Neurociencia e Aprendizagem - Apostilas - Medicina, Notas de estudo de Medicina. Centro Universitário do Pará (CESUPA)
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Neymar28 de Fevereiro de 2013

Neurociencia e Aprendizagem - Apostilas - Medicina, Notas de estudo de Medicina. Centro Universitário do Pará (CESUPA)

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Apostilas sobre a neurociência, objetos de estudo, campos de estudo, aprendizagem.
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1. A antiga preocupação em entender a mente

Há milhares de anos, as bases do comportamento e cognição humanos são fontes de estudo. A afirmativa “[...] até mesmo nossos ancestrais pré-históricos compreendiam que o encéfalo era essencial para a vida”, citada por BEAR, M et al, reflete a importância da busca pela sede dos nossos desejos, ações, aprendizados. Civilizações antigas, como egípcios, maias, astecas, assírios, chineses entre outros, cientistas e filósofos especulavam a respeito da mente humana a de sua relação com o corpo.

Estudos demonstram que ate o século XIX, importantes teorias sobre a mente e a consciência que a mente e a consciência consideravam que elas são a manifestação de espíritos atuando através do cérebro (Lent, 2010). No entanto, os egípcios foram os primeiros povos a correlacionarem a mente, o cérebro e o sistema nervoso com alterações do comportamento, causados por doenças, dando início ao entendimento do sistema nervoso central. No século lll a.C, filósofos gregos iniciaram uma especulação referente ao relacionamento entre mente e corpo. Os primeiros a realizarem tal especulação foram os filósofos, Alcmeon e Demócrito, que afirmavam que a mente estava localizada no cérebro.

Uma grande pergunta que motivou essa especulação foi o questionamento sobre a localização da mente humana, “onde esta a mente?”. Os povos das civilizações antigas já tinham a ideia de que a mente, o espírito e os males do espírito localizavam-se dentro do crânio, numa substância gelatinosa denominada cérebro. Tais povos utilizavam a trepanação, método através do qual o osso do crânio era perfurado com facas e brocas, por motivos religiosos ou para fins curativos, pois criam que através desses buracos cranianos os espíritos malignos escapavam, além de buscarem curas para enfermidades físicas.

1. - Primeiros esboços do que seria a Neurociência

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Ao longo dos anos a busca pelas origens do pensamento, linguagem, afetos, ações mudaram de perspectivas. O primeiro local pensado era o coração, o qual para os egípcios era a sede do espírito e das memórias. Em seguida, vieram outros eruditos como Hipócrates, Aristóteles, Galeno, Charles Darwin, Galvani, Broca, Franz Gall, no estudo das produções anatômicas do corpo humano. Destes, alguns eram médicos, filósofos, cientistas, o que mostra a diversidade de olhares sobre o mesmo assunto.

É a partir do período renascentista que a visão espiritual e filosófica, no que se refere ao estudo da mente humana começa a mudar. A era cientifica inaugurou-se com a descoberta de que os nervos funcionam com o princípio de eletricidade, o que foi chamado eletricidade animal, descoberto no final do século XVlll.

Mesmo este estudo tendo se iniciado na origem das primeiras civilizações – como, por exemplo, nos registros pré-históricos dos hominídios, há cerca de 7000 anos atrás-, a definição formal deste estudo como neurociência somente se deu no século XX, mais precisamente no final dos anos 70.

1.2- Neurociência

Chamar esse ramo científico, Neurociência, no singular não seria a forma mais correta. Segundo Lent[1]: “O que chamamos simplificadamente de Neurociência é na verdade Neurociências” (Lent, 2010), uma vez que abarcam um conjunto de disciplinas que se interligam

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e buscam, pelos mais variados métodos, estudar o sistema nervoso e a relação entre o sistema nervoso e as funções cerebrais e mentais.

Ainda hoje, o estudo das Neurociências se dá por diversas áreas do conhecimento. Ao contrário do que se pensa, os neurocientistas não são somente médicos. Existem muitos cientistas nas áreas da biologia, fisioterapia, enfermagem, psicologia, pedagogia e ainda em outras áreas que lidam com o comportamento e cognição, que têm-se interessado pelo sistema nervoso e suas particularidades[2]. Em especial, os educadores e pedagogos estão interessados em saber “como o sistema nervoso exerce a capacidade de selecionar e armazenar informações, atributo importante dos processos de aprendizagem” (Lent, 2010). Trata-se de uma área de especialização, não havendo graduação em neurociências.

O neurocientista se utiliza do método científico para produção de sua pesquisa, seguindo quatro passos: observação, replicação, interpretação e verificação. Neste processo, em muitos casos, animais são sacrificados para que o encéfalo possa ser examinado - procedimento que suscita discussões a respeito da ética na pesquisa com animais. Entretanto, apesar de polêmico, esta prática exige o cumprimento do código de ética, e os neurocientistas se comprometem a respeitar moralmente estes animais, evitando-lhes a dor e o estresse sofridos, com o uso de remédios. (BEAR, M et al)

2. Neurociência e seus objetos de estudo

Entende-se cada vez mais a importância da Neurociência, mas esta é um campo basicamente novo e com inúmeras questões ainda em levantamento.

Mas afinal, o que é Neurociência? Existem diferentes interpretações na definição, mas todas convergem para o trabalho relacionado ao sistema nervoso. De acordo com Herculano (2007), ela é “o estudo do sistema nervoso”. Na definição de Lent (2010), é “ o conjunto de disciplinas que tratam do sistema nervoso e busca explicar como a cognição e a consciência humana nascem da atividade do cérebro.”

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A partir de elementos que constituem o encéfalo humano (axônios, dendritos, lobos...), a neurociência procura buscar as bases cerebrais que produzem a cognição, a consciência, a emoção, o pensamento, a linguagem, e outros mais. Outros estudos que ela realiza se dão sobre as doenças do sistema nervoso, como o Acidente Vascular Cerebral, a Depressão, a doença de Alzheimer, o Parkinson, a Epilepsia, a Esclerose múltipla e a Esquizofrenia.

São considerados cinco grandes campos de estudo e atuação na neurociência[3]:

• Neurociência Molecular: estuda as diversas moléculas de importância funcional no sistema nervoso.

• Neurociência Celular: detém-se nas células que formam o sistema nervoso, sua estrutura e sua função.

• Neurociência Sistêmica: considera populações de células nervosas situadas em diversas regiões do sistema nervoso, que constituem sistemas funcionais como o visual, o auditivo, o motor, etc.

• Neurociência Comportamental: estuda as estruturas neurais que produzem comportamentos e outros fenômenos psicológicos como o sono, os comportamentos sexuais, emocionais e outros.

• Neurociência Cognitiva: trata das capacidades mentais mais complexas, geralmente típicas do homem, como a linguagem a autoconsciência, a memória, etc.

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1. - Cérebro, neurônios, relações sinápticas e neuroplasticidade.

Até tempos atrás o cérebro era considerado uma estrutura imutável, pronta ao nascimento, que não tinha capacidade de produzir novas células nervosas. Atualmente os neurocientistas já visualizaram que o cérebro modifica-se e desenvolve-se por toda vida sendo responsável por nossa adaptação ao meio em que vivemos. Esse desenvolvimento cerebral é guiado pelo aparato biológico e pela experiência de cada indivíduo. Pode-se concluir que o cérebro é um órgão complexo, sede de nossas capacidades mentais, responsável pelas funções vitais do organismo, tais como, frequência cardíaca, temperatura corporal e pelas funções consideradas “superiores”: como linguagem, raciocínio e a consciência. Estima-se que o cerebro seja formado por 100bilhoes de neurônios (Lent, 2010). O cérebro possui dois hemisférios (esquerdo e direito) os quais se dividem em lobos: occipital, parietal, temporal e frontal. O tecido nervoso e formado por celulas glias e pelos neurônios. Na área do cérebro chamada hipocampo ocorre o nascimento de novos neurônios. E é no hipocampo que ocorre a formação de novas memórias, fundamentais para o aprendizado (Herculano, 2001 ).

Apesar de estudar toda a fisiologia do sistema nervoso, o principal agente e objeto no estudo da Neurociência são os neurônios. A evolução das ferramentas da ciência na análise dos tecidos neurais, com o uso do microscópio, permitiu ao neurônio - por volta de 1990 - ser reconhecido como a unidade básica do sistema nervoso, especializada em comunicação. Capazes de codificar e decodificar tudo o que percebemos, a partir do mundo exterior e do interior do organismo, os comandos que damos ao nosso corpo e tudo o que sentimos e pensamos a partir da nossa atividade mental (Lent, 2010).

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Consideradas unidades funcionais de informação, os neurônios possuem capacidade de transmitirem impulsos nervosos. Eles enviam sinais uns para os outros formando conexões, ou seja, associações chamadas de redes neuronais. Estas redes de comunicação se servem das atividades de sinais elétricos e químicos para transmitirem as mensagens. Um potencial elétrico é propagado dentro da célula nervosa percorrendo unidirecionalmente o neurônio no sentido dendrito ou corpo da célula até o axônio. A área de junção entre dois neurônios chama-se sinapse e é composta de três componentes: extremidade do axônio pré-sináptico (responsável pela liberação dos neurotransmissores), espaço sináptico e dendrito do neurônio pós-sináptico (que recebe o neurotansmissor podendo ter efeito excitante ou inibidor). As sinapses que são menos utilizadas ficam enfraquecidas, já as sinapses que são mais utilizadas ficam fortalecidas e a informação “flui com mais facilidades por elas”. (Louzada, p. 59).

Um dos eixos deste trabalho, o aprendizado, é compreendido pelas neurociências a partir das ligações sinápticas que os neurônios fazem entre si. O cérebro é capaz de aprender devido a sua neuro plasticidade, ou seja, flexibilidade e capacidade de modificar-se em resposta aos estímulos recebidos. Nesse processo de modificações neuronais, ou seja, remodelagem do cérebro algumas sinapses podem ser formadas (sinaptogenese) e outras eliminadas (poda).

Existem dois tipos de sinaptogênese: a que ocorre naturalmente no começo da vida e a que resulta da exposição a ambientes complexos no decorrer da existência. Suzana Herculano (2007), a despeito da importância do aprendizado para a produção de novos circuitos neurais (neuroplasticidade) cita:

“Sem o aprendizado - ou seja, a capacidade do cérebro de mudar seus circuitos e modo de funcionar conforme suas próprias experiências são bem ou mal sucedidas, estaríamos fadados a viver com as funções com as quais nascemos, e nada mais.”

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Como confirmação do avanço nos estudos do cérebro, a década de 1990 foi designada pelo congresso americano como a “década do encéfalo” (BEAR, M et al ). O desenvolvimento da neurociência - na descoberta de soluções para doenças do sistema nervoso e ferramentas para a compreensão dos processos cognitivos, comportamentais e afetivos - possibilita aos neurocientistas perceberem a vasta possibilidade de produções do encéfalo humano, impulsionando-os em suas pesquisas.

3. Neurociência e Aprendizagem

“Aprender é uma capacidade que nasce com todo ser humano e que é desenvolvida ao longo de toda a sua vida” (Maia, 2011, p. 12). Com esta afirmação percebemos a necessidade de conhecermos os mecanismos envolvidos no processo de aprendizado e a importância do papel do professor no desenvolvimento do potencial cognitivo de cada aluno. Ao educador cabe a função de desenvolver no aluno a inteligência, suas capacidades e potencialidades, e não somente a memorização.

Podemos visualizar então duas questões fundamentais no trabalho do professor:

• Como estimular o potencial cognitivo do aluno, com o objetivo de desenvolver suas potencialidades e capacidades?

• Como os educadores percebem que conhecer o cerebro pode ajudá-los a melhorar a prática do ensino?

Para entender como todos podem e são capazes de aprender, é que estudiosos e pesquisadores da neurociência delimitaram o desenvolvimento cognitivo e o aprendizado escolar como um dos campos de sua atuação e estudo: a Neurociência do Aprendizado ou Neurociência Cognitiva. Neurocientistas tem buscado elucidar a complexa relação entre a influência genética e os fatores ambientais responsáveis pelo aprendizado ao longo da vida.

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A Neurociencia Cognitiva tem como foco de estudo as capacidades mentais mais complexas, como a linguagem e a memória. Sendo que a memoria tem sido colocada como um dos principais alicerces da aprendizagem humana, (Izquierdo, 2002; Lent, 2001; Assmann, 2001; Ratwey, 2001), a qual decorre de um processamento e elaboração das informações decorrentes das percepções que o cerebro recebe dos diversos estimulos externos e da sua própria memória. Os neurocientistas consideram o aprendizado um processo cerebral que envolve percepção, processamento e integração da informação devido ao cérebro reagir a um estímulo.

Nas palavras de Izquierdo, memória é a aquisição, a formação, a conservação e a evocação da informação, ou seja, memória é a capacidade que o cérebro possui de adquirir, guardar e evocar informações resultantes das experiências que o indivíduo vivenciou e vivencia durante sua vida.

Aquisição é também chamada de aprendizagem: só se grava aquilo que é aprendido. A evocação é também chamada de recordação, lembrança, recuperação. Só lembramos aquilo que gravamos, aquilo que foi aprendido (Izquierdo, 2002 p.9). Isto nos torna indivíduos únicos, pois cada um possui um acervo de memórias pessoal e diferente de acordo com suas experiências de vida. Para adquirir, codificar, guardar e evocar as memórias utilizamos a linguagem. O processo de aquisição e evocação da memória é influenciado pelas emoções e pelo humor.

As memórias podem ser classificadas da seguinte forma:

• Memórias declarativas e procedimentais classificadas de acordo com o conteúdo. A memória declarativa é aquela que contém informação que sabemos possuir e que é consciente. Divide-se em semântica e episódica. A memória semântica contém informações de fatos e eventos que nos rodeiam e que somos capazes de lembrar sem saber como, quando e/ou onde adquirirmos (Lent, 2008 p.246). A memória episódica contém informações de fatos e eventos acerca de nossa propria vida. A memória procedimental contém informação que não somos conscientes de possuir, adquirida de forma condicional ou habitual, como por exemplo, dirigir um automóvel.

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• Memória de trabalho e demais, classificadas de acordo com a função que exercem. Fundamental na aquisição e na evocação de toda e qualquer outra memória. Mantém a informação viva disponível enquanto esta sendo percebida e /ou processada. A memória de trabalho não deixa traços.

• Memória de curta ou longa duração. As memórias curtas duram entre 30min e 6h. As memórias longas perduram por horas, dias até anos.

A partir das novas tecnologias de imagens surgidas nos anos de 1970, inúmeros estudos passaram a ser desenvolvidos levando em conta as questões do cérebro, suas partes e funções. O objetivo central era entender como usar de maneira mais eficiente essa estrutura e auxiliar no processo da aprendizagem, tanto no que se refere ao aluno, como na prática e entendimento pedagógico do professor.

Questões que todos sempre fazem, como por exemplo: por quais motivos uns aprendem mais do que outros e por que alguns têm tanta dificuldade de aprender, sempre geraram incômodos e, também ideias sobre quais poderiam ser as respostas científicas e não apenas populares - do senso comum - para essas dúvidas.

Baseado nesses estudos cada vez mais sistemáticos e auxiliados pelo desenvolvimento tecnológico foi possível conhecer o cérebro e entender suas partes em pleno funcionamento, identificar as partes do sistema nervoso e visualizá-lo como um conjunto de partes e órgãos altamente especializados, “responsáveis pela vida mental e de relação do indivíduo, bem como pelo controle do funcionamento de diversos outros órgãos” (Maia, 2011, p. 21). E, dentro do sistema nervoso central entender que é o cérebro o responsável pelas funções mais complexas, por exemplo, projeção sensorial, processos mentais complexos (pensamento/raciocínio), compreensão e expressão de linguagens, memória e aprendizagem, experiências emocionais e motivacionais (Maia, 2011, p. 21).

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A partir daí, foi possível aos muitos pesquisadores envolvidos desmistificar a ideia corrente difundida no senso comum de que só basta atenção e estudo para aprender. Ao contrário formou-se um conjunto de interessados em criar, a partir do entendimento do funcionamento de cérebro, estratégias metodológicas que visem a garantia de desenvolvimento do potencial cognitivo de cada aluno, preservando suas particularidades biológicas e emocionais (Carvalho, 2010).

Cada vez mais, já que os estudos ainda estão em franco desenvolvimento, faz-se necessário compreender que para que ocorra a aprendizagem é necessário mais do que simplesmente “prestar atenção” em algo. Segundo Maia (2011) é importante saber que aprender faz parte de um complexo conjunto que exige tanto o aparato biológico, a prontidão neurocognitiva, o ensino - mais ou menos estruturado, e os estímulos ambientais. Neste processo, o biológico e o emocional precisam de uma sintonia fina, uma vez que também é necessário o amadurecimento do aluno para incorporar a real significação que a informação tem para ele, para incorporá-la vivencialmente e emocionalmente (MORAN, 2008), além de somar a isso os elementos culturais e pedagógicos.

Em relação ao amadurecimento é importante também salientar a constatação de que desenvolvimento da mente está relacionado com a maturação do sistema nervoso, uma vez percebido que as ações motoras e cognitivas dependem do desenvolvimento das áreas responsáveis pelo controle destas funções. Ou seja, quanto mais maduro o sistema nervoso, mais complexas são nossas capacidades. Ex: Olhar não é um ato passivo. Para fitar um objeto os olhos devem se mover conjugadamente e isso ocorre devido a inervação de 6 músculos. O ser humano desde o nascimento adquire e modifica a arquitetura e o funcionamento do sistema nervoso, ao ocorrer a maturação deste, torna-se possível o desenvolvimento e controle das funções motoras e cognitivas no ser humano.

4. Como ocorre a aprendizagem

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O ato de aprender envolve questões biológicas, anatômicas, fisiológicas e pedagógicas. O cérebro não e um depósito estático de armazenamento de informações. Ele e um órgão complexo, onde a atividade mental estimula a reconstrução de conjuntos neuronais, que processam experiências vividas e/ou linguísticas, num fluxo e refluxo de informações.

De acordo com os estudos realizados pela neurociência cognitiva a aprendizagem humana não decorre de um simples armazenamento de dados perceptuais, e sim do processamento e elaboração das informações oriundas das percepções no cérebro (Carvalho, 2010). Através da interpretação dos fenômenos envolvidos pelos sentidos e registrados pela memória - sendo está um dos principais alicerces da aprendizagem humana (Izquierdo, 2002) - o homem é capaz de perceber e agir no mundo.

Em função dos diferentes estudos realizados, hoje já é possível afirmar com relativa certeza de que o grande responsável pela ocorrência destes processos é o neurônio[4].

Quando o cérebro reage a essas percepções e estímulos do ambiente, ocorrem sinapses, que são como ligações entre os neurônios por onde passam os estímulos. A partir daí é ele que é capaz de produzir e conduzir os impulsos elétrico, conduzindo e tratando a informação e criando a chamada “rede neural”. Considera-se que ocorreu o aprendizado quando a rede neural atinge uma solução generalizada para uma classe de problemas (Maia, 2011, p. 21). E a aprendizagem pode ser entendida como um processo de aquisição de novas informações provenientes do meio, englobando sua recepção, processamento e consolidação, bem como a recuperação dessa informação e aplicação em momentos apropriados (Maia, 2011, p. 55).

Este elaborado processo ocorre o tempo todo. A cada estímulo novo, a cada repetição de um comportamento que queremos que seja consolidado, enquanto o indivíduo estiver em busca de resposta para as suas percepções, pensamentos e ações, suas redes neurais estarão se estruturando, reorganizando e de acordo com o que é solicitado, fortalecendo ou enfraquecendo as sinapses (Mietto, 2009).

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É no cérebro que todo esse dinâmico e complexo processo da aprendizagem vai ocorrendo. O bom desempenho desse órgão é fundamental para o processo da aprendizagem. O ser humano conhece o mundo e nele age, graças a um funcionamento coordenado dos recursos cognitivos e às múltiplas conexões que o cérebro tece entre e nos hemisférios, no córtex[5], nos núcleos da base, no diencéfalo[6], o tronco cerebral e o cerebelo. Cada uma das regiões cerebrais é responsável por uma função, que conecta-se e interliga-se no trabalho de estruturação .

O hipocampo é responsável pela consolidação das memórias, consequentemente e importante para o aprendizado; o sistema límbico tem função nas emoções; a região frontal é a sede da cognição, linguagem e escrita.

Pode-se dizer que a aprendizagem ocorre quando dois ou mais sistemas funcionam de forma inter-relacionada. O sistema cognitivo da linguagem envolve falar, ler, escrever, ativando diferentes estruturas cerebrais.

Integrados e dinâmicos, este conjunto com maior ou menor intensidade pode ter importância no funcionamento normal de processos cognitivos como memória, atenção, motivação, experiências prévias, qualidade de ensino e comportamento/emoção.

5. Funções cognitivas e o aprendizado escolar

Já foi o tempo em que se acreditava na ideia da criança como tábua rasa, e que somente quando inserida no espaço escolar ela seria introduzida à aprendizagem dos saberes que realmente importavam e eram reconhecidos social e culturalmente. Hoje é bastante aceita e difundida a ideia de que a criança aprende sempre e, também, em espaços que antigamente eram tidos como pouco convencionais e adequados para esse fim.

No entanto, com a difusão das ideias e das pesquisas na área da educação e da mente, cada vez mais se reconhece que o ambiente escolar gera um tipo de aprendizagem que cumpre um espaço específico do desenvolvimento da criança. Para que a aprendizagem escolar obtenha sucesso para todos os envolvidos cada vez mais a Neurociência Cognitiva busca entender e articular processos neurobiológicos, cognitivos, emocionais e pedagógicos, além de entender que para que haja a aprendizagem, também existe a necessidade de estímulos apropriados, como o meio social (Maia, 2011, p. 31).

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Entende-se por funções cognitivas o conjunto de funções cerebrais básicas que permitem a recepção e o processamento de estímulos (internos e externos) e as respostas aos mesmos. Estas funções tem estreita relação com diversas estruturas encefálicas do córtex cerebral e aferências sensoriais e são estudadas por grupos de neurocientistas que investigam se estas são mais apuradas em determinados grupos ou não (Herculano, 2007)[7].

Pelos estudos de Heber Maia (2011), a criança realiza quatro grandes etapas cognitivas durante qualquer processo de aprendizagem:

• Recebe a informação dando-lhe um significado (PERCEPÇÃO);

• Registra essa informação, pelo menos de forma temporária (MEMÓRIA);

• Processa os elementos dessa informação, correlacionando-os com materiais previamente armazenados em sua memória (FUNÇÕES EXECUTIVAS)

• Dá sua resposta, utilizando-se de alguma forma de comunicação (FUNÇÕES EXPRESSIVAS).

Para que essas etapas sejam bem desenvolvidas, entre outros, dois elementos são fundamentais neste processo: atenção e emoção/motivação. Sem estes componentes bem resolvidos é muito provável que a aprendizagem não ocorra de modo satisfatório.

5.1. Aspectos importantes na aprendizagem

5.2 - Atenção

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Atenção: é a capacidade de selecionar e manter controle sobre a entrada de informações externas necessárias em um dado momento para a realização de um processo mental, mas também diz respeito ao controle de informações geradas internamente (Maia, 2011, p. 47).

Para que o aluno possa aprender é necessário que ele esteja consciente, alerta, acordado e pronto para prestar atenção. Entende-se como estado de ativação de um indivíduo para prestar atenção:

• A atenção sustentada: aquela que deve ser mantida por um longo período e direcionada a um foco, ou seja, a concentração.

• A Atenção seletiva: capacidade de direcionar a atenção para determinado foco do ambiente enquanto outros estímulos à sua volta são ignorados.

• A atenção dividida ou alternância: é entendida como a capacidade de atender a duas ou mais fontes de informação simultâneas com igual interesse.

No entanto, vários fatores podem interferir na capacidade de um aluno de se manter em estado atentivo (Maia, 2011, p. 50):

• Interesse, que é força motriz da atenção;

• Complexidade da Tarefa - quanto mais elaborada e mais dependente de conhecimentos prévios, maior flexibilidade atentiva será exigida;

• Método pedagógico utilizado

• Maturidade Neurológica

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• Dificuldades visuais e auditivas

• Nível intelectual: estando menos preparado cognitivamente, será mais difícil o aluno prestar atenção e sentir-se motivado.

• Nível de consciência: cansaço, sono, jejum prolongado, interferência de medicamentos ou drogas.

• Aspectos afetivos: depressão, ansiedade, conflitos familiares, entre outros.

O sintoma da desatenção pode ser justificado por fatores orgânicos ou ambientais. A queixa de falta de atenção é, portanto, a ponta de um iceberg. (Maia, 2011).

5.3 - Emoções

Faz-se necessário destacar também que as emoções desempenham um papel decisivo na aprendizagem. Diante de uma percepção o sistema límbico, formado por tálamo, amígdala, hipotálamo e hipocampo, avalia as informações, decidindo que estímulos devem ser mantidos ou descartados, dependendo a retenção da informação no cérebro da intensidade da impressão provocada nele. A consciência da experiência vivenciada é atingida quando, ao passar pelo córtex cerebral, compara-se a experiência com reflexões anteriores. Assim, quando conseguimos estabelecer uma ligação entre a informação nova e a memória preexistente, são liberadas substâncias neurotransmissoras - como a acetilcolina e a dopamina - que aumentam a concentração e geram satisfação (Carvalho, 2010).

Pode-se afirmar que assim emoção e motivação influenciam a aprendizagem. Os sentimentos, intensificando a atividade das redes neuronais e fortalecendo suas conexões sinápticas, podem estimular a aquisição, a retenção, a evocação e a articulação das informações no cérebro. Portanto é importante apresentar contextos que ofereçam aos indivíduos os pré-requisitos necessários a qualquer tipo de aprendizado: interesse, alegria e motivação. Conforme Lent, (apud Carvalho, 2010) "a razão é fortemente relacionada com a emoção. De um modo ou de

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outro, nossos atos e pensamentos são sempre influenciados pelas emoções" (Lent, 2001, p. 671).

Nos estudos de Fonseca (2008, apud Carvalho, 2010) ainda que a inteligência do indivíduo dependa, pela interação entre as células neuronais, do desenvolvimento biológico, somente as mediações que o indivíduo sofre em suas interações com o meio ambiente onde está inserido é que permitirão expandir essa inteligência em todo seu potencial.

Passou o tempo em que se a educação ia mal, o problema estava nas crianças. Com os novos conhecimentos advindos de tantos estudos e investigações, cada vez mais é possível entender a necessidade de novas abordagens e práticas pedagógicas que conjuguem respostas aos diferentes elementos necessários e envolvidos no processo da aprendizagem. Para Fernando Louzada (2009) “está na hora de buscarmos uma aproximacao entre as neurociencias e a pedagogia. Assim, talvez possamos nos livrar mais rapidamente da superada dicotomia biologia/ambiente que ainda, em pleno seculo 21, permeia a reflexão associada a cognição.”

6. Práticas atuais da aplicação da neurociência na educação

A partir da difusão dos novos estudos e experiências relacionadas à aplicação da neurociência no aprendizado, surgiram vários projetos que objetivaram comprovar essas teorias e divulgar os resultados obtidos.

O neurocientista Miguel Nicolelis, diretor cientifico do Instituro Internacional de Neurociência de Natal Edmond E Lily Safra (IINN-ELS) e professor da Duke University, nos Estados Unidos, responsável pelo ambicioso projeto brasileiro interligando as neurociências e a educação diz:

“Esperamos que os novos conhecimentos sobre como o cérebro aprende possam ser aplicados na prática e no desenho de novas iniciativas pedagógicas, novos curriculos, novas ferramentas pedagogicas.”

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Nicolelis pretende concretizar em 2013 o funcionamento de uma escola em tempo integral, que estará vinculada ao instituto de pesquisa em neurociência básica.

Outro projeto nesta área atua com a intencao de educar o educador e o NeuroEduca: A Insercao da Neurobiologia na Educacao. Este projeto de capacitação de professores criado em 2003 já trabalhou com 20 mil pessoas e atua com 4 frentes-sensibilização e capacitação de professores e da comunidade em geral sobre o funcionamento do cérebro. Atuam também com atendimento de escolas e redes com demandas específicas como: dificuldades de aprendizagem e inclusão escolar, educação especial para deficientes auditivos e cursos de libras, oficinas de linguagem escrita para crianças e adolescentes com deficiência auditiva.

Para Elvira Souza Lima (2012) a neurociência pode contribuir para otimizar os processo complexos envolvidos na docência e na aprendizagem, que são próprios do domínio da pedagogia. Para Marco Arruda(2012), “o neurocientista não consegue sozinho traduzir esse conhecimento todo em práticas eficazes dentro da escola e da sala de aula, daí a necessidade de haver compartilhamento de informações e experiencia.”.

Pode-se concluir então que o diálogo entre a neurociência e a prática do ensino se faz necessária aos educadores preocupados como aprendizado e desenvolvimento de seus alunos. Nicolelis diz que: “o ensino de neurociência nos cursos de Pedagogia, levando o pedagogo a ter noções de neurociência básica para entender como o cérebro aprende é um casamento inevitável.”

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Anexo:

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Referências Bibliográficas.

Houzel-Herculano, Suzana. O cérebro nosso de cada dia. Descobertas da Neurociência sobre a vida cotidiana. RJ: Vieira e Lent, 8ª ed. 2007.

Lent, Robert (coord). Neurociência da Mente e do Comportamento. RJ, Guanabara Koogan. 2008

Lent, Robert. Cem Bilhões de Neurônios. SP, Atheneu, 2ª Ed. 2010

Maia, Heber (org). Neurociências e Desenvolvimento cognitivo v.2. RJ: Wak Editora, 2011

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Moran, J. Manuel. A educação que desejamos - novos desafios e como chegar lá. SP: Papirus, 3ª Ed. 2008

Morin, Edgar. A cabeça bem feita. RJ: Bertrand Brasil, 17ª Ed. 2010

Sites:

Carvalho, Fernanda A. H. Neurociência e educação: uma articulação necessária na formação docente. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S1981- 77462010000300012&script=sci_arttext acesso em: 24 mai 2012

Izquierdo, Iván. A Memória. Disponível em: http://www.cerebromente.org.br/n04/opiniao/izquierdo.htm acesso em: 07 jun 2012

Mietto , Vera Lucia. A Importância da Neurociência na Educação. Disponível em: http://www.pedagogia.com.br/artigos/neurocienciaaeducacao/index.php?pagina=0 . acesso em: 31/12/2009

Rodrigues, Sônia das Dores e Ciasca, Sylvia Maria. Aspecto da relação cérebro comportamento: histórico e considerações neuropsicológicas SP. Disponível em: http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?pid=S0103-84862010000100012&script=sci_arttext.

Periódicos e Revistas

Nova Escola: Neurociência - como ela ajuda a entender a aprendizagem. Ed. Abril. Ano XXVII, nº 253 - junho/julho 2012. P. 48-55

Neuro Educação - Neurociência - Psicologia - Pedagogia - A ciência do Aprendizado. nº01. 2012 Ed. Segmento

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[1] Segundo Lent, o Americaan Heritage Dicitionary reconhece todos os ramos da Neurociência atual, à exceção da recém-nascida Neuroimunologia.

[2] Nota-se, atualmente, grande interesse de engenheiros da computação e artistas gráficos e programadores visuais, que se utilizam das descobertas da neurociência no que se refere a percepção visual das cores e do movimento (Lent, 2010).

[3] Para Lent, essa seria uma forma simples e esquemática de compreensão, não podendo excluir outras diferentes abordagens existentes.

[4] É possível que no nosso cérebro existam em torno de 86 bilhões de neurônios, interligados por aproximadamente um quatrilhão de sinapses (Maia, 2011, p. 21).

[5] Os neurônios do córtex são superespecializados, sendo setorizados por áreas funcionais que recebem informações de outras áreas formando uma grande rede conectiva (Maia, 2011, p. 21).

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[6] Contêm várias pequenas estruturas (tálamo, hipotálamo, epitálamo) importantes na integração do meio exterior e de outras áreas do sistema nervoso central com o cérebro (Maia, 2011, p. 21).

[7] Caso estudado e citado pela a autora, é a dos estudos realizados junto a um grupo de mães.

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Ligado à percepção dos estímulos relacionados ao tato, à pressão, à temperatura e à dor.

Ligado ao raciocínio, ao planejamento, a partes da fala e do movimento (córtex motor), a emoções, iniciativa e a resolução de problemas.

Ligado à percepção e estímulos auditivos (audição) e à memória (hipocampos) e as emoções mais primitivas

Ligado a vários aspectos da visão.

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