11 - Cinco lições de psicanálise, Leonardo da Vinci e outros trabalhos, Trabalhos de Psicologia
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Cinco lições de psicanálise, Leonardo da

Vinci e outros trabalhos

VOLUME XI

(1910[1909])

PREFÁCIO ESPECIAL PARA A EDIÇÃO BRASILEIRA DE ANNA FREUD

Produzir e editar em português uma Edição Standard das obras de Freud constitui ingente

tarefa, na qual aqueles que participaram são dignos de louvores. Quando, como na Psicanálise, o

pioneiro de uma nova disciplina formulou novos conceitos revolucionários e empregou novos

termos, seus tradutores precisam não somente de conhecimentos e habilidade, como também de

uma inventividade criadora no ampliar os vocábulos existentes que ultrapassam de muito as

fronteiras do comum.

Esta nova edição em português substitui uma anterior, malograda, que saiu de circulação.

Sobre esta, apresenta a imensa vantagem de ser não apenas completa, mas uma tradução direta

do texto original em alemão, sem que se utilizasse qualquer tradução intermediária.

Não tenho nenhuma dúvida em meu espírito de que o próprio autor a acolheria com todo o

entusiasmo.

Anna Freud

Londres, fevereiro de 1970

CINCO LIÇÕES DE PSICANÁLISE (1910 [1909])

NOTA DO EDITOR INGLÊS (JAMES STRACHEY)

ÜBER PSYCHOANALYSE

(a) EDIÇÕES ALEMÃS:

1910 Leipzig e Viena: Deuticke. P. 62 (2ª ed. 1912, 3ª ed. 1916, 4ª ed. 1919, 5ª ed.

1920, 6ª ed. 1922, 7ª ed. 1924, 8ª ed. 1930; todas sem modificações.)

1924 G.S., 4, 349-406. (Ligeiramente modificada.)

1943 G.W., 8, 3-60. (Não modificada da G.S.)

(b) TRADUÇÃO INGLESA:

`The Origin and Development of Psychoanalysis‟

1910 Am. J. Psychol., 21 (2 e 3), 181-218. (Tr. H. W. Chase.)

1910 Em Lectures and Addresses Delivered before the Departments of Psychology

and Pedagogy in Celebration of the Twentieth Anniversary of the Opening of Clark

University, Worcester, Mass., Parte I, pp. 1-38. (Reimpressão da acima mencionada.)

1924 Em An Outline of Psychoanalysis, ed. Van Teslaar, Nova Iorque: Boni and

Liveright. Pp. 21-70. (Reedição da acima mencionada.)

A presente tradução inglesa, inteiramente nova, com o título diferente de Five Lectures on

Psycho-Analysis, é de James Strachey.

Em 1909, a Clark University, Worcester, Massachusetts, comemorou o vigésimo ano de

sua fundação, e seu presidente, o Dr. G. Stanley Hall, convidou Freud e alguns de seus principais

seguidores (C. G. Jung, S. Ferenczi, Ernest Jones e A. A. Brill) para participarem das celebrações

e receberem graus honoríficos. Foi em dezembro de 1908 que Freud recebeu pela primeira vez o

convite, mas foi somente no outono seguinte que esse convite se concretizou, tendo as cinco

conferências de Freud sido pronunciadas na segunda-feira, 6 de setembro de 1909, e nos quatro

dias subseqüentes. Isto, conforme declarou o próprio Freud na ocasião, foi o primeiro

reconhecimento oficial da novel ciência, havendo ele descrito em seu Autobiogra-phical Study

(Estudo Autobiográfico) 1925d, Capítulo V), como, ao subir ao estrado para pronunciar suas

conferências, `isso lhe pareceu a concretização de um incrível devaneio‟.

As conferências (em alemão, naturalmente) foram, de acordo com a prática quase

universal de Freud, pronunciadas de improviso e, conforme nos informa o Dr. Jones, sem notas e

depois de muito pouco preparo. Foi somente depois de sua volta a Viena que ele foi induzido, a

contragosto, a escrevê-las. Esse trabalho somente foi concluído na segunda semana de dezembro,

mas sua memória verbal era tão boa que, segundo nos assegura o Dr. Jones a versão impressa

`não fugia muito da exposição original‟. Sua primeira publicação foi feita numa tradução inglesa no

American Journal of Psychology no início de 1910, mas o original em alemão apareceu pouco

depois sob a forma de panfleto em Viena. O trabalho tornou-se popular e teve várias edições; em

nenhuma delas, contudo, houve qualquer alteração de substância, salvo quanto à nota de rodapé

acrescentada em 1923 bem no início, aparecendo somente no Gesammelte Schriften e

Gesammelte Werke, nos quais Freud retirou suas expressões de gratidão a Breuer. Um exame da

atitude modificada de Freud quanto a Breuer encontrar-se-á na Introdução do Editor a Studies on

Hysteria (Estudos sobre a Histeria), Standard Ed., 2, XXVI ss.

Durante toda sua carreira Freud sempre estava pronto a apresentar exposições de suas

descobertas. Já publicara ele alguns curtos relatos de psicanálise, mas esse grupo de conferências

foi o primeiro numa escala ampliada. Essas exposições naturalmente variavam de dificuldade de

acordo com o auditório para o qual se destinavam, devendo essas ser consideradas como as mais

simples, mormente quando postas em confronto com a grande série de Introductory Lectures

(Conferências Introdutórias) pronunciadas alguns anos depois (1916-17). Não obstante, apesar de

todos os acréscimos que iriam ser feitos à estrutura da psicanálise durante o próximo quartel de

um século, essas conferências ainda proporcionam admirável quadro preliminar que exige muito

pouca correção. E dão elas uma excelente idéia da facilidade e clareza de estilo e do irrestrito

sentido de forma que tornou Freud um conferencista tão notável quanto à exposição.

Consideráveis trechos da tradução anterior (1910) deste trabalho foram incluídos na

General Selection from the Works of Sigmund Freud (Seleção Geral dos Trabalhos de Sigmund

Freud), de Rickman (1937, 3-43).

NOTA DO EDITOR BRASILEIRO

A presente tradução brasileira, diretamente do alemão, é da autoria de Durval Marcondes

(Professor de Psicologia Clínica da Universidade de S. Paulo e Presidente da Associação

Brasileira de Psicanálise) e de J. Barbosa Corrêa (Professor de Clínica Médica da Escola Paulista

de Medicina). Feita para a Companhia Editora Nacional, data de 1931. Foi ligeiramente modificada

por Jayme Salomão (Membro-Associado da Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de

Janeiro).

Carta enviada por Sigmund Freud ao Professor Durval Marcondes agradecendo a primeira

tradução brasileira de um de seus livros.

CINCO LIÇÕES DE PSICANÁLISE

Pronunciadas por Ocasião das Comemorações

do Vigésimo Aniversário da Fundação da

CLARK UNIVERSITY, WORCESTER

MASSACHUSETTS

Setembro de 1909

Ao

DR. G. STANLEY HALL, Ph. D., LL. D.

Presidente da Clark University

Professor de Psicologia e Pedagogia

Este Trabalho é Penhoradamente Dedicado

PREFÁCIO PARA AS CINCO LIÇÕES DE PSICANÁLISE DE DURVAL MARCONDES

As lições que se seguem foram pronunciadas em língua alemã por Freud, em 1909, na

“Clark University” em Worcester (Estados Unidos), por ocasião do vigésimo aniversário dessa

instituição, e a convite de seu presidente, o eminente psicólogo Stanley Hall. Elas constituem a

primeira exposição sistemática que Freud fez de sua teoria e, embora não envolvam as aquisições

mais recentes da psicanálise, são, a meu ver, a leitura mais apropriada para quem aborda pela

primeira vez a obra do mestre.

A psicanálise estava longe de ter, naquela época, a importância e o renome que hoje

desfruta. Se é exato que já em 1907 ela era estudada e utilizada pelo notável psiquiatra Bleuler e

por seus assistentes, na clínica de Zurique; e que já em 1908 se reunia em Salisburgo o primeiro

congresso psicanalítico internacional, nem por isso as novas idéias eram bem recebidas nas rodas

científicas oficiais, onde as afirmações sobre o papel da sexualidade na etiologia das neuroses

esbarravam quase sempre com os preconceitos de uma falsa moral. Daí a alta significação para a

jovem doutrina teve a sua consagração na cátedra de Worcester. “Na Europa, escreveu Freud, eu

me sentia como um proscrito; ali me via acolhido pelos melhores como um igual. A psicanálise não

era mais, portanto, uma concepção delirante, mas se tornara uma parte preciosa da realidade.”

Freud nasceu em 6 de maio de 1856, em Freiberg, na Morávia, tendo passado aos quatro

anos para Viena, onde fez seus estudos. Formou-se em Medicina em 1881. Ainda estudante,

entrou, em 1876, a trabalhar no laboratório de fisiologia de Ernst Brücke, sob cuja direção efetuou

pesquisas de histologia nervosa. Depois de formado, ingressou no serviço do grande psiquiatra

Theodor Meynert, tendo-se dedicado, por essa época, a estudos de neuroanatomia. Antes de

entregar-se definitivamente à investigação psicanalítica, publicou vários trabalhos sobre afecções

orgânicas do sistema nervoso, tais como as afasias e as encefalopatias infantis. Entre 1885 e 1886

foi discípulo de Charcot, em Paris, e acompanhou, em 1889, em Nancy, as experiências de

Bernheim sobre o hipnotismo. A influência de ambos nas concepções iniciais da teoria psicanalítica

poderá ser bem avaliada nestas “Cinco Lições”.

Essas concepções tiveram sua primeira expressão na nota prévia que Freud publicou em

1893 com o Dr. Breuer, intitulada “Sobre o Mecanismo Psíquico dos Fenômenos Histéricos”, a que

se seguiu, em 1895, o livro, também em colaboração, “Estudos Sobre a Histeria.”

* * *

A vida de Freud tem sido toda ela uma luta incessante pela verdade. Exposto, pela sua

coragem de afirmar, ao anátema das escolas psiquiátricas dominantes, preferiu suportar por muito

tempo a dureza de um verdadeiro exílio intelectual a ceder naquilo que era o honesto resultado de

sua investigação. Desde o começo de sua carreira profissional, o amor à certeza científica fê-lo

prejudicar deliberadamente a clínica em início pela tenacidade em pesquisar em seus doentes o

exato determinismo dos sintomas. Sua obra fundamenta-se na mais demorada e paciente

observação dos fatos. Há cerca de quarenta anos que ele se dedica diariamente a oito, nove, dez,

às vezes mesmo onze análises de uma hora cada uma, podendo-se, portanto, dizer que passou

toda uma existência debruçado sobre a alma dos neuróticos. O impiedoso rigor para com as

próprias convicções chegou, às vezes, ao ponto de fazê-lo adiar por vários anos a publicação de

seus trabalhos até que a experiência ulterior proporcionasse a confirmação de suas descobertas.

“Minha A Interpretação de Sonhos”, diz ele, “e meu Fragmento de uma Análise de um Caso de

Histeria (o caso de Dora) foram retidos por mim - se não pelos nove anos aconselhados por

Horácio - em todo caso por quatro ou cinco anos antes que me decidisse a publicá-los.”

Compreende-se, portanto, que quem adquiriu uma visão nova dos fatos à custa de tão

penosos sacrifícios, se tenha recusado a mudar de idéia ante a pressão de uma crítica partidária,

que se não baseia na verificação objetiva. Essa justificada intransigência de Freud foi, não

obstante, tachada de dogmatismo, o que não impede, porém, que novos dados da observação

direta e imparcial confirmem e completem cada vez mais as suas conclusões.

“Os homens são fortes enquanto representam uma idéia forte.” Em sua aureolada velhice,

Freud assiste presentemente ao triunfo gradual e seguro de seus princípios, cujo enunciado já não

constitui uma blasfêmia. Eles conquistam paulatinamente o lugar que lhes cabe na ciência dos

fenômenos espirituais e se vão tornando aceitos pelos mais legítimos representantes da psiquiatria

moderna. Existe, na verdade, quem insista em rejeitar as conseqüências teóricas da psicanálise

sem lhe conhecer sequer os métodos. Mas aos poucos irão chegando os últimos retardatários.

“Quem sabe esperar não necessita fazer concessões.”

São Paulo, novembro de 1931.

Durval Marcondes.

PRIMEIRA LIÇÃO

SENHORAS E SENHORES, - Constitui para mim sensação nova e embaraçosa

apresentar-me como conferencista ante um auditório de estudiosos do Novo Mundo. Considerando

que devo esta honra tão somente ao fato de estar meu nome ligado ao tema da psicanálise, será

esse, por conseqüência, o assunto de que lhes falarei, tentando proporcionar-lhes, o mais

sinteticamente possível, uma visão de conjunto da história inicial e do ulterior desenvolvimento

desse novo processo semiológico e terapêutico.

Se algum mérito existe em ter dado vida à psicanálise, a mim não cabe, pois não participei

de suas origens. Era ainda estudante e ocupava-me com os meus últimos exames, quando outro

médico de Viena, o Dr. Joseph Breuer, empregou pela primeira vez esse método no tratamento de

uma jovem histérica (1880-1882). Ocupemo-nos, pois, primeiramente, da história clínica e

terapêutica desse caso, a qual se acha minuciosamente descrita nos Studies on Hysteria (Estudos

Sobre a Histeria) [1895d] que mais tarde publicamos, o Dr. Breuer e eu.

Mas, preliminarmente, uma observação. Vim a saber, aliás com satisfação, que a maioria

de meus ouvintes não pertence à classe médica. Não cuidem, porém, que seja necessária uma

especial cultura médica para acompanhar minha exposição. Caminharemos por algum tempo ao

lado dos médicos, mas logo deles nos apartaremos, para seguir, com o Dr. Breuer, uma rota

absolutamente original.

A paciente do Dr. Breuer, uma jovem de 21 anos, de altos dotes intelectuais, manifestou,

no decurso de sua doença, que durou mais de dois anos, uma série de perturbações físicas e

psíquicas mais ou menos graves. Tinha uma paralisia espástica de ambas as extremidades do lado

direito, com anestesia, sintoma que se estendia por vezes aos membros do lado oposto;

perturbações dos movimentos oculares e várias alterações da visão; dificuldade em manter a

cabeça erguida; tosse nervosa intensa; repugnância pelos alimentos e impossibilidade de beber

durante várias semanas, apesar de uma sede martirizante; redução da faculdade de expressão

verbal, que chegou a impedi-la de falar ou entender a língua materna; e, finalmente, estados de

`absence„ (ausência), de confusão, de delírio e de alteração total da personalidade, aos quais

voltaremos mais adiante a nossa atenção.

Ao terem notícia de semelhante quadro mórbido, os senhores tenderão, mesmo não sendo

médicos, a supor que se trate de uma doença grave, provavelmente do cérebro, com poucas

esperanças de cura, e que levará rapidamente o enfermo a um desenlace fatal. Os médicos

podem, entretanto, assegurar-lhes que, numa série de casos com fenômenos da mesma

gravidade, justifica-se outra opinião muito mais favorável. Quando tal quadro mórbido é encontrado

em indivíduo jovem do sexo feminino, cujos órgãos vitais internos (coração, rins etc.) nada revelam

de anormal ao exame objetivo, mas que sofreu no entanto violentos abalos emocionais, e quando,

em certas minúcias, os sintomas se afastam do comum, já os médicos não consideram o caso tão

grave. Afirmam que não se trata de uma afecção cerebral orgânica, mas desse enigmático estado

que desde o tempo da medicina grega é denominado histeria e que pode simular todo um conjunto

de graves perturbações. Nesses casos não consideram a vida ameaçada e até acham provável o

restabelecimento completo. Nem sempre é fácil distinguir a histeria de uma grave doença orgânica.

Não nos importa, porém, precisar aqui como se faz um diagnóstico diferencial desse gênero,

bastando-nos a certeza de que o caso da paciente de Breuer era daqueles em que nenhum

médico experimentado deixaria de fazer o diagnóstico de histeria. Podemos também acrescentar,

consoante a história clínica, não só que a afecção lhe apareceu quando estava tratando do pai,

que ela adorava e cuja grave doença havia de conduzi-lo à morte, como também que ela, por

causa de seus próprios padecimentos, teve de abandonar a cabeceira do enfermo.

Até aqui nos tem sido vantajoso caminhar ao lado dos médicos mas breve os deixaremos.

Não devem os senhores esperar que o diagnóstico de histeria, em substituição ao de afecção

cerebral orgânica grave, possa melhorar consideravelmente para o doente a perspectiva de um

auxílio médico. Se a medicina é o mais das vezes impotente em face das lesões cerebrais

orgânicas, diante da histeria o médico não sabe, do mesmo modo, o que fazer, tendo de confiar à

providencial natureza a maneira e a ocasião em que se há de cumprir seu esperançoso

prognóstico.

Com o rótulo de histeria pouco se altera, portanto, a situação do doente, enquanto que

para o médico tudo se modifica. Pode-se observar que este se comporta para com o histérico de

modo completamente diverso que para com o que sofre de uma doença orgânica. Nega-se a

conceder ao primeiro o mesmo interesse que dá ao segundo, pois não obstante as aparências, o

mal daquele é muito menos grave. Mas acresce outra circunstância: o médico, que, por seus

estudos, adquiriu tantos conhecimentos vedados aos leigos, pode formar uma idéia da etiologia

das doenças e de suas lesões, como, por exemplo, nos casos de apoplexia ou de tumor cerebral,

idéia que até certo ponto deve ser exata, pois lhe permite compreender os pormenores do quadro

mórbido. Em face, porém, das particularidades dos fenômenos histéricos, todo o seu saber e todo

o seu preparo em anatomia, fisiologia e patologia deixam-no desamparado. Não pode

compreender a histeria, diante da qual se sente como um leigo, posição nada agradável a quem

tenha em alta estima o próprio saber. Os histéricos ficam, assim, privados de sua simpatia. Ele os

considera como transgressores das leis de sua ciência, tal como os crentes consideram os

hereges: julga-os capazes de todo mal, acusa-os de exagero e de simulação, e pune-os com lhes

retirar seu interesse.

O Dr. Breuer não mereceu certamente essa censura com relação à sua paciente. Embora

não pretendesse, no princípio, curá-la, não lhe negou, entretanto, interesse e simpatia, o que lhe

foi provavelmente facilitado pelas elevadas qualidades de espírito e de caráter da jovem, das quais

ele nos dá testemunho na história clínica que redigiu. Sua carinhosa observação proporcionou-lhe

bem logo o caminho que lhe permitiu prestar à doente os primeiros auxílios.

Havia-se notado que nos estados de `absence„ (alteração da personalidade acompanhada

de confusão), costumava a doente murmurar algumas palavras que pareciam relacionar-se com

aquilo que lhe ocupava o pensamento. O médico, que anotara essas palavras, colocou a moça

numa espécie de hipnose e repetiu-as, para incitá-la a associar idéias. A paciente entrou, assim, a

reproduzir diante do médico as criações psíquicas que a tinham dominado nos estados de

`absence„ e que se haviam traído naquelas palavras isoladas. Eram fantasias profundamente

tristes, muitas vezes de poética beleza - devaneios, como podiam ser chamadas - que tomavam

habitualmente como ponto de partida a situação de uma jovem à cabeceira do pai doente. Depois

de relatar certo número dessas fantasias, sentia-se ela como que aliviada e reconduzida à vida

normal. Esse bem-estar durava muitas horas e desaparecia no dia seguinte para dar lugar a nova

`absence„, que cessava do mesmo modo pela revelação das fantasias novamente formadas. É

forçoso reconhecer que a alteração psíquica manifestada durante as `absences„ era conseqüência

da excitação proveniente dessas fantasias intensamente afetivas. A própria paciente, que nesse

período da moléstia só falava e entendia inglês, deu a esse novo gênero de tratamento o nome de

`talking cure‟ (cura de conversação) qualificando-o também, por gracejo, de `chimney sweeping‟

(limpeza da chaminé).

Verificou-se logo, como por acaso, que, limpando-se a mente por esse modo, era possível

conseguir alguma coisa mais que o afastamento passageiro das repetidas perturbações psíquicas.

Pode-se também fazer desaparecer sintomas quando, na hipnose, a doente recordava, com

exteriorização afetiva, a ocasião e o motivo do aparecimento desses sintomas pela primeira vez.

`Tinha havido, no verão, uma época de calor intenso e a paciente sofria de sede horrível, pois, sem

que pudesse explicar a causa, viu-se, de repente, impossibilitada de beber. Tomava na mão o

cobiçado copo de água, mas assim que o tocava com os lábios, repelia-o como hidrófoba. Nesses

poucos segundos, ela se achava evidentemente em estado de absence. Para mitigar a sede que a

martirizava, vivia somente de frutas, melões etc. Quando isso já durava perto de seis semanas,

falou, certa vez, durante a hipnose, a respeito de sua “dama de companhia” inglesa, de quem não

gostava, e contou então com demonstrações da maior repugnância que, tendo ido ao quarto dessa

senhora, viu, bebendo num copo, o seu cãozinho, um animal nojento. Nada disse, por polidez.

Depois de exteriorizar energicamente a cólera retida, pediu de beber, bebeu sem embaraço grande

quantidade de água e despertou da hipnose com o copo nos lábios. A perturbação desapareceu

definitivamente.

Permitam-me que os detenha alguns momentos ante esta experiência. Ninguém, até

então, havia removido por tal meio um sintoma histérico nem penetrado tão profundamente na

compreensão da sua causa. O descobrimento desses fatos devia ser de ricas conseqüências, se

se confirmasse a esperança de que outros sintomas da doente - e talvez a maioria - se houvessem

originado do mesmo modo e do mesmo modo pudessem ser suprimidos. Para verificá-los, Breuer

não mediu esforços e pesquisou sistematicamente a patogenia de outros sintomas mais graves. E

realmente era assim. Quase todos se haviam formado desse modo, como resíduos - como

`precipitados‟, se quiserem - de experiências emocionais que, por essa razão, foram denominadas

posteriormente `traumas psíquicos‟; e o caráter particular a cada um desses sintomas se explicava

pela relação com a cena traumática que o causara. Eram, segundo a expressão técnica,

determinados pelas cenas cujas lembranças representavam resíduos, não havendo já necessidade

de considerá-los como produtos arbitrários ou enigmáticos da neurose. Registremos apenas uma

complicação que não fora prevista: nem sempre era um único acontecimento que deixava atrás de

si os sintomas; para produzir tal efeito uniam-se na maioria dos casos numerosos traumas, às

vezes análogos e repetidos. Toda essa cadeia de recordações patogênicas tinha então de ser

reproduzida em ordem cronológica e precisamente inversa - as últimas em primeiro lugar e as

primeiras por último - sendo completamente impossível chegar ao primeiro trauma, muitas vezes o

mais ativo, saltando-se sobre os que ocorreram posteriormente.

Os senhores desejam, por certo, que lhes apresente outros exemplos de produção de

sintomas histéricos, além do da hidrofobia originada pela repugnância diante do cão que bebia no

copo. Para manter-me, porém, no meu programa, devo limitar-me a poucas ilustrações. Assim,

relata Breuer que as perturbações visuais da doente remontavam a situações como aquelas em

que `estando a paciente com os olhos marejados de lágrimas, junto ao leito do enfermo,

perguntou-lhe este, de repente, que horas eram, e, não podendo ela ver distintamente, forçou a

vista, aproximando dos olhos o relógio, cujo mostrador lhe pareceu então muito grande - devido à

macropsia e ao estrabismo convergente. Ou se esforçou em reprimir as lágrimas para que o

enfermo não as visse.‟ Todas as impressões patogênicas provinham, aliás, do tempo em que ela

se dedicava ao pai doente. `Uma noite velava muito angustiada junto ao doente febricitante e

estava em grande ansiedade porque se esperava de Viena um cirurgião para operá-lo. Sua mãe

ausentara-se por algum tempo e Anna, sentada à cabeceira do doente, pôs o braço direito sobre o

espaldar da cadeira. Caiu em estado de semi-sonho e viu, como se viesse da parede, uma cobra

negra que se aproximava do enfermo para mordê-lo. (É muito provável que no campo situado atrás

da casa algumas cobras tivessem de fato aparecido, assustando anteriormente a moça e

fornecendo agora o material de alucinação.) Ela quis afastar o ofídio, mas estava como que

paralisada; o braço direito, que pendia no espaldar, achava-se “adormecido”, insensível e parético,

e, quando ela o contemplou, transformaram-se os dedos em cobrinhas cujas cabeças eram

caveiras (as unhas). Provavelmente procurou afugentar a cobra com a mão direita paralisada e por

isso a anestesia e a paralisia da mesma se associaram com a alucinação da serpente. Quando

esta desapareceu, aterrorizada, quis rezar, mas não achou palavras em idioma algum, até que,

lembrando-se duma poesia infantil em inglês, pode pensar e rezar nessa língua. Com a

reconstituição dessa cena durante a hipnose foi removida a paralisia espástica do braço direito,

que existia desde o começo da moléstia, e teve fim o tratamento.

Quando, alguns anos mais tarde, comecei a empregar nos meus próprios doentes o

método semiótico e terapêutico de Breuer, fiz experiências que concordam com as dele. Numa

senhora de cerca de quarenta anos existia um tic (tique) sob a forma de um especial estalar da

língua, que se produzia quando a paciente se achava excitada e mesmo sem causa perceptível.

Originara-se esse tique em duas ocasiões nas quais, sendo desígnio dela não fazer nenhum

rumor, o silêncio foi rompido contra sua vontade justamente por esse estalido. Uma vez, foi quando

com grande trabalho conseguira finalmente fazer adormecer seu filhinho doente, e desejava, no

íntimo, ficar quieta para o não despertar; outra vez, quando numa viagem de carro com os dois

filhos, por ocasião de uma tempestade, assustaram-se os cavalos e ela cuidadosamente quisera

evitar qualquer ruído para que os animais não se espantassem ainda mais. Dou esse esse

exemplo dentre muitos outros que se acham consignados nos Studies on Hysteria (Estudos Sobre

a Histeria).

Senhoras e Senhores. Se me permitem uma generalização - inevitável numa exposição tão

breve - podemos sintetizar os conhecimentos até agora adquiridos na seguinte fórmula: os

histéricos sofrem de reminiscências. Seus sintomas são resíduos e símbolos mnêmicos de

experiências especiais (traumáticas). Uma comparação com outros símbolos mnêmicos de gênero

diferente talvez nos permita compreender melhor esse simbolismo. Os monumentos com que

ornamos nossas cidades são também símbolos dessa ordem. Passeando em Londres, verão,

diante de uma das maiores estações da cidade, uma coluna gótica ricamente ornamentada - a

Charing Cross. No século XIII, um dos velhos reis plantagenetas, que fez transportar para

Westminster os restos mortais de sua querida esposa e rainha Eleanor, erigiu cruzes góticas nos

pontos em que havia pousado o esquife. Charing Cross é o último desses monumentos destinados

a perpetuar a memória do cortejo fúnebre. Em outro ponto da cidade, não muito distante da

London Bridge, verão uma coluna moderna e muito alta, chamada simplesmente `The Monument‟,

cujo fim é lembrar o grande incêndio que em 1666 irrompeu ali perto e destruiu boa parte da

cidade. Tanto quanto se justifique a comparação, esses monumentos são também símbolos

mnêmicos como os sintomas histéricos. Mas que diriam do londrino que ainda hoje se detivesse

compungido ante o monumento erigido em memória do enterro da rainha Eleanor, em vez de tratar

de seus negócios com a pressa exigida pelas modernas condições de trabalho, ou de pensar

satisfeito na jovem rainha de seu coração? Ou de outro que, em face do `Monument‟ chorasse a

incineração da cidade querida, reconstruída depois com tanto brilho? Como esses londrinos pouco

práticos, procedem, entretanto, os histéricos e neuróticos: não só recordam acontecimentos

dolorosos que se deram há muito tempo, como ainda se prendem a eles emocionalmente; não se

desembaraçam do passado e alheiam-se por isso da realidade e do presente. Essa fixação da vida

psíquica aos traumas patogênicos é um dos caracteres mais importantes da neurose e dos que

têm maior significação prática.

Desde já aceito a objeção que provavelmente os senhores formularam refletindo sobre a

história da paciente de Breuer. Todos os traumas que influíram na moça datavam do tempo em

que ela cuidava do pai doente, e os sintomas que apresentava podem ser considerados como

simples sinais mnêmicos da doença e da morte dele. Correspondem, portanto, a uma manifestação

de luto, e a fixação à memória do finado, tão pouco tempo depois do traspasse, nada representa

de patológico; corresponde antes a um processo emocional normal. Reconheço que na paciente

de Breuer a fixação aos traumas nada tem de extraordinário. Mas em outros casos - como no tique

por mim tratado, cujos fatores datavam mais de quinze e dez anos -, é muito nítido o caráter da

fixação anormal ao passado. A doente de Breuer nos haveria de oferecer oportunidade de apreciar

a mesma fixação anormal, se não tivesse sido tratada pelo método catártico tão pouco tempo

depois do traumatismo e da eclosão dos sintomas.

Até aqui apenas discorremos sobre as relações entre os sintomas histéricos e os fatos da

vida da doente, mas dois outros elementos da observação de Breuer podem também indicar-nos

como conceber tanto o mecanismo da moléstia como o do restabelecimento.

Quanto ao primeiro, é preciso salientar que a doente de Breuer em quase todas as

situações teve de subjugar uma poderosa emoção, em vez de permitir sua descarga por sinais

apropriados de emoção, palavras ou ações. No trivialíssimo incidente relativo ao cãozinho de sua

dama de companhia, por consideração a esta ela não deixou sequer transparecer a sua profunda

aversão; velando à cabeceira do pai, estava sempre atenta para que o doente não lhe percebesse

a ansiedade e a penosa depressão. Ao reproduzir posteriormente estas mesmas cenas diante do

médico, a energia afetiva então inibida manifestava-se intensamente, como se estivera até então

represada. Além disso, o sintoma - resíduo desta cena - atingia a máxima intensidade quando

durante o tratamento ia-se chegando à sua causa, para desaparecer completamente quando esta

se aclarava inteiramente. Por outro lado, pode-se verificar que era inútil recordar a cena diante do

médico se, por qualquer razão, isto se dava sem exteriorização afetiva. Era pois a sorte dessas

emoções, que podemos imaginar como grandezas variáveis o que regulava tanto a doença como a

cura. Tinha-se de admitir que a doença se instalava porque a emoção desenvolvida nas situações

patogênicas não podia ter exteriorização normal; e que a essência da moléstia consistia na atual

utilização anormal das emoções `enlatadas‟. Em parte ficavam estas como carga contínua da vida

psíquica e fonte permanente de excitação para a mesma; em parte se desviavam para insólitas

inervações e inibições somáticas, que se apresentavam como os sintomas físicos do caso. Para

este último mecanismo propusemos o nome de `conversão histérica‟. Demais, uma certa parte de

nossas excitações psíquicas é conduzida normalmente para a inervação somática, constituindo

aquilo que conhecemos por `expressão das emoções‟. A conversão histérica exagera então essa

parte da descarga de um processo mental catexizado emocionalmente; ela representa uma

expressão mais intensa das emoções, conduzida por nova via. Quando uma corrente de água se

escoa por dois canais, num deles o líquido se elevará, logo que no outro se interponha um

obstáculo. Como vêem, estamos quase chegando a uma teoria puramente psicológica da histeria,

onde assinalamos o primeiro lugar para os processos afetivos.

Uma segunda observação de Breuer obriga-nos agora a atribuir grande significação aos

estados de consciência para a característica dos fatos mórbidos. A doente de Breuer exibia, ao

lado de seu estado normal, vários outros de `absence„, confusão e alterações do caráter. Em

estado normal ela ignorava totalmente as cenas patogênicas ou pelo menos havia rompido a

conexão patogênica. Sob hipnose era possível, depois de considerável esforço, trazer tais cenas à

memória, e por este trabalho de evocação os sintomas eram removidos. Ficaríamos em grande

perplexidade para interpretar esse fato se a experiência do hipnotismo já não nos tivesse indicado

o caminho. Pelo estudo dos fenômenos hipnóticos tornou-se habitual a concepção, a princípio

estranhável, de que num mesmo indivíduo são possíveis vários agrupamentos mentais que podem

ficar mais ou menos independentes entre si, sem que um `nada saiba‟ do outro, e que podem se

alternar entre si em sua emersão à consciência. Casos destes, também ocasionalmente, aparecem

de forma espontânea, sendo então descritos como exemplos de `double consciente„. Quando

nessa divisão da personalidade a consciência fica constantemente ligada a um desses dois

estados, chama-se esse o estado mental `conscience„e o que dela permanece separado o

`inconsciente„. Nos conhecidos fenômenos da chamada `sugestão pós-hipnótica‟, em que uma

ordem dada durante a hipnose é depois, no estado normal, imperiosamente cumprida, tem-se um

esplêndido modelo das influências que o estado inconsciente pode exercer no consciente, modelo

esse que permite sem dúvida compreender o que ocorre na manifestação da histeria. Breuer

resolveu admitir que os sintomas histéricos apareciam em estados mentais particulares que

chamava `hipnóides‟. As excitações durante esses estados hipnóides tornam-se facilmente

patogênicas porque não encontram neles as condições para a descarga normal do processo de

excitação. Origina-se então, do processo de excitação, um produto anormal - o sintoma - que,

como corpo estranho, se insinua no estado normal, escapando a este, por isso, o conhecimento da

situação patogênica hipnóide. Onde existe um sintoma, existe também uma amnésia, uma lacuna

da memória, cujo preenchimento suprime as condições que conduzem à produção do sintoma.

Receio que esta parte de minha exposição não lhes pareça muito clara. Os presentes

devem, contudo, ser indulgentes; trata-se de concepções novas e difíceis que talvez não possam

fazer-se muito mais claras, prova de que nossos conhecimentos ainda não progrediram muito. A

teoria de Breuer, dos estados hipnóides, tornou-se aliás embaraçante e supérflua, e foi

abandonada pela psicanálise moderna. Mais tarde me ouvirão falar, nem que seja sucintamente,

das influências e processos que era mister descobrir atrás das fronteiras dos estados hipnóides,

por Breuer fixadas. Hão de ter tido também a impressão, sem dúvida justa, de que a pesquisa de

Breuer só lhes pode dar uma teoria muito incompleta e uma explicação insuficiente dos fenômenos

observados; porém as teorias completas não caem do céu e com toda a razão desconfiarão se

alguém lhes apresentar, logo no início de suas observações, uma teoria sem falhas, otimamente

rematada. Tal teoria certamente só poderá ser filha de sua especulação e nunca o fruto da

pesquisa imparcial e desprevenida da realidade.

SEGUNDA LIÇÃO

SENHORAS E SENHORES, - Quase ao mesmo tempo em que Breuer praticava a talking

cure (cura de conversação) com sua paciente, começava o grande Charcot, em Paris, com as

doentes histéricas da Salpêtrière, as investigações de onde havia de surgir nova concepção da

enfermidade. Estes resultados não podiam, naquela ocasião, ser conhecidos em Viena. Quando,

porém, cerca de dez anos mais tarde, Breuer e eu publicávamos nossa `Preliminary

Communication„ (Comunicação Preliminar) sobre o mecanismo psíquico dos fenômenos histéricos,

relacionada com o tratamento catártico da primeira doente de Breuer [1893a], já nos achávamos

de todo sob a influência das pesquisas de Charcot. A nosso ver, os acontecimentos patogênicos

de nossos doentes, isto é, os traumas psíquicos, eram equivalentes dos traumas físicos cuja

influência nas paralisias histéricas fora precisada por Charcot; e a hipótese dos estados hipnóides

de Breuer nada mais é que o reflexo da reprodução artificial daquelas paralisias traumáticas, que

Charcot obtivera durante a hipnose.

O grande observador francês, de quem fui discípulo em 1885 e 1886, não era propenso às

concepções psicológicas. Foi seu discípulo Pierre Janet que tentou penetrar mais intimamente os

processos psíquicos particulares da histeria, e nós seguimos-lhes o exemplo, tomando a divisão da

mente e a dissociação da personalidade como ponto central de nossa teoria. Segundo a de Janet,

que leva em grande conta as idéias dominantes na França sobre o papel da hereditariedade e da

degeneração, a histeria é uma forma de alteração degenarativa do sistema nervoso, que se

manifesta pela fraqueza congênita do poder de síntese psíquica. Os pacientes histéricos seriam,

desde o princípio, incapazes de manter como um todo a multiplicidade dos processos mentais, e

daí a dissociação psíquica. Se me for permitida uma comparação trivial mais precisa, direi que o

paciente histérico de Janet lembra uma pobre mulher que saiu a fazer compras e volta carregada

de pacotes. Não podendo só com dois braços e dez dedos conter toda a pilha, cai-lhe primeiro um

embrulho; ao inclinar-se para levantá-lo, cai-lhe outro, e assim sucessivamente. Contrariando,

porém, esta suposta fraqueza mental dos pacientes histéricos, podem observar-se neles, além dos

fenômenos de capacidade diminuída, outros, por assim dizer compensadores, de exaltação parcial

da eficiência. Durante o tempo em que a doente de Breuer esquecera a língua materna e outros

idiomas exceto o inglês, era tal a facilidade com que falava este último, que chegava a ponto de

ser capaz, diante de um livro alemão, de traduzi-lo à primeira vista, perfeita e corretamente.

Quando eu, mais tarde, prosseguia sozinho as pesquisas iniciadas por Breuer, fui levado a

outro ponto de vista a respeito da dissociação histérica (a divisão da consciência). Era fatal essa

divergência, aliás decisiva para o resultado futuro, visto que eu não partia, como Janet, de

experiências de laboratório e sim do trabalho terapêutico.

O que sobretudo me impelia era a necessidade prática. O procedimento catártico, como

Breuer o praticava, exigia previamente a hipnose profunda do doente, pois só no estado hipnótico

é que tinha este o conhecimento das ligações patogênicas que em condições normais lhe

escapavam. Tornou-se-me logo enfadonho o hipnotismo, como recurso incerto e algo místico; e

quando verifiquei que apesar de todos os esforços não conseguia hipnotizar senão parte de meus

doentes, decidi abandoná-lo, tornando o procedimento catártico independente dele. Como não

podia modificar à vontade o estado psíquico dos doentes, procurei agir mantendo-os em estado

normal. Parecia isto a princípio empresa insensata e sem probabilidade de êxito. Tratava-se de

fazer o doente contar aquilo que ninguém, nem ele mesmo, sabia. Como esperar consegui-lo? O

auxílio me veio da recordação de uma experiência de Bernheim, singularíssima e instrutiva, a que

eu assistira em Nancy [em 1889]. Bernheim nos havia então mostrado que as pessoas por ele

submetidas ao sonambulismo hipnótico e que nesse estado tinham executado atos diversos, só

aparentemente perdiam a lembrança dos fatos ocorridos, sendo possível despertar nelas tal

lembrança, mesmo no estado normal. Quando interrogadas a propósito do que havia acontecido

durante o sonambulismo, afirmavam de começo nada saber; mas se ele não cedia, insistindo com

elas e assegurando-lhes que era possível lembrar, a recordação vinha sempre de novo à

consciência.

Procedi do mesmo modo com os meus doentes. Quando chegávamos a um ponto em que

nos afirmavam nada mais saber, assegurava-lhes que sabiam, que só precisavam dizer, e ia

mesmo até afirmar que a recordação exata seria a que lhes apontasse no momento em que lhes

pusesse a mão sobre a fronte. Dessa maneira pude, prescindindo do hipnotismo, conseguir que os

doentes revelassem tudo quanto fosse preciso para estabelecer os liames existentes entre as

cenas patogênicas olvidadas e os seus resíduos - os sintomas. Esse processo era, porém, ao cabo

de algum tempo, extenuante, inadequado para uma técnica definitiva.

Não o abandonei, contudo, sem tirar, das observações feitas, conclusões decisivas. Vi

confirmado, assim, que as recordações esquecidas não se haviam perdido. Jaziam em poder do

doente e prontas a ressurgir em associação com os fatos ainda sabidos, mas alguma força as

detinha, obrigando-as a permanecer inconscientes. A existência desta força pode ser seguramente

admitida, pois sentia-se-lhe a potência quando, em oposição a ela, se intentava trazer à

consciência do doente as lembranças inconscientes. A força que mantinha o estado mórbido

fazia-se sentir como resistência do enfermo.

Nesta idéia de resistência alicercei então minha concepção acerca dos processos

psíquicos na histeria. Para o restabelecimento do doente mostrou-se indispensável suprimir estas

resistências. Partindo do mecanismo da cura, podia-se formar idéia muito precisa da gênese da

doença. As mesmas forças que hoje, como resistência, se opõem a que o esquecido volte à

consciência deveriam ser as que antes tinham agido, expulsando da consciência os acidentes

patogênicos correspondentes. A esse processo, por mim formulado, dei o nome de `repressão„ e

julguei-o demonstrado pela presença inegável da resistência.

Podia-se ainda perguntar, sem dúvida, que força era essa e quais as condições da

repressão, em que reconhecemos agora o mecanismo patogênico da histeria. Um exame

comparativo das situações patogênicas, conhecidas graças ao tratamento catártico, permitia dar a

conveniente resposta. Tratava-se em todos os casos do aparecimento de um desejo violento mas

em contraste com os demais desejos do indivíduo e incompatível com as aspirações morais e

estéticas da própria personalidade. Produzia-se um rápido conflito e o desfecho desta luta interna

era sucumbir à repressão a idéia que aparecia na consciência trazendo em si o desejo

inconciliável, sendo a mesma expulsa da consciência e esquecida, juntamente com as respectivas

lembranças. Era, portanto, a incompatibilidade entre a idéia e o ego do doente, o motivo da

repressão; as aspirações individuais, éticas e outras, eram as forças repressivas. A aceitação do

impulso desejoso incompatível ou o prolongamento do conflito teriam despertado intenso

desprazer; a repressão evitava o desprazer, revelando-se desse modo um meio de proteção da

personalidade psíquica.

Dos muitos casos por mim observados quero relatar-lhes um apenas, no qual são patentes

os aspectos determinantes e a vantagem da repressão. Para não me afastar do meu propósito,

sou forçado a resumir esta história clínica, deixando de lado importantes hipóteses. A paciente era

uma jovem que perdera recentemente o pai, depois de tomar parte, carinhosamente, nos cuidados

ao enfermo - situação análoga à da doente de Breuer. Nascera, quando a irmã mais velha se

casou, uma simpatia particular para o novo cunhado, que se mascarava por disfarce de ternura

familiar. Esta irmã adoeceu logo depois e veio a falecer durante a ausência da minha doente e de

sua mãe. Estas foram chamadas urgentemente, sem notícia completa do doloroso acontecimento.

Quando a moça chegou ao leito da morta, correu-lhe na mente, por um rápido instante, uma idéia

mais ou menos assim: `ele agora está livre, pode desposar-me.‟ É-nos lícito admitir como certo que

esta idéia, denunciando-lhe à consciência o intenso amor que sem o saber tinha ao cunhado, foi

logo entregue à repressão pelos próprios sentimentos revoltados. A jovem adoeceu com graves

sintomas histéricos e quando comecei a tratá-la tinha esquecido não só aquela cena junto ao leito

da irmã, como também o concomitante sofrimento indigno e egoísta. Mas recordou-se de tudo

durante o tratamento, reproduziu o incidente patogênico com sinais de intensa emoção, e curou-se.

Talvez possa ilustrar o processo de repressão e a necessária relação deste com a

resistência, mediante uma comparação grosseira, tirada de nossa própria situação neste recinto.

Imaginem que nesta sala e neste auditório, cujo silêncio e cuja atenção eu não saberia louvar

suficientemente, se acha no entanto um indivíduo comportando-se de modo inconveniente,

perturbando-nos com risotas, conversas e batidas de pé, desviando-me a atenção de minha

incumbência. Declaro não poder continuar assim a exposição; diante disso alguns homens

vigorosos dentre os presentes se levantam, e após ligeira luta põem o indivíduo fora da porta. Ele

está agora `reprimido‟ e posso continuar minha exposição. Para que, porém, se não repita o

incômodo se o elemento perturbador tentar penetrar novamente na sala, os cavalheiros que me

satisfizeram a vontade levam as respectivas cadeiras para perto da porta e, consumada a

repressão, se postam como `resistências‟. Se traduzirmos agora os dois lugares, sala e vestíbulo,

para a psique, como `consciente‟ e `inconsciente‟, os senhores terão uma imagem mais ou menos

perfeita do processo de repressão.

Os senhores podem ver desde logo onde está a diferença entre nossa concepção e a de

Janet. Não atribuímos a divisão psíquica à incapacidade inata para a síntese da parte do aparelho

psíquico, mas explicamo-lo dinamicamente pelo conflito de forças mentais contrárias,

reconhecendo nele o resultado de uma luta ativa da parte dos dois agrupamentos psíquicos entre

si. De nossa concepção surgem novos problemas, em grande número. Os conflitos psíquicos são

excessivamente freqüentes; observa-se com muita regularidade o esforço do eu para se defender

de recordações penosas, sem que isso produza a divisão psíquica. É forçoso, portanto, admitir que

outras condições são também necessárias para que do conflito resulte a dissociação. Concordo de

boa-vontade que com a hipótese da repressão, estamos não no remate, mas antes no limiar de

uma teoria psicológica; só passo a passo podemos avançar, esperando que um trabalho posterior

mais aprofundado aperfeiçoe os conhecimentos.

Os presentes devem abster-se de examinar o caso da doente de Breuer sob o ponto de

vista da repressão: essa história clínica não se presta para isso porque foi obtida sob o influxo do

hipnotismo. Só prescindido deste último poderão perceber a resistência e a repressão, e formar

idéia exata do processo patogênico real. A hipnose encobre a resistência, deixando livre e

acessível um determinado setor psíquico, em cujas fronteiras, porém, acumula as resistências,

criando para o resto uma barreira intransponível.

O que de mais importante nos proporcionou a observação de Breuer foi esclarecer as

relações dos sintomas com as experiências patogênicas ou traumas psíquicos, resultado que não

devemos deixar de focalizar agora sob o ponto de vista da teoria da repressão. À primeira vista,

com efeito, não se percebe como, partindo da repressão, se pode chegar à formação dos

sintomas. Em lugar de trazer uma complicada dedução teórica, prefiro retornar à comparação que

há pouco nos serviu. Suponhamos que com a expulsão do perturbador e com a guarda à porta não

terminou o incidente. Pode muito bem ser que o sujeito, irritado e sem nenhuma consideração,

continue a nos dar que fazer. Ele já não está aqui conosco; ficamos livres de sua presença, dos

motejos, dos apartes, mas a expulsão foi por assim dizer inútil, pois lá de fora ele dá um espetáculo

insuportável, e com berros e murros na porta nos perturba a conferência mais do que antes. Em

tais conjunturas poderíamos felicitar-nos se o nosso honrado presidente, Dr. Stanley Hall, quisesse

assumir o papel de medianeiro e pacificador. Iria parlamentar com o nosso intratável companheiro

e voltaria pedindo-nos que o recebêssemos de novo, garantindo-nos um comportamento

conveniente daqui por diante. Graças à autoridade do Dr. Hall, condescendemos em desfazer a

repressão, voltando a paz e o sossego. Eis uma representação muito apropriada da missão que

cabe ao médico na terapêutica psicanalítica das neuroses.

Agora, para dizê-lo sem rebuços: chegamos à convicção, pelo exame dos doentes

histéricos e outros neuróticos, de que a repressão das idéias, a que o desejo insuportável está

apenso, malogrou. Expeliram-nas da consciência e da lembrança; com isso os pacientes se

livraram aparentemente de grande soma de dissabores. Mas o impulso desejoso continua a existir

no inconsciente à espreita de oportunidade para se revelar, concebe a formação de um substituto

do reprimido, disfarçado e irreconhecível, para lançar à consciência, substituto ao qual logo se liga

a mesma sensação de desprazer que se julgava evitada pela repressão. Esta substituição da idéia

reprimida - o sintoma - é protegida contra as forças defensivas do ego e em lugar do breve conflito,

começa então um sofrimento interminável. No sintoma, a par dos sinais do disfarce, podem

reconhecer-se traços de semelhança com a idéia primitivamente reprimida. Pelo tratamento

psicanalítico desvenda-se o trajeto ao longo do qual se realizou a substituição, e para a

recuperação é necessário que o sintoma seja reconduzido pelo mesmo caminho até a idéia

reprimida.

Uma vez restituído à atividade mental consciente aquilo que fora reprimido - e isso

pressupõe que consideráveis resistências tenham sido desfeitas - o conflito psíquico que desse

modo se originara e que o doente quis evitar, alcança, orientado pelo médico, uma solução mais

feliz do que a oferecida pela repressão. Há várias dessas soluções para rematar satisfatoriamente

conflito e neurose, as quais, em determinados casos, podem combinar-se entre si. Ou a

personalidade do doente se convence de que repelira sem razão o desejo e consente em aceitá-lo

total ou parcialmente, ou este mesmo desejo é dirigido para um alvo irrepreensível e mais elevado

(o que se chama `sublimação‟ do desejo), ou, finalmente, reconhece como justa a repulsa. Nesta

última hipótese o mecanismo da repressão, automático por isso mesmo insuficiente, é substituído

por um julgamento de condenação com a ajuda das mais altas funções mentais do homem - o

controle consciente do desejo é atingido.

Desculpem-me se porventura não logrei apresentar-lhes mais compreensivelmente estes

pontos de vista capitais do método terapêutico hoje denominado `psicanálise‟. A dificuldade não

está só na novidade do assunto. A natureza dos desejos incompatíveis que, não obstante a

repressão, continuam a dar sinal de si no inconsciente, e os elementos determinantes subjetivos e

constitucionais que devem estar presentes em qualquer pessoa antes do malogro da repressão

podem ocorrer e um substituto ou sintoma ser formado - sobre tudo isto procurarei esclarecer em

algumas observações posteriores.

TERCEIRA LIÇÃO

SENHORAS E SENHORES, - Nem sempre é fácil dizer a verdade, mormente quando é

mister ser conciso, e por isso vejo-me obrigado a corrigir uma inexatidão que cometi na última

conferência. Dizia-lhes eu que quando, posto de lado o hipnotismo, eu forçava os doentes a

comunicarem o que lhes viesse à mente - pois que saibam, apesar de tudo, aquilo que supunham

ter esquecido, e a idéia que lhes brotasse havia de certamente conter em si o que se procurava -,

pude, com efeito, verificar que o primeiro pensamento surgido trazia o elemento desejado e se

revelava como a continuação inadvertida da lembrança. Isto, porém, nem sempre é certo; foi por

amor à concisão que o apresentei com essa singeleza. Na realidade, só nas primeiras vezes

aconteceu que pela simples pressão de minha parte exatamente o esquecido que buscávamos se

apresentasse. Continuando a empregar o método, vinham pensamentos despropositados, que não

poderiam ser o procurado e que os próprios doentes repeliam como inexatos. Já não adiantava

insistência e poder-se-ia de novo lamentar o abandono do hipnotismo.

Neste estado de perplexidade vali-me de um pressuposto cuja exatidão científica foi anos

depois demonstrada pelo meu amigo C. G. Jung, de Zurique, e seus discípulos. Devo afirmar que

às vezes é muito útil ter um pressuposto. Eu tinha em alto conceito o rigor do determinismo dos

processos mentais e não podia crer que uma idéia concebida pelo doente com atenção

concentrada fosse inteiramente espontânea, sem nenhuma relação com a representação mental

esquecida e por nós procurada. Que não fosse idêntica a esta, explicava-se satisfatoriamente pela

situação psicológica suposta. Duas forças antagônicas atuavam no doente; de um lado, o esforço

refletido para trazer à consciência o que jazia deslembrado no inconsciente; de outro lado a

resistência, já nossa conhecida, impedindo a passagem para o consciente do elemento reprimido

ou dos derivados deste. Se fosse igual a zero ou insignificante a resistência, o olvidado se tornaria

consciente sem deformação. Podemos admitir que seja tanto maior a deformação do elemento

procurado quanto mais forte a resistência que o detiver. O pensamento que no doente vinha em

lugar do desejado, tinha origem idêntica à de um sintoma; era uma nova substituição artificial e

efêmera do reprimido e tanto menos semelhante a ele quanto maior a deformação que tivesse de

sofrer sob a influência da resistência. Ele devia mostrar, porém, certa parecença com o procurado,

em virtude da sua natureza de sintoma; e desde que a resistência não fosse muito intensa, seria

possível, partindo da idéia, lobrigar o oculto que se buscava. O pensamento devia comportar-se

em relação ao elemento reprimido com uma alusão, como uma representação do mesmo por meio

de palavras indiretas.

Conhecemos, no domínio da vida psíquica normal, exemplos em que situações análogas

às que admitimos produzem resultados semelhantes. É o caso do chiste. O problema da técnica

psicanalítica forçou-me a estudar o mecanismo da formação das pilhérias. Quero expor-lhes

apenas um desses exemplos, aliás uma anedota da língua inglesa.

Diz a anedota: Por uma série de empresas duvidosas, dois comerciantes tinham

conseguido reunir grandes cabedais e esforçavam-se para penetrar na boa sociedade. Entre

outros, pareceu-lhes um meio conveniente fazerem-se retratar pelo pintor mais notável e mais

careiro da cidade, cujo quadro fosse um acontecimento. Numa grande reunião foram inaugurados

os custosíssimos quadros, um ao lado do outro, e os dois proprietários conduziram até a parede o

mais influente crítico de arte a fim de obterem o valioso julgamento. O crítico examinou longamente

o quadro, sacudiu a cabeça como se achasse falta de alguma coisa e perguntou apenas, indicando

o espaço entre os dois quadros: `But where‟s the Saviour? (`Mas onde está o Redentor?‟) Vejo que

todos se riem da boa pilhéria; penetramos-lhes agora a significação. Os presentes compreendem

que o crítico queria dizer: vocês são dois patifes como aqueles que ladearam o Cristo crucificado.

Mas não o disse; em lugar disso exprimiu coisa que à primeira vista parece extraordinariamente

abstrusa e fora de propósito, mas que logo depois reconhecemos como uma alusão à injúria que

lhe estava no íntimo, e que vale perfeitamente como substituto dela. Não podemos esperar que

numa anedota sejam encontradas todas as circunstâncias que pressupomos na gênese das idéias

associadas dos nossos doentes; queremos todavia realçar a identidade de motivação para a

anedota e para a idéia. Por que é que o nosso crítico não lhes falou claramente? Porque nele

outras razões contrárias também atuavam ao lado do ímpeto de dizê-lo francamente, face a face.

Não deixa de ser perigoso desfeitear pessoas de que somos hóspedes e que dispõem de

criadagem numerosa, de pulsos vigorosos. A sorte poderia ser a mesma que na conferência

anterior serviu de exemplo para a repressão. Por tal razão o crítico atirou indiretamente a ofensa

que estava ruminando, transfigurando-a numa `alusão com desabafo‟. É, a nosso ver, devido à

mesma constelação que o paciente produz uma idéia de substituição, mais ou menos distorcida,

em lugar do elemento esquecido que procuramos.

Senhoras e Senhores. Aceitando a proposta da Escola de Zurique (Bleuler, Jung e outros),

convém dar o nome de `complexo‟ a um grupo de elementos ideacionais interdependentes,

catexizados de energia afetiva. Vemos assim que partindo da última recordação que o doente

ainda possui, em busca de um complexo reprimido, temos toda a probabilidade de desvendá-lo,

desde que o doente nos proporcione um número suficiente de associações livres

. Mandamos o doente dizer o que quiser, cônscios de que nada lhe ocorrerá à mente

senão aquilo que indiretamente dependa do complexo procurado. Talvez lhes pareça muito

fastidioso este processo de descobrir os elementos reprimidos, mas, asseguro-lhes, é o único

praticável.

No emprego desta técnica o que ainda nos perturba é que com freqüência o doente se

detém, afirmando não saber dizer mais nada, que nada mais lhe vem à idéia. Se assim fosse, se o

doente tivesse razão, o método ter-se-ia revelado impraticável. Uma observação atenta mostra,

contudo, que as idéias livres nunca deixam de aparecer. É que o doente, influenciado pela

resistência disfarçada em juízos críticos sobre o valor da idéia, retém-na ou de novo a afasta. Para

evitá-la põe-se previamente o doente a par do que pode ocorrer, pedindo-lhe renuncie a qualquer

crítica; sem nenhuma seleção deverá expor tudo que lhe vier ao pensamento, mesmo que lhe

pareça errôneo, despropositado ou absurdo e, especialmente, se lhe for desagradável a vinda

dessas idéias à mente. Pela observância dessa regra garantimo-nos o material que nos conduz ao

roteiro do complexo reprimido.

Esse material associativo que o doente rejeita como insignificante, quando em vez de estar

sob a influência do médico está sob a da resistência, representa para o psicanalista o minério de

onde com simples artifício de interpretação há de extrair o metal precioso. Se diante de um doente

quiserem os presentes ter um conhecimento rápido e provisório dos complexos reprimidos, sem

lhes penetrar na ordem e nas relações, podem dispor da `experiência da associação‟, cuja técnica

foi aperfeiçoada por Jung (1906) e seus discípulos. Para o psicanalista este método é tão precioso

quanto para o químico a análise qualitativa; prescindível na terapêutica dos neuróticos, é

indispensável para a demonstração objetiva dos complexos e para o estudo das psicoses, com

tanto êxito empreendido pela Escola de Zurique.

Não é o estudo das divagações, quando o doente se sujeita à regras psicanalíticas, o único

recurso técnico para sondagem do inconsciente. Ao mesmo escopo servem dois outros processos:

a interpretação de sonhos e o estudo dos lapsos e atos casuais.

Confesso-lhes, prezados ouvintes, que estive longo tempo indeciso sobre se, em lugar

desta rápida vista geral sobre todo o domínio da psicanálise, não seria preferível expor-lhes

minuciosamente a interpretação de sonhos. Motivo puramente subjetivo e aparentemente

secundário me deteve. Pareceu-me quase escandaloso apresentar-me neste país de orientação

prática, como `onirócrita‟, antes de mostrar-lhes qual a importância a que pode aspirar esta velha e

ridicularizada arte. A interpretação de sonhos é na realidade a estrada real para o conhecimento do

inconsciente, a base mais segura da psicanálise. É campo onde cada trabalhador pode por si

mesmo chegar a adquirir convicção própria, como atingir maiores aperfeiçoamentos. Quando me

perguntam como pode uma pessoa fazer-se psicanalista, respondo que é pelo estudo dos próprios

sonhos. Os adversários da psicanálise, com muita habilidade, têm até agora evitado estudar de

perto A Interpretação de Sonhos, ou têm oposto ao de longe objeções superficialíssimas. Se não

repugna aos presentes, ao contrário, aceitar as soluções dos problemas da vida onírica, já não

apresentam aos ouvintes dificuldade alguma as novidades trazidas pela psicanálise.

Não se esqueçam de que se nossas elaborações oníricas noturnas mostram de um lado a

maior semelhança externa e o mais íntimo parentesco com as criações da alienação mental, são,

de outro lado, compatíveis com a mais perfeita saúde na vida desperta. Não é nenhum paradoxo

afirmar que quem fica admirado ante essas alucinações, delírios ou mudanças de caráter que

podemos chamar `normais‟, sem procurar explicá-los, não tem a menor probabilidade de

compreender, senão como qualquer leigo, as formações anormais dos estados psíquicos

patológicos. E entre esses leigos os ouvintes podem contar atualmente, sem receio, quase todos

os psiquiatras.

Acompanhem-me agora numa rápida excursão pelo campo dos problemas do sonho.

Quando acordados, costumamos tratar os sonhos com o mesmo desdém com que os doentes

rejeitam as idéias soltas despertadas pelo psicanalista. Desprezamo-los, olvidando-os em geral

rápida e completamente. O nosso descaso funda-se no caráter exótico apresentado mesmo pelos

sonhos que possuem clareza e nexo, e sobre a evidente absurdez e insensatez dos demais; nossa

repulsa explica-se pelas tendências imorais e menos pudicas que se patenteiam em muitos deles.

É de todos sabido que a antigüidade não compartilhou tal desapreço para com os sonhos. As

camadas baixas do nosso povo, mesmo hoje, não estão totalmente desnorteadas na apreciação

do valor dos sonhos, dos quais esperam, como os antigos, a revelação do futuro. Confesso-lhes

que não tenho necessidade de nenhuma hipótese mística para preencher as falhas de nossos

conhecimentos atuais e por isso nunca pude descobrir nada que confirmasse a natureza profética

dos sonhos. Coisa muito diferente disso, embora assaz maravilhosa, se pode dizer a respeito

deles.

Em primeiro lugar, nem todos os sonhos são estranhos, incompreensíveis e confusos para

a pessoa que sonhou. Examinando os sonhos de criancinhas, desde um ano e meio de idade,

verificarão que eles são extremamente simples e de fácil explicação. A criancinha sonha sempre

com a realização de desejos que o dia anterior lhe trouxe e que ela não satisfez. Não há

necessidade de arte divinatória para encontrar solução tão simples; basta saber o que se passou

com a criança na véspera (`dia do sonho‟). Estaria certamente resolvido, e de modo satisfatório, o

enigma do sonho, se o do adulto não fosse nada mais que o da criancinha: realização de desejos

trazidos pelo dia do sonho. E o é de fato. As dificuldades que esta solução apresenta removem-se

uma a uma, mediante a análise minuciosa dos sonhos.

A primeira objeção e a mais importante é a de que os sonhos dos adultos via de regra têm

um conteúdo ininteligível, sem nenhuma semelhança com a satisfação de desejos. Resposta:

estes sonhos estão distorcidos, o processo psíquico correspondente teria originariamente uma

expressão verbal muito diversa. O conteúdo manifesto do sonho, recordado vagamente de manhã

e que, não obstante a espontaneidade aparente, se exprime em palavras com esforço, deve ser

diferenciado dos pensamentos latentes do sonho que se têm de admitir como existentes no

inconsciente. Esta deformação possui mecanismo idêntico ao que já conhecemos desde quando

examinamos a gênese dos sintomas histéricos; e é uma prova da participação da mesma interação

de forças mentais tanto na formação dos sonhos como na dos sintomas. O conteúdo manifesto do

sonho é o substituto deformado para os pensamentos inconscientes do sonho. Esta deformação é

obra das forças defensivas do ego, isto é, das resistências que na vigília impedem, de modo geral,

a passagem para a consciência, dos desejos reprimidos do inconsciente; enfraquecidas durante o

sono, estas resistências ainda são suficientemente fortes para só os tolerar disfarçados. Quem

sonha, portanto, reconhece tão mal o sentido de seus sonhos, como o histérico as correlações e a

significação de seus sintomas.

De que há pensamentos latentes do sonho e que entre eles e o conteúdo manifesto existe

de fato o nexo aludido, os presentes se convencerão pela análise de sonhos, cuja técnica se

confunde com a da psicanálise. Pondo de lado a aparente conexão dos elementos do sonho

manifesto, procurarão os senhores evocar idéias por livre associação, partindo de cada um desses

elementos e observando as regras da prática psicanalítica. De posse deste material chegarão aos

pensamentos latentes do sonho com a mesma perfeição com que conseguiram surpreender no

doente o complexo oculto, por meio das idéias sugeridas pelas associações livres a partir dos

sintomas e lembranças. Pelos pensamentos latentes do sonho, descobertos desse modo, pode-se

ver sem mais nada como é justo equiparar o sonho dos adultos ao das crianças. O que agora,

como verdadeiro sentido do sonho, substitui o seu conteúdo manifesto - e isto é sempre

claramente compreensível - liga-se às impressões da véspera e se patenteia como a realização de

um desejo não-satisfeito. O sonho manifesto que conhecem no adulto graças à recordação pode

então ser descrito como uma realização velada de desejos reprimidos.

Podem agora os ouvintes, por uma espécie de trabalho sintético, examinar o processo

mediante o qual os pensamentos inconscientes do sonho se disfarçam no conteúdo manifesto.

Esse processo, que denominamos `elaboração onírica‟, é digno de nosso maior interesse teórico,

porque em nenhuma outra circunstância poderíamos estudar melhor do que nele os processos

psíquicos, não-suspeitados, que se passam no inconsciente, ou, mais exatamente, entre dois

sistemas psíquicos distintos, como consciente e inconsciente. Entre tais processos psíquicos

recentemente descobertos ressaltam notavelmente o da condensação e o do deslocamento. A

elaboração onírica é um caso especial da influência recíproca de agrupamentos mentais diversos,

isto é, o resultado da divisão psíquica, e parece essencialmente idêntico ao trabalho de

deformação que transforma em sintomas os complexos cuja repressão fracassou.

Pela análise dos sonhos descobrirão os senhores ainda mais, com surpresa, porém do

modo mais convincente possível, o papel importantíssimo e nunca imaginado que os fatos e

impressões da tenra infância exercem no desenvolvimento do homem. Na vida onírica a criança

prolonga, por assim dizer, sua existência no homem, conservando todas as peculiaridades e

aspirações, mesmo as que se tornam mais tarde inúteis. Com força irresistível

apresentar-se-lhes-ão os processos de desenvolvimento, repressões, sublimações e formações

reativas, de onde saiu, da criança com tão diferentes disposições, o chamado homem normal -

esteio e em parte vítima da civilização tão penosamente alcançada.

Quero ainda fazer notar que pela análise de sonhos também pudemos descobrir que o

inconsciente se serve, especialmente para a representação de complexos sexuais, de certo

simbolismo, em parte variável individualmente e em parte tipicamente fixo, que parece coincidir

com o que conjecturamos por detrás dos nossos mitos e lendas. Não seria impossível que essas

últimas criações populares recebessem, portanto, do sonho, a sua explicação.

Impende-nos adverti-los finalmente de que não se deixem desorientar pela objeção de que

aparecimento de pesadelos contradiz o nosso modo de entender o sonho como satisfação de

desejos. Além de que é necessário interpretar os pesadelos antes de sobre eles poder firmar

qualquer juízo, pode dizer-se de modo geral que a ansiedade que os acompanha não depende

assim tão simplesmente do conteúdo oniríco, como muitos imaginam por ignorar as condições da

ansiedade neurótica. A ansiedade é uma das reações do ego contra desejos reprimidos violentos,

e daí perfeitamente explicável a presença dela no sonho, quando a elaboração deste se pôs

excessivamente a serviço da satisfação daqueles desejos reprimidos.

Como vêem, o estudo dos sonhos já estaria em si justificado, pelo fato de que proporciona

conclusões sobre coisas de que por outros meios dificilmente chegaríamos a ter noção. Foi todavia

no decorrer do tratamento psicanalítico dos neuróticos que chegamos até ele. Pelo que até agora

dissemos podem compreender facilmente que a interpretação de sonhos, quando não a estorvam

em excesso as resistências do doente, leva ao conhecimento dos desejos ocultos e reprimidos,

bem como dos exemplos entretidos por este. Posso agora tratar do terceiro grupo de fenômenos

psíquicos cujo estudo se tornou recurso técnico da psicanálise.

Os fenômenos em questão são as pequenas falhas comuns aos indivíduos normais e aos

neuróticos, fatos aos quais não costumamos ligar importância - o esquecimento de coisas que

deviam saber e que às vezes sabem realmente (por exemplo a fuga temporária dos nomes

próprios), os lapsos de linguagem, tão freqüentes até mesmo conosco, na escrita ou na leitura em

voz alta; atrapalhações no executar qualquer coisa, perda ou quebra de objetos etc., bagatelas de

cujo determinismo psicológico de ordinário não se cuida, que passam sem reparo como

casualidades, como resultado de distrações, desatenções e outras condições semelhantes.

Juntam-se ainda os atos e gestos que as pessoas executam sem perceber e, sobretudo, sem lhes

atribuir importância mental, como sejam trautear melodias, brincar com objetos, com partes da

roupa ou do próprio corpo etc. Essas coisinhas, os atos falhos, como os sintomáticos e fortuitos,

não são assim tão destituídas de valor como por uma espécie de acordo tácito e hábito admitir.

São extraordinariamente significativas e quase sempre de interpretação fácil e segura, tendo-se

em vista a situação em que ocorrem; verifica-se que mais uma vez exprimem impulsos e intenções

que devem ficar ocultos à própria consciência, ou emanam justamente dos desejos reprimidos e

dos complexos que, como já sabemos, são criadores dos sintomas e formadores dos sonhos.

Fazem jus à mesma consideração que os sintomas, e o seu exame, tanto quanto o dos sonhos,

pode levar ao descobrimento da parte oculta da mente. Por elas o homem trai, em regra, os mais

íntimos segredos. Se se produzem com grande facilidade e freqüência, até em indivíduos normais,

cujos desejos inconscientes estão reprimidos de modo eficaz, isso se explica pela futilidade e

inverossimilhança das mesmas. São porém do mais alto valor teórico: testemunham a existência

da repressão e da substituição mesmo na saúde perfeita.

Notarão desde logo que o psicanalista se distingue pela rigorosa fé no determinismo da

vida mental. Para ele não existe nada insignificante, arbitrário ou casual nas manifestações

psíquicas. Antevê um motivo suficiente em toda parte onde habitualmente ninguém pensa nisso;

está até disposto a aceitar causas múltiplas para o mesmo efeito, enquanto nossa necessidade

causal, que supomos inata, se satisfaz plenamente com uma única causa psíquica.

Se os ouvintes reunirem os meios que estão ao nosso alcance para descobrimento do que

na vida mental jaz escondido, deslembrado e reprimido - o estudo das idéias livremente

associadas pelos pacientes, seus sonhos, falhas e ações sintomáticas; se ainda juntarem a tudo

isso o exame de outros fenômenos surgidos no decurso do tratamento psicanalítico e a respeito

dos quais farei algumas observações quando tratar da `transferência‟ - chegarão comigo à

conclusão de que a nossa técnica já é suficientemente capaz de realizar aquilo que se propôs:

conduzir à consciência o material psíquico patogênico, dando fim desse modo aos padecimentos

ocasionados pela produção dos sintomas de substituição. O fato de enriquecermos e

aprofundarmos durante o tratamento os nossos conhecimentos sobre a vida mental, dos sãos e

dos doentes, deve ser considerado apenas como estímulo especial a este trabalho e uma de suas

vantagens.

Não sei se ficaram com a impressão de que a técnica, através de cujo arsenal os conduzi,

apresenta dificuldades especiais. Para mim, ela amolda-se perfeitamente aos seus fins. Mas não é

menos certo também que não constitui prenda inata; tem de ser aprendida, como a histológica ou a

cirúrgica. Talvez se espantem em saber que na Europa ouvi uma série de juízos relativos à

psicanálise expendidos por pessoas jejunas a respeito desta técnica, que elas não exercitam, as

quais pessoas ainda por ironia nos exigem lhes demonstremos a exatidão de nossos resultados.

No meio de tais opositores encontram-se sem dúvida homens familiarizados com o raciocínio

científico em outras matérias, incapazes de contestar, por exemplo, o resultado dum exame

microscópico, só porque não o podem confirmar pela inspeção do preparado anatômico com a

vista desarmada, e que não emitiriam parecer algum antes de minuciosa observação ao

microscópio. Mas no tocante à psicanálise as circunstâncias são realmente desfavoráveis a um

imediato assentimento. Quer a psicanálise tornar conscientemente reconhecido aquilo que está

reprimido na vida mental, e todo aquele que a julga é homem com as mesmas repressões,

mantidas talvez à custa de penosos sacrifícios. Neles devem levantar-se, pois, as mesmas

resistências, como nos doentes, e estas se revestem facilmente das roupagens da impugnação

intelectual, suscitando argumentos semelhantes aos que desfazemos nos doentes com a regra

psicanalítica fundamental. Como nos doentes, podemos reconhecer em nossos adversários

notável influxo afetivo na faculdade de julgamento, com prejuízo desta. O orgulho da consciência

que chega por exemplo a desprezar os sonhos pertence ao forte aparelhamento disposto em nós

de modo geral contra a invasão dos complexos inconscientes. Esta é a razão por que tão

dificultoso é como vencer os homens da realidade do inconsciente e dar-lhes a conhecer qualquer

novidade em contradição com seu conhecimento consciente.

QUARTA LIÇÃO

SENHORAS E SENHORES, - Desejam os ouvintes saber agora o que, com auxílio dos

meios técnicos descritos, logramos averiguar a respeito dos complexos patogênicos e dos desejos

reprimidos dos neuróticos.

Mas, antes de tudo, uma coisa: o exame psicanalítico relaciona com uma regularidade

verdadeiramente surpreendente os sintomas mórbidos a impressões da vida erótica do doente;

mostra-nos que os desejos patogênicos são da natureza dos componentes instintivos eróticos: e

obriga-nos a admitir que as perturbações do erotismo têm a maior importância entre as influências

que levam à moléstia, tanto num como noutro sexo.

Bem sei que não se acredita de boa mente nesta minha afirmação. Mesmo os

investigadores que me seguem solícitos os trabalhos psicológicos são inclinados a julgar que eu

exagero a participação etiológica do fator sexual, e vêm a mim perguntando por que outras

excitações mentais não hão de dar também motivo aos fenômenos da repressão e formação de

substitutivos. Por ora só lhes posso responder: não sei. Mas a experiência mostra que elas não

têm a mesma importância. Quando muito, reforçam a ação do elemento sexual, mas nunca podem

substituí-lo. Esta ordem de coisas não a determinei mais ou menos teoricamente. Quando, em

1895, publiquei com o Dr. J. Breuer os Estudos sobre a Histeria, ainda não tinha esta opinião;

vi-me forçado a adotá-la quando as minhas experiências se tornaram mais numerosas e

penetraram mais intimamente o problema. Senhores! Acham-se entre os presentes alguns de

meus adeptos e amigos mais chegados, que viajaram comigo até Worcester. Se os interrogarem,

ouvirão que todos eles a princípio recebiam com a maior descrença a afirmação da importância

decisiva da etiologia sexual, até que pelo exercício analítico pessoal foram obrigados a aceitar

como sua própria aquela afirmação.

O modo de proceder dos doentes em nada facilita o reconhecimento da justeza da tese a

que estamos aludindo. Em vez de nos fornecerem prontamente informações sobre a sua vida

sexual, procuram por todos os meios ocultá-la. Em matéria sexual os homens são em geral

insinceros. Não expõem a sua sexualidade francamente; saem recobertos de espesso manto,

tecido de mentiras, para se resguardarem, como se reinasse um temporal terrível no mundo da

sexualidade. E não deixam de ter razão; o sol e o ar em nosso mundo civilizado não são realmente

favoráveis à atividade sexual. Com efeito, nenhum de nós pode manifestar o seu erotismo

francamente à turba. Quando porém seus pacientes tiverem percebido que durante o tratamento

devem estar à vontade, se despojarão daquele manto de mentira, e só então estarão os presentes

em condições de formar juízo a respeito deste problema. Infelizmente, os médicos não desfrutam

nenhum privilégio especial sobre os demais homens no tocante ao comportamento na esfera da

vida sexual, e muitos deles estão dominados por aquela mescla de lubricidade e afetado recato,

que é o que governa a maioria dos `povos civilizados‟ nas coisas da sexualidade.

Deixem-me prosseguir no relato das nossas contestações. Em outra série de casos o

exame psicanalítico vem sem dúvida ligar os sintomas não a fatos sexuais senão a acontecimentos

traumáticos comuns. Mas, por outra circunstância, esta diferenciação perde todo valor. O trabalho

de análise necessário para o esclarecimento completo e cura definitiva de um caso mórbido não se

detém nos episódios contemporâneos da doença; retrocede sempre, em qualquer hipótese, até a

puberdade e a mais remota infância do doente, para só aí topar as impressões e acontecimentos

determinantes da doença ulterior. Só os fatos da infância explicam a sensibilidade aos

traumatismos futuros e só com o descobrimento desses restos de lembranças, quase regularmente

olvidados, e com a volta deles à consciência, é que adquirimos o poder de afastar os sintomas.

Chegamos aqui à mesma conclusão do exame de sonhos, isto é, que foram os desejos duradouros

e reprimidos da infância que emprestaram à formação dos sintomas a força sem a qual teria

decorrido normalmente a reação contra traumatismos posteriores. Estes potentes desejos da

infância hão de ser reconhecidos, porém, em sua absoluta generalidade, como sexuais.

Mas, agora sim, estou realmente certo do espanto dos ouvintes. `Existe então -

perguntarão - uma sexualidade infantil?‟ `A infância não é, ao contrário, o período da vida marcado

pela ausência do instinto sexual?‟ Não, meus senhores. Não é verdade certamente que o instinto

sexual, na puberdade, entre o indivíduo como, segundo o Evangelho, os demônios nos porcos. A

criança possui, desde o princípio, o instinto e as atividades sexuais. Ela os traz consigo para o

mundo, e deles provêm, através de uma evolução rica de etapas, a chamada sexualidade normal

do adulto. Não são difíceis de observar as manifestações da atividade sexual infantil; ao contrário,

para deixá-las passar desapercebidas ou incompreendidas é que é preciso certa arte.

Por um feliz acaso acho-me em condições de chamar dentre os presentes uma

testemunha em favor de minhas afirmações. Eis aqui o trabalho do Dr. Sanford Bell, impresso em

1902, em The American Journal of Psychology. O autor é um “Fellow” da Clark University, o

mesmo instituto em cujo seio nos achamos no atual instante. Nesse trabalho, intitulado `A

Preliminary Study of the Emotion of Love Between the Sexes‟, publicado três anos antes dos meus

Three Essays on the Theory of Sexuality [1905d], (Três Ensaios Sobre a Teoria da Sexualidade),

escreve o autor, tal qual há pouco lhes dizia: `A emoção do amor sexual… não aparece pela

primeira vez no período da adolescência, como se tem pensado.‟ Procedendo `à americana‟, como

diríamos na Europa, reuniu durante 15 anos nada menos de 2.500 observações positivas, das

quais 800 são próprias. Dos sinais por que se revelam esses temperamentos namoradiços, diz ele:

`O espírito mais desprevenido, observando estas manifestações em centenas de casais de

crianças, não poderá deixar de atribuir-lhes uma origem sexual. O mais rigoroso espírito satisfaz-se

quando a estas observações se juntam as confissões dos que em criança sentiram a emoção

intensamente e cujas recordações daquela época são relativamente nítidas.‟ Aqueles dentre os

ouvintes que não queriam acreditar na sexualidade infantil terão o maior assombro ouvindo que

entre estas crianças, tão cedo enamoradas, não poucas se encontram na tenra idade de três,

quatro ou cinco anos.

Não me admiraria se estas observações de seu compatriota lhes merecessem mais crédito

que as minhas. A mim mesmo foi-me dado obter recentemente um quadro mais ou menos

completo das manifestações instintivas somáticas e das produções mentais num período precoce

da vida amorosa infantil, graças à análise empreendida, com todas as regras, pelo próprio pai de

um menino de cinco anos atacado de ansiedade. Devo lembrar-lhes que meu amigo Dr. C. G. Jung

há poucas horas, nesta mesma sala, lhes expôs a observação de uma menina ainda mais nova,

que pelo mesmo motivo do meu paciente (nascimento de um irmãozinho) evidenciava quase os

mesmos impulsos sensuais e idêntica formação de desejos e complexos. [Cf. Jung, 1910.] Não

duvido, pois, de que os presentes se acabarão familiarizando com a idéia, de início tão exótica, da

sexualidade infantil; memore-se o exemplo notável do psiquiatra E. Bleuler, de Zurique, que há

poucos anos dizia publicamente `que não compreendia minha teoria sexual‟ mas que de então

para cá, pôde, mediante observações próprias, confirmar a sexualidade infantil em toda a

extensão. (Cf. Bleuler, 1908.)

É facílima de explicar a razão por que a maioria dos homens, observadores médicos e

outros, nada querem saber da vida sexual da criança. Sob o peso da educação e da civilização,

esqueceram a atividade sexual infantil e não desejam agora relembrar aquilo que já estava

reprimido. Se quisessem iniciar o exame pela auto-análise, com uma revisão e interpretação das

próprias recordações infantis, haviam de chegar a convicção muito diferente.

Deixem que se dissipem as dúvidas e examinemos juntos a sexualidade infantil, desde os

primeiros anos. O instinto sexual se nos apresenta muito complexo, podendo ser desmembrado em

vários componentes de origem diversa. Antes de tudo, é independente da função procriadora a

cujo serviço mais tarde se há de pôr. Serve para dar ensejo a diversas espécies de sensações

agradáveis que nós, pelas suas analogias e conexões, englobamos como prazer sexual. A

principal fonte de prazer sexual infantil é a excitação apropriada de determinadas partes do corpo

particularmente excitáveis, além dos órgãos genitais, como sejam os orifícios da boca, ânus e

uretra e também a pele e outras superfícies sensoriais. Como nesta primeira fase da vida sexual

infantil a satisfação é alcançada no próprio corpo, excluído qualquer objeto estranho, dá-se-lhe o

nome, segundo o termo introduzido por Havelock Ellis, de auto-erotismo. Zonas erógenas

denominam-se os lugares do corpo que proporcionam o prazer sexual. O prazer de chupar o dedo,

o gozo da sucção, é um bom exemplo de tal satisfação auto-erótica partida de uma zona erógena.

Quem primeiro observou cientificamente esse fenômeno, o pediatra Lindner (1879), de Budapeste,

já o tinha interpretado como satisfação dessa natureza e descrito exaustivamente a transição para

outras formas mais elevadas de atividade sexual. Outra satisfação da mesma ordem, nessa idade,

é a excitação masturbatória dos órgãos genitais, fenômeno que tão grande importância conserva

para o resto da vida e que muitos indivíduos não conseguem suplantar jamais. Ao lado dessas e

outras atividades auto-eróticas revelam-se, muito cedo, na criança, aqueles componentes

instintivos do gozo sexual ou, como preferimos dizer, da libido, que pressupõem como objeto uma

pessoa estranha. Estes instintos aparecem em grupos de dois, um oposto ao outro, ativo e

passivo: cito-lhes como mais notáveis representantes deste grupo o prazer de causar sofrimento

(sadismo) com o seu reverso passivo (masoquismo) e o prazer visual, ativo ou passivo. Do gozo

visual ativo desenvolve-se mais tarde a sede de saber, como do passivo o pendor para as

representações artísticas e teatrais. Outras atividades sexuais infantis já incidem na `escolha do

objeto‟, onde o principal elemento é uma pessoa estranha, a qual deve primordialmente sua

importância a considerações relativas ao instinto de conservação. Mas a diferença de sexo ainda

não tem neste período infantil papel decisivo; pode-se, pois, atribuir a toda criança, sem injustiça,

uma parcial disposição homossexual. Esta vida sexual infantil desordenada, rica mas dissociada,

em que cada impulso isolado se entrega à conquista do gozo independentemente dos demais,

experimenta uma condensação e organização em duas principais direções, de tal modo que ao fim

da puberdade o caráter sexual definitivo está completamente formado. De um lado subordinam-se

todos os impulsos ao domínio da zona genital, por meio da qual a vida sexual se coloca em toda a

plenitude ao serviço da propagação da espécie, passando a satisfação daqueles impulsos a só ter

importância como preparo e estímulo do verdadeiro ato sexual. De outro lado a escolha de objeto

repele o auto-erotismo, de maneira que na vida erótica os componentes do instinto sexual só

querem satisfazer-se na pessoa amada. Mas nem todos os componentes instintivos originários são

admitidos a tomar parte nesta fixação definitiva da vida sexual. Já antes da puberdade, sob o

influxo de educação, certos impulsos são submetidos a repressões extremamente enérgicas, ao

mesmo passo que surgem forças mentais - o pejo, a repugnância, a moral - que como sentinelas

mantêm as aludidas repressões. Chegando na puberdade a maré das necessidades sexuais,

encontra nas mencionadas reações psíquicas diques de resistência que lhe conduzem a corrente

pelos caminhos chamados normais e lhe impedem reviver os impulsos reprimidos. Os mais

profundamente atingidos pela repressão são primeiramente, e sobretudo, os prazeres infantis

coprófilos, isto é, os que se relacionam com os excrementos, e, em segundo lugar, os da fixação

às pessoas da primitiva escolha de objeto.

Senhores. Um princípio de patologia geral afirma que todo processo evolutivo traz em si os

germes de uma disposição patológica e pode ser inibido ou retardado ou desenvolver-se

incompletamente. Isto vale para o tão complicado desenvolvimento da função sexual que nem em

todos os indivíduos se desenrola sem incidentes que deixem após si ou anormalidade ou

disposições a doenças futuras por meio de uma regressão. Pode suceder que nem todos os

impulsos parciais se sujeitem à soberania da zona genital; o que ficou independente estabelece o

que chamamos perversão e pode substituir a finalidade sexual normal pela sua própria. Segundo já

foi dito, acontece freqüentemente que o auto-erotismo não seja completamente superado, como

testemunham as multiformes perturbações aparecidas depois. A equivalência primitiva dos sexos

como objeto sexual pode conservar-se, e disso se originará no adulto uma tendência homossexual,

capaz de chegar em certas circunstâncias até a da homossexualidade exclusiva. Esta série de

distúrbios corresponde a entraves diretos no desenvolvimento da função sexual: abrange as

perversões e o nada raro infantilismo geral da vida sexual.

A propensão à neurose deve provir por outra maneira de uma perturbação do

desenvolvimento sexual. As neuroses são para as perversões o que o negativo é para o positivo.

Como nas perversões, evidenciam-se nelas os mesmos componentes instintivos que mantêm os

complexos e são os formadores de sintomas; mas aqui eles agem do inconsciente, onde puderam

firmar-se apesar da repressão sofrida. A psicanálise nos mostra que a manifestação

excessivamente intensa e prematura desses impulsos conduz a uma espécie de fixação parcial -

ponto fraco na estrutura da função sexual. Se o exercício da capacidade genética normal encontra

no adulto um obstáculo, rompe-se a repressão da fase do desenvolvimento justamente naquele

ponto em que se deu a fixação infantil.

É muito possível que me contestem dizendo que nada disto é sexualidade e que emprego

a palavra num sentido mais extenso do que estão habituados a entender. Concordo. Mas pode-se

perguntar se não têm antes utilizado os presentes o vocábulo em sentido nímio restrito, quando o

limitam ao terreno da procriação. Sacrificam assim a compreensão das perversões, do

enlaçamento que existe entre estas, a neurose e a vida sexual normal, e os senhores se colocam

em situação de não reconhecer, em seu verdadeiro significado, os primórdios, facilmente

observáveis, da vida erótica somática e psíquica das crianças. Qualquer que seja a opinião dos

presentes sobre o emprego do termo, devem ter sempre em conta que o psicanalista considera a

sexualidade naquele sentido amplo a que o conduziu a apreciação da sexualidade infantil.

Volvamos ainda uma vez à evolução sexual da criança. Temos aqui ainda muito que rever,

porque nossa atenção foi dirigida mais para as manifestações somáticas da vida sexual do que às

psíquicas. A primitiva escolha de objeto feita pela criança e dependente de sua necessidade de

amparo exige-nos ainda toda a atenção. Essa escolha dirige-se primeiro a todas as pessoas que

lidam com a criança e logo depois especialmente aos genitores. A relação entre criança e pais não

é, como a observação direta do menino e posteriormente o exame psicanalítico do adulto

concordemente demonstram, absolutamente livre de elementos de excitação sexual. A criança

toma ambos os genitores, e particularmente um deles, como objeto de seus desejos eróticos. Em

geral o incitamento vem dos próprios pais, cuja ternura possui o mais nítido caráter de atividade

sexual, embora inibido em suas finalidades. O pai em regra tem preferência pela filha, a mãe pelo

filho: a criança reage desejando o lugar do pai se é menino, o da mãe se se trata da filha. Os

sentimentos nascidos destas relações entre pais e filhos e entre um irmão e outros, não são

somente de natureza positiva, de ternura, mas também negativos, de hostilidade. O complexo

assim formado é destinado a pronta repressão, porém continua a agir do inconsciente com

intensidade e persistência. Devemos declarar que suspeitamos represente ele, com seus

derivados, o complexo nuclear de cada neurose, e nos predispusemos a encontrá-lo não menos

ativo em outros campos da vida mental. O mito do rei Édipo que, tendo matado o pai, tomou a mãe

por mulher, é uma manifestação pouco modificada do desejo infantil, contra o qual se levantam

mais tarde, como repulsa, as barreiras do incesto. O Hamlet de Shakespeare assenta sobre a

mesma base, embora mais velada, do complexo do incesto.

No tempo em que é dominada pelo complexo central ainda não reprimido, a criança dedica

aos interesses sexuais notável parte da atividade intelectual. Começa a indagar de onde vêm as

criancinhas, e com os dados a seu alcance adivinha das circunstâncias reais mais do que os

adultos podem suspeitar. Comumente o que lhe desperta a curiosidade é a ameaça material do

aparecimento de um novo irmãozinho, no qual a princípio só vê um competidor. Sob a influência

dos impulsos parciais que nela agem, forma até numerosas `teorias sexuais infantis‟. Chega a

pensar que ambos os sexos possuem órgãos genitais masculinos; que comendo é que se geram

crianças; que estas vêm ao mundo pela extremidade dos intestinos; que a cópula é um ato de

hostilidade, uma espécie de subjugação. Mas justamente a falta de acabamento de sua

constituição sexual e a deficiência de conhecimentos, especialmente no que se refere ao tubo

genital feminino, forçam o pequeno investigador a suspender o improfícuo trabalho. O próprio fato

dessa investigação e as conseqüentes teorias sexuais infantis são de importância determinante

para a formação do caráter da criança e do conteúdo da neurose futura.

É absolutamente normal e inevitável que a criança faça dos pais o objeto da primeira

escolha amorosa. Porém a libido não permanece fixa neste primeiro objeto: posteriormente o

tomará apenas como modelo, passando dele para pessoas estranhas, na ocasião da escolha

definitiva. Desprender dos pais a criança torna-se portanto uma obrigação inelutável, sob pena de

graves ameaças para a função social do jovem. Durante o tempo em que a repressão promove a

seleção entre os impulsos parciais de ordem sexual, e, mais tarde, quando a influência dos pais,

principal fator da repressão, deve abrandar, cabem no trabalho educativo importantes deveres que

atualmente, por certo, nem sempre são preenchidos de modo inteligente e livre de críticas.

Senhoras e senhores. Não julguem que com esta dissertação acerca da vida sexual infantil

e do desenvolvimento psicossexual da criança nos tenhamos afastado da psicanálise e da

terapêutica das perturbações nervosas. Se quiserem, podem definir o tratamento psicanalítico

como simples aperfeiçoamento educativo destinado a vencer os resíduos infantis.

QUINTA LIÇÃO

SENHORAS E SENHORES, - Com o descobrimento da sexualidade infantil e atribuindo

aos componentes eróticos instintivos os sintomas das neuroses, chegamos a algumas fórmulas

inesperadas sobre a natureza e tendência destas últimas. Vemos que os indivíduos adoecem

quando, por obstáculos exteriores ou ausência de adaptação interna lhes falta na realidade a

satisfação das necessidades sexuais. Observamos que então se refugiam na moléstia, para com o

auxílio dela encontrar uma satisfação substitutiva. Reconhecemos que os sintomas mórbidos

contêm certa parcela da atividade sexual do indivíduo ou sua vida sexual inteira. No distanciar da

realidade reconhecemos também a tendência principal e ao mesmo tempo o dano capital do

estado patológico. Conjecturamos que a resistência oposta pelos doentes à cura não seja simples,

mas composta de vários elementos. Não somente o ego do doente se recusa a desfazer a

repressão por meio da qual se esquivou de suas disposições originárias, como também pode o

instinto sexual não renunciar à satisfação vicariante enquanto houver dúvida de que a realidade lhe

ofereça algo melhor.

A fuga, da realidade insatisfatória para aquilo que pelos danos biológicos que produz

chamamos doença, não deixa jamais de proporcionar ao doente um prazer imediato; ela se dá pelo

caminho da regressão às primeiras fases da vida sexual a que na época própria não faltou

satisfação. Esta regressão mostra-se sob dois aspectos: temporal, porque a libido, na necessidade

erótica, volta a fixar-se aos mais remotos estados evolutivos - e formal, porque emprega os meios

psíquicos originários e primitivos para manifestação da mesma necessidade. Sob ambos os

aspectos a regressão orienta-se para a infância, restabelecendo um estado infantil da vida sexual.

Quanto mais profundamente penetrar-lhes a patogênese das afecções nervosas, mais

claramente verão os liames entre as neuroses e outras produções da vida mental do homem, ainda

as mais altamente apreciadas. Hão de notar que nós, os homens, com as elevadas aspirações de

nossa cultura e sob a pressão das íntimas repressões, achamos a realidade de todo insatisfatória e

por isso mantemos uma vida de fantasia onde nos comprazemos em compensar as deficiências da

realidade, engendrando realizações de desejos. Nestas fantasias há muito da própria natureza

constitucional da personalidade e muito dos sentimentos reprimidos. O homem enérgico e

vencedor é aquele que pelo próprio esforço consegue transformar em realidade seus castelos no

ar. Quando esse resultado não é atingido, seja por oposição do mundo exterior, seja por fraqueza

do indivíduo, este se desprende da realidade, recolhendo-se aonde pode gozar, isto é, ao seu

mundo de fantasia, cujo conteúdo, no caso de moléstia, se transforma em sintoma. Em certas

condições favoráveis, ainda lhe é possível encontrar outro caminho dessas fantasias para a

realidade, em vez de se alhear dela definitivamente pela regressão ao período infantil. Quando a

pessoa inimizada com a realidade possui dotes artísticos (psicologicamente ainda enigmáticos)

podem suas fantasias transmudar-se não em sintomas senão em criações artísticas; subtrai-se

desse modo à neurose e reata as ligações com a realidade. (Cf. Rank, 1907). Quando com a

revolta perpétua contra o mundo real faltam ou são insuficientes esses preciosos dons, é

absolutamente inevitável que a libido, seguindo a origem da fantasia, chegue ao reavivamento dos

desejos infantis, e com isso à neurose, representante, em nossos dias, do claustro aonde

costumavam recolher-se todas as pessoas desiludidas da vida ou que se sentiam fracas demais

para viver.

Seja-me lícito referir neste ponto o que de mais importante pudemos conseguir pelo estudo

psicanalítico dos nervosos, e vem a ser que as neuroses não têm um conteúdo psíquico que, como

privilégio deles, não se possa encontrar nos sãos; segundo expressou C. G. Jung, aqueles

adoecem pelos mesmos complexos com que lutamos nós, os que temos saúde perfeita. Conforme

as circunstâncias de quantidade e da proporção entre as forças em choque, será o resultado da

luta a saúde, a neurose ou a sublimação compensadora.

Senhoras e senhores. Não lhes falei até agora sobre a experiência mais importante, que

vem confirmar nossa suposição acerca das forças instintivas sexuais da neurose. Todas as vezes

que tratamos psicanaliticamente um paciente neurótico, surge nele o estranho fenômeno chamado

`transferência‟, isto é, o doente consagra ao médico uma série de sentimentos afetuosos,

mesclados muitas vezes de hostilidade, não justificados em relações reais e que, pelas suas

particularidades, devem provir de antigas fantasias tornadas inconscientes. Aquele trecho da vida

sentimental cuja lembrança já não pode evocar, o paciente torna a vivê-lo nas relações com o

médico; e só por este ressurgimento na `transferência‟ é que o doente se convence da existência e

do poder desses sentimentos sexuais inconscientes. Os sintomas, para usar uma comparação

química, são os precipitados de anteriores eventos amorosos (no mais amplo sentido) que só na

elevada temperatura da transferência podem dissolver-se e transformar-se em outros produtos

psíquicos. O médico desempenha nesta reação, conforme a excelente expressão de Ferenczi

(1909), o papel de fermento catalítico que atrai para si temporariamente a energia afetiva aos

poucos libertada durante o processo. O estudo da transferência pode dar-lhes ainda a chave para

compreenderem a sugestão hipnótica de que a princípio nos servimos como meio técnico de

esquadrinhar o inconsciente dos doentes. Naquela época o hipnotismo revelava-se um meio

terapêutico, mas constituía ao mesmo tempo um empecilho ao conhecimento científico da questão,

removendo as resistências psíquicas de um certo território, para amontoá-las como muralha

intransponível nos confins do mesmo. Não pensem, além disso, que o fenômeno da transferência,

a respeito do qual infelizmente pouco posso dizer aqui, seja produzido pela influência da

psicanálise. A transferência surge espontaneamente em todas as relações humanas e de igual

modo nas que o doente entretém com o médico; é ela, em geral, o verdadeiro veículo da ação

terapêutica, agindo tanto mais fortemente quanto menos se pensa em sua existência. A

psicanálise, portanto, não a cria; apenas a desvenda à consciência e dela se apossa a fim de

encaminhá-la ao termo desejado. Não posso certamente deixar o assunto da transferência sem

frisar que este fenômeno é decisivo não só para o convencimento do doente mas também do

médico. Sei que todos os meus adeptos só pela experiência própria sobre a transferência se

convenceram da exatidão das minhas afirmações referentes à patogênese das neuroses; posso

perfeitamente compreender que ninguém alcance um modo de julgar tão seguro, enquanto não se

faça psicanalista e não observe dessa maneira a ação da transferência.

Senhoras e senhores. Do ponto de vista intelectual, devemos levar em conta, julgo eu, que

existem especialmente dois obstáculos, dignos de nota, contra a aceitação das idéias

psicanalíticas: primeiramente, a falta de hábito de contar com o rigoroso determinismo da vida

mental, o qual não conhece exceção, e, em segundo lugar, o desconhecimento das singularidades

pelas quais os processos mentais inconscientes se diferenciam dos conscientes que nos são

familiares. Uma das formas de oposição mais espalhadas contra o emprego da psicanálise, tanto

em doentes como em sãos, se liga ao último desses dois fatores. Teme-se que ela faça mal,

tem-se medo de chamar à consciência do doente os impulsos sexuais reprimidos, como se lhe

oferecessem então o perigo de aniquilar as mais altas aspirações morais e o privassem das

conquistas da civilização. Nota-se que o doente apresenta feridas na vida psíquica, mas receia-se

tocar nelas, para não aumentar os sofrimentos. Podemos aceitar esta analogia. Não devemos com

efeito tocar em pontos doentes quando estamos certos de que com isso só provocamos dor e nada

mais. Todos sabem, porém, que o cirurgião não deixa de examinar, palpando o foco da moléstia,

quando tem em vista realizar uma operação que há de proporcionar a cura completa. Ninguém

pensa já em incriminá-lo pelos inevitáveis incômodos do exame nem pelos fenômenos

pós-operatórios, desde que a operação tenha bom êxito e que, mediante a agravação passageira

do mal, o doente alcance a definitiva supressão do estado mórbido. Em relação à psicanálise, as

condições são semelhantes; pode ela reivindicar os mesmos direitos que a cirurgia; a exasperação

dos incômodos que impõe ao doente durante o tratamento é, uma vez observada a boa técnica,

incomparavelmente menor que a infligida pelo cirurgião, e em geral nem deve ser tomada em

consideração diante da gravidade da moléstia principal. A destruição do caráter civilizado pelos

impulsos instintivos libertados da repressão é um desfecho temido mas absolutamente impossível.

É que este temor não leva em conta o que a nossa experiência nos ensinou com toda segurança:

que o poder mental e somático de um desejo, desde que se baldou a respectiva repressão, se

manifesta com muito mais força quando inconsciente do que quando consciente; indo para a

consciência, só se pode enfraquecer. O desejo inconsciente escapa a qualquer influência, é

independente das tendências contrárias, ao passo que o consciente é atalhado por tudo quando,

igualmente consciente, se lhe opuser. O tratamento psicanalítico coloca-se assim como o melhor

substituto da repressão fracassada, justamente em prol das aspirações mais altas e valiosas da

civilização.

Que acontece geralmente com os desejos inconscientes libertados pela psicanálise, e

quais os meios por cujo intermédio pretendemos torná-los inofensivos à vida do indivíduo? Desses

meios há vários. O resultado mais freqüente é que os mesmos desejos, já durante o tratamento,

são anulados pela ação mental, bem conduzida, dos melhores sentimentos contrários. A repressão

é substituída pelo julgamento de condenação efetuado com recursos superiores. Isso é possível

porque quase sempre temos de remover tão-somente conseqüências de estados evolutivos

anteriores do ego. Como o indivíduo na época se achava ainda incompletamente organizado, não

pôde senão reprimir o instinto inutilizável; mas na força e madureza de hoje, pode talvez dominar

perfeitamente aquilo que lhe é hostil. Outro desfecho do tratamento psicanalítico é que os impulsos

inconscientes, ora descobertos, passam a ter a utilização conveniente que deviam ter encontrado

antes, se a evolução não tivesse sido perturbada. A extirpação radical dos desejos infantis não é

absolutamente o fim ideal. Por causa das repressões, o neurótico perdeu muitas fontes de energia

mental que lhe teriam sido de grande valor na formação do caráter e na luta pela vida.

Conhecemos uma solução muito mais conveniente, a chamada `sublimação„, pela qual a energia

dos desejos infantis não se anula mas ao contrário permanece utilizável, substituindo-se o alvo de

algumas tendências por outro mais elevado, quiçá não mais de ordem sexual. Exatamente os

componentes do instinto sexual se caracterizam por essa faculdade de sublimação, de permutar o

fim sexual por outro mais distante e de maior valor social. Ao reforço de energia para nossas

funções mentais, por essa maneira obtido, devemos provavelmente as maiores conquistas da

civilização. A repressão prematura exclui a sublimação do instinto reprimido; desfeito aquele, está

novamente livre o caminho para a sublimação.

Não devemos deixar de contemplar também o terceiro dos possíveis desenlaces do

tratamento psicanalítico. Certa parte dos desejos libidinais reprimidos faz jus à satisfação direta e

deve alcançá-la na vida. As exigências da sociedade tornam o viver dificílimo para a maioria das

criaturas humanas, forçando-as com isso a se afastarem da realidade e dando origem às

neuroses, sem que o excesso de coerção sexual traga maiores benefícios à coletividade. Não

devemos ensoberbecer-nos tanto, a ponto de perder completamente de vista nossa natureza

animal, nem esquecer tampouco que a felicidade individual não deve ser negada pela civilização. A

plasticidade dos componentes sexuais, manifesta na capacidade de sublimarem-se, pode ser uma

grande tentação a conquistarmos maiores frutos para a sociedade por intermédio da sublimação

contínua e cada vez mais intensa. Mas assim como não contamos transformar em trabalho senão

parte do calor empregado em nossas máquinas, de igual modo não devemos esforçar-nos em

desviar a totalidade da energia do instinto sexual da sua finalidade própria. Nem o conseguiríamos.

E se o cerceamento da sexualidade for exagerado, trará consigo todos os danos duma exploração

abusiva.

Não sei se da parte dos senhores considerarão como presunção minha a admoestação

com que concluo. Atrevo-me apenas a representar indiretamente a convicção que tenho,

narrando-lhes uma anedota já antiga, cuja moralidade os senhores mesmo apreciarão. A literatura

alemã conhece um vilarejo chamado Schilda, de cujos habitantes se contam todas as espertezas

possíveis. Dizem que possuíam eles um cavalo com cuja força e trabalho estavam satisfeitíssimos.

Uma só coisa lamentavam: consumia aveia demais e esta era cara. Resolveram tirá-lo pouco a

pouco desse mau costume, diminuindo a ração de alguns grãos diarimente, até acostumá-lo à

abstinência completa. Durante certo tempo tudo correu magnificamente; o cavalo já estava

comendo apenas um grãozinho e no dia seguinte devia finalmente trabalhar sem alimento algum.

No outro dia amanheceu morto o pérfido animal; e os cidadãos de Schilda não sabiam explicar por

que.

Nós nos inclinaremos a crer que o cavalo morreu de fome e que sem certa ração de aveia

não podemos esperar em geral trabalho de animal algum.

Pelo convite e pela atenção com que me honraram, os meus agradecimentos.

LEONARDO DA VINCI E UMA LEMBRANÇA DA SUA INFÂNCIA (1910)

NOTA DO EDITOR INGLÊS (JAMES STRACHEY)

EINE KINDHEITSERINNERUNG DES LEONARDO DA VINCI

(a) EDIÇÕES ALEMÃS:

1910 Leipzig e Viena: Deuticke. P. 71. (Schriften zur angewandten Seelenkunde, Heft 7)

1919 2ª ed. Mesmos editores, P. 76.

1923 2ª ed. Mesmos editores. P. 78.

1925 G.S., 9, 371-454.

1943 G.W., 8, 128-211.

(b) TRADUÇÕES INGLESAS:

Leonardo da Vinci

1916 Nova Iorque: Moffat, Yard. P. 130. (Trad. A. A. Brill.)

1922 Londres: Kegan Paul. P. v + 130. (Mesmo tradutor, com prefácio de Ernest Jones.)

1932 Nova Iorque: Dodd Mead. P. 139. (Reedição da tradução acima.)

A tradução atual inglesa, com o título modificado para `Leonardo da Vinci and a Memory of

his Childhood‟, é inteiramente nova, feita por Alan Tyson.

O interesse de Freud por Leonardo datava de longe, conforme o prova uma frase sua, em

carta endereçada a Fliess, em 9 de outubro de 1898 (Freud, 1950 a, Carta 98) na qual comentava

que `Leonardo, que talvez fosse o mais famoso canhoto da história, jamais tivera um caso de

amor‟. Este interesse não foi tampouco um interesse passageiro, pois nas respostas de Freud a um

`questionário‟ sobre seus livros prediletos (1907d) vamos encontrar uma referência a um estudo de

Merezhkovsky sobre Leonardo. Mas o verdadeiro estímulo para que escrevesse o presente

trabalho parece ter surgido no outono de 1909, na figura de um de seus pacientes, o qual,

conforme seu comentário em carta a Jung, em 17 de outubro, parecia ter a mesma constituição de

Leonardo sem, no entanto, possuir o seu gênio. Dizia, ainda, que estava esperando receber da

Itália um livro sobre a juventude de Leonardo. Este livro era a monografia, por Scognamiglio,

mencionada em [1]. Após ler este e outros livros sobre Leonardo, Freud discorreu sobre o assunto

perante a Sociedade Psicanalítica de Viena, no dia 1º de dezembro; mas foi somente em princípios

de abril de 1910 que terminou de escrever o seu estudo, publicado em fins de maio.

Freud fez uma série de correções e acréscimos nas edições seguintes do livro. Entre eles,

podemos ressaltar a pequena nota ao pé da página sobre circuncisão (ver em [2]), o resumo de um

trecho de Reitler (ver em [3]) e a extensa citação de um trecho de Pfister (ver em [4]), todos

incluídos na edição de 1919, e os comentários sobre o desenho de Londres (ver em [5]),

acrescentado em 1923.

Este trabalho de Freud não foi o primeiro em que foram aplicados métodos clínicos da

psicanálise no estudo de vultos históricos do passado. Experiências nesse sentido já haviam sido

feitas por outros, sobretudo por Sadger, que publicara estudos sobre Conrad Ferdinand Meyer

(1908), Lenau (1909) e Kleis (1909). O próprio Freud nunca fizera um estudo biográfico extenso

dessa natureza, embora houvesse feito análises fragmentárias de alguns escritores, baseadas em

episódios contidos em seus respectivos trabalhos. De fato, em época muito anterior, em 20 de

junho de 1898, ele enviara a Fliess um estudo sobre uma historieta de C.F. Meyer, `Die Richterin‟,

que esclarecia a vida infantil do autor (Freud, 1950a, Carta 91). A monografia sobre Leonardo, no

entanto, não foi somente a primeira, mas, também, a última incursão extensa de Freud no terreno

da biografia. O livro parece ter sido recebido com uma avalancha de críticas desfavoráveis, que

ultrapassaram os limites normais, o que evidentemente justificou a defesa antecipada, feita por

Freud, com as observações no começo do capítulo VI (ver em [1]), observações que ainda hoje se

aplicam aos autores e críticos de biografias.

É de admirar, no entanto, que até bem pouco tempo nenhum dos críticos deste trabalho se

tenha detido naquilo que, sem dúvida alguma, é o seu ponto mais fraco. Uma parte importante é

desempenhada pela lembrança ou pela fantasia de Leonardo de ter sido visitado em seu berço por

uma ave de rapina. O nome por ele usado para a ave, em suas anotações, foi `nibio„, que em

italiano (em sua forma moderna, `nibbio„) significa `milhafre‟. No entanto, Freud, no decorrer de

todo o seu estudo, usa a palavra alemã `Geier„, que em inglês só pode ser traduzida por `vulture„

(em português `abutre‟).

O equívoco de Freud parece ter-se originado de algumas das traduções alemãs de que se

utilizou. Marie Herzfeld (1906), por exemplo, usa a palavra `Geier„ em uma de suas versões da

fantasia do berço, ao invés de `Milan„, a palavra alemã comum por `milhafre‟. Mas, provavelmente,

a influência mais importante terá sido a tradução alemã do livro de Merezhkovsky sobre Leonardo,

o qual, a julgar pelo exemplar anotado pertencente à biblioteca de Freud, foi a sua grande fonte de

informações sobre Leonardo e onde provavelmente, pela primeira vez, veio a ter conhecimento

daquela fantasia. Aqui, também, a palavra alemã usada na fantasia do berço foi `Geier„, embora o

próprio Merezhkovsky usasse corretamente a palavra `korshun„ que, em russo, significa `milhafre‟.

Diante desse equívoco, muitos leitores se sentirão inclinados a abandonar o estudo

considerando-o sem valor. Será, no entanto, aconselhável examinar a situação mais calmamente e

analisar detalhadamente os pontos exatos em que os argumentos e deduções de Freud se

invalidam.

Em primeiro lugar, a idéia do `pássaro oculto‟ no desenho de Leonardo (ver em [1]) deve

ser posta de lado. Se de fato era um pássaro, será um abutre; em nada se parece com um

milhafre. Esta `descoberta‟, entretanto, não foi feita por Freud e sim por Pfister. Somente foi

introduzida na segunda edição da obra, e foi recebida por Freud com grande reserva.

A seguir, e mais importante ainda, vem a associação egípcia. O hieróglifo para a palavra

`mãe‟, em egípcio `mut„, representa sem dúvida alguma um abutre e não um milhafre. Gardiner, em

sua abalizada Egyptian Grammar (2ª ed., 1950, 469), identifica o pássaro como sendo `Gyps

fulvus„, ou grifo. Deduz-se daí que a teoria de Freud de que o pássaro da fantasia de Leonardo

significava sua mãe, não se pode basear no mito egípcio, deixando de ser importante a questão de

sua relação com o mito. A fantasia e o mito não parecem ter qualquer relação entre si. Cada um

deles, no entanto, quando analisado separadamente, oferece um problema interessante. Por que

terão os antigos egípcios associado as idéias de `abutre‟ e de `mãe‟? Será satisfatória a explicação

dos egiptólogos de que seja meramente uma coincidência fonética? Caso contrário, o estudo

freudiano sobre mães-deusas andróginas terá valor original, independente de suas relações com o

caso de Leonardo. Do mesmo modo, a fantasia de Leonardo sobre o pássaro a visitá-lo no berço e

a meter-lhe a cauda na boca continua a exigir uma explicação, mesmo no caso de o pássaro não

ser um abutre. E a análise psicológica de Freud relativa a essa fantasia não se desvaloriza com

essa correção, perde, apenas, um elemento de apoio.

Portanto, levando-se em conta a pouca importância do estudo do caso egípcio - embora

persista o seu valor intrínseco -, o estudo de Freud, em sua essência, não sofre com esse erro:

permanece a reconstrução detalhada da vida emotiva de Leonardo, desde os seus primeiros anos;

a descrição do conflito entre seus impulsos artísticos e científicos; a análise profunda de sua

história psicossexual. Além desses assuntos importantes, o estudo nos apresenta uma quantidade

de temas colaterais de igual valor: uma discussão mais geral da natureza e do trabalho da mente

de um artista criador; uma descrição da gênese de um tipo especial de homossexualidade; e, o

que é especialmente interessante para a história da teoria da psicanálise, o aparecimento, pela

primeira vez, do conceito de narcisismo.

NOTA DO EDITOR BRASILEIRO

A presente tradução é da autoria de Walderedo Ismael de Oliveira (Professor Adjunto de

Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Analista Didata da Sociedade Brasileira de

Psicanálise do Rio de Janeiro).

LEONARDO DA VINCI E UMA LEMBRANÇA DE SUA INFÂNCIA

I

QUANDO a pesquisa psiquiátrica, que geralmente se contenta em usar pessoas comuns

como material de estudo, se aproxima de alguém que figura entre os expoentes da raça humana,

não o faz pelos motivos que tão freqüentemente lhe atribuem os leigos. O seu objetivo não é

`denegrir os brilhantes e arrastar na lama os sublimes‟, Und das Ernabene in den Staub zu

ziehn.(O mundo gosta de denegrir o brilhante e arrastar na lama o sublime.)De um poema de

Schiller, `Das Mädchen von Orleans‟, inserido como um prólogo extra na edição de 1801 de sua

peça Die Jungfrau von Orleans. O poema foi considerado como sendo um ataque ao La Pucelle,

de Voltaire.] e não lhe traz satisfação alguma encurtar a distância que separa a perfeição dos

grandes da deficiência daqueles que geralmente constituem o objeto de seus estudos. Mas a

psiquiatria não pode deixar de considerar como digno de ser compreendido tudo que possa vir a

encontrar nesses modelos ilustres e acredita que não existe ninguém tão grande que venha a ser

desonrado simplesmente por estar sujeito às leis que regem, igualmente, as atividades normais e

as patológicas.

Leonardo da Vinci (1452-1519) foi admirado, até mesmo pelos seus contemporâneos,

como um dos maiores homens da renascença italiana. No entanto, já nessa época começara a

parecer um enigma, tal como nos parece hoje em dia. Era um gênio universal `cujos traços se

podia apenas esboçar mas nunca definir‟. Durante sua época, sua influência decisiva foi sobre a

pintura, cabendo a nós reconhecer a grandeza do homem de ciências naturais (e engenheiro) que

se combinava nele com o artista. Embora tivesse deixado obras-primas de pintura, enquanto suas

descobertas científicas permaneciam inéditas e sem uso, o pesquisador que nele existia nunca

libertou totalmente o artista durante todo o curso de seu desenvolvimento, limitando-o muitas vezes

e talvez, mesmo, chegando a eliminá-lo. Nos últimos momentos de sua vida, segundo palavras que

lhe atribui Vasari, acusou-se de haver ofendido Deus e os homens, não cumprindo o seu dever

para com sua arte. E ainda que esta história de Vasari não passe de lenda, lenda esta que mesmo

antes de sua morte começou a crescer em torno do Mestre misterioso, servirá sempre de

testemunho valioso do que pensavam dele os homens de seu tempo.

O que impediu que a personalidade de Leonardo fosse compreendida pelos seus

contemporâneos? O motivo, certamente, não terá sido a versatilidade de seus talentos nem a

extensão do seu saber, que lhe permitiu apresentar-se na corte do Duque de Milão, Ludovido

Sforza, apelidado Il Moro, como um virtuoso numa espécie de alaúde de sua própria invenção, ou

escrever a notável carta, ao mesmo duque, na qual se gabava de suas realizações como arquiteto

e como engenheiro militar. Na época do renascimento a combinação de tão amplas e diversas

habilidades em um mesmo indivíduo eram comuns, embora tenhamos de reconhecer que

Leonardo foi um dos exemplos mais brilhantes. Tampouco pertencia ele à classe dos gênios

fisicamente mal dotados pela natureza e que por isso mesmo desprezam as formas exteriores da

vida e, numa atitude de penosa melancolia, fogem a qualquer contato com seus semelhantes. Ao

contrário, era alto e bem proporcionado; suas feições eram belas e invulgar a sua força física; era

encantador em suas maneiras e de fácil eloqüência, alegre e amável para com todos. Adorava o

belo em tudo o que cercava; apreciava as roupagens suntuosas e valorizava todos os requintes da

vida. Num trecho de seu tratado sobre a pintura, que bem revela sua tendência para as diversões,

compara a pintura às artes irmãs e descreve os reveses que aguardam o escultor: `Pois seu rosto

fica empoeirado pelo mármore, de modo que mais parece um padeiro; fica também todo salpicado

de flocos de mármore que fazem com que pareça ter estado na neve - sua casa é cheia de poeira

e de lascas de pedra. Quanto ao pintor, seu caso é bem diferente… pois o pintor senta-se em

frente ao seu trabalho, cercado de todo o conforto. Veste-se bem e utiliza pincéis delicados e

leves, que mergulha em cores lindas. Usa roupas que lhe agradam e sua casa é imaculada e

repleta de belos quadros. Muitas vezes trabalha ao som de música ou, então, cercado de homens

que lhe lêem trechos de obras lindas e variadas que pode ouvir prazerosamente sem o barulho do

martelo e outros ruídos.‟

Na verdade, é muito possível que a imagem de um Leonardo extremamente feliz e amante

de todos os prazeres não seja verdadeira senão no primeiro período, e o mais longo também, da

vida do artista. Mais tarde, quando a queda de Ludovico Moro fê-lo deixar Milão, a cidade que era

o centro de suas atividades e onde tinha uma situação assegurada, forçando-o a uma vida instável

e de poucos sucessos externos, até encontrar seu último refúgio na França, a centelha de seu

gênio poderá ter-se esmaecido e alguma faceta estranha de sua natureza poderá ter vindo à tona.

De mais a mais, a transferência de seu interesse pelas artes para sua dedicação à ciência, que se

foi acentuando com o decorrer do tempo, deve ter influído para aumentar a distância que o

separava de seus contemporâneos. Todos os seus esforços representavam, na opinião deles, o

desperdício de um tempo que poderia ser usado para pintar encomendas e fazer fortuna (como

fez, por exemplo, o seu condiscípulo Perugino). Pareciam-lhes mero diletantismo e até mesmo

tornavam-no suspeito de estar a serviço da `magia negra‟. Nós, hoje, podemos compreendê-lo

melhor pois através de seus apontamentos sabemos quais eram as artes a que se dedicava. Em

uma época em que se começava a substituir a autoridade da Igreja pela da antiguidade e em que

não se haviam ainda acostumado com nenhuma forma de pesquisa que não fosse baseada em

pressuposições, Leonardo - o precursor e rival de Bacon e de Copérnico, igualando-se a eles em

valor - foi por isso, forçosamente, um solitário entre seus contemporâneos. Ao dissecar cadáveres

de cavalos e de homens, ao construir máquinas voadoras e ao estudar a nutrição das plantas e

suas reações e venenos, certamente distanciou-se enormemente dos comentadores de Aristóteles,

aproximando-se muito mais dos alquimistas desprezados, em cujos laboratórios a pesquisa

experimental encontrara algum refúgio, pelo menos durante aqueles tempos adversos.

O efeito disso tudo sobre suas pinturas foi o de fazê-lo usar com menos entusiasmo o

pincel, pintar cada vez menos, deixando a maioria do que começara inacabado, e não se

preocupar com o destino final de suas obras. E foi disso que o acusaram seus contemporâneos.

Para eles, sua atitude em face da sua arte foi sempre incompreensível.

Posteriormente, muitos dos admiradores de Leonardo tentaram defendê-lo dessa

acusação de inconstância. Em sua defesa eles alegavam ser esta, justamente, uma característica

dos grandes artistas; até mesmo Miguel Angelo, que era inteiramente dedicado a seu trabalho,

deixou muitas de suas obras inacabadas e disso teve tanta culpa quanto Leonardo, em

circunstâncias iguais. Alegam, além do mais, que, com referência a alguns quadros de Leonardo,

não se trata somente de estarem inacabados, mas sim de os ter ele dado por findos. O que ao

leigo pode parecer uma obra-prima nunca chega a representar para o criador uma obra de arte

completa mas, apenas, a concretização insatisfatória daquilo que tencionava realizar; ele possui

uma tênue visão da perfeição, que tenta sempre reproduzir sem nunca conseguir satisfazer-se.

Sobretudo, alegam eles, é um direito do artista ser responsável pelo destino final de suas obras.

Por mais válidas que possam ser essas desculpas, elas não conseguem livrar Leonardo de

toda a responsabilidade. A mesma luta penosa frente a um trabalho, a fuga final e a indiferença

quanto ao seu destino futuro, tudo isso pode acontecer a muitos outros artistas, mas não há dúvida

de que esse comportamento ocorre em Leonardo em grau muito mais elevado. Solmi (1910, 12)

menciona a observação de um de seus alunos: `Pareva che ad ogni ora tremasse, quando si

poneva a dipingere, e però non diede mai fine ad alcuna cosa cominciata, considerando la

grandezza dell‟arte, tal que che egli scorgeva errori in quelle cose, che ad altri parevano miracoli.‟

Seus últimos quadros, continua ele, a Leda, a Madonna di Sant‟Onofrio, Baco e São João Batista

moço, ficaram inacabados `come quasi intervenne di tutte le cose sue…‟ Lomazzo, que fez uma

cópia da Última Ceia, comenta em um soneto a notória incapacidade de Leonardo para ultimar

seus trabalhos:

Protogen che il pennel di sue pitture

Non levava, agguaglio in Vinci Divo

Di cui opra non è finita pure.

A vagareza do trabalho de Leonardo era proverbial. Depois de meticulosos estudos

preparatórios, levou três anos inteiros para pintar a Última Ceia para o Convento de Santa Maria

delle Grazie, em Milão. Um de seus contemporâneos, o contista Matteo Bandelli, que na época era

um jovem frade naquele convento, conta que Leonardo costumava muitas vezes subir nos

andaimes pela manhã cedo e lá permanecer até o cair da tarde sem nem uma vez descansar o

pincel e nem se lembrar de comer ou de beber. Depois, passava dias sem tornar a tocar no

trabalho. Muitas vezes passava horas diante de sua obra, somente analisando-a mentalmente.

Algumas vezes vinha para o convento diretamente do pátio do castelo de Milão, onde estava

trabalhando no modelo para a estátua eqüestre de Francesco Sforza, dava algumas pinceladas em

algum dos seus personagens, partindo logo a seguir. Segundo Vasari, levou quatro anos pintando

o retrato de Mona Lisa, a mulher do florentino Francesco del Giocondo, sem conseguir dá-lo por

terminado. Este fato pode explicar por que este retrato nunca foi entregue a quem o encomendou,

ficando em mãos de Leonardo, que o levou consigo para a França. Foi adquirido pelo rei Francisco

I, e hoje em dia constitui um dos mais valiosos tesouros do Louvre.

Se compararmos esses relatos sobre o modo de trabalhar de Leonardo com a evidência de

inúmeros desenhos e estudos que deixou e que mostram todos os motivos que aparecem em suas

pinturas sob os aspectos mais variados, seremos compelidos a rejeitar o conceito de que sua

impaciência e sua volubilidade possam, de algum modo, tê-lo influenciado com relação à sua arte.

Ao contrário, é possível observar uma extraordinária profundeza e uma riqueza de possibilidades

que vêm dificultar qualquer decisão final, ambições enormes, difíceis de satisfazer, e uma inibição

na execução definitiva para a qual não encontramos justificativa, mesmo considerando que o

artista nunca consegue realizar o seu ideal. A vagareza, que era conspícua no trabalho de

Leonardo, apresenta-se como um sintoma dessa inibição e um prenúncio de seu subseqüente

desinteresse pela pintura. Isso foi a causa do destino que teve a Última Ceia - destino, aliás,

merecido. Leonardo não se podia acostumar ao afresco, que exigia trabalho rápido na aplicação

das tintas na superfície ainda úmida e, por isso, preferiu usar as tintas a óleo, de secagem mais

lenta, que lhe permitiam protelar o término da obra de acordo com seu humor e lazer. Estas tintas,

no entanto, desprendiam-se da superfície onde eram aplicadas e que as isolava do muro. Além do

mais, os defeitos próprios do muro e o destino posterior do edifício provavelmente determinaram o

que parece ser a ruína inevitável do quadro.

O fracasso de uma experiência técnica semelhante parece ter causado também a

destruição da Batalha de Anguiari, pintura que ele começou a executar, competindo com Miguel

Ângelo, algum tempo depois, em um muro da Sala del Consiglio em Florença, e que também

abandonou antes de terminar. Neste caso, no entanto, parece ter havido outro interesse em jogo -

o do experimentador - que a princípio terá incentivado o interesse artístico, vindo porém a

prejudicar a obra depois.

O caráter de Leonardo, como homem, revelava outros traços incomuns e outras

contradições aparentes. Uma certa ociosidade e indiferença são evidentes em sua personalidade.

Numa época em que todos procuravam conseguir um campo amplo onde desenvolver suas

atividades - para o que necessitavam de uma enérgica agressividade contra os demais - Leonardo

se fazia notar pela sua pacatez e pela aversão a qualquer antagonismo ou controvérsia. Era gentil

e amável para com todos; recusava-se, dizem, a comer carne por não achar justo matar animais;

gostava sobretudo de comprar pássaros no mercado para soltá-los depois. Condenava a guerra e

o derramamento de sangue e descrevia o homem como sendo não tanto o rei do mundo animal, e

sim a pior das bestas selvagens. Essa feminina delicadeza, no entanto, não impedia que

acompanhasse os criminosos a caminho da execução a fim de estudar-lhes as feições distorcidas

pelo medo e desenhá-las em seus cadernos. Nem tampouco deixou de desenhar as mais cruéis

armas de agressão e de pertencer ao serviço de Cesare Borgia como chefe da engenharia militar.

Muitas vezes parecia indiferente ao bem e ao mal ou parecia deixar-se guiar por normas diferentes.

Acompanhou Cesare, em posto importante, durante a campanha que deixou Romagna como

possessão do mais cruel e desleal dos adversários. Não existe nas anotações de Leonardo um

único comentário a respeito dos acontecimentos de sua época ou qualquer demonstração de

preocupação com eles. Isto induz a uma comparação com Goethe durante a campanha da França.

Se um estudo biográfico tem realmente como objetivo chegar à compreensão da vida

mental de seu herói, não deverá omitir, como acontece com a maioria das biografias - por discrição

ou por melindre - sua atividade sexual ou sua individualidade sexual. O que se conhece de

Leonardo neste setor é pouco; porém este pouco é repleto de significados. Em uma época que

presenciou a luta entre uma sensualidade sem limites e um ascetismo melancólico, Leonardo

representava a fria rejeição da sexualidade - coisa que não se deveria esperar de um artista e

pintor da beleza feminina. Solmi cita a seguinte frase sua que bem evidencia a sua frigidez: `O ato

da procriação e tudo o que a ele se relaciona é de tal maneira abjeto que a humanidade

certamente se extinguiria não fora isso um costume já consagrado e não fora o fato de existirem

rostos lindos e naturezas sensuais.‟ Seus escritos postumamente publicados cuidam tanto dos

maiores problemas científicos como também de trivialidades que não merecem tão grande

inteligência (uma história natural alegórica, fábulas de animais, brincadeiras, profecias); são tão

castos, e mesmo abstinentes, que ainda causariam admiração se encontrados em qualquer

trabalho de belles lettres de hoje em dia. Tão resolutamente se abstém de todo o tema sexual que

dá a impressão de que somente Eros, o preservador de todas as coisas vivas, fosse assunto

indigno para o pesquisador em sua busca da sabedoria. É sabido que freqüentemente grandes

artistas se comprazem em dar vazão a suas fantasias por meio de desenhos eróticos e mesmo

obscenos. No caso de Leonardo, no entanto, possuímos apenas alguns esboços anatômicos do

aparelho genital interno feminino, da posição do embrião no útero e assim por diante.

É duvidoso que Leonardo tenha jamais abraçado uma mulher com paixão; ou tenha tido

alguma amizade intelectual íntima com uma mulher, como a de Miguel Ângelo com Vittoria

Colonna. Quando ainda aprendiz e vivendo em casa de seu mestre Verrocchio, foi-lhe feita e a

alguns outros jovens uma acusação de práticas homossexuais proibidas, que terminou em

absolvição. Parece que a origem desta acusação foi o fato de ter usado um menino de má fama

como modelo. Quando veio a tornar-se mestre, cercou-se de belos rapazes e meninos que tomava

como alunos. O último desses alunos, Francesco Melzi, acompanhou-o à França, ficou a seu lado

até a sua morte e foi por ele nomeado seu herdeiro. Sem compartilhar a certeza de seus biógrafos

modernos, que naturalmente rejeitam a possibilidade da existência de relações sexuais entre ele e

seus alunos, considerando-a um insulto grosseiro ao grande homem, achamos muito mais provável

que as relações afetuosas de Leonardo para com os jovens que - como era costume entre

aprendizes da época - compartilhavam sua vida, não chegassem até relação sexuais. E ainda

mais, uma grande atividade sexual não condizia muito com ele.

Existe uma única maneira de compreender a peculiaridade dessa vida sexual e emocional

com relação à dupla natureza de Leonardo como artista e como pesquisador científico. Entre os

seus biógrafos, muitas vezes alheios a qualquer enfoque psicológico, existe, a meu entender,

apenas um, Edmondo Solmi, que se aproximou da solução do problema; mas um escritor que

escolheu Leonardo como o personagem de uma longa novela histórica, Dmitry Sergeyevich

Merezhkovsky, interpretou do mesmo modo esse homem incomum ao retratá-lo e exprimiu

claramente o seu ponto de vista, não com palavras simples porém (segundo o estilo dos autores

imaginativos) em termos plásticos. A opinião de Solmi sobre Leonardo é a seguinte (1908, 46): `O

seu insaciável desejo de tudo compreender em seu redor e de pesquisar com atitude de fria

superioridade o segredo mais profundo de toda a perfeição condenou sua obra a permanecer para

sempre inacabada.‟

Em um ensaio publicado na Conferenze Fiorentine faz-se menção à seguinte frase de

Leonardo, que bem representa sua confissão de fé e fornece a chave para a compreensão de sua

natureza: `Nessuma cosa si può amare nè odiare, se prima non si ha congnition di quella.‟ Isto é:

Não se tem o direito de amar ou odiar qualquer coisa da qual não se tenha conhecimento

profundo. Leonardo se repete em um trecho do tratado sobre pintura, onde parece estar-se

defendendo contra a acusação de ateísmo: `Mas esses críticos desagradáveis melhor fariam se

ficassem quietos. Pois é esse o caminho que conduz ao conhecimento do Criador de tantas coisas

maravilhosas, e o melhor processo para se vir a amar um Inventor tão grandioso. Pois, na verdade,

o grande amor surge do conhecimento profundo do objeto amado e, se este for pouco conhecido, o

seu amor por ele será pouco ou nenhum…‟

O valor nesses comentários de Leonardo não está em olhá-los como reveladores de fatos

psicológicos importantes pois o que eles afirmam é, obviamente, falso e Leonardo era tão sabedor

disto quanto nós. Não é verdade que os seres humanos protelam o amor ou o ódio até adquirirem

conhecimento mais profundo e maior familiaridade com o objeto desses sentimentos. Ao contrário,

amam impulsivamente, movidos por emoções que nada têm a ver com conhecimento e cuja ação,

muito ao contrário, poderá ser amortecida pela reflexão e pela observação. Leonardo, portanto,

poderia, no máximo, querer dizer que o amor praticado por seres humanos não seria tão desejável

e irrepreensível: dever-se-ia amar controlando o sentimento, sujeitando-o à reflexão e somente

permitir sua existência quando capaz de resistir à prova do pensamento. Percebemos, assim, que

procurou mostrar-nos como ele próprio procedia e demonstrar que todos deveriam tratar o amor e

o ódio como ele o fazia.

No seu caso parece que foi isso o que realmente sucedeu. Seus afetos eram controlados e

submetidos ao instinto da pesquisa; ele não amava nem odiava, porém se perguntava acerca da

origem e do significado daquilo que deveria amar ou odiar. Parecia, assim, forçosamente,

indiferente ao bem e ao mal, ao belo e ao horrível. Durante esse trabalho de pesquisa, o amor e o

ódio se despiam de suas formas positivas ou negativas e ambos se transformavam apenas em

objeto de interesse intelectual. Na verdade, Leonardo não era insensível à paixão; não carecia da

centelha sagrada que é direta ou indiretamente a força motora - il primo motore - de qualquer

atividade humana. Apenas convertera sua paixão em sede de conhecimento; entregava-se, então,

à investigação com a persistência, constância e penetração que derivam da paixão e, ao atingir ao

auge de seu trabalho intelectual, isto é, a aquisição do conhecimento, permitia que o afeto há muito

reprimido viesse à tona e transbordasse livremente, como se deixa correr a água represada de um

rio, após ter sido utilizada. Quando, ao chegar ao clímax de uma descoberta, podia vislumbrar uma

vasta porção de todo o conjunto, ele se deixava dominar pela emoção e, em linguagem exaltada,

louvava o esplendor da parte da natureza que estudara ou, em sentido religioso, a grandeza do

seu Criador. Esse processo de transformação em Leonardo foi bem compreendido por Solmi.

Depois de citar uma passagem desse gênero em que Leonardo exalta a sublime lei da natureza

(`O mirabile necessità…‟), escreveu (1910, 11): `Tale trasfigurazione della scienza della natura in

emozione, quasi direi, religiosa, è uno dei tratti caratteristici de‟ manoscritti viancini, e si trova cento

e cento volte expressa…‟

Devido à sua sede insaciável e incansável de conhecimento, Leonardo tem sido chamado

o Fausto italiano. Embora longe de discutir a possível transformação do instinto de investigação em

prazer de viver - transformação que devemos considerar como fundamental na tragédia de Fausto

- cremos poder arriscar a afirmativa de que a evolução de Leonardo se aproxima do pensamento

de Spinoza.

A transformação da força psíquica instintiva em várias formas de atividade, da mesma

maneira que a transformação das forças físicas, não poderia ser realizada sem prejuízo. O

exemplo de Leonardo mostra-nos quantas outras coisas precisam ser consideradas com relação a

estes processos. O adiamento do amor até o seu pleno conhecimento constitui um processo

artificial que se transforma em uma substituição. De um homem que consegue chegar até o

conhecimento não se poderá dizer que ama ou odeia; situa-se além do amor e do ódio. Terá

pesquisado em vez de amar. E será, talvez, este o motivo pelo qual a vida de Leonardo foi tão

mais pobre de amor do que a de outros grandes homens, e de outros artistas. As tormentosas

paixões de uma natureza, que inspiram e que esgotam, paixões que foram, para outros, fonte das

experiências mais plenas, parecem não o haver atingido.

Existem ainda outras conseqüências. A investigação substituiu a ação e também a criação.

Um homem que começou a vislumbrar a grandeza do universo com todas as suas complexidades

e suas leis, esquece facilmente sua própria insignificância. Perdido de admiração e cheio de

verdadeira humildade, facilmente esquece ser, ele próprio, uma parte dessas forças ativas e que,

de acordo com a medida de sua própria força, terá um caminho aberto diante de si para tentar

alterar uma pequena parcela do curso preestabelecido para o mundo - um mundo em que as

menores coisas são tão importantes e extraordinárias quanto o são as coisas grandiosas.

As pesquisas de Leonardo visavam, originalmente, como acredita Solmi, o interesse de

sua arte; dedicou seus esforços a estudar as particularidades e as leis da luz, das cores, das

sombras e da perspectiva, a fim de tornar-se exímio em suas imitações da natureza e transmitir

aos outros os seus conhecimentos. É provável que nesse tempo ele já superestimava o valor, para

o artista, desses ramos do conhecimento. Sempre seguindo o rumo determinado pelas solicitações

de sua pintura, foi levado a estudar os modelos do pintor, animais e plantas, e as proporções do

corpo humano; e, depois do conhecimento de sua forma exterior, continuou ainda a estudar-lhe a

estrutura interna e as suas funções vitais, coisa que, na verdade, influi também na aparência

externa e merece ser considerada nos trabalhos artísticos. E, finalmente, o instinto, que se tornara

dominante, carregou-o mais longe ainda fazendo-o ultrapassar as limitações da demanda de sua

arte e descobrir as leis gerais da mecânica e adivinhar a história da estratificação e fossilização no

vale do Arno, até chegar ao ponto de poder escrever em seu livro, com letras enormes, a sua

descoberta: Il sole non si move. Suas investigações estenderam-se praticamente a quase todos os

ramos da ciência natural e em cada um ele foi um descobridor ou, pelo menos, um profeta e

pioneiro. No entanto, sua ânsia de conhecimento foi sempre dirigida ao mundo exterior; qualquer

coisa o afastava da investigação da alma humana. Na `Academia Vinciana‟ [ver em [1]], para a

qual desenhou alguns emblemas habilmente entrelaçados, pouco lugar havia para a psicologia.

Depois da pesquisa, quando tentou voltar ao seu ponto de partida, o exercício de sua arte,

sentiu-se perturbado pelo novo rumo de seus interesses e pela mudança na natureza de sua

atividade mental. O que o interessava num quadro era, acima de tudo, um problema; e após o

primeiro via inúmeros outros problemas que surgiam, como costumava acontecer com suas

intermináveis e infatigáveis investigações sobre a natureza. Não conseguia mais limitar suas

exigências, ver a obra de arte isoladamente, separando-a da vasta estrutura da qual sabia que era

parte integrante. Depois de esforços exaustivos para exprimir numa obra de arte tudo o que tinha

em seu pensamento com relação a ela, era forçado a desistir, deixando-a inacabada ou

declarando-a incompleta.

O artista usara o pesquisador para servir à sua arte; agora o servo tornou-se mais forte

que o seu senhor e o dominou.

Quando verificamos que na imagem apresentada pelo caráter de uma pessoa um único

instinto adquiriu uma força exagerada, como aconteceu com a ânsia de conhecimento em

Leonardo, procuramos a explicação numa predisposição especial - embora as suas determinantes

(provavelmente orgânicas) nos sejam ainda praticamente desconhecidas. Nossos estudos

psicanalíticos dos neuróticos levaram-nos, no entanto, a formular mais duas hipóteses que seria

gratificante encontrar confirmadas em cada caso particular. Cremos ser provável que um instinto

como aquele, de força excessiva, já era ativo na primeira infância do indivíduo e que a sua

supremacia foi estabelecida por impressões ocorridas na vida da criança. Admitimos ainda que

este instinto foi reforçado por aquilo que, originariamente, seriam forças sexuais instintivas, de

modo que mais tarde poderia vir a substituir uma parcela da vida sexual do indivíduo. Uma pessoa

desse tipo poderia, por exemplo, dedicar-se à pesquisa com o mesmo ardor com que uma outra se

dedicaria ao seu amor, e seria capaz de investigar em vez de amar. Aventuramo-nos a asseverar

que não será somente no caso do instinto de investigação que terá havido uma intensificação

sexual mas, também, em muitos outros casos em que um instinto se torne sobremodo intenso.

A observação da vida cotidiana das pessoas mostra-nos que a maioria conseguiu orientar

uma boa parte das forças resultantes do instinto sexual para sua atividade profissional. O instinto

sexual presta-se bem a isso, já que é dotado de uma capacidade de sublimação: isto é, tem a

capacidade de substituir seu objetivo imediato por outros desprovidos de caráter sexual e que

possam ser mais altamente valorizados. Aceitamos este processo como verdadeiro sempre que na

história da infância de uma pessoa - isto é, na história de seu desenvolvimento psíquico -

evidenciamos que, na infância, esse instinto poderoso foi usado para satisfazer interesses sexuais.

Constatamos a veracidade deste fato se ocorrer uma atrofia estranha durante a vida sexual da

maturidade, como se uma parcela da atividade sexual houvesse sido agora substituída pela

atividade do impulso dominante.

Parece haver uma dificuldade especial na aplicação dessas hipóteses no caso em que o

instinto todo-poderoso é o de pesquisa, pois que, sobretudo em se tratando de crianças, há

sempre uma relutância em conceder-lhes tanto esse instinto como qualquer interesse sexual que

seja digno de atenção. No entanto, essas dificuldades são facilmente solucionáveis. A curiosidade

das crianças pequenas se manifesta no prazer incansável que sentem em fazer perguntas; isso

deixa o adulto perplexo até vir a compreender que todas essas perguntas não passam de meros

circunlóquios que nunca cessam, pois a criança os está usando em substituição àquela única

pergunta que nunca faz. Quando ela cresce e se sente mais bem informada, essa forma de

curiosidade muitas vezes desaparece repentinamente. A pesquisa psicanalítica oferece-nos a

explicação completa mostrando que a maioria das crianças, ou pelo menos as mais inteligentes,

atravessam um período de pesquisas sexuais infantis. Ao que sabemos, a curiosidade das

crianças nessa idade não é espontânea mas ocasionada pela impressão causada por algum

acontecimento importante - pelo nascimento de um irmãozinho ou irmãzinha ou pelo temor de que

isso aconteça, baseado em outras experiências externas - e que representa para elas uma ameaça

aos seus interesses egoístas. As investigações visam a saber de onde vêm os bebês, exatamente

como se a criança estivesse procurando modos e meios de evitar tão indesejável acontecimento.

Desse modo, temos verificado, com surpresa, que as crianças se negam a aceitar as poucas

informações que se lhes dão - assim, por exemplo, recusam energicamente a fábula da cegonha,

com a sua riqueza de significados mitológicos - iniciando sua independência intelectual com esse

ato de incredulidade, sentindo-se muitas vezes em franco antagonismo com os adultos e, de fato,

jamais lhe perdoam por tê-las decepcionado naquela ocasião omitindo os fatos reais. Elas

investigam por conta própria, adivinham a presença do bebê dentro do corpo de sua mãe e,

seguindo os impulsos de sua própria sexualidade, teorizam tudo: a origem do bebê, atribuindo-a à

comida; o seu nascimento, explicando-o pelas vias intestinais, e sobre a parte obscura que cabe

ao pai. Naquela ocasião, já têm uma noção do ato sexual, que lhes parece ser alguma coisa hostil

e violenta. Mas como a sua própria constituição sexual ainda não atingiu o ponto de poder fazer

bebês, sua investigação sobre o problema da origem dos bebês acaba também sem solução

sendo finalmente abandonada. A impressão causada por esse fracasso em sua primeira tentativa

de independência intelectual parece ser de caráter duradouro e profundamente depressivo.

Quando o período de pesquisa sexual infantil chega a um final após um período de

enérgica repressão sexual, o impulso de pesquisa terá três possíveis diferentes vicissitudes,

resultantes de sua relação primitiva com interesses sexuais. No primeiro caso, a pesquisa participa

do destino da sexualidade; portanto, a curiosidade permanecerá inibida e a liberdade da atividade

intelectual poderá ficar limitada durante todo o decorrer de sua vida, sobretudo porque, logo a

seguir, a influência da educação acarretará uma intensa inibição religiosa do pensamento. Este é o

tipo caracterizado por uma inibição neurótica. Bem sabemos que o enfraquecimento intelectual

adquirido nesse processo representa um fator efetivo na irrupção de uma enfermidade neurótica.

Num segundo tipo, o desenvolvimento intelectual é suficientemente forte para resistir à repressão

sexual que o domina. Algum tempo após o término das pesquisas sexuais infantis, a inteligência,

tendo se tornado mais forte, recorda a antiga associação e ajuda a evitar a repressão sexual, e as

suprimidas atividades sexuais de pesquisa emergem do inconsciente sob a forma de uma

preocupação pesquisadora compulsiva, naturalmente sob uma forma distorcida e não-livre, mas

suficientemente forte para sexualizar o próprio pensamento e colorir as operações intelectuais, com

o prazer e a ansiedade característicos dos processos sexuais. Neste caso, a pesquisa torna-se

uma atividade sexual, muitas vezes a única, e o sentimento que advém da intelectualização e

explicação das coisas substitui a satisfação sexual; mas o caráter interminável das pesquisas

infantis é também repetido no fato de que tal preocupação nunca termina e que o sentimento

intelectual, tão desejado, de alcançar uma solução, torna-se cada vez mais distante.

Devido a uma predisposição especial, o terceiro tipo, que é o mais raro e mais perfeito,

escapa tanto à inibição do pensamento quanto ao pensamento neurótico compulsivo. É verdade

que nele também existe a repressão sexual, mas ela não consegue relegar para o inconsciente

nenhum componente instintivo do desejo sexual. Em vez disso, a libido escapa ao destino da

repressão sendo sublimada desde o começo em curiosidade e ligando-se ao poderoso instinto de

pesquisa como forma de se fortalecer. Também nesse caso a pesquisa torna-se, até certo ponto,

compulsiva e funciona como substitutivo para a atividade sexual; mas, devido à total diferença nos

processos psicológicos subjacentes (sublimação ao invés de um retorno do inconsciente), a

qualidade neurótica está ausente; não há ligação com os complexos originais da pesquisa sexual

infantil e o instinto pode agir livremente a serviço do interesse intelectual. A repressão sexual, que

tornou o instinto tão forte ao acrescentar-lhe libido sublimada, ainda influencia o instinto, no sentido

de fazê-lo evitar qualquer preocupação com temas sexuais.

Se refletirmos acerca da ocorrência, em Leonardo, desse poderoso instinto de pesquisa e

a atrofia de sua vida sexual (restrita ao que poderíamos chamar de homossexualidade ideal

[sublimada]), sentir-nos-emos inclinados a proclamá-lo um modelo ideal do nosso terceiro tipo. A

essência e o segredo de sua natureza parecem derivar do fato que, depois de sua curiosidade ter

sido ativada, na infância, a serviço de interesses sexuais, conseguiu sublimar a maior parte da sua

libido em sua ânsia pela pesquisa. Mas, por certo, não será fácil provar a verdade dessa hipótese.

Para fazê-lo, necessitaríamos conhecer alguns pormenores sobre seu desenvolvimento mental

durante os primeiros anos de sua infância, e parece absurdo desejar dados dessa natureza

quando os pormenores sobre sua vida são tão escassos e tão inseguros, e ainda mais por tratarem

de informações sobre circunstâncias que ainda hoje escapam à atenção dos observadores, mesmo

em se tratando de pessoas de nossa geração.

Sobre a juventude de Leonardo sabemos muito pouco. Nasceu em 1452 na cidadezinha de

Vinci, entre Florença e Empoli; era filho ilegítimo, o que naqueles dias certamente não constituía

estima social muito grave; seu pai era Ser Piero da Vinci, um tabelião que descendia de uma

família de tabeliães e de fazendeiros que tiraram seu sobrenome da localidade de Vinci; sua mãe

foi uma tal Caterina, provavelmente uma camponesa, que mais tarde se casou com outro

compatrício de Vinci. Esta mãe não volta a aparecer na história da vida de Leonardo e somente

Merezhkovsky, o escritor, acreditou ter encontrado vestígios seus. O único fragmento de

informação precisa sobre a infância de Leonardo aparece num documento oficial do ano de 1457;

trata-se de um registro de terras, em Florença, para taxação de impostos e que, entre os

componentes da família Vinci, menciona Leonardo, de cinco anos de idade e filho ilegítimo de Ser

Piero. Do casamento de Ser Piero com uma tal Donna Albiera não houve filhos, o que tornou

possível educar o pequeno Leonardo na casa de seu pai. Permaneceu nesta casa até entrar para

o estúdio de Andrea del Verrocchio, como aprendiz, não sabemos com que idade. No ano de 1472,

o nome de Leonardo já se encontrava na lista dos membros da `Compagnia dei Pittori„. E isso é

tudo.

II

Ao que eu saiba, existe apenas um trecho nos apontamentos científicos de Leonardo em

que ele insere um fragmento de informação sobre sua infância. Numa passagem acerca do vôo

dos abutres ele se interrompe subitamente para descrever uma recordação de sua tenra infância,

que lhe veio à memória:

`Parece que já era meu destino preocupar-me tão profundamente com abutres; pois

guardo como uma das minhas primeiras recordações que, estando em meu berço, um abutre

desceu sobre mim, abriu-me a boca com sua cauda e com ela fustigou-me repetidas vezes os

lábios.‟

O que encontramos aqui é, portanto, uma recordação de infância, e sem dúvida de

natureza bem estranha. Não só estranha pelo que conta como pela idade a que se refere. Que

uma pessoa possa lembrar-se de alguma coisa da época de sua amamentação talvez não seja

impossível, porém essa recordação não poderá, certamente, ser considerada real. No entanto, o

que a memória de Leonardo afirma - que um abutre abriu a boca da criança com sua cauda -

parece tão pouco provável e tão fabuloso, que uma outra hipótese seria talvez mais cabível e poria

um fim às duas dificuldades antes mencionadas. Nessa outra versão, a cena do abutre não seria

uma recordação de Leonardo, porém uma fantasia que ele criou mais tarde transpondo-a para sua

infância.

É deste modo que muitas vezes se originam as lembranças da infância. Muito diferentes

das lembranças conscientes da idade adulta, elas não se fixam no momento da experiência para

mais tarde serem repetidas; somente surgem muito mais tarde, quando a infância já acabou; nesse

processo, sofrem alterações e falsificações de acordo com os interesses de tendências ulteriores,

de maneira que, de um modo geral, não poderão ser claramente diferençadas de fantasias. Talvez

se possa melhor explica-lhes a natureza comparando-as com o começo da crônica histórica entre

os povos da antiguidade. Enquanto as nações eram pequenas e fracas, não cuidavam de escrever

a sua história. Os homens lavravam suas terras, lutavam com seus vizinhos defendendo sua

sobrevivência e procuravam conquistar mais território e riquezas. Foi uma época de heróis e não

de historiadores. Seguiu-se outra época - a da reflexão; os homens sentiram-se ricos e poderosos

e agora sentiam uma necessidade de saber de onde tinham vindo e como haviam evoluído. Os

relatos históricos, que começaram por anotar os sucesso do presente, voltam-se então para o

passado recolhendo lendas e tradições, interpretando os vestígios da antiguidade que subsistiam

ainda em costumes e usos, e dessa maneira criou-se uma história do passado. Era inevitável que

essa história primitiva fosse a expressão das crenças e desejos do presente, e não a imagem

verdadeira do passado; muitas coisas já haviam sido esquecidas enquanto outras haviam sido

destorcidas e alguns remanescentes do passado eram interpretados erradamente, de modo a

corresponderem às idéias contemporâneas. Além do mais, o motivo que levava as pessoas a

escreverem história não era uma curiosidade objetiva mas sim o desejo de influenciar seus

contemporâneos, de animá-los e inspirá-los, ou mostrar-lhes um exemplo onde mirar-se. A

memória consciente do homem com relação aos acontecimentos do seu período de madureza

pode bem ser comparada ao tipo primitivo de relatos da história [uma crônica dos acontecimentos

da época]; enquanto as lembranças que ele tem de sua infância correspondem, quanto às suas

origens e credibilidade, à história das origens de uma nação compilada mais tarde e sob

influências tendenciosas.

Portanto, se a história de Leonardo a respeito do abutre que o visitou no berço houver sido

apenas uma fantasia de uma época posterior, poderíamos concluir não valer a pena dedicar-lhe

tanto tempo. Poderíamos satisfazer-nos em explicá-la a partir da tendência, que ele próprio não

esconde, de considerar a sua preocupação com o vôo dos pássaros como sendo uma fatalidade

de seu destino. No entanto, menosprezando essa história cometeríamos uma injustiça tão grande

como faríamos se desprezássemos o conjunto de lendas, tradições e interpretações encontradas

na história primitiva de uma nação. A despeito de todas as distorções e mal-entendidos elas ainda

representam a realidade do passado: representam aquilo que um povo constrói com a experiência

de seus tempos primitivos e sob a influência de motivos que, poderosos em épocas passadas,

ainda se fazem sentir na atualidade; e, se fosse possível, através do conhecimento de todas as

forças atuantes, desfazer essas distorções, não haveria dificuldade em desvendar a verdade

histórica que se esconde atrás do acervo lendário. Isto se aplica também às lembranças da

infância ou às fantasias do indivíduo. O que alguém crê lembrar da infância não pode ser

considerado com indiferença; como regra geral, os restos de recordações - que ele próprio não

compreende - encobrem valiosos testemunhos dos traços mais importantes de seu

desenvolvimento mental. Como hoje contamos nas técnicas da psicanálise com excelentes

métodos que nos ajudam a trazer para a superfície esses elementos ocultos, podemos tentar

preencher a lacuna que existe na história da vida de Leonardo analisando a sua fantasia infantil. E

se ao fazê-lo não ficarmos satisfeitos com o grau de certeza que alcançamos, teremos de

consolar-nos lembrando que inúmeros outros estudos sobre esse grande e enigmático homem não

tiveram melhor destino.

Se a examinarmos do ponto de vista de um psicanalista, a fantasia de Leonardo acerca do

abutre não nos parecerá mais tão estranha. Verificaremos já ter encontrado casos semelhantes em

muitas situações diferentes, em sonhos, por exemplo. Aventuramo-nos, assim, a traduzir a

linguagem da fantasia em palavras mais facilmente compreensíveis. A tradução nos revelará então

um conteúdo erótico. A cauda, `coda„, é um dos símbolos mais familiares e substitui expressões

referentes ao órgão masculino, tanto em italiano como em outras línguas; a situação, na fantasia,

de um abutre abrindo a boca da criança e fustigando-a vigorosamente por dentro com a sua cauda,

corresponde à idéia de um ato de fellatio, um ato sexual no qual o pênis é introduzido na boca da

pessoa envolvida. É estranho que essa fantasia represente uma situação de caráter tão

evidentemente passivo; parece-se com certos sonhos e fantasias encontradas em mulheres ou em

homossexuais passivos (que desempenham o papel da mulher nas relações sexuais).

Espero que o leitor não se deixe dominar por um sentimento de indignação que o impeça

de seguir a psicanálise ao verificar que em sua primitiva aplicação infere uma imperdoável ofensa à

memória de um homem grande e puro. Evidentemente tal indignação jamais nos fará conhecer o

significado da fantasia de infância de Leonardo. Por sua vez, Leonardo descreveu a fantasia da

maneira mais inequívoca e nós não podemos abandonar nossa esperança, ou, melhor ainda,

nossa certeza, de que uma fantasia dessa natureza terá de ter algum significado, da mesma forma

que qualquer outra criação psíquica: um sonho, uma visão, um delírio. Vamos, portanto, dar uma

oportunidade ao trabalho da análise, que na verdade ainda não disse sua última palavra.

A tendência a botar o órgão sexual masculino na boca e a chupá-lo, o que numa sociedade

respeitável é considerado uma perversão sexual horrível, encontra-se, no entanto, com muita

freqüência entre as mulheres de hoje - e de outros tempos também, como o evidenciam esculturas

da antiguidade - e no ardor da paixão isso parece perder completamente o seu caráter repulsivo.

Fantasias derivadas dessa tendência têm sido encontradas pelos médicos até mesmo em

mulheres que nunca leram a Psychopathia Sexualis de Krafft-Ebing ou outra qualquer fonte de

informação que lhes mostrasse a possibilidade de obter satisfação sexual desse modo. Parece que

as mulheres não sentem dificuldade em imaginar espontaneamente uma fantasia dessa natureza.

Novas pesquisas levam-nos a verificar que essa situação, que a moral condena com tanta

severidade, pode ser reduzida a uma origem das mais inocentes. Ela não faz senão reproduzir, de

modo diferente, uma situação em que todos nós já nos sentimos confortáveis - quando ainda

mamávamos (`essendo io in culla„) e púnhamos em nossa boca o bico do seio de nossa mãe (ou

ama-de-leite) e o sugávamos. A impressão orgânica dessa experiência - a primeira fonte de prazer

em nossa vida - permanece, sem dúvida, indelevelmente marcada em nós; e quando mais tarde a

criança descobre o úbere da vaca, cuja função é a mesma que a do seio porém que mais se

assemelha a um pênis pela sua forma sua posição em baixo da barriga, terá atingido a fase

preliminar que mais tarde lhe permitirá formular a fantasia sexual repulsiva.

Compreendemos então porque Leonardo veio a associar a lembrança de sua suposta

experiência do abutre com a sua época de lactância. O que a fantasia encerra é meramente uma

reminiscência do ato de sugar - ou ser sugado - o seio de sua mãe, uma cena de humana beleza

que ele, como tantos outros artistas, esmerou-se em reproduzir em seus quadros ao representar a

mãe de Deus e seu Menino. Existe, também, um outro aspecto que ainda não compreendemos e

que não devemos perder de vista; essa recordação igualmente importante para ambos os sexos,

foi transformada, pelo homem Leonardo, numa fantasia homossexual passiva. Por enquanto

deixaremos de lado a relação que possa ter a homossexualidade com a imagem da criança

mamando no seio da mãe, lembrando-nos, apenas, que a tradição, na verdade, sempre apontou

Leonardo como sendo um homem de sentimentos homossexuais. Neste sentido não tem muita

importância para o nosso estudo saber se era justificada, ou não, a acusação feita ao jovem

Leonardo (ver a partir de [1]). O que nos leva a classificar alguém como sendo um invertido não é o

seu comportamento real porém a sua atitude emocional.

O nosso interesse é despertado, a seguir, por outra faceta incompreensível da fantasia

infantil de Leonardo. Interpretamos a fantasia como o ato de ser amamentado por sua mãe e

vemos a mãe ser substituída por um abutre. De onde veio esse abutre e por que motivo aparece

nesse lugar?

Neste ponto surge em nossa mente um pensamento vindo de tão longe que somos quase

tentados a pô-lo de lado. Nos hieróglifos do antigo Egito a mãe era representada pela imagem de

um abutre. Os egípcios veneravam também uma Deusa-Mãe que era representada com cabeça de

abutre ou, então, com várias cabeças, das quais pelo menos uma era de abutre. O nome dessa

deusa era pronunciado Mut. Será que a sua semelhança com a nossa palavra Mutter [mãe] é mera

coincidência? Existe, portanto, uma relação real entre abutre e mãe - mas em que é que isto nos

pode ajudar? Não podemos esperar que Leonardo tivesse tido conhecimento disto pois sabemos

que o primeiro homem que conseguiu decifrar os hieróglifos foi François Champollion, que viveu

entre 1790-1832.

Seria interessante procurar saber por que motivo os antigos egípcios vieram a escolher o

abutre como símbolo da maternidade. A religião e a civilização dos egípcios sempre constituiu

objeto de curiosidade científica, até mesmo entre os gregos e romanos; e mesmo antes de

podermos decifrar os monumentos egípcios, dispúnhamos já de muitos elementos de informação

sobre eles, tirados dos escritos remanescentes da antiguidade clássica. Alguns desses escritos

eram de autores bastante conhecidos, tais como Estrabão, Plutarco e Amiano Marcelino; ao passo

que outros são de autores pouco conhecidos e duvidosos quanto às suas origens e datas de

composição, tal como a Hieroglyphica de Horapollo Nilous e o livro da sabedoria sacerdotal

oriental, que chegou até nós sob o nome do deus Hermes Trismegistos. Por essas fontes ficamos

sabendo que o abutre era considerado um símbolo da maternidade, pois acreditavam que somente

havia abutres do sexo feminino; não havia, pensavam eles, machos nessa espécie. Uma

contraparte dessa limitação a um único sexo existia também na história natural da antiguidade:

neste caso, referia-se ao escaravelho, que os egípcios adoravam como divino e do qual julgavam

existir somente machos.

Portanto, como poderiam os abutres ser fertilizados se não existiam senão fêmeas? Isto se

encontra claramente explicado num trecho de Horapollo. Em certa época essas aves se detêm em

meio ao vôo, abrem a sua vagina e são fecundados pelo vento.

Chegamos agora, inesperadamente, a um ponto em que podemos considerar assaz

provável aquilo que pouco antes tínhamos de recusar como absurdo. É bem possível que

Leonardo conhecesse a fábula científica responsável por ser a figura do abutre usada pelos

egípcios para representar a idéia de mãe. Ele lia muito e o seu interesse estendia-se a todos os

ramos da literatura e do saber. No Codex Atlanticus encontramos um catálogo de todos os livros

que possuía em determinada data e, além disso, conhecemos muitas anotações suas em livros

emprestados por amigos; e, se considerarmos o extrato de seus apontamentos feitos por Richter

[1883], veremos que a extensão de suas leituras dificilmente será superestimada. Obras antigas

sobre história natural figuram em grande número ao lado de livros contemporâneos; e, já naquela

época, todos eles tinham sido impressos. Na verdade, Milão era a cidade italiana líder na nova arte

de imprimir.

Mais adiante chegamos a uma fone de informação que poderá transformar em certeza a

hipótese de ter Leonardo conhecimento da lenda do abutre. O culto editor e comentador de

Horapollo escreveu a seguinte nota no texto já mencionado acima [Leemans, 1835, 172]:

`Caeterum hanc fabulam de vulturibus cupide amplexi sunt Patres Ecclesiastici, ut ita argumento ex

rerum natura petito refutarent eos, qui Virginis partum negabant; itaque apud omnes fere hujus rei

mentio occurrit.‟

Assim, portanto, a fábula sobre o sexo único dos abutres e sobre seu modo de fecundação

estava longe de ser apenas uma anedota, como o caso análogo do escaravelho; tinha sido

adotada pelos Padres da Igreja a fim de ser usada como um exemplo tirano da história natural e

servir de prova para os que pusessem em dúvida a história sagrada. Se os abutres, segundo os

melhores testemunhos da antiguidade, dependiam do vento para serem fertilizados, por que não

teria, alguma vez, acontecido a mesma coisa com uma mulher? Já que a fábula do abutre podia

ser usada para este fim, `quase todos‟ os Padres da Igreja passaram a narrá-la e, portanto, será

quase impossível duvidar que Leonardo também a conhecesse, considerando-se o fato de a sua

divulgação ter sido feita por meio de tão amplo patrocínio.

Podemos, assim, reconstituir a origem da fantasia de Leonardo com o abutre. Ele

provavelmente teria lido em algum compêndio de história natural ou num livro de algum Padre a

afirmação de que todos os abutres eram fêmeas e podiam reproduzir-se sem ajuda de qualquer

macho; nessa altura ocorreu-lhe uma lembrança que se transformou na fantasia que estamos

analisando mas que, na verdade, significava que ele também havia sido uma tal cria de abutre -

tinha mãe mas não tinha pai. E essa lembrança se associava - na única maneira que impressões

de idade tão distante se podem manifestar - com a reminiscência que podia subsistir do prazer que

teria sentido sugando o seio de sua mãe. A insinuação feita pelos Padres da Igreja relativamente à

Virgem Sagrada e seu filho - idéia essa cara a todos os artistas - deve ter influído para valorizar

sua fantasia e torná-la ainda mais importante. Deste modo podia identificar-se, ele próprio, com o

Menino Jesus, o salvador e consolador de todos, e não de uma única mulher.

O nosso objetivo ao analisar uma fantasia da infância é o de separar o elemento mnênico

real que ela contém dos motivos posteriores que o modificam e distorcem. No caso de Leonardo,

acreditamos conhecer agora o significado real da fantasia: a substituição de sua mãe pelo abutre

indica que a criança tinha conhecimento da ausência do pai e se sentia solitário junto à sua mãe. O

nascimento ilegítimo de Leonardo concorda com a sua fantasia sobre o abutre; somente debaixo

desse aspecto poderia comparar-se a um filhote de abutre. Depois disso, o que de verdadeiro

sabemos de sua infância é que, aos cinco anos, ele tinha sido recebido já em casa de seu pai. Não

temos, no entanto, a menor indicação de quando isto aconteceu - se foi poucos meses após seu

nascimento ou poucas semanas antes de ser feito o levantamento para o registro territorial [ver em

[1]]. É nesse ponto que a interpretação da fantasia do abutre interfere: ela parece querer

contar-nos que Leonardo passou os primeiros e decisivos anos de sua vida, não ao lado do pai ou

da madrasta, mas sim com a sua verdadeira mãe, pobre e abandonada, e assim teve tempo de

sentir a ausência de seu pai. Embora ousada, esta conclusão parece ser por demais insignificante

para ser apresentada como resultado de nossos estudos psicanalíticos, porém a sua importância

aumentará à medida que continuarmos a nossa investigação. A sua veracidade é confirmada

quando consideramos as circunstâncias que de fato rodearam a infância de Leonardo. No mesmo

ano em que Leonardo nasceu, segundo as fontes oficiais, seu pai, Ser Piero da Vinci, casou-se

com Donna Albiera, senhora de boa origem. Foi devido à esterilidade desse casamento que o

menino foi recebido em casa de seu pai (ou melhor, em casa de seu avô) - coisa que havia

acontecido quando ele se encontrava pelos cinco anos, segundo atesta o documento. Ora, não é

comum logo no princípio de um casamento trazer um filho ilegítimo para ser cuidado pela jovem

esposa, que ainda espera ser afortunada com o nascimento de seus próprios filhos. Muitos anos

de frustração terão certamente decorrido antes da decisão de adoção do filho ilegítimo - que

provavelmente já se havia tornado um garoto interessante - para compensar a ausência dos filhos

legítimos desejados. A interpretação da fantasia do abutre tornar-se-ia mais fácil se houvessem

decorrido uns três anos da vida de Leonardo, talvez mesmo cinco, antes que ele pudesse trocar a

figura solitária de sua mãe por uma parelha parental. Já era tarde, no entanto. Nos primeiros três

ou quatro anos da vida certas impressões tornam-se fixadas e as formas de reação para com o

mundo exterior ficam estabelecidas, e nunca mais perderão a sua importância por meio de outras

experiências posteriores.

Se é verdade que as lembranças ininteligíveis da infância de uma pessoa, as fantasias que

delas resultam, invariavelmente gravam os elementos mais importantes do desenvolvimento

mental, segue-se, então, que o fato confirmado pela fantasia do abutre, isto é, que Leonardo

passou os primeiros anos de sua vida sozinho com sua mãe, terá exercido influência decisiva na

formação de sua vida interior. Uma conseqüência inevitável dessa situação foi que a criança - que

em sua tenra infância enfrentou um problema a mais do que as outras crianças - começou a

pensar nesse enigma com uma intensidade toda especial, e, assim, numa tenra idade tornou-se

um pesquisador atormentado pela grande pergunta - saber de onde vêm os bebês e o que tem a

ver o pai com sua origem. Foi uma vaga suspeita de que suas pesquisas e a história de sua

infância estivessem assim ligadas que o fez mais tarde, declarar que tinha sido destinado, desde o

começo de sua vida, a investigar o problema do vôo das aves, já que havia sido visitado por um

abutre, quando em seu berço. Mais tarde, não será difícil mostrar que sua curiosidade acerca do

vôo das aves deriva das pesquisas sexuais da sua infância.

III

Na fantasia infantil de Leonardo tomamos o elemento abutre como representante do

conteúdo real de sua lembrança, ao passo que o contexto em que o próprio Leonardo coloca sua

fantasia esclarece muito a importância que teve esse conteúdo para sua vida posterior.

Continuando com o nosso trabalho de interpretação, chegamos agora ao estranho problema de

saber por que motivo esse conteúdo foi transformado em uma situação homossexual. A mãe que

amamenta a criança, isto é, em cujo seio a criança mama, foi transformada num abutre que põe a

sua cauda dentro da boca da criança. Já tivemos ocasião de mostrar [ver em [1]] que, de acordo

com as freqüentes substituições de que se serve a linguagem, a `cauda„ do abutre deve, com toda

certeza, significar o genital masculino, um pênis. Mas não podemos compreender como a atividade

imaginativa pode ter atribuído justamente a esse pássaro, que representa a mãe, as características

da masculinidade; diante desse absurdo ficamos sem saber como reduzir esta criação da fantasia

de Leonardo a qualquer significado racional.

No entanto não devemos perder a esperança, sobretudo quando nos lembramos do

número enorme de sonhos, aparentemente absurdos, cujo significado já conseguimos desvendar.

Existe alguma razão para que uma lembrança da infância nos ofereça maiores dificuldades do que

um sonho?

Recordando que não convém analisar uma característica peculiar isoladamente,

apressamo-nos em trazer uma outra que nos parece ainda mais estranha.

A deusa egípcia Mut, que tinha cabeça de abutre, figura sem nenhuma característica

pessoal, segundo o artigo de Drexler no léxico de Roscher, fundia-se freqüentemente com outras

deusas de personalidade mais marcante, tais como Ísis e Hathor, porém conservou, ao mesmo

tempo, separados, sua existência e seu culto. Uma característica especial do panteão egípcio era

que os deuses individuais não desapareciam quando ocorria um processo de sincretismo. Ao

mesmo tempo que sucedia a fusão dos deuses, as divindades individuais continuavam a sua

existência independente. Ora, essa deusa-mãe com cabeça de abutre era geralmente

representada pelos egípcios com um falo; seu corpo era de mulher, conforme mostram os seus

seios, mas possuía também um membro masculino em ereção. Encontramos, portanto, na deusa

Mut a mesma combinação de características maternais e masculinas que existem na fantasia de

Leonardo sobre o abutre. Deveremos explicar esta coincidência afirmando que Leonardo tomou

conhecimento, através da leitura de seus livros [ver em [1]] da natureza andrógina do abutre

maternal? Uma tal possibilidade é assaz duvidosa; parece que as fontes às quais tinha acesso não

continham nenhuma informação sobre este notável pormenor. Parece mais plausível buscar a

explicação dessa coincidência num fator comum operativo, válido para ambos os casos mas

desconhecidos para nós até este momento.

A mitologia nos ensina que a constituição andrógina, isto é, uma combinação das

características masculinas e femininas, era atributo não só de Mut mas também de outras

divindades, tais como Ísis e Hathor - estes, no entanto, talvez pelo fato de possuírem também uma

natureza maternal e se confundirem com Mut (Römer, 1903). Ensina-nos, mais, que outras

divindades egípcias tais como Neith de Saís - de quem se originou, mais tarde, a Atenéia dos

gregos - foram originariamente representadas como andróginas, isto é, como hermafroditas, e que

o mesmo se dava com muitos dos deuses gregos, especialmente aqueles que eram associados a

Dionísio mas também a Afrodite, que mais tarde se limitou a representar uma deusa feminina do

amor. A mitologia explica que o acréscimo de um falo ao corpo feminino é uma representação da

força primitiva criadora da natureza, e que todas essas divindades hermafroditas são expressões

da idéia de que somente a combinação dos elementos masculino e feminino poderão de fato

simbolizar a perfeição divina. Mas nenhuma dessas considerações nos explica o fato psicológico

tão estranho de a imaginação humana não vacilar em emprestar a uma imagem que pretende

essencialmente representar a mãe um atributo da potência masculina que representa exatamente

o oposto de qualquer idéia maternal.

As teorias sexuais infantis explicam-nos isso. Existe uma época em que o genital

masculino é compatível com a imagem da mãe. Quando um menino começa a ter curiosidade

pelos enigmas da vida sexual, fica dominado pelo interesse que tem pelo seu próprio genital.

Passa a considerar essa parte de seu corpo valiosa e importantíssima para ele e crê que ela deve

existir nas outras pessoas com as quais ele se acha parecido. Como não pode adivinhar a

existência de outra conformação genital igualmente importante, é forçado a forjar a hipótese de

que todos os seres humanos, tanto os homens quanto as mulheres, possuem um pênis igual ao

seu. Este preconceito se torna de tal maneira imbuído no investigador infantil que não desaparece

nem mesmo quando, pela primeira vez, chega a observar o genital das meninas. Sua percepção

mostra-lhe que há alguma coisa diferente do que ele possui mas é incapaz de admitir que o

conteúdo de sua percepção é que ele não pode encontrar um pênis nas meninas. A sua falta

parece-lhe uma coisa sinistra e intolerável e procurando uma solução de compromisso chega à

conclusão de que as meninas também possuem um pênis, somente que é ainda muito pequeno; e

que, depois, ele crescerá. Mais tarde, quando percebe que isso não acontece, encontra outra

explicação: as meninas também tinham um pênis, mas ele foi cortado e em seu lugar ficou apenas

uma ferida. Este avanço teórico já implica experiências pessoais de caráter penoso: nesse

intervalo o menino já terá ouvido ameaças de lhe cortarem o órgão que tanto preza, caso venha a

demonstrar um interesse demasiadamente ostensivo por ele. Sob a influência dessa ameaça de

castração, ele agora interpreta de modo diferente o conhecimento adquirido sobre os genitais

femininos; daí em diante receará por sua masculinidade e, ao mesmo tempo, menosprezará as

infelizes criaturas que já receberam o cruel castigo, conforme ele presume.

Antes de a criança ser dominada pelo complexo de castração - isto é, numa época em que

a mulher ainda conserva para ela todo o seu valor - ela começa a exteriorizar um intenso desejo

visual, como atividade erótica instintiva. Quer ver os genitais de outras pessoas, a princípio

provavelmente para compará-lo com o seu próprio. A atração erótica que sente por sua mãe logo

se transforma em um desejo pelo seu órgão genital, que supõe ser um pênis. Com a descoberta

que fará, mais tarde, de que as mulheres não possuem pênis, este desejo muitas vezes se

transforma no seu oposto, dando origem a um sentimento de repulsa que, na época da puberdade,

poderá ser a causa de impotência psíquica, misoginia e homossexualidade permanente. Porém a

fixação no objeto antes tão intensamente desejado, o pênis da mulher, deixa traços indeléveis na

vida mental da criança, quando esta fase de sua investigação sexual infantil foi particularmente

intensa. Um culto fetichista cujo objeto é o pé ou calçado feminino parece tomar o pé como mero

símbolo substitutivo do pênis da mulher, outrora tão reverenciado e depois perdido. Sem o saber,

os `coupeurs de nattes„ desempenham o papel de pessoas que executam um ato de castração

sobre o órgão genital feminino.

Enquanto as pessoas se mantiverem na atitude ditada pela nossa civilização de desprezo

pelos órgãos genitais e pelas funções sexuais, não poderão absolutamente compreender as

atividades da sexualidade infantil e provavelmente fugirão ao assunto afirmado ser incrível o que

aqui dissemos. Para compreender a vida mental das crianças necessitamos recorrer a analogias

encontradas nos tempos primitivos. Para nós, durante muitas gerações os genitais foram sempre

as partes `pudendas„, motivo de vergonha e até mesmo (devido a posterior repressão sexual bem

sucedida) de repugnância. Se fizermos um histórico extenso da vida sexual de nossa época e

sobretudo das classes que são o sustentáculo da civilização humana, seremos tentados a declarar

que é a contragosto que a maioria daqueles que vivem nos dias de hoje obedecem à lei de

propagar a espécie; sentem-se, nesse processo, diminuídos em sua dignidade humana. Entre nós,

somente a classe menos culta de nossa sociedade difere desse ponto de vista sobre a vida sexual.

Para a classe mais alta e refinada, ela constitui uma coisa que se oculta, desde que é considerada

culturalmente inferior, e quando se permitem dar-lhe vazão, fazem-no contra a sua consciência.

Nos tempos primitivos da raça humana, a concepção era diferente. Dados trabalhosamente

compilados por estudiosos da civilização apresentam testemunho irrefutável de que primitivamente

os genitais eram o orgulho e a esperança dos seres humanos; eram adorados como deuses e

transmitiam a essência divina de suas funções a todas as novas atividades humanas. Como

resultado da sublimação de sua natureza básica criaram-se inúmeras divindades: e quando a

conexão entre a religião oficial e a atividade sexual se tornou oculta da consciência geral, cultos

secretos se dedicavam a conservá-la viva entre um certo número de iniciados. Durante o decurso

do desenvolvimento cultural tanta coisa divina e sagrada foi, em última essência, extraída da

sexualidade, que o remanescente, quase esgotado, foi desprezado. Mas, dado o caráter indelével

de todos os processos mentais, não é de admirar que mesmo as formas mais primitivas do culto

genital existissem até bem pouco tempo e que a linguagem, os costumes e as superstições da

humanidade de hoje contenham ainda remanescentes de todas as fases deste processo de

desenvolvimento.

Notáveis analogias biológicas levam-nos a descobrir que o desenvolvimento mental do

indivíduo repete, de modo abreviado, o processo do desenvolvimento humano; e as conclusões a

que chegaram as pesquisas psicanalíticas acerca da mente infantil, referentes à importância

concedida aos genitais na infância, não são tão inverossímeis. A hipótese infantil de que sua mãe

tem um pênis será, portanto, a origem comum de que derivam tanto a mãe-deusa andrógina como

a Mut egípcia, e a `coda„ do abutre na fantasia infantil de Leonardo. Na verdade, ao classificar de

hermafroditas, no sentido médico, essas representações de deuses, cometemos realmente uma

impropriedade. Em nenhuma delas existe realmente a combinação dos genitais dos dois sexos -

uma combinação que se observa em algumas malformações e que constituem uma deformação

repulsiva; a única coisa que acontecia era que o órgão masculino era acrescentado as seios, que

são a característica da mãe, como se dá também na representação infantil do corpo materno. Esta

forma do corpo materno, criação reverenciada da fantasia primitiva, foi conservada fielmente pela

mitologia. Podemos apresentar agora a seguinte interpretação da ênfase dada à cauda do abutre

na fantasia de Leonardo: `Isso foi numa época em que a minha curiosidade afetuosa era toda

dirigida à minha mãe, e que eu pensava ter ela um órgão genital igual ao meu.‟ Constitui mais uma

evidência das precoces pesquisas sexuais de Leonardo que, em nossa opinião, tiveram influência

decisiva sobre toda a sua vida futura.

Neste ponto, um pouco de reflexão mostrará que não nos satisfaz ainda o modo pelo qual

foi explicada a cauda do abutre na fantasia infantil de Leonardo. Parece haver nela alguma coisa

mais que não conseguimos ainda compreender. A mais notável de todas elas foi ter sido

transformado o ato de mamar no seio materno em ser amamentado, isto é, em passividade,

portanto, numa situação cuja natureza é indubitavelmente homossexual. Quando nos lembramos

da probabilidade histórica de Leonardo ter-se comportado em sua vida como uma pessoa

emocionalmente homossexual, ocorre-nos perguntar se esta fantasia não indicaria a existência de

uma relação causal entre as relações infantis de Leonardo com a mãe e sua posterior

homossexualidade manifesta, ainda que ideal [sublimada]. Não nos atreveríamos a inferir qualquer

conexão dessa natureza da reminiscência confusa de Leonardo se não soubéssemos, pelos

estudos psicanalíticos de pacientes homossexuais, que tal ligação existe de fato e é, na verdade,

condição intrínseca e necessária.

Os homossexuais, que em nossos dias se têm defendido energicamente das restrições

impostas por lei às suas atividades sexuais, gostam de ser apresentados, por intermédio de seus

teóricos defensores, como pertencendo a uma espécie diferente, como um estágio sexual

intermediário ou como um `terceiro sexo.‟ Eles se declaram homens inatamente compelidos, por

disposições orgânicas, a achar prazer com outros homens, o que não conseguem com mulheres.

Por maior que seja a nossa vontade, por motivos humanitários, de acatar suas declarações,

devemos analisar as suas teorias com reservas, pois foram feitas sem levar em conta a gênese

psíquica da homossexualidade. A psicanálise oferece meios para preencher essa lacuna e para

testar as afirmativas dos homossexuais. Embora só tenha conseguido colher dados de um número

reduzido de pessoas, todas as investigações empreendidas até agora produziram o mesmo

resultado surpreendente. Em todos os nossos casos de homossexuais masculinos, os indivíduos

haviam tido uma ligação erótica muito intensa com uma mulher, geralmente sua mãe, durante o

primeiro período de sua infância, esquecendo depois esse fato; essa ligação havia sido despertada

ou encorajada por demasiada ternura por parte da própria mãe, e reforçada posteriormente pelo

papel secundário desempenhado pelo pai durante sua infância. Sadger chama atenção para o fato

de as mães dos seus pacientes homossexuais serem muitas vezes masculinizadas, mulheres com

enérgicos traços de caráter e capazes de deslocar o pai do lugar que lhe corresponde. Observei

ocasionalmente a mesma coisa, porém me impressionei mais com os casos em que o pai estava

ausente desde o começo, ou abandonara a cena muito cedo, deixando o menino inteiramente sob

a influência feminina. Na verdade, parece que a presença de um pai forte asseguraria, no filho, a

escolha correta de objeto, ou seja, uma pessoa do sexo oposto.

Depois desse estágio preliminar, estabelece-se uma transformação cujo mecanismo

conhecemos mas cujas forças determinantes ainda não compreendemos. O amor da criança por

sua mãe não pode mais continuar a se desenvolver conscientemente - ele sucumbe à repressão.

O menino reprime seu amor pela mãe; coloca-se em seu lugar, identifica-se com ela, e toma a si

próprio como um modelo a que devem assemelhar-se os novos objetos de seu amor. Desse modo

ele transformou-se num homossexual. O que de fato aconteceu foi um retorno ao auto-erotismo,

pois os meninos que ele agora ama à medida que cresce, são, apenas, figuras substitutivas e

lembranças de si próprio durante sua infância - meninos que ele ama da maneira que sua mãe o

amava quando era ele uma criança. Encontram seus objetos de amor segundo o modelo do

narcisismo, pois Narciso, segundo a lenda grega, era um jovem que preferia sua própria imagem a

qualquer outra, e foi assim transformado na bela flor do mesmo nome.

Considerações psicológicas mais profundas justificam a afirmativa de que um homem que

assim se torna homossexual, permanece inconscientemente fixado à imagem mnêmica de sua

mãe. Reprimindo seu amor à sua mãe, conserva-o em seu inconsciente e daí por diante

permanece-lhe fiel. Quando parece perseguir outros rapazes e tornar-se seu amante, na realidade

está fugindo das outras mulheres que o possam levar à infidelidade. Em casos individuais, a

observação direta tem-nos permitido demonstrar que o homem que dá a impressão de ser sensível

somente aos encantos de outros homens sente-se, na verdade, atraído pelas mulheres, como

qualquer homem normal; mas em cada ocasião procura transferir imediatamente a excitação

provocada pela mulher para um objeto masculino e, desse modo, repete incessantemente o

mecanismo pelo qual adquiriu sua homossexualidade.

Estamos longe de querer exagerar a importância dessas explicações sobre a gênese

psíquica da homossexualidade. É óbvio que elas discordam completamente das teorias adotadas

pelos defensores dos homossexuais, mas sabemos também que não são bastante claras para

chegar a uma conclusão definitiva sobre esse problema. Aquilo que, por motivos práticos, é

geralmente chamado de homossexualidade poderá ser o resultante de uma variedade enorme de

processos inibitórios psicossexuais; o processo particular que destacamos é, talvez, apenas um

entre muitos outros e talvez corresponda a um único tipo de `homossexualidade‟. Devemos

também admitir que o número de casos de homossexualismo deste tipo, em que podemos

reconhecer as causas determinantes assinaladas por nós, é bem maior do que aqueles em que ele

de fato se concretiza. Portanto, nós também não podemos negar a influência exercida por fatores

constitucionais desconhecidos, aos quais geralmente se atribui toda a homossexualidade. Não

teríamos tido motivo algum para entrar na gênese psíquica da forma de homossexualidade que

estudamos se não houvesse um forte pressentimento de que Leonardo, cuja fantasia sobre o

abutre foi o nosso ponto de partida, fosse, na verdade, um homossexual exatamente desse tipo.

Conhecem-se poucos detalhes sobre o comportamento sexual do grande artista e

cientista, mas devemos crer na possibilidade de as afirmativas de seus contemporâneos não terem

sido totalmente erradas. À luz de tais afirmativas, portanto, ele nos parece ter sido um homem

cujas necessidades e atividades sexuais eram excepcionalmente reduzidas, como se uma

aspiração mais elevada o houvesse colocado acima das necessidades animais comuns da

humanidade. Haverá sempre uma dúvida quando se trata de saber se ele terá alguma vez

procurado a satisfação sexual direta e, se o fez, de que maneira; ou teria ele prescindido

completamente de qualquer ato dessa natureza? Achamos justo, no entanto, procurar nele

também as forças emocionais que impulsionam outros homens imperativamente à prática do ato

sexual; pois não podemos imaginar a vida mental de nenhum ser humano sem que tivesse havido

em sua formação o desejo sexual em seu sentido mais amplo - libido - mesmo que tal desejo se

tivesse afastado de sua finalidade original, ou fosse refreado, e não chegasse a exercer-se.

Não podemos esperar encontrar em Leonardo senão indícios de inclinação sexual

não-transformada. Estes indícios, porém, apontam uma direção que nos faz reconhecer nele um

homossexual. Sempre foi notório que ele somente admitia como alunos meninos e rapazes que

fossem belos. Tratava-os com gentileza e consideração, tomava conta deles e, quando doentes,

cuidava-os ele próprio como uma mãe cuida de seus filhos, e assim como o teria tratado a sua

própria mãe. Como os escolhia pela beleza e não pelo talento, nenhum deles - Cesare da Sesto,

Boltraffio, Andrea Salaino, Francesco Melzi e outros mais - veio a tornar-se um pintor de

importância. Geralmente não eram capazes de se libertar de seu mestre e, após a sua morte,

desapareceram sem terem deixado qualquer marca definitiva na história da arte. Quanto a outros,

como Luini e Bazzi, chamado Sodoma, cujos trabalhos lhes permitem classificar-se como seus

discípulos, talvez jamais os tivesse conhecido pessoalmente.

Ser-nos-á provavelmente alegado que a conduta de Leonardo para com seus alunos nada

tem a ver com motivos de ordem sexual, e que portanto não justifica deduções sobre a sua

particular inclinação sexual. Respondendo a isso, gostaríamos de demonstrar, com o devido

cuidado, que o nosso ponto de vista explica algumas características peculiares do comportamento

do artista que de outro modo permaneceriam um mistério. Leonardo mantinha um diário onde fazia

anotações com sua letra miúda (escrevendo da direita para a esquerda) somente para seu próprio

uso. É digno de nota que naquele diário ele tratava a si próprio na segunda pessoa. `Aprende a

multiplicação de raízes com Mestre Luca.‟ (Solmi, 1908, 152). `Faze com que o Mestre d‟Abacco te

ensine a quadratura do círculo.‟ (Loc. cit.) Ou, durante uma viagem: `Estou indo para Milão tratar

de assuntos referentes a meu jardim… Manda fazer duas malas. Faze com que Boltraffio te mostre

o torno e faze-o polir uma pedra. Deixa o livro para Mestre Andrea il Todesco.‟ (Ibid., 203) Ou,

então, uma resolução de importância bem diversa: `Deves mostrar em teu tratado que a terra é

uma estrela, como a lua ou coisa parecida, e assim provar a nobreza de nosso mundo.‟ (Herzfeld,

1906, 141.)

No referido diário, que, igual ao que acontece nos diários de outros mortais, muitas vezes

comenta em poucas palavras os acontecimentos mais importantes do dia ou mesmo nem os

menciona, existem algumas notas que, pela sua estranheza, são relatadas por todos os biógrafos

de Leonardo. São apontamentos de pequenas quantias de dinheiro, gastas pelo artista - anotadas

com uma precisão minuciosa como se houvessem sido feitas por um austero ou parcimonioso

chefe de família. No entanto nada há sobre qualquer extravagância maior ou nenhuma evidência

de que fizesse parte de sua natureza anotar sempre suas despesas. Uma destas anotações

refere-se a uma capa nova que comprou para seu aluno Andrea Salaino:

Brocado de prata 15 lire 4 soldi

Enfeite de veludo vermelho 9 lire - soldi

Galões 9 soldi

Botões 12 soldi

Outra nota muito detalhada soma todas as despesas que fez por causa do mau caráter e

do costume de furtar de outro aluno: `No dia vinte e um de abril de 1940 comecei este livro e

recomecei o cavalo. Jacomo procurou-me no dia se Santa Madalena, em 1940: ele tem dez anos.‟

(Nota à margem: `gatuno, mentiroso, egoísta, voraz.‟) `No segundo dia, mandei cortar-lhe duas

camisas, um par de calças e uma jaqueta e, quando separei o dinheiro para o pagamento, ele o

roubou de minha bolsa e jamais consegui fazê-lo confessar, embora tivesse certeza disso.‟ (Nota à

margem: 4 lire…‟) O relatório sobre as faltas do menino continua por aí a fora e termina com a

demonstração das despesas: `No primeiro ano, uma capa, 2 lire; 6 camisas, 4 lire; 3 jaquetas, 6

lire; 4 pares de meias, 7 lire; etc.‟

Os biógrafos de Leonardo não desejam de modo algum procurar a solução dos problemas

mentais de seu personagem partindo de suas pequenas fraquezas e peculiaridades; e o

comentário que habitualmente fazem sobre essas contas estranhas são para ressaltar-lhes a

gentileza e a consideração para com os alunos. Esquecem-se de que o que carece de explicação

não é o comportamento de Leonardo mas sim o fato de ter deixado, acerca dele, esses

testemunhos. Como é impossível acreditar que seu motivo tenha sido deixar provas de sua

bondade, devemos pressupor ter sido outra razão, de natureza afetiva, que o levou a fazer esses

apontamentos. Será difícil adivinhar qual o motivo e nós nada poderíamos sugerir, não fora o fato

de ter sido encontrado outro apontamento de despesas, entre os papéis de Leonardo, que

esclarece essas estranhas notas, tão pouco importantes, sobre as roupas de seus alunos etc.:

Despesas com o funeral de Caterina 27 florins 2 libras de cera 18 florins Para o transporte e levantamento da cruz 12 florins Essa 4 florins Carregadores 8 florins 4 padres e 4 sacristãos 20 florins Para soar o sino 2 florins

Para os escavadores 16 florins Pela licença - para os funcionários 1 florim Total 108 florins Despesas anteriores Médico 4 florins Açúcar e castiçais 2 florins Total 16 florins

Total completo 124 florins

O escritor Merezhkovsky é o único que nos diz quem foi essa Caterina. Baseado em duas

breves notas ele concluiu que a mãe de Leonardo a pobre camponesa de Vinci, foi a Milão em

1493 para visitar seu filho, que tinha, então, 41 anos; que lá adoeceu e Leonardo a internou num

hospital, e quando morreu foi homenageada por ele com esse custoso enterro.

Esta interpretação feita pelo escritos psicólogo não pode ser provada mas é tão verossímil

e está tão de acordo com tudo o que conhecemos da atividade emocional de Leonardo, que não

posso deixar de aceitá-la como correta. Ele conseguira sujeitar seus sentimentos ao domínio da

pesquisa e reprimir a sua livre expressão; mas para si mesmo havia ocasiões em que o que

suprimira forçava um meio de expressão. A morte da mãe, a quem tanto amara em certa época, foi

uma delas. O que temos diante de nós nesses apontamentos sobre as despesas do enterro é a

expressão, sob um disfarce quase irreconhecível, de sua tristeza pela morte da mãe. Ficamos

pensando o porquê desse disfarce, e na verdade não o podemos entender se o consideramos um

processo mental normal. Porém, processos semelhantes são por nós bem conhecidos nas

condições anômalas da neurose, sobretudo na que é conhecida como `neurose obsessiva‟. Nestes

casos podemos observar como a expressão de sentimentos intensos, que se haviam tornado

inconscientes graças à repressão, é deslocada para ações triviais e às vezes mesmo tolas. A

expressão desses sentimentos reprimidos foi de tal modo enfraquecida pelas forças que a eles se

opõem, que seríamos levados a considerá-los insignificantes; mas a compulsão imperativa que

leva a executar esse ato trivial revela a verdadeira força dos impulsos - força que se origina no

inconsciente e que a consciência gostaria de negar. Somente comparando esta situação com a

que ocorre na neurose obsessiva é que poderemos explicar as anotações de Leonardo relativas às

despesas com o enterro de sua mãe. Em seu inconsciente, ele ainda se achava ligado a ela por

sentimentos de matiz erótico, como acontecera em sua infância. A oposição que se originou na

subseqüente repressão deste amor infantil não lhe permitiu reverenciar sua mãe em seu diário, de

modo diferente e melhor. Mas o que emergiu como um compromisso desse conflito neurótico tinha

de ser externado; e foi assim que esta anotação veio a fazer parte de seu diário e chegou ao

conhecimento da posteridade como coisa ininteligível.

Não nos parece muito ousado aplicar às notas sobre as despesas com os alunos aquilo

que descobrimos nas notas sobre o enterro. Seriam elas, portanto, outro testemunho dos esparsos

remanescentes dos impulsos libidinais de Leonardo, que encontravam assim expressão, de

maneira compulsiva e sob forma distorcida. Sob esse ponto de vista, sua mãe e seus alunos, que

representavam a imagem de sua própria beleza infantil, haviam sido seus objetos sexuais - tanto

quanto a repressão sexual que dominava sua natureza nos permite reconhecê-los - e a compulsão

a anotar detalhadamente os seus gastos com eles revelava, desse modo estranho, seus conflitos

rudimentares. Assim, pareceria que a vida erótica de Leonardo pertencia realmente ao tipo de

homossexualidade cujo desenvolvimento psíquico conseguimos desvendar, e a emergência da

situação homossexual em sua fantasia do abutre tornar-se-ia inteligível para nós; porque seu

significado era exatamente o que já havíamos afirmado relativamente a esse tipo. Teríamos de

traduzi-lo assim: `Foi através dessa relação erótica com minha mãe que me tornei um

homossexual.‟

IV

Ainda não demos por terminada a análise da fantasia do abutre de Leonardo. Com

palavras que tão claramente sugerem a descrição de um ato sexual (`e fustigou muitas vezes sua

cauda contra meus lábios‟), Leonardo acentua a intensidade das relações eróticas entre mãe e

filho. Da ligação desta atividade de sua mãe (o abutre) com a dominância da zona bucal, não será

difícil adivinhar que a fantasia contém uma outra lembrança. Podemos traduzi-la assim: `Minha

mãe beijou-me apaixonada e repetidamente na boca.‟ A fantasia surge da lembrança de ser

alimentado no seio e de ser beijado pela mãe.

A natureza generosa deu ao artista a capacidade de exprimir seus impulsos mais secretos,

desconhecidos até por ele próprio, por meio dos trabalhos que cria; e estas obras impressionam

enormemente outras pessoas estranhas ao artista e que desconhecem, elas também, a origem da

emoção que sentem. Será que nada existe na obra de Leonardo para testemunhar aquilo que sua

memória conservou como uma das impressões mais fortes de sua infância? Deveríamos

certamente poder encontrar alguma coisa. Porém, se considerarmos a transformação enorme que

terá de sofrer qualquer impressão vivida por um artista antes que ela venha a ser transformada em

uma contribuição para uma obra de arte, teremos de observar um grande comedimento ao

proclamarmos a nossa certeza quanto aos resultados a que chagamos em nossas pesquisas;

sobretudo com referência a Leonardo. Qualquer pessoa que pense nas pinturas de Leonardo

recordar-se-á de um sorriso notável, ao mesmo tempo fascinante e misterioso, que ele punha os

lábios de seus modelos femininos. É um sorriso imutável, desenhado em lábios longos e curvos;

tornou-se uma característica do seu estilo e o termo `Leonardiano‟ tem sido usado para defini-lo.

Este sorriso no rosto estranhamente lindo da florentina Mona Lisa del Giocondo tem causado, em

todos que o contemplam, os efeitos mais fortes e controvertidos. [Ver Lâmina II.] Este sorriso

requer uma interpretação e de fato tem merecido as mais variadas explicações sem que nenhuma

ainda tenha conseguido satisfazer. `Voilà quatre siècles bientôt que Monna Lisa fait perdre la tête a

tous ceux qui parlent d‟elle, après l‟avoir longtemps regardée.‟

Muther (1909, 1, 314) escreveu: `O que sobretudo enfeitiça o espectador é a magia

demoníaca desse sorriso. Centenas de poetas e escritores já escreveram sobre essa mulher que

ora parece sorrir-nos tão sedutoramente, ora parece fitar o espaço, friamente e sem alma. E

ninguém jamais decifrou o enigma de seu sorriso nem leu o significado de seus pensamentos.

Tudo, até mesmo a paisagem, assemelha-se a um sonho e parece sofrer a influência opressiva da

sensualidade.‟

A idéia de que dois elementos diferentes estejam combinados no sorriso de Mona Lisa já

foi suscitada por diversos de seus críticos. Muitos deles vêem na expressão da linda florentina a

mais perfeita representação dos contrastes que dominam a vida erótica das mulheres; o contraste

entre a reserva e a sedução, e entre a ternura mais delicada e uma sensualidade implacavelmente

exigente, destruindo os homens como se fossem seres estranhos. Este é o ponto de vista de

Müntz (1899, 417): `On sait quelle énigme indéchiffrable et passionnante Monna Lisa Gioconda ne

cesse depuis bientôt quatre siècles de proposer aux admirateurs pressés devante elle. Jamais

artiste (j‟emprunte la plume du délicat écrivain qui se cache sous le pseudonyme de Pierre de

Corlay) “a-t-il traduit ainsi l‟essence même de la féminité: tendresse et coquetterie, pudeur et

sourde volupté, tout le mystère d‟un coeur qui se réserve, d‟un cerveau qui réflechit, d‟une

personnalité que se garde et ne livre d‟elle-même que son rayonnement…” O escritor italiano

Angelo Conti (1910, 93) descreve que viu no Louvre o retrato iluminado por um raio de sol. `La

donna sorrideva in una calma regale: i suoi istinti di conquista, di ferocia, tutta l‟eredità della specie,

la volontà della seduzionne e dell‟agguato, la grazia del inganno, la bontà che cela un proposito

crudele, tutto ciò appariva alternativamente e scompariva dietro il velo ridente e si fondeva nel

poeme del suo sorriso… Buona e malvagia, crudele e compassionevole, graziosa e felina, ella

rideva…‟

Leonardo passou quatro anos pintando esse retrato, talvez de 1503 até 1507, durante a

sua segunda permanência em Florença, época em que tinha mais de cinqüenta anos. Segundo

Vasari, durante o trabalho Leonardo empregou todos os meios ao seu alcance para divertir essa

senhora e conservar-lhe no semblante o sorriso famoso. No seu estado atual, o quadro conserva

pouco de todos os detalhes delicados que seu pincel, na época, reproduziu sobre a tela; enquanto

foi pintado, foi proclamado como sendo o mais elevado que a arte poderia realizar, porém é sabido

que o próprio Leonardo não se satisfez com o resultado; declarando que estava incompleto não o

entregou à pessoa que o encomendara, levou-o consigo para a França, onde o seu patrono,

Francisco I, o adquiriu para o Louvre.

Deixando sem solução a enigmática expressão no rosto de Mona Lisa, vamos anotar o fato

inegável de que o seu sorriso, que tanto fascina todos os que têm contemplado durante esses

quatro séculos, exerceu também poderoso fascínio sobre Leonardo. Dessa data em diante, o

sorriso cativante reaparece em todos os seus quadros assim como nos de seus alunos. Sendo a

Mona Lisa de Leonardo um retrato, não cremos que lhe tivesse imprimido, por sua própria

inspiração, característica tão expressiva à sua face - característica que não lhe pertence realmente.

Torna-se, portanto, inegável concluir que ele encontrou esse sorriso em seu modelo e ficou por ele

tão enfeitiçado que daí por diante reproduziu-o em todas as criações livres de sua fantasia. Esta

interpretação, que não poderá ser considerada forçada, é defendida, por exemplo, por

Konstantinowa (1907, 44):

`Durante o longo período em que o artista trabalhou no retrato de Mona Lisa del Giocondo,

estudou tão apaixonadamente os detalhes mais sutis e delicados deste rosto que passou a

reproduzir os seus traços - sobretudo o seu misterioso sorriso e estranho olhar - em todos os

rostos que veio a pintar e desenhar depois. Até no retrato de São João Batista, no Louvre, pode-se

perceber esta expressão facial, tão peculiar da Gioconda; mas é sobretudo no rosto da Virgem

Maria, no quadro da

MONA LISA, de LEONARDO

“Madona e o Menino com Sant‟Ana”, que mais claramente o reconhecemos.‟ [Ver o

Frontispício deste volume.]

No entanto, esta situação pode ter ocorrido de outro modo. A necessidade de um motivo

mais profundo para explicar a atração tão forte que o sorriso da Gioconda exerceu sobre o artista,

a ponto de nunca mais vir a libertar-se dele, tem sido mantida por mais de um de seus biógrafos.

Walter Pater, que vê no retrato de Mona Lisa `uma presença… expressiva daquilo que os homens

sempre ambicionaram, durante milênios, possuir‟ [1873, 118], e que descreve com muita

sensibilidade o `sorriso distante, sempre sombreado por algum triste presságio, que transparece

em toda a obra de Leonardo` [ibid., 117], fornece-nos um outro dado quando declara (loc. cit.):

`Além do mais, o quadro é um retrato. Desde a infância, vemos esta imagem vir-se

definindo na contextura de seus sonhos; e, a não ser por algum testemunho histórico expresso,

poderemos supor que essa foi sua mulher ideal, finalmente concretizada e finalmente possuída…‟

Marie Herzfeld (1906, 88) sem dúvida nenhuma participa de opinião muito semelhante

quando declara que na Mona Lisa Leonardo encontrou o seu próprio eu (self), e por isso conseguiu

transferir tanta coisa de sua própria natureza para o retrato `cujas feições jaziam há muito tempo,

em misteriosa harmonia, na mente de Leonardo‟,

Vamos tentar explicar melhor o que aqui sugerimos. Poderia ser que Leonardo tivesse

ficado fascinado pelo sorriso de Mona Lisa, por lhe ter despertado alguma coisa que há muito

habitava sua mente - provavelmente uma antiga lembrança. Esta lembrança era de suficiente

importância pois, uma vez despertada, nunca mais dela se libertou; sentia-se sempre forçado a

dar-lhe novas formas de expressão. A afirmativa de Pater, segundo a qual podemos ver desde a

infância um rosto como o de Mona Lisa esboçar-se na contextura de seus sonhos, parece

convincente e merece ser acatada.

Vasari conta que `teste di femmine, che ridono‟ foi tema tratado em seus primeiros ensaios

artísticos. Este trecho, do qual não necessitamos duvidar, já que nada pretende provar, está

transcrito mais extensamente na versão de Schorn (19843, 3, 6): `Em sua juventude, modelou em

barro algumas cabeças sorridentes de mulher, reproduzidas depois em gesso; e algumas cabeças

de crianças, lindas como se houvessem sido modeladas por mãos de um mestre…‟

Ficamos sabendo, assim, que ele começou sua carreira artística reproduzindo duas

espécies de objeto; e estes infalivelmente nos fazem lembrar os dois tipos de objetos sexuais que

deduzimos da análise de sua fantasia sobre o abutre. Se as lindas cabeças de criança eram a

reprodução da sua própria pessoa, como ele era na sua infância, então as mulheres sorridentes

nada mais seriam senão a reprodução de sua mãe Caterina, e começamos a suspeitar a

possibilidade de que este misterioso sorriso era o de sua mãe - sorriso que ele perdera e que muito

o fascinou, quando novamente o encontrou na dama florentina.

O quadro de Leonardo mais próximo da Mona Lisa em ordem cronológica é o chamado

`Sant‟Ana com Dois Outros‟, ou seja, Sant‟Ana com a Madona e o Menino. [Ver Frontispício.] Nele

o sorriso leonardiano aparece evidente e lindo nas fisionomias de ambas as mulheres. Não é

possível descobrir quanto tempo antes ou depois da Mona Lisa, Leonardo começou a pintar o

quadro. Como os dois trabalhos o ocuparam durante anos, penso que podemos afirmar que o

artista trabalhava em ambos ao mesmo tempo. Estaria mais de acordo com a nossa teoria

admitirmos que foi a intensidade da concentração de Leonardo nas feições da Mona Lisa que o

estimulou a criar a composição de Sant‟Ana como produto de sua imaginação. Porque, se é

verdade que o sorriso de Gioconda lhe despertava recordações de sua mãe, fácil será

compreender como isso o levou a criar uma glorificação da maternidade, e a restituir à sua mãe o

sorriso que encontrara na nobre dama. Podemos, portanto, transferir o nosso centro de interesse

do retrato da Mona Lisa para este outro quadro - igualmente belo, e que hoje também se encontra

no Louvre.

Sant‟Ana com sua filha e o neto é assunto que raramente foi tratado na pintura italiana. De

qualquer modo, a composição de Leonardo difere enormemente de qualquer outra versão

conhecida, segundo escreve Muther (1909, 1, 309):

`Alguns artistas como Hans Fries, Holbein, o velho, e Girolamo dai Libri, representaram

Ana sentada ao lado de Maria, colocando o Menino entre as duas. Outros, como Jakob Cornelisz

em seu quadro de Berlim, pintaram aquilo que realmente se poderia chamar de “Sant‟Ana com

Dois Outros”, em outras palavras, eles a representaram sustentando nos braços a figura menor de

Maria, que por sua vez carrega no colo a figura menor ainda de Cristo menino. No quadro de

Leonardo, Maria está sentada no colo de sua mãe e se debruça, com os braços estendidos para o

Menino que brinca com um cordeirinho, talvez o tratando com pouca delicadeza. A avó apóia na

cintura o braço visível e contempla o par com um sorriso de felicidade. A composição, na verdade,

não aparenta muita naturalidade. O sorriso que paira nos lábios de ambas as mulheres, embora

seja inegavelmente o mesmo da Mona Lisa, perdeu seu caráter estranho e misterioso; o que ele

exprime aqui é sentimento íntimo e serena felicidade.

Depois de estudarmos o quadro por algum tempo, ocorre-nos subitamente a idéia de que

somente Leonardo o poderia ter pintado assim como somente ele poderia ter criado a fantasia do

abutre. O quadro contém a síntese da história de sua infância: os seus detalhes devem ser

explicados relembrando as impressões mais pessoais da vida de Leonardo. Na casa de seu pai,

ele encontrou não somente a sua boa madrasta Donna Albiera mas também a sua avó, mãe de

seu pai, Monna Lucia, que - assim o supomos - foi para ele tão carinhosa quanto geralmente o são

os avós. Essas circunstâncias podem muito bem ter influído para que representasse num quadro a

imagem da criança vigiada pela mãe e pela avó. Outra característica evidente desse quadro é

ainda mais significativa. Sant‟Ana, a mãe de Maria e a avó do Menino, que deveria ser uma

matrona, é representada como um pouco mais madura e mais séria do que a Virgem Maria, porém

ainda uma mulher jovem e de inalterável beleza. Na verdade, Leonardo deu ao Menino duas mães;

uma que lhe estende os braços e outra no segundo plano; ambas deixando transparecer o sorriso

bem-aventurado da alegria maternal. Essa característica do retrato sempre chamou a atenção

daqueles que o descrevera. Muther, por exemplo, é de opinião que Leonardo nunca procurava

pintar a velhice, com suas marcas e rugas, e por esse motivo pintou Ana também como uma

mulher de radiante beleza. Mas será que nos poderemos satisfazer com esta explicação? Outros

tem negado haver qualquer similaridade de idade entre mãe e filha. Mas a explicação dada por

Muther mostra bem que a impressão que se tem de que Sant‟Ana foi pintada mais jovem provém

mesmo do quadro e não constitui nenhuma invenção para justificar objetivo posterior.

A infância de Leonardo teve característica igual à que o quadro reproduz. Teve duas mães:

primeiro, sua verdadeira mãe Caterina, de quem o separaram quando tinha entre três e cinco anos;

e depois uma madrasta moça e carinhosa, Donna Albiera, esposa de seu pai. Pela combinação

dessa situação de sua infância com a outra que mencionamos acima (a presença da mãe e da

avó) e pela composição que fez reunindo os três personagens numa unidade, o desenho de

`Sant‟Ana com Dois Outros‟ veio a concretizar-se para ele. A figura maternal mais afastada do

Menino - a avó - corresponde à primeira e verdadeira mãe, Caterina, tanto em sua aparência

quanto em sua relação especial com o menino. O artista parece ter usado o sorriso

bem-aventurado da Sant‟Ana para negar e encobrir a inveja que sentiu a pobre mulher quando foi

obrigada a entregar o filho à sua rival nascida em berço mais nobre, assim como já lhe havia

outrora entregado o pai.

Encontramos também uma confirmação, em outro trabalho de Leonardo, de nossa

suspeita de que o sorriso de Mona Lisa del Giocondo havia despertado nele, já homem feito, a

lembrança da mãe que tivera em sua

Fig. 2.

primeira infância. Dessa época em diante, as madonas e as senhoras aristocráticas dos

quadros italianos passaram a ser pintadas com a humilde inclinação da cabeça e sorrindo o

estranho e bem-aventurado sorriso de Caterina,

Fig. 3.

a pobre camponesa que dera à luz o magnífico filho cujo destino seria pintar, pesquisar e

sofrer.

Se Leonardo teve sucesso ao reproduzir nas feições de Mona Lisa a dupla significação

contida naquele sorriso, a promessa de ternura infinita e ao mesmo tempo a sinistra ameaça

(segundo a frase de Pater [ver em [1]]), manteve-se também fiel ao conteúdo de sua lembrança

mais distante. Porque a ternura de sua mãe foi-lhe fatal; determinou o seu destino e as privações

que o mundo lhe reservava. A violência das carícias evidentes em sua fantasia sobre o abutre

eram muito naturais. No seu amor pelo filho, a pobre mãe abandonada procurava dar expansão à

lembrança de todas as carícias recebidas e à sua ânsia por outras mais. Tinha necessidade de

fazê-lo, não só para consolar-se de não ter marido mas também para compensar junto ao filho a

ausência de um pai para acarinhá-lo. Assim, como todas as mães frustradas, substitui o marido

pelo filho pequeno, e pelo precoce amadurecimento de seu erotismo privou-o de uma parte de sua

masculinidade. O amor da mãe pela criança que ela mesma amamenta e cuida é muito mais

profundo que o que sente, mais tarde, pela criança em seu período de crescimento. Sua natureza

é a de uma relação amorosa plenamente satisfatória, que não somente gratifica todos os desejos

mentais mas também todas as necessidades físicas; e se isto representa uma das formas

possíveis da felicidade humana, em parte será devido à possibilidade que oferece de satisfazer,

sem reprovação, desejos impulsivos há muito reprimidos e que podem ser considerados como

perversos. Nos casais jovens e mais felizes, o pai se dá conta de que o bebê, sobretudo se for um

menino, transforma-se em seu rival, o que vem a constituir o ponto de partida de um antagonismo

para com o favorito, que está profundamente arraigado no inconsciente.

Quando em pleno vigor de sua mocidade, Leonardo reencontrou o sorriso de beatitude e

enlevo que vira pairar nos lábios de sua mãe quando o acariciava, ele já tinha estado tempo

demais sob o domínio da inibição para que pudesse voltar a desejar tais carícias dos lábios de

outras mulheres. Ele porém se tornara pintor e, portanto, lutou para reproduzir com seu pincel o

sorriso famoso em todos os seus quadros (tanto nos que ele próprio pintou como nos que incumbia

seus alunos de fazer sob sua orientação) - assim foi com a Leda, com o João Batista e com o

Baco. Os dois últimos são variantes do mesmo tipo. `Leonardo transformou o comedor de

gafanhotos da Bíblia‟, disse Muther (1909, 1, 314), `num Baco, ou melhor, num jovem Apolo, que,

com um sorriso misterioso nos lábios e com suas pernas macias cruzadas, fita-nos com olhos que

nos perturbam os sentidos.‟ Esses quadros transmitem um misticismo cujo segredo ninguém ousa

desvendar; o máximo que poderíamos tentar seria determinar a sua relação com as criações

anteriores de Leonardo. As figuras ainda são andróginas mas não mais no sentido da fantasia do

abutre. São jovens lindos, de uma delicadeza feminina e de formas afeminadas; já não abaixam os

olhos mas contemplam-nos com uma expressão de misterioso triunfo como se conhecessem uma

grande felicidade cujo segredo devessem calar. O sorriso fascinante e familiar leva-nos a crer

tratar-se de um segredo de amor.

É possível que nestas figuras Leonardo tenha negado a infelicidade de sua vida erótica e

que tenha triunfado sobre ela em sua arte, proclamando os desejos do menino apaixonado pela

sua mãe, com um sentimento de realização nessa união bem-aventurada das naturezas masculina

e feminina.

V

Entre as anotações feitas por Leonardo em seu diário, existe uma que chama a atenção do

leitor pela importância do seu significado e também por um pequeno erro na sua redação.

Ele escreveu, em julho de 1504:

`Adì 9 de Luglio 1504 mercoledi a ore morì Ser Piero da Vinci, notalio al palazzo del

Potestà, mio padre, a ore 7. Era d‟età d‟anni 80 lascio 10 figlioli maschi e 2 femmine.‟

Como vemos, a nota refere-se à morte do pai de Leonardo. O pequeno erro de redação

consiste na repetição da hora do dia `a ore 7‟ [às 7 horas], que é dada duas vezes, deixando a

impressão de que Leonardo, ao chegar ao fim da frase, esqueceu já ter mencionado isto no início.

É apenas um pequeno detalhe e ninguém, a não ser um psicanalista, lhe daria maior importância.

Nem ele próprio talvez o notasse, e se alguém lhe chamasse atenção poderia alegar ser coisa que

acontece a qualquer um num momento de distração, ou de grande emoção, e que isto nada

significava.

O psicanalista pensa de maneira diferente. Para ele não há detalhe, por mais insignificante

que pareça, que não possa revelar um processo mental oculto. O analista conhece, há muito

tempo, a importância de tais casos de esquecimento ou de repetição, e sabe que é justamente

essa `distração‟ que permite a libertação de impulsos reprimidos.

Nós diríamos que esta nota como as contas referentes ao enterro de Caterina [ver em [1]]

e às despesas de seus alunos [ver em [2]], representam casos em que Leonardo não conseguiu

suprimir o seu afeto, de onde alguma coisa, há muito reprimida, encontrou uma forma destorcida

de expressão. Até mesmo a forma é semelhante: encontramos a mesma precisão pedante e a

mesma importância dada aos números.

Casos de repetição desta natureza são por nós chamados de perseveração. É um meio

excelente para revelar a nuance afetiva. Faz-nos lembrar, por exemplo, as palavras de São Pedro

no Paraíso de Dante, contra o seu indigno representante na terra:

Quegli ch‟usurpa in terra il luogo mio,

Il luogo mio, il luogo mio, che vaca

Nella presenza del Figliuol di Dio,

Fato há del cimiterio mio cloaca.

Se não existisse uma inibição afetiva em Leonardo, a anotação feita em seu diário teria

sido redigida mais ou menos assim: `Hoje às 7 horas meu pai morreu - Ser Piero da Vinci, meu

pobre pai!‟ Porém o deslocamento da perseveração para um detalhe tão indiferente no relato de

sua morte, a hora em que ele faleceu, esvazia a anotação de qualquer emoção e deixa

transparecer a existência de algumas coisa que se deseja ocultar ou suprimir.

Ser Piero da Vinci, tabelião e descendente de tabeliães, era homem dotado de grande

energia e que veio a tornar-se próspero e estimado. Casou-se quatro vezes. Suas duas primeiras

mulheres morreram sem lhe deixar filhos e foi somente a sua terceira mulher que o presenteou

com seu primeiro filho legítimo, em 1476, época em que Leonardo já atingira a idade de 24 anos, e

de há muito deixara a casa do pai para viver no estúdio de seu mestre Verrocchio. Com a quarta e

última mulher, com quem se casou já na casa dos cinqüenta, teve mais nove filhos e duas filhas.

É fora de dúvida que seu pai exerceu também influência importante no desenvolvimento

psicossexual de Leonardo, não somente de modo negativo por sua ausência durante sua primeira

infância, mas também de modo direto, por sua presença no período posterior da infância de

Leonardo. Quem deseja a própria mãe na infância não poderá evitar o desejo de substituir o pai e

de identificar-se com ele na imaginação, e depois constituir como tarefa de sua vida obter

ascendência sobre ele. Quando Leonardo foi recebido em casa de seu avô, antes de ter

completado cinco anos, sua jovem madrasta Albiera terá certamente substituído sua mãe em sua

afeição, e ele terá sentido o que pode ser chamado de relações normais de rivalidade com seu pai.

Como sabemos, uma decisão no sentido da homossexualidade somente se concretiza nos anos da

puberdade. Quando esta decisão ocorreu no caso de Leonardo, sua identificação com o pai perdeu

toda a significação para sua vida sexual mas manteve-se presente em outras esferas de atividade

não-erótica. Sabemos que gostava de luxo e de roupagens finas, e que possuía criados e cavalos,

embora, segundo Vasari, `pouco possuísse e pouco produzisse.‟ A responsabilidade por estes

gostos não deve ser atribuída somente à sua sensibilidade ao belo; reconhecemos neles também

uma compulsão a copiar e ultrapassar seu pai. Seu pai fora um grande cavalheiro para a pobre

camponesa, e seu filho por isso nunca deixou de sentir o desejo de representar também o grande

cavalheiro - o impulso de `to out-herod Herod‟, - e mostrar ao pai o que vinha a ser um verdadeiro

gentil-homem.

Não há dúvida de que o artista criador se considera como o pai de sua obra. Para

Leonardo, o reflexo de sua identificação com o pai foi prejudicial para sua pintura. Criava a obra de

arte e depois dela se desinteressava, do mesmo modo que seu pai se desinteressara por ele. O

cuidado que seu pai demonstrou, mais tarde, em nada conseguiu alterar esta compulsão; porque a

compulsão derivada das impressões dos primeiros anos de infância, e o que foi reprimido e se

tornou inconsciente, não pode ser corrigido pelas experências futuras.

Na época da Renascença - e também muito depois - todo artista dependia de algum nobre

de alta linhagem, um benfeitor e patrono, que lhe dava encomendas e de cujas mãos dependia a

sua fortuna. Leonardo encontrou seu patrono em Ludovico Sforza, chamado II Moro, um homem

ambicioso e amante do esplendor, diplomata astuto, porém de caráter inconsciente e em quem não

se podia confiar. Na sua corte em Milão, Leonardo passou o período mais brilhante de sua vida, a

seu serviço seu poder criador atingiu o mais alto grau de realização, como o atestam a Última Ceia

e a estátua eqüestre de Francesco Sforza. Ele deixou Milão antes da desgraça de Ludovido

Sforza, que morreu prisioneiro numa fortaleza na França. Quando teve a notícia do destino de seu

patrono, Leonardo escreveu em seu diário: `O duque perdeu seu ducado, sua propriedade e sua

liberdade, e nunca terminou nenhuma das obras que empreendeu.‟ É interessante, e sobretudo

significativo, que ele fizesse ao seu patrão a mesma acusação que a posterioridade lhe viria fazer.

Era como se quisesse fazer de alguém que pertencesse à categoria paternal, responsável por ter

deixado suas obras inacabadas. Na verdade, não errou no que afirmou acerca do duque.

Se sua imitação do pai o prejudicou como artista, sua rebeldia contra ele foi a determinante

infantil do que foi talvez uma realização igualmente sublime no campo da pesquisa científica.

Segundo a comparação admirável de Merezhkovsky (1903, 348), era como um homem que

despertara cedo demais, na escuridão, enquanto os outros ainda dormiam. Ele teve a coragem de

fazer a declaração que contém a justificação de toda pesquisa independente: `Aquele que apela

para a autoridade quando existe diferença de opinião, está fazendo mais uso da memória do que

da razão.‟ Foi assim que se tornou o primeiro cientista natural moderno e uma abundância de

descobertas e de idéias sugestivas recompensaram sua coragem de ter sido o primeiro homem,

desde o tempo dos gregos, a indagar os segredos da natureza baseando-se unicamente na

observação e em seu próprio julgamento. Mas quando ensinava que a autoridade deveria ser

desprezada e que a imitação dos `antigos‟ deveria ser repudiada, e ao afirmar constantemente que

o estudo da natureza era a fonte de toda verdade, não fazia senão repetir - na mais alta

sublimação que o homem pode atingir - o ponto de vista resoluto que já se impusera ao menino,

quando fitava atônito o mundo em redor. Se transformarmos novamente a abstração científica em

experiência individual concreta, veremos que os `antigos‟ e a autoridade correspondem

simplesmente a seu pai, e a natureza vem a ser novamente a mãe gentil e carinhosa que o

amamentou. Na maioria dos seres humanos - tanto hoje como nos tempos primitivos - a

necessidade de se apoiar numa autoridade de qualquer espécie é tão imperativa que o seu mundo

se desmorona se essa autoridade é ameaçada. No entanto, Leonardo pôde dispensar esse apoio;

não teria podido fazê-lo se nos primeiros anos de sua vida não tivesse aprendido a viver sem o pai.

Sua ulterior investigação científica, caracterizada por sua ousadia e independência, pressupõe a

existência de pesquisas sexuais infantis não inibidas pelo pai e representa uma prolongação das

mesmas com a exclusão do elemento sexual.

Quando alguém, como aconteceu com Leonardo, escapa à intimidação pelo pai durante a

primeira infância e rompe as amarras da autoridade em suas pesquisas, muito nos admiraríamos

se continuasse sendo um crente, incapaz de se desfazer dos dogmas religiosos. A psicanálise

tornou conhecida a íntima conexão existente entre o complexo do pai e a crença em Deus.

Fez-nos ver que um Deus pessoal nada mais é, psicologicamente, do que uma exaltação do pai, e

diariamente podemos observar jovens que abandonam suas crenças religiosas logo que a

autoridade paterna se desmorona. Verificamos, assim, que as raízes da necessidade de religião se

encontram no complexo parental. O Deus todo-poderoso e justo e a Natureza bondosa

aparecem-nos como magnas sublimações do pai e da mãe, ou melhor, como reminiscência e

restaurações das idéias infantis sobre os mesmos. Biologicamente falando, o sentimento religioso

origina-se na longa dependência e necessidade de ajuda da criança; e, mais tarde, quando

percebe como é realmente frágil e desprotegida diante das grandes forças da vida, volta a sentir-se

como na infância e procura então negar a sua própria dependência, por meio de uma regressiva

renovação das forças que a protegiam na infância. A proteção contra doenças neuróticas, que a

religião concede a seus crentes, é facilmente explicável: ela afasta o complexo paternal, do qual

depende o sentimento de culpa, quer no indivíduo quer na totalidade da raça humana,

resolvendo-o para ele, enquanto o incrédulo tem de resolver sozinho o seu problema.

O caso de Leonardo não parece desmentir este ponto de vista relativo à religião. Enquanto

vivo, foram-lhe feitas acusações de heresia e de apostasia contra o Cristianismo (o que, na época,

significava a mesma coisa) que foram claramente descritas na primeira biografia que Vasari [1550]

escreveu sobre ele. (Müntz, 1889, 292ss.) Na segunda edição (1568) de sua Vite, Vasari suprimiu

estas observações. Devido à suceptibilidade enorme de sua época no tocante a questões

religiosas, bem podemos compreender por que Leonardo, até mesmo em seus cadernos evitou

qualquer comentário direto à sua posição face ao Cristianismo. Em suas pesquisas, jamais se

deixou induzir em erro por influência dos relatos sobre a Criação, contidos nas Sagradas

Escrituras; pôs em dúvida, por exemplo, a possibilidade de um dilúvio universal, e em geologia fez

cálculos em termos de centenas de milhares de anos sem hesitação maior do que a dos homens

dos tempos modernos.

Entre as suas `profecias‟ existem algumas que certamente teriam ofendido a sensibilidade

de um crente cristão. Assim, por exemplo, em `Sobre o hábito de rezar defronte às imagens de

santos‟:

`Os homens falarão com homens que nada percebem, que têm os olhos abertos mas que

nada vêem; falarão com eles e não terão resposta; implorarão as graças daqueles que têm orelhas

mas nada ouvem; acenderão luzes para quem é cego.‟ (Segundo Herzfeld, 1906, 292.)

Ou, então, `Sobre o luto na Sexta-feira Santa‟:

`Em toda a Europa, inumeráveis povos chorarão a morte de um único homem que morreu

no Oriente.‟ (ibid., 297.)

Sobre a arte de Leonardo, já foi dito que ele despiu as sagradas figuras de todos os

vestígios de sua ligação com a Igreja, tornando-as humanas, para nelas representar grandes e

belas emoções humanas. Muther o elogia por libertar-se do ambiente de decadência que

prevalecia na época e por restituir ao homem o seu direito à sensualidade e à alegria de viver. Nas

anotações que nos mostram Leonardo, entregue à sondagem dos grandes mistérios da natureza,

há um número enorme de passagens onde ele manifesta a sua admiração pelo Criador, última

causa de todos esses nobres segredos; mas nada existe que possa indicar que desejou manter

relações pessoais com esse divino poder. As reflexões que encerram a profunda sabedoria dos

últimos anos de sua vida exalam a conformação do homem que se entrega ao , às leis

da natureza, e que nenhuma misericórdia espera da bondade ou da graça de Deus. Parece não

haver dúvida de que Leonardo superou tanto a religião dogmática quanto a pessoal, e que

afastou-se muito da concepção cristã do mundo, através do seu trabalho de pesquisa.

As descobertas, anteriormente mencionadas [ver a partir de [1]], que fizemos sobre o

desenvolvimento da vida mental infantil, levam-nos a crer que no caso de Leonardo também as

suas primeiras pesquisas na infância se orientaram para os problemas da sexualidade. Ele próprio

se denuncia, sob disfarce transparente, ao relacionar sua ânsia de pesquisa à fantasia do abutre e

ao destacar o problema do vôo das aves como assunto para o qual se sentia fatalmente impelido

por uma série de circunstâncias. Um trecho sobremodo obscuro de suas anotações referentes ao

vôo das aves, e que se assemelha a uma profecia, demonstra muito bem o grau de interesse

afetivo que o fazia fixar-se na idéia de poder um dia imitar, ele próprio, esse vôo: `O grande

pássaro alçará o seu primeiro vôo partindo do dorso de seu Grande Cisne; fará o mundo ficar

maravilhado, será por todos descrito e será a glória eterna do ninho onde nasceu.‟ Provavelmente

esperava que ele próprio chegaria a voar um dia e conhecemos, pelos sonhos realizadores de

desejos, que felicidade se aguarda da realização dessa esperança.

Mas por que será que tantas pessoas sonham sentindo-se capazes de voar? A resposta

que nos dá a psicanálise é que voar, ou ser um pássaro, é somente um disfarce para outro desejo,

e que mais de uma conexão, seja por meio de palavras ou de coisas, leva-nos a reconhecer esse

desejo. Quando consideramos que às crianças perguntadoras dizemos que os bebês são trazidos

por um grande pássaro, tal como a cegonha; quando nos lembramos de que os antigos povos

representavam o falo como possuindo asas; que a expressão mais comum, em alemão, para a

atividade sexual masculina é `vögeln„ [`passarear‟: `Vogel„ é a palavra alemã para `pássaro‟; que o

órgão masculino é chamado de `l‟uccello„ [`o pássaro‟] em italiano - vemos que todos esses dados

constituem apenas uma pequena fração de um conjunto de idéias correlatas que nos mostram que,

nos sonhos, o desejo de voar representa verdadeiramente a ânsia de ser capaz de realizar o ato

sexual. Este é um desejo que surge nos primeiros anos da infância. Quando o adulto relembra sua

infância, esta parece-lhe como tendo sido uma época feliz, na qual se gozava o momento e se

encarava o futuro sem nenhum desejo; é por essa razão que ele inveja as crianças. No entanto, se

as próprias crianças nos pudessem contar a sua história nessa época, elas provavelmente o fariam

de modo diferente. Parece que a infância não é bem esse idílio bem-aventurado que

retrospectivamente destorcemos; ao contrário, as crianças durante toda a sua infância sentem-se

fustigadas pelo desejo de crescer e de fazer o que fazem os grandes. Este desejo reflete-se em

todas as brincadeiras. Sempre que as crianças sentem, no curso de suas explorações sexuais,

que, nesse terreno tão misterioso e tão importante para elas, existe alguma coisa maravilhosa

permitida aos adultos, mas que elas estão proibidas de conhecer e de fazer, sentem um desejo

violento de ser capazes de fazê-lo e sonham-no sob a forma de voar, ou preparam este disfarce de

seu desejo para ser usado mais tarde em seus sonhos de voar. Assim, a aviação, que em nossos

dias está finalmente conseguindo realizar esse objetivo, tem também suas raízes eróticas infantis.

Ao admitir que desde sua infância sentia-se ligado de maneira especial e pessoal ao

problema do vôo, Leonardo confirma que as suas pesquisas infantis eram dirigidas para questões

sexuais; e era isso exatamente o que esperávamos, de acordo com a investigação que fizemos

sobre crianças de nossa época. Pelo menos esse problema escapara à repressão que mais tarde

o afastaria da sexualidade. Com ligeiras variantes em seus significados, o mesmo assunto

continuou a interessá-lo, desde os anos de sua infância até a época de sua plena maturidade

intelectual; e é muito possível que não tivesse conseguido a destreza que desejava, quer no

sentido sexual primário, quer no sentido mecânico, e que permaneceu frustrado em ambos os

desejos.

Na verdade, o grande Leonardo permaneceu como uma criança durante toda a vida, sob

diversos aspectos; diz-se que todos os grandes homens conservam algo de infantil. Mesmo

quando adulto, continuava ele a brincar, o que constituiu mais um motivo por que freqüentemente

pareceu estranho e incompreensível para seus contemporâneos. A nós não satisfaz, porém, saber

que construía os mais complicados brinquedos mecânicos, que exibia em festejos da corte e

recepções cerimoniosas, pois relutamos em conceber o artista usando o seu talento em coisas tão

sem importância. No entanto, ele não parecia aborrecer-se em gastar assim o seu tempo pois

Vasari conta-nos que fazia essas coisas mesmo sem receber encomendas: `Quando estava lá (em

Roma) pegou um pedaço de cera e com ele modelou bichos muito delicados, que enchia de ar;

quando soprava, eles voavam e quando o ar escapava, caíam no chão. Para um lagarto estranho,

que o vinhateiro de Belvedere encontrou, fez umas asas tiradas da pele de outros lagartos e

encheu-as com mercúrio, de maneira que elas se agitavam e tremiam quando o lagarto caminhava.

Em seguida, fez-lhe uns olhos, uma barba e chifres, domesticou-o e o guardou numa caixa, para

com ele assustar todos os seus amigos‟. Tais habilidades muitas vezes serviam para exprimir

pensamentos mais sérios. `Algumas vezes limpava os intestinos de um carneiro tão

cuidadosamente que poderiam depois caber na concha de sua mão. Levava-os, então, para um

grande quarto, ajustava-os a um fole de ferreiro situado numa sala contígua e os enchia, a ponto

de virem a ocupar a sala inteira, assim forçando as pessoas que lá estavam a se refugiarem num

canto. Dessa forma, ele mostrava como se tornavam transparentes à medida que se enchiam de

ar; e pelo fato de que a princípio eles ocupavam pouco espaço, e que gradualmente

espalhavam-se pela sala inteira, ele os comparava ao gênio.‟ O mesmo prazer brincalhão de

esconder coisas, fazendo-as depois reaparecer sob os mais engenhosos disfarces, encontra-se

em suas fábulas e adivinhações. Estas últimas eram feitas sob a forma de `profecias‟: quase todas

eram ricas em idéias mas notoriamente desprovidas de espirituosidade.

Os jogos e brincadeiras com que Leonardo ocupava sua imaginação, em alguns casos,

levaram os seus biógrafos, que não lhe compreendiam este lado do caráter, a interpretá-lo

erroneamente. Nos manuscritos milaneses de Leonardo, existem, por exemplo, alguns rascunhos

de cartas para o `Diodario de Sorio` (Síria), Vice-rei do Sagrado Sultão da Babilônia‟, nas quais

Leonardo se apresenta como sendo um engenheiro enviado àquelas regiões orientais para a

execução de determinados trabalhos; nelas defende-se da acusação de preguiça; fornece algumas

descrições geográficas de cidades e montanhas, e conclui com o relato de um fenômeno da

natureza que teria acontecido quando lá se encontrava.

Em 1883, J. P. Richter tentou provar com esses documentos que Leonardo havia

realmente feito todas essas observações quando em viagem a serviço do Sultão do Egito, e até

mesmo adotara a religião maometana, quando no Oriente. Segundo ele, a visita deu-se antes de

1843 - isto é, antes de ter-se instalado na corte do Duque de Milão. Mas a argúcia de outros

autores facilmente reconheceu a evidência do que a suposta viagem de Leonardo ao Oriente

realmente significava - uma produção imaginária do jovem artista, criada para seu próprio

divertimento e na qual ele encontrou expressão para um desejo de conhecer o mundo e enfrentar

aventuras.

Outro provável exemplo de criação de sua imaginação encontra-se na `Academia Vincina‟,

que chegou a ser admitida devido a existência de cinco ou seis emblemas, com motivos

laboriosamente entrelaçados, ostentando o nome da Academia. Vasari menciona esses desenhos

mas não faz referência à Academia. Müntz, que reproduziu um desses emblemas na capa de seu

extenso trabalho sobre Leonardo, é um dos poucos que acredita na realidade de uma `Academia

Vinciana‟.

É provável que o instinto brincalhão de Leonardo tenha desaparecido nos seus anos de

maturidade, e que encontrasse derivativo na atividade de pesquisa que representou o último e

mais alto nível de expansão de sua personalidade. A sua longa duração, no entanto, nos ensina

como lentamente o indivíduo se desliga de sua infância, se nos dias infantis desfrutou a maior

felicidade erótica, coisa nunca mais conseguida.

VI

Seria fútil tentar negar que os leitores de hoje não apreciam a patografia. Eles encobrem

sua aversão alegando que a investigação patográfica de um grande homem jamais conduz à

compreensão de sua importância e de seus feitos, e que, portanto, constitui uma impertinência

sem sentido estudar nele aspectos que poderiam ser facilmente encontrados em qualquer outra

pessoa. Mas esta crítica é de tal maneira injusta que só poderá ser compreendida se a tomamos

como um pretexto ou uma desculpa. A patografia não tem como finalidade tornar inteligíveis os

feitos dos grandes homens; e seguramente ninguém poderá ser censurado por não realizar algo

que jamais prometeu. Os verdadeiros motivos para essa oposição são diferentes. Podemos

descobri-los se nos lembrarmos de que os biógrafos se fixam em seus livros de uma maneira toda

especial. Muitas vezes escolhem o herói como assunto de seu estudo porque - segundo razões de

sua vida emocional pessoal - desde o começo sentiram por ele uma afeição especial. Dedicam

suas energias a um trabalho de idealização, destinado a incluir o grande homem na série de seus

modelos infantis - revivendo neles, talvez, a idéia infantil que faziam de seu pai. Para satisfazer

este desejo, eliminam até as características fisionômicas de sua personagem; apagam as marcas

das lutas de sua vida, com resistências internas e externas, e nela não toleram nenhum vestígio de

fraqueza ou imperfeições humanas. Apresentam-nos, assim, uma figura ideal, fria, estranha, em

vez de uma pessoa humana com a qual nos pudéssemos sentir remotamente relacionados. Isto é

lastimável, pois assim sacrificam a verdade em benefício de uma ilusão, e por causa de suas

fantasias infantis abandonam a oportunidade de penetrar nos mais fascinantes segredos da

natureza humana.

O próprio Leonardo, com seu amor à verdade e sua sede de conhecimento, não

desencorajaria qualquer tentativa de descobrir o que determinava seu desenvolvimento mental e

intelectual, tomando como ponto de partida as peculiaridades triviais e os enigmas de sua

natureza. Nós o homenageamos quando dele aprendemos algo. Em nada ficará diminuída sua

grandeza ao fazermos um estudo dos sacrifícios que lhe custou o desenvolvimento a partir de sua

infância, e se juntarmos os fatores que o marcaram com o estigma trágico do fracasso.

Devemos assinalar insistentemente que nunca classificamos Leonardo como um neurótico

ou um `doente dos nervos‟, conforme a denominação usual imprópria. Qualquer um que proteste

contra o fato de ousarmos examiná-lo sob a luz dos conhecimentos adquiridos no campo da

patologia ainda se estará apegando aos preconceito que nós já abandonamos. Não mais

consideramos que a saúde e a doença, ou que os normais e os neuróticos se diferenciem tanto

uns dos outros e que traços neuróticos devem necessariamente ser tomados como sendo prova de

uma inferioridade geral. Hoje em dia, sabemos que os sintomas neuróticos são estruturas que

funcionam como substitutos para algumas conseqüências de repressão, à qual devemos

submeter-nos no curso de nosso desenvolvimento, desde a criança ao ser humano civilizado.

Sabemos, também, que todos nós produzimos essas estruturas substitutivas e que somente o seu

número, intensidade e distribuição nos poderá justificar na utilização do conceito prático de doença

e inferir a presença de uma inferioridade constitucional. Partindo das indicações escassas que

temos sobre a personalidade de Leonardo, estamos inclinados a classificá-lo como próximo ao tipo

de neurótico que descrevemos como `obsessivo‟; e poderíamos comparar suas pesquisas à

`meditação obsessiva‟ dos neuróticos e suas inibições como aquilo que chamamos de `abulias‟.

O objetivo de nosso trabalho foi explicar as inibições na vida sexual e na atividade artística

de Leonardo. Tendo isso em vista, podemos resumir o que conseguimos descobrir sobre o curso

de seu desenvolvimento psíquico.

Não podemos conhecer direito as circunstâncias de sua hereditariedade; verificamos, por

outro lado, que as circunstâncias acidentais de sua infância tiveram sobre ele um efeito profundo e

perturbador. A sua origem ilegítima privou-o da influência do pai, talvez até os cinco anos, e

deixou-o entregue à carinhosa sedução de uma mãe para quem ele talvez fosse o único consolo.

Depois que os seus beijos lhe despertaram precocemente a madureza sexual, deve ter

provavelmente atravessado uma fase de atividade sexual infantil da qual uma única manifestação

foi definitivamente comprovada - a intensidade de suas pesquisas sexuais infantis. O instinto de

ver e o de saber foram os mais fortemente excitados pelas impressões mais remotas de sua

infância; à zona erógena da boca foi dava uma ênfase da qual nunca mais se libertou. Por sua

conduta posterior, em direção oposta, assim como sua simpatia exagerada pelos animais podemos

concluir pela existência de fortes indícios de traços sádicos naquele período de sua infância.

Uma poderosa onda de repressão pôs fim a esse excesso infantil e determinou as

disposições que se deveriam manifestar nos anos da puberdade. O resultado mais evidente da

transformação foi o afastamento de toda atividade sexual grosseira. Leonardo estava capacitado

para viver em abstinência e dar a impressão de ser uma criatura assexuada. Quando ondas de

excitações da puberdade chegaram ao adolescente, elas não o molestaram forçando-o a procurar

formações substitutivas custosas e prejudiciais. Devido à sua tendência muito precoce para a

curiosidade sexual, a maior parte das necessidades de seu instinto sexual puderam ser sublimadas

numa ânsia geral de saber, escapando assim à repressão. Uma parte muito menor de sua libido

continuou orientada para fins sexuais e representa a atrofiada vida sexual do adulto. Porque o

amor que tinha pela mãe foi reprimido, esta parte foi levada a tomar uma atitude homossexual e

manifestou-se no amor ideal por rapazes. A fixação em sua mãe e nas felizes lembranças de suas

relações com ela continuou preservada no inconsciente, permanecendo, porém, inativa por algum

tempo. Desse modo, a repressão, a fixação e a sublimação desempenharam sua parte absorvendo

as contribuições do instinto sexual para a vida mental de Leonardo.

Leonardo surge da obscuridade de sua infância como artista, pintor e escultor devido a um

talento específico que foi reforçado, provavelmente, nos primeiros anos de sua infância pelo

precoce despertar do seu instinto escoptofílico. Gostaríamos enormemente de descrever o modo

pelo qual a atividade artística se origina nos instintos primitivos da mente, se não fosse aqui,

justamente, que falham nossas capacidades. Devemos contentar-nos em enfatizar o fato de que

dificilmente se pode duvidar - de que a criação do artista proporciona, também, uma válvula de

escape para seu desejo sexual; e no caso de Leonardo podemos ver, segundo a informação de

Vasari [ver em [1]] que cabeças de mulheres sorridentes e de lindos rapazes - em outras palavras,

a representação de seus objetos sexuais - eram freqüentes em suas primeiras tentativas artísticas.

No verdor de sua mocidade, Leonardo parece trabalhar sem inibição. Assim como tomava seu pai

como modelo para a conduta exterior de sua vida, também atravessou um período de masculina

força criadora e produção artística quando um destino feliz o fez encontrar, em Milão, um pai

substituto na figura do duque Ludovico Moro. Mas logo encontramos a confirmação de nossa

experiência, isto é, que a repressão quase total de uma vida sexual real não oferece as condições

mais favoráveis para o exercício das tendências sexuais sublimadas. O padrão imposto pela vida

sexual termina por se impor. Sua atividade e sua capacidade de tomar rápidas decisões começam

a falhar; sua tendência à indecisão e à protelação se fazem sentir como elemento perturbador na

`Última Ceia‟ e, influenciando sua técnica, tiveram um efeito decisivo no destino daquela grande

obra. Lentamente desenvolveu-se nele um processo somente comparável às regressões nos

neuróticos. O desenvolvimento que o levou a tornar-se um artista ao atingir a puberdade cedeu

lugar ao processo que o tornou pesquisador e que tem suas determinantes na primeira infância. A

segunda sublimação do seu instinto erótico cedeu lugar à sublimação original, cuja forma tinha sido

preparada por ocasião da primeira repressão. Tornou-se um pesquisador, a princípio a serviço de

sua arte, porém, mais tarde, independentemente dela e mesmo dela se afastando. Com a perda de

seu patrono, substituto de seu pai, e com as sombras que, progressivamente, lhe marcavam a

vida, esta substituição regressiva assumiu proporções cada vez maiores. Tornou-se

`impacientissimo al pennelo„ conforme nos conta um correspondente da condessa Isabella d‟Este,

que desejava ardentemente possuir um quado seu. Seu passado infantil passou a dominá-lo. Mas

a pesquisa, que toma agora o lugar da criação artística, parece ter contido alguns traços que

caracterizam a atividade de impulsos inconscientes; insaciabilidade, rigidez de comportamento e

falta de capacidade para adaptar-se às circunstâncias reais.

Ao atingir o ápice de sua vida, quando ingressava na casa dos cinqüenta - época em que

as características sexuais das mulheres já sofreram a involução, enquanto nos homens a libido,

com freqüência, apresenta um enérgico surto - sofreu ele uma nova transformação. Camadas

ainda mais profundas de seu conteúdo anímico tornaram-se mais uma vez ativas; mas esta nova

regressão veio beneficiar a sua arte que se encontrava num processo de atrofiamento. Encontrou a

mulher que lhe despertou a lembrança do sorriso feliz e sensual de sua mãe; e, influenciado por

eta lembrança reaguçada, voltou a encontrar o estímulo que o guiava no princípio de suas

tentativas artísticas, na época em que retratou mulheres sorridentes. Pintou a Mona Lisa, a

`Sant‟Ana com Dois Outros‟ e a série de retratos misteriosos caracterizados pelo sorriso

enigmático. Com a ajuda do mais antigo de todos os seus impulsos eróticos goza o triunfo de, uma

vez mais, dominar a inibição na sua arte. Este último desenvolvimento vai-se tornando impreciso

para nós, com as sombras da velhice que se aproxima. Antes disso, seu intelecto se elevara até o

mais alto grau de realização formulando uma concepção do mundo que de muito ultrapassou a sua

época.

Nos capítulos anteriores, já mostrei o que pode justificar este retrato do curso do

desenvolvimento de Leonardo - propondo estas subdivisões de sua vida e explicando, dessa

forma, sua vacilação entre a arte e a ciência. Se as afirmativas que fiz provocaram críticas, mesmo

de amigos e conhecedores da psicanálise, de ter eu apenas escrito uma nova psicanalítica,

responderei que jamais superestimei a certeza desses resultados. Como tantos outros, sucumbi à

atração desse grande e misterioso homem, em cuja natureza podemos entrever poderosas

paixões instintivas que, no entanto, somente se podem exprimir de modo tão impreciso.

Seja qual for a verdade sobre a vida de Leonardo, não podemos abandonar nossa

tentativa de encontrar uma explicação psicanalítica antes de completarmos uma outra tarefa.

Devemos fixar, de modo geral, os limites do que a psicanálise pode conseguir no campo da

biografia: de outro modo, todo esclarecimento que não for logo comprovado será considerado

como um fracasso nosso. O material de que dispõe a psicanálise para uma pesquisa consta de

dados da história da vida de uma pessoa; de um lado as circunstâncias acidentais e as influências

do meio e, do outro lado, as reações conhecidas do indivíduo. Baseada em seu conhecimento dos

mecanismos psíquicos, propõe-se, então, estabelecer uma base dinâmica para a sua natureza,

fundamentada na intensidade de suas reações, e desvendar as forças motivadoras originais de

sua mente, assim como as suas transformações e desenvolvimentos futuros. Se isso tem sucesso,

o comportamento de uma personalidade no curso de sua vida é explicado em termos da ação

conjugada da constituição e do destino, de forças internas e poderes externos. Quando tal estudo

não fornece resultados indubitáveis - e talvez suceda assim no caso de Leonardo - a culpa não

está nos métodos falhos e inadequados da psicanálise, mas na incerteza e na natureza

fragmentária do material com ele relacionado, e que a tradição nos legou. Portanto, somente o

autor deverá ser considerado responsável pelo fracasso, por ter obrigado a psicanálise a exprimir

sua opinião abalizada, apoiando-se em material tão insuficiente.

Ainda que o material histórico de que dispomos fosse muito abundante e os mecanismos

psíquicos pudessem ser usados com a máxima segurança, existem dois pontos importantes onde

uma pesquisa psicanalítica não nos consegue explicar por que razão é tão inevitável que a

personagem estudada tenha seguido exatamente essa direção e não outra qualquer. No caso de

Leonardo, tivemos de sustentar o ponto de vista de que o acaso de sua origem ilegítima e a

ternura exagerada de sua mãe tiveram influência decisiva na formação de seu caráter e na sorte

de seu destino, pois a repressão sexual que se estabeleceu depois dessa fase de sua infância

levou-o a sublimar sua libido na ânsia de saber e estabelecer sua inatividade sexual para o resto

de sua vida. Mas esta repressão após as primeiras satisfações eróticas da infância não tinha

necessariamente de se estabelecer; em outra pessoa talvez não tivesse acontecido, ou talvez

tivesse atingido proporções muito menores. Temos de reconhecer aqui uma margem de liberdade

que não pode mais ser resolvida pela psicanálise. Assim, também, não podemos afirmar que a

conseqüência dessa onda de repressão tivesse sido a única possível. É provável que uma outra

pessoa não tivesse conseguido livrar da repressão a maior parte da sua libido sublimando-a numa

sede de conhecimentos; sob as mesmas influências, teria sofrido perturbação permanente de sua

atividade intelectual ou adquirido uma disposição incoercível para a neurose obsessiva. Deixamos,

portanto, estas duas características de Leonardo que não podem ser explicadas pela psicanálise:

sua tendência muito especial para a repressão dos instintos e sua extraordinária capacidade para

sublimar os instintos primitivos.

Os instintos e suas transformações constituem o limite do que a psicanálise pode discernir;

daí em diante cede lugar à investigação da biologia. Somos obrigados a procurar a fonte da

tendência à repressão e a capacidade para a sublimação nos fundamentos orgânicos do caráter,

sobre o qual se vem erigir posteriormente a estrutura mental. Já que o talento artístico e a

capacidade estão intimamente ligados à sublimação, temos de admitir que a natureza da função

artística também não pode ser explicada através da psicanálise. A tendência da pesquisa

biológica, hoje em dia, é explicar as principais características orgânicas de uma pessoa, como o

resultado da mistura das disposições masculina e feminina, baseada em substâncias [químicas]. A

beleza física de Leonardo e o fato de ser canhoto poderão ser mencionadas em apoio a este ponto

de vista. Não abandonaremos, no entanto, o campo da pesquisa puramente psicológica. Nosso

objetivo continua a ser demonstrar a relação que existe, seguindo o caminho da atividade

instintiva, entre as experiências externas de um indivíduo e suas reações. Mesmo que a

psicanálise não esclareça o poder artístico de Leonardo, pelo menos torna, para nós, mais

compreensíveis suas manifestações e suas limitações. Parece, em todo caso, que somente um

homem que tivesse passado pelas experiências infantis de Leonardo poderia ter pintado a Mona

Lisa e a Sant‟Ana, ter acarretado um destino tão melancólico para suas obras e ter embarcado

numa carreira tão extraordinária de cientista, como se a chave para todas as suas realizações e

fracassos estivesse escondida na sua fantasia infantil sobre o abutre.

Mas será que não devemos fazer objeções aos achados de uma investigação que atribui a

circunstâncias acidentais, referentes à sua constelação parental, uma influência tão decisiva no

destino de uma pessoa? O que, por exemplo, fez com que o destino de Leonardo viesse a

depender de sua origem ilegítima e da esterilidade de sua primeira madrasta, Donna Albiera?

Creio que ninguém terá o direito de fazê-lo. Se considerarmos que o acaso não pode determinar

nosso destino, será apenas um retorno ao ponto de vista religioso sobre o Universo, que o próprio

Leonardo estava a ponto de superar quando escreveu que o sol não se move [ver em [1]].

Sentimo-nos naturalmente decepcionados por ver que um Deus justo e uma providência bondosa

não nos protegem melhor contra tais influências durante o período mais vulnerável de nossas

vidas. Ao mesmo tempo, estamos sempre demasiadamente prontos a esquecer que, de fato, o que

influi em nossa vida é sempre o acaso, desde nossa gênese a partir do encontro de um

espermatozóide com um óvulo - acaso que, no entanto, participa das leis e necessidades da

natureza, faltando-lhe apenas qualquer ligação com nossos desejos e ilusões. A distribuição dos

fatores determinantes de nossa vida entre as `necessidades‟ de nossa constituição e o `acaso‟ de

nossa infância pode ser ainda incerta em seus detalhes; mas não será mais possível duvidar

precisamente da importância dos primeiros anos de nossa infância. Nós todos ainda sentimos

muito pouco respeito pela natureza, que (nas palavras obscuras de Leonardo, que lembram o

Hamlet) `está cheia de inúmeras razões [`ragioni‟] que nunca penetram a experiência.‟

Cada um de nós, seres humanos, corresponde a uma dessas inúmeras experimentações

por meio das quais as `ragioni‟ da natureza são compelidas a compartilhar a experiência.

AS PERSPECTIVAS FUTURAS DA TERAPÊUTICA PSICANALÍTICA (1910)

DIE ZÜKNFTIGEN CHANCEN DER PSYCHOANALYTISCHEN THERAPIE

(a) EDIÇÕES ALEMÃS:

1910 Zbl. Psychoan., 1 (1-2), 1-9.

1913 S.K.S.N., 3, 288-298. (2ª ed. 1921.)

1924 Technik und Metapsychol., 25-36.

1925 G.S., 6, 25-36.

1943 G.W., 8, 104-115.

(b) TRADUÇÕES INGLESAS:

`The Future Chances of Psychoanalytic Therapy‟

1912 S.P.H. (2ª ed.), 207-215. (Trad. A. A. Brill.) (3ª ed. 1920.)

`The Future Prospects of Psycho-Analytic Therapy‟

1924 C.P., 2, 285-296. (Trad. Joan Riviere.)

A presente tradução inglesa baseia-se na publicada em 1924.

Este trabalho foi proferido em forma de comunicação para a abertura do Segundo

Congresso de Psicanálise, realizado em Nurembergue, em 30 e 31 de março de 1910. Como uma

visão geral da posição contemporânea da psicanálise, pode-se compará-lo com uma conferência

similar `Lines of Advance in Psycho-Analytic Therapy‟ (Linhas de Desenvolvimento da Terapêutica

Psicanalítica) (1919a) proferida por Freud oito anos depois no Congresso de Budapeste. Em

especial, a segunda parte do presente trabalho, que trata da técnica, prefigura a terapia `ativa‟ que

constituiu o tema principal do último trabalho.

NOTA DO EDITOR BRASILEIRO

A presente tradução brasileira é de autoria de David Mussa. Revisão geral e técnica de

Jayme Salomão (Membro-Associado da Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro).

AS PERSPECTIVAS FUTURAS DA TERAPÊUTICA PSICANALÍTICA

SENHORES, - De vez que os objetivos para os quais nos reunimos aqui, hoje, são

eminentemente práticos, escolherei para minha conferência introdutória um tema clínico e

solicito-lhes o interesse, não científico, mas médico. Posso imaginar seus prováveis pontos de vista

sobre o resultado de nossa terapia e presumo que a maioria dos senhores já passou pelos dois

estágios que atravessam todos os principiantes, o do entusiasmo pelo aumento inesperado de

nossas façanhas terapêuticas e o da depressão pela magnitude das dificuldades que impedem

nossos esforços. Qualquer que seja, no entanto, o grau de desenvolvimento em que cada um dos

senhores possa encontrar-se, é minha intenção, hoje, mostrar-lhes que, de nenhuma maneira,

chegamos ao final de nossos recursos no combate às neuroses e que podemos esperar, em pouco

tempo, melhoria substancial nas nossas perspectivas terapêuticas.

Penso que este reforço virá de três direções:

(1) do processo interno,

(2) do aumento da autoridade; e

(3) da eficiência geral de nosso trabalho.

(1) Sob `progresso interno‟ quero dizer os avanços: (a) em nosso conhecimento analítico,

(b) em nossa técnica.

(a) Avanços em nosso conhecimento. Na verdade, estamos ainda muito longe de saber

tudo o que se requer para o conhecimento dos inconsciente de nossos doentes. É evidente que

cada avanço em nosso conhecimento significa um acréscimo de nosso poder terapêutico. Na

medida em que nada compreendemos, nada realizamos; quanto mais compreendermos, mais

alcançaremos. No início, o tratamento analítico era inexorável e exaustivo. O doente tinha de dizer

tudo de si e a atividade do médico consistia em pressioná-lo, incessantemente. As coisas, hoje,

possuem atmosfera mais cordial. O tratamento compõe-se de duas partes - o que o médico infere

e diz ao doente, e o que o doente elabora de quanto ouviu. O mecanismo de nosso auxílio é fácil

de entender; damos ao doente a idéia antecipadora consciente [a idéia do que ele espera

encontrar] e, então, ele acha a idéia inconsciente reprimida, em si mesmo, no fundamento de sua

similaridade com a idéia antecipadora. É esta a ajuda intelectual que lhe torna mais fácil superar as

resistências entre consciente e inconsciente. A propósito, devo salientar que este não é o único

mecanismo de que se faz uso no tratamento analítico; os senhores todos conhecem aquele bem

mais poderoso que repousa no emprego da `transferência‟. E em minha intenção, em futuro

próximo, tratar desses diversos fatores, que são tão importantes para a compreensão do

tratamento, em uma Allgemeine Methodik der Psychoanalyse. E, além disso, ao falar-lhes, não

preciso refutar a objeção de que o valor indicativo que sustenta a correção de nossas hipóteses se

obscureça, em nosso tratamento, tal como hoje o praticamos; os senhores não devem esquecer-se

de que se pode encontrar essa evidência em outro lugar e de que se pode realizar um

procedimento terapêutico da mesma forma que uma investigação teórica.

Permitam-me, agora, tocar em um ou dois setores em que novas coisas temos para

aprender e em que, de fato, novas coisas devemos descobrir, a cada dia. Há, acima de tudo, o

setor do simbolismo nos sonhos e no inconsciente - tema ardentemente contestado, como os

senhores sabem. Não é pequeno o mérito de nosso colega, Wilhelm Stekel, que, imperturbado por

todas as objeções levantadas por nossos opositores, empreendeu um estudo dos símbolos

oníricos. Há ainda, por certo, muito a aprender aqui; a minha Interpretation of Dreams (A

Interpretação de Sonhos), escrita em 1899, aguarda importante ampliação das pesquisas no

simbolismo.

Direi algumas palavras acerca de um dos símbolos que se reconheceram recentemente.

Ouvi dizer, pouco tempo atrás, que um psicólogo, cujos pontos de vista eram algo diferentes dos

nossos sonhos, salientara a um de nós, que, conquanto tudo o que se disse e se fez, sem dúvida

exageramos a significação sexual oculta dos sonhos: o seu próprio sonho mais comum era o de

subir escadas e, por certo, não poderia haver nada de sexual naquilo. Pusemo-nos alerta no

tocante a essa objeção e começamos a voltar nossa atenção para o aspecto dos degraus, escadas

e escadas de mão nos sonhos e ficamos logo em posição de mostrar que as escadas (e coisas

análogas) eram, inquestionavelmente, símbolos da cópula. Não é difícil descobrir a base da

comparação: chegamos ao topo numa sucessão de movimentos rítmicos e com crescente perda

de fôlego e, depois, com alguns saltos rápidos podemos crescer de novo. Assim, o modelo rítmico

da cópula é reproduzido no subir as escadas. Nem devemos omitir em trazer à evidência o uso

lingüístico. Ele nos revela que `trepar‟ [em alemão `steigen„] se usa como equivalente direto do ato

sexual. Falamos de um homem como um `Steiger„ [um `trepador‟] e de `nachsteigen„ [`correr atrás

de‟, literalmente `trepar‟]. Em francês os degraus de uma escada chamam-se `marches„ e `un vieux

marcheur tem o mesmo sentido que o nosso `ein alter Steiger„ [`um velho devasso‟]. O material do

sonho de onde tais simbolismos, recentemente reconhecidos, foram extraídos, ser-lhes-á

apresentado, no devido tempo, pela comissão que estamos formando para o estudo coletivo do

simbolismo. Os senhores encontrarão algumas observações sobre outro símbolo interessante, o do

`salvamento‟ e suas alterações em significação, no segundo volume do nosso Jahrbuch (Anuário).

Mas, devo interromper aqui ou não chegarei aos meus outros objetivos.

Cada um dos senhores pode saber, de sua própria experiência, que atitude bastante

diferente terá para um novo caso de enfermidade, quando certa vez se apoderou, profundamente,

da estrutura de alguns casos característicos. Imaginem que tenhamos chegado a uma fórmula

sucinta dos fatores que, comumente, participam da constituição das diversas formas de neurose,

como aconteceu, até aqui, na estruturação dos sintomas histéricos, e considerem como isso pode

estabelecer, firmemente, nosso julgamento prognóstico! Assim como um obstetra pode dizer, ao

examinar a placenta, se ela foi completamente expelida ou se ainda permanecem seus fragmentos

nocivos, do mesmo modo nós, independentemente do resultado e do estado do paciente, no

momento, lograremos saber se nosso trabalho foi bem-sucedido ou se teremos de esperar

recaídas e novas crises de enfermidade.

(b) Apressar-me-ei em torno das inovações no setor da técnica, onde, na verdade, quase

tudo ainda aguarda a posição final e muita coisa, somente agora, começa a esclarecer-se. Há,

hoje, dois objetivos na técnica psicanalítica: poupar o esforço do médico e dar ao paciente o mais

irrestrito acesso ao seu inconsciente. Como sabem, nossa técnica passou por uma transformação

fundamental. À época do tratamento catártico, o que almejávamos era a elucidação dos sintomas;

afastamo-nos, depois, dos sintomas e devotamo-nos, em vez disso, a desvendar os `complexos‟,

para usar uma palavra que Jung tornou indispensável; agora, no entanto, nosso trabalho objetiva

encontrar e sobrepujar, diretamente, as `resistências‟, e podemos confiar em que venham à luz,

justificadamente, sem dificuldade, os complexos, tão logo se reconheçam e se removam as

resistências. Alguns dos senhores têm sentido, desde então, a necessidade de que se possa fazer

uma pesquisa dessas resistências e classificá-las. Pedir-lhe-ei que examinem seu material e vejam

se podem confirmar a afirmação generalizada de que, nos pacientes masculinos, a maioria das

resistências importantes ao tratamento parecem derivar-se do complexo paterno e expressar-se

neles no medo ao pai, desobediência ao pai e desavença do pai.

As outras inovações na técnica relacionam-se com o próprio médico. Tornamo-nos cientes

da `contratransferência‟, que, nele, surge como resultado da influência do paciente sobre os seus

sentimentos inconscientes e estamos quase inclinados a insistir que ele reconhecerá a

contratransferência, em si mesmo, e a sobrepujará. Agora que um considerável número de

pessoas está praticando a psicanálise e, reciprocamente, trocando observações, notamos que

nenhum psicanalista avança além do quanto permitem seus próprios complexos e resistências

internas; e, em conseqüência, requeremos que ele deva iniciar sua atividade por uma auto-análise

e levá-la, de modo contínuo, cada vez mais profundamente, enquanto esteja realizando suas

observações sobre seus pacientes. Qualquer um que falhe em produzir resultados numa

auto-análise desse tipo deve desistir, imediatamente, de qualquer idéia de tornar-se capaz de tratar

pacientes pela análise.

Estamos chegando, agora, também, à opinião de que se deve modificar a técnica

psicanalítica, em certos setores, de acordo com a natureza da doença e das tendências instintivas

predominantes no paciente. Partimos do tratamento da histeria de conversão; na histeria de

angústia (fobias), devemos alterar, em certa extensão, o nosso procedimento. Pois esses

pacientes não podem expressar o material necessário para resolver as suas fobias, uma vez que

se sentem protegidos por obedecer à situação que se estabeleceu. Não se pode ser

bem-sucedido, por certo, em persuadi-los a abandonar suas medidas protetoras e a trabalhar, sob

a influência da ansiedade, desde o início do tratamento. Deve-se, portanto, auxiliá-los ao

interpretar-lhes o inconsciente, até que possam tomar uma decisão, sem a proteção de sua fobia e

sem que se exponham a sua ansiedade já grandemente mitigada. Somente depois de assim

procederem, o material torna-se acessível, e, uma vez dominado, conduz à solução da fobia. As

outras modificações da técnica, que ainda não me parecem maduras para exame, serão

requeridas no tratamento das neuroses obsessivas. Nessa conexão, surgem muitas questões

importantes, as quais, até aqui, não foram elucidadas: até que ponto se deve permitir, durante o

tratamento, certa satisfação dos instintos que o paciente está combatendo e que diferença faz se

esses impulsos são ativos (sádicos) ou passivos (masoquistas), em sua natureza.

Espero que os senhores tenham formado a impressão de que quando soubermos tudo

quanto, só agora, suspeitamos e realizarmos todas as melhorias na técnica, a que nos conduz uma

observação mais profunda dos pacientes, o nosso procedimento clínico alcançará grau de precisão

e certeza de sucesso que se hão de encontrar em todo campo especializado da medicina.

(2) Disse que muito se tinha de esperar do aumento em autoridade, que nos adviria, na

medida em que passa o tempo. Não necessito dizer-lhes muito sobre a importância da autoridade.

Poucas pessoas civilizadas, apenas, são capazes de existir sem confiar em outras ou, até mesmo,

de vir a ter uma opinião independente. Os senhores não podem exagerar a intensidade de

carência interior de decisão das pessoas e de exigência de autoridade. O aumento extraordinário

das neuroses desde que decaiu o poder das religiões pode dar-lhes uma medida disso. O

empobrecimento do ego devido ao grande dispêndio de energia, na repressão, exigido de cada

indivíduo pela civilização, pode ser uma das principais causas desse estado de coisas.

Até o momento, essa autoridade, com seu enorme peso de sugestão, ficou contra nós.

Todos os nossos sucessos terapêuticos foram alcançados em face dessa sugestão: é

surpreendente que se tenham conseguido quaisquer sucessos em tais circunstâncias. Não devo

deixar que me levem a descrever minhas experiências satisfatórias durante o período em que,

sozinho, representava a psicanálise. Posso dizer, apenas, que, quando assegurava a meus

pacientes que sabia como aliviar-lhes, permanentemente, os sofrimentos, olhavam em torno da

minha modesta sala, que refletia a ausência de fama e de título, e me consideravam como

possuidor de um sistema infalível numa casa de jogo, de quem as pessoas dizem que, se pudesse

fazer o que professa, pareceria bem diferente do que é. Nem realmente era agradável realizar uma

operação psíquica enquanto os colegas, cujo dever seria o de assistir, se deliciassem,

particularmente, em cuspir no campo operatório, quando aos primeiros sinais de sangue, ou de

agitação do paciente, os seus parentes começassem por ameaçar o cirurgião. Uma operação, por

certo, se destina a produzir reações; em cirurgia, estamos acostumados a isso, há muito tempo. As

pessoas simplesmente não acreditavam em mim, como, até mesmo, hoje em dia, não crêem muito

em qualquer de nós. Sob tais condições, não poucas tentativas destinavam-se ao fracasso. Para

avaliar o aumento de nossas perspectivas terapêuticas, quando recebermos o reconhecimento

geral, os senhores devem pensar na posição de um ginecologista, na Turquia e no Ocidente. Na

Turquia, tudo o que ele pode fazer é sentir o pulso de um braço, que se lhe estende, através de um

buraco na parede: e os alcances clínicos estão em proporção com a inacessibilidade de seu

objeto. Nossos adversários, no Ocidente, querem permitir-nos mais ou menos o mesmo grau de

acesso às mentes de nossos pacientes. Mas, agora que a força da sugestão social impele as

mulheres doentes ao ginecologista, transformou-se ele no seu assistente e salvador. Confio em

que não dirão que o fato de a autoridade de sociedade, vindo em nossa ajuda e aumentando tanto

nossos êxitos, nada faria por provar a validez de nossas hipóteses - argumentando do mesmo

modo que os senhores, visto que se supõe que a sugestão logre fazer qualquer coisa, os vossos

sucessos seriam, então, êxitos de sugestão e não de psicanálise. A sugestão social é favorável, no

presente, a tratar os pacientes nervosos pela hidropatia, dieta e eletroterapia, mas isso não

capacita que tais recursos possam vencer as neuroses. O tempo há de mostrar se o tratamento

psicanalítico pode realizar mais.

Agora, no entanto, devo, mais uma vez, arrefecer as expectativas dos senhores. A

sociedade não terá pressa em conferir-nos autoridade. Está determinada a oferecer-nos

resistência, porque adotamos em relação a ela uma atitude crítica; assinalamos-lhe que ela própria

desempenha papel importante em causar neuroses. Da mesma maneira que fazemos de um

indivíduo nosso inimigo pela descoberta do que nele está reprimido, do mesmo modo a sociedade

não pode responder com simpatia a uma implacável exposição dos seus efeitos danosos e

deficientes. Porque destruímos ilusões, somo acusados de comprometer os ideais. Poderia

parecer, portanto, como se a condição de que espero tão grandes vantagens, para as nossas

perspectivas terapêuticas, jamais se preencherá. E, todavia, a situação não é, no momento, tão

desesperançosa quanto se poderia pensar. Embora sejam poderosos os próprios interesses e

emoções dos homens, não obstante o intelecto também é um poder - um poder que se faz sentir

não imediatamente, é verdade, mas, sobretudo, seguramente, no fim. As mais ásperas verdades,

finalmente, são ouvidas e reconhecidas, depois que os interesses que se feriram e as emoções

que se instigaram tiveram exaurido a própria fúria. Tem sido sempre assim, e as verdades

indesejáveis, que nós, psicanalistas, temos de dizer ao mundo, contarão com o mesmo destino.

Apenas não acontecerá muito depressa; devemos ser capazes de esperar.

(3) Finalmente, tenho de explicar-lhes o que quero dizer com a `eficiência geral‟ de nosso

trabalho e como chego a nele ter esperanças. O que temos, aqui, é uma constelação terapêutica

bastante fora do comum, cuja semelhança talvez não se encontre em qualquer outra parte, e que

pode parecer-lhes estranha, a princípio, até que os senhores reconheçam nela algo que a longo

tempo lhes tenha sido familiar. Naturalmente, os senhores sabem que as psiconeuroses são

satisfações substitutivas de algum instinto, cuja presença o indivíduo é obrigado a negar a si e aos

outras. Sua capacidade de existir depende dessa distorção e da falta de reconhecimento. Quando

o enigma que elas apresentam é resolvido e a solução é aceita pelos pacientes, essas doenças

cessam em ser capazes de existir. Em medicina, quase nada há igual a isso, embora, em contos

de fadas, os senhores ouçam falar de espíritos maus, cujo poder se rompe, tão logo possam

dizer-lhes o próprio nome - o nome que eles guardaram em segredo.

Em lugar de uma simples pessoa enferma, ponhamos a sociedade - padecendo como um

todo de neuroses, embora composta de membros doentes e sadios; e, em lugar da aceitação

individual, naquele caso, coloquemos, nesse, o reconhecimento geral. Uma pequena reflexão lhes

revelará, então, que tal substituição não pode alterar, de modo algum, o resultado. O sucesso que

o tratamento pode ter com o indivíduo, deve ocorrer, igualmente, com a comunidade. As pessoas

doentes não serão capazes de deixar que as suas diversas neuroses se tornem conhecidas - a sua

ansiosa superternura que tem em mira ocultar-lhe o ódio, a sua agorafobia que se relaciona com a

ambição frustrada, as suas atitudes obsessivas que representam auto-censuras por más intenções

e precauções contra as mesmas - se todos os seus parentes e cada estranho, dos quais desejam

ocultar os seus processos mentais, conheceram o significado geral de tais sintomas, e se eles

próprios souberem que, nas manifestações de sua doença, nada estão produzindo que outra

pessoa, imediatamente, não possa interpretar. O efeito, no entanto, não se limitará ao

encobrimento dos sintomas - o que, incidentalmente, é amiúde impossível de conseguir porque

essa necessidade de encobrimento destrói a vantagem de ser doente. A revelação do segredo terá

atacado, em seu ponto mais sensível, a `equação etiológica‟, da qual surgem as neuroses - terá

tornado ilusória a vantagem da doença; e, em conseqüência, o resultado final da situação

modificada, provocada pela indiscrição do médico, só pode ser o de que a produção da doença

será detida.

Se essa esperança parece, aos senhores, utópica, lembrem-se de que os fenômenos

neuróticos já têm sido, de fato, dissipados, por esses meios, embora apenas em exemplos bem

isolados. Pensem sobre quão comuns costumavam ser, antigamente, as alucinações da Virgem

Maria entre as camponesas. Uma vez que tal fenômeno trouxesse uma multidão de crentes e

pudesse levar a que se construísse uma capela, no lugar santo, o estado visionário dessas moças

era inacessível a influência. Hoje em dia, nosso próprio clero modificou sua atitude com relação a

tais coisas; permite que polícia e médicos examinem a visionária, e, agora, apenas muito

raramente, existem em aparições da Virgem.

Ou, permitam-me examina esses desenvolvimentos, que tenho descrito como se tivessem

lugar no futuro, numa situação análoga que existe em escala menor e, conseqüentemente, mais

fácil de reconhecer. Suponhamos que certo número de senhoras e cavalheiros, de bom convício

social, tenham planejado fazer um piquenique, em certo dia, numa hospedaria no campo. As

senhoras combinaram, entre si, que se uma delas desejasse satisfazer suas necessidades

fisiológicas, diria que iria colher flores. No entanto, uma pessoa maliciosa soube do segredo e

mandou imprimir no programa, que se fez circular por todo o grupo: `Pede-se às senhoras que

desejam retirar-se à toilette, que anunciem que vão colher flores.‟ Depois disso, por certo,

nenhuma mulher pensará em aproveitar-se desse pretexto florido, e, do mesmo modo, outras

fórmulas similares que pudessem estabelecer ficariam seriamente comprometidas. Qual será o

resultado? As senhoras admitirão, sem pejo, as suas necessidades fisiológicas e nenhum dos

homens objetará.

Retornemos ao nosso caso mais sério. Certo número de pessoas, ao defrontar-se, em

suas vidas, com conflitos que constataram muito difíceis de resolver, fogem para a neurose e,

desse modo, retiram da doença vantagem inequívoca, embora, com o tempo, acarrete bastante

prejuízo. Que terão de fazer essas pessoas, se sua fuga para a enfermidade for barrada pelas

revelações indiscretas da psicanálise? Terão de ser honestas, confessar quais os instintos que

nelas estão em atividade, em face do conflito, lutar por aquilo que desejam ou renunciar ao

mesmo; e a tolerância da sociedade, que está fadada a seguir-se, como resultado do

esclarecimento psicanalítico, ajudá-las-á em sua tarefa.

Lembremo-nos, no entanto, de que nossa atitude perante a vida não deve ser a do fanático

por higiene ou terapia. Devemos admitir que a prevenção ideal de enfermidade neuróticas, que

temos em mente, não seria vantajosa para todos os indivíduos. Um bom número daqueles que,

hoje, fogem para a enfermidade não suportariam o conflito, sob as condições que supomos, mas

sim, sucumbiriam, rapidamente, ou causariam prejuízo maior que a sua própria doença neurótica.

As neuroses possuem, de fato, sua função biológica, como um dispositivo protetor, e têm sua

justificação social: a `vantagem da doença‟, que proporcionam, não é sempre uma vantagem

puramente subjetiva. Existe alguém entre os senhores que, alguma vez, não examinou a

causalidade da neurose, e não teve de admitir que esse era o mais suave resultado possível da

situação? E dever-se-iam fazer tais pesados sacrifícios, a fim de erradicar as neuroses, em

especial, quando o mundo está cheio de outras misérias inevitáveis?

Devemos, então, abandonar nossos esforços para explicar o significado oculto da neurose

como sendo, em última instância, perigoso para o indivíduo e nocivo para as funções da

sociedade? Devemos renunciar a retirar conclusões práticas de uma parte da compreensão

científica? Não; penso que, apesar disso, nosso dever repousa noutra direção. A vantagem da

enfermidade, que proporciona as neuroses é, não obstante, no todo, e, finalmente, prejudicial aos

indivíduos e, igualmente, à sociedade. A infelicidade que nosso trabalho de esclarecimento pode

causar, atingirá, afinal, apenas alguns indivíduos. A modificação, para uma atitude mais realista e

respeitável, da parte da sociedade, não será comparada, a preço bastante elevado, através desses

sacrifícios. Acima de tudo, porém, todas as energias que se consomem, hoje em dia, na produção

de sintomas neuróticos, que servem aos propósitos do mundo da fantasia, isolado da realidade,

ajudarão, mesmo que não possam ser postos de imediato em uso na vida, a fortalecer o clamor

pelas modificações, em nossa civilização, através das quais, unicamente, podemos procurar o

bem-estar das gerações futuras.

Desejaria, portanto, deixá-los ir com a segurança de que, ao tratarem seus pacientes

psicanaliticamente, estarão cumprindo com o seu dever em mais de um sentido. Os senhores não

estarão trabalhando, apenas, a serviço da ciência, ao fazer uso de uma única oportunidade, para

descobrir os segredos da neuroses; estarão, não apenas, dando aos seus pacientes o remédio

mais eficaz para os seus sofrimentos, de que dispõem hoje em dia; estarão contribuindo, com a

sua parcela, para o esclarecimento da comunidade, através do qual esperamos alcançar a

profilaxia mais radical, contra as perturbações neuróticas, ao longo do caminho indireto da

autoridade social.

A SIGNIFICAÇÃO ANTITÉTICA DAS PALAVRAS PRIMITIVAS (1910)

ÜBER DEN GEGENSINN DER URWORTE

(a) EDIÇÕES EM ALEMÃO:

1910 Jb. psychoana., psychopath. Forsch., 2, (1), 178-184.

1913 S.K.S.N., 3, 280-287. (2ª.ed. 1921.)

1924 G.S., 10, 221-228.

1943 G.W., 8, 214-221.

(b) TRADUÇÃO INGLESA:

“O Sentido Antitético de Palavras Primitivas”

1925 C.P., 4, 184-191. (Trad. de M. N. Searl.)

A presente tradução inglesa com u