08 - Os chistes e sua relação com o inconsciente, Notas de estudo de Psicologia
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08 - Os chistes e sua relação com o inconsciente, Notas de estudo de Psicologia

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Os chistes e sua relação com o inconsciente

VOLUME VIII

(1905)

Dr. Sigmund Freud

PREFÁCIO DO EDITOR

DER WITZ UND SEINE BEZIEHUNG ZUM UNBEWUSSTEN

(a) EDIÇÕES ALEMÃS:

1905 Leipzig e Viena: Deuticke, Pp. ii + 206.

1912 2ª ed. Mesmos editores. (Com alguns pequenos acréscimos.) Pp. iv + 207.

1921 3ª ed. Mesmos editores. (Inalterada.) Pp. iv + 207.

1925 4ª ed. Mesmos editores. (Inalterada.) Pp. iv + 207.

1925 G.S., 9, 1-269. (Inalterada.)

1940 G.W., 6, 1-285. (Inalterada.)

(b) TRADUÇÃO INGLESA:

Wit and its relation to the Unconscious

1916 New York: Moffat, Yard. Pp. ix + 388. (tr. A. A. Brill.) (1917, 2ª ed.)

1917 London: T. Fisher Unwin. Pp. ix + 388. (Como acima.)

1922 London: Kegan Paul. (Reimpressão da anterior.)

1938 In The Basic Writings of Sigmund Freud. Pp. 633-803.

New York: Random House. (Mesma tradução.)

A presente tradução, inteiramente nova, com o título Jokes and their Relation to the

Unconscious (Os Chistes e sua Relação com o Inconsciente), é de James Strachey.

No curso da discussão da relação entre os chistes e os sonhos, Freud menciona sua

própria „razão subjetiva para dedicar-se ao problema dos chistes‟ (Ver em [1].) Era esta, em poucas

palavras, o fato de que Wilhelm Fliess se queixara de que os sonhos estavam por demais cheios

de chistes, ao ler as provas de A Interpretação de Sonhos no outono de 1899. O episódio já fora

narrado em uma nota de rodapé à 1ª edição da própria A Interpretação de Sonhos (1900a) (ver em

[1] e [2]); podemos, agora, datá-lo exatamente, pois dispomos da carta em que Freud replicava à

queixa de Fliess. Foi escrita a 11 de setembro de 1899, de Berchtesgaten, onde foram dados os

toques finais ao livro, e anuncia que Freud pretende inserir nele uma explicação de fato curioso: a

presença nos sonhos de algo que se aparece aos chistes (Freud, 1950a, Carta 118).

Sem dúvida o episódio atuou como fator precipitante e fez com que Freud devotasse maior

atenção ao assunto, mas não há de ter sido, possivelmente, a origem de seu interesse. Existe

ampla evidência de que ele já tinha o assunto em mente vários anos antes. O simples fato de que

dispusesse de uma resposta imediata à crítica de Fliess demonstra a probabilidade dessa

suposição; outra confirmação é dada pela referência ao mecanismo dos efeitos „cômicos‟, que

aparece em uma página posterior de A Interpretação de Sonhos (ver em [1]) e que prenuncia um

dos pontos principais do capítulo final do presente trabalho. Mas era inevitável que tão logo Freud

iniciasse sua detalhada investigação dos sonhos, ficasse surpreendido pela freqüência com que

ocorriam nos próprios sonhos, ou em suas associações, estruturas semelhantes a chistes. A

Interpretação de Sonhos está cheio de exemplos dessa espécie, sendo talvez o registro mais

antigo o do trocadilhesco sonho de Frau Cëcilie M., relatado em uma nota de rodapé ao final da

história clínica de Fräulein Elizabeth von R. em Estudos sobre a Histeria (1895d), (ver em [1]).

Mas, bem distante dos sonhos, há evidência do precoce interesse teórico de Freud pelos

chistes. Em carta a Fliess, de 12 de junho de 1897 (Freud, 1950a, Carta 95), após citar um chiste

sobre dois Schnorrer, Freud escreveu: „Devo confessar que desde há algum tempo estou reunindo

uma coleção de anedotas de judeus, de profunda importância‟. Alguns meses depois, a 21 de

setembro de 1897, cita uma outra história de judeu, como pertencente „a minha coleção‟ (ibid.,

Carta 69), e inúmeras outras aparecem tanto na correspondência com Fliess como em A

Interpretação de Sonhos. (Ver, particularmente, um comentário sobre essas histórias no Capítulo

V, Seção B, a partir de [1].) Desta coleção, naturalmente, derivaram os muitos exemplos de tais

anedotas sobre as quais tão amplamente se baseia sua teoria.

Uma outra influência, algo importante para Freud por volta daquela época, foi a de Theodor

Lipps. Lipps (1851-1914) era um professor de Munique que escrevia sobre psicologia e estética, e

ao qual se atribui a introdução do termo „Einfühlung‟ (empatia). O interesse de Freud por ele foi,

talvez, inicialmente despertado por um artigo sobre o inconsciente, lido em um congresso de

psicologia de 1897, fundamento de uma longa discussão no último capítulo de A Interpretação de

Sonhos (ver em [1].). Sabemos pelas cartas a Fliess que em agosto e setembro de 1898 Freud

estava lendo um livro anterior de Lipps sobre The Basic Facts of Mental Life (1893), novamente

impressionado pelos comentários deste sobre o inconsciente (Freud, 1950a, Cartas 94, 95 e 97).

Mas já em 1898 aparecia um outro trabalho de Lipps sobre assunto mais específico - Komik und

Humor. Foi este trabalho, como diz Freud logo ao início do presente estudo, que o encorajou a

embarcar nele.

Foi em terreno assim preparado que caiu a semente do comentário crítico de Fliess,

decorrendo entretanto muito anos até que frutificasse.

Freud publicou três importantes trabalhos em 1905: a história clínica de „Dora‟, que

apareceu no outono, embora, em sua maior parte, estivesse escrito quatro anos antes, Três

Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade e Os Chistes e sua Relação com o Inconsciente. Trabalhou

nesses dois últimos livros simultaneamente: Ernest Jones (1955, 13) diz que Freud mantinha os

dois manuscritos em mesas adjacentes e fazia acréscimos a um ou a outro de acordo com a

disposição do momento. Os livros foram publicados quase simultaneamente e não está

inteiramente estabelecido qual dos dois foi o primeiro. A numeração atribuída pelo editor em Três

Ensaios é de 1124 e em Os Chistes, 1128; mas Jones (ibid., 375n.) relata que este último número

estava „errado‟, o que podia implicar na reversão dessa ordem. Na mesma passagem, entretanto,

Jones afirma definitivamente que Os Chistes „apareceu logo após o outro livro‟. A data real da

publicação deve ter antecedido o início de junho, pois uma longa e favorável recensão apareceu no

jornal diário de Viena Die Zeit a 4 de junho.

A história posterior deste livro difere muito dos outros principais trabalhos de Freud no

período. A Interpretação de Sonhos, A Psicopatologia da Vida Cotidiana e Três Ensaios sobre a

Teoria da Sexualidade foram todos eles expandidos e modificados, de modo a se tornarem quase

irreconhecíveis em suas edições posteriores. Meia dúzia de pequenos acréscimos foram feitos em

Os Chistes quando este livro atingiu sua 2ª edição em 1912, mas depois nenhuma outra mudança

foi efetivada.

Parece possível que tal circunstância se relacione ao fato de que o livro se mantenha à

parte dos demais escritos de Freud. Ele próprio pensava assim. Suas referências a ele em outros

trabalhos são comparativamente escassas, em Conferências Introdutórias (1916-17, Conferência

XV) refere-se a que ele o tenha temporariamente desviado de seu caminho; em Um Estudo

Autobiográfico (1925d), ver em [1] e [2], há mesmo o que parece ser uma referência levemente

depreciativa. Então, inesperadamente, após um intervalo de mais de vinte anos, Freud retoma o fio

da meada, em seu breve artigo sobre „Humour‟ (1927d), no qual utilizava sua concepção estrutural

da mente, recentemente proposta, para lançar nova luz sobre um obscuro problema.

Ernest Jones descreve o presente como o menos conhecido dos trabalhos de Freud, e isto

é decerto verdade, o que não é de surpreender, quanto aos leitores não alemães.

„Traduttore - Traditore!‟ Tais palavras - dos chistes discutidos adiante por Freud (em [1]) -

podiam ser convenientemente inscritas na página de rosto do presente trabalho. Muitos dos

trabalhos de Freud suscitam agudas dificuldades para o tradutor, mas este apresenta um caso

especial. Aqui, como em A Interpretação de Sonhos e A Psicopatologia da Vida Cotidiana, e talvez

em maior extensão, somos confrontados por um grande número de problemas envolvendo algum

jogo de palavras intraduzível. E aqui, como nesses outros casos, não podemos fazer mais que

explicar a bem descomprometedora política adotada nessa edição. Dispomos de dois métodos, um

ou outro dos quais tem sido usualmente adotado no tratamento de tais exemplos intraduzíveis - ou

abandoná-los de todo ou substituí-los por exemplos do próprio tradutor. Nenhum desses métodos

parece adequado a uma edição que pretende apresentar tão acuradamente quanto possível as

idéias de Freud aos leitores ingleses. Aqui, entretanto, devemos nos satisfazer em fornecer as

palavras críticas no alemão original, explicando-as tão brevemente quanto possível nos colchetes

ou notas de rodapé. Inevitavelmente, é claro, o chiste desaparece nesse processo. Devemos

lembrar-nos, contudo, que pela utilização de qualquer dos métodos alternativos, desaparecem

porções, e às vezes as porções mais interessantes, dos argumentos de Freud. Presumivelmente o

leitor tem estes em vista, mais que um momento de diversão.

Há, entretanto, uma dificuldade muito mais séria na tradução deste trabalho particular -

uma dificuldade terminológica que o atravessa em sua totalidade. Por uma estranha fatalidade

(cujas causas seria do maior interesse investigar) os termos alemães e ingleses cobrindo os

mesmos fenômenos parecem nunca coincidir; são sempre aparentemente ou amplos ou estreitos

demais - deixando lacunas entre si, ou superpondo-se. O próprio título do livro, „Der Witz„ já se nos

depara um importante problema. Traduzi-lo como „wit‟ abre as portas para mal-afortunadas

incompreensões. No uso inglês normal „wit‟ e „witty‟ têm um sentido altamente restrito e aplicam-se

apenas a uma espécie de chistes mais refinados ou intelectuais. O mais sumário exame dos

exemplos nestas páginas mostrará que „Witz„ e „witzig„ possuem conotação muito mais ampla.

„Joke‟ (chiste) por outro lado parece ser ampla demais e cobrir igualmente a alemã Scherz. A única

solução para este, e para dilemas similares, parece ser a adoção de uma palavra inglesa para

alguma correspondente alemã, mantê-la consistente e invariavelmente mesmo se parece errada

em um determinado contexto. Deste modo o leitor ao menos poderá tirar sua própria conclusão

quanto ao sentido em que Freud está usando tal palavra. Assim, através de todo o livro „Witz‟ foi

traduzido como „joke‟ (chiste) e „Scherz„ como „jest‟ (gracejo). Há grande dificuldade com o adjetivo

witzig, usado aqui na maioria dos casos como adjetivo qualificante de Witz. O Concise Oxford

Dictionary apresenta, de fato, sem comentários, o adjetivo „joky‟ (chistoso). Tal palavra teria

poupado ao tradutor inúmeras desajeitadas perífrases mas ele confessa que não teve disposição

para usá-la. As únicas vezes em que „Witz„ foi traduzida como „wit‟ são dois ou três lugares (p. ex.,

em [1]) em que se utiliza a palavra alemã (como explicado na última nota de rodapé) para denotar

a função mental e não o seu produto, parecendo não haver, então, alternativa possível em inglês.

Há outras dificuldades, embora menos graves, quanto às palavras alemãs „das Komische

e „die Komik„. Uma tentativa de diferenciar entre elas, usando „the comic‟ (o cômico) para a primeira

e „comicality‟ (comicidade) para a segunda foi abandonada em vista da passagem ao fim do

parágrafo em [1], onde as duas palavras diferentes são usadas em sentenças sucessivas, muito

claramente com o mesmo sentido, atendendo meramente ao objetivo de „variação elegante‟. De

modo que a muito empolada palavra inglesa „the comic‟ foi adotada sistematicamente para ambas

as palavras alemãs.

Finalmente, pode-se notar que a palavras inglesa „humour‟, naturalmente usada para a

alemã „Humour„, soa decididamente artificial a ouvidos ingleses em alguns contextos. O fato é que

hoje raramente a palavra parece ser usada isoladamente. Dificilmente ocorre exceto na expressão

„sense of humour‟. Mas aqui, outra vez, o leitor estará em posição de decidir por si mesmo sobre o

sentido que Freud conecta à palavra.

Espera-se ardentemente que essas dificuldades, afinal, todas elas superficiais, não

detenham os leitores no início. O livro está cheio de um material fascinador, grande parte do qual

não reaparece em nenhum outro escrito de Freud. As detalhadas abordagens aí contidas dos

complicados processos psicológicos não têm rivais fora de A Interpretação de Sonhos, e são, em

verdade, um produto da mesma fagulha de gênio que nos deu aquele grande trabalho.

A. PARTE ANALÍTICA

I - INTRODUÇÃO

Qualquer pessoa que tenha tido, em alguma época, a oportunidade de investigar na

literatura da estética e da psicologia a luz que estas podem lançar sobre a natureza dos chistes, e

sobre a posição por eles ocupada, deverá provavelmente admitir que os chistes não vêm

recebendo tanta atenção filosófica quanto merecem, em vista do papel que desempenham na

nossa vida mental. Pode-se nomear somente um pequeno número de pensadores que de fato se

aprofundaram nos problemas dos chistes. Entre aqueles que discutiram o chiste estão, entretanto,

nomes famosos, tais como os do novelista Jean Paul (Richter) e dos filósofos Theodor Vischer,

Kuno Fischer e Theodor Lipps. Mas mesmo nesses escritores o tema dos chistes fica à retaguarda,

estando o interesse principal da investigação voltado para o problema, mais amplo e mais atraente,

da comicidade.

A primeira impressão derivada da literatura é que é bem impraticável tratar os chistes, a

não ser em conexão com o cômico.

De acordo com Lipps (1898), um chiste é „algo cômico de um ponto de vista inteiramente

subjetivo‟, isto é, „algo que nós produzimos, que se liga a nossa atitude como tal, e diante de que

mantemos sempre uma relação de sujeito, nunca de objeto, nem mesmo objeto voluntário (ibid.,

80). Segue-se melhor explicação por um comentário de que o efeito daquilo, que, em geral,

chamamos um chiste, é qualquer evocação consciente e bem-sucedida do que seja cômico, seja a

comicidade devida à observação ou à situação‟ (ibid. 78).

Fischer (1889) ilustra a relação dos chistes com o cômico lançando mão da caricatura,

que, em sua abordagem, ele situa entre ambos. A comicidade interessa-se pelo feio, em qualquer

uma de suas manifestações: „Se [o que é feito] for ocultado, deve ser descoberto à luz da maneira

cômica de olhar as coisas; se é pouco notado, escassamente notado afinal, deve ser apresentado

e tornado óbvio, de modo que permaneça claro, aberto à luz do dia… Desta maneira, nasce a

caricatura‟. (Ibid., 45.) „Todo nosso universo espiritual, o reino intelectual de nossos pensamentos e

idéias, não se desdobra ante a mirada da observação externa, nem pode ser diretamente

imaginado de maneira vívida e visível. Além do mais, contém suas inibições, fraquezas e

deformidades - uma riqueza de contrastes ridículos e cômicos. A fim de enfatizar estes e torná-los

acessíveis à consideração estética, é necessário uma força capaz não simplesmente de imaginar

os objetos diretamente mas antes de lançar luz sobre essas imagens, clarificando-as: uma força

que possa iluminar pensamentos. A única força dessa ordem é o juízo. Um chiste é um juízo que

produz contraste cômico; participa já, tacitamente, da caricatura, mas apenas no juízo assume sua

forma peculiar e a livre esfera de seu desdobramento.‟ (Ibid., 49-50.)

Veremos que a característica distintiva do chiste na classe do cômico é, segundo Lipps, a

ação, o comportamento ativo do sujeito, embora, para Fischer, consista na relação do chiste com

seu objeto ou seja, a ocultada fealdade do universo dos pensamentos. É impossível testar a

validade dessas definições do chiste - na verdade, dificilmente elas são inteligíveis -, a não ser que

as consideremos no contexto de onde foram extraídas. Seria, portanto, necessário percorrer as

abordagens do cômico feitas por esses autores antes que possamos aprender com eles sobre o

chiste. Outras passagens, entretanto, mostram-nos que estes mesmos autores são capazes de

descrever as características essenciais, e geralmente válidas, do chiste sem considerar qualquer

conexão sua com o cômico.

A caracterização que mais parece satisfazer ao próprio Fischer é a seguinte: „Um chiste é

um juízo lúdico„.(Ibid., 51.) Por meio de uma ilustração desse princípio, proporcionou uma analogia:

„exatamente como a liberdade estética consiste na contemplação lúdica das coisas‟ (ibid., 50). Em

outra parte (ibid., 20) a atitude estética é caracterizada pela condição de que nada solicitamos ao

objeto; em especial, não lhe pedimos nenhuma satisfação de nossas necessidades sérias,

contentando-nos, antes, com o prazer de contemplá-las. A atitude estética é lúdica, em contraste

com o trabalho. „Seria possível que da liberdade estética brotasse uma espécie de juízo liberado

de suas usuais regras e regulações, ao qual, devido a sua origem, eu chamarei juízo lúdico‟, e está

contido nesse conceito o principal determinante, senão a fórmula total, que resolverá nosso

problema. „A liberdade produz chistes e os chistes produzem liberdade‟, escreveu Jean Paul.

„Fazer chistes é simplesmente jogar com as idéias‟. (Ibid., 24.)

Uma apreciada definição do chiste considera-o a habilidade de encontrar similaridades

entre coisas dessemelhantes, isto é, descobrir similaridades escondidas. Jean Paul expressou

esse próprio pensamento em forma de chiste: „O chiste é o padre disfarçado que casa a todo

casal‟. Fischer [1846-57, 1, 422] avança esta definição: Ele (o padre) dá preferência ao matrimônio

de casais cuja união os parentes abominam‟. Fischer objeta, entretanto, que há chistes em que

não se cogita de comparar, em que, portanto, não se cogita de encontrar similaridades. Divergindo

ligeiramente de Jean Paul, define o chiste como a habilidade de fundir, com surpreendente rapidez,

várias idéias, de fato diversas umas das outras tanto em seu conteúdo interno, como no nexo com

aquilo a que pertencem. Fischer, novamente, acentua o fato de que em largo número de juízos

chistosos encontram-se diferenças, antes que similaridades, e Lipps indica que estas definições se

relacionam à habilidade própria do piadista e não aos chistes que ele faz.

Outras idéias, mais ou menos inter-relacionadas, que têm emergido para a definição ou a

descrição dos chistes, são as seguintes: „um contraste de idéias‟, „sentido no nonsense‟,

„desconcerto e esclarecimento‟.

Definições como a de Kraepelin enfatizam como fator principal o contraste de idéias. Um

chiste é „a conexão ou a ligação arbitrária, através de uma associação verbal, de duas idéias, que

de algum modo contrastam entre si‟. Um crítico como Lipps não tem dificuldades em demonstrar a

total impropriedade dessa fórmula; mas ele próprio não exclui o fator de contraste, deslocando-o

simplesmente para uma outra parte. „O contraste persiste, mas não o contraste entre as idéias

relacionadas às palavras, mas um contraste ou contradição entre o sentido e a falta de sentido das

palavras.‟ (Lipps, 1898, 87.) Através de exemplos demonstra como se deve entender isso. „Um

contraste só assoma porque… atribuímos às palavras um significado que, entretanto, não

podemos garantir-lhes.‟ (Ibid., 90.)

Se esse ponto for mais desenvolvido, o contraste entre „sentido e nonsense„ torna-se

significante. „Aquilo que, em certo momento, pareceu-nos ter um significado, verificamos agora que

é completamente destituído de sentido. Eis o que, nesse caso, constitui o processo cômico… Um

comentário aparece-nos como um chiste se lhe atribuímos uma significância dotada de

necessidade psicológica, e tão logo tenhamos feito isso, de novo o refutamos. Essa “significância”

pode querer dizer várias coisas. Atribuímos sentido a um comentário e sabemos que logicamente

ele não pode ter nenhum. Descobrimos nele uma verdade, fato impossível de acordo com as leis

da experiência ou com nossos hábitos gerais de pensamento. Concedemos-lhe conseqüências

lógicas ou psicológicas, que ultrapassam seu verdadeiro conteúdo, apenas para negar tais

conseqüências tão logo tenhamos reconhecido claramente a natureza do comentário. Em todos os

casos, o processo psicológico que o comentário chistoso nos provoca, e sobre o qual repousa o

processo cômico, consiste na imediata transição dessa atribuição de sentido, dessa descoberta da

verdade, dessa concessão de conseqüências, à consciência ou impressão de relativa nulidade.‟

(Ibid, 85)

Por mais penetrante que essa análise possa parecer, pode-se levantar aqui a questão de

saber se o contraste entre o significativo e a falta de sentido, contraste sobre o qual se diz que o

sentimento do cômico repousa, também contribui para a definição do conceito de chiste na medida

em que este difira do conceito de cômico.

O fator de „desconcerto e esclarecimento‟ leva-nos também a aprofundar o problema da

relação entre o chiste e o cômico. Kant fala-nos que o cômico em geral tem a notável característica

de ser capaz de enganar-nos apenas por um instante. Heymans (1896) explica como é que o efeito

de um chiste se manifesta, o desconcerto sendo sucedido pelo esclarecimento. Ilustra sua teoria

através de um brilhante chiste de Heine, que faz um de seus personagens, Hirsch-Hyacinth, o

pobre agente de loteria, vangloriar-se de que o grande Barão Rothschild o tenha tratado bem como

a um seu igual: bastante „familionariamente‟. Aqui a palavra veículo desse chiste parece, a

princípio, estar erradamente construída, ser algo ininteligível, incompreensível, enigmático. Em

decorrência, desconcerta. O efeito cômico é produzido pela solução desse desconcerto através da

compreensão da palavra. Lipps (1898, 45) acrescenta que o primeiro estágio do esclarecimento -

que a palavra desconcertante signifique isto ou aquilo - é seguido de um segundo estágio, no qual

percebemos que a palavra sem sentido que nos havia „confundido‟, nos mostra então o sentido

verdadeiro. É apenas esse segundo esclarecimento, essa descoberta de que uma palavra sem

sentido, conforme o uso lingüístico normal, é a responsável por todo o processo - essa solução do

problema no nada -, é apenas esse segundo esclarecimento que produz o efeito cômico.

Se alguma dessas duas concepções nos parece lançar um pouco mais de luz sobre a

questão, a discussão do desconcerto e esclarecimento leva-nos para mais perto de uma

descoberta particular. Pois se o efeito cômico do „familionariamente‟ de Heine depende da

interpretação dessa palavra aparentemente sem sentido, o chiste deve, sem dúvida, ser atribuído à

formação da palavra e às características da palavra assim formada.

Uma outra peculiaridade dos chistes, pouco ou nada relacionada com o que até aqui já

consideramos, é reconhecida por todas as autoridades sobre o assunto. A „brevidade é o corpo e a

alma do chiste, sua própria essência‟, diz Jean Paul (1804, parte II, parágrafo 42), modificando

simplesmente o que o velho tagarela Polonius diz no Hamlet (II, 2), de Shakespeare:

„Therefore, since brevity is the soul of wit ‟

And tediousness the limbs and outward flourisher ‟

I will be brief.‟

Nessa conexão, a abordagem por Lipps (1898, 90) da brevidade dos chistes é significativa:

„Um chiste diz o que tem a dizer, nem sempre em poucas palavras, mas sempre em palavras

poucas demais, isto é, em palavras que são insuficientes do ponto de vista da estrita lógica ou dos

modos usuais de pensamento e de expressão. Pode-se mesmo dizer tudo o que se tem a dizer

nada dizendo‟.

Já sabemos, pela conexão dos chistes com a caricatura, que eles „devem apresentar

alguma coisa ocultada ou escondida‟ (Fischer, 1889, 51). Uma vez mais enfatizo esse

determinante, porque ele tem também mais a ver com a natureza dos chistes do que com a parte

cômica destes.

Estou bem alerta para o fato de que os fragmentários segmentos extraídos dos trabalhos

desses escritores sobre os chistes não lhes podem fazer justiça. Devido às dificuldades ante uma

exposição inequivocamente correta de cursos de pensamento tão complicados e sutis, não posso

poupar aos investigadores curiosos a tarefa de obter das fontes originais a informação que

desejarem. Não estou, entretanto, certo de que possam ficar inteiramente satisfeitos. Os critérios e

as características dos chistes apresentados por esses autores, e acima coligidos - a atividade, a

relação com o conteúdo de nossos pensamentos, a característica do juízo lúdico, a conjugação de

coisas dissimilares, as idéias contrastantes, o „sentido no nonsense‘, a sucessão de desconcerto e

esclarecimento, a revelação do que estava escondido, e a peculiar brevidade de chiste -, tudo isso,

é verdade, parece-nos à primeira vista tão estritamente adequado e tão facilmente confirmável

pelos exemplos, que não podemos correr qualquer risco de subestimar tais concepções. Mas elas

são disjecta membra que gostaríamos de ver combinados em um todo orgânico. Uma vez que

todos sejam expressos, não contribuem para nosso conhecimento dos chistes mais que um

conjunto de anedotas para a descrição da personalidade de alguém cuja biografia temos o direito

de solicitar. Não penetramos absolutamente nas conexões presumivelmente existentes entre os

determinantes separados: o que teria, por exemplo, a brevidade do chiste a ver com sua

característica de ser um juízo lúdico. Necessitamos que, além disso, nos digam se um chiste deve

satisfazer a todos esses determinantes para que seja propriamente um chiste, ou se precisa

satisfazer apenas a alguns, nesse caso sendo necessário especificar quais podem ser substituídos

por outros e quais são indispensáveis. Desejaríamos também agrupar e classificar os chistes de

acordo com suas características consideradas essenciais. A classificação que encontramos na

literatura descansa, por um lado, nos recursos técnicos empregados (trocadilhos ou jogos de

palavras) e, por outro lado, no uso que se faz deles no discurso (e.g. chistes usados com o objetivo

de caricatura, de caracterização, ou de afronta).

Não devemos, pois, achar dificuldades em indicar os objetivos de qualquer nova tentativa

de lançar luz sobre os chistes. Para poder contar com algum êxito, teremos, ou que abordar o

trabalho a partir de novos ângulos, ou esforçar-nos por penetrá-lo ainda mais através de

aumentada atenção e aprofundado interesse. Podemos pelo menos decidir que não fracassaremos

quanto ao último aspecto. É impressionante que as autoridades se dêem por satisfeitas com os

propósitos de suas investigações, considerando um número tão pequeno de chistes reconhecidos

como tais, utilizando além do mais os mesmos exemplos analisados por seus predecessores. Não

devemos esquivar-nos ao dever de analisar os mesmos casos que já serviram às clássicas

investigações sobre os chistes. Mas temos, além disso, a intenção de voltar-nos sobre novo

material, visando a uma fundamentação mais ampla para nossas conclusões. É, pois, natural que

escolhamos como assunto de nossa investigação exemplos de chistes que nos tenham

impressionado mais no curso de nossas vidas e que nos tenham feito rir mais intensamente.

Valerá tanto trabalho o tema dos chistes? Pode haver, creio eu, dúvida quanto a isso.

Deixando de lado os motivos pessoais que me fazem desejar conseguir uma penetração dos

problemas dos chistes, os quais virão à luz no curso destes estudos, posso apelar para o fato de

que há íntima conexão entre todos os eventos mentais, fato este que garante que uma descoberta

psicológica, mesmo em campo remoto, repercutirá impredizivelmente em outros campos. Podemos

ter também em mente o encanto peculiar e fascinador exercido pelos chistes em nossa sociedade.

Um novo chiste age quase como um acontecimento de interesse universal: passa de uma a outra

pessoa como se fora a notícia da vitória mais recente. Mesmo homens eminentes que acreditam

valer a pena contar a história de suas origens, das cidades e países que visitaram, das pessoas

importantes com quem conviveram, não se envergonham de inserir em suas autobiografias o relato

de algum excelente chiste que acaso ouviram.

II - A TÉCNICA DOS CHISTES

Vamos tomar agora um caminho, apresentado ao acaso, considerando o primeiro exemplo

de chiste com que deparamos no capítulo anterior.

Na parte de seu Reisebilder intitulada „die Bäder von Lucca [Os Banhos de Lucca]‟ Heine

introduz a deliciosa figura do agente de loteria e calista hamburguês, Hirsch-Hyacinth, que se jacta

ao poeta de suas relações com o rico Barão Rothschild, dizendo finalmente: „E tão certo como

Deus há de me prover todas as coisas boas, doutor, sentei-me ao lado de Salomon Rothschild e

ele me tratou como um seu igual - bastante familionariamente‟.

Heymans e Lipps utilizaram esse chiste (que é, indiscutidamente, um chiste excelente e

muito divertido) para ilustrar sua concepção de que o efeito cômico dos chistes deriva de

„desconcerto e esclarecimento‟ (ver antes [1]). Deixaremos, entretanto, de lado essa questão e

formularemos outra: „O que converte o comentário de Hirsch-Hyacinth em um chiste?‟. Só pode

haver duas respostas possíveis: ou o pensamento expresso na sentença possui em si mesmo o

caráter de um chiste, ou o chiste reside na expressão que o pensamento encontrou na sentença.

Qualquer que seja a direção em que consista o caráter do chiste, nós o perseguiremos além e

tentaremos captá-lo.

Um pensamento pode, em geral, ser expresso por várias formas lingüísticas - ou seja, por

várias palavras - que podem representá-lo com igual aptidão. O comentário de Hirsch-Hyacinth

apresenta seu próprio pensamento numa forma particular de expressão e, conforme nos parece,

numa forma especialmente estranha, não aquela que seria mais facilmente inteligível. Tentemos

exprimir o mesmo pensamento com a maior precisão possível em outras palavras. Lipps executou

essa tarefa de modo a explicar em alguma medida a intenção do poeta. Escreve ele (1898, 87):

„Heine, como o entendo, pretende significar que ele [Hyacinth] fora recebido com uma familiaridade

- de espécie não rara, e que em regra não é favorecida por ter um tempero de milionária riqueza‟.

Não teremos alterado o sentido dessa paráfrase, se lhe dermos uma outra forma mais adequada à

fala de Hirsch-Hyacinth: „Rothschild tratou-me como um igual, muito familiarmente, isto é, na

medida em que isso é possível a um milionário‟. „A condescendência de um homem rico‟,

acrescentaríamos, „sempre envolve alguma coisa pouco agradável para quem a experimente.‟

Quer nos decidamos a escolher qualquer das duas, igualmente válidas, versões do

pensamento, verificamos que a questão que nos puséramos, fica resolvida. Nesse exemplo o

caráter do chiste não reside no pensamento. O que Heine pôs na boca de Hirsch-Hyacinth é uma

observação correta e aguda, uma observação de inequívoca amargura, compreensível num pobre

homem defrontado por tão grande riqueza; não nos aventuraríamos, entretanto, a descrevê-la

como chistosa. Se alguém é incapaz, ao considerar a tradução do chiste, de livrar-se da lembrança

da forma dada pelo poeta ao pensamento, sentindo assim que, não obstante, o pensamento é ele

próprio chistoso, podemos apontar, como critério seguro, para o fato de que o caráter chistoso se

tenha perdido na tradução. O comentário de Hirsch-Hyacinth faz-nos rir a bom rir, enquanto sua

acurada tradução por Lipps, ou a nossa própria versão desta, ainda que possa agradar-nos e

fazer-nos pensar, dificilmente poderá suscitar riso.

Mas, se o que faz de nosso exemplo um chiste não é nada que resida no pensamento,

devemos procurá-lo na forma, na verbalização que o exprime. Temos apenas que estudar a

peculiaridade de sua forma de expressão para captar o que se pode denominar técnica verbal ou

expressiva desse chiste, algo que deve estabelecer íntima relação com a essência do chiste, já

que, substituída por qualquer outra coisa, o caráter e o efeito do chiste desaparecem. Além do

mais, ao atribuir tanta importância à forma verbal dos chistes estamos em perfeita concordância

com as autoridades. Assim, Fischer (1889, 72) escreve: „É, em primeiro lugar, a simples forma que

transforma em chiste um juízo; recordamos um dito de Jean Paul que, em único aforismo, explica e

exemplifica essa precisa característica dos chistes: “Tal é simplesmente o poder da posição, seja

entre guerreiros seja entre palavras‟‟‟.

Em que consiste, pois, a „técnica‟ desse chiste? O que acontece ao pensamento, como

expresso, por exemplo, em nossa versão, de modo a torná-lo um chiste que nos faz rir

entusiasticamente? Ocorrem duas coisas, tal como podemos verificar pela comparação de nossa

versão com o texto do poeta. Primeiro, ocorre uma considerável abreviação. A fim de expressar

completamente o pensamento contido no chiste, fomos obrigados a acrescentar às palavras „R.

tratou-me quase como seu igual, muito familiarmente‟, um post-scriptum que, reduzido à sua forma

mais condensada, se exprime, „isto é, na medida em que isso é possível a um milionário‟. E, ainda

assim, sentimos necessidade de uma ulterior sentença explicativa. O poeta o exprime de maneira

muito mais sintética: „R. tratou-me como um seu igual - bastante familionariamente‟. No chiste

desaparece toda a restrição acrescentada pela segunda sentença à primeira, que relata o

tratamento familiar.

Mas não desaparece a ponto de não deixar um substituto a partir do qual possamos

reconstruí-la. A palavra „familiär [familiarmente]‟, na expressão não chistosa do pensamento,

transformou-se no texto do chiste em „famillionär [familionariamente]‟; e não pode haver dúvida de

que é precisamente dessa estrutura verbal que dependem o caráter do chiste como chiste e o seu

poder de causar riso. A palavra ora construída coincide, em sua posição anterior, com o „familiár

da primeira sentença, e nas sílabas finais com o „Millionär‟ [milionariamente] da segunda. A palavra

representa, portanto, a posição „Millionär„ da segunda sentença e, mesmo, toda a segunda

sentença, o que nos põe em condições de inferir que a segunda sentença tenha sido omitida do

texto do chiste. Pode ser descrita como uma „estrutura composta‟, constituída pelos dois

componentes „familiär„ e „Millionär„, e é tentador fornecer um quadro diagramático da maneira pela

qual se fez a derivação a partir daquelas duas palavras:

f a m i l i ä r

m i l i o n ä r

------------

f a m i l i o n ä r

O processo de conversão do pensamento em um chiste pode ser representado da seguinte

maneira, fantástica à primeira vista, mas produzindo precisamente o resultado que realmente se

nos depara:

‟R. tratou-me bastante familiär,

isto é, tanto quanto é possível para um Millionär.‟

Imaginemos agora que uma força compressora é levada a atuar sobre essas sentenças, e

que, por alguma razão, a segunda é a menos resistente. Opera-se, pois, o seu desaparecimento,

enquanto seu constituinte mais importante, a palavra „Millionär‟, que tem êxito ao rebelar-se contra

sua supressão, é, por assim dizer, reintegrada à primeira sentença, e fundida com o elemento de

tal sentença que lhe é mais semelhante: „familiär„. E a possibilidade casual, que assim emerge, de

salvar a parte essencial da segunda sentença efetivamente favorece a dissolução dos outros

constituintes menos importantes. Assim, pois, é gerado o chiste:

„R. tratou-me bastante famili on är.„

(mili) (är)

Se excluímos da abordagem tal força compressora que, na verdade, desconhecemos, o

processo pelo qual se forma o chiste - ou seja, a técnica do chiste - pode ser descrito, nesse caso,

como uma „condensação acompanhada pela formação de um substituto‟; e no exemplo em pauta,

a formação do substituto consiste na produção de uma „palavra composta‟. Essa palavra composta

famillionär„, que é, em si mesma, incompreensível, mas imediatamente compreendida em seu

contexto e reconhecida como plena de sentido, é o veículo do efeito compelidor do riso no chiste -

mecanismo que não fica, em absoluto, mais bem esclarecido por nossa descoberta da técnica do

chiste. De que modo um processo lingüístico de condensação, acompanhado pela formação de um

substituto através de palavra composta, pode proporcionar-nos prazer e fazer-nos rir? Esse,

evidentemente, é um problema diferente, cujo tratamento podemos adiar até que tenhamos

encontrado uma maneira de abordá-lo. Por enquanto, nos restringiremos à técnica dos chistes.

Nossa expectativa de que a técnica dos chistes não seja indiferente à perspectiva de

descoberta da essência destes, leva-nos imediatamente a inquirir se existem outros exemplos de

chistes, construídos à maneira do „famillionär„ de Heine. Não existindo muitos, são, entretanto,

numerosos o bastante para constituírem um pequeno grupo caracterizado pela formação de

palavras compostas. O próprio Heine derivou um segundo chiste da palavra „Millionär„, copiando-se

a si mesmo. No Capítulo 19 de seu „Ideen‟, ele fala de um „Millionar„, óbvia combinação de

Millionär„ e „Narr„, que, exatamente como no primeiro exemplo, libera um pensamento subsidiário

suprimido.

Eis alguns outros exemplos que encontrei. Há uma certa fonte [Brunnen] em Berlim, cuja

construção custou ao Burgomestre Forckenbecke muita impopularidade. Os berlinenses a

chamaram „Forckenbecken„, e essa descrição encerra certamente um chiste, ainda que para isso

fosse necessário substituir a palavra „Brunnen‟ por seu obsoleto equivalente „Becken„ a fim de

combiná-la em uma totalidade com o nome do Burgomestre. A opinião pública européia foi

responsável também por um chiste cruel ao trocar o nome de um potentado de Leopold para

Cleopold, devido às relações que ele mantivera certa vez com uma senhora cujo primeiro nome era

Cleo. Esse indiscutível produto de uma condensação mantém viva uma perturbadora alusão à

custa de uma única letra. Os nomes próprios em geral são fáceis vítimas desse tipo de tratamento

pela técnica do chiste. Havia em Viena dois irmãos chamados Salinger, um dos quais era um

Börsensensal [corretor da Bolsa; Sensal = corretor]. Tal fato forneceu um meio para chamá-lo

„Sensalinger‟, enquanto seu irmão, para distingui-lo, era chamado pelo nada lisonjeiro nome de

„Scheusalinger‟. A denominação era engenhosa e, sem dúvida, constituía um chiste; não posso

dizer se justificável. Mas os chistes, em regra, pouco indagam quanto a isso.

Contaram-me certa vez o seguinte chiste de condensação. Um jovem que vinha levando

uma vida boêmia no estrangeiro retribuiu, após longa ausência, uma visita a um amigo que morava

aqui. O último surpreendeu-se ao ver uma Ehering [aliança de casamento] na mão do visitante.

„Como?‟ exclamou ele, „você casou-se?‟ „Sim‟, foi a resposta, „Trauring, mas verdadeiro‟. O chiste é

excelente. A palavra „Trauring„ combina ambos os componentes: „Ehering„ transformado em

Trauring„ e a sentença „trauring, aber wahr [triste, mas verdadeiro]„. O efeito do chiste não sofre

interferência do fato de que a palavra composta aqui não seja, como „famillionär„, uma estrutura

ininteligível e, de outra maneira, inexistente, sendo antes uma palavra que coincide inteiramente

com um dos dois elementos representados.

No curso da investigação eu próprio forneci certa vez, não intencionalmente, matéria para

um chiste, uma vez mais bastante análogo a „famillionär„. Relatava eu a uma dama os grandes

serviços prestados por um homem de ciência, que considerava injustamente negligenciado. „Mas

como‟, disse ela, „o homem merece um monumento.‟ „Talvez ele o tenha um dia‟, repliquei, „mas

momentan [no momento] tem muito pouco sucesso.‟ „Monument„ e „momentan‟ são antônimos. A

senhora prosseguiu reunindo-os: „Bem, desejemos-lhe então um sucesso monumentan.

Devo alguns exemplos em línguas estrangeiras, que apresentam o mesmo mecanismo

condensador de nosso „famillionär„, a uma excelente discussão do mesmo assunto em inglês, por

A. A. Brill (1911). Relata Brill que o autor inglês De Quincey comentou em algum lugar que as

pessoas idosas inclinam-se por cair no „anecdotage‟. Esta palavra é uma fusão das palavras

parcialmente coincidentes.

ANECDOTE

e RADOTAGE

Em uma outra história anônima, Brill encontrou certa vez a época do Natal descrita como

„the alcoholidays‟, fusão similar de

ALCOHOL

e HOLIDAYS.

Depois que Flaubert publicou sua celebrada novela Salammbô, Sainte-Beuve qualificou

ironicamente a cena que se passava na antiga Cartago, a despeito de sua detalhada elaboração,

como sendo „Carthaginoiserie‟;

CARTHAGINOIS

e CHINOISERIE

Mas o melhor exemplo de um chiste desse grupo deve-se a um dos homens de proa da

Áustria, o qual, após importante trabalho público e científico, ocupa agora um dos mais altos

postos do Estado. Aventurei-me a utilizar chistes a ele atribuídos, que levam todos aliás o mesmo

selo inconfundível, como material para estas pesquisas, principalmente porque seria difícil

encontrá-lo melhor.

A atenção de Herr N. foi um dia despertada pela figura de um escritor, que se tornou

afamado devido a uma série de ensaios inegavelmente tediosos, escritos em contribuição a um

jornal diário de Viena. Todos esse ensaios tratavam de pequenos episódios sobre as relações de

Napoleão I com a Áustria. O autor tinha cabelos vermelhos. Tão logo ouviu a menção de seu

nome, Herr N. indagou: „Esse não é aquele roter Fadian que se estende pela história dos

Napoleônidas?‟.

Para descobrir a técnica desse chiste devemos submetê-lo ao processo de redução que

elimina o chiste pela mudança do modo de expressão, apresentando, ao invés, o sentido original

completo que decerto pode ser inferido de um bom chiste. O chiste de Herr N. sobre o „roter

Fadian‟ deriva de dois componentes: um julgamento depreciativo do escritor e uma evocação do

famoso símile com que Goethe introduz os excertos „Do diário de Ottilie‟ no Wahlverwandtschaften.

A destemperada crítica pode assim ser entendida: „Trata-se então dessa pessoa que

incessantemente escreve apenas histórias tediosas sobre Napoleão na Áustria!‟. Ora este

comentário por nada é um chiste. Nem é um chiste a bela analogia de Goethe, que decerto não foi

calculada com o objetivo de fazer-nos rir. Exclusivamente quando esses dois fatos são postos em

conexão entre si, submetidos ao peculiar processo de condensação e fusão, o chiste emerge - e

um chiste da primeira ordem.

A conexão do julgamento depreciativo sobre o tedioso escritor com a bela analogia em

Wahlverwandtschaften deve ter ocorrido (por razões que ainda não tornei inteligíveis) de uma

maneira menos simples que em muitos outros casos similares. Tentarei representar o provável

curso dos eventos pela seguinte construção. Primeiramente, o elemento de constante recorrência

temática nas histórias pode ter despertado em Herr N. a leve recordação de uma conhecida

passagem de Wahlverwandtschaften, em geral citada erradamente: „estende-se como se fora um

roter Faden [fio escarlate]‟. O roter Faden da analogia exerceu então uma influência modificadora

da expressão da primeira sentença, em conseqüência da circunstância eventual de que a pessoa

insultada fosse também rot [vermelha], isto é, tivesse cabelos vermelhos. Poder-se-ia então

traduzir: „É então aquela pessoa vermelha (ruiva) que escreve entediantes histórias sobre

Napoleão!‟. Inicia-se então o processo, efetuando a condensação dos dois pedaços. Sob a pressão

deste, que encontra seu primeiro fulcro na identidade do elemento „rot„, o „tedioso‟ é assimilado a

Faden„ (fio) e depois modificado para „fad [estúpido]‟; após isso, os dois componentes puderam

fundir-se no efetivo texto do chiste, desempenhando a citação, nesse caso, um papel tão

importante quanto o elemento julgamento depreciativo, que estava inegavelmente isolado no início

do processo. „Então, é aquele sujeito vermelho que escreve esta fad matéria sobre N[apoleon].‟

„O vermelhoFaden que se estende por tudo.‟

„Não é aquele red Fadian que se estende pela estória dos N[apoleônidas]?‟

Em capítulo posterior (ver em [1]) acrescentarei uma justificação, tanto quanto uma

correção, a essa abordagem, quando vier a analisar esse chiste a partir de pontos de vista não

meramente formais. Mas seja o que for que restar pendente de dúvida, é inegável que uma

condensação se tenha processado. O resultado da condensação é, novamente, por um lado, uma

abreviação considerável; mas, por outro lado, em vez da formação de alguma surpreendente

palavra composta, o que se dá é a interpenetração dos constituintes dos dois componentes. É

verdade que „roter Fadian„ poderia existir como uma simples denominação ofensiva, mas, em

nosso caso, é seguramente o resultado de uma condensação.

Se, nesse ponto, um leitor vier a indignar-se diante de um método de abordagem que

ameaça arruinar sua apreciação dos chistes sem ser capaz de lançar luz sobre a fonte de tal

deleite solicito-lhe paciência, por enquanto. No momento estamos tratando apenas da técnica dos

chistes e essa investigação é mesmo promissora se a fizermos avançar suficientemente.

A análise do último exemplo preparou-nos para descobrir que, se nos depararmos com o

processo de condensação em mais alguns exemplos, o substituto daquilo que é suprimido pode

ser, não uma estrutura composta, mas alguma outra alteração da forma de expressão. Podemos

inteirar-nos do que possa ser essa outra forma substituta, considerando um outro chiste de Herr N.

„Viajei com ele tête-a-bête„. Nada mais fácil que a redução desse chiste que, claramente,

significa: „Viajei com X tête-à-tête, e X é uma besta‟.

Nenhuma dessas duas últimas sentenças é um chiste. Elas podiam ser reunidas em „Viajei

com aquela besta do X tête-à-tête„ e, ainda assim, não comporiam um chiste. O chiste apenas

emerge se se omite „besta‟, e, em sua substituição, o „t‟ de uma das „tête‟ converte-se em „b‟. Com

essa leve modificação, e não obstante ela, a palavra „besta‟ suprimida encontra expressão

novamente. A técnica desse grupo de chistes pode ser descrita como „condensação acompanhada

de leve modificação‟, podendo-se insinuar que quanto mais leve for a modificação melhor será o

chiste.

É similar a técnica de um outro chiste, embora um pouco mais complicada. No curso de

uma conversa, falando-se sobre uma pessoa da qual tanto se havia para louvar como para criticar,

Herr N. comentou: „Bem, a vaidade é um de seus quatro calcanhares de Aquiles‟. Nesse caso a

leve modificação consiste em que, ao invés de um calcanhar de Aquiles, que o herói deve ter

efetivamente possuído, temos em questão quatro calcanhares. Quatro calcanhares - ora, apenas

um animal tem quatro calcanhares. Assim, os dois pensamentos condensados no chiste

exprimem-se: „À parte sua vaidade, Y é um homem eminente; apesar disso, não gosto dele - é

antes um animal que um homem‟.

Certa vez, ouvi outro chiste, similar mas mais simples, um chiste em statu nascendi num

círculo familiar. Estando dois irmãos em um colégio, um deles era um excelente estudante e o

outro um estudante medíocre. Aconteceu então que o aluno exemplar teve também um fracasso

na escola e sua mãe referiu-se a esse incidente exprimindo sua preocupação com o que poderia

significar o começo de uma ulterior deterioração. O menino que até então tinha sido ofuscado por

seu irmão, agarrou essa oportunidade. „É verdade, Karl está recuando nas quatro.‟

A modificação aqui consiste em um breve acréscimo à convicção de que ele também

participava da opinião de que seu irmão estava regredindo. Mas tal modificação representava e

substituía uma apaixonada alegação em causa própria: „Você não deve achar que ele é muito mais

inteligente que eu simplesmente porque tem mais sucesso na escola. Afinal, é apenas um estúpido

animal - vale dizer, muito mais estúpido que eu‟.

Um outro bem conhecido chiste de Herr N. oferece um nítido exemplo de condensação

com leve modificação, em comentário sobre um personagem da vida pública: „Tem um grande

futuro por trás dele‟. O homem a quem esse chiste se referia era bem mais jovem e parecia

destinado, por seu nascimento, educação e qualidades pessoais, a conseguir no futuro a liderança

de um grande partido político e a entrar no governo como chefe deste. Mas os tempos mudaram; o

partido tornou-se tão inadmissível como o governo e podia-se prever que o homem predestinado à

liderança acabaria não chegando a parte alguma. A versão mais sintética a que se poderia reduzir

o chiste seria: „O homem teve um grande futuro à sua frente, mas não tem mais‟. Em vez do „teve‟

e da segunda oração, fez-se simplesmente uma pequena modificação na oração principal

substituindo-se „à sua frente‟ pelo antônimo „por trás dele‟.

Herr N. utilizou quase exatamente a mesma modificação no caso de um cavalheiro que se

tornou Ministro da Agricultura pela única qualificação de ser um fazendeiro. A opinião pública teve

ocasião de reconhecer que se tratava do menos dotado entre os ocupantes do cargo em todos os

tempos. Quando abandonou o posto e retirou-se a seus interesses rurais particulares, Herr N.

disse dele: „Como Cincinnatus, voltou a seu lugar à frente de um arado‟.

O romano, entretanto, que fora convocado a um cargo público, deixando o arado, retornou

a seu lugar atrás deste. O que vem à frente de um arado, naquele então e sempre, é apenas um

boi.

Karl Kraus foi responsável por uma outra feliz condensação com leve modificação.

Escreveu a respeito de certo jornalista da imprensa marrom que este viajara a um dos países dois

Balcãs pelo „Orienter presszug„.Sem dúvida essa palavra combina duas outras: Orientexpresszug

[Expresso Oriente]‟ e „Erpressung [chantagem]‟. Devido ao contexto, o elemento „Erpressung„

emerge apenas como uma modificação de „Orientexpresszug„ - uma palavra requerida pelo verbo

[„viajara‟]. Esse chiste que se apresenta à guisa de um erro de imprensa, suscita por uma outra

razão nosso interesse.

Essa série de exemplos poderia ser facilmente expandida mas não creio que necessitemos

de novos casos para capacitar-nos a captar nitidamente as características da técnica desse

segundo grupo - condensação com modificação. Se compararmos o segundo grupo com o

primeiro, cuja técnica consistia na condensação com formação de palavra composta, verificaremos

facilmente que a diferença entre eles não é de caráter essencial e que as transições ocorrem

fluentemente. Tanto a formação de palavras compostas como a modificação podem ser

subsumidas sob o conceito de formação de substitutos; e, se o desejarmos, poderemos também

descrever a formação de uma palavra composta como a modificação de uma palavra básica por

um segundo elemento.

Aqui, porém, devemos fazer uma primeira pausa e perguntar-nos com que fator conhecido

na literatura sobre o assunto coincide parcial ou inteiramente essa nossa primeira descoberta.

Evidentemente coincide com o fator da brevidade, descrito por Jean Paul como „a alma do chiste‟

(ver em [1]). Mas a brevidade não é por si mesma chistosa, caso em que todo comentário lacônico

viria a sê-lo. A brevidade do chiste deve ser de uma espécie particular. Lembremo-nos de que

Lipps tentou descrever mais precisamente essa particular brevidade dos chistes (ver em [2]). Para

isso nossa investigação contribui de algum modo, demonstrando que a brevidade dos chistes é

freqüentemente o resultado de um processo particular que deixa um segundo vestígio na

verbalização do chiste - a formação de um substituto. Pela utilização do procedimento de redução,

que procura desfazer esse peculiar processo de condensação, verificamos também que o chiste

depende inteiramente de sua expressão verbal tal como estabelecida pelo processo de

condensação. Todo nosso interesse volta-se, naturalmente, para esse estranho processo que foi

até aqui escassamente examinado. Nem ao menos podemos compreender como é que tudo o que

há de mais valioso no chiste, a produção de prazer que este nos traz, pode originar-se desse

processo.

Serão conhecidos, em algum outro domínio de eventos mentais, processos similares aos

que aqui descrevemos como técnica do chiste? Há processos semelhantes em um único campo,

aparentemente muito remoto. Em 1900 publiquei um livro que, como indica seu título (A

Interpretação de Sonhos), tentava lançar luz sobre o que havia de enigmático nos sonhos,

estabelecendo-os como derivativos de nosso funcionamento mental normal. Nessa obra encontrei

ocasião de contrastar o manifesto, e freqüentemente estranho, conteúdo do sonho com os

pensamentos oníricos latentes, que são perfeitamente lógicos e dos quais o sonho é derivado;

meti-me na investigação dos processos que fazem surgir o sonho a partir dos pensamentos

oníricos latentes, tanto quanto das forças psíquicas envolvidas nessa transformação. Dei o nome

de „elaboração onírica‟ à totalidade desses processos transformadores e descrevi como integrante

dessa elaboração onírica um processo de condensação que mostra a maior similaridade com

aquele constatado na técnica dos chistes - que, da mesma forma, leva à abreviação, e cria

formações de substitutos da mesma natureza. Todos estão acostumados, pela recordação de seus

próprios sonhos, com as estruturas compostas, tanto de pessoas como de coisas, que emergem

nos sonhos. Na verdade, os sonhos constroem-nas mesmo com palavras, sendo possível então

dissecá-las na análise. (Por exemplo, „Autodidasker‟, = „Autodidakt‟ + „Lasker‟.) Em outras ocasiões

- de fato, muito mais freqüentes - o trabalho de condensação nos sonhos produz, não estruturas

compostas, mas quadros que nos recordam com exatidão uma coisa ou uma pessoa, exceto por

um acréscimo ou uma alteração derivada de alguma outra fonte: modificação precisamente do

mesmo tipo encontrado nos chistes de Herr N. Não podemos pôr em dúvida que em ambos os

casos somos confrontados pelo mesmo processo psíquico, ao qual podemos reconhecer devido a

seus resultados idênticos. Uma analogia tão abrangente entre a técnica dos chistes e a elaboração

onírica sem dúvida aumentará nosso interesse na primeira e suscitará em nós uma expectativa de

que uma comparação dos chistes com os sonhos ajudará a lançar luz sobre os chistes. Contudo,

não daremos ainda início a essa tarefa, já que devemos considerar que até agora só foi

investigada a técnica de um número muito pequeno de chistes, de modo a não podermos dizer que

a analogia que propomos para guiar-nos mantém-se de fato estabelecida. Nós nos afastaremos,

portanto, da comparação com os sonhos e voltaremos à técnica dos chistes, deixando nesse ponto

de nossa investigação um cabo solto que possamos talvez retomar em um estágio ulterior.

A primeira coisa que queremos saber é se o processo de condensação com formação de

substituto há de ser encontrado em todo chiste, devendo, portanto, ser considerado como uma

característica universal da técnica dos chistes.

Lembro-me aqui de um chiste que persistiu em minha memória devido às circunstâncias

especiais em que o ouvi. Um dos grandes professores à época de minha juventude, pessoa que

sempre consideramos incapaz de apreciar um chiste e de quem nunca ouvimos igualmente um,

chegou um dia ao Instituto rindo-se, e, mais prontamente que de costume, explicou-nos a razão de

seu bom humor. „Acabei de ler um excelente chiste‟, disse ele. „Um jovem, parente do grande

Jean-Jacques Rousseau, de quem ele trazia o nome, foi apresentado em um salon de Paris. Tinha,

além do mais, os cabelos vermelhos. Comportou-se entretanto de maneira tão desajeitada que a

anfitriã comentou criticamente para o cavalheiro que o apresentou: “Vou m‟avez fait connâitre un

jeune homme roux et sot, mais non pas un Rousseau„‟.‟ E o professor riu-se novamente.

De acordo com a nomenclatura das autoridades esse chiste seria classificado como um

Klangwitz‟ e, ainda, de tipo inferior, constituindo-se em um jogo com um nome próprio - em nada

dessemelhante, por exemplo, ao chiste do sermão do monge capuchinho em Wallensteins Lager,

que, como se sabe, tem por modelo o estilo de Abraham de Santa Clara:

Lasst sich nennen den Wallenstein,

ja freilich ist er uns allen ein Stein

des Anstosses und Ärgernisses.

Mas qual será a técnica desse chiste? Verificamos imediatamente que a característica que

esperaríamos demonstrar como universal está ausente no primeiro novo exemplo examinado. Não

há omissão aqui, e dificilmente poder-se-ia encontrar uma abreviação. A própria dama manifesta

diretamente no chiste quase tudo que poderíamos atribuir a seus pensamentos. „Você despertara

minhas expectativas quanto a um parente de Jean-Jacques Rousseau - talvez, um parentesco

espiritual - e eis o que temos: um jovem ruivo e idiota: um roux e sot.‟ É verdade que pude fazer

uma interpolação, mas essa tentativa de redução não desfaz o chiste, o qual permanece

relacionado à identidade fônica das palavras . Fica, pois, demonstrado que a condensação com

formação de substituto não tem lugar na produção desse chiste.

Que mais se pode dizer além disso? Novas tentativas de redução provam-me que o chiste

persiste até que o nome „Rousseau‟ seja substituído por um outro. Se eu pusesse, por exemplo,

„Racine‟ em seu lugar, a crítica da dama, que perduraria tão possível quanto antes, perderia

entretanto qualquer vestígio de chiste. Sei agora onde procurar a técnica desse chiste, embora

ainda hesite em formulá-lo. Tentativamente: a técnica desse chiste consiste no fato de que uma e

mesma palavra - o nome - aparece usada de duas maneiras, uma vez como um todo, e outra vez

segmentada em sílabas separadas qual uma charada.

Posso apresentar alguns exemplos, de técnica idêntica.

Uma dama italiana dizia ter-se vingado de um comentário sem tato do primeiro Napoleão

com um chiste que utilizava a mesma técnica de duplo uso de uma palavra. Em um baile da corte,

ele lhe disse, apontando para o par e conterrâneo dela: „Tutti gli Italiani danzano si male‟. Diante do

que ela desferiu rápido contragolpe: „Non tutti, ma buona parte‟. (Brill, 1911.)

Certa vez, quando a Antigone [de Sófocles] foi encenada em Berlim, a crítica lamentou que

faltasse à encenação o adequado caráter de antigüidade. O espírito berlinense transformou a

crítica nas seguintes palavras: „Antik? Oh, nee‟. (Vischer, 1846-57, 1, 429 e Fischer, 1889 [75].)

Um análogo chiste de segmentação de palavras é corrente em círculos médicos. Se se

indaga a um jovem paciente se já teve alguma experiência masturbatória, a resposta seguramente

há de ser: „O na, nie!‟.

Em todos os três exemplos, que nos são bastantes no que toca a essa espécie de chistes,

observamos a mesma técnica: em cada um, o mesmo nome é usado duas vezes, uma vez como

um todo e a outra vez segmentado em sílabas separadas, as quais têm, assim separadas, um

outro sentido.

O uso múltiplo da mesma palavra, uma vez como um todo e outra nas sílabas em que se

divide, é o primeiro caso em que deparamos com uma técnica diferente da condensação. Mas a

profusão de exemplos que encontramos deve convencer-nos, após curta reflexão, que a nova

técnica descoberta dificilmente deverá limitar-se a esse método. Há inúmeros outros modos

possíveis - quantos, é praticamente impossível dizê-lo - pelos quais a mesma palavra ou o mesmo

material verbal pode prestar-se a múltiplos usos em uma sentença. Todas essas possibilidades

deverão ser consideradas como métodos técnicos de elaborar chistes? Ao que parece, sim, e os

exemplos que seguem provarão isso.

Em primeiro lugar, pode-se tomar o mesmo material verbal e fazer simplesmente alguma

alteração em seu arranjo (ordem das palavras). Quanto mais leve a alteração - maior a impressão

de que algo diferente está sendo dito pelas mesmas palavras -, melhor será o chiste tecnicamente.

„O Sr. e a Sra. X vivem em grande estilo. Alguns pensam que o esposo ganhou muito

dinheiro e tem, portanto, economizado um pouco (dando pouco) [sich etwas zurückgelegt]; outros,

porém, pensam que a esposa tem tem dado um pouco [sich etwas zurückgelegt] ganhando

portanto muito dinheiro.‟

Um chiste realmente diabolicamente engenhoso! E produzido com extraordinária economia

de meios! „Ganhou muito dinheiro - deu pouco [sich etwas zurückgelegt]; deu um pouco [sich etwas

zurückgelegt] - ganhou muito dinheiro.‟ É meramente a inversão dessas duas expressões que

distingue o que se diz do esposo daquilo que se insinua da esposa. A propósito, essa não é, uma

vez mais, toda a técnica do chiste. (Ver em [1] e [2].)

Um amplo campo de jogo descortina-se a essa técnica de chistes se estendemos o „uso

múltiplo do mesmo material‟ de modo a cobrir os casos em que a palavra (ou palavras) em que

reside o chiste ocorre, uma vez, inalterada, mas na segunda vez, com leve modificação. Eis por

exemplo um outro dos chistes de Herr N.:

Este ouvira de um cavalheiro, nascido judeu, um comentário malévolo sobre o caráter

judeu. „Herr Hofrat‟, disse ele, „seu ante-semitismo me é bem conhecido; o que é novo para mim é

seu anti-semitismo‟.

Apenas uma única letra foi alterada, e essa modificação dificilmente seria notável em uma

fala descuidada. O exemplo recorda-nos um dos outros chistes de modificação de Herr N. (Ver em

[1].), com a diferença de que aqui não há condensação; tudo o que se tem a dizer é dito no chiste:

„Sei que você era antigamente um judeu; estou, pois, surpreso em ouvi-lo falar mal dos judeus‟.

Um admirável exemplo de chiste de modificação é a bem conhecida proclamação

Traduttore - Traditore!, A similaridade das duas palavras, que quase remonta à identidade,

representa da maneira mais impressionante a necessidade que força o tradutor a cometer crimes

contra o original.

A variedade de leves modificações possíveis em tais chistes é tão grande que nenhum

deles se assemelha exatamente a outro.

Eis um chiste do qual se diz ter sido enunciado no decorrer de um exame de

jurisprudência. O candidato devia traduzir uma passagem no Corpus Juris: „“Labeo ait” … eu caio

(„fall’), diz ele!‟ „Você é reprovado („fail„), digo eu‟, replica o examinador e o exame chega ao fim.

Quem se engana tomando o nome do grande jurista por uma forma verbal, e ainda assim evocada

erradamente, não merece mesmo nada melhor. Mas a técnica do chiste consiste no fato de que

quase as mesmas palavras que provaram a ignorância do candidato foram utilizadas pelo

examinador para pronunciar sua punição. O chiste é, além do mais, um exemplo de „resposta

pronta‟, técnica que, como veremos (ver em [1]), não difere em muito da que estamos ilustrando

aqui.

As palavras são um material plástico, que se presta a todo tipo de coisas. Há palavras que,

usadas em certas conexões, perdem todo seu sentido original, mas o recuperam em outras

conexões. Um chiste de Lichtenberg isola cuidadosamente as circunstâncias em que as palavras

esvaziadas são levadas a recuperar seu sentido pleno:

„“Como é que você anda?” - perguntou um cego a um coxo. “Como você vê” - respondeu o

coxo ao cego.‟

Há também palavras em alemão que, dependendo de estarem „plenas‟ ou „vazias‟, podem

ser tomadas em sentido diferente e, de fato, em mais de um sentido. Pois, podem haver duas

derivações de uma mesma raiz, uma das quais seja uma palavra de sentido pleno e a outra uma

sílaba final ou sufixo esvaziado, sendo ambas pronunciadas exatamente da mesma maneira. A

identidade fônica entre uma palavra plena e uma sílaba esvaziada pode ser também puro acaso.

Em ambos os casos, a técnica do chiste se aproveita das condições prevalecentes no material

lingüístico.

Um chiste, por exemplo, atribuído a Schleiermacher, é importante para nós por constituir

exemplo quase puro desses métodos técnicos: „Eifersucht [o ciúme] é uma Leidenschaft [paixão]

que mit Eifer sucht [com avidez procura] o que Leiden shafft [causa dor]‟.

Esse é inegavelmente um chiste, mesmo que não particularmente efetivo. Aqui estão

ausentes inúmeros fatores, que na análise de outros chistes podem enganar-nos até que os

examinemos, cada um separadamente. Pouco importa o pensamento verbalmente expresso: a

definição que se dá do ciúme é, em todo caso, inteiramente insatisfatória. Não se encontra vestígio

do „sentido no nonsense„, do „significado escondido‟, ou de „desconcerto e esclarecimento‟.

Nenhum esforço revelará um „contraste de idéias‟: pode-se encontrar com grande dificuldade um

contraste entre as palavras e o que elas significam. Não há qualquer sinal de abreviação: pelo

contrário, a verbalização afigura-se prolixa. No entanto, temos ainda um chiste, e mesmo muito

perfeito. Sua única característica é ao mesmo tempo aquela em cuja ausência desaparece o

chiste: o fato de que as mesmas palavras prestam-se a usos múltiplos. Podemos então incluir esse

chiste numa subclasse daqueles cujas palavras são usadas primeiro como um todo e depois

segmentadas (e. g. Rousseau ou Antigone), ou na outra subclasse em que a multiplicidade é

produzida pelo sentido pleno ou esvaziado dos constituintes verbais. À parte este, apenas um

outro fator merece ser notado do ponto de vista da técnica dos chistes. Encontramos aqui

estabelecido um raro estado de coisas: ocorreu uma espécie de „unificação‟, já que „Eifersucht

[ciúme] é definido através de seu próprio nome - portanto, através de si mesmo. Essa (unificação)

constitui também, como veremos (ver em [1]), uma técnica de chistes. Esses dois fatores devem

ser em si mesmos suficientes para conferir a uma expressão o caráter chistoso.

Se penetramos ainda além na variedade de formas de „uso múltiplo‟ da mesma palavra,

notamos repentinamente que temos diante de nós exemplos de „duplo sentido‟ ou de „jogo de

palavras‟ - formas há muito conhecidas e reconhecidas como técnica de chistes. Por que tivemos o

trabalho de redescobrir aquilo que se poderia buscar no mais superficial ensaio sobre os chistes?

Para começar, só podemos invocar em nossa justificação que, não obstante, apresentamos um

outro aspecto de tal fenômeno da expressão lingüística. O que as autoridades supõem definidor do

caráter dos chistes como uma espécie de „jogo‟ é por nós classificado sob o título de „uso múltiplo‟.

Os outros casos de uso múltiplo passíveis de ser reunidos sob o título de „duplo sentido‟

como um novo grupo, o terceiro, podem ser facilmente divididos em subclasses, que, efetivamente,

não podem ser separadas entre si por distinções mais essenciais do que as que possibilitam a

derivação do terceiro grupo como um todo a partir do segundo. Constatamos:

(a) Casos de duplo sentido de um nome de uma coisa por ele denotada. Por exemplo:

„Discharge thyself of our company, Pistol! (Descarrega-te (desaparece) de nossa companhia,

Pistola!)‟ (Shakespeare [II Henry IV, ii, 4.]).

„Mais Hof [namoro] que Freiung [casamento]‟, disse uma espirituosa vienense sobre

inúmeras moças bonitas que, admiradas durante anos, acabam por não encontrar um marido. „Hof‟

e „Freiung‟ são os nomes de duas praças vizinhas no centro de Viena.

„O vil Macbeth não reina aqui em Hamburgo: o rei aqui é Banko [dinheiro bancário].‟

(Heine, [Schnabelewopski, cap. 3].)

Onde o nome não possa ser usado (deveríamos talvez dizer „mal-usado‟) sem alterações,

pode-se derivar dele um duplo sentido através das leves modificações que já conhecemos:

„Por que‟, perguntava-se em tempos passados, „o Francês rejeitou Lohengrin?„ „Por causa

de Elza (Elsass [Alsace]).‟

(b) Duplo sentido procedendo dos significados literal e metafórico de uma palavra. Eis uma

das mais férteis fontes da técnica dos chistes. Citarei apenas um exemplo:

Um médico, meu amigo, afamado por seus chistes, disse certa vez a Arthur Schnitzler, o

dramaturgo: „Não me surpreendo que você tenha se tornado um grande escritor. Afinal seu pai

susteve um espelho para seus contemporâneos‟. O espelho sustido pelo pai do dramaturgo, o

famoso Dr. Schnitzler, era o laringoscópio. Um famoso dito de Hamlet fala-nos que o objetivo de

uma peça, tanto quanto do dramaturgo que a cria, é „to hold, as were, the mirror up to nature; to

show virtue her own feature, scorn her own image, and the very age and body of the time his form

and pressure (suster, como se fora, um espelho à natureza; mostrar à virtude sua feição própria, ao

escárnio sua própria imagem, ao torso e à longa idade do tempo sua forma e premência)‟. [III, 2.]

(c) Duplo sentido propriamente dito, ou jogo de palavras. Pode-se descrevê-lo como o caso

ideal de „múltiplo uso‟. Nenhuma violência é feita às palavras: não se as segmenta em sílabas

separadas, não é preciso sujeitá-las a modificações, nem se tem que transferi-las da esfera a que

pertencem (a dos nomes próprios, por exemplo) a alguma outra. Exatamente como figuram na

sentença, é possível, graças a certas circunstâncias favoráveis, fazê-las expressar dois

significados diferentes.

Temos exemplos desse tipo disponíveis em grande abundância:

Um dos primeiros atos de Napoleão III quando assumiu o poder foi apoderar-se da Casa

de Orleans. Eis o excelente jogo de palavras, corrente àquele tempo: „C‟est le premier vol de

l‟aigle.‟ [Eis o primeiro vol da águia.] „Vol‟ significa „vôo‟, mas também „roubo‟. (Citado por Fischer,

1889 [80].)

Luís XV queria testar o espírito de um de seus cortesãos, cujo talento lhe tinham

mencionado. Na primeira oportunidade ordenou ao cavalheiro que fizesse um chiste do qual ele, o

rei, devia ser o „sujet [assunto]‟. O cortesão desferiu imediatamente a inteligente réplica: „Le roi

n‟est pas sujet‟. [O rei não é um assunto (ou „súdito‟). Também em Fischer, loc. cit.]

Um médico, afastando-se do leito de uma dama enferma, diz a seu marido: „Não gosto da

aparência dela‟. „Também não gosto e já há muito tempo‟, apressou-se o marido em concordar.

O médico referia-se obviamente ao estado da senhora mas expressou sua preocupação

quanto à paciente em palavras tais que o marido podia interpretá-las como confirmação de sua

própria aversão marital.

Heine falou da comédia satírica: „Esta sátira não seria tão mordaz se o autor tivesse mais o

que morder‟. Este chiste é mais um exemplo de duplo sentido literal e metafórico que de um jogo

de palavras propriamente dito. Mas qual a vantagem de estabelecer uma acurada distinção aqui?

Um outro bom exemplo de jogo de palavras é dado pelas autoridades (Heymans e Lipps)

em uma forma que o faz ininteligível. Há não muito tempo encontrei tanto a versão correta como o

contexto da anedota em uma coleção de chistes, de pouco uso a não ser por isso.

„Um dia Saphir e Rothschild encontraram-se. Depois que tagarelaram um pouco, Saphir

disse: “Ouça, Rothschild, meus fundos baixaram e você poderia me emprestar cem ducados”.

“Muito bem!”, disse Rothschild, “isso não é problema para mim - com a única condição que você

faça um chiste.” “Isso não é problema para mim também”, replicou Saphir. “Bom. Venha então a

meu escritório amanhã.” Saphir apareceu pontualmente. “Ah!”, disse Rothschild, quando o viu

entrar, “Sie kommen um Ihre 100 Dukaten [você veio pelos seus 100 ducados]”. “Não”, respondeu

Saphir, “Sie kommen um Ihre 100 Dukaten [Você vai perder seus 100 ducados], porque eu não

sonharei em lhe pagar antes do Juízo Final.‟”

„O que vorstellen [representam ou apresentam] estas estátuas?‟, pergunta em Berlim um

estrangeiro a um nativo berlinense, contemplando uma fileira de monumentos em praça pública.

„Bem‟, foi a réplica, „ou sua perna direita ou sua perna esquerda.‟

„No momento não posso lembrar-me dos nomes de todos os estudantes, e quanto aos

professores, há alguns que nem nome têm ainda.‟ (Heine, Harzreise.)

Estaremos talvez ganhando prática na tarefa de diferenciação diagnóstica se a este ponto

inserirmos um outro bem conhecido chiste sobre professores. „A distinção entre Professores

Ordinários [ordentlich] e Extraordinários [ausserordentlich] é que os ordinários nada fazem de

extraordinário enquanto os extraordinários nada fazem ordinariamente [ordentlich].‟ Temos,

naturalmente, um jogo de palavras com os dois sentidos das palavras „ordentlich„ e

ausserordentlich„: de um lado temos os sentidos de „dentro‟ e „fora‟ da „Ordo [o sistema]‟ e por

outro lado, temos os sentidos de „eficiente‟ e „eminente‟. A conformidade entre este chiste e outros

que já examinamos lembra-nos que aqui o „múltiplo uso‟ é muitíssimo mais notável que o „duplo

sentido‟. Durante toda a enunciação nada escutamos além de um „ordentlich„ constantemente

recorrente, algumas vezes nesta mesma forma, outras vezes modificado com um sentido negativo.

(Ver em [1].) Além do mais, comete-se novamente aqui a façanha de definir um conceito por meio

de sua própria verbalização (cf. o exemplo de „Eifersucht„ [ciúme]‟,em [2]), ou de forma mais

precisa, consegue-se definir (ainda que só negativamente) dois conceitos correlatos por meio de

um outro, que produz engenhoso entrelaçamento. Finalmente, deve-se também enfatizar aqui o

aspecto da „unificação‟ - a sonegação de uma conexão entre os elementos de uma asserção mais

íntima, do que se teria o direito de esperar, a partir de sua natureza.

„O bedel Sch[äfer] saudou-me tal como a um colega, desde que ele também é um escritor,

e freqüentemente menciona-me em seus escritos semestrais; fora isto, tem várias vezes me citado,

e se não me encontra em casa, é sempre delicado o bastante para escrever uma intimação

(citation) a giz na porta de meu gabinete.‟ (Heine, Harzreise.)

Daniel Spitzer (ver em [1]), em seu Wiener Spaziergänge, realiza uma lacônica descrição

biográfica, que é também um bom chiste do tipo crítica social que floresceu ao tempo da explosão

especulatória [que sucedeu à guerra franco-prussiana]: „Fronte de ferro - cofre de ferro - Coroa de

ferro‟. (Este último acompanhava um ordenamento por nobreza.) Um surpreendente exemplo de

„unificação‟ - tudo como que feito de ferro! Os vários sentidos, embora não nitidamente

contrastantes, do epíteto „ferro‟ possibilitam esses múltiplos usos.

Um outro exemplo de jogo de palavra pode facilitar a transição para novas subespécies da

técnica de duplo sentido. O colega médico brincalhão, já mencionado (ver em [1]), foi responsável

por esse chiste ao tempo do caso Dreyfus: „Esta garota me lembra Dreyfus. O exército inteiro não

acredita em sua inocência‟.

A palavra „inocência‟, sobre cujo duplo sentido o chiste é construído, tem, em um contexto,

seu significado usual, cujo antônimo é „culpa‟ ou „crime‟; mas tem em outro contexto um significado

sexual, cujo antônimo é „experiência sexual‟. Há um número muito grande de exemplos similares

de duplo sentido nos quais o efeito do chiste depende, muito especialmente, do significado sexual.

Para esse grupo, podemos reservar o nome de „double entendre [Zweideutigkeit]‟.

Exemplo excelente de um double entendre desse tipo é o chiste de Spitzer, já registrado

em [1]: „Alguns pensam que o esposo ganhou muito dinheiro e tem, portanto, dado pouco [sich

etwas zurückgelegt]; outros, porém, pensam que a esposa tem dado um pouco [sich etwas

zurückgelegt] e tem, portanto, podido ganhar muito dinheiro‟.

Se comparamos este exemplo de duplo sentido acompanhado de double entendre com

outros exemplos, torna-se evidente uma distinção, que não é destituída de interesse do ponto de

vista da técnica. No chiste da „inocência‟, um sentido da palavra é exatamente tão óbvio quanto o

outro; realmente seria difícil decidir qual dos sentidos (o sexual ou o não sexual) é o mais usual e

familiar. Mas não ocorre o mesmo com o exemplo de Spitzer. O significado vulgar das palavras

sich etwas zurückgelegt„ é, longe, o mais proeminente, enquanto seu significado sexual está como

que encoberto e escondido, podendo mesmo escapar completamente a alguma pessoa

desprevenida. Vamos tomar, por via de um contraste agudo, outro exemplo de duplo sentido, onde

não se faz a menor tentativa de ocultar o significado sexual; por exemplo, a descrição por Heine do

caráter de uma dama complacente: „Ela nada podia abschlagen à exceção de sua própria água‟.

Isto nos soa como uma obscenidade, dificilmente dando a impressão de um chiste. Esta

peculiaridade, entretanto - o caso de um duplo sentido onde os dois significados não são óbvios da

mesma maneira - pode também ocorrer em chistes sem qualquer referência sexual - seja porque

um sentido é mais usual que outro, seja porque salta ao primeiro plano devido a uma conexão com

as outras partes da sentença. (Cf., por exemplo, „C‟est le premier vol de l‟aigle‟ (em [1]).) Proponho

descrever todos estes casos como sendo „duplo sentido com uma alusão‟.

Já entramos em contato com um tão grande número de diferentes técnicas de chiste que

temo corramos o risco de nos perdermos. Tentemos portanto sumariá-las.

I - Condensação:

(a) com formação de palavra composta;

(b) com modificação.

II - Múltiplo uso do mesmo material:

(c) como um todo e suas partes;

(d) em ordem diferente;

(e) com leve modificação;

(f) com sentido pleno e sentido esvaziado.

III - Duplo sentido:

(g) significado como um nome e como uma coisa;

(h) significados metafóricos e literal;

(i) duplo sentido propriamente dito (jogo de palavras);

(j)double entendre;

(k) duplo sentido com uma alusão.

Essa variedade e esse número de técnicas têm um efeito desconcertante. Pode fazer-nos

sentir perturbados por nos devotarmos à consideração dos métodos técnicos dos chistes, tanto

como pode despertar-nos a suspeita de que afinal exageramos a importância destes como meio de

descobrir a natureza essencial dos chistes. Se pelo menos essa conveniente suspeita não fosse

contraditada pelo fato incontestável de que o chiste invariavelmente desaparece tão logo

eliminamos de sua forma de expressão a operação destas técnicas! Portanto, a despeito de tudo,

somos levados a procurar a unidade nesta multiplicidade. Deve ser possível reunir todas estas

técnicas sob um único cabeçalho. Como já dissemos (ver em [1]), não é difícil fundir o segundo e o

terceiro grupo. O duplo sentido (jogo de palavras) é, na verdade, o único caso ideal de uso múltiplo

do mesmo material sendo deste (grupo), evidentemente, o conceito mais inclusivo. Os exemplos

de segmentação, rearranjo do mesmo material e múltiplo uso com leve modificação (c, d e e)

poderiam - embora com alguma dificuldade - ser fundidos sob o conceito de duplo sentido. Mas o

que haverá de comum entre a técnica do primeiro grupo (condensação com substituição) e a dos

outros dois grupos (múltiplo uso do mesmo material)?

Algo muito simples e óbvio deve ser pensado. O uso múltiplo do mesmo material é, afinal,

um caso especial de condensação; o jogo de palavras nada mais é que uma condensação sem

formação de substitutivo; portanto, a condensação permanece sendo a categoria mais ampla.

Todas estas técnicas são dominadas por uma tendência à compressão, ou antes à economia.

Tudo parece ser uma questão de economia. Nas palavras de Hamlet: „Thrift, thrift, Horatio!

(Economia, economia, Horácio!)‟.

Testemos em diferentes exemplos esse principio da economia. „C‟est le premier vol de

l‟aigle (ver em [1])‟. É o primeiro vôo da águia, mas é um vôo assaltante. Afortunadamente para a

existência deste chiste, „vol„ significa não apenas „vôo‟ como „roubo‟. Não se fez alguma

condensação e economia? Muito certamente. Ressalva-se todo o segundo pensamento,

descartado sem deixar substitutivo. O duplo sentido da palavra „vol„ torna tal substituição

desnecessária; seria igualmente verdadeiro dizer que a palavra „vol‟ contém o substitutivo do

pensamento suprimido sem que se faça qualquer acréscimo ou mudança no primeiro. Essa a

vantagem do duplo sentido.

Um outro exemplo: „Fronte de ferro - cofre de ferro - coroa de Ferro‟ (ver em [1]). Eis uma

extraordinária economia comparada à expressão do mesmo pensamento onde não ocorre „ferro‟:

„Com ajuda da necessária ousadia e falta de consciência não é difícil amealhar grande fortuna,

sendo um título, naturalmente, uma recompensa adequada para tais serviços‟.

A condensação, e portanto a economia, está inequivocamente presente nesses exemplos.

Mas ela deve estar presente em todos os exemplos. Onde se esconde a economia em chistes tais

como „Rousseau - roux et sot„ (ver em [1]) ou „Antigone - Antik? oh nee‟ (ver em [2]), nos quais

notamos primeiramente a ausência de condensação, constituindo-se assim em nosso principal

motivo para postular a técnica do uso repetido do mesmo material? É verdade que não podemos

constatar aqui a ocorrência de condensação; mas se em vez disso usarmos o conceito mais

inclusivo de economia, podemos consegui-lo sem dificuldade. É fácil indicar o que economizamos

nos casos de Rousseau, Antigone etc. Economizamos a expressão de crítica ou a formalização do

juízo: ambos já existem no próprio nome. No exemplo de „Leidenschaft - Eifersucht [paixão-ciúme]‟

(ver em [3]) economizamos o trabalho de construir laboriosamente uma definição: „Eifersucht,

Leidenschaft„ - „Eifer sucht‟ [„a avidez procura‟], „Leiden shafft„ [„o que causa dor‟]. Temos apenas

que acrescentar as palavras de conexão e eis já pronta nossa definição. Ocorre o mesmo em

todos os outros exemplos que foram analisados até aqui. Onde existe uma economia mínima, caso

do jogo de palavras de Saphir, „Sie kommen um Ihre 100 Dukaten„ (ver em [4]), há pelo menos uma

economia da necessidade de esquematizar nova verbalização para a resposta. A verbalização da

pergunta é suficiente para a resposta. A economia não é muita, mas nela o chiste consiste. O uso

múltiplo das mesmas palavras como pergunta e resposta é certamente uma „economia‟. É o caso

da definição por Hamlet da rápida seqüência da morte de seu pai e do casamento de sua mãe:

The funeral baked-meats [I, 2.]

Did coldly furnish forth the marriage tables. [I, 2.]

Mas antes que aceitemos a „tendência à economia‟ como a característica mais geral da

técnica dos chistes e postulemos questões como a da sua procedência, da sua significação, e do

modo como emerge o prazer resultante do chiste, devemos encontrar lugar para uma dúvida que

se tem o direito de suscitar. Pode ser que toda técnica do chiste mostre uma tendência a

economizar algo na expressão, mas essa relação não é reversível. Nem toda economia

expressiva, nem toda abreviação, é suficiente para dar conta do chiste. Chegamos a esse ponto

uma vez, anteriormente, quando ainda esperávamos encontrar em todo chiste o processo de

condensação, levantando a justificável objeção de que um comentário lacônico não é

necessariamente um chiste (ver em [1]). Deve haver portanto alguma espécie peculiar de

abreviação e economia da qual dependa a característica essencial do chiste; até que conheçamos

a natureza de tal peculiaridade, nossa descoberta do elemento comum nas técnicas dos chistes

aproxima-nos da solução de nosso problema. Tenhamos, pois, a coragem de admitir que a

economia feita pela técnica do chiste não nos impressiona sensivelmente. Ela recorda-nos, talvez,

o modo pelo qual certas donas de casa economizam, gastando tempo e dinheiro no trajeto a um

mercado distante simplesmente porque, lá, as verduras devem ser alguns vinténs mais baratas. O

que economiza o chiste através de sua técnica? A concatenação de algumas novas palavras que

teriam, em sua maior parte, emergido sem qualquer dificuldade. Em troca disso, toma-se o trabalho

de procurar aquela palavra que cubra os dois pensamentos. Na verdade, e com freqüência,

deve-se primeiro transformar um dos pensamentos em uma forma rara que fornecerá fundamento

para sua combinação com o segundo pensamento. Não teria sido mais simples, mais fácil, e

mesmo, mais econômico expressar os dois pensamentos como eles eventualmente ocorreriam,

mesmo que isto não implicasse alguma forma de expressão comum (a ambos)? Não será essa

economia em palavras enunciadas mais que compensada pelo dispêndio de esforço intelectual? E

quem é que economiza dessa forma? Quem lucra com isso?

Podemos evitar provisoriamente essas dúvidas se as transpusermos para alguma outra

parte. Já teremos realmente descoberto todos os tipos de técnicas de chiste? Será decerto mais

prudente colher novos exemplos e submetê-los à análise.

Na verdade não consideramos ainda um grande grupo de chistes - possivelmente o mais

numeroso - influenciados, talvez, pelo desprezo com que são considerados. Constituem uma

espécie geralmente conhecida como „Kalauer„ (calembourgs) [„trocadilhos‟], que passa por ser a

forma mais baixa de chiste verbal, possivelmente por ser a „mais barata‟ - isto é, elaborada com a

menor dificuldade. De fato, são eles que fazem menores solicitações à técnica de expressão, tanto

quanto os jogos de palavras propriamente ditos fazem as solicitações mais altas. Enquanto nestes

últimos dois significados devem encontrar expressão na mesma e idêntica palavra, dita usualmente

uma só vez, para um trocadilho basta que dois significados se evoquem um ao outro através de

alguma vaga similaridade, seja uma similaridade estrutural geral, ou uma assonância rítmica, ou o

compartilhamento de algumas letras iniciais etc. „Inúmeros exemplos, inadequadamente descritos

como „Klangwitze [chistes fônicos]„, ocorrem no sermão do monge capuchinho em Wallensteins

Lager:

Kümmert sich mehr um den Krug als den Krieg,

Wetzt lieber den Schnabel als den Sabel

.............................................

Frisst den Ochsen lieber als den Oxenstirn

.............................................

Der Rheinstrom ist worden zu einen Peinstrom,

Die Klöster sind augesnommene Nester,

Die Bistümer sind verwandelt in Wüsttümer.

..............................................

Und alle die gesegneten deutschen Länder

Sind verkehrt worden in Elender.

Estes chistes apresentam a particular tendência de modificar uma das vogais da palavra.

Assim Hevesi (1888, 87) escreve sobre um poeta italiano contrário ao Império e não obstante

obrigado a louvar em hexâmetros o Imperador alemão: já que ele não podia exterminar os Cäsaren

[Césares], eliminou ao menos as Cäsuren [Cesuras].

Entre a profusão de trocadilhos de que dispomos, valerá talvez a pena considerar um

exemplo realmente ruim, cometido por Heine. Apresentando-se por muito tempo como um „príncipe

indiano‟ a sua dama, descarta finalmente o disfarce e confessa: „Madame, eu vos enganei… Não

estive em Kalkutta [Calcutá] mais que o Kalkuttenbraten [frango assado à Calcutá] que comi no

almoço de ontem‟. A falha neste chiste consiste claramente no fato de que as duas palavras

semelhantes envolvidas não são apenas semelhantes mas idênticas. A ave que foi comida assada

é chamada assim porque provém, ou supõe-se que provém da mesma Calcutá.

Fischer (1889, 78) tem devotado muita atenção a essas formas de chiste e tenta

distingui-las agudamente do „jogo de palavras‟. „Um trocadilho é um mau jogo de palavras, já que

joga não com a palavra mas com o seu som.‟ O jogo de palavras, entretanto, „passa do som da

palavra à própria palavra‟. [Ibid., 79.] Por outro lado, classifica chistes como „famillionär‟, Antigone

(„Antik? oh, nee‟) etc., entre os chistes fônicos. Não vejo necessidade de acompanhá-lo neste

ponto. Em um jogo de palavras, segundo nossa concepção, a palavra é também apenas uma

imagem fônica, a que se atribui um ou outro significado. Mas também aqui o uso lingüístico não faz

distinções acuradas; e se os „trocadilhos‟ são tratados com desprezo enquanto se reserva certo

respeito ao „jogo de palavras‟, tais julgamentos de valor parecem ser determinados por

considerações de outra ordem que não técnica. Vale a pena prestar atenção ao tipo de chistes,

qualificados como „trocadilhos‟. Há pessoas que, quando estão bem dispostas podem responder a

cada comentário que lhes é dirigido com um trocadilho, e isso durante consideráveis períodos de

tempo. Um de meus amigos, um modelo de discrição quando estão envolvidas suas conquistas no

campo da ciência, pode vangloriar-se dessa habilidade. Certa ocasião, mantinha o fôlego do

público suspenso agindo assim, todos admirados ante sua capacidade de resistência: „Sim‟, disse

ele, „estou aqui mantendo-me auf der Ka-Lauer.‟ E quando, afinal, imploraram-lhe que parasse, ele

concordou com a condição de que fosse designado „Poeta Ka-laureatus„. Ambos os chistes são,

entretanto, excelentes chistes de condensação e formação de palavras compostas. („Estou aqui

mantendo-me auf der Lauer [em guarda] para fazer Kalauer [trocadilhos].‟)

De qualquer forma o que podemos concluir dessa disputa sobre a delimitação dos chistes

e dos jogos de palavras é que os primeiros não podem ajudar-nos a descobrir uma técnica de

chiste completamente nova. Se, no caso dos trocadilhos, desistimos da reivindicação quanto ao

uso do mesmo material em mais de um sentido, não obstante, a ênfase recai na redescoberta do

que é familiar, ou na correspondência entre as duas palavras que compõem o trocadilho; em

conseqüência, os chistes meramente formam uma subespécie do grupo cujo ponto máximo é

alcançado pelos jogos de palavras propriamente ditos.

Mas existem realmente chistes cuja técnica resiste a quase toda tentativa de conectá-la

com os grupos até aqui considerados.

„Conta-se a estória de que, em certo fim de tarde, Heine conversava em um salon de Paris

com o dramaturgo Soulié, quando adentrou à sala um dos reis das finanças de Paris, comparados

popularmente a Midas - e não apenas por sua riqueza. Logo foi cercado por uma multidão que o

tratava com a maior deferência. “Veja!” observou Soulié a Heine, “veja como o século XIX cultua o

Bezerro de Ouro!” Com uma rápida mirada ao objeto de tanta admiração, Heine replicou, como que

a bem da correção: “Oh, sim, mas ele já deve ser mais velho agora!”‟ (Fischer, 1889, 82-3.)

Onde pesquisaremos a técnica deste excelente chiste? Em um jogo de palavras, pensa

Fischer: „Assim, por exemplo, as palavras “Bezerro de Ouro” significam tanto Mammon como

idolatria. Em um caso, o ouro é a principal coisa do universo e, em outro, a estátua do animal pode

servir também para caracterizar, em termos não precisamente lisonjeiros, alguém que tenha muito

dinheiro e bem pouco senso‟. (Loc. cit.) Se experimentamos remover a expressão „Bezerro de

Ouro‟, decerto nos livraremos ao mesmo tempo do chiste. Façamos Soulié dizer: „Veja! Olhe como

o povo se amontoa em torno daquele sujeito estúpido simplesmente porque ele é rico!‟. Não existe

mais chiste algum e a resposta de Heine é tornada impossível.

Mas devemos lembrar-nos que o que nos interessa não é o símile de Soulié - um possível

chiste - mas a réplica de Heine, um chiste certamente muito superior. Assim sendo, não temos o

direito de tocar a expressão sobre o Bezerro de Ouro: permanece como pré-condição do mot de

Heine e nossa redução deve dirigir-se apenas à última. Se desdobramos as palavras „Oh, mas ele

já deve ser mais velho‟ só podemos substituí-las por algo que seja aproximadamente „Oh, ele não

é mais um bezerro e sim um boi adulto!‟. Portanto, a pré-condição do chiste de Heine é não

interpretar a expressão „Bezerro de Ouro‟ metaforicamente mas em um sentido pessoal, devendo

aplicar-se ao próprio homem rico. Pode ser mesmo que este duplo sentido já estivesse presente no

comentário de Soulié.

Mas, um momento! Parece agora que a redução efetuada não destrói sua essência

intocada. Na nova situação Soulié diz: „Veja! Veja como o século XIX reverencia o Bezerro de

Ouro!‟ e Heine replica: „Oh, ele não é mais um bezerro; já é um boi!‟. Esta versão reduzida é ainda

um chiste. Entretanto, nenhuma outra redução do mot de Heine é possível.

É pena que este requintado exemplo envolva condições técnicas tão complicadas. Não

podemos chegar a seu esclarecimento. Vamos deixá-la portanto e buscar outro caso no qual

aparentemente detectamos um parentesco interno com o precedente.

É um dos „chistes de banho‟ que tratam da aversão dos judeus da Galícia aos banhos. Não

insistimos, pois, sobre a patente de nobreza de nossos exemplos. Não investigamos a origem

destes mas sua eficiência - serem capazes de nos fazer rir e de merecer nosso interesse teórico.

Ambos estes requisitos são satisfeitos precisamente por chistes de judeus.

„Dois judeus se encontram nas vizinhanças de um balneário. “Você tomou um banho?”,

pergunta um deles. “O quê?”, retruca o outro, “há um faltando?”.‟

Se alguém ri de um chiste com toda sinceridade, não está precisamente na melhor

condição de investigar sua técnica. Daí que algumas dificuldades assomam quanto ao progresso

dessas análises. „Eis um equívoco cômico‟, inclinamo-nos a dizer. Sim, mas qual será a técnica do

chiste? Nitidamente, consiste no uso da palavra „tomar‟ em dois sentidos. Para um dos

interlocutores, „tomar‟ é o neutro auxiliar; para o outro, trata-se do verbo com seu sentido

esvaziado. Lidamos portanto com o caso do uso „pleno‟ e „esvaziado‟ da mesma palavra (Grupo II

(f) em [1]. Se substituímos a expressão „tomou um banho‟ pela equivalente, mais simples,

„banhou-se‟, o chiste se esvai. A réplica deixa de adequar-se. Dessa forma, o chiste uma vez mais

conecta-se à forma da expressão „tomou um banho‟.

Tudo isso é verdade. Entretanto parece que também nesse caso a redução aplicou-se ao

ponto errado. O chiste não assenta na pergunta mas na resposta - ou seja, na segunda pergunta:

„O quê? há um faltando?‟. Não se pode negar a esta resposta caráter chistoso, seja por alguma

extensão ou modificação, sem interferência com o sentido. Temos também impressão que na

réplica do segundo judeu o fato de que nem lhe ocorre a idéia de ter-se banhado é mais importante

que a compreensão errônea da palavra „tomar‟. Aqui, uma vez mais, não podemos encarar nosso

caminho claramente, pelo que devemos procurar um terceiro exemplo.

Trata-se outra vez de um chiste de judeu; no caso, entretanto, apenas o contexto é judeu,

pertencendo o fundo à humanidade em geral. Sem dúvida este exemplo tem também suas

complicações indesejáveis, mas afortunadamente não são as mesmas que nos têm impedido de

ver com clareza.

„Um indivíduo empobrecido tomou emprestado 25 florins de um próspero conhecido seu,

após muitas declarações sobre suas necessitadas circunstâncias. Exatamente neste mesmo dia

seu benfeitor reencontrou-o em um restaurante, com um prato de maionese de salmão à frente. O

benfeitor repreendeu-o: “Como? Você me toma dinheiro emprestado e vem comer maionese de

salmão em um restaurante? É nisso que você usou o meu dinheiro?”. “Não lhe compreendo”,

retrucou o objeto deste ataque; “se não tenho dinheiro, não posso comer maionese de salmão; se

o tenho, não devo comer maionese de salmão. Bem, quando vou então comer maionese de

salmão?”‟

Não se pode encontrar aqui qualquer vestígio de duplo sentido. Nem é na repetição de

„maionese de salmão‟, que consiste a técnica do chiste, pois não se trata de „uso múltiplo‟ do

mesmo material, mas de uma repetição real de material idêntico, requerida pelo conteúdo da

anedota. Podemos ficar algum tempo bastante desconcertados por essa análise; podemos pensar

mesmo em buscar refúgio no recurso de negar que a anedota - embora nos faça rir - possua o

caráter de chiste.

Que outro ponto mereceria comentário na réplica da pessoa empobrecida? O fato de que

tal réplica tenha muito marcadamente a forma de um argumento lógico. Mas reconhecemos isso,

bastante injustificadamente, desde que a réplica é de fato ilógica. O homem defende-se de ter

gasto em uma guloseima o dinheiro que lhe fora emprestado, indagando, com aparente

fundamento, quando haveria de comer salmão. Mas esta não é a resposta correta. Seu benfeitor

não lhe reprova tratar-se à base de salmão precisamente no dia em que tomara dinheiro

emprestado; antes, recorda-lhe que em tais circunstâncias ele não teria nenhum direito a tais

guloseimas. O arruinado bon vivant desconsidera o único significado possível da reprovação e

responde-a com outra questão, como se tivera entendido erradamente o reproche.

Consistirá a técnica do chiste precisamente no desviamento da réplica em relação ao

sentido da reprovação? Se tanto, uma modificação similar do ponto de vista, uma mutação similar

da ênfase psíquica, será talvez rastreável nos dois primeiros exemplos, que sentimos muito

aparentados a esse.

Eis que tal sugestão constitui fácil êxito, de fato revelando a técnica daqueles exemplos.

Soulié indicou a Heine que a sociedade, no século XIX, reverenciava o „Bezerro de Ouro‟

exatamente como os judeus no deserto. Uma apropriada resposta de Heine teria sido „assim é a

natureza humana; milhares de anos não a mudaram‟, ou qualquer coisa semelhante exprimindo

aquiescência. Mas Heine desvia sua resposta do pensamento a ele sugerido e não lhe dá afinal

qualquer resposta. Utiliza o duplo sentido no qual é possível bifurcar-se a expressão „Bezerro de

Ouro‟, tomando um caminho lateral. Apoiando-se em um componente da expressão, „Bezerro‟,

replica como se a ênfase do comentário de Soulié aí estivesse posta: „Oh, ele não é mais um

bezerro‟… etc.

O desvio no chiste do banho é ainda mais evidente. Esse exemplo requer uma

apresentação gráfica:

O primeiro judeu pergunta: „Você tomou um banho?‟. A ênfase recai no elemento banho.

O segundo replica como se a pergunta tivesse sido: „Você tomou um banho?‟.

A mudança de ênfase só é possibilitada pela verbalização „tomou um banho‟. Se tivesse

ocorrido „você se banhou?‟ não seria possível nenhum deslocamento. A resposta não chistosa teria

sido: „Banhar-me? O que você quer dizer? Não sei o que é isso‟. Mas a técnica do chiste consiste

no deslocamento da ênfase de „banho‟ para „tomou‟.

Voltemos à „maionese de salmão‟, já que esse é nosso exemplo mais direto. O que é novo

nele merece nossa atenção a partir de várias perspectivas. Primeiramente devo denominar a

técnica trazida à luz. Proponho descrevê-la como „deslocamento‟, já que sua essência consiste no

desvio do curso do pensamento, no deslocamento da ênfase psíquica para outro tópico que não o

da abertura. Nossa próxima tarefa será investigar a relação entre a técnica de deslocamento e a

forma de expressão do chiste. Nosso exemplo („maionese de salmão‟) mostra-nos que um chiste

de deslocamento independe, em alto grau, da expressão verbal. Depende aqui não das palavras

mas do curso do pensamento. Nenhuma substituição de palavras possibilitará sua destruição na

medida em que seja conservado o sentido da resposta. A redução só é possível se modificarmos o

curso do pensamento e fizermos o gourmet replicar diretamente à reprovação, por ele evitada na

versão representada no chiste. A versão reduzida poderia então exprimir-se: „Não posso me

recusar a ter preferências (gastronômicas) e pouco me importa de onde procede o dinheiro que as

custeia. Eis a explicação do motivo porque estou comendo maionese de salmão no próprio dia em

que lhe tomei dinheiro emprestado!‟. Mas aí não teríamos mais um chiste, e sim um óbvio cinismo.

É instrutivo comparar esse chiste com outro, que lhe é muito próximo em sentido:

„Um homem, dado à bebida, ganhava a vida em uma cidade pequena dando aulas

particulares. Seu vício tornou-se entretanto gradualmente conhecido e devido a isso perdeu a

maioria de seus alunos. Um amigo foi encarregado da tarefa de insistir em que ele se emendasse.

“Olhe, você podia ser o melhor professor da cidade se desistisse de beber. Portanto, desista!”

“Quem você pensa que é?” foi a resposta indignada. “Dou aulas particulares para poder beber. Se

desisto de beber, a troco de que vou dar aulas particulares?”‟

Este chiste apresenta a mesma aparência lógica que verificamos na „maionese de salmão‟,

mas não se trata de um chiste de deslocamento. A réplica não é direta. O cinismo, ocultado no

primeiro chiste, é abertamente admitido neste último: „Beber é a coisa mais importante para mim‟.

De fato, a técnica desse chiste é extremamente limitada e não pode explicar sua efetividade.

Consiste simplesmente em rearranjar o mesmo material ou, mais precisamente, em reverter a

relação de meios e fins entre beber e dar aulas particulares. Tão logo minha redução deixa de

enfatizar esse fator em sua forma de expressão, o chiste desaparece; por exemplo: „Que sugestão

descabida! O que importa para mim é beber, não dar aulas particulares. Afinal dar estas aulas é

apenas um meio de permitir-me continuar a beber‟. Assim, o chiste de fato depende de sua forma

de expressão.

No chiste do banho, a dependência do chiste em relação à verbalização („Você tomou um

banho?‟) é inequívoca, e qualquer modificação dela envolve o desaparecimento do chiste. Neste

caso, a técnica é mais complicada - uma combinação de duplo sentido (subespécie f) e

deslocamento. A verbalização da pergunta admite um duplo sentido e o chiste é produzido pela

resposta que descarta o sentido pretendido pelo questionante, capturando o significado subsidiário.

Estamos, em conseqüência, em condições de encontrar uma redução que permita a persistência

do duplo sentido da verbalização, destruindo ainda o chiste; podemos consegui-lo simplesmente

desfazendo o deslocamento:

„Você tomou um banho?‟ - „O que acha que tomei? Um banho? O que é isso?‟ Não temos

mais um chiste mas uma exageração maliciosa ou faceta.

Um papel precisamente semelhante é desempenhado pelo duplo sentido no chiste de

Heine sobre o „Bezerro de Ouro‟. Permite à resposta desviar-se do curso de pensamento sugerido

(desvio efetuado no chiste da „maionese de salmão‟ sem qualquer ajuda da verbalização). Na

redução o comentário de Soulié e a réplica de Heine talvez ficassem assim: „O modo pelo qual o

povo se amontoa ao redor do homem simplesmente porque ele é rico lembra vividamente a

adoração do Bezerro de Ouro‟. E Heine: „O que me parece pior não é que o reverenciem dessa

maneira por causa de sua riqueza. O que você diz não enfatiza bastante o fato de que, por sua

riqueza, lhe perdoam a estupidez‟. Desta forma o duplo sentido seria retido e o chiste destruído.

A este ponto devemos estar preparados para enfrentar uma objeção que afirma que estas

sutis distinções estão procurando separar coisas que pertencem ao mesmo todo. Será que todo

duplo sentido possibilita um deslocamento desviando o curso do pensamento de um sentido para

outro? Estaremos, pois, preparados para permitir a postulação do „duplo sentido‟ e do

„deslocamento‟ como representantes de dois tipos de técnicas de chiste bastante diferentes? É

bem verdade que existe a relação entre duplo sentido e deslocamento, mas tal fato não afeta em

nada nossa distinção das diferentes técnicas de chiste. No caso do duplo sentido o chiste não

contém mais que uma palavra capaz de múltipla interpretação, permitindo ao ouvinte encontrar a

transição de um pensamento a outro - transição que, um tanto forçadamente, se faz equivalente ao

deslocamento. No caso de um chiste de deslocamento, porém, o próprio chiste contém um curso

de pensamento no qual se cumpre um deslocamento dessa espécie. Aqui o deslocamento faz

parte do trabalho de criação do chiste, não integra o trabalho de compreensão dele. Se a distinção

não está clara para nós, dispomos de meio infalível de torná-la tangível em nossas tentativas de

redução. Mas há aqui um mérito que não negaremos a essa objeção. Desperta nossa atenção

para a necessidade de não confundir os processos psíquicos envolvidos na construção do chiste (a

„elaboração do chiste‟ com os processos psíquicos envolvidos em sua interpretação (a elaboração

da compreensão). No momento nossa investigação restringe-se à primeira.

Há outros exemplos da técnica de deslocamento? Não é fácil encontrá-los. Um exemplo

direto é fornecido pelo seguinte chiste que, além do mais, não é caracterizado pela lógica aparente

que tanto sobrecarregou a interpretação de nosso caso modelo:

„Um palafreneiro recomendava a um freguês um cavalo de sela. “Se você partir nesse

cavalo às quatro da manhã, estará em Pressburg às seis e meia.” - “E o que eu vou fazer em

Pressburg às seis e meia da manhã?”‟

Aqui o deslocamento salta aos olhos. O tratador obviamente menciona essa hora matinal

de chegada à cidade provinciana simplesmente para demonstrar, para exemplificação, a

capacidade do cavalo. O freguês deixa de lado a capacidade do animal, que ele não questiona,

para deter-se nos dados do exemplo escolhido. A redução deste chiste, conseqüentemente, é fácil

de ser feita.

Maiores dificuldades são apresentadas por um outro exemplo cuja técnica é mais obscura,

podendo ser entretanto qualificada como duplo sentido combinado com deslocamento. O chiste

descreve a prevaricação de um „Schadchen„ (um agente matrimonial judeu), pertencendo assim a

um grupo que referiremos com freqüência.

„O Schadchen assegurara ao pretendente que o pai da moça não mais era vivo. Depois

dos esponsais, soube-se que o pai estava ainda vivo, e cumpria, no momento, sentença em uma

prisão. O pretendente protestou junto ao Schadchen que replicou: “Bem, mas o que foi que eu lhe

disse? Você decerto não chama a isso viver?”‟

O duplo sentido funda-se na palavra „viver‟ e o deslocamento consiste na mudança do

significado da palavra operada pelo Schadchen, do sentido usual, oposto a „morrer‟, ao sentido que

toma na expressão „isso não é viver‟. Ao fazê-lo, explica retrospectivamente seu primeiro

pronunciamento como investido de que duplo sentido, embora tal múltiplo significado fosse neste

caso particular decididamente remoto. Portanto a técnica se assemelharia à do chiste do „Bezerro

de Ouro‟ e à do chiste de banho. Mas há aqui um outro fato a ser considerado, cuja proeminência

interfere em nossa compreensão da técnica. É possível descrevê-lo como um chiste

„caracterizante‟: procura ilustrar, através de um exemplo, a característica mistura de imprudência

mentirosa e de presteza de réplica nos agentes matrimoniais. Consideremos que este seja o

arcabouço externo, a fachada, do chiste; seu sentido - o que vale dizer, seu propósito - é algo

diferente. Devemos assim adiar uma tentativa de reduzi-lo.

Após esses complicados exemplos, de análise mais difícil, será com satisfação que uma

vez mais voltaremos a um exemplo, reconhecível como amostra perfeitamente direta e

transparente de um chiste de deslocamento:

„Um Schnorrer [mendigo judeu] aproximou-se de um opulento barão, suplicando que lhe

provesse o sustento em sua viagem a Ostend. Os médicos, dizia ele, tinham-lhe recomendado

banho de mar para restaurar a saúde. “Muito bem”, falou o homem rico, “vou dar-lhe alguma coisa

para isso. Mas será necessário que você vá precisamente a Ostend, a mais cara de todas as

estações de banhos de mar?” - “Herr Barão”, foi a ressentida resposta, “não considero nada caro

demais quando se trata de minha saúde”.‟ Sem dúvida este é um ponto de vista correto, exceto

quando emitido por um pedinte. A resposta é dada como partindo de um homem rico. O Schnorrer

comporta-se como se fosse seu o dinheiro que despenderia em prol de sua saúde, com se o

dinheiro e a saúde fossem objeto da preocupação da mesma pessoa.

Partamos novamente desse exemplo altamente instrutivo, a „maionese de salmão‟.

Apresenta-nos, também, uma fachada, onde se exibe impressionante alarde de raciocínio lógico;

descobrimos ao analisá-lo que a lógica foi utilizada para ocultar um ato de raciocínio falho - a

saber, um deslocamento do curso do pensamento. Esse fato pode servir para lembrar-nos, ainda

que o faça apenas por via de uma conexão contrastante, que outros chistes, por diferentes que

sejam, exibem indisfarçavelmente algum nonsense ou estupidez. Devemos estar curiosos por

conhecer o que seja a técnica de tais chistes.

Começarei pelo exemplo mais poderoso de todo o grupo, igualmente seu exemplo mais

simples. De novo, um chiste de judeu:

„Itzig fora declarado apto para prestar serviço na artilharia. Ele era nitidamente um rapaz

inteligente, embora intratável e desinteressado no serviço. Um dos oficiais seus superiores, que lhe

votava alguma simpatia, tomou-o de parte e disse-lhe: “Itzig, você não nos serve para nada. Vou

lhe dar um conselho: compre um canhão e faça sua independência!”‟

Este conselho, que pode suscitar um riso franco, é um óbvio nonsense. Nem canhões

estão à venda, nem é possível a um indivíduo, comprando-os, fazer sua independência enquanto

unidade militar - em outros termos, estabelecendo-se por conta própria. Entretanto, é impossível

duvidar, sequer por um momento, de que o conselho seja mero nonsense, mas um nonsense

chistoso e um chiste excelente. Como se converte um nonsense em um chiste?

Não é preciso refletir muito. Podemos inferir dos comentários das autoridades, acima

indicados na introdução (ver em [1]), que há sentido por trás dessa chistosa falta de sentido, e tal

sentido é responsável pela conversão do nonsense em chiste. É fácil descobrir o sentido em nosso

exemplo. O oficial que dá este absurdo ao artilheiro Itzig está se fazendo de estúpido apenas para

demonstrar a Itzig a estupidez de seu próprio comportamento. Está imitando Itzig: „Vou dar-lhe um

conselho tão estúpido quanto você‟. Ele interessa-se pela estupidez de Itzig e a esclarece para

este, tomando-a como plataforma de uma sugestão adequada aos desejos de Itzig: se Itzig

possuísse um canhão e cumprisse suas obrigações militares por conta própria, quão útil lhe seria

sua inteligência e ambição! Em que bom estado ele manteria o canhão e quanto não havia de se

familiarizar com seu mecanismo ao ponto de competir com os demais possuidores de canhões!

Interromperei a análise deste exemplo para ressaltar o mesmo sentido no nonsense no

caso de um chiste absurdo, mais curto e mais simples, embora menos óbvio:

„Não nascer seria a melhor coisa para os mortais.‟ „Entretanto‟, acrescenta um comentário

filosófico em Fliegende Blätter, „isto é coisa que apenas acontece a uma em cada cem mil

pessoas.‟

Este acréscimo moderno à antiga consideração é um evidente nonsense tornado ainda

mais imbecil pelo ostensivamente cauteloso „apenas‟. Mas o acréscimo conectado à asserção

original, enquanto limitação indisputavelmente correta, torna-se adequado para nos abrir os olhos

quanto ao fato de que essa sábia sentença, solenemente acolhida, não é muito superior a um

desatino. Quem não tenha nascido não é, em absoluto, um mortal, não havendo para este nada de

bom nem de melhor. Assim o nonsense no chiste serve para revelar e demonstrar um outro

nonsense, tal como no exemplo do artilheiro Itzig.

Posso aqui acrescentar um terceiro exemplo que, pelo seu conteúdo, dificilmente

mereceria a extensa descrição que requer, mas que exemplifica novamente, e com especial

clareza, o uso de nonsense em um chiste para revelar algum outro nonsense.

„Um homem obrigado a seguir viagem confiou sua filha a um amigo, solicitando-lhe que

velasse pela virtude dela durante sua ausência. Meses mais tarde ele retornou e encontrou-a

grávida. Como se esperava, ele reprovou amargamente seu amigo que lhe parecia incapaz de

explicar tal desgraça. “Bem”, perguntou finalmente o pai, “onde ela dormia?” - “No quarto, com meu

filho.” - “Mas como você pôde deixar que ela dormisse no mesmo quarto que seu filho, se eu tanto

lhe implorei que a protegesse?” - “Afinal de contas havia um biombo entre eles. A cama de sua

filha ficava de um lado, a de meu filho no outro e o biombo ficava no meio.” - “E suponha que ele

contornasse o biombo?” - “É verdade”, retrucou o outro pensativamente, “isso bem pode ter

acontecido”.‟

Obtemos com a maior facilidade a redução desse chiste cujas qualidades por outro lado

pouco o recomendariam. Seria obviamente algo como: „Você não tem o direito de censurar-me.

Como pôde ser tão estúpido a ponto de deixar sua filha em uma casa onde ela seria obrigada a

viver na constante companhia de um jovem? Como seria possível a um estranho responder pela

virtude de uma moça em tais circunstâncias?‟. Desse modo a aparente estupidez do amigo apenas

reflete a estupidez do pai. A redução descarta a estupidez do chiste e, ao mesmo tempo, o próprio

chiste. O elemento „estupidez‟ por si só não fica eliminado: é possível reencontrá-lo em outro ponto

do contexto da sentença após a redução desta ao significado original.

Podemos tentar agora uma redução do chiste sobre o canhão. O oficial devia ter dito: „Itzig,

sei que você é um negociante inteligente, mas asseguro-lhe que será muito estúpido de sua parte

não entender que é impossível comportar-se no exército como no mundo dos negócios, onde cada

um age por si e contra os outros. Na vida militar a subordinação e a cooperação são a regra‟.

A técnica dos chistes absurdos que temos até aqui considerado consiste portanto em

apresentar algo que é estúpido e absurdo, seu sentido baseando-se na revelação e na

demonstração de algo mais que seja estúpido e absurdo.

Será o uso do absurdo na técnica do chiste sempre de igual importância? Eis aqui um

exemplo que fornece resposta afirmativa:

„Quando, em certa ocasião, Phocion foi aplaudido após fazer um discurso, virou-se para

seus amigos e perguntou-lhes: “Qual foi a besteira que eu falei agora?”.‟

A pergunta soa absurda, mas captamos imediatamente seu sentido: „Que terei dito eu que

agradou tanto a estes estúpidos? Devo sentir-me envergonhado por seu aplauso. Se o que eu

disse agradou aos estúpidos, não terá sido algo muito sensato‟.

Outros exemplos podem, entretanto, mostrar-nos que o absurdo é usado com grande

freqüência na técnica do chiste sem servir ao objetivo de demonstrar algum outro nonsense:

„Um afamado professor universitário, que tinha o hábito de temperar sua insípida matéria

com numerosos chistes, recebia congratulações pelo nascimento de seu filho mais novo, ocorrido

quando o mestre já alcançava uma idade avançada. “Bem”, respondeu ele a seus congratuladores,

“é notável o que podem fazer as mãos humanas”.‟ - Esta resposta parece essencialmente absurda

e deslocada. Os filhos, são considerados como bênção de Deus, em absoluto contraste com o

trabalho manual dos homens. Mas logo ocorreu-nos que afinal a resposta tinha um sentido, e

mesmo, bastante obsceno. Não se cogita aqui de que o feliz pai estivesse se fazendo de estúpido

para demonstrar que alguém ou alguma outra coisa fosse estúpida. A resposta aparentemente

sem sentido causa-nos uma impressão surpreendente, desconcertante, como diriam as

autoridades. Já vimos (ver em [1]) que elas atribuem todo o efeito de um chiste como esse a uma

alternância entre „desconcerto e esclarecimento‟. Mais tarde (ver em [2]) voltaremos a considerar

este ponto; por enquanto nos contentaremos em acentuar o fato de que a técnica desse chiste

consiste em apresentar algo desconcertante e absurdo.

Um chiste de Lichtenberg ocupa um lugar especial entre estes chistes „estúpidos‟:

„Confessa-se maravilhado em que os gatos tenham dois furos recortados em seu couro

precisamente no lugar dos olhos‟. Assombrar-se com algo que nada mais é que uma asserção de

identidade só pode ser uma grande estupidez (Ver em [1].). Recorda-nos uma das exclamações de

Michelet emitida com pretensão de seriedade, e que parece ser, segundo consigo lembrar-me:

„Quão maravilhosamente a Natureza arranjou tudo de modo que uma criança, tão logo chegada ao

mundo, encontre uma mãe pronta para cuidar dela!‟. O pronunciamento de Michelet é uma

estupidez real, mas o de Lichtenberg é um chiste que utiliza a estupidez com algum propósito sob

ela ocultado. Mas qual? Por enquanto, devemos admitir que nenhuma resposta seja dada.

Já sabemos agora pela consideração de dois grupos de exemplos que a elaboração do

chiste utiliza desvios em relação ao pensamento normal - o deslocamento e o absurdo - como

métodos técnicos de produzir uma forma chistosa de expressão. É sem dúvida justificável

esperarmos encontrar outros tipos de raciocínio falho utilizados similarmente. De fato, é possível

apresentar alguns exemplos da espécie:

„Um cavalheiro entrou em uma confeitaria e pediu um bolo; logo o devolveu, solicitando em

seu lugar um cálice de licor. Bebeu e preparou-se para sair sem tê-lo pago. O proprietário o

deteve. “O que você quer?”, perguntou o freguês. - “Você não pagou o licor.” - “Mas eu lhe dei o

bolo em troca.” - “Também não pagou por este.” - “Mas eu não o comi.”‟

Essa anedota apresenta também uma lógica aparente que, já o sabemos, é uma fachada

adequada para semelhante raciocínio falho. O erro evidentemente consiste na conexão inexistente,

construída pelo astucioso freguês, entre a devolução do bolo e a tomada do licor em seu lugar. O

episódio fragmenta-se em dois processos mutuamente independentes do ponto de vista do

vendedor e mutuamente substituíveis exclusivamente do ponto de vista da intenção do freguês.

Primeiramente ele toma o bolo e o devolve, nada devendo portanto por este; depois, toma o licor, e

por este é necessário pagar. É possível dizer que o freguês tenha utilizado a expressão „em troca‟

com duplo sentido. Seria, entretanto, mais correto dizer que através do duplo sentido construiu ele

uma conexão que não é, em realidade, válida.

Eis a oportunidade de fazer um reconhecimento que não é destituído de importância.

Ocupamo-nos da investigação da técnica dos chistes, como demonstrado por esses exemplos, e

portanto devemos estar seguros de que os exemplos escolhidos constituem chistes genuínos. É

verdade, entretanto, que para vários casos estamos em dúvida quanto a dever denominá-los

chistes ou não. Não possuímos nenhum critério disponível até que nossa própria investigação nos

forneça um. O uso lingüístico não merece confiança: ele próprio necessita que sua justificação seja

examinada. Para chegar a uma decisão não podemos basear-nos em nada que não seja um certo

„sentimento‟, que podemos interpretar como significando que a decisão feita por nosso juízo

concorda com um critério particular, ainda não acessível a nosso conhecimento. No caso do último

exemplo devemos sentir-nos em dúvida quanto a representá-lo como um chiste, ou talvez como

um chiste „sofístico‟, ou simplesmente, um sofisma. A verdade é que não sabemos ainda em que

reside a característica essencial do chiste.

Por outro lado, o exemplo que segue, exibindo um tipo de raciocínio falho que podemos

chamar de complementar ao primeiro caso, é indiscutivelmente um chiste. Mais uma vez, é a

história de um agente matrimonial:

„O Schadchen defendia a jovem, por ele proposta, dos protestos do rapaz. “Não gosto da

sogra”, dizia o último. “Ela é uma pessoa desagradável e estúpida.” - “Mas afinal você não vai se

casar com a sogra. Quem você quer é a filha dela.” “Sim, mas esta não é jovem, nem se pode dizer

que seja bonita.” - “Não importa. Se ela não é jovem nem bonita, será por tudo isso mais fiel a

você.” - “Nem tem muito dinheiro.” - “Quem está falando sobre dinheiro? Você vai casar-se com o

dinheiro? Afinal, é uma esposa que você quer.” - “Mas, ela tem também uma corcunda nas costas.‟‟

- “Bom, e o que você quer mais? Não terá ela o direito de ter um único defeito?”„

O que estava realmente em questão era a falta de beleza e juventude da moça, seu dote

minguado e sua mãe desagradável, acrescido ao fato de ser a moça vítima de uma séria

deformidade - condições bem pouco convidativas para se contratar um casamento. O agente

matrimonial foi capaz, quando se apontava cada um desses defeitos, de indicar como seria

possível chegar a um acordo com ele. Pôde então reivindicar que a indesculpável corcunda nas

costas era o único defeito a que qualquer indivíduo teria direito. Uma vez mais, a lógica aparente

caracteriza o sofisma e presume ocultar a falha do raciocínio. A moça claramente tinha defeitos -

vários que poderiam ser desconsiderados e um impossível de descartar: ela era incasável. O

agente comporta-se como se cada defeito, em separado, fosse eliminado por suas desculpas,

enquanto na verdade cada um deles deixava para trás uma certa cota de depreciação a somar

com a que se lhe juntava em seguida. Insistia pois em tratar isoladamente cada defeito e

recusava-se a adicioná-los num total.

A mesma omissão é o núcleo de outro sofisma a propósito do qual muito se tem rido

embora se deva duvidar da correção quanto a chamá-lo chiste:

„A. tomou emprestado de B. um caldeirão de cobre e após devolvê-lo foi acionado por B. já

que o caldeirão tinha agora um grande furo que o tornava inutilizável. Sua defesa foi: “Em primeiro

lugar nunca tomei emprestado um caldeirão de B.; e em segundo lugar o caldeirão já estava furado

quando eu o peguei emprestado; e em terceiro lugar, devolvi-lhe o caldeirão intacto”.‟ Cada uma

destas defesas é válida por si mas reunidas excluem-se mutuamente. A. estava tratando

isoladamente o que se devia considerar um conjunto tal como o agente matrimonial faz com os

defeitos da moça. Podia-se dizer: „A. usou um “e” onde era possível um “ou”.‟

Encontramos outro sofisma na seguinte estória de um agente matrimonial:

„O noivo presuntivo lamentava-se que a noiva tivesse uma perna mais curta que a outra e

mancasse. O Schadchen contrapôs-lhe: “Você está errado. Suponha que despose uma mulher

com pernas direitas, saudáveis. Que ganha você com isso? Não há de ter nunca a certeza de que

alguma dia ela não caia, quebre a perna e torne-se coxa pelo resto da vida. Imagine o sofrimento,

o transtorno, a conta do médico! Mas se você aceita esta noiva, isso não pode acontecer-lhe. Eis

aqui um fait accompli.”‟

A aparência lógica neste caso é muito tênue e ninguém se prontificará a preferir uma

„desgraça já cumprida‟ a sua mera possibilidade. O defeito nesse processo dedutivo pode ser

facilmente demonstrado em um outro exemplo - uma história que não posso inteiramente despir de

seu dialeto:

„No templo de Cracóvia o Grande Rabino N. estava sentado a orar com seus discípulos.

Repentinamente emite um grito e exclama em resposta às ansiosas perguntas de seus discípulos:

“Nesse exato momento morreu o Grande Rabino L. em Lemberg”. A comunidade vestiu luto pelo

morto. Poucos dias depois indagou-se de pessoas recém-chegadas de Lemberg como morrera o

Rabino, o que lhe sucedera de mau; tais pessoas nada souberam informar, pois tinham-no deixado

no melhor de sua saúde. Afinal ficou-se sabendo com certeza que o Rabino L. de Lemberg não

morrera no momento em que o Rabino N. telepaticamente assistira a sua morte, já que estava

ainda vivo. Um forasteiro aproveitou a oportunidade para zombar de um dos discípulos do Rabino

de Cracóvia a respeito da ocorrência: “Seu Rabino cobriu-se de ridículo em ter visto a morte do

Rabino L. de Lemberg. O homem está vivo até hoje”. “Isso não faz diferença”, replicou o discípulo.

“Seja o que for que você diga, foi magnífico o Kück da Cracóvia a Lemberg.”‟

O raciocínio falho, comum aos dois últimos exemplos, é admitido aqui sem disfarces.

Exalta-se indevidamente o valor da fantasia em comparação à realidade; faz-se praticamente

equivaler uma possibilidade a um evento real. A visão a distância, superando a extensão de campo

que separa Cracóvia de Lemberg, teria sido impressionante façanha telepática se fora de fato

verdadeira. Mas o discípulo não se preocupa com isso. Afinal bem poderia o Rabino de Lemberg

ter morrido no momento em que o Rabino de Cracóvia anunciava sua morte; e o discípulo desloca

então a ênfase da condição necessária para a admiração que a façanha mereceria para uma

incondicional admiração da façanha. „In magnis rebus voluisse sat est„ expressa um ponto de vista

semelhante. Tal como nesse exemplo a realidade é desconsiderada em favor da possibilidade; no

primeiro caso o agente matrimonial sugere ao noivo presuntivo que a possibilidade de uma mulher

tornar-se coxa por via de um acidente deve ser considerada como algo bem mais importante que a

questão de ela ser efetivamente coxa ou não.

Esse grupo de raciocínios „sofísticos‟ defeituosos é semelhante a outro interessante grupo

em que se pode descrever como „automático‟ o raciocínio falho. Talvez não seja mais que por um

capricho do acaso que todos os exemplos a serem apresentados desse novo grupo sejam, uma

vez mais, histórias de Schadchen:

„Um Schadchen devendo propor a alguém uma noiva levou consigo um auxiliar, que

confirmasse tudo o que ele tinha a dizer. “Ela é esbelta como um pinheiro”, disse o Schadchen. -

“Como um pinheiro”, repetia o eco. - “E tem uns olhos que merecem ser vistos!” - “Que olhos ela

tem!”, confirmava o eco. - “Melhor educada que qualquer outra!” - “Que educação!” - “Bem, é

verdade que há uma coisa”, admitiu o agente, “ela tem uma pequena corcunda.” - “E que

corcunda!” o eco confirmou uma vez mais.‟ Outras histórias são análogas, mas têm mais sentido.

„O noivo, ficando muito desagradavelmente surpreso quando a noiva lhe foi apresentada,

chamou o agente a um canto e cochichou-lhe suas censuras: “Por que você me trouxe aqui?”

perguntou recriminadoramente. “Ela é feia e velha, vesga, tem maus dentes e olhos remelentos…”

- “Não precisa abaixar a voz”, interrompeu o agente, “ela é surda também”.‟

„O noivo fazia sua primeira visita à casa da noiva em companhia do agente, e enquanto

aguardava no salon que a família aparecesse, o agente chamou sua atenção para um armário com

portas de vidro onde se exibia o mais fino conjunto de peças de prata. “Veja! Olhe lá! Por estas

coisas você vê como são ricos.” - “Mas”, perguntou o desconfiado jovem, “não seria possível que

estas coisas finas tivessem sido reunidas apenas para esta ocasião - que elas fosse tomadas

emprestadas para dar impressão de riqueza?” - “Que idéia!”, protestou o agente. “Quem você acha

que emprestaria alguma coisa a essa gente?”‟

Nos três casos a mesma coisa ocorre. Uma pessoa que estava reagindo sempre da

mesma forma, várias vezes em sucessão, repete tal modo de expressão na ocasião seguinte,

quando este é inadequado e prejudicial às suas próprias intenções. Negligencia adaptar-se às

necessidades da situação, cedendo ao automatismo do hábito. Assim, na primeira história o

auxiliar esquece-se de que acompanhava o agente a fim de prejudicar o noivo presuntivo em favor

da noiva proposta. E já que no início ele cumprira sua tarefa sublinhando as qualidades da noiva

pela repetição, a cada vez, do que dela se dizia, prosseguindo por enfatizar sua corcunda,

timidamente admitida e que ele devia ter minimizado. O agente na segunda história está tão

fascinado pela enumeração dos defeitos e enfermidades da noiva que completa a lista com dados

de seu próprio conhecimento, embora este não fosse seu negócio ou seu propósito. Na terceira

história (o agente) deixa-se levar a tal ponto pela ânsia de convencer o jovem da riqueza da família

que, a fim de demonstrar um argumento confirmatório, traz à baila algo que fatalmente lançará por

terra todos os seus esforços. Em cada caso a ação automática triunfa sobre a conveniente

mudança de pensamento e de expressão.

Isto é fácil de ver, mas há de ter um efeito perturbador quando notarmos que as três

histórias têm tanto direito a serem chamadas „cômicas‟ quanto nós de apresentá-las como chistes.

O desvelamento de automatismo psíquico é uma das técnicas do cômico, exatamente como

qualquer tipo de revelação ou autotraição. Repentinamente somos defrontados a esse ponto pelo

problema da relação dos chistes com o cômico, relação que pretendíamos evitar. (Ver a introdução

em [1].) São tais histórias apenas „cômicas‟ e não „chistosas‟? Estará a comicidade aqui operando

os mesmos métodos dos chistes? E, novamente, o que constitui a característica peculiar dos

chistes?

Devemos manter em vista que a técnica deste último grupo de chistes que examinamos

consiste simplesmente na revelação do „raciocínio falho‟. Mas somos obrigados a admitir que seu

exame levou-nos muito mais à obscuridade que à compreensão. Contudo não abandonemos

nossa esperança de que um conhecimento mais completo das técnicas dos chistes nos levará a

um resultado que possa servir de ponto de partida a ulteriores descobertas.

Os próximos exemplos de chistes, pelos quais prosseguiremos nossa investigação,

oferecem uma tarefa mais fácil. Sua técnica, em particular, evoca-nos o que já conhecemos.

Primeiro, eis um chiste de Lichtenberg:

„Janeiro é o mês em que fazemos votos de felicidade a nossos entes queridos e os meses

restantes são aqueles em que estes votos não se cumprem.‟

Desde que chistes como estes são caracterizados por sua sutileza antes que por sua força

e operam por métodos discretos, começaremos por apresentar inúmeros deles, de modo a

intensificar seu efeito:

„A vida humana divide-se em duas metades. Na primeira desejamos a vinda da segunda,

na segunda desejamos a volta da primeira.‟

„A experiência consiste em experimentar o que não desejávamos experimentar.‟

(Os dois últimos são de Fischer, 1889[69-60].)

Esses exemplos lembram um grupo de que já tratamos, caracterizado pelo „uso múltiplo do

mesmo material‟ (ver em [1]). Em particular o último exemplo levantará a questão de por que não o

incluímos naquele grupo em vez de introduzi-lo aqui em uma nova conexão. A „experiência‟ é

novamente descrita em seus próprios termos como o fora anteriormente o „ciúme‟ (ver em [2]). Não

me inclino por discutir muito seriamente essa classificação. Mas no que concerne aos outros dois

exemplos (que são de natureza semelhante) penso que um outro fator é mais notável e mais

importante que o múltiplo uso das mesmas palavras, que nesse caso nada tem a haver com o

duplo sentido. Gostaria particularmente de acentuar que aqui se agenciam novas e inesperadas

entidades, inter-relações de idéias, definições efetuadas mutuamente ou por referência a um

terceiro elemento comum. Gostaria de denominar „unificação‟ a esse processo que é claramente

análogo à condensação pela compressão nas mesmas palavras. Assim as duas metades da vida

são descritas através de uma relação mutual que se descobre existir entre elas: na primeira

desejamos que a segunda viesse e na segunda desejamos que a primeira voltasse. Falando mais

precisamente, duas relações mutuais muito semelhantes foram escolhidas para a representação. A

similaridade de representação corresponde à similaridade das palavras que pode de fato

recordar-nos o uso múltiplo do mesmo material: „desejar… vinda‟ - „desejar…volta‟. No chiste de

Lichtenberg o mês de janeiro e os meses que com este contrastam são caracterizados por uma

(outra vez, modificada) relação com um terceiro elemento: os votos de felicidade, recebidos no

primeiro mês e não cumpridos nos demais. Eis, muito nítida, a distinção em relação ao uso múltiplo

do mesmo material (que faz aproximar o duplo sentido).

Eis um claro exemplo de chiste de unificação que dispensa qualquer explicação:

‟O poeta francês J. B. Rousseau escreveu uma “Ode à Posteridade”. Voltaire era de

opinião que o poema não merecia sobreviver e chistosamente comentou: “Esse poema não

alcançará seu destinatário.”‟ (Fischer, 1889 [123].)

Esse último exemplo chama atenção para o fato de que é essencialmente a unificação que

jaz ao fundo dos chistes que podem ser descritos como „respostas prontas‟. (ver em [1]) Pois a

réplica consiste em que a defesa, ao se encontrar com a agressão, „vira a mesa sobre alguém‟ ou

„paga a alguém com a mesma moeda‟ - ou seja, consiste em estabelecer uma inesperada unidade

entre ataque e contra-ataque. Por exemplo:

„Um estalajadeiro tinha um panarício no dedo e um padeiro lhe disse: “Você deve tê-lo

arranjado pondo o dedo em sua cerveja”. “Não foi por isso”, retrucou o estalajadeiro, “é que meti

um pedaço do seu pão debaixo de minha unha.”‟ (De Überhorst (1900, 2).)

„Um Sereníssimo estava dando uma volta por suas províncias e notou na multidão um

homem, extraordinariamente semelhante à sua própria nobre pessoa. Acenou, convocando-o, e

perguntou-lhe: “Sua mãe esteve alguma vez a serviço do Palácio?” - “Não, Alteza”, foi a réplica,

“mas meu pai esteve.”‟

„Em um de seus passeios a cavalo aconteceu ao Duque Charles de Württemberg encontrar

um tintureiro, ocupado em seu ofício. Apontando o cavalo cinza que estava cavalgando, o Duque

bradou: “Pode tingi-lo de azul?” “Naturalmente, Alteza”, foi a resposta, “se ele suportar a fervura.”

[Fischer, 1889, 107.]

Nesse excelente tu quoque, em que a uma questão sem sentido oferece-se uma resposta

igualmente impossível, há um outro fator técnico operando, o qual estaria ausente se o tintureiro

tivesse respondido: “Não, Alteza. Tenho medo de que o cavalo não suporte a fervura.”

A unificação tem um outro instrumento técnico, de muito especial interesse, a seu dispor: a

conexão pela conjunção „e‟. As coisas concatenadas dessa forma ficam de fato conectadas: não

podemos deixar de entendê-lo assim. Por exemplo, quando Heine comenta sobre a cidade de

Göttingen em Harzreise: „Falando de um modo geral, os habitantes de Göttingen dividem-se em

estudantes, professores, filisteus e asnos‟, tomamos este grupamento exatamente no sentido que

Heine enfatiza em um acréscimo à sentença: „E essas quatro classes estão divididas de forma

absolutamente nítida‟. Ou, ainda, quando [ibid.] ele menciona a escola em que tivera de suportar

„tanto Latim, expulsões e Geografia‟, esta série, tornada ainda mais transparente pela posição das

„expulsões‟ entre os nomes das duas matérias, fala-nos que a inequívoca posição dos alunos com

relação às expulsões se estenderia decerto ao Latim e à Geografia também.

Entre os exemplos dados por Lipps [1898, 177] de „enumeração chistosa‟ („coordenação‟)

encontramos as seguintes linhas citadas como intimamente aparentadas aos „estudantes,

professores, filisteus e asnos‟ de Heine:

Mit einer Gabel und mit Müh‟

Zog ihn die Mutter aus der Brüh.

[Com um forcado e muito esforço

Sua mãe pescou-o do ensopado.]

É como se (comenta Lipps) o Müh [esforço, dificuldade] fosse um instrumento como o

forcado. Sentimos, entretanto, que essas linhas, embora cômodas, estão bem longe de constituir

um chiste, enquanto a lista de Heine, sem nenhuma dúvida, o é. Podemos talvez evocar mais tarde

esses exemplos, quando não necessitarmos evitar o problema da relação entre a comicidade e os

chistes. [Ver em [1].]

[10]

Observamos no exemplo do Duque e do tintureiro que tal chiste por unificação não

persistiria se o tintureiro replicasse: „Não, tenho medo de que o cavalo não suporte a fervura‟. Mas

sua resposta real foi: „Sim, Alteza, se ele suportar a fervura‟. A substituição do realmente

apropriado não por um sim constitui um novo método técnico do chiste, cujo emprego

perseguiremos em alguns outros exemplos.

Um chiste similar ao que acabamos de mencionar (também citado por Fischer [1889,

107-8]) é mais simples:

„Frederico, o Grande, ouviu falar de um pregador na Silésia que tinha a reputação de entrar

em contato com os espíritos. Mandou buscar o homem e recebeu-o com a pergunta “Você pode

conjurar os espíritos?”. A resposta foi: “Às ordens de sua Majestade. Mas eles não vêm‟‟.‟ É muito

óbvio aqui que o método usado no chiste consiste simplesmente em substituir a única resposta

possível „não‟ pelo seu contrário. A fim de efetivar a substituição, foi necessário acrescentar um

„mas‟ ao „sim‟, de modo que „sim‟ e „mas‟ equivalessem semanticamente a „não‟.

A „representação pelo oposto‟, como a chamaremos, serve de vários modos à elaboração

do chiste. Nos dois exemplos seguintes aparece quase em estado puro:

„Esta dama se assemelha em muitos aspectos à Venus de Milo: ela é, também,

extraordinariamente velha, não tem dentes e há manchas brancas na superfície amarelada de seu

corpo.‟ (Heine)

Eis uma representação da fealdade através da semelhança com o que há de mais belo. É

verdade que tais semelhanças só podem existir em qualidades que são expressas ou por termos

com duplo sentido ou por detalhes desimportantes. A última característica aplica-se a nosso

segundo exemplo - „O Grande Espírito‟, de Lichtenberg:

„Une em si mesmo as características dos maiores entre os homens. Tem o porte da

cabeça torto como Alexandre: teve sempre que usar um toupet como César; podia beber café

como Leibnitz; e desde que adequadamente instalado em sua poltrona, esquecia-se de comer e de

beber como Newton, como este tendo que ser despertado; usava sua peruca como Dr. Johnson, e

sempre deixava um dos botões da braguilha desabotoado como Cervantes.‟

De uma viagem à Irlanda, Von Falki (1897, 271) trouxe um exemplo particularmente bom

de representação pelo oposto, exemplo em que não se faz o mínimo uso de palavras com duplo

sentido. A cena ocorre numa exposição de museu de cera (que poderia ser o de Madame

Tussaud). Um guia conduzia um grupo de visitantes jovens e velhos de figura a figura, enquanto as

explicava: „Este é o Duque de Wellington e seu cavalo‟, explicou ele. Em conseqüência, perguntou

uma jovem dama: „Qual é o Duque de Wellington e qual é seu cavalo?‟ „Qual queira, minha bela

jovem‟, foi a resposta. „Você paga a entrada e faz sua escolha.‟

Seria esta a redução do chiste irlandês: „Que falta de vergonha as coisas que estas

pessoas ousam oferecer ao público nestes museus de cera! Não se pode distinguir entre o cavalo

e seu cavaleiro. (Exagero faceto.) E é para isso que se paga!‟ Essa exclamação indignada é então

dramatizada, baseada em uma pequena ocorrência. No lugar do público em geral aparece só uma

dama e é particularizada a figura do cavaleiro: necessariamente o Duque de Wellington,

extremamente popular na Irlanda. Mas o descaramento do proprietário ou guia, que extrai dinheiro

dos bolso do povo nada oferecendo em troca, é representado pelo contrário - por um discurso em

que ele se jacta de ser consciencioso homem de negócios, que não tem outra coisa mais próxima

ao coração que o respeito pelos direitos que o povo adquire pagando. Podemos agora verificar que

a técnica desse chiste não é bastante simples. Na medida em que capacita ao trapaceiro insistir na

sua honestidade, classifica-se como um caso de representação pelo oposto; mas na medida em

que (o trapaceiro) o faz numa ocasião em que deles se requer coisa muito diferente - replicando

com a respeitabilidade do negócio quando se espera a identificação das figuras - temos um caso

de deslocamento. A técnica do chiste consiste em uma combinação dos dois métodos.

Nenhuma grande distância separa esse exemplo de um pequeno grupo que poderia ser

descrito com constituído de chistes de „exageração‟. Nestes o „sim‟ que ocorreria na redução é

substituído por um „não‟ que tem, entretanto, a despeito de seu conteúdo, a força de um „sim‟

intensificado, e vice-versa. Uma negativa é um substitutivo para uma confirmação exagerada.

Assim, por exemplo, no epigrama de Lessing.

Die gute Galathee! Man sagt, sie shwärz‟ ihr Haar;

Da doch ihr haar schon shwarz, als sie es kaufte, war.

[A boa Galatéia tinge seus cabelos de negro, até os pensamentos;

E seus cabelos já eram negros quando os comprou.]

Ou a maliciosa defesa da filosofia por Lichtenberg:

„Há mais coisas no céu e na terra do que sonha vossa filosofia‟, disse o Príncipe Hamlet

desdenhosamente. Lichtenberg sabia que essa condenação não era ainda severa o bastante pois

não levava em conta todas as objeções que podiam ser feitas à filosofia. Acrescentou, portanto, o

que faltava: „Mas há também na filosofia muita coisa que não é encontrada no céu ou na terra‟.

Seu acréscimo de fato enfatiza a maneira pela qual a filosofia nos compensa da insuficiência que

Hamlet censura. Tal compensação, porém, implica uma outra reprovação ainda maior.

Dois chistes de judeus, embora de um tipo vulgar, são ainda mais claros, já que se libertam

de todo vestígio de deslocamento:

„Dois judeus discutiam sobre banhos. “Tomo banho anualmente”, disse um deles, “quer

precise ou não”.‟

É óbvio que essa insistência jactante na própria limpeza serve apenas para convencer-nos

de sua sujeira.

„Um judeu notou restos de comida na barba de um outro. “Posso dizer-lhe o que comeu

ontem.” - “Diga-me, então,” - “Pois bem, lentinhas.” - “Errado: isso foi anteontem!”‟

O exemplo seguinte é um excelente chiste de „exageração‟, em que se pode facilmente

reconstruir a representação pelo oposto:

„O rei condescendeu em visitar uma clínica cirúrgica, lá deparando com um professor que

executava a amputação de uma perna. Acompanhou todos os estágios com altas expressões de

sua real satisfação: “Bravo! bravo! meu caro professor!” Quando a operação terminou, o professor

aproximou-se dele e perguntou-lhe com uma profunda reverência: “Vossa Majestade ordena que

eu ampute também a outra perna?”

„Os pensamentos do professor durante o aplauso real não poderiam decerto manifestar-se

inalterados: „„Parece que estou amputando a perna desse pobre sujeito por ordem do rei e para

sua real satisfação. Afinal existem realmente outras razões para a operação‟‟. Vai então ao rei e

lhe diz: “Não tenho outra razão para executar uma operação que as ordens de Vossa Majestade. O

aplauso com que Vossa Majestade me honrou fez-me tão feliz que só aguardo as ordens de Vossa

Majestade para amputar também o membro são”.‟ Dessa forma ele consegue fazer-se entendido

dizendo o contrário daquilo que pensa mas deve guardar para si mesmo. Tal oposto é uma

exageração que não pode ser acreditada.

Como mostram esses exemplos, a representação pelo oposto é um instrumento da técnica

do chiste usado freqüentemente e operando com grande poder. Mas há algo que não devemos

desconsiderar: essa técnica não é um absoluto peculiar aos chistes. Quando Marco Antônio, após

um longo discurso no Fórum onde reverteu a atitude emocional de sua audiência em relação ao

cadáver de César, finalmente exclamou uma vez mais:

„For Brutus is an honourable man…‟

ele sabe que o povo agora lhe devolverá aos gritos o sentido verdadeiro de suas palavras:

„They were traitors: honourable men!‟

Ou quando Simplicissimus descreve uma coleção de incríveis exemplos de brutalidade e

cinismo com expressões como „homens de sentimento‟, isso é também uma representação pelo

oposto. A única técnica que caracteriza a ironia é a representação pelo contrário. Além do mais já

lemos e ouvimos falar sobre „chiste irônicos‟. Não se pode portanto duvidar mais de que a técnica

sozinha seja insuficiente para caracterizar a natureza dos chistes. Mas por outro lado, perdura

como fato incontrovertido que, uma vez desfeita a técnica do chiste, este desaparece. Por

enquanto podemos achar difícil pensar como podem ser reconciliados os dois pontos fixos a que

chegamos na explicação dos chistes.

Se a representação pelo contrário é um dos métodos técnicos dos chistes, podemos

esperar que os chistes possam também fazer uso de seu oposto - a representação por alguma

coisa similar ou afim. A ulterior evolução de nossa pesquisa de fato há de mostrar que esta é a

técnica de um novo e particularmente compreensivo grupo de chistes conceptuais. Descreveremos

a peculiaridade desta técnica muito mais apropriadamente se dissermos, ao invés da

representação por alguma coisa „afim‟, representação por algo „correlacionado‟ ou „conexo‟.

Efetivamente começaremos por esta última característica e a descreveremos imediatamente com

um exemplo.

Eis uma anedota americana: „Dois homens de negócio, não particularmente escrupulosos,

conseguiram, por meio de uma série de empreendimentos de alto risco, acumular grande fortuna, e

faziam agora sérios esforços para introduzir-se na boa sociedade. Um método, que

impressionou-os como de provável êxito, era ter seus retratos pintados pelo mais famoso e mais

bem pago artista da cidade, cujos quadros gozavam de alta reputação. As preciosas telas foram

exibidas pela primeira vez em um grande sarau e os próprios anfitriões conduziram o crítico e

connaisseur de arte mais influente até a parede de onde pendiam os retratos lado a lado, para

desfrutar o seu admirado julgamento a respeito. Após estudar os trabalhos por longos instantes, o

crítico balançou a cabeça como se algo estivesse faltando e indicando o espaço vazio entre os

quadros, perguntou calmamente: “Mas onde está o Salvador?”‟ (I.e. “Não vejo o quadro do

Salvador.”)

O sentido deste comentário é claro. Tratamos ainda uma vez da questão de representar

alguma coisa, que não pode ser expressa diretamente. Como ocorre esta „representação indireta‟?

Partindo da representação dada no chiste, reconstituímos o trajeto inverso através de uma série de

associações e inferências facilmente estabelecíveis.

Podemos adivinhar pela pergunta „Onde está o Salvador? Onde a imagem do Salvador?‟

que a visão dos dois quadros recordou ao locutor uma visão semelhante, familiar a ele, que incluía

entretanto um elemento ora omitido - a figura do Salvador entre duas outras. Há apenas uma

situação desse tipo: Cristo crucificado entre dois ladrões. Os chiste confere proeminência ao

elemento omitido. A similaridade apóia-se em informação transmitida pelo chiste, as figuras

pendentes à direita e à esquerda do Salvador; pode consistir apenas no fato de que os quadros

pendentes das paredes são imagens de ladrões. O que o crítico pretendia dizer era simplesmente:

„Vocês são um par de patifes‟, ou, em maior detalhe: „Que me importam os retratos de vocês? O

certo é que são uma dupla de patifes!‟ E efetivamente ele termina dizendo isso através de algumas

associações e inferências, utilizando o método que denominamos de „alusão‟.

Recordemos imediatamente em que parte já deparamos com a alusão - numa conexão, a

saber, com o duplo sentido. Quando dois sentidos são expressos por uma palavra, sendo um deles

tão mais freqüente e usual que desde logo nos ocorre, enquanto o segundo é mais fora de mão e

portanto, menos proeminente, propomos referir isto como „duplo sentido com uma alusão‟ (ver em

[1]). Em todo um conjunto de exemplos já examinados constatamos que sua técnica não era

simples e percebemos agora que o fator de complicação deles era a alusão. (Veja-se, por

exemplo, o chiste de inversão sobre a esposa que tem(se) dado um pouco, ganhando portanto

muito dinheiro (ver em [2]) ou o chiste absurdo do homem que respondia às congratulações pelo

nascimento de seu filho mais novo dizendo que era notável o que podiam realizar as mãos

humanas (ver em [3]).)

Na anedota americana defrontamos uma alusão sem duplo sentido e verificamos que sua

característica é a substituição por algo que lhe seja vinculado em uma conexão conceptual.

Pode-se facilmente imaginar que haja mais de um tipo de conexão utilizável. A fim de que não nos

percamos em um labirinto de detalhes, discutiremos apenas as variações mais marcantes, e ainda

assim, apenas alguns exemplos destas.

A conexão usada para a substituição pode ser simplesmente uma semelhança fônica, de

modo que essa subespécie torna-se análoga ao grupo que entre os chistes verbais compreende os

trocadilhos. Aqui, no entanto, não se trata de semelhança fônica entre duas palavras, mas entre

sentenças inteiras, expressões características, e assim por diante.

Por exemplo, Lichtenberg cunhou esse dito: „Novos balneários tratam bem‟ que evoca-nos

imediatamente o provérbio: „Novas vassouras varrem limpo‟. As duas expressões partilham a

palavra inicial e algumas mediais tanto quanto a estrutura inteira da sentença. Não há dúvida de

que a sentença tenha se introduzido na cabeça do espirituoso filósofo como imitação do provérbio

familiar. Assim o dito de Lichtenberg torna-se uma alusão ao provérbio. Através dessa alusão

alguma coisa é sugerida mas não dita diretamente - a saber, que algo mais é responsável pelos

efeitos produzidos pelos balneários além das características invariantes das fontes termais.

Uma solução técnica semelhante aplica-se a outra pilhéria (Scherz] ou chiste [Witz] de

Lichtenberg: „Uma garota de mais ou menos doze Moden [modas]!‟ Isto soa semelhante a „doze

Monden [luas]‟, i.e., meses, o que pode ter sido originalmente um deslize na grafia dessa última

expressão, permissível em poesia. Mas também faz sentido usar a mutante moda ao invés da

mutante lua como um método de determinação da idade de uma mulher.

A conexão pode também consistir na similaridade, exceto por uma „leve modificação‟.

Assim, essa técnica é também paralela a uma técnica verbal (ver em [1]). Ambas as espécies de

chiste produzem quase a mesma impressão, mas podem ser mais bem distinguidas uma das

outras se consideramos os processos de elaboração do chiste.

Eis um exemplo de chiste verbal ou trocadilho desse tipo: Maria Wilt era uma grande

cantora, famosa pela extensão não apenas de sua voz. Sofreu a humilhação de que o título de

uma peça teatral, baseada em famosa novela de Júlio Verne, aludisse a sua deselegante figura: „A

volta a Wilt em oitenta dias‟.

Ou: „Uma rainha por braça‟, modificação do conhecido dito de Shakespeare „Um rei por

polegada‟. A alusão a esta citação foi feita com referência a uma aristocrática e altíssima dama.

Não se poderia objetar seriamente a que alguém desejasse incluir tal chiste entre as

„condensações acompanhadas de modificações como substitutivo‟. (Ver „tête-à-tête„, em [1].)

Um amigo disse de alguém de olhar muito arrogante mas obstinado na perseguição de

seus objetivos: „Er hat ein Ideal vor dem Kopf [Tem um ideal à frente de sua cabeça]‟. A expressão

corrente é: „Ein Brett vor dem Kopf haben‟ [literalmente, „ter uma parede à frente da cabeça‟ - „ser

obtuso‟]. A modificação alude a essa expressão e utiliza seu sentido para seus próprios propósitos,

Aqui, uma vez mais, podia-se descrever a técnica como „condensação com modificação‟.

É quase impossível distinguir entre „alusão através de modificação‟ e „condensação com

substituição‟, se a modificação se limita a uma mudança de letras. Por exemplo: „Dichteritis„.Esta

alusão ao flagelo da „Diphteritis [difteria]‟ representa como um outro mal público a autoridade

(quando exercida) por pessoas desqualificadas.

As partículas negativas fazem alusões muito nítidas à custa de leves alterações:

„Spinoza, meu companheiro de descrença, diz Heine. „Nös, por desgraça de Deus,

trabalhadores, servos, negros, vilões…‟ é como Lichtenberg faz iniciar-se um manifesto (que ele

não desenvolve além) desses infortunados - os quais decerto não têm mais direito a esse título que

os reis e príncipes na sua forma não-modificada.

Finalmente, uma outra espécie de alusão consiste na „omissão‟, comparável à

condensação sem formação de substitutivo. Na verdade omite-se algo em toda alusão, ou seja, o

processo dedutivo leva à alusão. Só depende de que a coisa mais óbvia na verbalização da alusão

ou do substitutivo que preenche parcialmente a lacuna seja a própria lacuna. Assim, uma série de

exemplos nos faria retornar da ostensiva omissão à alusão propriamente dita.

A omissão sem substitutivo é apresentada no seguinte exemplo: Há um espirituoso e

agressivo jornalista em Viena, cujas mordazes invectivas já o levaram várias vezes a ser agredido

fisicamente pelos objetos de seu ataque. Em certa ocasião, quando comentava-se novo crime

cometido por um de seus opositores habituais, alguém exclamou: „Se X ouve isso, terá seus

ouvidos socados novamente‟. A técnica desse chiste inclui em primeiro lugar o desconcerto diante

desse aparente nonsense, já que é impossível entendermos como é que „ter os ouvidos socados‟

possa ser a conseqüência imediata de se ter ouvido alguma coisa. O absurdo do comentário

desaparece se inserimos na lacuna: „ele escreverá um artigo tão caústico sobre o homem que…

etc‟. A alusão por meio da omissão, combinada com o nonsense, são conseqüentemente os

métodos técnicos usados nesse chiste.

„Ele tanto se exalta que o preço do incenso está subindo.‟ (Heine.) Esta lacuna é fácil de

preencher. O que foi omitido é substituído por uma inferência que reconduz então ao que fora

omitido na forma de uma alusão: „o autor-louvor cheira mal‟.

E agora. outra vez, o chiste dos dois judeus fora de uma casa de banho, quando um deles

suspira: „Mais um ano que se foi!‟

Tais exemplos não nos deixam dúvida de que a omissão integre a alusão.

Há ainda uma lacuna bem nítida a ser considerada no nosso próximo exemplo, embora se

trate de um chiste autêntico e corretamente alusivo. Depois de um carnaval de artistas em Viena

circulou um livro de pilhérias, entre as quais figurava o seguinte epigrama.

„Uma esposa é como um guarda-chuva. Mais cedo ou mais tarde toma-se um táxi.‟

Um guarda-chuva não é proteção suficiente contra a chuva. O „mais cedo ou mais tarde‟ só

pode significar „se a chuva aumenta‟ e o táxi é um veículo público. Já que nos interessa aqui

apenas a forma da analogia, adiaremos o exame mais detalhado desse chiste para um momento

posterior. [Ver em [1].]

O „Bäder von Lucca‟ de Heine contém um regular vespeiro das mais picantes alusões e faz

uso muitíssimo engenhoso dessa forma de chiste para propósitos polêmicos (contra o Conde

Platen). Bem antes que o leitor possa suspeitar do que está em andamento, prenuncia um tema

particular, peculiarmente pouco adaptado à representação direta, através de alusões a material da

espécie mais variada - seja por exemplo as contorções verbais de Hirsch-Hyacinth: „Você é gordo e

eu magro demais; você tem muita imaginação e eu todo o senso para negócios; eu sou um prático

e você um diarrheticus; em suma, você é meu absoluto antipodex„. „- Vênus Urinia‟ - „a gorda Gudel

von Dreckwall‟ de Hamburgo e assim por diante. No que segue, os eventos descritos pelo autor

tomam uma feição que à primeira vista parece simplesmente demonstrar sua maligna disposição

mas logo revelam sua relação simbólica com o propósito polêmico (do autor) ao mesmo tempo que

mostram-se alusivos. Finalmente explode o ataque a Platen e daí por diante jorram alusões ao

tema (com o qual já fomos familiarizados) do amor do Conde por homens, alusões que

transbordam em cada sentença do ataque de Heine aos talentos e ao caráter de seu adversário.

Por exemplo:

„Mesmo se as Musas não o favorecem, tem o Gênio do Idioma em seu poder, ou antes,

sabe como violentá-lo. Pois não possui o livre amor desse Gênio: deve incessantemente perseguir

também a esse jovem e saber como captar-lhe unicamente as formas externas, que a despeito de

suas curvas adoráveis, nunca falam com nobreza.‟

„Ele é como a avestruz que se acredita bem escondida se mete sua cabeça na areia,

deixando visível apenas o traseiro. Nossa nobre ave faria melhor escondendo seu traseiro na areia

e mostrando-nos a cabeça.‟

A alusão é talvez o método do chiste mais comum e mais facilmente controlável, estando

talvez no fundo da maior parte dos efêmeros chistes que costumamos urdir em nossas

conversações e que não tolerariam ser transplantados do solo original e mantidos isoladamente.

Mas isso precisamente nos lembra de novo o fato que começara a nos intrigar ao considerarmos a

técnica dos chistes. Uma alusão em si não constitui um chiste; há alusões corretamente

construídas que não reclamam tal caráter. Só as alusões que o possuam podem ser descritas

como chistes. Assim, o critério dos chistes, que temos perseguido através de sua técnica,

escapa-nos mais uma vez.

Tenho descrito ocasionalmente a alusão como uma „representação indireta‟ e podemos

agora observar que as várias espécies de alusão, juntamente com a representação pelo oposto e

outras técnicas que ainda vão ser mencionadas, poderiam se reunir em um único grande grupo

para o qual o nome mais compreensivo seria o de „representação indireta‟. „Raciocínio falho‟,

„unificação‟ e „representação indireta‟ - eis então os rótulos sob os quais podemos classificar

aquelas técnicas de chistes conceptuais que viemos a conhecer.

Se examinamos um pouco mais nosso material, parecemos reconhecer uma nova

subespécie de representação indireta que só pode ser caracterizada precisamente através dos

poucos exemplos que podem ser aduzidos. Trata-se da representação de algo pequeno ou mesmo

muito pequeno - que efetua a tarefa de dar expressão completa a uma característica inteira através

de um insignificante detalhe. Esse grupo pode ser agregado à classificação de „alusão‟, se

tivermos em mente que a pequenez é relacionada ao que deve ser representado, verificando-se

pois proceder dele. Por exemplo:

„Um judeu da Galícia viajava de trem. Ajeita-se confortavelmente, desabotoando seu

capote e colocando os pés sobre o banco. Nesse momento um cavalheiro em trajes modernos

entrou no aposento. O judeu prontamente recompôs-se e assumiu uma postura adequada. O

estranho folheou as páginas de um caderno, fez alguns cálculos, refletiu por um momento e então,

subitamente, perguntou ao judeu: “Desculpe-me, mas quando é o Yom Kippur?” (o Dia da

Expiação). “Ora!” exclamou o judeu e colocou de novo os pés no banco antes de responder.‟

Não se pode negar que essa representação por uma minúcia relaciona-se à „tendência à

economia‟ que nos é aqui deixada como último elemento comum após nossa investigação da

técnica verbal (ver em [1]).

Eis um exemplo muito semelhante:

„O médico a cujos cuidados se confiou a Baronesa em sua gravidez, anunciou que ainda

não chegara o momento de dar à luz e sugeriu ao Barão que enquanto esperavam jogassem

cartas no cômodo vizinho. Após um momento, um grito de dor da Baronesa feriu os ouvidos dos

dois homens: “Ah, mon Dieu, que je souffre!” Seu marido levantou-se de um salto mas o médico

fez-lhe sinal que se assentasse: “Não é nada. Vamos continuar com o jogo!” Pouco depois, novos

brados da mulher grávida: “Mein Gott, mein Gott, que dores terríveis?” - “Não vai entrar,

Professor?”, perguntou o Barão. “Não, não. Ainda não é a hora.” Finalmente chegou da porta

próxima um inconfundível grito de “Ai, ai, ai!”. O doutor largou as cartas e exclamou: “Agora é a

hora.”‟

Este bem-sucedido chiste demonstra duas coisas pela modificação gradual do caráter dos

gritos de dor emitidos por uma aristocrática dama na hora do parto. Mostra também como a dor faz

com que a natureza primitiva irrompa entre as diversas camadas de verniz de educação e como

uma decisão importante pode ser adequadamente tomada na dependência de um fenômeno

aparentemente trivial.

Há um outro tipo de representação indireta utilizada pelos chistes, a saber, a „analogia‟.

Deixamos para tratá-la só agora porque sua consideração defronta-se com novas dificuldades, ou

ao menos evidencia particularmente dificuldades que até agora só emergiram em outras conexões.

Já admitimos que em alguns dos exemplos examinados não pudemos expulsar uma dúvida quanto

a sua inequívoca consideração como chistes (ver em [1] e [2]); tal incerteza, já o reconhecemos,

solapa seriamente as bases de nossa investigação. Estou certo de que a incerteza não ocorre

mais intensa ou mais freqüentemente que nos chistes por analogia. Há uma sensação -

provavelmente verdadeira para grande número de outras pessoas sujeitas às mesmas condições -

que nos diz „este é um chiste, posso dizer que este é um chiste‟ mesmo antes que tenha sido

descoberta a oculta natureza essencial dos chistes. Tal sentimento deixa-nos em apuros mais

freqüentemente no caso das analogias chistosas. Se começamos por qualificar sem hesitação uma

analogia como sendo um chiste, logo após parecemos notar que o deleite por ela proporcionado é

de uma qualidade diferente daquele que costumamos derivar do chiste. E o fato de as analogias

chistosas só raramente provocarem a explosão do riso que assinala um bom chiste, deixa-me

impossibilitado de resolver essa dúvida da maneira habitual; limito-me aos exemplos melhores,

mais efetivos, da espécie.

É fácil demonstrar que há exemplos de analogias, efetivos e notavelmente refinados, que

em absoluto se nos apresentam como chistes. É o caso da sutil analogia entre a ternura de Ottilie

e o fio vermelho da armada inglesa (ver em [1]). Não posso deixar de citar, no mesmo sentido,

outro exemplo que não me canso de admirar e cujo efeito sobre mim não cessa de crescer. É a

analogia com a qual Ferdinand Lassalle termina uma de suas famosas defesas („A Ciência e os

Trabalhadores‟): „A um homem como esse que eu lhes mostrei, que devotou sua vida ao lema “A

Ciência e os Trabalhadores”, sua condensação não importaria mais que a explosão de uma retorta

a um químico absorto em seus experimentos científicos. Tão logo passe a interrupção, com um

leve franzir de sobrancelhas a propósito da rebeldia de seu material, ele voltará calmamente a

suas pesquisas e a seus trabalhos‟.

Uma rica seleção das analogias chistosas e hábeis encontra-se entre os escritos de

Lichtenberg (segundo volume da edição Gottingen de 1853) e daí tomarei material para nossa

investigação.

„É quase impossível atravessar uma multidão portando a tocha da verdade sem chamuscar

a barba de alguém.‟

Sem dúvida essa sentença parece ser um chiste; entretanto, com um exame mais

detalhado, notamos que o efeito chistoso não procede da própria analogia mas de uma

característica subsidiária. „A tocha da verdade‟ não é uma analogia nova e sim difundida há muito

tempo, estando, pois, reduzida a um clichê - como sempre ocorre quando uma analogia é

afortunada e bem aceita no uso lingüístico. Embora dificilmente notemos ainda a analogia na

locução „a tocha de verdade‟, subitamente Lichtenberg lhe restitui sua completa força original, já

que agora faz um acréscimo à analogia e daí inferindo uma conseqüência. Ora, já nos

familiarizamos com o processo de conferir sentido pleno a uma expressão esvaziada, o qual

consiste em uma técnica de chiste. Enquadra-se no uso múltiplo do mesmo material (Ver em [1].).

Bem pode ser que a impressão chistosa produzida pelo comentário de Lichtenberg proceda

apenas de sua conexão com essa técnica do chiste.

O mesmo juízo é decerto aplicável a uma outra analogia chistosa da mesma autoria:

„Pode-se estar certo, aquele homem não foi um grande luminar [Licht], mas um grande

candelabro [Leuchter]… Era um Professor de Filosofia.‟

Há muito que a descrição de um homem de saber como grande luminar, uma lumen

mundi, deixou de ser uma analogia efetiva, se é que teve em algum tempo um efeito de chiste.

Mas a analogia é renovada, retoma sua força completa, se se deriva dela uma modificação, de

onde se obtém segunda e nova analogia. O modo pelo qual se processa essa segunda analogia

parece ser o fator determinante do chiste, mais que as duas analogias propriamente. Esse seria

um exemplo da mesma técnica do chiste utilizada no exemplo da tocha.

O exemplo seguinte parece ter um caráter chistoso devido a outra razão, que deve

entretanto ser julgada similarmente:

„As recensões parecem-me uma espécie de doença infantil à qual os livros recém-nascidos

são mais ou menos suscetíveis. Há exemplos de morte dos mais saudáveis, enquanto os mais

fracos freqüentemente lhes escapam. Alguns lhes escapam inteiramente. Tem-se tentado

resguardá-los delas através de amuletos como o prefácio e a dedicatória ou mesmo de vacinas

como a autocrítica do autor. Mas isso nem sempre ajuda.‟

A comparação das recensões com uma doença infantil baseia-se em primeira instância no

fato de (crianças e livros) estarem expostos a elas tão logo vejam a luz do dia. Não posso me

aventurar a decidir se nesse ponto a comparação tem caráter de chiste. Mas, prosseguindo, o

destino subseqüente dos novos livros pode ser representado dentro do esquema da mesma

analogia ou através de analogias relacionadas. Uma tal prolongação da analogia integra-se, sem

dúvida, à natureza do chiste, mas já sabemos graças a que técnica - é um caso de unificação, de

elaboração de uma conexão insuspeitada. Não altera o caráter de unificação o fato de que ela aqui

consista de acréscimo a uma analogia prévia.

Em outro grupo de chistes somos tentados a transformar uma impressão irrefutavelmente

chistosa em outro fator, que, uma vez mais, nada tem a ver com analogia. Tais analogias, ou

contêm uma singular justaposição, com freqüência uma combinação aparentemente absurda, ou

são substituídas por algo semelhante ao resultado da analogia. A maior parte dos exemplos de

Lichtenberg pertence a esse grupo.

„É pena que não se possa enxergar as instruídas vísceras dos autores de modo a

descobrir o que eles comeram.‟ As „instruídas vísceras‟ são um epíteto desconcertante e de fato

absurdo, só explicado pela analogia. Será a impressão chistosa aqui obtida inteiramente devida ao

desconcertante caráter da justaposição? Se o é, corresponderia aquela a um método do chiste

com o qual já estamos bastante familiarizados - a „representação pelo absurdo‟ (ver em [1]).

Lichtenberg usou a mesma analogia entre a ingestão de leitura instrutiva e a ingestão de

nutrição física para outro chiste:

„Ele tinha a maior consideração pela instrução caseira e estava inteiramente a favor da

instrução estabulada.‟

Outras analogias do mesmo autor apresentam a mesma absurda, ou no mínimo

surpreendente, distribuição de epítetos os quais, como veremos, são os verdadeiros veículos do

chiste:

„Este é o lado de barlavento de minha constituição moral; lá posso suportar as coisas muito

bem.‟

„Todo mundo tem seu backside moral, que não expõe exceto em caso de necessidade e

que cobre, enquanto possível, com os calções da respeitabilidade.‟

Backside moral‟ - a atribuição desse notável epíteto é o resultado de uma analogia. Mas

em acréscimo, a analogia prossegue com um autêntico jogo de palavras - „necessidade‟- e uma

segunda justaposição mesmo mais rara („os calções de respeitabilidade‟) que é talvez, por si

mesma, um chiste; pois, os calções, logo que são os calções de respeitabilidade, tornam-se um

chiste. Não precisamos pois ficar surpresos se recebemos a impressão global de que a analogia

seja um chiste muito bom. Começamos a notar que geralmente nos inclinamos em nossa

apreciação a estender a toda uma totalidade alguma característica que se conecta à parte dela.

„Os calções de respeitabilidade‟, incidentalmente evocam alguns desconcertantes versos de Heine:

…Bis mir endlich,

endlich alle Knopfe rissen

an der Hose der Geduld.

[…Até que finalmente,

finalmente todo botão rebenta

nos calções de minha paciência.]

Não pode haver dúvida de que essas duas últimas analogias têm uma característica que

não encontramos em toda analogia boa (isto é, adequada). Elas são em alto grau, como

poderíamos dizer, „degradantes‟. Justapõem algo de alta categoria, algo abstrato (nestes

exemplos, a „respeitabilidade‟ e a „paciência‟) com algo muito concreto e mesmo de um gênero

baixo (os calções). Deveremos considerar em outra conexão se essa peculiaridade tem a ver com

o chiste. Tentaremos aqui analisar outro exemplo em que essa menoscabante característica é

especialmente clara. Weinberl, o caixeiro na farsa de Nestroy, Einen Jux will er sich machen [Ele

quer tomar um porre], descreve a si mesmo como haveria de recordar os dias de sua juventude

quando fosse um respeitável homem de negócios: „Quando o gelo frente ao armazém da memória

tiver sido quebrado a picaretas, como nessa conversa cordial‟, diz ele, „quando o arqueado portal

dos velhos tempos tiver sido de novo destrancado e a vitrine da imaginação estiver inteiramente

sortida pelos bens do passado…‟. Temos aqui, certamente, analogias entre abstrações e coisas

concretas muito comuns; mas o chiste depende parcial ou inteiramente - de que o caixeiro utilize

analogias tomadas do domínio de suas atividades cotidianas. Mas a conexão de tais abstrações

com as coisas ordinárias que normalmente enchem sua vida é um ato de unificação.

Retornemos às analogias de Lichtenberg:

„Os motivos que nos levam a fazer algo podiam ser ordenados como a rosa-dos-ventos [ =

pontos da bússola] e denominados de modo semelhante: por exemplo, „pão-pão-fama‟ ou

„fama-fama-pão‟. Como ocorre com tanta freqüência com os chistes de Lichtenberg, a impressão

de algo adequado, espirituoso e agudo é tão proeminente que confunde nosso juízo quanto à

natureza do que constitui o chiste. Se alguma porção do chiste é mesclada ao admirável

significado em um comentário desse tipo, somos provavelmente levados a declarar que a

totalidade é um chiste excelente. Gostaria antes de aventurar a afirmação de que tudo que

pertence à natureza do chiste procede de nossa surpresa ante a estranha combinação

„pão-pão-fama‟. Enquanto chiste, portanto, seria um caso de „representação pelo absurdo‟.

Uma estranha justaposição ou a atribuição de um epíteto absurdo podem apresentar-se

como resultado de uma analogia:

„Uma mulher zweischläfrige.‟ „Um banco de igreja einschaläfriger.„(Ambas de Lichtenberg.)

Por trás de ambos os ditos, jaz uma analogia com cama; em ambos opera, além do „desconcerto‟,

o fator técnico „alusão‟ - alusão em um caso aos soporíferos efeitos de um sermão e em outro ao

inexaurível tópico das relações sexuais.

Até aqui verificamos, que, onde uma analogia nos parece um chiste, isso se deve à

mesclagem com uma das técnicas do chiste que já conhecemos. Mas alguns outros exemplos

parecem finalmente evidenciar que uma analogia pode ser um chiste por si mesma.

Eis como Lichtenberg descreve certas odes:

„São em poesia o que os imortais trabalhos de Jacob Böhme são em prosa - uma espécie

de piquenique, onde o autor fornece as palavras e o leitor o sentido.‟

„Quando filosofa, normalmente projeta sobre as coisas um agradável luar que geralmente

deleita mas não mostra coisa alguma claramente.‟

Ou veja-se Heine:

„A face dela parecia um palimpsesto onde, por baixo do novo e negro manuscrito

monástico do texto de um padre da Igreja, escondem-se as meio obliteradas linhas de um antigo

poema erótico grego.‟

[Harzreise.]

Ou consideremos a extensa analogia, com propósito altamente degradante, no „Bäder von

Lucca‟ [Reisebilder III]:

„Um clérigo católico comporta-se tal como um caixeiro que tem um posto em uma grande

casa de comércio. A Igreja, a grande firma, da qual o Papa é o chefe, dá-lhe um emprego fixo e em

paga, um salário fixo. Ele trabalha preguiçosamente, como alguém que não trabalha para lucro

próprio, que tem numerosos colegas e pode facilmente escapar de ser observado no tumulto de

uma grande firma. Tudo que lhe importa é o crédito da casa e ainda mais sua preservação, pois

que se ela for à bancarrota, ele perderá seu ganha-pão. Um clérigo protestante, por outro lado, é

em qualquer caso seu próprio chefe e empreende o negócio da religião para seu próprio lucro. Ele

não negocia por atacado, como o católico, seu colega comerciante, mas apenas a retalho. E já que

ele próprio se encarrega de tudo, não se permite ser preguiçoso. Deve anunciar seus artigos de fé,

depreciar os artigos do competidor e, como genuíno retalhista, deve manter-se em sua venda a

retalho, cheio de inveja comercial de todas as grandes casas, em particular da grande casa em

Roma, que paga os salários de tantos milhares de guarda-livros e empacotadores, e tem suas

fábricas nos quatro cantos do globo.‟

Em face desse e de muitos outros exemplos, não podemos mais discutir o fato de que uma

analogia possa em si mesma se caracterizar como chiste, sem que essa impressão seja devida a

uma complicação com alguma das conhecidas técnicas de chiste. Mas ao admitir isso, estamos

completamente perdidos quanto a constatar o que determina a característica chistosa das

analogias, já que tal característica decerto não reside na analogia como forma de expressão do

pensamento ou na elaboração de uma comparação. Tudo que podemos fazer é incluir a analogia

entre as espécies de „representação indireta‟ usadas pela técnica do chiste, deixando sem solução

um problema que encontramos com muito maior clareza no caso das analogias que no caso dos

outros métodos do chiste, observados anteriormente. Além do mais, deve haver sem dúvida

alguma razão especial pela qual a decisão quanto a qualificar ou não algo como chiste oferece

maiores dificuldades nas analogias que em outras formas de expressão.

Essa lacuna em nossa compreensão não nos deixa margem entretanto para lamentar que

a primeira investigação tenha sido sem resultados. Em vista da íntima conexão que devemos estar

preparados para constatar nas diferentes características dos chistes, seria imprudente esperar que

pudéssemos explicar completamente uma parte do problema antes de ter, do mesmo modo,

lançado a vista sobre as outras. Sem dúvida deveremos atacar agora o problema a partir de outra

perspectiva.

Podemos estar seguros de que nenhuma das possíveis técnicas de chistes escapou a

nossa investigação? Naturalmente que não. Mas o continuado exame de material novo pode

convencer-nos de que conseguimos conhecer os métodos técnicos mais comuns e importantes da

elaboração do chiste - em todos os casos, muito mais se necessita para formar um juízo sobre a

natureza daquele processo psíquico. Até aqui não chegamos a tal juízo, mas por outro lado

possuímos agora uma importante indicação da direção de onde podemos esperar receber

esclarecimento ulterior sobre o problema. Os interessantes processos de condensação

acompanhados de formação de substitutivo, reconhecidos como o núcleo da técnica dos chistes

verbais, apontam para a formação dos sonhos, em cujo mecanismo tem-se descoberto os mesmos

processos psíquicos. Isso vale igualmente, entretanto, para as técnicas de chistes conceptuais -

deslocamento, raciocínio falho, absurdo, representação pelo oposto - que reaparecem, cada um e

todos, na técnica de elaboração do sonho. O deslocamento é responsável pelo enigmático

aparecimento de sonhos que nos impedem o reconhecimento de que constituem uma continuação

de nossa vida desperta. O uso do absurdo e do nonsense nos sonhos tem-lhes custado a

dignidade de serem considerados produtos psíquicos e tem levado as autoridades a supor que a

desintegração das atividades mentais e uma cessação de crítica, da moralidade e da lógica são

condições necessárias à formação dos sonhos. A representação pelo oposto é tão comum nos

sonhos que mesmo os livros populares de interpretação dos sonhos, que executam de modo

totalmente equivocado essa tarefa, têm por hábito levá-la em conta. A representação indireta - a

substituição de um pensamento onírico por uma alusão, por algo insignificante, por um simbolismo

afim à analogia - é precisamente o que distingue o modo de expressão dos sonhos de nossa vida

desperta. Sendo tão abrangente dificilmente será um puro acaso tal concordância entre os

métodos da elaboração do chiste e aqueles da elaboração do sonho. Será pois uma de nossas

próximas tarefas demonstrar detalhadamente essa concordância bem como examinar seu

fundamento. [Ver Capítulo VI adiante.]

III - OS PROPÓSITOS DOS CHISTES

Quando ao fim de meu último capítulo transcrevi a comparação por Heine de um padre

católico com um empregado em um negócio por atacado e de um protestante com um mercador a

retalho, atentei para uma inibição que estava tentando induzir-me a não utilizar a analogia. Disse a

mim mesmo que entre os leitores haveria provavelmente alguns que sentissem respeito não só

pela religião como por seus ministros e ajudantes. Tais leitores ficariam indignados com a analogia

e em tal estado emocional estariam privados de todo interesse quanto a decidir se a analogia

parece um chiste por sua própria conta ou devido a alguma coisa extra a ela acrescentada. Com

outras analogias - por exemplo, aquela analogia vizinha, sobre a agradável luz da lua que alguma

filosofia particular lança sobre as coisas - parecia não haver necessidade de preocupar-me com o

efeito perturbador que teriam sobre alguma fração de meus leitores. O homem mais piedoso

permaneceria em um estado de ânimo tal que pudesse opinar sobre nosso problema.

É fácil adivinhar a característica dos chistes de que depende a diferença na reação de

seus ouvintes. Em um caso, o chiste é um fim em si mesmo, não servindo a um objeto particular;

em outro caso, o chiste serve a um fim - torna-se tendencioso. Apenas os chistes que têm um

propósito correm o risco de encontrar pessoas que não querem ouvi-los.

Os chistes não tendenciosos foram descritos por Vischer como chistes „abstratos‟. Prefiro

chamá-los „inocentes‟.

Já que dividimos os chistes em “verbais‟ e „conceptuais‟ de acordo com a manipulação

técnica do material, estamos autorizados agora a examinar a relação entre tal classificação e os

novos chistes que iremos introduzindo. A relação entre chistes verbais e conceptuais por um lado e

entre chistes abstratos e tendenciosos por outro, não é de mútua influência; trata-se de duas