Vestibular de Português e Literatura - Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro - 2008 - UniRio, Notas de estudo de . Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)
VictorCosta
VictorCosta13 de Março de 2013

Vestibular de Português e Literatura - Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro - 2008 - UniRio, Notas de estudo de . Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)

PDF (257.1 KB)
3 páginas
870Número de visitas
Descrição
Vestibular de Português da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro do ano de 2008.
20pontos
Pontos de download necessários para baixar
este documento
baixar o documento
portugues humanas.indd

Incertezas e inconformismo levam a indagações — isso é próprio do Homem. Assim ele faz Arte e Ciência; assim contesta, se conhece mais.

Assim é a vida! Os textos desta prova exemplifi cam perspectivas dessa visão.

TEXTO I

Gabriela, cravo e canela

Só Gabriela parecia não sentir a caminhada, seus pés como que deslizando pela picada muitas vezes aberta na hora a golpes de facão, na mata virgem. Como se não existissem as pedras, os tocos, os cipós emaranhados. A poeira dos caminhos da caatinga a cobria tão por completo que era impossível distinguir seus traços. Nos cabelos já não penetrava o pedaço de pente, tanto pó se acumulara. Parecia uma demente perdida nos caminhos. Mas Clemente sabia como ela era deveras e o sabia em cada partícula de seu ser, na ponta dos dedos e na pele do peito. Quando os dois grupos se encontraram no começo da viagem, a cor do rosto de Gabriela e de suas pernas era ainda visível e os cabelos rolavam sobre o cangote, espalhando perfume. Ainda agora, através da sujeira a envolvê-la, ele a enxergava como a vira no primeiro dia, encostada numa árvore, o corpo esguio, o rosto sorridente, mordendo uma goiaba.

— Tu parece que nem veio de longe ... Ela riu: — A gente tá chegando. Tá pertinho. Tão bom chegar. Ele fechou ainda mais o rosto sombrio: — Num acho não. — E por que tu não acha? — levantou para o rosto severo do homem seus olhos ora tímidos e cândidos, ora insolentes e provocadores. — Tu não saiu para vir trabalhar no cacau, ganhar dinheiro? Tu não fala noutra coisa. — Tu sabe por quê — resmungou ele com raiva. — Pra mim esse caminho podia durar a vida toda. Num me importava ... No riso dela havia certa mágoa, não chegava a ser tristeza, como se estivesse conformada com o destino: – Tudo que é bom, tudo que é ruim também termina por acabar. Uma raiva subia dentro dele, impotente. Mais uma vez controlando a voz, repetiu a pergunta que lhe vinha fazendo pelo caminho e nas noites insones: — Tu não quer mesmo ir comigo pras matas? Botar uma roça, plantar cacau junto nós dois? Com pouco tempo a gente vai ter roçado seu, começar a vida. A voz de Gabriela era cariciosa mas defi nitiva: — Já te disse minha tenção. Vou fi car na cidade, não quero mais viver no mato. Vou me contratar de cozinheira, de lavadeira ou pra arrumar casa dos outros ... Acrescentou numa lembrança alegre: — Já andei de empregada em casa de gente rica, aprendi cozinhar. — Aí tu não vai progredir. Na roça, comigo, a gente ia fazendo seu pé-de-meia, ia tirando pra frente ... Ela não respondeu. Ia pelo caminho quase saltitante. Parecia uma demente com aquele cabelo desmazelado, envolta em sujeira, os pés feridos, trapos rotos sobre o corpo. Mas Clemente a via esguia e formosa, a cabeleira solta e o rosto fi no, as pernas altas e o busto levantado. Fechou ainda mais o rosto, queria tê-la com ele para sempre. Como viver sem o calor de Gabriela?

AMADO, Jorge. Gabriela, cravo e canela. São Paulo: Martins, s.d. pág. 82-3.

No trecho “Só Gabriela parecia não sentir a caminhada, seus pés como que deslizando pela picada muitas vezes aberta a golpes de facão...” ( § 1º.), a ação de Gabriela é descrita de forma atenuada.

a) Transcreva as duas expressões que levam o leitor a entender esta atenuação. b) Explique por que é surpreendente o emprego do verbo em “... seus pés como que deslizando ...” ( § 1º.)

Escreva o que Clemente considerou, em suas falas nos § 12º. e § 17º. , para convencer Gabriela a fi car com ele.

Destaque do texto duas formas verbais, com diferentes sentidos, que não atendem à regra básica de concordância, de acordo com a norma culta padrão. A seguir, reescreva-as, no registro culto padrão, sem alterar-lhes o sentido.

Explique por que, para cada um dos personagens, a idéia de uma nova vida está associada à ordenação espacial.

Língua Portuguesa / Literatura Brasileira

1

2

4

3

PSD UNIRIO/ENCE 2008 Humanas 2

docsity.com

TEXTO II O navio negreiro

Senhor Deus dos desgraçados! Dizei-me vós, Senhor Deus! Se é loucura ... se verdade Tanto horror perante os céus ... Ó mar! Por que não apagas Co’a esponja de tuas vagas De teu manto este borrão? ... Astros! noite! tempestades! Rolai das imensidades! Varrei os mares, tufão! ...

Quem são estes desgraçados, Que não encontram em vós, Mais que o rir calmo da turba Que excita a fúria do algoz? Quem são? ... Se a estrela se cala, Se a vaga à pressa resvala Como um cúmplice fugaz, Perante a noite confusa ... Dize-o tu, severa musa, Musa libérrima, audaz!

Na poética de Castro Alves, é, normalmente, encontrada a imagem hiperbólica. Transcreva, da última estrofe apresentada, três versos consecutivos, com unidade de sentido, que exemplifi quem essa imagem.

Transcreva o verso da 3ª. estrofe que antecipa o verso “ Ontem plena liberdade,” da 5ª. estrofe.

“ Embora a palavra imperativo esteja ligada, pela origem, ao latim imperare “ comandar”, não é para ordem ou comando que, na maioria dos casos, nos servimos desse modo.”

( Celso Cunha. Gramática do Português Contemporâneo. Belo Horizonte: Editora Bernardo Álvares SA, 1975.)

Relativamente à 1ª. e 2ª. estrofes, considerando o contexto do poema, escreva o valor semântico do imperativo em- pregado em

a) “Dizei-me vós, Senhor Deus” ( 1ª. estrofe) / “ Dize-o tu, severa musa,” ( 2ª. estrofe)

Nos textos I e II, há a representação do Herói / Heroína.

Em que momentos literários se inscrevem, respectivamente? Justifi que sua resposta com frases completas.

Ontem plena liberdade, A vontade por poder ... Hoje ... cum’lo de maldade Nem são livres p’ra ... morrer ... Prende-os a mesma corrente — Férrea, lúgubre serpente — Nas roscas da escravidão. E assim roubados à morte, Dança a lúgubre coorte Ao som do açoite ... Irrisão! ...

Senhor Deus dos desgraçados! Dizei-me vós, Senhor Deus! Se eu deliro ... ou se é verdade Tanto horror perante os céus ... Ó mar, por que não apagas Co’a esponja de tuas vagas De teu manto este borrão? ... Astros! noite! tempestades! Rolai das imensidades! Varrei os mares, tufão! ...

Castro Alves, Antônio de. Poesia. 4 ed. Rio de Janeiro: Agir. Pág. 74 - 82.

São fi lhos do deserto Onde a terra esposa a luz. Onde voa em campo aberto A tribo dos homens nus ... São os guerreiros ousados, Que com os tigres mosqueados Combatem na solidão ... Homens simples, fortes, bravos Sem ar, sem luz, sem razão ... ( . . . )

Ontem a Serra Leoa, A guerra, a caça ao leão, O sono dormindo à toa Sob as tendas d’amplidão ... Hoje ... o porão negro, fundo, Infecto, apertado, imundo, Tendo a peste por jaguar ... E o sono sempre cortado Pelo arranco de um fi nado E o baque de um corpo ao mar ...

1

2

3 5

4 6

5

PSD UNIRIO/ENCE 2008 Humanas 3

6

7

8

docsity.com

TEXTO III O mito dos 10% do cérebro

Quanto do seu cérebro você usa? E da sua capacidade? E do seu potencial?

Quem já não ouviu essa frase: “ Usamos apenas 10% do cérebro”? Em 1999, quando passei a trabalhar em divulgação científi ca, quis começar investigando o que o público conhecia e pensava sobre o cérebro. Numa pesquisa chamada “ Você conhece seu cérebro?”, perguntei a 2 mil cariocas, entre outras coisas, se eles concordavam com a célebre frase. A metade concordou. Fiz a mesma pergunta a 35 neurocientistas, e a frase foi prontamente recusada. A razão? Essa história de usar 10% do cérebro nada mais é do que um mito. Vamos deixar claro logo no começo: não há qualquer razão científi ca para supor que usamos 10% do nosso cérebro. Nem 10% dos nossos neurônios. Nem 10% da nossa capacidade. Todas as evidências sugerem o contrário: usamos nosso cérebro inteiro. Os 10% fi cam por conta da imaginação de quem conseguiu convencer quase metade da população do Rio de Janeiro a aceitar esse mito. É verdade que, à primeira vista, a idéia de usar somente 10% do cérebro parece muito convidativa. Usando apenas 10% do cérebro, teríamos 90% de reserva, e se conseguíssemos aprender a usar esse “potencial” poderíamos fi car dez vezes mais inteligentes, memorizar dez vezes mais fatos, fazer contas dez vezes mais rápido ... Só que não é assim. O pior é que as conseqüências são graves. Quem acredita que 90% do seu cérebro são dispensáveis não tem por que evitar choques na cabeça, usando capacete na motocicleta ou cinto de segurança no carro. Quem não sabe que usa seu cérebro inteiro a todo momento ainda não faz idéia da maravilha que tem dentro da cabeça.(...) Em princípio, há várias maneiras de usar só 10% do cérebro: usando 10% da massa cerebral, 10% dos neurônios, ou 10% do potencial... Mas não importa: em qualquer um dos três casos, toda a ciência aponta para o con- trário. Se são 10% da massa cerebral, 90% do que temos dentro da cabeça deveriam então ser dispensáveis. E, no entanto, lesões do cérebro humano, mesmo pequenas, podem ter conseqüências graves para o intelecto e o comporta- mento. Se são 10% dos neurônios, os outros 90% deveriam ser silenciosos, ou então redundantes, servindo só como “ reservas”. Mas é possível “ escutar” as células nervosas em atividade, e em sua maioria elas estão ativas e respondem por algum aspecto do mundo ou do comportamento. E se são 10% da capacidade de desenvolvimento intelectual ... será que alguém sabe o que seriam os 100%? Uma difi culdade para aceitar que usamos 100% do cérebro pode ser a pergunta inevitável de quem estava convencido do contrário: se tudo é usado, como então é possível desenvolver nossas habilidades? A resposta está na mais maravilhosa e característica propriedade do sistema nervoso: a capacidade de fazer novas combinações entre seus elementos, e de mudar a efi ciência das conexões – as sinapses – já existentes. Quando a efi ciência aumenta, a conexão entre dois neurônios fi ca “ fortalecida” ; quando diminui, a conexão fi ca “ enfraquecida”. Além do mais, nenhuma conexão é fi xa; uma conexão enfraquecida demais pode ser eliminada, e uma nova pode ser feita em outro lugar, com outro neurônio. Fortalecer essas novas conexões, estabilizando-as, é uma maneira de criar novas associações. Os neurocientistas hoje estão convencidos de que é essa a base do aprendizado. Como sempre se pode tirar uma conexão daqui e criar outra ali, será sempre possível fazer mais uma combinação, mais uma associação entre neurônios, e aprender mais alguma coisa. (...) Outubro de 2000

Herculano-Houzel, Suzana. O cérebro nosso de cada dia: descobertas da neurociência sobre a vida cotidiana. Rio de Janeiro: Vieira & Lent, 2002. pág. 23 – 25

Transcreva, integralmente, do § 5º., um exemplo das conseqüências mencionadas anteriormente em “ O pior é que as conseqüências são graves.” ( § 4º.)

No texto III, há uma organização textual diferente da dos textos I e II, pois o texto III apresenta uma tese e a defende.

a) Escreva qual a tese defendida.

b) Escreva, com suas palavras, um argumento contundente, utilizado para defender a tese.

PSD UNIRIO/ENCE 2008 Humanas 4

9

10

docsity.com

comentários (0)
Até o momento nenhum comentário
Seja o primeiro a comentar!
Esta é apenas uma pré-visualização
Consulte e baixe o documento completo
Docsity is not optimized for the browser you're using. In order to have a better experience we suggest you to use Internet Explorer 9+, Chrome, Firefox or Safari! Download Google Chrome