Peroxissomos - Apostilas - Biotecnologia, Notas de estudo de Biotecnologia. Universidade de São Paulo (USP)
Raimundo
Raimundo15 de Março de 2013

Peroxissomos - Apostilas - Biotecnologia, Notas de estudo de Biotecnologia. Universidade de São Paulo (USP)

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Apostilas de Biotecnologia sobre o estudo dos Peroxissomos, reações quimicas, metabolismo de lipideos, síntese de plasmalogênio.
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30 Peroxissomos Ao fi nal desta aula, você deverá ser capaz de: • Caracterizar os microcorpos em termos históricos, morfológicos e bioquímico. • Evidenciar a importância evolutiva dos peroxissomos. • Descrever a biogênese de peroxissomos. • Relacionar os peroxissomos às funções celulares de: — detoxifi cação — oxidação de lipídeos; — germinação de sementes; — fotossíntese pela via C4; — síntese de lipídeos. • Relacionar peroxissomos e doenças hereditárias.

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OBJETIVOS Pré-requisitos Metabolismo mitocondrial.

Fotossíntese.

Lipídeos de membrana.

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Biologia Celular I | Peroxissomos

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INTRODUÇÃO No início da década de 60, a combinação de observações ao microscópio

eletrônico com métodos bioquímicos levou à descoberta de um novo tipo de

organela capaz de produzir peróxido de hidrogênio (água oxigenada) e usar

a enzima CATALASE para gerar água e oxigênio mais adiante (Figura 30.1).

Denominadas inicialmente microcorpos, a presença de enzimas oxidativas e a

produção de peróxido de hidrogênio levou os pesquisadores a criar o termo

peroxissomos para designar essas organelas de formato geralmente esférico,

medindo cerca de 0,5µm de diâmetro.

O PEROXISSOMO É CAPAZ DE PRODUZIR ENERGIA A PAR- TIR DE REAÇÕES QUÍMICAS?

Os peroxissomos diferem das mitocôndrias e dos cloroplastos

em vários aspectos:

• são envolvidos por apenas uma membrana;

• não possuem DNA próprio;

• as reações oxidativas que nele se processam não levam à produ-

ção de moléculas energéticas, como ATP e NADH.H+.

ENTÃO POR QUE ELES ESTÃO INCLUÍDOS NO MÓDULO DE ORGANELAS COM ORIGEM SIMBIÓTICA E PRODUTORAS DE ENERGIA?

Assim como mitocôndrias e cloroplastos, novos peroxissomos

surgem a partir do crescimento e da fi ssão de peroxissomos preexisten-

tes. Da mesma forma que essas organelas, os peroxissomos também

realizam reações de oxidação, o que deve ter sido fundamental para a

sobrevivência dos eucariontes primitivos e anaeróbios num planeta onde

o surgimento de bactérias fotossintéticas fez aumentar muito o teor de

oxigênio. Para esses anaeróbios, o oxigênio era extremamente tóxico. O

surgimento, talvez a partir da internalização de um procarioto, de uma

organela capaz de utilizar o O2, neutralizando assim seus efeitos, permitiu

a sobrevivência desses eucariontes primitivos. O estabelecimento dos

peroxissomos como organelas é bem anterior às mitocôndrias, por isso, os

peroxissomos já teriam transferido todo o seu DNA para o núcleo. Com

o estabelecimento da relação simbiótica que resultou na mitocôndria,

os peroxissomos se tornaram, num certo sentido, organelas obsoletas,

já que as mitocôndrias utilizam o oxigênio de uma forma muito mais

vantajosa para a célula, levando à produção de ATP.

CATALASE

(a) Os peroxissomos são capazes de oxidar moléculas (RH2), dando origem à água oxigenada (H2O2). (b) A H2O2 gerada é, a seguir, degradada a H2O e O2.

(a) RH 2 + O

2 → R + H

2 O

2

(b) 2H 2 O

2 → 2 H

2 O + O

2

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Então o peroxissomo é uma organela dispensável?

De forma alguma! Os peroxissomos continuam presentes em

todas as células eucariontes, desempenhando importantes funções de

detoxifi cação e metabolizando lipídeos. De acordo com o tipo celular, as

enzimas peroxissomais podem variar; assim, os peroxissomos formam,

na verdade, uma família de organelas com funções específi cas em tipos

celulares diversos.

A concentração de enzimas no interior dos peroxissomos pode

ser tão grande que elas chegam a se cristalizar (Figura 30.1). Veremos, a

seguir, a importância dos peroxissomos em diversos tipos celulares.

Figura 30.1: Grupo de três peroxissomos em hepatócito de rato. A enzima urato-oxidase forma um arranjo pára-cristalino em dois deles.

Possivelmente, você já sabe que tanto o fígado quanto os

rins são órgãos fundamentais para a neutralização e eliminação de

moléculas tóxicas que circulam em nosso sangue, sejam elas ingeridas

voluntariamente, como o álcool, ou produzidas pelo METABOLISMO

celular. As células desses órgãos são ricas em peroxissomos (Figura

30.2), e cerca de 25% do etanol consumido por uma pessoa é oxidado

a acetaldeído pelos peroxissomos. A água oxigenada gerada no processo

é posteriormente convertida em água pela ação da catalase.

O METABOLISMO DO ÁLCOOL

Diversas bebidas, como o vinho e a cerveja, são produzidas por

fermentação, isto é, leveduras convertem o açúcar contido nas

uvas e na cevada anaerobicamente

(glicólise) em piruvato e subseqüentemente em

acetaldeído e etanol. Nossos peroxissomos,

em especial os dos hepatócitos, se

encarregam de fazer o contrário, converter

etanol em acetaldeído e daí em piruvato, que

poderá ser utilizado pelas mitocôndrias

na produção de ATP. Entende-se, portanto,

porque o consumo habitual de álcool,

entre outros problemas ainda mais graves,

pode levar o indivíduo a engordar.

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Figura 30.2: As células hepáticas possuem grande quantidade de peroxissomos, importantes para que o organismo elimine substâncias tóxicas como o álcool e outras drogas.

METABOLISMO DE LIPÍDEOS

Uma das funções mais importantes das reações oxidativas que

ocorrem nos peroxissomos é a β-oxidação de lipídeos, que vem a ser

a quebra de cadeias de ácidos graxos. Nesse processo, que também

ocorre na matriz mitocondrial, as longas cadeias de ácidos graxos vão

sendo desmontadas pela remoção de dois átomos de carbono de cada

vez (Figura 30.3), dando origem à acetil-coenzima A (acetil-CoA). A

acetil-CoA produzida é exportada para o citossol, onde é reciclada em

novas reações de síntese, ou entra na mitocôndria, onde toma parte

no ciclo do ácido cítrico. Nas células dos mamíferos, a mitocôndria

também realiza β-oxidação, com a vantagem de que os produtos dessas

reações são utilizados na cadeia respiratória e no ciclo do ácido cítrico,

isto é, em última instância, produzem ATP. Em contrapartida, as células

vegetais e os fungos são completamente dependentes dos peroxissomos

para essas reações.

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Figura 30.3: Na β-oxidação, os carbonos são removidos em grupos de dois da cadeia de hidrocarbonetos, dando origem à acetil-coenzima A.

SÍNTESE DE PLASMALOGÊNIOS

A BAINHA DE MIELINA que reveste os neurônios (veja o box) é rica em

um tipo de fosfolipídeo chamado plasmalogênio. As primeiras etapas

da síntese dessas moléculas ocorre nos peroxissomos. Isso explica por

que muitas anomalias que afetam os peroxissomos resultam em doenças

neurológicas.

BAINHA DE MIELINA

O sistema nervoso dos animais é formado pelos neurônios, células capazes de captar e transmitir sinais para outros neurônios ou para as chamadas células efetoras (músculos e glândulas, por exemplo). As mensagens nervosas caminham longas distâncias entre o local onde são recebidas e o local onde serão repassadas. Para que esse sinal viaje com rapidez e segurança, isto é, para que não perca sua intensidade e não seja repassado a células às quais não está direcionado, os neurônios são envolvidos pelas células de Schwan. Estas se enrolam em torno do neurônio, formando camadas e mais camadas de membranas ricas em fosfolipídeos: a bainha de mielina (Figura 30.4), que atua como uma fi ta isolante, impedindo que ocorra um curto circuito entre neurônios que estejam muito próximos. Observe a fi gura a seguir e, caso persistam dúvidas, volte à aula de transporte ativo. Estudaremos mais sobre essa associação em Biologia Celular II.

Figura 30.4: A célula de Schwan forma um verdadeiro "rocambole" de membranas em torno do axônio do neurônio.

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IMPORTÂNCIA DOS PEROXISSOMOS PARA AS CÉLULAS VEGETAIS

A utilização dos ácidos graxos armazenados nas sementes em ger-

minação também depende da atuação dos peroxissomos na sua conversão

a açúcares que são utilizados nas primeiras etapas do desenvolvimento

da planta. Essas reações são conhecidas como ciclo do glioxilato, o que

levou esses peroxissomos a serem batizados de glioxissomas (Figura

30.5). As células animais, em contrapartida, são incapazes de converter

ácidos graxos em carboidratos.

Na Aula 29, você também viu (Figura 29.11) que o glicola-

to produzido no cloroplasto durante a fotorrespiração passa para o

peroxissomo, onde é convertido em glicina, e daí para a mitocôndria,

onde são produzidos CO2 e serina. Voltando ao peroxissomo, a serina

dá origem à glicina, que volta fi nalmente ao cloroplasto na forma de

glicerato. Um conjunto de reações complexo e metabolicamente inútil,

já que consome energia e produz CO2.

PAPEL DOS PEROXISSOMOS NO METABOLISMO DE AÇÚ- CARES EM PROTOZOÁRIOS

Além da denominação genérica de microcorpos, fazem parte dessa

família de organelas os peroxissomos propriamente ditos (que contêm

catalase), os glioxissomos das sementes e os glicossomos. Este último é

uma organela encontrada exclusivamente nos protozoários da família

dos tripanosomatídeos (Figura 30.6).

Figura 30.5: Nas sementes de vegetais, os glioxissomos contêm enzimas capazes de quebrar os lipídeos armazenados na semen- te e garantir as primeiras etapas de desenvolvimento do vegetal. [de WP Wergin, PJ Gruber & EH Newcomb, J. Ultrastruct. Res. 30 (1970)]

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Esses protozoários são todos parasitas e muitos são agentes de

doenças das quais você certamente já ouviu falar: a doença de Chagas,

a leishmaniose e a DOENÇA DO SONO.

Os glicossomos receberam este nome por concentrarem numa

organela nove das enzimas da via glicolítica, geralmente encontradas no

citoplasma nas outras células eucarióticas. Essa organela permite que os

parasitas utilizem a via glicolítica com grande efi ciência, o que compensa

o baixo rendimento energético dessa via anaeróbia.

Por que DOENÇA DO SONO?

Na tripanosomíase africana, ou doença do sono, os parasitas Trypanosoma gambiense ou T. rodhesiense se instalam no sangue do hospedeiro humano e roubam glicose diretamente do sangue dele. Como a via preferencialmente executada por esses protozoários para produção de energia é a glicolítica, a baixa de glicose no sangue do hospedeiro resulta na fraqueza e sonolência que dão nome à doença.

SÍNTESE E DUPLICAÇÃO DOS PEROXISSOMOS

Os peroxissomos são capazes de reações diferentes daquelas

executadas pelas mitocôndrias ou cloroplastos. Assim, seguem sendo

organelas essenciais, e mutações que afetem a correta síntese ou impor-

tação de proteínas peroxissomais resultam em graves anomalias para o

organismo afetado.

As proteínas peroxissomais são sintetizadas em ribossomos livres no

citoplasma e, mediante uma seqüência de endereçamento específi ca, direcionadas

para um peroxissomo preexistente que cresce e se divide (Figura 30.7).

Figura 30.6: Os glicossomas são organelas exclusivas dos tripanosomatídeos que contém enzimas da via glicolítica. Em (a) vemos um micrografi a eletrônica de Phytomonas davidi onde estão assinalados os glicossomas (g), a mitocôndria (M), o núcleo (N), o retículo endoplasmático (ER) e o corpo multivesicular (MVB). Em (b) vemos alguns glicossomas em grande aumento. São envoltos por uma membrana e seu conteúdo tem uma densidade semelhante ao dos peroxissomas de outras células. (Fotos: Márcia Attias)

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Figura 30.7: Acredita-se que novos peroxissomos se for- mam sempre a partir do crescimento e fi ssão de outros preexistentes. O crescimento depende da importação de proteínas peroxissomais produzidas no citossol e importadas pelas peroxinas.

Os detalhes do processo ainda não são bem conhecidos, mas

sabe-se que essas seqüências de endereçamento são reconhecidas por

proteínas do citossol que as importam para os peroxissomos. Já foram

identifi cadas e classifi cadas como peroxinas mais de 20 proteínas que

participam desse processo, que é movido pela hidrólise de ATP, isto é,

trata-se de um transporte ativo.

Diferentemente do que acontece na importação de proteínas em

mitocôndrias e cloroplastos, as proteínas peroxissomais são importadas

na sua forma fi nal, já enoveladas, como também é o caso das proteínas

exportadas para o núcleo. Também é curioso assinalar que a pex5 é uma

peroxina que, após conduzir sua carga para dentro do peroxissomo,

libera-a e volta para o citossol.

Então os peroxissomos são importantes mesmo?

Uma prova irrefutável da importância do correto funcionamento

dos peroxissomos é a síndrome de Zellwegger, doença hereditária na

qual a importação das proteínas peroxissomais é defeituosa, o que resulta

em peroxissomos vazios. Os indivíduos que nascem com esta síndrome

possuem graves anomalias em seu cérebro, fígado e rins, morrendo em

pouco tempo.

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RESUMO

Os peroxissomos são organelas pertencentes a uma família, a dos

microcorpos.

Os peroxissomos se caracterizam por possuírem enzimas oxidativas que dão

origem a peróxido de hidrogênio e catalase, enzima que converte esse peróxido

a água e O2.

Os peroxissomos participam na eliminação de substâncias tóxicas absorvidas

pelas células, do metabolismo de síntese e degradação de lipídeos e de

importantes vias metabólicas dos vegetais.

Embora não possuam DNA próprio, acredita-se que os peroxissomos surgiram

como endossimbiontes das células eucariontes primitivas, onde ajudaram a

neutralizar os efeitos tóxicos do acúmulo do O2 produzido pelas bactérias

fotossintéticas, sendo substituídos nessa função pelas mitocôndrias.

As proteínas dos peroxissomos são sintetizadas em ribossomos livres no citossol

e transportadas para a organela, já na sua forma final, pelas peroxinas.

Anomalias hereditárias que afetem a síntese ou endereçamento dos

peroxissomos resultam em sérias anomalias neurológicas, hepáticas e renais

que comprometem a sobrevida dos indivíduos afetados.

EXERCÍCIOS

1. Por que os peroxissomos têm esse nome?

2. Quais as principais diferenças entre peroxissomos e mitocôndrias e cloroplastos?

3. Por que os peroxissomos formam uma família de organelas?

4. Quais são as principais funções dos peroxissomos?

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