09 - (Gradiva) de Jensen e outros trabalhos, Trabalhos de Psicologia
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“Gradiva” de Jensen e outros trabalhos

VOLUME IX

(1906 - 1908)

DELÍRIOS E SONHOS NA GRADIVA DE JENSEN (1907 [1906])

NOTA DO EDITOR INGLÊS

DER WAHN UND DIE TRÄUME IN W. JENSENS GRADIVA

(a) EDIÇÕES ALEMÃS:

1907 Leipzig e Viena: Heller. 81 págs. (Schriften zur angewandten Seelenkunde,

Heft 1.) (Reeditada sem alterações, com a mesma página de rosto, mas com uma nova

sobrecapa: Leipzig e Viena: Deuticke, 1908.)

1912 2ª ed. Leipzig e Viena: Deuticke. Com „Pós-escrito‟. 87 págs.

1924 3ª ed. Mesmos editores. Sem alterações.

1925 G.S., 9, 273-367.

1941 G.W., 7, 31-125.

(b) TRADUÇÃO INGLESA:

Delusion and Dream

1917 Nova Iorque: Moffat, Yard. 243 págs. (Trad. de H. M. Downey.) (Com uma

introdução de G. Stanley Hall. Omite o „Pós-escrito‟ de Freud. Inclui a tradução da obra de

Jensen.)

1921 Londres: George Allen & Unwin. 213 págs. (Reimpressão da anterior.)

A presente tradução, totalmente nova e com título modificado, é de James Strachey. O

„Pós-escrito‟ aparece em inglês pela primeira vez.

Esta foi a primeira análise de uma obra de literatura feita por Freud a ser publicada, com

exceção, naturalmente, de seus comentários sobre Édipo Rei e Hamlet em A Interpretação de

Sonhos (1900a), ver a partir de [1], IMAGO Editora, 1972. Entretanto, ele já escrevera

anteriormente uma curta análise da obra de Conrad Ferdinand Meyer „Die Richterin‟ [„A Juíza‟], e a

enviara a Fliess, juntamente com a carta de 20 de junho de 1898 (Freud, 1950a, Carta 91).

Através de Ernest Jones (1955, 382) sabemos que foi Jung quem chamou a atenção de

Freud para o livro de Jensen. Acredita-se que Freud escreveu o presente trabalho especialmente

para agradar a Jung. Isso ocorreu no verão de 1906, vários meses antes do primeiro encontro dos

dois, sendo esse episódio, assim, o prenúncio dos cinco ou seis anos de suas relações cordiais. O

estudo de Freud foi publicado em maio de 1907, e pouco depois ele enviou um exemplar do

mesmo a Jensen. Seguiu-se uma breve correspondência, à qual se faz alusão no „Pós-Escrito‟ à

segunda edição (ver em [1]). As três pequenas cartas que Jensen enviou a Freud em 13 de maio,

25 de maio e 14 de dezembro de 1907 foram publicadas em Psychoanalytische Bewegung, 1

(1929), 207-211. Trata-se de cartas muito cordiais, as quais fazem crer que Jensen tenha ficado

lisonjeado com a análise de Freud, parecendo inclusive ter aceito as linhas principais da

interpretação. Declara, em particular, não se lembrar de ter dado uma resposta „um tanto brusca‟

ao lhe ser perguntado (parece que por Jung) se acaso conhecia as teorias de Freud, como

relatado em [2].

Afora a significação mais profunda, aquilo que atraiu especialmente a atenção de Freud na

obra de Jensen foi, sem dúvida, o cenário em que ela se desenrola. Já era antigo o interesse de

Freud por Pompéia, emergindo mais de uma vez em sua correspondência com Fliess. Assim,

como associação para a palavra „via„, em um de seus sonhos, ele fornece „as ruas de Pompéia que

estudo no momento‟. Isso ocorreu numa carta datada de 28 de abril de 1897 (Freud, 1950a, Carta

60), alguns anos antes de ele visitar realmente aquela cidade em setembro de 1902. Freud

sentia-se particularmente fascinado pela analogia existente entre o destino histórico de Pompéia (o

soterramento e a posterior escavação) e os eventos mentais que lhe eram tão familiares: o

soterramento pela repressão e a escavação pela análise. Em parte essa analogia foi sugerida pelo

próprio Jensen (ver em [1]), e Freud desenvolveu-a com prazer neste trabalho, assim como em

contextos posteriores.

Ao ler este estudo de Freud, vale a pena que se tenha em mente seu lugar cronológico

entre as obras do autor. Trata-se de um dos seus primeiros trabalhos psicanalíticos, escrito apenas

um ano após a primeira publicação do caso clínico de „Dora‟ e dos Três Ensaios sobre a

Sexualidade. Inseridos no exame de Gradiva encontram-se não só um sumário da explanação de

Freud sobre os sonhos, mas também o que talvez seja a primeira de suas exposições

semipopulares de sua teoria das neuroses e da ação terapêutica da psicanálise. É impossível

deixar de admirar a habilidade quase prestidigital com que ele extrai esse material riquíssimo

daquilo que, à primeira vista, parece ser apenas uma história engenhosa. No entanto, seria erro

menosprezar o papel que Jensen desempenhou, embora inconscientemente, nesse resultado.

DELÍRIOS E SONHOS NA GRADIVA DE JENSEN

Um grupo de pessoas, que acreditava terem sido os mistérios básicos do sonho decifrados

pelos esforços do autor do presente trabalho, sentiu, certo dia, sua curiosidade voltar-se para a

questão da classe de sonhos que nunca haviam sido sonhados - sonhos criados por escritores

imaginativos e por estes atribuídos a personagens no curso de uma história. A idéia de submeter a

uma investigação essa espécie de sonhos pode parecer estranha e improfícua, mas de certo ponto

de vista seria justificável. Está bem longe de ser geral a crença de que os sonhos possuem um

significado e podem ser interpretados. A ciência e a maioria das pessoas cultas sorriem quando se

lhes propõe a interpretação de um sonho. Só as pessoas simples, que se apegam às superstições

e assim perpetuam as convicções da Antiguidade, continuam a insistir que eles são passíveis de

interpretação. O autor de ousou, apesar das reprovações da ciência estrita, colocar-se ao lado da

superstição e da Antiguidade. É verdade que ele nem de longe acredita serem os sonhos

presságios do futuro, desse futuro que desde tempos imemoriais os homens vêm tentando

inutilmente adivinhar por toda sorte de meios proibidos. Entretanto, não é capaz de refutar de todo

a relação entre os sonhos e o futuro, pois o sonho, ao fim da laboriosa tarefa de traduzi-lo,

revelou-se ao autor como sendo a representação da realização de um desejo do sonhador; e quem

poderia negar que os desejos se orientam predominantemente para o futuro?

Acabei de afirmar que os sonhos são desejos realizados. Quem não recear os percalços

de um livro obscuro, e não exigir que um problema complicado lhe seja apresentado como simples

e fácil, para poupar-lhe trabalho às expensas da verdade e da honestidade, poderá encontrar

provas detalhadas dessa tese na obra que mencionei. Enquanto isso, seria desejável que

ignorasse as objeções que sem dúvida surgirão contra a equiparação entre sonhos e realização de

desejos.

Mas estamo-nos adiantando muito. Ainda não se trata de determinar se o significado de

um sonho pode ser sempre interpretado como um desejo realizado, ou se acaso não poderá, com

a mesma freqüência, representar uma expectativa ansiosa, uma intenção, uma reflexão, etc. Ao

contrário, a primeira pergunta que se nos apresenta é se realmente possuem os sonhos algum

significado, e se devem ser considerados como eventos mentais. A resposta da ciência é negativa:

ela explica o sonhar como sendo um processo puramente fisiológico, por trás do qual não há,

conseqüentemente, necessidade de procurar um sentido, um significado ou um propósito. Os

estímulos somáticos, segundo consta, agem sobre o aparelho mental durante o sono, levando à

consciência ora uma, ora outra idéia, desprovidas de qualquer conteúdo mental: os sonhos são

comparáveis a meras contrações, e não a movimentos expressivos da mente.

Nessa controvérsia a respeito do caráter dos sonhos, os escritores imaginativos parecem

tomar o partido dos antigos, da superstição popular e do autor de A Interpretação de Sonhos. Pois

quando um autor faz sonhar os personagens construídos por sua imaginação, segue a experiência

cotidiana de que os pensamentos e os sentimentos das pessoas têm prosseguimento no sonho,

sendo seu único objetivo retratar o estado de espírito de seus heróis através de seus sonhos. E os

escritores criativos são aliados muito valiosos, cujo testemunho deve ser levado em alta conta, pois

costumam conhecer toda uma vasta gama de coisas entre o ceú e a terra com as quais a nossa

filosofia ainda não nos deixou sonhar. Estão bem adiante de nós, gente comum, no conhecimento

da mente, já que se nutrem em fontes que ainda não tornamos acessíveis à ciência. Mas se esse

apoio dos escritores a favor de os sonhos possuírem um significado fosse menos ambíguo! Um

crítico mais severo poderia objetar que os escritores não se manifestam nem contra nem a favor de

os sonhos terem um significado psíquico, contentando-se em mostrar como a mente adormecida

se contrai sob excitações que nela permaneceram ativas como prolongamentos do estado de

vigília.

Mas esse pensamento sensato não vem arrefecer nosso interesse pela maneira como os

escritores fazem uso dos sonhos. Mesmo que essa investigação nada de novo nos ensine sobre a

natureza dos sonhos, talvez permita-nos obter alguma compreensão interna (insight), ainda que

tênue, da natureza da criação literária. Os sonhos verdadeiros já eram considerados como

estruturas imoderadas e arbitrárias - e agora somos confrontados com livres imitações desses

sonhos! Entretanto, há muito menos liberdade e arbitrariedade na vida mental do que tendemos a

admitir, e pode ser até que não exista nenhuma. Aquilo que no mundo externo denominamos de

casualidade pode, como sabemos, ser colocado dentro de leis. Assim também o que chamamos

de arbitrariedade da mente repousa sobre leis das quais só agora começamos vagamente a

suspeitar. Vamos, então, prosseguir!

Podemos adotar dois métodos para essa investigação. Um deles seria examinar um caso

particular, penetrando a fundo nas criações oníricas de uma das obras de um determinado escritor.

O outro consistiria em reunir e cotejar todos os exemplos que pudessem ser encontrados do uso

de sonhos nas obras de diversos autores. O segundo poderia parecer o mais eficaz, e talvez o

único justificável, já que nos liberta imediatamente das dificuldades inerentes à adoção do conceito

artificial de „escritores‟ como classe. Ao ser investigada, essa classe desagregar-se-ia em

escritores individuais de valor extremamente diverso, entre os quais alguns que veneramos como

os mais profundos observadores da mente humana. Apesar disso, essas páginas serão dedicadas

a uma pesquisa do primeiro tipo. Aconteceu que uma pessoa do grupo onde primeiro surgiu essa

idéia lembrou-se de que a última obra de ficção que prendera seu interesse continha vários sonhos

cujas fisionomias familiares como que o haviam encarado e convidado a tentar aplicar-lhes o

método da Interpretação de Sonhos. Ele confessou que o tema da pequena obra e o cenário em

que o mesmo se desenvolvia haviam, sem dúvida, construído o principal fator de seu prazer. A

história situava-se em Pompéia e tratava de um jovem arqueólogo que abdicara do seu interesse

pela vida para dedicar-se aos remanescentes da Antiguidade clássica, sendo por meios tortuosos

e estranhos, embora perfeitamente lógicos, novamente atraído à vida real. O tratamento dado a

esse material genuinamente poético despertara em seu leitor toda uma série de pensamentos afins

e em harmonia com esse material. A obra era o conto Gradiva, de Wilhelm Jensen, descrito por

seu próprio autor como sendo uma „fantasia pompeana‟.

E aqui eu pediria a meus leitores que deixassem de lado este pequeno ensaio e

passassem algum tempo familiarizando-se com Gradiva (publicada pela primeira vez em 1903),

para que aquilo a que eu me referir nas páginas que se seguem possa ser familiar a eles. Para os

que já leram Gradiva, farei um breve resumo de sua história, esperando que suas memórias lhe

restituam todo o encanto que ela perderá com este tratamento.

Um jovem arqueólogo, Norbert Hanold, descobrira num museu de antiguidades em Roma

um relevo que o atraíra muitíssimo, tendo com grande prazer conseguido do mesmo uma

excelente cópia em gesso, a qual colocou em seu gabinete de trabalho numa cidade universitária

da Alemanha para admirá-la com vagar. A escultura representava uma jovem adulta, cujas vestes

esvoaçantes revelavam os pés calçados com leves sandálias, surpreendida ao caminhar. Um dos

pés repousava no solo, enquanto o outro, já flexionado para o próximo passo, apoiava-se somente

na ponta dos dedos, estando a planta e o calcanhar perpendiculares ao solo. Provavelmente foi

esse modo de andar incomum e particularmente gracioso que atraiu a atenção do escultor e que,

tantos séculos depois, seduziu seu admirador arqueólogo.

O interesse que o relevo desperta no herói da história é o fato psicológico básico da

narrativa. Não há uma explicação imediata para esse interesse. „O Dr. Norbert Hanold, lente de

arqueologia, na verdade nada encontrou no relevo que merecesse uma atenção especial do ponto

de vista da sua disciplina científica.‟ (3.) „Ele não pôde explicar a si mesmo o que havia nele que

atraíra sua atenção. Só sabia que fora atraído por algo e que desde aquele instante o efeito

permanecera inalterado.‟ Sua imaginação não cessava de se ocupar com a escultura. Ele a achava

„viva‟ e „atual‟, como se o artista houvesse reproduzido uma rápida visão colhida nas ruas. Chamou

a figura do relevo de „Gradiva‟ - „a jovem que avança‟. Imaginou que ela era, sem dúvida, filha de

uma família nobre, talvez „de um edil patrício que exercia seu cargo a serviço de Ceres,‟ e que ela

estava a caminho do templo da deusa. Contudo, tinha dificuldade em situar sua natureza serena e

tranqüila no clima agitado de uma capital, convencendo-se então de que ela deveria ser

transportada para Pompéia, onde atravessava uma via sobre as curiosas pedras com ressaltos

descobertas nas escavações que, dispostas com intervalos para a passagem das rodas do veículo,

permitiam aos pedestres conservar os pés secos nos dias chuvosos. Percebeu em sua fisionomia

traços gregos, e estava convencido de que a jovem tinha origem helênica. Pouco a pouco Norbert

Hanold colocou todo o seu acervo de conhecimentos arqueológicos a serviço desta e de outras

fantasias relativas ao modelo da escultura.

A essa altura, um problema de caráter aparentemente científico, que pedia uma solução,

veio atormentá-lo. Tratava-se de determinar „se aquela maneira de pisar de Gradiva fora

reproduzida pelo escultor como na vida‟. Ele mesmo achava que não conseguiria imitá-la, e para

comprovar a „realidade‟ desse modo de andar resolveu, „para aclarar a questão, observar a vida‟.

(9.) Essa resolução, entretanto, levou-o a agir de forma pouquíssimo condizente com seus hábitos.

„Até então o sexo feminino não passara para ele de um conceito expresso em mármore ou em

bronze, e nunca prestara a menor atenção às suas representantes contemporâneas‟. O arqueólogo

sempre considerara os deveres sociais como um inevitável aborrecimento. No convívio social

prestava tão pouca atenção ao aspecto e à conversa das jovens, que ao reencontrá-las

acidentalmente passava sem um cumprimento, o que certamente não causava impressão

favorável. Agora, entretanto, a tarefa científica a que se propusera impelia-o na rua, especialmente

nos dias chuvosos, a observar ansiosamente os pés de todas as mulheres que encontrava,

atividade que lhe granjeava olhares ora indignados, ora encorajadores dos objetos de sua

observação, „mas ele não percebia nem uns, nem outros‟. (10.) Essa pesquisa meticulosa levou-o

a concluir que o modo de andar de Gradiva não era encontrável na realidade, o que o encheu de

desânimo e consternação.

Pouco depois ele teve um sonho terrível, no qual se encontrava na antiga Pompéia,

testemunhando a destruição da cidade pela erupção do Vesúvio. „Estava junto ao foro, ao lado do

templo de Júpiter, quando subitamente viu Gradiva a uma pequena distância. Até aquele momento

nem sequer lhe ocorrera a possibilidade de encontrá-la, mas então isso lhe ocorreu como sendo

muito natural, já que era pompeana e residia em sua cidade natal, na mesma época que ele, sem

que disto ele tivesse a menor suspeita.(12.) Receoso da sorte que a aguardava, gritou para a

prevenir, ao que, sem se deter, a jovem voltou-lhe o rosto sereno, mas continuou seu caminho até

alcançar o pórtico do templo. Ali sentou-se em um dos degraus e curvou-se lentamente até

repousar a cabeça no piso, enquanto suas faces cada vez mais pálidas pareciam transformar-se

em mármore. Ele se precipitou em sua direção, mas ao alcançá-la encontrou-a deitada no largo

degrau com uma expressão tranqüila, como se estivesse adormecida, até que a chuva de cinzas

cobriu sua figura.

Quando ele acordou, o surdo arrebentar das ondas enraivecidas e os gritos confusos dos

habitantes de Pompéia, clamando por socorro, ainda pareciam ecoar em seus ouvidos. Mas

mesmo depois que suas faculdades despertadas reconheceram nesses sons o bulício matinal da

cidade, continuou por muito tempo a acreditar na realidade de seu sonho. Quando por fim se

libertou da idéia de que estivera presente à destruição de Pompéia, cerca de dois mil anos antes,

ficou-lhe o que parecia firme convicção de que Gradiva ali vivera e fora soterrada com o resto da

população em 79 D.C. Em conseqüência desse sonho, pela primeira vez em suas fantasias sobre

Gradiva, lamentou-a como alguém que tivesse sido perdido.

Absorto nesses pensamentos, chegou à janela e os gorjeios de um canário numa gaiola,

na janela da casa em frente, despertaram sua atenção. Subitamente um sobressalto sacudiu a

mente do jovem, que ainda parecia imerso em seu sonho. Julgou ter visto na rua uma silhueta

semelhante a Gradiva e ter inclusive reconhecido seu andar característico. Sem refletir, correu à

calçada para a interceptar, mas as risadas e chacotas dos transeuntes, diante de seus trajes

matinais, fizeram-no voltar para casa. De novo no quarto, tornou a reparar no canto do canário, o

qual sugeria uma comparação consigo mesmo. Também ele estava preso numa gaiola, embora lhe

fosse mais fácil a fuga. Ainda sob a influência do sonho, e talvez também do suave ar primaveril,

formou-se nele a determinação de empreender uma viagem à Itália. Logo encontrou um pretexto

científico para a excursão, embora „o impulso para essa viagem tivesse origem num sentimento

que ele não podia nomear‟.(24.)

Vamo-nos deter por um momento nessa viagem, programada por motivos tão fortuitos, e

examinar mais de perto a personalidade e o comportamento de nosso herói, que ainda se nos

apresenta incompreensível e insensato, visto ainda ignorarmos como sua singular loucura se ligará

a sentimentos humanos e assim despertará nossa simpatia. Mas é um dos privilégios do escritor

poder deixar-nos na incerteza! O encanto de sua linguagem e a engenhosidade de suas idéias

recompensam-nos provisoriamente pela confiança que depositamos nele e pela simpatia, ainda

injustificada, que nos dispomos a conceder a seu herói. Veremos que ele foi predestinado pela

tradição da família a dedicar-se à arqueologia e que, quando se achou só e independente, se

absorveu inteiramente nos estudos, afastando-se por completo da vida e seus prazeres. Só o

mármore e o bronze eram para ele verdadeiramente vivos, só esses materiais exprimiam o

propósito e o valor da vida humana. Mas a natureza, talvez com um intuito benevolente, instilara

em seu sangue um corretivo de caráter nada científico: uma imaginação vivíssima que se mostrava

em seus sonhos e também no estado de vigília. Essa divisão entre imaginação e intelecto o

predispunha a tornar-se ou um artista ou um neurótico; ele estava entre aqueles cujo reino não é

deste mundo. Daí resultou interessar-se pelo relevo que representava uma jovem caminhando de

forma peculiar e tecer sobre a mesma suas fantasias, imaginando para ela um nome e uma

origem, e situando-a na cidade de Pompéia, soterrada há mais de mil e oitocentos anos, até que

por fim, após um estranho sonho de ansiedade, sua fantasia da existência e da morte de Gradiva

ampliou-se, passando a constituir um delírio que influenciava suas ações. Tais produtos da

imaginação seriam considerados espantosos e inexplicáveis numa pessoa da vida real; no entanto,

como nosso herói, Norbert Hanold, é uma pessoa fictícia, talvez possamos perguntar timidamente

a seu autor se acaso sua imaginação não terá sido determinada por forças outras que não as da

sua escolha arbitrária.

Deixamos nosso herói no momento em que, aparentemente influenciado pelos trinados de

um canário, se decide, com um propósito que evidentemente não estava claro para ele, a viajar

para a Itália. Descobriremos mais adiante que não tinha nem plano nem roteiro fixos para essa

viagem. A intranqüilidade e a insatisfação internas levaram-no a transferir-se de Roma para

Nápoles, e daí para mais adiante. Viu-se envolvido por uma nuvem de casais em lua-de-mel e

forçado a observar os ternos pares de „Edwins‟ e „Angelinas‟, em transportes amorosos que lhe

pareciam incompreensíveis. Chegou à conclusão de que, de todas as loucuras da humanidade, „o

casamento é a maior e a mais incompreensível, sendo o ápice dessa imbecilidade aquelas

despropositadas viagens de núpcias à Itália.‟ (27.) Em Roma seu sono foi perturbado pela

proximidade de um casal amoroso, e ele fugiu apressadamente para Nápoles, ali deparando,

entretanto, outra série de „Edwins‟ e „Angelinas‟. Inferindo da conversa destes que a maioria não

tinha intenção alguma de aninhar-se entre as ruínas de Pompéia, estando a caminho de Capri,

resolveu fazer uma opção contrária à deles, e poucos dias depois de iniciar a viagem

encontrava-se em Pompéia, „contra todas as suas intenções e expectativas‟.

Mas também ali não encontrou a tranqüilidade procurada. O papel até então

desempenhado pelos casais em lua-de-mel, que haviam irritado e mortificado seu espírito,

transferiu-se para as moscas, consideradas por Hanold como a encarnação de tudo que é

absolutamente nocivo e desnecessário. As duas espécies de espíritos atormentadores fundiram-se

numa unidade: alguns pares de moscas fizeram-no recordar os recém-casados, e ele imaginou

que também elas em sua linguagem interpelam-se docemente por „meu querido Edwin‟ e „minha

adorada Angelina.‟ Por fim concluiu que „seu descontentamento não era resultado apenas de

circunstâncias externas, tendo em parte origem interna.‟ (42.) Sentiu que estava „insatisfeito porque

lhe faltava algo, embora não pudesse precisar o quê.‟

Na manhã seguinte atravessou o „Ingresso„ de Pompéia e, depois de livrar-se do guia,

percorreu a esmo a cidade, sem que - fato estranho - lhe ocorresse à lembrança o sonho recente

em que estivera presente à sua destruição. Mais tarde, à „cálida e sagrada hora do meio-dia, que

para os antigos era a hora dos espíritos, quando os demais visitantes se haviam retirado e as

ruínas jaziam desertas sob a luz do sol ardente, julgou poder transportar-se à vida que havia sido

enterrada, mas não com o auxílio da ciência. „Ela ensina uma concepção fria e arqueológica do

mundo e faz uso de uma linguagem filológica e morta, que em nada contribuem para uma

compreensão da qual participem o espírito, os sentimentos, o coração. Quem desejar atingi-la

deve permanecer aqui, solitário, único ser vivente nessa calma abrasadora do meio-dia, entre as

relíquias do passado, e ver, mas não com os olhos do corpo, e ouvir, mas não com os ouvidos

físicos. E então… os mortos acordarão e Pompéia tornará mais uma vez à vida.‟ (55.)

Enquanto assim ressuscitava o passado com a sua imaginação, viu subitamente a

inconfundível Gradiva do seu relevo sair de uma casa e atravessar a rua com passos lépidos sobre

as pedras de lava, como no sonho em que ela se deitara nos degraus do templo de Apolo. „E com

essa lembrança, pela primeira vez veio à sua consciência que, embora ignorando o impulso interno

que o impelia, se viera à Itália, dirigindo-se a Pompéia sem deter-se em Roma ou em Nápoles, fora

para procurar as pegadas de Gradiva - e “pegadas” no sentido literal, pois com aquele andar

peculiar ela deveria ter deixado impressões inconfundíveis nas cinzas de Pompéia.‟ (58.)

Nesse ponto a tensão em que até agora nos mantém o autor transforma-se por um

momento numa dolorosa perplexidade. Evidentemente não foi só o nosso herói quem perdeu o

equilíbrio. Também ficamos desorientados com o aparecimento de Gradiva, que de uma figura em

mármore já passara a figura imaginária. Acaso seria ela uma alucinação do nosso herói,

perturbado por seus delírios, ou seria um „verdadeiro‟ fantasma, ou ainda uma pessoa viva? Não

se quer dizer com isso que precisemos acreditar em fantasmas. O autor, que rotulou de „fantasia‟

sua obra, ainda não nos informou se pretende deixar-nos dentro do nosso mundo, desse prosaico

mundo governado pelas leis da ciência, ou se pretende transportar-nos a um outro mundo

imaginário, no qual se concede realidade aos espíritos e fantasmas. Estamos preparados para

segui-lo sem hesitações, como nos exemplos de Hamlet e Macbeth, e nesse caso encararíamos

por outro prisma o delírio do imaginativo arqueólogo. Na verdade, ao considerarmos quão

improvável é a existência de uma pessoa real que seja a imagem viva de uma escultura antiga, as

hipóteses reduzem-se a duas: uma alucinação ou um fantasma do meio-dia. Um pequeno detalhe

na narrativa leva-nos a abandonar a primeira possibilidade. Um pequeno lagarto, que sobre uma

pedra desfrutava imóvel do calor do sol, fugiu assustado à aproximação do pé de Gradiva. Não se

tratava, assim, de uma alucinação, mas de alguma coisa externa à mente de nosso sonhador.

Contudo, a realidade de uma rediviva poderia perturbar um lagarto?

Gradiva desapareceu em frente à Casa de Meleagro. Não nos deve surpreender que o

arqueólogo tenha prosseguido em seu delírio de que Pompéia tornara à vida ao meio-dia, hora dos

espíritos, e que Gradiva também tenha tornado à vida e entrado na casa em que vivera antes

daquele fatal dia de agosto de 79 D.C. Sua mente constrói as mais engenhosas especulações

sobre a personalidade do proprietário (de quem a casa provavelmente tomara o nome) e sobre sua

relação com Gradiva, demonstrando que sua ciência estava agora inteiramente a serviço de sua

imaginação. Ele entrou na residência e defrontou-se subitamente, mais uma vez, com a aparição

sentada em alguns degraus baixos que se estendiam entre duas colunas amarelecidas, „tendo

sobre os joelhos um objeto branco cuja natureza ele não conseguiu precisar, talvez uma folha de

papiro…‟ Baseando-se na teoria que formulara sobre a origem da jovem, interpelou-a em grego e

esperou, cheio de ansiedade, pela comprovação de que a aparição possuía o dom da palavra.

Como não obteve resposta, interrogou-a em latim, ao que ela retrucou com um sorriso nos lábios:

„Se desejas falar-me deves empregar o alemão.‟

Que humilhação para nós leitores! Então o autor estava se divertindo à nossa custa,

fazendo-nos participar em pequena escala do delírio do personagem, como se sobre nós também

incidisse o escaldante sol de Pompéia, para que julgássemos com maior benevolência o pobre

coitado sobre quem realmente incidia o sol do meio-dia. Agora, entretanto, já estamos curados da

nossa momentânea confusão, e sabemos que Gradiva é uma jovem alemã de carne e osso,

solução que antes estávamos inclinados a rejeitar como altamente improvável. Tranqüilos,

superiores, vamos pois esperar que o autor nos revele a relação existente entre a jovem e sua

imagem em mármore, e como nosso jovem arqueólogo chegou às fantasias que conduziram até a

personalidade real de Gradiva.

Mas o delírio de nosso herói não se dissipou com a mesma facilidade que o nosso, pois

como nos revela o autor, „embora feliz em sua crença, era-lhe necessário aceitar muitas

circunstâncias misteriosas.‟ (140.). Provavelmente esse delírio tinha em Hanold raízes internas, as

quais são em nós existentes e das quais nada conhecemos. Parece-nos, sem dúvida, que em seu

caso seria necessário um tratamento enérgico para que pudesse ser trazido de volta à realidade.

No momento tudo que estava ao seu alcance era incorporar a seu delírio a maravilhosa

experiência por que acabara de passar. Gradiva, que perecera com o resto da população na

destruição de Pompéia, nada mais podia ser senão um fantasma do meio-dia, o qual voltava à vida

naquele breve instante consagrado aos espíritos. Mas por que, então, ele replicou ao ouvir a

resposta dela em alemão: „Eu já sabia como soaria a tua voz‟? A jovem também estranhou a

réplica, assim como nós, e Hanold confessou nunca tê-la ouvido antes, embora esperasse ouvi-la

em seu sonho, quando lhe falara ao vê-la deitada nos degraus do templo. Implorou-lhe que

repetisse a cena, mas a esse pedido ela se levantou, olhando-o de forma estranha, e em poucos

passos desapareceu entre as colunas do pátio. Pouco antes uma borboleta revoluteara em torno

da jovem, e ele a interpretou como uma mensageira de Hades, a qual veio lembrar à jovem morta

que ela devia retornar, pois a hora concedida aos fantasmas estava para terminar. Hanold ainda

teve tempo de bradar ao vê-la escapar: „Voltarás aqui amanhã ao meio-dia?‟ Entretanto, podemos

permitir-nos interpretações menos fantásticas e ver na fuga da jovem um sinal de que a mesma, já

que desconhecia o sonho dele, julgara imprópria a observação que lhe fora dirigida por Hanold e

se retirara ofendida. Não teria a sua sensibilidade percebido a natureza erótica da pretensão de

Hanold, que este acreditava motivada somente pelo seu sonho?

Após o desaparecimento de Gradiva, nosso herói passou cuidadosamente em revista os

hóspedes reunidos para o almoço no Hotel Diomède e no Hotel Suisse, assegurando-se assim que

nos dois únicos hotéis que conhecia em Pompéia não existia ninguém que se assemelhasse, ainda

que remotamente, com Gradiva. Teria, naturalmente, rejeitado como tola a idéia de que talvez

pudesse realmente encontrar Gradiva ali. Logo o vinho originário das quentes faldas do Vesúvio

contribuiu para intensificar o turbilhão de sentimentos em que ele passou o dia.

No dia seguinte só uma coisa estava fixa: Hanold devia voltar à Casa de Meleagro ao

meio-dia; e, na expectativa desse momento, penetrou irregularmente nas ruínas de Pompéia,

escalando o antigo muro da cidade. Deparou um pé de asfódelo em flor, coberto de pequenas

campânulas brancas, e colheu para si um ramo ao lembrar-se de que se tratava da flor dos

infernos. Enquanto esperava, a arqueologia começou a lhe parecer a ciência mais inútil e

desinteressante do mundo, pois outro interesse concentrava agora suas atenções: o problema do

„que poderia ser a natureza da aparição corpórea de Gradiva, um ser que estava simultaneamente

morto e vivo, embora só ao meio-dia‟. (80.) Também receava não a encontrar naquele dia, pois

talvez sua volta só fosse permitida a longos intervalos; ao vê-la outra vez entre as colunas, julgou

que a aparição não passava de um truque de sua imaginação e exclamou em sua dor: „Ah! Se ao

menos fosses real e viva!‟ Mas dessa vez errara em seu julgamento, pois a aparição dirigiu-se a

ele, perguntando-lhe se a flor era para si, e travou com o desconcertado arqueólogo um longo

colóquio.

O autor passa a explicar a seus leitores, para quem Gradiva já interessava como pessoa

viva, que o olhar de desprazer e repulsa que a jovem lhe dirigira na véspera dera lugar a uma

expressão de curiosidade e profundo interesse. Ela na verdade começou a interrogá-lo,

pedindo-lhe uma explicação para sua observação do dia anterior e querendo saber em que

ocasião ficara ao lado dela enquanto ela se deitava para dormir. Ela assim tomou conhecimento do

sonho em que teria perecido juntamente com toda a população de sua cidade natal, assim como

também do relevo em mármore e da posição do pé que tanto atraíra o arqueólogo. Ela então

acedeu de bom grado a demonstrar seu modo de andar, e isso mostrou que a única diferença da

escultura de Gradiva era que em lugar de sandálias a jovem trazia delicadas botas de cor de areia

de fino couro - o que ela explicava como uma adaptação ao presente. Evidentemente ela

apreendia a essência do delírio do arqueólogo, sem contestá-lo uma única vez. Só por um instante

pareceu que a emoção a fez esquecer seu papel, quando ele, pensando na escultura, declarou

tê-la reconhecido à primeira vista. Como a essa altura do colóquio ela ainda não sabia nada do

relevo, era natural que se equivocasse quanto às palavras de Hanold; mas ela logo se refez, e

somente para nós suas réplicas às vezes parecem dotadas de duplo sentido, como se em vez de

se cingirem ao delírio, também aludissem a fatos reais e presentes - por exemplo, quando ela

lamentou não ter ele conseguido encontrar nas ruas alguém que reproduzisse o modo de andar da

Gradiva: „Que pena! Talvez essa longa viagem a Pompéia não tivesse sido necessária!‟ (89.) Ao

saber que ele chamara de Gradiva à escultura, ela lhe revelou seu verdadeiro nome: „Zoe‟. „Esse

nome assenta-te maravilhosamente, mas soa como uma amarga ironia, já que Zoe significa vida‟.

„Temos de nos curvar ao irremediável‟, retrucou ela, „e há muito que me acostumei a estar morta.‟

Prometendo estar de volta ao mesmo local ao meio-dia do dia seguinte, ela se despediu, tendo

antes pedido o ramo de asfódelo: „As mais afortunadas recebem rosas na primavera, mas essas

flores do esquecimento são mais apropriadas para mim.‟ (90.) Sem dúvida o tom melancólico

condiz com alguém há muito tempo morto e que volta à vida apenas por uns breves momentos.

Agora começamos a compreender e a nutrir alguma esperança. Se a jovem, em cuja figura

Gradiva tornou à vida, aceitou tão plenamente o delírio de Hanold, provavelmente fazia isso para

libertá-lo do mesmo. Não existia outro caminho para tal; contradizê-lo acabaria com todas as

possibilidades. Mesmo o tratamento sério de um caso real de doença desse tipo só poderia ter

seqüência situando-se inicialmente no mesmo plano da estrutura delirante e passando-se então a

investigá-la o mais completamente possível. Se Zoe for a pessoa indicada para esse trabalho, sem

dúvida logo aprenderemos como curar um delírio como o do nosso herói, e também teremos a

satisfação de saber como tais delírios têm início. Seria uma coincidência estranha - mas ainda

assim, nem inédita nem isolada - se o tratamento do delírio coincidisse com a sua investigação, e

se precisamente na dissecação do mesmo viesse à tona a explicação de sua origem. Se assim for,

começaremos certamente a suspeitar que o nosso caso de doença possa acabar numa „vulgar‟

história de amor. Mas não se pode desprezar o poder curativo do amor contra um delírio - e acaso

a paixão do nosso herói pela sua escultura da Gradiva não possui todas as características de uma

paixão amorosa, ainda que paixão amorosa por algo passado e sem vida?

Após o desaparecimento de Gradiva, ouviu-se à distância como que o pio sardônico de um

pássaro sobrevoando as ruínas da cidade. Agora só, o jovem descobriu no chão o objeto branco

que tinha sido deixado por Gradiva; não se tratava de um papiro, mas de um caderno de esboços,

com vários desenhos a lápis de cenas de Pompéia. Inclinamo-nos a considerar esse esquecimento

do caderno como um penhor do retorno da jovem, pois acreditamos que ninguém esquece alguma

coisa sem uma razão secreta ou um motivo oculto.

O resto do dia proporcionou a Hanold uma série de confirmações e descobertas estranhas,

que ele entretanto não conseguiu sintetizar num todo. Na parede do pórtico onde Gradiva

desaparecera, descobriu uma estreita fenda, suficiente no entanto para dar passagem a uma

pessoa muito esbelta. Reconheceu que Zoe-Gradiva não teve necessariamente de sumir nas

entranhas da terra - idéia que agora lhe pareceu tão insensata que se envergonhou de ter

acreditado nela; a jovem pode ter utilizado a fenda para retornar a seu túmulo. Ele julgou perceber

uma tênue sombra desaparecer em frente à Casa de Diomedes, no fim da Via dos Sepulcros.

No mesmo atropelo de sentimentos da véspera, absorto nos mesmos problemas, ele

percorreu a esmo os arredores de Pompéia. Perguntou-se qual seria a natureza corpórea de

Zoe-Gradiva. Acaso se sentiria alguma coisa se se tocasse sua mão? Um estranho ímpeto o

induzia à determinação de tentar tal experiência, ao mesmo tempo que relutava fortemente a

admitir semelhante idéia.

Numa colina ensolarada deparou um cavalheiro idoso que, pelos seus apetrechos, só

podia ser um botânico ou um zoólogo empenhado em alguma busca. O indivíduo virou-se para ele

e disse: „O senhor também está interessado no faraglionensis? Eu não acreditava, mas é provável

que, além das ilhas Faraglioni perto de Capri, também ocorram no continente. O método inventado

pelo nosso colega Eimer é realmente muito bom. Já o utilizei várias vezes com excelentes

resultados. Por favor, fique bem quieto…‟ (96.) Nesse ponto o zoólogo calou-se e colocou um laço

feito de um longo talo de erva em frente a uma fenda nas pedras, por onde espreitava a pequena

cabeça azul iridescente de um lagarto. Hanold deixou o caçador de lagartos com um sentimento

crítico de que era quase inacreditável que pessoas empreendessem longas viagens para chegar a

Pompéia impelidas por propósitos tão estranhos e tolos. É desnecessário dizer que nessa crítica

ele não se incluía, assim como não incluía sua intenção de procurar as pegadas de Gradiva nas

cinzas de Pompéia. A fisionomia do indivíduo idoso que interpelara como a um conhecido era

familiar ao arqueólogo, que talvez já o tivesse visto de relance em um dos dois hotéis.

Continuando seu passeio, chegou por uma estrada lateral a uma casa que ele ainda não

tinha descoberto, e que se mostrou como um terceiro hotel, o „Albergo del Sole‟. O proprietário,

ocioso no momento, aproveitou a oportunidade para exibir seu estabelecimento e sua coleção de

relíquias encontradas nas escavações. Afirmou ter estado presente à descoberta junto ao foro de

um jovel casal de namorados que, ao compreenderem seu inevitável destino, aguardaram a morte

estreitamente abraçados. Hanold já ouvira antes essa história, considerando-a uma invenção

fantasiosa de algum narrador imaginativo; naquele momento, porém, as palavras do hoteleiro

encontraram nele um ouvinte crédulo, cuja receptividade aumentou ao lhe ser mostrado um broche

de metal coberto de pátina verde, o qual teria sido encontrado nas cinzas junto aos restos da

jovem. Sem qualquer dúvida crítica, comprou o broche e, ao deixar o albergo, viu numa janela

aberta um ramo de asfódelo florido, tendo interpretado a visão das flores fúnebres como uma

confirmação da legitimidade de sua nova aquisição.

Mas, com o broche, um novo delírio apoderou-se dele, ou melhor, o antigo recebeu um

novo acréscimo - o que não parece de bom augúrio para o tratamento que fora iniciado. O par

amoroso abraçado fora desenterrado perto do foro, e foi em suas cercanias, no templo de Apolo,

que em seu sonho o jovem vira Gradiva deitar-se para dormir (ver em [1]). Não seria possível que

mais tarde ela se tivesse dirigido para o foro e encontrado alguém, tendo os dois então morrido

juntos? Dessa suspeita surgiu um sentimento atormentador comparável ao ciúme. Refletindo sobre

a improbabilidade da hipótese, tranqüilizou-se parcialmente e recuperou o equilíbrio suficiente para

cear no Hotal Diomède. Ali sua atenção voltou-se para dois hóspedes recém-chegados, um rapaz

e uma moça, julgou serem irmãos devido a certa semelhança física, apesar dos cabelos de cores

diferentes. Foram essas as primeiras pessoas que encontrou em sua viagem a lhe causarem uma

impressão favorável. A moça trazia uma rosa vermelha de Sorrento que lhe despertou uma

recordação imprecisa. Afinal ele se recolheu e teve um sonho singularmente absurdo, embora sem

dúvida provocado pelas experiências do dia. „Sentada em algum lugar no sol, Gradiva

confeccionava um laço de um longo talo de erva para capturar um lagarto, e disse: “Por favor, fique

bem quieto. Nossa colega tem razão, esse método é realmente ótimo e ela já o utilizou com

excelentes resultados.”‟ Ainda adormecido, defendeu-se do sonho com o pensamento crítico de

que o mesmo era totalmente insensato, conseguindo libertar-se dele com a ajuda de um pássaro

invisível que, emitindo um pio sarcástico, chamou e carregou o lagarto em seu bico.

Apesar desse tumulto, ele acordou num estado de espírito mais lúcido e mais equilibrado.

Uma roseira com flores semelhantes às que vira na véspera no peito da nova hóspede o fez

lembrar que, durante o sono, ouvira alguém dizer que era costume oferecerem-se rosas na

primavera. Sem refletir, colheu algumas rosas e o ato exerceu um efeito tranqüilizante em seu

espírito. Sentindo-se liberto de seus sentimentos anti-sociais, dirigiu-se pelo caminho regular para

Pompéia, com a mente entretida em problemas referentes a Gradiva e levando consigo as rosas, o

caderno de esboços e o broche de metal. O antigo delírio começou a apresentar fissuras; ele

conjeturou se acaso não poderia encontrar Gradiva em Pompéia, não somente ao meio-dia, mas

em outros momentos também. Os últimos elementos acrescentados ao delírio, entretanto,

adquiriram maior força, e os ciúmes decorrentes dos mesmos atormentavam-no sob vários

disfarces. Ele quase desejaria que a aparição permanecesse visível somente a seus olhos,

escapando à percepção dos demais; assim, poderia considerá-la sua propriedade exclusiva.

Enquanto caminhava sem destino, aguardando o meio-dia, teve um encontro inesperado. Na Casa

del Fauno deparou num canto um casal que, julgando-se ao abrigo de olhares, trocava abraçado

um demorado beijo. Assombrado, reconheceu no par o simpático casal da noite anterior, cujo

procedimento, entretanto, não coadunava com o de dois irmãos, pois para ele o abraço e o beijo

pareceram muito prolongados. Tratava-se, afinal, de mais um casal amoroso, provavelmente em

lua-de-mel - mais um Edwin e Angelina. Surpreendentemente, dessa vez a visão dos mesmos só

lhe causou satisfação. Reverentemente, como se houvesse interrompido algum secreto ato de

devoção, retirou-se sem ser percebido. Recuperou uma atitude de respeito, há muito perdida.

Ao chegar à Casa de Meleagro, tornou a sentir um medo tão violento de encontrar Gradiva

em companhia de mais alguém, que quando ela apareceu as únicas palavras que lhe ocorreram

foram as seguintes: „Estás sozinha?‟ Foi com dificuldade que a jovem conseguiu fazê-lo perceber

que ele colhera as rosas para ela. Ele lhe confessou seu último delírio: ser ela a dona do broche

verde, ser ela a jovem encontrada nos braços do amante no foro. Com um leve toque irônico, ela

perguntou se acaso ele encontrara o objeto no sol (e ela empregou a palavra [italiana] „sole„), pois

o sol fazia coisas semelhantes. O rapaz confessou estar-se sentindo um pouco tonto, e ela sugeriu

como cura que ele compartilhasse da merenda dela. Ela lhe ofereceu a metade de um pãozinho

que trazia embrulhado num papel de seda e comeu a outra metade com óbvio apetite. Seus lábios

entreabertos deixavam entrever dentes perfeitos, que produziam um leve rangido ao penetrar na

côdea do pão. „Sinto como se já tivéssemos compartilhado certa vez de uma refeição semelhante,

há dois mil anos atrás‟, disse ela, „não te recordas?‟ (118.) Nenhuma resposta ocorreu a ele, mas a

melhora de sua cabeça, decorrente do alimento, e as muitas indicações da presença real da jovem

começaram a produzir seu efeito. A razão fortalecida o fez duvidar do delírio de que Gradiva não

passasse de um fantasma do meio-dia, embora ela mesma tivesse acabado de afirmar que tinha

compartilhado com ele de uma refeição há dois mil anos. Para solucionar tal conflito, ocorreu-lhe

uma experiência que imediatamente levou a cabo com habilidade e renovada coragem. A jovem

descansava sua mão esquerda, de delicados dedos, sobre os joelhos e uma das moscas, cuja

inutilidade e impertinência tanta indignação haviam provocado nele, pousou sobre ela. Num

movimento súbito, a mão de Hanold elevou-se no ar para se abater com vigor sobre o inseto e

sobre a mão de Gradiva.

Essa experiência atrevida teve dois resultados: primeiro, a eufórica convicção de ter, sem

dúvida alguma, tocado uma mão humana, real, viva e quente, mas logo em seguida uma

reprimenda que o fez levantar-se num sobressalto da escadaria onde estava sentado, pois,

passado seu primeiro espanto, Gradiva exclamou: „Perdeste mesmo o juízo, Norbert Hanold!‟

Como todos sabem, o melhor método para acordar um sonâmbulo, ou um indivíduo adormecido, é

chamá-lo pelo seu próprio nome. Contudo, infelizmente, não se terá oportunidade de observar os

efeitos produzidos em Norbert Hanold pelo fato de Gradiva ter proferido seu nome (nome que ele

não revelara a ninguém em Pompéia), pois nesse momento crítico surgiu em cena o simpático

casal amoroso da Casa del Fauno, e a jovem senhora exclamou em tom de grata surpreza: „Zoe!

Estás aqui também? E em lua-de-mel como nós? Nunca me escreveste uma única palavra a

respeito disso!‟ Diante dessa nova prova de que Gradiva era um ser vivo e real, Hanold fugiu.

Zoe-Gradiva também não acolheu com grande prazer essa visita inesperada que a

interrompeu numa tarefa aparentemente importante. Todavia, ela logo se recuperou e respondeu

com naturalidade, explicando a situação à sua amiga - e também a nós -, de forma a livrar-se do

jovem casal. Congratulou-os, e negou estar em lua-de-mel. „O rapaz que acabou de se afastar

abriga, como vós, uma notável aberração. Parece acreditar que existe uma mosca zunindo em sua

cabeça. Bem, talvez todos tenhamos uma espécie de inseto aqui. Como entendo um pouco de

entomologia, posso ser de alguma ajuda nesses casos. Meu pai e eu estamos hospedados no

Sole. Alguma coisa também aconteceu com a cabeça dele, pois teve a brilhante idéia de me trazer,

sob a condição de que me distraísse sozinha em Pompéia e nada exigisse dele. Eu disse a mim

mesma que seria capaz de desencavar algo de interessante aqui, sem a ajuda de ninguém.

Naturalmente eu não contava com a descoberta que fiz… isto é, não contava encontrar-te, Gisa.‟

(124.) E acrescentou que precisava apressar-se, pois o pai a esperava para almoçar no „Sol‟.

Assim afastou-se, após haver-se apresentado a nós como filha do zoólogo caçador de lagartos e

após ter admitido por toda sorte de alusões ambíguas, sua intenção terapêutica e também outros

propósitos secretos.

Entretanto, não tomou a direção do Hotel do Sol, onde o pai a esperava. Pareceu-lhe

também ver uma sombra que, à procura de seu túmulo, desapareceu por trás de um dos

monumentos funerários perto da Casa de Diomedes. Isto a levou a encaminhar-se para a Via dos

Sepulcros, flexionando os pés quase perpendicularmente a cada passo. Hanold fugira para o

mesmo local, confuso e envergonhado, e ali caminhava sem parar, de um lado para outro, no

pórtico do jardim, empenhado em solucionar a parte ainda obscura do seu problema através de um

esforço intelectual. Um fato tornara-se inequivocamente claro para ele: fora insensatez ou loucura

sua acreditar que se estava associando com uma jovem pompeana tornada à vida numa forma

mais ou menos física. Essa clara compreensão interna (insight) de seu delírio era, sem dúvida, um

passo essencial para a volta à razão. Por outro lado, essa mulher viva, com quem outras pessoas

se comunicavam como se fosse fisicamente tão real quanto elas, era Gradiva, e conhecia o nome

dele. Sua razão recém-despertada, porém, não era suficientemente forte para decifrar esse

enigma, nem ele possuía a tranqüilidade emocional necessária para enfrentar tão árdua tarefa,

pois preferia ter sido enterrado há dois mil anos, na Casa de Diomedes, de modo a estar certo de

não ter de se encontrar com Zoe-Gradiva novamente.

Todavia, um violento desejo de tornar a vê-la lutava contra os últimos ímpetos de fuga.

Ao dobrar um dos quatro ângulos da colunata, recuou sobressaltado. Num fragmento da

alvenaria de pedra estava sentada uma das jovens que morrera ali na Casa de Diomedes. Esta,

entretanto, é sua última tentativa, logo repudiada, de refugiar-se no reino do delírio. Não, era

Gradiva, que evidentemente viera para lhe ministrar a última parte do seu tratamento. Ela

interpretou corretamente o primeiro movimento instintivo dele como uma tentativa de deixar o

prédio, e mostrou-lhe que no momento era impossível retirar-se, pois desabara uma chuva

torrencial. Implacável, ela iniciou o interrogatório perguntando-lhe o que tentara fazer com a mosca

pousada em sua mão. Ele não teve mais coragem de usar um pronome particular, mas ousou algo

mais importante: fazer-lhe a pergunta decisiva.

„Como alguém já disse, minha cabeça estava muito confusa, e devo desculpar-me por ter

batido na mão… não entendo como pude agir tão desarrazoadamente… mas também não entendo

como a dona da mão, ao repreender-me por minha… insensatez, pôde declinar meu nome.‟ (134.)

„Vejo que há coisas que teu entendimento ainda não alcançou, Norbert Hanold. Não posso

dizer, porém, que isto me surpreendeu, pois há muito me acostumaste com isto. Eu não precisava

ter vindo a Pompéia para descobri-lo, e poderia tê-lo confirmado bem mais perto, a uns mil

quilômetros daqui.

„Sim, a uns mil quilômetros daqui‟, ela insistiu ao ver que ele ainda não compreendera, „do

outro lado da tua rua, na casa da esquina. Na minha janela há uma gaiola com um canário.‟

Essas últimas palavras, à medida que as ouvia, despertaram nele uma longínqua

lembrança. Devia tratar-se do mesmo pássaro cujo canto pro- vocara nele a idéia de viajar para a

Itália.

„Naquela casa mora meu pai, Richard Bertgang, o catedrático de zoologia.‟

Assim, como Zoe era sua vizinha, conhecia-o de vista, além de saber seu nome.

Sentimo-nos decepcionados; a solução é desinteressante e parece não estar à altura de nossas

expectativas.

Norbert Hanold mostrou que ainda não reconquistara uma total independência de

pensamento ao replicar: „Então vós… vós sois Fräulein Zoe Bertgang? Mas ela tinha um aspecto

tão diferente…

A resposta de Fräulein Bertgang revela-nos que entre os dois já houve outra relação que

não a de simples vizinhos. Alegando antigos direitos, ela reclamou um tratamento mais familiar,

aquele „du„ que ele usava tão naturalmente ao interpelar o fantasma do meio-dia, mas que

repudiara ao dirigir-se a uma jovem de carne e osso: „Se julgais ser esse tratamento cerimonioso

mais apropriado, eu também o adotarei. Mas o outro sai mais espontaneamente dos meus lábios.

Não sei se meu aspecto era diferente em nossa infância, quando costumávamos brincar juntos

amigavelmente ou nos atracar de quando em quando para variar. Mas se vos tivésseis dignado a

olhar-me com atenção pelo menos uma vez nos últimos anos, poderíeis ter percebido que há muito

tempo tenho a aparência de agora.‟

Então já houve entre os dois uma amizade infantil - talvez mesmo um amor infantil - que

justificava o du„. Essa solução poderia parecer-nos tão trivial como a que de início suspeitamos.

Verificamos, entretanto, que desce a um nível muito mais profundo, ao constatarmos que essa

relação infantil explica de forma inesperada alguns pormenores do seu contato de agora.

Considere-se, por exemplo, a pancada na mão de Zoe-Gradiva, explicada de forma muito

convincente por Norbert Hanold pela necessidade de uma resposta experimental para o problema

da realidade física da aparição. Acaso isso não parece ao mesmo tempo demasiadamente com um

renascimento do impulso para brincadeiras violentas, constantes na infância dos dois, segundo as

palavras de Zoe? Considere-se também quando Gradiva indagou ao arqueólogo se este não se

recordava de há dois mil anos ter compartilhado de sua refeição. Essa pergunta incompreensível

logo parece adquirir sentido, se mais uma vez substituirmos o passado histórico por um passado

pessoal - a infância - do qual a jovem retinha lembranças vívidas, mas que parece ter sido

esquecido pelo rapaz. De repente, surge-nos a descoberta de que as fantasias do jovem

arqueólogo sobre Gradiva talvez sejam um eco dessas lembranças infantis esquecidas. Assim

sendo, não se trata de produtos arbitrários de sua imaginação, tendo sido essas fantasias

determinadas, sem que ele soubesse disso, pelo acervo de impressões infantis esquecidas, mas

ainda nele atuantes. Seria possível para nós, ainda que só possamos conjeturar sobre elas,

mostrar em detalhe a origem dessas fantasias. Ele imaginou, por exemplo, que Gradiva devia ser

de origem grega, filha de uma alta personagem, talvez de um sacerdote de Ceres. Isso se ajusta

com perfeição ao seu conhecimento do nome grego da jovem, Zoe, e ao fato de ela pertencer à

família de um professor de zoologia. Mas se as fantasias de Hanold são lembranças modificadas,

podemos esperar encontrar, na informação fornecida por Zoe Bertgang, uma indicação da fonte

dessas fantasias. Vamos ouvir o que ela tem a dizer. Já nos falou sobre a íntima amizade infantil

deles, e agora irá revelar-nos o subseqüente desenvolvimento dessa relação de infância.

„Na verdade, naquela época, até a idade em que começam, não sei por que, a chamar-nos

de “Backfisch”, habituei-me a depender muitíssimo de vossa companhia e acreditava que nunca

encontraria no mundo um amigo melhor. Eu não tinha mãe, nem irmã ou irmão, e para meu pai

uma cobra-de-vidro conservada em álcool era muito mais interessante do que eu. Todos (inclusive

as meninas) precisam de algo para ocupar seus pensamentos e o que quer que esteja ligado a

eles. E isto é o que fostes para mim então. Mas quando vos voltastes inteiramente para a

arqueologia, descobri - deveis perdoar-me, mas na verdade esse tratamento formal parece-me

demasiadamente ridículo e, além disso, não se ajusta ao que quero dizer -, como estava dizendo,

descobri que te tinhas tornado uma pessoa insuportável, que, ao menos no que me dizia respeito,

não possuía olhos para ver nem boca para falar, e nem memória para lembrar-se de nossa

amizade infantil. Sem dúvida foi por isso que me achaste agora com aspecto diferente pois,

quando às vezes te encontrava em reuniões sociais - o que aconteceu ainda uma vez no último

inverno -, tu não me vias e muito menos me dirigias a palavra. Não que houvesse nisso algo de

pessoal, já que tratavas a todas igualmente. Para ti, eu era invisível, e tu, com teu topete de

cabelos louros que tantas vezes arrepiei em nossas brincadeiras, te mostravas tão maçante, tão

seco e mudo como uma cacatua empalhada e ao mesmo tempo tão pomposo como um

arqueoptérix - sim, é esse mesmo o nome daquele monstruoso pássaro antediluviano há pouco

descoberto. Só de uma coisa nunca suspeitei: que entretinhas uma fantasia igualmente afetada,

considerando-me também aqui, em Pompéia, como algo que fora escavado e que retornara à vida.

Quando deparei contigo inesperadamente em minha frente, de início foi-me muito difícil

compreender a incrível trama tecida por tua imaginação em teu cérebro. Depois ela me divertiu e

até me deu prazer, apesar da loucura, pois, como já te disse, eu não suspeitava isso de ti.‟

Assim ela nos mostrou claramente o que os anos haviam feito de sua amizade infantil.

Nelas cresceu até transformar-se em amor, pois uma jovem precisa de um objeto a quem dedicar o

seu coração. Fräulein Zoe, a corporificação da inteligência e da clareza, torna sua mente

transparente para nós. Se é regra geral que toda jovem normalmente constituída dirija

primeiramente sua afeição ao pai, Zoe, cuja família se resumia neste, estava especialmente

destinada a fazê-lo. Mas seu pai, totalmente absorvido em seus interesses científicos, não lhe dava

a mínima atenção. Assim, ela foi obrigada a se dirigir para outra pessoa, ligando-se particularmente

ao seu jovem companheiro de brinquedos. Quando ele também deixou de fazer caso dela, seu

amor não sofreu nenhuma diminuição; ao contrário, intensificou-se, pois ele se tornara semelhante

ao pai, absorvendo-se como ele na ciência e afastando-se da vida e de Zoe. Dessa forma foi

possível para ela manter-se fiel mesmo na infidelidade - reencontrar o pai no amado, abrangendo

os dois na mesma emoção ou, como podemos dizer, identificando-os em seu sentimento. Mas que

justificativa temos para essa pequena análise psicológica que pode parecer arbitrária? O próprio

autor a oferece para nós num único, mas altamente significativo, pormenor. Quando Zoe

descreveu a transformação, que tanto a perturbou, de seu antigo companheiro de folguedos,

injuriou-o comparando-o a um arqueptérix, o monstro alado antediluviano que pertence à

arqueologia da zoologia. Desse modo ela encontrou uma única expressão concreta da identidade

das duas figuras. Sua queixa aplica-se, com a mesma palavra, tanto ao homem que ela amava

quanto a seu pai. O arqueoptérix é, podemos dizer, uma idéia conciliatória ou intermediária, na

qual seu pensamento sobre a insensatez do homem amado coincidiu com o pensamento análogo

sobre seu pai.

Já com o rapaz, as coisas tomaram um rumo diferente. Absorto na arqueologia, só se

interessava por mulheres de bronze e de mármore. Nele a amizade de infância, em vez de

intensificar-se transformando-se em paixão, dissolveu-se, caindo em tão profundo esquecimento

que, ao encontrar socialmente a antiga companheira de brinquedos, não a reconheceu. É verdade

que, se examinarmos os fatos com mais cuidado, iremos perguntar-nos se „esquecimento‟ será a

descrição psicológica correta do destino dessas lembranças em nosso jovem arqueólogo. Existe

um gênero de esquecimento que se caracteriza pela dificuldade que a convocação externa mais

forte tem em despertar a memória, como se alguma resistência interna lutasse contra seu

ressurgimento. Em psicopatologia essa espécie de esquecimento recebeu o nome de „repressão‟,

da qual o caso exposto pelo autor parece ser um exemplo. Ora, não sabemos se o esquecimento

de uma impressão está sempre vinculado à dissolução de seu traço de memória na mente, mas

podemos certamente afirmar que a „repressão‟ não coincide com a dissolução ou a extinção da

memória. É verdade que o reprimido, via de regra, não pode emergir da memória sem maiores

dificuldades, mas conserva uma capacidade de ação efetiva e, sob a influência de algum evento

externo, pode vir a ter conseqüências psíquicas que podem ser consideradas como produtos da

modificação da lembrança esquecida e como derivados dela, e que, se não forem vistas por esse

prisma, permanecerão incompreensíveis. Parece-nos já termos reconhecido nas fantasias de

Norbert Hanold sobre Gradiva derivados de lembranças reprimidas de sua amizade infantil com

Zoe Bertgang. Tal retorno do que foi reprimido deve ser esperado com particular

regularidadequando os sentimentos eróticos de uma pessoa estão ligados às impressões

reprimidas - quando sua vida erótica sofreu as investidas da repressão. Esses casos comprovam o

velho ditado latino: „Naturam expelles furca, tamem usque recurret,‟ embora este originalmente se

referisse somente à expulsão por influências externas, e não por conflitos internos. No entanto,

esse provérbio não nos explica tudo; só nos informa sobre o fato do retorno da parte da natureza

que foi reprimida, mas não descreve a maneira altamente singular desse retorno, que se realiza

através do que classificaríamos de malévola traição. É precisamente o que foi escolhido como

instrumento da repressão - como o „furca„ do provérbio latino - que vai constituir o veículo do

retorno: oculto na força repressora, o que é reprimido revelar-se-á por fim vencedor. Esse fato,

pouco tido em conta e que merece um exame atento, é ilustrado - de forma mais impressionante

do que o seria por muitos outros exemplos - por uma conhecida água-forte de Félicien Rops; e é

ilustrado com o caso típico de repressão na vida dos santos e penitentes. Um monge ascético,

fugindo certamente das tentações do mundo, volta-se para a imagem do Salvador na cruz, mas

esta vai submergindo nas sombras, e em seu lugar ergue-se, radiante, a imagem de uma

voluptosa mulher nua, também crucificada. Outros artistas, com menor compreensão interna

(insight) psicológica, mostram, em alegorias da tentação semelhantes a essa, o Pecado

erguendo-se, insolente e triunfante, em diversas atitudes junto à cruz do Salvador. Só Rops,

porém, fê-lo ocupar o lugar do Salvador na Cruz. Ele parece ter sabido que, quando o que foi

reprimido retorna, emerge da própria força repressora.

Vale a pena fazer uma pausa para observar em casos patológicos como a mente humana

se torna sensível, em estados de repressão, a qualquer aproximação do que foi reprimido, e como

até mesmo leves semelhanças bastam para que por trás da força repressora, e por meio da

mesma, o reprimido venha a emergir. Tive entre meus pacientes um jovem - pouco mais que um

menino - que, após involuntariamente tomar conhecimento dos processos sexuais, passara a fugir

de todos os desejos eróticos que nele surgiam. Para esse propósito utilizava vários métodos de

repressão, intensificando sua dedicação aos estudos, tornando-se exageradamente dependente da

mãe e adotando em geral um comportamento infantil. Não vou expor aqui a forma como sua

sexualidade reprimida voltou à tona, justamente em sua relação com a mãe, mas descreverei a

circunstância invulgar e original como uma de suas proteções ruiu numa ocasião que jamais

julgaríamos suficiente para tal. A matemática goza da reputação de desviar as atenções da

sexualidade. Jean-Jacques Rousseau recebeu de uma dama a quem havia desagradado o

seguinte conselho: „Lascia le donne e studia la matematica!‟ Também o nosso fugitivo atirou-se

com avidez ao estudo da matemática e da geometria que lhe cabiam no currículo escolar, até que

um dia suas faculdades de conhecimento paralisaram-se diante de alguns problemas

aparentemente inocentes. Foi possível reconstituir o enunciado de dois desses problemas: „Dois

corpos chocam-se, um com a velocidade de…etc.‟ e „num cilindro de diâmetro m, inscrever um

cone…etc.‟ Outros certamente não teriam visto nesses problemas alusões evidentes a eventos

sexuais, mas o jovem sentiu que a matemática também o traíra, e afastou-se dela também.

Se Norbert Hanold fosse alguém na vida real que dessa forma e com o auxílio da

arqueologia houvesse fugido do amor e de uma amizade infantil, seria lógico e dentro das normas

que o que nele revivesse as lembranças esquecidas da menina amada em sua infância fosse

justamente uma escultura antiga. Seria para ele um merecido destino apaixonar-se pela imagem

em mármore de Gradiva, por trás da qual, devido a uma semelhança inexplicada, a esquecida Zoe

de carne e osso fizesse sua influência notada.

A própria Fräulein Zoe parece ter compartilhado do nosso enfoque do delírio do jovem

arqueólogo, pois a satisfação que exprimiu na parte final de sua „franca, detalhada e instrutiva

reprimenda‟ dificilmente poderia ter base em outra coisa que não no conhecimento de que ela

própria, desde o início, estivera relacionada com o interesse dele por Gradiva. Fora precisamente

isto que ela não esperara dele, mas que lograra perceber através dos disfarces delirantes. O

tratamento psíquico que ela administrara, entretanto, já exercera nele seus efeitos benéficos, e

Hanold sentia-se libertado, pois seu delírio foi substituído por aquilo de que não constituíra senão

uma cópia inadequada e distorcida. Também não hesitou mais em lembrar-se da jovem e nela

reconhecer a alegre, bondosa e inteligente companheira de folguedos, que em nada mudara nos

pontos essenciais. Mas fez uma descoberta muito estranha…

„Tu te referes‟, disse a jovem, „ao fato de que alguém tenha de morrer para chegar a estar

vivo; mas sem dúvida isso tem de ser assim mesmo para os arqueólogos.‟ (141.) Evidentemente

ela ainda não o perdoara pelo caminho tortuoso percorrido por ele, através da arqueologia, para de

sua amizade infantil chegar à relação que há pouco haviam iniciado.

„Não, refiro-me ao teu nome… “Bertgang” tem o mesmo significado que “Gradiva”, e quer

dizer “alguém que brilha ao avançar”.‟

Não estávamos preparados para isso. Nosso herói começou a despojar-se de sua

humildade e a desempenhar um papel ativo. É evidente que estava completamente curado de seu

delírio e já o superara, tendo provado isso ao romper os últimos fios da trama do delírio. É também

exatamente dessa forma que se comportam os pacientes quando aliviados da compulsão dos seus

pensamentos delirantes pela revelação do material reprimido oculto por estes. Ao compreendê-los,

eles próprios revelam nas idéias que subitamente lhe ocorrem as soluções dos enigmas finais e

mais importantes de sua estranha condição. Já adivinháramos que a origem grega da imaginária

Gradiva era um resultado obscuro do nome grego „Zoe‟, mas não ousáramos examinar o nome

„Gradiva‟, deixando-o passar como uma criação arbitrária da imaginação de Norbert Hanold. Mas

eis que esse nome agora se revela como sendo derivado - sendo na verdade uma tradução - do

sobrenome reprimido da menina que ele amara na infância e aparentemente esquecera.

A investigação da origem do delírio e sua solução estão agora completas. No que em

seguida narra, o autor sem dúvida tem em mira um final harmonioso para sua história.

Tranqüilizamo-nos quanto ao futuro ao ler que o rapaz, que até aqui fora obrigado a desempenhar

o lamentável papel de um indivíduo necessitado de tratamento urgente, deu mais alguns passos no

caminho do restabelecimento e conseguiu despertar em Zoe alguns dos sentimentos que

anteriormente o fizeram sofrer. Foi assim que a fez sentir ciúmes, mencionando a simpática jovem

senhora que há pouco interrompera seu tête-à-tête na Casa de Meleagro, e confessando que a

mesma fora a primeira mulher a despertar-lhe sentimentos favoráveis. A essas palavras, Zoe

mostrou-se disposta a separar-se friamente dele, observando que já havia sido recuperada a razão

- inclusive por ela própria; ele poderia procurar Gisa Hartleben (ou como quer que ela agora se

chamasse) e oferecer seus préstimos científicos para a visita dela em Pompéia; quanto a ela, Zoe,

voltaria ao Albergo del Sole, onde seu pai a esperava para almoçar; talvez viessem a se encontrar

novamente em alguma festa na Alemanha ou na lua. Contudo, pretextando mais uma vez afastar

uma mosca, o arqueólogo beijou-a na face e em seguida nos lábios, passando à agressividade que

é o inevitável dever masculino na prática do amor. Uma única vez uma nova sombra pareceu

ameaçar a felicidade do par, quando Zoe declarou precisar então realmente reunir-se ao pai,

senão ele morreria de fome no Sole. „Teu pai?… O que acontecerá?…‟ (147.) Mas a inteligente

jovem desfez rapidamente as preocupações de Hanold. „Provavelmente nada. Não sou um

exemplar indispensável de sua coleção zoológica. Se o fosse, talvez não tivesse tão intensamente

entregue a ti meu coração.‟ No entanto, se acaso o pai inesperadamente encarasse o assunto de

outra forma, haveria um expediente seguro. Hanold só precisaria tomar um barco para Capri, ali

capturar um Lacerta faraglionensis (ele poderia praticar a técnica no dedo mindinho dela), soltar o

animalzinho em Pompéia e tornar a caçá-lo sob as vistas do zoólogo, deixando-o escolher entre

um faraglionensis do continente e sua filha. É fácil ver que nesse ardil se mesclavam a zombaria

com a amargura, e que por meio dele a jovem como que advertia o noivo a não imitar muito

fielmente o modelo pelo qual ela o escolhera. Nesse ponto Norbert Hanold torna a nos tranqüilizar,

demonstrando por vários indícios, aparentemente triviais, a grande transformação nele ocorrida.

Propôs à sua Zoe uma lua-de-mel na Itália, e em Pompéia, como se todos aqueles pares de ternos

Edwins e Angelinas nunca houvessem provocado a sua indignação. Sua memória não guardara

quaisquer sentimentos contra aqueles felizes casais que tanto e tão desnecessariamente se

haviam afastado de seus lares alemães. O autor tem razão em apresentar tal perda de memória

como o melhor e mais fidedigno sinal de uma mudança de atitude. À sugestão do „seu

companheiro de infância, também de certa maneira desenterrado das ruínas‟ (150), Zoe respondeu

que ainda não se sentia suficientemente viva para tomar tal decisão geográfica.

O delírio foi, portanto, sobrepujado por uma bela realidade, mas, antes que os dois

amorosos deixassem Pompéia, iriam prestar-lhe uma última homenagem. Ao alcançarem a Porta

de Herculano, onde no começo da Via Consolare uma fieira de antigas pedras com ressaltos cruza

a estrada, Norbert Hanold parou e pediu à jovem que caminhasse à sua frente. Percebendo sua

intenção, „Zoe Bertgang, Gradiva rediviva, ergueu um pouco a saia com sua mão esquerda e

avançou, enquanto ele a observava com um olhar sonhador. Com passos ágeis e silenciosos ela

atravessou a rua sobre as pedras, iluminada pelo sol de Pompéia.‟ Como o triunfo do amor, o que

era belo e precioso no delírio encontrou reconhecimento como tal.

Em sua última metáfora - „o amigo de infância desenterrado das ruínas‟ - o autor nos

forneceu a chave do simbolismo utilizado pelo delírio de nosso herói para disfarçar as lembranças

deprimidas. Na verdade não existe melhor analogia para a repressão - que preserva e torna algo

inacessível na mente - do que um sepultamento como o que vitimou Pompéia, e do qual a cidade

só pôde ressurgir pelo trabalho das pás. Por essa razão o jovem arqueólogo, em sua fantasia, foi

obrigado a deslocar para Pompéia o modelo do relevo que lhe recordava o objeto de seu amor ao

estender-se sobre essa valiosa similaridade que sua delicada sensibilidade percebera entre um

determinado processo mental do indivíduo e um evento histórico isolado da história da

humanidade.

Mas afinal nosso propósito primitivo era somente investigar, com a ajuda de certos

métodos analíticos, dois ou três sonhos que aparecem aqui e ali no texto de Gradiva. Como foi,

então, que passamos a dissecar toda a história e a examinar os processos mentais dos dois

personagens principais? Na verdade todo esse trabalho não foi inútil; tratava-se de trabalho

preliminar essencial. Assim também, ao tentarmos compreender os sonhos reais de uma pessoa

real, temos de examinar atentamente seu caráter e sua história, investigando não só as

experiências que antecederam de pouco seu sonho, mas também as de seu passado remoto.

Acredito até que ainda não estamos prontos para nos dedicarmos à nossa tarefa original, sendo

necessário que examinemos mais demoradamente a história a fim de efetuar outros trabalhos

preliminares.

Meus leitores sem dúvida terão ficado surpresos ao notar que até aqui tratei todas as

atividades e manifestações mentais de Norbert Hanold e Zoe Bertgang como se os dois fossem

pessoas reais e não criações de um autor, e como se a mente do autor não fosse um instrumento

capaz de deformar ou obscurecer, mas um instrumento totalmente límpido. Meu procedimento

deve parecer-lhes ainda mais incompreensível se considerarem que o autor classificou sua história

de „fantasia‟, negando-lhe qualquer semelhança com a realidade. Entretanto, descobrimos que

todas as suas descrições copiam tão fielmente a realidade, que não nos oporíamos à

apresentação de Gradiva como um estudo psiquiátrico. Só em duas ocasiões o autor fez uso do

seu indiscutível direito de formular proposições que não parecem apoiar-se nas leis da realidade. A

primeira é quando faz o jovem arqueólogo deparar um autêntico relevo da Antiguidade clássica de

tal forma semelhante a uma pessoa viva de época muito posterior, não só numa singular postura

do pé ao andar, mas também em todos os traços fisionômicos e formas corporais, que o jovem é

capaz de tomar a aparência física dessa pessoa como sendo a própria escultura tornada à vida. E

a segunda ocasião é quando faz com que o rapaz encontre a jovem viva precisamente em

Pompéia, onde sua imaginação colocara a mulher morta, ao passo que sua viagem para a Itália na

verdade o afastara da primeira, a qual ele acabara de ver na rua da cidade onde morava.

Entretanto, essa segunda disposição do autor não se afasta demasiadamente da possibilidade

real, apenas faz intervir o acaso, que inegavelmente desempenha seu papel em muitas histórias

humanas; além disso, recorre a ele acertadamente, pois aqui o acaso demonstra a fatídica e

comprovada verdade de que a fuga é o instrumento mais seguro para se cair prisioneiro daquilo

que se deseja evitar. A primeira proposição, o ponto de partida em que se apóia toda a história, ou

seja, a grande semelhança entre a escultura e a jovem viva ( que uma escolha mais moderada

poderia ter limitado à singular flexão do pé ao andar), parece-nos mais fantasiosa, sendo uma

decisão totalmente arbitrária do autor. Aqui sentimo-nos tentados a permitir que nossa própria

fantasia estabeleça um elo com a realidade. O nome „Bertgang‟ talvez seja um indício de que em

tempos idos as mulheres dessa família distinguiam-se pelo singular e gracioso andar, e podemos

supor que os Bertgangs germânicos descendessem de uma família romana a que pertencera a

mulher que inspirara um escultor a perpetuar na escultura a peculiaridade do caminhar dela.

Todavia, já que as variações da forma humana não são independentes umas das outras, e já que

mesmo nos tempos modernos reaparecem com freqüência tipos antigos (como podemos

comprovar pelo exame de obras de arte), não seria totalmente impossível que uma Betgang da

atualidade pudesse reproduzir a forma de uma antiga ascendente em todas as outras

características de sua estrutura corpórea. Mas em vez de tecer tais conjecturas, seria sem dúvida

mais sensato perguntar ao próprio autor de que fontes se originou essa parte de sua criação;

talvez tivéssemos então uma boa oportunidade de mostrar mais uma vez como muitas coisas

aparentemente arbitrárias na verdade obedecem a leis. No entanto, como não temos acesso a

essas fontes ocultas na mente do autor, concedamos-lhe seu irrestrito direito de basear uma

narrativa totalmente verossímil numa premissa improvável - um direito de que Shakespeare, por

exemplo, também fez uso no Rei Lear.

Com exceção disso, reafirmamos que o autor apresentou-nos um estudo psiquiátrico

perfeitamente correto, pelo qual podemos medir nossa compreensão dos trabalhos da mente - um

caso clínico e a história de uma cura que parecem concebidos para ressaltar determinadas teorias

fundamentais da psicologia médica. Já é bastante singular que o autor possa ter realizado tal

trabalho, mas o que diríamos se, ao ser interrogado, ele negasse ter tido tal intenção? É muito fácil

estabelecer analogias e atribuir sentidos às coisas, mas acaso não teremos emprestado a essa

encantadora e poética história um significado secreto bastante distanciado das intenções do autor?

É possível. Voltaremos à questão mais tarde. Por hora, entretanto, limitar-nos-emos a ressalvar

que tentamos evitar qualquer interpretação tendenciosa, expondo quase toda a história nas

próprias palavras do autor. Quem cotejar nossa síntese com o verdadeiro texto de Gradiva terá de

corroborar nossa asserção.

Talvez, na opinião da maioria das pessoas, estejamos prestando um desserviço ao autor,

ao declarar que sua obra é um estudo psiquiátrico. Dizem que um autor deveria evitar qualquer

contato com a psiquiatria e deixar aos médicos a descrição de estados mentais patológicos. A

verdade, porém, é que o escritor verdadeiramente criativo jamais obedece a essa injunção. A

descrição da mente humana é, na realidade, seu campo mais legítimo; desde tempos imemoriais

ele tem sido um precursor da ciência e, portanto, também da psicologia científica. Mas o limite

entre o que se descreve como estado mental normal e como patológico é tão convencional e tão

variável, que é provável que cada um de nós o transponha muitas vezes no decurso de um dia. Por

outro lado, a psiquiatria estaria cometendo um erro se tentasse restringir-se permanentemente ao

estudo das graves e sombrias doenças decorrentes de severos danos sofridos pelo delicado

aparelho da mente. Desvios da saúde mais leves e suscetíveis de correção, que hoje podemos

atribuir apenas a perturbações na interação das forças mentais, atraem igualmente seu interesse.

Na verdade, só através deles é que pode chegar à compreensão dos estados normais, assim

como dos fenômenos das doenças graves. Conseqüentemente, o escritor criativo não pode

esquivar-se do psiquiatra, nem o psiquiatra esquivar-se do escritor criativo, e o tratamento poético

de um tema psiquiátrico pode revelar-se correto, sem qualquer sacrifício de sua beleza.

É o que ocorre com essa imaginativa exposição da história de um caso e do seu

tratamento: está realmente isenta de erros. Agora que terminamos de contar a história e

satisfizemos nossa curiosidade, podemos examiná-la com mais atenção; vamos reproduzi-la

fazendo uso da terminologia técnica da nossa ciência, trabalho em que não nos sentiremos

desconcertados diante da necessidade de repetir o que foi dito.

O autor refere-se com freqüência ao estado de Norbert Hanold como „delírio‟, e não temos

motivos para refutar essa designação. Podemos apontar duas características principais de um

„delírio‟ que, se não o descrevem de forma exaustiva, o distinguem de outras perturbações. Em

primeiro lugar, o delírio pertence ao grupo de estados patológicos que não produzem efeito direto

sobre o corpo, mas que se manifestam apenas por indicações mentais. Em segundo lugar, é

caracterizado pelo fato de que nele as „fantasias‟ ganharam a primazia, transformando-se em

crença e passando a influenciar as ações. Se lembrarmos a viagem de Hanold a Pompéia com o

fito de procurar as pegadas de Gradiva nas cinzas, teremos um ótimo exemplo de uma ação sob a

influência de um delírio. Um psiquiatra talvez incluísse o delírio de Norbert Hanold no vasto grupo

da „paranóia‟, classificando-o provavelmente como „erotomania fetichista‟, já que seu traço mais

saliente era uma paixão por uma escultura, e aos olhos desse psiquiatra, que tudo tende a ver pelo

prisma mais grosseiro, o interesse do jovem arqueólogo por pés e posições de pés inevitavelmente

passaria por „fetichismo‟. Contudo, todos os sistemas de nomenclatura ou classificação dos

diversos tipos de delírio de acordo com seu tema principal são de certa forma precários e estéreis.

Além disso, como nosso herói era uma pessoa capaz de desenvolver um delírio baseado

em uma preferência tão singular, um psiquiatra rigoroso o qualificaria, sem hesitar, de dégénéré, e

procuraria a hereditariedade que o conduzira inevitavelmente a esse destino. Mas nesse ponto, e

com razão, o autor não segue o psiquiatra, pois deseja aproximar-nos do seu herói para facilitar a

„empatia‟; o diagnóstico de dégénéré, certo ou errado, colocaria uma barreira entre o arqueólogo e

nós, leitores, que somos pessoas normais, o tipo padrão da humanidade. As precondições

hereditárias e constitucionais do estado também não ocupam muito o autor, que por outro lado se

aprofunda na composição mental pessoal que foi capaz de dar origem a tal delírio.

Numa questão muito importante, Norbert Hanold comportava-se de forma bastante diversa

de um ser humano comum: não se interessava por mulheres vivas. A ciência de que era servidor

apoderara-se desse interesse e deslocara-o para as mulheres de mármore ou de bronze. Esse fato

não deve ser encarado como um pormenor trivial; ao contrário, era a precondição básica dos

eventos a serem descritos, pois certo dia uma determinada escultura desse tipo atraiu todo o

interesse que normalmente só é dedicado a uma mulher viva, estabelecendo-se assim o delírio. A

seguir vimos a maneira como esse delírio foi curado através de uma feliz cadeia de eventos e

como o interesse do nosso herói foi deslocado das mulheres de mármore para uma mulher viva. O

autor não nos deixa seguir as influências que levaram nosso herói a afastar-se das mulheres;

apenas nos informa que a atitude dele não era explicada por sua disposição inata, a qual, muito ao

contrário, incluía uma boa parcela de necessidades imaginativas (e, por que não dizer, eróticas).

Também vimos, mais tarde, que na infância ele não evitou as outras crianças, mantendo amizade

com uma menina, sua inseparável companheira, repartindo com ela suas merendas e deixando-a

arrepiar seus cabelos no decurso de brincadeiras violentas. É em ligações como essas, onde o

afeto se combina à agressividade, que o erotismo imaturo da infância se expressa; só mais tarde

emergem suas conseqüências, mas então de forma irresistível; na infância, geralmente só os

médicos e os escritores criativos o reconhecem como erotismo. Nosso escritor mostra-nos

claramente que também é da mesma opinião, fazendo com que seu herói desenvolva subitamente

um vivíssimo interesse pelos pés e pelo andar das mulheres. Esse interesse lhe traz forçosamente

uma má reputação de ser um fetichista de pés. Contudo, nós não podemos evitar de ligar esse

interesse à lembrança de sua companheira de infância, pois sem dúvida já então a moça andava

daquela forma singular e graciosa, apoiando-se nos dedos e flexionando a planta dos pés quase

perpendicularmente ao solo. Foi para retratar um andar semelhante que a escultura antiga adquiriu

uma tão grande importância para Norbert Hanold. Queremos acrescentar, aliás, que na derivação

desse singular fenômeno de fetichismo o autor está em completo acordo com a ciência. Na

verdade, desde Binet [1888] temos tentado atribuir o fetichismo às impressões eróticas da infância.

O estado de se manter permanentemente afastado das mulheres produz uma

susceptibilidade pessoal ou, como nos acostumamos a dizer, uma „disposição‟ à formação de um

delírio. Esse distúrbio mental começa a se desenvolver no momento em que uma impressão casual

desperta experiências infantis esquecidas e que têm, ainda que levemente, traços de conotação

erótica. Entretanto, „desperta‟ não é exatamente a descrição adequada, se levarmos em conta o

que se segue. Devemos repetir o acurado relato do autor em termos técnicos psicológicos. Ao

encontrar o relevo, não se recordou Norbert Hanold de já ter visto a amiga de infância caminhar de

forma análoga; não teve lembrança alguma do fato, mas todos os efeitos produzidos pela escultura

tiveram origem nessa conexão com uma impressão de sua infância. Ao ser despertada, essa

impressão infantil tornou-se ativa, começando a produzir efeitos, mas não chegou à consciência,

isto é, permaneceu „inconsciente‟, para usar um termo que hoje já é imprescindível na

psicopatologia. Desejaríamos que esse inconsciente não fosse objeto de nenhuma discussão de

filósofos ou naturalistas, que com freqüência só possuem importância etimológica. Por hora, não

dispomos de uma denominação melhor para os processos psíquicos que, embora ativos, não

atingem a consciência da pessoa, e isso é tudo o que queremos dizer com nossa „inconsciência‟.

Quando alguns pensadores tentam refutar a existência de um inconsciente desse tipo, taxando-o

de insensatez, só podemos supor que nunca se ocuparam de fenômenos mentais desse gênero;

que estão sob a influência da experiência geral de que tudo o que é mental e se torna intenso e

ativo, torna-se simultaneamente consciente; que eles ainda têm de aprender (o que nosso autor

sabe muito bem) que existem sem dúvida processos mentais que, apesar de serem intensos e de

produzirem efeitos, ainda assim permanecem afastados da consciência.

Já dissemos há pouco (ver a partir de [1]) que em Norbert Hanold as lembranças de suas

relações infantis com Zoe estavam em estados de „repressão‟; e aqui as chamamos de lembranças

„inconscientes‟. Agora precisamos dar mais atenção à relação entre esses dois termos técnicos,

que parecem coincidir em seu significado. Na verdade não é difícil esclarecer a questão. O

conceito de „inconsciente‟ é o mais amplo, sendo o de „reprimido‟ o mais restrito. Tudo que é

reprimido é inconsciente, mas não podemos afirmar que tudo que é inconsciente é reprimido. Se

ao ver o relevo, Hanold se houvesse recordado do modo de andar de Zoe, o que anteriormente

fora uma lembrança inconsciente se teria tornado simultaneamente ativo e consciente, e isso teria

demonstrado que essa lembrança não fora anteriormente reprimida. „Inconsciente‟ é um termo

puramente descritivo, indefinido em alguns aspectos e, poderíamos dizer, estático. „Reprimido‟ é

uma expressão dinâmica, que leva em conta a interação de forças mentais; implica a presença de

uma força que procura provocar toda uma série de efeitos psíquicos, inclusive o de tornar-se

consciente, e a essa força opõe-se uma outra força contrária, capaz de obstruir alguns desses

efeitos psíquicos, inclusive também aquele de tornar-se consciente. A característica de algo

reprimido é justamente a de não conseguir chegar à consciência, apesar de sua intensidade.

Portanto, no caso de Hanold, a partir do momento em que surge o relevo, passamos a nos ocupar

com alguma coisa inconsciente que está reprimida ou, mais simplesmente, com alguma coisa

reprimida.

As lembranças de Norbert Hanold de sua ligação infantil com a menina de andar gracioso

estavam reprimidas, mas esta ainda não é a visão correta da situação psicológica. Enquanto

lidarmos apenas com lembranças e idéias, permaneceremos na superfície. Só os sentimentos têm

valor na vida mental. Nenhuma força mental é significativa se não possuir a característica de

despertar sentimentos. As idéias só são reprimidas porque estão associadas à liberação de

sentimentos que devem ser evitados. Seria mais correto dizer que a repressão age sobre

sentimentos, mas só nos apercebemos destes através de sua associação com as idéias. Assim, os

sentimentos eróticos de Norbert Hanold é que haviam sido reprimidos, e como o seu erotismo não

tinha e não tivera na infância outro objeto a não ser Zoe Bertgang, suas lembranças dela foram

esquecidas. O relevo antigo despertou seu erotismo adormecido, tornando ativas suas lembranças

da infância. Devido a uma resistência presente nele contra esse erotismo, só enquanto

inconscientes essas lembranças podiam tornar-se operativas. O que nele então se desenvolveu foi

uma luta entre o poder do erotismo e o poder das forças que o reprimiam, luta esta que se

manifestava como delírio.

Nosso autor omitiu as razões que levaram à repressão da vida erótica de seu herói, pois a

dedicação de Hanold à ciência não passava certamente de um instrumento utilizado pela

repressão. Nesse ponto um médico teria de investigar mais profundamente, mas talvez sem

nenhuma garantia de sucesso. Contudo, como já assinalamos com admiração, com muito acerto o

autor mostrou-nos como o erotismo reprimido emerge precisamente do campo dos instrumentos

que serviram à sua repressão. Apontou-se com justiça ter sido uma antiguidade, a escultura

feminina em mármore, que arrancou nosso arqueólogo do seu afastamento do amor, advertindo-o

da necessidade de pagar à vida a dívida que desde o nascimento pesa sobre nós.

As primeiras manifestações do processo desencadeado em Hanold pelo relevo foram as

fantasias que giravam em torno da figura representada nesse relevo. A figura parecia-lhe „atual‟, no

melhor sentido da palavra, e „viva‟, como se o artista houvesse perpetuado no mármore uma visão

colhida nas ruas. O arqueólogo batizou a figura de „Gradiva‟, inspirando-se no epíteto do deus da

guerra dirigindo-se ao combate - „Mars Gradivus‟. Dotou a personalidade dela com um número

cada vez maior de características. Ela poderia ter sido filha de um alto personagem, talvez de um

patrício ligado ao culto de alguma divindade. Acreditava poder ver nos seus traços fisionômicos

uma origem grega e, por fim, sentiu-se compelido a removê-la da vida agitada de uma capital para

a mais tranqüila Pompéia, onde a fazia caminhar sobre as pedras de lava que facilitavam a

travessia das ruas. (ver em [1]) Esses produtos de sua fantasia parecem-nos bastante arbitrários,

mas ao mesmo tempo inocentes e inequívocos. E, na verdade, mesmo quando pela primeira vez

eles o estimularam à ação - quando, obcecado pelo problema da realidade daquele andar, o

arqueólogo começou a observar a vida para observar os pés das mulheres e jovens

contemporâneas -, essa ação era aparentemente justificada por motivos científicos conscientes,

como se todo o seu interesse por Gradiva tivesse origem em sua dedicação profissional à

arqueologia. (ver em [2]) As jovens e as senhoras por ele escolhidas na rua como objeto de tal

investigação devem, naturalmente, ter atribuído ao seu comportamento um caráter grosseiramente

erótico, e só podemos dar-lhes razão, embora não tenhamos dúvida alguma de que Hanold

ignorasse totalmente tanto os motivos de suas pesquisas quanto as origens de suas fantasias

sobre Gradiva. Como vimos depois, estas eram ecos das lembranças do seu amor infantil,

derivados, transformações e distorções dessas lembranças, após não terem elas conseguido

chegar à consciência dele de uma forma inalterada. Seu juízo de natureza aparentemente estética

de que a escultura tinha um aspecto „atual‟ substituiu seu conhecimento de que um andar desse

tipo pertencia a uma jovem que ele conhecia e que andava na rua na época presente. Por trás da

impressão de que a escultura era „viva‟ e da fantasia de que o modelo era grego, estava sua

lembrança do nome Zoe, que significa „vida‟ em grego. „Gradiva‟, como nos revela o próprio herói

no fim da história, após ter sido curado do seu delírio, é uma tradução do sobrenome „Bertgang‟,

que quer dizer mais ou menos „alguém que brilha ou esplende ao avançar‟. (ver em [1]) Os

pormenores relativos ao pai de Gradiva procediam do conhecimento de Hanold de que Zoe

Bertgang era a filha de um renomado professor da Universidade, o que em termos clássicos pode

ser traduzido como „serviço do templo‟. Por fim, sua fantasia transportou-a para Pompéia, não

„porque sua natureza serena e tranqüila assim o exigisse‟, mas porque em sua ciência ele não

pôde encontrar uma analogia mais apropriada para seu singular estado, no qual tomou

conhecimento de suas lembranças de uma amizade de infância, embora através de obscuros

meios de informação. Após ter feito sua própria infância coincidir com o passado clássico (o que

era muito fácil para ele), houve uma perfeita analogia entre o soterramento de Pompéia - que fez

desaparecer mas ao mesmo tempo preservou o passado - e a repressão, de que ele tinha

conhecimento através do que poderíamos chamar de percepção „endopsíquica‟. Assim ele utilizava

o mesmo simbolismo a que o autor faz a jovem recorrer quase no final da história: „Eu disse a mim

mesma que seria capaz de desencavar algo de interessante aqui, sem a ajuda de ninguém.

Naturalmente eu não contava com a descoberta que fiz…‟ (124 (ver em [1]).) E bem no final,

quando Hanold sugeriu que passassem ali sua lua-de-mel, ela respondeu com uma referência a

„seu companheiro de infância, também de certa maneira desenterrado das ruínas‟. (150 (ver em

[2]).)

Assim, observamos já nos primeiros produtos das fantasias delirantes e ações de Hanold

um duplo grupo de determinantes, derivando-se de duas fontes diferentes. Uma delas era

manifesta para Hanold, a outra é revelada para nós quando examinamos os processos mentais

dele. Uma delas, encarada do ponto de vista de Hanold, era consciente para ele; a outra era

completamente inconsciente. Uma delas procedia em sua totalidade do círculo de idéias da ciência

arqueológica, a outra surgia das lembranças infantis reprimidas, que se tinham tornado ativas, e

dos instintos emocionais a elas ligados. Pode-se dizer que uma era superficial e se sobrepunha à

outra, a qual como que se ocultava sob a primeira. A motivação científica servia de pretexto para a

motivação erótica inconsciente, estando a ciência inteiramente a serviço do delírio. Entretanto, não

se deve esquecer que os determinantes inconscientes nada conseguem realizar sem satisfazer

simultaneamente os determinantes científicos conscientes. Os sintomas de um delírio - tanto as

fantasias como as ações - na verdade são produtos de uma conciliação entre as duas correntes

mentais, e numa conciliação são levadas em conta as pretensões das duas partes, mas cada parte

precisa renunciar a uma parcela do que quer alcançar. Só através de uma luta é que se alcança

essa conciliação - no caso presente, através do conflito que presumimos entre o erotismo

suprimido e as forças que o mantinham em repressão. Na realidade essa luta é constante na

formação do delírio. O ataque e a resistência são renovados após a construção de cada

conciliação, que nunca é, por assim dizer, inteiramente satisfatória. Nosso autor também em

conhecimento desse fato, e é por isso que faz um desassossego peculiar dominar esse estádio do

distúrbio do seu herói, como precursor e garantia de novos desenvolvimentos.

Essas peculiaridades significativas - a motivação dupla de fantasias e decisões, e a

construção de pretextos conscientes para ações que são motivadas em grande parte pelo

reprimido - surgirão freqüentemente, e talvez com maior clareza, no curso posterior da história. E

com muito acerto, pois o autor soube compreender e expor a característica principal e

indispensável dos processos mentais patológicos

O desenvolvimento do delírio de Norbert Hanold prosseguiu com um sonho que, não tendo

sido provocado por nenhum novo evento, parece ter-se originado inteiramente de sua mente, onde

havia um conflito. Mas façamos uma pausa antes de conjeturar se o autor também demonstra

possuir, como esperávamos, uma profunda compreensão da construção dos sonhos. Averigüemos

primeiro o que tem a dizer a ciência psiquiátrica sobre as hipóteses formuladas pelo autor a

respeito da origem de um delírio, e qual a sua atitude quanto ao papel desempenhado pela

repressão e pelo inconsciente, assim como quanto ao conflito e às formações de conciliações. Em

síntese, vejamos se essa imaginosa representação da gênese de um delírio resiste a um exame

científico.

E aqui nossa resposta talvez seja uma surpresa. Nada realidade a situação é inversa: é a

ciência que não resiste à criação do autor. Entre as precondições constitucionais e hereditárias de

um delírio, e as criações deste, que parecem emergir prontas, existe uma lacuna não explicada

pela ciência - lacuna esta que achamos ter sido preenchida pelo nosso autor. A ciência ainda não

suspeita da importância da repressão, não reconhece que para explicar o mundo dos fenômenos

psicopatológicos o inconsciente é absolutamente essencial, não procura a base dos delírios num

conflito psíquico, e nem considera seus sintomas como conciliações. Acaso nosso autor ergue-se

sozinho contra toda a ciência? Não, não é assim (isto é, se eu puder considerar como científicos os

meus próprios trabalhos), pois já há alguns anos - e, até bem pouco tempo, mais ou menos

sozinho - eu mesmo venho defendendo todos os princípios que aqui extraí da Gradiva de Jensen,

expondo-os em termos técnicos. Assinalei, particularmente em conexão com os estados mentais

conhecidos como histeria e obsessões, que o determinante individual desses distúrbios psíquicos

é a supressão de uma parcela da vida instintual e a repressão das idéias que representam o

instinto suprimido, e pouco depois apliquei esses mesmos princípios a algumas formas de delírio.

Neste caso particular da análise de Gradiva, podemos considerar sem importância o problema de

determinar se os instintos envolvidos nessa causação são sempre componentes do instinto sexual

ou se acaso serão também de outro gênero, já que sem dúvida no exemplo escolhido por nosso

autor o que estava em questão era certamente nada mais do que a supressão dos sentimentos

eróticos. A validade das hipóteses de conflito psíquico e de formação de sintomas através de

conciliações entre as duas correntes em luta já foi demonstrada por mim no caso de pacientes

observados e tratados medicamente na vida real, assim como pude fazer no caso imaginário de

Norbert Hanold. Já antes de mim, Pierre Janete, discípulo do grande Charcot, e Josef Breuer, em

colaboração comigo, haviam atribuído os produtos das doenças neuróticas, e especialmente das

histéricas, ao poder dos pensamentos inconscientes.

Quando, a partir de 1893, me dediquei a tais investigações sobre a origem dos distúrbios

mentais, certamente nunca me teria ocorrido procurar uma comprovação de minhas descobertas

nas obras de escritores imaginativos. Assim fiquei bastante surpreso ao verificar que o autor de

Gradiva, publicada em 1903, baseara sua criação justamente naquilo que eu próprio acreditava ter

acabado de descobrir a partir das fontes de minha experiência médica. Como pudera o autor

alcançar conhecimentos idênticos aos do médico - ou pelo menos comportar-se como se os

possuísse?

Como dizíamos, o delírio de Norbert Hanold avançou mais ainda devido a um sonho

ocorrido durante seu esforços para descobrir um andar semelhante ao de Gradiva nas ruas da

cidade em que ela morava. O conteúdo desse sonho pode ser facilmente resumido. O sonhador

descobriu que estava em Pompéia no dia da destruição daquela infeliz cidade, e experimentou

seus horrores sem correr perigo. Subitamente viu Gradiva caminhando pela rua e deu-se conta de

que, sendo a jovem pompeana, era natural que residisse em sua cidade natal, e „na mesma época

que ele, sem que disto ele tivesse a menor suspeita‟ (ver em [1]). Receando por ela, advertiu-a

com um grito, ao que a jovem lhe voltou por um momento o rosto, mas sem lhe dar atenção

prosseguiu seu caminho, deitou-se nos degraus do templo de Apolo e foi soterrada pelas cinzas,

após ter empalidecido até adquirir a cor do mármore, como se estivesse transformando-se numa

estátua. Ao despertar, ele interpretou os ruídos matutinos da cidade que penetravam em seu

quarto como gritos de socorro dos desesperados habitantes de Pompéia e o rugir do mar

enfurecido. Por algum tempo permaneceu com o sentimentos de ter realmente vivido os

acontecimentos de seu sonhos, tendo este lhe deixado a convicção de que Gradiva residira em

Pompéia e ali perecera no dia fatal, convicção esta que iria constituir um novo ponto de partida

para seu delírio.

Não nos é assim tão fácil dizer o que pretendia o autor com esse sonho e porque ligou o

desenvolvimento do delírio justamente a um sonho. É verdade que investigadores diligentes

reuniram muitos exemplos de como distúrbios mentais estão ligados a sonhos e de como surgem

de sonhos. Relata-se também que na vida de alguns homens famosos, os sonhos deram origem a

impulsos para atos e decisões importantes. No entanto, essas analogias não nos ajudam a muito

em nossa compreensão; portanto, vamo-nos cingir ao caso imaginário do arqueólogo Norbert

Hanold. Mas por que aspectos começaremos a examinar esse sonho, de modo a encaixá-lo no

contexto global, para que não permaneça como um ornato desnecessário da história?

Nesse ponto posso imaginar a réplica de um leitor: „Esse sonho pode ser explicado com

muita facilidade. Trata-se de um simples sonho de ansiedade provocado pelos ruídos da cidade, os

quais o arqueólogo, cuja mente estava voltada para a jovem pompeana, interpretou erroneamente

como a destruição de Pompéia‟. Devido ao pouco valor que geralmente se concede ao papel dos

sonhos, costuma-se limitar o que se pede da explicação dos mesmos a que um estímulo externo

coincida mais ou menos com parte do conteúdo do sonho. Esse estímulo externo para sonhar seria

o ruído que acordou o arqueólogo; e com isso terminaria nosso interesse pelo sonho. Mas se ao

menos tivéssemos alguma base para supor que naquela manhã o ruído da cidade era mais intenso

que o normal! Se ao menos, por exemplo, o autor não tivesse deixado de nos dizer que,

contrariando seus hábitos, Hanold dormira com as janelas abertas! Que pena que ele tenha

omitido isso! E se ao menos ainda os sonhos de ansiedade fossem assim tão simples! Mas não é

nada disso, e nosso interesse por esse sonho não poderá esgotar-se assim tão facilmente.

Para a construção de um sonho não é essencial um vínculo com um estímulo sensorial

externo. Aquele que dorme pode ignorar um estímulo desse gênero a partir do mundo externo,

pode ser despertado pelo mesmo sem construir um sonho, ou, como aconteceu aqui, pode

incorporá-lo a seu sonho, se isto lhe convier por alguma razão. Além disso, existem inúmeros

sonhos cujo conteúdo de forma alguma pode ser explicado como sendo determinado por um

estímulo externo sobre os sentidos do indivíduo que dorme. Portanto, procuremos outro caminho.

Talvez os efeitos posteriores do sonho sobre a vida de vigília de Hanold possam

fornecer-nos um ponto de partida. Até então, ele tivera a fantasia de que Gradiva fora uma

pompeana. Essa hipótese então se transforma para ele numa certeza, a que logo se soma uma

outra: ela fora soterrada com o resto da população no ano de 79 D.C. Um sentimento de

melancolia acompanhou essa extensão da estrutura delirante, como um eco da ansiedade do

sonho. Não nos parece muito compreensível essa nova dor em relação a Gradiva; afinal ela devia

estar morta há muitos séculos, mesmo se houvesse escapado da destruição de 79 D.C. Mas

parece que nada nos adiantará continuar argumentando com Norbert Hanold ou com o próprio

autor, pois esse caminho não levará a nenhum esclarecimento. Contudo, vale a pena ressaltar que

o incremento adquirido pelo declínio a partir desse sonho era acompanhado por um sentimento

muito doloroso.

Com exceção disso, entretanto, continuamos tão embaraçados quanto antes. Esse sonho

não se explica por si só, e precisamos recorrer à nossa Interpretação de Sonhos e aplicar ao

presente exemplo algumas das regras que ali são encontradas para a solução dos sonhos.

Uma dessas regras diz que um sonho invariavelmente se relaciona com os eventos do dia

anterior. Nosso autor parece querer mostrar que seguiu essa regra, pois imediatamente liga o

sonho às „pesquisas pedestres‟ de Hanold. Ora, essas pesquisas não significavam senão a

procura de Gradiva, cujo andar característico ele tentava reconhecer. Assim o sonho deveria conter

um início do paradeiro de Gradiva. E realmente contém, pois mostra-a em Pompéia, o que para

nós não constitui novidade.

Outra regra diz que, se uma crença na realidade das imagens oníricas persistir por um

espaço de tempo invulgarmente prolongado, de modo que o indivíduo não consiga desligar-se do

sonho, esse fenômeno não deve ser considerado como um erro de julgamento provocado pela

vividez das imagens oníricas, mas um ato psíquico independente: uma garantia, em relação ao

conteúdo do sonho, de que algo nele é realmente tal como foi sonhado; e pode-se confiar nessa

garantia. Se observarmos essas duas regras, concluiremos que o sonho fornece alguma

informação sobre o paradeiro de Gradiva e que essa informação se ajusta à realidade das coisas.

Já conhecemos o sonho de Hanold: será que, aplicando-lhe essas regras, extrairemos dele algum

sentido plausível?

Por estranho que pareça, sim. O que acontece é que esse sentido está de tal forma

disfarçado que não o reconhecemos de imediato. O sonho informou a Hanold que a jovem que ele

procurava morava numa cidade em que ele também vivia. Ora, essa informação sobre Zoe

Bertgang era verdadeira, só que no sonho essa cidade era Pompéia e não uma cidade

universitária alemã, e o tempo não era o presente, mas o ano de 79 D.C. Trata-se de uma

distorção por deslocamento: em vez de Gradiva no presente, tem-se o sonhador transportado para

o passado. Entretanto, mesmo assim, um fato novo e essencial é transmitido: ele está no mesmo

local e na mesma época que a jovem que ele procura. Mas então para que esse deslocamento e

esse disfarce que forçosamente iludiriam a nós e ao sonhador quanto ao verdadeiro sentido e

conteúdo do sonho? Bem, já temos à nossa disposição meios para fornecer uma resposta

satisfatória a essa pergunta.

Vamos relembrar tudo que aqui foi dito sobre a origem e a natureza das fantasias

precursoras dos delírios (ver a partir de [1]). Elas são substitutos e derivados de lembranças

reprimidas que não conseguem atingir a consciência de forma inalterada devido a uma resistência,

mas que podem alcançar a possibilidade de se tornarem conscientes levando em consideração,

por meio de mudanças e distorções, a censura da resistência. Uma vez realizada essa conciliação,

as lembranças reprimidas transformam-se em fantasias que com facilidade poderão ser

compreendidas erroneamente pela personalidade consciente - isto é, compreendidas de modo a se

adaptarem à corrente psíquica dominante. Agora suponhamos que as imagens oníricas sejam o

que poderia ser descrito como criações dos delírios fisiológicos [isto é, não-patológicos] das

pessoas - produtos de uma conciliação na luta entre o reprimido e o dominante que provavelmente

existe em todo ser humano, inclusive naqueles que no estado de vigília possuem perfeita saúde

mental. Compreenderemos então a necessidade de encarar as imagens oníricas como algo

distorcido, por trás do qual se pode procurar mais alguma coisa, não distorcida, mas de alguma

forma censurável, tal como as lembranças reprimidas de Hanold escondidas por suas fantasias.

Podemos dar expressão ao contraste acima verificado, distinguindo o conteúdo manifesto do

sonho, isto é, o que o sonhador lembra quando acorda, dos pensamentos oníricos latentes, isto é,

aquilo que constituía a base do sonho antes da distorção imposta pela censura. Assim, interpretar

um sonho consiste em traduzir o conteúdo manifesto do sonho nos pensamentos oníricos latentes,

desfazendo a distorção que a censura da resistência impôs aos pensamentos oníricos. Se

aplicarmos essas noções ao sonho que estamos examinando, descobriremos que os pensamentos

oníricos latentes só podem ter sido os que se seguem: „a jovem de andar gracioso que procuras,

na realidade mora aqui nesta mesma cidade em que vives.‟ Mas com essa forma o pensamento

não conseguiu tornar-se consciente, sendo obstruído pelo fato de que uma fantasia afirmara, como

resultado de uma conciliação anterior, que Gradiva era pompeana; portanto, para expressar o fato

real de que ela vivia no mesmo lugar e na mesma época que ele, só houve um caminho, o da

seguinte distorção: „vives em Pompéia na época de Gradiva.‟ Esta foi a idéia transmitida pelo

conteúdo manifesto do sonho, que a mostrou como uma realidade vivida no momento.

Só raramente um sonho representa ou, como poderíamos dizer, „encena‟ um único

pensamento; geralmente trata-se de um conjunto, de uma trama de pensamentos. Do sonho de

Hanold podemos extrair com facilidade um outro componente de seu conteúdo, livrando-o

facilmente de sua distorção, de modo a expor a idéia latente que ele representa. A essa parte do

sonho também se aplica a garantia de realidade com a qual o sonho terminou. Neste houve a

transformação de Gradiva numa estátua de mármore, o que não é senão uma representação

engenhosa e poética do evento real. Na verdade, Hanold havia transferido seu interesse da jovem

viva para a escultura, transformando a amada num relevo de mármore. Os pensamentos oníricos

latentes, forçados a permanecer inconscientes, tentam realizar a transformação inversa da

escultura na jovem viva; o que queriam dizer a ele era mais ou menos o seguinte: „afinal só estás

interessado na estátua de Gradiva porque ela te recorda Zoe, que vive aqui e agora.‟ Mas se essa

descoberta pudesse ter-se tornado consciente, isso teria significado o fim do delírio.

Acaso seremos obrigados a substituir de forma análoga cada fragmento do conteúdo

manifesto do sonho por pensamentos inconscientes? Se quiséssemos ser rigorosos, sim; se

estivéssemos interpretando um sonho que tivesse sido realmente sonhado não poderíamos

furtar-nos a esse dever. Mas em tal caso, aquele que sonhou teria de nos fornecer explicações

muito mais amplas. É claro que tal requisito não pode ser satisfeito no caso da criação do autor;

entretanto, não devemos esquecer que o conteúdo central do sonho ainda não foi submetido ao

processo de interpretação ou tradução.

Evidentemente o sonho de Hanold foi um sonho de ansiedade. De conteúdo apavorante,

provocou ansiedade naquele que sonhava e deixou atrás de si sentimentos dolorosos. Esse fato

em muito dificulta nossa tentativa de explicação, e somos mais uma vez obrigados a recorrer à

teoria da interpretação dos sonhos. Esta nos acautela contra o erro de atribuir a ansiedade que

pode ser sentida em sonhos ao conteúdo desses sonhos, e de tratar esse conteúdo como se fosse

o de uma idéia que ocorre no estado de vigília. Alerta-nos também sobre a freqüência com que

temos sonhos apavorantes sem sentir o mais leve traço de ansiedade. A situação real é bem

diversa e nada evidente, mas pode ser comprovada de forma irrefutável. A ansiedade nos sonhos

de ansiedade, como toda ansiedade neurótica em geral, corresponde a um afeto sexual, a um

sentimento libidinal, e surge da libido pelo processo de repressão. Portanto, ao interpretarmos um

sonho devemos substituir a ansiedade por excitação sexual. Nem sempre, mas com freqüência, a

ansiedade que assim se origina exerce uma influência seletiva sobre o conteúdo do sonho, nele

introduzindo elementos ideativos que, de um ponto de vista consciente e errôneo, parecem

adequados para o afeto de ansiedade. Como já disse, isso nem sempre acontece, existindo muitos

sonhos de ansiedade nos quais o conteúdo nada tem de apavorante e nos quais é impossível

encontrar uma explicação, em termos conscientes, para a ansiedade que é sentida.

Sei que essa explicação da ansiedade em sonhos parece muito estranha e de difícil

aceitação, mas aqui só posso aconselhar o leitor a dar-lhe crédito. Contudo, seria realmente

extraordinário se o sonho de Norbert Hanold se encaixasse nessa concepção da ansiedade e

pudesse ser assim explicado. Partindo dessa hipótese, diríamos que seus desejos eróticos vieram

à tona durante a noite e fizeram um esforço intenso para tornar conscientes as lembranças da

jovem por ele amada e para arrancá-lo do seu delírio; esses desejos, porém, foram novamente

repudiados, transformando-se em ansiedade, a qual, por sua vez, introduziu no conteúdo do sonho

as imagens aterradoras das lembranças dos tempos de estudante. Dessa forma o verdadeiro

conteúdo inconsciente do sonho, seu apaixonado desejo pela Zoe que conhecera no passado,

transformou-se no conteúdo manifesto da destruição de Pompéia e da perda de Gradiva.

Até aqui isso me parece plausível. Mas poder-se-ia com justiça ressaltar que, se o

conteúdo não-distorcido do sonho é constituído de desejos eróticos, deveria ser possível identificar

pelo menos algum resíduo desses desejos ocultos no sonho transformado. Bem, talvez isso seja

possível, com a ajuda de um indício contido num trecho posterior da história. Ao encontrar-se pela

primeira vez com Gradiva, Hanold recordou-se do sonho e pediu à jovem que se deitasse

novamente na escadaria, como então a vira fazer (ver em [1]). A esse pedido, entretanto, a jovem

ergueu-se indignada e deixou seu estranho companheiro, pois percebera o inconveniente desejo

erótico por trás das palavras que ele pronunciara sob a influência do delírio. Julgo que devemos

aceitar a interpretação de Gradiva; nem mesmo num sonho real poderíamos esperar encontrar

uma expressão mais definida de um desejo erótico.

Aplicando ao primeiro sonho de Hanold algumas regras da interpretação de sonhos,

conseguimos tornar inteligíveis seus elementos principais e inseri-lo no contexto da história.

Poderemos então ter como certo que o autor observou essas regras ao criá-lo? E uma segunda

pergunta também nos ocorre: por que o autor introduziu esse sonho para realizar o

desenvolvimento posterior do delírio? Em minha opinião, o recurso é engenhoso e fiel à realidade.

Já vimos (ver em [1]) que em doenças reais um delírio com muita freqüência surge em conexão

com um sonho, e, após esses últimos esclarecimentos sobre a natureza dos sonhos, esse fato não

deve constituir para nós um novo enigma. Os sonhos e os delírios surgem de uma mesma fonte -

do que é reprimido. Poderíamos dizer que os sonhos são os delírios fisiológicos das pessoas

normais. (ver em [2]) Antes de tornar-se suficientemente forte para irromper na vida de vigília como

delírio, o que é reprimido pode ter alcançado um primeiro sucesso, sob as condições mais

favoráveis do sono, na forma de sonho de efeitos duradouros. Durante o sono, juntamente com

uma diminuição geral da atividade mental, dá-se um relaxamento da força da resistência que as

forças psíquicas dominantes opõem ao que é reprimido. É esse relaxamento que possibilita a

formação dos sonhos, e é por isso que estes constituem o melhor caminho para o conhecimento

da parte inconsciente da mente - só que, via de regra, ao se restabelecerem das catexias

psíquicas da vida de vigília, os sonhos se desvanecem e o inconsciente é obrigado a evacuar mais

uma vez o terreno que conquistara.

Em trecho posterior da história encontramos um novo sonho que talvez mais do que o

anterior nos desafie a tentar traduzi-lo e inseri-lo na cadeia de eventos na mente do herói. Mas

pouco nos adiantaria abandonar o relato do autor e lançarmo-nos imediatamente ao segundo

sonho, pois quem deseja analisar os sonhos de outra pessoa não pode deixar de dar a máxima

atenção a todas as experiências, tanto externas como internas, daquele que sonha. Portanto,

certamente será melhor seguir o fio da história, intercalando nossos comentários à medida que

avançarmos.

A construção do novo delírio acerca da morte de Gradiva durante a destruição de Pompéia

no ano de 79 não foi o único resultado do primeiro sonho, já por nós analisado. Logo após o

mesmo, Hanold resolveu viajar para a Itália, viagem esta que terminou por levá-lo a Pompéia. Mas,

antes dessa decisão, sucedeu-lhe outro fato. Ao se debruçar na janela julgou ver um vulto com um

porte e um andar semelhantes aos de sua Gradiva. Apesar de incompletamente vestido, correu em

seu encalço, mas perdeu-a de vista, sendo obrigado a voltar para casa devido aos gracejos dos

transeuntes. De volta a seu quarto, o canto de um canário numa gaiola na janela da casa fronteira

despertou-lhe a sensação de que também ele era um prisioneiro desejoso de liberdade, e

imediatamente decidiu empreender uma viagem de primavera à Itália, plano que logo colocou em

execução.

O autor focalizou com bastante clareza essa viagem de Hanold, permitindo que seu

personagem tivesse uma compreensão interna (insight) parcial de seus próprios processos

internos. Naturalmente Hanold descobriu um pretexto científico para a viagem, mas isso não durou

por muito tempo. Na verdade, tinha ciência de que „o impulso para empreender aquela viagem

tivera origem num sentimento que ele não podia nomear‟. Um estranho desassossego tornou-o

insatisfeito com tudo que o cercava, impelindo-o de Roma para Nápoles e dali para Pompéia, mas

nem mesmo nessa última cidade encontrou tranqüilidade. Irritava-se ante a insensatez dos casais

em lua-de-mel, e se enfureceu com a impertinência das moscas que povoavam os hotéis de

Pompéia. Por fim não conseguiu esconder de si mesmo „que sua insatisfação não podia ser

motivada apenas pelas circunstâncias externas, devendo também ter origem em seu íntimo.‟

Sentiu-se superexcitado, „descontente pela falta de alguma coisa que não sabia o que era. Esse

mau humor acompanhava-o por toda a parte.‟ Nesse estado de espírito sua fúria voltou-se até

mesmo contra a ciência de que era servo fiel. Quando ao calor do sol do meio-dia vagueava sem

rumo por Pompéia, „não somente esquecera-se de toda a sua ciência, como também não sentia o

menor desejo de voltar a se ocupar dela. Ela lhe parecia algo muito distante, uma tia velha

enfadonha, encarquilhada, ressequida, a criatura mais maçante e indesejável do mundo.‟ (55.)

Enquanto se encontrava nesse estado de espírito desagradável e confuso, deparou com a

solução de um dos problemas referentes à sua viagem - no momento em que viu Gradiva andando

por uma rua de Pompéia. „Tomou consciência, pela primeira vez, de que, embora ignorando o

motivo interno que o impelira, se viera à Itália dirigindo-se a Pompéia sem se deter em Roma ou

em Nápoles, fora para procurar as pegadas de Gradiva - e “pegadas” no sentido literal, pois com

aquele andar peculiar ela deveria ter deixado impressões inconfundíveis nas cinzas.‟ (58 (ver em

[1]).)

Se o autor deu-se ao trabalho de escrever a viagem com tantas minúcias, deve valer a

pena examinar a relação da mesma com o delírio de Hanold e sua posição na cadeia dos eventos.

O arqueólogo empreendeu a viagem por motivos que a princípio desconhecia, mas que veio a

admitir mais tarde; motivos esses que o próprio autor qualifica de „inconscientes‟. Isso é verossímil.

Não é preciso que uma pessoa sofra de um delírio para se comportar de forma análoga. Ao

contrário, uma pessoa, mesmo saudável, pode com freqüência enganar-se quanto aos motivos de

um ato, tomando consciência dos mesmos só depois do evento; para tanto só é necessário que um

conflito entre as diversas correntes de sentimentos crie as condições para tal confusão. Assim,

desde o momento em que foi concebida, a viagem de Hanold estava a serviço do delírio, sendo

seu propósito conduzir o arqueólogo a Pompéia, onde poderia continuar a procurar Gradiva.

Recordemo-nos que, tanto antes como imediatamente após o sonho, sua mente se ocupava com

essa procura, e que o sonho nada mais era do que uma resposta ao enigma do paradeiro de

Gradiva, ainda que uma resposta sufocada pela sua consciência. Alguma força inibidora, por nós

ainda desconhecida, impedia-o de tomar consciência de sua intenção delirante, de modo que para

justificar conscientemente sua viagem só lhe restam débeis pretextos que necessitam ser

renovados a cada etapa. O autor coloca-nos diante de novo enigma ao fazer com que o sonho, a

descoberta da suposta Gradiva na rua e a viagem inspirada pelos gorjeios de um canário se

sucedessem como uma série de eventos casuais, sem qualquer tipo de conexão interna um com o

outro.

Algumas explicações que inferimos de frases posteriores de Zoe Bertgang nos elucidam

esse trecho obscuro da história. Na verdade, foi o original de Gradiva, a própria Fräulein Zoe, que

Hanold viu passar em frente de sua janela (89) e que ele quase alcançou. Se o tivesse feito, a

informação transmitida pelo sonho - que na realidade ela vivia no mesmo local e na mesma época

que ele - por um feliz acaso teria recebido uma irrefutável confirmação, a qual provocaria o fim de

sua luta interna. Também o canário, que o motivou a empreender sua longa viagem, pertencia a

Zoe, e sua gaiola na janela da jovem do outro lado da rua ficava bem em frente à casa de Hanold.

(135 (ver em [1]).) Este, que segundo uma acusação da jovem possuía o dom da „alucinação

negativa‟, isto é, a arte de não ver e não reconhecer pessoas que estavam à sua frente, deve

desde o início ter tido um conhecimento inconsciente daquilo que só mais tarde descobriríamos.

Os indícios da proximidade de Zoe (seu aparecimento na rua e o canto do seu canário tão próximo

à janela dele) intensificaram o efeito do sonho, e nessa situação, tão perigosa para a sua

resistência aos sentimentos eróticos, Hanold decidiu fugir. Sua viagem era o resultado de novo

fortalecimento dessa resistência, em seguida ao avanço obtido no sonho por seus desejos

eróticos; era uma tentativa de fugir da presença física da jovem amada. Na prática significava uma

vitória para a repressão, assim como sua atividade anterior, suas „pesquisas pedestres‟ em

mulheres e jovens, significara uma vitória do erotismo. Mas em todas essas oscilações verificadas

no conflito, o caráter de conciliação dos resultados é preservado: a viagem para Pompéia, que

deveria afastá-lo da Zoe viva, o conduziu ao menos para a sua substituta, Gradiva. A viagem,

empreendida num desafio aos pensamentos oníricos latentes, seguiu, entretanto, a rota para

Pompéia indicada pelo conteúdo manifesto do sonho. Assim, verificamos que, a cada novo conflito

entre o erotismo e a resistência, o delírio sempre triunfa.

Essa interpretação da viagem de Hanold como sendo uma fuga diante do seu desejo

erótico despertado pela jovem amada, e que estava tão próxima dele, é a única que se ajustará à

descrição do seu estado emocional durante a estada na Itália. O repúdio ao erotismo que o

dominava expressava-se pelo horror que votava aos casais em lua-de-mel. Um curto sonho que

tivera em seu albergo em Roma, ocasionado pela proximidade de um casal de alemães cujo

colóquio noturno ouvia através das delgadas paredes de seu quarto, elucidou retrospectivamente

as tendências eróticas do seu primeiro sonho. Nesse novo sonho, ele estava novamente em

Pompéia durante a erupção do Vesúvio, o que estabelecia uma ligação deste sonho com o

anterior, cujos efeitos prolongados fizeram-se sentir durante toda a viagem. Entretanto, dessa vez

as pessoas ameaçadas não eram ele próprio e Gradiva, como na ocasião anterior, mas Apolo do

Belvedere e Vênus Capitolina, certamente uma irônica exaltação do casal do quarto contíguo.

Apolo ergueu Vênus nos braços e colocou-a sobre um objeto escuro, que parecia ser um coche ou

uma carreta, pois „estalavam‟. No mais a interpretação desse sonho não requer nenhuma

habilidade especial. (31.)

Nosso autor, que, como descobrimos há muito, nunca introduz em sua história elementos

ociosos ou inúteis, forneceu-nos outro indício da tendência assexual que dominou Hanold em sua

viagem. Enquanto perambulava durante horas por Pompéia, „estranhamente nem por um momento

se recordou do sonho em que testemunhara o soterramento de Pompéia na erupção de 79 D.C.‟

(47.) Só quando encontrou Gradiva é que se lembrou do sonho e ao mesmo tempo tomou

consciência do motivo delirante de sua enigmática viagem. Esse esquecimento do sonho, essa

barreira de repressão entre o sonho e seu estado mental durante a viagem, só pode ser explicado

pela suposição de que a viagem, não foi empreendida sob a inspiração direta do sonho, mas como

uma revolta contra o mesmo, como uma manifestação de uma força mental que se recusava a

conhecer qualquer parcela do significado secreto do sonho.

Entretanto, por outro lado, essa vitória sobre o erotismo não causou prazer a Hanold. O

impulso mental suprimido conservava poder suficiente para vingar-se do impulso supressor através

da inibição e do descontentamento. Os desejos do arqueólogo transformaram-se em

desassossego e insatisfação, que retiravam de sua viagem todo sentido. Inibida a compreensão

interna (insight) dos motivos da viagem empreendida sob o comando do delírio, seus interesses

científicos, que deveriam ser estimulados pelo novo ambiente, também ficaram tolhidos. Após essa

fuga do amor, o autor mostra-nos seu herói num estado de completa perturbação e confusão,

numa crise semelhante ao ponto culminante de uma doença, quando nenhuma das duas forças

conflitantes é suficientemente superior à outra para que essa vantagem possibilite o

estabelecimento de um regime mental vigoroso. Nesse ponto, entretanto, o autor intervém em

auxílio de seu personagem e traz Gradiva à cena, encarregando-a de curá-lo. Utilizando seu direito

de conduzir os destinos de suas criaturas para um desenlace feliz, embora as faça curvar-se às

leis da necessidade, o autor desloca para Pompéia a mesma jovem que Hanold tentava evitar em

sua fuga para aquele lugar. Assim corrige a insensatez a que o delírio induzira o jovem - a

insensatez de trocar a cidade da jovem viva que ele amava pelo sepulcro de sua substituta

imaginária.

Com o aparecimento de Zoe Bertgang como Gradiva, clímax de tensão na história, nosso

interesse logo toma um curso diferente. Assistimos até aqui ao desenvolvimento de um delírio;

agora, iremos testemunhar sua cura. Poderemos indagar se o autor expôs o desenrolar dessa cura

de forma totalmente fantasiosa ou se acaso a construiu de acordo com as possibilidades

presentes. As palavras que Zoe dirigiu à amiga recém-casada nos dão o inegável direito de

atribuir-lhe uma intenção de realizar a cura. (124 (ver em [1]).) Mas como atingiu seus propósitos?

Após sobrepujar a indagação provocada pelo pedido de Hanold para que se deitasse na escadaria

como „então‟ o fizera, ela retornou no dia seguinte, à mesma hora, decidida a arrancar de Hanold

os segredos cuja ignorância por parte dela a havia impedido de compreender o comportamento

dele no dia anterior. Assim veio a saber do sonho, da escultura de Gradiva e do andar que era uma

peculiaridade de ambas. Ela aceitou o papel de um fantasma redivivo por uma fugaz hora, papel

que, como ela percebera, o delírio de Hanold lhe atribuíra, mas, ao aceitar sua oferta das flores

dedicadas aos mortos e ao lamentar que ele não tivesse escolhido rosas, insinuou delicadamente

com palavras ambíguas a possibilidade de ele admitir uma nova situação. (90 (ver em [1]).)

Essa jovem de inteligência invulgar estava então decidida a converter seu amigo de

infância em seu marido, após descobrir que a força motivadora do delírio deste era o amor que ele

lhe devotava. Nosso interesse no comportamento da jovem, entretanto, cederá momentaneamente

lugar à surpresa que o próprio delírio nos provoca. A última forma assumida por ele era que

Gradiva, soterrada no ano 79 D.C., era capaz de agora, na qualidade de fantasma do meio-dia,

falhar-lhe por uma hora, no fim da qual ela teria de sumir nas entranhas da terra ou voltar a seu

túmulo. Essa teia mental, que não se desfaz nem pela constatação de que a aparição usava

sapatos modernos e desconhecia as línguas clássicas, falando o alemão, idioma ainda inexistente

na época da catástrofe de Pompéia, parece sem dúvida justificar a denominação de „fantasia

pompeana‟ dada pelo autor à sua obra e excluir qualquer possibilidade de julgá-la pelos critérios da

realidade clínica.

Entretanto, a um exame mais apurado esse delírio de Hanold me parece perder a maior

parte de sua improbabilidade; esta, aliás, repousa no fato de o autor ter baseado sua história na

premissa de que Zoe era uma réplica da escultura. Devemos, porém, evitar deslocar a

improbabilidade dessa premissa para a sua conseqüência: o fato de Hanold tomar a jovem pela

própria Gradiva ressuscitada. Essa explicação delirante adquire maior valor pelo fato de que o

autor não nos forneceu nenhuma explicação racional. Acrescentou, entretanto, circunstâncias

atenuantes para tal extravagância do seu herói, na forma do sol ardente da campagna e na magia

inebriante do vinho originário das encostas do Vesúvio. Contudo, o mais importante dos fatores

que podem explicar e justificar isso reside na facilidade com que nosso intelecto está pronto a

aceitar algo absurdo, desde que este satisfaça impulsos emocionais poderosos. É um fato

espantoso, e também geralmente ignorado, a presteza e a freqüência com que, em tais condições

psicológicas, pessoas de viva inteligência reagem como débeis mentais. Todo indivíduo não muito

preconceituoso pode, amiúde, observar o fato em si mesmo, especialmente se os processos

mentais em questão estiverem ligados a motivos inconscientes ou reprimidos. A esse respeito, é

com satisfação que transcrevo as palavras que me foram enviadas por um filósofo: „Tenho anotado

as circunstâncias em que eu próprio cometi erros ou atos irrefletidos para os quais mais tarde se

descobrem motivos (os mais irracionais). É alarmante, porém característica, a quantidade de

tolices que assim vêm à tona.‟ Devemos lembrar, também, que a crença nos espíritos e fantasmas,

e no retorno dos mortos, que tanto apoio encontra nas religiões a que todos estivemos ligados pelo

menos na infância, está longe de ter desaparecido entre a gente culta, e que muitas pessoas,

sensatas em todos os outros aspectos, acham possível conciliar espiritualismo com razão. Mesmo

o homem que se tornou cético e racional pode descobrir, envergonhado, que sob o impacto da

perplexidade e de emoções fortes facilmente volta por momentos a acreditar em espíritos.

Conheço um médico que perdera uma paciente portadora da doença de Graves, e que não

conseguia afastar de sua mente uma leve suspeita de talvez haver contribuído para o funesto

desenlace por causa de uma medicação imprudente. Certo dia, anos depois, uma jovem entrou em

seu consultório e, apesar de resistir à idéia, meu colega não conseguiu impedir-se de a identificar

com a morta. Não podia deixar de pensar o seguinte: „Então afinal é verdade que os mortos podem

retornar à vida.‟ No entanto, seu pavor converteu-se em vergonha quando a jovem se apresentou

como a irmã da falecida paciente e revelou estar sofrendo da mesma enfermidade. Os portadores

da doença de Graves, como já se observou com freqüência, terminam por apresentar uma grande

semelhança fisionômica, intensificada no caso pelos traços de família. O médico a quem isso

aconteceu era eu próprio. Portanto, tenho um motivo pessoal para não refutar a possibilidade

clínica do delírio temporário de Norbert Hanold de que Gradiva retornara à vida. Enfim, é um fato

familiar a todo psiquiatra a ocorrência, em casos graves de delírios crônicos (paranóia), de

exemplos surpreendentes de absurdos solidamente construídos com grande engenho.

Após seu primeiro encontro com Gradiva, Norbert Hanold dirigiu-se aos dois hotéis em

Pompéia e pediu vinho nas salas de refeições em que estavam reunidos para o almoço os demais

visitantes da cidade. „Naturalmente nem uma vez lhe ocorreu o tolo pensamento‟ de que assim

agia para descobrir em qual desses hotéis Gradiva estava hospedada e fazia suas refeições;

contudo, é difícil atribuir outro sentido a seu comportamento. No dia seguinte a seu segundo

encontro com a jovem na Casa de Meleagro, passou por uma série de experiências estranhas e

aparentemente sem qualquer ligação. Descobriu uma estreita fenda na parede do pórtico, no ponto

em que Gradiva desaparecera; encontrou um excêntrico caçador de lagartos, que o interpelou

como se o conhecesse; descobriu um terceiro hotel, num local afastado, o „Albergo del Sole‟, cujo

dono lhe impingiu um broche coberto de pátina verde que teria sido encontrado junto aos restos de

uma jovem pompeana. Por fim, em seu próprio hotel encontrou um jovem casal que tomou por

irmãos e que despertou a sua empatia. Mais tarde todas essas impressões interligaram-se em um

sonho „singularmente absurdo‟:

„Sentada em algum lugar no sol, Gradiva confeccionava um laço de um longo talo de erva

para capturar um lagarto, e disse: “Por favor, fique bem quieto. Nossa colega tem razão, esse

método é realmente ótimo e ela já o utilizou com excelentes resultados.”‟ (ver em [1])

Ainda adormecido, Norbert Hanold defendeu-se do sonho com o pensamento crítico de

que o mesmo era totalmente insensato, e procurou de todas as formas libertar-se dele. Conseguiu

isso com a ajuda de um pássaro invisível que, emitindo um pio sarcástico, aprisionou em seu bico

o lagarto e o carregou consigo.

Vamos tentar interpretar esse sonho, isto é, substituí-lo pelos pensamentos latentes de

cuja distorção deve ter-se originado? É tão sem sentido quanto pode ser um sonho, e é justamente

nesse absurdo dos sonhos que se apóiam os que, recusando-se a aceitá-los como atos psíquicos

válidos, afirmam ter os mesmos origem numa excitação fortuita dos elementos da mente.

Podemos aplicar a esse sonho uma técnica que constitui o procedimento regular para a

interpretação dos sonhos. Consiste em não prestar atenção nas conexões aparentes do sonho

manifesto, mas em concentrara atenção isoladamente em cada um dos elementos do seu

conteúdo, buscando sua origem nas impressões, lembranças e associações livres do sonhador.

Entretanto, como não podemos submeter Hanold a um interrogatório, teremos de nos contentar em

consultar suas impressões, e timidamente substituir suas associações pelas nossas.

„Sentada em algum lugar no sol, Gradiva caçava lagartos e falava.‟ A que impressões da

véspera alude essa parte do sonho? Sem dúvida ao encontro com o senhor idoso que caçava

lagartos, transformado pelo sonho em Gradiva. Ele estava sentado numa „encosta ensolarada‟ e

dirigiu-se a Hanold. As palavras pronunciadas por Gradiva no sonho foram copiadas da fala desse

homem: „O método inventado pelo nosso colega Eimer é realmente muito bom. Já o utilizei várias

vezes com excelentes resultados. Por favor, fique bem quieto‟. (ver em [1]) No sonho, Gradiva

proferiu quase as mesmas palavras. „Nosso colega Eimer‟, entretanto, transformou-se numa

anônima „colega‟; além disso, a expressão „muitas vezes‟, na fala do zoólogo, foi omitida no sonho

e a ordem das frases sofreu algumas alterações. A experiência da véspera, portanto, foi utilizada

pelo sonho e submetida a mudanças e distorções. Mas por que justamente essa experiência? E

qual o significado das alterações - a substituição do senhor idoso por Gradiva e a introdução de

uma misteriosa „colega‟?

Uma das regras da interpretação de sonhos é a seguinte: „Uma fala ouvida no sonho

sempre deriva de outra que o próprio sonhador ouviu ou pronunciou na vida de vigília. No sonho

em questão parece ter sido obedecida essa regra: a fala de Gradiva é uma simples modificação

das palavras ditas pelo zoólogo a Hanold na véspera. Outra regra da interpretação de sonhos diz

que a substituição de uma pessoa por outra, ou a combinação de duas pessoas (quando, por

exemplo, uma ocupa uma posição característica da outra), significa uma equiparação dessas

pessoas, a existência de uma semelhança entre elas. Se aplicarmos também essa regra a nosso

sonho, chegaremos à seguinte tradução: „Gradiva caça lagartos exatamente como aquele velho; é

tão perita nesse ofício quanto ele.‟ Isso ainda não está muito claro, e nos deixa ainda um outro

enigma: a que impressão da véspera podemos relacionar a „colega‟ que substitui o zoólogo Eimer

no sonho? Felizmente não temos muitas opções. Essa „colega‟ só pode significar outra jovem - isto

é, a simpática jovem que Hanold julgara ser a irmã que viajava com o irmão. „Ela usava no vestido

uma rosa vermelha de Sorrento que despertou no arqueólogo, sentado a um canto do salão de

jantar, uma recordação imprecisa.‟ (ver em [1]) Essa observação do autor dá-nos o direito de supor

ser essa jovem „a colega‟ do sonho. Sem dúvida aquilo de que Hanold não podia recordar-se eram

as palavras que a suposta Gradiva lhe dirigira ao pedir-lhe as flores brancas dos mortos, pois as

mais afortunadas recebiam rosas na primavera. (ver em [2]) Por trás dessas palavras, entretanto,

havia um apelo amoroso, uma tentativa de sedução. Assim, que espécie de caça de lagartos teria

a sua „colega‟ mais afortunada levado a termo com tanto êxito?

No dia seguinte Hanold encontrou os supostos irmãos num terno abraço e pôde, assim,

retificar seu engano. Na verdade o par estava em lua-de-mel, como descobrimos mais tarde,

quando interromperam de forma tão inesperada o terceiro encontro de Hanold com Zoe. Se agora

estivermos dispostos a admitir que Hanold, embora conscientemente os julgasse irmãos,

reconhecera inconscientemente a verdadeira relação deles (revelada de forma inequívoca no dia

seguinte), a fala de Gradiva no sonho irá adquirir um claro significado. A rosa vermelha tornara-se

o símbolo de uma ligação amorosa. Hanold tinha ciência de que aqueles dois já eram um para o

outro o que ele e Gradiva ainda tinham de se tornar. A caça de lagartos adquiriu o sentido de caça

do homem, e é o seguinte o significado da fala de Gradiva: „Deixa-me agir sozinha, que saberei

conquistar um marido tão bem quanto qualquer outra moça.‟

Mas por que foi necessário que essa percepção dos propósitos de Zoe aparecesse no

sonho sob a forma da fala do velho zoólogo? Por que a perícia de Zoe na caça de marido foi

representada pela perícia do velho senhor na caça de lagartos? Bem, essa pergunta não oferece

nenhuma dificuldade. Há muito advinhamos que o caçador de lagartos não é senão Bertgang, o

professor de zoologia e pai de Zoe, que certamente também conhecia Hanold - o que explica o fato

de o ter interpelado como a um conhecido. Vamos admitir também que, inconscientemente, Hanold

houvesse reconhecido o catedrático. „Teve a vaga impressão de que já vira rapidamente o caçador

de lagartos, provavelmente num dos dois hotéis.‟ Está assim explicado o estranho disfarce sob o

qual surgia a intenção atribuída a Zoe: ela era a filha do caçador de lagartos e dele herdara a

perícia.

A substituição, no conteúdo do sonho, do caçador de lagarto por Gradiva é, portanto, uma

representação da relação entre essas duas figuras, a qual Hanold conhecia em seu inconsciente. A

substituição do „nosso colega Eimer‟ por „uma colega‟ permitiu ao sonho expressar a compreensão

de Hanold quanto ao fato de que Gradiva empreendia uma conquista amorosa. Até aqui o sonho

fundiu (condensou, diríamos) duas experiências da véspera em uma única situação, a fim de

exprimir (de forma muito obscura, é verdade) duas descobertas que não tinham permissão de se

tornarem conscientes. Mas podemos prosseguir, tornar o sonho menos estranho e demonstrar a

influência das outras experiências da véspera sobre a forma assumida pelo sonho manifesto.

Não estamos satisfeitos com a explicação até agora obtida para a escolha da cena da caça

ao lagarto como núcleo do sonho, e suspeitamos que outros elementos dos pensamentos oníricos

pesaram na ênfase dada ao „lagarto‟ no sonho manifesto. Isso é bem fácil de demonstrar. Deve ser

lembrado (ver em [1] e [2]) que Hanold descobrira uma fenda na parede, no ponto onde Gradiva

aparentemente desaparecera - fenda „que era suficientemente larga para permitir que uma pessoa

muito esbelta‟ passasse. Essa observação levou-o durante o dia a introduzir uma modificação em

seu delírio: Gradiva não sumira nas entranhas da terra, mas esgueirara-se pela fenda para voltar

ao seu túmulo. Em seus pensamentos inconscientes, ele deve ter dito a si mesmo que descobrira a

explicação natural para o surpreendente desaparecimento da jovem. Mas esse desaparecimento

pela penetração numa fenda estreita não deve ter lembrado o comportamento dos lagartos? Não

estava assim a própria Gradiva agindo como um ágil lagarto? Ao nosso ver, portanto, a descoberta

da fenda contribuiu para determinar a escolha do elemento „lagarto‟ no conteúdo manifesto do

sonho. A cena do lagarto no sonho representava tanto essa impressão da véspera quanto o

encontro com o zoólogo, o pai de Zoe.

E que tal se agora tentássemos procurar no conteúdo do sonho a representação da única

experiência da véspera que ainda não foi explorada, ou seja, a descoberta do terceiro hotel, o

Albergo del Sole? O autor expôs esse episódio com tanta minúcia, relacionando-lhe tantos

elementos, que nos surpreenderia constatar que o mesmo em nada tenha contribuído para a

construção do sonho. Hanold entrou nesse hotel, que desconhecia devido a sua situação retirada e

distante da estação, para comprar uma garrafa de água gasosa que aliviasse seu mal-estar. O

proprietário aproveitou a oportunidade para exibir suas antiguidades, e mostrou-lhe um broche

dizendo que o mesmo tinha pertencido à jovem pompeana encontrada junto ao foro nos braços do

seu amado. Hanold, que conhecia essa história, mas até então nunca lhe dera crédito, viu-se

compelido por uma força desconhecida a acreditar na tocante lenda e na autenticidade do broche;

adquiriu-o e deixou o hotel. Ao sair, viu num copo d‟água, no peitoril de uma janela, um galho

florido de asfódelo, e tomou essa descoberta como uma confirmação da autenticidade de sua

aquisição. Sentiu uma firme convicção de que o broche pertencera a Gradiva, e que era ela a

jovem morta nos braços do amado. Dominou o ciúme que se apossara dele decidindo-se a, no dia

seguinte, mostrar o broche à própria Gradiva e averiguar a validade de suas suspeitas. Sem dúvida

é muito curioso esse novo elemento do seu delírio, e seria de esperar que aparecessem traços do

mesmo no sonho de Hanold daquela mesma noite.

Valerá a pena, certamente, elucidar a origem desse novo acréscimo do delírio, procurando

a descoberta inconsciente que teria sido substituída por esse novo elemento do delírio. O delírio

surgiu sob a influência do proprietário do „Hotel do Sol‟, em relação a quem Hanold se comportava

de forma tão crédula como se tivesse sido vítima de uma sugestão hipnótica. O hoteleiro

mostrou-lhe um broche que supostamente teria pertencido a uma jovem soterrada nos braços do

amado; e Hanold, que possuía suficiente espírito crítico para questionar tanto a veracidade da

história como a autenticidade do broche, deixou-se convencer com toda a facilidade e adquiriu a

mais do que duvidosa antiguidade. O motivo que o levou a proceder assim é incompreensível, e

nada nos induz a concluir que a solução esteja na personalidade do hoteleiro. Contudo, há ainda

outro aspecto enigmático, e dois enigmas geralmente elucidam-se reciprocamente. Ao sair do

albergo, ele viu um galho de asfódelo numa janela, e tomou-o como uma confirmação da

autenticidade do broche. Por que motivo? Felizmente esse problema é de fácil solução. A flor

branca era sem dúvida a mesma que ele dera a Gradiva ao meio-dia, e ao vê-la na janela do hotel

alguma coisa foi confirmada. Não a autenticidade do broche, mas outro fato que já se tornara claro

para ele ao encontrar aquele albergo cuja existência ignorara. Já na véspera, comportara-se como

se estivesse procurando a suposta Gradiva nos outros dois hotéis de Pompéia. Ao deparar

inesperadamente com um terceiro, no seu inconsciente ele deve ter exclamado: „Então é aqui que

ela se hospeda!‟ E na saída deve ter acrescentado: „Sim, é aqui mesmo! Lá está o ramo de

asfódelo que dei a ela! Aquela deve ser a janela do seu quarto!‟ Era essa, então, a nova

descoberta que foi substituída pelo novo delírio, e que não podia tornar-se consciente, pois seu

postulado subjacente de que Gradiva era uma pessoa viva que ele conhecera não podia tornar-se

consciente.

Mas como se deu essa substituição da nova descoberta pelo delírio? Julgo que a

convicção inerente à descoberta pôde subsistir, ao passo que a própria descoberta, inadmissível à

consciência, foi substituída por outro conteúdo ideativo ligado a ela por associações de

pensamento. Assim, aquela convicção ligou-se a um conteúdo que na realidade lhe era estranho,

conteúdo este que, sob a forma de um delírio, logrou uma imerecida aceitação. Hanoldtransferiu

sua convicção de que Gradiva era hóspede daquele hotel para outras impressões ali recebidas;

isso conduziu à credulidade diante do hoteleiro, à aceitação da autenticidade do broche e da lenda

dos dois amantes mortos abraçados - mas somente através da ligação entre o que ouviu no hotel e

Gradiva. O ciúme nele latente alimentou-se desse material, resultando no delírio (o qual,

entretanto, contradizia seu primeiro sonho) de que a jovem morta nos braços do amado era

Gradiva e que o broche por ele adquirido pertencera a ela.

Deve-se observar que a conversa com Gradiva e a alusão desta (através da referência às

flores) à intenção da conquista amorosa já haviam provocado importantes modificações em

Hanold. Começaram a despertar nele traços de desejo masculino - componentes da libido -, ainda

que ocultos sob pretextos conscientes. Contudo, o problema da „natureza corpórea‟ de Gradiva,

que o atormentava o dia inteiro (ver em [1] e [2]), originou-se de uma curiosidade erótica de jovem

a respeito do corpo da mulher, ainda que essa curiosidade estivesse envolvida em uma questão

científica pela insistência consciente sobre a estranha oscilação de Gradiva entre a vida e a morte.

O ciúme era mais um sinal do aspecto cada vez mais ativo do amor de Hanold; este expressou

esse ciúme no início da conversa que tiveram no dia seguinte, e recorrendo a um novo pretexto

tocou no corpo da jovem - batendo, como era seu hábito no passado.

Chegou, porém, a hora de indagarmos se o método de construir um delírio, extraído por

nós da narrativa, encontra comprovação em outras fontes, ou se de alguma forma ele é possível.

Nosso conhecimento médico leva-nos a afirmar que esse método é certamente o método correto, e

talvez o único pelo qual o delírio adquire a convicção inabalável que é uma de suas características

clínicas. Essa crença profunda que o paciente tem em seu delírio não provém de seus elementos

falsos, nem é motivada por uma incapacidade da faculdade de julgamento. Acontece que existe

uma parcela de verdade oculta em todo delírio, um elemento digno de fé, que é a origem da

convicção do paciente, a qual, portanto, até certo ponto é justificada. Esse elemento verdadeiro,

porém, há muito foi reprimido. Se, de forma distorcida consegue chegar à consciência, dá-se uma

intensificação da convicção que lhe está ligada, como uma espécie de compensação, e que se liga

ao substituto distorcido da verdade reprimida, protegendo-o de quaisquer ataques críticos. É como

se a convicção se deslocasse da verdade consciente para o erro consciente que está ligado a ela,

ali fixando-se justamente em conseqüência desse deslocamento. No delírio que se forma a partir

do primeiro sonho de Hanold encontramos um exemplo de deslocamento semelhante, embora não

idêntico, ao que descrevemos. Na verdade, esse método através do qual a convicção surge no

caso de um delírio basicamente em nada difere do método através do qual a convicção se forma

em casos normais, onde a repressão não faz parte do quadro. Todos nós emprestamos nossa

convicção a conteúdos de pensamento em que se combinam a verdade e o erro, deixando-a

estender-se da primeira ao último. É como se a convicção se propagasse da verdade ao erro a ela

ligado, protegendo-o das merecidas críticas, embora não tão vigorosamente como no caso de um

delírio. Assim, também na psicologia normal, ser bem relacionado - „ter influência‟, por assim dizer -

pode substituir um valor real.

Voltarei agora ao sonho para examinar um interessante pormenor que estabelece uma

conexão entre duas causas que o provocaram. Gradiva salientara uma espécie de contraste entre

os botões brancos de asfódelo e as rosas vermelhas. O reencontro do ramo de asfódelo na janela

do Albergo del Sole constituiu para Hanold um importante indício que corroborava sua descoberta

inconsciente, que encontrou expressão no novo delírio. A isso acrescentou-se o fato de que a rosa

vermelha presa ao vestido da simpática recém-casada auxiliou Hanold a ver inconscientemente a

natureza da relação que a unia a seu companheiro, tornando possível o aparecimento da jovem no

sonho como a „colega‟.

Mas certamente irão indagar onde, no conteúdo manifesto do sonho, encontramos algo

que indique e substitua a descoberta para a qual, como vimos, o novo delírio de Hanold era um

substituto - a descoberta de que Gradiva e seu pai estavam hospedados naquele hotel menos

conhecido de Pompéia, o Albergo del Sole? Está tudo no sonho, e não muito distorcido; hesito,

entretanto, em apontá-lo por saber que mesmo os leitores que até aqui me seguiram com

paciência irão rebelar-se vigorosamente contra minhas tentativas de interpretação. A descoberta

de Hanold é anunciada completamente no sonho, mas sob um disfarce tão engenhoso que

forçosamente passa desapercebida. Encontra-se oculta sob um jogo de palavras, uma

ambigüidade. „Sentada em algum lugar no sol, Gradiva…‟ Acertadamente relacionamos essas

palavras ao local onde Hanold encontrou o zoólogo, o pai da jovem. Mas esse „no sol‟ não poderia

significar „no Sol‟, isto é, que Gradiva estava no Albergo del Sole, o Hotel do Sol? Esse „em algum

lugar‟, que não descreve a situação do encontro com o pai dela, não teria esse caráter tão

falsamente vago justamente por esconder uma indicação precisa do paradeiro de Gradiva? Minha

longa experiência na interpretação de sonhos reais me garante ser este o sentido dessa

ambigüidade. Contudo, eu não teria ousado apresentar a meus leitores essa interpretação, se o

autor não viesse aqui em meu auxílio. Ele coloca na boca da jovem o mesmo jogo de palavras

quando, no dia seguinte, ela viu o broche: „Acaso o encontraste no sol? pois o sol faz coisas

semelhantes.‟ (ver em [1]) Ao perceber que o rapaz não entendera o significado de suas palavras,

ela explicou que se referia ao Hotel do Sol, que chamavam de „Sole‟, e onde já vira a suposta

antiguidade.

Vamos agora tentar substituir o „singularmente insensato‟ sonho de Hanold pelos

pensamentos inconscientes que estão por trás do mesmo e que são tão diversos dele. Talvez

esses pensamentos possam ser expressos da seguinte forma: „Ela está hospedada no “Sol” com o

pai. Por que ela se diverte comigo dessa maneira? Estará apenas brincando, ou será que me ama

e me quer como esposo?‟ Certamente ainda durante o sono veio uma resposta que punha de lado

essa última possibilidade como „completa insensatez,‟ juízo que na aparência se estendia a todo o

sonho manifesto.

Alguns leitores mais críticos irão, muito justamente, conjeturar sobre a origem da

interpolação (até aqui não justificada) da referência a estar sendo ridicularizado por Gradiva. A

resposta a essa pergunta é dada em AInterpretação de Sonhos, que explica que, se nos

pensamentos oníricos há zombaria, menosprezo ou escárnio, isso é expresso pela forma insensata

do sonho manifesto, pelo absurdo do sonho. Esse absurdo não significa uma paralisação da

atividade psíquica, constituindo apenas um método de representação utilizado pela elaboração

onírica. Como vem acontecendo nos pontos particularmente difíceis, também aqui o autor acorre

em nosso auxílio. Esse sonho sem sentido teve um curto epílogo, no qual surgiu um pássaro que,

emitindo um pio sarcástico, se apoderou do lagarto. Hanold, porém, já ouvira um som semelhante,

logo após o desaparecimento de Gradiva (ver em [1]). Na verdade esse som sarcástico era o riso

de Zoe ao se ver livre do seu lúgubre papel de fantasma. Portanto, Gradiva realmente rira dele.

Contudo, a imagem onírica do pássaro arrebatando em seu bico o lagarto era provavelmente uma

recordação de um sonho anterior, no qual Apolo do Belvedere afastava-se carregando a Vênus

Capitolina (ver em [1]).

Talvez para alguns leitores a tradução da cena da caça ao lagarto como um convite

amoroso não seja de todo convincente. Um novo argumento favorável à sua validade pode ser

fornecido pela consideração do diálogo com a amiga recém-casada, no qual Zoe confirmou as

suspeitas de Hanold - ao mencionar sua anterior convicção de poder „desencavar‟ algo de

interessante em Pompéia. Ela como que invadia o campo da arqueologia, da mesma forma que,

utilizando o símile da caça ao lagarto, ele invadia o campo da zoologia; assim, os dois como que

se lançavam um para o outro, cada qual tentando assumir o caráter do outro.

Nesse ponto parece que terminamos a interpretação do segundo sonho. Fomos capazes

de compreender tanto esse como o anterior apoiando-nos na pressuposição de que o sonhador

sabe, em seus pensamentos inconscientes, de tudo aquilo que esqueceu em seus pensamentos

conscientes, e de que nos primeiros avalia corretamente o que nos últimos transforma em delírio.

No curso de nossa argumentação fomos, sem dúvida, obrigados a fazer afirmações que, por serem

novas, devem ter parecido muito estranhas ao leitor; e talvez amiúde este tenha suspeitado que

atribuímos ao autor intenções que eram só nossas. Estou ansioso por fazer o possível para afastar

essa suspeita, revendo com prazer e maior minúcia um dos pontos mais delicados: o uso de

palavras e frases ambíguas, tais como „Sentada em algum lugar no sol, Gradiva…‟

Quem quer que leia Gradiva certamente notará a freqüência com que o autor coloca frases

ambíguas na boca de seus dois personagens principais. Ao pronunciá-las Hanold não tinha

consciência dessa ambigüidade, e somente a heroína lhes percebia o segundo sentido. Quando,

por exemplo, ao ouvir as primeiras palavras da jovem, ele retrucou: „Já sabia como soaria a tua

voz‟ (ver em [1]), ignorando-lhe o sonho, Zoe perguntou como isso era possível, já que ele nunca a

ouvira falar. Em sua segunda conversa, por um momento ela põe em dúvida o delírio dele, diante

da afirmação de a ter reconhecido à primeira vista (ver em [2]). Zoe não pôde evitar de ver nessas

palavras um reconhecimento da amizade infantil de ambos (dedução correta no que diz respeito ao

inconsciente dele), ao passo que ele naturalmente não percebeu esse sentido da própria

exclamação, julgando que a mesma se relacionava somente ao delírio que o dominava. Por outro

lado, as palavras da jovem, cuja personalidade, numa total oposição ao delírio de Hanold,

demonstrava uma extrema lucidez e clareza de espírito, assumem muitas vezes uma ambigüidade

intencional. Um dos sentidos dessas palavras ajusta-se ao delírio de Hanold, dirigindo-se à sua

compreensão consciente, mas o outro sentido ultrapassa o delírio e em geral fornece-nos sua

tradução para a verdade inconsciente que ele representa. Essa capacidade de dar expressão ao

delírio e à verdade numa mesma frase é um triunfo do engenho e do espírito.

A fala em que Zoe explica a situação à amiga e, ao mesmo tempo, livra-se da importuna

(ver a partir de [1]), está cheia de ambigüidades desse tipo. Na realidade, trata-se de uma fala feita

pelo autor e dirigida mais ao leitor do que à „colega‟ recém-casada de Zoe. Nos diálogos de Zoe

com Hanold a ambigüidade é atingida por Zoe através do mesmo simbolismo encontrado no

primeiro sonho de Hanold - em que o soterramento equivale à repressão e a infância a Pompéia.

Assim, em suas palavras a jovem, por um lado, mantém-se fiel ao papel que lhe foi dado pelo

delírio de Hanold e, por outro lado, alude às circunstâncias reais a fim de despertar no inconsciente

de Hanold a compreensão das mesmas.

„Há muito que me acostumei a estar morta.‟ (90 (ver em [1]).) „Essas flores do

esquecimento são mais apropriadas para mim.‟ [Ibid.] Nessas frases há um leve prenúncio das

censuras a que mais tarde a jovem deu vazão na reprimenda em que o comparou a um

arqueoptérix. (ver a partir de [2]) „Tu te referes ao fato de que alguém tenha de morrer para chegar

a estar vivo; mas sem dúvida isso tem de ser assim mesmo para os arqueólogos.‟ (ver em [3])

Essas últimas palavras pronunciadas por ela, após o desvanecimento do delírio, são uma chave

para suas falas ambíguas. Mas foi ao perguntar: „Não te recordas que já compartilhamos uma vez

de uma refeição semelhante há dois mil anos atrás?‟ (118 (ver em [4]).) que ela utilizou o

simbolismo com maior felicidade. Aqui são evidentes a substituição da infância pelo passado

histórico e o esforço para despertar as lembranças daquela.

Mas qual é a origem dessa singular preferência em Gradiva por falas ambíguas?

Parece-nos não ser uma casualidade, mas uma conseqüência necessária das premissas da

história. Trata-se da contraparte da dupla determinação dos sintomas, já que as falas em si

constituem sintomas e, como eles, surgem de conciliações entre o consciente e o inconsciente.

Simplesmente acontece que essa dupla origem é mais evidente em falas do que em atos. E

quando acontece de, devido à natureza maleável do material verbal, essa dupla intenção que está

por trás da fala poder ser expressa com êxito pelas mesmas palavras, temos o que denominamos

de „ambigüidade.‟

No decorrer do tratamento psicoterapêutico de um delírio ou de uma perturbação análoga,

o paciente com freqüência produz ambigüidades desse tipo, como novos sintomas passageiros, e

às vezes o próprio médico pode servir-se delas. Pode também dessa forma, através do sentido

pretendido para o consciente do paciente, despertar o conhecimento do sentido que se aplica ao

inconsciente. Sei por experiência própria que o papel desempenhado pela ambigüidade pode

provocar violenta objeção entre os que desconhecem o assunto, sendo capaz também de provocar

sérios mal-entendidos. Mas mesmo assim o autor agiu certamente ao reservar em sua criação um

lugar para esse aspecto característico do que ocorre na formação de sonhos e delírios.

A emergência de Zoe enquanto médica, como já assinalei, despertou em nós um novo

interesse. Ansiamos por saber se uma cura semelhante à por ela realizada em Hanold é possível

ou mesmo plausível, e se o autor expôs as condições do desaparecimento do delírio tão

corretamente como mostrou as de sua gênese.

Nesse ponto certamente surgirá uma opinião que irá negar qualquer interesse geral ao

caso apresentado pelo autor, assim como contestar a existência de qualquer problema que

necessite de solução. Hanold, dirão, não teve outra alternativa senão a de abandonar seu delírio

quando a suposta „Gradiva‟, que constituía objeto do mesmo, mostrou-lhe a incorreção de todas as

hipóteses, fornecendo-lhe a explicação natural dos enigmas - por exemplo, o fato de ela saber o

nome dele. Esse deveria ser o término lógico da questão, mas como a jovem revelara a ele seu

amor, o autor, sem dúvida para agradar às suas leitoras, arranjou os fatos para que sua história,

sob outros aspectos bastante interessante, tivesse o usual final feliz do casamento. Argumentarão

também que seria mais lógico e igualmente possível se o jovem cientista, ao reconhecer os seus

enganos, se despedisse da dama com corteses agradecimentos e justificasse sua recusa do amor

dela pelo fato de que, enquanto era capaz de se interessar vivamente por antigas esculturas

femininas de mármore e bronze ou pelas mulheres que lhe haviam servido de modelo, nenhuma

serventia possuíam para ele suas contemporâneas de carne e osso. Em resumo, o autor, de forma

totalmente arbitrária, acrescentou uma história de amor à sua fantasia arqueológica.

Ao rejeitarmos como inaceitáveis essas concepções, observaremos em primeiro lugar que

os primórdios da transformação de Hanold não foram caracterizados apenas pelo abandono do

delírio. Simultaneamente, ou mesmo antes do desaparecimento do delírio, ressurgiu no herói uma

inconfundível ânsia de amar, que o levou, como seria de esperar, a cortejar a jovem que o libertara

de seu delírio. Já ressaltamos os pretextos e os disfarces sob os quais sua curiosidade sobre a

„natureza corpórea‟ dela, seu ciúme e seu brutal instinto masculino de domínio foram expressos em

seu delírio, depois que seu desejo erótico reprimido deu origem ao primeiro sonho. Como nova

confirmação disso podemos lembrar que, na noite depois do seu segundo encontro com Gradiva,

ele sentiu pela primeira vez simpatia por uma mulher viva, embora, como concessão ao seu antigo

horror pelos casais em lua-de-mel, não a reconhecesse como sendo recém-casada. Na manhã

seguinte, entretanto, ao surpreender casualmente a atitude amorosa entre a jovem e seu suposto

irmão, retirou-se reverentemente, como se houvesse interrompido algum ato sagrado (ver em [1]).

Esquecera o quando menosprezara todos aqueles „Edwins e Angelinas‟ e recuperara o respeito

pelo lado erótico da vida.

O autor estabelece assim uma íntima ligação entre o desvanecimento do delírio e o

ressurgimento da ânsia de amar, preparando o caminho para o inevitável desenlace amoroso. Ele

conhece a natureza básica do delírio melhor do que seus críticos: sabe que o delírio resultou da

combinação de um componente do desejo amoroso com a resistência a esse desejo, e deixa que a

jovem encarregada da cura se aperceba do elemento que lhe é agradável. Foi somente esse

conhecimento que fez com que ela se decidisse a dedicar-se ao tratamento; foi somente a certeza

de ser amada pelo jovem que a induziu a confessar-lhe seu amor. O tratamento consistiu em

dar-lhe acesso, pelo exterior, às lembranças reprimidas que ele não conseguia atingir no seu

interior; contudo, o tratamento frustar-se-ia se durante o mesmo a terapeuta não houvesse levado

em conta os sentimentos dele, e se sua tradução final do delírio não houvesse sido a seguinte:

„Olha, tudo isso significa apenas que tu me amas.‟

O processo que o autor faz Zoe adotar na cura do delírio do seu companheiro de infância

mostra, mais do que uma grande semelhança, uma total conformidade em sua essência com o

método terapêutico que o Dr. Josef Breuer e eu introduzimos na medicina em 1895, e a cujo

aperfeiçoamento desde então me tenho dedicado. Esse método de tratamento, a que inicialmente

Breuer chamou de „catártico‟, mas que prefiro denominar de „psicanalítico‟, consiste, aplicado a

pacientes que sofrem de perturbações semelhantes ao delírio de Hanold, em lhes fazer chegar à

consciência, até certo ponto forçadamente, o inconsciente cuja repressão provocou a enfermidade

- exatamente como Gradiva fez com as lembranças reprimidas da amizade de infância que a unira

a Hanold. É verdade que para ela essa tarefa era mais fácil do que para um médico: por muitas

razões a sua posição podia ser considerada ideal para isso. O médico, que não tem conhecimento

anterior do paciente e que não possui lembrança consciente do que atua inconscientemente nesse

paciente, precisa utilizar uma técnica complexa para compensar essa desvantagem. Deve

aprender a deduzir com segurança, das comunicações e associações conscientes do paciente, o

que neste está reprimido, e a descobrir o inconsciente dele através de suas palavras e seus atos

conscientes. Ele então obtém algo semelhante ao que Norbert Hanold percebeu no fim da história,

quando traduziu o nome „Gradiva‟ a partir de „Bertgang‟. (ver em [1]) Ao serem identificadas as

suas origens, a perturbação desaparece; da mesma forma, a análise produz simultaneamente a

cura.

Mas a semelhança entre o processo empregado por Gradiva e o método analítico de

psicoterapia não se limita a esses dois aspectos - tornar consciente o que foi reprimido e fazer

coincidir o esclarecimento e a cura. Estende-se também ao que consideramos o ponto fundamental

de toda a modificação: o despertar dos sentimentos. Toda perturbação semelhante ao delírio de

Hanold, o que em termos científicos chamamos habitualmente de „psiconeurose‟, tem como

precondição a repressão de uma parcela da vida instintual ou, já podemos afirmar, do instinto

sexual. A cada tentativa de fazer chegar à consciência as causas reprimidas e inconscientes da

doença, o componente instintual em questão é necessariamente despertado para uma nova luta

com as forças repressoras, com as quais só entra em acordo no resultado final, geralmente

acompanhado de violentas manifestações de reação. O processo de cura é realizado numa

reincidência no amor, se no termo „amor‟ combinamos todos os diversos componentes do instinto

sexual; tal reincidência é indispensável, pois os sintomas que provocaram a procura de um

tratamento nada mais são do que precipitados de conflitos anteriores relacionados com a

repressão ou com o retorno do reprimido, e só podem ser eliminados por uma nova ascensão das

mesmas paixões. Todo tratamento psicanalítico é uma tentativa de libertar amor reprimido que na

conciliação de um sintoma encontrara escoamento insuficiente. Na verdade, o ponto culminante da

semelhança entre Gradiva está no fato de que também na psicoterapia analítica a paixão que

ressurge, seja ódio ou amor, invariavelmente escolhe como objeto a figura do médico.

É nesse ponto que começam as diferenças, as quais fazem do caso de Gradiva um caso

ideal que não pode ser igualado pela técnica médica. Gradiva podia corresponder ao amor que

passou do inconsciente à consciência, mas o médico não pode fazer isso. Gradiva fora objeto do

antigo amor reprimido; sua figura constituía uma meta desejável para a corrente amorosa liberada.

O médico era um estranho e deve esforçar-se para voltar a sê-lo depois da cura; geralmente fica

embaraçado quanto a indicar aos pacientes curados como empregar na vida real a capacidade de

amar que recuperaram. Para descrever os meios e os substitutos utilizados pelo médico para

aproximar-se com maior ou menor êxito do modelo de cura pelo amor que nos foi mostrado pelo

autor, iríamos afastar-nos demasiado da tarefa que nos propusemos.

E passemos agora à pergunta final, da qual mais de uma vez fugimos. (ver em [1] e [2])

Nossas concepções sobre a repressão, a gênese de delírios e perturbações correlatas, a formação

e solução de sonhos, o papel da vida erótica, o método através do qual tais perturbações são

curadas está longe de ser endossado por todos os cientistas, e muito menos aceito pela maioria

dos homens cultos. Se a compreensão interna (insight) que possibilitou ao autor a criação de sua

„fantasia‟ de tal modo que pudesse ser analisada por nós como se fosse um caso clínico

verdadeiro foi da natureza de um conhecimento, gostaríamos de conhecer as fontes desse

conhecimento. Um membro do nosso grupo - o mesmo que, como eu disse no início, estava

interessado nos sonhos de Gradiva e em sua possível interpretação (ver em [1]) dirigiu-se ao autor

para lhe perguntar se conhecia alguma coisa de tais teorias científicas. Como era de esperar, o

autor respondeu negativamente, e de maneira um tanto brusca. A inspiração para a Gradiva, disse

ele, fora sua própria imaginação, e ela lhe dera grande prazer. Aqueles que não gostassem da

obra, acrescentou, deveriam deixá-la de lado. Na verdade, o autor nem de longe suspeitava o

quanto havia agradado a seus leitores.

É bem possível que a desaprovação do autor não pare aí. Talvez ele também negue ter

qualquer conhecimento das regras a que obedeceu, segundo nossa exposição, e repudie os

propósitos que reconhecemos em sua obra. Se for este o caso, que não julgo improvável, só

existem duas explicações possíveis. Talvez tenhamos produzido apenas uma caricatura de uma

interpretação, atribuindo a uma inocente obra de arte propósitos desconhecidos pelo autor, e

demonstrando assim, mais uma vez, como é fácil vermos em toda a parte aquilo que se procura e

que está ocupando nossa mente - possibilidade da qual a história da literatura nos fornece os

exemplos mais estranhos. Que o leitor decida agora se essa explicação o satisfaz. Naturalmente

preferimos optar pela outra alternativa. Acreditamos que o autor não necessitava conhecer essas

regras e propósitos, podendo então tê-las refutado de boa fé, mas acreditamos também que nada

descobrimos em sua obra que ali não exista. Provavelmente bebemos na mesma fonte e

trabalhamos com o mesmo objeto, embora cada um com seu próprio método. A concordância entre

nossos resultados parece garantir que ambos trabalhamos corretamente. Nosso processo consiste

na observação consciente de processos mentais anormais em outras pessoas, com o objetivo de

poder deduzir e mostrar suas leis. Sem dúvida o autor procede de forma diversa. Dirige sua

atenção para o inconsciente de sua própria mente, auscultando suas possíveis manifestações, e

expressando-as através da arte, em vez de suprimi-las por uma crítica consciente. Desse modo,

experimenta a partir de si mesmo o que aprendemos de outros: as leis a que as atividades do

inconsciente devem obedecer. Mas ele não precisa expor essas leis, nem dar-se claramente conta

delas; como resultado da tolerância de sua inteligência, elas se incorporam à sua criação.

Descobrirmos essas leis pela análise de sua obra, da mesma forma que as encontramos em casos

de doenças reais. A conclusão evidente é que ambos, tanto o escritor como o médico, ou

compreendemos com o mesmo erro o inconsciente, ou o compreendemos com igual acerto. Essa

conclusão é muito valiosa para nós, e para chegar a ela valeu a pena investigar pelos métodos da

psicanálise médica o modo como são representados a formação e a cura dos delírios, assim como

os sonhos, na Gradiva de Jensen.

Parece que chegamos ao fim. Mas um leitor atento poderia advertir-nos que no início (ver

em [1]) afirmamos serem os sonhos a representação da realização de um desejo, e não

oferecemos prova alguma dessa asserção. Responderemos que essas páginas devem mostrar

quão pouco justificável é tentar abranger as nossas explicações a respeito dos sonhos com a

simples fórmula de que são a realização de um desejo. Mantemos, entretanto, nossa afirmação, e

podemos prová-la com facilidade nos sonhos de Gradiva. Os pensamentos oníricos latentes -

sabemos agora o que são - podem ser dos mais diversos tipos; em Gradiva são resíduos diurnos,

pensamentos que passaram desapercebidos e não foram trabalhados pelas atividades mentais da

vida de vigília. Mas para que deles resulte um sonho é necessária a cooperação de um desejo

(geralmente inconsciente); isso fornece a força motivadora para a construção do sonho, enquanto

o material é fornecido pelos resíduos diurnos. Na formação do primeiro sonho de Norbert Hanold,

dois desejos competiam entre si; um deles era consciente, enquanto o outro era inconsciente e

atuava sob a repressão. O primeiro, muito compreensível num arqueólogo, era o desejo de ter

testemunhado a catástrofe do ano 79 D.C. Que sacrifícios não faria um arqueólogo para que esse

desejo fosse realizado sem ser em sonhos! O outro desejo, o outro construtor do sonho, era de

natureza erótica: de forma grosseira e incompleta podemos dizer que era um desejo de estar

presente quando a jovem que ele amava se deitou para dormir. Foi a rejeição desse desejo que

transformou o sonho em sonho de ansiedade. Os desejos que constituíam as forças motivadoras

do segundo sonho talvez sejam menos evidentes, mas se nos recordarmos de sua tradução não

hesitaremos em classificá-los como eróticos. O desejo de ser aprisionado pela jovem que amava,

de obedecer seus desejos e submeter-se a ela - pois assim podemos explicar o desejo oculto pela

caça ao lagarto - era na verdade de caráter passivo e masoquista. No dia seguinte Hanold agrediu

a jovem, como se então o dominasse uma tendência erótica inversa… Mas paremos por aqui, ou

poderemos esquecer que Hanold e Gradiva são apenas criações da mente de seu autor.

PÓS-ESCRITO À SEGUNDA EDIÇÃO (1912)

Nos cinco anos que decorreram desde o término deste estudo, a investigação psicanalítica

encorajou-se a examinar as criações dos escritos imaginativos tendo em vista outro propósito. Não

mais procura nelas somente uma confirmação das descobertas feitas em seres humanos

neuróticos e banais; também quer conhecer o material de lembranças e impressões no qual o

autor baseou a obra, e os métodos e processos pelos quais converteu esse material em obra de

arte. Essas perguntas podem ser respondidas com maior facilidade no caso de escritores que

(como Wilhelm Jensen, falecido em 1911) costumavam entregar-se inteiramente à sua imaginação

pela simples alegria de criar. Pouco depois da publicação do meu exame analítico de Gradiva,

tentei interessar seu idoso autor por essas novas tarefas da pesquisa psicanalítica. Ele, porém,

recusou sua cooperação.

Mais tarde um amigo chamou minha atenção para dois outros contos do autor, com os

quais Gradiva pode ter tido uma relação genética e que constituem estudos preliminares ou

tentativas anteriores de uma solução poética satisfatória do mesmo problema da psicologia do

amor. A primeira dessas histórias, „Der rote Schirm‟, lembra Gradiva, não só pela recorrência de

pequenos motivos, como as flores brancas dos mortos, um objeto esquecido (o caderno de

esboços de Gradiva) e a importância de pequenos animais (a borboleta e o lagarto em Gradiva),

mas também principalmente pela repetição da situação principal: a aparição ao sol ardente do

meio-dia de uma jovem falecida (ou supostamente falecida). Em „Der rote Schirm‟ a cena da

aparição é um castelo em ruínas, tal como as ruínas das escavações de Pompéia em Gradiva. O

outro conto, „Im gotischen Hause‟, não se assemelha a Gradiva ou a „Der rote Schirm‟ no conteúdo

manifesto, mas o fato de lhe ter sido atribuída uma unidade externa com essa última, tendo as

duas histórias sido publicadas num único volume sob um mesmo título, indica inegavelmente a

existência de um sentido latente comum. É fácil perceber que essas três histórias tratam do mesmo

tema: o desenvolvimento do amor (em „Der rote Schirm‟, a inibição do amor) como conseqüência

posterior de uma íntima ligação infantil de natureza fraternal. Através de uma resenha da condessa

Eva Baudissin (no diário vienense Die Zeit, de 11 de fevereiro de 1912) soube que o último

romance de Jensen, Fremdlinge unter den Menschen, que contém muito material da própria

infância do autor, é a história de um homem que „vê uma irmã na mulher que ele ama.‟ Em

nenhuma dessas duas histórias anteriores existem vestígios do motivo principal de Gradiva: o

singular e gracioso andar da jovem com a postura quase perpendicular do pé.

O relevo da jovem que caminha desse modo, a qual Jensen diz ser romana e à qual dá o

nome de „Gradiva‟, na verdade pertence ao período áureo da arte grega. Está no Museo

Chiaramonti do Vaticano (nº 644) e foi restaurado e interpretado por Hauser [1903]. Da união de

„Gradiva‟ com outros fragmentos, existentes em Florença e Munique, foram obtidos dois relevos,

cada qual representando três figuras, identificadas como as Horas, as deusas da vegetação, e as

divindades do orvalho fertilizador que são aliadas a elas.

A PSICANÁLISE E A DETERMINAÇÃO DOS FATOS

NOS PROCESSOS JURÍDICOS (1906)

NOTA DO EDITOR INGLÊS

TATBESTANDSDIAGNOSTIK UND PSYCHOANALYSE

(a) EDIÇÕES ALEMÃS:

1906 Arch. Krim. Anthrop., 26 (1), 1-10.

1909 S.K.S.N., 2, 111-21. (1912, 2ª ed.; 1921, 3ª ed.)

1924 G.S. 10, 197-209.

1941 G.W. 7, 3-15.

(b) TRADUÇÕES INGLESAS:

The Testimony of Witnesses and Psychoanalysis

1920 S.P.H., 216-25. (Somente na 3ª ed.) (Trad. de A.A. Brill.)

Psycho-Analysis and the Ascertaining of Truth in Courts of Law

1924 C.P., 2, 13-24. (Trad. de E.B.M. Herford.)

A presente tradução, com título alterado, baseia-se na que foi publicada em 1924.

A pedido do professor Löffler (catedrático de jurisprudência em Viena), esta conferência foi

pronunciada antes do seminário desse professor na Universidade, em junho de 1906. Existe uma

certa confusão a respeito da data de publicação. O número do periódico em que esta conferência

apareceu traz na primeira página a data de 21 de dezembro de 1907. Há aí, certamente, um erro

de impressão para „1906‟, pois os números seguintes trazem as datas de 6 de março de 1907 e 29

de abril 1907.

Esta conferência possui algum interesse histórico, pois é a primeira vez que num trabalho

publicado de Freud se menciona o nome de Jung (ver em [1]). Freud começara a corresponder-se

com Jung há apenas dois meses quando pronunciou esta conferência, vindo a conhecê-lo

pessoalmente somente em fevereiro do ano seguinte.

Neste trabalho evidencia-se o impacto imediato de Jung. O propósito desta conferência foi

apresentar aos estudantes vienenses as experiências de associação e a teoria dos complexos de

Zurique. Os estudos de Zurique haviam começado a aparecer em periódicos dois anos antes (Jung

e Riklin, 1904), e o próprio Jung publicara dois ou três estudos sobre a aplicação de seu processo

à prova legal apenas alguns meses antes de Freud pronunciar esta conferência (e. g. Jung, 1906,

referido em [1]).

Mais tarde, após o afastamento de Jung, Freud, em suas notas sobre „A História do

Movimento Psicanalítico‟ (1914), reduziu a importância tanto das experiências de associação como

da teoria dos complexos (ver em [1], 1974.) Mesmo neste trabalho, há uma certa crítica oculta sob

a aprovação. Freud faz questão de mostrar que as descobertas de Zurique não passam, na

verdade, de aplicações particulares de princípios básicos da psicanálise, indicando no penúltimo

parágrafo o perigo de tirar conclusões apressadas dos resultados dos testes de associação.

Como esta é a primeira vez que nos trabalhos publicados de Freud aparece o termo de

Zurique „complexo‟, cabem aqui alguns comentários sobre o assunto. As primeiras experiências

sistemáticas de associação foram realizadas por Wundt, e mais tarde foram introduzidas na

psiquiatria por Kräpelin e particularmente por Aschaffenburg. Sob a direção de Bleuler, então

diretor do hospício público Burghölzli de Zurique, e de Jung, seu primeiro assistente, foi levada a

cabo uma série de experiências análogas, cujas conclusões foram publicadas a partir de 1904.

Mais tarde foram reunidas em dois volumes (1906-1909) por Jung. Com exceção de uma nova

classificação das formas assumidas pelas reações verbais às palavras-estímulo, o principal

interesse das descobertas de Zurique residia na ênfase dada à influência de um determinado fator

sobre as reações. Esse fator era descrito na primeira dessas publicações (Jung e Riklin, 1904)

como um „complexo ideativo com colorido emocional‟. Numa nota de rodapé (ibid., 57) os autores o

explicam como „a totalidade das idéias relativas a um evento de especial colorido emocional‟,

acrescentando que nesse sentido passarão a usar o termo „complexo‟.

Note-se que não há qualquer referência direta a se essas idéias são ou inconscientes ou

reprimidas, e fica claro no que se segue (e. g. ibid., 74) que um „complexo‟ pode ou não

constituir-se de material reprimido. Salvo sua conveniência como abreviatura, não parece haver

mérito particular na palavra „complexo‟ assim definida, sendo pouco provável que tenha sido esta,

na verdade, a primeira vez em que foi utilizada em tal sentido. Ernest Jones revela-nos (1955, 34 e

127) que Ziehen, o conhecido psiquiatra berlinense, afirmou ter dado origem a seu uso. Mas na

verdade a palavra ocorre três vezes, com o que parece ser exatamente o mesmo sentido, numa

obra anterior de Freud - o caso de Frau Emmy von N. nos Estudos sobre a Histeria (1895d), ver em

[1], 1974; enquanto Breuer, na mesma obra (ver em [2]), parece dar mais ênfase ao fator

inconsciente do que essas primeiras definições de Zurique, ao escrever que „as idéias que são

despertadas, mas não entram na consciência… às vezes… acumulam e formam complexos -

camadas mentais extraídas da consciência.‟ Quando mais tarde o termo se popularizou, e não

somente dentro da psicologia, já englobava como elemento essencial de sua conotação o fato de

as idéias em questão serem „extraídas da consciência‟, ou seja, „reprimidas‟.

Os contatos posteriores de Freud com a jurisprudência foram poucos e espaçados. O

terceiro de seus estudos sobre tipos de caráter (1916d) relaciona-se diretamente com a psicologia

do crime. Em duas outras ocasiões ele escreveu relatórios acerca de casos criminais. Em uma

delas (1931d) pediram-lhe que examinasse o parecer de um especialista num caso de assassinato,

e na outra fez um memorando para a defesa num caso de estupro (Jones, 1957, 93). Esse

memorando (escrito em 1922) se perdeu. Nos dois casos expôs sua reprovação a uma aplicação

inepta das teorias psicanalíticas nos processos legais.

A PSICANÁLISE E A DETERMINAÇÃO DOS FATOS NOS PROCESSOS JURÍDICOS

SENHORES:

Estamos cada vez mais convictos da falta de fidedignidade das declarações feitas por

testemunhas, sobre as quais, entretanto, se apóiam tantas condenações nos tribunais. Esse fato

levou-os, futuros juízes e defensores, a se interessar por um novo método de investigação, que se

propõe a induzir o próprio réu a estabelecer sua culpa ou inocência por meio de sinais objetivos.

Esse método consiste numa experiência psicológica e se baseia em pesquisas da mesma ordem.

Está estreitamente ligado a certas concepções que só muito recentemente chegaram ao

conhecimento da psicologia médica. Sei que os senhores, por meio do que poderíamos chamar de

„exercícios simulados‟, já se ocupam em testar as possibilidades e a utilização desse novo método,

e aceitei com prazer o convite do professor Löffler, que preside este seminário, para explicar-lhes

de forma completa a relação entre esse método e a psicologia.

Todos conhecem aquele jogo de salão, também apreciado pelas crianças, em que alguém

deve acrescentar a uma palavra escolhida ao acaso uma outra, sendo o resultado uma palavra

composta; por exemplo „steam„ (vapor) e „ship„ (navio), dando „steam-ship„ (navio a vapor). A

„experiência de associação‟ introduzida na psicologia pela escola de Wundt nada mais é do que

uma modificação desse jogo infantil, do qual se suprime uma regra.

A experiência é a seguinte: apresenta-se uma palavra (denominada „palavra-estímulo‟) ao

indivíduo que se está submetendo à experiência e ele deverá responder com uma outra palavra

(denominada „reação‟) o mais depressa possível, não havendo nenhuma restrição em sua escolha

dessa reação. Devem ser observados os seguintes detalhes: o tempo exigido para a „reação‟ e a

relação - que pode ser de diversos tipos - entre a palavra-estímulo e a palavra-reação. Como era

de esperar, essas experiências não produziram inicialmente muitos frutos, tendo sido realizadas

sem uma finalidade definida e sem uma diretriz pela qual se pudessem avaliar os resultados.

Essas „experiências de associação‟ só se tornaram significativas e proveitosas quando, em

Zurique, Bleuler e seus discípulos, especialmente Jung, começaram a lhes dedicar atenção. O

valor das experiências realizadas pelo grupo deriva-se de terem partido da hipótese de que a

reação à palavra-estímulo não podia ser fruto do acaso, mas devia ser determinada pelo conteúdo

ideativo presente na mente do sujeito que reagia.

Habituamo-nos a denominar de „complexo‟ todo conteúdo ideativo que é capaz de

influenciar a reação à palavra-estímulo. Essa influência ocorre quando a palavra-estímulo toca

diretamente o complexo, ou quando o complexo estabelece contato com a palavra através de elos

intermediários. A determinação da reação é realmente um fato muito singular, e a literatura do

assunto reflete o indisfarçável assombro que a mesma tem provocado. Mas não há como duvidar

de sua veracidade, pois, via de regra, perguntando ao próprio sujeito as razões de sua reação, é

possível expor o complexo atuante e esclarecer relações que de outro modo não seriam

inteligíveis. Exemplos como os que Jung nos apresenta (1906, 6 e 8-9) fazem-nos duvidar da

incidência da casualidade nos eventos mentais ou de sua pretensa arbitrariedade.

Façamos agora um breve exame dos antecedentes dessa concepção de Bleuler e Jung de

que a reação do sujeito submetido a exame é determinada pelo seu complexo. Publiquei em 1901

uma obra na qual demonstrei serem de determinação rígida toda uma série de atos que se

acreditava imotivados, contribuindo assim, em certo grau, para limitar o fator arbitrário em

psicologia. Usei como exemplos as pequenas falhas de memória, os lapsos de língua e de escrita,

e o extrativo de objetos. Mostrei que o responsável por um lapso de língua não é o acaso, nem a

semelhança no som, nem uma simples dificuldade de articulação, mas que em todos os casos

podemos descobrir um conteúdo ideativo perturbador, isto é, um complexo, que alterou o sentido

da fala intencionada sob a forma aparente de um lapso de língua. Além disso, examinei pequenos

atos aparentemente casuais e gratuitos - por exemplo, o hábito de brincar ou de manusear um

objeto, e outros semelhantes - e demonstrei que são „atos sintomáticos‟, ligados a um sentido

oculto e cuja finalidade é expressar discretamente esse sentido. Descobri que nem mesmo um

prenome nos vem à mente de forma arbitrária, tendo sido sua escolha determinada por algum

poderoso complexo ideativo. Até mesmo números que acreditávamos ter escolhido ao acaso

podem ser relacionados com a influência de um complexo oculto dessa espécie. Poucos anos

depois disso, um colega, o Dr. Alfred Adler, pôde corroborar essa minha singularíssima afirmação

com alguns exemplos notáveis (Adler, 1905). Depois que nos habituamos a essa concepção do

determinismo na vida psíquica, sentimo-nos justificados em inferir das descobertas da

psicopatologia da vida cotidiana que as idéias que ocorrem ao sujeito numa experiência de

associação podem também não ser arbitrárias, mas determinadas por um conteúdo ideativo nele

atuante.

Senhores, voltemos a examinar a experiência de associação. No tipo de experiência a que

até agora nos referimos, era a própria pessoa submetida a exame que nos explicava a origem de

suas reações, circunstância que subtrai dessas experiências qualquer interesse judicial. Mas o que

sucederia se alterássemos a planificação da experiência? Não se poderia adotar processo

semelhante ao da resolução de uma equação com várias grandezas, em que se pode optar por

qualquer uma como ponto de partida, considerando-se ou o aou o b como o x procurado? Até

agora em nossas experiências a incógnita tem sido o complexo. Escolhemos a esmo as

palavras-estímulo, e o sujeito submetido a exame revelou-nos o complexo, que veio a ser expresso

através dessas palavras-estímulo. Mas agora vamos abordar a questão de forma diversa. Vamos

tomar um complexo conhecido e reagir, nós mesmos, a esse complexo com palavras-estímulo

deliberadamente escolhidas, transferindo então o x para a pessoa que está reagindo. Será acaso

possível deduzir da maneira pela qual a mesma reage se o complexo escolhido também existe

nela? Podem ver os senhores que essa forma de planificação da experiência corresponde

exatamente ao método adotado pelo juiz de instrução ao tentar descobrir se o acusado também

conhece, em sua qualidade de agente, alguma coisa de que ele, juiz, tem conhecimento.

Wertheimer e Klein, dois discípulos de Hans Gross, professor de direito penal em Praga, parecem

ter sido os primeiros a introduzir essa modificação, tão importante para os propósitos dos

senhores, na planificação das experiências.

As suas próprias experiências já os levaram a concluir da necessidade de considerar

vários pontos nas reações do sujeito para determinar se o mesmo possui o complexo ao qual os

senhores estão reagindo com suas palavras-estímulo. Esses pontos são os seguintes: (1) O

conteúdo da reação pode ser incomum, o que requer explicação. (2) O tempo de reação pode ser

prolongado, pois parece que as palavras-estímulo que tocaram o complexo produzem uma reação

apenas após considerável intervalo (intervalo que pode ser muito maior que o tempo de reação

comum). (3) Pode haver um engano na reprodução da reação. Os senhores já conhecem o

significado desse fato singular. Se o sujeito submeteu-se a uma experiência de associação com

uma lista bastante longa de palavras-estímulo, e se depois de um curto espaço de tempo essa lista

for-lhe novamente apresentada, ele reproduzirá as mesmas reações anteriores, salvo nos casos

em que a palavra-estímulo atingiu um complexo; nesse caso é muito provável que o sujeito

substitua a sua primeira reação por outra. (4) O fenômeno da perseveração (ou talvez seja melhor

empregar o termo „efeito secundário‟) pode ocorrer. Quando um complexo é despertado, ao ser

atingido por uma palavra-estímulo - palavra-estímulo „crítica‟ -, com freqüência os efeitos disso (por

exemplo, o prolongamento do tempo de reação) persistem e modificam as reações do sujeito ante

as próximas palavras-estímulo não-críticas. A presença de várias dessas circunstâncias, ou de

todas elas, comprova que o complexo conhecido está presente como fator perturbador na pessoa

que está sendo interrogada. Tal perturbação significa que na mente do sujeito o complexo está

catexizado com afeto, sendo capaz de desviar sua atenção da tarefa de reagir; assim, vê-se nessa

perturbação uma „autotraição psíquica.‟

Sei que no momento os senhores se ocupam das potencialidades e das dificuldades desse

processo, cuja finalidade é levar o acusado a uma autotraição objetiva. Portanto, gostaria de

chamar-lhes a atenção para o fato de que um método semelhante para trazer à tona material

psíquico encoberto ou secreto vem sendo utilizado, há mais de uma década, em um outro campo.

Pretendo expor-lhes as semelhanças e as diferenças entre as condições desses dois campos.

O campo que tenho em mente é, na verdade, muito diverso deste dos senhores. Refiro-me

à terapia empregada em certas „doenças nervosas‟ - conhecidas como psiconeuroses - das quais

são exemplo a histeria e as idéias obsessivas. O método denomina-se „psicanálise‟; foi por mim

desenvolvido a partir do método „catártico‟ de terapia, empregado pela primeira vez por Josef

Breuer em Viena. Diante do espanto dos senhores, devo estabelecer primeiramente uma analogia

entre o criminoso e o histérico. Em ambos defrontamos com um segredo, alguma coisa oculta.

Para não incorrer num paradoxo, devo em seguida apontar a diferença. O criminoso conhece e

oculta esse segredo, enquanto o histérico não conhece esse segredo, que está oculto para ele

mesmo. Como é possível tal coisa? Ora, através de laboriosas pesquisas, sabemos que todas

essas enfermidades resultam do êxito obtido pelo paciente na repressão de certas idéias e

lembranças fortemente catexizadas com afeto, assim como dos desejos que delas se originam, de

tal modo que não representam qualquer papel em seu pensamento, isto é, não penetram em sua

consciência, permanecendo assim desconhecidos para ele. É desse material psíquico reprimido

(desses „complexos‟) que derivam os sintomas somáticos e psíquicos que atormentam o paciente,

da mesma forma que uma consciência culpada. Nesse aspecto, portanto, é fundamental a

diferença entre o criminoso e o histérico.

A tarefa do terapeuta, entretanto, é a mesma do juiz de instrução. Temos de descobrir o

material psíquico oculto, e para isso inventamos vários estratagemas detetivescos, alguns dos

quais parece que os senhores, homens da lei, estão prestes a copiar de nós.

Ser-lhes-á profissionalmente interessante saber como nós, os médicos, procedemos na

psicanálise. Depois que o paciente nos fez um primeiro relato de sua história, pedimos-lhes que se

abandone aos pensamentos que lhe ocorrerem espontaneamente e que diga, sem qualquer

reserva crítica, tudo o que lhe vier à cabeça. Como vêem, partimos da hipótese, não compartilhada

pelo paciente, de que esses pensamentos espontâneos não serão escolhidos de forma arbitrária,

mas determinados pela relação com seu segredo - isto é, com seu „complexo‟ -, podendo ser

encarados como derivados desse complexo. Os senhores observarão que essa hipótese é

semelhante à que os auxiliou a interpretar as experiências de associação. Embora tenhamos

instruído o paciente a obedecer à regra de comunicar todos os pensamentos que lhe ocorrerem,

ele não parece capaz de o fazer. Logo começa a reter pensamentos, dando várias razões para

isso: ou o pensamento não era importante, ou não era pertinente, ou era totalmente sem sentido. A

essa altura, insistimos que o revele e o acompanhe, a despeito dessas objeções, pois a presença

dessa crítica demonstra que o pensamento pertence ao „complexo‟ que procuramos descobrir.

Vemos nesse comportamento do paciente uma manifestação da „resistência‟ nele presente, que se

faz notar durante todo o curso do tratamento. Limitar-me-ei a indicar que o conceito de resistência

é da maior importância na compreensão da origem de uma enfermidade assim como do

mecanismo de sua cura.

Em suas experiências, os senhores não observam diretamente críticas como essas das

idéias espontâneas do sujeito, ao passo que em nossas psicanálises podemos observar todas as

indicações de um complexo que se dão a conhecer. Mesmo quando o paciente não mais se atreve

a infringir a regra que lhe foi imposta, notamos que de vez em quando hesita ou se cala, ou faz

pausas ao reproduzir suas idéias. Cada hesitação dessa espécie é, a nosso ver, uma expressão

de sua resistência, e indica uma conexão com o „complexo‟. Na verdade, nós a encaramos como o

sinal mais importante dessa conexão, exatamente como nos casos dos senhores a prolongação

análoga do tempo de reação. Habituamo-nos a interpretar desse modo qualquer hesitação, mesmo

quando aparentemente o conteúdo da idéia retida nada tem de censurável e quando o paciente

afirma reconhecer o motivo de sua hesitação. Via de regra, as pausas que ocorrem na psicanálise

são muito mais prolongadas do que as observadas em experiências de reação.

Outro de seus indícios de um complexo - a alteração no conteúdo da reação - também

desempenha seu papel na técnica da psicanálise. Em geral também encaramos os menores

afastamentos das formas comuns de expressão, em nossos pacientes, como sinal de algum

sentido oculto, e nos dispomos a ser ridicularizados por eles ao fazermos interpretações nesse

sentido. Na verdade, ficamos à espreita de observações portadoras de qualquer ambigüidade, nas

quais transparece, sob uma expressão inocente, um sentido oculto. Não só os pacientes, mas

também colegas médicos, que desconhecem a técnica da psicanálise e seus aspectos especiais,

não acreditam nesses fatos e nos acusam de exagero e de fazer jogo de palavras; quase sempre,

porém, temos razão. Afinal, não é difícil compreender que a única maneira pela qual um segredo

cuidadosamente guardado se trai é através de alusões muito sutis ou, quando muito, ambíguas.

Por fim, o paciente acostuma-se a nos revelar, por meio do que chamamos de „representação

indireta‟, tudo aquilo de que necessitamos para descobrir o complexo.

O terceiro dos seus indícios de um complexo (enganos - isto é, alterações - na reprodução

[da reação]) também é utilizado, embora num setor mais restrito, na técnica da psicanálise. Uma

tarefa que freqüentemente se nos apresenta é a interpretação de sonhos - isto é, a tradução do

conteúdo lembrado de um sonho para o seu sentido oculto. Algumas vezes não temos certeza por

onde devemos começar essa tarefa, e nesses casos empregamos uma regra, descoberta

empiricamente, que consiste em fazer com que o sonhador torne a nos contar seu sonho. Nesse

mister, em geral ele modifica em alguns pontos sua maneira de expressar-se, embora repetindo

com fidelidade todo o resto. É justamente a esses pontos reproduzidos erroneamente, ou então

omitidos, que nos prendemos, pois essa imprecisão indica uma conexão com o complexo e

promete o melhor acesso ao sentido secreto do sonho.

Se eu agora admitir para os senhores que em psicanálise não se manifesta fenômeno

semelhante à perseveração, não devem os senhores concluir que se esgotaram os pontos de

concordância que estivemos examinando. Essa aparente divergência deriva-se apenas das

condições especiais das suas experiências, pois nelas não se dá tempo para que se desenvolva o

efeito do complexo. Sua ação apenas começou, quando os senhores distraem a atenção do sujeito

com uma nova palavra-estímulo, provavelmente inocente; podem então observar que algumas

vezes, apesar de sua interferência, ele continua ocupado com o complexo. Em psicanálise, por

outro lado, evitamos tais interferências e mantemos o paciente ocupado com o complexo. Como

em nosso trabalho, tudo, por assim dizer, é perseveração, não poderemos observar esse

fenômeno como uma ocorrência isolada.

Podemos com justiça afirmar que, em princípio, técnicas como as que descrevi

permitem-nos tornar o paciente consciente do que nele está reprimido, isto é, do seu segredo,

assim removendo a causação psicológica dos sintomas de que ele sofre. Mas antes que os

senhores retirem desses resultados positivos conclusões referentes às possibilidades de seu

próprio trabalho, examinaremos alguns pontos de divergência entre as situações psicológicas dos

dois casos.

Já apontamos a diferença principal: no neurótico o segredo está oculto de sua própria

consciência; no criminoso, o segredo está oculto apenas dos senhores. No primeiro existe uma

autêntica ignorância, embora não em todos os sentidos, enquanto no último só existe uma

simulação de ignorância. Com essa diferença está em conexão uma outra que tem grande

importância prática. Na psicanálise o paciente ajuda a combater sua resistência através de

esforços conscientes, porque espera lucrar com essa investigação, isto é, curar-se. O criminoso,

ao contrário, não cooperará com o trabalho dos senhores; se o fizesse, estaria trabalhando contra

todo o seu próprio ego. Entretanto, em compensação, em suas investigações apenas os senhores

necessitam obter uma convicção objetiva, ao passo que nossa terapia exige que o paciente

também adquira essa mesma convicção. Contudo, resta ver até que ponto essa falta de

cooperação do sujeito de seu exame irá dificultar ou alterar o desenrolar do mesmo. Tal situação

não pode ser reconstituída em suas experiências num seminário, pois o colega que desempenha o

papel de acusado continua, no fim das contas, a ser um companheiro, e os auxiliará, apesar da

determinação consciente dele de não se denunciar.

Se examinarem atentamente a comparação das duas situações, verão com clareza que a

psicanálise se ocupa com uma forma mais simples e especial de descobrir o que está oculto na

mente, ao passo que no trabalho dos senhores a tarefa é mais ampla. Embora não necessitem

levar em consideração a diferença de que no caso do psiconeurótico sempre se trata de complexo

sexual reprimido (no sentido mais amplo), existe um outro fato que não podem ignorar. O propósito

da psicanálise é absolutamente uniforme em todos os casos: é preciso trazer à tona os complexos

reprimidos por causa de sentimentos de desprazer e que produzem sinais de resistência ante as

tentativas de levá-los à consciência. É como se essa resistência estivesse localizada; surge na

fronteira entre o consciente e o inconsciente. Já no caso dos senhores, a resistência origina-se

totalmente da consciência, não sendo possível deixar de lado essa diferença. Os senhores, em

primeiro lugar, terão de determinar experimentalmente se a resistência consciente denuncia-se

exatamente pelos mesmos indícios que a resistência inconsciente. Além disso, em minha opinião

os senhores ainda não podem estar seguros de poder interpretar seus indícios objetivos de um

complexo como sendo uma „resistência‟, tal como nós psicoterapeutas fazemos. No caso dos

sujeitos de suas experiências, pode acontecer que o complexo atingido seja de acento agradável -

embora isso não seja muito freqüente em criminosos -, o que levará a indagar se tal complexo irá

produzir a mesma reação que um complexo de acento desagradável.

Gostaria também de assinalar que o teste dos senhores pode estar sujeito a uma

complicação que, em virtude de sua própria natureza, não ocorre na psicanálise. Os senhores, em

sua investigação, podem ser induzidos a erro por um neurótico que, embora inocente, reage como

culpado, devido a um oculto sentimento de culpa já existente nele e que se apodera da acusação.

Não julguem essa possibilidade como uma invenção ociosa; lembrem-se que isso pode ser

observado com freqüência na infância. Muitas vezes uma criança acusada de uma transgressão

nega veementemente sua culpa, embora chore como um criminoso desmascarado. Talvez pensem

que a criança mentiu ao afirmar sua inocência, mas isto nem sempre é verdade. Pode ser que,

embora não tenha cometido uma falta de que a acusam, tenha cometido uma outra que

permanece ignorada e que não lhe foi imputada. Assim, fala a verdade ao negar ser culpada da

primeira transgressão, ao mesmo tempo que revela seu sentimento de culpa proveniente da outra

falta. Nesse particular, como em muitos outros pontos, o adulto neurótico comporta-se exatamente

como uma criança. Muitas pessoas são assim, e ainda é muito discutível se a sua técnica logrará

distinguir tais indivíduos auto-acusadores daqueles que são realmente culpados. Finalmente, mais

uma questão. Os senhores sabem que, pelas normas do direito penal, é vedado sujeitar o acusado

a qualquer medida que o tome de surpresa; portanto, ele deverá ter sido advertido de que poderá

denunciar-se nessa experiência. Isso leva a perguntar se podem ser esperadas as mesmas

reações tanto quando a atenção do sujeito está dirigida para o complexo como quando está

afastada desse mesmo complexo, e a que ponto a intenção de ocultar alguma coisa pode afetar os

modos de reação em pessoas diferentes.

É justamente devido à diversidade de situações que subjazem ao trabalho de investigação

dos senhores, que a psicologia se interessa tão vivamente por seus resultados. Gostaria de

pedir-lhes que não se desiludissem prematuramente de sua utilidade prática. Embora meu campo

esteja muito afastado da prática judicial, talvez me permitam mais uma sugestão. Por mais

indispensáveis que sejam essas experiências realizadas em seminários, tanto como uma

preparação quanto como formulação de problemas, os senhores não poderão jamais reproduzir a

mesma situação psicológica existente no interrogatório do acusado numa investigação criminal.

Essas experiências serão simples exercícios simulados, e nunca poderão fundamentar uma

aplicação prática em casos criminais. Se insistirmos em tentar essa aplicação, um outro caminho

se nos apresenta: consigam que lhes seja permitido - ou mesmo imposto como um dever - realizar

tais investigações, durante um certo número de anos, em cada processo criminal real, impedindo

que os seus resultados venham a influenciar o veredicto do tribunal. Na verdade, seria preferível

que o tribunal não fosse informado da conclusão inferida pelos senhores a partir da investigação

relativa à questão da culpa do acusado. Após alguns anos de compilação e comparação dos

resultados assim obtidos, quaisquer dúvidas sobre a utilidade desse método psicológico de

investigação serão esclarecidas. Sei, naturalmente, que a concretização de semelhante proposta

não depende somente dos senhores, nem de seus ilustres professores.

ATOS OBSESSIVOS E PRÁTICAS RELIGIOSAS (1907)

NOTA DO EDITOR INGLÊS

ZWANGSHANDLUNGEN UND RELIGIONSÜBUNGEN

(a) EDIÇÕES ALEMÃS:

1907 Z. Religionspsychol., 1 (1) [Abril], 4-12.

1909 S.K.S.N., 2, 122-31. (1912, 2ª ed.; 1921, 3ª ed.)

1924 G.S., 10, 210-20.

1941 G.W., 7, 129-39.

(b) TRADUÇÃO INGLESA:

Obsessive Acts and Religious Practices

1924 C.P., 2, 25-35. (Trad. de R. C. McWatters.)

A presente tradução, com título ligeiramente alterado, é uma versão modificada da que foi

publicada em 1924.

Este artigo foi escrito em fevereiro de 1907 para o primeiro número de um periódico

dirigido por Bresler e Vordrobt. Na reunião de 27 de fevereiro da Sociedade Psicanalítica de Viena,

Freud informou que enviara uma contribuição para o número de estréia desse novo periódico e

também que Bresler o convidara para co-editor, convite por ele aceito. Na verdade seu nome

aparece na (longa) lista de consultores editoriais. A informação incorreta de que esse artigo foi lido

por Freud para a Sociedade, a 2 de março, é proveniente da biografia de Jones (2, 380). De

qualquer forma, 2 de março foi um sábado e não uma quarta-feira. Jung esteve presente à reunião

de 6 de março, quando Adler leu um caso clínico. (Ver Minutes, 1.) Essa foi a incursão inicial de

Freud na psicologia da religião e, como assinala na Seção V da sua „Uma Breve Descrição da

Psicanálise‟ (1924f), constituiu um passo decisivo em direção a um tratamento mais extenso do

assunto, cinco anos depois, em Totem e Tabu. Além disso, o interesse deste artigo reside no fato

de ser esta a primeira vez que Freud examina a neurose obsessiva desde o período de Breuer,

cerca de dez anos antes. Aqui ele fornece um esboço do mecanismo dos sintomas obsessivos que

iria elaborar no caso clínico do „Rat Man‟ (1909d), cujo tratamento, entretanto, ainda não iniciara

quando escreveu o presente trabalho.

ATOS OBSESSIVOS E PRÁTICAS RELIGIOSAS

Não sou certamente o primeiro a notar a semelhança existente entre os chamados atos

obsessivos dos que sofrem de afecções venosas e as práticas pelas quais o crente expressa sua

devoção. O termo „cerimonial‟, que tem sido aplicado a alguns desses atos obsessivos, constitui

uma evidência disso. Em minha opinião, entretanto, essa semelhança não é apenas superficial, de

modo que a compreensão interna (insight) da origem do cerimonial neurótico pode, por analogia,

estimular-nos a estabelecer inferências sobre os processos psicológicos da vida religiosa.

As pessoas que praticam atos obsessivos ou cerimoniais pertencem à mesma classe das

que sofrem de pensamento obsessivo, idéias obsessivas, impulsos obsessivos e afins. Isso, em

conjunto, constitui uma entidade clínica especial, que comumente se denomina de „neurose

obsessiva‟ [Zwangsneurose]. Mas não devemos tentar inferir de tal denominação a natureza da

enfermidade, pois, a rigor, também outras espécies de fenômenos mentais mórbidos podem

possuir características „obsessivas‟. Em lugar de uma definição, contentemo-nos no momento em

obter um conhecimento minucioso desses estados, pois ainda não chegamos ao critério distintivo

da neurose obsessiva, que provavelmente se encontra oculto em camadas muito profundas,

embora pareça revelar sua presença em todas as manifestações da doença.

Os cerimoniais neuróticos consistem em pequenas alterações em certos atos cotidianos,

em pequenos acréscimos, restrições ou arranjos que devem ser sempre realizados numa mesma

ordem, ou com variações regulares. Essas atividades, meras formalidades na aparência,

afiguram-se destituídas de qualquer sentido. O próprio paciente não as julga diversamente, mas é

incapaz de renunciar a elas, pois a qualquer afastamento do cerimonial manifesta-se uma

intolerável ansiedade, que o obriga a retificar sua omissão. Tão triviais quanto os próprios atos

cerimoniais são as ocasiões e as atividades ornamentadas, complicadas e sempre prolongadas

pelo cerimonial - por exemplo, vestir e despir-se, o ato de deitar-se ou de satisfazer as

necessidades fisiológicas. O cerimonial é sempre executado como se tivesse de obedecer a certas

leis tácitas. Tomemos, por exemplo, um cerimonial relativo ao ato de deitar-se: a cadeira deve ficar

numa determinada posição ao lado da cama, as roupas colocadas sobre a mesma numa

determinada ordem, o cobertor preso embaixo do colchão e o lençol bem esticado, os travesseiros

arrumados de maneira especial, e o corpo da pessoa deve adotar uma posição bem determinada.

Só depois disso tudo ela poderá dormir. Em casos leves, o cerimonial parece ser nada mais do que

a intensificação de hábitos ordeiros muito justificáveis; é a especial consciência que cerca sua

execução e a ansiedade que surge com qualquer falha que lhe dão o caráter do „ato sagrado‟. Em

geral se suporta mal qualquer interrupção no cerimonial, sendo quase sempre excluída a presença

de outras pessoas durante sua realização.

Toda atividade pode converter-se em um ato obsessivo, no sentido mais amplo do termo,

se for complicada por pequenos acréscimos ou se adquirir um caráter rítmico através de pausas e

repetições. Não esperemos encontrar uma distinção nítida entre „cerimoniais‟ e „atos obsessivos‟.

Em geral os atos obsessivos derivam-se de cerimoniais. Além desses, o conteúdo do distúrbio

abrange proibições e impedimentos (abulias), que na realidade apenas levam adiante o trabalho

dos atos obsessivos, portanto algumas coisas são completamente vedadas ao paciente e outras só

permitidas após a realização de um determinado cerimonial.

É singular que tanto as compulsões como as proibições (ter de fazer isso e não ter de fazer

aquilo) aplicam-se inicialmente só às atividades solitárias do sujeito, e por muito tempo não afetam

seu comportamento social. Conseqüentemente, os que sofrem dessa enfermidade são capazes de

manter o seu mal como um assunto particular, ocultando-o por muitos anos. Na verdade, o número

de pessoas que sofrem dessas formas de neurose obsessiva é muito maior do que o que chega ao

conhecimento dos médicos. Além disso, para muitas vítimas a ocultação se torna fácil tendo em

vista que são capazes de desempenhar seus deveres sociais durante parte do dia, desde que

devotem certo número de horas a suas atividades secretas, longe de olhares, como Mélusine.

É fácil perceber onde se encontram as semelhanças entre cerimoniais neuróticos e atos

sagrados do ritual religioso: nos escrúpulos de consciência que a negligência dos mesmos

acarreta, na completa exclusão de todos os outros atos (revelada na proibição de interrupções) e

na extrema consciência com que são executados em todas as minúcias. Mas as diferenças são

igualmente óbvias, e algumas tão gritantes que tornam qualquer comparação um sacrilégio: a

grande diversidade individual dos atos cerimoniais [neuróticos] em oposição ao caráter

estereotipado dos rituais (as orações, o curvar-se para o leste, etc.), o caráter privado dos

primeiros em oposição ao caráter público e comunitário das práticas religiosas, e acima de tudo o

fato de que, enquanto todas as minúcias do cerimonial religioso são significativas e possuem um

sentido simbólico, as dos neuróticos parecem tolas e absurdas. Sob esse aspecto a neurose

obsessiva parece uma caricatura, ao mesmo tempo cômica e triste, de uma religião particular, mas

é justamente essa diferença decisiva entre o cerimonial neurótico e o religioso que desaparece

quando penetramos, com o auxílio da técnica psicanalítica de investigação, no verdadeiro

significado dos atos obsessivos. No decurso dessa investigação, dilui-se completamente o aspecto

tolo e absurdo de que se revestem os atos obsessivos, sendo explicada a razão de tal aspecto.

Descobre-se que todos os detalhes dos atos decisivos possuem um sentido, que servem a

importantes interesses da personalidade, e que expressam experiências ainda atuantes e

pensamentos catexizados com afeto. Fazem isso de duas formas: por representação direta ou

simbólica, podendo, conseqüentemente, ser interpretados histórica ou simbolicamente.

Devo ilustrar com alguns exemplos essa minha asserção. Os que estão familiarizados com

os achados da investigação psicanalítica das psiconeuroses não se surpreenderão ao saber que o

que está sendo representado em atos obsessivos e em cerimoniais deriva das experiências mais

íntimas do paciente, principalmente das sexuais.

(a) Uma jovem que esteve sob minha observação sofria da compulsão de fazer a água

revolutear na bacia várias vezes após se lavar. O significado desse ato cerimonial prendia-se ao

seguinte ditado: „Não jogue fora a água suja até obter uma limpa‟. Com esse ato pretendia advertir

a irmã, a quem era muito afeiçoada, e impedi-la de se divorciar de um marido pouco satisfatório até

que firmasse uma relação com um homem melhor.

(b) Uma mulher que estava vivendo separada do marido via-se sob a compulsão de deixar

intacta a melhor porção de tudo aquilo que comia: por exemplo, só aproveitava as beiradas de uma

fatia de carne assada. A explicação dessa renúncia foi encontrada por meio da data de sua origem.

Ela surgiu no dia seguinte àquele em que se recusara a ter relações maritais com seu marido - isto

é, após ter renunciado ao melhor.

(c) A mesma paciente só podia sentar-se em uma determinada cadeira, da qual se

levantava com dificuldade. Devido a certos aspectos de sua vida de casada, a cadeira simbolizava

o marido, a quem ela permanecia fiel. Essa mulher encontrou a explicação para sua compulsão na

seguinte frase: „É tão difícil nos separarmos de alguma coisa (um marido, uma cadeira) a que já

nos fixamos.‟

(d) Durante algum tempo ela repetiu um ato obsessivo especialmente singular e absurdo:

saía correndo do seu quarto para outro onde havia uma mesa de centro; arrumava a toalha dessa

mesa duma determinada forma e, tocando a sineta, chamava a criada; fazia com que esta se

aproximasse da mesa e a despedia após incumbi-la de alguma tarefa sem importância. Tentando

encontrar uma explicação para tal compulsão, lembrou-se de que a toalha da mesa estava

manchada e de que sempre a arrumava de maneira a que a mancha fosse forçosamente vista pela

criada. Essa cena era a reprodução de uma experiência de sua vida conjugal que muito ocupara

sua mente, constituindo-lhe um problema. Na noite de núpcias o marido sofrera um percalço

bastante comum: vira-se impotente. Durante a noite ele correra várias vezes de seu quarto para o

dela, em renovadas tentativas de obter sucesso; pela manhã, com vergonha da arrumadeira do

hotel que faria as camas, derramou o conteúdo de um vidro de tinta vermelha no lençol, mas de

forma tão canhestra que o manchou num local pouco adequado a seus propósitos. Portanto, com

seu ato obsessivo ela representava a noite de núpcias. „Cama e mesa‟ entre eles compõem o

casamento.

(e) Outra compulsão que adquiriu - a de anotar o número de todas as décadas de

papel-moeda antes de se desfazer das mesmas - teve de ser interpretada historicamente. Numa

época em que ainda tencionava separar-se do marido, se encontrasse outro homem mais digno de

confiança, permitiu-se receber as atenções de um cavalheiro que conhecera numa estação de

águas, mas de cuja seriedade duvidava. Certo dia, com falta de dinheiro miúdo, pedira-lhe para

trocar uma moeda de cinco coroas. Ele a satisfez, e guardando a moeda declarou galantemente

que jamais se separaria da mesma, pois estivera nas mãos dela. Em encontros posteriores, ela

com freqüência sentiu a tentação de desafiá-lo a mostrar a moeda de cinco coroas, como se

quisesse convencer-se de que podia acreditar em suas intenções, mas conteve-se tendo em vista

que é impossível distinguir uma determinada moeda entre outras do mesmo valor. Assim, sua

dúvida não foi resolvida, deixando-lhe a compulsão de anotar os números das notas, de modo a

poder distinguir umas das outras.

Com esses poucos exemplos, escolhidos entre os muitos que reuni, tenciono

simplesmente ilustrar minha afirmativa de que nos atos obsessivos tudo tem sentido e pode ser

interpretado. O mesmo se pode dizer dos cerimoniais propriamente ditos, só que para corroborar

tal asserção seriam necessárias maiores provas. Estou cônscio de que nossas explicações acerca

dos atos obsessivos aparentemente nos estão afastando da esfera do pensamento religioso.

Uma das condições da doença é o fato de que a pessoa que obedece a uma compulsão, o

faz sem compreender-lhe o sentido - ou, pelo menos, o sentido principal. É somente através dos

esforços do tratamento psicanalítico que ela se torna consciente do sentido do seu ato obsessivo

e, simultaneamente, dos motivos que a compelem ao mesmo. Esse fato importante pode ser

expresso da seguinte forma: o ato obsessivo serve para expressar motivos e idéias inconscientes.

Com essa afirmação, parece que nos afastamos ainda mais das práticas religiosas, mas devemos

recordar que em geral também o indivíduo normalmente piedoso executa o cerimonial sem

ocupar-se de seu significado, embora os sacerdotes e os investigadores científicos estejam

familiarizados com o significado, em grande parte simbólico, do ritual. Para os crentes, entretanto,

os motivos que os impelem às práticas religiosas são desconhecidos ou estão representados na

consciência por outros que são desenvolvidos em seu lugar.

A análise de atos obsessivos já nos possibilitou alguma compreensão interna (insight) de

suas causas e da seqüência de motivos que os tornam ativos. Podemos dizer que aquele que

sofre de compulsões e proibições comporta-se como se estivesse dominado por um sentimento de

culpa, do qual, entretanto, nada sabe, de modo que podemos denominá-lo de sentimento

inconsciente de culpa, apesar da aparente contradição dos termos. Esse sentimento de culpa

origina-se de certos eventos mentais primitivos, mas é constantemente revivido pelas repetidas

tentações que resultavam de cada nova provocação. Além disso, acarreta um furtivo sentimento de

ansiedade expectante, uma expectativa de infortúnio ligada, através da idéia de punição, à

percepção interna da tentação. Quando o cerimonial é formado, o paciente ainda tem consciência

de que deve fazer isso ou aquilo para evitar algum mal, e em geral a natureza desse mal que é

esperado ainda é conhecida de sua consciência. Contudo, o que já está oculto dele é a conexão -

sempre demonstrável - entre a ocasião em que essa ansiedade expectante surge e o perigo que

ela provoca. Assim o cerimonial surge com um ato de defesa ou de segurança, uma medida

protetora.

O sentimento de culpa dos neuróticos obsessivos corresponde à convicção dos indivíduos

piedosos de serem, no íntimo, apenas miseráveis pecadores; e as práticas devotas (tais como

orações, invocações, etc.) com que tais indivíduos precedem cada ato cotidiano, especialmente os

empreendimentos não habituais, parecem ter o valor de medidas protetoras ou de defesa.

Obteremos uma compreensão interna (insight) mais profunda do mecanismo da neurose

obsessiva se considerarmos o fato fundamental que a mesma oculta. Há sempre a repressão de

um impulso instintual (um componente do instinto sexual) presente na constituição do sujeito e que

pôde expressar-se durante algum tempo em sua infância, sucumbindo posteriormente à pressão.

No decurso da repressão do instinto cria-se uma consciência especial, dirigida contra os objetivos

do instinto; essa formação reativa psíquica, porém, sente-se insegura e constantemente ameaçada

pelo instinto emboscado no inconsciente. A influência do instinto reprimido é sentida como uma

tentação, e durante o próprio processo de repressão gera-se a ansiedade que adquire controle

sobre o futuro, sob a forma de ansiedade expectante. O processo de repressão que acarreta a

neurose obsessiva deve ser considerado como um processo que só obtém êxito parcial, estando

constantemente sob a ameaça de um fracasso. Podemos, pois, compará-lo a um conflito

interminável; reiterados esforços psíquicos são necessários para contrabalançar a pressão

constante do instinto. Assim, os atos cerimoniais e obsessivos surgem, em parte, como uma

proteção contra a tentação e, em parte, como proteção contra o mal esperado. Essas medidas de

proteção logo parecem tornar-se insuficientes contra a tentação, surgindo então as proibições, cuja

finalidade é manter à distância as situações que podem originar tentações. Veremos que as

proibições substituem os atos obsessivos assim como uma fobia evita um ataque histérico. Assim,

um cerimonial é um conjunto de condições que devem ser preenchidas, da mesma forma que uma

cerimônia matrimonial da Igreja significa para o crente uma permissão para desfrutar os prazeres

sexuais, que de outra maneira seriam pecaminosos. Uma outra característica da neurose

obsessiva, e de todas as enfermidades semelhantes, é que suas manifestações (seus sintomas,

inclusive os atos obsessivos) preenchem a condição de ser uma conciliação entre as forças

antagônicas da mente. Essas manifestações reproduzem, assim, uma parcela daquele mesmo

prazer que pretendiam evitar, e servem ao instinto reprimido tanto quanto às instâncias que o estão

reprimindo. Na verdade, ao passo que a enfermidade progride, os atos que de início se destinavam

principalmente a manter a defesa aproximam-se progressivamente dos atos proibidos pelos quais

o instinto pôde expressar-se na infância.

Também na esfera da vida religiosa encontraremos alguns aspectos desse estado de

coisas. A formação de uma religião parece basear-se igualmente na supressão, na renúncia, de

certos impulsos instintuais. Entretanto, esses impulsos não são componentes exclusivamente do

instinto sexual, como no caso das neuroses; são instintos egoístas, socialmente perigosos, embora

geralmente abriguem um componente sexual. Afinal, o sentimento de culpa resultante de uma

tentação contínua e a ansiedade expectante sob a forma de temor da punição divina nos são

familiares há mais tempo no campo da religião do que no da neurose. Talvez devido à intromissão

de componentes sexuais, talvez pelas características gerais dos instintos, também na vida religiosa

a supressão do instinto revela-se um processo inadequado e interminável. Na realidade, as

recaídas totais no pecado são mais comuns entre os indivíduos piedosos do que entre os

neuróticos, dando origem a uma nova forma de atividade religiosa: os atos de penitência, que têm

seu correlato na neurose obsessiva.

Já assinalamos, como característica curiosa e menosprezável da neurose obsessiva, que

seus cerimoniais se prendem aos atos menores da vida cotidiana e se expressam através de

restrições e regulamentações tolas em conexão com eles. Só compreendemos esse singular

aspecto do quadro clínico quando percebemos que os mecanismo do deslocamento psíquico, por

mim descoberto inicialmente na construção de sonhos, domina os processos mentais da neurose

obsessiva. Os poucos exemplos de atos obsessivos já citados tornam claro que o simbolismo e os

pormenores desses mesmos atos resultam de um deslocamento, da substituição do elemento real

e importante por um trivial - por exemplo, do marido pela cadeira. É essa tendência para o

deslocamento que modifica progressivamente o quadro clínico, terminando por transformar um fato

extremamente banal em algo da maior urgência e importância. É inegável que também no campo

religioso existe uma tendência para o deslocamento de valores psíquicos, e em sentido análogo,

de forma que os cerimoniais triviais da prática religiosa gradualmente adquirem um caráter

essencial, tomando o lugar dos pensamentos fundamentais. Por isso é que as religiões sofrem

reformas de caráter retroativo, que visam restabelecer o equilíbrio original dos valores.

O caráter de conciliação que os atos obsessivos possuem em sua qualidade de sintomas

neuróticos não é tão evidente nas práticas religiosas correspondentes. Mas também nestas

descobrimos esse aspecto das neuroses quando lembramos a freqüência com que são cometidos,

justamente em nome da religião e aparentemente por sua causa, todos os atos proibidos pela

mesma - ou seja, as expressões dos instintos por ela reprimidos.

Diante desses paralelos e analogias podemos atrever-nos a considerar a neurose

obsessiva com o correlato patológico da formação de uma religião, descrevendo a neurose como

uma religiosidade individual e a religião como uma neurose obsessiva universal. A semelhança

fundamental residiria na renúncia implícita à ativação dos instintos constitucionalmente presentes;

e a principal diferença residiria na natureza desses instintos, que na neurose são exclusivamente

sexuais em sua origem, enquanto na religião procedem de fontes egoístas.

A renúncia progressiva aos instintos constitucionais, cuja ativação proporcionaria o prazer

primário do ego, parece ser uma das bases do desenvolvimento da civilização humana. Uma

parcela dessa repressão instintual é efetuada por suas religiões, ao exigirem do indivíduo que

sacrifique à divindade seu prazer instintual: „A vingança é minha, diz o Senhor‟. No

desenvolvimento das religiões antigas, pode-se ver que muitas coisas a que a humanidade

renunciou como sendo „iniqüidades‟ haviam sido abandonadas à divindade e ainda eram

permitidas em seu nome, de modo que a atribuição a ela dos instintos maus e socialmente nocivos

era o meio como o homem se libertava da dominação deles. Por isso, e não por casualidade, todos

os atributos humanos, inclusive os crimes que deles derivam, foram imputados, num grau ilimitado,

aos deuses antigos. Nem tampouco é uma contradição que, apesar disso, não fosse permitido ao

homem justificar suas próprias iniqüidades com o exemplo divino.

Viena, fevereiro de 1907.

O ESCLARECIMENTO SEXUAL DAS CRIANÇAS

(CARTA ABERTA AO DR. M. FÜRST) (1907)

NOTA DO EDITOR INGLÊS

ZUR SEXUELLEN AUFKLÄRUNG DER KINDER

(OFFENER BRIEF AN DR. M. FÜRST)

(a) EDIÇÕES ALEMÃS:

1907 Soz. Med. Hyg., 2 (6) [junho], 360-7.

1909 S.K.S.N., 2, 151-8. (1912, 2ª ed.; 1921, 3ª ed.)

1924 G.S., 5, 134-42.

1931 Sexualtheorie und Traumlehre, 7-16.

1941 G.W., 7, 19-27.

(b) TRADUÇÃO INGLESA:

The Sexual Enlightenment of Children.An Open Letter to Dr. M. Fürst

1924 C.P., 2, 36-44. (Trad. de E. B. M. Herford.)

A presente tradução baseia-se na que foi publicada em 1924.

Esta carta foi escrita a pedido de um médico de Hamburgo, o Dr. M. Fürst, para ser

publicada num periódico dedicado à higiene e à medicina social, de que o mesmo era editor.

Ernest Jones (1955, 327-8) conta-nos que Freud expôs o assunto de forma mais detalhada num

debate realizado na Sociedade Psicanalítica de Viena a 12 de maio de 1909, já tendo discutido o

assunto na reunião de 18 de dezembro de 1907. (Ver Minutes, 1.) Trinta anos mais tarde, ele volta

ao tópico da instrução sexual das crianças no último parágrafo da Seção IV do seu artigo „Análise

Terminável e Interminável‟ (1937c), mostrando que a questão é consideravelmente menos simples

do que como aparece na presente abordagem.

O ESCLARECIMENTO SEXUAL DAS CRIANÇAS (CARTA ABERTA AO DR. M. FÜRST)

Caro Dr. Fürst,

Ao solicitar minha opinião sobre „o esclarecimento sexual das crianças‟, presumo que não

deseja um tratado formal e completo do assunto que leve em conta a extensa literatura existente

sobre a questão, mas o juízo independente de um médico a quem a atividade profissional

concedeu oportunidades especiais para ocupar-se dos problemas sexuais. Sei que tem

acompanhado meus esforços científicos com interesse, não refutando minhas idéias sem

examiná-las, como fizeram muitos de nossos colegas, por eu considerar a constituição

psicossexual e certos males da vida sexual como as causas primordiais das perturbações

neuróticas, que são tão comuns. Há pouco seu periódico também acolheu amavelmente os meus

Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade [1905d], nos quais descrevi como o instinto sexual se

compõe e os distúrbios que podem ocorrer, em seu desenvolvimento, na função da sexualidade.

Todavia, o senhor espera que eu responda aos seguintes quesitos: devem as crianças ser

esclarecidas sobre os fatos da vida sexual, em que idade isso deve ocorrer e de que modo isso

deve ser realizado. Permita-me dizer, inicialmente, que acho perfeitamente razoável o exame dos

dois últimos pontos, mas que me é de todo incompreensível que existam divergências sobre o

primeiro. Que propósito se visa atingir negando às crianças, ou aos jovens, esclarecimento desse

tipo sobre a vida sexual dos seres humanos? Será por medo de despertar prematuramente seu

interesse por tais assuntos, antes que o mesmo irrompa de forma espontânea? Será na esperança

de que o ocultamento possa retardar o aparecimento do instinto sexual por completo, até que este

possa encontrar seu caminho pelos únicos canais que lhe são abertos em nossa sociedade de

classe média? Será que acreditamos que as crianças não se interessarão pelos fatos e mistérios

da vida sexual, e não os compreenderão, se não forem impelidos a tal por influências externas?

Será possível que o conhecimento que lhes é negado não as alcançará por outros meios? Ou será

que se pretende genuína e seriamente que mais tarde elas venham a considerar degradante e

desprezível tudo que se relacione com o sexo, já que seus pais e professores quiseram mantê-las

afastadas dessas questões o maior tempo possível?

Na verdade ignoro em qual dessas proposições se deve procurar o motivo de se ocultar

das crianças aquilo que é sexual, ocultação que de fato é levada a cabo. Sei apenas que são todas

igualmente absurdas e indignas de uma contestação judiciosa. Lembro-me, porém, de que

encontrei na correspondência familiar do grande pensador e filantropo Multatuli, algumas linhas

que constituem uma resposta mais do que adequada:

„A meu ver, certas coisas são, em geral, exageradamente encobertas. É justo conservar

pura a imaginação de uma criança, mas não é a ignorância que irá preservar essa pureza. Ao

contrário, acho que a ocultação conduz o menino ou menina a suspeitar mais do que nunca da

verdade. A curiosidade nos leva a esmiuçar coisas que teriam pouco ou nenhum interesse para

nós, se tivéssemos sido informados com simplicidade. Se fosse possível manter essa ignorância

inalterada, eu poderia aceitá-la, mas isso é impossível. O convívio com outras crianças, as leituras

que induzem à reflexão e o mistério com que os pais cercam fatos que terminam por vir à tona,

tudo isso na verdade intensifica o desejo de conhecimento. Esse desejo, satisfeito apenas

parcialmente e em segredo, excita seu sentimento e corrompe sua imaginação, de forma que a

criança já peca enquanto os pais ainda acreditam que ela desconhece o pecado.‟

Eu não sei como a questão poderia ser mais bem expressa, mas talvez possa acrescentar

algumas observações. Certamente são apenas a pudicícia usual dos adultos e sua má consciência

em relação a assuntos sexuais que os induzem a criar todo esse mistério diante das crianças, mas

é possível que também uma certa ignorância teórica desempenhe seu papel nessa atitude,

ignorância que pode ser remediada dando aos adultos algum esclarecimento. É crença geral que o

instinto sexual inexiste nas crianças, só começando a irromper na puberdade, com a maturação

dos órgãos sexuais. Esse erro grosseiro que acarreta sérias conseqüências, tanto no

conhecimento quanto na prática, é tão facilmente corrigido pela observação que é de admirar que

alguém possa incorrer no mesmo. Na realidade o recém-nascido já vem ao mundo com sua

sexualidade, sendo seu desenvolvimento na lactância e na primeira infância acompanhado de

sensações sexuais; só muito poucas crianças alcançam a puberdade sem ter tido sensações e

atividades sexuais. Quem se interessar por um exame detalhado dessas asserções, poderá

encontrá-lo em meus Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade, a que me referi acima. Ali verá

que os órgãos de reprodução propriamente ditos não são as únicas partes do corpo que geram

sensações de prazer sexual, e que a natureza dispôs as coisas de tal forma que as estimulações

reais dos genitais são inevitáveis na primeira infância. Esse período de vida, durante o qual uma

certa cota do que é sem dúvida prazer sexual é produzida pela excitação de várias partes da pele

(zonas erógenas), pela atividade de certos instintos biológicos e pela excitação concomitante de

muitos estados afetivos, é conhecido como o período de auto-erotismo, para usar um termo

introduzido por Havelock Ellis [1898]. A puberdade apenas concede aos genitais a primazia entre

todas as outras zonas e fontes produtoras de prazer, assim forçando o erotismo a colocar-se a

serviço da função reprodutora. Naturalmente esse processo pode sofrer certas inibições, e em

muitas pessoas (que tendem a se tornar mais tarde pervertidas ou neuróticas) não se completa

senão imperfeitamente. Por outro lado, muito antes da puberdade a criança já é capaz da maior

parte das manifestações psíquicas do amor - por exemplo, a ternura, a dedicação e o ciúme. Com

freqüência, uma irrupção desses estados mentais associa-se às sensações físicas de excitação

sexual, de modo que a criança não pode ficar em dúvida quanto à conexão entre ambos. Em

resumo, com exceção do seu poder de reprodução, muito antes da puberdade já está

completamente desenvolvida na criança a capacidade de amar; e pode-se afirmar que o clima de

mistério apenas a impede de apreender intelectualmente as atividades para as quais já está

psiquicamente preparada e fisicamente apta.

O interesse intelectual da criança pelos enigmas do sexo, o seu desejo de conhecimento

sexual, revela-se numa idade surpreendentemente tenra. Se observações como as que exporei a

seguir não são feitas com maior freqüência, é apenas por estarem os pais cegos a esse interesse

de seus filhos ou porque, se não o conseguem ignorar, tentam imediatamente abafá-lo. Conheço

um encantador menino de quatro anos, filho de pais compreensivos que se abstiveram de reprimir

uma parte de seu desenvolvimento. O pequeno Hans certamente não foi exposto a nada da

natureza de uma sedução pela babá, mas, apesar disso, já há algum tempo demonstrava um vivo

interesse por aquela parte do seu corpo que ele chama de „pipi‟. Aos três anos, perguntou à mãe:

„Mamãe, você também tem um pipi?‟ Ela respondeu: „Naturalmente. O que é que você acha?‟

Também ao pai ele perguntou várias vezes a mesma coisa. Nessa época, ao entrar pela primeira

vez num estábulo, viu uma vaca ser ordenhada. „Olhe só!‟ exclamou surpreso, „sai leite do pipi

dela‟. Aos três anos e nove meses parecia a caminho de por si mesmo fazer a descoberta de

categorias corretas, através de suas observações. Ao ver sair água de uma locomotiva, exclamou:

„Veja, a máquina está fazendo pipi. Onde está o pipi dela?‟ E acrescentou, depois de refletir: „O

cachorro e o cavalo têm pipis; a mesa e a cadeira não têm.‟ Recentemente, olhava a irmãzinha de

sete dias tomar banho, quando comentou: „O pipi dela é muito pequeno, mas vai ficar grande

quando ela crescer.‟ (Sei da mesma atitude em relação ao problema da diferença dos sexos em

outros meninos da mesma idade.) Gostaria de deixar claro que o pequeno Hans não é uma criança

sensual, nem com disposição patológica. A meu ver, o que acontece é que, não tendo sofrido

intimidações e não tendo sido oprimido por nenhum sentimento de culpa, ele expressa

candidamente aquilo que pensa.

O segundo grande problema a ocupar a mente de uma criança - um pouco mais tarde, sem

dúvida - é o da origem dos bebês. Isso geralmente é despertado pelo indesejado nascimento de

um irmão ou de uma irmã. Trata-se da questão mais remota e premente a atormentar a

humanidade imatura. Os que sabem interpretar os mitos e as lendas podem identificá-lo no enigma

que a Esfinge de Tebas apresenta a Édipo. As respostas usualmente concedidas à criança

danificam seu genuíno instinto de investigação e, via de regra, também desferem o primeiro golpe

na confiança que ela deposita em seus pais. Dessa data em diante, geralmente começa a

desconfiar dos adultos e a esconder deles seus interesses mais íntimos. O pequeno documento

que se segue mostra como essa curiosidade pode ser aflitiva em crianças mais velhas. Trata-se de

uma carta escrita por uma menina de onze anos, órfã de mãe, que havia debatido o problema com

sua irmã mais nova.

„Cara tia Mali,

„Será que a senhora poderia fazer o favor de me dizer como teve Christel e Paul? A

senhora deve saber, pois é casada. Nós estávamos discutindo sobre isso ontem e queríamos

saber a verdade. Não sabemos a quem mais perguntar. Quando a senhora virá a Salzburg? Sabe,

tia Mali, não conseguimos compreender como as cegonhas trazem os bebês. Trudel achava que

ela os trazia numa camisa. Também queremos saber se as cegonhas apanham os bebês no lago,

e por que nunca vimos nenhum bebê no lago. E, por favor, diga-me como é que a gente sabe de

antemão quando vai ter um bebê. Escreva-me contando tudo sobre isso.

„Com mil beijos e abraços de todos,

„Sua sobrinha curiosa,

Lili.‟

Não acredito que essa enternecedora carta tenha trazido às duas irmãs o esclarecimento

desejado. Posteriormente a autora da mesma adoeceu, vítima da neurose que surge de perguntas

inconscientes não respondidas - da meditação obsessiva.

Não me parece haver uma única razão de peso para negar às crianças o esclarecimento

que sua sede de saber exige. Certamente se a intenção dos educadores é sufocar a capacidade

da criança de pensamento independente, em favor de uma pretensa „bondade‟ que tanto

valorizam, não poderiam escolher melhor caminho do que ludibriá-la em questões sexuais e

intimidá-la pela religião. As naturezas mais fortes, é verdade, resistirão a tais influências e se

tornarão rebeldes contra a autoridade dos pais e, mais tarde, contra qualquer outra autoridade. Se

as dúvidas que as crianças levam aos mais velhos não são satisfeitas, elas continuam a

atormentá-las em segredo, levando-as a procurar soluções nas quais a verdade advinhada

mescla-se da forma mais extravagante a grotescas falsidades, e a trocar entre si informações

furtivas em que o sexo é apresentado como uma coisa horrível e nauseante, em conseqüência do

sentimento de culpa dos jovens curiosos. Valeria a pena coletar e examinar essas teorias sexuais

infantis. Daí em diante as crianças, em geral, deixam de ter diante do sexo a única atitude

adequada, e muitas nunca irão recuperá-la.

Parece que a grande maioria dos autores, homens e mulheres, que escrevem sobre o

esclarecimento sexual da juventude, conclui em seu favor. Contudo, a inépcia da maior parte de

suas propostas quanto ao momento e ao modo de realizar esse esclarecimento leva-nos a pensar

que tiveram dificuldade de chegar a uma conclusão. Entre as obras que conheço sobre o assunto,

distingue-se, com brilhante exceção, a encantadora carta de explicação que uma certa Frau Emma

Eckstein cita como tendo sido escrita por ela ao filho de dez anos. O método habitualmente

utilizado não é, obviamente, o correto: oculta-se das crianças todo conhecimento sexual pelo maior

tempo possível, e então, em termos pomposos e solenes, a verdade, ou melhor, uma meia

verdade, lhes é revelada de uma só vez, em geral demasiado tarde. A maior parte das respostas à

pergunta „Como contar a meus filhos?‟ dá, pelo menos a mim, uma impressão tão lamentável que

eu preferiria que os pais não se ocupassem desse esclarecimento. O que realmente importa é que

as crianças nunca sejam levadas a pensar que desejamos fazer mais mistério dos fatos da vida

sexual do que de qualquer outro assunto ainda não acessível à sua compreensão; para nos

assegurarmos disso, é necessário que, de início, tudo que se referir à sexualidade seja tratado

como os demais fatos dignos de conhecimento. Acima de tudo, é dever das escolas não evitar a

menção dos assuntos sexuais. Os fatos básicos da reprodução e sua significação deviam ser

incluídos nas lições sobre o reino animal, e ao mesmo tempo deveria ser enfatizado que o homem

compartilha o essencial de sua organização com os animais superiores. Então, desde que o

ambiente familiar da criança não tenda a refrear diretamente o pensamento infantil através da

intimidação, é provável que ocorra com maior freqüência o que certa vez ouvi por acaso entre

crianças. Um menino disse à irmãzinha: „Como é que você pode acreditar que as cegonhas trazem

os bebês? Não sabe que o homem é mamífero? Será que você também acredita que a cegonha

traga os filhotes de todos os mamíferos?‟

A curiosidade da criança nunca atingirá uma intensidade exagerada se for adequadamente

satisfeita a cada etapa de sua aprendizagem. Assim, no final do curso elementar [Volksschule],

antes que inicie o curso intermediário [Mittelschule], isto é, em torno dos dez anos de idade, a

criança deveria ser esclarecida sobre os fatos específicos da sexualidade humana e sobre a

significação social desta. A época da confirmação seria a mais adequada para instruir a criança,

que a essa altura deverá ter um completo conhecimento de todos os fatos físicos, sobre as

obrigações morais que estão associadas à satisfação real do instinto. Um esclarecimento sobre a

vida sexual que se desenvolva de forma gradual, nos moldes que acima descrevemos, sem

interrupções e por iniciativa da própria escola, parece-nos ser o único que leva em conta o

desenvolvimento da criança e que consegue evitar os perigos que estão envolvidos.

Considero um avanço muito significativo na educação infantil que na França o Estado

tenha introduzido, em lugar do catecismo, um manual que dá à criança as primeiras noções de sua

situação como cidadão e dos deveres éticos que deverá assumir mais tarde. No entanto, essa

educação elementar continuará com sérias deficiências enquanto não abranger o campo da

sexualidade. Esta é uma lacuna que deveria merecer a atenção dos educadores e reformadores.

Nos países onde colocaram a educação das crianças total ou parcialmente nas mãos do clero

será, naturalmente, impossível levantar o problema. Um sacerdote nunca admitirá que os homens

e os animais tenham a mesma natureza, pois não pode abdicar da imortalidade da alma, que lhe é

necessária como base de seus preceitos morais. Mais uma vez vemos aqui a insensatez de

colocar um único remendo de seda num casaco esfarrapado, isto é, a impossibilidade de efetuar

uma reforma isolada sem alterar as bases de todo o sistema.

ESCRITORES CRIATIVOS E DEVANEIO (1908 [1907])

NOTA DO EDITOR INGLÊS

DER DICHTER UND DAS PHANTASIEREN

(a) EDIÇÕES ALEMÃS:

(1907 6 de dezembro. Pronunciado como conferência)

1908 Neue Revue, 1 (10) [março], 716-2.

1909 S.K.S.N., 2,197-206 (1912, 2ª ed.; 1921, 3ª ed.)

1924 G.S. 10, 229-239.

1924 Dichtung und Kunst, 3-14.

1941 G.W., 7, 213-223.

(b) TRADUÇÃO INGLESA:

The Relation of the Poet to Day-Dreaming

1925 C.P., 4, 172-183. (Trad. de I. F. Frant Duff.)

A presente tradução, com um título alterado, é uma versão modificada da publicada em

1925.

Este trabalho foi originalmente pronunciado como conferência a 6 de dezembro de 1907,

diante de uma platéia de noventa pessoas, nos salões do editor e livreiro vienense Hugo Heller,

que também era membro da Sociedade Psicanalítica de Viena. Um minucioso resumo da

conferência apareceu, no dia seguinte, no diário vienense Die Zeit, mas a versão completa de

Freud foi publicada pela primeira vez no início de 1908, num novo periódico literário de Berlim.

Alguns problemas da literatura criativa haviam sido mencionados pouco antes no estudo

de Freud sobre Gradiva (por exemplo, em [1]), e cerca de um ou dois anos antes ele examinara a

questão em um ensaio não publicado sobre „Tipos Psicopáticos no Palco‟ (1924a [1905]). O

interesse principal deste artigo, como do que se segue, escrito na mesma época, reside no exame

das fantasias.

ESCRITORES CRIATIVOS E DEVANEIOS

Nós, leigos, sempre sentimos uma intensa curiosidade - como o Cardeal que fez uma

idêntica indagação a Ariosto - em saber de que fontes esse estranho ser, o escritor criativo, retira

seu material, e como consegue impressionar-nos com o mesmo e despertar-nos emoções das

quais talvez nem nos julgássemos capazes. Nosso interesse intensifica-se ainda mais pelo fato de

que, ao ser interrogado, o escritor não nos oferece uma explicação, ou pelo menos nenhuma

satisfatória; e de forma alguma ele é enfraquecido por sabermos que nem a mais clara

compreensão interna (insight) dos determinantes de sua escolha de material e da natureza da arte

de criação imaginativa em nada irá contribuir para nos tornar escritores criativos.

Se ao menos pudéssemos descobrir em nós mesmos ou em nossos semelhantes uma

atividade afim à criação literária! Uma investigação dessa atividade nos daria a esperança de obter

as primeiras explicações do trabalho criador do escritor. E, na verdade, essa perspectiva é

possível. Afinal, os próprios escritores criativos gostam de diminuir a distância entre a sua classe e

o homem comum, assegurando-nos com muita freqüência de que todos, no íntimo, somos poetas,

e de que só com o último homem morrerá o último poeta.

Será que deveríamos procurar já na infância os primeiros traços de atividade imaginativa?

A ocupação favorita e mais intensa da criança é o brinquedo ou os jogos. Acaso não poderíamos

dizer que ao brincar toda criança se comporta como um escritor criativo, pois cria um mundo

próprio, ou melhor, reajusta os elementos de seu mundo de uma nova forma que lhe agrade? Seria

errado supor que a criança não leva esse mundo a sério; ao contrário, leva muito a sério a sua

brincadeira e dispende na mesma muita emoção. A antítese de brincar não é o que é sério, mas o

que é real. Apesar de toda a emoção com que a criança catexiza seu mundo de brinquedo, ela o

distingue perfeitamente da realidade, e gosta de ligar seus objetos e situações imaginados às

coisas visíveis e tangíveis do mundo real. Essa conexão é tudo o que diferencia o „brincar‟ infantil

do „fantasiar‟.

O escritor criativo faz o mesmo que a criança que brinca. Cria um mundo de fantasia que

ele leva muito a sério, isto é, no qual investe uma grande quantidade de emoção, enquanto

mantém uma separação nítida entre o mesmo e a realidade. A linguagem preservou essa relação

entre o brincar infantil e a criação poética. Dá [em alemão] o nome de „Spiel„ [„peça‟] às formas

literárias que são necessariamente ligadas a objetos tangíveis e que podem ser representadas.

Fala em „Lustspiel„ ou „Trauerspiel„ [„comédia‟ e „tragédia‟: literalmente, „brincadeira prazerosa‟ e

„brincadeira lutuosa‟], chamando os que realizam a representação de „Schauspieler„ [„atores‟:

literalmente, „jogadores de espetáculo‟]. A irrealidade do mundo imaginativo do escritor tem, porém,

conseqüências importantes para a técnica de sua arte, pois muita coisa que, se fosse real, não

causaria prazer, pode proporcioná-lo como jogo de fantasia, e muitos excitamentos que em si são

realmente penosos, podem tornar-se uma fonte de prazer para os ouvintes e espectadores na

representação da obra de um escritor.

Existe uma outra circunstância que nos leva a examinar por mais alguns instantes essa

oposição entre a realidade e o brincar. Quando a criança cresce e pára de brincar, após

esforçar-se por algumas décadas para encarar as realidades da vida com a devida seriedade,

pode colocar-se certo dia numa situação mental em que mais uma vez desaparece essa oposição

entre o brincar e a realidade. Como adulto, pode refletir sobre a intensa seriedade com que

realizava seus jogos na infância, equiparando suas ocupações do presente, aparentemente tão

sérias, aos seus jogos de criança, pode livrar-se da pesada carga imposta pela vida e conquistar o

intenso prazer proporcionado pelo humor.

Ao crescer, as pessoas param de brincar e parecem renunciar ao prazer que obtinham do

brincar. Contudo, quem compreende a mente humana sabe que nada é tão difícil para o homem

quanto abdicar de um prazer que já experimentou. Na realidade, nunca renunciamos a nada;

apenas trocamos uma coisa por outra. O que parece ser uma renúncia é, na verdade, a formação

de um substituto ou sub-rogado. Da mesma forma, a criança em crescimento, quando pára de

brincar, só abdica do elo com os objetos reais; em vez de brincar, ela agora fantasia. Constrói

castelos no ar e cria o que chamamos de devaneios. Acredito que a maioria das pessoas construa

fantasias em algum período de suas vidas. Este é um fato a que, por muito tempo, não se deu

atenção, e cuja importância não foi, assim, suficientemente considerada.

As fantasias das pessoas são menos fáceis de observar do que o brincar das crianças. A

criança, é verdade, brinca sozinha ou estabelece um sistema psíquico fechado com outras

crianças, com vistas a um jogo, mas mesmo que não brinque em frente dos adultos, não lhes

oculta seu brinquedo. O adulto, ao contrário, envergonha-se de suas fantasias, escondendo-as das

outras pessoas. Acalenta suas fantasias como seu bem mais íntimo, e em geral preferiria

confessar suas faltas do que confiar a outro suas fantasias. Pode acontecer, conseqüentemente,

que acredite ser a única pessoa a inventar tais fantasias, ignorando que criações desse tipo são

bem comuns nas outras pessoas. A diferença entre o comportamento da pessoa que brinca e da

fantasia é explicada pelos motivos dessas duas atividades, que, entretanto, são subordinadas uma

à outra.

O brincar da criança é determinado por desejos: de fato, por um único desejo - que auxilia

o seu desenvolvimento -, o desejo de ser grande e adulto. A criança está sempre brincando „de

adulto‟, imitando em seus jogos aquilo que conhece da vida dos mais velhos. Ela não tem motivos

para ocultar esse desejo. Já com o adulto o caso é diferente. Por um lado, sabe que dele se

espera que não continue a brincar ou a fantasiar, mas que atue no mundo real; por outro lado,

alguns dos desejos que provocaram suas fantasias são de tal gênero que é essencial ocultá-las.

Assim, o adulto envergonha-se de suas fantasias por serem infantis e proibidas.

Mas, indagarão os senhores, se as pessoas fazem tanto mistério a respeito do seu

fantasiar, como os conhecemos tão bem? É que existe uma classe de seres humanos a quem, não

um deus, mas uma deusa severa - a Necessidade - delegou a tarefa de revelar aquilo de que

sofrem e aquilo que lhes dá felicidade. São as vítimas de doenças nervosas, obrigadas a revelar

suas fantasias, entre outras coisas, ao médico por quem esperam ser curadas através de

tratamento mental. É esta a nossa melhor fonte de conhecimento, e desde então sentimo-nos

justificados em supor que os nossos pacientes nada nos revelam que não possamos também ouvir

de pessoas saudáveis.

Vamos agora examinar algumas características do fantasiar. Podemos partir da tese de

que a pessoa feliz nunca fantasia, somente a insatisfeita. As forças motivadoras das fantasias são

os desejos insatisfeitos, e toda fantasia é a realização de um desejo, uma correção da realidade

insatisfatória. Os desejos motivadores variam de acordo com o sexo, o caráter e as circunstâncias

da pessoa que fantasia, dividindo-se naturalmente em dois grupos principais: ou são desejos

ambiciosos, que se destinam a elevar a personalidade do sujeito, ou são desejos eróticos. Nas

mulheres jovens predominam, quase com exclusividade, os desejos eróticos, sendo em geral sua

ambição absorvida pelas tendências eróticas. Nos homens jovens os desejos egoístas e

ambiciosos ocupam o primeiro plano, de forma bem clara, ao lado dos desejos eróticos. Mas não

acentuaremos a oposição entre essas duas tendências, preferindo salientar o fato de que estão

freqüentemente unidas. Assim como em muitos retábulos em que é visível num canto qualquer o

retrato do doador, na maioria das fantasias de ambição podemos descobrir em algum canto a

dama a que seu criador dedicou todos aqueles feitos heróicos e a cujos pés deposita seus triunfos.

Veremos que aqui existem motivos bem fortes para ocultamento; à jovem bem educada só é

permitido um mínimo de desejos eróticos, e o rapaz tem de aprender a suprimir o excesso de

auto-estima remanescente de sua infância mimada, para que possa encontrar seu lugar numa

sociedade repleta de outros indivíduos com idênticas reivindicações.

Não devemos supor que os produtos dessa atividade imaginativa - as diversas fantasias,

castelos no ar e devaneios - sejam estereotipados ou inalteráveis. Ao contrário, adaptam-se às

impressões mutáveis que o sujeito tem da vida, alterando-se a cada mudança de sua situação e

recebendo de cada nova impressão ativa uma espécie de „carimbo de data de fabricação.‟ A

relação entre a fantasia e o tempo é, em geral, muito importante. É como se ela flutuasse entre três

tempos - os três momentos abrangidos pela nossa ideação. O trabalho mental vincula-se a uma

impressão atual, a alguma ocasião motivadora no presente que foi capaz de despertar um dos

desejos principais do sujeito. Dali, retrocede à lembrança de uma experiência anterior (geralmente

da infância) na qual esse desejo foi realizado, criando uma situação referente ao futuro que

representa a realização do desejo. O que se cria então é um devaneio ou fantasia, que encerra

traços de sua origem a partir da ocasião que o provocou e a partir da lembrança. Dessa forma o

passado, o presente e o futuro são entrelaçados pelo fio do desejo que os une.

Um exemplo bastante comum pode servir para tornar claro o que eu disse. Tomemos o

caso de um pobre órfão que se dirige a uma firma onde talvez encontre trabalho. A caminho,

permite-se um devaneio adequado à situação da qual este surge. O conteúdo de sua fantasia

talvez seja, mais ou menos, o que se segue. Ele consegue o emprego, conquista as boas graças

do novo patrão, torna-se indispensável, é recebido pela família do patrão, casa-se com sua

encantadora filha, é promovido a diretor da firma, primeiro na posição de sócio do seu chefe, e

depois como seu sucessor. Nessa fantasia, o sonhador reconquista o que possui em sua feliz

infância: o lar protetor, os pais amantíssimos e os primeiros objetos do seu afeto. Esse exemplo

mostra como o desejo utiliza uma ocasião do presente para construir, segundo moldes do

passado, um quadro do futuro.

Há muito mais a dizer sobre as fantasias, mas limitar-me-ei a salientar aqui, de forma

sucinta, mais alguns aspectos. Quando as fantasias se tornam exageradamente profusas e

poderosas, estão assentes as condições para o desencadeamento da neurose ou da psicose. As

fantasias também são precursoras mentais imediatas dos penosos sintomas que afligem nossos

pacientes, abrindo-se aqui um amplo desvio que conduz à patologia.

Não posso ignorar a relação entre as fantasias e o sonhos. Nossos sonhos noturnos nada

mais são do que fantasias dessa espécie, como podemos demonstrar pela interpretação de

sonhos. A linguagem, com sua inigualável sabedoria, há muito lançou luz sobre a natureza básica

dos sonhos, denominando de „devaneios‟ as etéreas criações da fantasia. Se, apesar desse

indício, geralmente permanece obscuro o significado de nossos sonhos, isto é por causa da

circunstância de que à noite também surgem em nós desejos de que nos envergonhamos; têm de

ser ocultos de nós mesmos, e foram conseqüentemente reprimidos, empurrados para o

inconsciente. Tais desejos reprimidos e seus derivados só podem ser expressos de forma muito

distorcida. Depois que trabalhos científicos conseguiram elucidar o fator de distorção onírica, foi

fácil constatar que os sonhos noturnos são realização de desejos, da mesma forma que os

devaneios - as fantasias que todos conhecemos tão bem.

Deixemos agora as fantasias e passemos ao escritor criativo. Acaso é realmente válido

comparar o escritor imaginativo ao „sonhador em plena luz do dia‟, e suas criações com os

devaneios? Inicialmente devemos estabelecer uma distinção, separando os escritores que, como

os antigos poetas egípcios e trágicos, utilizam temas preexistentes, daqueles que parecem criar o

próprio material. Vamos examinar esses últimos, e, para os nossos fins, não escolheremos os mais

aplaudidos pelos críticos, mas os menos pretensiosos autores de novelas, romances e contos, que

gozam, entretanto, da estima de um amplo círculo de leitores entusiastas de ambos os sexos. Nas

criações desses escritores um aspecto salienta-se de forma irrefutável: todas possuem um herói,

centro do interesse, para quem o autor procura de todas as maneiras possíveis dirigir a nossa

simpatia, e que parece estar sob a proteção de uma Providência especial. Se ao fim de um

capítulo deixamos o herói ferido, inconsciente e esvaindo-se em sangue, com certeza o

encontraremos no próximo cuidadosamente assistido e próximo da recuperação. Se o primeiro

volume termina com o naufrágio do herói, no segundo logo o veremos milagrosamente salvo, sem

o que a história não poderia prosseguir. O sentimento de segurança com que acompanhamos o

herói através de suas perigosas aventuras é o mesmo com que o herói da vida real atira-se à água

para salvar um homem que se afoga, ou se expõe à artilharia inimiga para investir contra uma

bateria. Este é o genuíno sentimento heróico, expresso por um dos nossos melhores escritores

numa frase inimitável. „Nada me pode acontecer‟! Parece-me que através desse sinal revelador de

invulnerabilidade, podemos reconhecer de imediato Sua Majestade o Ego, o herói de todo

devaneio e de todas as histórias.

Outros traços típicos dessas histórias egocêntricas revelam idêntica afinidade. O fato de

que todas as personagens femininas se apaixonam invariavelmente pelo herói não pode ser

encarado como um retrato da realidade, mas será de fácil compreensão se o encararmos como um

componente necessário do devaneio. O mesmo aplica-se ao fato de todos os demais personagens

da história dividirem-se rigidamente em bons e maus, em flagrante oposição à verdade de

caracteres humanos observáveis na vida real. Os „bons‟ são aliados do ego que se tornou o herói

da história, e os „maus‟ são seus inimigos e rivais.

Sabemos que muitas obras imaginativas guardam boa distância do modelo do devaneio

ingênuo, mas não posso deixar de suspeitar que até mesmo os exemplos mais afastados daquele

modelo podem ser ligados ao mesmo através de uma seqüência ininterrupta de casos

transicionais. Notei que, na maioria dos chamados „romances psicológicos‟, só uma pessoa - o

herói - é descrita anteriormente, como se o autor se colocasse em sua mente e observasse as

outras personagens de fora. O romance psicológico, sem dúvida, deve sua singularidade à

inclinação do escritor moderno de dividir seu ego, pela auto-observação, em muitos egos parciais,

e em conseqüência personificar as correntes conflitantes de sua própria vida mental por vários

heróis. Certos romances, que poderíamos classificar de „excêntricos‟, parecem contrapor-se ao

devaneio modelo. Nestes, a pessoa apresentada como herói desempenha um papel muito pouco

ativo; vê os atos e sofrimentos das demais pessoas como espectador. Muitos dos últimos

romances de Zola pertencem a essa categoria. Mas devo assinalar que a análise psicológica de

indivíduos que não são escritores criativos, e que em alguns aspectos se afastam da norma,

mostrou-nos variações análogas do devaneio, nos quais o ego se contenta com o papel de

espectador.

Para que nossa comparação do escritor imaginativo com o homem que devaneia e da

criação poética com o devaneio tenha algum valor é necessário, acima de tudo, que se revele

frutuosa, de uma forma ou de outra. Tentemos, por exemplo, aplicar à obra desses autores a

nossa tese anterior referente à relação entre a fantasia e os três períodos de tempo, e o desejo

que o entrelaça; e com seu auxílio estudemos as conexões existentes entre a vida do escritor e

suas obras. Em geral, até agora não se formou uma idéia concreta da natureza dos resultados

dessa investigação, e com freqüência fez-se da mesma uma concepção simplista. À luz da

compreensão interna (insight) de tais fantasias, podemos encarar a situação como se segue. Uma

poderosa experiência no presente desperta no escritor criativo uma lembrança de uma experiência

anterior (geralmente de sua infância), da qual se origina então um desejo que encontra realização

na obra criativa. A própria obra revela elementos da ocasião motivadora do presente e da

lembrança antiga.

Não se alarmem ante a complexidade dessa fórmula. Na verdade suspeito que a mesma

irá revelar-se como um esquema muito insuficiente. Entretanto, mesmo assim talvez ofereça uma

primeira aproximação do verdadeiro estado de coisas; por experiências que realizei, inclino-me a

pensar que essa visão das obras criativas pode produzir seus frutos. Não se esqueçam que a

ênfase colocada nas lembranças infantis da vida do escritor - ênfase talvez desconcertante -

deriva-se basicamente da suposição de que a obra literária, como o devaneio, é uma continuação,

ou um substituto, do que foi o brincar infantil.

Não devemos esquecer, entretanto, de examinar aquele outro gênero de obras

imaginativas, que não são uma criação original do autor, mas uma reformulação de material

preexistente e conhecido (ver em [1]). Mesmo nessas obras o escritor conserva uma certa

independência que se manifesta na escolha do material e nas alterações do mesmo, às vezes

muito amplas. Embora esse material não seja novo, procede do tesouro popular dos mitos, lendas

e contos de fadas. Ainda está incompleto o estudo de tais construções da psicologia dos povos,

mas é muito provável que os mitos, por exemplo, sejam vestígios distorcidos de fantasias plenas

de desejos de nações inteiras, os sonhos seculares da humanidade jovem.

Poderão dizer que, embora eu tenha colocado o escritor criativo em primeiro lugar no título

deste artigo, me ocupei menos dele que das fantasias. Reconheço o fato, e devo tentar

desculpar-me alegando o estado atual de nossos conhecimentos. Pude apenas oferecer certos

encorajamentos e sugestões que, partindo do estudo das fantasias, levaram ao problema da

escolha do material literário pelo escritor. Quanto ao outro problema - como o escritor criativo

consegue em nós os efeitos emocionais provocados por suas criações -, ainda não o tocamos.

Mas gostaria, ao menos, de indicar-lhes o caminho que do nosso exame das fantasias conduz aos

problemas dos efeitos poéticos.

Devem estar lembrados de que eu disse (ver a partir de [1]) que o indivíduo que devaneia

oculta cuidadosamente suas fantasias dos demais, porque sente ter razões para se envergonhar

das mesmas. Devo acrescentar agora que, mesmo que ele as comunicasse para nós, o relato não

nos causaria prazer. Sentiríamos repulsa, ou permaneceríamos indiferentes ao tomar

conhecimento de tais fantasias. Mas quando um escritor criativo nos apresenta suas peças, ou nos

relata o que julgamos ser seus próprios devaneios, sentimos um grande prazer, provavelmente

originário da confluência de muitas fontes. Como o escritor o consegue constitui seu segredo mais

íntimo. A verdadeira ars poetica está na técnica de superar esse nosso sentimento de repulsa, sem

dúvida ligado às barreiras que separam cada ego dos demais. Podemos perceber dois dos

métodos empregados por essa técnica. O escritor suaviza o caráter de seus devaneios egoístas

por meio de alterações e disfarces, e nos suborna com o prazer puramente formal, isto é, estético,

que nos oferece na apresentação de suas fantasias. Denominamos de prêmio de estímulo ou de

prazer preliminar ao prazer desse gênero, que nos é oferecido para possibilitar a liberação de um

prazer ainda maior, proveniente de fontes psíquicas mais profundas. Em minha opinião, todo

prazer estético que o escritor criativo nos proporciona é da mesma natureza desse prazer

preliminar, e a verdadeira satisfação que usufruímos de uma obra literária procede de uma

libertação de tensões em nossas mentes. Talvez até grande parte desse efeito seja devida à

possibilidade que o escritor nos oferece de, dali em diante, nos deleitarmos com nossos próprios

devaneios, sem auto-acusações ou vergonha. Isso nos leva ao limiar de novas e complexas

investigações, mas também, pelo menos no momento, ao fim deste exame.

FANTASIAS HISTÉRICAS E SUA RELAÇÃO COM A BISSEXUALIDADE (1908)

NOTA DO EDITOR INGLÊS

HYSTERISCHE PHANTASIEN UND IHRE BEZIEHUNG ZUR BISEXUALITÄT

(a) EDIÇÕES ALEMÃS:

1908 Z. Sexualwiss., 1 (1) [janeiro], 27-34.

1909 S.K.S.N., 2, 138-145. (1912, 2ª ed.; 1921, 3ª ed.)

1924 G.S., 5, 246-254.

1941 G.W., 7, 191-199.

(b) TRADUÇÕES INGLESAS:

Hysterical Fancies and their Relation to Bisexuality

1909 S.P.H; 194-200. (Trad. de A.A.Brill.) (1912, 2ª ed.; 1920, 3ª ed.)

Hysterical Phantasies and their Relation to Bisexuality

1924 C.P., 2, 51-48. (Trad. de D. Bryan.)

A presente tradução é uma revisão da publicada em 1924.

Este artigo foi escrito originalmente para o Jahrbuch für sexuelle Zwischenstufen de

Hirschfeld, sendo transferido para um novo periódico recém-lançado pelo mesmo editor. Em 1897,

no decurso de sua auto-análise, Freud percebera pela primeira vez a importância das fantasias

como bases dos sintomas histéricos. Embora fizesse uma comunicação particular de suas

descobertas a Fliess (ver, por exemplo, suas cartas de 7 de julho e 21 de setembro de 1897:

Freud, 1950a, Cartas 66 e 69), só as publicou integralmente dois anos antes de escrever o

presente artigo. (Ver Freud, 1906a), em [1], 1972.) A parte principal deste artigo é um novo exame

da relação entre fantasias e sintomas; apesar do título, o tópico da bissexualidade surge quase

como uma reflexão secundária. Deve ser assinalado, aliás, que o assunto das fantasias parece ser

um tema dominante na mente de Freud na época deste artigo. Elas são novamente abordadas nos

artigos sobre „As Teorias Sexuais das Crianças‟ (ver em [2]), sobre „Romances Familiares‟ (ver em

[3]), sobre „Escritores Criativos e Devaneio‟ (ver em [4]) e sobre „Ataques Histéricos‟ (ver em [5]),

assim como em muitos trechos do estudo de Gradiva (e.g. em [6]). Grande parte do material do

presente artigo naturalmente já fora examinada. Ver, por exemplo, a análise de „Dora‟ (1905e

[1901]), ver a partir de [7], 1972, e os Três Ensaios (1905d), ver a partir de [8].

FANTASIAS HISTÉRICAS E SUA RELAÇÃO COM A BISSEXUALIDADE

Estamos familiarizados com as imaginações delirantes do paranóico acerca da grandeza

ou dos sofrimentos do seu próprio eu (self), que aparecem em formas bem típicas e quase

monótonas. Conhecemos também, através de numerosos relatos, os estranhos desempenhos

pelos quais certos pervertidos encerram sua satisfação sexual, ou em idéia ou na realidade.

Entretanto, talvez seja novidade para alguns leitores o fato de que estruturas psíquicas análogas

estão presentes regularmente em todas as psiconeuroses, em particular na histeria, e de que

podemos demonstrar terem essas estruturas - conhecidas como fantasias histéricas - importantes

ligações com a acusação dos sintomas neuróticos.

Todas essas criações de fantasia têm sua fonte comum e seu protótipo normal nos

chamados devaneios da juventude. Estes já foram examinados, embora insuficientemente, na

literatura do assunto. Ocorrem talvez com igual freqüência em ambos os sexos, sendo

invariavelmente de natureza erótica nas jovens e mulheres, enquanto nos homens são tanto

ambiciosos como eróticos. Não se deve, entretanto, atribuir uma importância secundária ao fator

erótico nos homens; se investigarmos mais de perto os devaneios de um homem, veremos que

seus feitos heróicos e seus triunfos só têm por finalidade agradar a uma mulher para que ela o

prefira aos outros homens. Essas fantasias são satisfações de desejos originários de privações e

anelos. São com justiça denominadas de „devaneios‟, já que nos dão a chave para uma

compreensão dos sonhos noturnos - nos quais o núcleo da formação onírica não consiste em nada

mais do que em fantasias diurnas complicadas, que foram distorcidas e que são mal

compreendidas pela instância psíquica consciente.

Esses devaneios são catexizados com um vivo interesse; são acalentados carinhosamente

pelo sujeito e em geral ocultos com muita sensibilidade. É fácil perceber na rua uma pessoa

absorta num devaneio: fala sozinha, sorri subitamente distraída ou apressa o passo no momento

em que a situação imaginada atinge o clímax. Todo ataque histérico que até hoje investiguei

revelou a irrupção involuntária de tais devaneios, pois nossas observações não deixam dúvidas

que tais fantasias tanto podem ser inconscientes como conscientes. Quando as últimas tornam-se

inconscientes, podem tornar-se também patogênicas, isto é, podem expressar-se através de

sintomas e ataques. Em circunstâncias favoráveis o sujeito ainda logra apreender uma tal fantasia

inconsciente na consciência. Depois que chamei a atenção de uma das minhas pacientes para

suas fantasias, ela me contou ter-se surpreendido em lágrimas na rua e, ao refletir no mesmo

instante sobre o motivo deste pranto, ter conseguido capturar a fantasia que se segue. Em sua

imaginação, ligara-se amorosamente a um conhecido pianista de sua cidade (embora não o

conhecesse pessoalmente); em seguida fora abandonada, com o filho que tivera com ele (na

verdade não tinha filhos), ficando na miséria. Fora nesse momento de sua fantasia que irrompera

em lágrimas.

As fantasias inconscientes podem ter sido sempre inconscientes e formadas no

inconsciente; ou, o que acontece com maior freqüência, foram inicialmente fantasias conscientes,

devaneios, desde então deliberadamente esquecidas, tornando-se inconscientes através da

„repressão‟. O conteúdo delas pode, posteriormente, ter permanecido o mesmo ou sofrido

alterações, de modo que as fantasias inconscientes atuais são derivadas das conscientes. Uma

fantasia inconsciente tem uma conexão muito importante com a vida sexual do sujeito, pois é

idêntica à fantasia que serviu para lhe dar satisfação sexual durante um período de masturbação.

Nesse período, o ato masturbatório (no sentido mais amplo da palavra) compunha-se de duas

partes. Uma era a evocação de uma fantasia e a outra um comportamento ativo para, no momento

culminante da fantasia, obter autogratificação. Como sabemos, esse composto estava em si

simplesmente soldado junto. Originalmente o ato era um processo puramente auto-erótico que

visava obter prazer de uma determinada parte do corpo, que pode ser denominada de erógena.

Mais tarde, esse ato fundiu-se a uma idéia plena de desejo pertencente à esfera do amor objetal, e

serviu como realização parcial da situação em que culminou a fantasia. Quando, posteriormente, o

sujeito renuncia a esse tipo de satisfação, composto de masturbação e fantasia, o ato é

abandonado, e a fantasia passa de consciente a inconsciente. Se não obtém outro tipo de

satisfação sexual, o sujeito permanece abstinente; se não consegue sublimar sua libido - isto é, se

não consegue defletir sua excitação sexual para fins mais elevados - estará preenchida a condição

para que sua fantasia inconsciente reviva e se desenvolva, começando a atuar, pelo menos no que

diz respeito a parte de seu conteúdo, com todo o vigor da sua necessidade de amor, sob a forma

de sintoma patológico.

Dessa forma as fantasias inconscientes são os precursores psíquicos imediatos de toda

uma série de sintomas histéricos. Estes nada mais são do que fantasias inconscientes

exteriorizadas por meio da „conversão‟; quando os sintomas são somáticos, com freqüência são

retirados do círculo das mesmas sensações sexuais e inervações motoras que originalmente

acompanhavam as fantasias quando estas ainda eram inconscientes. Assim é anulada a renúncia

ao hábito da masturbação e atingido o propósito de todo o processo patológico, que é o

restabelecimento da satisfação sexual primária original - embora nunca, é verdade, de forma

completa, mas numa espécie de aproximação.

Quem estudar a histeria, portanto, logo transferirá seu interesse dos sintomas para as

fantasias que lhes deram origem. A técnica da psicanálise nos permite em primeiro lugar inferir dos

sintomas o que essas fantasias inconscientes são, e então torná-las conscientes para o paciente.

Dessa maneira descobriu-se que o conteúdo das fantasias inconscientes do histérico corresponde

em sua totalidade às situações nas quais os pervertidos obtêm conscientemente satisfação; e se

alguém desejar exemplos de tais situações, basta recordar-se das mundialmente famosas proezas

dos imperadores romanos, cujos selvagens excessos eram determinados, naturalmente, pelo

enorme e irrestrito poder dos autores das fantasias. Os delírios dos paranóicos são fantasias da

mesma natureza, embora se tenham tornado diretamente conscientes. Dependem dos

componentes sadomasoquistas do instinto sexual, e também podem encontrar um correspondente

completo em certas fantasias inconscientes de sujeitos histéricos. Também conhecemos casos,

com sua importância prática, nos quais os histéricos não dão expressão às suas fantasias sob a

forma de sintomas, mas como realizações conscientes, e assim tramam e encenam estupros,

ataques ou atos de agressão sexual.

Esse método de investigação psicanalítica, que dos sintomas visíveis conduz às fantasias

inconscientes ocultas, revela-nos tudo que é possível conhecer sobre a sexualidade dos

psiconeuróticos, inclusive o fato que deve ser o tópico principal dessa breve publicação preliminar.

Provavelmente devido às dificuldades que as fantasias inconscientes encontram em seus

esforços de expressão, a relação das fantasias com os sintomas não é simples, mas, ao contrário,

bem complexa. Via de regra, quando a neurose está plenamente desenvolvida e persiste há algum

tempo, um determinado sintoma não corresponde a uma única fantasia inconsciente, mas a várias

fantasias desse gênero, e essa correspondência não é arbitrária, mas obedece a um padrão

regular. Sem dúvida, no início da doença ainda não se desenvolveram de todo essas

complicações.

Considerando o interesse geral, vou afastar-me neste ponto das diretrizes deste trabalho e

interpolar aqui uma série de fórmulas que tentam oferecer uma visão progressiva da natureza dos

sintomas histéricos. Essas fórmulas não se contradizem, mas enquanto algumas examinam os

fatos de forma cada vez mais completa e precisa, outras representam a aplicação de pontos de

vista diferentes.

(1) Os sintomas histéricos são símbolos mnêmicos de certas impressões e experiências

(traumáticas) operativas.

(2) Os sintomas histéricos são substitutos, produzidos por „conversão‟, para o retorno

associativo dessas experiências traumáticas.

(3) Os sintomas histéricos são - como outras estruturas psíquicas - uma expressão da

realização de um desejo.

(4) Os sintomas histéricos são a realização de uma fantasia inconsciente que serve à

realização de um desejo.

(5) Os sintomas histéricos estão a serviço da satisfação sexual e representam uma parcela

da vida sexual do sujeito (uma parcela que corresponde a um dos constituintes do seu instinto

sexual).

(6) Os sintomas histéricos correspondem a um retorno a um modo de satisfação sexual

que era real na vida infantil e que desde então tem sido reprimido.

(7) Os sintomas histéricos surgem como uma conciliação entre dois impulsos afetivos e

instintuais opostos, um dos quais tenta expressar um instinto componente ou um inconsciente da

constituição sexual, enquanto o outro tenta suprimi-lo.

(8) Os sintomas histéricos podem assumir a representação de vários impulsos

inconscientes que não são sexuais, mas que possuem sempre uma significação sexual.

Dessas diversas definições, a sétima descreve de forma mais completa a natureza dos

sintomas histéricos como sendo a realização de uma fantasia inconsciente, e a oitava concede ao

fator sexual a sua devida significação. Algumas das fórmulas anteriores conduzem a essas duas

últimas, estando nelas contidas.

Como demonstrei em meus Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade [1905d], a

conexão entre os sintomas e as fantasias torna fácil chegar da psicanálise dos primeiros a um

conhecimento dos componentes dos instintos sexuais que dominam o indivíduo. Em alguns casos,

entretanto, uma investigação por esses meios produz resultado inesperado. Mostra que há muitos

sintomas onde a exposição de uma fantasia sexual (ou de várias fantasias, uma das quais, a mais

significativa e primitiva, é de natureza sexual) não é suficiente para efetuar a resolução dos

sintomas. Para resolver isso é necessário ter duas fantasias sexuais, uma de caráter feminino e

outra de caráter masculino. Assim uma dessas fantasias origina-se de um impulso homossexual.

Essa nova descoberta não altera nossa sétima fórmula. Continua sendo verdade que um sintoma

histérico deve necessariamente representar uma conciliação entre um impulso libidinal e um

impulso repressor, mas pode também representar a união de duas fantasias libidinais de caráter

sexual oposto.

Abster-me-ei de apresentar exemplos para comprovar essa tese. A experiência

ensinou-me que análises curtas, condensadas em resumos, nunca possuem o efeito persuasório

que desejaríamos que produzissem; por outro lado, relatos de casos longamente analisados

devem ser deixados para outra ocasião.

Portanto, contentar-me-ei em expor uma nova fórmula e em explicar sua significação.

(9) Os sintomas histéricos são a expressão, por um lado, de uma fantasia sexual

inconsciente masculina e, por outro lado, de uma feminina.

Devo ressalvar que não posso reivindicar para essa fórmula a mesma validade geral que

atribuí às outras. A meu ver, ela não se aplica a todos os sintomas de um caso, nem a todos os

casos. Ao contrário, não é difícil encontrar casos em que os impulsos pertencentes a sexos

opostos encontraram expressão sintomática independente, de modo que os sintomas de

heterossexualidade e os de homossexualidade podem ser tão claramente diferenciados entre si

como as fantasias ocultas por trás deles. Entretanto, a situação descrita na nova fórmula é

bastante comum e suficientemente importante quando ocorre para merecer uma ênfase especial.

Parece-me constituir o mais alto grau de complexidade que a determinação de um sintoma

histérico pode atingir, e que só esperaríamos encontrar numa neurose de longa duração e já muito

organizada.

A natureza bissexual dos sintomas histéricos, que pode ser demonstrada em numerosos

casos, constitui uma interessante confirmação da minha concepção de que, na análise dos

psiconeuróticos, se evidencia de modo especialmente claro a pressuposta exigência de uma

disposição bissexual inata no homem. Uma situação exatamente análoga ocorre no mesmo campo

quando uma pessoa que se masturba tenta em suas fantasias conscientes ter tanto os sentimentos

do homem quanto os da mulher na situação por ela concebida. Encontraremos outros correlatos

em certos ataques histéricos nos quais o paciente desempenha simultaneamente ambos os papéis

na fantasia sexual subjacente. Em um caso que observei, por exemplo, a paciente pressionava o

vestido contra o corpo com uma das mãos (como mulher), enquanto tentava arrancá-lo com a outra

(como homem). Essa simultaneidade de atos contraditórios serve, em grande parte, para

obscurecer a situação, que por outro lado é tão plasticamente retratada no ataque, estando assim

em condições de ocultar a fantasia inconsciente que está em ação.

No tratamento psicanalítico é extremamente importante estar preparado para encontrar

sintomas com significado bissexual. Assim não ficaremos surpresos ou confusos se um sintoma

parece não diminuir, embora já tenhamos resolvido um dos seus significados sexuais, pois ele

ainda é mantido por um, talvez insuspeito, que pertence ao sexo oposto. No tratamento de tais

casos, além disso, podemos observar como o paciente se utiliza, durante a análise de um dos

significados sexuais, da conveniente possibilidade de constantemente passar suas associações

para o campo do significado oposto, tal como para uma trilha paralela.

CARÁTER E EROTISMO ANAL (1908)

NOTA DO EDITOR INGLÊS

CHARAKTER UND ANALEROTIK

(a) EDIÇÕES ALEMÃS:

1908 Psychiat.-neurol. Wschr., 9 (52) [março], 465-7.

1909 S.K.S.N. 2, 132-7. (1912, 2ª ed.; 1921, 3ª ed.)

1924 G.S., 5, 261-7.

1931 Sexualtheorie und Traumlehre, 62-8.

1941 G.W., 7, 203-9.

(b) TRADUÇÃO INGLESA:

Character and Anal Erotism

1924 C.P., 2, 45-50. (Trad. de R.C. McWatters.)

A presente tradução é uma versão modificada da publicada em 1924.

O tema deste artigo já se tornou tão familiar que é difícil conceber a indignação e o

assombro que ele provocou quando de sua primeira publicação. Segundo Ernest Jones (1955,

331-2), os três traços de caráter que são aqui associados ao erotismo anal já haviam sido

mencionados por Freud em sua carta a Jung de 2 de outubro de 1906. Também os mencionou em

algumas observações dirigidas à Sociedade Psicanalítica de Viena a 6 de março de 1907. (Ver

Minutes, 1.) Em sua carta a Fliess de 22 de dezembro de 1897 (Freud, 1950a, Carta 79), associara

dinheiro e avareza com fezes. Foi a análise do „Rat Man‟ (1909d), concluída pouco antes, que em

parte, sem dúvida o estimulou a escrever este artigo. Entretanto, só alguns anos mais tarde viria a

examinar a conexão especial entre o erotismo anal e a neurose obsessiva, em „A Disposição à

Neurose Obsessiva‟ (1913i). Outro caso clínico, o do „Homem dos Lobos‟ (1918b [1914]) levou a

uma outra ampliação do tema aqui tratado - o artigo „As Transformações do Instinto‟ (1917c).

CARÁTER E EROTISMO ANAL

Entre aqueles que tentamos ajudar com nossos esforços psicanalíticos, freqüentemente

encontramos um certo tipo de indivíduo que se distingue por possuir determinados traços de

caráter, e simultaneamente nossa atenção é atraída pelo comportamento, em sua infância, de uma

de suas funções corporais e pelo órgão nela envolvido. Não posso agora precisar em que ocasião

comecei a ter a impressão de que havia uma conexão orgânica entre esse tipo de caráter e esse

comportamento de um órgão, mas posso assegurar ao leitor que nessa impressão não pesou

qualquer suposição teórica.

A experiência acumulada fortaleceu de tal maneira minha crença na existência dessa

conexão que me aventuro agora a torná-la objeto de uma comunicação.

As pessoas que passarei a descrever distinguem-se por uma combinação regular das três

características que se seguem. Elas são especialmente ordeiras, parcimoniosas e obstinadas.

Cada um desses vocábulos abrange, na realidade, um pequeno grupo ou série de traços de

caráter interligados. „Ordeiro‟ tanto abrange a noção de esmero individual como o escrúpulo no

cumprimento de pequenos deveres e a fidedignidade. O contrário de ordeiro seria „descuidado‟ e

„desordenado‟. A parcimônia pode aparecer de forma exagerada como avareza, e a obstinação

pode transformar-se em rebeldia, à qual podem facilmente associar-se a cólera e os ímpetos

vingativos. Essas duas últimas características, a parcimônia e a obstinação, possuem entre si uma

ligação mais estreita do que com a primeira - a ordem. Elas constituem também o elemento mais

constante de todo o complexo. Parece-me, entretanto, que essas três características estão

indubitavelmente ligadas entre si.

É fácil inferir da história da primeira infância desses indivíduos que os mesmos

dispenderam um tempo relativamente longo para superar sua incontinencia alvi [incontinência

fecal] infantil, e que na infância posterior sofreram falhas isoladas nessa função. Quando bebês,

parecem ter pertencido ao grupo que se recusa a esvaziar os intestinos ao ser colocado no urinol,

porque obtém um prazer suplementar do ato de defecar, pois nos revelam que em anos

posteriores gostavam de reter as fezes, e se lembram - embora atribuam o fato mais facilmente em

relação a irmãos e irmãs do que a si mesmos - de ter feito toda uma série de coisas indecorosas

com suas fezes. Deduzimos de tais indicações que essas pessoas nasceram com uma constituição

sexual na qual o caráter erógeno da zona anal é excepcionalmente forte. Mas como não há

resquícios dessas fraquezas e idiossincrasias após o término de suas infâncias, devemos concluir

que no decurso do seu desenvolvimento a zona anal perdeu sua significação erógena. É de se

suspeitar que a regularidade com que essa tríade de propriedades apresenta-se no caráter dessas

pessoas possa ser relacionada com o desaparecimento do erotismo anal.

Sei que ninguém está disposto a dar crédito a uma situação enquanto a mesma se afigura

ininteligível e não passível de explicação. Contudo, com a ajuda dos postulados que expus em

1905 em meus Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade, podemos ao menos nos aproximar

dos seus fatores básicos. Tentei demonstrar nesses ensaios que o instinto sexual do homem é

altamente complexo e resultante da contribuição de numerosos constituintes e instintos

componentes. A „excitação sexual‟ recebe importantes contribuições das excitações periféricas de

determinadas partes do corpo (os genitais, a boca, o ânus, a uretra), que assim merecem a

designação especial de „zonas erógenas‟. Mas as quantidades de excitação que provêm dessas

partes do corpo não sofrem as mesmas vicissitudes, nem têm destino igual em todos os períodos

da vida. De modo geral, só uma parcela dela é utilizada na vida sexual; outra parte é defletida dos

fins sexuais e dirigida para outros - um processo que denominamos de „sublimação‟. Durante o

período de vida que vai do final do quinto ano às primeiras manifestações da puberdade (por volta

dos onze anos) e que pode ser chamado de período de „latência sexual‟, criam-se na mente

formações reativas, ou contraforças, como a vergonha, a repugnância e a moralidade. Na verdade

surgem às expensas das excitações provenientes das zonas erógenas e erguem-se como diques

para opor-se às atividades posteriores dos instintos sexuais. Ora, o erotismo anal é um dos

componentes do instinto [sexual] que, no decurso do desenvolimento e de acordo com a educação

que a nossa atual civilização exige, se tornarão inúteis para os fins sexuais. Portanto, é plausível a

suposição de que esses traços de caráter - a ordem, a parcimônia e a obstinação -, com freqüência

relevantes nos indivíduos que anteriormente eram anal-eróticos, sejam os primeiros e mais

constantes resultados da sublimação do erotismo anal. A limpeza, a ordem e a fidedignidade dão

exatamente a impressão de uma formação reativa contra um interesse pela imundície perturbadora

que não deveria pertencer ao corpo. („Dirt is matter in the wrong place.‟). Já não é fácil a tarefa de

relacionar a obstinação com um interesse pela defecação, mas devíamos lembrar que até mesmo

um bebê pode mostrar vontade própria quando se trata do ato de defecar, como vimos acima (ver

em [1]), e que é costume bastante difundido na educação da criança administrar estímulos

dolorosos à pele das nádegas - ligada à zona erógena anal - para quebrar a obstinação da criança

e torná-la submissa. Ainda persiste hoje o convite a uma carícia na zona anal, como expressão de

desafio ou desprezo, convite esse que corresponde na realidade a um ato de ternura que

sucumbiu à repressão. A exibição das nádegas representa um abrandamento em gesto desse

convite verbal. No Götz von Berlichingen de Goethe aparecem tanto as palavras como o gesto, em

momento apropriado, como expressão de desafio.

As conexões entre os complexos do apego ao dinheiro e da defecação, aparentemente tão

diversos, afiguram-se as mais extensas. Todo médico que já praticou a psicanálise sabe que os

casos mais antigos e rebeldes daquilo que é descrito como constipação podem ser curados em

neuróticos por essa forma de tratamento, fato menos surpreendente se recordarmos que essa

função também se mostrou tratável pela sugestão hipnótica. Mas só alcançaremos esse resultado

com a psicanálise se nos ocuparmos do complexo monetário dos pacientes e os induzirmos a

trazê-lo à consciência, como todas as suas conexões. Talvez a neurose aqui apenas siga um

indício fornecido pela linguagem popular, que qualifica o indivíduo muito apegado ao seu dinheiro

de „sujo‟ ou „imundo‟. Mas essa explicação seria demasiadamente superficial. Na realidade, onde

quer que tenham predominado ou ainda persistam as formas arcaicas do pensamento - nas

antigas civilizações, nos mitos, nos contos de fadas e superstições, no pensamento inconsciente,

nos sonhos e nas neuroses - o dinheiro é intimamente relacionado com a sujeira. Sabemos que o

ouro entregue pelo diabo a seus bem-amados converte-se em excremento após sua partida, e o

diabo nada mais é do que a personificação da vida instintual inconsciente reprimida. Também

conhecemos a superstição que liga a descoberta de um tesouro com a defecação, e todos estão

familiarizados com a figura do „cagador de ducados‟ [Dukatenscheisser]‟. Na verdade, segundo as

antigas doutrinas da Babilônia, o ouro são „as fezes do Inferno‟ (Mammon = ilu manman). Assim,

aqui como em outras ocasiões, a neurose, acompanhando os usos da linguagem, toma as

palavras no seu sentido original e significativo; parecendo utilizá-las em seu sentido figurado, está

na realidade simplesmente devolvendo a elas seu sentido primitivo.

É possível que o contraste existente entre a substância mais preciosa que o homem

conhece e a mais desprezível, que eles rejeitam como matéria inútil („refugo‟) tenha levado a essa

identificação específica do ouro com fezes.

Ainda uma outra circunstância facilita essa equação no pensamento neurótico. Sabemos

que o interesse erótico original na defecação está destinado a extinguir-se em anos posteriores.

Nessa ocasião aparece o interesse pelo dinheiro, que não existia na infância. Isso facilita a

transferência da impulsão primitiva, que estava em processo de perder seu objetivo, para o nosso

objetivo emergente.

Se houver realmente alguma base para a relação que aqui estabelecemos entre o erotismo

anal e essa tríade de traços de caráter, provavelmente não encontraremos um acentuado grau de

„caráter anal‟ nos indivíduos que conservaram na vida adulta o caráter erógeno da zona anal, como

acontece, por exemplo, com certos homossexuais. A menos que esteja enganado, a experiência

comprova amplamente essa conclusão.

Devíamos apreciar se os outros complexos de caráter não revelam também uma conexão

com a excitação de zonas erógenas específicas. Atualmente só tenho conhecimento da intensa e

„ardente‟ ambição de indivíduos que sofreram anteriormente de enurese. De qualquer modo,

podemos estabelecer uma fórmula para o modo como o caráter, em sua configuração final, se

forma a partir dos instintos constituintes: os traços de caráter permanentes, são ou prolongamentos

inalterados dos instintos originais, ou sublimação desses instintos, ou formações reativas contra os

mesmos.

MORAL SEXUAL CIVILIZADA E DOENÇA NERVOSA MODERNA (1908)

NOTA DO EDITOR INGLÊS

DIE „KULTURELLE‟ SEXUALMORAL UND DIE MODERNE NERVOSITÄT

(a) EDIÇÕES ALEMÃS:

1908 Sexual-Probleme 4 (3) [março], 107-129.

1909 S.K.S.N., 2, 175-196. (1912, 2ª ed.; 1921, 3ª ed.)

1924 G.S., 5, 143-167.

1931 Sexualtheorie und Traumlehre, 17-42.

1941 G.W., 7, 143-167.

(b) TRADUÇÕES INGLESAS:

„Modern Sexual Morality and Modern Nervousness‟

1915 Amer. J. Urol., 11, 391-405. (Incompleta.)

„“Civilized“ Sexual Morality and Modern Nervousness

1924 C.P., 2, 76-99. (Trad. de E.B. Herford e E. C. Mayne.)

Uma reimpressão da tradução de 1915 apareceu em forma de panfleto (organizado por W.

J. Robinson) publicado por Eugenics Publications, Nova Iorque, 1931. Ambas omitem os dez

primeiros parágrafos. A presente tradução, com um título alterado, baseia-se na publicada em

1924.

Sexual-Probleme, o periódico em que apareceram este artigo e o próximo (ver em [1]), foi

o sucessor da revista Mutterschutz, sob cujo título é às vezes catalogado. A numeração dos

volumes não sofreu interrupção apesar da mudança de título.

Embora esta seja a primeira das longas exposições de Freud sobre o antagonismo entre

civilização e vida instintual, suas convicções sobre o assunto são muito anteriores. Por exemplo,

num memorando enviado a Fliess em 31 de maio de 1897, ele escreve que „o incesto é anti-social

e a civilização consiste na renúncia progressiva ao mesmo‟. (Freud, 1950a,Rascunho N.) Contudo,

na verdade, esse antagonismo estava implícito em toda a sua teoria do impacto do período de

latência sobre o desenvolvimento da sexualidade humana, e nas últimas páginas dos seus Três

Ensaios (1905d) ele mencionou a „relação inversa que existe entre a civilização e o livre

desenvolvimento da sexualidade‟ (ver em [1], 1972). O presente artigo é em grande parte um

sumário das descobertas do último trabalho mencionado, que fora publicado apenas três anos

antes.

Os aspectos sociológicos desse antagonismo constituem o tema principal deste artigo, e

Freud voltou freqüentemente ao assunto em seus escritos posteriores. Sem determo-nos nas

alusões passageiras, podemos mencionar as duas últimas seções do seu segundo artigo sobre a

psicologia do amor (1912d), ver a partir de [2], 1970, as páginas iniciais de O Futuro de uma Ilusão

(1927c) e os parágrafos finais da carta aberta a Einstein, „Por que a Guerra?‟ (1933b). No entanto,

sua exposição mais longa e mais elaborada do assunto está, sem dúvida, em O Mal-Estar na

Civilização (1930a).

O antigo problema da tradução da palavra alemã „Kultur„ por „cultura‟ ou por „civilização‟ foi

resolvido aqui pela escolha ora de um termo ora de outro. Na verdade os tradutores foram

auxiliados por uma observação de Freud no terceiro parágrafo de O Futuro de uma Ilusão:

„desprezo ter que distinguir entre cultura e civilização.‟

MORAL SEXUAL CIVILIZADA E DOENÇA NERVOSA MODERNA

Em seu livro recentemente publicado, Ética Sexual, Von Ehrenfels (1907) discorre sobre a

diferença entre a moral sexual „natural‟ e a „civilizada‟. Segundo ele, devemos entender por moral

sexual natural uma moral sexual sob cujo regime um grupo humano é capaz de conservar sua

saúde e eficiência, e por moral sexual civilizada, uma obediência moral sexual àquilo que, por outro

lado, estimula os homens a uma intensa e produtiva atividade cultural. Esse contraste é mais bem

ilustrado, segundo ele, comparando-se o caráter inato de um povo com suas realizações culturais.

Remeterei o leitor que deseje deter-se no exame dessas importantes proposições à obra de Von

Ehrenfels, limitando-me a colher ali somente o necessário para alicerçar minha própria contribuição

ao assunto.

Não é arriscado supor que sob o regime de uma moral sexual civilizada a saúde e a

eficiência dos indivíduos esteja sujeita a danos, e que tais prejuízos causados pelos sacrifícios que

lhes são exigidos terminem por atingir um grau tão elevado, que indiretamente cheguem a colocar

também em perigo os objetivos culturais. Von Ehrenfels atribui, de fato, à moral sexual que hoje

rege a nossa sociedade ocidental numerosos prejuízos, pelos quais responsabiliza diretamente

essa moral; embora reconheça plenamente sua vigorosa influência no desenvolvimento da

civilização, não pode deixar de concluir da necessidade de uma reforma. Em sua opinião, a

singularidade da moral sexual civilizada a que obedecemos é que as restrições feitas às mulheres

por tal sistema são estendidas à vida sexual masculina, sendo proibida toda relação sexual exceto

dentro do casamento monogâmico. No entanto, as diferenças naturais entre os sexos impõem

sanções menos severas às transgressões masculinas, tornando mesmo necessário admitir uma

moral dupla. Contudo, uma sociedade que aceita essa moral ambígua não pode levar muito longe

o „amor à verdade, à honestidade e à humanidade‟ (Von Ehrenfels, ibid., pág. 32 e segs.), e deverá

induzir seus membros à ocultação da verdade, a um falso otimismo, e a enganarem a si próprios e

aos demais. A moral sexual civilizada traz conseqüências ainda mais graves, pois, glorificando a

monogamia, impossibilita a seleção pela virilidade - único fator que pode aperfeiçoar a constituição

do homem, pois entre os povos civilizados a seleção pela vitalidade foi reduzida a um mínimo

pelos princípios humanitários e pela higiene (ibid., 35).

Entre os danos acima atribuídos a essa moral sexual civilizada, os médicos terão notado a

falta justamente daquele cuja significação examinaremos no presente artigo. Refiro-me ao

aumento, imputável a essa moral, da doença nervosa moderna, isto é, da doença nervosa que se

difunde rapidamente na sociedade contemporânea. Ocasionalmente, um desses pacientes

nervosos chamará, ele próprio, a atenção do médico para o papel que o antagonismo existente

entre a sua constituição e as exigências da civilização desempenhou na gênese de sua

enfermidade, dizendo: „Em nossa família todos tornamo-nos neuróticos porque queríamos ser

melhores do que, com nossa origem, somos capazes de ser.‟ Os médicos também encontram

matéria para reflexão no fato de que os indivíduos vitimados por doenças nervosas são, com

freqüência, justamente os filhos de casais procedentes de rudes e vigorosas famílias camponesas

que viviam em condições simples e saudáveis, e que, fixando-se em cidades, num curto espaço de

tempo elevaram seus filhos a um alto nível cultural. Os próprios neurologistas asseveram

enfaticamente que existe uma relação entre a „alta incidência da doença nervosa‟ e a moderna vida

civilizada. As bases para tal afirmativa poderão ser encontradas nos testemunhos de alguns

eminentes observadores transcritos a seguir:

W. Erb (1893): „O problema está em determinar se as causas da doença nervosa que lhes

foram expostas estão presentes na vida moderna num grau suficientemente elevado para explicar

o incremento dessa doença. A questão será respondida afirmativamente, sem hesitações, se

fizermos um rápido exame da nossa vida moderna e de seus aspectos particulares.

„A simples enumeração de uma série de fatos gerais já demonstra claramente a nossa

proposição. As extraordinárias realizações dos tempos modernos, as descobertas e as

investigações em todos os setores e a manutenção do progresso, apesar de crescente

competição, só foram alcançados e só podem ser conservados por meio de um grande esforço

mental. Cresceram as exigências impostas à eficiência do indivíduo, e só reunindo todos os seus

poderes mentais ele pode atendê-las. Simultaneamente, em todas as classes aumentam as

necessidades individuais e a ânsia de prazeres materiais; um luxo sem precedentes atingiu

camadas da população a que até então era totalmente estranho; a irreligiosidade, o

descontentamento e a cobiça intensificam-se em amplas esferas sociais. O incremento das

comunicações resultante da rede telegráfica e telefônica que envolve o mundo alteraram

completamente as condições do comércio. Tudo é pressa e agitação. A noite é aproveitada para

viajar, o dia para os negócios, e até mesmo as „viagens de recreio‟ colocam em tensão o sistema

nervoso. As crises políticas, industriais e financeiras atingem círculos muito mais amplos do que

anteriormente. Quase toda a população participa da vida política. Os conflitos religiosos, sociais e

políticos, a atividade partidária, a agitação eleitoral e a grande expansão dos sindicalismos

inflamam os espíritos, exigindo violentos esforços da mente e roubando tempo à recreação, ao

sono e ao lazer. A vida urbana torna-se cada vez mais sofisticada e intranqüila. Os nervos

exaustos buscam refúgio em maiores estímulos e em prazeres intensos, caindo em ainda maior

exaustão. A literatura moderna ocupa-se de questões controvertidas, que despertam paixões e

encorajam a sensualidade, a fome de prazeres, o desprezo por todos os princípios éticos e por

todos os ideais, apresentando à mente do leitor personagens patológicas, propondo-lhe problemas

de sexualidade psicopática, temas revolucionários e outros. Nossa audição é excitada e

superestimada por grandes doses de música ruidosa e insistente. As artes cênicas cativam nossos

sentidos com suas representações excitantes, enquanto as artes plásticas se voltam de

preferência para o repulsivo, o feio e o estimulante, não hesitando em apresentar aos nossos

olhos, com nauseante realismo, as imagens mais horríveis que a vida pode oferecer.

„Esse quadro geral que nos indica os numerosos perigos inerentes à evolução da

civilização moderna pode ser completado com alguns detalhes.‟

Binswanger (1896): „Designa-se a neurastenia, em especial, como doença

fundamentalmente moderna. Beard, a quem devemos sua primeira descrição minuciosa,

acreditava ter descoberto uma nova doença nervosa oriunda do solo americano. Sem dúvida tal

suposição era errônea; entretanto, o fato de ter sido um médico americano o primeiro a

compreender e a expor os aspectos singulares dessa doença, devido a uma vasta experiência

clínica, revela certamente a íntima conexão entre essa doença e a vida moderna, com sua

desenfreada volúpia de bens materiais e seus enormes progressos no campo da tecnologia, que

destruíram todos os entraves temporais ou espaciais à intercomunicação.‟

Von Krafft-Ebin (1895): „O modo de vida de um sem-número de povos civilizados da

atualidade apresenta uma grande quantidade de aspectos anti-higiênicos que explicam o nocivo

incremento de doenças nervosas, pois esses fatores atuam primordialmente sobre o cérebro. As

transformações ocorridas nas últimas décadas nas condições políticas e sociais das nações

civilizadas, especialmente no comércio, na indústria e na agricultura, acarretaram grandes

mudanças nas atividades profissionais dos indivíduos, em sua posição social e na propriedade -

tudo isso à custa do sistema nervoso, que deve atender ao aumento das exigências sociais e

econômicas com um maior dispêndio de energia, do qual freqüentemente tem insuficientes

oportunidades de recuperar-se.‟

A meu ver, a deficiência destas e de outras teorias semelhantes está, não em sua

imprecisão, mas no fato de se revelarem insuficientes para explicar as peculiaridades dos

distúrbios nervosos, e de ignorarem justamente o fator etiológico mais importante. Se deixarmos de

lado as modalidades mais leves de „nervosismo‟ e nos atermos às doenças nervosas propriamente

ditas, veremos que a influência prejudicial da civilização reduz-se principalmente à repressão

nociva da vida sexual dos povos (ou classes) civilizados através da moral sexual „civilizada‟ que os

rege.

Tentei expor a comprovação dessa minha afirmação em vários artigos técnicos. Não vou

reapresentá-la aqui, mas farei um resumo dos argumentos mais importantes que resultaram de

minhas investigações.

Cuidadosa observação clínica permitiu-nos distinguir dois grupos de distúrbios nervosos:

as neuroses propriamente ditas e as psiconeuroses. Nas primeiras, os distúrbios (sintomas), com

efeitos seja no funcionamento somático, seja no mental, parecem ser de natureza tóxica,

comportando-se da mesma forma que os fenômenos que acompanham o excesso ou a escassez

de certos tóxicos nervosos. Essas neuroses - comumente agrupadas sob a denominação de

„neurastenia‟ - podem resultar de influências nocivas na vida sexual, sem que seja necessária a

presença de taras hereditárias; na verdade, a forma da doença corresponde à natureza desses

males, de modo que, com freqüência, o fator etiológico sexual pode ser deduzido do quadro

clínico. Por outro lado, não existe nenhuma correspondência entre as formas das doenças

nervosas e as outras influências nocivas da civilização assinaladas por aquelas autoridades.

Podemos, portanto, considerar o fator sexual como o fator básico na