O Processo do Luto - Apostilas - Terapia Ocupacional, Notas de estudo de . Universidade Anhembi Morumbi (UAM)

Descrição: Apostilas de Terapia Ocupacional sobre o estudo da Aceitação da morte no sentimento de perda, um novo caminho de vida junto ao consolo da religiosidade.
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FACULDADE SANTA TEREZINHA – CEST

COORDENAÇÃO DE PÓS – GRADUAÇÃO EM SAÚDE MENTAL E

ATENÇÃO PSICOSSOCIAL

ANA LARESSA CUNHA DOS SANTOS

O PROCESSO DO LUTO: a aceitação da morte no sentimento de perda, um novo caminho de vida junto ao consolo da religiosidade.

São Luís 2010

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FACULDADE SANTA TEREZINHA – CEST

COORDENAÇÃO DE PÓS – GRADUAÇÃO EM SAÚDE MENTAL E

ATENÇÃO PSICOSSOCIAL

ANA LARESSA CUNHA DOS SANTOS

O PROCESSO DO LUTO: a aceitação da morte no sentimento de perda, um novo caminho de vida junto ao consolo da religiosidade.

São Luís 2010

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Santos, Ana Laressa Cunha dos

O processo do luto: a aceitação da morte no sentimento de perda, um novo caminho de vida junto ao consolo da religiosidade / Ana Laressa Cunha dos Santos. – São Luís, 2010.

f.: il.

Monografia (Pós-Graduação em Saúde Mental e Atenção Psicossocial) – Curso de Pós-Graduação em Saúde Mental e Atenção Psicossocial, Faculdade Santa Terezinha, 2010.

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FACULDADE SANTA TEREZINHA – CEST

COORDENAÇÃO DE PÓS – GRADUAÇÃO EM SAÚDE MENTAL E

ATENÇÃO PSICOSSOCIAL

ANA LARESSA CUNHA DOS SANTOS

O PROCESSO DO LUTO: a aceitação da morte no sentimento de perda, um novo caminho de vida junto ao consolo da religiosidade.

Monografia apresentada a Coordenação de Pós-Graduação em Saúde Mental e Atenção Psicossocial Terapia Ocupacional da Faculdade Santa Terezinha – CEST, para obtenção do grau de Especialista em Saúde Mental e Atenção Psicossocial.

Orientadora: Profª Maria Goreti de Nazaré R. de Freitas.

São Luís 2010

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ANA LARESSA CUNHA DOS SANTOS

O PROCESSO DO LUTO: a aceitação da morte no sentimento de perda, um novo caminho de vida junto ao consolo da religiosidade.

Monografia apresentada a Coordenação de Pós-Graduação em Saúde Mental e Atenção Psicossocial Terapia Ocupacional da Faculdade Santa Terezinha – CEST, para obtenção do grau de Especialista em Saúde Mental e Atenção Psicossocial.

Orientadora: Profª Maria Goreti de Nazaré R. de Freitas.

Aprovado em ___/___/___

BANCA EXAMINADORA

________________________________________ Profª. Esp.ª Maria Goreti de Nazaré R. de Freitas (Orientadora)

Psicóloga Especialista em Psicomotricidade

________________________________________ Profª. Esp.ª Márcia de Souza Rodrigues (1º Examinadora)

Terapeuta Ocupacional Especialista em Didática Universitária

________________________________________ Profª. Espª. Sandra Maria Coelho Pinto (2º Examinadora)

Terapeuta Ocupacional Especialista em Saúde Mental

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Aos meus amados avós, e tios que

hoje em meio aos abraços, suas

faltas se fazem presentes. Em meio

aos olhares cheios d’ água, faltam

suas lágrimas. Porém, quando eu

receber este título de especialista,

eu sentirei vocês ao meu lado,

sorrindo e felizes. Sentirei suas

mãos afagar meus cabelos e, neste

instante vos abraçarei em silêncio,

sorrirei para vocês e deixarei fluir

essa emoção, um misto de imensa

alegria e saudade.

Por mais que o tempo e a distância

insista em me fazer esquecer, sei

que o amor verdadeiro nunca

morrerá. E essa falta traz de volta,

suas presenças que vivem em meu

coração, e viver no coração dos que

ficam não é partir.

7

AGRADECIMENTOS

Agradeço a Deus por me dar forças, e mostrar os caminhos certos

que devo seguir, por me iluminar sempre.

Ao meu pai, Mariano Alfredo, pela minha vida por sempre estar ao

meu lado, ajudando-me mostrando-me as coisas certas, sempre se

preocupando com meu bem estar e meu futuro e por me acompanhar desde

pequenina quando ainda estava na vida escolar. Por serem uns homens de

coragem e determinação e acima de tudo uns exemplos de homem, pais, filho,

marido, por me amar e ser meu amigo.

A minha mãe, Lindalva Cunha, pela minha vida por ser uma mulher

guerreira, forte de atitude, por sempre me incentivar nas minhas decisões, pelo

companheirismo, pela fé, pela dedicação, preocupação, pelo amor que sempre

teve por mim. Também por sempre me acompanhar desde pequeninha quando

ainda estava na escola, e principalmente por ser minha amiga e companheira.

Ao meu namorado, por sempre estar ao meu lado nas horas mais

difíceis e por me encorajar, me dar forças, por ser um dos meus grandes

incentivadores, me apoiando, me aconselhando, e compreendendo as diversas

situações passadas durante o processo de elaboração deste trabalho

monográfico.

A minha orientadora e hoje amiga, Goreti Freitas a quem tive a

honra de ter como orientadora deste trabalho, muito obrigada pelo incentivo e

troca de conhecimentos, que muito contribuíram para a finalização desta

monografia.

E a todos aqueles que, aqui não citados, por estarem sempre

comigo.

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“O luto é um sentimento de perda para quem olha mais se torna uma sensação de morte para quem sente”

Hélio Aguiar

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RESUMO

Este estudo traz uma abordagem sobre o Processo do luto: e a aceitação da

morte com o sentimento de perda, e como as pessoas procuram um novo

sentido na vida através do consolo religioso. Discorre-se sobre a morte e seus

aspectos, falando sobre o luto e a perda, o processo de elaboração do luto, e

ainda a elaboração do luto através da religiosidade. A pesquisa bibliográfica

mostrou que os estudos sobre o processo do luto e a aceitação da morte com o

sentimento de perda, se amenizam quando as pessoas procuram sentido na

vida através do consolo da religiosidade é de grande relevância para

compreender todo o processo do luto.

Palavras-chave: Morte. Perda. Vida. Processo do luto. Consolo. Religiosidade.

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ABSTRACT

This study brings an approach on the process of mourning: and acceptance of

death with the feeling of loss, and how people are looking for a new meaning in

life through consoled religious. Addresses on death and its aspects, talking

about the grief and loss, the preparation process of mourning and even the

elaboration of mourning by religiosity. The bibliographic search showed that the

studies on the process of mourning and acceptance of death with the feeling of

loss, if joins when people seek meaning in life through the comfort of religiosity

is of great importance to understand the entire process of mourning.

Keywords: Death. Loss. Life. Process of mourning. Confort. Religiosity.

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SUMÁRIO

1. INTRODUÇÃO...........................................................................................12

2. A MORTE E SEUS ASPECTOS................................................................14

2.1 As concepções sobre a morte: breve histórico..........................................15

2.2 Representação da morte: sepulturas.........................................................16

2.3 Representação da morte: a morte do outro...............................................17

2.4 Medo da morte...........................................................................................19

2.5 Reflexos do medo da morte na atualidade................................................23

2.6 Morte no desenvolvimento humano...........................................................25

2.7 Os cinco estágios psicológicos do processo de morte..............................29

3. LUTO E PERDA.........................................................................................31 3.1 Perda: o apego e o desapego....................................................................31

3.2 Perda simbólica..........................................................................................34

3.3 Perda real...................................................................................................36

3.4 Luto normal ...............................................................................................38

3.5 Luto patológico...........................................................................................39

4. O PROCESSO DE ELABORAÇÃO DO LUTO.........................................41 4.1 Tipos de luto...............................................................................................42

4.2 Etapas do processo de elaboração do luto................................................44

4.3 Quando termina o processo do luto...........................................................54

4.4 Teoria Integrativa do Processo de luto, segundo Sanders........................55

5. ELABORAÇÃO DO LUTO ATRAVÉS DA RELIGIOSIDADE..................57 5.1 Ateísmo......................................................................................................59

5.2 Cristianismo................................................................................................60

5.3 Budismo......................................................................................................61

5.4 Islamismo...................................................................................................63

5.5 Espiritismo..................................................................................................66

6. CONSIDERAÇÕES FINAIS.......................................................................70 REFERÊNCIAS..........................................................................................73

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1 INTRODUÇÃO

Embora seja complexo lidar com morte e perdas, deparamo-nos com

estas em sucessão de diferentes naturezas no decorrer da vida. Pois a morte é

uma condição de vida. E compreender o processo do luto, no qual envolve

diversas manifestações psicossociais, requer buscar diversas formas para

aliviar a dor da perda, do sofrimento humano.

Segundo Bowlby (1998), o processo de luto é como uma forma de

ansiedade de separação, e, a teoria do vínculo contribui com uma interpretação

teórica para aspectos do luto normal e patológico, no qual, em outras

abordagens, não é esclarecido.

Esta teoria traz explicações a respeito dos sintomas aparentemente

paradoxais encontrados nas sensações de perda. Os sentimentos ambíguos

adquiridos na situação de perda refletem na tentativa irracional de manter o

vínculo, mesmo que desconsiderando as evidências da realidade. Algumas

pessoas buscam na religiosidade ou espiritualismo uma forma de conforto para

esse momento tão delicado.

Segundo Bowlby (1998), o luto tem como resposta característica as

fases de torpor ou aturdimento; saudade e busca da figura perdida;

desorganização e desespero; e, finalmente, maior ou menor reorganização.

Áries (1988) considerava que, o que é verdadeiramente mórbido não

é falar da morte, mas antes nada dizer sobre ela. Sabe-se que a morte, em

termos culturais, é influenciada pelas crenças que prevalecem na sociedade,

contudo, desconhecemos ainda a importância que efetivamente essas crenças

detêm na resposta a essa inevitabilidade.

Segundo Boudreaux (1995) o maior enigma da vida humana é a

morte. De todas as separações, a morte é a mais temida, tanto quando se trata

de si mesmo quanto de alguém querido. Quase sempre a surpresa da morte é

prematura, inevitável e imprescindível. É difícil morrer, já que morrer significa

renunciar a vida na terra. A morte não deveria ser vista como um inimigo a

vencer, mas sim como parte integral da vida que dá um sentido a existência

humana.

Na medida em que a consciência da morte não pode ser evitada em

sociedade alguma, as justificativas da realidade do mundo social frente à morte

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são absolutamente indispensáveis em todas as sociedades. Falar de morte dos

outros conduz inevitavelmente cada um à sua própria finitude” (BOUDREAUX,

1995).

Por mais que se abomine a morte, ela é o grande momento da vida

do ser humano. Na morte, o homem completa a vida. Não existe viagem sem

chegada. Não existe caminho sem destino. Não existe vida sem morte. Não se

refletindo sobre o mistério da morte, não se reflete sobre o mistério da vida

(ÁRIES, 1988).

Nesse sentido, interesse por esse tema se deu partir da curiosidade

que deriva dos mistérios que circundam a morte e a religião. E considerando o

objetivo deste trabalho é conhecer o processo do luto e como as pessoas

buscam na religiosidade um conforto para a dor da perda para continuar suas

vidas, a pesquisa se deu em levantar conhecimentos existentes nas literaturas

sobre o luto, objeto de estudo deste trabalho, caracterizando-se uma pesquisa

bibliográfica.

A pesquisa bibliográfica, “procura explicar o problema a partir de

referências teóricas”, para que se possa “conhecer e analisar as contribuições

sobre um determinado problema” (MARCONI; LAKATOS, 1999.p.73).

Através da pesquisa bibliográfica, o estudo teve abrangência na

literatura relacionada ao tema proposto já tornadas públicas, como por

exemplo, livros, jornais, sites, oportunizando a pesquisadora, uma aproximação

e contato direto com o material escrito sobre o tema, fundamentalizando a

compreensão do objeto de estudo deste trabalho monográfico (CERVO;

BERVIAN, 2002.p.65).

Com isso, essa pesquisa bibliográfica foi dividida em seis capítulos,

afora a introdução e as considerações finais. O 2º capítulo aborda sobre a

morte e seus aspectos. O 3º capítulo fala sobre o luto e a perda, abordando

sobre o que é o luto, e a perda. 4º capítulo relata sobre o processo do luto,

falando sobre todo o processo que a pessoa passa até chegar no luto. E o

capítulo, aborda a elaboração do luto através da religiosidade.

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2 A MORTE E SEUS ASPECTOS

O aspecto paradoxal da morte destacado por vários autores tanto do

Ocidente, quanto do Oriente é de que quanto mais trazemos a reflexão da

morte para nosso dia-dia, mais valorizamos a vida e priorizamos o que de fato

nos é importante. Nas palavras de Schwartz (1999):

A melhor preparação para viver bem e plenamente consiste em estar pronto para morrer a qualquer instante, porque a morte iminente torna claros os objetivos, aquilo que realmente importa para você. Quando sentimos que o fim está próximo, temos maior probabilidade de prestar bastante atenção àquilo que valorizamos, especialmente relacionamentos com as pessoas queridas.

Este tipo de reflexão pode nos tornar capazes de fazer um uso

valioso da vida, enquanto ainda temos tempo, assegurando-nos de que,

quando morrermos, não teremos remorso ou auto-recriminação por termos

desperdiçado a vida, o poeta diz “Minha religião é viver – e morrer – sem

arrependimento.” (RINPOCHE, 1999).

Paradoxalmente, falar de morte expõe nossa estima ao tempo que

desfrutamos no dia-a-dia e do que escolhemos como forma de viver.

Dalai Lama em prefácio do livro “O Livro Tibetano do Viver e do

Morrer” observa que:

Naturalmente, a maioria de nós gostaria de morrer de maneira tranqüila, mas também é claro que não podemos esperar morrer tranqüilamente se nossas vidas foram cheias de violência, ou nossas mentes foram quase sempre agitadas por emoções como ódio, apego ou medo. Assim, se queremos morrer bem, devemos aprender a viver bem: “se esperamos morrer em paz, devemos cultivar a paz em nossa mente e modo de vida (RINPOCHE, p.25, 1999).

Mas, no morrer, todos nós somos insubstituíveis. Esta possibilidade

extrema e mais íntima do existir do homem, a de morrer, é por ele percebida,

desde cedo, como sendo a mais certa de todas as suas possibilidades,

entendida como ser mortal. Ele, o homem, é provavelmente o único ser vivo

que sabe com certeza do seu ser mortal e do seu ter que morrer (BOSS, 1988).

No processo de negação em falar da morte, a maioria de nós só se

preocupa em se preparar para ela quando já parece tarde demais, “os que

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crêem ter muito tempo, preparam-se somente na hora da morte. Aí são

devastados pelo remorso” (RINPOCHE, 1999).

O estudo da morte nos faz revisar constantemente o conceito de

vida. Esta definição inclui nossas epistemologias e etimologias de quem é o ser

humano. Muitos mitos foram construídos para tentar responder a pergunta pela

existência. Pode-se afirmar que o tema da morte elucida a ética, e deixa vigas

que constroem o saber cultural reconhecido por olhares das esferas sociais.

Percebe-se que o tema da morte apreende expressões que procuram explicar

a vida nas suas variadas formas de construção.

É neste sentido, em buscar no morrer a dimensão maior que nos faz

sermos humanos, que Leloup traz o sentido da espiritualidade como a

dimensão que se destaca na hora da morte. Para Hennezel e Leloup, (1999), a

espiritualidade é dar um passo a mais. Dar um passo a mais na aceitação da

minha fadiga, na aceitação de meus limites, limites de minha inteligência, de

minha incompreensão diante do sofrimento.

A temática da morte está tão imbricada na vida das pessoas que,

paradoxalmente, não se percebe a sua presença. A literatura sobre o assunto

tem crescido, mas ainda não há uma preocupação em dialogar sobre o tema

da morte nas várias dimensões das ciências de uma forma contínua. Ela está

presente no simbólico, na cálida atmosfera dos museus, na beleza inaudita das

artes, nas notas musicais das canções. A trama da morte libera nossos

pensamentos e sentimentos contidos nas vias respiratórias de corpos que não

se reduzem ao seu funcionamento biológico, mas ao sentido do mesmo em

contato com o ar da vida (HENNEZEL; LELOUP, 1999).

2.1 As concepções sobre a morte nos tempos primitivos e na antiguidade

Segundo Assumpção (2003, p.23):

O Homem de Neanderthal, que existiu há mais de 100.000 anos tinha um comportamento de significado perante a morte. Esse ancestral do homem, que já vivia em pequenas comunidades, enterrava seus mortos em posição fetal e com objetos de utilização pessoal, juntamente com flores e alimentos.

Este comportamento demonstrava que apesar deste primitivo não ter

nenhuma influência de ideologias, religiões, nem de meios de comunicação, já

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intuía a possibilidade da existência de uma vida após a morte, como se a vida

não terminasse com a morte. Pois, ao colocarem os corpos em posição fetal,

estariam reproduzindo a vida intra-uterina que aguarda o momento da

passagem através do nascimento, para outra vida, a vida fora do útero, repleta

de oportunidades.

Este fato, também é interpretado como se a terra recebesse os

corpos como um grande útero materno e no renascimento, os objetos deixados

juntos ao morto serviriam para a sua nova vida (BOSS, 1988).

Através dos achados arqueológicos evidencia-se que na história da

humanidade, em todas as civilizações que foram surgindo, a morte era

significativa, senão predominante em suas culturas.

Para Assumpção (2003, p.32):

Os Sumérios e os Egípcios, entre os anos 8.000 e 3.000 a.C., tinham uma atenção muito especial com a morte. Ao observar as múmias, os sarcófagos, onde eram depositados, os tesouros e a quantidade de objetos colocados próximos a elas, evidenciava a crença de que a morte não era o fim, mas uma passagem. Dois textos muito antigos, de duas civilizações distintas referentes à morte comprovam isso, que são: o Bardo Thodol, livro dos mortos tibetanos, e o Livro dos Mortos, do antigo Egito, cujo texto está em hieróglifos, vistos até hoje num dos mais antigos túmulos, a pirâmide de Unas, localizada numa cidade próximo a capital de Cairo.

Entre os anos 3.000 e 500 a.C, na civilização hebraica, um novo

valor foi introduzido: o monoteísmo, que é a crença de um Deus único, criador

de todas as coisas (ÁRIES, 1977).

Neste mesmo período, encontram-se os povos Védicos que, sendo

nômades e vivendo em religiões inóspitas, introduzem a idéia de reencarnação

como a possibilidade de renascerem, após a morte, em lugares mais

favoráveis.

O Budismo, surgido em torno do ano 500 a.C., não admitia a

existência de alguma coisa no paraíso celestial dos hebreus ou de outras

culturas, mas sim o Nirvana, onde a alma se desfaria num vazio total, depois

de existências bem vividas, em completo desapego às coisas mundanas

(ÁRIES, 1977).

O Cristianismo surgido em torno do ano 30 d.C. baseados nos

ensinamentos de Jesus Cristo, tem em sua morte e ressurreição, a base para a

redenção da humanidade. Para o cristianismo, só se morre uma vez, e

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imediatamente após sua morte vem o momento da decisão e julgamento, onde

o ser humano, na sua totalidade corpo-mente-espírito retorna a Deus, redimido

pelo sangue de Cristo, ou então recusa esse retorno, renegando a redenção

(ÁRIES, 1977).

O falar sobre a morte no ambiente cristão vem imbuído de imagens

e conceitos vinculados à esperança. No mundo protestante, a morte está

relacionada com salvação e encontro com o divino. Busca- se, contudo, nas

palavras bíblicas, suporte para essa dimensão de vínculo entre morte e

salvação. A fé das pessoas expressa um arcabouço teológico de experiência

pessoal e familiar. Expressões como fé e liberdade também estão presentes na

conceituação de morte (ASSUMPÇÃO, 2003).

É importante destacar que, no cristianismo, falar sobre morte é

desvendar ruas e vielas culturais e antropológicas que influenciaram o

pensamento de cristãos (ãs). Na literatura cristã, encontramos uma riqueza de

saberes que se entrelaçam e buscam unir os mais diversos posicionamentos

relativos à vida e à morte. Temas como perdão, vida eterna, libertação, fé,

podem acrescentar aprofundamentos no estudo sobre a elaboração religiosa

do luto.

Com todas as diferenças entre culturas e crenças, em todas as

civilizações e ideologias as idéias da morte como passagem e da evolução

espiritual do homem, sempre estiveram presentes, mesmo que os caminhos

para alcançá-los sejam diversos (ASSUMPÇÃO, 2003).

Por isso, a morte representa, para todos os povos e em todos os

tempos, alguma coisa fascinante e ao mesmo tempo ameaçadora,

influenciando a qualidade de vida e o comportamento dos indivíduos.

2.2 Representação da morte: Sepulturas

Este fenômeno diz respeito aos túmulos ou, mais precisamente, a

individualização das sepulturas.

Na Roma antiga cada indivíduo tinha um local de sepultura e este

era marcado por uma inscrição. Isto significava o desejo de conservar a

identidade do túmulo e a memória do falecido. Por volta do século V essas

inscrições tornaram-se escassas, desaparecendo com certa rapidez, segundo

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a localidade. Isto se explica por ser o defunto abandonado à Igreja, que dele se

encarregava até o dia em que este ressuscitava.

Para Ariès (1977, p.28):

A partir do século XII reencontraram-se as inscrições funerárias quase desaparecidas por 800 a 900 anos. Principalmente, reapareceram sobre os túmulos, inicialmente muito raros, tornando-se mais freqüentes no século XIII. Com a inscrição, reaparece a efígie, sem que esta chegue a ser realmente um retrato. Evoca a beatitude ou o leito descansando à espera do Paraíso. No século XIV, levará o realismo a ponto de reproduzir uma máscara modelada pelo rosto do defunto. Para uma certa categoria de personagens ilustres, clérigos ou leigos, os únicos que possuíam grandes túmulos esculpidos, passou-se então do completo anonimato à inscrição curta e realista. A arte funerária evoluiu no sentido de maior personalização até o início do século XVII e o defunto pode ser, então, duplamente representado sobre o túmulo: jazendo e orando.

Depois de alguns anos, ao lado desses túmulos monumentais,

apareceu a multiplicação de pequenas placas, que eram aplicadas de encontro

à parede da Igreja ou de encontro a um pilar (ASSUMPÇÃO, 2003).

Contudo, essas placas tumulares não eram o único meio, nem talvez

o mais difundido de perpetuar a lembrança. Do século XII ao XVII, os

moribundos previam em seu testamento serviços religiosos perpétuos para a

salvação da alma. Os testadores ou seus herdeiros mandavam gravar numa

placa de pedra ou cobre os termos da doação e os compromissos do padre e

da paróquia. O que importava era a evocação da identidade do defunto e não o

reconhecimento do lugar exato da colocação do corpo.

Assumpção (2003) fala ainda que, no espelho de sua própria morte,

cada homem redescobria o segredo de sua individualidade. Essa relação,

entrevista pela Antiguidade greco-romana e logo a seguir perdida, nunca

deixou depois de impressionar nossa civilização ocidental.

Desde meados da idade média, o homem ocidental rico, poderoso

ou letrado reconhece a si próprio em sua morte, descobriu a morte de si

mesmo.

2.3 Representação da morte: A morte do outro

O homem das sociedades ocidentais tinha a tendência a dar a

morte, um novo sentido, que mais tarde se tornou um dos traços do

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Romantismo. Mas, ao mesmo tempo, já se ocupa menos de sua própria morte,

e, assim, a morte romântica, retórica, é antes de tudo a morte do outro, o outro

cuja saúde e lembrança inspiram, nos séculos XIX e XX, o novo culto dos

túmulos e dos cemitérios (ARIÉS, 1977).

Para Áries (1977), a morte no leito de outrora tinha a solenidade,

mas também a banalidade das cerimônias sazonais. Esperava-se por ela e

todos se prestavam, então, aos ritos previstos pelo costume. Já, no século XIX,

uma nova paixão arrebatou os costumes dos processos de morte e pós-morte.

Ela é agitada pela emoção, choro, suplica e gestos.

Já para Assumpção (2003, p. 21):

Até o século XVIII, a morte dizia respeito aquele a quem ameaçava, e unicamente a quem estava à beira da morte. Também cabia a cada um expressar suas idéias, seus sentimentos, suas vontades. Para isso, dispunha-se de um instrumento: o testamento, do século XIII ao XVIII. Este era mais que um simples ato de direito privado para a transmissão da herança, um meio para cada um afirmar seus pensamentos profundos e suas convicções. O objetivo das cláusulas piedosas, que por sua vez constituíam a maior parte do testamento, era o de prometer publicamente o executor testamentário, o padre da paróquia ou monges do convento, e, assim, obrigá-los a respeitar as vontades do defunto. Sendo assim, o testamento testemunhava uma desconfiança ou ao menos uma indiferença para com os herdeiros e o clero.

A partir do século XVIII, aconteceu uma mudança considerável na

redação dos testamentos. Pode-se admitir que essa mudança foi generalizada

em todo o Ocidente Cristão, Protestante ou católico. As cláusulas piedosas, as

escolhas de sepulturas, as instituições de missas e serviços religiosos e as

esmolas desapareceram dos testamentos até hoje, ficando apenas o ato de

distribuição legal das fortunas. Sendo este, um sinal de descristianização da

sociedade, como também, um sinal do resgate da confiança do testemunho

aos que lhe eram próximos, pois este comunicava oralmente suas devoções e

afeições.

Assumpção (2003), fala ainda que, a complacência romântica

acrescentou muito mais ênfase às palavras e aos gestos do moribundo. Mas a

atitude da assistência foi o que mais mudou. Se o moribundo manteve o papel

principal, os assistentes não são mais figurantes de outrora, passivos e

refugiados nas preces. O luto do fim da Idade Média ao século XVIII possuía

dupla finalidade. Por um lado induzia a família do defunto a manifestar, por

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certo tempo, uma dor que nem sempre experimentava.

Pode-se dizer que quase todos os fenômenos apresentados

aconteceram da mesma forma para todo o ocidente, para as religiões católicas

e protestantes e para as diferentes revoluções socioeconômicas, salvo por

alguns aspectos mais específicos.

2.4 Medo da Morte

• As origens do medo da morte: “dualidade e apego”

Segundo Almeida e Nascimento (2004), a dualidade e o apego

trazem duas realidades humanas, que se não trabalhadas, podem proporcionar

grande parte dos conflitos de existência.

A dualidade é manifestada no homem através dos opostos desta

divisão em duas partes, como por exemplo: o bom (positivo) e o mau

(negativo); a dor e o prazer; o corpo e a alma. A relação dupla da criança a um

só tempo com o pai e a mãe é um símbolo desta divisão, que mais tarde,

tentando resolver essa questão a criança pode projetar essa dualidade primária

em seus relacionamentos e atitudes.

Segundo Ferreira (2003) para mudar essa situação é necessário que

o indivíduo se torne consciente dessas transferências e projeções o tornando

responsável pelo seu próprio processo de transformação, para só assim poder

retornar ao Self, ou seja, seu Eu Real.

Quando o indivíduo escolhe uma das polaridades, de qualquer de

suas dualidades, internamente está negando e matando a outra polaridade,

negando e matando uma parte de si. Esta polaridade negada vai

conseqüentemente cobrar essa falta, muitas vezes com experiências sofridas e

doloridas para que a pessoa possa desta maneira vê-la, compreendê-la e

aceitá-la.

De acordo com Ross (2000), apenas quando o homem se torna

consciente de suas mortes diárias, em todas as suas dimensões, ele será

capaz de viver plenamente a felicidade que o cotidiano lhe traz e caminhar com

segurança para a sua morte física.

Em relação ao apego, este é o responsável por quase toda a grande

causa do sofrimento humano. Sofre quando se apega a algo e o perde, como

21

por exemplo, um carro ou uma pessoa querida (não querendo comparar o grau

de intensidade deste sofrimento).

O indivíduo, deste modo, acaba por entrar em um circulo vicioso de

apego, perda e dor, pois por medo da entrega, ele se apega ao conflito da

dualidade, reforçando o seu medo, o seu apego e a dualidade (ALMEIDA E

NASCIMENTO, 2004).

Portanto, morte e vida são opostos para a dualidade humana, que

conseqüentemente cria um apego a uma dessas partes. Porém, morte e vida

podem se transformar num único aspecto quando o indivíduo se torna inteiro,

integrando e vivenciando todas as dimensões do seu ser.

 A evolução do desenvolvimento humano nas quatro dimensões:

De acordo com Ross (1996), a história do desenvolvimento humano

se dá por quatro dimensões: física, emocional, intelectual e espiritual. É no

desenvolvimento destas dimensões que se forma o medo visceral e irracional

da morte.

Dimensão física:

A dimensão física começa na concepção do bebê e vai até os seis

meses de idade, período em que todo o registro é sensorial. Qualquer

sensação que ameace a vida física é percebida como uma ameaça de morte e

como neste estágio o desenvolvimento do sistema nervoso humano não está

todo formado, esse medo é registrado na memória celular e não elaborável

intelectualmente. É a introdução do medo visceral e irracional da morte. O

objetivo principal desta fase é crescer com saúde e segurança, sendo

necessário para que a criança possa contactar, conhecer e se expressar neste

plano dual. Já a necessidade básica desta fase é a sobrevivência, expressos

através dos instintos de sobrevivência e auto-preservação, como por exemplo,

a criança que chora quando está com fome.

Portanto, o medo básico desta fase é o de danos que causem

ameaça a vida física, sendo qualquer experiência sensorial, percebida como

ameaçadora registrada como uma experiência de morte. Por fim, existem duas

maneiras de concluir esta fase: positivamente, quando o ser humano integra as

experiências traumáticas peri-natais e ameaçadoras da vida física, adequando-

as à realidade subseqüente, tornando-se seguro; negativa, quando o ser

humano congela estas experiências, transformando-as em imagens que se

22

repetirão continuadamente na realidade subseqüente, tornando-a uma pessoa

insegura e instável.

Dimensão emocional:

A dimensão emocional vai dos seis meses aos seis anos de idade. A

vivência básica desta fase é a experimentação dos sentimentos e das

emoções. A criança passa a reconhecer pai e mãe, a responder de forma

emocional aos estímulos externos, passando a aceitar ou rejeitar

circunstancias em função do princípio do prazer e da dor. O propósito desta

fase é relacionar-se. É nela que a criança amplia o processo de relacionamento

tão importante para o desenvolvimento do ser, tornando-se capaz de partilhar

informações, sentimentos e sensações.

Sua necessidade básica é ser amada e aos poucos, com este

aprendizado, surge a necessidade de também amar. As experiências de amor

nesta fase que as pessoas passam, distorcidas ou não, serão determinantes

para a crença futura do que é o amor, reconhecendo ou não o amor.

Habitualmente o homem cresce aprendendo um amor totalmente condicionado,

através da típica relação: ‘amo você se... você fizer tal coisa’, com isso o

indivíduo fica o tempo todo tentando comprar, vender, trocar ou barganhar

amor.

Desta maneira, o medo básico nesta fase é o do abandono e da

rejeição. Todos os seres humanos já passaram por alguma experiência

relacionada a esses medos, por mais amorosos que os pais tenham sido.

Então, há duas formas de concluir esta fase: positiva quando da integração,

permissão e expressão dos sentimentos o resultado será o amor próprio, auto-

estima, a habilidade de dizer não e de não suportar a frustração; negativa,

quando ocorre a auto-desqualificação. São registrados vários mecanismos de

defesa para suportar a morte emocional, entre eles: a repressão, negação,

introjeção, projeção, etc.

Dimensão intelectual ou mental:

A dimensão intelectual ou mental vai dos seis anos até a

adolescência. Sua vivência básica é o desenvolvimento do pensamento e da

racionalidade. O sistema nervoso humano só conclui seu desenvolvimento

completo por volta dos sete anos de idade. Todos os medos sentidos até essa

fase são registrados de forma visceral na memória celular, e na forma de

23

crenças na dimensão emocional, ambas anteriores a este desenvolvimento.

O propósito desta fase é compreender a si mesmo e ao mundo. O

homem é o único ser vivente capaz de ser sujeito e objeto em ação. A

racionalidade, diferente da racionalização (mecanismo psicológico de defesa),

é a capacidade do ser humano de analisar, situar, classificar, julgar e discernir

sobre seus fatos e do mundo. Já a sua necessidade básica é conhecer e

organizar a realidade para lidar com as questões que a vida impõe ao homem.

Neste momento da evolução é onde se aprende a estabelecer relações entre

suas crenças com a realidade de suas circunstâncias.

Sendo o medo do desconhecido, do insondável, do inquestionável e

de entrega, o medo básico desta fase. Então, existem duas formas de concluir

esta fase: positiva, a integração das experiências vividas nesta fase, a

valorização da estrutura racional do discernimento, do reconhecimento de sua

própria capacidade intelectual são importantes agentes transformadores da

realidade; a negativa, a não integração das experiências desta fase leva a

inadequação da realidade, a inabilidade de escolhas pertinentes e ao

congelamento em falsas auto-imagens, mantendo padrões de negatividade.

Dimensão espiritual:

A dimensão espiritual tem seu início na adolescência e vai até a

morte. Esta dimensão só será possível de ser desenvolvida conscientemente

no homem, se estiver integrada às três dimensões anteriores e este estiver

avançado no processo de individuação. Assim, pode-se alcançar uma

dimensão além do ego e do inconsciente pessoal, entrando no campo do Self

ou Eu Real.

A vivência básica desta fase é a vontade de saber ouvir a voz

interior, mesmo que inconscientemente tenha como propósito alcançar a

unidade. Como o homem veio da unidade, este quer sempre retornar a ela,

através da busca pela integração física (cuidando da alimentação, ambiente,

conforto), integração emocional (vivenciando e aceitando os seus sentimentos,

as suas rejeições e abandonos) e integração mental (reescrevendo a sua

própria história e transformando as suas realidades). Essa necessidade básica

de querer retornar a unidade somente se realiza quando o indivíduo se torna

co-criador de seus próprios processos e quando assume a responsabilidade

pela suas próprias circunstâncias.

24

O medo desta dimensão é o de submeter-se (entende-se por

humilhação, fraqueza, perda). Quando o homem consegue ser dono de seu

próprio ego é que vai poder se desprender dele e submetê-lo ao seu Eu Real.

Então, os maiores impedimentos de sua vida poderão se transformar nas suas

maiores potencialidades, introduzindo para uma realidade maior, no aqui e

agora. Integrando as experiências da dimensão espiritual à ampliação da

consciência pode-se alcançar a paz interior, o conhecimento do propósito da

vida. Caso contrário, não integrando as três dimensões anteriores: física,

mental e emocional não se pode alcançar o desenvolvimento espiritual,

podendo resultar em desorientação de despropósito de vida.

Portanto, o medo é conhecido pelo ser humano em todas as suas

dimensões de seu desenvolvimento e as experiências desses medos

constituem-se na vivência de mortes diárias.

Na dimensão física o homem percebe e reage instintivamente a

estas perdas. Na dimensão emocional ele rejeita ou aceita estas mesmas

perdas. Na dimensão intelectual ele alcança o conhecimento destas mortes

diárias. E na dimensão espiritual ele transcende o conhecimento, ampliando

sua consciência e alcançando a sabedoria. Quanto mais consciente ele estiver

de suas pequenas mortes diárias, se preparando para a sua morte, alcançará

uma melhor qualidade de vida (ROSS, 1996).

Ross (1996) ressalta ainda que a morte se revela ao ser humano a

todo o instante e em todas as circunstâncias, pois o seu registro está em suas

células, em suas emoções, em seu racional. O homem pode até retardá-la,

mas não pode escapar dela.

2.5 Reflexos do medo da morte na atualidade

É indiscutível o fato de que grande parte das pessoas até hoje tem

medo da morte. O assunto sobre morte é um tabu. Evita-se falar nela. E, se

caso alguém se refere ao tema numa conversa, o assunto é rapidamente

desviado.

Mesmo na Medicina, que tem como principal objetivo evitá-la ou

atrasá-la o máximo possível, não existe nenhuma disciplina no seu currículo

25

que trate sobre as maneiras de lidar com a morte. Quando os médicos

constatam que a morte se aproxima, passam o caso para as enfermeiras (que

também não recebem nenhum tipo de instrução ou conhecimento para lidar

com a morte) e a família, só voltando para dar o atestado de óbito, pois não

sabem lidar com a morte (PIERRE, 2001).

Na moderna sociedade ocidental, a morte é ocultada. Tirou-se a

naturalidade dela ao ser transferido o morrer do moribundo da sua casa para

os hospitais. Criaram-se as UTIs (unidade intensiva de tratamento) onde os

enfermos podem receber condições médicas mais sofisticadas. Apesar dos

avanços da medicina, o que acontece é que os pacientes acabam ficando

isolados da família, e estas não participam de seus momentos finais. Em vez

de mãos carinhosas, de pessoas conhecidas e queridas, o moribundo passa a

contar apenas com eletrodos e outros tipos de maquinas.

Para Assumpção (2003), neste ambiente se esquece de que a vida

de cada ser humano só a ele pertence, cabendo apenas a própria pessoa

decidir sobre a sua vida. Diante deste quadro, é fundamental para o homem

saber que a ciência e a tecnologia só se justificam se estiverem a serviço da

dignidade do ser humano.

Nas enciclopédias acha-se pouca informação sobre o assunto, se

limitando ao diagnóstico clínico da morte. Nos cemitérios e velórios faz-se de

tudo para camuflá-la, seja na construção de túmulos homéricos ou na

maquiagem do defunto, para este ficar com um aspecto mais saudável. No

caso de um velório, as pessoas evitam ir, onde só comparecem por estrita

obrigação social (ASSUMPÇÃO, 2003)

Ficam numa roda de amigos falando sobre tudo, menos sobre a

morte. Quando chegam perto do morto lançam um olhar curioso e perplexo,

recusando-se a acreditar que aquele conhecido ou amigo que há pouco tempo

estivera em plena vitalidade, agora está ali, inerte, sem vida.

Normalmente evitam ficar sozinhos, pois quando isso acontece, são

inundados por pensamentos indesejáveis. Se não encontram nenhum

conhecido no velório, logo após os cumprimentos tradicionais, retiram-se

rapidamente (ASSUMPÇÃO, 2003).

Muitas pessoas têm necessidade de experimentar todas as fórmulas

mágicas lançadas no mercado, a fim de aumentar o seu tempo de vida, a fonte

26

rejuvenescedora da vida. Pode até acontecer de algumas pessoas que

procuram essa imortalidade física tenham como motivo o seu amor pela vida e

sua imensa confiança na ciência. Todavia, grande parte destas pessoas é

incentivada por um imenso terror da morte (VIORST, 1986).

Já Assumpção (2003, p. 36), fala que: Nos meios de comunicação a morte também é ocultada, não se vê em filmes, novelas ou notícias de alguém que apareça morrendo naturalmente, mas sim a morte repleta de violência. Com isso, estimula-se a fantasia e a imaginação do espectador, causando-lhe um verdadeiro terror diante do fato, especialmente por reportá-lo a possibilidade de sua própria morte, ou a morte de alguém que ama.

Estas atitudes não demonstram um desrespeito ao morto ou aos

processos de morte em geral, mas sim o pavor que as pessoas sentem da

própria morte. Entretanto, essas pessoas geralmente não merecem ser

criticadas, pois estão lidando com a morte da maneira como conseguem. Ou

seja, tentando fingir que ela não existe.

Visto que, para a morte não importa a posse e quando chega, ela a

retira, sem consideração alguma. Na cultura atual a velocidade e a rapidez de

produção estão relacionadas ao progresso, de imensa importância. Porém, o

morto está estático, a morte o paralisa. Sendo a morte novamente negada.

Por tudo isso, cria-se o medo da morte. Medo cultural, pois é criado,

cultivado, já que a aceitação e a reflexão sobre a morte não interessam a

maioria da sociedade consumista. O homem valoriza a morte, mas se esquece

de aceitar a morte. Isto porque a teme, porque não pode controlá-la, como

acha que controla a vida. Não refletindo sobre a morte, não se reflete sobre a

vida. E assim não se perde o consumismo, o apego (o medo da perda).

2.6 Morte no desenvolvimento humano

Dependendo da fase de desenvolvimento humano, a morte ganha

diferentes percepções e aceitações. A seguir algumas dessas principais fases:

• Criança:

A criança que não fala não conhece a morte conhece a sua

ausência. O conhecimento sobre o desenvolvimento das concepções da morte

na infância é de fundamental importância, tendo em vista que o conceito de

morte é um dos influentes princípios organizadores da vida, com impacto

27

significativo na formação da personalidade e no desenvolvimento cognitivo

(TORRES, 1999).

A questão da origem da vida e da morte está presente na criança,

principalmente no que concerne à separação definitiva do corpo. Ela tem uma

aguda capacidade de observação e quando o adulto tenta evitar falar sobre o

tema da morte com ela, a sua reação pode ser a manifestação de sintomas. Ao

não falar, o adulto crê estar protegendo a criança, como se essa proteção

aliviasse a dor e mudasse magicamente a realidade. O que ocorre é que a

criança se sente confusa, desamparada e inibida, sem ter com quem

conversar, e acaba interpretando esse silêncio como se ele tivesse que guardar

para si perguntas e sentimentos em relação a esse assunto (KOVÁES, 1992).

A morte da mãe, do pai ou de um irmão provoca uma imensa dor.

Falar dessa morte não significa criar ou aumentar a dor, pelo contrário, pode

aliviar a criança e facilitar a elaboração do luto (KOVÁES, 1992).

O trabalho psicanalítico com crianças demonstra que elas percebem

fatos que lhe são ocultados e, embora possam não expressá-los verbalmente,

os seus conhecimentos aparecem em seus jogos, desenhos ou outras formas

de expressão, constatando que o conceito de morte para a criança pode ser

mais bem compreendido em situação de jogo que na fala até os nove anos

(KOVÁES, 1992).

O ocultamento da verdade perturba o processo de luto da criança e

a sua relação com o adulto. A criança também gostaria de negar a morte, mas

os fatos contradizem o que lhe informam, fica completamente perturbada e

frustrada. A primeira reação diante da perda de uma pessoa amada é a

negação, e se o adulto reforça essa atitude, fica difícil passar para as outras

fases do luto (KOVÁES, 1992).

Conversar com a criança sobre a morte não é uma tarefa fácil, pois

além da necessidade do adulto de proteger a criança, falar sobre a morte faz

que ele defronte-se com sua finitude, suas ansiedades, seus medos em relação

à morte e o morrer. Portanto, para conversar com a criança sobre a morte é

preciso sensibilidade para considerar a sensibilidade da criança, assim como

ouvir, aceitar, ser honesto e partilhar (TORRES, 1999).

Quando a criança não consegue se desidentificar, e quando ocorrem

sentimentos de culpa por se sentir responsável pela morte do outro, como

28

resultado de seus impulsos destrutivos, pode surgir o desejo ou a necessidade

de se reunir com a pessoa perdida, como forma de reparar os seus erros ou

como necessidade de punição.

Nesse caso, podem se manifestar sintomas, como: perturbações

fisiológicas, dificuldades de alimentação e sono, retorno ao auto-erotismo,

distúrbios nos relacionamentos sociais. Algumas vezes a criança não consegue

fazer essa separação e deseja reunir-se com a pessoa perdida, sendo estes

fatos manifestados pelo micro-suicídios, pequenos atos autodestrutivos, como

acidentes, quedas, machucados, que podem passar despercebidos (KOVÁES,

1992).

Para Torres (1999), os casos de suicídio em crianças, apontam as

suas causas com relação à formação do conceito de morte pela criança. Ao

considerarem a crença na reversibilidade da morte como uma distorção do

conceito de morte, ou como uma resposta defensiva contra o medo da morte,

que pode funcionar como uma força adicional para o comportamento suicida.

Diante dos inúmeros e significativos sofrimentos ocasionados pelo

medo da morte é fundamental que se estabeleça programas de educação para

a morte desde a infância. Isso lhes será importante para toda a vida e não

somente para conviver com a morte.

• Adolescente:

O adolescente tem a possibilidade cognitiva de perceber as

características essenciais da morte, como a sua irreversibilidade,

universalidade e pode dar respostas lógicas formais. Levanta hipóteses e

discute esse tema tão complexo. Porém, emocionalmente, pode estar muito

distante da morte (KOVÁES, 1992).

A adolescência é um período de desenvolvimento com grandes

transformações. Algumas muito evidentes, como as mudanças corporais que

são iniciadas na puberdade. As manifestações que ocorrem neste período, e,

portanto, normais, seriam consideradas patológicas em qualquer outra etapa

do desenvolvimento. Entre essas manifestações ocorrem intensas expressões

de sentimentos, labilidade emocional e uma exagerada necessidade de auto-

afirmação (ROSS, 1996).

Para Ross (1996) a adolescência é uma fase de transição como

qualquer fase do desenvolvimento. É um período de lutos, pois o adolescente

29

tem de realizar a perda do seu corpo infantil, da sua identidade como criança e

precisa elaborar a perda dos pais infantis.

O adolescente está caminhando para o auge da vida, tem todas as

possibilidades corporais e psíquicas, a morte está distante como possibilidade

pessoal. O adolescente personifica em parte o herói, aquele que é imortal. Esta

suposição da imortalidade, que está presente em todos os seres humanos, tem

seu auge na adolescência (KOVÁES, 1992).

Nesta fase há também um número elevado de suicídios e mortes

inesperadas. Isto acontece devido ao constante processo de aquisição da

identidade em que o jovem testa e extrapola seus limites, como por exemplo,

esportes radicais e atividades ou atitudes que envolvam alto risco de vida.

Portanto, o adolescente, por excelência, acredita que a morte só

ocorre com o outro. Mesmo quando ocorre com um companheiro próximo,

sobra a dúvida se na verdade não se tratou de incompetência.

• Idoso:

A vida e morte não são duas coisas separadas, mas partes do

mesmo processo. O homem começa a morrer no momento em que nasce. As

células envelhecem e morrem, constantemente, na medida em que este vai

perdendo coisas através da vida. Tudo na vida envelhece. Ficar velho significa

que não se morrerá cedo, significa que se viveu e muito.

A velhice normalmente é negada, não se conhece a velhice como

algo que se quer chegar. Todo o ser humano tem dificuldade com a passagem

do tempo. Nem os idosos se percebem idosos. A velhice mora no olhar do

outro. O outro é que lembra o individuo que está ficando velho (KOVÁES,

1992).

A velhice pode ser vista por dois ângulos, o primeiro relacionado à

feiúra e a repulsa pelo corpo envelhecido (cultuação da juventude) e a segunda

associada a sabedoria, capaz de provocar grandes transformações, pois são

também portadores e criadores da cultura. O velho tem virtudes extremamente

necessárias para o mundo de hoje, como serenidade, ternura, transparência,

aprender dar tempo ao tempo. Porém, a velhice é muito mais associada a uma

imagem negativa como a de finitude, desengajamento da vida, a inatividade,

dependência, doença, impotência e decadência (GIACOMIN, 2003).

30

Giacomin (2003, p. 180), refere-se ainda que: O idoso pode estar sujeito a pequenas mortes diárias, como por exemplo: a morte social travestida de aposentadoria inadequada, indesejada, e inoportuna (que assusta mais do que proporciona tempo e fruição) e na discriminação social, ou seja, quando recusam ou diminuem a sua capacidade e o seu potencial de fazer e transformar as coisas; a morte física de capacidades e habilidades antes corriqueiras e hoje modificadas em seu ritmo e em sua forma de fazer; a morte do amor no casamento e nos relacionamentos não mais enquadrados em uma convivência imposta por rigores convencionais, mas aceitando a separação como uma possibilidade.

Sendo assim, o velho não está preparado para envelhecer, e

envelhece numa sociedade que não lhe dá a mínima condição.

O envelhecer pode ser encarado como mais uma oportunidade, não

como viver cada vez menos, mas como viver de outra maneira. A velhice não é

o fim da aventura, ela é uma aventura nova e apaixonante.

Para envelhecer sem medo de viver é preciso que se aproveite cada

dia, vivendo de uma maneira única e intensa. É necessário reconhecer que a

forma como cada um vive dá origem ao seu destino e que a única força que se

contrapõe ao tempo é a memória. É por meio da memória que se pode

recuperar as emoções de um tempo vivido, mas jamais refazê-lo, retocá-lo ou

rabiscá-lo. É preciso aceitar a plenitude do inacabamento humano, e continuar

vivendo, pois morrendo o indivíduo permanecerá na memória dos que o amam

(GIACOMIN, 2003).

Enfim, amadurecer a morte é um passo decisivo no processo de

envelhecimento, mas continuar vivendo de forma integral é a resposta que a

pessoa velha pode dar a si mesma e também à morte.

2.7 Os cinco estágios psicológicos do processo de morte

A morte nos pacientes terminais faz com que esses passem por

cinco estágios psicológicos, finalizando esse processo com a morte, são eles:

a negação, onde o paciente terminal não quer acreditar que vai morrer; a raiva,

contra os médicos e contra o destino e, em seguida, a inveja, dos que não

estão morrendo; a negociação, numa tentativa de adiar o inevitável, com

promessas constantes em troca de mais algum tempo de vida; a depressão,

num sentimento de pesar pelas perdas do passado e pela grande que se

aproxima, mas também, para alguns, a necessidade de juntar-se a tristeza e

31

ficar triste, como uma forma de lamentação preparatória para a própria morte; e

por último, no estágio final, a aceitação, numa fase quase isenta de

sentimentos, como se o tempo de luta já estivesse terminado (VIORST, 1986).

As pessoas que estão às vésperas de sua própria morte, em

especial, necessitam compartilhar seus temores e necessidades, sem mentiras,

sem esconder suas aflições. Quando as pessoas são ajudadas na passagem

dos estágios anteriores, emoções e sentimentos como: inveja, tristeza, raiva e

inconformidade cessam, contemplando a morte próxima com certo grau de

tranqüila expectativa. Só se aproximando dos que vão morrer, e só não fugindo

da morte é que se pode descobrir e aprender o que cada um precisa (ROSS,

2000).

Há críticos desta teoria que dizem que nem todas as pessoas

passam por estas cinco fases ou que aconteça nesta ordem, pois nem todos

querem encarar a própria morte. E que existem muitos outros estados

emocionais, mecanismos psicológicos de defesa, de necessidades e de

impulsos que variam muito de pessoa a pessoa, especialmente nas

proximidades da morte.

32

3 LUTO E PERDA

3.1 Perda: o apego e o desapego

O Apego é definido como o instinto de formar laços relacionais com

outros objetos (figuras primárias de apego). Neste processo, desenvolvem-se

estratégias a fim de estabelecer a proximidade dessas figuras primárias,

caracterizadas como parentais ou de reprodução quando em situações de

estresse, doença ou medo, regulando o sistema de alerta. Este comportamento

é interpretado como qualquer forma de comportamento que resulta na

consecução ou conservação por uma pessoa (BOWLBY, 1998).

John Bowlby examinou os comportamentos de apego em diferentes

idades o os padrões de características de estabilidade e persistência.

Desenvolveu a Teoria do Apego e os efeitos causados à saúde mental da

criança diante da privação materna. Seu interesse sobre os efeitos da privação

para a saúde mental em crianças começou a partir de sua experiência como

assessor da Organização Mundial de Saúde na área de saúde mental. Estudou

os efeitos da privação materna em crianças com idades entre 2 e 4 anos. Estas

crianças foram observadas antes e durante a privação de suas mães

(BOWLBY, 1998).

As pesquisas da etologia colaboraram para o estudo do

desenvolvimento humano e uma delas foi à de que em alguns períodos da

vida, os indivíduos estão mais sujeitos a serem influenciados por determinados

fatos que em outros. Este conceito, chamado em etologia de Períodos

Sensíveis, é observado na natureza animal (BOWLBY, 1998).

A partir desta primeira relação, segundo Bowlby (2002), estabelece-

se um modelo Funcional Interno. A criança que tem em sua experiência um

modelo seguro de apego vai desenvolver expectativas positivas em relação ao

mundo, acreditando na possibilidade de satisfação de suas necessidades. Já

outra com um modelo menos seguro poderá desenvolver em relação ao mundo

expectativas menos positivas.

No sistema de apego, existem seis aspectos:

1) Uma função biológica específica que aumenta a probabilidade de

sobrevivência do indivíduo e seu sucesso reprodutivo;

33

2) Um conjunto de disparadores de ativação segundo o contexto;

3) Um conjunto de comportamentos intercambiáveis, funcionalmente

equivalentes, que constituem a estratégia primária do sistema para se

atingir uma meta particular;

4) Um conjunto de metas específicas;

5) Operações cognitivas envolvidas no funcionamento do sistema;

6) Ligações neurais específicas de excitação ou de inibição com outros

sistemas comportamentais.

De acordo com Bowlby (2002), os relacionamentos de apego adulto

devem ter os mesmos tipos de diferenças individuais (estilos de apego)

observadas nos relacionamentos criança/cuidador. Estas diferenças individuais

influenciam o funcionamento pessoal e relacional na idade adulta, do mesmo

modo que influenciam na infância. O homem estabelece diversas formas de

apego, quer do ponto de vista material (bens, finanças), emocional (relações

afetivas, hábitos) ou social (status, posição, função), e isto pode significar

resistência no que diz respeito à mudança de paradigmas.

Na opinião de Bowlby (2002), o desapego é uma expressão daquilo

que na tradição psicanalítica tem sido mencionado como resultado defensivo.

Estes processos defensivos são considerados elementos regulares do luto em

qualquer idade e o que caracteriza a patologia não é a sua ocorrência, mas a

formas que se tomam e o grau de reversibilidade. A força desta posição teórica

está em relacionar as reações patológicas encontradas nos pacientes velhos e

as reações à perda e às ameaças de perda observadas na infância, oferecendo

um possível elo entre as condições psiquiátricas das fases posteriores da vida

e da experiência infantil.

O conceito de luto na psicanálise, ainda que mantenha relação

estreita com sua utilização na linguagem comum, tem o uso específico e refere-

se aos processos mentais que se seguem às vivências de perda (VIORST,

1986).

A perda é o processo mais amplo e abrangente que permeia a morte

Esta perda está relacionada à perda do objeto, seja este uma pessoa querida

por meio da separação, morte ou até mesmo à perda vivenciada por algo

intrínseco (a despersonalização), a perda de status e valores atribuídos, por

exemplo, a perda do emprego ou alguma posição social de modo a causar uma

34

ruptura de identidade para o indivíduo. (FONSECA, 2004).

Na vida experimentamos a todo o momento a experiência de perder,

abandonar e desistir. Esta condição é permanente e inerente à vida e mesmo

assim é dolorosa e o processo de lamentação é difícil e lento. Apesar de

lamentarmos o rompimento de uma relação, a perda de um emprego, a

decepção causada pela mentira entre outros tipos de perdas, existe um fim

para isto como existe um fim para todas as coisas que amamos. Enlutar-se,

portanto, é um processo de mudança de esquemas que todos nós

experimentamos.

Segundo Viorst (1986), a lamentação da perda de um ente querido é

relativa ao modo como sentimos nossa perda, depende da nossa idade e da

idade de quem perdemos e de toda uma história compartilhada. Finda as

sucessivas fases de mudanças, geralmente, por mais ou menos um ano

completamos a principal parte deste processo. Consideramos aqui a dor como

um processo e não um estado.

Freitas (2000) reflete sobre a dor indizível que envolve a questão da

morte, e que busca no outro uma escuta que possa, no não-dito, penetrar no

universo do sofrimento que envolve o enlutado e o impede de se movimentar

pelo desejo noutras vias. A autora aponta a dificuldade daquele que se coloca

na posição de escuta, pois também este, ao compartilhar da vivência do luto de

outrem, se defronta com os seus fantasmas da morte, da perda e do

sofrimento.

Freitas (2000), define, por fim, a vivência do luto como um tempo

que depende de um movimento relacional de comunicação, abrindo, assim, um

espaço para a elaboração, de modo que venha a prevalecer a saúde, a

criatividade e o prazer.

O luto materno para o referido autor Freitas (2000) destaca, no real,

as angústias que acompanham uma gestante ou mãe durante toda a gestação

e que tendem a ser paulatinamente dissolvidas no pós-parto, no vínculo físico

materno-filial. As angústias de perda são muito presentes no período

gestacional, o qual pode ser pretensamente relacionado a um período de

perdas e ganhos. A mulher que outrora não tinha uma barriga datada por

semanas e meses agora a tem e, a mulher que era apenas filha passa então a

ser mãe; além de outras questões que envolvem o desejo de ter um filho e a

35

espera que surge deste investimento.

Podem-se enumerar dois tipos de perdas, a perda simbólica, e a

perda real.

3.2 Perda simbólica

Estar grávida exige segundo Lucas (1998), esforços físicos e

psicológicos que delineiam mudanças físicas, corporais, hormonais e

metabólicas, bem como as psicológicas, na interpretação de que o período

gravídico é conflituoso e ambivalente, já que faz ressurgir algumas das

vivências mais precoces da vida de uma mulher. É no apontamento destas

mudanças – que requerem energia para manter o equilíbrio biológico e

psicológico da gestante –, que a autora diferencia o estar grávida do ser mãe;

as mudanças, no olhar predominante para a maternidade e não para a

gestação, partem de um desejo de ter um filho e vivenciar todo este momento

na expectativa de recebê-lo.

Maldonado (2003), trata o ciclo gravídico-puerperal como uma

transição existencial importantíssima na vida de uma mulher, porque não só as

modificações corporais ocorrem no corpo feminino, mas as maneiras de ser

mulher que se relacionam diretamente com o aspecto corporal de existência) e,

por conseguinte, de se relacionar com o seu acompanhante ou cônjuge, e

mesmo com outras pessoas.

Este período, conforme a autora é bastante semelhante em quase

todas as mulheres, mas pode ser encarado e vivido emocionalmente de

maneira mais individualizada, devido as interferências que podem estar

envolvidas na gravidez: o planejamento ou não, ser primípara ou já ter tido

filho(s), a manutenção ou não de um vínculo estável, se é posterior à

infertilidade ou a um aborto, dentre outras (MALDONADO, 2003).

A autora ainda atenta para a ambivalência de sentimentos gerada

pelo desejo de ter um filho, destacando que nenhuma gravidez é totalmente

aceita ou rejeitada, mas que faz parte de um processo de mudanças e

adequações, de desejos contraditórios que implicam uma escolha e uma

renúncia. Para ter um filho, a mulher precisa renunciar, ao menos, a posição de

filha de sua mãe (SZEJER; STEWART, 1997).

36

Szejer e Stewart (1997) afirmam ainda que, a sociedade construiu

um ideal de maternidade, como um momento a ser exaltado por representar a

alegria e a plenitude de um nascimento. Contudo, o privilégio de dar a vida é

acompanhado pelo peso de uma história, história familiar que subjetivou a

mulher grávida e a história que agora a faz se tornar mãe. As angústias de sua

história, às quais os autores fazem referência, são os buracos, as faltas e

perdas não simbolizadas, não incluídas numa rede de significantes que

possibilitam a atribuição de sentido, e que, por esta condição, permanecem

suspensas e emergem tão logo quanto às ocasiões do presente retomam o

passado vendado.

As ocasiões do presente reorganizam a ordem até então

estabelecida, na ocasião da gravidez;

[...]porque, ao abrir espaço para uma nova pessoa na família, o lugar de cada um será levemente modificado e, conforme a história pessoal de uns e de outros, cada um se sentirá mais ou menos profundamente tocado e recolocado em questão, reagindo conseqüentemente (SZEJER & STEWART, 1997, p. 38).

É desta forma que, concluem os autores, na fragilidade da gravidez,

a mulher, estando imersa num campo de palavras, sentimentos e sintomas, vai

vivenciar a gravidez e dar sentido ao bebê que está para nascer. A mulher

grávida reencaminha sua história a partir do lugar imaginário, simbólico e real,

que oferece a este bebê, na maneira como o deseja e como o espera, na

maneira como contorna esta criança com palavras, carregando-a de sentidos,

para incluí-la na sua história.

Refletindo sobre o complexo edípico pelo qual a menina chega a ser

mulher e sobre a sua constituição narcisista – o seu caminho de construção de

um eu – podemos entender, como aponta De Felice (2000) e Freud

(1914/1969), afirmam que o bebê se encontra, no desejo da mãe, como um

substituto fálico e que, por assim ser, é deslocado no imaginário da mãe como

um objeto de amor que a torna completa e no qual reside toda a perfeição.

A mãe, e mesmo o pai, revive com o seu bebê, durante a gravidez e

após a gestação, seu próprio narcisismo, elegendo o bebê como objeto libidinal

como outrora sua mãe o fez, protegendo-o de todas as barreiras às quais se

submeteu para renunciar o prazer e elaborar, simbolicamente, a inevitável

condição faltante.

37

O bebê é o destino de sua libido e, nos primeiros meses de vida,

evita quanto pode que seu bebê se defronte com a falta, suprindo todas as

reações que interpreta como necessidades. Identificando-se com o bebê, a

mãe deposita nele um ideal de eu, uma possibilidade para si de ser o que não

foi, nas palavras de, a criança seria a possibilidade de imortalizar o ego, de se

fazer eternizar. (FREUD, 1969)

Percebe-se, portanto, levando em conta os registros imaginário,

simbólico e real, que o bebê se inscreve imaginariamente, como uma tentativa

de restabelecer a ilusão de completude vivenciada com a mãe, no narcisismo

primário, em que a relação materno-filial é de unidade, de uma proximidade

evidente e necessária, entendendo a imaturidade biológica e psíquica do bebê.

Simbolicamente, o bebê será nominado, esta imagem perfeita ganhará formas

pelas palavras, que significam e dão sentido à presença deste bebê como

objeto de amor; ele ganhará um nome, um sexo e características físicas e

psicológicas mesmo antes de nascer. (LACAN, 1953).

O simbólico media a relação entre imaginário e real, visto que no

real a falta transparece, revelando que os desejos não podem ser totalmente

satisfeitos, que o bebê não pode preencher todas as demandas da mãe e,

sendo assim, não corresponderá totalmente à imagem e às identificações nele

projetadas.

3.3 Perda Real

Na morte peri-natal, ou fetal, o que se perde no real é o bebê

imaginário, que não pôde se fazer real; a mãe não vislumbrou a sua presença

física, mas sente sua morte como alguém que já esteve ao seu lado e assim

não se encontra mais. A perda deste bebê se destaca nas alterações corporais,

assim como acontece no pós-parto das mães que vêem o nascimento de seus

bebês e os possuem no real, podem tocá-los, senti-los e construir um campo

relacional concreto que perpassa as preparações psíquicas imaginárias e

simbólicas. (LUCAS, 1998).

Para Lucas, (1998), a morte infantil é outra perda real, na qual a mãe

tem de se desligar do seu filho como objeto de amor, com o qual se ligou

afetivamente de modo tão próximo e vivo, tornando-se um com ele. Esta morte,

38

assim como a morte fetal, é entendida como um descompasso na seqüência

natural do ciclo de vida, pelo qual nos orientamos e nos conscientizamos de

que pais morrem antes dos filhos.

Algumas reações de revolta e de desnorteamento podem surgir

diante desta ocasião inesperada, como a culpa pela impossibilidade de gerar

um filho, a negação da morte, a desesperança diante do futuro e dos outros

destinos de seu desejo, a crença de que o filho pode reviver, atribuir a culpa a

outrem responsabilizado pela perda. A significação da morte de um filho, fetal

ou infantil, tem muito a ver com o desejo no qual ele foi presentificado, com o

número de filhos que a mulher já tem e com a atribuição da culpa desta morte,

pois são por estes caminhos que uma elaboração do luto por esta morte real

pode ser facilitada ou não (LUCAS, 1998)

Como demonstra Freitas (2000), a morte de um ente querido produz

certo desconforto psíquico que progride em relação ao trabalho de luto, de

retirada das cargas libidinais, dos afetos que o vinculavam com o outro, para

representá-lo intrapsiquicamente de outras formas, como perdido. Perdendo o

objeto amado, o enlutado defronta-se com o vazio, com a falta de sentido, com

a fragilidade do próprio ego, que se mantém em relação aos outros, aos

investimentos libidinais que orientam nossos desejos e significam nossa

existência. A morte representa o real, o indizível, a impossibilidade de

significação.

O trabalho de luto exige um esforço psíquico para que aquele que

perdeu possa resgatar as partes perdidas de seu ego porque projetadas no

objeto de amor perdido (FREITAS, 2000).

A culpa e mesmo a posição narcisista da mãe diante de seu filho

podem ser agravantes no processo de elaboração do luto. A culpa e a raiva

podem emergir dos sentimentos ambivalentes que envolviam a relação

materno-filial, porque a mãe, além de amar seu filho também é movida por

sentimentos não muito aceitáveis pelo papel de maternidade que assume.

Como dito, o filho não corresponde totalmente às demandas da mãe, e, mesmo

preenchendo algumas faltas, também faz ressurgir outras. Quanto ao

narcisismo, o filho, enquanto extensão do ego da mãe aparece como um objeto

de amor do qual é difícil se desvincular, e restabelecer outros laços que

retomem a ilusão de completude pela qual a mãe se mantém primordialmente

39

em relação ao filho, seu ideal de eu sustentado por ele (FREITAS, 2000).

Pode-se inferir, em certo ponto, que, perdendo seu filho, a mãe

enlutada pode elaborar seu luto de maneira normal ou patológica, conseguindo

reorientar seus investimentos ou tendendo para a melancolia. Isso porque,

levando em consideração as identificações e projeções que fundamentam a

relação materno-filial, é claro perceber que o filho representa, falicamente, um

suprimento de alguma falta na mãe, e, estendendo-se a ele, numa unidade,

pode perde-se ao perdê-lo pela morte.

O luto, segundo Freud (1917), é uma reação à perda de alguém que

se ama, que provoca um estado de espírito penoso, um desinteresse pelo

mundo externo, pois este evoca em muitos de seus aspectos a lembrança

deste alguém, e a incapacidade de adotar um novo objeto de amor (substituir o

objeto perdido, redirecionar a libido investida); também se configura no

distanciamento de qualquer coisa que esteja ligada a ele.

No luto, contrariamente à melancolia, ocorreu a perda de um objeto

real e, é então o mundo que se torna pobre e sem vida. Ele se divide em luto

normal e o luto patológico.

3.4 Luto normal

O conceito de luto normal tem suas implicações, se tratando de um

processo dinâmico e complexo que envolve a personalidade do individuo. Ele

se apresenta de maneiras consciente e inconsciente pelas funções do ego, as

atitudes, as defesas e as suas relações com os demais. Etimologicamente, o

termo luto significa dor e desorganização (FREUD, 1974).

No luto dito normal há um sofrimento, vivemos a perda do objeto

concreto do qual não temos como negar e assim acabamos por compactuar

com a morte. Com a perda do objeto surge o sofrimento, parte do ego é

projetada nele e através de enorme esforço psíquico há resistência em buscar

a realidade perdida neste momento, o desligamento da percepção e a

assimilação dos objetos bons.

Freud (1974), relata ainda que se tratando de uma dinâmica mais

profunda, a qualidade e a intensidade dos sentimentos que faz parte dele

produzem uma intensidade de sofrimento e ansiedade. Há autores que

40

descrevem fases pelas quais os enlutados devem passar:

1) Entorpecimento (reação inicial);

2) Anseio e protesto;

3) Desespero;

4) Recuperação.

Com certeza, nem todas as pessoas enlutadas passam por fases

que sucedem umas às outras.

Classificar o luto em fases estanques pode representar certa

passividade para o enlutado enfrentar o pesar. É necessário que ele possa

enfrentar o luto, trabalhando a perda em si, de forma ativa e buscar auxílio

profissional quando não conseguir fazê-lo. O luto em si exige tempo necessário

para elaborar. Em especial se tratando de mães enlutadas, estas necessitam

da ajuda de um terapeuta, para que o processo se realize (FREUD, 1974).

3.5 Luto patológico:

Já o luto patológico, a libido (o que deve ser deslocada para outro

objeto) permanece orientada pelo próprio ego, produzindo assim a identificação

com o objeto. Quando isso não ocorre, é como se a sombra do ego caísse

sobre ele mesmo (ego). Ao se cruzarem neste percurso, o ego e os objetos

acabam em conflito, gerando uma instância autocrítica: o superego (FREUD,

1974).

Não devemos esquecer de que a ambivalência de haver dualidade,

amor e ódio, pelo mesmo objeto. Em relação ao ódio, ocorre uma briga com a

parte do ego identificada com o objeto, humilhando-o, neste encontro sofrido e

satisfatório de forma sádica. Com certeza podemos entender melhor as

questões das tendências ao suicídio. Uma tendência de ficar contra si mesmo,

ou seja, a hostilidade dirigida ao objeto, que se evidencia como uma saída

patológica para solucionar o luto.

Mesmo sabendo que a reparação pode perturbar-se por diversos

motivos: a gratificação sádica de vencer e de humilhar o objeto, de superá-lo

em termos de rivalidade e competência. O triunfo pode complicar seu processo

na elaboração. Os objetos devem ser restaurados pela reparação,

transformando-se em perseguidores, que reativam tendência paranóides.

41

Neste caso, há uma regressão à posição anterior (esquizoparanóide). Em que

a dissociação, negação, onipotência e idealização formam um sistema forte e

integrado, dirigido contra a realidade psíquica e a experiência depressiva

(BROMBERG, 2000).

Toda a perda tem como base comum o valor afetivo que consciente

ou inconscientemente é atribuída ao objeto perdido. O que entendo é que não

é extinguir o ego, mesmo que isso fosse possível, o contrário disso é percorrer

caminhos em busca do bem estar, entendimento e compreensão dos seus

limites.

O sofrimento da perda pode estimular sublimações que contribuem

para elaboração do luto. Temos pessoas que, após um luto intenso, tornam-se

mais produtivas, mais tolerantes em suas relações com os demais. Assim como

também, outros produzem de forma criativa para se aliviar, desenvolvendo

muitas vezes habilidades desconhecidas até o momento, deparando-se com a

criatividade. Sendo experiências prazerosas, encontram desta forma, maneiras

de enfrentar o desprazer e suas frustrações, podendo assim criar perspectivas

de renovação, utilizando suas habilidades manuais como maneira de encontrar

sentido em sua vida. Podemos considerar a imaginação como o elo entre a

fantasia e a realidade. (TAVARES, 2001).

Como método de ajuda, um dos objetivos fundamentais da

psicoterapia com mães enlutadas é o de assisti-las no processo de aceitação

da perda, modificando padrões de interação, valorizando aspectos produtivos.

Desse modo, poderão investir suas emoções na vida e no viver. (BROMBERG,

2000).

Falando aqui de luto normal, o impacto da perda pode ser diminuído

em um breve espaço de tempo, pela possibilidade de novos vínculos

substitutivos, de investimentos produtivos em diferentes atividades e da

receptividade do apoio social que com certeza vai contribuir muito em sua

elaboração. O enlutado não deve ser visto apenas com compaixão, mas como

alguém que pode conseguir acesso a um significado mais permanente em sua

existência (BROMBERG, 2000).

O processo de não efetuar uma reparação bem sucedida aumenta

os sentimentos de desespero, enquanto uma boa reparação proporciona à

pessoa, uma esperança renovada.

42

4 O PROCESSO DE ELABORAÇÃO DO LUTO

A vida e a morte andam, quer queiramos quer não, de mãos

dadas e marcam ambas presenças no nosso quotidiano, em que a perenidade

da vida recorda-nos a inevitabilidade da morte.

Tavares (2001) explícita bem este fato quando diz que por toda a

parte a morte agarra o que está vivo. À medida que caminhamos pelas várias

etapas do ciclo de vida, aproximamo-nos do nosso incontornável destino que é

a morte, ficando esta última cada vez mais presente e ocupando um maior

espaço no nosso pensamento. Porém, vários acontecimentos podem antecipar

o nosso confronto com a morte, sendo dos mais penosos, sem dúvida, a perda

de alguém que nos é importante.

É indescritível o tremendo sofrimento que advém da perda de

alguém que nos é querido, pois jamais alguma palavra conseguiria abarcar

uma dor que aparenta ser incomensurável.

Mcgoldrick e Walsh (apud TAVARES, 2001, p.324), relatam-a da

seguinte forma:

A dor de uma perda é tão impossivelmente dolorosa, tão semelhante ao pânico, que têm que ser inventadas maneiras para se defender contra a investida emocional do sofrimento. Existe um medo de que se uma pessoa alguma vez se entregar totalmente à dor, ela será devastada - como que por um maremoto enorme - para nunca mais emergir para estados emocionais comuns outra vez.

Mcgoldrick e Walsh (apud TAVARES, 2001, p.331), dizem ainda que:

O tempo acaba por ser o maior aliado para ultrapassar a inolvidável perda, permitindo uma recuperação lenta e gradual. Porém, o sobrevivente tem também um papel ativo no processo de luto, tendo que efetuar determinadas tarefas de forma a "deixar ir" o ente perdido e seguir em frente com a sua vida.

Quando estas tarefas não são realizadas, acaba-se por passar a

tênue e imprecisa linha que separa o luto normal do luto patológico.

Para além de ser um processo inevitável, pois todas as pessoas têm

que o realizar a fim de se adaptarem à perda, o luto acaba por se repercutir nos

vários indivíduos que rodeiam o sobrevivente, mesmo aqueles que não

conheciam a pessoa falecida e principalmente os membros familiares que

43

passam por um mesmo processo, mas nunca de uma forma igual.

De acordo com Tavares (2001), não só o impacto da morte é

normalmente intenso e prolongado, mas também os seus resultados não são

habitualmente reconhecidos pela família como estando relacionados com a

perda. A morte ou doença grave de qualquer familiar leva, assim, a uma ruptura

no equilíbrio familiar. O grau de ruptura para o sistema familiar é afetado por

um número de fatores, sendo os mais significantes:

• O contexto social e étnico da morte;

• O histórico de mortes anteriores;

• A altura da morte no ciclo de vida;

• A natureza da morte ou da doença grave;

• A posição e função da pessoa no sistema familiar;

• A abertura do sistema familiar.

4.1 Tipos de luto

Segundo Tavares (2000), existem quatro tipos de luto, que são:

 Luto Crônico:

Este conceito refere-se a uma reação de luto de duração excessiva

que nunca chega a uma conclusão satisfatória. As reações ao aniversário da

morte são comuns por 10 anos ou mais e não são, só por si, indicadoras de

luto crônico. As pessoas que passam por este tipo de reação têm consciência

de que não estão a ultrapassar o período de luto. Mesmo que a pessoa esteja

a par da sua condição, o luto crônico não se resolve necessariamente por si só.

Esta consciência é particularmente forte quando o luto se prolongou por vários

anos e a pessoa se sente incompleta. Nestes casos, a pessoa e o psicólogo

têm de avaliar qual das tarefas do luto não está resolvida e quais os

mediadores do luto que podem estar a influenciar isto. A intervenção centrar-

se-á na resolução destas tarefas.

 Luto Atrasado:

Nas reações de luto atrasadas, a pessoa pode ter tido uma reação

emocional na altura da perda, mas esta não foi suficiente. Numa data futura, a

pessoa pode experienciar os sintomas de luto na seqüência de uma outra

44

perda, para a qual a intensidade do luto parece excessiva. Aquilo que se passa

é que parte do luto, nomeadamente aquela que diz respeito à tarefa nº 2 do

processo, que não foi adequadamente feita na altura da perda, é transportada

e experienciada quando da perda atual. A pessoa geralmente tem a impressão

de que a sua reação é exagerada tendo em conta a situação atual. Um

mediador normalmente associado às reações de luto atrasadas é a falta de

apoio social na altura da perda. Sentimentos avassaladores ou insuportáveis

na altura da perda podem levar a pessoa a adiar o luto, o que se verifica muitas

vezes no caso de suicídios. Apesar de ser feito algum luto na altura, não é

suficiente para essa perda e o luto pode emergir mais tarde. O luto atrasado

pode também ser estimulado por outro tipo de perdas (como um divórcio ou um

aborto espontâneo). A existência de múltiplas perdas também pode levar ao

adiamento do luto devido à magnitude da perda e à sobrecarga de processos

de luto. Estas reações atrasadas podem ocorrer não só após uma perda

subseqüente diretamente relacionada com a pessoa que atravessa a

experiência, mas também com o fato de essa pessoa ver outra a passar por

uma perda, ou até ao ver um filme ou um programa de televisão em que a

perda seja o tema principal.

 Luto Exagerado:

Nestas situações, as pessoas experienciam a intensificação de uma reação de luto normal, sentindo-se esmagadas ou recorrendo a

comportamentos desadaptativos. As pessoas têm noção de que os seus

sentimentos e comportamentos estão relacionados com a perda que sofreram

e procuram ajuda por acharem que se trata de uma reação excessiva e

incapacitante. As respostas de luto exageradas podem incluir perturbações

psiquiátricas que se desenvolvem a partir da perda (depressão, ansiedade,

alcoolismo, abuso de substâncias).

 Luto Mascarado:

Acontece quando as pessoas têm sintomas e comportamentos

que constituem uma dificuldade para elas, sem que reconheçam que eles estão

relacionados com a perda que sofreram. As pessoas desenvolvem sintomas

não afetivos que, na realidade, são equivalentes afetivos do luto. Quando as

pessoas não expressam abertamente os sentimentos reativos à perda de uma

pessoa amada, o luto que fica por manifestar acabará por se expressar

45

totalmente de uma outra maneira. O luto mascarado ou reprimido pode revelar-

se de duas maneiras: mascarado através de um sintoma físico ou de um

comportamento estranho ou desaptativo. As pessoas que não se permitem

expressar diretamente o luto podem desenvolver sintomas médicos

semelhantes àqueles que foram manifestados pela pessoa que morreu, ou

qualquer outra queixa psicossomática. Para além dos sintomas físicos, podem

existir também outras manifestações de luto reprimido – este pode estar

mascarado de sintoma psiquiátrico, como uma depressão para a qual não há

explicação, ou por outro tipo de comportamento desadaptativo (por exemplo,

comportamentos delinqüentes).

Deste modo, torna-se essencial perceber o impacto que uma perda

significativa tem não só no indivíduo, como também no sistema familiar e nas

suas interações. Uma maior consciência e compreensão dos possíveis

caminhos que cada um pode percorrer para recuperar de uma perda permitem

uma maior aceitação das inúmeras diferenças que o processo de luto tem de

pessoa para pessoa.

4.2 Etapas do Processo de elaboração do Luto

Facilitar o luto é abrir espaço, motivar e inspirar a troca de

sentimentos, favorecendo até para que as gerações subseqüentes possam ter

modelos que as facilitem integrar as perdas posteriores.

A vivência de uma perda, em geral, reabre outros ferimentos

emocionais, que não estavam totalmente cicatrizados. “A perda é considerada

como uma transição, requerendo uma reorganização de vida, e propondo

desafios de adaptação que deverão ser compartilhados”. (TAVARES, 2001, p.

43).

A dor de perder não precisa ser sinônimo de amargura. É algo que

nos atinge, nos deixa feridos, abatidos, e não tem, necessariamente, que nos

derrotar. A dor também oferece a oportunidade de mergulho interior, levando á

revisão de valores, projetos e propósito de vida. É um esforço, uma luta, aceitar

o que não podemos muda (MCGOLDRICK e WALSH apud TAVARES, 2001).

A grande ultrapassagem é desenvolver a capacidade de

transformação dentro de nós mesmos, sem nos trapacearmos. A transformação

46

se dá a partir de uma reflexão consciente. É o reconhecimento da dor que nos

direciona para a busca da aceitação.

Enquanto não aceitamos a realidade, ficamos impotentes para agir.

Deixar de aceitar a realidade é negar que podemos fazer escolhas que faça

sentido. Quando escolhemos, não escolhemos não escolher, vivemos á revelia

e no tornamos vítima e/ou algozes das circunstâncias. (TAVARES, 2001).

De acordo com Chaplin, não se morre quando se perde alguém de

vista, mas quando se perde a capacidade de amar. É o trabalho do luto é que

permite o reencontro com a alegria.

Podemos lembrar-nos de esforçar para nos manter ativos, de facilitar

a ajuda dos outros e de não nos castigarmos por sermos humanos. É na

aceitação que se dá o encontro com a gratidão e com a alegria que, a presença

física da pessoa que perdemos, nos possibilitou. Há uma abertura e a aposta

num futuro do que é ainda possível de se viver (MCGOLDRICK e WALSH apud

TAVARES, 2001).

Em um trabalho valioso, McGoldrick e Walsh (1983) (apud

TAVARES, 2001) disseram que ritualizar a perda envolve três partes:

1) Um ritual para conhecer e fazer o luto da perda;

2) Um ritual para simbolizar o que os membros da família incorporam com

eles da pessoa morta;

3) Um ritual para simbolizar o prosseguimento da vida.

Segundo Bowlby (apud PARKES, 1998), o luto tem como resposta

características às fases de torpor ou aturdimento; saudade e busca da figura

perdida; desorganização e desespero e, finalmente, maior ou menor

reorganização. Essas fases foram corroboradas por outros autores que

estudaram a fenomenologia do processo de luto, ressaltando, no entanto, que

tais fases não seguem, necessariamente, esta seqüência e devem ser

compreendidas como padrões de comportamento, e não como fases

cronológicas.

A fase de torpor pode durar de algumas horas até muitos dias. Neste

momento, o enlutado vive uma sensação de entorpecimento diante da notícia

da perda. O mecanismo de defesa de negação é utilizado para evitar o contato

com um evento de difícil aceitação (BOWLBY, 1998).

Na fase de saudade e busca da figura perdida o enlutado fica à

47

procura do objeto perdido. À medida que se desenvolve a consciência da

perda, há muito anseio por reencontrar a pessoa morta, apesar do

conhecimento de que a perda é irreversível (BOWLBY, 1998).

Tendo em conta que o processo de luto implica em introjetar o objeto

perdido, podendo pensar que a procura por este parece ser uma tentativa, não

somente de reaver o objeto perdido concreto, mas também de recuperá-lo

internamente.

 O que é a vinculação?

Para se compreender a origem da dor e sofrimento advindos da

perda de alguém, é importante entender porque é que se estabelecem fortes

laços entre as pessoas em primeiro lugar.

Para (BOWLBY, 2002), a sua teoria da vinculação é essencialmente

uma teoria da origem e natureza do amor.

Ora, a teoria da vinculação de (BOWLBY, 2002), diz respeito aos

laços afetivos que são criados pela familiaridade e proximidade com as figuras

parentais no início da vida. Eles surgem da necessidade que se tem de se

sentir seguro e protegido. Acaba por ser um movimento inato que permite

manter os progenitores e descendentes unidos, numa relação inicialmente

unidirecional, ou seja, o prestador de cuidados encarrega-se da sobrevivência

do bebê, que de outra forma não conseguiria viver.

Este sistema de vinculação mantém-se ao longo da vida,

contribuindo para a formação de atitudes do sujeito nas relações amorosas.

Além disso, verificou-se que a vinculação é um processo, uma interação

dinâmica e não um laço estático (BOWLBY, 2002). Em adultos, no entanto,

uma relação saudável e satisfatória já não é unidirecional, mas pelo contrário

assenta na reciprocidade.

De uma forma simplista, pode-se considerar que quanto mais forte

for o laço estabelecido entre duas pessoas, maior será o impacto e sofrimento

advindos da ameaça ou ruptura real desse laço. Por outro lado, tal como

nenhuma relação entre dois seres complexos pode ser simples, também uma

perda real ou percebida nunca tem um resultado linear e totalmente previsível.

 O que é processo de elaboração do luto?

Em face de qualquer perda significativa, de uma pessoa ou até de

48

um objeto estimado, desenrola-se um processo necessário e fundamental para

que o vazio deixado, com o tempo, possa voltar a ser preenchido. Esse

processo é denominado de luto e consiste numa adaptação à perda,

envolvendo uma série de tarefas ou fases para que tal aconteça.

De acordo com (SULLIVAN apud SANDERS, 1999), o processo de

luto oferece ao sobrevivente a oportunidade de se deslindar dos laços da

vinculação. Em condições normais, o processo de luto elimina estas

vinculações que ameaçam manter as ilusões de amor eterno. O autor vê,

portanto, o processo de luto como um mecanismo extremamente valioso e

protetor, sem, no entanto negligenciar a dor e o aspecto desagradável que o

caracterizam.

Um importante contributo para o estudo do processo do luto foi

proporcionado por Bowlby (1998 apud SANDERS, 1999) através da sua teoria

da vinculação. O autor considera o processo de luto adaptativo tanto nos

animais, como nos humanos, sendo por isso universal.

Baseando-se nas descrições de Darwin e de Lorenz acerca da

aflição presente nos animais, Bowlby (1998) conclui que a procura e o choro

são mecanismos adaptativos, desenvolvidos para recuperar a figura de

vinculação perdida. Como estes comportamentos foram normalmente bem

sucedidos no reencontro com as figuras próximas, eles continuaram como uma

resposta automática e intrínseca à perda. Desta forma, o autor atribui uma

base biológica à resposta da dor advinda da perda, resposta essa que se

encontra presente em várias culturas e espécies.

Sanders (1999) considera que o luto representa o estado

experiencial que a pessoa sofre após tomar consciência da perda, sendo um

termo global para descrever o vasto leque de emoções, experiências,

mudanças e condições que ocorrem como resultado da perda.

Independentemente das diferentes definições atribuídas pelos diversos

autores, parece haver um consenso quanto à inevitabilidade deste processo,

bem como quanto ao seu elevado valor adaptativo quando decorre de uma

forma natural e em condições normais.

Apesar do processo de luto ser aparentemente um mecanismo

universal e que se dá em várias espécies, cada indivíduo tem uma forma

idiossincrática de o realizar e o processo varia não só de pessoa para pessoa,

49

como também existem diferenças consoante a faixa etária em que o indivíduo

se encontra. Desta forma, as crianças e os adolescentes têm características

próprias na forma de sentir a perda e de viverem o luto, sendo necessários

determinados cuidados específicos (MALLON, 2001; MARCELLI, 2002).

A reação das crianças à morte depende do estádio

desenvolvimentista cognitivo em que se encontram, da maneira como os

adultos lidam com elas acerca da morte e do grau de cuidados que elas

tenham perdido (TAVARES, 2001).

Relativamente aos adolescentes, especificamente no caso do

falecimento de uma figura parental, Gray (1978 apud MARCELLI, 2002)

considera que a perda de uma figura parental conduz sempre a um estado

depressivo importante, mesmo que o falecimento tenha sido há vários anos e

nesta faixa etária o processo de elaboração da perda de uma figura parental

faz-se num maior espaço de tempo que no adulto.

Numa investigação de Fahs e Marcelli (1994 apud MARCELLI,

2002), constatou-se que o falecimento de um dos pais aumenta o risco de

depressão major na adolescência, tanto nas raparigas, como nos rapazes.

Para Worden (1991) o que normalmente se sente, pensa e se faz

perante a perda de um ente querido, são sentimentos comuns no processo de

luto como:

1) Tristeza: O sentimento mais comumente encontrado no enlutado, muitas

vezes manifestando-se através do choro;

2) Raiva: Um dos sentimentos mais confusos para o sobrevivente, estando

na raiz de muitos problemas no processo de sofrimento após a perda; a raiva

advém de duas fontes: da sensação de frustração por não haver nada que se

pudesse fazer para prevenir a morte e de um tipo de experiência regressiva

que ocorre após a perda de alguém próximo (semelhante ao que acontece

quando uma criança se perde da mãe e no reencontro e mostra-se zangada

em vez de se mostrar feliz e ter uma reação de amor por a ver, devido à

ansiedade e pânico sentidos pela criança antes da mãe a encontrar) em que a

pessoa se sente indefesa, incapaz de existir sem o outro e experimenta a raiva

que acompanha estes sentimentos de ansiedade; formas ineficazes de lidar

com a raiva são deslocá-la ou direcioná-la erradamente para outras pessoas,

50

culpando-as pela morte do ente querido ou virá-la contra o próprio, podendo,

no extremo, desenvolver comportamentos suicidas;

3) Culpa e autocensura: Normalmente, e principalmente no início do

processo de luto, há um sentimento de culpa por não se ter sido

suficientemente bondoso, por não ter levado a pessoa mais cedo para o

hospital, etc.; na maior parte das vezes, a culpa é irracional e irá desaparecer

através do teste com a realidade;

4) Ansiedade: Pode variar de uma ligeira sensação de insegurança até um

forte ataque de pânico e quanto mais intensa e persistente for a ansiedade,

mais sugere uma reação de sofrimento patológica; surge de duas fontes: do

sobrevivente temer ser incapaz de tomar conta dele próprio sozinho e de uma

sensação aumentada da consciência da mortalidade do próprio;

5) Solidão: Sentimento freqüentemente expressado pelos sobreviventes,

particularmente aqueles que perderam os seus cônjuges e que estavam

habituados a uma relação próxima no dia a dia;

6) Fadiga: Pode, por vezes, ser experimentado como apatia ou indiferença;

um elevado nível de fadiga pode ser surpreendente e angustiante para uma

pessoa que é normalmente muito ativa;

7) Desamparo: Está freqüentemente presente na fase inicial da perda;

8) Choque: Ocorre mais freqüentemente no caso de morte inesperada, mas

também pode existir em casos cuja morte era previsível;

9) Anseio: Ansiar pela pessoa perdida, desejá-la fortemente de volta é uma

resposta normal à perda; quando diminui, pode ser um sinal de que o

sofrimento está a chegar ao fim;

10) Emancipação: A libertação pode ser um sentimento positivo após a

perda; por exemplo, no caso de uma jovem que perde o seu pai que era um

verdadeiro tirano e a oprimia por completo;

11) Alívio: É comum principalmente se a pessoa querida sofria de doença

prolongada ou dolorosa; contudo, um sentimento de culpa acompanha

normalmente esta sensação de alívio;

12) Torpor: Algumas pessoas relatam uma ausência de sentimentos; após a

perda, sentem-se entorpecidas; é habitual que ocorra no início do processo de

sofrimento, logo após tomar conhecimento da morte; pode ser uma reação

51

saudável bloquear inicialmente as sensações como uma espécie de defesa

contra o que de outra forma seria uma dor esmagadora e insuportável.

 Sensações físicas normalmente sentidas após a perda:

• Vazio no estômago;

• Aperto no peito;

• Nó na garganta;

• Hipersensibilidade ao barulho;

• Sensação de despersonalização (nada parecer real, incluindo o próprio);

• Falta de fôlego, sensação de falta de ar;

• Fraqueza muscular;

• Falta de energia;

• Boca seca.

 Cognições ou pensamentos habituais após a perda:

• Descrença (não acreditar na morte assim que se ouve a notícia);

• Confusão (pensamento confuso, não conseguindo ordenar os

pensamentos; dificuldade de concentração ou esquecimento de coisas);

• Preocupação (obsessão com pensamentos acerca do falecido);

• Sensação de presença (contraparte cognitiva do sentimento de anseio);

• Alucinações (visuais e auditivas; são uma experiência freqüente nos

enlutados; são normalmente experiências ilusórias passageiras, que

ocorrem habitualmente após poucas semanas da perda e normalmente

não provocam uma experiência de sofrimento mais complicada ou difícil)

 Comportamentos usualmente manifestados após a perda:

• Distúrbios do sono (insônias);

• Distúrbios do apetite (normalmente há uma redução, mas também pode

haver um aumento do apetite);

• Comportamentos de distração ("andar aéreo");

• Isolamento social;

• Sonhos com a pessoa falecida;

• Evitar lembranças da pessoa falecida;

• Procurar e chamar pelo ente perdido;

• Suspirar;

52

• Hiperatividade, agitação;

• Chorar;

• Visitar sítios ou transportar consigo objetos que lembrem a pessoa

perdida;

• Guardar objetos que pertenciam à pessoa falecida.

Após a perda de alguém que nos é querido, existe uma série de

tarefas de luto que têm de ser concretizadas para que se restabeleça o

equilíbrio e para o processo de luto ficar completo. Desta forma, a adaptação à

perda, de acordo com Worden (1991), envolve quatro tarefas básicas.

1) Aceitar a realidade da perda;

2) Trabalhar a dor advinda da perda;

3) Ajustar a um ambiente em que o falecido está ausente;

4) Transferir emocionalmente o falecido e prosseguir com a vida.

É essencial que o enlutado efetue estas tarefas antes do processo

de luto poder ser completado. Uma vez que o luto é um processo e não um

estado, estas tarefas requerem esforço e tal como uma doença pode não ficar

totalmente curada, também o luto pode ficar incompleto em algumas pessoas.

As quatro etapas de que Worden (1991) se refere são:

1. Aceitar a realidade da perda:

Quando alguém morre, mesmo sendo uma morte previsível, há

sempre um sentimento de que tal não aconteceu. Desta forma, a primeira

tarefa do sofrimento é apercebermo-nos da realidade de que a pessoa morreu

e que não irá voltar. O comportamento de busca relacionar-se diretamente com

a realização desta tarefa, consistindo, por exemplo, em chamar pela pessoa

perdida ou enganar-se na identificação de pessoas, confundindo-as com a

pessoa falecida.

O permanecer nesta tarefa pode dever-se a não acreditar na perda

através de um determinado tipo de negação (DORPAT apud WORDEN, 1991):

• Fatos da perda;

• Significado da perda;

• Irreversibilidade da perda.

Negar os fatos da perda pode variar em grau desde uma ligeira

distorção até um delírio em larga escala. Um exemplo bizarro de negação

53

através de delírio é os casos raros em que o enlutado mantém o corpo do

falecido em casa durante um número de dias, antes de notificar alguém acerca

da morte. Estas pessoas sofrem, na grande maioria, de psicoticismo,

excentricidade ou isolamento (GARDINER; PRITCHARD apud WOLDEN,

1991). O que acontece mais freqüentemente é a pessoa passar por uma

"mumificação" (GORER apud WORDEN, 1991), isto é, reter os bens materiais

do falecido e mantê-los tal como estavam para quando o falecido "regressar".

Algumas pessoas impedem a finalização desta tarefa negando que a

morte é irreversível. Uma estratégia utilizada para negar a finalidade da morte é

o espiritualismo. A esperança de reunião com a pessoa morta é o sentimento

normal, principalmente nos primeiros dias e semanas após a perda. Contudo, a

esperança crônica por tal reunião ultrapassa os parâmetros da normalidade.

Gorer (apud WORDEN, 1991 Mcgoldrick e Walsh (apud TAVARES,

2001, p. 420) diz ainda que “chegar a uma aceitação da perda leva tempo, pois

envolve não só uma aceitação intelectual, mas também emocional esta última

sendo mais morosa.” A crença e descrença alternam enquanto se permanece

nesta tarefa. Apesar de levar inevitavelmente tempo, os rituais tradicionais,

como o funeral ajuda muitos enlutados a avançarem na aceitação da perda.

2. Trabalhar a dor da perda:

Muitas pessoas experimentam dor física, bem como dor emocional e

comportamental associadas à perda. Uma vez que a pessoa em luto tem que

passar pela dor causada pela perda, de modo a fazer o trabalho do sofrimento,

então tudo o que permitir ao enlutado evitar ou suprimir essa dor irá muito

provavelmente prolongar o processo de luto (PARKES, 1998).

A negação desta segunda tarefa, a de trabalhar através da dor, é a

de não sentir. As pessoas podem boicotar esta tarefa da várias maneiras,

sendo a mais comum cortar com os sentimentos e negar a dor que está

presente.

De acordo com Bowlby (apud PARKES, 1998), mais cedo ou mais

tarde, a maioria dos indivíduos que evita o sofrimento consciente, acabam por

colapsar normalmente nalguma forma de depressão.

3. Ajustar a um ambiente em que o falecido está ausente:

54

Ajustar-se a um novo ambiente tem diferentes significados para

diferentes pessoas, dependendo da relação que se tinha com a pessoa falecida

e os vários papéis que ela desempenhava. Por exemplo, para muitas viúvas, o

tempo que leva para se aperceberem como é viver sem os seus cônjuges é

cerca de 3 meses após a perda. Além disso, em qualquer processo de luto é

muito raro saber-se exatamente o que é que se perdeu. No caso de uma viúva,

a perda de um marido pode significar a perdas de um parceiro sexual, um

companheiro, um contabilista, um jardineiro, etc., dependendo dos papéis que

eram normalmente desempenhados pelo seu marido (TAVARES, 2001).

A estratégia de coping de redefinir a perda de tal forma que pode

recair para o benefício do sobrevivente é normalmente parte do completamento

bem sucedido desta tarefa.

Para as pessoas que definem a sua identidade através das relações

e atenção que tem pelos outros, o processo de luto significa não só a perda de

um ente querido, mas também um sentimento de perda do self. Outra área de

ajustamento diz respeito ao sentido que a pessoa tem do mundo, pois a perda

pode pôr em causa várias crenças e desafiar valores fundamentais. Verifica-se,

assim, a existência de 3 áreas de ajustamento que se tem que fazer depois de

perder alguém que nos é próximo: ajustamentos externos (funcionamento

diário no mundo), ajustamentos internos (sentido do self) e ajustamento de

crenças (valores, crenças, considerações sobre o mundo). Além disso, não

desenvolvem as competências que precisam para lidar com a perda ou isolam-

se do mundo e não enfrentam as exigências que lhes rodeiam (SANDERS,

1999).

4. Transferir emocionalmente o falecido e prosseguir com a vida:

Uma pessoa nunca perde as memórias de uma relação significativa.

De acordo com Sanders (1999) o processo de luto termina quando o enlutado

deixar de ter uma necessidade de reativar a representação do falecido com

uma intensidade exagerada no quotidiano.

No caso da morte de um parceiro, a disposição para entrar em

novas relações está diretamente dependente de encontrar o espaço adequado

para o cônjuge na vida psicológica do enlutado, um espaço que seja

importante, mas que deixe espaço para outros (TAVARES, 2001).

55

Uma maneira de não completar esta tarefa é não amar. A pessoa

agarra-se ao vínculo que tem com o passado, em vez de seguir em frente e

formar novas vinculações. Algumas pessoas sentem a perda de uma forma tão

dolorosa que fazem um pacto com elas mesmas de nunca mais amarem.

Para muitas pessoas, esta é a tarefa mais difícil de alcançar,

ficando-se por vezes preso nela e só tomando consciência disso muito tempo

depois, verificando que as suas vidas estagnaram após a perda. De acordo

com Tavares, (2001), a sobre-idealização da pessoa falecida, um sentimento

de deslealdade ou o medo catastrófico de uma nova perda podem bloquear a

formação de novas vinculações e compromissos. Não obstante, esta tarefa

pode ser alcançada e a pessoa percebe que pode voltar a amar sem deixar de

amar a pessoa que perdeu.

4.3 Quando termina o processo de luto

Segundo Worden (1991), o processo de luto termina quando as

tarefas descritas supra são completadas. Quanto à duração do processo, não

existe uma resposta conclusiva, sendo impossível definir uma data precisa. No

entanto, quando se perde uma relação próxima é muito improvável levar menos

de um ano e para muitos casos dois anos ou até mais não é muito tempo. O

processo de sofrimento é muito variável, levando normalmente muito mais

tempo que aquele que as próprias pessoas esperam.

Além disso, cada nova estação, feriado ou férias e aniversário são

prováveis de revocar a perda (TAVARES, 2001).

Assim, verifica-se que o luto não é um processo que progride de

forma linear, podendo reaparecer para ser novamente trabalhado.

Sanders (1999) vai mais longe e defende que as regressões são

inevitáveis num processo de luto. Até mesmo quando o enlutado já passou

claramente para uma fase seguinte, a pessoa pode regressar a padrões

anteriores durante alturas estressantes ou de extrema fadiga. Esta experiência

é normalmente assustadora, pois a pessoa pode temer uma regressão

permanente. Pelo contrário, a regressão passa habitualmente assim que a

situação estressante termina ou quando a pessoa tiver descansado o

suficiente.

56

Um sinal de uma reação de sofrimento finalizada é quando a pessoa

consegue pensar no falecido sem dor e quando consegue reinvestir as suas

emoções na vida e nos vivos.

4.4 Teoria Integrativa do processo de luto, segundo Sanders.

Sanders (1999) baseou-se em teorias diversas, nomeadamente na

Teoria de Cannon, e socorreu-se da investigação empírica para construir um

modelo integrativo que pretende explicar a necessidade e o desenrolar do

processo de luto. De acordo com a autora, o processo de luto tem 5 fases:

1) Choque;

2) Consciência da perda;

3) Conservação-retirada;

4) Cura;

5) Renovação.

Cada uma das forças psicológicas que operam durante o processo

de luto tem um correspondente biológico que determina o bem-estar físico do

indivíduo.

Desta forma, na primeira fase, em que ocorre o choque, o enlutado

movimenta-se num estado confuso de descrença e está num intenso estado de

alarme. As emanações de adrenalina proporcionam a resistência física

necessária para levar a cabo os requerimentos ritualizados que se seguem à

perda. Além disso, esta fase também proporciona um torpor, ou seja, uma

espécie de anestesia dos sentimentos, que protege o enlutado de experimentar

a dor intensa que se vai seguir (TAVARES, 2001).

Na fase seguinte, há consciência da perda, ou seja, à medida que o

torpor começa a desaparecer o enlutado confronta-se com a perda que

ocorreu. A novocaína (substância produzida pelo corpo) abateu e com ela o

amortecimento temporário desvanece.

Sanders (1999) fala que à medida que este estado "dormente" face

à perda desaparece, o enlutado tem que enfrentar a agonia física e mental sem

o apoio adicional de um agente biológico de entorpecimento. A ansiedade de

separação torna-se predominante enquanto o enlutado prepara-se para o que

sente como um esgotamento nervoso. Os sentimentos de perigo predominam e

57

parece não haver um lugar seguro.

Na fase da conservação-retirada, a pessoa acaba por ter que se

retirar para salvar a pouca energia que lhe resta após as tremendas

emanações da fase anterior. Esta fase parece-se muito com a depressão,

podendo por isso assustar o enlutado. Uma grande fadiga oprime o enlutado e

ele sente dificuldade em executar até a mais simples das tarefas (SANDERS,

1999).

Apesar deste período aparentar ser debilitante, ele também tem um

valor libertador. Neste período de nojo, longe dos outros, o sobrevivente tem a

oportunidade para fazer o trabalho de luto necessário, ou seja, a ruminação e

preocupação com o falecido. O enlutado percebe que não há quantidade

suficiente de anseio ou concentração que possam trazer de volta a pessoa

perdida (TAVARES, 2001).

Desta forma, ele começa a perceber que são necessárias novas

abordagens, novas relações estabelecidas e uma nova vida construída. Numa

análise final, o trabalho do luto depende da aceitação da perda e das

conseqüentes mudanças na vida do enlutado. A força começa a regressar,

alcançando-se um ponto de viragem (SANDERS, 1999).

58

5 ELABORAÇÃO DO LUTO ATRAVÉS DA RELIGIOSIDADE

As religiões têm um papel muito importante para a humanidade,

principalmente quando o sofrimento e a dor se fazem presentes, oferecendo

acolhida e reflexão nestes momentos, orientando para uma vida responsável,

garantindo uma vida plena de felicidades. De uma forma ou de outra, todas

estão relacionadas com o sentido da vida, liberdade, justiça e direcionamento

da consciência (PESSINI, 1999).

Face a face com a morte, o consolo religioso tem sido oferecido às

pessoas, geralmente nos rituais fúnebres que objetivam nutrir esperanças,

sentidos e apreços sobre a vida. Porém, lidar com a morte como fenômeno

humano é mais do que um ritual que se esvai no decorrer dos tempos (NETO,

1997).

As definições da morte têm demonstrado uma variedade de matizes

que envolvem pressupostos sociais e também o sentido que as culturas dão à

vida. De qualquer forma, com as riquezas hermenêuticas que a vida nos

reserva, pode-se afirmar que a morte expõe a nossa condição de humanos e a

busca da imortalidade. Paradoxalmente, falar de morte expõe nossa estima ao

tempo que desfrutamos no dia-a-dia e do que escolhemos como forma de viver

(BARROS, 2000).

Para apreendermos todos os mistérios indivisíveis da religião, é

importante compreender a ligação desta com a cultura. Por definição, cultura é

a soma total dos conteúdos, modos de pensamentos e comportamentos que

distinguem os diferentes grupos de pessoas, e tendem a ser transmitidos de

geração a geração (BROMBERG, 1996).

Segundo os mesmos autores, é um conceito abrangente, marcado e

caracterizado pela história, religião, tradição, valores, sistemas de comunicação

e normas de conduta. Entre as inúmeras características associadas a cultura, é

a religião que detém maior importância.

De acordo com Barros (2000, p.5):

A religião é uma das dimensões mais importantes da vida humana, na medida em que, ela influência o sentido da vida e da morte, o modo como se encara o mundo e os homens, as alegrias e o sofrimento, o modo como se vive a vida familiar (atitude frente ao divórcio, ao

59

aborto, ao número de filhos, etc.), a maneira como se interpreta e vive a sexualidade, a tolerância ou o racismo, a política, a profissão.

A religião é como se fosse uma força ordenadora capaz de traduzir e

dar sentido à escuridão que rodeia a existência humana, e a luz que permeia

além de toda a compreensão. Elas se estruturam sobre as grandes idéias,

atitudes, rituais que as caracterizam, nomeadamente, a distinção entre o

sagrado e o profano, a noção de alma, de espírito, de personalidade mítica, de

divindade e ritos de expiação (NETO, 1997).

Ao abordar a religião, é muito importante deixar claro os conceitos

de religiosidade e espiritualidade.

Segundo Faria e Seidl (2005), a religiosidade define-se como a

adesão a crenças e práticas relativas a uma instituição religiosa organizada.

Por isso a religiosidade é um conceito que representa o estilo de vida de um

povo, as disposições morais e estéticas, o caráter e a visão do mundo.

Faria e Seidl (2005), falam ainda que, a espiritualidade, refere-se à

pessoa que acredita, valoriza ou tem devoção por algum poder considerado

superior, contudo, não possui necessariamente crenças religiosas ou devoção

por qualquer religião.

Ainda dentro da construção sobre a religiosidade, é relevante

discriminar religiosidade intrínseca de extrínseca.

De acordo com Neto (1997), a vertente intrínseca é um

compromisso, onde a religião é vista como um fim, vivida de modo não egoísta,

preocupando-se mais com os princípios do que com as conseqüências. O autor

diz ainda que quanto à vertente extrínseca, é a religião de conforto e

convenção social, é utilitária, serve a si próprio, subordina a religião a objetivos

não religiosos.

A religião e sua heterogeneidade vinculam em cada indivíduo um

estilo próprio e comportamentos religiosos diversos.

Neste sentido, Neto (1997), definiu experiência religiosa como

individual, uma vez que, perante a mesma crença, estão subjacentes

comportamentos distintos entre os indivíduos.

Quanto à crença religiosa que parece indissociável de qualquer

religião, Baltazar (2003), define-a com um conjunto de significações válidas,

que não são suscetíveis de descrição concisa, no entanto, organizam os ritos e

60

práticas religiosas.

Fazer a opção por determinado credo e defender determinadas

crenças e práticas, deverão cruzar com uma liberdade absoluta. Essa liberdade

deve incluir também a liberdade de não-crença, da expressão de ateísmos,

agnosticismos ou da simples indiferença frente aos valores religiosos.

Toda a pessoa que se afirma crente, apenas será, se efetivamente, a

sua conduta manifestar consonância com os pressupostos da própria crença.

Só quando há coerência entre a fé e a vida, é que uma pessoa é

verdadeiramente religiosa. “De contrário, diz-se ou parece religiosa, mas na

realidade não o é” (BARROS, 2000, p. 87).

Barros (2000), diz ainda que, os valores estatísticos sobre a crença

no além ou na vida eterna variam de nação para nação e dependem também

da religião dominante, bem como, da percepção da própria crença. As

mulheres e os iletrados de nível mais baixo que se mostram mais crentes,

quanto ao gênero e nível sociocultural, respectivamente.

Da mesma forma que toda a Humanidade se assume como diversa

historicamente, etnicamente e linguisticamente, o mesmo acontece na religião.

Para Silva (2004, p. 14):

Esta imensa diversidade persiste entre ateus e religiosos, entre formas distintas de religião (cristãos e budistas), entre ramos religiosos com pontos em comum (judeus e muçulmanos), entre expressões internas de uma mesma religião, e, entre expressões geográfico-históricas da mesma fé, como por exemplo, católicos espanhóis e católicos norte-americanos.

Toda esta diversidade e sua conseqüente disparidade na forma

como vivenciam a morte. No entanto, o aprofundamento deste aspecto não é

pertinente para este estudo.

5.1 Ateísmo

O ateísmo se refere a descrença em qualquer deus, deuses ou entidades divinas. Em termos gerais, o ateu é visto como alguém que aspira a objetividade e que recusa qualquer dogma (WIKIPÉDIA, 2006). Já Barros (2000), o ateísmo trata de uma opção contra a atitude religiosa.

Alguns estudiosos falam que existem várias espécies de ateísmo. De acordo com Barros (2000) existem oito tipos de ateísmos:

O ateísmo vulgar : toma forma nos slogans e preconceitos de Deus;

61

O ateísmo prático : onde o dinheiro, o prazer e o poder é que são os

verdadeiros deuses;

O ateísmo existencialista ou humanista : onde impera a crença de que

Deus tem que morrer para que o homem viva;

O ateísmo revoltado ou militante : que partiu da revolta de Nietzsche que

declarava morte a Deus;

O ateísmo ético : que se baseia na descrença em Deus pelo fato de existir

tanto mal e sofrimento no mundo;

Ateísmo científico : assente na idéia de que um dia a ciência e a

tecnologia substituirão Deus;

Ateísmo sociológico ou econômico : que se refere à religião como o ópio

do povo;

E o ateísmo psicológico : que deriva da concepção da religião como uma

“neurose obsessiva”, como uma “ilusão” sem futuro.

Os processos psicológicos mais presentes no ateísmo,

nomeadamente são a defesa contra o divino, na medida em que o divino e o

sagrado são tidos como ameaças. A valorização da razão já que Deus não se

opõe à razão e que não admite mistérios e nem verdades eternas, o mito do

filho rebelde, já que alguns lendários diziam que o homem é por natureza um

ser revoltado. E a legitimação do prazer (sexual ou não), por culpa de toda a

contestação da religião.

5.2 Cristianismo

Morto o paciente, acho cruel e inoportuno falar do amor de Deus.

Quando perdemos alguém, sobretudo quando tivemos muito pouco tempo para

nos preparar, ficamos com raiva, zangados, desesperados; deveriam deixar

que extravasássemos estas sensações (ROSS, 2000).

Teologias são construídas no cotidiano de cada um de nós, quando

nos desvelamos de capas endurecidas pela rigidez dogmática de uma

existência às vezes castradora. Aliás, alguns dogmas foram construídos

usando a imagem de um “Deus” distante, frio, calculista e terrífico. De outro

lado, expressões da teologia revelaram um Deus que está presente no viver e

no morrer, solidário, consolador, que segura nossa mão no momento “final”

62

(BARROS, 2000)

O falar sobre a morte no ambiente cristão vem imbuído de imagens

e conceitos vinculados à esperança. No mundo protestante, a morte está

relacionada com salvação e encontro com o divino. Busca- se, contudo, nas

palavras bíblicas, suporte para essa dimensão de vínculo entre morte e

salvação. A fé das pessoas expressa um arcabouço teológico de experiência

pessoal e familiar. Expressões como fé e liberdade também estão presentes na

conceituação de morte (ROSS, 2000).

Evidentemente, as diferenças nas concepções do Antigo e Novo

Testamento estão na dimensão cultural e teológica próprias de cada contexto.

Apesar das ideologias, da hermenêutica, da exegese – que espelham diferença

de cognição e sentido cristão de morte – a memória da morte e ressurreição de

Jesus Cristo revigora, em muitos cristãos e cristãs, a esperança da

continuidade da vida após a morte. Por vezes, confunde-se o conceito de

ressurreição com o de imortalidade (BARROS, 2000)

É importante destacar que, no cristianismo, falar sobre morte é

desvendar ruas e vielas culturais e antropológicas que influenciaram o

pensamento de cristãos/ãs. Na literatura cristã, encontramos uma riqueza de

saberes que se entrelaçam e buscam ajuntar os mais diversos

posicionamentos relativos à vida e à morte. Temas como perdão, vida eterna,

libertação, fé, podem acrescentar aprofundamentos no estudo sobre a

elaboração religiosa do luto (ROSS, 2000).

5.3 Budismo

No Budismo, não há uma autoridade central, sendo objetivo de todos

budistas a iluminação e, assim como o próprio Buda buscou o seu caminho,

cada pessoa pode traçar o seu. É uma filosofia de vida, o caminho da

sabedoria. A vida é transitória e a morte inevitável, e é importante deixar que

siga seu transcurso natural. Além disso, a morte perturba o processo dos

sobreviventes e não deve ser prolongada indefinidamente quando não houver

possibilidade de recuperação, mas, também, não deve ser apressada.

O momento da morte é fundamental (como se lê no Bardo Thodol -

O Livro Tibetano dos Mortos, apresentado ao mundo ocidental por Ewans-

63

Wentz, em 1960), pois o que governa o renascimento é a consciência e a

aprendizagem na hora da morte; por isto, é importante ter pensamentos

apropriados neste momento (PESSINI, 1999).

Como a morte é uma transição, o suicídio não pode ser visto como

escape, portanto, é condenado. Alguns suicidas foram perdoados por Buda,

quando este percebia que não eram atos egoístas, movidos pelos desejos, mas

sim, guiados pelo caminho da iluminação. Há um reconhecimento da sabedoria

das pessoas na determinação do fim desta existência e a passagem para a

seguinte. É importante considerar o momento da morte e a maneira como vai

ocorrer, a sua dignidade (PESSINI, 1999).

A vida não é divina e, sim, do homem, e a preocupação é com a

evolução da pessoa.

Morte:

O preceito básico dentro da doutrina budista é ter consciência da

impermanência e da morte. Parte-se da afirmação de que a morte é certa e que

precisamos nos preparar para ela, devemos, pois pensar diariamente no

sofrimento quer seja na hora do nascimento ou na hora da morte. O seguidor

do Budismo precisa dedicar sua vida à realização de seu Dharma e nunca

adiá-lo. É preciso tornar a vida significativa e fazer isso por meio da compaixão.

Eles visam uma paz e felicidade eterna, definitiva e não somente uma

prosperidade na vida atual, que é efêmera (PESSINI, 1999).

A consciência da morte leva a desprender-se de qualquer apego

material, uma vez que tudo fica, nada será levado desta vida e deste mundo.

Os prazeres mundanos são desprovidos de qualquer relevância.

Encontrar a essência da vida é libertar-se da doença, mortalidade,

decadência, medo. É a libertação completa. A onisciência é alcançada (NETO,

1997).

Ao se chegar no derradeiro dia de vida, nas últimas horas não

deve se ter nenhum tipo de arrependimento, remorso ou medo, pois a

negatividade na hora da morte pode levar o indivíduo a um próximo

renascimento inferior. Para "acalmar" o indivíduo é bom que se mostre imagens

de Budas ou bodhisattvas (KOVÁES, 1992).

Logo após a ocorrência da morte, os seres de mentes virtuosas

64

terão a sensação de passar de escuridão para a luz e não terão sofrimento. Os

seres dominados pelo desejo ou rancor terão alucinações e ansiedade.

Poderão sentir-se queimando ou adentrando à escuridão. Estas visões e

sensações nada mais são que adiantamentos acerca do futuro destes seres

(NETO, 1997).

Ao morrer, a pessoa ingressa no estado intermediário, o bardo.

Possui sentidos físicos completos e sua aparência corresponde à seu próximo

renascimento. Consegue ver através de objetos, viaja para qualquer lugar, mas

só são visíveis àqueles da mesma "categoria". O tempo neste estado

corresponde a sete dias (KOVÁES, 1992).

Uma questão sempre pendente é a existência ou não da vida

após a morte. Os Budistas crêem nela sim partindo de uma analogia da

evidência de que como o pensamento da infância, de anos atrás pode ser

recordado, existiu uma consciência anterior a atual. E o instante inicial da

consciência não pode vir de algo permanente ou inanimado. As recordações

são claras e conhecidas e estas não poderiam vir se não de uma existência

anterior (PESSINI, 1999).

O corpo pode agir influenciando a mente, mas não é a razão

primária de suas mudanças. Matéria não se torna mente e o contrário também

não se dá. Logo, a mente provém da mente (KOVÁES, 1992).

A mente da vida atual vem da mente da vida anterior e será a base

da mente da vida posterior.

5.4 Islamismo

Islamismo significa, literalmente, submissão a Deus. A vida humana

é sagrada e tudo deve ser feito para protegê-la; o mesmo vale para o corpo,

que não deve ser mutilado em vida ou depois da morte. É importante lavá-lo e

envolvê-lo em pano próprio, orar e depois enterrá-lo. Islam é uma palavra de

origem árabe que significa submissão, a submissão dos muçulmanos perante a

vontade de Deus, ou para eles, Allah. Allah, palavra de semítica, é o nome

correto para o Ser Superior, não varia nem em número nem em gênero. O

Islam não crê na idéia do Povo Escolhido segundo cor, classe ou território

(PESSINI, 1999).

65

Não se deve dizer que alguém se converte ao Islamismo, mas sim,

que se reverte, ou seja, retorna à origem, à religião universal, porque segundo

o profeta Muhammad (Maomé) todas as crianças nascem muçulmanas

(submissas a Allah), porém seus pais as conduzem a suas crenças pessoais.

Pessini (1999) fala que religião Islâmica é a apropriada para

direcionar o comportamento e regular as atividades humanas por principais três

motivos:

1) O Islam é a religião da humanidade;

2) O Islam é a religião verdadeira;

3) O Islam é a religião escolhida por Deus para Seus servos. Não

aceitando nenhum outro tipo de culto.

A Morte e a Aniquilação:

O enterro de um muçulmano dá-se da seguinte forma: seu corpo é

envolto no ihram e levado para a mesquita, onde se recitam preces fúnebres. O

respeito ao falecido leva que este seja enterrado o quanto antes num simples

túmulo marcado por um pequeno monte de terra (PESSINI, 1999).

Morrer significa separar-se da vida. A aniquilação é a total

eliminação de algo.

A morte humana é o ingresso para a vida eterna num outro mundo.

Morrer não significa término da existência, mas o começo da eternidade. A vida

terrena precisa ser aniquilada em favor da vida eterna (PESSINI, 1999).

Neto (1997), Tudo tende a ser aniquilado e destruído. E com o

mundo assim também acontecerá. Vemos isto comprovar-se através da

existência de terremotos, meteoros, vulcões, torrentes, ventos assoladores,

estrondos e chuvas de pedras. Muitos povos anteriores sofreram a sua

aniquilação a partir destes acontecimentos e estes mesmos são uma breve

amostra do que será o Dia da Ressurreição.

A Ressurreição e o Juízo Final:

Ressurreição é o retorno a uma vida nova após a morte. Parece um

tanto impossível, mas segundos os muçulmanos, Deus deu-nos provas de que

a ressurreição é possível, afinal, foi Ele quem criou os homens, pode então dar-

nos novamente a vida; Ele criou o homem da terra na primeira vez, portanto

ainda que o corpo morto vire terra, pode haver ressurreição; Deus é onipotente

66

e seu poder é ilimitado (NETO, 1997).

No Dia da Ressurreição (Ya Umul Haxr), quando a trombeta soar

pela primeira vez, tudo sumirá, exceto Deus que irá ressuscitar o Anjo Israfil

que tocará a trombeta pela segunda vez, onde haverá a ressuscitação de todos

os mortos, começando pelo profeta Muhammad que há de se levantar primeiro.

Os mortos retornarão assim como morreram, por exemplo, os mártires volverão

ensangüentados; e todos ressuscitarão nus (PESSINI, 1999).

A Vida após a Morte e a Eternidade:

Deus registra as ações de todos os seres: seus atos, suas palavras,

as expressões faciais que transmitem sentimentos, a má influência sobre o

comportamento de outrem. Cada humano terá de passar pelo julgamento

divino após morrer (KOVÁES, 1992).

Na balança dos atos são levados em conta a juventude, a velhice,

a riqueza, a pobreza, a sabedoria e a ignorância, pois estes fatores são

capazes de modificar a intenção e o peso da ação praticada (PESSINI, 1999).

Não se deve utilizar de mentiras, esquemas ou tomarmos algo

que não é nosso para si, pois isto também será julgado no Dia da Ressurreição

(NETO, 1997).

Eternidade refere-se a longa duração, algo perpétuo. Os bons e

crentes vão para os Jardins do Éden e os maus e descrentes vão para o

inferno tendo penosos castigos (PESSINI, 1999).

O Islam entende que para a prática do bem acontecer, existem três

fatores primordiais: a obrigação (o homem nasceu para fazer o bem), o

estímulo à divulgação do bem entre os muçulmanos e a recompensa (o

objetivo comum a todos) (NETO, 1997).

Deus criou os homens e incumbiu-os de serem responsáveis por

seus atos; uns foram bem, outros mal. Por isso, é preciso ter outra vida para

recompensar o virtuoso e para castigar o malvado (PESSINI, 1999).

Outra evidência que justifica a existência de outra vida é a curta

estada do ser humano no mundo (KOVÁES, 1992).

Crer ou não na vida após a morte é fator chave para a conduta do

indivíduo, isto é capaz de regular sua vida. Se crê, sabe que sua vida eterna

será um recompensa, o verdadeiro sucesso dado por Deus (PESSINI, 1999).

67

O Islam ordena que o homem faça caridade para agradar a Deus,

que diga sempre a verdade e exige a transformação e desenvolvimento moral

do homem através dos ensinamentos morais do Alcorão. Isso tudo é capaz de

tornar o homem responsável por suas ações, tendo assim como encarar Deus

frente à Ressurreição (NETO, 1997).

A vida após a morte tem duas fases: a primeira (Alamul Barzakh) é a

que vai desde a morte até a ressurreição e a segunda (Alamul Mahshar) é a

que vai da ressurreição até o destino final eterno (PESSINI, 1999).

Fazer prece (duá) para os mortos muçulmanos e fazer caridade em

seu favor é benévolo: alivia um possível castigo (Azah) ou contribui para a

elevação de seu grau (KOVÁES, 1992).

5.5 Espiritismo

Assim como em todas as religiões, o Espiritismo também é

fragmentado em algumas doutrinas diferentes. O espiritismo de cunho

politeísta é derivado das primeiras religiões vindas da África, sendo os cultos

mais conhecidos o da Umbanda, Candomblé e Quimbanda. A abordagem dos

próximos itens será segundo o espiritismo monoteísta, a doutrina de Allan

Kardec, o Kardecismo (KOVÁES, 1992).

Os espíritas caracterizam-se principalmente pela existência de um

Centro Espírita, onde há a comunicação com os mortos através de médiuns.

Este Centro pode ser um Terreiro ou um Centro de Mesa, onde são realizadas

as sessões kardecistas (KARDEC, 1986).

A Vida e a Morte:

O fator morte dos seres é o esgotamento de seus órgãos. A

matéria se decompõe, toma nova forma e o princípio vital retorna à massa. O

fluido vital pode ser passado de pessoa para pessoa. Os que possuem mais

podem ceder aos que tem menos, podendo restabelecer uma vida que estava

a se esvair (ELIADE, 1979).

A vida do Espírito é eterna, a vida do corpo é apenas uma

transição, está de passagem. Assim que o corpo morre, a alma volta à vida

eterna, mas essa separação não causa sofrimento ao corpo, em casos, é até

68

um alívio ao Espírito que tenha sofrido muito em vida (KARDEC, 1986).

O desligamento do perispírito é mais lento para aqueles que tiveram

uma vida mais de apego ao material e sensual, enfim, quando o espírito sente

afinidade pelo corpo e para aqueles que tiveram uma elevação no pensar, uma

vida intelectual e moral, investindo já em vida em sua libertação, o

desprendimento é quase instantâneo (ELIADE, 1979).

De acordo com Pessini (1999), a afeição, o Espírito reencontra os

parentes e amigos, enfim, pessoas que tiveram afinidades em vida vêm o

receber de volta ao mundo dos Espíritos e ajudam a separá-lo dos laços da

matéria. Mesmo porque alguns ficam perturbados, tem dificuldade em aceitar

ou demoram a entender que já estão mortos: isso varia com o grau de

elevação.

Essa perturbação pode levar horas, dias meses ou até anos.

Geralmente nas mortes violentas, o Espírito se espanta custa a entender sua

condição (KARDEC, 1986).

A alma:

A união da alma ao corpo inicia-se na concepção, onde o espírito

adquire um laço de fluido com o corpo que vai habitar e que está se formando.

Esse laço vai se estreitando à medida do crescimento do feto. O grito do

nascimento anuncia que o processo se completou e que a criança está entre os

vivos (KARDEC, 1986).

Assim que ocorre a morte, a alma regressa ao mundo dos espíritos,

de onde tinha saído momentaneamente para mais uma encarnação (ELIADE,

1979).

Os espíritos mantém sua individualidade através do Perispírito, ou

seja, um fluido próprio que retém um pouco da atmosfera de seu planeta e

também a aparência da mais recente encarnação. É um envoltório semi-

material e não acaba com a morte do corpo, apenas se separa deste

gradualmente.

Morrer ainda criança pode significar o complemento de uma vida

anterior interrompida ou ainda uma prova para os pais. A alma desta criança

pode até ser até mais avançada do que de um adulto, pois pode ter progredido

mais (KARDEC, 1986).

69

As pessoas que possuem uma perversidade nata são espíritos

inferiores. O mesmo espírito pode encarnar tanto como homem quanto como

mulher.

Os pais não repassam porções de suas almas aos filhos porque a

alma é indivisível. Um filho pode ter uma conduta moral extremamente

diferente da dos pais. O dever dos pais é desenvolver o espírito dos filhos

através da educação (ELIADE, 1979).

A reencarnação:

A reencarnação é necessária para a purificação da alma que busca

a perfeição. Todas as almas precisam passar por várias existências corporais,

porém o número de vezes irá depender da velocidade do progresso espiritual.

Sua função e objetivo são a remissão das faltas pelo sofrimento, o

aprimoramento da Humanidade. Após chegar de sua última encarnação, o

Espírito torna-se o bem-aventurado, um Espírito puro (ELIADE, 1979).

Todos os Espíritos tendem a perfeição e Deus lhes proporciona

isso através das provas em várias vidas, dando a oportunidade de realizar em

uma outra vida o que não puderam ou conseguiram concluir numa existência

anterior.

Não é possível para um Espírito regredir numa vida posterior. Os

espíritos estão sempre progredindo, mas isso não significa que não possa

descer na escala social. Porém, como esse é um processo "evolutivo", um

homem mal pode reencarnar como um homem de bem, visto que ele pode ter

se arrependido e ganho uma recompensa (ELIADE, 1979).

O corpo de uma nova encarnação não possui relação com o

anterior. Apesar de que o Espírito se reflete sobre o corpo principalmente sobre

o rosto, daí então é bem certo se dizer que os olhos são o espelho da alma

(KARDEC, 1986).

As idéias inatas nada mais são do que uma lembrança de

conhecimentos de encarnações anteriores (KARDEC, 1986).

O intervalo das reencarnações varia muito. Geralmente é longo,

de horas a séculos, porém alguns poucos reencarnam imediatamente.

Depois da exposição das versões da morte de cada religião acima

descrita, foi possível perceber e teorizar de que há uma verdadeira correlação

70

entre todas elas.

71

6 CONSIDERAÇÕES FINAIS

O processo do luto implica a cura de uma ferida que se abre, sendo

a causa do trauma, perder, entristecer, entre outras marcas muitas

significativas em nossas vidas.

Somos indivíduos reprimidos pelo proibido e pelo impossível,

procurando se adaptar a nossos relacionamentos extremamente imperfeitos.

Vivemos de perdas e abandonos. E mais cedo ou mais tarde, com maior ou

menor sofrimento, todos nós compreenderemos que a perda é, sem dúvida,

uma condição permanente da vida humana. Lamentar é o processo de

adaptação às perdas da nossa vida.

Mas pode haver também um fim para a lamentação. Como

lamentamos, quando e como nossa lamentação vai terminar, depende do modo

como sentimos nossa perda, depende da nossa idade e da idade de quem

perdemos, depende do quanto estamos preparados para isso, de como a

pessoa sucumbiu à mortalidade, das nossas forças interiores e do apoio

externo.

Também, sem o menor rastro de dúvida, da nossa própria história –

nossa história ao lado da pessoa que perdemos e nossa história individual de

amor e de perda. E, aparentemente, todos concordam que passamos por fases

de mudanças em nossas vidas e fases sobrepostas na nossa lamentação,

sendo que esta nos abala consideravelmente se tratando de uma criança ou

adolescente em fase de desenvolvimento, que perde um pai ou uma mãe. Mas

mesmo que esta dor, a qual não se tem tamanho para expressar e depois de

mais ou menos um ano, às vezes até menos, porém geralmente tendendo-se a

mais, ”completamos” a parte principal do processo.

Muitos podem encontrar dificuldades em aceitar a idéia de fases na

dor da perda e se revoltar. É como se desse uma receita detalhada para o

sofrimento perfeito. Mas se pudermos aceitar a idéia dessas fases, não como

algo pelo qual nós ou outras pessoas devemos passar, mas como algo que

pode iluminar o que nós ou os outros passamos ou estamos passando e,

assim, talvez seja possível compreender por que a dor passa a ser não um

estado, mas um processo.

72

Podendo entender então como se caracteriza a condição do luto

pelo o que falta numa elaboração normal do luto patológico, quando se

agregam a esta suas respectivas complicações. A perda dispara uma

ambivalência nas relações afetivas. Estes disparados vêm a desencadear o

luto patológico, eternizando pela culpa, por ter desejado a perda do objeto ou

se culpar pela perda vivida. A culpa é uma expressão de conflito entre os

instintos de vida e morte, mesmo sabendo que a culpa nem sempre se

manifesta na consciência.

Em decorrência disso, as pessoas buscam ajuda espiritual na

religião e na igreja. Elas acreditam que, a religião é um forte ponto de apoio

para que a elaboração do luto seja de uma maneira ou de outra, confortável.

O encontro entre rituais que adentram no universo simbólico das

pessoas enlutadas viabiliza uma perspectiva salutar no cuidado das pessoas

diante da morte. A existência de um espaço do pesar, com pessoas que

professam uma fé ou crença religiosa, é um aparato comunitário para

elaboração do luto.

Somando a isso, a presença de cuidados pastorais no cotidiano da

pessoa enlutada, das pessoas no pós-morte, permite a inserção do espaço

religioso no processo humano do morrer.

Dessa maneira, pode-se ressignificar o processo do luto e a

discussão sobre o tema da morte como parte do sentido que é dado à vida.

73

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