Psicologia transpessoal, Teses de Psicologia. Universidade Salvador (UNIFACS)
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Maryg2616 de Julho de 2016

Psicologia transpessoal, Teses de Psicologia. Universidade Salvador (UNIFACS)

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Psicologia Transpessoal um texto muito interessante para quem quer conhecer sobre essa teoria...
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508 O MundO da Saúde, São Paulo: 2010;34(4):508-519.

artigo de revisão / review article / discusión crítica

Psicologia Transpessoal e a Espiritualidade Transpersonal Psychology and Spirituality Psicología Transpersonal y Espiritualidad

Manoel José Pereira Simão*

RESumo: O presente artigo destaca como episódio importante na história da psicologia o fato de já ter ela nascido justamente com o intuito de refletir o homem e seus anseios, seu comportamento, quem ele é e de onde ele vem. E para que isso pudesse ter um teor mais amplo, para que pudesse servir como base de acesso a um número maior de pessoas, nesse percurso da psicologia desde a Grécia, a Idade Média, ela, no final do século XIX, se separa da filosofia. A Psicologia é a ciência dos fenômenos psíquicos e do comportamento. Entende- -se por comportamento uma estrutura vivencial interna que se manifesta na conduta.A teoria psicológica tem caráter interdisciplinar por sua íntima conexão com as ciências biológicas e sociais e por recorrer, cada vez mais, a metodologias estatísticas, matemáticas e informáticas. Não existe, contudo, uma só teoria psicológica, mas sim uma multiplicidade de enfoques, correntes, escolas, paradigmas e metodologias concorrentes, muitas das quais apresentam profundas divergências entre si.

PalavRaS-chavE: Psicologia transpessoal. Humanismo. Espiritualidade.

abSTRacT: Transpersonal Psychology has been considered the fourth force in psychology, after behaviorism, psychoanalysis and the humanist trend. It studies the states of consciousness and its application in health and education, and it understands humans as bio- -psycho-social-spiritual beings. It integrates in practice many consecrated exercises used in Western and Eastern psychology. In the health field it has advanced due to research in the areas of neuroscience, meditation, extended states of conscience and the understanding of phenomenological states of enteogenous substances. In Brazil, Psychologist Vera Saldanha developed the Transpersonal integrative approach aiming at integrating harmonically neuropsychic functions such as reason, emotion, intuition and sensation in order to pro- mote human evolution in clinical experience.

KEywoRdS: Transpersonal Psychology. Humanism. Spirituality.

RESumEn: A la Psicología Traspersonal se considera la cuarta fuerza en la psicología, después del behaviorismo, de la psicanálise y la corriente humanista. Ella estudia los estados de conciencia y su aplicación en la salud y educación, y abarca el ser humano como un ser bio-psico-socio-espiritual. Integra en su práctica numerosos ejercicios consagrados de la psicología occidental y oriental. En la salud, tiene obtenido progresos en función de investigaciones en el área de la neurociencia, meditación, estados ampliados de conciencia y comprensión de los estados fenomenológicos de las substancias enteógenas. En Brasil, la psicóloga Vera Saldanha ha desarrollado el abordaje integrativo traspersonal como para integrar funciones neuropsíquicas como la razón, emoción, intuición y sensación de forma harmoniosa, ofrecendo en la experiencia clínica la evolución del ser humano.

PalabRaS-llavE: Psicologia Transpersonal. Humanismo. Espiritualidad.

* Psicólogo, psicoterapeuta, educador. Mestre em Neurociências e Comportamento, USP. Pós-graduado em Psicologia e Saúde – Unimarco, Psicolologia Transpessoal, Cesblu e Transdisciplinaridade, ICPG. Vice-presidente da Associação Luso-Brasileira de Transpessoal – ALUBRAT. Presidente da UNIPAZ – Universidade da

Internacional da Paz – São Paulo. Membro do PROSER – Programa de Saúde Espiritualidade e Religiosidade do Instituto de Psiquiatria do HCFMUSP. Coordenador da pós-graduação em Psicologia Transpessoal em São Paulo.

Introdução

O momento que estamos atra- vessando está se caracterizando pela aceleração do processo de mudança, que teve início na Ida- de Moderna e tem se acentuado de forma excepcional nas últimas décadas. No século XXI este pro- cesso tende a se acelerar cada vez mais, exigindo que abordagem do ser humano seja mais profunda, es-

pecialmente na área da educação, nas organizações e na psicoterapia.

Um episódio importante na his- tória da psicologia é o fato dela já ter nascido justamente com o in- tuito de refletir o homem e seus an- seios, seu comportamento, quem ele é e de onde ele vem. E para que isso pudesse ter um teor mais am- plo, para que pudesse servir como base de acesso a um número maior de pessoas, nesse percurso da psi-

cologia desde a Grécia, a Idade Mé- dia, ela, no final do século XIX, se separa da filosofia.

A Psicologia é a ciência dos fenômenos psíquicos e do com- portamento. Entende-se por comportamento uma estrutura vi- vencial interna que se manifesta na conduta.A teoria psicológica tem caráter interdisciplinar por sua ín- tima conexão com as ciências bio- lógicas e sociais e por recorrer, cada

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vez mais, a metodologias estatísti- cas, matemáticas e informáticas. Não existe, contudo, uma só teoria psicológica, mas sim uma multi- plicidade de enfoques, correntes, escolas, paradigmas e metodolo- gias concorrentes, muitas das quais apresentam profundas divergên- cias entre si.

A psicologia pode ser dividida em quatro grandes correntes deno- minadas forças:

1ª Força: Behaviorismo ou Psicologia Comportamental – criada por John B. Watson. Refor- mulou os conceitos de consciência e imaginação, negando o valor da introspecção. Watson rejeitou tudo o que não pudesse ser mensurável, replicável ou observável em labora- tório. Segundo ele, somente o com- portamento manifesto era possível de ser validado cientificamente. Os estudos posteriores demonstraram que essa postura não era correta em alguns aspectos, mesmo assim os estudos de Watson foram deter- minantes para a expansão da psi- cologia.

2ª Força: Psicanálise – criada por Sigmund Freud, o estudo psi- canalítico focaliza prioritariamente a patologia e o extremo sofrimen- to diante da própria impotência e da limitação humana. Freud teve inúmeros seguidores e muitos de seus postulados sobre a psique continuam válidos e dão suporte às outras escolas que se desenvol- veram a partir da psicanálise. Freud também teve dissidentes que evi- denciaram outros aspectos impor- tantes da psique humana que ele não admitia.

3ª Força: Psicologia Huma- nista – surgiu nos Estados Unidos e na Europa, na década de 50, como reação explícita ao behaviorismo e a analogia entre o Ser Humano e a máquina e que colocava à margem do seu objeto de estudo os fatores afetivos e emocionais. Os huma- nistas reagiram a essa opção meto-

dológica pela exclusão da emoção, que consideravam inerente e fun- damental no ser humano. A visão do Ser Humano no humanismo é a de um ser criativo, com capaci- dades de auto-reflexão, decisões, escolhas e valores. Abraham Mas- low é considerado fundador desse movimento. A respeito da psicaná- lise Maslow afirmou que Freud se deteve na doença e na miséria hu- mana e que era necessário conside- rar os aspectos saudáveis, que dão sentido, riqueza e valor à vida. Uma das funções da forma humanista de se analisar a psicologia é resgatar o sentido da vida próprio da condição humana. Maslow afirmava que o homem seria um ser com poderes e capacidades inibidas. Adoecemos, não só por termos aspectos patoló- gicos, mas, muitas vezes, por blo- quearmos elementos saudáveis.

4ª Força: Psicologia Trans- pessoal – a partir das ideias da psicologia humanista surgiu a 4ª força. Maslow acreditava que vi- venciar o aspecto transcendente era importante e crucial em nossas vidas. Pensar de forma holística, transcendendo dualidades como certo, errado, bem ou mal, passa- do, presente e futuro é fundamen- tal. Maslow declarava que sem o transcendente ficaríamos doen- tes, violentos e niilistas, vazios de esperança e apáticos. Na segunda edição do livro “Introdução a Psi- cologia do Ser” Maslow anuncia o aparecimento da quarta força em psicologia - para além dos interes- ses personalizados, mais elevada e centrada no cosmo. Em 1968, ele concluiu: “Considero a Psicologia Hu- manista, a Psicologia da Terceira Força, transitória, uma preparação para uma Quarta psicologia ainda “mais forte”, transpessoal, transumana, centrada no cosmos e não em necessidades e nos interesses humanos, que vai além da condição humana, da identidade, da auto-realização, etc.” Algo maior do que somos e que seja respeitado

por nós, e ao qual nos entregamos num novo sentido não materialista. Vitor Frankl, Stanislav Grof, James Fadiman e Antony Sutich uniram- -se a Maslow e oficializaram, em 1968, a Psicologia Transpessoal, enfocando o estudo da consciência e o reconhecimento dos significa- dos das dimensões espirituais da psique. Esse evento foi anunciado por Antony Sutich, em seu artigo Transpersonal Psychology.

Portanto a psicologia trans- pessoal surgiu nos anos sessen- ta em resposta ao fato de que os principais modelos precedentes, as três primeiras forças da psico- logia ocidental, fossem limitados em seu reconhecimento dos níveis superiores de desenvolvimento psicológico. Motivações e com- portamentos voltados para a auto- -realização e a autotranscendência, e até a possibilidade de se atingi- rem esses objetivos, não podiam ter reconhecida a sua validade nas correntes anteriores, muito em- bora as psicologias não-ocidentais contivessem detalhadas descrições deles. As obras completas de Freud contêm mais de quatrocentas re- ferências à neurose e nenhuma à saúde. Por essas razões, alegava-se que os modelos comportamentalis- ta e psicanalítico, embora tivessem dado grandes contribuições, tam- bém produziram certas limitações para a psicologia e para os nossos conceitos de natureza humana.

O modelo transpessoal incor pora áreas que vão além das con cepções comuns do comportamen talismo, da psicanálise e da psicologia huma- nista. Mas, não é toda “a verdade”, e sim um quadro mais amplo do que os anteriores, devendo evoluir como todos os modelos anteriores.

Podemos conceituar Psicolo- gia Transpessoal como “o estudo e aplicação dos diferentes níveis de consciência em direção à unidade fundamental do ser. A visão de mundo, na transpessoal, é a de um

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todo integrado, em harmonia, on- de tudo é energia, formando uma rede de inter-relações de todos os sistemas existentes no universo¹.

A Psicologia Transpessoal tem como objeto de estudo os estados de consciência que transcendem a pessoa além do conceito de ego. É a Escola de Psicologia que pesquisa num nível científico a espiritua- lidade. Entretanto, é importante frisar que a Psicologia Transpessoal não é religião, nem parapsicologia, apesar de se interessar e investigar, quando necessário estes aspectos e contextos da experiência humana.

O termo transpessoal foi adotado depois de uma considerável delibe- ração para abranger os relatos de pessoas praticantes de várias disci- plinas da consciência que falavam de experiências de uma extensão da identidade para além da indivi- dualidade e da personalidade. Des- se modo, não se pode considerar a psicologia transpessoal um mo- delo de personalidade em termos estritos, porque a personalidade é tida como apenas um dos aspectos da nossa natureza psicológica. “A psicologia transpessoal é, antes, um instrumento de pesquisa da natureza essencial do ser”. Sendo referendado, pela primeira vez, na área da psicologia, por Carl Gustav Jung, utilizando a palavra überper- son, em 1916, e uberpersönlich, em 1917, que significam supra pessoa e supra pessoal respectivamente².

Vera Saldanha, psicóloga, pio- neira no estudo e prática da Trans- pesssoal no Brasil em sua tese de doutorado na Unicamp refere ao formalizar sua investigação em Transpessoal que se deparou com uma literatura vasta em transpes- soal. Sua primeira necessidade foi distinguir alguns conceitos que in- cluem: o movimento, a experiência e as disciplinas. Para ela o movimen- to transpessoal integra as diversas disciplinas que se dedicam à inclu- são e ao estudo das experiências

transpessoais, fenômenos correla- tos a suas aplicações. A experiência transpessoal, pode definir-se como “aquela em que o senso de identi- dade ou do eu ultrapassa (trans + passar = ir além) o individual e o pessoal a fim de abarcar aspectos da humanidade, da vida, da psiquê e do cosmo” (p. 17)³. Em relação às disciplinas temos a Psiquiatria Transpessoal a qual se concentra no estudo das experiências e fenô- menos transpessoais, enfocando, particularmente, seus aspectos clí- nicos e biomédicos. A Antropologia Transpessoal a qual refere-se ao es- tudo transcultural dessas experiên- cias e da relação entre a consciência e a cultura; a Sociologia Transpes- soal estuda as dimensões e expres- sões sociais desses fenômenos e a Ecologia Transpessoal aborda as re- percussões e aplicações ecológicas dos mesmos.

A Psicologia Transpessoal é o estudo e prática psicológica des- sas experiências na saúde, edu- cação, organizações, instituições, incluindo não só sua natureza, variedades, causas e efeitos, seu desenvolvimento, bem como a sua manifestação na filosofia, arte, cul- tura, educação, religiões.

Todavia, é importante observar o que essas definições não determi- nam, não excluem o pessoal; não o invalidam; enquadram-no dentro de um contexto mais amplo, o qual reconhece a importância de ambas as experiências pessoais e trans- pessoais; também não prendem as disciplinas transpessoais a nenhu- ma filosofia, religião ou visão do mundo específica, nem restringem a pesquisa a um determinado mé- todo (p. 17)3.

A Psicologia transpessoal está voltada para a expansão do cam- po de pesquisa psicológica a fim de incluir o estudo da saúde e do bem-estar psicológico ótimos. Ela reconhece o potencial da vivência de uma ampla gama de estados de

consciência, em alguns dos quais a identidade pode estender-se para além dos limites usuais do ego e da personalidade.

Pierre Weil4, importante psi- cólogo francês, radicado no Brasil desde a década de 50, postula al- guns princípios epistemológicos que fundamentam a psicologia Transpesssoal: a) existem sistemas energéticos

inacessíveis aos nossos cinco sentidos, mas registráveis por outros sentidos;

b) tudo na natureza se transfor- ma e a energia que a compõe é eterna;

c) a vida começa antes no nasci- mento e continua depois da morte física;

d) a vida mental e espiritual forma um sistema suscetível de se des- ligar do corpo físico;

e) a vida individual é inteiramente integrada e forma um todo com a vida cósmica;

f) a evolução obtida durante a existência individual continua depois da morte física;

g) a consciência é energia, que é vida, no sentido mais amplo: não apenas a vida biológica, fí- sica, mas também a da nature- za, do Espírito, a vida-energia, infinita na suas mais diferentes expressões.

Weil5 especifica distintas áreas de aplicação nas disciplinas com orientação transpessoal: a) por educação transpessoal com-

preendemos o conjunto dos métodos que permitem desco- brir ou revelar o transpessoal dentro do ser humano;

b) por psicoterapia transpesso- al, entendemos o conjunto de métodos de tratamento das neuroses pelo despertar do transpessoal, e das psicoses pela exteriorização do transpessoal semi potencializado;

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c) por terapia transpessoal desig- namos o conjunto de métodos de restabelecimento da saúde pela progressiva redução da ilusão da existência de um “eu” separado do mundo (p. 16)5 .

A psicologia transpessoal leva em consideração todo Ser Huma- no como um ser único, que jamais pode ser comparado com outro Ser Humano. Ela considera o indivíduo e os grupos a que ele pertence. De- vido à sua atitude abrangente e à sua natureza transpessoal, ela não nos leva a pensar que estejamos em condição de superioridade ou acima das outras pessoas. Podemos respeitar nossos desejos e empre- gar nossos poderes, mas não à custa dos outros. A psicologia transpes- soal não avalia com rigidez nem rotula as pessoas, e espera-se que nenhum de nós venha a agir dessa forma.

Reconhece o fato de que esta- mos em constante crescimento. Essa perspectiva auxilia-nos a resti- tuir sentido e valor à vida, e ajuda- -nos a determinar o que somos e o que desejamos. Também pode con- tribuir para a percepção de nossas responsabilidades pessoais e para com o mundo como um todo. Pode acrescentar um sentido de perso- nalidade dinâmico ao momento presente e a sensação de sentido à nossa existência e ao nosso futuro.

No mundo moderno, mui- tas pessoas sofrem de uma ou de ambas as principais crises atuais. Primeiramente, existe a “crise do sentido da vida”. Em especial no Ocidente mas se proliferando por todo o planeta, muitos vivem num vazio existencial, a vida não apre- senta um sentido (além do pura- mente material). A psicologia e a educação transpessoal contribuem para a cura dessa enfermidade. A segunda crise é a da dualidade - não nos percebemos como enti- dades completas e únicas, estamos constantemente divididos entre di-

versos desejos e vontades. Vivemos nos comparando com outras pes- soas ou situações numa atitude du- alista. A psicoterapia e a educação transpessoal atuam na cura desta crise ao nos direcionar à harmonia e ao equilíbrio essenciais.

Às vezes, experiências correla- cionadas com um declínio de uma psicopatologia e com a restauração da saúde psíquica podem muito bem expor experiências subjetivas que ultrapassam e muito os chama- dos limites normais do ego. William James já o havia notado em fins do século passado. O resultado de muitas destas pesquisas, muitas de- las envolvendo psiquiatras e psicó- logos famosos, levantou uma séria questão: seria possível que algumas das distinções que mantemos entre nós mesmos e o resto do mundo se- jam arbitrárias e/ou culturalmente condicionadas? Talvez a consciên- cia humana seja um vasto campo ou espectro, semelhante ao espec- tro eletromagnético, onde cada “frequência” expressaria um mo- do de percepção, muito mais que um conjunto firme de traços ou características rigidamente defini- das de expressão, já que em certas experiências – algumas delas en- volvendo psicodélicos ou drogas psicoativas – a consciência do sujei- to parece abranger elementos que não têm nenhuma continuidade com sua identidade do ego usual e que não podem ser considerados simples derivativos de suas expe- riências no mundo convencional.

Vejamos esta descrição, feita por Stanislav Grof, de experiências correlacionadas com o declínio de uma patologia (p.168)6 : “No estado de consciência ‘nor-

mal’ ou usual, o indivíduo se experimenta existindo dentro dos limites de seu corpo físi- co (a imagem corporal), e sua percepção do meio ambiente é restringida pela extensão, fisi- camente determinada, de seus

órgãos de percepção exter- na; tanto a percepção interna quanto a percepção do meio ambiente estão confinadas den- tro dos limites do espaço e do tempo. Em experiências psico- délicas de cunho transpessoais, uma ou várias destas limita- ções parecem ser transcendi- das. Em alguns casos, o sujeito experiencia um afrouxamento de seus limites usuais de ego e sua consciência e autopercep- ção parecem expandir-se para incluir e abranger outros indi- víduos e elementos do mundo externo. Em outros casos, ele continua experienciando sua própria identidade, mas numa percepção de tempo diferente, num lugar diferente ou em um diferente contexto. Ainda em outros casos, o indivíduo po- de experienciar uma completa perda de sua própria identidade egóica e uma total identificação com a consciência de uma ‘ou- tra’ entidade. Finalmente, nu- ma categoria bastante ampla destas experiências psicodéli- cas transpessoais (experiências arquetípicas, união com Deus, etc.), a consciência do sujei- to parece abranger elementos que não têm nenhuma conti- nuidade com a sua identidade de ego usual e que não podem ser considerados simples deri- vativos de suas experiências do mundo tridimensional”6.

Outro autor de importância para o desenvolvimento da Psi- cologia Transpessoal é Assagioli 7. Ele é o criador da psicossíntese, que é um tipo de resposta ao método fragmentar da psicanálise, onde está clara a responsabilidade do indivíduo no processo do próprio crescimento, que é um impulso constante em todas as pessoas, ape- sar de relativamente tênue, embo- ra poucas se dêem a chance de se desenvolverem plenamente.

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A cartografia de Assagioli7 so- bre a personalidade humana tem muito em comum com o modelo Junguiano da psique, uma vez que inclui os campos espirituais e os elementos coletivos da psique. Ele se constitui de sete constituintes dinâmicos: o inconsciente inferior orienta as atividades psicológicas básicas, como as pulsões sexuais e os complexos emocionais. O in- consciente médio seria algo como o subconsciente. O campo super- consciente é o local dos sentimen- tos e aptidões superiores, onde se localizam a intuição e a inspiração. O campo da consciência inclui os pensamentos e sentimentos anali- sáveis. O ponto central da psique é o Self. Todos esses componentes são anexados ao inconsciente coletivo.

O processo terapêutico fun- damental da psicossíntese envol- ve quatro estágios consecutivos. Primeiro, o cliente toma conhe- cimento dos vários elementos (didaticamente falando) de sua personalidade, o que inclui seu ego ideal e o seu ego real, com todos os defeitos que a pessoa gostaria de suprimir. Depois que estiver bem familiarizado com eles, ele terá que começar a se desindentificar com esses elementos (conhecer-se a si mesmo e perceber que suas várias características são apenas carac- terísticas, não o fundamento do ser, ou self). Depois que a pessoa descobre seu centro psicológico unificador, é possível a realização total da psicossíntese, caracteriza- da pela culminância do processo de auto-realização pela integração dos componentes da personalidade à volta do novo centro, o self.

Apesar de não ser incluído, pe- la maioria dos autores, como um psicólogo transpessoal, mas como um dos mais significativos psicó- logos humanistas, não escapou à Rogers 9 as chamadas dimensões transcendentes ou espirituais que frequentemente emergiam no con-

texto terapêutico, especialmente em termos de Terapia de Grupo, na qual Rogers foi grande pionei- ro. E foi exatamente a partir do re- volucionário trabalho com Grandes Grupos e em Workshorps, na última fase de sua formulação teórica, que a temática transpessoal começa a se delinear nos escritos do criador da Abordagem Centrada na Pes- soa, e nos escritos de seus princi- pais colaboradores. John K. Wood, por exemplo, escreveu o seguinte comentário9 sobre as ocorrências transpessoais que costumam ocor- rer em Grandes Grupos: “(…) frequentemente as pes-

soas compartilham e falam de sonhos sem interpretação ou comentário. Sonhos comuns muitas vezes ocorrem. Algumas pessoas reportam “experiências místicas” (...). As mesmas ideias e mitos [imagens arquetípicas] frequentemente emergem de várias pessoas ao mesmo tem- po” (p. 34)9.

O próprio Rogers se refere mui- tas vezes em suas últimas obras às percepções transpessoais e fenôme- nos congêneres de estados sutis de consciência, e estabelece que estes são eventos observáveis e ineren- tes ao trabalho bem sucedido com Grandes Grupos e Workshops: “O outro aspecto importante do

processo de formação de [Gran- des Grupos] com que tenho tido contato é a sua transcen- dência e espiritualidade. Há al- guns anos eu jamais empregaria estas palavras. Mas a estrema sabedoria do grupo, a presença de uma comunicação profunda quase telepática, a sensação de que existe “algo mais”, parecem exigir tais termos” (p. 62)10.

Tenho a certeza de que este ti- po de fenômeno transcendente às vezes é vivido em alguns grupos com que tenho trabalhado, provo- cando mudanças na vida de alguns

participantes. Um deles colocou de forma eloquente: “Acho que vivi uma experiência espiritual profun- da, senti que havia uma comunhão espiritual no grupo. Respiramos juntos, sentimos juntos, e até fala- mos uns pelos outros. Senti o poder de força vital que anima cada um de nós, não importa o que isso seja. Senti sua presença sem as barreiras usuais do ‘eu’ e do ‘você’ - foi como uma experiência de meditação, quando me sinto como um centro de consciência, como parte de uma consciência mais ampla, universal. (p. 47-48)10 .

o Espectro da consciência

Um dos sistemas didáticos, em psicologia, que procura integrar os diferentes insights das várias escolas psicoterapêuticas do ocidente entre si, e estas com as várias abordagens orientais, é a Psicologia do Espec- tro, proposta por Ken Wilber11, como um modelo da compreensão transpessoal das diferenças entre psicoterapias. Nele, cada uma das diferentes escolas é vista como uma faixa que se dedica a um aspecto específico do total a que se pode apresentar a consciência humana. Cada uma dessas escolas aponta para um estado de consciência que se caracteriza por possuir um di- ferente senso de identidade, indo da pequena identidade restrita ao ego até à suprema identidade com todo o universo, que é o nível ex- tremo da consciência transpessoal. Este espectro pode ser entendido a partir de quatro níveis: o do ego, o biossocial, o existencial e o Trans- pessoal.

No nível do ego, a pessoa não se identifica, a rigor, com o seu orga- nismo, mas com uma representação mental, ou com um conceito do mesmo, como uma auto-imagem construída, ou egóica. É, pois, um problema de identificação com um modelo que a pessoa aceita, num

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investimento, como sendo seu “eu”. Existe – para ela – um “eu” que é diferente e independente de tudo e de todos. A pessoa não se in- teressa muito em cultivar relações interpessoais sem que haja uma vantagem específica para o ego, e muito menos se preocupa com as- pectos ecológicos ou sociais.

O nível biossocial já envolve a consciência e a preocupação com o nível e com os aspectos do am- biente social da pessoa. A influên- cia preponderante é a de padrões culturais e sociais. A pessoa sente como fazendo parte – e tendo al- guma responsabilidade – pelo seu meio-ambiente social e natural.

O nível existencial é o nível do organismo total, caracterizado por um senso de identidade corpo/ mente auto-organizador. É o nível dos ideais humanistas e do pensa- mento mais sofisiticado, em termos de filosofia de vida. Emoção e ra- zão estão mais ou menos associadas para o crescimento e o desenvol- vimento das potencialidades do homem, desde que os meios sejam razoavelmente propícios. Quando não, ainda assim a pessoa luta para se auto-atualizar e a ajudar seus se- melhantes. Alto grau de desenvol- vimento moral é frequentemente associado a este estágio.

O nível Transpessoal é o ní- vel da expansão da consciência para além das fronteiras do ego, correspondendo a um senso de indentidade mais amplo. Elas po- dem encolver percepções do meio ambiente, onde tudo está, de uma forma sutil mas muito presente, ligado - de forma Não Linear – a tudo. É o nível do inconscien- te coletivo e dos fenômenos que lhe estão associados, tal como descritos por Jung e seguidores. É também neste nível de percep- ção que podem – mas não neces-

sariamente ocorrem ou são regra geral próprias de uma percepção transpessoal – surgir, como even- tos secundários, certos fenômenos parpsicológicos, como telepatia, precognição ou – o que não tipifi- ca um fenômeno parapsicológico, mas sim psicológico – lembranças de vidas passadas. É uma forma extremamente sofisticada e não ordinária de consciência em que a pessoa não aceita mais a crença uma separação rígida entre ela e todo o universo, a não ser como uma forma de atuar praticamen- te sobre o meio em que vive com outras pessoas. Essa forma de consciência transcende e muito, o raciocínio lógico convencional, e aproxima-se das assim chamadas experiências místicas. E é este es- tado que é objeto mais íntimo de estudo da Psicologia Transpessoal.

Stalislav Grofa em entrevista responde a seguinte questão: O que a Psicologia Transpessoal e o seu trabalho trouxeram para a psi- cologia como ciência?

A Psicologia Humanista corri- giu a tendência do comportamen- talismo em ignorar a consciência e a introspecção e formular teorias sobre a psique humana, exclusiva- mente, através de observações do comportamento, particularmente, em relação ao comportamento dos animais, tais como ratos e pom- bos. O foco do estudo humanístico foram os valores humanos mais elevados e a tendência em perse- guir os “metavalores” de Maslow e “metamotivações”, lidando com o que Maslow chamou “auto-atuali- zação” e “autorealização”. A Psico- logia Transpessoal então adicionou, ainda, uma outra dimensão impor- tante, que é o reconhecimento da espiritualidade, como um aspecto importante e legítimo da psique humana. Esta é uma diferença

radical da psicologia acadêmica, que destitui a espiritualidade de alguma forma e de algum nível de sofisticação e a caracteriza como superstição, pensamento mágico primitivo, imaturidade emocional ou patologia. Um outro impor- tante aspecto da Psicologia Trans- pessoal é que ela estuda o espectro inteiro da experiência humana, incluindo os estados incomuns de consciência, particularmente, vá- rias formas de experiências místicas. A Psicologia Transpessoal foi pro- fundamente influenciada pelas experiências e observações dos estudos de estados incomuns de consciência, tais como aqueles que ocorrem durante práticas xamâni- cas, ritos aborígenes de passagem, os mistérios antigos de morte e re- nascimento, sessões psicodélicas e várias formas de práticas espirituais (incluindo diferentes escolas de yoga, Budismo, Taoísmo, Sufis- mo, misticismo Cristão, etc.). E aí é onde entra meu próprio trabalho. Minha contribuição para a Psicolo- gia Transpessoal, além de dar o no- me “transpessoal”, vem de quatro décadas de exploração sistemática do potencial terapêutico, transfor- mativo e evolucionário dos estados incomuns de consciência. Fiquei aproximadamente a metade des- te tempo conduzindo terapia com substâncias psicodélicas, primeiro na Tchecoeslováquia, no Instituto de Pesquisa Psiquiátrica, em Pra- ga, e depois nos Estados Unidos, no Maryland Psychiatric Research Center, em Baltimore, onde par- ticipei do último programa sobre- vivente de pesquisa psicodélica americano.

Uma outra área que tenho de- dicado bastante atenção tem sido a tanatologia, uma jovem disciplina que estuda experiências próximas da morte e aspectos psicológicos e

a. Esta entrevista foi concedida por Stanislav Grof, M.D., a Álvaro Jardim e Carmen Maciel, durante visita a Goiânia, GO, Brasil, no período entre 24 a 28 de Setembro de 2000. Neste período, o Dr. Grof deu uma palestra pública - “O Potencial de Cura dos Estados Incomuns de Consciência” - no Salão Tocantins do Castro’s Park Hotel, onde se fizeram presentes mais de 400 pessoas prestigiando o evento, e, no Serro Park Hotel ele dirigiu a parte teórica do módulo “Arquitetura da Psicopatologia”.

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espirituais da morte e do morrer. Eu participei no final dos anos 60 e no início dos anos 70 de um amplo projeto de pesquisa, estudando os efeitos da terapia psicodélica, em indivíduos terminais com câncer. Eu poderia também acrescentar que tenho tido o privilégio de co- nhecer pessoalmente e de ter ti- do experiências com alguns dos grandes físicos e parapsicólogos de nossa era, pioneiros de pesquisa da consciência em laboratório e tera- peutas, que desenvolveram e prati- caram formas poderosas de terapias experienciais, que induzem estados incomuns de consciência.

Após todos esses anos de estudo de várias formas de estados inco- muns de consciência, eu concluo que as experiências e observações desse trabalho mostram uma ur- gente necessidade de uma revisão profunda do nosso pensamento em psiquiatria, psicologia e psicotera- pia. A profundidade e alcance desta revisão poderia ser comparada com o que aconteceu na física nas pri- meiras três décadas do século XX - a mudança da física Newtoniana para a teoria da relatividade e en- tão para a física quântica. Eu escre- vi sobre estas implicações em meu último livro, Psicologia do Futuro: Lições de Pesquisa da Consciência Moderna.

Ainda Grof responde: Porque você atribui atenção especial aos temas espirituais em seu trabalho?

Minha pesquisa da consciên- cia tem me convencido que a es- piritualidade é não somente uma muito real e legítima dimensão da psique humana e da ordem uni- versal, mas também uma dimen- são de importância crítica. Em seu livro “The Natural Mind”, Andrew Weil, um bem conhecido médico americano, expressou a opinião que a necessidade de viver uma experiência mística é a mais pode- rosa condutora da psique humana, muito mais poderosa que a sexuali-

dade, que tem sido tão fortemente enfatizada pelos psicanalistas freu- dianos.

E eu não posso concordar mais. Acredito que essa atitude corrente, em direção à espiritualidade, des- cobriu um sério e trágico erro na ciência materialista de hoje e na psicologia moderna. A civilização industrial ocidental está pagando um pesado preço por ter rejeitado e perdido a genuína espiritualidade. Acredito na probabilidade de que este fator é uma das principais razões da crise global de hoje; o ateísmo, formado pela ciência ma- terialista, contribue, de modo sig- nificante, para que a humanidade moderna siga um curso destrutivo e suicida.

A Psicologia Transpesssoal é uma disciplina que integra a ciência e espiritualidade, filosofia oriental e pragmatismo ocidental, antiga sabedoria e ciência moderna. Mas para sermos hábeis para fazer isso, temos que diferenciar claramente espiritualidade de religião e ciência de cientificismo11.

A espiritualidade está basea- da em experiências diretas de di- mensões e aspectos incomuns da realidade. Ela não requer um lugar especial ou uma pessoa designada oficialmente para mediar conta- to com o divino. Os místicos não necessitam igrejas ou templos. O contexto no qual eles experienciam a dimensão sagrada da realidade, incluindo sua própria divindade, são os seus corpos e a natureza. E ao invés de ordenar padres, eles necessitam de um grupo de apoio de colegas buscadores ou a orienta- ção de um professor, que está mais avançado na jornada interna do que estão eles próprios.A espiritua- lidade envolve um tipo especial de relacionamento entre o indivíduo e o cosmos e é, em essência, um caso privativo e pessoal.

Por comparação, a religião orga- nizada é uma institucionalizada ati-

vidade de grupo que tem lugar em um local designado, um templo ou uma igreja e envolve um sistema de oficiais marcados que pensam ou não ter tido experiências pessoais de realidades espirituais. Uma vez organizada a religião, frequente- mente, perde completamente a conexão com a fonte espiritual e torna-se uma instituição secular, que explora as necessidades espi- rituais humanas, sem satisfazê-las.

As religiões organizadas ten- dem a criar sistemas hierárquicos, focando sobre perseguição de po- der, controle, políticos, dinheiro, possessões e outras preocupações seculares. Sob essas circunstâncias, as hierarquias religiosas, como re- gra, discordam e desencorajam ex- periências espirituais diretas para seus membros, porque eles criam independência e não podem ser controlados efetivamente. Quando esse é o caso, a genuína vida espi- ritual continua somente no ramo místico, ordens monásticas e seitas extácticas das religiões envolvidas.

Não há dúvida de que os dog- mas das religiões organizadas es- tão geralmente em conflito com a ciência, se essa ciência usa o mode- lo materialista-mecanicista ou está ancorado no paradigma emergen- te. No entanto, a situação é muito diferente, ao considerar o autêntico misticismo, baseado na experiên- cia espiritual. A grande tradição mística tem acumulado extensivo conhecimento sobre a consciência humana e sobre o domínio espiri- tual, de um modo que é similar ao método que cientistas usam para adquirirem conhecimento sobre o mundo material. Envolve metodo- logias para indução de experiências transpessoais, sistemática coleta de dados e validação intersubjetiva.

Experiências espirituais, como algum outro aspecto da realidade, podem estar sujeitas a cuidadosa pesquisa de mente aberta e estu- dadas cientificamente. Nada há de

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não científico sobre ser imparcial e estudar rigorosamente o fenômeno transpessoal e os desafios que eles apresentam, para uma compreen- são materialista do mundo. Cada abordagem somente pode respon- der à questão crítica sobre o estado ontológico da experiência mística. Elas revelam uma verdade profun- da sobre algum aspecto básico da existência, como mantido pela filo- sofia perene, ou elas são produtos da superstição, fantasia ou doença mental, como a ciência materialista ocidental as vê?

Para Vera Saldanhab “é muito importante ficar claro que nenhu- ma prática, seja espírita, tibetana, seja xamânica, é prática de Psico- logia Transpessoal. Isso não tem nenhum demérito no sentido de que o xamanismo pode ter até mais conhecimento, ser uma coisa mile- nar, tão antiga, mas ela não é uma prática de Psicologia Transpessoal. Nesse sentido, a compreensão de que existem os fenômenos trans- pessoais, que certamente nós po- deríamos dizer que existem desde o primeiro homem primitivo, quan- do ele fazia suas rodas de canto, sua adoração ao sol, ele entrava em es- tados de êxtase. Isso são fenômenos transpessoais que vão ser estuda- dos pela Psicologia Transpessoal, pela Antropologia Transpessoal, mas não é uma prática da Transpes- soal. Então, você precisa distinguir o que é a experiência transpessoal, da psicologia transpessoal. Assim como da Sociologia Transpessoal, da Psiquiatria Transpessoal, cada uma tem a sua área de atuação. E talvez isso ainda seja uma coisa que, por falta de informações nas universidades, os alunos, qualquer coisa que ouvem falar, principal- mente nessas duas últimas décadas nas quais estão muito em voga os fenômenos místicos, esotéricos, as seitas... E por que isso está aconte-

cendo? Porque são interlocuções para estados de expansão de cons- ciência e que a psicologia, na medi- da em que tenta ignorar ou deixar de lado, presta um grande desser- viço ao ser humano. Porque se ele vai a um psicólogo onde ele preci- sa, ele sente necessidade de falar dessa dimensão espiritual, mas ele não encontra um interlocutor, ele vai buscar em práticas místicas. Se ele não quer aderir a uma religião, então ele vai criar a própria seita. Quando, na verdade, é uma di- mensão muito saudável do ser hu- mano, que acaba podendo até ter um desvio de percurso, embora nós tenhamos até que reconhecer que muitas religiões, se algumas podem ter embotado a reflexão do ser hu- mano, muitas contribuem para que determinados valores, determina- dos comportamentos adequados, que são talvez ignorados pelo po- der público, um grupo grande que fica à margem, eles acabam dando até suporte, acabam até ajudando. Eu me lembro que o Roberto Cre- ma12,13 me disse numa palestra dele assim que se não fossem os centros espíritas, os exorcismos das igre- jas evangélicas, se não fossem as práticas religiosas, talvez os nossos hospitais tivessem ainda mais abar- rotados de pessoas. Não porque elas são doentes, mas porque elas não encontraram na psicologia uma interlocução para a sua dimensão espiritual, para a sua transpessoa- lidade. Então, acho que esse com- promisso com a saúde mental nos faz não sermos omissos com uma dimensão que é essencial da nossa natureza; que o Maslow evidencia desde a década de 50: que se você não permite na criança manifestar suas experiências de êxtase, sua dimensão de espiritualidade, você adoece esse ser humano e aí ele diz: “Nós estamos numa sociedade mui- to doente, com seres humanos mui-

to doentes.” E que daí você precisa ter melhores seres humanos e me- lhores sociedades. E aí diz: “Como fazer isso?” E aí é que ele mostra a proposta da Transpessoal. E quando você trabalha num plano experien- cial e quando você trabalha com estados expandidos de consciência, se vem um lado muitas vezes he- diondo, vem também a dimensão mais superior que igualmente se encontrava inconsciente. Só que claro, para isso o psicólogo tem que ter um profundo conhecimento, tem que ter um treinamento inten- so, porque senão ele simplesmente vai só levando as experiências, as vivências e isso pode também acar- retar agravamentos a Transpessoal afirma que existe reencarnação.” É mas aí a gente deixa bem claro, quer dizer, ela nem afirma que existe e nem que não existe. É uma das hi- póteses como foi a do aparelho psí- quico do Freud, do inconsciente, do pré-consciente; como é a hipótese que foi observada do inconsciente coletivo do Jung. É no contexto – quer dizer, essas são faixas que são aces- sadas em experiências de expansão de consciência – então que se faz um mapeamento e se denomina de inconsciente coletivo, inconsciente transindividual, inconsciente filo- genético, ou seja, são experiências universais que habitam no incons- ciente do qual nós emergimos. Nós emergimos do inconsciente. Então, a Transpessoal vai estudar esse in- consciente. E no plano da dualida- de é uma hipótese possível, mas no plano do absoluto, que é o cerne do conceito da Transpessoal, não exis- te e nunca existiu outra vida, outra encarnação, porque há uma visão da consciência de unidade. Então, é importante essa compreensão dos vários níveis da consciência: num determinado plano pode ser que sim, pode ser que não; num outro plano nunca existiu.”

b. Entrevista concedida em Campinas para fins de estudo e não publicada.

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A Transpesssoal tem contribuí- do para a compreensão dos proces- sos psicológicos da morte e morrer. Que sentido tem a morte em nosso mundo materialista? O mundo que nos rodeia não nos ensina a mor- rer. Tudo é feito para esconder a morte. O encontro de JeanYves Le- loup e Marie de Hennezel14, propõe a reflexão sobre o valor que se deve dar à morte. Conhecer as grandes concepções filosóficas, religiosas e místicas permite sentir melhor o que significa morrer.

Rita Macieira15 aborda o senti- do da experiência da morte atra- vés de uma visão Transpesssoal e a importância de sua obra é que pode ser lido pelo próprio pacien- te, mas principalmente por profis- sionais que cuidarão do paciente até o momento da morte. Refere o quão importante é o “estar junto”, o quanto de vida há na proximi- dade da morte e como a Psicologia Transpessoal pode favorecer o en- contro do terapeuta com o paciente nesse processo.

Macieira e colaboradores16 fa- lam de cura, sonhos e outros te- mas nos trazendo encorajamento e esperança. Assim, ampliam-se as possibilidades de se maximizar sua realização partindo do princí- pio que cada um de nós pode fa- zer mais do que esperar o efeito de determinada medicação. Ou pior, esperar o lançamento de uma nova droga que seja, de fato, eficiente. A experiência tem mostrado que sem sentido ninguém consegue vi- ver por muito tempo. Talvez uma das perguntas mais inquietantes no final do século passado e neste iní- cio de milênio seja: qual o sentido da vida? Qual a finalidade do viver e do morrer?

Para Leloup17, um dos maiores expoentes de Psicologia Transpes- soal, é preciso cuidar do ser hu- mano em sua globalidade, em sua totalidade, mesmo quando se trata só os seus dentes. Nos lembra do

“Complexo de Jonas”, desvelando o caminho em direção do despertar espiritual e irmos além dos medos do eu.

Leloup17 nos presenteia com a tradução de “Os terapeutas”, de Fílon de Alexandria. Ainda não se tem clareza sobre essa comunida- de antiga, que teria florescido em Alexandria na época do nascen- te cristianismo, mas a mensagem da comunidade dos Terapeutas permanece atual. Para atingir a plenitude, o ser humano tem que “cuidar do Ser”, apreender e culti- var o que constitui o seu mais se- creto núcleo e, auxiliado pela graça divina, integrar harmoniosamente “soma” (a dimensão corporal), “psyche” (a dimensão psíquica), “nous” (a dimensão intelectual) e “pneuma” (a dimensão espiritual).

Entre os mais respeitados no- mes nos campos de Psicologia, da Teologia e da Filosofia , Ken Wil- ber se destaca de imediato. Seus livros O Espectro da Consciência e O Projeto Atman18 foram adotados por várias Universidades e Faculda- des. Seus trabalhos têm sido muito bem recebidos pelos colegas, que não lhe poupam elogios. “O Eins- tein há tanto tempo esperado da pesquisa da consciência.” “Poucas pessoas entendem as muitas facetas da psicologia ocidental com ampli- tude e a profundidade de Ken Wil- ber . No espectro da Consciência, Wilber nos traz uma abordagem que amplia as concepções sobre a consciência desenvolvidas pela psicologia ocidental. Compara a consciência ao espectro eletromag- nético. A partir dessa analogia, tal como qualquer radiação eletro- magnética, a consciência é “una” e se manifesta por uma multiplici- dade de aspectos, de níveis ou de faixas, que correspondem aos di- ferentes comprimentos das ondas eletromagnéticas.

Frances Vaughan19 argumenta com convicção que psicoterapia e

espiritualidade são aspectos comple- mentares do desenvolvimento hu- mano, e que ambos são essenciais para se alcançar condições ideais de saúde física, emocional, mental, existencial e espiritual. Esclarece a relação entre crescimento e desen- volvimento interior e exterior.

Apesar de sua rápida expan- são, a psicologia transpessoal vinha precisando de um texto in- trodutório mais abrangente. Walsh e Vaughan³ reuniram textos mais pertinentes e os autores de maior destaque nesse campo.

Pierre Weil contribuiu na déca- da de 80 com uma coleção publica- da denominada coleção psicologia Transpesssoal. Neste trabalho, além de tratar da metodologia da psico- logia transpessoal, trata também da colaboração cientifica que dife- rentes ramos da psicologia podem lhe dar e da relação existente entre ciência e mística, seja ela ocidental ou oriental. Aprofundam-se aqui interrogações relativas aos limites da Evolução Mental Humana e da Morte. Levantam-se questões sobre a Energia Vital Humana, a evolução, a Vida após a Morte, e os Estados de Consciência. Trata, com uma abordagem séria, os fenôme- nos de realizações transpessoais. Aborda diferenças e semelhanças entre a esquizofrenia e a mística. Traz um estudo que apresenta a regressão como uma explicação plausível das ligações entre psi- coses e estados místicos. A seguir, estudam-se os símbolos (elevação, alargamento, expansão, despertar, luz, fogo, amor, etc.) que abrem o ser humano para as significações de realizações transpessoais20,21,22,23.

Pierre Weil delineia um novo campo de pesquisa dentre aqueles que se preocupam com os mistérios da Alma Humana, o da Psicologia Transpessoal, preocupada com o estudo dos chamados Estados de Consciência, que surgem nas ex- periências místicas. Seus ensina-

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mentos preciosos que revelam ao homem como viver em paz consigo mesmo, com os outros, com o meio ambiente e com os cosmos. Para Pierre Weil, a grande caminhada do homem sobre a Terra deve ser no sentido de ser descobrir como par- cela de um idêntico princípio, célu- la de um único projeto, partícipe de um mesmo universal movimento, emanação de uma mesma radiante luz, no exercício cotidiano do que ele denomina a arte de viver a vida.

O médico e psicoterapeuta Rüdiger Dahlke24 e o psicólogo Thowald Dethlefsen conquistaram interesse de um grande número de pessoas.quando enumeram sinto- mas, de doenças tais como esclerose múltipla, epilepsia, mal de Parkison e de Alzheimer, bem como dege- nerações de Tiróide, problemas da coluna vertebral e de outras ar- ticulações, moléstias da próstata, infecção por herpes e até mesmo problemas aparentemente banais, como queda de cabelo, frieiras e verrugas. Os sintomas são descritos de maneira que a própria pessoa afetada possa entendê-lo e entender o seu significado.

O tema do Câncer é abordado outra vez, sendo consideravelmen- te aprofundado, sobretudo aquele que mais frequentemente atinge as mulheres, o câncer de mama, é tra- tado de maneira extensa. A conclu- são a que Rüdiger Dahlke chegou depois de se aprofundar nesse es- tudo pode ser resumida da seguinte maneira: O que fazer com a doença depende exclusivamente da pessoa afetada. É importante receber a mensagem enviada pelo sintomas, aprender com ela e crescer espiri- tualmente. Cada quadro sintomá- tico põe à mostra os elementos que faltam para a pessoa atingir a per- feição. Um bom conhecimento dos sintomas pode proporcionar ao do- ente uma vida inteiramente nova.

Moretti, psicoterapeuta trans- pessoal refere o espaço terapêutico

sendo não o único lugar em que podemos viver nossa realidade subjetiva, projectar nossa sabe- doria interior e abrir espaço para que a “Consciência se manifeste, mas, com certeza é um lugar onde se pode compensar as influências funestas de outros ambientes com sua paz e serenidade. Um ambien- te acolhedor que possibilite o desa- brochar de potencialidades, assim como o expressar de conflitos e angústias.

O que difere a psicologia de orientação transpessoal das de- mais abordagens terapêuticas é a visão de homem como um ser bio- -psico-sócio-espiritual e o conjunto de referenciais teóricos utilizados durante o processo terapêutico.A visão holística e integral do psi- quismo humano revela, como já mencionado acima, a existência de um centro unificador da perso- nalidade – Transpessoal – conheci- do também por Self, Eu Superior, Espírito que conhece seu projecto de vida individual e social, históri- co e transcendental, que apreende a realidade de forma lúcida, que é livre e inteligente, portanto, sabe o que é necessário para prosseguir em sua jornada evolutiva.O tera- peuta dentro desta nova aborda- gem é apenas um facilitador que acompanha amorosamente o de- senvolvimento psico-espiritual de seus clientes.

As psicoterapias convencionais oferecem apenas um método de tratamento dos transtornos da per- sonalidade objectivando na maio- ria das vezes apenas o alívio dos sintomas, a mudança de compor- tamento e a redução do descon- forto psicológico. Na psicoterapia transpessoal buscamos conscien- cializar o cliente sobre a nature- za e a extensão do seu desalinho emocional, bem como assinalar e informar sobre apossibilidade de desenvolver suas potencialidades e capacidades inatas, formas trans-

convencionais de ser, oferecendo recursos para viabilizá-los.

A psicoterapia de orientação transpessoal ajuda o cliente a se localizar, a mapear os seus “pro- blemas” e a situá-los no ambiente social, cultural, familiar, profissio- nal, afectivo, espiritual, etc., o que por si só já é altamente terapêutico e ainda favorece nele a atenuação da ansiedade, activação da auto- confiança, requisitos necessários e importantes ao início do processo de autocura.

Quando uma pessoa procura a psicoterapia, quase sempre seu objetivo é a diminuição e até a su- pressão de um estado de sofrimen- to decorrentes de dificuldades de ordem emocional e espiritual. No percurso que faz para o interior de si mesma, ela tem a chance de ad- quirir mais conhecimento de seu modo de ser e de desenvolver-se como pessoa. No contato consigo mesma, seja para descobrir os re- cursos pessoais para a evolução, seja para encarar seus “estados de consciência”, como sintomas ou processos defensivos, um guia/ orientador se faz necessário. E essa parece ser uma das funções básicas do trabalho terapêutico. Sabemos o quanto o acompanhamento de uma ajuda gentil, mas firme, é fundamental nesses mergulhos nas profundezas do inconsciente.

A psicoterapia de orientação transpessoal possui um número bastante expressivo de exercí- cios que são empregados com fi- nalidade terapêutica. Utilizamos também algumas técnicas das tra- dições milenares do oriente como: meditação, concentração, contem- plação, trabalho com mandalas e também nos valemos dos recursos oferecidos pelo relaxamento como auxiliar no rebaixamento dos ní- veis de tensão e ansiedade, na libe- ração de endorfinas que tem efeito anestésico e proporcionam grande bem-estar. Trabalhamos para que

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o cliente aprenda a desenvolver recursos positivos para si próprio e passe a utilizá-los em sua vida quotidiana.

características de uma nova Psicologia

A nova psicologia que surge apoiada numa concepção holística e sistêmica considera o organismo humano como um todo integrado que envolve padrões físicos, men- tais, sociais e espirituais. Assim, a base conceitual da Psicologia dever ser compatível tanto com a da Biologia quanto da Sociolo- gia, Antropologia e Filosofia. No modelo acadêmico moderno, a estrutura voltada à especialização do conhecimento tornou muito difícil a comunicação entre as dis- ciplinas, e entre biólogos e psicó- logos o entendimento era muito sofrido. A abordagem sistêmica fornece um terreno propício para a compreensão das manifestações psicossomática do organismo na

saúde e na doença, permitindo um intercâmbio, desde que se queira, entre biomédicos e psicólogos.

Contudo para os sistemas da Psicologia hegemônicos, tudo o que a Psicologia Transpessoal de- fende é um verdadeiro absurdo. No século XX, a racionalidade tor- nou-se a medida última de todas as coisas, substituindo com rapi- dez a espiritualidade e as crenças religiosas. No curso da Revolução Científica ocidental, todas as coi- sas que tivessem a mínima relação com o misticismo eram desquali- ficadas como resquício da “Idade das Trevas”. Assim, os estados visionários perderam o seu cará- ter de valioso complemento dos estados de consciência comuns, sendo tomados por distorções patológicas da atividade mental (S. Grof & C. Grof, 1995). Conse- quentemente, muitas pessoas que têm sintomas emocionais ou psi- cossomáticos são automaticamen- te classificadas como portadoras de um problema médico, e as suas

dificuldades são vistas como doen- ças de origem desconhecida, em- bora testes clínicos e laboratoriais não ofereçam nenhuma evidência que comprove esse tipo de abor- dagem25,26.

O foco central da psicologia está tendendo a se transferir das estru- turas psicológicas para os processos relacionais subjacentes. A psique humana sendo vista como um sis- tema dinâmico que envolve uma variedade de fenômenos ligados à auto-atualização e crescimento contínuos. Assim, a psique teria um tipo de inteligência intrínseca que a habilita a envolver-se a tal ponto com o meio, que este proces- so pode levar não só a uma doença, mas também ao processo de cura e crescimento, como a concepção de autotranscendência da teoria dos sistemas.

Maslow dizia: “Nós não adoe- cemos só por conflitos, nós adoecemos também por reprimir o amor, reprimir a nossa manifestação, a nossa expressão saudável.”

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Recebido em 30 de junho de 2010 Aprovado em 23 de agosto de 2010

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