21 - O Futuro de uma Ilusão, O mal-estar na civilização e outros trabalhos, Trabalhos de Psicologia
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O Futuro de uma Ilusão, O mal-estar na civilização e outros trabalhos

VOLUME XXI

(1927-1931)

Dr. Sigmund Freud

O FUTURO DE UMA ILUSÃO (1927)

NOTA DO EDITOR INGLÊS

DIE ZUKUNFT EINER ILLUSION

(a) EDIÇÕES ALEMÃS:

1927 Leipzig, Viena e Zurique: Internationaler Psychoanalytischer Verlag, 91 págs.

1928 2ª ed. Mesmos editores. (Inalterada) 91 págs.

1943 G. W., 11,411-66.

1948 G. W., 14,325-380.

(b) TRADUÇÃO INGLESA:

The Future of an Illusion

1928 Londres: Hogarth Press e Instituto de Psicanálise. 98 págs. (Trad. de W.D.

Robson-Scott.)

A presente tradução inglesa baseia-se na que foi publicada em 1928.

Este trabalho foi começado na primavera de 1927, terminado por volta de setembro e

publicado em novembro do mesmo ano.

No „Pós-Escrito‟ que acrescentou em 1935 a seu Autobiographical Study, Freud mencionou

„uma mudança significativa‟ ocorrida em seus trabalhos durante a década anterior. „Meu interesse‟,

explicou, „após ter feito um longo détour pelas ciências naturais, medicina e psicoterapia, retornou

aos problemas culturais que me haviam fascinado muito tempo antes, quando eu não passava de

um jovem com idade apenas suficiente para pensar‟(Standard Ed. 20,72). Naturalmente, ele havia

abordado por diversas vezes esses problemas nos anos intermediários - especialmente em Totem

e Tabu (1912-13), Edição Standard Brasileira, Vol. XIII, IMAGO Editora, 1974, mas foi com o

Futuro de Uma Ilusão que ingressou na série de estudos que vieram a constuir seu interesse

principal pelo resto da vida. Destes, os mais importantes foram O Mal-Estar na Civilização (1930a),

que é o sucessor direto do presente trabalho, o exame de filosofias de vida, tema da última das

NewIntroductory Lectures (1933a), Why War? (1933b), carta aberta dirigida a Einstein, e,

finalmente, Moses and Monotheism (1933a), em que trabalhou de 1934 em diante.

Em vista do amplo pronunciamento de Freud na [1] („Desprezo ter que distinguir entre

cultura e civilização‟) e de uma observação semelhante ao final de Why War?, parece

desnecessário empenhar-nos no enfadonho problema da tradução correta da palavra alemã

„Kultur„. Via de regra, ainda que não invariavelmente, optamos por civilização para o substantivo e

„cultural‟ para o adjetivo.

O FUTURO DE UMA ILUSÃO

I

Quando já se viveu por muito tempo numa civilização específica e com freqüência se

tentou descobrir quais foram suas origens e ao longo de que caminho ela se desenvolveu, fica-se

às vezes tentado a voltar o olhar para outra direção e indagar qual o destino que a espera e quais

as tranformações que está fadada a experimentar. Logo, porém, se descobre que, desde o início, o

valor de uma indagação desse tipo é diminuído por diversos fatores, sobretudo pelo fato de apenas

poucas pessoas poderem abranger a atividade humana em toda a sua amplitude. A maioria das

pessoas foi obrigada a restringir-se a somente um ou a alguns de seus campos. Entretanto, quanto

menos um homem conhece a respeito do passado e do presente, mais inseguro terá de mostrar-se

seu juízo sobre o futuro. E há ainda uma outra dificuldade: a de que precisamente num juízo desse

tipo as expectativas subjetivas do indivíduo desempenham um papel difícil de avaliar, mostrando

ser dependentes de fatores puramente pessoais de sua própria experiência, do maior ou menor

otimismo de sua atitude para com a vida, tal como lhe foi ditada por seu temperamento ou por seu

sucesso ou fracasso. Finalmente, faz-se sentir o fato curioso de que, em geral, as pessoas

experimentam seu presente de forma ingênua, por assim dizer, sem serem capazes de fazer uma

estimativa sobre seu conteúdo; têm primeiro de se colocar a certa distância dele: isto é, o presente

tem de se tornar o passado para que possa produzir pontos de observação a partir dos quais elas

julguem o futuro.

Dessa maneira, qualquer pessoa que ceda à tentação de emitir uma opinião sobre o

provável futuro de nossa civilização fará bem em se lembrar das dificuldades que acabei de

assinalar, assim como da incerteza que, de modo bastante geral, se acha ligada a qualquer

profecia. Disso decorre, no que me concerne, que devo efetuar uma retirada apressada perante

tarefa tão grande, e com rapidez buscar a pequena nesga de território que até o presente tem

reivindicado minha atenção, tão logo determinei sua posição no esquema geral das coisas.

A civilização humana, expressão pela qual quero significar tudo aquilo em que a vida

humana se elevou acima de sua condição animal e difere da vida dos animais - e desprezo ter que

distinguir entre cultura e civilização -, apresenta, como sabemos, dois aspectos ao observador. Por

um lado, inclui todo o conhecimento e capacidade que o homem adquiriu com o fim de controlar as

forças da natureza e extrair a riqueza desta para a satisfação das necessidades humanas; por

outro, inclui todos os regulamentos necessários para ajustar as relações dos homens uns com os

outros e, especialmente, a distribuição da riqueza disponível. As duas tendências da civilização

não são independentes uma da outra; em primeiro lugar, porque as relações mútuas dos homens

são profundamente influenciadas pela quantidade de satisfação instintual que a riqueza existente

torna possível; em segundo, porque, individualmente, um homem pode, ele próprio, vir a funcionar

como riqueza em relação a outro homem, na medida em que a outra pessoa faz uso de sua

capacidade de trabalho ou o escolha como objeto sexual; em terceiro, ademais, porque todo

indivíduo é virtualmente inimigo da civilização, embora se suponha que esta constitui um objeto de

interesse humano universal. É digno de nota que, por pouco que os homens sejam capazes de

existir isoladamente, sintam, não obstante, como um pesado fardo os sacrifícios que a civilização

deles espera, a fim de tornar possível a vida comunitária. A civilização, portanto, tem de ser

defendida contra o indivíduo, e seus regulamentos, instituições e ordens dirigem-se a essa tarefa.

Visam não apenas a efetuar uma certa distribuição da riqueza, mas também a manter essa

distribuição; na verdade, têm de proteger contra os impulsos hostis dos homens tudo o que

contribui para a conquista da natureza e a produção de riqueza. As criações humanas são

facilmente destruídas, e a ciência e a tecnologia, que as construíram, também podem ser utilizadas

para sua aniquilação.

Fica-se assim com a impressão de que a civilização é algo que foi imposto a uma maioria

resistente por uma minoria que compreendeu como obter a posse dos meios de poder e coerção.

Evidentemente, é natural supor que essas dificuldades não são inerentes à natureza da própria

civilização, mas determinadas pelas imperfeições das formas culturais que até agora se

desenvolveram. E, de fato, não é difícil assinalar esses defeitos. Embora a humanidade tenha

efetuado avanços contínuos em seu controle sobre a natureza, podendo esperar efetuar outros

ainda maiores, não é possível estabelecer com certeza que um progresso semelhante tenha sido

feito no trato dos assuntos humanos; e provavelmente em todos os períodos, tal como hoje

novamente, muitas pessoas se perguntaram se vale realmente a pena defender a pouca civilização

que foi assim adquirida.

Pensar-se-ia ser possível um reordenamento das relações humanas, que removeria as

fontes de insatisfação para com a civilização pela renúncia à coerção e à repressão dos instintos,

de sorte que, imperturbados pela discórdia interna, os homens pudessem dedicar-se à aquisição

da riqueza e à sua fruição. Essa seria a idade de ouro, mas é discutível se tal estado de coisas

pode ser tornado realidade. Parece, antes, que toda civilização tem de se erigir sobre a coerção e

a renúncia ao instinto; sequer parece certo se, caso cessasse a coerção, a maioria dos seres

humanos estaria preparada para empreender o trabalho necessário à aquisição de novas riquezas.

Acho que se tem de levar em conta o fato de estarem presentes em todos os homens tendências

destrutivas e, portanto, anti-sociais e anticulturais, e que, num grande número de pessoas, essas

tendências são suficientemente fortes para determinar o comportamento delas na sociedade

humana.

Esse fato psicológico tem importância decisiva para nosso julgamento da civilização

humana. Onde, a princípio, poderíamos pensar que sua essência reside no controle da natureza

para o fim de adquirir riqueza, e que os perigos que a ameaçam poderiam ser eliminados por meio

de uma distribuição apropriada dessa riqueza entre os homens, parece agora que a ênfase se

deslocou do material para o mental. A questão decisiva consiste em saber se, e até que ponto, é

possível diminuir o ônus dos sacrifícios instintuais impostos aos homens, reconciliá-los com

aqueles que necessariamente devem permanecer e fornecer-lhes uma compensação. É tão

impossível passar sem o controle da massa por uma minoria, quanto dispensar a coerção no

trabalho da civilização, já que as massas são preguiçosas e pouco inteligentes; não têm amor à

renúncia instintual e não podem ser convencidas pelo argumento de sua inevitabilidade; os

indivíduos que as compõem apóiam-se uns aos outros em dar rédea livre a sua indisciplina. Só

através da influência de indivíduos que possam fornecer um exemplo e a quem reconheçam como

líderes, as massas podem ser induzidas a efetuar o trabalho e a suportar as renúncias de que a

existência depende. Tudo correrá bem se esses líderes forem pessoas com uma compreensão

interna () superior das necessidades da vida, e que se tenham erguido à altura de dominar seus

próprios desejos instintuais. Há, porém, o perigo de que, a fim de não perderem sua influência,

possam ceder à massa mais do que esta a eles; por conseguinte, parece necessário que sejam

independentes dela pela posse dos meios de poder à sua disposição. Expressando-o de modo

sucinto, existem duas características humanas muito difundidas, responsáveis pelo fato de os

regulamentos da civilização só poderem ser mantidos através de certo grau de coerção, a saber,

que os homens não são espontaneamente amantes do trabalho e que os argumentos não têm

valia alguma contra suas paixões.

Conheço as objeções que serão levantadas contra essas afirmações. Dir-se-á que a

característica das massas humanas aqui retratada, a qual se supõem provar que a coerção não

pode ser dispensada no trabalho da civilização, constitui, ela própria, apenas o resultado de

defeitos nos regulamentos culturais, falhas devido às quais os homens se tornaram amargurados,

vingativos e inacessíveis. Gerações novas, que forem educadas com bondade, ensinadas a ter

uma opinião elevada da razão, e que experimentarem os benefícios da civilização numa idade

precoce, terão atitude diferente para com ela. Senti-la-ão como posse sua e estarão prontas, em

seu benefício, a efetuar os sacrifícios referentes ao trabalho e à satisfação instintual que forem

necessários para sua preservação. Estarão aptas a fazê-lo sem coerção e pouco diferirão de seus

líderes. Se até agora nenhuma cultura produziu massas humanas de tal qualidade, isso se deve ao

fato de nenhuma cultura haver ainda imaginado regulamentos que assim influenciem os homens,

particularmente a partir da infância.

Pode-se duvidar de que seja de algum modo possível, pelo menos até agora, no presente

estágio de nosso controle sobre a natureza, estabelecer regulamentos culturais desse tipo.

Pode-se perguntar de onde virão esses líderes superiores, inabaláveis e desinteressados, que

deverão atuar como educadores das gerações futuras, e talvez seja alarmante pensar na imensa

quantidade de coerção que inevitavelmente será exigida antes que tais intenções possam ser

postas em prática. A grandiosidade do plano e sua importância para o futuro da civilização humana

não podem ser discutidas. É algo firmemente baseado na descoberta psicológica segundo a qual o

homem se acha aparelhado com as mais variadas disposições instintuais, cujo curso definitivo é

determinado pelas experiências da primeira infância. Mas, pela mesma razão, as limitações da

capacidade de educação do homem estabelecem limites à efetividade de uma transformação

desse tipo em sua cultura. Pode-se perguntar se, e em que grau, seria possível a um ambiente

cultural diferente passar sem as duas características das massas humanas que tornam tão difícil a

orientação dos assuntos humanos. A experiência ainda não foi feita. Provavelmente uma certa

percentagem da humanidade (devido a uma disposição patológica ou a um excesso de força

instintual) permanecerá sempre associal; se, porém, fosse viável simplesmente reduzir a uma

minoria a maioria que hoje é hostil à civilização, já muito teria sido realizado - talvez tudo o que

pode ser realizado.

Não gostaria de dar a impressão de me ter extraviado da linha estabelecida para minha

investigação,ver em [[1]]. Permitam-me, portanto, fornecer a garantia expressa de que não tenho a

menor intenção de formular juízos sobre o grande experimento em civilização que se encontra hoje

em desenvolvimento no imenso país que se estende entre a Europa e a Ásia. Não possuo

conhecimento especial nem capacidade de decidir sobre sua praticabilidade para testar a

adequação dos métodos empregados ou medir a amplitude do inevitável hiato existente entre

intenção e execução. O que lá está em preparo, mostra-se inacabado, tornando, portanto, baldada

uma investigação para a qual nossa própria civilização, há longo tempo consolidada, nos fornece

material.

II

Deslizamos, sem nos darmos conta, do campo econômico para o da psicologia. A

princípio, ficamos tentados a procurar as vantagens da civilização na riqueza disponível e nos

regulamentos para sua distribuição. Entretanto, com o reconhecimento de que toda civilização

repousa numa compulsão a trabalhar e numa renúncia ao instinto, provocando, portanto,

inevitavelmente, a oposição dos atingidos por essas exigências, tornou-se claro que a civilização

não pode consistir, principal ou unicamente na própria riqueza, nos meios de adquiri-la e nas

disposições para sua distribuição, de uma vez que essas coisas são ameaçadas pela rebeldia e

pela mania destrutiva dos participantes da civilização. Junto com a riqueza deparamo-nos agora

com os meios pelos quais a civilização pode ser defendida: medidas de coerção e outras, que se

destinam a reconciliar os homens com ela e a recompensá-los por seus sacrifícios. Estas últimas

podem ser descritas como as vantagens mentais da civilização.

Em benefício de uma terminologia uniforme, descreveremos como „frustração‟ o fato de um

instinto não poder ser satisfeito, como „proibição‟ o regulamento pelo qual essa frustração é

estabelecida, e como „privação‟ a condição produzida pela proibição. O primeiro passo consiste em

distinguir entre privações que afetam a todos e privações que não afetam a todos, mas apenas a

grupos, classes ou mesmo indivíduos isolados. As primeiras são as mais antigas; com as

proibições que as estabeleceram, a civilização - quem sabe há quantos milhares de anos? -

começou a separar o homem de sua condição animal primordial.Para nossa surpresa, descobrimos

que essas privações ainda são operantes e ainda constituem o âmago da hostilidade para com a

civilização. Os desejos instintuais que sob elas padecem, nascem de novo com cada criança; há

uma classe de pessoas, os neuróticos, que reagem a essas frustrações através de um

comportamento associal. Entre esses desejos instintuais encontram-se os do canibalismo, do

incesto e da ânsia de matar. Soa estranho colocar lado a lado desejos que todos parecem

unânimes em repudiar e desejos sobre os quais existe tão vívida disputa em nossa civilização

quanto a sua permissão ou frustração; psicologicamente, porém, é justificável proceder assim.

Tampouco, de modo algum é uniforme a atitude da civilização para com esses antigos desejos

instintuais. Apenas o canibalismo parece ser universalmente proscrito e - para a opinião não

psicanalítica - ter sido completamente dominado. A intensidade dos desejos incestuosos ainda

pode ser detectada por detrás da proibição contra eles, e, sob certas condições, o matar ainda é

praticado, e, na verdade, ordenado, por nossa civilização. É possível que ainda tenhamos pela

frente desenvolvimentos culturais em que a satisfação de outros desejos, inteiramente permissíveis

hoje, parecerá tão inaceitável quanto, atualmente, o canibalismo.

Essas primeiras renúncias instintuais já envolvem um fator psicológico igualmente

importante para todas as outras renúncias instintuais. Não é verdade que a mente humana não

tenha passado por qualquer desenvolvimento desde os tempos primitivos e que, em contraste com

os avanços da ciência e da tecnologia, seja hoje a mesma que era nos primórdios da história.

Podemos assinalar de imediato um desses progressos mentais. Acha-se em consonância com o

curso do desenvolvimento humano que a coerção externa se torne gradativamente internalizada,

pois um agente mental especial, o superego do homem, a assume e a inclui entre seus

mandamentos. Toda criança nos apresenta esse processo de transformação; é só por esse meio

que ela se torna um ser moral e social. Esse fortalecimento do superego constitui uma vantagem

cultural muito preciosa no campo psicológico. Aqueles em que se realizou são transformados de

opositores em veículos da civilização. Quanto maior é o seu número numa unidade cultural, mais

segura é a sua altura e mais ela pode passar sem medidas externas de coerção. Ora, o grau dessa

internalização difere grandemente entre as diversas proibições instintuais. Com referência às

primeiras exigências culturais, que já mencionei, a internalização parece ter sido amplamente

conseguida, se não levarmos em conta a exceção desagradável dos neuróticos. Contudo, o caso

se altera quando nos voltamos para as outras reivindicações instintuais. Aqui observamos com

surpresa e preocupação que a maioria das pessoas obedece às proibições culturais nesses pontos

apenas sob pressão da coerção externa, isto é, somente onde essa coerção pode fazer-se efetiva

e enquanto deve ser temida. Isso também é verdade quanto ao que é conhecido como sendo as

exigências morais da civilização, que, do mesmo modo, se aplicam a todos. A maioria das

experiências que se tem da infidedignidade moral do homem ocorre nessa categoria. Há

incontáveis pessoas civilizadas que se recusam a cometer assassinato ou a praticar incesto, mas

que não se negam a satisfazer sua avareza, seus impulsos agressivos ou seus desejos sexuais, e

que não hesitam em prejudicar outras pessoas por meio da mentira, da fraude e da calúnia, desde

que possam permanecer impunes; isso, indubitavelmente, foi sempre assim através de muitas

épocas da civilização.

Se nos voltarmos para as restrições que só se aplicam a certas classes da sociedade,

encontraremos um estado de coisas que é flagrante e que sempre foi reconhecido. É de esperar

que essas classes subprivilegiadas invejem os privilégios das favorecidas e façam tudo o que

podem para se liberarem de seu próprio excesso de privação. Onde isso não for possível, uma

permanente parcela de descontentamento persistirá dentro da cultura interessada, o que pode

conduzir a perigosas revoltas. Se, porém, uma cultura não foi além do ponto em que a satisfação

de uma parte e de seus participantes depende da opressão da outra parte, parte esta talvez maior

- e este é o caso em todas as culturas atuais-, é compreensível que as pessoas assim oprimidas

desenvolvam uma intensa hostilidade para com uma cultura cuja existência elas tornam possível

pelo seu trabalho, mas de cuja riqueza não possuem mais do que uma quota mínima. Em tais

condições, não é de esperar uma internalização das proibições culturais entre as pessoas

oprimidas. Pelo contrário, elas não estão preparadas para reconhecer essas proibições, têm a

intenção de destruir a própria cultura e, se possível, até mesmo aniquilar os postulados em que se

baseia. A hostilidade dessas classes para com civilização é tão evidente, que provocou a mais

latente hostilidade dos estratos sociais mais passíveis de serem desprezados. Não é preciso dizer

que uma civilização que deixa insatisfeito um número tão grande de seus participantes e os

impulsiona à revolta, não tem nem merece a perspectiva de uma existência duradoura.

O ponto até o qual os preceitos de uma civilização foram internalizados - ou, para

expressá-lo de modo mais popular e não psicológico, o nível moral de seus participantes-, não

constitui a única forma de riqueza mental que entra em consideração ao se avaliar o valor de uma

civilização. Há, além disso, suas vantagens sob forma de ideais e criações artísticas, isto é, as

satisfações que podem ser derivadas dessas fontes.

As pessoas sempre estarão prontamente inclinadas a incluir entre os predicados psíquicos

de uma cultura os seus ideais, ou seja, suas estimativas a respeito de que realizações são mais

elevadas e em relação às quais se devem fazer esforços por atingir. Parece, a princípio, que esses

ideais determinam as realizações da unidade cultural; contudo, o curso real dos acontecimentos

parece indicar que os ideais se baseiam nas primeiras realizações que foram tornadas possíveis

por uma combinação entre os dotes internos da cultura e as circunstâncias externas, e que essas

primeiras realizações são então erigidas pelo ideal como algo a ser levado avante. A satisfação

que o ideal oferece aos participantes da cultura é, portanto, de natureza narcísica; repousa em seu

orgulho pelo que já foi alcançado com êxito. Tornar essa satisfação completa exige uma

comparação com outras culturas que visaram a realizações diferentes e desenvolveram ideais

distintos. É a partir da intensidade dessas diferenças que toda cultura reivindica o direito de olhar

com desdém para o resto. Desse modo, os ideais culturais se tornam fonte de discórdia e

inimizades entre unidades culturais diferentes, tal como se pode constatar claramente no caso das

nações.

A satisfação narcísica proporcionada pelo ideal cultural encontra-se também entre as

forças que alcançam êxito no combate à hostilidade para com a cultura dentro da unidade cultural.

Essa satisfação pode ser partilhada não apenas pelas classes favorecidas, que desfrutam dos

benefícios da cultura, mas também pelas oprimidas, já que o direito a desprezar povos

estrangeiros as compensa pelas injustiças que sofrem dentro de sua própria unidade. Não há

dúvida de que alguém pode ter sido um plebeu infeliz, atormentado por dívidas e pelo serviço

militar, mas, em compensação, não deixava de ser um cidadão romano, com sua própria quota na

tarefa de governar outras nações e ditar suas leis. Essa identificação das classes oprimidas com a

classe que as domina e explora é, contudo, apenas uma parte de um todo maior. Isso porque, por

outro lado, as classes oprimidas podem estar emocionalmente ligadas a seus senhores; apesar de

sua hostilidade para com eles, podem ver neles os seus ideais. A menos que tais relações de tipo

fundamentalmente satisfatório subsistam, é impossível compreender como uma série de

civilizações sobreviveu por tão longo tempo, malgrado a justificável hostilidade de grandes massas

humanas.

Um tipo diferente de satisfação é concedido aos participantes de uma unidade cultural pela

arte, embora, via de regra, ela permaneça inacessível às massas, que se acham empenhadas num

trabalho exaustivo, além de não terem desfrutado de qualquer educação pessoal. Como já

descobrimos há muito tempo, a arte oferece satisfações substitutivas para as mais antigas e mais

profundamente sentidas renúncias culturais, e, por esse motivo, ela serve, como nenhuma outra

coisa, para reconciliar o homem com os sacrifícios que tem de fazer em benefício da civilização.

Por outro lado, as criações da arte elevam seus sentimentos de identificação, de que toda unidade

cultural carece tanto, proporcionando uma ocasião para a partilha de experiências emocionais

altamente valorizadas. E quando essas criações retratam as realizações de sua cultura específica

e lhe trazem à mente os ideais dela de maneira impressiva, contribuem também para sua

satisfação narcísica.

Nenhuma menção se fez ainda do que talvez constitua o item mais importante do

inventário psíquico de uma civilização, item este que consiste, no sentido mais amplo, em suas

idéias religiosas, ou, em outras palavras (que posteriormente serão justificadas), em suas ilusões.

III

Em que reside o valor peculiar das idéias religiosas?

Já falamos da hostilidade para com a civilização, produzida pela pressão que esta exerce,

pelas renúncias do instinto que exige. Se se imaginarem suspensas as suas proibições - se, então,

se pudesse tomar a mulher que se quisesse como objeto sexual; se fosse possível matar sem

hesitação o rival ao amor dela ou qualquer pessoa que se colocasse no caminho, e se, também, se

pudesse levar consigo qualquer dos pertences de outro homem sem pedir licença-, quão

esplêndida, que sucessão de satisfações seria a vida! É verdade que logo nos deparamos com a

primeira dificuldade: todos os outros têm exatamente os mesmos desejos que eu, e não me

tratarão com mais consideração do que eu os trato. Assim, na realidade, só uma única pessoa se

poderia tornar irrestritamente feliz através de uma tal remoção das restrições da civilização, e essa

pessoa seria um tirano, um ditador, que se tivesse apoderado de todos os meios de poder. E

mesmo ele teria todos os motivos para desejar que os outros observassem pelo menos um

mandamento cultural: „não matarás‟.

Mas quão ingrato, quão insensato, no fim das contas, é esforçar-se pela abolição da

civilização! O que então restaria seria um estado de natureza, muito mais difícil de suportar. É

verdade que a natureza não exigiria de nós quaisquer restrições dos instintos, deixar-nos-ia

proceder como bem quiséssemos; contudo, ela possui seu próprio método, particularmente

eficiente, de nos coibir. Ela nos destrói, fria, cruel e incansavelmente, segundo nos parece, e,

possivelmente, através das próprias coisas que ocasionaram nossa satisfação. Foi precisamente

por causa dos perigos com que a natureza nos ameaça que nos reunimos e criamos a civilização,

a qual também, entre outras coisas, se destina a tornar possível nossa vida comunal, pois a

principal missão da civilização, sua raison d‟être real, é nos defender contra a natureza.

Todos sabemos que, de diversas maneiras, a civilização já faz isso bastante bem, e é claro

que, na medida em que o tempo passa, o fará muito melhor. Ninguém, no entanto, alimenta a

ilusão de que a natureza já foi vencida, e poucos se atrevem a ter esperanças de que um dia ela

se submeta inteiramente ao homem. Há os elementos, que parecem escarnecer de qualquer

controle humano; a terra, que treme, se escancara e sepulta toda a vida humana e suas obras; a

água, que inunda e afoga tudo num torvelinho; as tempestades, que arrastam tudo o que se lhes

antepõe; as doenças, que só recentemente identificamos como sendo ataques oriundos de outros

organismos, e, finalmente, o penoso enigma da morte, contra o qual remédio algum foi encontrado

e provavelmente nunca será. É com essas forças que a natureza se ergue contra nós, majestosa,

cruel e inexorável; uma vez mais nos traz à mente nossa fraqueza e desamparo, de que

pensávamos ter fugido através do trabalho de civilização. Uma das poucas impressões

gratificantes e exaltantes que a humanidade pode oferecer, ocorre quando, em face de uma

catástrofe elementar, esquece as discordâncias de sua civilização, todas as suas dificuldades e

animosidades internas, e se lembra da grande tarefa comum de se preservar contra o poder

superior da natureza.

Tal como para a humanidade em geral, também para o indivíduo a vida é difícil de

suportar. A civilização de que participa impõe-lhe uma certa quantidade de privação, e outros

homens lhe trazem outro tanto de sofrimento, seja apesar dos preceitos de sua civilização, seja por

causa das imperfeições dela. A isso se acrescentam os danos que a natureza indomada - o que

ele chama de Destino - lhe inflige. Poder-se-ia supor que essa condição das coisas resultaria num

permanente estado de ansiosa expectativa presente nele e em grave prejuízo a seu narcisismo

natural. Já sabemos como o indivíduo reage aos danos que a civilização e os outros homens lhe

infligem: desenvolve um grau correspondente de resistência aos regulamentos da civilização e de

hostilidade para com ela. Mas, como se defende ele contra os poderes superiores da natureza, do

Destino, que o ameaçam da mesma forma que a tudo mais?

A civilização o poupa dessa tarefa; ela a desempenha da mesma maneira para todos,

igualmente, e é digno de nota que, nisso, quase todas as civilizações agem de modo semelhante.

A civilização não se detém na tarefa de defender o homem contra a natureza, mas simplesmente a

prossegue por outros meios. Trata-se de uma tarefa múltipla. A auto-estima do homem, seriamente

ameaçada, exige consolação; a vida e o universo devem ser despidos de seus terrores; ademais,

sua curiosidade, movida, é verdade, pelo mais forte interesse prático, pede uma resposta.

Muito já se conseguiu com o primeiro passo: a humanização da natureza. De forças e

destinos impessoais ninguém pode aproximar-se; permanecem eternamente distantes. Contudo,

se nos elementos se enfurecerem paixões da mesma forma que em nossas próprias almas, se a

própria morte não for algo espontâneo, mas o ato violento de uma Vontade maligna, se tudo na

natureza forem Seres à nossa volta, do mesmo tipo que conhecemos em nossa própria sociedade,

então poderemos respirar livremente, sentir-nos em casa no sobrenatural e lidar com nossa

insensata ansiedade através de meios psíquicos. Talvez ainda nos achemos indefesos, mas não

mais desamparadamente paralisados; pelo menos, podemos reagir. Talvez, na verdade, sequer

nos achemos indefesos. Contra esses violentos super-homens externos podemos aplicar os

mesmos métodos que empregamos em nossa própria sociedade; podemos tentar conjurá-los,

apaziguá-los, suborná-los e, influenciando-os assim, despojá-los de uma parte de seu poder. Uma

tal substituição da ciência natural pela psicologia não apenas proporciona alívio imediato, mas

também aponta o caminho para um ulterior domínio da situação.

Porque essa situação não é nova. Possui um protótipo infantil, de que, na realidade, é

somente a continuação. Já uma vez antes, nos encontramos em semelhante estado de

desamparo: como crianças de tenra idade, em relação a nossos pais. Tínhamos razões para

temê-los, especialmente nosso pai; contudo, estávamos certos de sua proteção contra os perigos

que conhecíamos. Assim, foi natural assemelhar as duas situações. Aqui, também, o desejar

desempenhou seu papel, tal como faz na vida onírica. Aquele que dorme pode ser tomado por um

pressentimento da morte, que ameaça colocá-lo no túmulo. A elaboração onírica, porém, sabe

como selecionar uma condição que transformará mesmo esse temível evento uma realização de

desejo: aquele que sonha vê-se a si mesmo numa antiga sepultura etrusca a que desceu, feliz por

satisfazer seus interesses arqueológicos. Do mesmo modo, um homem transforma as forças da

natureza não simplesmente em pessoas com quem pode associar-se como com seus iguais - pois

isso não faria justiça à impressão esmagadora que essas forças causam nele -, mas lhes concede

o caráter de um pai. Transforma-as em deuses, seguindo nisso, como já tentei demonstrar, não

apenas um protótipo infantil, mas um protótipo filogenético.

No decorrer do tempo, fizeram-se as primeiras observações de regularidade e

conformidade à lei nos fenômenos naturais, e, com isso, as forças da natureza perderam seus

traços humanos. O desamparo do homem, porém, permanece e, junto com ele, seu anseio pelo

pai e pelos deuses. Estes mantêm sua tríplice missão: exorcizar os terrores da natureza, reconciliar

os homens com a crueldade do Destino, particularmente a que é demonstrada na morte,e

compensá-los pelos sofrimentos e privações que uma vida civilizada em comum lhes impôs.

Contudo, dentro dessas funções há um deslocamento gradual de ênfase. Observou-se que

os fenômenos da natureza se desenvolviam automaticamente, de acordo com as necessidades

internas. Indubitavelmente, os deuses eram os senhores da natureza; haviam-na disposto para ser

como era e agora podiam deixá-la por sua própria conta. Apenas ocasionalmente, no que se

conhece como milagres, intervinham eles em seu curso, como para tornar claro que não haviam

abandonado nada de sua esfera original de poder. Com referência à distribuição dos destinos,

persistia a desagradável suspeita de que a perplexidade e o desamparo da raça humana não

podiam ser remediados. Era aqui que os deuses se mostravam aptos a falhar. Se eles próprios

haviam criado o Destino, então seus desígnios deviam ser considerados inescrutáveis. Alvoreceu a

noção, no povo mais bem dotado da Antiguidade, de que Moira [o Destino] alçava-se acima dos

deuses e que mesmo estes tinham os seus próprios destinos. E quanto mais autônoma a natureza

se tornava e quanto mais os deuses se retiravam dela, com mais seriedade todas as expectativas

se dirigiram para a terceira função deles, ou seja, mais a moralidade tornou-se o seu verdadeiro

domínio. Ficou sendo então tarefa dos deuses nivelar os defeitos e os males da civilização, assistir

os sofrimentos que os homens infligem uns aos outros em sua vida em conjunto e vigiar o

cumprimento dos preceitos da civilização, a que os homens obedecem de modo tão imperfeito.

Esses próprios preceitos foram creditados com uma origem divina; foram elevados além da

sociedade humana e estendidos à natureza e ao universo.

Foi assim que se criou um cabedal de idéias, nascido da necessidade que tem o homem

de tornar tolerável seu desamparo, e construído com o material das lembranças do desamparo de

sua própria infância e da infância da raça humana. Pode-se perceber claramente que a posse

dessas idéias o protege em dois sentidos: contra os perigos da natureza e do Destino, e contra os

danos que o ameaçam por parte da própria sociedade humana. Reside aqui a essência da

questão. A vida neste mundo serve a um propósito mais elevado; indubitavelmente, não é fácil

adivinhar qual ele seja, mas decerto significa um aperfeiçoamento da natureza do homem. É

provavelmente a parte espiritual deste, a alma, que, no decurso do tempo, tão lenta e

relutantemente, se desprendeu do corpo, que constitui o objeto desta elevação e exaltação. Tudo o

que acontece neste mundo constitui expressão das intenções de uma inteligência superior para

conosco, inteligência que, ao final, embora seus caminhos e desvios sejam difíceis de

acompanhar, ordena tudo para o melhor - isto é, torna-o desfrutável por nós. Sobre cada um de

nós vela uma Providência benevolente que só aparentemente é severa e que não permitirá que

nos tornemos um joguete das forças poderosas e impiedosas da natureza. A própria morte não é

uma extinção, não constitui um retorno ao inanimado inorgânico, mas o começo de um novo tipo

de existência que se acha no caminho da evolução para algo mais elevado. E, olhando na outra

direção, essa visão anuncia que as mesmas leis morais que nossas civilizações estabeleceram,

governam também o universo inteiro, com a única diferença de serem mantidas por uma corte

suprema de justiça incomparavelmente mais poderosa e harmoniosa. Ao final, todo o bem é

recompensado e todo o mal, punido, se não na realidade, sob esta forma de vida, pelo menos em

existências posteriores que se iniciam após a morte. Assim, todos os terrores, sofrimentos e

asperezas da vida estão destinados a se desfazer. A vida após a morte, que continua a vida sobre

a terra exatamente como a parte invisível do espectro se une à parte visível, nos conduz à

perfeição que talvez tenhamos deixado de atingir aqui. E a sabedoria superior que dirige esse

curso das coisas, a bondade infinita que nela se expressa, a justiça que nela atinge seu objetivo,

são os atributos dos seres divinos que também nos criaram, e ao mundo como um todo, ou melhor,

de um ser divino no qual, em nossa civilização, todos os deuses da Antiguidade foram

condensados. O povo que pela primeira vez alcançou êxito em concentrar assim os atributos

divinos não ficou pouco orgulhoso de seu progresso. Descerrara à vista o pai que sempre se

achara oculto por detrás de toda figura divina, como seu núcleo. Fundamentalmente, isso

constituía um retorno aos primórdios históricos da idéia de Deus. Agora que este era uma figura

isolada, as relações do homem com ele podiam recuperar a intimidade e a intensidade do

relacionamento do filho com o pai. Mas, já que se fizera tanto pelo próprio pai, desejava-se obter

uma recompensa, ou, pelo menos, ser o seu filho bem amado, o seu Povo Escolhido. Muito mais

tarde, a piedosa América reivindicou ser o „Próprio País de Deus‟, e, com referência a uma das

formas pelas quais os homens adoram a divindade, essa reivindicação é indubitavelmente válida.

As idéias religiosas acima resumidas naturalmente passaram por um longo processo de

desenvolvimento, e diversas civilizações a elas aderiram em diversas fases. Isolei uma dessas

fases que corresponde aproximadamente à forma final assumida por nossa atual civilização branca

e cristã. É fácil perceber que nem todas as partes desse quadro concordam igualmente bem umas

com as outras, que nem todas as perguntas que têm premência de resposta a recebem, e que é

difícil pôr de lado a contradição da experiência cotidiana. Não obstante, tal como são, essas idéias

- idéias religiosas no sentido mais amplo - são prezadas como o mais precioso bem da civilização,

como a coisa mais preciosa que ela tem a oferecer a seus participantes. São muito mais altamente

prezadas do que todos os artifícios para conquistar tesouros da terra, prover os homens com o

sustento, evitar suas doenças, e assim por diante. As pessoas sentem que a vida não seria

tolerável se não ligassem a essas idéias o valor que é para elas reivindicado. E é aqui que surge a

questão: o que são essas idéias à luz da psicologia? De onde derivam a estima em que são tidas?

E, para dar mais um tímido passo, qual é seu valor real?

IV

Uma investigação que progride como um monólogo, sem interrupção, não está

inteiramente livre de perigos. Facilmente, fica-se tentado a pôr de lado pensamentos que nela

ameaçam irromper, e, em troca, fica-se com uma sensação de incerteza que, no final, se tenta

manter submissa por uma decisão radical. Imaginarei, portanto, que tenho um opositor que

acompanha meus argumentos com desconfiança e, aqui e ali, permitirei que interponha algumas

observações.

Escuto-o dizer: „Você empregou repetidamente as expressões “a civilização cria essas

idéias religiosas, “a civilização as coloca à disposição de seus participantes”. Há nisso algo que me

soa estranho. Não posso dizer por que razão, mas não soa tão natural quanto dizer que a

civilização dos produtos do trabalho, ou sobre os direitos referentes às mulheres e crianças‟.

Ainda assim, penso que se justifica expressar-me dessa maneira. Tentei demonstrar que

as idéias religiosas surgiram da mesma necessidade de que se originaram todas as outras

realizações da civilização, ou seja, da necessidade de defesa contra a força esmagadoramente

superior da natureza. A isso acrescentou-se um segundo motivo: o impulso a retificar as

deficiências da civilização, que se faziam sentir penosamente. Ademais, é especialmente

apropriado dizer que a civilização fornece ao indivíduo essas idéias, porque ele já as encontra lá;

são-lhe presenteadas já prontas, e ele não seria capaz de descobri-las por si mesmo. Aquilo em

que ele está ingressando constitui a herança de muitas gerações, e ele a assume tal como faz com

a tabuada de multiplicar, a geometria, e outras coisas semelhantes. Há, na realidade, uma

diferença nisso, mas ela reside em outro lugar e ainda não posso examiná-la. A sensação de

estranheza que você menciona, talvez se deva em parte ao fato de esse corpo de idéias religiosas

ser geralmente apresentado como revelação divina. Contudo, essa própria apresentação faz parte

do sistema religioso e ignora inteiramente o desenvolvimento histórico conhecido dessas idéias e

suas diferenças em épocas e civilizações diferentes.

„Temos aqui outro ponto, que me parece ser mais importante. Você argumenta que a

humanização da natureza deriva da necessidade de pôr fim à perplexidade e ao desamparo do

homem frente a suas forças temíveis, de entrar em relação com elas e, finalmente, de

influenciá-las. Mas uma motivação desse tipo parece supérflua. O homem primitivo não tem

escolha, não dispõe de outra maneira de pensar. É-lhe natural,algo inato, por assim dizer, projetar

exteriormente sua existência para o mundo e encarar todo acontecimento que observa como

manifestação de seres que, no fundo, são semelhantes a ele próprio. É seu único método de

compreensão. E de modo algum trata-se de algo auto-evidente, mas, pelo contrário, de uma

coincidência notável, que, cedendo assim à sua disposição natural, consegue satisfazer uma de

suas maiores necessidades‟.

Não acho isso tão notável. Imagina você que o pensamento não possui motivos práticos,

que é simplesmente a expressão de uma curiosidade desinteressada? Isso, certamente, é algo

muito improvável. Acredito antes que, quando o homem personifica as forças da natureza, está

mais uma vez seguindo um modelo infantil. Ele aprendeu, das pessoas de seu primeiro ambiente,

que a maneira de influenciá-las é estabelecer um relacionamento com elas; assim, mais tarde,

tendo o mesmo fim em vista, trata tudo o mais com que se depara da mesma maneira por que

tratou aquelas pessoas. Assim, não contradigo sua observação descritiva; é, de fato, natural ao

homem personificar tudo o que deseja compreender, a fim de, posteriormente, controlá-lo (a

dominação psíquica como preparação para a dominação física), mas forneço, além disso, um

motivo e uma gênese para essa peculiaridade do pensar humano.

„Mas ainda há um terceiro ponto. Você tratou anteriormente da origem da religião, em seu

livro Totem e Tabu [1912-13]. Lá, porém, ela aparecia sob uma luz diferente. Tudo era o

relacionamento filho-pai. Deus era o pai exaltado, e o anseio pelo pai constituía a raiz da

necessidade de religião. Desde então, segundo parece, você descobriu o fator da fraqueza e do

desamparo humanos, ao qual, na verdade, o principal papel na formação da religião é geralmente

atribuído, e agora transpõe tudo que foi outrora o complexo paterno em função do desamparo.

Posso lhe pedir que explique essa transformação?‟

Com prazer. Estava esperando esse convite. Contudo, trata-se realmente de uma

transformação? Em Totem e Tabu, não era meu propósito explicar a origem da religião, mas

apenas do totemismo. Poderá você, segundo qualquer dos pontos de vista que lhe são

conhecidos, explicar o fato de que a primeira forma pela qual a divindade protetora se revelou aos

homens teve de ser a de um animal, que tenha havido uma proibição contra matar e comer esse

animal, e que, não obstante, o costume solene tenha sido matá-lo e comê-lo comunalmente uma

vez por ano? É exatamente isso que acontece no totemismo. E dificilmente tem propósito

argumentar se o totemismo deve ser chamado de religião. Ele possui vinculações estreitas com as

posteriores religiões de deuses. Os animais totêmicos tornam-se os animais sagrados dos deuses,

e as mais antigas, mas fundamentais restrições morais - as proibições contra o assassinato e o

incesto - originam-se do totemismo. Aceite você ou não as conclusões de Totem e Tabu, espero

que admita que uma série de fatos notáveis e desvinculados são nele reunidos num todo coerente.

A questão de saber por que, a longo prazo, o deus animal não bastou, e foi substituído por

um deus humano, mal foi abordada em Totem e Tabu, e outros problemas concernentes à

formação da religião não foram, de modo algum, mencionados no livro. Considera você uma

limitação desse tipo a mesma coisa que uma negação? Meu trabalho constitui um bom exemplo do

isolamento estrito da contribuição específica que o exame psicanalítico pode efetuar quanto à

solução do problema da religião. Se agora estou tentando acrescentar a outra parte, menos

profundamente oculta, acho que você não deveria me acusar de estar me contradizendo, tal como

antes me acusou de ser unilateral. Naturalmente, é meu dever apontar os vínculos de união entre o

que disse antes e o que apresento agora, entre os motivos manifestos, entre o complexo paterno e

o desamparo e a necessidade de proteção do homem.

Essas vinculações não são difíceis de encontrar. Consistem na relação do desamparo da

criança com o desamparo do adulto, que a continua, de maneira que, como era de esperar, os

motivos para a formação da religião que a psicanálise revela agora, mostram ser os mesmos que a

contribuição infantil aos motivos manifestos.Transportemo-nos para a vida mental de uma criança.

Você se recorda da escolha de objeto de acordo com o tipo anaclítico [ligação], de que fala a

psicanálise? A libido segue aí os caminhos das necessidades narcísicas e liga-se aos objetos que

asseguram a satisfação dessas necessidades. Desta maneira, a mãe, que satisfaz a fome da

criança, torna-se seu primeiro objeto amoroso e, certamente, também sua primeira proteção contra

todos os perigos indefinidos que a ameaçam no mundo externo - sua primeira proteção contra a

ansiedade, podemos dizer.

Nessa função [de proteção] a mãe é logo substituída pelo pai mais forte, que retém essa

posição pelo resto da infância. Mas a atitude da criança para com o pai é matizada por uma

ambivalência peculiar. O próprio pai constitui um perigo para a criança, talvez por causa do

relacionamento anterior dela com a mãe. Assim, ela o teme tanto quanto anseia por ele e o admira.

As indicações dessa ambivalência na atitude para com o pai estão profundamente impressas em

toda religião, tal como foi demonstrado em Totem e Tabu. Quando o indivíduo em crescimento

descobre que está destinado a permanecer uma criança para sempre, que nunca poderá passar

sem proteção contra estranhos poderes superiores, empresta a esses poderes as características

pertencentes à figura do pai; cria para si próprio os deuses a quem teme, a quem procura propiciar

e a quem, não obstante, confia sua própria proteção. Assim, seu anseio por um pai constitui um

motivo idêntico à sua necessidade de proteção contra as conseqüências de sua debilidade

humana. É a defesa contra o desamparo infantil que empresta suas feições características à

reação do adulto ao desamparo que ele tem de reconhecer - reação que é, exatamente, a

formação da religião. Mas não é minha intenção levar mais adiante a investigação do

desenvolvimento da idéia de Deus; aquilo em que aqui estamos interessados é o corpo acabado

das idéias religiosas, tal como transmitido pela civilização ao indivíduo.

V

Retomemos o fio de nossa investigação. Qual é, então, a significação psicológica das

idéias religiosas e sob que título devemos classificá-las? A pergunta de modo algum é fácil de ser

imediatamente respondida. Após rejeitar uma série de formulações, nos fixaremos na que se

segue. As idéias religiosas são ensinamentos e afirmações sobre fatos e condições da realidade

externa (ou interna) que nos dizem algo que não descobrimos por nós mesmos e que reivindicam

nossa crença. Visto nos fornecerem informações sobre o que é mais importante e interessante

para nós na vida, elas são particular e altamente prezadas. Quem quer que nada conheça a

respeito delas é muito ignorante, e todos que as tenham acrescentado a seu conhecimento podem

considerar-se muito mais ricos.

Existem, naturalmente, muitos ensinamentos desse tipo sobre as mais variadas coisas do

mundo. Toda lição escolar está cheia deles. Consideremos a geografia. É-nos dito que a cidade de

Constança fica sobre o Bodensee. Uma canção estudantil acrescenta: „se não acredita, vá lá e

veja‟. Suponhamos que eu estive lá e que pude confirmar que de fato aquela encantadora cidade

fica à beira de uma vasta extensão de água, chamada de Bodensee por todos os que vivem em

torno dela; então, me convenci totalmente da correção daquela afirmação geográfica. Com respeito

a isso, recordo-me de outra experiência, bastante notável. Já era homem maduro quando pela

primeira vez me encontrei sobre a colina da Acrópole, em Atenas, entre as ruínas do templo,

contemplando o mar azul. Uma sensação de espanto mesclava-se à minha alegria. Ela parecia

dizer: „Então é realmente verdade, tal como aprendemos na escola!‟ Quão superficial e fraca deve

ter sido a crença que então adquirira na verdade real do que ouvira, se agora podia ficar tão

espantado! Não darei, porém, demasiada ênfase ao significado dessa experiência, pois meu

espanto poderia ter tido outra explicação, que não me ocorreu na ocasião, e que é de natureza

inteiramente subjetiva, nada tendo a ver com o caráter especial do lugar.

Todo ensinamento como este, então, exige uma crença em seu conteúdo, mas não sem

produzir fundamentos para sua reivindicação. Esses ensinamentos são apresentados como o

resultado resumido de um processo mais extenso de pensamento, baseado na observação e,

decerto, também em inferências. Se alguém desejar passar por esse processo, em vez de aceitar

seu resultado, eles lhe mostrarão como fazê-lo. Ademais, é-nos dada sempre, em acréscimo, a

fonte do conhecimento que é por eles transmitido, quando essa fonte não é auto-evidente, como

no caso das afirmações geográficas. Por exemplo, a Terra tem a forma de uma esfera; as provas

aduzidas para isso são o experimento do pêndulo de Foucault, o comportamento do horizonte e a

possibilidade de circunavegá-la. Visto ser impraticável, como qualquer pessoa interessada

percebe, enviar crianças em idade escolar numa viagem em redor do mundo, satisfazemo-nos em

permitir que o que é ensinado na escola seja aceito com confiança; sabemos, no entanto, que a via

para a aquisição de uma convicção pessoal permanece aberta.

Tentemos aplicar o mesmo teste aos ensinamentos da religião. Quando indagamos em

que se funda sua reivindicação a ser acreditada, deparamo-nos com três respostas, que se

harmonizam de modo excepcionalmente mau umas com as outras. Em primeiro lugar, os

ensinamentos merecem ser acreditados porque já o eram por nossos primitivos antepassados; em

segundo, possuímos provas que nos foram transmitidas desde esses mesmos tempos primevos;

em terceiro, é totalmente proibido levantar a questão de sua autenticidade. Em épocas anteriores,

uma tal presunção era punida com os mais severos castigos, e ainda hoje a sociedade olha com

desconfiança para qualquer tentativa de levantar novamente a questão.

Esse terceiro ponto está fadado a despertar nossas mais fortes suspeitas. Afinal de contas,

uma proibição desse tipo só pode ter uma razão - que a sociedade se acha bastante cônscia da

insegurança da reivindicação que faz em prol de suas doutrinas religiosas. Caso contrário, decerto

estaria pronta a colocar os dados necessários à disposição de quem quer que desejasse chegar à

convicção. Assim sendo, é com uma sensação de desconfiança difícil de apaziguar que passamos

ao exame dos outros dois fundamentos de prova. Temos que acreditar porque nossos

antecipassados acreditaram. Mas nossos ancestrais eram muito mais ignorantes do que nós.

Acreditavam em coisas que hoje não nos é possível aceitar, e ocorre-nos a possibilidade de que as

doutrinas da religião possam pertencer também a essa classe. As provas que nos legaram estão

registradas em escritos que, eles próprios, trazem todos os sinais de infidedignidade. Estão cheios

de contradições, revisões e falsificações e, mesmo onde falam de confirmações concretas, elas

próprias acham-se inconfirmadas. Não adianta muito asseverar que suas palavras, ou inclusive

apenas seu conteúdo, se originam da revelação divina, porque essa asserção é, ela própria, uma

das doutrinas cuja autenticidade está em exame, e nenhuma proposição pode ser prova de si

mesma.

Chegamos assim à singular conclusão de que, de todas as informações proporcionadas

por nosso patrimônio cultural, as menos autenticadas constituem precisamente os elementos que

nos poderiam ser da maior importância, ter a missão de solucionar os enigmas do universo e nos

reconciliar com os sofrimentos. Não poderíamos ser levados a aceitar algo de tão pouco interesse

para nós quanto o fato de as baleias darem à luz filhotes, em vez de porem ovos, se não se

pudesse apresentar provas melhores do que isso.

Esse estado de coisas é, em si próprio, um problema psicológico bastante notável. E que

ninguém imagine que o que declarei a respeito da impossibilidade de provar a verdade das

doutrinas religiosas contenha algo de novo. Isso já foi sentido em todas as épocas, e,

indubitavelmente, também pelos ancestrais que nos transmitiram esse legado. Muitos deles

provavelmente nutriram as mesmas dúvidas que nós, mas a pressão a eles imposta foi forte

demais para que se atrevessem a expressá-las. E, visto que incontáveis pessoas foram

atormentadas por dúvidas semelhantes e se esforçaram por reprimi-las, por acharem que era seu

dever acreditar, muitos intelectos brilhantes sucumbiram a esse conflito e muitos caracteres foram

prejudicados pelas transigências com que tentaram encontrar uma saída para ele.

Se todas as provas apresentadas em prol da autenticidade dos ensinamentos religiosos se

originam do passado, é natural que se passe o olhar em volta e se veja se o presente, sobre o qual

é mais fácil formar julgamentos, não será capaz de fornecer provas desse tipo. Se, por esse meio,

alcançássemos êxito em liberar da dúvida mesmo uma parte isolada do sistema religioso, a sua

totalidade ganharia imensamente em credibilidade. Os processos dos espiritualistas vêm a nosso

encontro nesse ponto; eles estão convencidos da sobrevivência da alma individual e procuram

demonstrar-nos, para além de qualquer dúvida, a verdade dessa doutrina religiosa.

Lamentavelmente, não conseguem refutar o fato de o aparecimento e as palavras dos espíritos

serem simplesmente produtos de sua própria atividade mental. Invocaram os espíritos dos maiores

homens e dos mais eminentes pensadores, mas todos os pronunciamentos e informações que

deles receberam foram tão tolos e tão deploravelmente sem sentido que neles nada se pode

encontrar de crível, exceto a capacidade dos espíritos em se adaptarem ao círculo de pessoas que

os conjuraram. Devo agora mencionar duas tentativas que foram feitas - ambas as quais

transmitem a impressão de serem esforços desesperados - para fugir ao problema. Uma, de

natureza violenta, é antiga; a outra, sutil e moderna. A primeira é o „Credo quia absurdum‟, do

primeiro Padre da Igreja. Sustenta que as doutrinas religiosas estão fora da jurisdição da razão -

acima dela. Sua verdade deve ser sentida interiormente, e não precisam ser compreendidas. Mas

esse Credo só tem interesse como autoconfissão. Como declaração autorizada, não possui força

obrigatória. Devo ser obrigado a acreditar em todos os absurdos? E caso não, por que nesse em

particular? Acima da razão não há tribunal a que apelar. Se a verdade das doutrinas religiosas

depende de uma experiência interior que dá testemunho dessa verdade, o que se deve fazer com

as muitas pessoas que não dispõem dessa rara experiência? Pode-se exigir que todo homem

utilize o dom da razão de que é possuidor, mas não se pode erigir, com base num motivo que

existe apenas para poucos, uma obrigação que se aplique a todos. Se determinado homem obteve

uma convicção inabalável a respeito da verdadeira realidade das doutrinas religiosas, a partir de

um estado de êxtase que o comoveu profundamente, que significação isso tem para os outros?

A segunda tentativa é a efetuada pela filosofia do „como se‟, que assevera que nossa

atividade de pensamento inclui grande número de hipóteses cuja falta de fundamento e até mesmo

absurdeza compreendemos perfeitamente. São chamadas de „ficções‟, mas, por várias razões

práticas, temos de nos comportar „como se‟ nelas acreditássemos. Tal é o caso das doutrinas

religiosas, devido à sua incomparável importância para a manutenção da sociedade humana. Essa

linha de argumentação não se afasta muito do „Credo quia absurdum„, mas penso que a exigência

feita pelo argumento do „como se‟ é uma exigência que só o filósofo pode apresentar. Um homem

cujo pensar não se acha influenciado pelos artifícios da filosofia nunca poderá aceitá-la; na opinião

de tal homem, a admissão de que algo é absurdo ou contrário à razão não deixa mais nada a ser

dito. Não se pode esperar dele que, precisamente ao tratar de seus interesses mais importantes,

abra mão das garantias que exige para todas as suas atividades comuns. Lembro-me de um de

meus filhos que se distinguia, em idade precoce, por uma positividade particularmente acentuada.

Quando estava sendo contada às crianças uma história de fadas e todas a escutavam com

embevecida atenção, ele se levantava e perguntava: „Essa história é verdadeira?‟ Quando se

respondia que não, afastava-se com um olhar de desdém. Podemos esperar que dentro em breve

as pessoas se comportem da mesma maneira para com os contos de fadas da religião, a despeito

de tudo o que o „como se‟ advoga.

Atualmente, porém, elas ainda se conduzem de modo inteiramente diferente e, em tempos

passados, as idéias religiosas, a despeito de sua incontrovertível falta de autenticidade, exerceram

a mais forte influência possível sobre a humanidade. Trata-se de um novo problema psicológico.

Devemos perguntar onde reside a força interior dessas doutrinas e a que devem sua eficácia,

independente, como é, do reconhecimento pela razão.

VI

Acho que preparamos suficientemente o caminho para uma resposta a ambas as

perguntas. Ela será encontrada se voltarmos nossa atenção para a origem psíquica das idéias

religiosas. Estas, proclamadas como ensinamentos, não constituem precipitados de experiência ou

resultados finais de pensamento: são ilusões, realizações dos mais antigos, fortes e prementes

desejos da humanidade. O segredo de sua força reside na força desses desejos. Como já

sabemos, a impressão terrificante de desamparo na infância despertou a necessidade de proteção

- de proteção através do amor -, a qual foi proporcionada pelo pai; o reconhecimento de que esse

desamparo perdura através da vida tornou necessário aferrar-se à existência de um pai, dessa

vez, porém, um pai mais poderoso. Assim o governo benevolente de uma Providência divina mitiga

nosso temor dos perigos da vida; o estabelecimento de uma ordem moral mundial assegura a

realização das exigências de justiça, que com tanta freqüência permaneceram irrealizadas na

civilização humana; e o prolongamento da existência terrena numa vida futura fornece a estrutura

local e temporal em que essas realizações de desejo se efetuarão. As respostas aos enigmas que

tentam a curiosidade do homem, tais como a maneira pela qual o universo começou ou a relação

entre corpo e mente, são desenvolvidas em conformidade com as suposições subjacentes a esse

sistema. Constitui alívio enorme para a psique individual se os conflitos de sua infância, que

surgem do complexo paterno - conflitos que nunca superou inteiramente -, são dela retirados e

levados a uma solução universalmente aceita.

Quando digo que todas essas coisas são ilusões, devo definir o significado da palavra.

Uma ilusão não é a mesma coisa que um erro; tampouco é necessariamente um erro. A crença de

Aristóteles de que os insetos se desenvolvem do esterco (crença a que as pessoas ignorantes

ainda se aferram) era um erro; assim como a crença de uma geração anterior de médicos de que a

tabes dorsalis constitui resultado de excessos sexuais. Seria incorreto chamar esses erros de

ilusões. Por outro lado, foi uma ilusão de Colombo acreditar que descobriu um novo caminho

marítimo para as Índias. O papel desempenhado por seu desejo nesse erro é bastante claro.

Pode-se descrever como ilusão a asserção feita por certos nacionalistas de que a raça

indo-germânica é a única capaz de civilização, ou a crença, que só foi destruída pela psicanálise,

de que as crianças são criaturas sem sexualidade. O que é característico das ilusões é o fato de

derivarem de desejos humanos. Com respeito a isso, aproximam-se dos delírios psiquiátricos, mas

deles diferem também, à parte a estrutura mais complicada dos delírios. No caso

destes,enfatizamos como essencial o fato de eles se acharem em contradição com a realidade. As

ilusões não precisam ser necessariamente falsas, ou seja, irrealizáveis ou em contradição com a

realidade. Por exemplo, uma moça de classe média pode ter a ilusão de que um príncipe

aparecerá e se casará com ela. Isso é possível, e certos casos assim já ocorreram. Que o Messias

chegue e funde uma idade de ouro é muito menos provável. Classificar-se essa crença como

ilusão ou como algo análogo a um delírio dependerá da própria atitude pessoal. Exemplos de

ilusões que mostraram ser verdadeiras não são fáceis de encontrar, mas a ilusão dos alquimistas

de que todos os metais podiam ser transformados em ouro poderia ser um deles. O desejo de

possuir uma grande quantidade de ouro, tanto ouro quanto possível, foi, é verdade, em grande

parte arrefecido por nosso conhecimento atual dos fatores determinantes da riqueza, mas a

química não mais encara a transmutação dos metais em ouro como impossível. Podemos,

portanto, chamar uma crença de ilusão quando uma realização de desejo constitui fator

proeminente em sua motivação e, assim procedendo, desprezamos suas relações com a realidade,

tal como a própria ilusão não dá valor à verificação.

Havendo estabelecido desse modo nossas coordenadas, retornemos à questão das

doutrinas religiosas. Podemos agora repetir que todas elas são ilusões e insuscetíveis de prova.

Ninguém pode ser compelido a achá-las verdadeiras, a acreditar nelas. Algumas são tão

improváveis, tão incompatíveis com tudo que laboriosamente descobrimos sobre a realidade do

mundo, que podemos compará-las - se consideramos de forma apropriada as diferenças

psicológicas - a delírios. Do valor de realidade da maioria delas não podemos ajuizar; assim como

não podem ser provadas, também não podem ser refutadas. Conhecemos ainda muito pouco para

efetuar sua abordagem crítica. Os enigmas do universo só lentamente se revelam à nossa

investigação; existem muitas questões a que a ciência atualmente não pode dar resposta. Mas o

trabalho científico constitui a única estrada que nos pode levar a um conhecimento da realidade

externa a nós mesmos. É, mais uma vez, simplesmente uma ilusão esperar qualquer coisa da

intuição e da introspecção; elas nada nos podem dar, a não ser detalhes sobre nossa própria vida

mental, detalhes difíceis de interpretar, nunca qualquer informação sobre as perguntas que a

doutrina religiosa acha tão fácil responder. Seria insolente permitir que nossa própria vontade

arbitrária ingressasse na questão e, de acordo com nossa estimativa pessoal, declarasse esta ou

aquela parte do sistema religioso como mais ou menos aceitável. Tais questões são momentosas

demais para isso; poderiam ser chamadas de demasiadamente sagradas.Nesse ponto, é de

esperar que se encontre uma objeção. „Bem, então, se mesmos os céticos impenitentes admitem

que as asserções da religião não podem ser refutadas pela razão, por que não devo acreditar

nelas, já que possuem tanta coisa de seu lado - a tradição, a concordância da humanidade, e

todas as consolações que oferecem?‟ De fato, por que não? Assim como ninguém pode ser

forçado a crer, também ninguém pode ser forçado a descrer. Mas não nos permitamos ficar

satisfeitos em nos enganarmos que argumentos desse tipo nos conduzirão pela estrada do

pensamento correto. Se algum dia já houve um exemplo de desculpa esfarrapada, temo-lo aqui.

Ignorância é ignorância; nenhum direito a acreditar em algo pode ser derivado dela. Em outros

assuntos, nenhuma pessoa sensata se comportaria tão irresponsavelmente ou se contentaria com

fundamentos tão débeis para suas opiniões e para a posição que assume. É apenas nas coisas

mais elevadas e sagradas que se permite fazê-lo. Na realidade, trata-se apenas de tentativas de

fingir para nós mesmos ou para outras pessoas que ainda nos achamos firmemente ligados à

religião, quando há muito tempo já nos apartamos dela. Quanto a questões de religião, as pessoas

são culpadas de toda espécie possível de desonestidade e mau procedimento intelectual. Os

filósofos distendem tanto o sentido das palavras, que elas mal retêm algo de seu sentido original.

Dão o nome de „Deus‟ a alguma vaga abstração que criaram para si mesmos e, assim, podem

posar perante todos como deístas, como crentes em Deus, e inclusive gabar-se de terem

identificado um conceito mais elevado e puro de Deus, não obstante significar seu Deus agora

nada mais que uma sombra sem substância, sem nada da vigorosa personalidade das doutrinas

religiosas. Os críticos insistem em descrever como „profundamente religioso‟ qualquer um que

admita uma sensação da insignificância ou impotência do homem diante do universo, embora o

que constitua a essência da atitude religiosa não seja essa sensação, mas o passo seguinte, a

reação que busca um remédio para ela. O homem que não vai além, mas humildemente concorda

com o pequeno papel que os seres humanos desempenham no grande mundo, esse homem é,

pelo contrário, irreligioso no sentido mais verdadeiro da palavra.

Avaliar o valor de verdade das doutrinas religiosas não se acha no escopo da presente

investigação. Basta-nos que as tenhamos reconhecido como sendo, em sua natureza psicológica,

ilusões. Contudo, não somos obrigados a ocultar o fato de que essa descoberta também influencia

fortemente nossa atitude para com a questão que a muitos deve parecer a mais importante de

todas. Sabemos aproximadamente em que períodos, e por que tipo de homens, as doutrinas

religiosas foram criadas. Se, ademais, descobrirmos os motivos que conduziram a isso, nossa

atitude para com o problema da religião experimentará um acentuado deslocamento. Dir-nos-emos

que seria muito bom se existissem um Deus que tivesse criado o mundo, uma Providência

benevolente, uma ordem moral no universo e uma vida posterior; constitui, porém, fato bastante

notável que tudo isso seja exatamente como estamos fadados a desejar que seja. E seria ainda

mais notável se nossos lamentáveis, ignorantes e espezinhados ancestrais tivessem conseguido

solucionar todos esses difíceis enigmas do universo.

VII

Tendo identificado as doutrinas religiosas como ilusões, somos imediatamente defrontados

por outra questão: não poderão ser de natureza semelhante outros predicados culturais de que

fazemos alta opinião e pelos quais deixamos nossas vidas serem governadas? Não devem as

suposições que determinam nossas regulamentações políticas serem chamadas também de

ilusões? E não acontece que, em nossa civilização, as relações entre os sexos sejam perturbadas

por ilusão erótica ou um certo número dessas ilusões? E, uma vez despertada nossa suspeita, não

nos esquivaremos de também perguntar se nossa convicção de que podemos aprender algo sobre

a realidade externa pelo emprego da observação e do raciocínio no trabalho científico, possui um

fundamento melhor. Nada deveria impedir-nos de dirigir a observação para nossos próprios eus e

de aplicar o pensamento à crítica dele próprio. Nesse campo, uma série de investigações se abre a

nossa frente, cujos resultados não podem deixar de ser decisivos para a construção de uma

Weltanschauung‟. Imaginamos, ademais, que um esforço desse tipo não seria vão e que, pelo

menos em parte, justificaria nossas suspeitas. O autor, porém, não dispõe dos meios para

empreender tarefa tão abrangente; necessita confinar seu trabalho ao seguimento de apenas uma

dessas ilusões, a saber, a da religião.

Aqui, a alta voz de nosso opositor nos interrompe. É-nos exigido que expliquemos nossa

má ação:

„Os interesses arqueológicos são, indubitavelmente, bastante dignos de elogios, mas

ninguém empreende uma escavação se, assim procedendo, solapar as moradias de pessoas

vivas, de maneira que aquelas aluam e soterrem estas sob suas ruínas. As doutrinas da religião

não constituem um tema sobre o qual se possa tergiversar, como outro qualquer. Nossa civilização

se ergue sobre elas e a manutenção da sociedade humana se baseia na crença da maioria dos

homens na verdade dessas doutrinas. Caso se lhes ensine que não existe um Deus todo-poderoso

e justo, nem ordem mundial divina, nem vida futura, se sentirão isentos de toda e qualquer

obrigação de obedecer aos preceitos da civilização. Sem inibição ou temor, seguirão seus instintos

associais e egoístas, e procurarão exercer seu poder; o Caos, que banimos através de muitos

milhares de anos de trabalho civilizatório, mais uma vez retornará. Mesmo que soubéssemos, e

pudéssemos provar, que a religião não se acha na posse da verdade, deveríamos ocultar esse fato

e nos comportarmos da maneira prescrita pela filosofia do „como se‟, e isso no interesse da

preservação de todos nós. E, à parte o perigo do empreendimento, seria uma crueldade sem

propósito. Não poucas pessoas encontram sua única consolação nas doutrinas religiosas, e só

conseguem suportar a vida com o auxílio delas. Você as despojaria de seu apoio, sem ter nada

melhor a lhes oferecer em troca. Admite-se que, até agora, a ciência ainda não conseguiu muita

coisa, mas, mesmo que progredisse mais, não bastaria para o homem. Este possui necessidades

imperiosas de outro tipo, que jamais poderiam ser satisfeitas pela frígida ciência, sendo muito

estranho - na verdade, o auge da incoerência - que um psicólogo, que sempre insistiu em que a

inteligência, quando comparada à vida dos instintos, desempenha apenas um papel de menor vulto

nos assuntos humanos, tente agora despojar a humanidade de uma preciosa realização de

desejos e proponha compensá-la disso com um alimento intelectual‟.

Quantas acusações de uma só vez! Não obstante, estou preparado para refutá-las e, mais

ainda, afirmo que a civilização corre um risco muito maior se mantivermos nossa atual atitude para

com a religião do que se a abandonarmos.

Contudo, mal sei por onde começar minha réplica. Talvez sirva de garantia o fato de que

eu mesma encare meu empreendimento como completamente inócuo e livre de riscos. Aqui, não

sou eu quem está supervalorizando o intelecto. Se as pessoas são como meus opositores as

descrevem - e não gostaria de contradizê-los -, então não há perigo de que a crença de um devoto

seja vencida pelos meus argumentos, e ele, privado de sua fé. Além disso, não disse nada que

outros homens, melhores do que eu, já não tenham dito antes de mim, de modo muito mais

completo, energético e impressivo. Seus nomes são bem conhecidos e não vou citá-los porque

não quero dar a impressão de estar procurando colocar-me entre eles. Tudo o que fiz - e isso

constitui a única coisa nova em minha exposição - foi acrescentar uma certa base psicológica às

críticas de meus grandes predecessores. É difícil esperar que precisamente esse acréscimo

produza o efeito que foi negado àqueles esforços anteriores. Não há dúvida de que aqui se me

poderia perguntar qual a vantagem de escrever isso, se estou certo de que será ineficaz.

Retornarei a esse ponto mais tarde.

Sou a única pessoa a quem essa publicação pode prejudicar. Serei obrigado a ouvir as

mais desagradáveis censuras por causa de minha superficialidade, estreiteza de espírito e falta de

idealismo ou compreensão dos mais altos interesses da humanidade. Por um lado, porém, tais

admoestações não são novas para mim, e, por outro, se um homem já aprendeu na juventude a se

sobrepor à desaprovação de seus contemporâneos, que lhe pode ela importar na velhice, quando

ele está certo de que em breve se achará além do alcance de todo favor ou desfavor? Em épocas

passadas, era diferente. Então, declarações como as minhas acarretavam um seguro cerceamento

da existência terrena de quem as proferisse e uma aceleração efetiva da oportunidade de

conseguir uma experiência pessoal do além. Mas, repito, esses tempos já passaram e, atualmente,

os escritos desse tipo não trazem para seu autor mais perigo do que para seus leitores. O máximo

que pode acontecer é que a tradução ou distribuição de seu livro sejam proibidas num país ou

noutro, e, precisamente, é natural, num país que esteja convencido do alto padrão de sua cultura.

Mas se alguém faz um apelo em favor da renúncia aos desejos e da aquiescência ao Destino, tem

que ser capaz de tolerar também esse tipo de prejuízo.

Outra questão que me ocorreu foi a de saber se, no fim das contas, a publicação dessa

obra não poderia causar danos. Não a uma pessoa, mas a uma causa, a causa da psicanálise,

pois não se pode negar que a psicanálise é criação minha e que se deparou com muita

desconfiança e má vontade. Se agora me apresento com esses pronunciamentos desagradáveis,

as pessoas estarão prontas a efetuar um deslocamento de minha pessoa para a psicanálise:

„Agora estamos vendo‟, dirão, „aonde a psicanálise conduz. A máscara caiu; conduz a uma

negação de Deus e de um ideal moral, como sempre desconfiamos. Para nos manter afastados

dessa descoberta é que fomos iludidos a pensar que a psicanálise não possuía Weltanschauung e

que jamais poderia elaborar uma.‟

Um clamor desse tipo me seria realmente desagradável, por causa de meus muitos

colaboradores, alguns dos quais, de modo algum, partilham de minha atitude para com os

problemas da religião. A psicanálise, porém, já enfrentou muitas tempestades e terá agora de

arrostar mais essa. Na realidade, a psicanálise constitui um método de pesquisa, um instrumento

imparcial, tal como o cálculo infinitesimal, por assim dizer. Se um físico descobrisse, com o auxílio

deste último, que ao fim de certo tempo a Terra seria destruída, ainda assim hesitaríamos em

atribuir tendências destrutivas ao próprio cálculo e, portanto, em proscrevê-lo. Nada do que eu

disse aqui sobre o valor de verdade das religiões precisou do apoio da psicanálise; já foi dito por

outros muito antes que a análise surgisse. Se a aplicação do método psicanalítico torna possível

encontrar um novo argumento contra as verdades da religião, tant pis para a religião, mas os

defensores desta, com o mesmo direito, poderão fazer uso da psicanálise para dar valor integral à

significação emocional das doutrinas religiosas. Prossigamos com nossa defesa. A religião, é claro,

desempenhou grandes serviços para a civilização humana. Contribuiu muito para domar os

instintos associais. Mas não o suficiente. Dominou a sociedade humana por muitos milhares de

anos e teve tempo para demonstrar o que pode alcançar. Se houvesse conseguido tornar feliz a

maioria da humanidade, confortá-la, reconciliá-la com a vida, e transformá-la em veículo de

civilização, ninguém sonharia em alterar as condições existentes. Mas, em vez disso, o que

vemos? Vemos que um número estarrecedoramente grande de pessoas se mostram insatisfeitas e

infelizes com a civilização, sentindo-a como um jugo do qual gostariam de se libertar; e que essas

pessoas fazem tudo que se acha em seu poder para alterar a civilização, ou então vão tão longe

em sua hostilidade contra ela, que nada têm a ver com a civilização ou com uma restrição do

instinto. Nesse ponto, será objetado contra nós que esse estado de coisas se deve ao próprio fato

de a religião ter perdido parte de sua influência sobre as massas humanas, exatamente por causa

do deplorável efeito dos progressos da ciência. Tomaremos nota dessa admissão e do motivo que

lhe é dado; dela faremos uso posteriormente para nossos próprios fins, mas a objeção em si não

possui força.

É duvidoso que os homens tenham sido em geral mais felizes na época em que as

doutrinas religiosas dispunham de uma influência irrestrita; mais morais certamente não foram.

Sempre souberam como externalizar os preceitos da religião e anular assim suas intenções. Os

sacerdotes, cujo dever era assegurar a obediência à religião, foram a seu encontro nesse aspecto.

A bondade de Deus deve apor uma mão refreadora à Sua justiça. Alguém peca; faz depois um

sacrifício ou se penitencia e fica livre para pecar de novo. A introspectividade russa atingiu o

máximo ao concluir que o pecado é indispensável à fruição de todas as bênçãos da graça divina,

de maneira que, no fundo, o pecado é agradável a Deus. Não é segredo que os sacerdotes só

puderam manter as massas submissas à religião pela efetivação de concessões tão grandes

quanto essas à natureza instintual do homem. Assim, concluíram: só Deus é forte e bom; o homem

é fraco e pecador. Em todas as épocas, a imoralidade encontrou na religião um apoio não menor

que a moralidade. Se as realizações da religião com respeito à felicidade do homem,

susceptibilidade à cultura e controle moral não são melhores que isso, não pode deixar de surgir

a questão de saber se não estamos superestimando sua necessidade para a humanidade e se

fazemos bem em basearmos nela nossas exigências culturais.Consideremos a situação inequívoca

do presente. Escutamos a admissão de que a religião não mais possui sobre o povo a mesma

influência que costumava ter.(Estamos aqui interessados na civilização européia cristã.) E isso não

aconteceu por que suas promessas tenham diminuído, mas porque as pessoas as acham menos

críveis. Admitamos que o motivo - embora talvez não o único - para essa mudança seja o aumento

do espírito científico nos estratos mais elevados da sociedade humana. A crítica desbastou o valor

probatório dos documentos religiosos, a ciência natural demonstrou os erros neles existentes, e a

pesquisa comparativa ficou impressionada pela semelhança fatal existente entre as idéias

religiosas que reverenciamos e os produtos mentais de povos e épocas primitivos.

O espírito científico provoca uma atitude específica para com os assuntos do mundo;

perante os assuntos religiosos, ele se detém um instante, hesita, e, finalmente, cruza-lhes também

o limiar. Nesse processo, não há interrupção; quanto maior é o número de homens a quem os

tesouros do conhecimento se tornam acessíveis, mais difundido é o afastamento da crença

religiosa, a princípio somente de seus ornamentos obsoletos e objetáveis, mas, depois, também de

seus postulados fundamentais. Os americanos que instituíram o „julgamento do macaco‟ em

Dayton mostraram-se, somente eles, coerentes. Em todas as outras partes a transição inevitável

é realizada através de meias-medidas e insinceridades.

A civilização pouco tem a temer das pessoas instruídas e dos que trabalham com o

cérebro. Neles, a substituição dos motivos religiosos para o comportamento civilizado por outros

motivos, seculares, se daria discretamente; ademais, essas pessoas são em grande parte, elas

próprias, veículos de civilização. Mas a coisa já é outra com a grande massa dos não instruídos e

oprimidos, que possuem todos os motivos para serem inimigos da civilização. Enquanto não

descobrirem que as pessoas não acreditam mais em Deus, tudo correrá bem. Mas eles o

descobrirão, infalivelmente, mesmo que este meu trabalho não seja publicado. E estarão prontos a

aceitar os resultados do pensamento científico, mas sem que neles se tenha dado a modificação

que o pensamento científico provoca nas pessoas. Não existe aqui perigo de que a hostilidade

dessas massas à civilização se arremesse contra o ponto fraco que encontraram naquela que lhe

impõe tarefas? Se a única razão pela qual não se deve matar nosso próximo é porque Deus

proibiu e nos punirá severamente por isso nesta vida ou na vida futura, então, quando

descobrirmos que não existe Deus e que não precisamos temer Seu castigo, certamente

mataremos o próximo sem hesitação e só poderemos ser impedidos de fazê-lo pela força terrena.

Desse modo, ou essas massas perigosas terão de ser muito severamente submetidas e com todo

cuidado mantidas afastadas de qualquer possibilidade de despertar intelectual, ou então o

relacionamento entre civilização e religião terá de sofrer uma revisão fundamental.

VIII

Poder-se-ia pensar que não haveria dificuldades especiais na maneira de executar essa

última proposta. É verdade que ela envolveria uma certa parte de renúncia, mas talvez se

ganhasse mais do que se perdesse, e um grande perigo seria evitado. No entanto, todos se

assustam com isso, como se isso fosse expor a civilização a um perigo ainda maior. Quando São

Bonifácio pôs abaixo a árvore que os saxões veneravam como sendo sagrada, os assistentes

esperavam que algum acontecimento temível se seguisse ao sacrilégio. Mas nada aconteceu, e os

saxões aceitaram o batismo.

Quando a civilização formulou o mandamento de que o homem não deve matar o próximo

a quem odeia, que se acha em seu caminho ou cuja propriedade cobiça, isso foi claramente

efetuado no interesse comunal do homem, que, de outro modo, não seria praticável, pois o

assassino atrairia para si a vingança dos parentes do morto e a inveja de outros, que, dentro de si

mesmos, se sentem tão inclinados quanto ele a tais atos de violência. Assim, não desfrutaria de

sua vingança ou de seu roubo por muito tempo, mas teria toda possibilidade de ele próprio em

breve ser morto. Mesmo que se protegesse contra seus inimigos isolados através de uma força ou

cautela extraordinárias, estaria fadado a sucumbir a uma combinação de homens mais fracos. Se

uma combinação desse tipo não se efetuasse, o homicídio continuaria a ser praticado de modo

infindável e o resultado final seria que os homens se exterminariam mutuamente. Chegaríamos,

entre os indivíduos, ao mesmo estado de coisas que ainda persiste entre famílias na Córsega,

embora, em outros lugares, apenas entre nações. A insegurança da vida, que constitui um perigo

igual para todos, une hoje os homens numa sociedade que proíbe ao indivíduo matar, e reserva

para si o direito à morte comunal de quem quer que viole a proibição. Aqui, então, temos justiça e

castigo.

Mas não damos publicidade a essa explicação racional da proibição do homicídio.

Asseveramos que a proibição foi emitida por Deus. Assim, assumimos a responsabilidade de

adivinhar Suas intenções e descobrimos que Ele também não gosta que os homens se exterminem

uns aos outros. Comportando-nos dessa maneira, revestimos a proibição cultural de uma

solenidade muito especial, mas, ao mesmo tempo, nos arriscamos a tornar sua observância

dependente da crença em Deus. Se voltarmos atrás, ou seja, se não mais atribuirmos a Deus o

que é nossa própria vontade, e nos contentarmos em fornecer a razão social, então, é verdade,

teremos renunciado à transfiguração da proibição cultural, mas também teremos evitado seu risco.

Contudo, ganhamos algo mais. Através de certo tipo de difusão ou infecção, o caráter de santidade

e inviolabilidade - de pertencer a outro mundo, poder-se-ia dizer - espalhou-se de certas poucas

proibições de vulto para todas as outras regulamentações, leis e ordenações culturais. Nestas,

entretanto, a auréola com freqüência não parece cair bem; não apenas se invalidam umas às

outras por fornecerem decisões contrárias em épocas e lugares diferentes como também, à parte

isso, apresentam todos os sinais de inadequação humana. É fácil identificar nelas coisas que só

podem ser produto de uma compreensão míope, de uma expressão de interesses egoisticamente

restritos, ou de uma conclusão baseada em premissas insuficientes. A crítica que não podemos

deixar de lhes dirigir também diminui a um grau muito pouco favorável nosso respeito por outras

exigências culturais mais justificáveis. Visto ser tarefa difícil isolar aquilo que o próprio Deus exigiu,

daquilo que pode ter sua origem remontada à autoridade de um parlamento todo-poderoso ou de

um alto judiciário, constituiria vantagem indubitável que abandonássemos Deus inteiramente e

admitíssemos com honestidade a origem puramente humana de todas as regulamentações e

preceitos da civilização. Junto com sua pretensa santidade, esses mandamentos e leis perderiam

também sua rigidez e imutabilidade. As pessoas compreenderiam que são elaborados, não tanto

para dominá-las, mas, pelo contrário, para servir a seus interesses, e adotariam uma atitude mais

amistosa para com eles e, em vez de visarem à sua abolição, visariam unicamente à sua melhoria.

Isso constituiria um importante avanço no caminho que leva à reconciliação com o fardo da

civilização.

Aqui, porém, nosso apelo em favor da atribuição de motivos puramente racionais aos

preceitos da civilização - isto é, derivá-los da necessidade social - é interrompido por uma dúvida

repentina. Escolhemos como exemplo a origem da proibição do homicídio. Mas nossa descrição

dela concorda com a verdade histórica? Tememos que não; parece não ser mais do que uma

elaboração racionalista. Com o auxílio da psicanálise, efetuamos um estudo precisamente dessa

parte da história cultural da humanidade, e, baseando-nos nele, somos obrigados a dizer que, na

realidade, as coisas aconteceram de outro modo. Mesmo no homem atual os motivos puramente

racionais pouco podem fazer contra impulsões apaixonadas. Quão mais fracos, então, eles devem

ter sido no animal humano das eras primevas! Talvez seus descendentes ainda hoje se matassem

uns aos outros sem inibição, não fosse o fato de entre aqueles atos homicidas ter ocorrido um - a

morte do pai primitivo - que evocou uma reação emocional irresistível, com conseqüências

momentosas. Foi dele que surgiu o mandamento. Não matarás. Sob o totemismo, esse

mandamento estava restrito ao substituto paterno, mas posteriormente foi estendido às outras

pessoas, embora ainda hoje não seja universalmente obedecido.

Contudo, e tal como foi demonstrado por argumentos que não preciso repetir aqui, o pai

primevo constituiu a imagem original de Deus, o modelo a partir do qual as gerações posteriores

deram forma à figura de Deus. Daí a explicação religiosa ser correta. Deus realmente

desempenhou um papel na gênese daquela proibição; foi Sua influência, e não uma compreensão

interna (insight) de necessidade social, que a criou. E o deslocamento da vontade do homem para

Deus é plenamente justificado, pois os homens sabiam que se tinham livrado do pai através da

violência, e, em sua reação a esse ato ímpio, resolveram respeitar doravante sua vontade. Dessa

maneira, a doutrina religiosa nos conta a verdade histórica - submetida embora, é verdade, a certa

modificação e disfarce -, ao passo que nossa descrição racional não a reconhece.

Observamos agora que o cabedal de idéias religiosas inclui não apenas realizações de

desejos, mas também importantes reminiscências históricas. Essa influência concorrente de

passado e presente tem de conceder à religião uma riqueza de poder verdadeiramente

incomparável. Entretanto, talvez, com o auxílio de uma analogia, outra descoberta ainda possa

começar a alvorecer em nós. Embora não seja boa política transplantar idéias para longe do solo

em que se desenvolveram, há aqui, contudo, uma consonância que não podemos deixar de

apontar. Sabemos que a criança humana não pode completar com sucesso seu desenvolvimento

para o estágio civilizado sem passar por uma fase de neurose, às vezes mais distinta, outras,

menos. Isso se dá porque muitas exigências instintuais que posteriormente serão inaproveitáveis

não podem ser reprimidas pelo funcionamento racional do intelecto da criança, mas têm de ser

domadas através de atos de repressão, por trás dos quais, via de regra, se acha o motivo da

ansiedade. A maioria dessas neuroses infantis é superespontaneamente no decurso do

crescimento, sendo isso especialmente verdadeiro quanto às neuroses obsessivas da infância. O

remanescente pode ser eliminado mais tarde ainda, através do tratamento psicanalítico.

Exatamente do mesmo modo, pode-se supor, a humanidade como um todo, em seu

desenvolvimento através das eras, tombou em estados análogos às neuroses, e isso pelos

mesmos motivos - principalmente porque nas épocas de sua ignorância e debilidade intelectual, as

renúncias instintuais indispensáveis à existência comunal do homem só haviam sido conseguidas

pela humanidade através de forças puramente emocionais. Os precipitados desses processos

semelhantes à repressão que se efetuou nos tempos pré-históricos, ainda permaneceram ligados à

civilização por longos períodos. Assim, a religião seria a neurose obsessiva universal da

humanidade; tal como a neurose obsessiva das crianças, ela surgiu do complexo de Édipo, do

relacionamento com o pai. A ser correta essa conceituação, o afastamento da religião está fadado

a ocorrer com a fatal inevitabilidade de um processo de crescimento, e nos encontramos

exatamente nessa junção, no meio dessa fase de desenvolvimento. Nosso comportamento,

portanto, deveria modelar-se no de um professor sensato que não se opõe a um novo

desenvolvimento iminente, mas que procura facilitar-lhe o caminho e mitigar a violência de sua

irrupção. Decerto nossa analogia não esgota a natureza essencial da religião. Se, por um lado, a

religião traz consigo restrições obsessivas, exatamente como, num indivíduo, faz a neurose

obsessiva, por outro, ela abrange um sistema de ilusões plenas de desejo juntamente com um

repúdio da realidade, tal como não encontramos, em forma isolada, em parte alguma senão na

amência, num estado de confusão alucinatória beatífica. Mas tudo isso não passa de analogias,

com a ajuda das quais nos esforçamos por compreender um fenômeno social; a patologia do

indivíduo não nos provê de um correspondente plenamente válido.

Já foram repetidamente indicados (por mim próprio e, particularmente, por Theodor Reik)

os múltiplos pormenores em que a analogia entre religião e neurose obsessiva pode ser

acompanhada, e quantas das peculiaridades e vicissitudes da formação da religião podem ser

entendidas a essa luz. E harmoniza-se bem com isso o fato de os crentes devotos serem em alto

grau salvaguardados do risco de certas enfermidades neuróticas; sua aceitação da neurose

universal poupa-lhes o trabalho de elaborar uma neurose pessoal.

Nosso conhecimento do valor histórico de certas doutrinas religiosas aumenta nosso

respeito por elas, mas não invalida nossa posição, segundo a qual devem deixar de ser

apresentadas como os motivos para os preceitos da civilização. Pelo contrário! Esses resíduos

históricos nos auxiliaram a encararos ensinamentos religiosos como relíquias neuróticas, por assim

dizer, e agora podemos argüir que provavelmente chegou a hora, tal como acontece num

tratamento analítico, de substituir os efeitos da repressão pelos resultados da operação racional do

intelecto. Podemos prever, mas dificilmente lamentar, que tal processo de remodelamento não se

deterá na renúncia a transfiguração solene dos preceitos culturais, mas que sua revisão geral

resultará em que muitos deles sejam eliminados. Desse modo, nossa tarefa de reconciliar os

homens com a civilização estará, até um grande ponto, realizada. Não precisamos deplorar a

renúncia à verdade histórica quando apresentamos fundamentos racionais para os preceitos da

civilização. As verdades contidas nas doutrinas religiosas são, afinal de contas, tão deformadas e

sistematicamente disfarçadas, que a massa da humanidade não pode identificá-las como verdade.

O caso é semelhante ao que acontece quando dizemos a uma criança que os recém-nascidos são

trazidos pela cegonha. Aqui, também estamos contando a verdade sob uma roupagem simbólica,

pois sabemos o que essa ave significa. A criança, porém, não sabe. Escuta apenas a parte

deformada do que dizemos e sente que foi enganada; sabemos com que freqüência sua

desconfiança dos adultos e sua rebeldia têm realmente começo nessa impressão. Tornamo-nos

convencidos de que é melhor evitar esses disfarces simbólicos da verdade no que contamos às

crianças, e não afastar delas um conhecimento do verdadeiro estado de coisas, comensurado a

seu nível intelectual.

IX

„Você se permite contradições difíceis de reconciliar. Começa dizendo que um trabalho

como o seu é inteiramente inócuo: ninguém se permitirá ser despojado de sua fé por

considerações do tipo das que apresenta. Não obstante, desde que, e tal como fica depois

evidente, é sua intenção perturbar essa fé, podemos perguntar-lhe por que, na realidade, está

publicando sua obra? Ademais, em outra passagem, admite que pode ser perigoso, e de fato muito

perigoso, que alguém descubra que as pessoas não acreditam mais em Deus. Até então se

mostrara dócil, mas agora parece desprezar sua obediência aos preceitos da civilização.

Entretanto, sua asserção de que basear os mandamentos da civilização em fundamentos

religiosos constitui um perigo para aquela, repousa na presunção de que o crente pode ser

transformado num incréu. Sem dúvida isso é uma contradição completa.

„E eis aqui uma outra. Por um lado, você admite que os homens não podem ser dirigidos

por sua inteligência, que são governados por suas paixões e suas exigências instintuais. Por outro,

porém, propõe substituir a base afetiva de sua obediência à civilização por uma base racional.

Quem puder, que compreenda. A mim, parece que não deve ser uma coisa nem outra.

„Além disso, não aprendeu nada da história? Já uma vez antes, uma tentativa desse tipo, a

de substituir a religião pela razão, foi feita oficialmente e em grande estilo. Decerto se lembra da

Revolução Francesa e de Robespierre? E deve também lembrar-se de quão efêmera e

deploravelmente ineficaz a experiência foi? A mesma experiência está sendo repetida atualmente

na Rússia e não precisamos ficar curiosos sobre o seu resultado. Não acha que podemos aceitar

como algo evidente o fato de que os homens não podem passar sem religião?

„Você mesmo disse que a religião é mais que uma neurose obsessiva. Mas não tratou

desse outro lado dela. Contentou-se em elaborar a analogia com uma neurose. Os homens, diz

você, devem ser libertados da neurose. O que se possa perder no processo não lhe interessa.‟

A aparência de contradição provavelmente surgiu porque lidei com assuntos complicados

de modo muito apressado. Até certo ponto, porém, podemos remediar isso. Continuo a sustentar

que o que escrevi é, sob determinado aspecto, inteiramente inócuo. Nenhum crente se permitirá

ser desviado de sua fé por esses argumentos ou outros semelhantes. O crente está ligado aos

ensinamentos da religião por certos vínculos afetivos. Contudo, indubitavelmente existem

inumeráveis outras pessoas que não são crentes,no mesmo sentido. Obedecem aos preceitos da

civilização porque se deixam intimidar pelas ameaças da religião e têm medo dela enquanto se

vêem obrigados a considerá-la como parte da realidade que as cerca. São as pessoas que

desertam tão logo lhes é permitido abandonar sua crença no valor de realidade da religião. No

entanto, elas também não são afetadas por argumentos. Deixam de temer a religião quando

observam que os outros não a temem, e foi a respeito delas que afirmei que acabariam por saber

do declínio da influência religiosa mesmo que eu não publicasse meu trabalho. [[1].]

Mas acho que você mesmo concede maior peso à outra contradição de que me acusa.

Visto os homens serem tão pouco acessíveis aos argumentos razoáveis e tão completamente

governados por seus desejos instintuais, por que tentar privá-los de uma satisfação instintual e

substituí-la por argumentos racionais? É verdade que os homens são assim, mas você já se

perguntou se eles têm de ser assim, se sua natureza mais íntima tem necessidade disso? Pode um

antropólogo fornecer o índice craniano de um povo cujo costume é deformar a cabeça das crianças

enrolando-as com ataduras desde os primeiros anos? Pense no deprimente contraste entre a

inteligência radiante de uma criança sadia e os débeis poderes intelectuais do adulto médio. Não

podemos estar inteiramente certos de que é exatamente a educação religiosa que tem grande

parte da culpa por essa relativa atrofia? Penso que seria necessário muito tempo para que uma

criança, que não fosse influenciada, começasse a se preocupar com Deus e com as coisas do

outro mundo. Talvez seus pensamentos sobre esses assuntos tomassem então os mesmos

caminhos que os de seus antepassados. Mas não esperamos por um desenvolvimento desse tipo;

introduzimo-la às doutrinas da religião numa idade em que nem está interessada nelas nem é

capaz de apreender sua significação. Não é verdade que os dois principais pontos do programa de

educação infantil atualmente consistem no retardamento do desenvolvimento sexual e na

influência religiosa prematura? Dessa maneira, à época em que o intelecto da criança desperta, as

doutrinas da religião já se tornaram inexpugnáveis. Mas acha você que é algo conducente ao

fortalecimento da função intelectual o fato de um campo tão importante lhe ser fechado pela

ameaça do fogo do Inferno? Quando outrora um homem se permitia aceitar sem crítica todos os

absurdos que as doutrinas religiosas punham à sua frente, e até mesmo desprezar as contradições

existentes entre elas, não precisamos ficar muito surpresos com a debilidade de seu intelecto. Não

dispomos, porém, de outros meios de controlar nossa natureza instintual, exceto nossa

inteligência. Como podemos esperar que pessoas que estão sob domínio de proibições de

pensamento atinjam o ideal psicológico, o primado da inteligência? Você sabe também que se diz

que em geral as mulheres padecem de „debilidade mental fisiológica‟, isto é, de uma inteligência

inferior à dos homens. O fato em si é discutível, e sua interpretação, duvidosa; contudo, um

argumento em favor de essa atrofia intelectual ser de natureza secundária é o de que as mulheres

vivem penando sob o rigor de uma proibição precoce que as impede de voltarem seus

pensamentos para o que mais lhes interessaria, isto é, os problemas da vida sexual. Enquanto os

primeiros anos da vida de uma pessoa forem influenciados não só por uma inibição sexual mental,

mas também por uma inibição religiosa, e por uma inibição leal derivada desta última, não

podemos realmente dizer a que ela se assemelha.

Mas moderarei meu zelo e admitirei a possibilidade de que também eu esteja perseguindo

uma ilusão. Talvez o efeito da proibição religiosa do pensamento não seja tão negativo quanto

suponho; talvez acontecesse que a natureza humana permanecesse a mesma, ainda que não se

abusasse da educação para submeter as pessoas à religião. Não sei, e tampouco você pode

saber. Não são apenas os grandes problemas da vida que atualmente parecem insolúveis; muitas

questões menores também são difíceis de responder. Mas você tem de admitir que, aqui, estamos

justificados em ter esperanças no futuro - a de que talvez exista, ainda a ser desenterrado, um

tesouro capaz de enriquecer a civilização, e de que vale a pena fazer a experiência de uma

educação não religiosa. Se ela se mostrar insatisfatória, estou pronto a abandonar a reforma e

voltar a meu juízo anterior, puramente descritivo, de que o homem é uma criatura de inteligência

débil, governada por seus desejos instintuais.

Sobre outro ponto concordo irrestritamente com você. Sem dúvida é insensato começar a

tentar eliminar a religião pela força, e de um só golpe. Acima de tudo, porque isso seria irrealizável.

O crente não permitirá que sua crença lhe seja arrancada, quer por argumentos, quer por

proibições. E mesmo que isso acontecesse com alguns, seria crueldade. Um homem que passou

dezenas de anos tomando pílulas soporíferas, evidentemente fica incapaz de dormir se lhe tiram

sua pílula. Que o efeito das consolações religiosas pode ser assemelhado ao de um narcótico é

fato bem ilustrado pelo que está acontecendo nos Estados Unidos. Lá estão tentando agora - claro

que sob a influência de um domínio feminista - privar o povo de todos os estimulantes, intoxicantes

e outras substâncias produtoras de prazer, e, em vez delas, a título de compensação,

empanturram-no de devoção. Trata-se de outro experimento sobre cujo resultado não precisamos

sentir-nos curiosos ,ver em [[1] e [2]].

Assim, tenho de contradizê-lo quando prossegue argumentando que os homens são

completamente incapazes de passar sem a consolação da ilusão religiosa, que, sem ela, não

poderiam suportar as dificuldades da vida e as crueldades da realidade. Isso é certamente verdade

quanto aos homens em que se instilou o doce (ou agridoce) veneno desde a infância. Mas, e os

outros, os que foram mais sensatamente criados? Os que não padecem da neurose talvez não

precisem de intoxicante para amortecê-la. Encontrar-se-ão, é verdade, numa situação difícil. Terão

de admitir para si mesmos toda a extensão de seu desamparo e insignificância na maquinaria do

universo; não podem mais ser o centro da criação, o objeto de terno cuidado por parte de uma

Providência beneficente. Estarão na mesma posição de uma criança que abandonou a casa

paterna, onde se achava tão bem instalada e tão confortável. Mas não há dúvida de que o

infantilismo está destinado a ser superado.Os homens não podem permanecer crianças para

sempre; têm de, por fim, sair para a „vida hostil‟. Podemos chamar isso de „educação para a

realidade„. Precisarei confessar-lhe que o único propósito de meu livro é indicar a necessidade

desse passo à frente?

Você tem medo, provavelmente, de que não resistam a tão duro teste? Bem, pelo menos

tenhamos esperança de que resistam. Já é alguma coisa, de qualquer modo, alguém saber que

está entregue a seus próprios recursos: aprende a fazer um emprego correto deles. E os homens

não estão completamente sem assistência. Seu conhecimento científico lhes ensinou muito, desde

os dias do Dilúvio, e aumentará seu poder ainda mais. E quanto às grandes necessidades do

Destino, contra as quais não há remédio, aprenderão a suportá-las com resignação. De que lhes

vale a miragem de amplos campos na Lua, cujas colheitas ainda ninguém viu? Como honestos

arrendatários nesta Terra, aprenderão a cultivar seu terreno de tal modo que ele os sustente.

Afastando suas expectativas em relação a um outro mundo e concentrando todas as energias

liberadas em sua vida na Terra, provavelmente conseguirão alcançar um estado de coisas em que

a vida se tornará tolerável para todos e a civilização não mais será opressiva para ninguém. Então,

com um de nossos companheiros de descrença, poderão dizer sem pesar:

Den Himmel überlassen wirDen Engeln und den Spatzen.

X

„Isso soa esplêndido! Uma raça de homens que renunciou a todas as ilusões e assim se

tornou capaz de fazer tolerável sua existência na Terra! Entretanto, não posso partilhar de suas

expectativas. E isso não por ser o obstinado reacionário por quem talvez me tome. Não, mas por

ser sensato. Parece que agora trocamos de papéis: você surge como um entusiasta que permite

ser arrebatado por ilusões, e eu represento as reivindicações da razão, os direitos do ceticismo. O

que você expôs me parece ser construído sobre erros que, seguindo seu exemplo, eu poderia

chamar de ilusões, por traírem de modo bastante claro a influência de seus desejos. Você prende

sua esperança à possibilidade de que gerações, que não experimentaram a influência das

doutrinas religiosas na primeira infância, alcançarão facilmente a desejada primazia da inteligência

sobre a vida dos instintos. Isso é decerto uma ilusão; nesse aspecto decisivo, a natureza humana

dificilmente tem probabilidade de mudar. Se não estou equivocado - conhece-se tão pouco sobre

as outras civilizações - ainda hoje existem povos que não se desenvolveram sob a pressão de um

sistema religioso e que, contudo, não se aproximam mais do seu ideal do que do resto. Se você

quiser expulsar a religião de nossa civilização européia, só poderá fazê-lo através de outro sistema

de doutrinas, e esse sistema, desde o início, assumiria todas as características psicológicas da

religião - a mesma santidade, rigidez e intolerância, a mesma proibição do pensamento - para sua

própria defesa. Há que possuir algo desse tipo, a fim de atender aos requisitos da educação. E é

impossível passar sem educação. O caminho que vai da criança de peito ao homem civilizado é

longo; não poucos jovens se desviariam dele e fracassariam no cumprimento de suas missões na

vida, na época correta, se fossem deixados sem orientação quanto a seu próprio desenvolvimento.

As doutrinas que tivessem sido aplicadas à sua criação, sempre estabeleceriam limites ao pensar

de seus anos de maturidade - que é exatamente o que você censura à religião fazer hoje. Não

observa que se trata de um defeito inato e inestimável de nossa e de qualquer outra civilização, o

fato de impor às crianças, que são movidas pelo instinto e fracas do intelecto, a tomada de

decisões que só a inteligência madura dos adultos pode reivindicar? A civilização, porém, não

pode operar de outro modo, de uma vez que o desenvolvimento, tão longo quanto as eras, do

gênero humano, está comprimido em uns poucos anos de infância; e é só através de forças

emocionais que a criança pode ser induzida a se assenhorear da tarefa que lhe apresentam. Tais

são, portanto, as perspectivas para sua “primazia do intelecto”.„E você não deve ficar surpreso

agora que eu perore em favor da retenção do sistema doutrinal religioso como base da educação e

da vida comunal do homem. Trata-se de um problema prático, e não de uma questão de valor de

realidade. Já que, para preservar nossa civilização, não podemos adiar a influência sobre o

indivíduo até que ele esteja maduro para a civilização (e, ainda assim, muitos nunca estarão), já

que somos obrigados a impor à criança em crescimento um sistema doutrinário que nela funcione

como um axioma que não admita crítica, parece-me que o sistema religioso é, de longe, o mais

apropriado para esse fim. E o é, naturalmente, exatamente por causa de sua realização de desejo

e seu poder consolatório, devido aos quais você reivindica identificá-lo como sendo „ilusão‟. Diante

da dificuldade de se descobrir qualquer coisa sobre a realidade - na verdade, da dúvida de saber

se nos será possível realmente descobri-la -, não devemos desprezar o fato de que também as

necessidades humanas são uma realidade e, na verdade, uma realidade importante, uma

realidade que nos interessa especialmente de perto.

„Outra vantagem da doutrina religiosa, em minha opinião, reside numa de suas

características a que você parece particularmente opor-se, pois permite um refinamento e

sublimação das idéias que tornam possível para ela livrar-se da maioria dos resíduos oriundos do

pensamento primitivo e infantil. O que então sobra é um corpo de idéias que a ciência não mais

contradiz e que é incapaz de refutar. Essas modificações da doutrina religiosa, que você condenou

como meias-medidas e transigências, tornam-lhe possível evitar a cisão entre as massas não

instruídas e o pensador filosófico, e preservar o vínculo comum entre eles, tão importante para a

salvaguarda da civilização. Com isso, não haveria necessidade de temer que os homens do povo

descobrissem que as camadas superiores da sociedade “não mais acreditam em Deus”. Acho que

agora lhe demonstrei que seus esforços se reduzem a uma tentativa de substituir uma ilusão já

provada e emocionalmente valiosa, por outra, que não foi provada e não possui valor emocional.‟

Não sou inacessível à sua crítica. Sei como é difícil evitar ilusões; talvez as esperanças

que confessei também sejam de natureza ilusória. Aferro-me, porém, a uma distinção. À parte o

fato de castigo algum ser imposto a quem não as partilha, minhas ilusões não são, como as

religiosas, incapazes de correção. Não possuem o caráter de um delírio. Se a experiência

demonstrar - não a mim, mas a outros depois de mim, que pensem como eu - que estávamos

enganados, abandonaremos nossas expectativas. Tome minha tentativa pelo que ela é. Um

psicólogo que não se ilude sobre a dificuldade de descobrir a própria orientação neste mundo,

efetua um esforço para avaliar o desenvolvimento do homem, à luz da pequena porção de

conhecimento que obteve através de um estudo dos processos mentais de indivíduos, durante seu

desenvolvimento de crianças a adultos. Ao agir assim, impõe-se a ele a idéia de que a religião é

comparável a uma neurose da infância, e é otimista bastante para imaginar que a humanidade

superará essa fase neurótica, tal como muitas crianças evolvem de suas neuroses semelhantes.

Essas descobertas derivadas da psicologia individual podem ser insuficientes, injustificada sua

aplicação à raça humana, e infundado otimismo o dele. Concedo-lhes todas essas incertezas. Mas

freqüentemente não podemos impedir-nos de dizer o que pensamos, e nos desculpamos disso

com o fundamento de que só o dizemos pelo que vale.

Aqui temos dois pontos sobre os quais devo demorar-me um pouco mais. Em primeiro

lugar, a fraqueza de minha posição não acarreta fortalecimento algum da sua. Acho que você está

defendendo uma causa perdida. Podemos insistir, tão freqüentemente quanto quisermos, em que o

intelecto do homem não tem poder, em comparação com sua vida instintual, e podemos estar

certos quanto a isso. Não obstante, há algo de peculiar nessa fraqueza. A voz do intelecto é suave,

mas não descansa enquanto não consegue uma audiência. Finalmente, após uma incontável

sucessão de reveses, obtém êxito. Esse é um dos poucos pontos sobre o qual se pode ser otimista

a respeito do futuro da humanidade, e, em si mesmo, é de não pequena importância. E dele se

podem derivar outras esperanças ainda. A primazia do intelecto jaz, é verdade, num futuro

infinitamente distante. Presumivelmente, ela estabelecerá para si os mesmos objetivos que

aqueles cuja realização você espera de seu Deus (naturalmente dentro de limites humanos, na

medida em que a realidade externa, „, permita), a saber, o amor do homem e a

diminuição do sofrimento. Assim sendo, podemos dizer-nos que nosso antagonismo é apenas

temporário e não irreconciliável. Desejamos as mesmas coisas, mas você é mais impaciente, mais

exigente e - por que não dizer? - mais egoísta do que eu e os que se encontram do meu lado.

Você faria o estado de bem-aventurança começar diretamente após a morte; espera dele o

impossível e não desiste das reivindicações do indivíduo. Nosso Deus, , atenderá todos

esses desejos que a natureza a nós externa permita, mas fa-lo-á de modo muito gradativo,

somente num futuro imprevisível e para uma nova geração de homens. Não promete

compensação para nós, que sofremos penosamente com a vida. No caminho para esse objetivo

distante, suas doutrinas religiosas terão de ser postas de lado, por mais que as primeiras tentativas

falhem ou os primeiros substitutos se mostrem insustentáveis. Você sabe por que: a longo prazo,

nada pode resistir à razão e à experiência, e a contradição que a religião oferece a ambas é

palpável demais. Mesmo as idéias religiosas purificadas não podem escapar a esse destino,

enquanto tentarem preservar algo da consolação da religião. Indubitavelmente, se se confinarem à

crença num ser espiritual superior, cujas qualidades sejam indefiníveis e cujos intuitos não possam

ser discernidos, não só estarão à prova do desafio da ciência, como também perderão sua

influência sobre o interesse humano.

Em segundo lugar, observe a diferença entre a sua atitude para com as ilusões e a minha.

Você tem de defender a ilusão religiosa com todas as suas forças. Se ela se tornar desacreditada -

e, na verdade, a ameaça disso é bastante grande - então seu mundo desmoronará. Nada lhe resta

a não ser desesperar de tudo, da civilização e do futuro da humanidade. Dessa servidão, estou,

estamos livres. Visto estarmos preparados para renunciar a uma boa parte de nossos desejos

infantis, podemos suportar que algumas de nossas expectativas mostrem que não passam de

ilusões.

É possível que a educação libertada do ônus das doutrinas religiosas não cause grande

mudança na natureza psicológica do homem. O nosso deus ó talvez não seja um deus

muito poderoso, e poderá ser capaz de efetuar apenas uma pequena parte do que seus

predecessores prometeram. Se tivermos de reconhecer isso, aceitá-lo-emos com resignação. Não

será por causa disso que perderemos nosso interesse no mundo e na vida, pois dispomos de um

apoio seguro, que falta a você. Acreditamos ser possível ao trabalho científico conseguir um certo

conhecimento da realidade do mundo, conhecimento através do qual podemos aumentar nosso

poder e de acordo com o qual podemos organizar nossa vida. Se essa crença for uma ilusão,

então nos encontraremos na mesma posição que você. Mas a ciência, através de seus numerosos

e importantes sucessos, já nos deu provas de não ser uma ilusão. Ela conta com muitos inimigos

manifestos, e muitos outros secretos, entre aqueles que não podem perdoá-la por ter enfraquecido

a fé religiosa e por ameaçar derrubá-la. É censurada pela pequenez do que nos ensinou e pelo

campo incomparavelmente maior que deixou na obscuridade. Nisso, porém, as pessoas se

esquecem de quão jovem ela é, quão difíceis foram seus primórdios e quão infinitesimalmente

pequeno foi o período de tempo que decorreu desde que o intelecto humano ficou suficientemente

forte para as tarefas que ela estabelece. Não nos achamos todos nós em falta, ao basear nossos

julgamentos em períodos de tempo que são curtos demais? Deveríamos tomar os geólogos como

modelo. As pessoas queixam-se da infidedignidade da ciência, do modo como ela anuncia como

lei hoje o que a geração seguinte identifica como erro e substitui por uma nova lei cuja validade

aceita não perdura por mais tempo. Mas isso é injusto e, em parte, inverídico. As transformações

da opinião científica são desenvolvimentos, progressos, e não revoluções. Uma lei que a princípio

foi tida por universalmente válida, mostra ser um caso especial de uma uniformidade mais

abrangente ou é limitada por outra lei, só descoberta mais tarde; uma aproximação grosseira à

verdade é substituída por outra mais cuidadosamente adaptada, a qual, por sua vez, fica à espera

de novos aperfeiçoamentos. Existem diversos campos em que ainda não superamos uma fase de

pesquisa na qual fazemos experiências com hipóteses que em breve têm de ser rejeitadas como

inadequadas; em outros campos, porém, já possuímos um cerne de conhecimento seguro e quase

inalterável. Finalmente, tentou-se desacreditar o esforço científico de maneira radical, com o

fundamento de que, achando-se ele ligado às condições de sua própria organização, não poderia

produzir nada mais senão resultados subjetivos, ao passo que a natureza real das coisas a nós

externas permanece inacessível. Mas isso significa desprezar diversos fatores de importância

decisiva para a compreensão do trabalho científico. Em primeiro lugar, nossa organização - isto é,

nosso aparelho psíquico - desenvolveu-se precisamente no esforço de explorar o mundo externo,

e, portanto, teria de ter concebido em sua estrutura um certo grau de utilitarismo; em segundo

lugar, ela própria é parte constituinte do mundo que nos dispusemos a investigar e admite

prontamente tal investigação; em terceiro, a tarefa da ciência ficará plenamente abrangida se a

limitarmos a demonstrar como o mundo nos deve aparecer em conseqüência do caráter específico

de nossa organização; em quarto, as descobertas supremas da ciência, precisamente por causa

do modo pelo qual foram alcançadas, são determinadas não apenas por nossa organização, mas

pelas coisas que influenciaram essa organização; finalmente, o problema da natureza do mundo

sem levar em consideração nosso aparelho psíquico perceptivo não passa de uma abstração

vazia, despida de interesse prático.

Não, nossa ciência não é uma ilusão. Ilusão seria imaginar que aquilo que a ciência não

nos pode dar, podemos conseguir em outro lugar.

O MAL-ESTAR NA CIVILIZAÇÃO (1930 [1929])

NOTA DO EDITOR INGLÊS

DAS UNBEHAGEN IN DER KULTUR

(a) EDIÇÕES ALEMÃS:

1930 Viena: Internationaler Psychoanalytischer Verlag, 136 págs.

1931 2ª ed. (Reimpressão da 1ª ed., com alguns acréscimos.)

1934 G.S., 12, 29-114.

1948 G.W., 14, 421-506.

(b) TRADUÇÃO INGLESA:

Civilization and its Discontents

1930 Londres: Hogarth Press e Institute of Psycho-Analysis. Nova Iorque: Cape

and Smith, 144 págs. (Trad. de Joan Riviere.)

A atual tradução baseia-se na publicada em 1930.

O primeiro capítulo do original alemão foi publicado pouco antes do resto do livro, em

Psychoanal. Bewegung,1 (4) novembro-dezembro de 1929. O quinto capítulo apareceu

separadamente no número seguinte do mesmo periódico, 2 (1), janeiro-fevereiro de 1930. Duas ou

três notas de rodapé a mais foram incluídas na edição de 1931 e uma frase final foi acrescentada à

obra. Nenhum desses acréscimos apareceram na primeira versão da tradução inglesa.

Freud terminara O Futuro de uma Ilusão no outono de 1927. Durante os dois anos

seguintes, principalmente, sem dúvida, por causa de sua doença, produziu muito pouco. No verão

de 1929, porém, começou a escrever outro livro, mais uma vez sobre um assunto sociológico. O

primeiro esboço foi terminado por volta de fins de julho; o livro foi enviado à gráfica no começo de

novembro e realmente publicado antes do fim do ano, embora trouxesse a data de „1930‟ em sua

página de rosto (Jones, 1957, 157-8).

O título original para ele escolhido por Freud foi „Das Unglück in der Kultur‟ („A Infelicidade

na Civilização‟), mas „Unglück‟ foi posteriormente alterado para „Unbehagen‟, palavra para a qual

foi difícil escolher um equivalente inglês, embora o francês „malaise„ pudesse ter servido. Numa

carta à sua tradutora, a Sra. Riviere, Freud sugeriu„O Desconforto do Homem na Civilização‟, mas

foi ela própria que descobriu a solução ideal para a dificuldade no título finalmente adotado.

O tema principal do livro - o antagonismo irremediável entre as exigências do instinto e as

restrições da civilização - pode ter sua origem remontada a alguns dos mais antigos trabalhos

psicológicos de Freud. Assim, em 31 de maio de 1897, escreveu a Fliess que „o incesto é

anti-social e a civilização consiste numa progressiva renúncia a ele‟ (Freud, 1950a, Rascunho N),

e, um ano depois, no artigo „Sexuality in the Aetiology of the Neuroses‟ (1898a), escreveu que

„podemos com justiça responsabilizar nossa civilização pela disseminação da neurastenia‟. Não

obstante, em seus primeiros trabalhos, Freud não parece ter considerado a repressão como sendo

inteiramente devida a influências sociais externas. Embora em seus Três Ensaios (1905d), fale da

„relação inversa que existe entre a civilização e o livre desenvolvimento da sexualidade‟ (Edição

Standard Brasileira, Vol. VII, pág. 250, IMAGO Editora, 1972), em outra passagem da mesma obra,

fez o seguinte comentário sobre as barreiras opostas ao instinto sexual surgidas durante o período

de latência: „Tem-se das crianças civilizadas uma impressão de que a construção dessas barreiras

é um produto da educação, e sem dúvida, a educação muito tem a ver com ela. Mas, na realidade,

este desenvolvimento é organicamente determinado e fixado pela hereditariedade, e pode

ocasionalmente ocorrer sem qualquer auxílio da educação.‟ (Ibid., pág. 157.)

A noção de haver uma „repressão orgânica‟ que prepara o caminho para a civilização -

noção expandida nas duas longas notas de rodapé ao início e ao final do Capítulo IV (pág. 77 e

seg. e 57 e segs., adiante) - remonta ao mesmo período anterior. Numa carta a Fliess, em 14 de

novembro de 1897, Freud escreveu que freqüentemente suspeitou „que algo orgânico

desempenhou um papel na repressão‟ (Freud, 1950a, Carta 75). Prossegue, no mesmo sentido

daquelas notas de rodapé, sugerindo a importância, como fatores de repressão, da adoção de uma

postura ereta e da substituição do olfato pela vista como sentido dominante. Uma alusão ainda

mais precoce à mesma idéia ocorre numa carta de 11 de janeiro de 1897 (ibid., Carta 55). Nos

trabalhos publicados de Freud, as únicas menções dessas idéias, antes do atual, parecem ser uma

breve passagem na análise do „Rat Man‟ (1909d), Satndard Ed., 10, 247-8, e outra ainda mais

sucinta no segundo artigo sobre a psicologia do amor (1912d), Edição Standard Brasileira, Vol. XI,

pág.172, IMAGO Editora, 1972. De modo particular, nenhuma análise das origens internas mais

profundas da civilização pode ser encontrada naquilo que é, de longe, o mais longo dos primeiros

estudos de Freud sobre o assunto, ou seja, o artigo „“Civilized” Sexual Morality and Modern

Nervous Illness‟ (1908d), que dá a impressão de as restrições da civilização serem algo imposto

desde fora.

Na verdade, contudo, não foi possível nenhuma avaliação clara do papel desempenhado

nessas restrições pelas influências internas e externas e seus efeitos recíprocos, até que as

investigações realizadas por Freud sobre a psicologia do ego o conduziram às hipóteses sobre o

superego e sua origem nas mais antigas relações objetais do indivíduo. É devido a isso que uma

parte tão grande da presente obra (especialmente nos Capítulos VII e VIII) se interessa pela

exploração e clarificação ulteriores da natureza do sentimento de culpa, e que Freud,ver ([1]),

declara sua „intenção de representar o sentimento de culpa como o mais importante problema no

desenvolvimento da civilização‟. E isso, por sua vez, constitui o fundamento para o segundo tema

lateral de importância da obra (embora nenhum deles seja, na verdade, um tema lateral), a saber,

o instinto de destruição.

A história das opiniões de Freud sobre o instinto da agressão ou de destruição é

complicada e só resumidamente pode ser indicada aqui. Através de todos os seus primeiros

escritos, o contexto em que ele predominantemente o encarou foi o do sadismo. Seus primeiros

estudos mais longos sobre ele ocorreram nos Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade

(1905d), onde surgiu como um dos „instintos componentes‟ ou „parciais‟ do instinto sexual. „Assim‟,

escreveu ele na Seção 2 (B) do primeiro ensaio, „o sadismo corresponderia a um componente

agressivo do instinto sexual que se tornou independente e exagerado e, por deslocamento,

usurpou a posição dominante‟ (Edição Standard Brasileira, Vol. VII, IMAGO Editora, 1972, págs.

159-60). Não obstante, posteriormente, na Seção 4 do segundo ensaio, a independência original

dos impulsos agressivos foi reconhecida: „Pode-se presumir que os impulsos de crueldade surgem

de fontes que são, na realidade, independentes da sexualidade, mas podem unir-se a ela num

estágio prematuro‟ (ibid., 198n). As fontes independentes indicadas deveriam ter sua origem

remontada aos instintos autopreservativos. Essa passagem foi alterada na edição de 1915, onde

se declarou que „o impulso da crueldade surge do instinto de domínio‟ e a frase sobre ser ele

„independente da sexualidade „foi omitida. Mas já em 1909, no decorrer do combate às teorias de

Adler, Freud fizera um pronunciamento muito mais amplo. Na Seção II do terceiro capítulo da

história clínica do „Pequeno Hans‟ (1909b), Freud escreveu: „Não consigo convencer-me da

existência de um instinto agressivo especial, ao lado dos instintos familiares de autopreservação e

sexo, e em pé de igualdade com eles‟ (ibid., 10, 140). A relutância em aceitar um instinto agressivo

independente da libido foi auxiliada pela hipótese do narcisismo. Os impulsos de agressividade, e

de ódio também, desde o início pareceram pertencer ao instinto autopreservativo, e, visto que este

se achava agora incluído na libido, não se exigia qualquer instinto agressivo independente. E

assim era a despeito da bipolaridade das relações objetais, das freqüentes misturas de amor e

ódio, e da complexa origem do próprio ódio. (Ver „Instincts and their Vicissitudes‟ (1915c), Standard

Ed., 14, 138-9). Foi somente após a hipótese formulada por Freud de um „instinto de morte‟ que um

instinto agressivo verdadeiramente independente apareceu em Beyond the Pleasure Principle

(1920g). (Ver, especificamente, o Capítulo VI, ibid., 18, 52-5). Mas é de notar que mesmo aí, e nos

escritos posteriores de Freud (por exemplo, no Capítulo IV de The Ego and the Id.), o instinto

agressivo ainda era algo secundário, derivado do instinto de morte autodestrutivo e primário. Isso é

verdadeiro, ainda, quanto à presente obra, embora aqui a ênfase esteja colocada mais nas

manifestações do instinto de morte voltadas para fora, e também quanto aos estudos ulteriores do

problema na última parte da Conferência XXXIII das New Introductory Lectures (1922a) e em mais

de um ponto do Esboço da Psicanálise (1940a [1938] Pequena Coleção das Obras de Freud, Livro

7, IMAGO Editora, 1974), de publicação póstuma.Sem embargo, é tentador citar um par de frases

de uma carta escrita por Freud, em 27 de maio de 1937, à Princesa Marie Bonaparte, na qual

parece aludir a uma maior independência original da destrutividade externa: „A interiorização do

instinto agressivo é, naturalmente, o correspondente da exteriorização da libido, quando ela se

transfere do ego para os objetos. Teríamos um quadro esquemático nítido se supuséssemos que,

originalmente, ao início da vida, toda a libido era dirigida para o interior e toda a agressividade para

o exterior, e que, no decorrer da vida, isso gradativamente se alterava. Mas talvez isso possa não

ser correto‟. É justo acrescentar que, em sua carta seguinte, Freud escrevia: „Peço-lhe para não

dar muito valor às minhas observações sobre o instinto de destruição. Elas só foram feitas

fortuitamente e teriam de ser cuidadosamente pensadas antes de publicadas. Ademais, pouco há

de novo nelas.‟

É óbvio, portanto, que O Mal-Estar na Civilização é uma obra cujo interesse ultrapassa

bastante a sociologia.

Partes consideráveis da primeira tradução (1930) do presente trabalho foram incluídas em

Civilization, War and Death: Selections from Three Works by Sigmund Freud (1939, 26-81), da

autoria de Rickman.

O MAL-ESTAR NA CIVILIZAÇÃO

I

É impossível fugir à impressão de que as pessoas comumente empregam falsos padrões

de avaliação - isto é, de que buscam poder, sucesso e riqueza para elas mesmas e os admiram

nos outros, subestimando tudo aquilo que verdadeiramente tem valor na vida. No entanto, ao

formular qualquer juízo geral desse tipo, corremos o risco de esquecer quão variados são o mundo

humano e sua vida mental. Existem certos homens que não contam com a admiração de seus

contemporâneos, embora a grandeza deles repouse em atributos e realizações completamente

estranhos aos objetivos e aos ideais da multidão. Facilmente, poder-se-ia ficar inclinado a supor

que, no final das contas, apenas uma minoria aprecia esses grandes homens, ao passo que a

maioria pouco se importa com eles. Contudo, devido não só às discrepâncias existentes entre os

pensamentos das pessoas e as suas ações, como também à diversidade de seus impulsos plenos

de desejo, as coisas provavelmente não são tão simples assim.

Um desses seres excepcionais refere-se a si mesmo como meu amigo nas cartas que me

remete. Enviei-lhe o meu pequeno livro que trata a religião como sendo uma ilusão, e ele me

respondeu que concordava inteiramente com esse meu juízo, lamentando, porém, que eu não

tivesse apreciado corretamente a verdadeira fonte da religiosidade. Esta, diz ele, consiste num

sentimento peculiar, que ele mesmo jamais deixou de ter presente em si, que encontra confirmado

por muitos outros e que pode imaginar atuante em milhões de pessoas. Trata-se de um sentimento

que ele gostaria de designar como uma sensação de „eternidade‟, um sentimento de algo ilimitado,

sem fronteiras - „oceânico‟, por assim dizer. Esse sentimento, acrescenta, configura um fato

puramente subjetivo, e não um artigo de fé; não traz consigo qualquer garantia de imortalidade

pessoal, mas constitui a fonte da energia religiosa de que se apoderam as diversas Igrejas e

sistemas religiosos, é por eles veiculado para canais específicos e, indubitavelmente, também por

eles exaurido. Acredita ele que uma pessoa, embora rejeite toda crença e toda ilusão, pode

corretamente chamar-se a si mesma de religiosa com fundamento apenas nesse sentimento

oceânico.As opiniões expressas por esse amigo que tanto respeito, e que outrora já louvara a

magia da ilusão num poema, causaram-me não pequena dificuldade. Não consigo descobrir em

mim esse sentimento „oceânico‟. Não é fácil lidar cientificamente com sentimentos. Pode-se tentar

descrever os seus sinais fisiológicos. Onde isso não é possível - e temo que também o sentimento

oceânico desafie esse tipo de caracterização -, nada resta senão cair no conteúdo ideacional que,

de forma mais imediata, está associado ao sentimento. Se compreendi corretamente o meu amigo,

ele quer significar, com esse sentimento, a mesma coisa que o consolo oferecido por um

dramaturgo original e um tanto excêntrico ao seu herói que enfrenta uma morte auto-infligida: „Não

podemos pular para fora deste mundo.Isso equivale a dizer que se trata do sentimento de um

vínculo indissolúvel, de ser uno com o mundo externo como um todo. Posso observar que, para

mim, isto parece, antes, algo da natureza de uma percepção intelectual, que, na verdade, pode vir

acompanhada de um tom de sentimento, embora apenas da forma como este se acharia presente

em qualquer outro ato de pensamento de igual alcance. Segundo minha própria experiência, não

consegui convencer-me da natureza primária desse sentimento; isso, porém, não me dá o direito

de negar que ele de fato ocorra em outras pessoas. A única questão consiste em verificar se está

sendo corretamente interpretado e se deve ser encarado como a fons et origo de toda a

necessidade de religião.

Nada tenho a sugerir que possa exercer influência decisiva na solução desse problema. A

idéia de os homens receberem uma indicação de sua vinculação com o mundo que os cerca por

meio de um sentimento imediato que, desde o início, é dirigido para esse fim, soa de modo tão

estranho e se ajusta tão mal ao contexto de nossa psicologia, que se torna justificável a tentativa

de descobrir uma explicação psicanalítica - isto é, genética - para esse sentimento. A linha de

pensamento que se segue, sugere isso por si mesma. Normalmente, não nada de que possamos

estar mais certos do que do sentimento de nosso eu, do nosso próprio ego. O ego nos aparece

como algo autônomo e unitário, distintamente demarcado de tudo o mais. Ser essa aparência

enganadora - apesar de que, pelo contrário, o ego seja continuado para dentro, sem qualquer

delimitação nítida, por uma entidade mental inconsciente que designamos como id, à qual o ego

serve como uma espécie de fachada -, configurou uma descoberta efetuada pela primeira vez

através da pesquisa psicanalítica, que, de resto, ainda deve ter muito mais a nos dizer sobre o

relacionamento do ego com o id. No sentido do exterior, porém, o ego de qualquer modo, parece

manter linhas de demarcação bem e claras e nítidas. Há somente um estado - indiscutivelmente

fora o comum, embora não possa estigmatizado como patológico - em que ele não se apresenta

assim. No auge do sentimento de amor, a fronteira entre ego e objeto ameaça desaparecer.Contra

todas as provas de seus sentidos, um homem que se ache enamorado declara que „eu‟ e „tu‟ são

um só, e está preparado para se conduzir como se isso constituísse um fato. Aquilo que pode ser

temporariamente eliminado por uma função fisiológica [isto é, normal] deve também, naturalmente,

estar sujeito a perturbações causadas por processos patológicos. A patologia nos familiarizou com

grande número de estados em que as linhas fronteiriças entre o ego e o mundo externo se tornam

incertas, ou nos quais, na realidade, elas se acham incorretamente traçadas. Há casos em que

partes do próprio corpo de uma pessoa, inclusive partes de sua própria vida mental - suas

percepções, pensamentos e sentimentos -, lhe parecem estranhas e como não pertencentes a seu

ego; há outros casos em que a pessoa atribui ao mundo externo coisas que claramente se

originam em seu próprio ego e que por este deveriam ser reconhecidas. Assim, até mesmo o

sentimento de nosso próprio ego está sujeito a distúrbios, e as fronteiras do ego não são

permanentes.

Uma reflexão mais apurada nos diz que o sentimento do ego do adulto não pode ter sido o

mesmo desde o início. Deve ter passado por um processo de desenvolvimento, que, se não pode

ser demonstrado, pode ser construído com um razoável grau de probabilidade. Uma criança

recém-nascida ainda não distingue o seu ego do mundo externo como fonte das sensações que

fluem sobre ela. Aprende gradativamente a fazê-lo, reagindo a diversos estímulos. Ela deve ficar

fortemente impressionada pelo fato de certas fontes de excitação, que posteriormente identificará

como sendo os seus próprios órgãos corporais, poderem provê-la de sensações a qualquer

momento, ao passo que, de tempos em tempos, outras fontes lhe fogem - entre as quais se

destaca a mais desejada de todas, o seio da mãe -, só reaparecendo como resultado de seus

gritos de socorro. Desse modo, pela primeira vez, o ego é contrastado por um „objeto‟, sob a forma

de algo que existe „exteriormente‟ e que só é forçado a surgir através de uma ação especial. Um

outro incentivo para o desengajamento do ego com relação à massa geral de sensações - isto é,

para o reconhecimento de um „exterior‟, de um mundo externo - é proporcionado pelas freqüentes,

múltiplas e inevitáveis sensações de sofrimento e desprazer, cujo afastamento e cuja fuga são

impostos pelo princípio do prazer, no exercício de seu irrestrito domínio. Surge, então, uma

tendência a isolar do ego tudo que pode tornar-se fonte de tal desprazer, a lançá-lo para fora e a

criar um puro ego em busca de prazer, que sofre o confronto de um „exterior‟ estranho e

ameaçador. As fronteiras desse primitivo ego em busca de prazer não podem fugir a uma

retificação através da experiência. Entretanto, algumas das coisas difíceis de serem abandonadas,

por proporcionarem prazer, são, não ego, mas objeto, e certos sofrimentos que se procura extirpar

mostram-se inseparáveis do ego, por causa de sua origem interna. Assim, acaba-se por aprender

um processo através do qual, por meio de uma direção deliberada das próprias atividades

sensórias e de uma ação muscular apropriada, se pode diferenciar entre o que é interno - ou seja,

que pertence ao ego - e o que é externo - ou seja, que emana do mundo externo. Desse modo,

dá-se o primeiro passo no sentido da introdução do princípio da realidade, que deve dominar o

desenvolvimento futuro. Essa diferenciação, naturalmente, serve à finalidade prática de nos

capacitar para a defesa contra sensações de desprazer que realmente sentimos ou pelas quais

somos ameaçados. A fim de desviar certas excitações desagradáveis que surgem do interior, o

ego não pode utilizar senão os métodos que utiliza contra o desprazer oriundo do exterior, e este é

o ponto de partida de importantes distúrbios patológicos.Desse modo, então, o ego se separa do

mundo externo. Ou, numa expressão mais correta, originalmente o ego inclui tudo; posteriormente,

separa, de si mesmo, um mundo externo. Nosso presente sentimento do ego não passa, portanto,

de apenas um mirrado resíduo de um sentimento muito mais inclusivo - na verdade, totalmente

abrangente -, que corresponde a um vínculo mais íntimo entre o ego e o mundo que o cerca.

Supondo que há muitas pessoas em cuja vida mental esse sentimento primário do ego persistiu

em maior ou menor grau, ele existiria nelas ao lado do sentimento do ego mais estrito e mais

nitidamente demarcado da maturidade, como uma espécie de correspondente seu. Nesse caso, o

conteúdo ideacional a ele apropriado seria exatamente o de ilimitabilidade e o de um vínculo com o

universo - as mesmas idéias com que meu amigo elucidou o sentimento „oceânico‟.

Contudo, terei eu o direito de presumir a sobrevivência de algo que já se encontrava

originalmente lá, lado a lado com o que posteriormente dele se derivou? Sem dúvida, sim. Nada

existe de estranho em tal fenômeno, tanto no campo mental como em qualquer outro. No reino

animal, atemo-nos à opinião de que as espécies mais altamente desenvolvidas se originaram das

mais baixas; no entanto, ainda hoje, encontramos em existência todas as formas simples. A raça

dos grandes sáurios se extinguiu e abriu caminho para os mamíferos; o crocodilo, porém, legítimo

representante dos sáurios, ainda vive entre nós. Essa analogia pode ser excessivamente remota,

além de debilitada pela circunstância de as espécies inferiores sobreviventes não serem, em sua

maioria, os verdadeiros ancestrais das espécies mais altamente desenvolvidas dos dias atuais. Via

de regra, os elos intermediários extinguiram-se, e só os conhecemos através de reconstruções. No

domínio da mente, por sua vez, o elemento primitivo se mostra tão comumente preservado, ao lado

da versão transformada que dele surgiu, que se faz desnecessário fornecer exemplos como prova.

Quando isso ocorre, é geralmente em conseqüência de uma divergência no desenvolvimento:

determinada parte (no sentido quantitativo) de uma atitude ou de um impulso instintivo permaneceu

inalterada, ao passo que outra sofreu um desenvolvimento ulterior.

Esse fato nos conduz ao problema mais geral da preservação na esfera da mente. O

assunto mal foi estudado ainda, mas é tão atraente e importante, que nos será permitido voltarmos

um pouco nossa atenção para ele, ainda que nossa desculpa seja insuficiente. Desde que

superamos o erro de supor que o esquecimento com que nos achamos familiarizados significava a

destruição do resíduo mnêmico - isto é, a sua aniquilação -, ficamos inclinados a assumir o ponto

de vista oposto, ou seja, o de que, na vida mental, nada do que uma vez se formou pode perecer -

o de que tudo é, de alguma maneira, preservado e que, em circunstâncias apropriadas (quando,

por exemplo, a regressão volta suficientemente atrás), pode ser trazido de novo à luz. Tentemos

apreender o que essa suposição envolve, estabelecendo uma analogia com outro campo.

Escolheremos como exemplo a história da Cidade Eterna. Os historiadores nos dizem que a Roma

mais antiga foi a RomaQuadrata, uma povoação sediada sobre o Palatino. Seguiu-se a fase dos

Septimontium, uma federação das povoações das diferentes colinas; depois, veio a cidade limitada

pelo Muro de Sérvio e, mais tarde ainda, após todas as transformações ocorridas durante os

períodos da república e dos primeiros césares, a cidade que o imperador Aureliano cercou com as

suas muralhas. Não acompanharemos mais as modificações por que a cidade passou;

perguntar-nos-emos, porém, o quanto um visitante, que imaginaremos munido do mais completo

conhecimento histórico e topográfico, ainda pode encontrar, na Roma de hoje, de tudo que restou

dessas primeiras etapas. À exceção de umas poucas brechas, verá o Muro de Aureliano quase

intacto. Em certas partes, poderá encontrar seções do Muro de Sérvio que foram escavadas e

trazidas à luz. Se souber bastante - mais do que a arqueologia atual conhece -, talvez possa traçar

na planta da cidade todo o perímetro desse muro e o contorno da Roma Quadrata. Dos prédios

que outrora ocuparam essa antiga área, nada encontrará, ou, quando muito, restos escassos, já

que não existem mais. No máximo, as melhores informações sobre a Roma da era republicana

capacitariam-no apenas a indicar os locais em que os templos e edifícios públicos daquele período

se erguiam. Seu sítio acha-se hoje tomado por ruínas, não pelas ruínas deles próprios, mas pelas

de restaurações posteriores, efetuadas após incêndios ou outros tipos de destruição. Também

faz-se necessário observar que todos esses remanescentes da Roma antiga estão mesclados com

a confusão de uma grande metrópole, que se desenvolveu muito nos últimos séculos, a partir da

Renascença. Sem dúvida, já não há nada que seja antigo, enterrado no solo da cidade ou sob os

edifícios modernos. Este é o modo como se preserva o passado em sítios históricos como Roma.

Permitam-nos agora, num vôo da imaginação, supor que Roma não é uma habitação humana, mas

uma entidade psíquica, com um passado semelhantemente longo e abundante - isto é, uma

entidade onde nada do que outrora surgiu desapareceu e onde todas as fases anteriores de

desenvolvimento continuam a existir, paralelamente à última. Isso significaria que, em Roma, os

palácios dos césares e as Septizonium de Sétimo Severo ainda se estariam erguendo em sua

antiga altura sobre o Palatino e que o castelo de Santo Ângelo ainda apresentaria em suas ameias

as belas estátuas que o adornavam até a época do cerco pelos godos, e assim por diante. Mais do

que isso: no local ocupado pelo Palazzo Cafarelli, mais uma vez se ergueria - sem que o Palazzo

tivesse de ser removido - o Templo de Júpiter Capitolino, não apenas em sua última forma, como

os romanos do Império o viam, mas também na primitiva, quando apresentava formas etruscas e

era ornamentado por antefixas de terracota. Ao mesmo tempo, onde hoje se ergue o Coliseu,

poderíamos admirar a desaparecida Casa Dourada, de Nero. Na Praça do Panteão

encontraríamos não apenas o atual, tal como legado por Adriano, mas, aí mesmo, o edifício

original levantado por Agripa; na verdade, o mesmo trecho de terreno estaria sustentando a Igreja

de Santa Maria sobre Minerva e o antigo templo sobre o qual ela foi construída. E talvez o

observador tivesse apenas de mudar a direção do olhar ou a sua posição para invocar uma visão

ou a outra.

A essa altura não faz sentido prolongarmos nossa fantasia, de uma vez que ela conduz a

coisas inimagináveis e mesmo absurdas. Se quisermos representar a seqüência histórica em

termos espaciais, só conseguiremos fazê-lo pela justaposição no espaço: o mesmo espaço não

pode ter dois conteúdos diferentes. Nossa tentativa parece ser um jogo ocioso. Ela conta com

apenas uma justificativa. Mostra quão longe estamos de dominar as características da vida mental

através de sua representação em termos pictóricos.

Há outra objeção a ser considerada. Pode-se levantar a questão da razão por que

escolhemos precisamente o passado de uma cidade para compará-lo com o passado da mente. A

suposição de que tudo o que passou é preservado se aplica, mesmo na vida mental, só com a

condição de que o órgão da mente tenha permanecido intacto e que seus tecidos não tenham sido

danificados por trauma ou inflamação. Mas influências destrutivas que possam ser comparadas a

causas de enfermidade como as citadas acima nunca faltam na história de uma cidade, ainda que

tenha tido um passado menos diversificado que o de Roma, e ainda que, como Londres, mal tenha

sofrido com as visitas de um inimigo. Demolições e substituições de prédios ocorrem no decorrer

do mais pacífico desenvolvimento de uma cidade. Uma cidade é, portanto, a priori, inapropriada

para uma comparação desse tipo com um organismo mental.

Curvamo-nos ante essa objeção e, abandonando nossa tentativa de esboçar um contraste

impressivo, nos voltaremos para o que, afinal de contas, constitui um objeto de comparação mais

estreitamente relacionado: o corpo de um animal ou o de um ser humano. Aqui também, no

entanto, encontramos a mesma coisa. As primeiras fases do desenvolvimento já não se acham, em

sentido algum, preservadas; foram absorvidas pelas fases posteriores, às quais forneceram

material. O embrião não pode ser descoberto no adulto. A glândula do timo da infância, sendo

substituída, após a puberdade, por tecidos de ligação, não mais se apresenta como tal; nas

medulas ósseas do homem adulto posso, sem dúvida, traçar o contorno do osso infantil, embora

este tenha desaparecido, alongando-se e espessando-se até atingir sua forma definitiva.

Permanecem o fato de que só na mente é possível a preservação de todas as etapas anteriores,

lado a lado com a forma final, e o de que não estamos em condições de representar esse

fenômeno em termos pictóricos.

Talvez estejamos levando longe demais essa reflexão. Talvez devêssemos contentar-nos

em afirmar que o que se passou na vida mental pode ser preservado, não sendo,

necessariamente, destruído. É sempre possível que, mesmo na mente, algo do que é antigo seja

apagado ou absorvido - quer no curso normal das coisas, quer como exceção - a tal ponto, que

não possa ser restaurado nem revivescido por meio algum, ou que a preservação em geral

dependa de certas condições favoráveis. É possível, mas nada sabemos a esse respeito.

Podemos apenas prender-nos ao fato de ser antes regra, e não exceção, o passado achar-se

preservado na vida mental.

Assim, estamos perfeitamente dispostos a reconhecer que o sentimento „oceânico‟ existe

em muitas pessoas, e nos inclinamos a fazer sua origem remontar a uma fase primitiva do

sentimento do ego. Surge então uma nova questão: que direito tem esse sentimento de ser

considerado como a fonte das necessidades religiosas.

Esse direito não me parece obrigatório. Afinal de contas, um sentimento só poderá ser

fonte de energia se ele próprio for expressão de uma necessidade intensa. A derivação das

necessidades religiosas, a partir do desamparo do bebê e do anseio pelo pai que aquela

necessidade desperta, parece-me incontrovertível, desde que, em particular, o sentimento não seja

simplesmente prolongado a partir dos dias da infância, mas permanentemente sustentado pelo

medo do poder superior do Destino. Não consigo pensar em nenhuma necessidade da infância tão

intensa quanto a da proteção de um pai. Dessa maneira, o papel desempenhado pelo sentimento

oceânico, que poderia buscar algo como a restauração do narcisismo ilimitado, é deslocado de um

lugar em primeiro plano. A origem da atitude religiosa pode ser remontada, em linhas muito claras,

até o sentimento de desamparo infantil. Pode haver algo mais por trás disso, mas, presentemente,

ainda está envolto em obscuridade.

Posso imaginar que o sentimento oceânico se tenha vinculado à religião posteriormente. A

„unidade com o universo‟, que constitui seu conteúdo ideacional, soa como uma primeira tentativa

de consolação religiosa, como se configurasse uma outra maneira de rejeitar o perigo que o ego

reconhece a ameaçá-lo a partir do mundo externo. Permitam-me admitir mais uma vez que para

mim é muito difícil trabalhar com essas quantidades quase intangíveis. Outro amigo meu, cuja

insaciável vontade de saber o levou a realizar as experiências mais inusitadas, acabando por lhe

dar um conhecimento enciclopédico, assegurou-me que, através das práticas de ioga, pelo

afastamento do mundo, pela fixação da atenção nas funções corporais e por métodos peculiares

de respiração, uma pessoa pode de fato evocar em si mesma novas sensações e cenestesias,

consideradas estas como regressões a estados primordiais da mente que há muito tempo foram

recobertos. Ele vê nesses estados uma base, por assim dizer fisiológica, de grande parte da

sabedoria do misticismo. Não seria difícil descobrir aqui vinculações com certo número de

obscuras modificações da vida mental, tais como os transes e os êxtases. Contudo, sou levado a

exclamar, como nas palavras do mergulhador de Schiller: „…Es freue sich, Wer da atmet im

rosigten Licht.‟

II

Em meu trabalho O Futuro de uma Ilusão [1927c], estava muito menos interessado nas

fontes mais profundas do sentimento religioso do que naquilo que o homem comum entende como

sua religião - o sistema de doutrinas e promessas que, por um lado, lhe explicam os enigmas deste

mundo com perfeição invejável, e que, por outro, lhe garantem que uma Providência cuidadosa

velará por sua vida e o compensará, numa existência futura, de quaisquer frustrações que tenha

experimentado aqui. O homem comum só pode imaginar essa Providência sob a figura de um pai

ilimitadamente engrandecido. Apenas um ser desse tipo pode compreender as necessidades dos

filhos dos homens, enternecer-se com suas preces e aplacar-se com os sinais de seu remorso.

Tudo é tão patentemente infantil, tão estranho à realidade, que, para qualquer pessoa que

manifeste uma atitude amistosa em relação à humanidade, é penoso pensar que a grande maioria

dos mortais nunca será capaz de superar essa visão da vida. Mais humilhante ainda é descobrir

como é vasto o número de pessoas de hoje que não podem deixar de perceber que essa religião é

insustentável e, não obstante isso, tentam defendê-la, item por item, numa série de lamentáveis

atos retrógrados. Gostaríamos de nos mesclar às fileiras dos crentes, a fim de encontrarmos

aqueles filósofos que consideram poder salvar o Deus da religião, substituindo-o por um princípio

impessoal, obscuro e abstrato, e dirigirmos-lhes as seguintes palavras de advertência: „Não

tomarás o nome do Senhor teu Deus em vão!‟ E, se alguns dos grandes homens do passado

agiram da mesma maneira, de modo nenhum se pode invocar seu exemplo: sabemos por que

foram obrigados a isso.

Retornemos ao homem comum e à sua religião, a única que deveria levar esse nome. A

primeira coisa em que pensamos é na bem conhecida expressão de um de nossos maiores poetas

e pensadores, referindo-se à relação da religião com a arte e a ciência:

Wer Wissenschaft und Kunst besitzt, hat auch Religion; Wer jene beide nicht besitzt, der

habe Religion!

Esses dois versos, por um lado, traçam uma antítese entre a religião e as duas mais altas

realizações do homem, e, por outro, asseveram que, com relação ao seu valor na vida, essas

realizações e a religião podem representar-se ou substituir-se mutuamente. Se também nos

dispusermos a privar o homem comum [que não possui nem ciência nem arte] de sua religião, é

claro que não teremos de nosso lado a autoridade do poeta. Escolheremos um caminho específico

para nos aproximarmos mais de uma justa apreciação de suas palavras. A vida, tal como a

encontramos, é árdua demais para nós; proporciona-nos muitos sofrimentos, decepções e tarefas

impossíveis. A fim de suportá-la, não podemos dispensar as medidas paliativas. „Não podemos

passar sem construções auxiliares‟, diz-nos Theodor Fontane. Existem talvez três medidas desse

tipo: derivativos poderosos, que nos fazem extrair luz de nossa desgraça; satisfações substitutivas,

que a diminuem; e substâncias tóxicas, que nos tornam insensíveis a ela. Algo desse tipo é

indispensável. Voltaire tinha os derivativos em mente quando terminou Candide com o conselho

para cultivarmos nosso próprio jardim, e a atividade científica constitui também um derivativo dessa

espécie. As satisfações substitutivas, tal como as oferecidas pela arte, são ilusões, em contraste

com a realidade; nem por isso, contudo, se revelam menos eficazes psiquicamente, graças ao

papel que a fantasia assumiu na vida mental. As substâncias tóxicas influenciam nosso corpo e

alteram a sua química. Não é simples perceber onde a religião encontra o seu lugar nessa série.

Temos de pesquisar mais adiante.

A questão do propósito da vida humana já foi levantada várias vezes; nunca, porém,

recebeu resposta satisfatória e talvez não a admita. Alguns daqueles que a formularam

acrescentaram que, se fosse demonstrado que a vida não tem propósito, esta perderia todo valor

para eles. Tal ameaça, porém, não altera nada. Pelo contrário, faz parecer que temos o direito de

descartar a questão, já que ela parece derivar da presunção humana, da qual muitas outras

manifestações já nos são familiares. Ninguém fala sobre o propósito da vida dos animais, a menos,

talvez, que se imagine que ele resida no fato de os animais se acharem a serviço do homem.

Contudo, tampouco essa opinião é sustentável, de uma vez que existem muitos animais de que o

homem nada pode se aproveitar, exceto descrevê-los, classificá-los e estudá-los; ainda assim,

inumeráveis espécies de animais escaparam inclusive a essa utilização, pois existiram e se

extinguiram antes que o homem voltasse seus olhos para elas. Mais uma vez, só a religião é capaz

de resolver a questão do propósito da vida. Dificilmente incorreremos em erro ao concluirmos que

a idéia de a vida possuir um propósito se forma e desmorona com o sistema

religioso.Voltar-nos-emos, portanto, para uma questão menos ambiciosa, a que se refere àquilo

que os próprios homens, por seu comportamento, mostram ser o propósito e a intenção de suas

vidas. O que pedem eles da vida e o que desejam nela realizar? A resposta mal pode provocar

dúvidas. Esforçam-se para obter felicidade; querem ser felizes e assim permanecer. Essa empresa

apresenta dois aspectos: uma meta positiva e uma meta negativa. Por um lado, visa a uma

ausência de sofrimento e de desprazer; por outro, à experiência de intensos sentimentos de

prazer. Em seu sentido mais restrito, a palavra „felicidade‟ só se relaciona a esses últimos. Em

conformidade a essa dicotomia de objetivos, a atividade do homem se desenvolve em duas

direções, segundo busque realizar - de modo geral ou mesmo exclusivamente - um ou outro

desses objetivos.

Como vemos, o que decide o propósito da vida é simplesmente o programa do princípio do

prazer. Esse princípio domina o funcionamento do aparelho psíquico desde o início. Não pode

haver dúvida sobre sua eficácia, ainda que o seu programa se encontre em desacordo com o

mundo inteiro, tanto com o macrocosmo quanto com o microcosmo. Não há possibilidade alguma

de ele ser executado; todas as normas do universo são-lhe contrárias. Ficamos inclinados a dizer

que a intenção de que o homem seja „feliz‟ não se acha incluída no plano da „Criação‟. O que

chamamos de felicidade no sentido mais restrito provém da satisfação (de preferência, repentina)

de necessidades represadas em alto grau, sendo, por sua natureza, possível apenas como uma

manifestação episódica. Quando qualquer situação desejada pelo princípio do prazer se prolonga,

ela produz tão-somente um sentimento de contentamento muito tênue. Somos feitos de modo a só

podermos derivar prazer intenso de um contraste, e muito pouco de um determinado estado de

coisas.

Assim, nossas possibilidades de felicidade sempre são restringidas por nossa própria

constituição. Já a infelicidade é muito menos difícil de experimentar. O sofrimento nos ameaça a

partir de três direções: de nosso próprio corpo, condenado à decadência e à dissolução, e que nem

mesmo pode dispensar o sofrimento e a ansiedade como sinais de advertência; do mundo externo,

que pode voltar-se contra nós com forças de destruição esmagadoras e impiedosas; e, finalmente,

de nossos relacionamentos com os outros homens. O sofrimento que provém dessa última fonte

talvez nos seja mais penoso do que qualquer outro. Tendemos a encará-lo como uma espécie de

acréscimo gratuito, embora ele não possa ser menos fatidicamente inevitável do que o sofrimento

oriundo de outras fontes.

Não admira que, sob a pressão de todas essas possibilidades de sofrimento, os homens

se tenham acostumado a moderar suas reivindicações de felicidade - tal como, na verdade, o

próprio princípio do prazer, sob a influência do mundo externo, se transformou no mais modesto

princípio da realidade -, que um homem pense ser ele próprio feliz, simplesmente porque escapou

à infelicidade ou sobreviveu ao sofrimento, e que, em geral, a tarefa de evitar o sofrimento coloque

a de obter prazer em segundo plano. A reflexão nos mostra que é possível tentar a realização

dessa tarefa através de caminhos muito diferentes e que todos esses caminhos foram

recomendados pelas diversas escolas de sabedoria secular e postos em prática pelos homens.

Uma satisfação irrestrita de todas as necessidades apresenta-se-nos como o método mais tentador

de conduzir nossas vidas; isso, porém, significa colocar o gozo antes da cautela, acarretando logo

o seu próprio castigo. Os outros métodos, em que a fuga do desprazer constitui o intuito primordial,

diferenciam-se de acordo com a fonte de desprazer para a qual sua atenção está principalmente

voltada. Alguns desses métodos são extremados; outros, moderados; alguns são unilaterais;

outros atacam o problema, simultaneamente, em diversos pontos. Contra o sofrimento que pode

advir dos relacionamentos humanos, a defesa mais imediata é o isolamento voluntário, o manter-se

à distância das outras pessoas. A felicidade passível de ser conseguida através desse método é,

como vemos, a felicidade da quietude. Contra o temível mundo externo, só podemos defender-nos

por algum tipo de afastamento dele, se pretendermos solucionar a tarefa por nós mesmos. Há, é

verdade, outro caminho, e melhor: o de tornar-se membro da comunidade humana e, com o auxílio

de uma técnica orientada pela ciência, passar para o ataque à natureza e sujeitá-la à vontade

humana. Trabalha-se então com todos para o bem de todos. Contudo, os métodos mais

interessantes de evitar o sofrimento são os que procuram influenciar o nosso próprio organismo.

Em última análise, todo sofrimento nada mais é do que sensação; só existe na medida em que o

sentimos, e só o sentimos como conseqüência de certos modos pelos quais nosso organismo está

regulado.O mais grosseiro, embora também o mais eficaz, desses métodos de influência é o

químico: a intoxicação. Não creio que alguém compreenda inteiramente o seu mecanismo; é fato,

porém, que existem substâncias estranhas, as quais, quando presentes no sangue ou nos tecidos,

provocam em nós, diretamente, sensações prazerosas, alterando, também, tanto as condições que

dirigem nossa sensibilidade, que nos tornamos incapazes de receber impulsos desagradáveis. Os

dois efeitos não só ocorrem de modo simultâneo, como parecem estar íntima e mutuamente

ligados. No entanto, é possível que haja substâncias na química de nossos próprios corpos que

apresentem efeitos semelhante pois conhecemos pelo menos um estado patológico, a mania, no

qual uma condição semelhante à intoxicação surge sem administração de qualquer droga

intoxicante. Além disso, nossa vida psíquica normal apresenta oscilações entre uma liberação de

prazer relativamente fácil e outra comparativamente difícil, paralela à qual ocorre uma

receptividade, diminuída ou aumentada, ao desprazer. É extremamente lamentável que até agora

esse lado tóxico dos processos mentais tenha escapado ao exame científico. O serviço prestado

pelos veículos intoxicantes na luta pela felicidade e no afastamento da desgraça é tão altamente

apreciado como um benefício, que tanto indivíduos quanto povos lhes concederam um lugar

permanente na economia de sua libido. Devemos a tais veículos não só a produção imediata de

prazer, mas também um grau altamente desejado de independência do mundo externo, pois

sabe-se que, com o auxílio desse „amortecedor de preocupações‟, é possível, em qualquer

ocasião, afastar-se da pressão da realidade e encontrar refúgio num mundo próprio, com melhores

condições de sensibilidade. Sabe-se igualmente que é exatamente essa propriedade dos

intoxicantes que determina o seu perigo e a sua capacidade de causar danos. São responsáveis,

em certas circunstâncias, pelo desperdício de uma grande quota de energia que poderia ser

empregada para o aperfeiçoamento do destino humano.

A complicada estrutura de nosso aparelho mental admite, contudo, um grande número de

outras influências. Assim como a satisfação do instinto equivale para nós à felicidade, assim

também um grave sofrimento surge em nós, caso o mundo externo nos deixe definhar, caso se

recuse a satisfazer nossas necessidades. Podemos, portanto, ter esperanças de nos libertarmos

de uma parte de nossos sofrimentos, agindo sobre os impulsos instintivos. Esse tipo de defesa

contra o sofrimento se aplica mais ao aparelho sensorial; ele procura dominar as fontes internas de

nossas necessidades. A forma extrema disso é ocasionada pelo aniquilamento dos instintos, tal

como prescrito pela sabedoria do mundo peculiar ao Oriente e praticada pelo ioga. Caso obtenha

êxito, o indivíduo, é verdade, abandona também todas as outras atividades: sacrifica a sua vida e,

por outra via, mais uma vez atinge apenas a felicidade da quietude. Seguimos o mesmo caminho

quando os nossos objetivos são menos extremados e simplesmente tentamos controlar nossa vida

instintiva. Nesse caso, os elementos controladores são os agentes psíquicos superiores, que se

sujeitaram ao princípio da realidade. Aqui, a meta da satisfação não é, de modo algum,

abandonada, mas garante-se uma certa proteção contra o sofrimento no sentido de que a

não-satisfação não é tão penosamente sentida no caso dos instintos mantidos sob dependência

como no caso dos instintos desinibidos. Contra isso, existe uma inegável diminuição nas

potencialidades de satisfação. O sentimento de felicidade derivado da satisfação de um selvagem

impulso instintivo não domado pelo ego é incomparavelmente mais intenso do que o derivado da

satisfação de um instinto que já foi domado. A irresistibilidade dos instintos perversos e, talvez, a

atração geral pelas coisas proibidas encontram aqui uma explicação econômica.

Outra técnica para afastar o sofrimento reside no emprego dos deslocamentos de libido

que nosso aparelho mental possibilita e através dos quais sua função ganha tanta flexibilidade. A

tarefa aqui consiste em reorientar os objetivos instintivos de maneira que eludam a frustração do

mundo externo. Para isso, ela conta com a assistência da sublimação dos instintos. Obtém-se o

máximo quando se consegue intensificar suficientemente a produção de prazer a partir das fontes

do trabalho psíquico e intelectual. Quando isso acontece, o destino pouco pode fazer contra nós.

Uma satisfação desse tipo, como, por exemplo, a alegria do artista em criar, em dar corpo às suas

fantasias, ou a do cientista em solucionar problemas ou descobrir verdades, possui uma qualidade

especial que, sem dúvida, um dia poderemos caracterizar em termos metapsicológicos.

Atualmente, apenas de forma figurada podemos dizer que tais satisfações parecem „mais refinadas

e mais altas‟. Contudo, sua intensidade se revela muito tênue quando comparada com a que se

origina da satisfação de impulsos instintivos grosseiros e primários; ela não convulsiona o nosso

ser físico. E o ponto fraco desse método reside em não ser geralmente aplicável, de uma vez que

só é acessível a poucas pessoas. Pressupõe a posse de dotes e disposições especiais que, para

qualquer fim prático, estão longe de serem comuns. E mesmo para os poucos que os possuem, o

método não proporciona uma proteção completa contra o sofrimento. Não cria uma armadura

impenetrável contra as investidas do destino e habitualmente falha quando a fonte do sofrimento é

o próprio corpo da pessoa.Enquanto esse procedimento já mostra claramente uma intenção de nos

tornar independentes do mundo externo pela busca da satisfação em processos psíquicos

internos, o procedimento seguinte apresenta esses aspectos de modo ainda mais intenso. Nele, a

distensão do vínculo com a realidade vai mais longe; a satisfação é obtida através de ilusões,

reconhecidas como tais, sem que se verifique permissão para que a discrepância entre elas e a

realidade interfira na sua fruição. A região onde essas ilusões se originam é a vida da imaginação;

na época em que o desenvolvimento do senso de realidade se efetuou, essa região foi

expressamente isentada das exigências do teste de realidade e posta de lado a fim de realizar

desejos difíceis de serem levados a termo. À frente das satisfações obtidas através da fantasia

ergue-se a fruição das obras de arte, fruição que, por intermédio do artista, é tornada acessível

inclusive àqueles que não são criadores. As pessoas receptivas à influência da arte não lhe podem

atribuir um valor alto demais como fonte de prazer e consolação na vida. Não obstante, a suave

narcose a que a arte nos induz, não faz mais do que ocasionar um afastamento passageiro das

pressões das necessidades vitais, não sendo suficientemente forte para nos levar a esquecer a

aflição real.

Um outro processo opera de modo mais energético e completo. Considera a realidade

como a única inimiga e a fonte de todo sofrimento, com a qual é impossível viver, de maneira que,

se quisermos ser de algum modo felizes, temos de romper todas as relações com ela. O eremita

rejeita o mundo e não quer saber de tratar com ele. Pode-se, porém, fazer mais do que isso;

pode-se tentar recriar o mundo, em seu lugar construir um outro mundo, no qual os seus aspectos

mais insuportáveis sejam eliminados e substituídos por outros mais adequados a nossos próprios

desejos. Mas quem quer que, numa atitude de desafio desesperado, se lance por este caminho em

busca da felicidade, geralmente não chega a nada. A realidade é demasiado forte para ele.

Torna-se um louco; alguém que, a maioria das vezes, não encontra ninguém para ajudá-lo a tornar

real o seu delírio. Afirma-se, contudo, que cada um de nós se comporta, sob determinado aspecto,

como um paranóico, corrige algum aspecto do mundo que lhe é insuportável pela elaboração de

um desejo e introduz esse delírio na realidade. Concede-se especial importância ao caso em que a

tentativa de obter uma certeza de felicidade e uma proteção contra o sofrimento através de um

remodelamento delirante da realidade, é efetuada em comum por um considerável número de

pessoas. As religiões da humanidade devem ser classificadas entre os delírios de massa desse

tipo. É desnecessário dizer que todo aquele que partilha um delírio jamais o reconhece como tal.

Não pretendo ter feito uma enumeração completa dos métodos pelos quais os homens se

esforçam para conseguir a felicidade e manter afastado o sofrimento; sei também que o material

poderia ter sido diferentemente disposto. Ainda não mencionei um processo - não por

esquecimento, mas porque nos interessará mais tarde, em relação a outro assunto. E como se

poderia esquecer, entre todas as outras, a técnica da arte de viver? Ela se faz visível por uma

notável combinação de aspectos característicos. Naturalmente, visa também a tornar o indivíduo

independente do Destino (como é melhor chamá-lo) e, para esse fim, localiza a satisfação em

processos mentais internos, utilizando, ao proceder assim, a deslocabilidade da libido que já

mencionamos,ver [[1]]. Mas ela não volta as costas ao mundo externo; pelo contrário, prende-se

aos objetos pertencentes a esse mundo e obtém felicidade de um relacionamento emocional com

eles. Tampouco se contenta em visar a uma fuga do desprazer, uma meta, poderíamos dizer, de

cansada resignação; passa por ela sem lhe dar atenção e se aferra ao esforço original e

apaixonado em vista de uma consecução completa da felicidade. Na realidade, talvez se aproxime

mais dessa meta do que qualquer outro método. Evidentemente, estou falando da modalidade de

vida que faz do amor o centro de tudo, que busca toda satisfação em amar e ser amado. Uma

atitude psíquica desse tipo chega de modo bastante natural a todos nós; uma das formas através

da qual o amor se manifesta - o amor sexual - nos proporcionou nossa mais intensa experiência de

uma transbordante sensação de prazer, fornecendo-nos assim um modelo para nossa busca da

felicidade. Há, porventura, algo mais natural do que persistirmos na busca da felicidade do modo

como a encontramos pela primeira vez? O lado fraco dessa técnica de viver é de fácil percepção,

pois, do contrário, nenhum ser humano pensaria em abandonar esse caminho da felicidade por

qualquer outro. É que nunca nos achamos tão indefesos contra o sofrimento como quando

amamos, nunca tão desamparadamente infelizes como quando perdemos o nosso objeto amado

ou o seu amor. Isso, porém, não liquida com a técnica de viver baseada no valor do amor como um

meio de obter felicidade. Há muito mais a ser dito a respeito. [Ver [1]].

Daqui podemos passar à consideração do interessante caso em que a felicidade na vida é

predominantemente buscada na fruição da beleza, onde quer que esta se apresente a nossos

sentidos e a nosso julgamento - a beleza das formas e a dos gestos humanos, a dos objetos

naturais e das paisagens e a das criações artísticas e mesmo científicas. A atitude estética em

relação ao objetivo da vida oferece muito pouca proteção contra a ameaça do sofrimento, embora

possa compensá-lo bastante. A fruição da beleza dispõe de uma qualidade peculiar de sentimento,

tenuemente intoxicante. A beleza não conta com um emprego evidente; tampouco existe

claramente qualquer necessidade cultural sua. Apesar disso, a civilização não pode dispensá-la.

Embora a ciência da estética investigue as condições sob as quais as coisas são sentidas como

belas, tem sido incapaz de fornecer qualquer explicação a respeito da natureza e da origem da

beleza, e, tal como geralmente acontece, esse insucesso vem sendo escamoteado sob um dilúvio

de palavras tão pomposas quanto ocas. A psicanálise, infelizmente, também pouco encontrou a

dizer sobre a beleza. O que parece certo é sua derivação do campo do sentimento sexual. O amor

da beleza parece um exemplo perfeito de um impulso inibido em sua finalidade.‟Beleza‟ e „atração‟

são, originalmente, atributos do objeto sexual. Vale a pena observar que os próprios órgãos

genitais, cuja visão é sempre excitante, dificilmente são julgados belos; a qualidade da beleza, ao

contrário, parece ligar-se a certos caracteres sexuais secundários.

A despeito da deficiência [de minha enumeração, ver ([1])], aventurar-me-ei a algumas

observações à guisa de conclusão para nossa investigação. O programa de tornar-se feliz, que o

princípio do prazer nos impõe,ver [[1]],não pode ser realizado; contudo, não devemos - na verdade,

não podemos - abandonar nossos esforços de aproximá-lo da consecução, de uma maneira ou de

outra. Caminhos muito diferentes podem ser tomados nessa direção, e podemos conceder

prioridades quer ao aspecto positivo do objetivo, obter prazer, quer ao negativo, evitar o desprazer.

Nenhum desses caminhos nos leva a tudo o que desejamos. A felicidade, no reduzido sentido em

que a reconhecemos como possível, constitui um problema da economia da libido do indivíduo.

Não existe uma regra de ouro que se aplique a todos: todo homem tem de descobrir por si mesmo

de que modo específico ele pode ser salvo. Todos os tipos de diferentes fatores operarão a fim de

dirigir sua escolha. É uma questão de quanta satisfação real ele pode esperar obter do mundo

externo, de até onde é levado para tornar-se independente dele, e, finalmente, de quanta força

sente à sua disposição para alterar o mundo, a fim de adaptá-lo a seus desejos. Nisso, sua

constituição psíquica desempenhará papel decisivo, independentemente das circunstâncias

externas. O homem predominantemente erótico dará preferência aos seus relacionamentos

emocionais com outras pessoas; o narcisista que tende a ser auto-suficiente, buscará suas

satisfações principais em seus processos mentais internos; o homem de ação nunca abandonará o

mundo externo, onde pode testar sua força. Quanto ao segundo desses tipos, a natureza de seus

talentos e a parcela de sublimação instintiva a ele aberta decidirão onde localizará os seus

interesses. Qualquer escolha levada a um extremo condena o indivíduo a ser exposto a perigos,

que surgem caso uma técnica de viver, escolhida como exclusiva, se mostre inadequada. Assim

como o negociante cauteloso evita empregar todo seu capital num só negócio, assim também,

talvez, a sabedoria popular nos aconselhe a não buscar a totalidade de nossa satisfação numa só

aspiração. Seu êxito jamais é certo, pois depende da convergência de muitos fatores, talvez mais

do que qualquer outro, da capacidade da constituição psíquica em adaptar sua função ao meio

ambiente e então explorar esse ambiente em vista de obter um rendimento de prazer. Uma pessoa

nascida com uma constituição instintiva especialmente desfavorável e que não tenha

experimentado corretamente a transformação e a redisposição de seus componentes libidinais

indispensáveis às realizações posteriores, achará difícil obter felicidade em sua situação

externa,em especial se vier a se defrontar com tarefas de certa dificuldade. Como uma última

técnica de vida, pelo que menos lhe trará satisfações substitutivas, é-lhe oferecida a fuga para a

enfermidade neurótica, fuga que geralmente efetua quando ainda é jovem. O homem que, em anos

posteriores, vê sua busca da felicidade resultar em nada ainda pode encontrar consolo no prazer

oriundo da intoxicação crônica, ou então se empenhar na desesperada tentativa de rebelião que se

observa na psicose.

A religião restringe esse jogo de escolha e adaptação, desde que impõe igualmente a

todos o seu próprio caminho para a aquisição da felicidade e da proteção contra o sofrimento. Sua

técnica consiste em depreciar o valor da vida e deformar o quadro do mundo real de maneira

delirante - maneira que pressupõe uma intimidação da inteligência. A esse preço, por fixá-las à

força num estado de infantilismo psicológico e por arrastá-las a um delírio de massa, a religião

consegue poupar a muitas pessoas uma neurose individual. Dificilmente, porém, algo mais.

Existem, como dissemos, muitos caminhos que podem levar à felicidade passível de ser atingida

pelos homens, mas nenhum que o faça com toda segurança. Mesmo a religião não consegue

manter sua promessa. Se, finalmente, o crente se vê obrigado a falar dos „desígnios inescrutáveis‟

de Deus, está admitindo que tudo que lhe sobrou, como último consolo e fonte de prazer possíveis

em seu sofrimento, foi uma submissão incondicional. E, se está preparado para isso,

provavelmente poderia ter-se poupado o détour que efetuou.

III

Até agora, nossa investigação sobre a felicidade não nos ensinou quase nada que já não

pertença ao conhecimento comum. E, mesmo que passemos dela para o problema de saber por

que é tão difícil para o homem ser feliz, parece que não há maior perspectiva de aprender algo

novo. Já demos a resposta,ver [[1]] pela indicação das três fontes de que nosso sofrimento

provém: o poder superior da natureza, a fragilidade de nossos próprios corpos e a inadequação

das regras que procuram ajustar os relacionamentos mútuos dos seres humanos na família, no

Estado e na sociedade. Quanto às duas primeiras fontes, nosso julgamento não pode hesitar

muito. Ele nos força a reconhecer essas fontes de sofrimento e a nos submeter ao inevitável.

Nunca dominaremos completamente a natureza, e o nosso organismo corporal, ele mesmo parte

dessa natureza, permanecerá sempre como uma estrutura passageira, com limitada capacidade de

adaptação e realização. Esse reconhecimento não possui um efeito paralisador. Pelo contrário,

aponta a direção para a nossa atividade. Se não podemos afastar todo sofrimento, podemos

afastar um pouco dele e mitigar outro tanto: a experiência de muitos milhares de anos nos

convenceu disso. Quanto à terceira fonte, a fonte social de sofrimento, nossa atitude é diferente.

Não a admitimos de modo algum; não podemos perceber por que os regulamentos estabelecidos

por nós mesmos não representam, ao contrário, proteção e benefício para cada um de nós.

Contudo, quando consideramos o quanto fomos malsucedidos exatamente nesse campo de

prevenção do sofrimento, surge em nós a suspeita de que também aqui é possível jazer, por trás

desse fato, uma parcela de natureza inconquistável - dessa vez, uma parcela de nossa própria

constituição psíquica.

Quando começamos a considerar essa possibilidade, deparamo-nos com um argumento

tão espantoso, que temos de nos demorar nele. Esse argumento sustenta que o que chamamos de

nossa civilização é em grande parte responsável por nossa desgraça e que seríamos muito mais

felizes se a abandonássemos e retornássemos às condições primitivas. Chamo esse argumento de

espantoso porque, seja qual for a maneira por que possamos definir o conceito de civilização,

constitui fato incontroverso que todas as coisas que buscamos a fim de nos protegermos contra as

ameaças oriundas das fontes de sofrimento, fazem parte dessa mesma civilização.

Como foi que tantas pessoas vieram a assumir essa estranha atitude de hostilidade para

com a civilização? Acredito que seu fundamento consistiu numa longa e duradoura insatisfação

com o estado de civilização então existente e que, nessa base, se construiu uma condenação dela,

ocasionada por certos acontecimentos históricos específicos. Penso saber quais foram a última e a

penúltima dessas ocasiões. Não sou suficientemente erudito para fazer remontar a origem de sua

cadeia o mais distante possível na história da espécie humana, mas um fator desse tipo, hostil à

civilização, já devia estar em ação na vitória do cristianismo sobre as religiões pagãs, de uma vez

que se achava intimamente relacionado à baixa estima dada à vida terrena pela doutrina cristã. A

penúltima dessas ocasiões se instaurou quando o progresso das viagens de descobrimento

conduziu ao contacto com povos e raças primitivos. Em conseqüência de uma observação

insuficiente e de uma visão equivocada de seus hábitos e costumes, eles apareceram aos

europeus como se levassem uma vida simples e feliz, com poucas necessidades, um tipo de vida

inatingível por seus visitantes com sua civilização superior. A experiência posterior corrigiu alguns

desses julgamentos. Em muitos casos, os observadores haviam erroneamente atribuído à

ausência de exigências culturais complicadas o que de fato era devido à generosidade da natureza

e à facilidade com que as principais necessidades humanas eram satisfeitas. A última ocasião nos

é especialmente familiar. Surgiu quando as pessoas tomaram conhecimento do mecanismo das

neuroses, que ameaçam solapar a pequena parcela de felicidade desfrutada pelos homens

civilizados. Descobriu-se que uma pessoa se torna neurótica porque não pode tolerar a frustração

que a sociedade lhe impõe, a serviço de seus ideais culturais, inferindo-se disso que a abolição ou

redução dessas exigências resultaria num retorno a possibilidades de felicidade.

Existe ainda um fator adicional de desapontamento. Durante as últimas gerações, a

humanidade efetuou um progresso extraordinário nas ciências naturais e em sua aplicação técnica,

estabelecendo seu controle sobre a natureza de uma maneira jamais imaginada. As etapas

isoladas desse progresso são do conhecimento comum, sendo desnecessário enumerá-las. Os

homens se orgulham de suas realizações e têm todo direito de se orgulharem. Contudo, parecem

ter observado que o poder recentemente adquirido sobre o espaço e o tempo, a subjugação das

forças da natureza, consecução de um anseio que remonta a milhares de anos, não aumentou a

quantidade de satisfação prazerosa que poderiam esperar da vida e não os tornou mais felizes.

Reconhecendo esse fato, devemos contentar-nos em concluir que o poder sobre a natureza não

constitui a única precondição da felicidade humana, assim como não é o único objetivo do esforço

cultural. Disso não devemos inferir que o progresso técnico não tenha valor para a economia de

nossa felicidade. Gostaríamos de perguntar: não existe, então, nenhum ganho no prazer, nenhum

aumento inequívoco no meu sentimento de felicidade, se posso, tantas vezes quantas me agrade,

escutar a voz de um filho meu que está morando a milhares de quilômetros de distância, ou saber,

no tempo mais breve possível depois de um amigo ter atingido seu destino, que ele concluiu

incólume a longa e difícil viagem? Não significa nada que a medicina tenha conseguido não só

reduzir enormemente a mortalidade infantil e o perigo de infecção para as mulheres no parto, como

também, na verdade, prolongar consideravelmente a vida média do homem civilizado? Há uma

longa lista que poderia ser acrescentada a esse tipo de benefícios, que devemos à tão desprezada

era dos progressos científicos e técnicos. Aqui, porém, a voz da crítica pessimista se faz ouvir e

nos adverte que a maioria dessas satisfações segue o modelo do „prazer barato‟ louvado pela

anedota: o prazer obtido ao se colocar a perna nua para fora das roupas de cama numa fria noite

de inverno e recolhê-la novamente. Se não houvesse ferrovias para abolir as distâncias, meu filho

jamais teria deixado sua cidade natal e eu não precisaria de telefone para ouvir sua voz; se as

viagens marítimas transoceânicas não tivessem sido introduzidas, meu amigo não teria partido em

sua viagem por mar e eu não precisaria de um telegrama para aliviar minha ansiedade a seu

respeito. Em que consiste a vantagem de reduzir a mortalidade infantil, se é precisamente essa

redução que nos impõe a maior coerção na geração de filhos, de tal maneira que, considerando

tudo, não criamos mais crianças do que nos dias anteriores ao reino da higiene, ao passo que, ao

mesmo tempo, criamos condições difíceis para nossa vida sexual no casamento e provavelmente

trabalhamos contra os efeitos benéficos da seleção natural? Enfim, de que nos vale uma vida

longa se ela se revela difícil e estéril em alegrias, e tão cheia de desgraças que só a morte é por

nós recebida como uma libertação?

Parece certo que não nos sentimos confortáveis na civilização atual, mas é muito difícil

formar uma opinião sobre se, e em que grau, os homens de épocas anteriores se sentiram mais

felizes, e sobre o papel que suas condições culturais desempenharam nessa questão. Sempre

tendemos a considerar objetivamente a aflição das pessoas - isto é, nos colocarmos, com nossas

próprias necessidades e sensibilidades, nas condições delas, e então examinar quais as ocasiões

que nelas encontraríamos para experimentar felicidade ou infelicidade. Esse método de examinar

as coisas, que parece objetivo por ignorar as variações na sensibilidade subjetiva, é, naturalmente,

o mais subjetivo possível, de uma vez que coloca nossos próprios estados mentais no lugar de

quaisquer outros, por mais desconhecidos que estes possam ser. A felicidade, contudo, é algo

essencialmente subjetivo. Por mais que nos retraiamos com horror de certas situações - a de um

escravo de galé na Antiguidade, a de um camponês durante a Guerra dos Trinta Anos, a de uma

vítima da Inquisição, a de um judeu à espera de um pogrom - para nós, sem embargo, é impossível

nos colocarmos no lugar dessas pessoas - adivinhar as modificações que uma obtusidade original

da mente, um processo gradual de embrutecimento, a cessação das esperanças e métodos de

narcotização mais grosseiros ou mais refinados produziram sobre a receptividade delas às

sensações de prazer e desprazer. Além disso, no caso da possibilidade mais extrema de

sofrimento, dispositivos mentais protetores e especiais são postos em funcionamento. Parece-me

improdutivo levar adiante esse aspecto do problema.

Já é tempo de voltarmos nossa atenção para a natureza dessa civilização, sobre cujo valor

como veículo de felicidade foram lançadas dúvidas. Não procuraremos uma fórmula que exprima

essa natureza em poucas palavras, enquanto não tivermos aprendido alguma coisa através de seu

exame. Mais uma vez, portanto, nos contentaremos em dizer que a palavra „civilização‟ descreve

a soma integral das realizações e regulamentos que distinguem nossas vidas das de nossos

antepassados animais, e que servem a dois intuitos, a saber: o de proteger os homens contra a

natureza e o de ajustar os seus relacionamentos mútuos. A fim de aprendermos mais, reuniremos

os diversos aspectos singulares da civilização, tal como se apresentam nas comunidades

humanas. Agindo desse modo, não hesitaremos em nos deixar guiar pelos hábitos lingüísticos ou,

como são também chamados, sentimento lingüístico, na convicção de que assim estamos fazendo

justiça e discernimentos internos que ainda desafiam sua expressão em termos abstratos.

A primeira etapa é fácil. Reconhecemos como culturais todas as atividades e recursos

úteis aos homens, por lhes tornarem a terra proveitosa, por protegerem-nos contra a violência das

forças da natureza, e assim por diante. Em relação a esse aspecto de civilização, dificilmente pode

haver qualquer dúvida. Se remontarmos suficientemente às origens, descobriremos que os

primeiros atos de civilização foram a utilização de instrumentos, a obtenção do controle sobre o

fogo e a construção de habitações.Entre estes, o controle sobre o fogo sobressai como uma

realização extraordinária e sem precedentes, ao passo que os outros desbravaram caminhos que o

homem desde então passou a seguir, e cujo estímulo pode ser facilmente percebido. Através de

cada instrumento, o homem recria seus próprios órgãos, motores ou sensoriais, ou amplia os

limites de seu funcionamento. A potência motora coloca forças gigantescas à sua disposição, as

quais, como os seus músculos, ele pode empregar em qualquer direção; graças aos navios e aos

aviões, nem a água nem o ar podem impedir seus movimentos; por meio de óculos corrige os

defeitos das lentes de seus próprios olhos; através do telescópio, vê a longa distância; e por meio

do microscópio supera os limites de visibilidade estabelecidos pela estrutura de sua retina. Na

câmara fotográfica, criou um instrumento que retém as impressões visuais fugidias, assim como

um disco de gramofone retém as auditivas, igualmente fugidias; ambas são, no fundo,

materializações do poder que ele possui de rememoração, isto é, sua memória. Com o auxílio do

telefone, pode escutar a distâncias que seriam respeitadas como inatingíveis mesmo num conto de

fadas. A escrita foi, em sua origem, a voz de uma pessoa ausente, e a casa para moradia

constituiu um substituto do útero materno, o primeiro alojamento, pelo qual, com toda

probabilidade, o homem ainda anseia, e no qual se achava seguro e se sentia à vontade.

Essas coisas - que, através de sua ciência e tecnologia, o homem fez surgir na Terra,

sobre a qual, no princípio, ele apareceu como um débilorganismo animal e onde cada indivíduo de

sua espécie deve, mais uma vez, fazer sua entrada („oh inch of nature‟) como se fosse um

recém-nascido desamparado - essas coisas não apenas soam como um conto de fadas, mas

também constituem uma realização efetiva de todos - ou quase todos - os desejos de contos de

fadas. Todas essas vantagens ele as pode reivindicar como aquisição cultural sua. Há muito tempo

atrás, ele formou uma concepção ideal de onipotência e onisciência que corporificou em seus

deuses. A estes, atribuía tudo que parecia inatingível aos seus desejos ou lhe era proibido.

Pode-se dizer, portanto, que esses deuses constituíam ideais culturais. Hoje, ele se aproximou

bastante da consecução desse ideal, ele próprio quase se tornou um deus. É verdade que isso só

ocorreu segundo o modo como os ideais são geralmente atingidos, de acordo com o juízo geral da

humanidade. Não completamente; sob certos aspectos, de modo algum; sob outros, apenas pela

metade. O homem, por assim dizer, tornou-se uma espécie de “Deus de prótese”. Quando faz uso

de todos os seus órgãos auxiliares, ele é verdadeiramente magnífico; esses órgãos, porém, não

cresceram nele e, às vezes, ainda lhe causam muitas dificuldades. Não obstante, ele tem o direito

de se consolar pensando que esse desenvolvimento não chegará ao fim exatamente no ano de

1930 A.D. As épocas futuras trarão com elas novos e provavelmente inimagináveis grandes

avanços nesse campo da civilização e aumentarão ainda mais a semelhança do homem com

Deus. No interesse de nossa investigação, contudo, não esqueceremos que atualmente o homem

não se sente feliz em seu papel de semelhante a Deus.

Reconhecemos, então, que os países atingiram um alto nível de civilização quando

descobrimos que neles tudo o que pode ajudar na exploração da Terra pelo homem e na sua

proteção contra as forças da natureza tudo, emsuma, que é útil para ele - está disponível e é

passível de ser conseguido. Nesses países, os rios que ameaçam inundar as terras são regulados

em seu fluxo, e sua água é irrigada através de canais para lugares onde ela é escassa. O solo é

cuidadosamente cultivado e plantado com a vegetação apropriada, e a riqueza mineral subterrânea

é assiduamente trazida à superfície e modelada em implementos e utensílios indispensáveis. Os

meios de comunicação são amplos, rápidos e dignos de confiança. Os animais selvagens e

perigosos foram exterminados e a criação de animais domésticos floresce. Além dessas, porém,

exigimos outras coisas da civilização, sendo digno de nota o fato de esperarmos encontrá-las

realizadas nesses mesmos países. Como se estivéssemos procurando repudiar a primeira

exigência que fizemos, reconhecemos, igualmente, como um sinal de civilização, verificar que as

pessoas também orientam suas preocupações para aquilo que não possui qualquer valor prático,

para o que não é lucrativo: por exemplo, os espaços verdes necessários a uma cidade, como

playgrounds e reservatórios de ar fresco, são também ornados de jardins e as janelas das casas,

decoradas com vasos de flores. De imediato, constatamos que essa coisa não lucrativa que

esperamos que a civilização valorize, é a beleza. Exigimos que o homem civilizado reverencie a

beleza, sempre que a perceba na natureza ou sempre que a crie nos objetos de seu trabalho

manual, na medida em que é capaz disso. Mas isso está longe de exaurir nossas exigências

quanto à civilização. Esperamos, ademais, ver sinais de asseio e de ordem. Não concebemos uma

cidade do interior da Inglaterra, na época de Shakespeare, como possuidora de um alto nível

cultural, quando lemos que havia um grande monte de esterco em frente à casa de seu pai, em

Stratford; também ficamos indignados e chamamos de „bárbaro‟ (o oposto de civilizado), quando

nos deparamos com as veredas do Wiener Wald cobertas de papéis velhos. A sujeira de qualquer

espécie nos parece incompatível com a civilização. Da mesma forma, estendemos nossa exigência

de limpeza ao corpo humano. Ficamos estupefatos ao saber que o emanava um odor

insuportável, meneamos a cabeça quando, na Isola Bella nos é mostrada a minúscula bacia em

que Napoleão se lavava todas as manhãs. Na verdade, não nos surpreende a idéia de estabelecer

o emprego do sabão como um padrão real de civilização. Isso é igualmente verdadeiro quanto à

ordem. Assim como a limpeza, ela só se aplica às obrasdo homem. Contudo, ao passo que não se

espera encontrar asseio na natureza, a ordem, pelo contrário, foi imitada a partir dela. A

observação que o homem fez das grandes regularidades astronômicas não apenas o muniu de um

modelo para a introdução da ordem em sua vida, mas também lhe forneceu os primeiros pontos de

partida para proceder desse modo. A ordem é uma espécie de compulsão a ser repetida,

compulsão que, ao se estabelecer um regulamento de uma vez por todas, decide quando, onde e

como uma coisa será efetuada, e isso de tal maneira que, em todas as circunstâncias

semelhantes, a hesitação e a indecisão nos são poupadas. Os benefícios da ordem são

incontestáveis. Ela capacita os homens a utilizarem o espaço e o tempo para seu melhor proveito,

conservando ao mesmo tempo as forças psíquicas deles. Deveríamos ter o direito de esperar que

ela houvesse ocupado seu lugar nas atividades humanas desde o início e sem dificuldade, e

podemos ficar admirados de que isso não tenha acontecido, de que, pelo contrário, os seres

humanos revelem uma tendência inata para o descuido, a irregularidade e a irresponsabilidade em

seu trabalho, e de que seja necessário um laborioso treinamento para que aprendam a seguir o

exemplo de seus modelos celestes.

Evidentemente, a beleza, a limpeza e a ordem ocupam uma posição especial entre as

exigências da civilização. Ninguém sustentará que elas sejam tão importantes para a vida quanto o

controle sobre as forças da natureza ou quanto alguns outros fatores com que ainda nos

familiarizaremos. No entanto, ninguém procurará colocá-las em segundo plano, como se não

passassem de trivialidades. Que a civilização não se faz acompanhar apenas pelo que é útil, já

ficou demonstrado pelo exemplo da beleza, que não omitimos entre os interesses da civilização. A

utilidade da ordem é inteiramente evidente. Quando à limpeza, devemos ter em mente aquilo que

também a higiene exige de nós, e podemos supor que, mesmo anteriormente à profilaxia científica,

a conexão entre as duas não era de todo estranha ao homem. Contudo, a utilidade não explica

completamente esses esforços; deve existir algo mais que se encontre em ação.

Nenhum aspecto, porém, parece caracterizar melhor a civilização do que sua estima e seu

incentivo em relação às mais elevadas atividades mentais do homem - suas realizações

intelectuais, científicas e artísticas - e o papel fundamental que atribui às idéias na vida humana.

Entre essas idéias, em primeiro lugar se encontram os sistemas religiosos, cuja complicada

estrutura já me esforcei por esclarecer em outra oportunidade. A seguir, vêm as especulações da

filosofia e, finalmente, o que se poderia chamar de „ideais‟do homem - suas idéias a respeito de

uma possível perfeição dos indivíduos, dos povos, ou da humanidade como um todo, e as

exigências estabelecidas com fundamento nessas idéias. O fato de essas criações do homem não

serem mutuamente independentes, mas, pelo contrário, se acharem estreitamente entrelaçadas,

aumenta a dificuldade não apenas de descrevê-las, como também de traçar sua derivação

psicológica. Se, de modo bastante geral, supusermos que a força motivadora de todas as

atividades humanas é um esforço desenvolvido no sentido de duas metas confluentes, a de

utilidade e a de obtenção de prazer, teremos de supor que isso também é verdadeiro quanto às

manifestações da civilização que acabamos de examinar, embora só seja facilmente visível nas

atividades científicas e estéticas. Não se pode, porém, duvidar de que as outras atividades também

correspondem a fortes necessidades dos homens - talvez a necessidades que só se achem

desenvolvidas numa minoria. Tampouco devemos permitir sermos desorientados por juízos de

valor referentes a qualquer religião, qualquer sistema filosófico ou qualquer ideal. Quer pensemos

encontrar neles as mais altas realizações do espírito humano, quer os deploremos como

aberrações, não podemos deixar de reconhecer que onde eles se acham presentes, e, em

especial, onde eles são dominantes, está implícito um alto nível de civilização.

Resta avaliar o último, mas decerto não o menos importante, dos aspectos característicos

da civilização: a maneira pela qual os relacionamentos mútuos dos homens, seus relacionamentos

sociais, são regulados - relacionamentos estes que afetam uma pessoa como próximo, como fonte

de auxílio, como objeto sexual de outra pessoa, como membro de uma família e de um Estado.

Aqui, é particularmente difícil manter-se isento de exigências ideais específicas e perceber aquilo

que é civilizado em geral. Talvez possamos começar pela explicação de que o elemento de

civilização entra em cena com a primeira tentativa de regular esses relacionamentos sociais. Se

essa tentativa não fosse feita, os relacionamentos ficariam sujeitos à vontade arbitrária do

indivíduo, o que equivale a dizer que o homem fisicamente mais forte decidiria a respeito deles no

sentido de seus próprios interesses e impulsos instintivos. Nada se alteraria se, por sua vez, esse

homem forte encontrasse alguém mais forte do que ele. A vida humana em comum só se torna

possível quando se reúne uma maioria mais forte do que qualquer indivíduo isolado e que

perman