17 - História de uma neurose infantil e outros trabalhos, Trabalhos de Psicologia
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História de uma neurose infantil e outros trabalhos

VOLUME XVII

(1917-1919)

Dr. Sigmund Freud

HISTÓRIA DE UMA NEUROSE INFANTIL (1918 [1914])

NOTA DO EDITOR INGLÊS - AUS DER GESCHICHTE EINER INFANTILEN NEUROSE

(a) EDIÇÕES ALEMÃES:

1918 S.K.S.N., 4, 578-717.

1922 S.K.S.N., 5, 1-140.

1924 Leipzig, Viena e Zurique: Internationaler Psychoanalytischer Verlag, 132 págs.

1924 G.S., 8, 439-567.

1931 Neurosenlehre und Technik, 37-171

1947 G.W., 12, 29-157.

(b) TRADUÇÃO INGLESA:

„From the History of an Infantile Neurosis‟

1925 C.P., 3, 473-605. (Trad. de A. e J. Strachey).

Foram introduzidas algumas modificações na edição alemã de 1924, principalmente no

tocante a datas; e acrescentou-se uma longa nota de rodapé no final. A presente tradução inglesa

é revisão da publicada em 1925.

Este é o mais elaborado e sem dúvida o mais importante de todos os casos clínicos de

Freud. Foi em fevereiro de 1910 que o jovem e rico russo, de quem o relato trata, dirigiu-se a Freud

para ser analisado. Sua primeira etapa de tratamento, que é abordada neste artigo, durou daquela

data até julho de 1914, quando Freud considerou o caso encerrado. Começou a escrever o caso

clínico em outubro do mesmo ano e concluiu-o em princípios de novembro. No entanto, retardou

sua publicação por quatro anos. Na ocasião, nenhuma modificação foi feita, conta-nos ele (ver em

[1]), mas dois longos trechos foram inseridos. O desenvolvimento posterior do caso, após

concluída a primeira etapa de tratamento, está descrito por Freud na nota de rodapé que

acrescentou à edição de 1924, no final do artigo (ver em [1] e [2]).

Informações ainda mais recentes também serão encontradas, em parte, fornecidas por

material publicado posteriormente pelo próprio Freud, em parte, por dados que surgiram depois de

sua morte.

Freud fez uma série de referências ao caso do „Homem dos Lobos‟ em trabalhos

publicados antes e depois do próprio caso clínico, e talvez valha a pena enumerá-las. A primeira

evidência do interesse de Freud pelo caso foi um parágrafo que apareceu, com a sua assinatura,

no início do outono de 1912 (Zbl. Psychoanal., 2, 680), obviamente estimulado pelo sonho do lobo,

que é motivo central do caso clínico. Apareceu sob a rubrica „Offener Sprechsaal‟ („Fórum Aberto‟)

e consta do seguinte:

„Ficaria satisfeito se todos os meus colegas que se preparam para ser analistas coligissem

e analisassem cuidadosamente quaisquer sonhos de seus pacientes cuja interpretação justifique a

conclusão de que aqueles que os tiveram tenham sido testemunhas de um ato sexual nos

primeiros anos de vida. Uma sugestão é sem dúvida suficiente para tornar evidente que tais

sonhos são de um valor muito especial, em mais de um aspecto. Apenas esses sonhos podem, é

claro, ser considerados como indicativos de que ocorreram na infância, e são lembrados a partir

desse período.

Freud.‟

Um outro parágrafo sobre o assunto apareceu no começo de 1913 (Int Z. Psychoanal., 1,

79):

Sonhos de Crianças com um Significado Especial

„No Fórum Aberto do Zbl. Psychoanal., 2, 680, pedi a meus colegas que publicassem

quaisquer sonhos ocorridos na infância “cuja interpretação justifique a conclusão de que aqueles

que os tiveram tenham sido testemunhas de um ato sexual nos primeiros anos de vida”. Devo

agradecer agora à Dra. Mira Gineburg (de Breitenau-Schaffhausen) por uma primeira contribuição

que parece adequar-se às condições estabelecidas. Prefiro adiar uma consideração crítica desse

sonho até que se tenha coligido mais material comparativo.

Freud.‟

Essa nota era seguida pelo relato do sonho em questão, pela Dra. Gincburg. Um sonho

semelhante foi depois relatado por Hitschmann, no mesmo ano (Int. X. Psychoanal., 1, 476), mas

não houve mais comunicações sobre o assunto por parte de Freud. Durante esse verão, contudo,

ele publicou o seu artigo sobre „A Ocorrência, em Sonhos, de Material Oriundo de Contos de

Fadas‟ (1913d), que na verdade relatava o sonho do lobo e que foi em parte reproduzido no caso

clínico (ver em [1] e segs.); e no início do ano seguinte surgiu o artigo sobre „Fausse

Reconnaissance no Tratamento Psicanalítico‟ (1914a), descrevendo outro episódio no caso.

Também este foi parcialmente reproduzido aqui (ver em [1]). Há, também, uma referência indireta

ao „Homem dos Lobos‟ em um debate sobre primeiras lembranças da infância, em „Recordar,

Repetir e Elaborar‟ (1914g), Edição Standard Brasileira, Vol. XII, pág. 195, IMAGO Editora, 1976. O

artigo metapsicológico sobre „Repressão‟ (1915d), que foi publicado antes do presente trabalho,

embora escrito depois deste, contém um parágrafo referente à fobia de lobos do paciente. Muitos

anos depois da publicação do caso clínico, Freud voltou ao caso no decorrer de uma

argumentação sobre as fobias de animais das crianças em Inibições, Sintomas e Ansiedade

(1926d). Nos capítulos IV e VII desse trabalho, a fobia de lobos do paciente é comparada com a

fobia de cavalos analisada no caso do „Little Hans‟ (1909b). Finalmente, em um de seus últimos

artigos, „Análise Terminável e Interminável‟ (1937c), Freud fez alguns comentários críticos sobre a

inovação técnica de estabelecer um tempo-limite para o tratamento, o qual ele introduziu neste

caso, descrevendo-o ver em [1].

Aos olhos de Freud, o significado primário deste caso clínico na época da sua publicação

era claramente o apoio que proporcionava para as suas críticas a Adler e, mais especificamente, a

Jung. Havia ali evidência conclusiva para refutar qualquer negação da sexualidade infantil.

Todavia, muitos mais proveitos de alto valor surgiram do tratamento, embora uma parte deles já

tivesse sido dada a público no intervalo de quatro anos entre a elaboração do caso clínico e sua

publicação. Havia, por exemplo, a relação entre as „cenas primárias‟ e as „fantasias primitivas‟, que

conduziu diretamente ao obscuro problema da possibilidade de que o conteúdo mental da

fantasias primitivas pudesse ser herdado. Isso foi examinado na Conferência XXIII das

Conferências Introdutórias (1916-17), mas depois foi elaborado nos trechos adicionais das págs.

67 e 103 e segs. Outra vez, o notável material da Seção VII, que trata do erotismo anal do

paciente, foi utilizado por Freud em seu artigo „As Transformações do Instinto‟ (1917c), pág. 131,

adiante.

Ainda mais importante foi o esclarecimento dado pela presente análise sobre a primitiva

organização oral da libido, que em certa medida é discutida adiante, em [1] e [4]. A primeira

referência publicada de Freud a essa organização era a de um parágrafo acrescentado em 1915 à

terceira edição dos seus Três Ensaios (1905d), Edição Standard Brasileira, Vol. VII, pág. 204,

IMAGO Editora, 1972. O prefácio a essa terceira edição traz a data „Outubro de 1914‟ - exatamente

o mês durante o qual escrevia o artigo sobre o „Homem dos Lobos‟. Parece provável que o material

„canibalístico‟ revelado nessa análise tenha desempenhado um papel importante na preparação do

caminho para algumas das mais significativas das teorias de que Freud se ocupava nesse período:

as interconexões entre incorporação, identificação, a formação de um ideal do ego, o sentimento

de culpa e os estados patológicos de depressão. Algumas dessas teorias já haviam sido expressas

no último ensaio de Totem e Tabu (a redação deste caso clínico (Jones, 1955, 367).

Talvez a principal descoberta clínica seja a de revelar a evidência do papel determinante

desempenhado na neurose do paciente pelos seus impulsos femininos primários. Seu marcado

grau de bissexualidade era apenas a confirmação de pontos de vista há muito defendidos por

Freud, que datavam da época de sua amizade com Fliess. Nos seus escritos subseqüentes,

porém, Freud deu ainda mais ênfase ao fato da ocorrência universal da bissexualidade e da

existência de um complexo de Édipo „invertido‟ ou „negativo‟. Essa tese recebeu sua expressão

mais clara no trecho sobre o complexo de Édipo „completo‟, no capítulo III de O Ego e o Id (1923b).

Por outro lado, resiste com veemência a uma tentativa de inferência teórica no sentido de que os

escrito em meados de 1913) e no artigo sobre narcisismo (concluído em princípios de 1914).

Outras iriam aparecer em „Luto e Melancolia‟. Este último só foi publicado em 1917. Mas foi-lhe

dada forma final no começo de maio de 1915; e muitas das idéias que contém haviam sido

colocadas diante da Sociedade Psicanalítica de Viena, a 30 de dezembro de 1914, apenas

algumas semanas após motivos relacionados com a bissexualidade são os determinantes

invariáveis da repressão (ver em [1] e seg.) - problema a que Freud se referiu extensamente pouco

depois, em „Uma Criança é Espancada‟ (1919e), ver em [1] e segs., adiante.

Finalmente, talvez seja legítimo chamar a atenção para a extraordinária habilidade literária

com que Freud expôs o caso. Estava diante da tarefa pioneira de fornecer um relato científico de

eventos psicológicos de novidade e complexidade jamais sonhadas. O resultado é um trabalho que

não apenas evita os perigos de confusão e obscuridade, mas também prende a fascinada atenção

do leitor do princípio ao fim.

HISTÓRIA DE UMA NEUROSE INFANTIL

I - OBSERVAÇÕES INTRODUTÓRIAS

O caso que me proponho relatar nas páginas que se seguem (uma vez mais apenas de

maneira fragmentária) caracteriza-se por uma série de peculiaridades que outras pessoas quando

iniciou o seu tratamento psicanalítico, vários anos depois. Tivera uma vida mais ou menos normal

durante os dez anos que precederam a data de sua doença e cumpriu os estudos da escola

secundária sem muitos problemas. Seus primeiros anos de vida haviam, contudo, sido dominados

por um grave distúrbio neurótico, que começou imediatamente antes do seu quarto aniversário,

uma histeria de angústia (na forma de uma fobia animal), que se transformou então numa neurose

exigem ser enfatizadas antes que proceda a uma descrição dos próprios fatos. Diz respeito a um

jovem cuja saúde se abalara aos dezoito anos, depois de uma gonorréia infecciosa, e que se

encontrava inteiramente incapacitado e dependente deobsessiva de conteúdo religioso e perdurou,

com as suas manifestações, até os dez anos.

Apenas essa neurose infantil seria o objeto da minha comunicação. Apesar do pedido

direto do paciente, abstive-me de escrever um histórico completo da sua enfermidade, do

tratamento e da recuperação, porque reconheci que tal tarefa era tecnicamente impraticável e

socialmente impermissível. Ao mesmo tempo, isso afasta a possibilidade de demonstrar a relação

entre a sua doença na infância e a sua doença posterior e permanente. No que diz respeito a esta,

só posso dizer que, por causa dela, o paciente passou um longo período em sanatórios alemães, e

foi, na época, classificada pelos mais autorizados especialistas, como um caso de „insanidade

maníaco-depressiva‟. Esse diagnóstico era certamente aplicável ao pai do paciente, cuja vida, de

muitas atividades e interesses, foi perturbada por repetidos ataques de grave depressão. No filho,

porém, jamais consegui, durante uma observação que durou vários anos, detectar quaisquer

mudanças de ânimo que fossem desproporcionais à situação psicológica manifesta, tanto na

intensidade quanto nas circunstâncias do seu aparecimento. Formei a opinião de que este caso,

como muitos outros que a psiquiatria clínica rotulou com os mais multifários e variáveis

diagnósticos, deve ser considerado como uma condição que se segue a uma neurose obsessiva

que acabou espontaneamente, mas deixou por trás um defeito, após a recuperação.

Minha descrição tratará, portanto, de uma neurose infantil que foi analisada não enquanto

realmente existia, mas somente quinze anos depois de haver terminado. Esse estado de coisas

tem suas vantagens, bem como desvantagens, em comparação com a alternativa. Uma análise

conduzida sobre a própria criança neurótica deve normalmente parecer mais digna de confiança,

mas não pode ser muito rica em material; demasiadas palavras e pensamentos têm que ser

„emprestados‟ à criança, e ainda assim os estratos mais profundos podem tornar-se impenetráveis

para a consciência. Uma análise de um distúrbio da infância por meio da recordação de um adulto

intelectualmente maduro está livre dessas limitações; mas é preciso que levemos em conta a

distorção e a reelaboração às quais o passado de uma pessoa está sujeito, quando visto na

perspectiva de um período posterior. A primeira alternativa dá, talvez, resultados mais

convincentes; a segunda é, com sobras, a mais instrutiva.

Em qualquer caso, pode-se dizer que a análise de neuroses infantis possui um interesse

teórico particularmente alto. Proporciona-nos, por assim dizer, tanta ajuda no sentido de uma

compreensão adequada das neuroses dos adultos, quanto os sonhos infantis em relação aos

sonhos dos adultos. Não é que sejam, na verdade, mais perspícuos ou mais pobres de elementos;

de fato, a dificuldade de perceber o acesso à vida mental de uma criança, torna-a uma tarefa

particularmente difícil para o médico. Não obstante, por não haver ainda tantos dos depósitos

posteriores, a essência da neurose salta aos olhos com uma nitidez inequívoca. Na fase atual da

batalha que se desenrola à volta da psicanálise, a resistência às suas descobertas tomou, como

sabemos, uma nova forma. Antigamente as pessoas contentavam-se em discutir a realidade dos

fatos estabelecidos pela análise; e, para esse propósito, a melhor técnica parecia ser a de evitar

examiná-los. Esse procedimento parece estar-se exaurindo lentamente; e as pessoas adotam

agora outro plano - reconhecer os fatos, mas eliminar, por meio de interpretações torcidas, as

conseqüências que a eles se seguem, de modo que os críticos podem ainda resguardar-se das

novidades objetáveis tão eficientemente como antes. O estudo das neuroses infantis expõe a

completa inadequação dessas tentativas superficiais e arbitrárias de reinterpretação. Mostra o

papel predominante que é desempenhado na formação das neuroses por aquelas forças libidinais

tão impulsivamente rejeitadas, e revela a ausência de quaisquer aspirações no sentido de objetivos

culturais remotos, dos quais a criança nada sabe ainda e que não podem, portanto, ter qualquer

significado para ela.

Outra característica que torna a presente análise digna de nota está ligada à gravidade da

doença e à duração do tratamento. As análises que conduzem a uma conclusão favorável em

pouco tempo, são de valor para a auto-estima do terapeuta e para substanciar a importância

médica da psicanálise; mas permanecem em grande parte insignificantes no que diz respeito ao

progresso do conhecimento científico. Nada de novo se aprende com elas. Na verdade, apenas

são bem-sucedidas tão rapidamente, porque tudo o que era necessário para a sua realização já

era conhecido. A novidade só pode ser obtida de análises que apresentam especiais dificuldades,

e para que isso aconteça é necessário que a elas se dedique bastante tempo. Apenas em tais

casos conseguimos descer aos estratos mais profundos e mais primitivos do desenvolvimento

mental, e destes obter soluções para os problemas das formações posteriores. E depois disso,

sentimos que, estritamente falando, só uma análise que penetrou tão fundo merece esse nome.

Naturalmente, um único caso não nos dá toda a informação que gostaríamos de ter. Ou, melhor

dizendo, poderia ensinar-nos tudo, se estivéssemos numa posição de tudo compreender e se não

fôssemos compelidos pela inexperiência da nossa própria percepção a contentarmo-nos com

pouco.

No que diz respeito a essas férteis dificuldades, o caso que vou expor nada deixa a

desejar. Os primeiros anos do tratamento produziram escassas mudanças. Devido a uma

concatenação afortunada, todas as circunstâncias externas conjugaram-se, todavia, para tornar

possível proceder à experiência terapêutica. Acredito que em circunstâncias menos favoráveis o

tratamento teria sido abandonado depois de pouco tempo. Do ponto de vista médico, posso

apenas declarar que, num caso dessa natureza, devemos comportar-nos tão „atemporalmente‟

quanto o próprio inconsciente, se desejamos aprender ou conseguir alguma coisa. E, ao final, o

médico será bem-sucedido, se tiver força para renunciar a qualquer ambição terapêutica de pouca

visão. Não se deve esperar que a soma de paciência, adaptabilidade, compreensão interna

(insight) e confiança exigida do paciente e de seus parentes se apresente em muitos outros casos.

O analista, contudo, tem o direito de achar que os resultados que obteve de tão extenso trabalho,

num caso, ajudem substancialmente a reduzir a duração do tratamento em um caso subseqüente,

de igual gravidade, e que, ao submeter-se numa ocasião única à atemporalidade do inconsciente,

ele estará perto de dominá-lo no final.

O paciente a que me refiro aqui permaneceu muito tempo inexpugnavelmente

entrincheirado por trás de uma atitude de amável apatia. Escutava, compreendia e permanecia

inabordável. Sua indiscutível inteligência estava, assim, separada das forças instintuais que

governam seu comportamento nas poucas relações vitais que lhe restavam. Exigiu uma longa

educação induzi-lo a assumir uma parcela independente no trabalho; e quando, como resultado

desse esforço, começou pela primeira vez a sentir alívio, desistiu imediatamente de trabalhar, com

o objetivo de evitar quaisquer outras mudanças e de permanecer confortavelmente na situação que

fora assim estabelecida. Sua retração diante de uma existência auto-suficiente era tão grande que

excedia todas as aflições da sua doença. Só haveria um meio de superar isso. Fui obrigado a

esperar até que o seu afeiçoamento a mim se tornasse forte, o suficiente para contrabalançar essa

retração, e então jogar um fator contra o outro. Determinei - mas não antes que houvesse indícios

dignos de confiança que me levassem a julgar que chegara o momento certo - que o tratamento

seria concluído numa determinada data fixa, não importando o quanto houvesse progredido. Eu

estava resolvido a manter a data; e finalmente o paciente chegou à conclusão de que eu estava

falando sério. Sob a pressão inexorável desse limite fixado, sua resistência e sua fixação na

doença cederam e então, num período desproporcionalmente curto, a análise produziu todo o

material que tornou possível esclarecer as suas inibições e eliminar os seus sintomas. E também

toda a informação que me possibilitou compreender a sua neurose infantil nasceu dessa última

etapa do trabalho, durante a qual a resistência desapareceu temporariamente e o paciente dava a

impressão de uma lucidez que habitualmente só é obtida através da hipnose.

Desse modo, o curso deste tratamento ilustra uma máxima cuja verdade era há muito

apreciada na técnica da análise. A extensão da estrada pela qual a análise deve viajar com o

paciente e a quantidade de material que deve ser dominado pelo caminho não têm importância em

comparação com a resistência encontrada no decorrer do trabalho. Só têm importância na medida

em que são necessariamente proporcionais à resistência. A situação é a mesma de um exército

inimigo que precisa, hoje, de semanas e meses para abrir caminho através de uma região que, em

tempos de paz, seria atravessada em poucas horas por um expresso e que, pouco tempo antes,

fora transposta pelo exército defensor em alguns dias.

Uma terceira peculiaridade da análise, que será descrita nestas páginas, apenas aumentou

a minha dificuldade em decidir fazer dela um relato. No todo, os seus resultados coincidiram, da

maneira mais satisfatória, com o nosso conhecimento prévio, ou foram facilmente incorporados por

ele. Muitos detalhes, no entanto, pareceram-me tão extraordinários e incríveis, que senti alguma

hesitação em pedir a outras pessoas que acreditassem neles. Solicitei ao paciente que fizesse a

mais rigorosa crítica das suas recordações, mas ele nada achou de improvável em suas

afirmações e confirmou-as inteiramente. Em todo caso, os leitores podem ficar certos de que só

estou relatando o que surgiu como experiência independente, não influenciada pela minha

expectativa. De forma que nada mais me restou senão recordar a sábia sentença de que há mais

coisas no céu e na terra do que sonha a nossa filosofia. Qualquer um que pudesse conseguir

eliminar ainda mais completamente as suas convicções preexistentes, descobriria, sem dúvida,

ainda mais coisas como estas.

II - AVALIAÇÃO GERAL DO AMBIENTE DO PACIENTE E DO HISTÓRICO DO CASO

Sou incapaz de fornecer um relato puramente histórico ou puramente temático da história

do meu paciente; não posso escrever um histórico nem do tratamento nem da doença, mas

sinto-me obrigado a combinar os dois métodos de apresentação. É sabido que não se encontraram

meios de introduzir, de qualquer modo, na reprodução de uma análise o sentimento de convicção

que resulta da própria análise. Exaustivos relatórios textuais dos procedimentos adotados durante

as sessões não teriam certamente qualquer valia; e, de qualquer maneira, a técnica do tratamento

torna impossível elaborá-los. Assim, análises como esta não são publicadas com a finalidade de

produzir convicção nas mentes daqueles cuja atitude tenha sido, até então, de recusa e ceticismo.

A intenção é apenas a de apresentar alguns novos fatos a pesquisadores que já estejam

convencidos por suas próprias experiências clínicas.

Começarei, então, por fornecer um quadro do mundo da criança e por dizer tanto da

história da sua infância quanto poderia ser sabido sem qualquer esforço; na verdade, não foi senão

depois de vários anos que a história se tornou menos incompleta e obscura.

Os pais haviam casado jovens e mantinham ainda uma feliz vida em comum, sobre a qual

a doença em breve lançaria as primeiras sombras. A mãe começou a sofrer de distúrbios

abdominais e o pai teve seus primeiros ataques de depressão, que o levaram a ausentar-se de

casa. Naturalmente, o paciente só chegou a perceber a enfermidade do pai muito mais tarde, mas

tinha consciência da fraca saúde da mãe desde a mais tenra infância. Por conseguinte, ela tinha

relativamente pouco a ver com as crianças. Um dia, certamente antes de completar quatro anos,

enquanto a mãe saía para ver o médico e ele caminhava ao seu lado, segurando sua mão, ouviu-a

lamentar a sua condição. As palavras da mãe causaram nele profunda impressão, e ele mais tarde

aplicou-as a si mesmo (cf. pág. 85). Não era filho único; tinha uma irmã, aproximadamente dois

anos mais velha, vivaz, dotada, precocemente maliciosa, que iria desempenhar um importante

papel em sua vida.

Pelo que se podia lembrar, cuidava dele uma babá, uma velha sem instrução, de origem

camponesa, com uma incansável afeição por ele. O menino era uma espécie de substituto de seu

próprio filho, que morrera jovem. A família vivia numa granja e costumava passar o verão em outra.

Ambas as propriedades eram mais ou menos próximas de uma cidade grande. Houve uma ruptura

na sua infância quando os pais venderam as granjas e mudaram-se para a cidade. Os parentes

próximos costumavam visitá-los com freqüência, numa ou na outra granja - os irmãos do pai, as

irmãs da mãe com seus filhos, os avós maternos. Durante o verão os pais costumavam estar fora

por algumas semanas. Numa lembrança encobridora ele viu-se a si próprio com a babá olhando a

carruagem que se afastava com o pai, a mãe e a irmã, e depois voltando serenamente para dentro

de casa. Devia ser muito pequeno na ocasião. No verão seguinte, sua irmã também ficou em casa

e foi contratada uma governanta inglesa, que ficou responsável pelas crianças.

Anos mais tarde ele ouviu muitas histórias sobre a sua infância. Ele próprio sabia uma

porção, mas eram naturalmente desconexas no que respeita a data e assunto. Uma delas, que foi

repetida muitas e muitas vezes em sua presença, por ocasião da sua posterior enfermidade,

apresenta-nos o problema de cuja solução nos ocuparemos. Nos primeiros anos, parece ter sido

uma criança de muito boa índole, tratável, até mesmo tranqüila, de tal modo que costumavam dizer

que ele é que devia ter sido a menina, e sua irmã mais velha, o rapaz. Certa vez, porém, ao

regressarem das férias de verão, os pais encontraram-no transformado. Tornara-se inquieto,

irritável e violento. Ofendia-se por qualquer coisa e depois tomava-se de raiva e berrava como um

selvagem; de modo que, ao persistir esse estado de coisas, os pais expressaram as suas

apreensões quanto à possibilidade de enviá-lo mais tarde para uma escola. Isso aconteceu

durante o verão em que a governanta inglesa ficou com eles. Ocorria que esta era uma pessoa

excêntrica e irascível e, além do mais, viciada em bebida. A mãe do menino inclinou-se, portanto, a

atribuir a alteração no seu caráter à influência dessa inglesa, presumindo que ela o havia irritado

profundamente com o tratamento que lhe dispensava. A perspicaz avó, que passara o verão com

as crianças, era de opinião que a irritabilidade do menino fora provocada pelas discussões entre a

inglesa e a babá. A inglesa havia chamado a babá de bruxa, repetidas vezes, obrigando-a a sair da

sala; o menino tomara abertamente o partido da sua amada „Nanya‟ e demonstrara à governanta o

seu rancor. O que quer que tenha acontecido, a inglesa foi mandada embora pouco depois do

regresso dos pais, sem que tenha havido qualquer modificação conseqüente no insuportável

comportamento do menino.

O paciente preservara a sua lembrança desse período de desobediência. Conforme

recordava, fez a primeira das suas cenas num Natal, quando não lhe deram uma quantidade dupla

de presentes - o que lhe era devido, porque seu aniversário era no dia de Natal. Não poupou nem

mesmo a sua querida Nanya das suas malcriações e irritabilidade; atormentou-a, talvez, ainda

mais sem remorsos do que a qualquer outro. Mas a fase que trouxe consigo a sua mudança de

caráter estava inextrincavelmente ligada, na sua lembrança, com muitos outros fenômenos

estranhos e patológicos que ele não conseguia dispor em seqüência cronológica. Ele misturava

todos os incidentes que vou agora relatar (que não poderiam ter sido contemporâneos e que estão

cheios de contradições internas), num único e mesmo período de tempo, ao qual deu o nome de

„ainda na primeira granja‟. Achava que deviam ter saído dessa granja na época em que tinha cinco

anos de idade. Assim, recordava ele que havia sofrido um medo, que sua irmã explorava com o

propósito de atormentá-lo. Havia um determinado livro de figuras no qual estava representado um

lobo, de pé, dando largas passadas. Sempre que punha os olhos nessa figura começava a gritar,

como um louco, que tinha medo de que o lobo viesse e o comesse. A irmã, no entanto, sempre

dava um jeito de obrigá-lo a ver a imagem, e deleitava-se com o seu terror. Entretanto, ele se

amedrontava também com outros animais, grandes e pequenos. Certa vez estava correndo atrás

de uma grande e bonita borboleta, com asas listradas de amarelo e acabando em ponta, na

esperança de apanhá-la. (Era sem dúvida uma „rabo-de-andorinha‟.) De repente, foi tomado de um

terrível medo da criatura e, aos gritos, desistiu da caçada. Também sentia medo e repugnância dos

besouros e das lagartas. Ainda assim, conseguia lembrar-se de que, nessa mesma época,

costumava atormentar os besouros e cortar as lagartas em pedaços. Também os cavalos

despertavam nele um estranho sentimento. Se alguém batia num cavalo, ele começava a gritar, e

certa vez foi obrigado a sair de um circo por causa disso. Em outras ocasiões, ele próprio gostava

de bater em cavalos. Se esses tipos contraditórios de atitude em relação aos animais operaram, na

verdade, simultaneamente ou não, se uma atitude substituiu a outra, mas se assim foi, quando e

em que ordem - a todas essas perguntas sua memória não oferecia uma resposta decisiva.

Também não sabia dizer se o seu período de rebeldia foi substituído por uma fase de doença ou

se persistiu através desta. Mas, em todo caso, sua afirmações que se seguem justificam a

suposição de que, durante esses anos da sua infância, passou por um ataque de neurose

obsessiva, facilmente reconhecível. Relatou como, durante um longo período, ele foi muito devoto.

Antes de dormir era obrigado a rezar muito tempo e a fazer, em uma série interminável, o

sinal-da-cruz. Também à tarde costumava fazer uma ronda por todas as imagens sagradas

penduradas na sala, levando consigo uma cadeira sobre a qual subia para beijar piamente cada

uma delas. O que era totalmente destoante desse cerimonial devoto - ou, por outro lado, talvez

fosse bastante coerente - é que se recordasse de certos pensamentos, determinadas blasfêmias

que lhe vinha à cabeça como uma inspiração do diabo. Era obrigado a pensar „Deus-suíno‟ ou

„Deus-merda‟. Certa vez, em viagem para uma estância de repouso na Alemanha, foi atormentado

pela obsessão de ter que pensar na Santíssima Trindade sempre que via três montes de esterco

de cavalo ou qualquer outro excremento na estrada. Nessa época costumava executar outra

cerimônia peculiar quando via pessoas das quais sentia pena, como mendigos, aleijados ou gente

muito velha. Respirava soltando o ar ruidosamente, para que não ficasse como eles; e, em

determinadas circunstâncias, tinha que inspirar vigorosamente. Presumi naturalmente que esses

sintomas óbvios de uma neurose obsessiva pertenciam a um período e estádio de

desenvolvimento algo posterior aos sinais de ansiedade e à fase de maltratar os animais.

Os anos mais maduros do paciente foram marcados por uma relação bastante

insatisfatória com o pai, que, depois de repetidos ataques de depressão, não conseguia mais

ocultar os aspectos patológicos do seu caráter. Nos primeiros anos da infância do paciente essa

relação havia sido muito afetiva, e a recordação dela conservou-se em sua memória. O pai gostava

muito do menino, gostava de brincar com ele. Este se sentia orgulhoso do pai, dizia sempre que

gostaria de ser um cavalheiro como ele. A babá disse-lhe que a irmã era a criança da sua mãe,

mas ele era a do pai - e isso agradou-lhe bastante. Nos últimos anos da infância, no entanto,

houve um estranhamento entre ele e o pai. Este mostrava uma inequívoca preferência pela irmã, e

por isso sentiu-se muito desprezado. Mais tarde, o medo ao pai tornou-se o fator dominante.

Todos os fenômenos que o paciente associava com a fase da vida que começou com a

sua desobediência, desapareceram por volta dos oito anos. Não desapareceram de uma vez, e

ocasionalmente reapareciam; mas finalmente cederam, na opinião do paciente, diante da influência

dos mestres e tutores que tomaram o lugar das mulheres, que até então haviam cuidado dele.

Aqui, pois, em seu mais breve esboço, estão os enigmas para os quais a psicanálise teria de achar

uma solução. Qual foi a origem da súbita mudança no caráter do menino? Qual era o significado

da sua fobia e das suas perversidades? Como chegou a uma devoção obsessiva? E como se

inter-relacionavam todos esse fenômenos? Lembrarei uma vez mais o fato de que o nosso trabalho

terapêutico dizia respeito a uma doença neurótica subseqüente e recente, e só se poderiam

esclarecer esses problemas anteriores quando o curso da análise deixasse o presente por algum

tempo e nos forçasse a fazer um détour pelo período pré-histórico da infância.

III - A SEDUÇÃO E SUAS CONSEQÜÊNCIAS IMEDIATAS

É fácil compreender que a primeira suspeita recaiu sobre a governanta inglesa, pois a

mudança no menino surgiu quando ela lá estava. Duas lembranças encobridoras persistiram,

ambas incompreensíveis em si e relacionadas com a governanta. Em certa ocasião em que

caminhava adiante das crianças, disse: „Olhem o meu rabinho!‟ Outra vez, em que haviam saído

para dar uma volta de carro, o chapéu dela voou, para grande satisfação das duas crianças. Isso

apontou para o complexo de castração e permitiria uma construção segundo a qual uma ameaça

proferida por ela contra o menino fora amplamente responsável por originar a sua conduta

anormal. Não há qualquer perigo em comunicar construções dessa natureza à pessoa que está

sendo analisada; elas não prejudicam a análise, mesmo se são equivocadas; mas ao mesmo

tempo, não são colocadas a não ser que haja alguma perspectiva de alcançar uma aproximação

da verdade por meio delas. O primeiro efeito dessa suposição foi o aparecimento de alguns

sonhos, os quais não foi possível interpretar completamente, mas que pareciam todos

concentrar-se ao redor do mesmo material. Pelo que se podia compreender deles, diziam respeito

a ações agressivas por parte do menino contra a sua irmã ou contra a governanta, com enérgicas

reprovações e castigos por causa dessas ações. Era como se … após o banho dela … ele tivesse

tentado … despir a sua irmã … arrancar-lhe as roupas … ou véus - e assim por diante. Mas não foi

possível obter um conteúdo firme da interpretação; e de vez que esses sonhos davam a impressão

de operar sempre sobre o mesmo material em diferentes formas, a leitura correta dessas

reminiscências ostensivas tornou-se segura: só podia ser uma questão de fantasias que o paciente

havia elaborado sobre a sua infância numa ou noutra época, provavelmente na puberdade, e que

agora vinham outra vez à superfície sobre forma irreconhecível.

A explicação veio de uma só vez, quando o paciente se lembrou, de repente, de que,

quando era ainda muito pequeno, a irmã o induzira a práticas sexuais. Primeiro veio a lembrança

de que, no banheiro, que as crianças freqüentavam muitas vezes juntas, ela fez a seguinte

proposta: „Vamos mostrar os nossos traseiros‟, e passou das palavras à ação. Subseqüentemente

veio à luz a parte mais essencial da sedução, com todos os detalhes de tempo e lugar. Foi na

primavera, numa época em que o pai estava fora de casa; as crianças estavam brincando num

quarto do andar térreo, enquanto a mãe trabalhava numa sala ao lado. A irmã havia-lhe pegado no

pênis e brincava com ele, ao mesmo tempo em que lhe contava histórias incompreensíveis sobre a

babá, à guisa de explicação. A babá, dizia ela, costumava fazer o mesmo com toda a espécie de

gente - por exemplo, com o jardineiro: ela mantinha-lhe a cabeça em pé e então pegava-lhe nos

genitais.

Aí, então, estava a explicação das fantasias cuja existência já havíamos adivinhado.

Destinavam-se a apagar a lembrança de um evento que mais tarde pareceu ofensivo à auto-estima

masculina do paciente, e atingiram o objetivo colocando uma inversão imaginária e desejável em

lugar da verdade histórica. De acordo com essas fantasias, não era ele que havia desempenhado

um papel passivo em relação à irmã, mas, pelo contrário, fora agressivo, tentara vê-la despida, fora

rejeitado e punido, e iniciara, por essa razão, o comportamento colérico do qual a tradição familiar

tanto falava. Era também apropriado incluir a governanta nessa composição imaginativa, já que a

principal responsabilidade pelos seus acessos de ira foi a ela atribuída pela mãe e pela avó. Essas

fantasias, portanto, correspondiam exatamente às lendas por meio das quais uma nação que se

tornou grande e orgulhosa tenta esconder a insignificância e o fracasso dos seus primórdios.

A governanta pode, com efeito, ter sido apenas uma participação muito remota na sedução

e em suas conseqüências. As cenas com a irmã tiveram lugar no início do mesmo ano em que, no

auge do verão, a inglesa chegou para tomar o lugar dos pais ausentes. A hostilidade do menino

para com a governanta veio à tona, entretanto, por outra via. Ao abusar da babá e maldizê-la como

bruxa, ela estava seguindo, aos seus olhos, os passos da irmã, que lhe contara primeiro histórias

tão monstruosas sobre a babá; e, desse modo, ela deu-lhe oportunidade de expressar

abertamente contra ela própria a aversão que, como ouviremos, ele havia desenvolvido contra a

irmã, como resultado da sua sedução.

Mas essa sedução pela irmã não foi certamente uma fantasia. Sua credibilidade aumentou

com certa informação que jamais foi esquecida e que datava de um período posterior da sua vida,

quando já estava crescido. Um primo, que tinha pelo menos dez anos mais do que ele, contou-lhe,

numa conversa sobre a irmã, que se lembrava muito bem o quão precoce e sensual a menininha

fora: uma vez, quando ela tinha apenas quatro ou cinco anos, sentara-se no colo do primo e

abrira-lhe as calças para pegar-lhe no pênis.

Neste ponto eu gostaria de interromper a história da infância do meu paciente e dizer algo

sobre essa irmã, sobre o seu crescimento e os fatos posteriores de sua vida, e sobre a influência

que tinha sobre ele. Ela era dois anos mais velha e esteve sempre à sua frente em tudo. Quando

criança era intratável e comportava-se como um menino, mas depois ingressou numa brilhante

fase intelectual e distinguiu-se por suas agudas e realistas faculdades mentais; nos estudos

inclinou-se para as ciências naturais, mas produziu também textos criativos tidos em alta conta

pelo pai. Era mentalmente muito superior aos seus numerosos admiradores prematuros e

costumava fazer piada às suas custas. Pouco depois dos vinte anos, no entanto, começou a ficar

deprimida, queixando-se de que não era bonita o bastante, e afastou-se do convívio social.

Realizou uma viagem na companhia de uma conhecida, uma senhora mais velha, e, ao regressar,

contou uma série de histórias bastante improváveis de como fora maltratada pela companheira,

permanecendo, porém, com uma afeição obviamente fixada em sua suposta atormentadora. Pouco

depois, ao fazer uma segunda viagem, envenenou-se e morreu bem longe de casa. Seu distúrbio

deve provavelmente ser considerado como o início de uma demência precoce. Ela foi uma das

provas da hereditariedade visivelmente neuropática na família, mas de forma alguma a única. Um

tio, irmão de seu pai, morreu depois de longos anos de vida excêntrica, com indícios que

apontavam a presença de uma grave neurose obsessiva; além disso, um bom número de parentes

colaterais eram, e são, afligidos por distúrbios nervosos menos sérios.

Independente do problema da sedução, o nosso paciente, quando criança, encontrou na

irmã um competidor inconveniente no bom conceito dos pais e sentiu-se bastante oprimido pela

sua impiedosa ostentação de superioridade. Mais tarde, invejava especialmente o respeito que o

pai demonstrava pela capacidade mental e realizações intelectuais da irmã, ao passo que ele,

intelectualmente inibido como estava desde a sua neurose obsessiva, tinha que contentar-se com

uma estima em menor grau. A partir dos seus quatorze anos, as relações entre irmão e irmã

começaram a melhorar; uma disposição mental semelhante e uma oposição comum aos pais

aproximaram-nos tanto, que se tornaram os melhores amigos. Durante a tempestuosa excitação

sexual da sua puberdade, ele se arriscou a uma tentativa de aproximação física mais íntima. Ela

repudiou-o com tanta decisão quanto sagacidade, e ele se voltou imediatamente para uma

camponesinha que servia na casa e tinha o mesmo nome da irmã. Ao fazê-lo, estava dando um

passo que teve uma influência determinante na sua escolha de objeto heterossexual, pois todas as

garotas pelas quais se apaixonou em seguida - muitas vezes com os mais claros indícios de

compulsão - eram também criadas, cuja educação e inteligência estavam necessariamente muito

abaixo da sua. Se todos esses objetos de amor eram substitutos para a figura da irmã a quem

tinha que renunciar, então não pode ser negado que uma intenção de rebaixar a irmã e de pôr fim

à sua superioridade intelectual, que se mostrara para ele tão opressiva, havia obtido o controle

decisivo sobre a sua escolha de objeto.

A conduta sexual humana, assim como tudo o mais, foi subordinada por Alfred Adler a

forças de motivo dessa natureza, que se originam da vontade de poder, do instinto auto-afirmativo

do indivíduo. Sem negar a importância desses motivos de poder e prerrogativa, jamais me

convenci de que desempenham o papel dominante e exclusivo que lhes foi atribuído. Se eu não

tivesse seguido a análise do meu paciente até o fim, teria sido obrigado, por conta da minha

observação desse caso, a corrigir a minha opinião preconcebida numa direção favorável a Adler .

A conclusão da análise trouxe inesperadamente novo material que, pelo contrário, demonstrou que

esses motivos de poder (nesse caso, a intenção de rebaixar) haviam determinado a escolha de

objeto apenas no sentido de servir como uma causa contribuinte e como uma racionalização, ao

passo que a verdadeira determinação subjacente possibilitou-me manter as minhas antigas

convicções.

Quando chegou a notícia da morte da irmã, conforme relatou o paciente, ele mal sentiu

qualquer sinal de dor. Teve que se esforçar para mostrar sinais de tristeza, e pôde rejubilar-se um

tanto friamente por haver-se tornado então o único herdeiro da propriedade. Quando isso ocorreu,

já sofria há vários anos da sua doença mais recente. Mas devo confessar que esse dado da

informação introduziu, durante algum tempo, alguma incerteza ao meu diagnóstico do caso.

Presumir-se-ia, sem dúvida, que a sua dor quanto à perda do mais amado membro da sua família

encontraria uma inibição em sua expressão, como resultado da operação contínua do seu ciúme

em relação a ela, somada à presença do seu amor incestuoso, que então se tornara inconsciente.

Eu não podia, contudo, compreender que não tivesse havido algum substituto para as

manifestações de pesar que faltaram. O que foi, afinal, encontrado numa outra expressão de

sentimento que permanecera inexplicável para o paciente. Alguns meses após a morte da irmã, ele

próprio fez uma viagem às imediações do lugar em que ela havia morrido. Ali procurou o túmulo de

um grande poeta, que na época era o seu ideal, e derramou lágrimas amargas sobre a sua tumba.

Essa reação pareceu estranha a si mesmo, pois sabia que mais de duas gerações se haviam

passado desde a morte do poeta que admirava. Só entendeu quando se lembrou que o pai tinha o

hábito de comparar os trabalhos da irmã morta com os do grande poeta. Deu-me outra indicação

da forma correta de interpretar a homenagem que prestara ostensivamente ao poeta, por um erro

na sua história, que consegui detectar nesse ponto. Antes, ele especificara repetidamente que a

irmã havia-se matado com um tiro; mas foi então obrigado a fazer uma correção e dizer que ela

tomara veneno. O poeta, no entanto, fora morto a tiros num duelo.

Volto agora à história do irmão, mas deste ponto em diante devo prosseguir um pouco

sobre as linhas temáticas. A idade do menino na época em que a sua irmã iniciou a sedução era

de três anos e três meses. Aconteceu, como já foi mencionado, na primavera do mesmo ano em

cujo verão chegou a governanta inglesa, e em cujo outono os pais, ao regressarem,

encontraram-no tão fundamentalmente alterado. É muito natural, então, relacionar essa

transformação com o despertar da sua atividade sexual que havia entrementes ocorrido.

Como reagiu o menino às tentações de sua irmã mais velha? Por uma recusa, é a

resposta, mas por uma recusa que se aplicava à pessoa, e não à coisa em si. A irmã não lhe

agradava como objeto sexual, provavelmente porque seu relacionamento com ela já fora

determinado numa direção hostil, devido à rivalidade no amor dos pais. Ele manteve-se distante da

irmã e, além disso, as solicitações desta logo cessaram. Contudo, ele tentou ganhar, em vez dela,

outra pessoa de quem gostava; e a informação que sua própria irmã lhe dera, na qual proclamara

a sua Nanya como modelo, dirigiu sua escolha nessa direção. Começou, portanto, a brincar com o

pênis na presença da babá, e isso, como muitos outros exemplos nos quais as crianças não

escondem a sua masturbação, deve ser considerado como uma tentativa de sedução. A babá

desiludiu-o; fez uma cara séria e explicou que aquilo não era bom; as crianças que o faziam,

acrescentou, ficavam com uma „ferida‟ no lugar.

O efeito dessa informação, que equivalia a uma ameaça, pode ser reconhecido em várias

direções. Em conseqüência dela, diminuiu a sua dependência da babá. Pode muito bem ter-se

zangado com ela; e mais tarde, quando se manifestaram os seus acessos de ira, tornou-se claro

que realmente estava amargurado com ela. Mas era característico dele que cada posição da libido,

que era obrigado a abandonar, era, a princípio, obstinadamente defendida por ele contra o novo

desenvolvimento. Quando a governanta entrou em cena e abusou da sua Nanya, expulsando-a da

sala e tentando destruir uma autoridade, ele, pelo contrário, exagerou o seu amor pela vítima

desses ataques e assumiu uma atitude brusca e desafiadora em relação à agressiva governanta.

Não obstante, começou em segredo a procurar outro objeto sexual. Sua sedução dera-lhe o

desígnio sexual passivo de ser tocado nos genitais; saberemos agora em relação a quem foi que

ele tentou satisfazer esse desígnio e que caminhos o levaram a essa escolha.

Concorda inteiramente com as nossas previsões o fato de sabermos que, após as suas

primeiras excitações genitais, iniciou-se a sua busca sexual, e que logo chegou ao problema da

castração. Nessa época conseguiu observar duas meninas - a irmã e uma amiga dela - enquanto

urinavam. Sua sagacidade pode muito bem ter-lhe permitido deduzir os verdadeiros fatos desse

espetáculo, mas comportou-se como sabemos que se comportam outras crianças do sexo

masculino nessas circunstâncias. Rejeitou a idéia de que via diante dele uma confirmação da

ferida com a qual a babá o ameaçara e explicou a si mesmo que aquilo era o „traseiro frontal‟ das

meninas. O tema da castração não se estabeleceu por essa decisão; encontrou novas alusões a

ele em tudo o que ouvia. Certa vez em que as crianças ganharam uns confeitos coloridos em forma

de bastão, a governanta, que era propensa a fantasias desordenadas, disse que eram pedaços de

cobra cortada. Ele lembrou-se, depois, de que o pai encontrara uma vez uma cobra, ao caminhar

por uma picada, e a fizera em pedaços com uma vara. Ouviu a história (tirada de Reynard the Fox),

lida em voz alta, de como o lobo queria pescar no inverno e usou a cauda como isca, e como,

dessa maneira, o rabo do lobo se congelou e partiu. Aprendeu os diferentes nomes pelos quais se

distinguem os cavalos, conforme estejam ou não intactos os seus órgãos sexuais. Assim,

ocupava-se com pensamentos sobre a castração, mas ainda não acreditava nela, nem a temia.

Outros problemas sexuais surgiram para ele nos contos de fadas com que se havia familiarizado

nessa época. No „Chapeuzinho Vermelho‟ e em „Os Sete Cabritinhos‟, as crianças eram tiradas do

corpo do lobo. Seria o lobo uma criatura feminina, então, ou poderiam os homens ter também

crianças dentro do corpo? Nessa época, a questão não se colocara ainda. Mais que isso, na época

dessas perguntas ele não tinha ainda medo de lobos.

Uma das informações do paciente tornará mais fácil para nós compreender a alteração do

seu caráter, a qual apareceu durante a ausência dos pais como uma conseqüência um tanto

indireta da sua sedução. Ele disse que abandonou a masturbação pouco depois da recusa e

ameaça da sua Nanya. Sua vida sexual, portanto, que estava começando a surgir sob a influência

da zona genital, cedeu ante um obstáculo externo e foi, por influência deste, lançada de volta a

uma fase anterior de organização pré-genital. Como resultado da supressão da masturbação, a

vida sexual do menino assumiu um caráter anal-sádico. Tornou-se um menino irritável, um

atormentador, e gratificava-se dessa forma às custas de animais e seres humanos. O principal

objeto era a sua amada Nanya, e ele sabia como atormentá-la até que ela rompesse em lágrimas.

Desse modo vingava-se nela pela recusa que encontrara e, ao mesmo tempo, gratificava a sua

lascívia sexual na forma que correspondia à sua presente fase regressiva. Começou a mostrar-se

cruel com os pequenos animais, apanhando moscas e arrancando-lhes as asas, esmagando

besouros com os pés; em sua imaginação, gostava também de bater em animais maiores

(cavalos). Todos esses, então, eram procedimentos ativos e sádicos; discutiremos os seus

impulsos anais desse período numa ligação posterior.

É fato da maior importância que algumas fantasias contemporâneas de natureza bem

diferente tenham brotado também da memória do paciente. O conteúdo dessas fantasias era o de

meninos sendo castigados e surrados e, especialmente, levando pancadas no pênis. E, de outras

fantasias, que representavam o herdeiro do trono sendo encerrado num quarto estreito e surrado,

era fácil adivinhar para quem era que as figuras anônimas serviam de bode expiatório. O herdeiro

do trono era evidentemente ele próprio; seu sadismo havia-se convertido, portanto, em fantasia

contra si mesmo e transformara-se em masoquismo. O detalhe do próprio órgão sexual recebendo

as pancadas justificava a conclusão de que um sentimento de culpa, que se relacionava com a sua

masturbação, estava já envolvido nessa transformação.

A análise não deixou dúvidas de que essas tendências passivas haviam aparecido ao

mesmo tempo em que surgiam as sádico-ativas, ou muito pouco tempo após estas. Isso estava de

acordo com a extremamente clara, intensa e constante ambivalência do paciente, que era

mostrada aqui, pela primeira vez, no desenvolvimento uniforme de ambos os membros dos pares

de instintos componentes contrários. Tal comportamento era também característico da sua vida

posterior, como também o era este outro traço: nenhuma posição da libido que fora antes

estabelecida, era, jamais, completamente substituída por uma posterior. Era antes deixada em

coexistência com todas as outras e isso permitia-lhe manter uma vacilação incessante, que se

mostrou incompatível com a aquisição de um caráter estável.

As tendências masoquistas do menino conduzem a outro problema, que até agora evitei

mencionar, porque só pode ser confirmado mediante a análise da fase subseqüente do seu

desenvolvimento. Já mencionei que, após haver sido rejeitado pela babá, a sua expectativa

libidinal afastou-se dela e começou a contemplar outra pessoa como objeto sexual. Essa pessoa

era o pai, nessa época longe de casa. Foi sem dúvida levado a essa escolha por uma série de

fatores convergentes, inclusive alguns tão fortuitos como a recordação da cobra sendo cortada em

pedaços; ademais de tudo, porém, permitia-se, desse modo, renovar a sua primeira e mais

primitiva escolha objetal, que, em conformidade com o narcisismo de uma criança, havia ocorrido

ao longo do caminho da identificação. Já sabemos que o pai fora o seu modelo admirado, e que,

quando lhe perguntavam o que queria ser, costumava responder: um cavalheiro como o papai.

Esse objeto de identificação da sua corrente ativa tornou-se o objeto sexual de uma corrente

passiva na sua fase sádico-anal. Era como se a sua sedução pela irmã o houvesse forçado a um

papel passivo, dando-lhe um objetivo sexual passivo. Sob a persistente influência dessa

experiência, seguiu um caminho da irmã, via babá, para o pai - de uma atitude passiva em relação

às mulheres para a mesma atitude em relação aos homens -, e encontrou, todavia, por esse meio,

uma ligação com uma fase mais prematura e espontânea do seu desenvolvimento. O pai era agora

uma vez mais o seu objeto; em conformidade com o seu estádio mais alto de desenvolvimento, a

identificação foi substituída pela escolha objetal; ao passo que a transformação da atitude ativa em

passiva era a conseqüência e o registro da sedução que entretanto ocorrera. Naturalmente não

teria sido tão fácil alcançar, na fase sádica, uma atitude ativa em relação ao seu todo-poderoso pai.

Quando este voltou para casa no fim do verão ou no outono, os acessos de raiva e as cenas de

fúria do paciente encontraram um novo uso. Haviam servido para fins sádico-ativos em relação à

babá; em relação ao pai, o propósito era masoquista. Levando avante a sua rebeldia, estava

tentando forçar castigos e espancamentos por parte do pai, e dessa forma obter dele a satisfação

sexual masoquista que desejava. Os seus ataques e gritos eram, portanto, simples tentativas de

sedução. Ademais, de acordo com os motivos subjacentes ao masoquismo, esse espancamento

satisfaria também o seu sentimento de culpa. Havia preservado a lembrança de como, durante

uma dessas cenas de raiva, redobrara os gritos no momento em que o pai foi em sua direção. O

pai não lhe bateu, no entanto, mas tentou pacificá-lo brincando na frente dele com os travesseiros

da sua cama.

Não sei com que freqüência os pais e educadores, defrontando-se com mau

comportamento inexplicável por parte de uma criança, possam não ter ocasião de conservar na

lembrança esse típico estado de coisas. Uma criança que se comporta de forma indócil está

fazendo uma confissão e tentando provocar um castigo. Espera por uma surra como um meio de

simultaneamente pacificar seu sentimento de culpa e de satisfazer sua tendência sexual

masoquista.

Devemos a explicação adicional do caso a uma recordação que emergiu distintamente. Os

sinais de uma alteração no caráter do paciente não foram acompanhados por quaisquer sintomas

de ansiedade até depois da ocorrência de um determinado evento. Anteriormente, parece, não

havia ansiedade, ao passo que, imediatamente após o evento, a ansiedade expressou-se da forma

mais atormentadora. A data dessa transformação pode ser fixada com precisão; foi imediatamente

antes do seu quarto aniversário. Tomando o fato como um ponto fixo, podemos dividir o período da

sua infância, com o qual estamos lidando, em duas fases: uma primeira fase de mau

comportamento e perversidade, desde a sua sedução, aos três anos e três meses, até o seu

quarto aniversário; e uma fase subseqüente, mais longa, na qual predominaram os sinais de

neurose. O evento que torna possível essa divisão não foi, contudo, um trauma externo, e sim um

sonho, do qual acordou em estado de ansiedade.

IV - O SONHO E A CENA PRIMÁRIA

Já publiquei alhures este sonho, por causa da quantidade de material que nele ocorre

derivado de contos de fadas; e começarei repetindo o que escrevi naquela ocasião:

„“Sonhei que era noite e que eu estava deitado na cama. (Meu leito tem o pé da cama

voltado para a janela: em frente da janela havia uma fileira de velhas nogueiras. Sei que era

inverno quando tive o sonho, e de noite.) De repente, a janela abriu-se sozinha e fiquei aterrorizado

ao ver que alguns lobos brancos estavam sentados na grande nogueira em frente da janela. Havia

seis ou sete deles. Os lobos eram muito brancos e pareciam-se mais com raposas ou cães

pastores, pois tinham caudas grandes, como as raposas, e orelhas empinadas, como cães quando

prestam atenção a algo. Com grande terror, evidentemente de ser comido pelos lobos, gritei e

acordei. Minha babá correu até minha cama, para ver o que me havia acontecido. Levou muito

tempo até que me convencesse de que fora apenas um sonho; tivera uma imagem tão clara e

vívida da janela a abrir-se e dos lobos sentados na árvore. Por fim acalmei-me, senti-me como se

houvesse escapado de algum perigo e voltei a dormir.

„“A única ação no sonho foi a abertura da janela, pois os lobos estavam sentados muito

quietos e sem fazer nenhum movimento sobre os ramos da árvore, à direta e à esquerda do

tronco, e olhavam para mim. Era como se tivessem fixado toda a atenção sobre mim. - Acho que

foi meu primeiro sonho de ansiedade. Tinha três, quatro, ou, no máximo, cinco anos de idade na

ocasião. Desde então, até contar onze ou doze anos, sempre tive medo de ver algo terrível em

meus sonhos.”‟

„Ele acrescentou um desenho da árvore com os lobos, que confirmava sua descrição (Fig.

1). A análise do sonho trouxe à luz o seguinte material.

„Sempre vinculara este sonho à recordação de que, durante esses anos de infância, tinha

um medo tremendo da figura de um lobo num livro de contos de fadas. Sua irmã mais velha, que

lhe era superior, costumava apoquentá-lo segurando esta figura específica na sua frente, sob

qualquer pretexto, para que ele ficasse aterrorizado e começasse a gritar. Na figura, o

lobo achava-se ereto, dando um passo com uma das patas, com as garras estendidas e as

orelhas empinadas. Achava que a figura deveria ter sido uma ilustração da história do

“Chapeuzinho Vermelho”.

„Por que os lobos eram brancos? Isto fê-lo pensar nas ovelhas, grandes rebanhos das

quais eram mantidos nas vizinhanças da propriedade. O pai ocasionalmente o levava a visitar

esses rebanhos e, todas as vezes que isso acontecia, ele se sentia muito orgulhoso e feliz.

Posteriormente - segundo indagações feitas, pode facilmente ter sido pouco antes da época do

sonho - irrompeu uma epidemia entre as ovelhas. O pai mandou buscar um seguidor de Pasteur,

que vacinou os animais, mas após a inoculação morreram ainda mais delas que antes.

„Como os lobos apareceram na árvore? Isto fê-lo lembrar-se de uma história que ouvira o

avô contar. Não podia recordar-se se fora antes ou depois do sonho, mas seu assunto constitui

argumento decisivo em favor da primeira opinião. A história dizia assim: um alfaiate estava sentado

trabalhando em seu quarto, quando a janela se abriu e um lobo pulou para dentro. O alfaiate

perseguiu-o com seu bastão - não (corrigiu-se), apanhou-o pela cauda e arrancou-a fora, de modo

que o lobo fugiu correndo, aterrorizado. Algum tempo mais tarde, o alfaiate foi até a floresta e

subitamente viu uma alcatéia de lobos vindo em sua direção; então trepou numa árvore para

fugir-lhes. A princípio, os lobos ficaram perplexos; mas o aleijado, que se achava entre eles e

queria vingar-se do alfaiate, propôs que trepassem uns sobre os outros, até que o último pudesse

apanhá-lo. Ele próprio - tratava-se de um animal velho e vigoroso - ficaria na base da pirâmide. Os

lobos fizeram como ele sugerira, mas o alfaiate reconhecera o visitante a que havia castigado e de

repente gritou, como fizera antes: “Apanhem o cinzento pela cauda!” O lobo sem rabo, aterrorizado

pela recordação, correu, e todos os outros desmoronaram.

„Nesta história aparece a árvore sobre a qual os lobos se achavam sentados no sonho;

mas ela contém também uma alusão inequívoca ao complexo de castração. O lobo velho tivera a

cauda arrancada pelo alfaiate. As caudas de raposa dos lobos do sonho eram provavelmente

compensações por esta falta de cauda.

„Por que havia seis ou sete lobos? Não parecia haver resposta para esta pergunta, até eu

levantar uma dúvida sobre saber se a figura que o assustava estava vinculada à história de

“Chapeuzinho Vermelho”. Este conto de fadas só oferece oportunidade para duas ilustrações -

Chapeuzinho Vermelho encontrando-se com o lobo na floresta e a cena em que o lobo se deita na

cama, com o barrete de dormir da avó. Teria de haver, portanto, algum outro conto de fadas por

trás de sua recordação da figura. Ele logo descobriu que só podia ser a história de “O Lobo e os

Sete Cabritinhos”. Nesta, ocorre o número sete, e também o número seis, pois o lobo só comeu

seis dos cabritinhos, enquanto que o sétimo se escondeu na caixa do relógio. O branco também

nela aparece, pois o lobo fizera branquear sua pata no padeiro, após os cabritinhos haverem-no

reconhecido, em sua primeira visita, pela pata cinzenta. Além disso, os dois contos de fadas

possuem muito em comum. Em ambos existe o comer, a abertura da barriga, a retirada das

pessoas que haviam sido comidas e sua substituição por pesadas pedras, e, finalmente, em

ambas o lobo mau perece. Além disso tudo, na história dos cabritinhos aparece a árvore. O lobo

deitou-se sob uma árvore, após a refeição, e roncou.

„Por uma razão especial, terei de tratar deste sonho novamente alhures, interpretá-lo e

julgar sua significação com maiores pormenores; pois ele é o mais antigo sonho de ansiedade que

o jovem que sonhou recordou de sua infância, e seu conteúdo, tomado juntamente com outros

sonhos que o seguiram pouco após e com certos acontecimentos de seus primeiros anos de vida,

é de interesse muito especial. Temos de limitar-nos aqui à relação do sonho com os dois contos de

fadas que têm tanto em comum um com o outro. “Chapeuzinho Vermelho” e “O Lobo e os Sete

Cabritinhos”. O efeito produzido por estas histórias foi demonstrado no pequeno que as sonhou

mediante uma fobia animal comum. Esta fobia só se distinguia de outros casos semelhantes pelo

fato de o animal causador da ansiedade não ser um objeto facilmente acessível à observação (tal

como um cavalo ou um cão), mas conhecido dele somente de histórias e livros de figuras.

„Examinarei em outra ocasião a explicação destas fobias animais e a significação que se

lhes atribui. Observarei apenas, por antecipação, que essa explicação acha-se em completa

harmonia com a característica principal apresentada pela neurose de que o atual sonhador

padeceu mais tarde na vida. Seu medo do pai era o motivo mais forte para ele cair doente e sua

atitude ambivalente em relação a todo representante paterno foi o aspecto dominante de sua vida,

assim como de seu comportamento durante o tratamento.

„Se, no caso de meu paciente, o lobo foi simplesmente um primeiro representante paterno,

surge a questão de saber se o conteúdo oculto nos contos de fadas do lobo que comeu os

cabritinhos e de “Chapeuzinho Vermelho” não pode ser simplesmente um medo infantil do pai.

Além disso, o pai de meu paciente tinha a característica, apresentada por tantas pessoas em

relação aos filhos, de permitir-se “ameaças afetuosas”; e é possível que, durante os primeiros anos

do paciente, o pai (embora se tornasse severo mais tarde) pudesse, mais de uma vez enquanto

acariciava o menininho ou com ele brincava, tê-lo ameaçando por brincadeira “de engoli-lo”. Uma

de minhas pacientes contou-me que seus dois filhos nunca puderam chegar a gostar do avô,

porque, no decurso de seus ruidosos e afetuosos brinquedos, com eles, costumava assustá-los

dizendo que lhes cortaria as barrigas.‟

Deixando de lado, nessa citação, tudo o que antecipa as implicações mais remotas do

sonho, voltemos à sua interpretação imediata. Poderia dizer que essa interpretação foi uma tarefa

que se arrastou por vários anos. O paciente relatou o sonho numa etapa muito prematura da

análise e em breve compartilhava a minha convicção de que as causas da sua neurose infantil

ocultavam-se por trás dele. No decorrer do tratamento voltamos com freqüência ao sonho, mas foi

somente durante os últimos meses da análise que se tornou possível compreendê-lo

completamente, e mesmo assim graças a um trabalho espontâneo por parte do paciente. Ele

enfatizara sempre o fato de que dois fatores no sonho haviam-lhe causado a maior impressão:

primeiro, a perfeita quietude e imobilidade dos lobos e, segundo, a atenção com que todos

olhavam para ele. A sensação duradoura de realidade que o sonho deixou após o despertar,

parecia-lhe também um fator digno de nota.

Tomemos essa última observação como ponto de partida. Sabemos por nossa experiência

na interpretação de sonhos que essa sensação de realidade traz consigo um significado particular.

Isso certifica-nos que determinada parte do material latente do sonho reivindica, na memória do

sonhador, possuir a qualidade de realidade, isto é, que o sonho relaciona-se com uma ocorrência

que realmente teve lugar e não foi simplesmente imaginada. Pode naturalmente ser apenas uma

questão da realidade de algo desconhecido; por exemplo, a convicção de que o avô realmente lhe

contou a história do alfaiate e do lobo, ou de que as histórias do „Chapeuzinho Vermelho‟ e dos

„Sete Cabritinhos‟ foram realmente lidas em voz alta para ele, não seria de uma natureza a ser

substituída por essa sensação de realidade que sobreviveu ao sonho. O sonho parece apontar

para uma ocorrência cuja realidade foi intensamente enfatizada como estando em marcado

contraste com a irrealidade dos contos de fadas.

Se se devia presumir que por trás do conteúdo do sonho havia alguma cena desconhecida

- ou seja, uma cena que já fora esquecida na época do sonho -, esta então deveria ter ocorrido

muito prematuramente. Lembremo-nos de que o paciente disse: „Tinha três, quatro, ou, no máximo,

cinco anos de idade na ocasião em que tive o sonho.‟ E podemos acrescentar: „E o sonho fez-me

lembrar de algo que deve ter pertencido a um período ainda mais remoto.‟

As partes do conteúdo manifesto do sonho que foram destacadas pelo paciente, os fatores

do olhar atento dos lobos e da sua imobilidade, devem conduzir ao conteúdo dessa cena.

Devemos naturalmente esperar descobrir que esse material reproduz o material desconhecido da

cena de algum modo deformado, talvez mesmo deformado para o seu oposto.

Havia também diversas conclusões a serem extraídas da matéria-prima que fora produzida

pela primeira análise do sonho, feita pelo paciente, e estas teriam que se ajustar à colocação que

estávamos buscando. Por trás da menção à criação de ovelhas, seria de esperar uma evidência da

sua busca sexual, o interesse que ele estava apto a gratificar durante as visitas ao rebanho com o

pai; mas deve ter havido também alusões a um medo da morte, de vez que a maioria das ovelhas

morrera da epidemia. O fator mais importuno no sonho, os lobos em cima da árvore, levou

diretamente à história do avô; e o que era mais fascinante nessa história e capaz de provocar o

sonho não podia ter sido outra coisa senão sua relação com o tema da castração.

Concluímos também, da primeira análise incompleta do sonho, que o lobo pode ter sido

um substituto do pai; de tal modo que, nesse caso, esse primeiro sonho de ansiedade teria trazido

à tona o temor ao pai, que a partir dessa época iria dominar a sua vida. Essa conclusão, na

verdade, não era, em si, ainda consistente. Mas se lhe juntamos, como resultado da análise

provisória, o que pode ser deduzido do material produzido pelo sonhador, encontramos então

diante de nós, para reconstrução, fragmentos como estes:

Uma ocorrência real - datando de um períodomuito prematuro - olhar - imobilidade -

problemas sexuais - castração - o pai - algo terrível.

Certo dia o paciente prosseguiu na interpretação do sonho. Achava que a parte do sonho

onde „de repente, a janela abriu-se sozinha‟ não estava completamente explicada pela sua relação

com a janela em frente à qual o alfaiate estava sentado e através da qual o lobo penetrou na sala.

„Deve significar: “Meus olhos abriram-se de repente.” Eu estava dormindo, portanto, e subitamente

acordei, e no momento em que o fiz, vi algo: a árvore com os lobos.‟ Nenhuma objeção poderia ser

feita a isso; mas o problema poderia ser ainda mais desenvolvido. Ele acordara e vira alguma

coisa. O olhar atento, que no sonho fora atribuído aos lobos, deveria, antes, ser atribuído a ele.

Num ponto decisivo, portanto, havia ocorrido uma transposição; e, ademais, isso é indicado por

uma outra transposição no conteúdo manifesto do sonho. Pois o fato de que os lobos estavam

sentados na árvore era também uma transposição, por quanto na história contada pelo avô eles

estavam embaixo e não conseguiram subir na árvore.

O que seria, então, se o outro fator enfatizado pelo paciente era também distorcido por

meio de uma transposição ou inversão? Nesse caso, em vez de imobilidade (os lobos não tinham

movimento; olhavam para ele, mas não se mexiam) o significado teria de ser: o mais violento

movimento. Ou seja, ele acordou de repente e viu à sua frente uma cena de movimento violento,

para a qual olhou tensa e atentamente. No primeiro caso a distorção consistiria num intercâmbio

de sujeito e objeto, de atividade e passividade: ser olhado em vez de olhar. No outro caso

consistiria em transformação no oposto; imobilidade em lugar de movimento.

Numa outra ocasião, uma associação que lhe ocorreu subitamente levou-nos um passo

adiante em nossa compreensão do sonho: „A árvore era uma árvore de Natal.‟ Sabia agora que

tivera o sonho pouco antes do Natal e na expectativa desse acontecimento. Uma vez que o dia de

Natal era também o do seu aniversário, tornou-se então possível estabelecer com certeza a data

do sonho e da mudança nele, que procedia do sonho. Foi imediatamente antes do seu quarto

aniversário. Fora para a cama, então, numa expectativa tensa do dia que lhe deveria trazer uma

dupla quantidade de presentes. Sabemos que, em tais circunstâncias, uma criança pode

facilmente antecipar a realização dos seus desejos. Assim, já era Natal em seu sonho; o conteúdo

do sonho mostrava-lhe o seu presente de Natal, os presentes que seriam seus pendurados na

árvore. Mas em vez de presentes, estes haviam-se transformado em lobos, e o sonho finalizava

com ele sendo dominado pelo medo de ser comido pelo lobo (provavelmente seu pai) e fugindo

para refugiar-se nos braços da babá. O que sabemos do seu desenvolvimento sexual antes do

sonho torna possível preencher as lacunas no mesmo e explicar a transformação da sua satisfação

em ansiedade. Dos desejos envolvidos na formação do sonho, o mais poderoso deve ter sido o

desejo de satisfação sexual, que ele, naquela época, aspirava obter do pai. A força desse desejo

tornou possível reviver um vestígio, há muito esquecido na sua memória, de uma cena capaz de

mostrar-lhe como era a satisfação sexual obtida do pai; e o resultado foi o terror, o horror da

realização do desejo, a repressão do impulso que se havia manifestado mediante o desejo e,

conseqüentemente, uma fuga do pai para a babá, menos perigosa.

A importância dessa data, do dia do Natal, havia sido preservada em sua suposta

recordação de haver tido seu primeiro acesso de raiva por estar descontente com os presentes de

Natal [ver em [1]]. A lembrança combinava elementos de verdade e de falsidade. Não podia ser

inteiramente correta, já que, de acordo com repetidas declarações dos seus pais, o mau

comportamento do menino havia começado quando eles voltaram, no outono, e não era verdade

que só tivessem chegado no Natal. Ele, no entanto, preservara a ligação essencial entre o seu

amor insatisfeito, a sua raiva e o Natal.

Mas, que quadro as ações noturnas do seu desejo sexual podem ter conjurado para

amedrontá-lo tão violentamente quanto à realização a que aspirava? O material da análise mostra

haver uma condição que esse quadro deve satisfazer. Deve ter sido calculado para criar uma

convicção da realidade da existência da castração. O medo da castração podia então tornar-se a

força motivadora para a transformação do afeto.

Atingi agora o ponto em que devo abandonar o apoio que tive até aqui a partir do curso da

análise. Receio que seja também o ponto no qual a credulidade do leitor irá me abandonar.

O que entrou em atividade naquela noite, vindo do caos dos traços de memória

inconscientes do sonhador, foi o quadro de uma cópula entre os pais, cópula em circunstâncias

que não eram inteiramente habituais e que favoreciam particularmente a observação. Aos poucos,

tornou-se possível encontrar respostas satisfatórias para todas as questões levantadas em relação

a essa cena; pois no decorrer do tratamento o primeiro sonho retornou em inúmeras variações e

novas edições, em relação com as quais a análise produziu a informação que era exigida. Assim,

em primeiro lugar, a idade da criança à data da observação foi estabelecida aproximadamente em

um ano e meio. Na época estava sofrendo de malária e tinha um ataque todos os dias a uma

determinada hora. A partir dos dez anos de idade esteve sujeito, de vez em quando, a crises de

depressão, que costumavam sobrevir à tarde e atingiram o seu ponto culminante por volta das

cinco horas. Esse sintoma ainda existia na época do tratamento psicanalítico. As freqüentes crises

de depressão tomaram o lugar dos anteriores ataques de febre ou abatimento; cinco horas ou era

a hora da febre mais alta, ou da observação do coito, a não ser que as duas horas tivessem

coincidido. É provável que justamente por causa dessa doença ele estivesse no quarto dos pais. A

doença, cuja ocorrência é também corroborada pela tradição direta, torna razoável referir o evento

ao verão e, de vez que o menino nascera no dia de Natal, presumir que sua idade fosse n + 1 ½

anos. Ele estava então dormindo no seu berço, no quarto dos pais, e acordou, talvez por causa da

febre que subia, à tarde, possivelmente às cinco horas, a hora que depois seria marcada pela

depressão. Isso está de acordo com nossa suposição de que era um dia quente de verão, se

presumimos que os pais se haviam recolhido, meio despidos, para uma sesta. Quando o menino

acordou, presenciou um coito a tergo [por trás], repetido três vezes, podia ver os genitais da mãe,

bem como o órgão do pai; e compreendeu o processo, assim como o seu significado. Por fim

interrompeu a relação sexual dos pais de uma maneira que será exposta adiante [ver em [1]].

No fundo, não há nada extraordinário, nada que dê a impressão de ser o produto de uma

imaginação extravagante, no fato de um jovem casal, casado há poucos anos, terminar uma sesta

de uma tarde quente de verão com uma cena de amor, sem considerar a presença do filhinho de

um ano e meio, dormindo no seu berço. Pelo contrário, acho que tal fato seria uma coisa

inteiramente comum e banal; e mesmo a posição na qual deduzimos que o coito ocorreu, em nada

altera este julgamento - particularmente porque não há evidência de que a relação tenha sido

efetuada por trás todas as vezes. Uma única vez seria suficiente para dar ao espectador

oportunidade para fazer observações que teriam sido difíceis ou impossíveis por meio de qualquer

outra atitude dos parceiros. Portanto, o conteúdo da cena não pode ser, por si, um argumento

contra a sua credibilidade. As dúvidas quanto à sua probabilidade poderão girar em torno de três

pontos: se uma criança na tenra idade de um ano e meio poderia estar numa posição de absorver

a percepção de um processo tão complicado e preservá-la tão acuradamente em seu inconsciente;

em segundo lugar, se é possível, aos quatro anos de idade, que uma revisão transferida das

impressões assim recebidas penetre no entendimento; e, finalmente, se qualquer procedimento

poderia trazer para a consciência, coerente e convincentemente, os detalhes de uma cena dessa

natureza, experimentada e compreendida em tais circunstâncias.

Examinarei, depois, cuidadosamente, essas e outras dúvidas; mas posso assegurar ao

leitor que, criticamente, não estou menos inclinado do que ele no sentido de aceitar essa

observação do menino, e pedirei apenas ao leitor que, junto comigo, adote uma convicção

provisória da realidade da cena. Procederemos, em primeiro lugar, a um estudo das relações entre

essa „cena primária‟ e o sonho do paciente, seus sintomas e a história da sua vida; e

investigaremos separadamente os efeitos que se seguiram, do conteúdo essencial da cena e de

uma das suas impressões visuais.

Por estas últimas quero dizer as posturas que ele viu os pais adotarem - o homem ereto e

a mulher curvada, como um animal. Já sabemos que durante seu período de ansiedade, a irmã

costumava aterrorizá-lo com uma figura de um livro de contos infantis, na qual o lobo era mostrado

em posição vertical, com os pés em posição de movimento, as garras a descoberto e as orelhas

em pé. Durante o tratamento, ele se dedicou com perseverança incansável à tarefa de vasculhar

os sebos até encontrar o livro ilustrado da sua infância, reconhecendo o seu mau espírito numa

ilustração da história de „O Lobo e os Sete Cabritinhos‟. Achou que a postura do lobo nessa

gravura poderia ter-lhe recordado a do pai durante a cena primária. Em todo caso, a ilustração

tornou-se o ponto de partida para manifestações posteriores da ansiedade. Certa vez, quando

tinha sete ou oito anos, foi informado de que no dia seguinte chegaria um novo tutor para ele.

Nessa noite, sonhou com o tutor na forma de um leão que vinha em direção à sua cama, rugindo

ruidosamente e com a postura do lobo na gravura; e o outra vez acordou em estado de ansiedade.

A fobia ao lobo fora superada nessa época, de modo que estava livre para escolher um novo

animal que causasse ansiedade e, nesse último sonho, estava reconhecendo o tutor como um

substituto do pai. Nos últimos anos de sua infância, todos os seus tutores e mestres

desempenharam o papel do pai, dotados com a influência do pai tanto para o bem como para o

mal.

Quando estava na escola secundária, o destino proporcionou-lhe uma oportunidade

notável de reviver a sua fobia ao lobo e de usar a relação que estava por trás dessa fobia como

ocasião para graves inibições. O professor que ensinava latim chama-se Wolf. Desde o começo

sentiu-se intimidado pelo professor, e este certa vez repreendeu-o severamente por haver

cometido um erro estúpido num texto traduzido do latim. A partir de então não conseguiu livrar-se

de um medo paralisante em relação a esse professor, o que em breve se estendeu a outros

mestres. Contudo, a asneira que fez na tradução era também significativa. Tinha que traduzir o

vocábulo latino „filius„ e fê-lo com a palavra „fils„, em vez de usar o termo correspondente na sua

própria língua. O lobo, na verdade, ainda era seu pai.

O primeiro „sintoma transitório‟ que o paciente produziu durante o tratamento retornou uma

vez mais à fobia ao lobo e ao conto de fadas dos „Sete Cabritinhos‟. Na sala em que as primeiras

sessões foram realizadas havia um grande relógio de pé, defronte ao paciente, que ficava no sofá

sem voltar o rosto para mim. Impressionava-me o fato de que, de vez em quando, ele se virava na

minha direção, olhava-me de uma maneira bastante amistosa, como que para me aplacar, e então

afastava de mim o olhar e fixava-o no relógio. Na ocasião eu achava que, dessa forma, ele

procurava mostrar-me que estava ansioso pelo fim da sessão. Muito tempo depois o paciente

recordou-me essa cena de espetáculo mudo e deu-me uma explicação a respeito dela.

Lembrava-se de que o mais novo dos sete cabritinhos escondeu-se na caixa do relógio de parede,

enquanto os seis irmãos eram comidos pelo lobo. Assim, o que ele queria dizer era: „Seja bom para

mim! Devo ficar com medo do senhor? O senhor vai devorar-me? Terei que me esconder do

senhor na caixa do relógio, como o cabritinho mais novo?‟

O lobo do qual tinha medo era, sem dúvida, seu pai; mas o medo do lobo era condicionado

pelo fato de a criatura estar numa posição ereta. Sua lembrança afirmou da forma mais definitiva

que não fora aterrorizado por figuras de lobos caminhando sobre as quatro patas ou, como na

história do „Chapeuzinho Vermelho‟, deitados na cama. A postura que, de acordo com a nossa

construção da cena primária, ele vira a mulher assumir, era de não menos significação; embora,

nesse caso, o significado estivesse limitado à esfera sexual. o fenômeno mais espantoso da sua

vida erótica após a maturidade era a sua tendência a ataques compulsivos de paixão física, que

surgiam e de novo desapareciam, na mais desconcertante sucessão. Esses ataques liberavam

nele uma tremenda energia, mesmo nas vezes em que se encontrava por outros modos inibido,

estando muito além do seu controle. Devo, por um motivo particularmente importante, protelar uma

consideração mais completa desse amor compulsivo [ver em [1] e segs.]; posso, contudo,

mencionar, agora, que esse amor era sujeito a uma condição definida, que se ocultava do seu

consciente e só foi descoberta durante o tratamento. Era necessário que a mulher assumisse a

postura que atribuímos à sua mãe na cena primária. Desde a puberdade, considerava as nádegas

grandes e proeminentes como a mais poderosa atração numa mulher; exceto na postura traseira,

copular dificilmente lhe dava algum prazer. Neste ponto, pode-se justificadamente levantar uma

crítica: a objeção seria de que uma preferência sexual dessa natureza pelas partes posteriores do

corpo é uma característica geral de pessoas que se inclinam para uma neurose obsessiva, e que a

sua presença não justifica referi-la a uma impressão particular da infância. Faz parte da estrutura

da disposição anal-erótica e é uma das características arcaicas que distinguem essa constituição.

Na verdade, o coito efetuado por trás - more ferarum [à maneira dos animais] - pode, afinal de

contas, ser considerado como a forma mais antiga, filogeneticamente. Voltaremos também a essa

questão posteriormente, quando tivermos apresentado o material suplementar que mostrou a base

da condição inconsciente da qual dependia o seu apaixonar-se. [Cf. ver em [1] e [2].]

Prossigamos agora a nossa exposição das relações entre o sonho e a cena primária. Até

que seria de esperar que o sonho apresentasse o menino (que se rejubilava, no Natal, na

perspectiva da realização de seus desejos) com esse quadro de satisfação sexual propiciado

através da ação de seu pai, tal como o vira na cena primária, como um modelo da satisfação que

ele próprio aspirava obter do pai. Em vez desse quadro, no entanto, surgiu o material da história

que lhe fora contada pelo avô pouco antes: a árvore, os lobos e a mutilação do rabo (na forma

supercompensada das caudas espessas dos supostos lobos). Neste ponto falta alguma conexão,

alguma ponte associativa que conduza do conteúdo da cena primária ao da história do lobo. Essa

conexão é proporcionada uma vez mais pelas posturas, e só por elas. Na história do avô, o lobo

sem rabo pediu aos outros que subissem em cima dele. Foi esse detalhe que evocou a lembrança

do quadro da cena primária, e foi dessa forma que se tornou possível que o material da cena

primária fosse representado pelo da história do lobo e, ao mesmo tempo, que os dois pais fossem

substituídos, como era desejável, por diversos lobos. O conteúdo do sonho sofreu uma outra

transformação e o material da história do lobo foi ajustado ao conteúdo do conto de fadas de „Os

Sete Cabritinhos‟, tomando emprestado a este o número sete.

As etapas na transformação do material; cena primária - história do lobo - conto dos „Sete

Cabritinhos‟, refletem o progresso dos pensamentos do sonhador durante a construção do sonho:

„desejo de obter do pai satisfação sexual - a compreeensão de que a castração era uma condição

necessária para isso - medo do pai‟. Somente neste ponto, acho eu, podemos considerar o sonho

de ansiedade desse menino de quatro anos como estando exaustivamente explicado.

Depois do que já foi dito, preciso apenas tratar, em poucas palavras, do efeito patogênico

da cena primária e da alteração que a sua revivescência produziu no desenvolvimento sexual do

paciente. Investigaremos apenas um dos seus efeitos, ao qual o sonho deu expressão. Teremos

que esclarecer, depois, que não foi apenas uma única corrente sexual que se iniciou a partir da

cena primária, mas toda uma série delas, e que sua vida sexual foi positivamente fragmentada por

ela. Devemos também ter em mente que a ativação dessa cena (evitei intencionalmente a palavra

„recordação‟) teve o mesmo efeito que teria uma experiência recente. Os efeitos da cena foram

protelados, mas esta não perdera, entrementes, nada da sua novidade, no intervalo entre a idade

de um ano e meio e a de quatro anos. Descobriremos talvez em que se apóia a razão para supor

que produziu determinados efeitos mesmo na época da sua percepção, isto é, a partir de um ano e

meio de idade.

Quando o paciente penetrou mais fundo na situação da cena primária, trouxe à tona os

seguintes fragmentos de auto-observação. Para começar, presumiu, conforme disse, que o evento

do qual fora testemunha era um ato de violência. [Neste consenso, ver o artigo de Freud sobre

„The Sexual Theories of Children‟ (1908c), StandardEd., 9, 220-21.], mas a expressão de prazer

que viu no rosto da mãe não se ajustava a esse dado; foi obrigado a reconhecer que era uma

experiência satisfatória. O que era essencialmente novo para ele, em sua observação da relação

sexual entre os pais, era a convicção da realidade da castração - uma possibilidade com a qual

seus pensamentos já se haviam ocupado anteriormente. (A visão das duas meninas urinando, a

ameaça da sua Nanya, a interpretação que a governanta deu aos confeitos em forma de bastão, a

lembrança do pai despedaçando a cobra com uma vara.) Porque agora via com os próprios olhos a

ferida da qual a babá havia falado e compreendia que a existência dessa ferida era uma condição

necessária para a relação com o pai. Não podia mais confundi-la com o traseiro, como fizera

quando observara as duas meninas.

O sonho acabou em um estado de ansiedade, do qual não se recuperou até que teve a

babá junto a si. Fugiu, portanto, do pai para ela. Sua ansiedade era um repúdio do desejo de obter

do pai satisfação sexual - tendência à qual se deve a formação do sonho na sua cabeça. A forma

assumida pela ansiedade, o medo de „ser devorado pelo lobo‟, era apenas a transposição (como

saberemos, regressiva) do desejo de copular com o pai, isto é, de obter satisfação sexual do

mesmo modo que sua mãe. Seu último objetivo sexual, a atitude passiva em relação ao pai,

sucumbiu à repressão, e em seu lugar apareceu o medo ao pai, sob a forma de uma fobia ao lobo.

E a força impulsionadora dessa repressão? As circunstâncias do caso demonstram que só

pode ter sido a sua libido genital narcísica, a qual, sob a forma de interesse pelo seu órgão

masculino, estava lutando contra uma satisfação que, para ser conseguida, parecia exigir uma

renúncia àquele órgão. E era desse narcisismo ameaçado que derivava a masculinidade com a

qual se defendia contra a atitude passiva em relação ao pai.

Observamos agora que, neste ponto da narrativa, temos que fazer uma alteração na nossa

terminologia. Durante o sonho ele atingira uma nova fase da sua organização sexual. Até então os

opostos sexuais, para ele, haviam sido o ativo e o passivo. Desde a sedução, seu objeto sexual

havia sido passivo, de ser tocado nos genitais; mas transformou-se, então, por regressão ao

estádio mais primitivo da organização anal-sádica, no propósito masoquista de ser espancado ou

castigado. Para ele era indiferente a questão de atingir esse objetivo com um homem ou com uma

mulher. Sem considerar a diferença de sexos, passara da babá para o pai; desejara que seu pênis

fosse tocado pela babá, e tentara provocar o pai até que este batesse nele. Aí, seu órgão genital

era deixado de lado, embora a conexão com esse órgão, que fora oculta com a regressão, ainda

se expressasse na fantasia de levar pancada no pênis. A ativação da cena primária no sonho

levou-o, então, de volta à organização genital. Descobriu a vagina e o significado biológico de

masculino e feminino. Compreendia agora que ativo era o mesmo que masculino, ao passo que

passivo era o mesmo que feminino. Seu objetivo sexual passivo deve ter sido, então, transformado

em feminino, expressando-se como „ser copulado pelo pai‟, em vez de „ser por ele espancado nos

genitais ou no traseiro‟. Esse objetivo feminino, no entanto, sujeitou-se à repressão e foi obrigado a

deixar-se substituir pelo medo do lobo.

Devemos interromper aqui a exposição do seu desenvolvimento sexual até que nova luz

seja lançada, dos estádios posteriores da sua história, sobre estes mais primitivos. Para

apreciação adequada da fobia aos lobos, acrescentaremos apenas que tanto o pai como a mãe

transformaram-se em lobos. Sua mãe assumiu o papel do lobo castrado, que deixava os outros

subirem sobre ele; o pai assumiu o papel do lobo que subia. Entretanto, seu medo, conforme o

ouvimos assegurar-nos, relacionava-se apenas com o lobo ereto, isto é, com seu pai. Ademais,

deve-nos surpreender o fato de que o medo com o qual o sonho terminava tivesse um modelo na

história do avô. Porque nesta, o lobo castrado, que deixara os outros treparem em cima, dele,

tomava-se de medo tão logo era lembrado do fato da sua falta de cauda. Portanto, parece que ele

se identificou com a mãe castrada durante o sonho, e agora lutava contra esse fato. „Se você quer

ser sexualmente satisfeito pelo Pai‟, podemos talvez imaginá-lo dizendo para si mesmo, „você deve

deixar-se castrar como a Mãe; mas eu não quero isso.‟ Resumindo, um claro protesto da parte da

sua masculinidade! No entanto, entenda-se naturalmente que o desenvolvimento sexual do caso

que estamos agora examinando, tem uma grande desvantagem do ponto de vista da busca,

porque não deixou de modo algum, de ser perturbado. Em primeiro lugar, foi decisivamente

influenciado pela sedução e, depois, foi desviado pela cena da observação do coito, a qual, na sua

ação preterida, operou como uma segunda sedução.

V - ALGUMAS QUESTÕES

A baleia e o urso polar, já foi dito, não podem travar luta um com o outro porque,

confinados ao seu próprio elemento, não podem encontrar-se. Para mim é impossível argumentar

com quem trabalha no campo da psicologia ou das neuroses e não reconhece os postulados da

psicanálise, considerando os resultados desta como artefatos. Nos últimos anos, porém, cresceu

também uma outra espécie de oposição entre aqueles que, pelo menos em sua própria opinião,

tomam posição no terreno da psicanálise, não discutem a sua técnica ou resultados, mas

simplesmente acham-se justificados ao tirar outras conclusões do mesmo material e ao submetê-lo

a outras interpretações.

Via de regra, contudo, a controvérsia teórica é infrutífera. Tão logo o analista começa a

desviar-se do material com o qual deveria contar, corre o risco de intoxicar-se com as próprias

afirmações e, no final, de apoiar opiniões que qualquer observação poderia contradizer. Por esse

motivo, parece-me ser incomparavelmente mais útil, para combater interpretações dissidentes,

testá-las em casos e problemas particulares.

Já antes observei que será certamente considerado improvável, em primeiro lugar, que

„uma criança na tenra idade de um ano e meio pudesse estar numa posição de absorver a

percepção de um processo tão complicado e preservá-la tão acuradamente em seu inconsciente;

em segundo lugar, se é possível, aos quatro anos de idade, que uma revisão preterida das

impressões assim recebidas penetre no entendimento; e, finalmente, se qualquer procedimento

poderia trazer para a consciência, de modo coerente e convincente, os detalhes de uma cena

dessa natureza, experimentada e compreendida em tais circunstâncias‟.

Esta última é simplesmente uma questão de fato. Qualquer um que se dê ao trabalho de

acompanhar uma análise em tal profundidade, por meio da técnica prescrita, convencer-se-á de

que é decididamente possível. Quem quer que omita isso e interrompa a análise em algum estrato

mais elevado, terá renunciado ao seu direito de formar um juízo sobre o assunto. Mas a

interpretação daquilo a que se chegou numa análise profunda não se decide por esse dado.

As outras dúvidas baseiam-se numa baixa estimativa da importância das primitivas

impressões infantis e na recusa a atribuir-lhes efeitos tão duradouros. Os que apóiam esse ponto

de vista procuram as causas das neuroses quase exclusivamente nos graves conflitos da vida

posterior; presumem que a importância da infância só se mostra diante dos nossos olhos, durante

a análise, por causa da tendência dos neuróticos para expressarem os seus interesses presentes

em reminiscências e símbolos do passado remoto. Tal estimativa da importância do fator infantil

implicaria no desaparecimento de muito daquilo que fez parte das características mais íntimas da

análise, embora também, sem dúvida, de muito daquilo que lhe oferece resistência e aliena a

confiança do intruso.

A concepção, portanto, que estamos colocando em discussão é a que se segue. Sustenta

que cenas da primitiva infância, tais como as que são construídas por uma análise exaustiva das

neuroses (como, por exemplo, no presente caso), não são reproduções de ocorrências reais, às

quais seja possível atribuir uma influência sobre o curso da vida posterior do paciente e sobre a

formação dos seus sintomas. Considera-as, antes, como produtos da imaginação, que encontram

estímulo na vida dura, que pretendem servir como uma espécie de representação simbólica dos

verdadeiros desejos e interesses e que devem sua origem a uma tendência regressiva, a uma fuga

das incumbências do presente. Se assim é, podemos certamente poupar-nos a necessidade de

atribuir uma substância tão surpreendente à vida mental e capacidade intelectual de crianças da

mais tenra idade.

Além do desejo, que todos compartilhamos, de racionalizar e simplificar o nosso difícil

problema, há toda uma gama de fatos que falam em favor dessa concepção. Também é possível

eliminar, de antemão, uma objeção que se lhe pode levantar, principalmente na mente de um

analista em atividade. Deve-se admitir que, sendo correta essa concepção das cenas da infância, o

processo da análise não seria, em primeiro lugar, alterado em nenhum aspecto. Se os neuróticos

são dotados da característica prejudicial de desviar o seu interesse do presente e de vinculá-lo a

esses substitutos regressivos, os produtos da sua imaginação, então o que há a fazer é seguir a

sua trilha e trazer para a consciência esses produtos inconscientes; pois, deixando de lado a sua

ausência de valor, do ponto de vista da realidade, são da máxima significação, do nosso ponto de

vista, de vez que, no momento, são os portadores e possuidores do interesse que queremos

libertar, de modo a conseguir dirigi-lo para as tarefas do presente. A análise teria que seguir

precisamente o mesmo curso, como se se tivesse uma fé ingênua na verdade das fantasias. A

diferença só apareceria no final da análise, depois que as fantasias tivessem sido esvaziadas.

Deveríamos, então, dizer ao paciente: „Muito bem, a sua neurose ocorreu

você tivesse recebido essas impressões e as tivesse prolongado detalhadamente na sua

infância. Você vê, é claro, que isso está fora de questão. Elas eram produtos da sua imaginação,

destinadas a desviá-lo das verdadeiras tarefas que se apresentam diante de você. Procuremos

saber agora que tarefas eram essas e que linhas de comunicação existem entre elas e as suas

fantasias.‟ Depois de utilizar as fantasias infantis dessa maneira, seria possível iniciar uma

segunda etapa do tratamento, que seria voltada para a vida real do paciente.

Qualquer abreviamento desse processo, isto é, qualquer alteração no tratamento

psicanalítico, como tem sido praticado até agora, seria tecnicamente inadmissível. A não ser que

essas fantasias se tornem conscientes para o paciente, em seu significado mais pleno, ele não

pode conseguir o comando do interesse que está ligado a elas. Se a sua atenção é desviada das

fantasias, tão logo a existência e os contornos gerais destas são pressentidos, está-se dando

simplesmente apoio ao trabalho de repressão, graças ao qual essas fantasias foram postas além

do alcance do paciente, apesar de todo o seu sofrimento. Se este recebe uma noção prematura da

não importância das fantasias, ao ser informado, por exemplo, que tudo será uma questão de

fantasias, as quais certamente não têm significado real, jamais se conseguirá a sua cooperação no

processo de trazê-las para a consciência. Um procedimento correto, portanto, não fará alteração

na técnica de análise, qualquer que seja a estimativa que se possa formar a partir dessas cenas da

infância.

Já mencionei que existe uma série de fatos que podem ser evocados em apoio à opinião

de que essas cenas são fantasias regressivas. E, acima de todos, está este: até onde vai a minha

experiência até este momento, essas cenas da infância não são reproduzidas durante o tratamento

como lembranças, são produtos de construção. Muitos acharão, certamente, que só o fato de

admitir isso decide toda a disputa.

Espero não ser mal compreendido. Todo analista sabe - e deparou com a experiência em

inúmeras ocasiões - que no decorrer de um tratamento bem-sucedido o paciente traz à tona um

grande número de recordações espontâneas da sua infância, por cujo aparecimento (um primeiro

aparecimento, talvez) o terapeuta se sente inteiramente não responsável, já que não fez qualquer

tentativa no sentido de uma construção que poderia haver colocado qualquer material desse tipo

na cabeça do paciente. O que não quer dizer, necessariamente, que essas lembranças

anteriormente inconscientes são sempre verdadeiras. Elas podem ser verdadeiras; muitas vezes,

porém, são distorções da verdade, intercaladas de elementos imaginários, tal como as assim

chamadas lembranças encobridoras, que são preservadas espontaneamente. Tudo o que quero

dizer é o seguinte: cenas, como as do meu paciente no presente caso, que datam de um período

tão prematuro e exibem um conteúdo semelhante, e que apresentam depois um significado tão

extraordinário para o histórico do caso, não são, via de regra, reproduzidas como lembranças, mas

têm que ser pressentidas - construídas - gradativa e laboriosamente a partir de um conjunto de

indicações. Ademais, seria suficiente para os propósitos da argumentação se o fato de eu admitir

que cenas dessa natureza não se tornam conscientes sob a forma de lembranças, se aplicasse

apenas aos casos de neurose obsessiva, ou até mesmo se limitasse minha afirmação ao caso que

estamos estudando aqui.

No entanto, não sou de opinião que essas cenas devam necessariamente ser fantasias,

porque não reaparecem na forma de recordações. Parece-me absolutamente equivalente a uma

recordação, se as lembranças são substituídas (como no presente caso) por sonhos, cuja análise

conduz invariavelmente de volta à mesma cena, e que reproduzem cada parte do seu conteúdo

numa inesgotável variedade de novas formas, Na verdade, sonhar é outra maneira de lembrar,

embora sujeita às condições que governam à noite e às leis da formação de sonhos. É essa

recorrência nos sonhos que considero como a explicação do fato de que os próprios pacientes

adquirem gradativamente uma convicção profunda da realidade dessas cenas primárias, uma

convicção que não é, em nenhum aspecto, inferior à que se fundamenta na recordação.

Para aqueles que assumem o ponto de vista oposto, não há naturalmente necessidade de

abandonar sem esperança a sua luta contra tais argumentos. É por demais conhecido o fato de

que os sonhos podem ser orientados. E o sentimento de convicção experimentado pela pessoa

analisada pode ser o resultado de sugestão, à qual se atribuem sempre novos papéis no jogo de

forças envolvidas no tratamento analítico. O psicoterapeuta antiquado, poder-se-ia dizer,

costumava sugerir ao seu paciente que ele estava curado, que havia superado as suas inibições, e

assim por diante; ao passo que o psicanalista, sob esse ponto de vista, sugere-lhe que, quando era

criança, tivera essa ou aquela experiência, que deve agora ser lembrada com o objetivo de

curar-se. Seria essa a diferença entre os dois.

Entenda-se claramente que essa última tentativa de explicação, por parte daqueles que

assumem uma concepção oposta à minha, resulta em serem as cenas da infância utilizadas muito

mais fundamentalmente do que o que se anunciou. Aquilo que se argumentou inicialmente foi não

serem elas realidades, mas sim fantasias. Contudo, o que se argumenta agora é, evidentemente,

serem fantasias, não do paciente, mas sim do próprio analista, que a força sobre a pessoa que

analisa em virtude de determinados complexos seus. Na verdade, um analista que escuta essa

reprimenda confortar-se-á a si mesmo recordando o quão gradativamente veio à tona a construção

dessa fantasia, que se supõe ter ele próprio originado, e, quando tudo estava dito e feito, o modo

como ocorreram independentemente do incentivo do terapeuta muitos pontos do seu

desenvolvimento; como, após determinada fase do tratamento, tudo parecia convergir para essa

fantasia, e como mais tarde, na síntese, os mais variados e notáveis resultados irradiaram-se dela;

o modo como não apenas os grandes problemas, mas também as menores peculiaridades no

histórico do caso, foram esclarecidos mediante essa única hipótese. E ele negará a posse da

quantidade de ingenuidade necessária para tramar uma ocorrência que possa preencher todos

esses requisitos. Mas mesmo esse argumento não terá efeito sobre um adversário que não

experimentou por si próprio a análise. Por um lado, haverá uma carga de autodesilusão sutil e, por

outro, de obtusidade de julgamento; será impossível chegar a uma decisão.

Voltemo-nos para outro fator que apóia essa concepção oposta das cenas construídas da

infância. É o seguinte: não pode haver dúvidas quanto à existência real de todos os processos que

foram expostos com a finalidade de explicar essas estruturas duvidosas como fantasias, e sua

importância deve ser reconhecida. O desvio de interesse, das incumbências da vida real, a

existência de fantasias na qualidade de substitutos de ações não realizadas, a tendência

regressiva que se expressa nesses produtos - regressiva em mais de um sentido, na medida em

que estão envolvidos simultaneamente um recuo diante da vida e um retorno ao passado -, todas

essas coisas se confirmam, são regularmente confirmadas pela análise. Poder-se-ia pensar que

seriam também suficientes para explicar as supostas reminiscências da primitiva infância que estão

em discussão; e, de acordo com o princípio de economia na ciência, tal explicação levaria

vantagem sobre outra que é inadequada sem o apoio de novas e surpreendentes hipóteses.

Arriscar-me-ia aqui a assinalar que as concepções antagônicas que se encontram na

literatura psicanalítica atual são geralmente elaboradas segundo o princípio do pars pro toto. De

uma combinação altamente composta, uma parte dos fatores operativos é destacada e proclamada

como a verdade; e, em seu fator, contradiz-se então a outra parte, junto com toda a combinação.

Se observamos um pouco mais de perto, para verificar a que grupo de fatores foi dada preferência,

descobriremos ser aquele que contém material já conhecido de outras fontes ou aquele que pode

mais facilmente ser relacionado com esse material. Desse modo, Jung seleciona atualidade e

regressão, e Adler, motivos egoístas. O que é deixado de lado, no entanto, e rejeitado como falso,

é precisamente o que é novo em psicanálise e peculiar a esta. Este é o método mais fácil de repelir

os progressos revolucionários e inconvenientes da psicanálise.

Vale a pena observar que nenhum dos fatores citados pela opinião contrária com a

finalidade de explicar essas cenas da infância, teve que aguardar reconhecimento até que Jung os

expôs como novidade. A noção de um conflito corrente, de uma fuga da realidade, de uma

satisfação substitutiva obtida na fantasia, de uma regressão ao material do passado - tudo isso

(empregado, ademais, no mesmo contexto, embora talvez com uma terminologia ligeiramente

diferente) há anos fazia parte integral da minha própria teoria. Contudo, não a formava

inteiramente. Era apenas uma parte das causas que levam à formação de neuroses - aquela parte

que, partindo da realidade, opera numa direção regressiva. Paralelamente a isso, deixei espaço

para outra influência que, a partir das impressões da infância, opera numa direção futura, que

aponta um caminho para a libido que se retrai diante da vida e que torna possível compreender a

de outro modo inexplicável regressão à infância. Assim, na minha concepção, os dois fatores

cooperam na formação de sintomas. Há, porém, uma cooperação anterior que me parece ser de

igual importância. Sou de opinião que a influência da infância já se faz sentir na situação com que

se inicia a formação de uma neurose, de vez que desempenha um papel decisivo na ação de

determinar se, e em que ponto, o indivíduo deixa de dominar os verdadeiros problemas da vida.

O que está em discussão, portanto, é a significação do fator infantil. O problema é

encontrar um caso que possa estabelecer essa significação para além de qualquer dúvida. No

entanto, é esse o caso que está sendo exposto de modo tão exaustivo nestas páginas e que se

distingue pela característica de que a neurose da vida adulta foi precedida por uma neurose nos

primeiros anos da infância. Foi exatamente por essa razão, na verdade, que o escolhi para ser

relatado. Se alguém se sentir inclinado a recusá-lo porque a fobia animal não lhe parece

suficientemente séria para ser reconhecida como uma neurose independente, devo dizer que a

fobia foi sucedida, sem qualquer intervalo, por um cerimonial obsessivo, por atos e idéias

obsessivos, que serão discutidos nas partes seguintes deste artigo.

A ocorrência de um distúrbio neurótico no quarto e no quinto ano da infância prova, antes

de mais nada, que as experiências infantis são por si próprias capazes de produzir uma neurose,

sem que haja necessidade de acrescentar-se a fuga de alguma tarefa a ser enfrentada na vida

real. Pode-se objetar que mesmo uma criança confronta-se constantemente com obrigações às

quais gostaria, talvez, de evadir-se. E assim é; mas a vida de uma criança em idade pré-escolar é

facilmente observável e podemos examiná-la para verificar se nela existem quaisquer „obrigações‟

capazes de determinar a causação de uma neurose. Só descobrimos, porém, impulsos instintuais

que a criança não consegue satisfazer, não tendo idade suficiente para dominá-los, e as fontes das

quais se originam esses impulsos.

Como seria de esperar, a enorme redução do intervalo entre o afloramento da neurose e a

data das experiências infantis que estamos expondo restringe aos limites mais estreitos a parte

regressiva da causação, ao passo que faz surgir plenamente a parte que opera em direção

avançada, a influência das impressões anteriores. O presente caso clínico dará, espero, um

quadro claro dessa situação. Existem, todavia, outros motivos pelos quais as neuroses da infância

dão uma resposta decisiva à questão da natureza das cenas primárias - as primeiras experiências

da infância que são trazidas à luz pela análise.

Suponhamos, como premissa incontestada, que uma cena primária dessa natureza tenha

sido corretamente eduzida do ponto vista técnico, que seja indispensável para uma solução

inclusiva de todos os enigmas colocados pelos sintomas do distúrbio infantil, que todas as

conseqüências irradiem dela, assim como todas as linhas da análise conduziram a ela. Então, em

face de seu conteúdo, é impossível que possa ser outra coisa além da reprodução de uma

realidade experimentada pela criança. Pois a criança, como o adulto, só pode produzir fantasias a

partir do material que foi adquirido, de uma fonte ou de outra; e para as crianças, alguns dos meios

de adquiri-lo (lendo, por exemplo) são excluídos, ao passo que o espaço de tempo disponível para

a aquisição é curto e pode facilmente ser explorado com vistas à descoberta de quaisquer dessas

fontes.

No caso presente, o conteúdo da cena primária é um quadro de relações sexuais entre os

pais do menino, numa postura particularmente favorável a determinadas observações. Agora, não

seria evidência do que quer que fosse da realidade de tal cena, se a encontrássemos em um

paciente cujos sintomas (isto é, os efeitos da cena) tivessem aparecido num ou noutro período da

sua vida posterior. Uma pessoa como esta poderia ter adquirido as impressões, as idéias e o

conhecimento em muitas ocasiões diferentes no decorrer do longo intervalo; poderia, depois,

havê-los transformado num quadro imaginário, projetado na infância, relacionando-os com seus

pais. Se, no entanto, os efeitos de uma cena desse tipo aparecem numa criança de quatro ou cinco

anos, então esta deve ter testemunhado a cena ainda mais precocemente. Mas, nesse caso, ainda

nos defrontamos com todas as conseqüências desconcertantes que surgiram da análise dessa

neurose infantil. A única saída seria presumir que o paciente não apenas imaginou

inconscientemente a cena primária, mas também forjou a alteração no seu caráter, o medo ao lobo

e a obsessão religiosa; tal expediente, porém, seria desmentido pela sua natureza em outros

aspectos sóbria e pela tradição direta em sua família. Só pode haver, portanto, uma conclusão

(não vejo outra possibilidade): ou a análise baseada na neurose de sua infância é toda ela uma

seqüência de absurdo, do princípio ao fim, ou tudo aconteceu exatamente como descrevi acima.

Numa etapa anterior da exposição que fazemos [ver em [1]], deparamo-nos com uma

ambigüidade em relação à predileção do paciente por nádegas femininas e pelo ato sexual na

postura em que estas ficam particularmente proeminentes. Parecia necessário atribuir essa

predileção à relação sexual que observara entre os pais, ao passo que, ao mesmo tempo, uma

preferência desse tipo é uma característica geral de constituições arcaicas predispostas a uma

neurose obsessiva. Mas a contradição é facilmente resolvida se a consideramos um caso de

superdeterminação. A pessoa a quem observou nessa postura durante o ato sexual era, afinal de

contas, o seu pai, e pode também ter sido dele que herdou essa predileção constitucional. Nem a

posterior enfermidade do pai nem a história da família contradizem isso; como já foi mencionado,

um irmão do seu pai morreu numa condição que deve ser considerada como resultado de um

grave distúrbio obsessivo.

Em relação a isso podemos lembrar que, na época da sua sedução, quando tinha três

anos e um quarto, a irmã proferira uma grande calúnia contra a sua boa e velha babá, dizendo que

tivera contato com toda espécie de homens, mantendo-lhes a cabeça em posição vertical e

pegando-lhes nos órgãos genitais (ver em [1]). Não podia deixar de nos ocorrer a idéia de que

talvez a irmã, em idade mais ou menos como a sua, também tenha testemunhado a mesma cena

observada depois pelo irmão e isso lhe tenha sugerido a noção de „manter em pé a cabeça das

pessoas‟ durante o ato sexual. Essa hipótese forneceria também uma sugestão do motivo da sua

própria precocidade sexual.

[Originalmente eu não tinha intenção de desenvolver ainda mais, nesta passagem, a

exposição da realidade das „cenas primárias‟. Contudo, de vez que, entrementes, tive ocasião, em

minhas Conferências Introdutórias sobre Psicanálise [1916-17, Conferência XXIII], de tratar do

assunto em linhas mais gerais e sem objeto de controvérsia, seria enganoso se me omitisse de

aplicar as considerações que determinaram essa outra exposição da matéria ao caso que ora se

apresenta diante de nós. Continuo, portanto, como se segue, à guisa de complemento e

retificação: resta ainda a possibilidade de tomar outra perspectiva da cena primária subjacente ao

sonho - uma perspectiva que torna evidente em grande medida a conclusão a que chegamos antes

e alivia-nos de muitas das nossas dificuldades. Mas a teoria que procura reduzir as cenas da

infância ao nível de símbolos regressivos, em nada ganhará, mesmo com essa modificação; e,

com efeito, tal teoria parece-me ser, afinal, livremente utilizada por esta (como seria por qualquer

outra) análise de uma neurose infantil.

Essa outra perspectiva que tenho em mente é a de que a situação pode ser explicada da

seguinte maneira. Certamente não podemos dispensar a hipótese de que o menino observou uma

cópula, cuja visão lhe deu a convicção de que a castração podia ser algo mais do que uma

ameaça vazia. Ademais disso, o significado que ele posteriormente veio a relacionar com as

posturas de homem e mulher, em conexão com o desenvolvimento da ansiedade, por um lado, e

como condição da qual dependia o seu apaixonar-se, por outro, não nos dá outra alternativa senão

concluir que deve ter sido um coitus a tergo, more ferarum. Há, porém, outro fator que não é

insubstituível e pode ser relegado. Talvez o que o menino observou não tenha sido uma cópula

entre os pais, mas entre animais, que depois transferiu para os primeiros, como se tivesse

deduzido que seus pais faziam as coisas do mesmo modo.

Acima de tudo, o que dá cor a essa visão é o fato de que os lobos do sonho eram, na

realidade, cães pastores e, além disso, aparecem como tais no desenho. Pouco antes do sonho, o

menino foi levado repetidas vezes a visitar os rebanhos de ovelhas [ver em [1]] e lá pode ter visto

justamente esses grandes cachorros brancos, e provavelmente também os viu copular. Gostaria de

introduzir também nesta conexão o número três, a que o paciente se referiu sem qualquer outro

motivo [ver em [1]], e eu sugeriria que ele guardou na memória o fato de haver feito três

observações dessa espécie, com os cães. O que sobreveio durante a excitação da expectativa, na

noite do sonho, foi a transferência para os pais, da sua imagem de memória recentemente

adquirida, com todos os detalhes, e só assim se tornaram possíveis os poderosos efeitos

emocionais que se seguiram. Chegou então a uma compreensão preterida das impressões que

pode ter recebido algumas semanas ou meses antes - um processo pelo qual todos nós talvez

tenhamos passado, em nossas próprias experiências. A transferência para os pais dos cães

copulando não foi cumprida por meio de uma inferência acompanhada de palavras, mas por ter

procurado em sua memória uma cena real, na qual os pais estivessem juntos e que pudesse

coadunar-se com a situação da cópula. Todos os detalhes da cena que foram estabelecidos na

análise do sonho puderam ser exatamente reproduzidos. Foi realmente numa tarde de verão,

quando o menino estava sofrendo de malária, os pais estavam ambos presentes, vestidos de

branco, que a criança despertou do seu sono, mas - a cena era inocente. O resto fora

acrescentado pelo subseqüente desejo do menino curioso, baseado na sua experiência com os

cães, para testemunhar também os pais fazendo amor; e a cena assim imaginada produziu então

todos os efeitos que arrolamos, tal como se tivesse sido inteiramente real e não o resultado da

fusão de dois componentes, um anterior e indiferente, o outro posterior e profundamente

impressivo.

De imediato, torna-se óbvio a quanto se reduzem as exigências à nossa credulidade. Não

precisamos mais supor que os pais mantiveram relações na presença do filho (ainda muito

pequeno, é verdade) - o que era uma idéia desagradável para muitos de nós. O período de tempo

durante o qual os efeitos foram preteridos fica bastante diminuído; agora cobre apenas alguns

meses do quarto ano da criança e não recua para dentro dos obscuros primeiros anos da infância.

Pouco resta de estranho na conduta do menino ao fazer a transferência dos cães para os pais, e

ao sentir medo do lobo, em vez de sentir medo do pai. Estava naquela fase do desenvolvimento de

sua atitude em relação ao mundo, que descrevi em Totem e Tabu [1912-13, Ensaio IV] como o

retorno do totemísmo. A teoria que procura explicar as cenas primárias encontradas nas neuroses

como fantasias retrospectivas de data posterior parece obter um poderoso apoio da presente

observação, apesar de o nosso paciente ter apenas quatro anos. Novo como era, ainda assim

conseguiu substituir uma impressão, recebida aos quatro anos, por um trauma imaginário, com a

idade de um ano e meio. Essa regressão, no entanto, não parece misteriosa nem tendenciosa. A

cena que seria inventada tinha que preencher determinadas condições que, em conseqüência das

circunstâncias de vida do sonhador, só poderiam ser encontradas precisamente nesse período

primitivo; tal era, por exemplo, a condição de que deveria estar na cama, no quarto dos pais.

Algo que posso aduzir das descobertas analíticas em outros casos parecerá, contudo, à

maioria dos leitores, ser o fator decisivo a favor da correção do ponto de vista aqui proposto. Os

incidentes de observação de relações sexuais entre os pais em idade muito precoce (quer sejam

verdadeiras lembranças, ou fantasias) não são, de fato, nenhuma raridade em análises de

neuróticos. Possivelmente não são menos freqüentes entre aqueles que não são neuróticos.

Possivelmente fazem parte do depósito regular - consciente ou inconsciente - de suas lembranças.

Mas sempre que consegui desentranhar, por meio da análise, uma cena dessa natureza, ela

mostrou a mesma peculiaridade, que nos surpreendeu, também, com o paciente em questão:

relacionava-se com um coitus a tergo, o qual, por si, oferece ao espectador a possibilidade de

examinar os genitais. Certamente não há mais necessidade de duvidar que estamos lidando

apenas com uma fantasia, que nasceu talvez da observação de relações sexuais de animais. E

mais ainda: sugeri que minha descrição da „cena primária‟ ficou incompleta, porque reservei para

um momento posterior o relato do modo pelo qual o menino interrompeu a relação entre os pais.

Devo acrescentar agora que essa forma de interrupção é sempre a mesma, em todos os casos.

Inclino-me a acreditar que me expus a graves acusações, da parte dos leitores deste caso

clínico. Se esses argumentos em favor de tal visão da cena primária estavam à minha disposição,

como pude assumir, no começo, uma perspectiva que parecia tão absurda? Ou fiz essas novas

observações, que me obrigaram a alterar a minha opinião original, no intervalo entre o primeiro

esboço do caso clínico e este acréscimo, e hesito, por essa ou aquela razão, em admitir o fato? Em

vez disso, admitirei algo mais: pretendo, nesta oportunidade, encerrar a discussão da realidade da

cena primária com um non liquet. Este caso clínico ainda não chegou ao fim; no curso do seu

desenvolvimento surgirá um fator que irá abalar a certeza de que parecemos desfrutar no

momento. Nada restará então, julgo eu, a não ser referir aos meus leitores os trechos das

Conferências Introdutórias nos quais tratei do problema das fantasias primitivas ou das cenas

primárias.]

VI - A NEUROSE OBSESSIVA

Agora, pela terceira vez, o paciente sofreu uma nova influência, que deu um rumo decisivo

ao seu desenvolvimento. Quando estava com quatro anos e meio de idade, e seu estado de

irritabilidade e preocupação não havia ainda melhorado, a mãe determinou-se a familiarizá-lo com

a história da Bíblia, na esperança de distraí-lo e animá-lo. Nesse sentido, foi bem-sucedida; a

iniciação religiosa do menino deu fim à fase anterior, mas, ao mesmo tempo, fez com que os

sintomas da ansiedade fossem substituídos por sintomas obsessivos. Até então não conseguia

conciliar o sono facilmente porque tinha medo de ter maus sonhos, como o que tivera naquela

noite antes do Natal; agora era obrigado, antes de ir para a cama, a beijar todas as imagens

sagradas que havia no quarto, a dizer orações e a fazer incontáveis vezes o sinal-da-cruz, em si

mesmo e sobre a sua cama.

A sua infância ajusta-se agora, claramente, nos seguintes períodos: primeiro, o período

que se estende até a sedução, aos três anos e um quarto, durante o qual teve lugar a cena

primária; segundo, o período da alteração em seu caráter, até o sonho de ansiedade (quatro anos

de idade); terceiro, o período da fobia animal, até a iniciação religiosa (quatro anos e meio); e daí

em diante, o período da neurose obsessiva, até uma época posterior aos seus dez anos. Que

tenha havido um deslocamento instantâneo e definido de uma fase para a seguinte, é algo que não

se ajusta à natureza das coisas ou ao nosso paciente; pelo contrário, a preservação de tudo o que

se fora antes e a coexistência dos mais diferentes tipos de correntes eram características dele. Sua

impertinência não desapareceu quando a ansiedade se instalou, e persistiu, com força lentamente

decrescente, durante o período de piedade religiosa. Contudo, já não havia qualquer traço da fobia

de lobos durante essa última fase. A neurose seguiu seu curso descontinuadamente; o primeiro

ataque foi o mais longo e o mais intenso, e outros sobrevieram quando estava com oito e com dez

anos, seguindo-se, cada vez, a causas de excitação em relacionamento claro com o conteúdo da

neurose.

A própria mãe contou-lhe a história sagrada e também fez com que sua Nanya lesse em

voz alta para o menino trechos de um livro adornado com ilustrações. Naturalmente, a ênfase

narrativa era posta sobre a história da Paixão. A babá, que era muito pia e supersticiosa,

acrescentava à história os seus próprios comentários, mas era também obrigada a ouvir todas as

objeções e dúvidas do pequeno crítico. Se as batalhas que então começaram a convulsionar-lhe a

mente acabaram afinal numa vitória da fé, a influência da Nanya não deixou de ter sua participação

nesse resultado.

O que ele me relatou como recordação das suas reações a essa iniciação foi recebido por

mim, de início, com completa descrença. Era impossível, achei eu, que fossem estes os

pensamentos de uma criança de quatro anos e meio ou cinco; provavelmente, remetera a esse

passado remoto as idéias nascidas da reflexão de um adulto de trinta anos. O paciente, contudo,

não ouviria essa correção; não consegui convencê-lo, como aconteceu em tantas outras diferenças

de opinião entre nós; e, afinal, a correspondência entre os pensamentos que recordara e os

sintomas dos quais me deu detalhes, bem como o modo pelo qual as idéias se ajustavam ao seu

desenvolvimento sexual, compeliram-me, pelo contrário, a acreditar nele. E, refleti, então, achando

que essa mesma crítica às doutrinas religiosas, que eu relutava em atribuir a uma criança, só era

atingida por uma minoria infinitesimal de adultos.

Vou expor agora o material das suas recordações, e só depois tentarei encontrar um

caminho que possa levar à explicação das mesmas.

Para começar, a impressão que ele recebeu da história sagrada não era, de modo algum,

agradável, conforme relatou. Em primeiro lugar, opôs-se tenazmente ao aspecto de sofrer na figura

de Cristo e, depois, contra a Sua história como um todo. Voltou seu descontentamento crítico

contra Deus Pai. Se era todo-poderoso, então era culpa Dele se os homens eram maus e

atormentavam os outros e eram mandados para o Inferno por causa disso. Ele devia tê-los feito

bons; Ele próprio era responsável por toda a maldade e todos os tormentos. Também fez objeções

ao fato de que devemos voltar a outra face, se nos batem no lado direito, e ao fato de que Cristo

desejara, na Cruz, que o cálice Lhe pudesse ser tirado, bem como ao fato de que não ocorrera

nenhum milagre para provar que era Filho de Deus. Assim, sua perspicácia estava alerta, e era

capaz de descobrir, com severidade e sem remorso, os pontos fracos da narrativa sagrada.

A essa crítica racionalista, porém, em breve juntaram-se ruminações e dúvidas, o que nos

revela que nele também operavam impulsos ocultos. Uma das primeiras perguntas que fez à sua

Nanya foi se Cristo também havia tido um traseiro. A babá respondeu-lhe que ele fora um deus e

também um homem. Como homem, tivera e fizera as mesmas coisas que os outros homens. Isso

não satisfez de modo algum o menino, mas ele conseguiu encontrar o seu próprio consolo,

dizendo a si mesmo que o traseiro, na verdade, é apenas uma continuação das pernas. Mal

conseguira pacificar seu medo de ter humilhado a figura sagrada, quando o temor novamente se

acendeu ao surgir a questão de saber se Cristo também costumava defecar. Não se arriscou a

fazer essa pergunta à piedosa babá, mas encontrou por si uma saída, e ela não poderia tê-la

achado melhor. De vez que Cristo fizera vinho de nada, também podia transformar a comida em

nada e, dessa forma, não precisava defecar.

Ficaremos em melhor posição para compreender essas ruminações se voltarmos a uma

fase do seu desenvolvimento sexual que já mencionamos. Sabemos que, depois da recusa da sua

Nanya [ver em [1] e seg.] e a conseqüente supressão do início da atividade genital, a vida sexual

do menino desenvolveu-se na direção do sadismo e do masoquismo. Maltratava e atormentava

pequenos animais, imaginava-se batendo em cavalos e, por outro lado, imaginava o herdeiro ao

trono sendo espancado. No seu sadismo, mantinha a antiga identificação com o pai; mas, no

masoquismo, escolhia-o como objeto sexual. Aprofundava-se numa fase da organização

pré-genital que considero como predisposição à neurose obsessiva. A operação do sonho, que o

colocou sob a influência da cena primária, podia tê-lo levado a fazer o avanço no sentido da

organização genital e a transformar o masoquismo em relação ao pai numa atitude feminina, ou

seja, em homossexualismo. O sonho, contudo, não provocou esse avanço; terminou em estado de

ansiedade. Poder-se-ia esperar que sua relação com o pai prosseguisse, do objetivo sexual de ser

espancado para o objetivo seguinte, ou seja, o de ser possuído por ele, como uma mulher; mas, na

verdade, devido à oposição da sua masculinidade narcísica, essa relação foi lançada de volta para

uma etapa ainda mais primitiva. Foi deslocada para um substituto paterno e, ao mesmo tempo,

dissociada na forma de um medo de ser comido pelo lobo. No entanto, isso de forma alguma a

resolveu. Pelo contrário, só podemos fazer justiça à aparente complexidade da situação tendo em

mente a coexistência de três tendências sexuais do menino em relação ao pai. A partir da época

do sonho, em seu inconsciente ele era homossexual e, em sua neurose, estava no nível do

canibalismo; ao passo que a atitude anterior, masoquista, continuou a ser a dominante. Todas as

três correntes tinham propósitos sexuais passivos; era o mesmo objeto e o mesmo impulso sexual,

mas esse impulso tornara-se dividido ao longo dos três diferentes níveis.

O conhecimento que tinha então da história sagrada não lhe dava oportunidade de

sublimar a sua atitude masoquista predominante em relação ao pai. O menino transformou-se em

Cristo - o que se tornou particularmente fácil para ele em virtude da coincidência dos aniversários.

Assim, transformou-se em algo grande e também (fato ao qual não foi dado o devido destaque)

num homem. Surpreendemos um lampejo da sua atitude homossexual reprimida na dúvida em

relação ao fato de Cristo ter um traseiro, pois essas ruminações não podem ter outro significado

senão a questão de poder ele próprio ser usado pelo pai como uma mulher - como a mãe na cena

primária. Quando chegamos à solução das outras idéias obsessivas, encontramos essa

intervenção confirmada. Sua idéia de que era insultuoso relacionar a figura sagrada com tais

insinuações, correspondia à repressão do seu homossexualismo passivo. Perceba-se que ele

estava empenhando-se em conservar sua nova sublimação livre da mistura que esta derivava de

fontes na matéria reprimida. Mas não teve êxito.

Não compreendemos até agora por que se rebelou também contra o caráter passivo de

Cristo e contra o tratamento recebido de seu Pai e, desse modo, começou também a renunciar ao

seu ideal masoquista anterior, mesmo em sua sublimação. Podemos supor que esse segundo

conflito era particularmente favorável ao afloramento de pensamentos obsessivos humilhantes do

primeiro conflito (entre a corrente masoquista, dominante, e a homossexual, reprimida), pois é

natural que, num conflito mental, todas as correntes, de um lado ou de outro, se combinem uma

com a outra, mesmo que tenham as mais diferentes origens. Algumas informações recentes

dão-nos o motivo dessa revolta e, ao mesmo tempo, das críticas que dirigia à religião.

Também as suas pesquisas sexuais ganharam algo com o que ele aprendeu sobre a

história sagrada. Até então não havia tido motivos para supor que as crianças só provinham de

mulheres. Pelo contrário, a Nanya fizera-lhe crer que ele era filho do pai, enquanto a irmã era de

mãe [ver em [1]]; essa ligação mais estreita com o pai fora muito preciosa para ele. Agora sabia

que Maria era chamada a Mãe de Deus. Assim, todas as crianças vinham de mulheres e o que a

babá lhe dissera tornou-se insustentável. De mais a mais, como resultado do que lhe contaram,

ficou confuso acerca de quem verdadeiramente era o pai de Cristo. Inclinava-se a pensar que era

José, pois soube que ele e Maria sempre viveram juntos, mas a babá disse que José era apenas

„como‟ um pai, e que o verdadeiro pai era Deus. Nada conseguia concluir daí. Compreendia

apenas isto: se era uma questão absolutamente discutível, então a relação entre pai e filho não

poderia ser tão íntima como sempre imaginara que fosse.

O menino tinha uma certa suspeita dos sentimentos ambivalentes em relação ao pai, que

são um fator subjacente a todas as religiões, e atacava a religião por causa do afrouxamento

implícito nessa relação entre pai e filho. Naturalmente, em breve a sua oposição deixou de assumir

a forma de dúvidas quanto à verdade da doutrina e, em vez disso, voltou-se diretamente contra a

figura de Deus. Deus tratara o Filho áspera e cruelmente, mas não era melhor em relação aos

homens; sacrificara o próprio Filho e ordenara a Abraão que fizesse o mesmo. Começou a temer

Deus.

Se ele era Cristo, então o seu pai era Deus. Mas o D