto-imunes.

Como a tendência de viver sem uma companhia humana aumenta no contexto

contemporâneo, interações sociais alternativas tornam-se muito importantes à

manutenção da saúde e do sentimento de bem-estar (RAMOS, 2002).

Alguns autores têm descrito os efeitos positivos das relações sociais para

os idosos. Esse tipo de suporte varia desde os benefícios positivos do casamento,

de ter um amigo íntimo, de fazer parte de uma comunidade religiosa, de perceber,

de forma amigável, os vizinhos ou, mesmo, de receber um telefonema. Nesse

contexto, animais de estimação têm demonstrado ser uma fonte de suporte social, o

que se deduz do número de pessoas que elegem seus animais como “membros da

família”, com que conversam como se fossem pessoas, ou que consideram seus

animais como confidentes (BECK e KATCHER, 2003; RAMOS, 2002; COHEN,

2002).

Então, para pessoas que não têm mais ligações íntimas com outras

pessoas em suas vidas, animais de estimação podem prover conforto, intimidade e a

31

chance de cuidar de outro ser. Os animais domésticos podem fornecer aos idosos

que participam do seu cuidado um incremento no senso de interesse,

responsabilidade, orgulho e propósito de viver. Segundo relato de Vining (2003),

muitos mecanismos têm sido propostos para explicar a natureza da relação homem-

animal de estimação: animais oferecem conforto, companhia e suporte social, são

facilitadores sociais, reforçam o orgulho próprio das pessoas através do que é

percebido como amor incondicional do animal e ajudam os humanos a

desenvolverem o senso de auto-estima; ademais, os homens são seres sociais, e os

animais apelam para nossa propensão de interagir socialmente; os animais podem

ajudar a remediar desordens psicológicas e fisiológicas e prolongar nossas vidas,

bem como, auxiliam os homens a conectar-se com a natureza.

Os aspectos positivos da convivência com animais de estimação são de

difícil mensuração e análise, já que tratam de sentimentos e sensações. Assim,

muitos trabalhos teóricos são elaborados no intuito de discutir métodos e técnicas

ajustáveis ao objeto de pesquisa, alertar sobre a necessidade de execução de

estudos na área no sentido de se esclarecerem os fatores envolvidos nessas

interações e desvelarem, com exatidão, os benefícios advindos dessa convivência

(KITAGAWA e COUTINHO, 2004)

A despeito dos resultados positivos das interações entre humanos e

animais de estimação, os potenciais riscos que podem emergir dessa relação não

devem ser ignorados. Nesse sentido, pode-se listar uma série de desvantagens da

convivência com animais de estimação, como custos, aversão a animais, fobias e

inibições culturais além dos potenciais riscos de zoonoses, alergias e mordidas.

O termo ‘zoonose’ tem sido definido como ‘aquelas doenças e infecções

naturalmente transmitidas entre animais vertebrados e o homem’. Estima-se que o

número de doenças zoonóticas esteja entre 150 e 200, mas sabe-se que apenas 35

agentes de doenças zoonóticas podem afetar animais e, subseqüentemente,

humanos pela convivência entre eles. O incremento relativo na incidência de

zoonoses recentemente parece ser resultado tanto da evolução das técnicas de

diagnóstico laboratoriais, quanto do crescimento das populações humanas e animal,

aumentando as chances de interação.

Uma nova tendência para a aquisição de animais de estimação exóticos

também aumenta a possibilidade da transmissão de doenças zoonóticas, assim

32

como a existência cada vez maior de indivíduos susceptíveis na sociedade. Essas

particularidades para o risco inclui pessoas muito jovens, muito velhas e indivíduos

que são imunocomprometidos, como aqueles que são portadores do vírus da

imunodeficiência adquirida (HIV), que são submetidos a tratamentos prolongados

com corticosteróides, que estão em processo de quimioterapia ou sofreram

transplante de órgãos (BRODIE, BNURS e SHEWRING, 2002).

Uma das premissas básicas que se deve observar é que, na interação

entre homens e animais, os benefícios estão atrelados a aspectos afetivos e

emocionais, podendo funcionar como fator de proteção à saúde, especialmente a

psíquica, mas não são a solução dos problemas humanos ou a “cura do século XXI”.

Por outro lado, os riscos existem e se materializam como zoonoses e agressões,

contudo não inviabilizam a convivência com os animais de estimação e o usufruto

dos ganhos advindos dessa relação. O que se deve levar em consideração é o

equilíbrio entre as partes para que os ganhos advindos dessa relação não sejam

anulados por danos à saúde dos seres humanos e não-humanos.

33

4 REFERENCIAL TEÓRICO: A Teoria Das Representações Sociais

“Contudo, se o conceito de representação atravessa tantos domínios de conhecimento, da história à antropologia através da lingüística, ele é sempre e em todo lugar uma questão de

compreensão das formas das práticas de conhecimento e de conhecimento prático que cimentam nossas vidas sociais como existências comuns”

(Serge Moscovici, 2003).

A escolha da Teoria das Representações Sociais como referencial teórico

tem íntima relação com a complexidade do tema abordado, pois estudar a relação

do idoso com os animais de estimação consiste, ainda, em caminhar num terreno

pouco explorado, pois o que há são estudos de caráter epidemiológico e

biologizante. Ainda restam lacunas de cunho subjetivo que não podem ser

apreendidas estatisticamente. Não obstantes os limites, procuraram-se, nas

representações sociais, algumas respostas aos questionamentos sobre a

problemática em análise.

Buscou-se, com as representações sociais, uma aproximação do objeto

social em estudo na tentativa de compreender o modo como a problemática é criada,

transformada e interpretada pelos sujeitos dentro de sua realidade, assim como se

espera conhecer os pensamentos, sentimentos, percepções e experiências de vida

desses indivíduos compartilhados por crenças, atitudes, valores e informação,

destacados nas modalidades diferenciadas de comunicação, levando-se em

consideração a classe social a que pertencem (COUTINHO, NÓBREGA, CATÃO,

2003).

A cultura moderna tem sido marcada por uma profunda divergência do

pensamento produzida pela divisão do trabalho. Define-se, por um lado, a existência

de uma forma “standard” de pensamento materializado na ciência e, por outro, o

pensamento “não standard” – o senso comum. Esse pensamento é abordado por

Nóbrega (2001, p.62) que comenta:

“Antes do advento da teoria das representações sociais, o pensamento das massas, correntemente denominado ‘o senso comum’, era considerado como um corpus de conhecimento ‘confuso’, ‘inconsistente’, desarticulado’ e ‘fragmentado’. Em relação ao conhecimento científico, o senso comum era situado num pólo extremo e oposto: como uma espécie de saber ‘selvagem’, ‘profano’, ‘ingênuo’ e, até mesmo, de ‘mentalidade pré-lógica’, conforme classificavam a sociologia, psicologia, antropologia etc”.

Complementando essa idéia e comungando com Vala (2000), entende-se

que a teoria das representações sociais teve como nascedouro o questionamento

das teorias que ignoram ou, simplesmente, subestimam a influência do pensamento

34

dos indivíduos na constituição da sociedade e, concomitantemente, a contestação

da legitimidade das teorias que não percebem o contexto social no qual os

indivíduos pensam e o valor desse contexto na construção do pensamento.

Recorde-se o ambiente em que nasceu o interesse novo da psicologia

social pelas representações sociais. Na década de 50, um longo debate em torno da

psicanálise mobilizou, em Paris, intelectuais e estudantes universitários. Esse debate

repercutiu na imprensa e penetrou o tecido social. Em três anos (1953-1956), 230

jornais e revistas não-especializados publicaram cerca de 1.600 artigos sobre a

Psicanálise. Em 1961, Moscovici3 publicava um trabalho sobre a apropriação da

teoria psicanalítica por parte de diferentes grupos sociais. A teoria das

representações sociais é, portanto, formulada no final dos anos 50, marcando uma

nova etapa na história da psicologia, à medida que opera uma ruptura com os

“modelos funcionalistas” e positivistas ainda em vigor nessa época (NÓBREGA,

2001; VALA, 2000).

A perspectiva psicossociológica de Moscovici é construída a partir da

base teórica de Durkheim, responsável pela gênese das representações coletivas. A

noção durkheimiana das representações coletivas, segundo Nóbrega (2001, p.57),

“é uma espécie de guarda-chuva que reúne uma larga gama de diferentes formas de

pensamento e de saberes partilhados coletivamente (crenças, mitos, ciência,

religiões, opiniões), cuja característica consiste em revelar o que há de irredutível à

experiência individual e que se estende no tempo e no espaço social”. Entretanto, a

teoria de Durkheim contém equívocos que são comentados pela autora:

“Essa interpretação dicotômica de um social estático e impermeável à instabilidade das mudanças individuais, tornou apagada por mais de meio século a teoria de Durkheim no mundo científico. A oposição entre ‘individual e coletivo, pessoa e sociedade, estável e instável’ tanto marca a falha na teoria do sociólogo francês sobre a noção das representações coletivas, assim como explica o fato de que esse conceito tenha sido negligenciado pelos estudiosos durante muito tempo”.

A lacuna deixada nos estudos de Durkheim funcionou como substrato

teórico para a construção das representações sociais por Moscovici; nesse trabalho

de reconstrução, a sociologia dá lugar à psicossociologia, valorizando a interseção

indivisível do individual e do social. O objeto do desejo de Moscovici fundamenta-se

3 Em 1961, Moscovici publicou sua tese de doutorado sobre a questão das “Representações Sociais” entitulada la Psychanalyse, son image et son public: étude sur la représentation sociale de la psychanalyse. Paris, PUF, 1961, 1ed., 649pp.

35

no interesse pela “inovação de um social móvel do mundo moderno transformado

com a divisão social do trabalho e a emergência de um novo saber: a ciência”

(NÓBREGA, 2001, p.60). O próprio Moscovici (1984), citado por Vala (2000, p.458),

nos esclarece seu interesse:

“As representações sociais de que me ocupo não são as das sociedades primitivas, nem o que delas resta no subsolo da nossa cultura. São as da nossa sociedade atual, do nosso solo político, científico e humano, e que nem sempre tiveram o tempo suficiente para permitir a sedimentação que as tornaria tradições imutáveis”.

A fim de ilustrar a fala de Moscovici, Vala (2000, p.458) se apropria das

palavras de Sperber (1989), passando-nos a idéia de que:

“Algumas representações são calmamente transmitidas de geração em geração; são o que os antropólogos chamam tradições e são comparáveis a um fenômeno endêmico; outras representações, típicas das culturas modernas, difundem-se rapidamente a toda uma população mas têm um curto período de vida; são o que chamamos modas e são comparáveis a epidemias”.

Através das referências a Moscovici e Sperber, Vala (2000) qualifica o tipo

de representações que são estudadas pelo conceito de representações sociais.

Essa concepção singular conduz Moscovici a substituir a noção de representações

coletivas adotada por Durkheim pelo conceito de representações sociais. O motivo

para essa alteração na nomenclatura nos é esclarecida por Nóbrega (2001, p.61)

quando diz que:

“A razão dessa mudança terminológica se justifica, de um lado, ‘pela diversidade da origem tanto dos indivíduos quanto dos grupos’, por outro lado, pelo reconhecimento da importância da comunicação enquanto fenômeno que possibilita convergir os indivíduos (apesar de, e por causa da divisão social do trabalho) numa rede de interações em que ‘qualquer coisa de individual pode tornar-se social, ou vice versa’. E, nesse processo de comunicação, as representações sociais se elaboram na antinomia interativa onde são simultaneamente geradas e adquiridas. Para Moscovici, as representações sociais não são nem homogêneas nem ‘partilhadas enquanto tais por toda a sociedade’. E uma vez forjadas em condições socialmente desiguais, como resultado da divisão social do trabalho, as representações são, portanto, sociais, já que partilhadas, mas não homogêneas, porque partilhadas na heterogeneidade da desigualdade social”.

Com base em Oliveira (2000), pode-se considerar que a introdução da

teoria da representações sociais no campo da saúde não representa apenas uma

outra forma capaz de explicar a constituição do processo de saúde-doença, mas vai

além no sentido em que questiona a clássica causalidade atribuída aos “fatores

externos” e põe em xeque a idéia hegemônica da ciência como única forma de saber

legítimo, restaurando o saber do senso comum para o cenário acadêmico.

36

A partir dessa orientação, partilhando, ainda, a idéia da autora, pode-se

vislumbrar as ciências sociais, em particular a psicologia social, representadas pela

teoria da representações sociais como uma peça fundamental na busca pelo

restabelecimento do social com o objetivo de possibilitar uma melhor especificação

da subjetividade impressa na saúde sem, todavia, contrapô-la à objetivação

característica do desenvolvimento do campo e do objeto. Em acréscimo a isso,

pode-se ressaltar a concepção da relação coletivo-individual como uma relação

dialética, em que a individualidade não pode ser concebida sem a sua impressão no

social sem esquecer que as representações sociais possibilitam “pensar a saúde

como objeto holístico a partir do reconhecimento de uma forma de conhecimento

natural, entidade teórica com o mesmo ‘status’ social do conhecimento científico,

caracterizada pelo conhecimento do senso comum”.

Um dos pressupostos que justifica a procura dos profissionais de saúde

pela teoria das representações sociais no campo da saúde é a necessidade de um

rompimento com o paradigma biomédico predominante, sob um modo diferente de

leitura dos grupos humanos, o qual se tem preocupado apenas com a dimensão

biológica, embora já se consiga observar que a “epidemiologia moderna” tem

procurado avançar, mas ainda tem pouco a dizer acerca do sofrimento e da

estranheza de “perceber-se possuidor de um corpo (que, mais estranho ainda,

adoece...)” (SILVA, ALVES, MOREIRA, SILVA, 2003).

Nesse contexto, Silva et al. (2003) nos apontam a utilização da teoria das

representações sociais no campo da saúde como “uma forma moderna de pensar a

saúde” dentro de um espaço que focaliza as mudanças sociais que acontecem em

decorrência das relações inter e intragrupais, estruturadas dialeticamente. Portanto,

é interessante idealizar-se uma atenção à saúde que tenha como ponto de partida

as representações sociais e pertenças dos grupos humanos, mais integral para uma

análise de seus problemas ou potenciais, centrada na dimensão interpessoal do

comportamento social e na relevância da dimensão psicossociológica.

Esses autores analisam, em linhas gerais, a reflexão de muitos

pesquisadores e estudiosos da saúde sobre a proposta de considerar a dimensão

individual, deixando emergir os aspectos psicossociais com ênfase nas diferentes

formas de interações sociais na esfera da saúde, como uma forma de averiguar e

explorar a importância das representações na determinação dos fenômenos

responsáveis pela promoção, prevenção e tratamento, em especial, no processo

37

saúde-doença e demais objetos de investigação. Assim, pode-se compartilhar a

idéia de que quem se propõe a estudar nessa vertente se interessa pelas

representações sociais por elas terem como proposta dar conta dos fenômenos de

natureza sociocultural referente à vida social dos grupos, expressa na forma de

valores, noções e regras sociais, organizando-os em função de seus interesses

comuns e, dessa forma, dando sentido à sua vida.

Na prática, a aproximação da teoria das representações sociais com a

saúde surge, de forma preponderante, com a gênese do movimento de promoção da

saúde com a proposta de compor um referencial teórico de cunho explicativo que

pudesse contribuir com os desafios da área. Por sua vez, o princípio do movimento

de promoção da saúde é marcado pelas deliberações estabelecidas nas principais

conferências internacionais, podendo-se citar a Carta de Ottawa de 1986, a

Declaração de Adelaide de 1988, a Declaração de Sundsvall de 1991 e a

Declaração de Bogotá de 1992. Nesses eventos, passa-se a reconhecer a saúde

como resultante de um complexo quadro de fatores conjunturais, socioeconômicos,

políticos, culturais, ambientais, comportamentais e biológicos que impõem novos

modelos de organização das práticas de saúde (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 1996).

Pode-se observar que, a partir do contexto apresentado, os

pesquisadores em saúde passam a apoderar-se das representações sociais dentro

das mais diversas abstrações conceituais. Oliveira (2000) nos traz algumas

perspectivas adotadas; uma delas é explicitada por Doise (1986, p.85) quando se

refere à teoria das representações sociais como “ princípios geradores de tomada de

posição que estão ligados a inserções específicas em um conjunto de relações

sociais, organizando os processos simbólicos que intervêm nessas relações”. Na

visão de Abric (1988, p.64), as representações são “um conjunto organizado de

informações, atitudes e crenças que um indivíduo ou um grupo elabora a propósito

de um objeto, de uma situação, de um conceito, de outros indivíduos ou grupos

apresentando-se, portanto, como uma visão subjetiva e social da realidade”. Jodelet

(2001, p.36) as entende como “uma forma de conhecimento socialmente elaborada

e compartilhada, com um alcance prático e que contribui para a construção de uma

realidade comum a um conjunto social”.

Comungamos com a fala de Oliveira (2000, p.57) quando comenta que:

“Toda representação é caracterizada por uma forma de visão global e unitária de um objeto, mas o é também de um indivíduo. Essa representação possibilita a reestruturação da realidade de modo a permitir

38

uma integração simultânea das características do objeto, das experiências anteriores do indivíduo e do sistema de atitudes e de normas do seu grupo social. Deve-se reconhecer, nessa abordagem das representações, uma certa visão funcional do mundo uma vez que permitiria, ao indivíduo e ao grupo, dar um sentido às suas condutas e compreender a realidade através do seu sistema de referências, portanto adaptar-se ao mesmo e assumir posições”.

Como as representações sociais se manifestam na forma de

pensamentos e esses, por sua vez, se encontram enraizados no inconsciente e

regidos por processo primário, faz-se imprescindível a utilização de métodos

particulares que possibilitem a apreensão dessas representações. A necessidade

de técnicas de aproximação são expressas na fala de Moscovici, citado por

Coutinho, de Nóbrega e Catão (2003, p.55), quando dizem que “uma representação

fala tanto quanto mostra, comunica tanto quanto exprime, produz e determina os

comportamentos, define simultaneamente a natureza dos estímulos que nos cercam

e nos provocam, dão significado às respostas, características relativizadas às

técnicas projetivas”.

Conforme enfatizam Coutinho et al. (2003, p.56):

“As técnicas projetivas fornecem representações daquilo que, no indivíduo e para o outro, é desconhecido por outros meios. Constituem uma forma de linguagem e, por isso mesmo, um tipo de leitura sobre o ser humano, a cerca das representações que as pessoas fazem do mundo, de si mesmas e de suas experiências de vida. Elas permitem a decodificação de mensagens no nível de estrutura superficial e no nível de estrutura profunda, formalizando-se determinados processos de derivação de um nível para outro. Elas facilitam a decifração de mensagens enigmáticas, sobretudo no contato direto com o outro. Favorece ainda a emissão de elementos que se encontram escondidos; assim o latente emerge à superfície tornando-se manifesto”.

A elaboração e o funcionamento de uma representação podem ser

compreendidos através dos processos de objetivação e ancoragem que encerram

a organização e a articulação existente entre a atividade cognitiva e as condições

sociais em que nascem as representações sociais (Nóbrega, 2001). Embora os

processos de objetivação e ancoragem estejam intrinsecamente ligados e não sejam

seqüenciais, propõe-se, a seguir, uma divisão de caráter estritamente didático para

uma melhor exposição dos dois processos.

O processo de objetivação é traduzido por Vala (2000) como a forma

através da qual se organizam os elementos constituintes da representação e o

percurso através do qual tais elementos adquirem materialidade e se tornam

expressões de uma realidade pensada como natural; corrobora com a fala de

39

Nóbrega (2001) que transmite a idéia de que “a objetivação consiste em materializar

as abstrações, corporificar os pensamentos, tornar físico e visível o impalpável,

enfim, transformar em objeto o que é representado” (p.73).

O caminho que desemboca nesse processo constitui-se de três partes

essenciais: a construção seletiva, a esquematização e a naturalização.

No primeiro momento da objetivação, há uma seleção e

descontextualização de alguns elementos da teoria, ou seja, informações, crenças e

idéias acerca do objeto da representação; esse processo ocorre em conformidade

com critérios culturais – que definem o acesso de cada grupo às informações

circulantes – e critérios normativos – que indicam quais elementos da teoria estão de

acordo com o sistema de valores sociais vigentes4. Os elementos que são

conflitantes com os valores são simplesmente excluídos. Assim, as informações

selecionadas são destacadas da área científica à qual pertencem e são apropriadas

pelo público leigo através de uma projeção no seu próprio universo (CAMPOS, 2002;

VALA, 2000).

A segunda fase do processo emerge na forma de esquematização. Para

Campos (2002) é nesse momento que os elementos selecionados e devidamente

contextualizados são reagrupados, formando um núcleo figurativo5 onde a imagem

reproduzirá a estrutura conceitual. Essa imagem formada integra as novas

informações com as experiências anteriores – individuais e coletivas – do sujeito.

Então, os conceitos retirados da teoria original passam a formar um conjunto

internamente coerente e compatível com a visão de mundo do sujeito.

Nóbrega (2001) aprofunda a discussão sobre esse “núcleo estruturante”

conduzindo-nos à descoberta de suas funções – geradora e organizadora – “a partir

das quais atribui sentido e determina os elos de unificação entre os outros

elementos (periféricos) que se entrelaçam na formação do tecido representacional”.

A autora nos esclarece, ainda, que:

“Além de organizador, o núcleo tem a propriedade de assegurar a estabilidade da estrutura imageante. O elemento do núcleo central é determinado pela finalidade e condições (natureza do objeto e relação do sujeito com este objeto) onde se produz a representação” (p. 74).

4 Nóbrega (2001) ressalta que “são os critérios normativos que exercem a função de retenção dos elementos de informação, preservando a coerência com o sistema de valores próprios ao grupo”. 5 ABRIC introduziu a teoria do núcleo central que foi, posteriormente, retomada por FLAMENT e desenvolvida na teoria dos esquemas periféricos.

40

Finalmente, acontece a naturalização, em que os conceitos abstratos são

concretizados, ganham vida própria e, então, o modelo figurativo eleva-se à

condição de evidência e é dotado de realidade (CAMPOS, 2002; NÓBREGA, 2001).

Com base em Vala (2000, p.469), entende-se que analisar o processo de

objetivação consiste em identificar os elementos que dão sentido a um objeto, à sua

seleção de um conjunto mais vasto de conceitos (reconstrução de um esquema), à

sua figuração e às modalidades que assume a sua naturalização. Portanto, estudar

as relações entre os elementos de uma representação é detectar como se dá a sua

objetivação. Mas ainda se pode compartilhar com a visão do autor quando esse

esclarece que “a teoria das representações sociais propõe que o processo de

objetivação não ocorre apenas na passagem das teorias científicas para o senso

comum. A objetivação constitui uma característica de todo o pensamento social”.

Com o conceito de ancoragem é possível elencar uma segunda categoria

de processos associados à formação das representações sociais: a) os processos

através dos quais o não-familiar se torna familiar e b) os processos através dos

quais uma representação, uma vez constituída, se torna um organizador das

relações sociais. Assim, o processo de ancoragem refere-se à assimilação de um

objeto novo ou desconhecido por objetos já presentes no sistema cognitivo. Esses

objetos funcionam como âncoras que vão possibilitar a construção da representação

do novo objeto. Logo estudar o processo de ancoragem significa listar as âncoras

que sustentam uma representação e, por isso, modelam os seus conteúdos

semânticos, delineando, conseqüentemente, suas significações (VALA, 2000).

Na fala de Moscovici (2003, p.61) “esse é um processo que transforma

algo estranho e perturbador, que nos intriga, em nosso sistema particular de

categorias e o compara com um paradigma de uma categoria que nós pensamos ser

apropriada”, o que é seria, nas palavras do autor, semelhante a idéia de “ancorar um

bote perdido em um dos boxes (pontos sinalizadores) de nosso espaço social”.

Nóbrega (2001) destaca que, à semelhança da objetivação, a ancoragem,

também, é organizada sobre três condições estruturantes. A primeira delas consiste

na atribuição de sentido através da qual o “enraizamento de um objeto e sua

representação em um grupo ou em uma determinada sociedade está inscrito em

uma ‘rede de significações’, em que são articulados e hierarquizados os valores já

existentes na cultura”. Citando JODELET, a autora ilustra que “por um trabalho da

41

memória, o pensamento constituinte se apóia sobre o pensamento constituído, a fim

de ordenar a novidade nos moldes antigos, no que já é conhecido”.

A segunda condição estruturante fundamenta-se na instrumentalização

do saber que, segundo Nóbrega (2001, p.78),

“confere um valor funcional à estrutura imageante da representação, à medida que esta se torna uma teoria de referência que permite aos indivíduos compreenderem a realidade. (...) A relação entre o indivíduo e seu meio-ambiente é mediatizado pelo sistema de interpretação do qual o novo objeto (ciência, coisa, conhecimento) é transformado em saber útil que tem uma função na tradução e na compreensão do mundo”.

Por fim, a mesma autora nos apresenta, o enraizamento no sistema do

pensamento caracterizado pelo fato de as representações serem impressas sempre

sobre um sistema de idéias já estabelecidas, permitindo a convivência de dois

fenômenos contrastantes no decorrer do processo de construção de novas

representações.

Um exemplo prático é oferecido por Vala (2000, p.474) sendo aqui

apresentado com o objetivo de ilustrar o conceito de ancoragem e possibilitar

vislumbrá-lo com mais clareza:

“Quando se diz que a SIDA é a peste do século XX, está-se a usar uma metáfora que evoca algo de conhecido, para descrever um novo fenômeno ainda desconhecido (...); mas, ao mesmo tempo, está-se a propor, relativamente à sida, comportamentos e formas de tratamento semelhantes aos que foram utilizados em tempo de peste (...)”.

Através da ancoragem, conferem-se significado e utilidade às

representações e seus objetos. Enquanto, na objetivação, ocorre uma constituição

formal de um conhecimento, é na ancoragem que se dá a inserção orgânica desse

conhecimento num pensamento constituído. A ancoragem é, portanto, um

prolongamento da objetivação, na medida em que propicia um quadro e

instrumentos de conduta que prolongam a remodelagem cognitiva feita por ela.

Assim, conclui-se o processo de formação da representação social, uma vez que,

estando devidamente enraizada, ancorada no sistema social, a representação passa

a fazer parte dos princípios que orientam as práticas dos indivíduos (BERNARDO

apud CAMPOS, 2002).

O papel fundamental das representações, na dinâmica das relações

sociais e nas práticas, está relacionado ao fato de que elas respondem a quatro

funções essenciais (ABRIC, 1998):

42

 A função de saber – função cognitiva – permite compreender e explicar a

realidade (saber prático do senso comum). As representações sociais permitem

que os atores sociais adquiram conhecimento e o integrem num quadro

assimilável e compreensível para eles próprios, ou seja, em coerência com seu

funcionamento cognitivo e os valores aos quais eles aderem.

 A função identitária – define a identidade e permite a proteção da especificidade

dos grupos. As representações sociais permitem a elaboração de uma identidade

social e pessoal, tendo um papel importante no controle social exercido pela

coletividade sobre cada um de seus membros e, em especial, nos processos de

socialização.

 A função de orientação – guia os comportamentos e práticas. Esse processo de

orientação resulta de três fatores essenciais: (1) a representação intervém

diretamente na definição da finalidade da situação, determinando, a priori, o tipo

de relações pertinentes para o sujeito e, eventualmente, intervém na definição do

tipo de estratégia cognitiva que será adotada; (2) a representação produz um

sistema de antecipações e expectativas, sendo, desta forma, uma ação sobre a

realidade: seleção e filtragem das informações, interpretações que visam

adequar essa realidade à representação; (3) a representação é prescritiva de

comportamentos ou de práticas obrigatórias.

 A função justificadora – permite, a posteriori, a justificativa das tomadas de

posição e dos comportamentos. As representações intervêm na avaliação da

ação, permitindo aos atores explicar e justificar suas condutas numa situação.

Parte-se do princípio de que é possível levantarem-se as opiniões das

pessoas sobre um determinado objeto sem, entretanto, envolver representações

sociais acerca desse objeto. O fato de um indivíduo emitir opiniões a respeito de um

assunto não significa, necessariamente, que uma representação social deve estar

implícita nessa manifestação. Moscovici foi o primeiro autor a estudar as condições

necessárias para o surgimento de uma representação. De acordo com seus

trabalhos, três condições seriam necessárias ao aparecimento de uma

representação social (NÓBREGA, 2001): a difusão, a propagação e a

propaganda.

A difusão refere-se à informação disponível sobre o objeto, não se

dirigindo a um público, mas a uma pluralidade de públicos. As mensagens sobre um

43

objeto organizam-se de forma indiferenciada, na medida em que ignoram as

diferenciações sociais. Admite-se a existência de uma distância entre a informação

utilizável pelos atores sociais e a informação que lhes seria necessária para atingir

um ponto de vista objetivo. A insuficiência gera incerteza e ambigüidade, e favorece,

desta forma, o aparecimento de um processo de reconstrução social (VALA, 2000;

CAMPOS, 2002).

A propagação exige uma organização mais complexa das mensagens,

representa a posição específica do grupo social em relação ao objeto, o que

determina um interesse particular por certos aspectos do objeto e um desinteresse

por outros. A sua finalidade é integrar uma informação nova, ou um problema novo e

perturbante, no sistema de valores do grupo (VALA, 2000; NÓBREGA, 2001 e

CAMPOS, 2002).

Divergindo da difusão e da propagação, a propaganda oferece uma visão

do mundo claramente clivada e conflituosa. Essa forma de comunicação demanda a

unidade e auto-afirmação de um grupo, colocando-o numa relação de oposição ou

antagonismo em relação a outro grupo (VALA, 2000; NÓBREGA, 2001).

Existem várias abordagens relacionadas com a construção das

Representações Sociais que denotam linhas de pesquisa e metodologia distintas,

assumidas por estudiosos interessados na compreensão das representações

sociais. Neste trabalho, tomou-se como base o modelo das Representações Sociais

através da perspectiva de Moscovici (1978). Assim, pretende-se conhecer as

elaborações representativas dos idosos sobre os animais de estimação como parte

de uma construção coletiva, pois as representações elaboradas no plano cognitivo

revelam sempre uma realidade social comum a um conjunto de pessoas.

44

5 DESENHO METODOLÓGICO

5.1 Natureza do estudo

O estudo tem como eixo teórico a Teoria das Representações Sociais

conforme os princípios de Moscovici (1978), utilizando os multimétodos. A pesquisa

é, por excelência, qualitativa, mas apresenta duas etapas quantitativas sob a forma

do perfil sociodemográfico dos sujeitos participantes da pesquisa e do Teste de

Associação Livre de Palavras (TALP) associado à Análise Fatorial de Correspon-

dência (AFC) no intuito de enfocar melhor o tema em estudo.

5.2 Campo da pesquisa

A pesquisa foi desenvolvida na cidade de Fortaleza, capital do Estado do

Ceará, localizada no litoral, próximo à linha do Equador. Sua população totaliza

2.332.657 habitantes, segundo estimativa do Instituto Brasileiro de Geografia e

Estatística (IBGE) para o ano de 2004 (IBGE, 2005). O município ocupa uma área de

33.516,5 hectares e é dividido, politicamente, em seis Secretarias Executivas

Regionais (SER), abrangendo um total de 116 bairros.

FIGURA 1 – Divisão administrativa da cidade de Fortaleza-CE em 6 Secretarias Regionais. Ano 1997.

Fonte: Cartilha da reforma administrativa, Fortaleza, 1997.

45

Mais especificamente, o campo empírico da pesquisa terá como lócus o

Serviço Social do Comércio (SESC) – Fortaleza, que é uma instituição privada, de

âmbito nacional, criada e mantida por iniciativa do empresariado do setor de

comércio de bens e serviços através da contribuição mensal de 1,5% sobre a folha

de pagamento dos empregados do comércio e serviços. Os recursos são investidos

na assistência ao comerciário sem fins lucrativos.

A escolha do SESC-Fortaleza deveu-se ao fato de, dentro do Programa

de Assistência do SESC, existir a proposta do Trabalho Social com Idosos (TSI). A

experiência do TSI no Ceará nasceu por volta de 1984. O Grupo de Convivência do

SESC constitui-se um campo bem estabelecido e é referência quanto ao trabalho

com idosos, reunindo uma população significativa, capaz de satisfazer o perfil

necessário para a realização da pesquisa.

O TSI promove reuniões semanais de pessoas com cinqüenta ou mais

anos de idade, propondo a execução de atividades variadas de socialização,

recreação/lazer, artesanato, atividades físicas entre outras. O SESC mantém o TSI

em aproximadamente 28 Unidades espalhadas por todo o país sob a coordenação

técnica do Departamento Nacional com sede no Rio de Janeiro.

O Grupo de Convivência do SESC, segundo levantamento realizado por

Prado (2003), contava, no ano de 2003, com um contingente de 762 inscritos

distribuídos entre diversas programações ofertadas pela instituição. Desse

contingente 12,9% integram a faixa etária de 50 a 59 anos, enquanto a maior

parcela da população apresenta idade igual ou superior a 60 anos. Com relação ao

perfil econômico, a autora informa que 60% da clientela do TSI tem remuneração de

1 a 3 salários mínimos e, quanto à escolaridade, 42% dos usuários concluíram o

ensino médio e apenas 0,8% são analfabetos.

A atualização dos dados referentes à população atendida no programa foi

realizada em janeiro de 2005, após a liberação do projeto junto ao Comitê de Ética

em Pesquisa, através de consulta ao registro de inscrição referente ao segundo

semestre de 2004 (30/06/04 – 31/12/04) disponível na central de atendimento do

SESC-Fortaleza. A população inscrita no Grupo de Convivência do TSI perfazia, na

época, um total de 955 pessoas com idade igual ou superior a 50 anos. Contudo,

não havia acesso a qualquer característica dos sujeitos, como gênero, escolaridade

46

ou faixa etária discriminada, fato esse que impôs severas limitações à delimitação

mais apurada da amostra para as etapas quantitativas do estudo.

5.3 População Alvo/Amostra

A população alvo do estudo foi constituída por idosas pertences ao

Grupos de Convivência do SESC - Fortaleza. Participaram da primeira etapa da

pesquisa 200 idosas divididas em dois grupos. O primeiro grupo foi formado por 100

idosas que convivem com animais de estimação6 e na idade de 60 anos ou mais e o

segundo grupo com 100 idosas da mesma faixa etária que não convivem com

animais. A delimitação da amostra perfaz um percentual aproximado de 20% da

população do Grupo de Convivência sem, no entanto, considerar as variáveis

sociodemográficas desses indivíduos (dados não disponibilizados pela instituição).

Diante do universo a ser pesquisado, utilizamos como critérios de inclusão

dos sujeitos que participaram da pesquisa: fazer parte do Grupo de Convivência do

SESC-Fortaleza; ter idade igual ou superior a 60 anos, segundo a Política Nacional

do Idoso (PNI)7; conviver ou não com animais de estimação; ser alfabetizado e

aceitar livremente a pesquisa mediante assinatura do termo de consentimento.

5.4 Mecanismos e Estratégias de coleta de dados

A escolha da abordagem multimétodo para a realização dessa pesquisa

deveu-se ao fato de se estar buscando uma coleta de informações que dê conta de

aspectos afetivos, cognitivos e atitudinais das participantes através da comunicação

com elas. Essa abordagem consiste na utilização de múltiplas técnicas e

instrumentos para o estudo de um fenômeno, buscando sua melhor compreensão e

segurança na análise interpretativa.

Os instrumentos selecionados para obtenção dos dados foram: o

questionário de perfil sociodemográfico, o Teste de Associação Livre de Palavras e o

Desenho-estória com tema e a entrevista semi-estruturada. O uso combinado dos

6 Utilizamos a terminologia “convivem com animais de estimação” por entender que a propriedade não é pré-requisito para o estabelecimento de uma interação entre a idosas e um animal. 7 Conforme a Política Nacional do Idoso – PNI (Art. 2º ): “Considera-se idoso, para os efeitos desta Lei, a pessoa maior de sessenta anos de idade”.

47

instrumentos possibilita a compreensão do objeto de investigação pela análise

quantitativa e qualitativa do material simbólico expresso.

O questionário de perfil englobou variáveis gerais como estado civil,

escolaridade, ocupação, arranjo familiar, além de questões sobre a auto-percepção

de saúde/doença e particularidades sobre a convivência com animais de estimação.

Esse levantamento de dados possibilitou uma maior aproximação com os sujeitos da

pesquisa através do delineamento das características básicas de cada grupo, sua

semelhanças, divergências e peculiaridades.

O Teste de Associação Livre de palavras é uma técnica relevante nas

investigações em representações sociais. Originalmente desenvolvido por Jung no

contexto da prática clínica foi adaptado por Di Giacomo (1981) no sentido de atender

à demanda das pesquisas em psicologia social. É um teste que se organiza a partir

da evocação de respostas dadas após um ou mais estímulos sugestivos e que

possibilita a expressão de universos semânticos de palavras que agrupam

determinadas populações; consiste em uma técnica de caráter projetivo construída

no sentido de trazer à consciência elementos inconscientes através das

manifestações de condutas de reações, evocações, ou seja, a estrutura da

personalidade do sujeito (NÓBREGA; COUTINHO, 2003).

O processo de aplicação do teste é simples, consistindo em se vocalizar

para o sujeito uma palavra ou mais, conhecidas nas representações sociais como

indutora(s). No presente caso, pode-se perguntar o que vem à sua mente quando se

falam as palavras indutoras: animal de estimação, riscos da convivência com

animais de estimação, benefícios da convivência com animais de estimação, saúde,

doença, velhice e “si mesma”. Em resposta, o sujeito deve verbalizar, o mais rápido

possível, as primeiras palavras que lhe vêm à mente. Deve-se, também, solicitar aos

sujeitos que listem suas respostas por ordem de importância decrescente. Em

relação ao tempo para a resposta, deve-se ter cuidado em relação ao período de

latência e o tempo total, isto é, não permitir que haja tempo para elaboração das

respostas, que deverão ser enunciadas de forma a mais rápida possível. O teste de

associação livre de palavras foi aplicado a 217 idosas com um percentual de perdas

igual a 7,8% (17 testes), o que resultou num total final de 200 testes para execução

da análise.

Para Bardin (1977, p.51 e 52), o teste de associação livre de palavras

possibilita localizar zonas de recalcamento e bloqueamento de um indivíduo.

48

Ressurgem formas espontâneas de associações relativas a estereótipos sociais que

designam como uma representação de um dado “objeto mais ou menos desligado

da sua realidade objetiva, partilhada pelos membros de um grupo social com uma

certa estabilidade”.

A técnica para fundar as questões subjetivas foi a entrevista semi-

estruturada, a partir de uma questão norteadora, com a utilização de um gravador

para o registro dos discursos. Essa é indispensável a todo e qualquer estudo de

representação social cuja finalidade é apreender as características das

representações sociais enquanto sistemas sociocognitivos, avançando do particular

e concreto para o geral e abstrato, favorecendo o desvelamento das representações

sociais. A entrevista semi-estruturada foi aplicada às idosas que convivem com

animais de estimação e tinham condições de responder às questões. Para tanto foi

determinado um quantitativo inicial de 15 idosas, mas o quantitativo geral foi

determinado durante o processo de amostragem conceitual, quando as experiências

se foram repetindo e se tornaram capazes de explicar o fenômeno em suas diversas

dimensões, ou seja, até que houvesse a saturação teórica.

Para complementar os dados, aplicou-se a técnica de Desenho-Estória

com Tema (COUTINHO; NÓBREGA, CATÃO, 2003) às idosas que se submeteram à

entrevista. Na percepção dos autores, o uso dessa técnica no campo das

representações sociais permite que elementos do inconsciente sejam elucidados

através da execução de uma leitura transferencial, tendo como núcleo a apreensão

do que revela o material trabalhado acerca do posicionamento existencial do sujeito

grupal frente ao objeto social em estudo.

Coutinho et al (2003) descrevem a técnica como de aplicação simples,

podendo sua administração ser realizada de forma individual e/ou coletiva; é

aplicada a todas as faixas etárias, em ambos os sexos, em qualquer nível: mental,

socioeconômico e cultural. O material utilizado para o teste constitui-se de folhas de

papel em branco, sem pauta, de tamanho ofício; lápis preto e caixa de lápis de cor. A

execução da técnica deve acontecer, preferencialmente, durante o período diurno

devido ao uso de estímulos cromáticos. O pesquisador explicará o objetivo da

pesquisa, colocando, em seguida, à disposição do sujeito uma folha de papel e os

lápis. Em seguida, solicita que o sujeito faça um desenho sobre o tema em estudo.

Após o término do desenho, pede-se que o idoso conte uma história, associada ao

estímulo (desenho) e lhe dê um título.

49

5.5 Tratamento dos dados

Os questionários empregados na coleta dos dados de perfil dos

participantes sofreu uma pré-codificação: as respostas às questões levantadas na

entrevista foram compiladas, inicialmente, em um banco de dados do programa

EXCEL. Posteriormente, realizou-se o processamento dos dados, utilizando-se o

pacote estatístico SPSS (versão 11) e procedendo-se a organização dos resultados

em gráficos, tabelas e figuras.

As verbalizações resultantes das entrevistas foram analisadas através da

técnica de Análise de Conteúdo Temática, de acordo com os pressupostos de Bardin

(1977). Para essa autora, a análise de conteúdo é um

“conjunto de técnicas de análise das comunicações que visa obter, por procedimentos sistemáticos e objetivos de descrição do conteúdo das mensagens, indicadores quantitativos ou não, que permitam a inferência de conhecimentos relacionados à condição de produção-recepção (variáveis inferidas) dessas mensagens” (p.42).

Essa descrição sistemática dos conteúdos presentes nas comunicações

revela, assim, o que não está manifesto ou aparente nas falas dos sujeitos. Por sua

vez, essa compreensão permite a construção de inferências junto aos discursos.

Nesse sentido, Bauer (2002, p.190) ressalta que a análise de texto possibilita a

construção de uma ponte entre um formalismo estatístico e a análise qualitativa dos

materiais. Enquanto paradigma quantidade/qualidade das ciências sociais, a análise

de conteúdo materializa o ideal de técnica híbrida, derrubando fronteiras e rompendo

com a improdutiva discussão sobre virtudes e métodos em pesquisa.

Os relatos inicialmente gravados foram transcritos em sua íntegra para

possibilitar o posterior trabalho do material sem cortes no processo de reprodução,

conforme a permissão dos sujeitos por sua assinatura no termo de consentimento.

As transcrições das fitas gravadas deverão ser feitas logo após a realização de cada

entrevista, na medida do possível, pelo próprio pesquisador-entrevistador.

Os conteúdos que emergiram a partir das falas dos sujeitos entrevistados

foram submetidos à análise de conteúdos temática de Bardin (1977), propiciando a

visualização dos sentidos manifestos para além das aparências do que está

comunicado. Para isso, a técnica de análise de conteúdo engloba as seguintes

etapas: constituição do corpus, leitura flutuante, composição das unidades de

análise, codificação e recortes, categorização e descrição das categorias

(COUTINHO, 2001, p.102).

50

A constituição do corpus consiste na organização do conjunto de

documentos necessários aos procedimentos analíticos. Nessa pesquisa, o corpo foi

estabelecido a partir das 20 entrevistas gravadas, 20 desenhos-estória com tema e

200 testes de associação de palavras.

A leitura flutuante corresponde a uma primeira leitura, livre, de todo o

material, sem maiores controles, para que, subseqüentemente, o pesquisador se

detenha em leituras mais orientadas e concisas. Essa etapa possibilita que se

identifiquem categorias em potencial para posterior levantamento.

A composição das unidades de análise consiste no momento de emersão

e definição das categorias emergentes (empíricas) a partir da decomposição do

corpus, seguindo-se sua codificação. Dos sentidos apresentados, surgiram as cinco

categorias e dezenove subcategorias do estudo, que receberam siglas de acordo

com a primeira letra de cada palavra. As unidades de registro ou de menor

significação utilizadas para os cortes do texto foram as frases.

As categorias e subcategorias foram agrupadas de acordo com a

verbalização dos sujeitos; produziu-se, assim, um quadro em que se relacionam as

categorias e lhes atribuem peso numérico e sentido predominantemente qualitativo.

Vale salientar que foram realizados recortes no texto, de acordo com a unidade de

significação maior adotada (parágrafo), denominados unidades de contexto.

Os dados levantados no Teste de Associação Livre de Palavras foram

processados pelo software Tri-Deux-Mots (versão 2.2), Cibois (1995). Em seguida,

procedeu-se à Análise Fatorial de Correspondências que se constitui uma técnica de

análise estatística. Esse procedimento tornou possível a representação gráfica das

variáveis fixas (sociodemográficas) e variáveis de opiniões que correspondem às

respostas dos participantes.

A análise das descrições apreendida pelo Desenho-História com Tema

deve levar em consideração a observação sistemática dos desenhos; leitura

flutuante dos conteúdos das histórias; categorização dos desenhos após seleção por

semelhança e/ou por aproximação dos temas; análise e interpretação dos conteúdos

temáticos através da análise de conteúdo (BARDIN, 1977).

Finalmente, executou-se a técnica de triangulação dos dados, buscando-

se confrontar os achados em suas mais diversas formas e, assim, contemplar o

assunto estudado em suas distintas facetas, dando-se solidez às análises

realizadas.

51

5.6 Questões éticas

Em obediência à Resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde/

Ministério da Saúde, os sujeitos abordados no estudo foram informados dos

objetivos da pesquisa e aos que aceitaram tomar parte nele foi assegurado o

anonimato, bem como a possibilidade de se retirarem, a qualquer momento, do

estudo. Todos os que concordaram assinaram um termo de consentimento livre e

esclarecido (Apêndice I). O projeto passou por avaliação no Comitê de Ética em

Pesquisa da Universidade Estadual do Ceará, constando nele a solicitação para

entrada no campo, assim como a devida assinatura da folha de rosto pelo

responsável pela unidade onde se realizou a pesquisa.

52

6 ENCONTROS E DESENCONTROS NO ATO DE PESQUISAR

Dedicamos esse singelo espaço a refazer a história dessa caminhada tal

qual a vivenciamos, como diz Messy (1999), com a inocência dos iniciantes e a

ignorância dos exploradores. Talvez a vivência aqui compartilhada sirva de consolo

para os que, como eu, a vivenciaram, pois não estão sós, e de experiência para os

que se iniciam nessa arte, para que seu caminho seja mais previsível e não

estranhem os percalços da jornada.

Podemos concordar com que a construção do projeto seja o ponto álgico

da pesquisa, uma vez que, através dele, espelhamos todo o futuro da investigação

de campo como uma vidente que lê sua bola de cristal. Talvez, acredito eu, que para

aqueles que guardam alguma intimidade com o lócus do estudo e com os seus

sujeitos o desacordo entre teoria e prática seja menos intenso. Mas para aqueles

que, à minha semelhança, buscam aventurar-se em terrenos inóspitos, um leque de

surpresas os aguarda a cada passo do caminho metodológico.

Não quero ser, aqui, uma fonte de aflição ou de terrorismo intelectual;

meu desejo é apenas compartilhar um pouco as angústias, o estresse e, por que

não dizer, as surpresas que me acompanharam na busca de respostas para as

minhas questões norteadoras, o que, por vezes, me impulsionou, mas que, também,

por um número igual de vezes, me fez retroceder. Neste momento de reflexão,

busco contestar a perfeição das pesquisas através dos percalços da minha própria

caminhada, pois tenho convicção de que não estou só nessa jornada de

descobertas, mas apenas tenho o despudor de revelar os bastidores do meu

percurso com quem desejar conhecê-lo.

O primeiro contratempo, de uma série de fatos que se sucederam, foi de

cunho político. Meu ano de ingresso no Mestrado de Saúde Pública coincidiu com o

ano de eleições municipais. Esse contexto, aparentemente, não guardava qualquer

relação com o desenvolvimento da minha pesquisa, até que, no projeto, os Grupos

de Convivência passaram a ser meu objeto de desejo. E, então, a triste realidade!

No processo de transição política municipal, a prefeitura fechou suas portas para a

intromissão de curiosos pesquisadores como eu. O cenário era de incerteza tanto no

domínio público quanto em suas ramificações. A saída foi buscar, na iniciativa

53

privada, o que o público me furtava, os sujeitos da pesquisa, já que, obviamente,

não seria possível uma coleta de dados clandestina.

Vale a pena ressaltar que nem tudo são espinhos. Resolvi fazer uma

incursão na biblioteca da UECE, que foi a solução para minhas preces. Em meio a

um sem número de monografias sobre envelhecimento, velhice, terceira idade e

temas afins, decidi bisbilhotar onde afinal esse povo descobre seus sujeitos. Escolhi,

por afinidade semântica, três títulos monográficos, cota estipulada para a leitura dos

trabalhos. Entre eles me chamou a atenção a leitura de um em especial – “Muito

além da velhice: Grupo SESC” - escrito por uma assistente social recém formada.

O grupo era grande, bem formulado e com raízes de mais de 20 anos.

Foi, assim, que a iniciativa privada me acolheu. Não como amor à primeira vista,

passei por todos os processos legais, levei e trouxe papéis, documentos e esquentei

um bocado os bancos das salas de espera, mas fui acolhida e minha pesquisa,

agora, já estava investida de seus sujeitos e lócus.

Veio a qualificação que, há poucos meses, também tinha sido fonte de

sofrimento psíquico. Projeto para qualificar tem que ter referencial teórico e a busca

por uma teoria que desse suporte ao meu objeto também foi uma peregrinação mas,

para resumir, entre livros e professores me enamorei das Representações Sociais. O

importante é que, apesar de muitos terem desencorajado meu tema, muitos o

admiravam, depositando em mim esperanças; é a esse tipo de gente que temos que

nos agarrar.

Passada a qualificação, chegou o momento de entregar o trabalho no

comitê de ética e esperar. Por incrível que pareça, findo um mês, com o parecer

liberado para o início do trabalho, minha infância resolve aflorar, de forma vingativa,

no adulto fragilizado tomando a forma de uma infecção viral benigna, mas altamente

contagiosa. Eis que surge a catapora na minha vida. Não sei se mais trágico ou mais

cômico, deixou-me de molho por mais de quarenta e cinco dias. Ainda guardo uma

quantidade considerável de suas marcas.

Vencida a infecção, mas ainda convalescente, iniciei meu caminhar junto

ao SESC em abril de 2005, antes que eles desistissem de mim. A expectativa era

grande; por fim, batalharia, com minha timidez, numa conversa íntima com mais de

200 idosos e idosas do crescente grupo de convivência do SESC. Mas o que

poderia dar errado? Estava tudo previsto no projeto: questionários impressos, termos

de consentimento organizados, gravador e fitas impecáveis. O primeiro passo era a

54

execução de uma prova-piloto para decidir se o teste de associação de palavras

seria executado de forma coletiva ou individual.

O grande dia chegou! Lá estava eu de frente para a turma de inglês,

fazendo minha apresentação tão esperada. Mas eis que uma senhora se levanta e

argumenta: “Isso vai atrapalhar a nossa aula! Eu não vou responder. Arranje outra

hora pra fazer isso”. Visto o silêncio consensual dos demais membros do grupo, não

tive mais o que fazer. Humildemente, agradeci a oportunidade e me retirei da sala,

tentando salvar o pouco de dignidade que me restava. Talvez um balde de água fria

atirado direto na minha cabeça tivesse sido mais misericordioso. Mas, insisto em

dizer, nada pode dar 100% errado. Da minha saída da sala, seguiram-me duas

doces senhoras que, com ternura maternal, num tom quase confidente, disseram-

me: “Venha na próxima aula. Chegue antes, que nós responderemos o que você

quer”.

Após essa experiência, sem qualquer alternativa, tive que rever meus

parâmetros, a abordagem pretendida era furada, meu projeto clamava por

reformulação e, obviamente, por uma fagulha de criatividade. Enquanto esse milagre

intelectual não acontecia, conversei com a coordenadora do TSI, que, vale salientar,

estava do meu lado no fatídico episódio de rejeição à primeira vista. Entramos num

consenso mútuo de que eu deveria dedicar minha primeira semana e, quem sabe, a

segunda também ao esclarecimento do meu trabalho e de minha apresentação

formal para o grupo. O negócio era me fazer conhecer, deixar de ser uma completa

estranha. E foi nisso que investi meu tempo e minhas energias literalmente, pois

devo ressaltar o fato de que as pessoas que compõem o grupo de convivência do

SESC se dividem em diversas atividades oferecidas pela entidade.

Nesse contexto, participei das mais extravagantes às mais singelas

atividades, desde a ioga ao “lian gong”, passando pelas aulas de postura e

passarela e pelos ensaios do coral. Devo admitir que não foi nenhum sacrifício;

desenvolvi grande simpatia pelas pessoas e suas ocupações, não deixando de

propor momentos e formas alternativas para que todos ou, pelo menos uma parte,

se envolvessem na minha pesquisa. Foi o coral do TSI que me acolheu, pela

primeira vez, naquele longo processo de acomodação ao meio, um processo quase

etnográfico. Ressalvo a ajuda do maestro que se pôs à disposição para me auxiliar

no entrosamento com seus alunos.

55

Foi, assim, junto ao coral, que o teste piloto virou realidade cerca de dez

dias depois da minha entrada no campo. O teste de associação de palavras foi

realizado de forma coletiva e, nesse momento da pesquisa, ainda como o idealizado

abrangendo ambos os gêneros. Não foi necessário qualquer leitura para

diagnosticar outro furo no desenho metodológico. Durante a execução da tarefa a

individualidade dos sujeitos se manifestava a cada momento, quer pelas limitações

físicas, quer pelo simples desejo de terminar logo; não havia como dar conta de toda

a demanda de atenção. Facilmente percebi que a aplicação coletiva seria inviável se

quisesse manter o padrão de qualidade exigido pela teoria.

Uma segunda constatação nasceu da leitura dos testes: apresentavam

significativas lacunas no preenchimento, confusões interpretativas, incoerências

semânticas ou um grafismo impossível de ser lido. Por fim, além de ser realizado de

forma individual, o teste teria que ser preenchido por mim para garantir um maior

aproveitamento num menor tempo e evitar o retorno recorrente ao sujeito para

refazer a coleta de dados como o empreendido, subseqüentemente, na primeira

turma.

Passado o primeiro momento de rearranjo e descobertas, prossegui a

coleta de dados, percorrendo muitos quilômetros diários no SESC-Fortaleza e

exercitando o dom da paciência e da escuta atenta; constatei, também, que não

haveria população masculina suficiente para garantir minha amostra, que incluía,

cem homens. Quanto otimismo! Alguém há de me perguntar: “Como você não se

informou disso antes?”.

Essa história remonta ao período de fechamento do projeto para a

qualificação. A informação acessível no SAC (Serviço de Atendimento ao

Consumidor) do SESC destacava os seguintes dados: no último semestre de 2004,

constam, cadastrados no sistema, 955 usuários inscritos no TSI (Trabalho Social

com Idosos) com idade superior ou igual a 50 anos e de ambos os sexos.

Conseqüentemente, a limitação dos dados inviabilizou o cálculo de uma amostra

mais fidedigna, mas, em nenhum momento, duvidei que encontraria cem sujeitos do

sexo masculino. Apesar do processo de feminilização da população idosa, não me

parecia, na época, uma tarefa impossível. Doce ilusão!

A constatação definitiva desse fato ocorreu por ocasião do primeiro

grande evento de que participei no SESC. Era a comemoração da páscoa. O salão

principal, conhecido como praça de eventos, estava repleto, todavia, diga-se de

56

passagem, pelas mulheres do grupo e, para não dizer que inexistiam homens no

recinto, dois representantes “solitários” dividiam o espaço que era delas. Era hora de

fazer reformas no projeto. Passei a trabalhar apenas dois núcleos dentro do gênero

feminino: um grupo que convivia com animais de estimação e outro que não

convivia.

Os ajustes foram suficientes e, com o passar dos meses, conquistei a

confiança e a amizade de muitas pessoas. As dificuldades não deixaram de existir;

pelo contrário, sempre foram companhia diária nesse processo. Houve dias em que

a escuta nas entrevistas era densa; o discurso, repleto de perdas e sofrimento,

principalmente psíquico, despertando em mim, também, a angústia da morte. A

entrevista da qual lhes falo não se refere à segunda etapa do meu trabalho, mas aos

testes de associação de palavras, pois não me furtei de ser um ouvido atento para

as pessoas que precisavam.

Meus dias, contudo, não foram só de penar. Passeei, dancei, cantei e

compartilhei com o grupo momentos dos mais diversos e, ainda, nesse meio tempo,

coletei dados. Que colheita trabalhosa! Encarei muitos “nãos”, mas aprendi a

superá-los. De certo, não feri o código de ética em pesquisa, o qual prometi

respeitar. A coordenação do TSI passou a ser meu porto seguro, pois, em meio à

correria do dia-a-dia, as meninas nunca se furtaram de me ajudar e de terem uma

palavra amiga de estímulo para me dispensar. Passei a ser conhecida como “aquela

estagiária branquinha” pelo grupo. Em setembro do mesmo ano, concluí essa etapa.

Deixar o grupo de convivência foi a parte mais difícil da pesquisa.

Finda essa fase, era momento de me debruçar sobre a outra. O

processamento dos dados constitui-se, ao meu ver, como o momento mais solitário

do pesquisador. O trabalho é do tipo braçal, enfadonho e repetitivo. Quanto mais se

faz, mais falta para concluir, e o tempo não pára de seguir seu curso, rápido e

implacável. Passei três meses tabulando resultados, compondo banco de dados e

transcrevendo fitas. Mas ainda estava muito longe. Não me envergonho de dizer que

precisei de ajuda e não tive pudor em procurá-la. Era o software que não rodava, o

banco de dados cheio de erros que eu não enxergava mais, as fitas com infinitos

minutos de gravação de que eu não dava mais conta, estava lenta. Realmente

precisei de olhos de águia para enxergar o que não via mais; de mãos de fada e

ouvidos atentos para me guiarem e, só assim, alcançar minha meta.

57

Como diz uma professora nossa, “a pesquisa não termina, ela pára”.

Tenho consciência de um trabalho inacabado em função do tempo, mas apesar das

arestas, este trabalho representa o resultado de um embate travado em campo,

corpo a corpo, produto do suor, não apenas meu, mas das pessoas que, em algum

momento, acreditaram nele. Que as minhas falhas funcionem como um alerta

àqueles que buscam a perfeição na pesquisa social, pois nela só disporemos de

nossa falibilidade e encontraremos nossa própria humanidade.

58

7 CONHECENDO OS SUJEITOS DA PESQUISA

Este capítulo abriga, de forma geral, aspectos concernentes aos sujeitos

contemplados no estudo: do perfil sociodemográfico dos dois grupos8 de referência

para o trabalho às suas autopercepções de saúde e doença. Mais especificamente,

idealizaram-se dois sub-tópicos, que encerram características particulares dos

grupos quanto à sua interação com o objeto de pesquisa. Essa construção, apesar

de guardar um contorno eminentemente positivista, é uma tentativa de apresentar

todos os participantes da pesquisa, desenhando-lhes uma identidade, mesmo que

de forma coletiva.

Um total de 200 idosas com idade igual ou superior a 60 anos foi

entrevistado, perfazendo aproximadamente 20% do contingente referido do grupo de

convivência. As entrevistas se deram no ambiente das atividades do grupo realizou-

se, portanto, a escolha da amostra por conveniência (não-aleatória), comum em

estudos desta natureza, com reconhecidas limitações quanto à sua validade externa.

O questionário utilizado foi pré-codificado e a entrada dos dados, feita no programa

EXCEL. A análise dos dados foi realizada através do pacote estatístico do programa

SPSS (versão 11) como especificado no capítulo dedicado à metodologia.

Tabela 01. Distribuição da característica idade dos integrantes dos grupos 1 e 2.

Grupo 1 Grupo 2 Idade Freqüência %

Idade Freqüência %

60 a 65 anos 45 45,0 60 a 64 anos 44 44,0 66 a 71 anos 29 29,0 65 a 69 anos 31 31,0 72 a 77 anos 16 16,0 70 a 74 anos 14 14,0 78 a 83 anos 9 9,0 75 a 79 anos 10 10,0 Maior de 84 anos 1 1,0 Maior de 80 anos 1 1,0

Total 100 100,0 Total 100 100,0

A maior parte dos indivíduos da pesquisa é composta por “idosos jovens”,

ou seja, com menos de 70 anos de idade. A idade média apresentada pelos sujeitos

foi de 66,3 anos e 67,5 anos, respectivamente, para os grupos 1 e 2, o que mostra

certa homogeneidade etária entre os grupos eleitos para a pesquisa. Esse fato é

explicitado por Chaimowicz (1997), quando declara que a “explosão demográfica da

8 Idealizados no construto metodológico da pesquisa, destacam-se o grupo de idosas que convivem com animais de estimação (Grupo 1) e o que não convive com eles (Grupo 2).

59

terceira idade” no Brasil ainda não se caracteriza pelo aumento do número de

“idosos muito velhos”.

Embora a questão de gênero não tenha sido abordada no presente

estudo, pode-se evidenciar uma predominância empírica de idosos pertencentes ao

sexo feminino, o que reflete a maior longevidade das mulheres em relação aos

homens, fenômeno que tem sido atribuído, segundo Filho e Ramos (1999), à menor

exposição a determinados fatores de risco, notadamente no trabalho; à menor

prevalência de tabagismo e uso de álcool; às diferenças quanto à atitude em relação

a doenças e incapacidades e, finalmente, à maior cobertura da assistência gineco-

obstétrica.

Tabela 02. Estado civil das idosas dos grupos 1e 2.

Grupo 1 Grupo 2 Estado civil Freqüência % Freqüência % Solteira 17 17,0 20 20,0 Casada 39 39,0 31 31,0 Separada/Divorciada 11 11,0 9 9,0 Viúva 33 33,0 40 40,0 Total 100 100,0 100 100,0

Um total de 39% das idosas do grupo 1 e 31%, do grupo 2 eram casadas.

A tabela 2 mostra uma prevalência maior de viúvas e solteiras no grupo 2: 40% e

20%, respectivamente, comparada com o grupo 1. Apesar da dissimilitude entre os

grupos, observa-se que essas idosas vivem, quanto ao estado conjugal, em sua

maioria, sem cônjuge (solteiras, separadas ou viúvas), perfazendo mais da metade

da amostra total. Não houve diferença relevante quanto ao número de

separadas/divorciadas nos distintos grupos.

Tabela 03. Tempo de viuvez das idosas dos grupo 1 e 2.

Grupo 1 Grupo 2 Anos Freqüência %

Anos Freqüência %

1 a 7 anos 12 36,4 1 a 6 anos 14 35,0 8 a 14 anos 6 18,2 7 a 12 anos 13 32,5 15 a 21 anos 5 15,2 13 a 18 anos 5 12,5 22 a 29 anos 5 15,2 19 a 24 anos 5 12,5 30 a 36 anos 3 9,1 25 a 30 anos 3 7,5 Mais de 37 anos 2 6,1

Total 33 100,0 Total 40 100,0

60

Os dados fornecidos pela tabela 3 têm função complementar ao item

anterior, reafirmando uma maior sobrevida da mulher, o que explica a ocorrência de

viuvez. O tempo médio de viuvez foi de 15,3 anos no grupo 1 e de 10,8 anos no

grupo 2. Evidencia-se que, apesar de o grupo 2 concentrar o maior contingente

numérico de viúvas, as mulheres do grupo 1 apresentam um tempo de viuvez maior.

Também é possível observar que as maiores percentagens apontam para casos de

viúves com até 7 anos da sua ocorrência para ambos os grupos.

40

42

39

42

21

16

0 10 20 30 40 50

Ensino Fundamental

Ensino Médio

Curso Superior

E sc

o la

ri d

ad e

Grupo 1 Grupo 2

Figura 02. Escolaridade das idosas nos grupos 1 e 2.

Foi alto o nível de escolaridade, comparado com outros estudos (DAVIM,

TORRES, DANTAS E LIMA, 2004; TELAROLLI JÚNIOR, MACHADO e CARVALHO,

1996) notando-se uma semelhança numérica na escolaridade dos dois grupos

estudados. Do total de idosos pesquisados, 21% do grupo 1 e 16% do grupo 2

informaram ter curso superior, enquanto 39% e 42% dos sujeitos dos grupos 1 e 2,

respectivamente, ter freqüentado o ensino médio.

Vale salientar que não foi discriminada, no estudo, a classificação de

completo ou incompleto para os níveis de escolarização declarados. Ademais,

nenhuma das participantes declarou ser analfabeta, o que contraria os estudos

supracitados que, em sua essência, denunciaram o analfabetismo no idoso como

uma realidade dos países em desenvolvimento, principalmente quando se trata de

idosos que viveram sua infância em época na qual o ensino não era prioridade

principalmente para a mulher.

61

Por esses dados, pode-se evidenciar que as participantes do estudo

apresentam um bom nível socioeconômico. Essa afirmação se alicerce na fala de

Talarolli Jr. et al. (1996), segundo os quais a escolaridade mostra como um dos

indicadores mais precisos na identificação no nível socioeconômico de uma

população, relacionando-se às possibilidades de acesso a empregos e renda, à

utilização dos serviços de saúde e à receptividade aos programas educacionais e

sanitários.

Nesse sentido, o aumento do índice de escolaridade entre idosos é um

fator altamente positivo para esse grupo populacional. Com domínio da linguagem

escrita, o indivíduo amplia seu acesso aos meios de informação tornando-se mais

sensível às ações de educação sanitária. Ademais, a peculiaridade desse resultado

aponta para uma maior confiabilidade quanto a aplicação de testes e execução de

pesquisas, especialmente no que tange às avaliações cognitivas. Outro ponto que

se sobressai quanto a isso é que, assim como para outras doenças de caráter

crônico, a maior escolaridade se mostrou um fator protetor importante para a

ocorrência de sintomas depressivos (GAZALLE et al., 2004).

Tabela 04. Tipo de ocupação dos idosos dos grupos 1 e 2.

Grupo 1 Grupo 2 Ocupação Freqüência % Freqüência % Trabalha 16 16,0 14 14,0 Trabalha e aposentado 6 6,0 7 7,0 Aposentado 48 48,0 49 49,0 Pensionista 11 11,0 10 10,0 Aposentado e pensionista 3 3,0 3 3,0 Dona de casa 16 16,0 17 17,0

Total 100 100,0 100 100,0

A distribuição proporcional da população estudada de acordo com a

situação no mercado de trabalho mostra que a maioria das mulheres estudadas

(48%) e (49%), nos distintos grupos, estava aposentada; 16% do grupo 1 e 14% do

grupo 2 trabalhavam e apenas 16% e 17% dos grupos 1 e 2, respectivamente, não

trabalhavam nem eram aposentadas, auto-referindo, se como donas-de-casa. Pode-

se evidenciar uma clara homogeneidade dos grupos no que tange ao quesito

ocupação.

A média das mulheres que trabalham é maior do que a encontrada nos

estudos de Giatti e Barreto (2002) que mostram que quase 10% das idosas

62

brasileiras que residiam em regiões metropolitanas trabalhavam. Como nos estudos

desses autores, identificou-se um grande percentual de mulheres que não

trabalhava nem era aposentada, refletindo a dedicação feminina às atividades de

cuidado da casa e da família, que era o papel predominante da geração das

mulheres nascidas até 1933. Todavia, esse percentual não representa uma

característica da faixa etária em questão, mas reflete e acentua uma contingência de

gênero.

Estudos recentes demonstram uma maior freqüência de sintomas

depressivos entre idosos que não possuem trabalho remunerado (GAZALLE, LIMA

TAVARES E HALLAL, 2004). Os autores denunciam a forte desvalorização do idoso

no contexto social contemporâneo, especialmente nos países ditos em

desenvolvimento; assim, a manutenção desse sujeito no mercado de trabalho

desperta nele sentimentos de utilidade e auto-valorização. Cabe destacar,

entretanto, que essa atividade deve ser adequada às potencialidades da população

sob pena de ter efeito inverso.

16

84

33

67

0

20

40

60

80

100

Grupo 1 Grupo 2

Mora só ou com acompanhante

Mora com família

Figura 03. Arranjo familiar dos idosos dos grupos 1 e 2.

A grande maioria das idosas, como indica a figura 2, mora com a família

sendo comum a presença do domicílio multigeracional, tendo sido evidenciados

domicílios com até três gerações. Uma minoria, 16% das idosas do grupo 1, mora

sozinha. Em contrapartida, 33% das participantes do grupo 2 alegam morar somente

com acompanhante ou sozinha, semelhante ao que se encontra em países

desenvolvidos, onde mais de 30% dos idosos vivem sós (FILHO e RAMOS, 1999).

Nesse sentido, por ser um achado significativo para a pesquisa, destacou-se o

percentual significativo de idosas do grupo 2 (33%) nesse arranjo familiar ao ser

63

comparado com o grupo 1. Outrossim, estudos conduzidos por Rosa et al. (2003)

identificam a particularidade de morar sozinho como fator de proteção para a

dependência moderada/grave.

Retomando à questão da família no que tange ao idoso, recorreu-se a

Davim et al. (2004) que comentam:

“A situação do idoso no Brasil reflete o efeito cumulativo em eventos socioeconômicos, demográficos e de saúde ao longo dos anos, demonstrando que o tamanho da prole, as separações, o celibato, a mortalidade, a viuvez, os recasamentos e as migrações, vão originando, no desenvolver das décadas, tipos de arranjos familiares e domésticos, onde o morar sozinho, com parentes ou em asilos, pode ser o resultado desses desenlaces” (p. 519).

Na América Latina, conforme observado nos estudos de Filho e Ramos

(1999), idosos que moram em domicílios multigeracionais tendem a ser mais pobres

e com maior grau de dependência; idosos que apresentam um melhor nível

socioeconômico, entretanto, são mais propensos a viverem em domicílios

unigeracionais ou sozinhos, ter menor grau de dependência e ser cognitivamente

mais preparados a não dependerem de outros.

Entre os indicadores da condição de saúde propostos na literatura, os

seguintes foram utilizados: percepção da própria saúde, percepção da saúde em

relação aos pares e relato de doenças crônico-degenerativas. O relato de doença

crônica, como afirma Giatti e Barreto (2002), pode ser considerado um indicador

objetivo da condição de saúde, enquanto a percepção da saúde é um indicador

subjetivo.

Tabela 05. Autopercepção da saúde pelos idosos dos grupos 1 e 2.

Grupo 1 Grupo 2 Auto-percepção da saúde Freqüência % Freqüência %

Muito boa 21 21,0 18 18,0 Boa 37 37,0 34 34,0 Regular 38 38,0 44 44,0 Ruim 4 4,0 4 4,0

Total 100 100,0 100 100,0

Em relação à pergunta sobre a percepção da própria saúde, 58% e 52%

do grupo 1 e 2, respectivamente, relataram a saúde como muito boa/boa. Uma pior

percepção da própria saúde (regular/ruim) foi maior nas idosas do grupo 2 (48%).

Em relação a esse dado, Rosa et al. (2003) afirma que:

“As avaliações subjetivas mais pessimistas mostraram-se altamente associadas com dependência moderada/grave. A chance foi de 9 e 11

64

vezes maior naqueles que perceberam a sua saúde como sendo má ou péssima e naqueles que comparando a sua saúde com a de outros, perceberam-na como pior ou muito pior, respectivamente” (p. 44).

Segundo Lima-Costa et al. (2003) a percepção da própria saúde é um

indicador robusto do estado de saúde dos idosos porque prediz, de forma

consistente, a sobrevida dessa população. O autor destaca, ainda, que “como a

percepção da saúde refere-se a um julgamento subjetivo, ela não pode ser

determinada por outra pessoa” (p.740). Ademais, para o autor, é relevante salientar

que uma pior percepção da saúde por parte dos idosos tem sido concretamente

discutida como um significativo preditor de uma menor sobrevida nesse conjunto da

população.

Tabela 06. Percepção da saúde em relação aos pares dos grupos 1 e 2.

Grupo 1

Grupo 2 Percepção da

saúde em relação aos pares Freqüência % Freqüência %

Muito melhor 15 15,0 14 14,0 Melhor 46 46,0 50 50,0 A mesma 33 33,0 30 30,0 Pior 6 6,0 6 6,0

Total 100 100,0 100 100,0

Na tabela 6, está apresentada a distribuição dos dados sobre a percepção

da saúde da idosa em relação aos seus pares. Os resultados retratam certa

semelhança entre os grupos que, apesar de, em sua maioria, referirem problemas

de saúde (ver tabela 7), manifestam uma auto-percepção positiva.

Tabela 07. Relato de doenças crônico-degenerativas pelos idosos dos grupos 1 e 2. Grupo 1 Grupo 2 Doenças relatadas

Freqüência % Freqüência % Hipertensão 36 36,0 27 27,0 Artrite/reumatismo 9 9,0 22 22,0 Doença cardíaca 9 9,0 13 13,0 Diabetes 7 7,0 6 6,0 Asma/bronquite 3 3,0 2 2,0 Nenhuma 36 36,0 30 30,0

Total 100 100,0 100 100,0

Dos participantes contemplados na pesquisa, 64% no grupo 1 e 70% no

grupo 2 auto-referem, ao menos, um problema de saúde. A doença apontada com

65

mais freqüência pelos participantes do estudo foi hipertensão (36%) e (27%),

respectivamente, nos grupos 1 e 2, enquanto artrite/reumatismo e doenças

cardíacas foram mais prevalentes no grupo 2: 22% contra 13% do grupo 1,

evidenciando, aparentemente, maiores limitações físicas nesses sujeitos. Diabetes e

asma/bronquite não apresentaram diferenças significativas entre os distintos grupos,

perfazendo um total de 7% de diabéticos no grupo 1 contra 6% no grupo 2,

enquanto, asma/bronquite alcançaram percentuais de 3% e 2% nos grupos 1 e 2,

respectivamente.

Confirmou-se através dos dados, o que empiricamente já se sabia, como

afirma Veras (2003): “o grupo etário acima dos 60 anos apresenta invariavelmente

índices maiores de morbidade quando comparados aos demais grupos etários”

(p.707). Em geral, as doenças que acometem os idosos tendem a ser crônicas e

múltiplas, perpetuando-se por vários anos, exigindo medicação contínua; sua

tendência é manifestar episódios agudos, o que compromete a qualidade de vida

dessas pessoas e, na grande maioria das vezes, tem relação direta com a

mortalidade nesse grupo.

Não se pode desconsiderar, entretanto, que a distribuição das patologias

na tabela 7 seguiu um critério organizacional, que levou em consideração apenas a

principal doença relatada pelos participantes. No grupo 1, das 64 pessoas que

referenciaram algum problema de saúde, 30 (46,9%) relataram acumular duas ou

mais patologias crônicas; no grupo 2, 33 sujeitos auto-referiram dois ou mais

problemas de saúde, abrangendo, aproximadamente, 47% do total de pessoas que

referiram alguma patologia. É possível, também, observar nas informações

fornecidas pelos grupos que 36% e 30% das mulheres dos grupos 1 e 2,

respectivamente, mencionam a ausência dos problemas de saúde referidos no

questionário.

Ademais, destaca-se que, mesmo no contingente das idosas que

verbalizaram não ter nenhuma das patologias listadas, houve relatos de processos

patológicos, que não estavam previstos na relação de doenças ordenadas no

questionário e que, apesar de não terem sido contabilizados, foram listados no

momento da coleta de dados. As queixas incluíam alergias diversas; problemas de

coluna; distúrbios visuais como glaucoma, catarata e redução da acuidade visual;

osteoporose; depressão; insônia; obesidade e episódios de queda.

66

Tabela 08. Correlação entre auto-percepção da saúde entre os idosos com o relato de doenças crônico-degenerativa nos grupos 1 e 2.

Auto-percepção da saúde Muito boa Boa Regular Ruim

Total

Doenças Gr up o1

Gr up o 2

Gr up o1

Gr up o 2

Gr up o1

Gr up o 2

Gr up o1

Gr up o 2

Gr up o1

Gr up o 2

Hipertensão 5 6 14 8 14 12 3 1 36 27 Artrite/reumatismo 3 2 1 6 4 13 1 1 9 22 Doença cardíaca - - 3 4 6 9 - - 9 13 Diabetes - 1 2 - 5 4 - 1 7 6 Asma/bronquite 1 - - - 2 1 - 1 3 2 Nenhuma 12 9 17 16 7 5 - - 36 30

Total 21 18 37 34 38 44 4 4 100 100

De acordo com a tabela, verifica-se que dos 34% dos idosos do grupo 2

que afirmaram ter boa saúde (ver Tabela 08), 16% não apresentam nenhuma

doença, enquanto que dos 44% (grupo 2) que responderam ter saúde regular, 13%

apresentam artrite/reumatismo e 12%, hipertensão. Um dado interessante que se

destaca da tabela, diz respeito ao grupo 1; entre 37% dos seus integrantes, que

classificam sua saúde como boa, 14 idosas informaram ser hipertensas, o que

sugerem que mesmo os portadores de processos patológico crônicos podem manter

uma qualidade de vida satisfatória, ampliando o conceito clássico de saúde.

Tabela 09. Correlação entre autopercepção da saúde pelos idosos em relação aos seus pares nos grupos 1 e 2.

Auto-percepção da saúde Muito boa Boa Regular Ruim

Total

Percepção de Saúde/Pares

Gr up o1

Gr up o 2

Gr up o1

Gr up o 2

Gr up o1

Gr up o 2

Gr up o1

Gr up o 2

Gr up o1

Gr up o 2

Muito melhor 7 6 7 6 1 2 - - 15 14 Melhor 11 10 16 13 18 26 1 1 46 50 A mesma 3 2 11 14 18 14 1 - 33 30 Pior - - 3 1 1 2 2 3 6 6

Total 21 18 37 34 38 44 4 4 100 100

Na Tabela 9, observa-se, no grupo, que dos 44% que consideram sua

saúde regular 26% afirmam ter saúde melhor que de seus pares. Os demais valores

tendem a encerrar semelhanças entre os dois grupos definidos.

67

Em resumo, os resultados desse trabalho, apesar de não serem

generalizáveis para a população idosa de Fortaleza, demonstram que cerca de 67%

do total de idosas respondentes relataram ter pelo menos uma condição crônica e a

proporção daquelas com problemas de saúde tende a aumentar com o incremento

da idade à semelhança do trabalho de Lima-Costa et al. (2003), o que confere maior

consistência aos dados. Hipertensão e artrite/reumatismo foram as doenças crônicas

mais freqüentemente relatadas. A prevalência da hipertensão auto-referida foi igual

a 31,5% nos sujeitos da pesquisa, todavia é preciso ressaltar que estudos de

morbidade auto-referida podem subestimar a prevalência de doenças ou condições

crônicas devido a problemas de memória e/ou ausência de diagnóstico.

Não obstante a comparação de gênero fugir ao escopo da presente obra,

parece-nos fundamental evidenciar que inquéritos populacionais têm demonstrado

uma maior tendência das mulheres a manifestar problemas de saúde. Essa

população sente-se menos saudável que os homens, situação potencialmente

agravada por altos índices de viuvez e solidão, assim como pelo prolongamento da

expectativa de vida (TELAROLLI JR. Et al., 1996).

O presente capítulo apresenta limitações salientadas principalmente pela

representatividade da amostra e pela profundidade da análise conferida aos dados.

É preciso reafirmar que a finalidade desta fração do trabalho não é constituir-se um

inquérito epidemiológico, mas fornecer subsídios teóricos que amparem os achados

que se desdobram no decorrer do estudo para conferir melhor visão à totalidade dos

fatos.

7.1 Particularidades das idosas que convivem com animais de estimação

Esse sub-tópico foi tecido com o intuito de desvelar algumas

particularidades sobre idosas que convivem com animais de estimação por se sentir

a necessidade de fazer uma aproximação com o pensamento desses sujeitos de

forma preliminar mesmo através de um instrumento “hard”. A lacuna de estudos

qualitativos sobre o assunto e a limitação dos trabalhos quantitativos relacionados

ao objeto de pesquisa propiciaram uma sensação de vazio teórico e,

conseqüentemente, de incerteza quanto ao destino empírico do estudo que

precisava ser sanada mesmo que de forma paliativa. Nessa perspectiva, as páginas

68

a seguir revelam um pouco do movimento cognitivo dos sujeitos em relação ao

objeto de pesquisa.

Tabela 10. Classificação dos animais de estimação pelos idosos do grupo 1

Animal Freqüência % Cão 47 47,0 Gato 14 14,0 Pássaro 16 16,0 Cão e gato 7 7,0 Cão e pássaro 5 5,0 Gato e pássaro 2 2,0 Cão, gato e pássaro 6 6,0 Outros 3 3,0

Total 100 100,0

Em primeiro lugar, pôde-se evidenciar que essa mulher tem uma forte

preferência pela espécie canina tanto como único animal de estimação (47%) ou em

associação com outras espécies do reino animal (18%). Uma cifra interessante que

emergiu na coleta de dados destaca a predileção pelo papagaio entre as pessoas

que têm pássaros; de 29% que referiu ter pássaros pelo menos 13 delas destacou

ter papagaio. Essa particularidade também teve forte repercussão na quantidade de

recusas à participação na entrevista pois muitas, apesar de serem esclarecidas

sobre o anonimato do sujeito na pesquisa se recusaram a participar, receando a

ação do IBAMA, por esse ser um animal silvestre, poderia ocorrer sua apreensão.

Outros animais, como peixes, cágados e coelho foram citados na coleta de dados

contabilizados como outros, contudo algumas espécies exóticas, mesmo não tendo

sido incluídas na contagem, merecem destaque: galinha, pato, cabra, sagüi entre

outras.

Na seqüência, apresentar-se-ão os resultados provenientes de

perguntas avaliativas que abrigam, em sua essência, a questão: “Você considera

seu animal de estimação um(a)...?”. Dividiram-se as respostas em gráficos variados

para uma melhor visualização dos resultados.

Não 23%

Sim 77%

Não 7%

Sim 93%

69

Figura 04. Membro da família. Figura 05. Companhia.

Não 35%

Sim 65%

Sim 93%

Não 7%

Figura 06. Fonte de preocupação. Figura 07. Amigo.

Sim 79%

Não 21%

Figura 08. Fonte de diversão.

A mulher que convive com animais de estimação considera, até certo

ponto, o papel deles no núcleo familiar (77%), contudo sua maior expressividade

aparece no exercício da companhia (93%) e como um amigo fiel (93%). Uma

importância não tão expressiva é dada às preocupações advindas dessa interação

(65%). Neste item, evidenciou-se uma forte necessidade de justificativa das

respostas dadas, esclarecimentos que convergiram, significativamente, para a

atenção à saúde do animal e aos riscos de perda. Apesar de não ser um item

subjetivo, coletaram-se algumas falas que são ilustrativas: “Preocupação com o

bem-estar dele”, “Sofro demais quando acontece alguma coisa com eles!”, “De sair

para a rua”, “Só quando adoece!”. Outro ponto explorado diz respeito à

consideração do animal de estimação como fonte de diversão. Observou-se que,

apesar de prevalente, 79% responderam “sim”, resultado que não se mostra tão

expressivo quanto os anteriores, evidenciando, talvez, que o animal de estimação é

levado bem mais a sério do que se imagina.

Os dados acima apontam para um posicionamento eminentemente

positivo e de dimensões afetivas desse grupo em relação ao objeto de pesquisa.

Esse fato poderá ser confirmado no seguimento do estudo, sendo adequadamente

aprofundado.

70

7.2 Particularidades das idosas que não convivem com animais de estimação

Uma das preocupações prementes no estudo baseava-se no fato de os

indivíduos do grupo 2, que não convivem com animais de estimação, terem que falar

de um objeto estranho ao seu sistema cognitivo, decidiu-se, então averiguar, de

forma quantitativa, o grau de intimidade que os participantes guardavam com o tema

através das suas experiências concretas com animais de estimação.

Sim 73% Não

27%

Figura 9. Número de pessoas que já tiveram animal de estimação.

Pôde-se, assim, constatar que uma parcela expressiva desses sujeitos

haviam experienciado a convivência com animais de estimação em algum momento

de suas vidas (figura 3). O lapso de tempo que compreende esse evento variou

desde a mais tenra infância até uma semana atrás segundo os relatos coletados.

Esse resultado confere maior validade interna aos resultados encontrados no testes

de associação de palavras aplicadas ao grupo 2, pois os participantes da pesquisa

não estão tratando de algo alheio ao seu conhecimento.

Outra situação que emergiu dos dados quantitativos, à semelhança do

ocorrido com o grupo que convive com animais de estimação, é a presença maciça

do cão na preferência das pessoas que já tiveram animais (58,9%). Pôde-se

evidenciar uma menor afinidade por gatos e pássaros expressa por apenas 20% dos

integrantes do grupo 2 contra 30% do grupo 1, sem levar em conta a associação

entre espécies.

Tabela 11. Classificação dos animais de estimação pelos idosos do grupo 2

Animal Freqüência % Cão 43 58,9 Gato 8 11,0 Pássaro 7 9,6 Cão e gato 5 6,8 Cão e pássaro 2 2,7 Gato e pássaro 1 1,4 Cão, gato e pássaro 4 5,5 Outros 3 4,1

Total 73 100,0

71

O item qualitativo a seguir foi elaborado no intuito de desvelar por que os

sujeitos idosos decidem não ter animais de estimação. Refutou-se a simplificação de

que as pessoas não convivem com animais pelo simples fato de não gostarem ou

terem medo deles. Acreditava-se, apesar da ausência de estudos, ser a questão

bem mais complexa e, realmente, o era, como detalhado a seguir.

Tabela 12. Relação dos motivos para não ter animal de estimação. Motivo Freqüência %

Não tem tempo 22 22,0 Espaço físico 18 18,0 Não gosta 17 17,0 Sofreram perdas 17 17,0 Dá trabalho 16 16,0 Tem problemas de saúde 7 7,0 Tem medo 3 3,0

Total 100 100,0

O argumento mais recorrente foi a falta de tempo (22%), todavia pôde-se

facilmente evidenciar uma significativa associação disso com uma vida socialmente

ativa, na qual a idosa demonstra plena inserção no contexto da vida em sociedade

manifestada nas diversas atividades das quais participa, incluindo-se viagens,

passeios, caminhadas, trabalhos comunitários, eventos religiosos, entre outros.

Observou-se que as pessoas não relatam sentimentos negativos em relação aos

animais de estimação, apenas refletem o perfil de um cotidiano vivido e produtivo

que não admite limites físicos que tolhem o exercício de sua liberdade e autonomia.

Essa visão mostra contornos claros na fala dos sujeitos:

“Meu tempo não dá pra cuidar e se não é pra bem cuidar, eu prefiro não ter” (70 anos). “Falta de tempo para cuidar, se não é pra cuidar com carinho é melhor não ter” (81 anos). “Gosto muito de viajar e não gosto de vê-los presos” (73 anos). “A gente sai muito, o bichinho fica só, assim eu preferi não ter” (64 anos). “Porque não disponho de tempo e criar um animalzinho é mesmo que criar um filho” (69 anos). “Por achar que precisa de cuidado e atenção, o meu tempo já está todo comprometido” (81 anos) “Eu saio muito, o animal fica só, sente solidão e morre” (76 anos).

72

“Falta de tempo e não tenho mais saco de tá tratando, levando pro veterinário. Só quero chegar na minha filha e alisar o dela!” (60 anos). “Eu não paro em casa, não é que eu não goste, não vou deixar preso, sozinho e ficar preocupada” (72 anos).

É interessante enfatizar a referência afetiva que elas fazem ao animal,

mas, diferentemente do que se observa no grupo que convive com animais de

estimação, o animal é tido, circunstancialmente, como um ser solitário; não ela, pois

se autopercebe, de forma positiva, inserida num contexto social movimentado que

não lhe permite perder tempo em casa ou admitir algo que a prenda lá.

As limitações impostas pelo espaço físico (18%) tiveram um peso

significativo para a ausência de animais de estimação no cotidiano dessas pessoas.

A maior parte das assertivas apontam para a residência em apartamentos ou casas

pequenas, mas, adicionalmente, se evidenciam limitações no exercício da

autonomia, traduzidas na particularidade de morar na casa de parentes enquanto

dimensão circunstancial, como registrado nas falas a seguir:

“Passei a morar em apartamento e no condomínio é proibido criar animais” (69 anos). “Sempre morei em casa pequena, não tinha condição, criava os filhos sozinha. Sou contra criar animais presos” (60 anos). “Não crio porque minha casa é só um vão, não tem quintal, não posso, não tem espaço” (64 anos). “Moro numa casa do tamanho desse cadeira, sem quintal” (67 anos). “Moro na casa de uma filha minha (...), na casa dos outros a gente não pode encher de nada” (63 anos).

Esse ponto nos parece crucial para a análise. Contraditório ao que se

poderia pensar, “não gostar de animais” ocupa o terceiro lugar nas respostas das

idosas guardando o valor:17%. Emergem dos discursos proposições negativas

associadas à convivência com animais de estimação ou, mesmo, preferências de

cunho pessoal que justificam sua ausência no cotidiano desses sujeitos, todavia,

vale ressaltar que aproximadamente 53% dessas pessoas referem nunca ter

convivido diretamente com eles. A título de ilustração, observem-se estas citações:

“Não gosto, pra mim cuidar não. Gosto, acho lindo, o dos outros” (60 anos). “Só gosto longe, mas não gosto dentro de casa” (60 anos). “Não sinto necessidade, viajo muito e não tenho com quem deixar” (65 anos).

73

“Nunca gostei. Tenho pavor a gato e cachorro!” (61 anos). “A gente chega numa idade que não se prende mais a nada. Já tive [animal] quando os filhos eram pequenos. Agora eu fecho a porta, saio e não me preocupo. Eu convivi com animais pelos meus filhos, mas por mim...” (67 anos). “Abusei de cachorro. Era da minha neta. Eu gosto é de criar galinha” (71 anos). “Não gosto, só trás doença pra gente” (74 anos). “(...) Não sou muito apegada a bicho, gosto é de andar” (63 anos). ”Nunca tive tempo de dar a atenção merecida. Prefiro plantas ou gente” (66 anos).

Semelhante ao que ocorre no item supracitado, a menção de perdas

(17%) reflete um panorama de sofrimento manifesto pela angústia da morte. Os

integrantes desse grupo fazem alusão a vivências negativas associadas à perda de

animais de estimação. Num contexto de perdas, típico da fase, conviver com animais

de estimação é permitir-se ser alvo potencial de novas perdas e de novos

sofrimentos. Assim, experiências adversas cerceiam o desejo de possuí-los num

movimento de auto-proteção e fuga, como exprimem os discursos dos sujeitos:

“Eu tinha quando meus filhos moravam em casa, eles casaram e saíram, depois que o cachorrinho morreu eu resolvi não ter mais” (65 anos). “Quando a graúna morreu, eu desgostei, sofri muito” (62 anos). “Por que o último sofreu muito, ficou muito doente e eu sofri também e fiquei traumatizada” (67 anos). “Perdi o que amava muito, não quero mais sofrer” (75 anos). “Não quero mais não, foi muito sofrimento quando ele morreu” (60 anos). “Por que quando ele morreu, eu adoeci. Era mesmo que um filho” (61 anos). “Quando morreram de velhos eu não quis mais me apegar” (73 anos). “Estou só, não quero mais, a gente se apega muito com os animais” (79 anos). “Quando jovem na casa dos meus pais, eu tinha uma patativa. Fizemos uma viagem, a água virou e ela morreu. Daí não quisemos mais” (79 anos).

O item que relaciona o animal de estimação com uma fonte de trabalho

(16%) encerra argumentos que abrangem das limitações físicas às econômicas,

passando por particularidades como preferências pessoais e perfil pessoal

74

aparentemente depressivo. As falas a seguir ilustram a diversidade de aspectos

contidos nessa assertiva:

“Dá trabalho, não tem condição, não posso mais me baixar” (72 anos). “Por que dá trabalho, sozinha pra cuidar, não é?” (67 anos) “Eu queria criar com todas as regalias, mas criar e não ter cuidado, eu prefiro não criar, dá muito trabalho” (67 anos). “Não quero mais, dá trabalho e quem ganha um salário não tem condições” (64 anos). “Não gosto de ter trabalho, não tenho saco pra isso. Eu prefiro as plantas” (60 anos). “Tive cinco filhos, não quis mais ter trabalho com animal” (64anos). “Dá trabalho. Vivo cansada, agora não quero mais nada” (65 anos).

Os problemas de saúde foram referidos por 7% dos sujeitos como causa

básica da ausência de animais de estimação no convívio familiar, sendo os

processos alérgicos unanimidade nas respostas, como ilustrado abaixo:

“Sou alérgica e excessivamente asseada. Não tenho condições de colocar alguém pra cuidar” (60 anos). “Suja muito, eu não gosto. Gosto de ver tudo limpo porque tenho alergia” (73 anos).

O relato de agressões sofridas mostrou-se pouco expressivo no grupo,

efetivando-se em apenas 3% dos seus representantes como expresso a seguir:

“Por que fui agredida aos 5 anos por um cachorro da família” (72 anos). “Tenho medo, não confio não” (62 anos). “Eu não gosto, já fui mordida de cachorro e fiquei com essa cisma” (73 anos).

Como visto no desenrolar do capítulo, não se evidenciaram significativas

divergências no perfil sociodemográfico e de saúde dos grupos eleitos como sujeitos

da pesquisa, podendo-se apenas destacar alguns pontos de quebra dessa

continuidade, mas que não comprometem o padrão expresso pelo todo. No que

tange ao objeto de pesquisa, no entanto, as dissimilitudes são marcantes, o que

possibilitou uma construção mais rica e complexa do trabalho, como se verá a

seguir.

75

8 ANIMAIS DE ESTIMAÇÃO: Quando Os Afetos Implicam Riscos À Saúde

A técnica de associação livre de palavras foi um dos mais importantes

instrumentos de escolha na coleta de dados no presente estudo pelo fato de acessar

conteúdos latentes e afetivos dos sujeitos entrevistados. O teste de associação livre

(TAL) foi constituído de sete estímulos indutores no processo de evocação das

palavras: (1) animal de estimação; (2) riscos da convivência com animal de

estimação; (3) benefícios da convivência com animal de estimação; (4) saúde; (5)

doença; (6) velhice e (7) “si mesma”. As respostas obtidas com a utilização desse

instrumento foram processadas através do software Tri-Deux-Mots versão 2.2

(CIBOIS, 1995) e a interpretação realizada a partir da Análise Fatorial de

Correspondência (AFC).

Um contingente de 4.184 palavras foi evocado na coleta de dados pelos

200 sujeitos da pesquisa em resposta aos estímulos indutores com a ocorrência de

1.433 termos diferentes. Os estímulos indutores foram aplicados num grupo

representado por idosas que convivem com algum animal de estimação e num outro

composto por idosas que não convivem com animais de estimação.

A técnica adotada possibilita a elaboração de eixos que evidenciam os

resultados apresentados num campo representacional e distribuídos de maneira

oposta sobre os fatores F1 e F2. Essa formação gráfica reproduz a atração manifesta

entre as variáveis fixas (convivência com animal de estimação, estado civil e

composição familiar) e as variáveis de opinião (respostas aos estímulos indutores).

Os fatores podem ser identificados na representação gráfica através da

distinção de cores. O fator F1, horizontal e de cor vermelha evidencia os resultados

mais importantes da pesquisa, enquanto o F2, vertical e de cor azul, completa os

resultados manifestos no F1. Portanto, os fatores F1 e F2 foram os de maior

contribuição, concentrando as principais informações das respostas evocadas pelos

sujeitos no TAL. O fator F1 abrangeu 38,3% da variância total de respostas (valor

próprio = 0.029) e o segundo fator, 22,2% da variância total de respostas (valor

próprio = 0.0168), perfazendo um total de 60,5% da variância total dos dados, o que

dá confiabilidade às afirmações propostas no capítulo.

76

Gráfico 1: Representação Gráfica dos Fatores 1 e 2.

F2 ____________________________________MORDER2___________________________________ | SAÚDE6 VIVER6 | CUIDADO6 CONTÁGIO2 | MÉDICO5 | PAPAGAIO1 | FELIZ4 GATO1 | AJUDAR7 CONVERSAR3 REMÉDIO4 Casada AMIGO1 Viúva | TRANQÜILIDADE4 VIVER4 CUIDADO2 ALEGRIA3 | CÃO1 | VACINA2 | Com Animal COMUNICATIVA7 ALEGRE7 | AMIZADE3 RAIVA2 GATO2___________________________+_______________NÃOTEM2___________FAMÍLIA1___ F1 NÃOTEM3 Sem Animal | | Sozinha | TRABALHO7 PÊLO2 PASSEAR4 | CARINHO1 | BRINCAR3 | AMOR1 CALAZAR2 ALERGIA2 | DOR5 PÁSSARO1 | COMPANHIA1 SEGURANÇA3 CRIAR1 | DESÂNIMO5 AMOR7 | | ASMA2 TUDO4 CUIDADO4 | | | | | ALEGRIA1 | | | | | Solteira | | | | | | | | | | | | | | _____________________________________________________________EXPERIÊNCIA6__

77

Estímulos Sujeitos

1- Animal de estimação 2- Riscos da convivência com

animais de estimação 3- Benefícios da convivência com

animais de estimação 4- Saúde 5- Doença 6- Velhice 7- Si mesma

Grupo 1 – Idosas que convivem com animais de estimação Grupo 2 – Idosas que não convivem com animais de estimação

Pode-se, objetivamente, visualizar, na estrutura do gráfico, a oposição

entre as representações manifestas pelas idosas que convivem com animais de

estimação e as que não convivem com eles. A leitura do gráfico é realizada através

das palavras evocadas a partir de sua distribuição nos eixos (fatores F1 e F2).

Dentre as respostas evocadas, relativas ao primeiro estímulo indutor

(animal de estimação), destacam-se, na fala das idosas que convivem com animais,

as expressões: amigo (CPF=39), família (CPF=49), carinho (CPF=14), companhia

(CPF=26) e alegria (CPF=23). Pode-se observar que tudo o que é representado por

esse grupo está no núcleo da afetividade, o que nos leva a inferir que o animal de

estimação ocupa uma lacuna afetiva da ausência ou de companhia, ou de familiares

ou de pessoas no convívio social. Vale ressaltar que essas verbalizações se fazem

presentes, com grande intensidade, no discurso dessas mulheres nas entrevistas.

Num extremo oposto, as idosas que não convivem com animais de

estimação evocaram as palavras: cão (CPF=18) e pássaro (CPF=13) no F1 (eixo 1,

lado negativa) para responder ao estímulo um. É possível, assim, evidenciar que

esse grupo apenas nomeia algumas espécies animais sem, no entanto, estabelecer

qualquer vínculo com elas.

Continuando o trajeto sobre o eixo 1 (F1), constatam-se as evocações

manifestas com relação ao estímulo três (benefícios da convivência com animal de

estimação) por guardarem forte interfase com o primeiro estímulo. Nesse contexto,

destacam-se, no lado positivo do F1, as palavras: conversar (CPF=14), alegria

(CPF=34), amizade (CPF=17) e brincar (CPF=20). Os achados evidenciam que

essas mulheres qualificam os animais com uma natureza eminentemente humana

e,que, por conseguinte, ocupam o lugar de pessoas no espaço afetivo. O gráfico,

todavia, não faz referência à identidade dessas mulheres, fato que leva a supor que

78

as evocações estão distribuídas de forma inespecífica no grupo que convive com

animais de estimação, sem se considerarem subdivisões referentes a estado civil ou

à composição familiar.

Em contrapartida, pode-se identificar o extremo oposto (lado negativo do

eixo 1) na fala das idosas que não convivem com animais de estimação quando

relatam não haver benefícios (CPF=62) oriundos da convivência com animais, mas

assinalam a possibilidade de alguns animais representarem uma fonte de segurança

(CPF=14), provavelmente pela referência seu cão. É possível identificar, nesse

campo, uma maior contribuição por parte das respostas das viúvas que moram

sozinhas.

Em resposta ao estímulo 2 (riscos da convivência com animais de

estimação), o grupo que convive com animais de estimação diz, prioritariamente,

não haver riscos (CPF=20), o que nos induz à interpretação de existir uma conduta

defensiva de sujeito em relação ao estímulo. Todavia, evidencia-se a evocação da

doença raiva (CPF=12). Essa última resposta pode ser conseqüente do inegável

risco da doença e da necessidade de o sujeito preservar sua identidade como

alguém bem informado no que se refere às campanhas nacionais de vacinação

animal. Aqui há uma influência do “status” oficial que a raiva tem enquanto doença

no país, enfatizada pelas ações em saúde pública, enquanto modelo

institucionalizado de preservação social da saúde pública. Outro componente

importante para essa análise apóia-se na veiculação, pelos meios de comunicação

de massa, do animal como agente transmissor da doença.

Esse posicionamento por parte do grupo, evidencia duas fortes

contradições, que são aparentemente verdadeiras. Numa, que é subjetiva, acha que,

na verdade, não existe risco e acredita nisso na medida em que mantém o animal na

sua companhia, mas reproduz o discurso da mídia e o discurso institucional, como

forma de evidenciar que é bem informado. Nesse sentido, enquanto a mídia funciona

apenas como meio de informação, mas não de formação de condutas, quando

reconhece a existência de algum risco, o comportamento é, na vida real, orientado

por suas crenças e afetos. A mídia funciona como meio de preservação da

identidade; nas representações, esse mecanismo é denominado de função

identitária, simultânea à função justificadora de que o único risco é a transmissão da

raiva; o sujeito, portanto, considera-se isento de contágio, permanecendo com suas

crenças e impelido pelo afeto, mantendo o animal em sua companhia.

79

É importante destacar que, enquanto o grupo que convive com animais

omite riscos, nesse mesmo eixo, no lado oposto encontra-se o grupo que não

convive com animais que lista, com bastante precisão, a diversidade de problemas

que o animal de estimação pode acarretar. Esse grupo afirma que é preciso vacinar

(CPF=21), que o gato (CPF=36) transmite doença, especificando elementos como o

pêlo (CPF=34) e o desencadeamento de processos patológicos como alergia

(CPF=17), asma (CPF=26) e calazar (CPF=29); enumera quais são os riscos e

estabelecem relação direta com suas manifestações, citando patologias específicas.

Outro ponto observado diz respeito ao fator saúde que se constitui como

o quarto estímulo empregado, uma vez que as evocações anteriores têm potencial

ligação com ele. Pôde-se constatar que as pessoas que convivem com animais de

estimação idealizam sua saúde como tranqüilidade (CPF=18) e a associam à

possibilidade de existir evocando a palavra viver (CPF=38). O grupo não se refere a

manifestações físicas dos sinais de saúde, concebendo a saúde em função de um

estado mental manifesto. Por outro lado, quem não convive diretamente com

animais de estimação descreve o conceito saúde utilizando o termo passear

(CPF=20), exteriorizando, assim, o lazer como expressão de vitalidade e movimento

em suas vidas.

Seguindo, ainda, a interpretação do gráfico em seu eixo principal (F1),

tomou-se o estímulo doença enquanto ponto fundamental de discussão. Observou-

se, nas evocações produzidas pelo estímulo indutor “doença”, a presença das

palavras desânimo (CPF=13) e dor (CPF=22) evocadas pelos sujeitos que possuem

animais de estimação. Nesse contexto, as respostas podem ser traduzidas como

sofrimento psíquico, e enfatizam a dimensão psicológica e afetiva expressa por parte

das idosas que convivem com animais de estimação.

Dessa forma, considera-se sintomático, numa população eminentemente

de pessoas idosas, que a representação de “doença” esteja situada,

prioritariamente, no domínio afetivo, pois, em geral, as pessoas mais velhas se

queixam de disfunções físicas, enquanto os jovens focalizam suas representações

mais em conteúdos afetivos sobre doença. Esse ponto coincide exatamente com a

representação que esse grupo faz do animal de estimação provavelmente pela

sensação que ele tem de abandono humano. A evocação de “doença” como

desânimo pode representar um sentimento de depressão implícito na fala desse

80

grupo que se manifesta, também, nas entrevistas por meio de um discurso

impregnado de perdas, abandono e solidão.

Contrariando essa tendência, o outro grupo nem sequer se refere a

“doença”. Vale salientar que, nesse grupo, se sobressaem as viúvas, o que poderia

determinar manifestação significativa sobre o tema. A hipótese a ser considerada

reside no fato de o grupo, provavelmente, correlacionando a idéia de “doença” com

convivência com animal de estimação e, como não tem, não relaciona nada.

Um aspecto relevante pode ser apontado no estímulo seis, “velhice”, pois

ambos os grupos ficaram mudos em relação a ele. Por esse episódio nos faz

questiona-se o estímulo “velhice” por ter-se tornado um termo de cunho pejorativo no

contexto social contemporâneo. Assim, o resultado proveniente desse estímulo

constitui um eco de como as pessoas absorveram, via meios de comunicação de

massa, um novo conceito que substitui a terminologia “velhice” pela idéia de terceira

idade. Essa assertiva se confirma no silêncio das idosas quando confrontadas com o

estímulo.

Ressalte-se o fato de que elas ficaram emudecidas num ato de coerência,

pois responder ao estímulo seria como se elas fossem inferir um julgamento

negativo sobre si mesmas. Pode-se concluir, a partir da função identitária das

representações sociais, que o grupo se identifica com a faixa etária que é referente à

terceira idade e, por isso, excluem qualquer semelhança com o que se refere à

velhice. Essa teoria fundamenta-se em Abric (1998, p.29) que sintetiza a questão da

função identitária quando escreve que “a representação de seu próprio grupo é

sempre marcada por uma super avaliação de algumas de suas características ou de

suas produções cujo objetivo é de garantir uma imagem positiva do grupo de

inserção”.

Contudo, verifica-se a presença do termo cuidado (CPF=30) na parte

positiva do eixo F1. As idosas que convivem com animais de estimação fazem

menção a “cuidado,” mas, provavelmente, não se referem a elas próprias. O grupo

expressa uma visão filantrópica e caritativa pensando em alguém, que não ele

próprio, que, dado, a sua condição de “velhice”, necessita de cuidados.

Adicionalmente, é possível identificar-se uma evocação sobre “velhice” comum a

ambos os grupos materializada pelo vocábulo experiência (CPF=30). Apesar de ser

uma alusão positiva ao estímulo, como não poderia deixar de ser, é uma forma

81

otimista de o grupo se retratar; a evocação aparece muito distante dos eixos

principais, reduzindo, assim, seu valor representacional.

Em relação ao sétimo e último estímulo (si mesma), as idosas que

convivem com animais de estimação se descrevem como pessoas trabalhadoras.

Nesse sentido, o termo trabalho (CPF=40) indica um conteúdo que associa si

mesma à possibilidade de se manter em atividade numa idéia que vai além de

apenas estar inserido no mercado de trabalho, já que a maioria se encontra em

situação de aposentada e/ou pensionista. Trabalhar adquire um destaque relevante

na representação de si mesma nesse grupo por expressar um sentimento de

utilidade ou uma qualidade pessoal importante para a construção da auto-imagem

através da capacidade de realizar atividades na vida cotidiana.

Em contraste à representação do grupo anterior, as idosas que não

convivem com animais de estimação se vêem como pessoas comunicativas

(CPF=36) e alegres (CPF=32), refletindo predicativos otimistas sobre si mesmas e

atribuindo um forte componente de vida social à sua representação.

Adicionalmente, serão discutidos os resultados apresentados no eixo 2

(F2) que, apesar de menos relevantes em termos estatísticos, contribui, de maneira

complementar, para o desvelar do objeto de pesquisa. Uma peculiaridade marcante

desse fator consiste na oposição de dois grupos bem definidos na extensão do eixo

2: na área positiva do eixo, um grupo de mulheres casadas que, provavelmente em

função de sua respostas, não convive com animais de estimação; no extremo

contrário, posicionado na região negativa do eixo, um grupo de mulheres solteiras

cujas respostas tendem a identificá-las com o grupo de idosas que convive com

animais de estimação.

De uma forma geral, a estrutura assumida no gráfico pelo grupo das

casadas revela que, à semelhança do grupo das viúvas, ele não guarda qualquer

vínculo afetivo com os animais de estimação nomeando; revela também que, as

espécies animais que vêm a mente do outro grupo são apenas a classificação, como

gato (CPF=19) e papagaio (CPF=19). Por conseguinte, ao serem interrogadas sobre

os benefícios oriundos da convivência com animais de estimação, elas falam,

vagamente, de alegria (CPF=16) e citam com, riqueza de elementos, os riscos

advindos dessa convivência interespécies, levantando questões controversas como

contágio (CPF=50), morder (CPF=74) e necessidade de cuidados (CPF=13).

82

Esse grupo concebe saúde em termos de estado mental, fazendo

referência a ser feliz (CPF=15); alude a remédio (CPF=14) de forma sintomática em

razão a maioria, por ser portadora de pelo menos uma doença crônica degenerativa,

fazer uso de medicações para manter-se num limiar satisfatório de saúde. Nesse

mesmo sentido, encontra-se a evocação médico (CPF=28) como referência ao

estímulo indutor “doença”, o que reproduz o modelo clássico de atenção à saúde

ainda dominante no imaginário popular.

No que diz respeito ao estímulo “velhice”, esse grupo menciona o

vocábulo saúde (CPF=25) como pré-requisito de longevidade e, conseqüentemente,

de viver (CPF=37) no sentido de não morrer novo; refere-se, também, à necessidade

de cuidados (CPF=22). Verifica-se, ainda, uma situação de estranhamento com o

estímulo do qual elas falam vagamente, sem imprimir qualquer marca de si mesmas,

posicionamento coerente com o assumido no eixo 1. Por conseguinte, falam de si

mesmas como alguém que gosta de ajudar (CPF=17) os outros, adotando um perfil

identitariamente católico e filantrópico.

Ainda nesse eixo, no segundo grupo, na região negativa do gráfico,

representado, mesmo que de forma vaga, pelas mulheres solteiras, observa-se a

presença de termos como: amor (CPF=14), criar (CPF=14), companhia (CPF=27),

alegria (CPF=41) e pássaro (CPF=13), indicando, nesse primeiro estímulo, que o

animal de estimação está associado a uma forte condição afetiva. Não se

evidenciam respostas para o estímulo “benefícios da convivência com animais de

estimação”, porque, provavelmente, esse estímulo se mostrou apenas uma extensão

do primeiro nesse grupo em particular. Elas fazem referências muito vagas aos

riscos da convivência com animais de estimação, nomeando condições particulares

como asma (CPF=31) e alergia (CPF=15).

Relativamente ao estímulo quatro, há uma afirmação das necessidades

físicas e das medidas preventivas associadas à saúde nos termos alimentação

(CPF=11) e cuidado (CPF=47), bem como a associação da saúde a um conteúdo

avaliativo inespecífico expresso na palavra tudo (CPF=30). Ao responder sobre o

estímulo “doença”, esse grupo se identifica, inconfundivelmente com as pessoas que

convivem com animais de estimação, compartilhando com elas os sentimentos de

desânimo (CPF=16) e dor (CPF=12).

Com relação ao estímulo seis, “velhice”, esse grupo nem sequer o

menciona vagamente, de forma similar e coerente com o eixo 1 (F1), episódio já

83

comentado anteriormente. Finalmente, elas falam de amor (CPF=18) para retratar a

si mesmas quer do ponto de vista do potencial afetivo expresso em função do outro,

quer pela necessidade de projetar o que lhes falta.

A seguir, é possível visualizar, no quadro elaborado, as freqüências

relativas das principais verbalizações em ordem decrescente e segundo os termos

indutores (principais e complementares) da amostra total dos sujeitos (n=200).

Contudo, essa abordagem possibilita apenas a visualização de elementos

consensuais da pesquisa. Destacam-se essa particularidade, pois, em função da

forte oposição dos dois grupos, se faz necessário o desnudamento do núcleo central

que é distinto entre os dois, como será visto mais adiante.

Quadro 1: Freqüência relativa (Fr) das evocações e estímulos indutores.

Estímulo 1: Animal de estimação

Fr (%)

Estímulo 2: Riscos da

convivência

Fr (%)

Estímulo 3: Benefícios da convivência

Fr (%)

Cão

Carinho

Cuidado

Companhia

Amor

Gato

Amigo

Papagaio

Pássaro

Criar

Alegria

Família

29,0

24,0

16,5

15,5

14,0

13,0

10,0

8,5

7,5

6,0

5,5

5,5

Doença

Cuidado

Vacina

Raiva

Morder

Não tem

Contágio

Alergia

Pêlo

Agressão

Asma

Cão

Gato

Carrapato

Calazar

Micose

41,5

23,5

17,5

12,5

11,5

11,5

11,0

10,0

10,0

8,5

8,5

7,5

7,0

6,0

5,5

5,0

Companhia

Amizade

Alegria

Não tem

Proteção

Carinho

Guarda

Amor

Conversar

Brincar

Avisa

Distração

Segurança

27,0

18,5

16,0

11,5

10,0

9,0

9,0

8,0

5,5

5,0

5,0

5,0

5,0

Fonte: Elaboração própria a partir das informações do arquivo referente ao programa IMPMOT (Software TRI-DEUX Versão 2.2).

84

Quadro 2: Freqüência relativa (Fr) das evocações e estímulos indutores (complementares).

Estímulo 4: Saúde

Fr (%)

Estímulo 5: Doença

Fr (%)

Estímulo 6: Velhice

Fr (%)

Estímulo 7:Si mesma

Fr (%)

Alimentação

Alegria

Bem-estar

Cuidado

Paz

Remédio

Passear

Exercício

Tudo

Ser feliz

Médico

Viver

Coisa boa

Bom

Tranqüilidade

17,5

16,0

15,0

12,5

12,0

10,5

8,0

7,5

7,5

6,5

6,5

5,5

5,0

5,0

5,0

Tristeza

Morte

Preocupação

Coisa ruim

Dor

Desânimo

Médico

Remédio

Depressão

35,0

11,5

10,0

8,0

8,0

7,0

6,5

6,5

6,0

Feliz

Tristeza

Viver

Cuidados

Experiência

Saúde

10,0

9,0

9,0

5,5

5,5

5,0

Alegre

Feliz

Ajudar

Amor

Comunicativa

Passear

Trabalhar

29,5

17,0

12,5

6,5

6,5

5,0

5,0

Fonte: Elaboração própria a partir das informações do arquivo referente ao programa IMPMOT (Software TRI-DEUX Versão 2.2).

Os quadros apresentados ostentam o panorama mais geral das principais

evocações manifestas no TAL, contudo não possibilitam uma aproximação mais

significativa das representações dos sujeitos, pois englobam, indistintamente, as

respostas dos grupos que, manifestam fortes dissimilitudes na sua forma de

representar o objeto. Daí a necessidade de se imergir mais profundamente nas

particularidades dos sujeitos eminentemente na distinção entre o grupo, que convive

com animais de estimação e do grupo, que não convive com animais de estimação.

O construto que se segue retoma as principais verbalizações, já

conjugadas nos gráficos anteriores, num arranjo comparativo entre os dois grupos

contemplados na pesquisa. Para isso, recorreu-se ao dicionário de palavras (anexo),

pois, nesse arquivo, estão discriminados todos os vocábulos proferidos durante a

coleta de dados do TAL. Foi realizada a recontagem dos termos no intento de

distinguir e contabilizar as palavras por grupo e estímulo indutor como sistematizado

nos quadros por vir.

85

Quadro 3: Freqüência relativa (Fr) das evocações e estímulos indutores nos distintos grupos.

Fr (%)

Fr (%)

Fr (%)

Estímulo 1: Animal de estimação G1 G2

Estímulo 2: Riscos da

convivência G1 G2

Estímulo 3: Benefícios da convivência G1 G2

Cão

Carinho

Cuidado

Companhia

Amor

Gato

Amigo

Papagaio

Pássaro

Criar

Alegria

Família

24

23

17

22

17

9

14

9

5

4

8

10

34

18

16

9

11

17

6

8

10

8

3

1

Doença

Cuidado

Vacina

Raiva

Morder

Não tem

Contágio

Alergia

Pêlo

Agressão

Asma

Cão

Gato

Carrapato

Calazar

Micose

40

25

13

12

14

16

8

7

8

6

6

8

5

4

3

6

43

22

22

12

7

7

14

13

12

11

11

7

9

8

8

4

Companhia

Amizade

Alegria

Não tem

Proteção

Carinho

Guarda

Amor

Conversar

Brincar

Avisa

Distração

Segurança

31

19

18

7

10

10

10

6

7

6

6

5

4

26

18

14

16

10

8

8

10

4

4

4

5

6

Fonte: Elaboração própria a partir das informações do arquivo referente ao programa IMPMOT (Software TRI-DEUX Versão 2.2) e o dicionário de palavras.

Quadro 4: Freqüência relativa (Fr) das evocações e estímulos indutores (complemetares) nos distintos grupos.

Fr (%)

Fr (%)

Fr (%)

Estímulo 4: Saúde G1 G2

Estímulo 5: Doença G1 G2

Estímulo 6: Velhice G1 G2

Alimentação

Alegria

Bem-estar

Cuidado

Paz

Remédio

17

20

18

11

14

11

18

12

12

15

10

10

Tristeza

Morte

Preocupação

Coisa ruim

Dor

Desânimo

32

12

12

11

10

10

38

11

8

5

6

4

Feliz

Tristeza

Viver

Cuidados

Experiência

Saúde

9

7

13

5

7

5

11

11

5

11

4

5

86

Fr (%) Estímulo 7:

Si mesma G1 G2

Passear

Exercício

Tudo

Ser feliz

Médico

Viver

Coisa boa

Bom

Tranqüilidade

5

7

5

7

6

7

5

2

6

11

8

10

6

7

4

5

8

4

Médico

Remédio

Depressão

5

4

5

8

9

7

Alegre

Feliz

Ajudar

Amor

Comunicativa

Passear

Trabalhar

23

13

16

7

5

2

7

36

21

9

6

8

8

3

Fonte: Elaboração própria a partir das informações do arquivo referente ao programa IMPMOT (Software TRI-DEUX Versão 2.2) e o dicionário de palavras.

Partindo-se do consenso genérico e de cunho eminentemente quantitativo

manifesto no gráfico, buscou-se identificar e expor, com base nas manifestações

sistematizadas no arquivo IMPMOT e no dicionário de palavras, a estruturação do

núcleo central que, por sua vez, permitirá o estudo comparativo das representações.

Essa atitude tem como alicerce a fala de Jean-Claude Abric (1998), segundo o qual:

“a simples identificação do conteúdo de uma representação não basta para o seu reconhecimento e especificação. A organização deste conteúdo é essencial: duas representações definidas por um mesmo conteúdo podem ser radicalmente diferentes, caso a organização destes elementos, portanto sua centralidade, seja diferente (...) Para que duas representações sejam diferentes, elas devem ser organizadas em torno de dois núcleos centrais diferentes” (p.31).

Outra premissa defendida pelo autor e respeitada neste trabalho consiste

na necessidade de se considerar que a centralidade de um elemento não pode e

não deve ser conferida, unicamente, por critérios quantitativos, pois o núcleo central

possui, antes de tudo, uma dimensão qualitativa. Assim, não é a presença maciça de

um elemento que define sua centralidade, mas, antes de tudo, o fato de que ele

confere significado à representação. Essa proposição adquiriu tonalidades fortes no

contexto deste estudo e é ilustrado Abric (1998) quando afirma: “pode-se,

perfeitamente, identificar dois elementos, dos quais a importância quantitativa é

idêntica e muito forte, que aparecem, por exemplo, muito freqüentemente no

discurso dos sujeitos, mas, um pode ser central e o outro não”.

Em virtude de um duplo sistema que permite compreender as

representações, organizaram-se os dados oriundos da pesquisa de forma estrutural

87

e capaz de atender a uma necessidade didática, que enfatiza o núcleo central sem,

no entanto, esquecer o sistema periférico.

Figura 10 – Esquema ilustrativo da estruturação do sistema central e periférico das representações manifestas nos principais estímulos contemplados na pesquisa. Estímulo 1: Animal de estimação Cuiiidado Páss ss arr o Famíí lll iiia  Amiiizz ade Papagaiiio  Gatt o Caa rr iiinn hh oo Coo mpp aa nn hh iiiaa Amorr Carr iiinho  Cuu iiidd aa dd oo Cão Alllegrr iiia  Crr iiiarr Cão   Papagaiiio Crr iiiarr  Gatt o   Páss ss arr o

Grupo 1 Grupo 2 Estímulo 2: Riscos da convivência com animais de estimação Vacc iiina  Morr derr Pêlllo  Alllerr giiia Raiiivv a  Cuiiidado Ass ma  Contt ágiiio Doo ee nn çç aa Nãã oo tt ee m Doençç a Raiiivv a  Cuu iiidd aa dd oo Vacc iiina Contt ágiiio  Agrr ess ss ão Agrr ess ss ão  Pêlllo  Gatt o  Alllerr giiia   Ass ma Cão   Morr derr

Grupo 1 Grupo 2 Estímulo 3: Benefícios da convivência com animais de estimação Carr iiinho  Alllegrr iiia Prr ott eçç ão  Amiiizz ade Prr ott eçç ão  Amiiizz ade Coo mpp aa nn hh iiiaa Alllegrr iiia Nãã oo tttee m Companhiiia Amorr  Diiiss tt rr açç ão Amorr  Convv err ss arr  Carr iiinho  Segurr ançç a  Brr iiincc arr  Guarr da

Grupo 1 Grupo 2

Fonte: Elaboração própria a partir das evocações manifestas no teste de associação de palavras (arquivo IMPMOT e dicionário de palavras) segundo estrutura espiral proposta por Moscovici.

88

Cabe, neste instante, destacar e tecer comentários sobre os elementos

constitutivos das representações sociais no intuito de enriquecer a teoria que dá

suporte à organização dos dados empíricos. Enquanto sistema interno duplo, os

componentes constitutivos da representação guardam papéis distintos e

fundamentais, todavia, um com perfil complementar ao do outro. Haveria, em

primeira instância, nas palavras de Sá (1996), um sistema central, constituído pelo

núcleo central da representação. Dado o valor preponderante dessa estrutura no

construto das representações sociais, recorreu-se a Abric (1998) que o define:

“O núcleo central é determinado, de um lado, pela natureza do objeto representado, de outro, pelo tipo de relação que o grupo mantém com este objeto e, enfim, pelo sistema de valores e normas sociais que constituem o meio ambiente ideológico do momento e do grupo. (...) Além disto, ele tem uma propriedade. Trata-se do elemento, ou elementos, o mais estável, da representação, aquele que assegura a continuidade em contextos móveis e evolutivos. Ele será, dentro das representações, o elemento que mais vai resistir à mudança” (p.31).

Em contrapartida, o sistema periférico organiza-se em torno do núcleo

central, constituindo-se como as estruturas mais acessíveis, vivas e concretas no

conteúdo da representação (Sá, 1996). Apesar da terminologia, não se deve julgar

os elementos periféricos como componentes de menor “status” na estruturação das

representações, ao contrário esse sistema guarda fundamental importância em sua

relação com o núcleo central ao permitir a ancoragem das representações na

realidade. As funções atribuídas a esses esquemas no funcionamento da

representação abrangem vários aspectos: eles ordenam a reatividade dos indivíduos

em situações imediatas sem que haja exposição dos significados centrais,

possibilitam variações personalizadas das representações, assim como das

condutas a elas associadas e funcionam como um sistema de defesa da

representação. Como diz Abric (1998), ”é no sistema central que poderão aparecer e

ser toleradas contradições”.

O mesmo autor ensina que, enquanto, o sistema central se configura

como a base comum propriamente social e coletiva que define a homogeneidade de

um grupo, o sistema periférico está mais associado às características individuais e

ao contexto imediato e contingente nos quais os indivíduos estão inseridos. É a

existência conjunta desse duplo sistema operante que possibilita desvendar uma

característica que, a olhos pouco atentos, poderia parecer contraditório. As

representações se manifestam de forma estável e móvel, rígida e flexível dentro de

89

seu contexto temporal. É o próprio autor quem lança luz a esse aparente contra-

senso:

“Estáveis e rígidas posto que determinadas por um núcleo central profundamente ancorado no sistema de valores partilhado pelos membros do grupo; móveis e flexíveis, posto que alimentando-se das experiências individuais, elas integram os dados do vivido e da situação específica, integram a evolução das relações e das práticas sociais nas quais se inserem os indivíduos ou os grupos” (p.35).

Nesse contexto, a idéia de centralidade da representação está

fundamentada em conteúdos avaliativos positivos para o grupo que convive com

animais de estimação (grupo1), contrastando com elementos estruturantes mais

negativos manifestos pelo grupo que não convive diretamente com eles (grupo 2).

Vale salientar, como visto no capítulo dedicado ao perfil dos sujeitos da pesquisa,

que esse último grupo não está falando de algo distante de sua realidade ou alheio

ao seu sistema cognitivo, visto que grande parcela dele relata já ter possuído um

animal de estimação num momento de suas vidas ou, pelo menos, ter convivido com

eles em função de algum membro da família.

Podem-se, ainda, observar no esquema figurativo, os elementos

periféricos das representações que se situam nas órbitas espirais do núcleo central.

Eles revelam uma maior aproximação do “animal de estimação” dos predicativos

afetivos expressos em amor, amizade família e alegria e, mesmo quando induzidos a

assinalar tendências negativas dessa convivência, o fazem de forma dispersa e

pouco representativa em seu bojo quantitativo. Expressando um significativo

contraste, as pessoas que não convivem com animais estruturam esquemas

periféricos desvinculados da dimensão afetiva, fato evidenciado pela enumeração

passiva dos termos cão, gato, pássaro e papagaio, assinalando, continuamente, a

necessidade de cuidados.

Por outro lado, agregada à forte estruturação afetiva em torno dos animais

de estimação por parte do grupo que convive com eles, emerge a hipótese de não

haver riscos oriundos dessa interação numa situação de centralidade. Essa

esquematização indica uma associação preocupante quando se imagina que as

representações de um grupo funcionam, de fato, como um guia para a ação. Nesse

ponto, esclarece Abric (1998, p.30):

“Enfim, enquanto representação social, ou seja, refletindo a natureza das regras e dos elos sociais, a representação é prescritiva de comportamentos ou de práticas obrigatórios. Ela define o que é lícito, tolerável ou inaceitável em um dado contexto social”.

90

O que se observa, no desenrolar do capítulo, de maneira geral, é o

emergir de um conjunto relevante de eventos manifestos pelos sujeitos através das

suas representações que indicam a concretização de situações diversas, positivas

ou negativas, no contexto no qual estão inseridos. Todavia, atentou-se para a

necessidade de se enriquecer o croqui com um repertório mais completo de

aquarelas e é, nesse intuito, que se buscou maior profundidade para o estudo,

recorrendo-se às ferramentas qualitativas adicionando-se, assim, um maior número

de detalhes à obra, como se verá a seguir.

91

9 ANIMAIS DE ESTIMAÇÃO: O Que Diz O Senso Comum?

"O cachorro de Ângela parece ter uma pessoa dentro dele. Ele é uma pessoa trancada por uma condição cruel. O cachorro tem tanta fome de gente e de ser um homem. É excruciante a falta de conversa de um cachorro." Lispector (1978, p.58)

Dedica-se esse capítulo à análise dos conteúdos emergidos nos discursos

dos sujeitos entrevistados acerca da convivência com animais de estimação em

suas dimensões quantitativas/qualitativas. Essas representações serão discutidas a

partir de cinco categorias e dezenove sub-categorias de forma complementar à

análise fatorial de correspondência.

Quadro 5: Distribuição das categorias e subcategorias simbólicas emergidas dos discursos dos sujeitos.

CATEGORIAS SUBCATEGORIAS

Número de Unidades de

Análise

 os filhos crescem (QSRfc) 13 Categoria 1 - (QSR) Quando a solidão se revela  relacionamentos fragilizados (QSRv) 07

 companheiro fiel (BCAEcf) 48  fonte de diversão e alegria (BCAEfda) 47  lutando contra a solidão (BCAElcs) 39  ter com quem conversar (BCAEtcqc) 35  protetor incansável (BCAEpi) 27  amenizando problemas familiares (BCAEapf) 22  amor não se compra (BCAEañsc) 17  caminhar é preciso (BCAEcp) 11  “pára-choque” afetivo (BCAEpa) 11

Categoria 2 - (BCAE) Benefícios da convivência com animal de estimação

 ter do que cuidar (BCAEtdqc) 04

 cuidados (RCAEc) 51  relatando os perigos (RCAErp) 39

Categoria 3 - (RCAE) Riscos da convivência com animal de estimação

 silenciando os perigos (RCAEsp) 17

 membro da família (AAEmf) 53 Categoria 4 - (AAE)

Antropoformização do animal de estimação

 agregando valores humanos (AAEavh) 27

 enfrentamento (PAEe) 36 Categoria 5 - (PAE) Perda do animal de estimação  prevendo o futuro (PAEpf) 18

92

9.1 Categoria 1: Quando a solidão se revela (QSR)

Essa categoria emerge espontaneamente nas entrelinhas das entrevistas,

mesmo sem estar atrelada diretamente ao tema principal da conversa, como

explicação para os estados de profunda solidão relatados por essas mulheres. Em

nenhum momento, aborda-se o tema solidão, mas esse permeia os discursos de

forma transversal, denunciando sua presença na vida das idosas e os danos que

pode causar. Nesse primeiro momento, tentar-se-á demonstrar como esse

sentimento se instala na vida dessas mulheres e qual o contexto que possibilita sua

expansão.

Quadro 6 – Verbalizações da categoria quando a solidão se revela e suas subcategorias

Unidade de significação Categoria 1 – Quando a solidão se revela

Código QSR Freqüência (%)

Subcategoria 1 Os filhos crescem QSRfc 13 65 Subcategoria 2 Relacionamentos fragilizados QSRrf 07 35 Total 20 100

 os filhos crescem (QSRfc)

O crescimento dos filhos está colocado nas narrativas como uma questão

de perda de papéis sociais no curso da vida. Embora as pessoas possam

desempenhar os mais diversos papéis ao longo do seu desenvolvimento, a maioria

desses está relacionada com a idade (SILVA, 2000).

Dessa forma, a experiência do envelhecimento está atrelada

necessariamente, à mudança de papéis. Contudo, a tomada de consciência deles

deslocamentos pode ser um embate pessoal, cercado de efeitos colaterais, entre

eles, a solidão, a sensação de vazio e o despojamento social:

“Por que a gente quando tem as crianças, os filhos pequenininhos, tinham todo aquele cuidado necessário, né, que tem com filhos. Depois que crescem a gente fica quase sem ter uma pessoa pra tá assim olhando pra gente, a gente tá conversando, que cada um de manhã segue o seu destino, né” (Acácia, 60 anos, casada, animal de estimação: um cão).

Os filhos, que antes ocupavam papel central na vida dessas mulheres,

mantendo uma relação direta de dependência com elas, passam a assumir papéis

sociais conseqüentes à demanda de seu próprio desenvolvimento individual. Essas

93

mulheres são impelidas a redefinir sua identidade e a se engajar em novos papéis,

condicionados pelo envelhecimento e cercados por sentimentos de perda de

“status”.

 relacionamentos fragilizados (QSRrf)

Uma relação marital negativa ou conflituosa tem fortes implicações no

desenvolvimento de sentimentos de irritação e desequilíbrio emocional nos cônjuges

(BRAZ e SILVA, 2005), o que influencia o reforço à percepção de isolamento

interpessoal, de estar só entre pessoas:

“Aquele ambiente lúgubre, triste, tudo calado. Meu marido é muito calado. O negócio dele é assistir televisão, aqueles programas policiais que ele gosta” (Dália, 77 anos, casada, animais de estimação: um cão, um gato e um papagaio). “Mas ele mesmo nem admira nada, é indiferente pra ele, ele quer me dá trabalho! Que eu tenha trabalho que é pra ‘ela’ ficar dentro de casa, quanto mais eu dentro de casa trabalhando mais ele gosta” (Verbena, 61 anos, casada, animal de estimação: três pássaros e um papagaio).

Esses são problemas do descumprimento do papel idealizado para o

companheiro, destacando-se a falta de diálogo e sentimentos de ansiedade e raiva,

contribuindo para o distanciamento numa época da vida em que urge o apoio mútuo

como função potencialmente protetora do casamento. O segundo relato se

assemelha ao que Gomes e Paiva (2003, p.8) descrevem em seu trabalho: “o casal

parece preso a uma modelo tradicional de casamento, com papéis sociais de

homem provedor e mulher submissa”.

Além desses tópicos, que emergiram com uma feição mais delineada,

encontra-se pequenas pistas de ressecamentos sociais manifestos, de maneira

pontuada, em diversos momentos da entrevista, que fazem alusão ao divórcio, morte

do cônjuge e conflito com os filhos adultos, que podem ser percebidos em algumas

das unidades de contexto utilizadas no decorrer do capítulo.

Sintetizando essa perspectiva, Braz e Silva (2005, p.131) corroboram com

a idéia de que tais fatos denunciam aquilo que se poderia chamar de problemas

referidos pelas entrevistadas e identificados pela pesquisadora, todavia, a não

indicação direta - é esse o problema - foi elaborada no decorrer de suas histórias de

forma não intencional, mas cerca da tensão.

94

9.2 Categoria 2: Benefícios da convivência com animal de estimação (BCAE)

A questão dos benefícios associados à convivência com animais de

estimação emergiu como a mais definida entre as categorias, mas, ao contrario do

que se possa imaginar, sua ocorrência não está atrelada a uma discussão direta

sobre a conseqüências positivas de se conviver com animais. As verbalizações

surgiram, espontaneamente, à pergunta: “o que representa pra você o animal de

estimação?”.

Quadro 7 – Verbalizações da categoria benefícios da convivência com animais de estimação e suas subcategorias

Unidade de significação Categoria 2 – Benefícios da convivência com animais de estimação

Código BCAE Freqüência (%)

Subcategoria 1 Companheiro fiel BCAEcf 48 18,4 Subcategoria 2 Fonte de diversão e alegria BCAEfda 47 18,0 Subcategoria 3 Lutando contra a solidão BCAElcs 39 15,0 Subcategoria 4 Ter com quem conversar BCAEtcqc 35 13,4 Subcategoria 5 Protetor incansável BCAEpi 27 10,3 Subcategoria 6 Amenizando problemas familiares BCAEapf 22 08,4 Subcategoria 7 Amor não se compra BCAEañsc 17 06,5 Subcategoria 8 Caminhar é preciso BCAEcp 11 04,2 Subcategoria 9 “Pára-choque” afetivo BCAEpa 11 04,2 Subcategoria 10 Ter do que cuidar BCAEtdqc 04 01,6 Total 261 100

As representações declaradas nos discursos reiteram os achados

explicitados nos capítulos anteriores através de conteúdos fortemente afetivos

ancorados no desejo de companhia (18,4%), de momentos de diversão e alegria

(18%), de luta contra o fantasma da solidão (15%), de ter com quem conversar

(13,4%), de proteção (10,3%) entre outros.

 companheiro fiel (BCAEcf)

Imprimir ao animal de estimação o papel de companheiro exprime a

necessidade dessa mulher de preencher um vazio em sua vida, não apenas físico,

mas funcional, denunciando a fragilidade do suporte social em seu cotidiano ou a

sua ineficiência em suprir suas demandas afetivas. Os animais simbolizam uma

fonte de lealdade e companheirismo incondicional, dando resposta à necessidade

95

humana de interagir socialmente, assumindo os mais variados papéis, mesmo sem

conseguir suprir, por completo, a ausência do outro ser humano nas relações. As

narrativas das demonstrações de companheirismo são, com freqüência, reforçadas

pelos relatos dos efeitos positivos que acompanham essas experiências:

“Assim ele, ele representa muito... pra todos nós de casa. Ele fica, assim, como companheiro da gente. Às vezes meu marido sai, eu ficando com ele [cão], ele [marido] já sai despreocupado. A gente se sente bem com ele, como se... Parece que tá falando com criança (risos)” (Tulipa, 64 anos, casada, animal de estimação: um cão). “Ah, ele... (risos) representa uma coisa boa na minha vida né, é uma diversão, é o meu companheiro quando não tem ninguém comigo. Às vezes durmo também só, quando meu filho viaja, sai. Ele me serve de companhia” (Camélia, viúva, 62 anos, animal de estimação: um cão). “Sobre o companheirismo, assim, por que na medida que você está só, então você já sabe que tem aquele animalzinho do lado, então você não tá só. Você tem aquele protetor perto de você. Ali você brinca, ali você conversa, ali você faz festa com ela. Ah, quer dizer, é uma companheira que dá alegria. Muitas vezes, por exemplo, a gente está assistindo televisão, ela chega, assim, de uma vez, senta em cima da gente, bota a carinha prali. Pra gente ali é uma alegria muito grande. A gente observar que ela tá assistindo televisão. Então, é uma companheira, né. (risos)” (Acácia, 60 anos, casada, animal de estimação: um cão). “É assim, como já lhe disse, ele serve de companhia pra gente, (...) porque, é assim, oh, ele é tão, tão amigo, tão compreensivo de um jeito que para onde eu vou ele se deita pra dormir. Quando adoeci um tempo desse que eu fiz uma cirurgia ele chegava, miava e deitava em cima da minha sandália, mas ele não subia pra deitar comigo. É porque ele entendeu que ali naquela hora não podia” (Narcisa, 62 anos, casada, animal de estimação: um gato).

Pôde-se identificar, nas verbalizações, sentimentos negativos de mágoa e

ressentimento em relação a entes próximos, perda da fé na bondade humana e

reforço a qualidades positivas e instintivas dos animais de estimação, manifestas

simbolicamente pela “fidelidade” do cão na interação com o “dono”:

“A gente cria com muito..., é quase como uma pessoa, né. Às vezes até no momento de raiva a gente diz: ‘É melhor criar um cachorro do que uma pessoa’, em certas ocasiões, porque o cachorro é muito apegado a gente, muito, né. E, às vezes, até o próprio filho, o cachorro não tem o entendimento que uma pessoa tem, não tem a mentalidade da pessoa e a pessoa sabe que tá fazendo as coisas erradas, né. E maltrata, às vezes, faz plano, o filho maltrata, responde a mãe e tudo e o cachorro não faz nada disso, a gente cria e ele não faz nada disso, não morde a gente e o filho morde” (Gardênia, 64 anos, divorciada, animal de estimação: um cão).

Apesar de disso, o animal de estimação é representado nessa relação

interespécies como um provedor de conforto, fator de proteção contra uma situação

96

existencial de risco, identificada com estar só, mas, sua presença, não esgota a

necessidade de conviver com pessoas no cotidiano dessas mulheres.

 fonte de diversão e alegria (BCAEfda)

A alegria e o acesso a momentos de descontração são mencionados com

grande intensidade no decorrer das entrevistas. Os momentos de solidão e tristeza

são preenchidos, mesmo que em breves instantes, por vivências calorosas e

cercadas de bom humor. Então, esses espaços de felicidade são subproduto de um

sentimento de conforto provido pela presença do animal de estimação ou da ação

direta via interação com eles no ambiente doméstico:

“A influência dela pra gente? É a alegria, é ali aquele amor, o positivo é só esse mesmo. A gente quer muito bem. Quer dizer. Não sei nem dizer, é um apego que a gente tem. É isso a alegria. A companhia também, o companheirismo” (Acácia, 60 anos, casada, animal de estimação: um cão). “Ele tem um brinquedinho, quando ele quer brincar, ele chega perto de mim e começa a passar o brinquedo que ele pega o brinquedo na boca e começa a passar em mim. Sabe, aí ‘você quer brincar, quer? Aí eu começo a correr atrás dele, aí ele pula em cima da cadeira, sabe. Saí correndo, arrodiando a mesa, sabe. Ele vai pra cadeira. Aí eu acho assim, que é bom pro cachorro e é bom pra gente, né. Alegra o bichinho porque também que ele vivi só” (Camélia, 62 anos, viúva, animal de estimação: um cão). “A diversão é a gente brincar. Fazer uma bolinha, bolinha de papel, jogar, brincar de jogar, de correr. Ela corre dentro de casa, a gente corre junto com ela também. Quando ela sobe numa estante. A gente tem que mostrar que ela não deve só ficar ali, deve procurar outros espaços, também. É superlegal” (Íris, 60 anos, solteira, animal de estimação: uma gata).

Essas atividades lúdicas e espontâneas tornam o ambiente, que cerca a

idosa, mais ativo e descontraído, o que atrai sua atenção para aspectos positivos do

cotidiano e, conseqüentemente, a distancia de tendências depressivas e

pessimistas:

“Aí ele se esconde, ele mia, corre e se esconde que é para brinca. Aí meu marido fica: ‘Cadê o D. [gato], Preta? O D. sumiu! Oh, Meu Deus!’. Aí ele dá uma carreira e passa por ele como quem diz: ‘Eu tõ aqui!’ (risos). Aí é assim, um divertimento que faz a gente rir. (...) Aí, pois é, não tem tempo de ficar triste, pensativa, pensando em alguma coisa. Aí ele sempre faz uma traquinagem, aí a gente leva na brincadeira, aí, pronto, vai e esquece” (Narcisa, 62 anos, casada, animal de estimação: um gato).

“Sim, às vezes a gente tá tão assim, meio assim... Quando ele chega brinca, a gente se distrai com ele. É como se fosse uma criança. (...) Assim nesse sentido. Quando estou com ele não me sinto só. Entende? É como

97

estivesse com uma pessoa” (Tulipa, 64 anos, casada, animal de estimação: um cão). “Eu às vezes tô assim. Você sabe, há dias que o ser humano acorda meio pra baixo, e a gente quando chega uma certa idade, a gente fica sem... não tem mais aquele ideal, os sonhos, os sonhos da gente. (...) E o animalzinho faz companhia a gente. A gente brinca, a gente ri com as brincadeiras dele. Porque às vezes eles brincam mesmo. Parece que entende né? Como pessoas mesmo, humanas. (...) Pra mim é uma distração, eu acho bom. Quando os meninos [filhos] chegam eu vou contar. Aquilo é uma distração. Eu me sinto bem. Me faz um bem muito grande” (Dália, 77 anos, casada, animais de estimação: um cão, um gato e um papagaio). “É melhor que criar um menino. Porque ele lhe tira do estresse. Você tá ali, séria, sozinha, lá vem aquele animalzinho e pula em cima do seu colo. O que é que você faz? Você ri! (...) Tem que rir, embora que não queira“ (Vitória Régia, 68 anos, casada, animal de estimação: dois cães).

Inclinações depressivas, sentimentos de solidão e ansiedade são

condições compartilhadas entre essas mulheres, bem como com os membros de

seu grupo etário, mesmo sem estarem clinicamente doentes. A presença do animal

de estimação propicia um afastamento desses estados pela migração do foco

negativo de seu pensamento para atividades positivas de brincadeira e relaxamento.

Contudo, a geratriz das condições emocionalmente debilitantes não é resolvida,

podendo-se, até, sugerir que há enfrentamento, que, no entanto, se dá pela

rejeição.

 lutando contra a solidão (BCAElcs)

Observa-se que a experiência de estar só passa a ser objeto de

insatisfação para essa mulher, dentro dessa lógica, o animal de estimação passa a

ser representado como elemento capaz de minorar essa inquietação no seu

cotidiano. Percebe-se, ainda, que essa solidão auto-referenciada gera um sentido de

abandono e isolamento, não sendo uma opção de vida:

“Quando eu to só, ele procura tá perto de mim. Quer dizer que eu acho que influi sim, na minha saúde sim, influi. Porque, oh! Desde o momento em que eu quase sempre fico a tarde quase todinha sozinha, né, porque o meu marido sai, né, a outra trabalha fora, é só nós três. Então, tem o T. [cão], né. Ele é que me faz companhia, é ele que tá ali junto comigo, entende? Ele não me deixa ter tédio, não me deixa ter tristeza. Às vezes, eu tô triste, né, mas ele faz uma besteirinha lá, eu começo a rir, entende? Ou então ele me dá raiva, eu brigo com ele. Então, eu acho que ele está motivando a minha vida, também. Que eu acho que se eu fosse ficar sozinha, todo dia, à tarde todinha, eu já tinha entrado numa depressão. E ele não deixa porque eu falo

98

com ele, eu converso com ele, ele fica me escutando, entende?” (Margarida, 64 anos, casada,animal de estimação: um cão). “Ela me faz companhia assim... porque quando minha neta sai, que eu fico só, ela é minha companhia. Eu digo a minha neta. Ela deita na minha perna. Eu vou dormir a nega tá ali. Ela é uma... eu sinto que ela... ela é minha amiga. Ela é minha amiga” (Magnólia, 75 anos, solteira, animal de estimação: uma gata). “(...) a gente se sente e fica assim, seguro, porque a gente não se acha só tando com ele, a gente não se sente que está só, certo? Se a gente tá vendo televisão ele tá ali do lado, se a gente vai se deitar ele deita entre eu e o filhinho [marido] na cama. Se a gente vai comer ele tá ali do lado, pra onde a gente vai, se a gente vai para a calçada, a cadeira dele, a gente diz: ‘Bota a cadeira!’ Ele já se senta e fica. É! Onde a gente vai ele tá do lado. É a companhia, é o divertimento, é o membro da família” (Narcisa, 62 anos, casada, animal de estimação: um gato).

Assim, as narrativas corroboram a hipótese de reatividade do suporte

social, sustentada por Allen et al. (2002) em seus estudos, o qual postula que a

presença do outro ser influencia a redução de riscos para a saúde por atenuar

respostas psicológicas nocivas a aspectos estressores, melhorando a habilidade das

pessoas em lidar com eles:

“Eu acho que é uma coisa bem necessária pra gente. Além da gente ter a sensação, mesmo que esteja só que não tenha ninguém com a gente no momento, sai todo mundo. Aquele animal a gente tem a sensação que é alguém que está com a gente. Porque eles demonstram a amizade que eles criam com o ser humano” (Dália, 77 anos, casada, animais de estimação: um cão, um gato e um papagaio). “Ah! Para mim representa, é assim muito carinho, porque eu sinto falta, porque eu fico muito só em casa. Eu tenho realmente uma gatinha. E ela representa tudo de bom para mim. (...) A gente não se sente tão só junto com ela. Ela tá ali. É como se fosse um filho, é uma pessoa muito querida. Entendeu?” (Íris, 60 anos, solteira, animal de estimação: uma gata).

As percepções manifestas nos discursos vão além do sentido da solidão

existencial, perpassam o isolamento funcional imposto pelos costumes e

preconceitos e assumem a feição do isolamento interpessoal, atrelado à cultura

negativa frente ao envelhecimento e ao próprio declínio das instituições promotoras

de aproximação (família nuclear, aposentadoria, viuvez etc):

“Pra mim, eu acho assim, pra mim que já sou idosa e que fico mais sozinha, muito tempo sozinha dentro de casa, pra mim ele me traz alegria, me traz companhia, entende? É como se fosse uma pessoa muito querida minha. Ele, eu trato ele como se fosse meu neto, assim” (Margarida, 64 anos, casada, animal de estimação: um cão).

Enquanto a idéia de um animal funcionar como fonte de apoio pode

parecer, para alguns, uma noção peculiar, as respostas dessas mulheres ao

99

estresse, combinadas com suas descrições do significado dos animais em suas

vidas, sugerem, à semelhança dos achados de Allen et al. (2002), que o suporte

social pode, realmente, transcender à condição de espécie.

 ter com quem conversar (BCAEtqc)

Na fala de Boff (1998), está na linguagem e na comunicação a base da

sociedade humana enquanto humana. Para o autor, é na linguagem que se encontra

a “instância definitória do ser humano” (p.85). Então, é a partir da linguagem que os

seres humanos constituem o processo de reflexão, da consciência e do eu,

elaborando o mundo como uma rede de significados.

O que define essa sub-categoria é a expressão premente da demanda de

interação social pelas idosas, o que é explicado por Duarte (1998, p.29), segundo o

qual “a necessidade de comunicação é a mais importante na hierarquia humana e,

talvez, signifique a diferença entre o estado de pessoa e não pessoa”. Não há

dúvida de que o idoso, bem como qualquer ser humano, independentemente da

faixa etária, precisa ser ouvido. Mas o que fazer, quando a escuta atenta humana é

um produto escasso? A resposta pode ser encontrada nos fragmentos expressos

nas entrevistas:

“A gente conversa com ele, ele parece que presta atenção mesmo. A gente conversa com ele, ele parece que presta atenção mesmo, parece que entende mesmo. Ele não fala, mas é como se ele tivesse entendendo, pois ele pára e fica escutando” (Narcisa, 62 anos, casada, animal de estimação: um gato). “Quando não tem ninguém em casa para conversar, que eu tô aguando as plantas lá atrás, eu começo a conversar com ele. Ele se sente bem, abana o rabão... Sei que ele está entendendo. Pode não está entendendo os meus problemas, mas eu tô conversando com ele os meus problemas, tô fazendo uma terapia com meu cachorro. É uma terapia maravilhosa, né, porque ele não vai fuxicar pra ninguém, tá entendendo? E ao mesmo tempo, eu joguei tudo aquilo que tava me fazendo mal, porque a única coisa que a gente não tira férias na vida são os problemas“ (Artemísia, 63 anos, divorciada, animal de estimação: um cão).

Os motivos são os mais diversos para se manter um ‘dialógo’ com esses

seres, mas os resultados dessa prática convergem para um lugar comum, o

significado de conforto e de ser acatado. Os animais são descritos como ‘ouvintes

atentos’, confidentes fiéis e pacientes, estando sempre disponíveis para uma

‘conversa’:

100

“Converso com ela: ‘que é que a nega tem hoje que não quer, aí, não quer comer não. Já tá abusando a carne, já tá abusando, tá abusando a ração? Vou comprar outra ração pra você viu? [E ela] diz nada não, só faz olhar pra mim, com os olhos muito aceso. Ah Maria! Eu quero muito bem a minha cachorra. (Petúnia, 78 anos, viúva, animal de estimação: um cão). “E eu converso com ele, eu fico só mais.... meu filho, meu filho tem problema. Aí ele dorme é muito , que ele toma remédio controlado, aí eu fico mais é com ele [cão]. Eu falo com ele (risos). Eu converso com ele” (Perpétua, 69 anos, viúva, animal de estimação: um cão).

Vale salientar que todas essas mulheres participam de atividades sociais

no Grupo de Convivência, assim como no grupo das idosas que convivem com

animais de estimação apenas 16% relatam morar sozinhas. Portanto, o vínculo

afetivo que se forma entre a idosa e seu animal de estimação exterioriza uma

significativa carência afetiva em suas relações com o mundo humano, o que leva ao

questionamento da eficiência do suporte social humano disponível a esse público

ou, mesmo, do equilíbrio entre a demanda de apoio e a oferta desse suporte.

 protetor incansável (BCAEpi)

Vivenciam-se, na contemporaneidade, momentos de extrema violência;

nesse contexto, como não poderia deixar de ser, o animal de estimação,

principalmente o cão, é representado como um fator de proteção para a idosa.

Todavia, deve-se abrir um parênteses para a discussão desse predicativo, pois, na

maioria dos relatos, esses ‘grandes defensores’ são apenas ‘pequenos heróis’ como

poodles, pinschers e cocker spaniels. Ou seja, a maioria das raças mencionadas nas

entrevistas é de animais de pequeno porte. Apesar disso, esses animais são

descritos em dimensões quase metafóricas pelas ações que praticam:

“Ela sabe que não é ninguém de casa. O que a gente acha interessante é isso, né. Ela observar assim. Então, a gente já sabe que é alguma coisa, tem corpo estranho ali, tem gente estranha ali na calçada. Quer dizer, até nisso, ela serve de despertar a gente. Uma das vezes é, eu estava no jardim e ele [marido] deixou o portão só entre aberto, né. Assim, nem fechado, nem aberto. E, de repente uma pessoa abriu a porta, a D. [cão] pressentiu - a D., a cachorrinha, né – lá da cozinha, que ela estava com a gente, pressentiu e latiu, latiu e correu. Pá, ele olhou pra trás, vinha um homem entrando, né. Até nisso, ela serviu de proteção. (...) Quer dizer, se não fosse a D., ele podia ter entrado, feito alguma coisa, não sei. Quer dizer, até nisso ela serviu pra gente, ela serve” (Acácia, 60 anos, casada, animal de estimação: um cão). “Com ela eu aprendi muita coisa. Principalmente ela defender a dona e todos os que estão em casa. Uma pessoa de fora não vai chegar lá, pra se sentar. Só se a dona dela explicar: ‘P.[cão], é amiga da mamãe’. Passa a mão nela passa a mão na pessoa: ‘É amiga da mamãe, num faça nada com

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