Impacto da energia nuclear - Apostilas - Engenharia Quimica, Notas de estudo de Engenharia Química. Universidade Federal de Alagoas (UFAL)
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Roberto_8805 de Março de 2013

Impacto da energia nuclear - Apostilas - Engenharia Quimica, Notas de estudo de Engenharia Química. Universidade Federal de Alagoas (UFAL)

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Apostilas de engenharia quimica sobre o estudo do impacto da energia nuclear, produção nacional, críticas, uso da energia nuclear para consumo civil.
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De vilã dos ambientalistas e pacifistas, a energia nuclear assumiu outra faceta: a de esperança para o suprimento de parte das demandas energéticas, e até mesmo sociais, do novo milênio. O Brasil enfrenta o desafio de ampliar sua produção de energia nuclear para fins civis, e prepara-se para entrar de vez no mercado mundial de urânio enriquecido.

Desde a descoberta da fissão atômica, nos anos 1930, passando pelo bombardeio de Hiroshima e Nagasaki, na Segunda Guerra Mundial, e chegando ao acidente em Chernobyl (1986), na Ucrânia, a energia nuclear manteve o estigma de misterioso e estratégico ativo no cenário internacional. Como recurso energético, a opção nuclear parecia fadada a permanecer eternamente debaixo da poeira radioativa da antiga usina ucraniana, sem encontrar novos espaços em um mundo que anseia ser mais ambientalmente sustentável. Mas, na década de 1990, governos da Europa passaram a sustentar a tese de que usinas nucleares devem, sim, ser enquadradas como fontes limpas de energia. Paralelamente, o planeta despertou para a carência de radioisótopos, um subproduto da fissão nuclear usado em uma infinidade de exames médicos. E a crise provocada pelo programa nuclear iraniano levou a um debate sobre quem pode e quem não pode dominar essa tecnologia.

O Brasil chamou a atenção da comunidade internacional ao propor, neste ano, com a Turquia, um acordo que pudesse frear o movimento - impulsionado em Washington - por novas sanções ao Irã. Não teve sucesso na tentativa de convencer outras potências, mas voltou os holofotes para um tema tabu: qual o critério para decidir quem poderá usufruir da energia nuclear neste século? Por trás da resposta, além da discussão sobre soberania e segurança global, há um valioso mercado de urânio em fase de crescimento. O governo federal pretende inserir o Brasil nesse contexto, mas parte da comunidade acadêmica e muitos ambientalistas têm ressalvas.

Em todo o mundo, o Brasil possui hoje a sexta maior reserva de minério de urânio - matéria- prima do urânio enriquecido usado na geração de energia. Apenas 30% das jazidas estimadas, entretanto, são conhecidas e mapeadas. Caso as previsões mais otimistas se confirmem, o país poderia assumir o segundo lugar nesse ranking. "Prevemos que, até 2022, o Brasil tenha mais quatro usinas nucleares. Além de produzir urânio enriquecido aqui dentro, há um mercado internacional", diz a Desafios do Desenvolvimento o ministrochefe da Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE), Samuel Pinheiro Guimarães.

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Mas vale a pena entrar nesse mercado? Os números mostram um horizonte animador. Em seu último relatório sobre a oferta global de urânio até 2050, publicado em 2001, a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) - órgão ligado às Nações Unidas e maior autoridade no tema - trabalha com três cenários: pequena, média e alta demanda. O cenário de média demanda presume crescimento econômico mundial também mediano, incentivo a políticas energéticas que respeitem o meio ambiente, baixo crescimento no consumo de energia e desenvolvimento sustentável da energia nuclear no planeta - inclusive em países emergentes.

Nesse cenário de média demanda, em 2050 o mundo consumiria 177 mil toneladas de urânio por ano. Isso equivale a um aumento de 160% em relação ao consumo registrado em 2000. Se o que ocorrer, porém, for o cenário de alta demanda desenhado pela AIEA, então a utilização do urânio cresceria assombrosos 316%. A má notícia para quem precisar importar o produto é que, tomando-se por base as reservas já conhecidas, a quantidade de urânio de baixo custo existente (pela classificação da AIEA, menos de US$ 130 por quilo) tornaria-se insuficiente para atender aos cenários de demanda alta e até mesmo média.

Seria necessário, então, recorrer ao minério de alto custo (mais de US$ 130 por quilo), o que representaria um aumento gradual do preço do urânio no mercado internacional. Para não depender desse preço, países que têm jazidas e pretendem, em seu projeto de desenvolvimento, aplicar energia nuclear em algum setor, estão se movendo para dominar a tecnologia do ciclo do combustível nuclear.

No mesmo relatório, a AIEA lista 34 países que possuem centros de produção de urânio. Desses, apenas dez teriam, segundo a agência, capacidade produtiva maior que a do Brasil. "Quando da construção da Companhia Siderúrgica, nos anos 1940, jornais brasileiros também diziam que o Brasil não deveria entrar no mercado de minério de ferro, que isso era coisa de 'países brancos'", afirma Pinheiro Guimarães, fazendo uma analogia com as atuais críticas à retomada do programa nuclear nacional. Ele recorda, ainda, que outros emergentes estão investindo pesado nesse tipo de energia. "A China prevê instalar 120 reatores para atingir 120 mil megawatts. E já tem 20 deles em construção."

Marília de Barros, física nuclear com mestrado pelo Instituto Militar de Engenharia (IME) e técnica de planejamento e pesquisa do Ipea, explica que durante muito tempo, depois dos acidentes em Three Mile Island, nos Estados Unidos (1979), e Chernobyl, programas nucleares de diversos países ficaram em quarentena: "Hoje, assistimos a uma retomada. É importante o Brasil aprofundar a prospecção pelo minério de urânio, pois temos uma oportunidade".

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PRODUÇÃO NACIONAL - Produção nacional Atualmente, o urânio utilizado no Brasil sai apenas da mina da Caetité, na Bahia, onde a reserva é de 100 mil toneladas do minério. A produção é suficiente para abastecer as usinas Angra 1 e Angra 2, mas não daria conta das outras quatro usinas com construção prevista até 2022. A Indústrias Nucleares do Brasil (INB) vai começar a explorar, também, a jazida de Santa Quitéria, no Ceará, cujo urânio é associado ao fosfato. O grau de pureza do minério encontrado no país é um dos argumentos que os opositores da energia nuclear usam para denunciar os investimentos nessa área.

"Por mais que tenhamos grandes reservas de urânio, ele está associado a outros materiais que inviabilizam sua exploração", garante André Amaral, coordenador do Greenpeace Brasil para o tema nuclear. Ele cita um estudo do holandês Jan Willem Storm, publicado pelo Oxford Research Group, segundo o qual o processo de geração de energia nuclear se tornará inviável em 55 anos caso o nível de consumo mundial permaneça igual e novas jazidas de minério altamente concentrado não sejam descobertas. Tal processo passaria a consumir mais energia que a quantidade por meio dele produzida.

Amaral afirma que boa parte do minério brasileiro não teria concentração suficiente para que sua exploração econômica fosse viável. Nesse ponto, ele é apoiado por José Goldemberg, ex- secretário de Ciência e Tecnologia da Presidência da República e professor da Universidade de São Paulo (USP). "Minério de urânio não é a mesma coisa que urânio natural e muito menos urânio enriquecido. Para que o Brasil entrasse no mercado exportador de urânio enriquecido, seriam necessários grandes investimentos, de no mínimo US$ 1 bilhão. Além disso, existe urânio enriquecido abundante no mundo. Não vejo espaço para entrar num mercado em que já existe excesso de produção", critica Goldemberg.

Marília, do Ipea, discorda da afirmação de que o urânio brasileiro é de baixa qualidade. "O que existem são minas com várias partes de minério por milhão. Uma mina onde a concentração é maior dá mais lucro. Mas, quando o minério é extraído, a separação dos elementos é feita por solvente químico, então o urânio é o mesmo em qualquer lugar do mundo." Hoje, os maiores extratores de minério de urânio são Canadá, Austrália, Cazaquistão e Rússia - responsáveis por mais de 60% da produção internacional.

Outras críticas à retomada do programa nuclear brasileiro apontam para os custos financeiros e ambientais. Amaral, do Greenpeace Brasil, lembra que enquanto a construção de Angra 3 é

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orçada em R$ 8,5 bilhões para gerar energia a partir de 2016, o leilão de energia eólica realizado em dezembro passado no país estabeleceu uma produção de 1,8 gigawatts já a partir de 2012. Ele argumenta também que, nos últimos 15 anos - período ainda marcado pela redução nos investimentos em usinas nucleares - a capacidade instalada de energia nuclear em todo o mundo foi menor que a correspondente à energia eólica registrada apenas no ano de 2009.

O ministro-chefe da SAE afirma, no entanto, que os investimentos nas etapas do ciclo do combustível nuclear são pequenos se comparados ao que se aplica em outras obras de infraestrutura. "Por R$ 60 milhões anuais, durante quatro anos, teríamos a construção de uma nova usina de conversão do urânio." O valor anual é a metade do previsto neste ano para a construção da estrada entre os municípios gaúchos de Herveiras e Vera Cruz. Por R$ 108 milhões distribuídos entre 2010 e 2012, seria possível tornar o Brasil autossuficiente no enriquecimento de urânio, destaca Pinheiro Guimarães.

Para organizações de ambientalistas, os investimentos em energia nuclear seriam um erro, pois desviariam recursos de possíveis soluções ao aquecimento global. Isso se soma ao tempo mais elástico de instalação da infraestrutura de produção do combustível nuclear, à queima de carbono durante o transporte do minério em caminhões, além da exposição do lixo nuclear e do risco de acidentes graves.

Laércio Antonio Vinhas, diretor de Radioproteção e Segurança Nuclear da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), rebate estes argumentos. Segundo ele, é preciso diversificar a matriz energética nacional e, mesmo com o avanço da opção atômica, as hidrelétricas vão dominar por muitos anos a matriz. "Levaremos muito tempo para ter condições de produzir grandes pacotes de energia por meio de outras fontes. A previsão é de que apenas de 5% a 6% de nossa matriz seja nuclear", explica. Hoje, as hidrelétricas respondem por 68% da energia nacional.

ENERGIA NUCLEAR NO DIA A DIA - Se a polêmica em torno do uso da energia nuclear para consumo civil ainda rende debates acalorados no país, poucos - sejam ambientalistas, acadêmicos ou políticos - duvidam que o Brasil deva continuar investindo no domínio dessa tecnologia. Isso porque é dos reatores nucleares que saem soluções para diversas necessidades do dia a dia. Radioisótopos são usados em uma infinidade de exames médicos de diagnóstico, também na indústria, em radiadores de grande porte, em estufas para esterilização de objetos, na preservação de alimentos, e em produtos de higiene íntima, como fraldas e absorventes. Preservativos são esterilizados por radiação.

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Recentemente, o episódio de fechamento de reatores no Canadá e na Europa revelou uma demanda completamente desassistida no Brasil: 100 mil pacientes ficaram sem exames de medicina nuclear por mês no País, devido à carência de tecnécio-99, elemento utilizado em cerca de 90% desses exames. O reator canadense National Research Universal, de onde saía quase 40% da produção mundial de Molibdênio-99 - que dá origem ao Tecnécio-99 -, parou de funcionar por problemas técnicos. Um reator holandês responsável por 30% do Molibdênio-99 do planeta também teve avarias.

No Brasil, a crise foi pior que em vizinhos como Argentina e Peru. O país teria sofrido menos caso já tivesse construído o chamado Reator Multipropósito, voltado à fabricação de radiofármacos. O Ipea está estudando o impacto da carência desses remédios na saúde da população. "Há sinais de que tem gente sofrendo pela falta desses fármacos. Se o diagnóstico do câncer, por exemplo, é feito de forma tardia, a chance de cura torna-se bem menor", afirma a técnica de planejamento e pesquisa Marília de Barros.

Alfredo Tranjan Filho, presidente da INB, espera ainda para este ano a liberação de R$ 30 milhões para o andamento do projeto de construção do Reator Multipropósito. "O custo total será de cerca de R$ 500 milhões. No entanto, ainda levaremos alguns anos até chegarmos à autossuficiência. Podemos estimar que, a partir de 2015, os problemas de fornecimento de Molibdênio-99 estarão, se não totalmente resolvidos, muito bem encaminhados", prevê.

Outra utilidade do enriquecimento de urânio seria na operação dos submarinos nucleares para patrulhamento da costa brasileira. Tranjan Filho garante que essa demanda estará suprida com a entrada em funcionamento, neste ano, da usina de conversão de urânio Usexa, no Centro Tecnológico da Marinha, no estado de São Paulo. "Essa usina também será o primeiro passo para que, a partir de 2015, com Angra 1, 2 e 3 em operação, o Brasil venha a ser autossuficiente na conversão do urânio", afirma.

TRATADO O DE NÃO-PROLIFERAÇÃO - Para levar os projetos adiante, o governo federal considera necessário que decisões políticas não atrapalhem a jornada. "Os países nucleares violam o Tratado de Não-Proliferação (TNP) e acusam outros países de violarem o acordo. Eles criaram um oligopólio nuclear militar e agora lançam uma iniciativa política estratégica para criar um oligopólio nuclear civil", diz Pinheiro Guimarães. Ele afirma que essa iniciativa se dá em duas frentes: convencer os demais países a assinar o Protocolo Adicional aos Acordos de Salvaguarda

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do TNP e "multilaterizar" o enriquecimento de urânio, por meio do estabelecimento de centros internacionais com esse fim. Dessa forma, mesmo quem tem jazidas do minério precisaria enriquecer o urânio no exterior, como garantia.

Assim como Pinheiro Guimarães, o embaixador Luiz Felipe Lampreia, que assinou o TNP pelo Brasil na condição de ministro das Relações Exteriores, em 1998, é contra a adesão ao Protocolo Adicional aos Acordos de Salvaguarda. "Trata-se de um protocolo de 1997, já esperamos 13 anos. Portanto, não há urgência, mesmo porque ninguém no Brasil ou no exterior acha que o país está desenvolvendo um programa de proliferação de armas nucleares. Se eu estivesse na condição de chanceler, não o assinaria agora", diz. Na avaliação do governo, o protocolo daria margem a inspeções mais frequentes e profundas, por parte da AIEA, nas instalações do programa nuclear brasileiro, ou em qualquer lugar considerado suspeito de abrigar atividades irregulares.

Como o Brasil é um dos sete países que dominam a tecnologia de enriquecimento de urânio - e o faz com centrífugas fabricadas no próprio território, cujo funcionamento em levitação, sem atrito, ainda não foi copiado por ninguém -, autoridades do setor temem que inspeções mais intrusivas acabem com o segredo industrial e atinjam a soberania. Goldemberg, por sua vez, acha que a preocupação é injustificada. "Esse é um argumento de quem está desinformado, pois as inspeções podem perfeitamente proteger esses segredos, caso eles existam mesmo."

Neste cenário, o Brasil enfrente o desafio de levar adiante a ideia de ampliar sua produção de energia nuclear para fins civis, mantendo a confiança da comunidade internacional. Até o momento, tem sido bem-sucedido.

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