22 - Novas conferências introdutórias sobre psicanálise e outros trabalhos, Trabalhos de Psicologia
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Novas conferências introdutórias sobre psicanálise e outros trabalhos

VOLUME XXII

(1932-1936)

Dr. Sigmund Freud

NOVAS CONFERÊNCIAS INTRODUTÓRIAS SOBRE PSICANÁLISE (1933

[1932])

NOTA DO EDITOR INGLÊS

NEUE FOLGE DER VORLESUNGEN ZUR EINFÜHRUNG IN DIE PSYCHOANALYSE

(a) EDIÇÕES ALEMÃS:

1933 Viena: Internationaler Psychoanalytischer Verlag. 255 págs.

1934 G.S., 12, 149-345.

1940 G.W., 15, iv + 206 págs.

(b) TRADUÇÃO INGLESA:

New Introductory Lectures on Psycho-Analysis

1933 Londres: Hogarth Press e Institute of Psycho-Analysis.xi + 240 págs. (Tr.

de W. J. H. Sprott)

1933 Nova Iorque: Norton. xi + 257 págs. (Reimpressão da anterior.)

A presente tradução inglesa é uma nova tradução feita por James Strachey.

Partes das Conferências XXX e XXXI do texto original foram incluídas em Almanach 1933

(9-30 e 35-58); e parte da Conferência XXXIV, em Psychoanal. Bewegung, 4

(novembro-dezembro, 1932), 481-97. A Conferência XXX, na tradução inglesa de 1933, foi incluída

em Devereux, Psychoanalysis and the Occult (Nova Iorque, 1953), 91-109. Um resumo da parte

inicial da Conferência XXX, escrito pelo próprio Freud, apareceu numa tradução húngara na edição

de Magyar Hirlap, Budapeste, de 25 de dezembro de 1932 (Freud 1932d).

Sabemos, de Ernest Jones, (1957, 186-7), que, embora o volume levasse a data „1933‟ no

seu frontispício, ele foi realmente publicado em 6 de dezembro de 1932 - com isso repetindo a

história de A Interpretação de Sonhos (ver [1]).

No início de 1932, a situação financeira do quadro editorial psicanalítico (a„Verlag‟) estava

difícil, e Freud teve a idéia de vir em seu auxílio com uma nova série („Neue Folge’, no título em

alemão) de Conferências Introdutórias. A primeira e a última conferências estavam prontas no fim

de maio, e o livro todo estava completo em fins de agosto.

Estas conferências diferem da série original em diversos aspectos, e não apenas no fato

de que jamais se cogitou em pronunciá-las. Conforme assinala Freud, no prefácio que ele mesmo

escreveu, elas não possuem vida própria; são, na sua essência, suplementos. Aspecto

especialmente digno de nota nestas conferências, porém, é a forma pela qual diferem, nas suas

características, umas das outras. A primeira conferência, sobre sonhos, não é muito mais do que

um resumo da seção sobre sonhos da série anterior. Por sua vez a terceira, a quarta e a quinta

conferências (sobre a estrutura da mente, sobre a ansiedade e a teoria dos instintos, e sobre a

psicologia feminina) introduzem material e teorias inteiramente novos e, ao menos no que respeita

à terceira e à quarta conferências, aprofundam-se em discussões metapsicológicas e teóricas de

uma dificuldade que havia sido diligentemente evitada, quinze anos antes. As três conferências

restantes - a segunda e as duas últimas - abordam conjuntamente assuntos diversos, apenas

indiretamente relacionados à psicanálise; e os abordam, acima de tudo, segundo o que se poderia

quase descrever como uma forma popular. Isto não sugere que sejam destituídas de interesse -

longe disso -, mas exigem espécie e grau de atenção muito diferentes, por parte do leitor, em

comparação com as demais conferências. Se o leitor desejar ouvir o que Freud pensa sobre

telepatia, educação, religião e comunismo, ou se deseja conhecer os últimos pontos de vista de

Freud sobre o superego, sobre a ansiedade, sobre o instinto de morte e sobre a fase pré-edipiana

das meninas, certamente encontrará abundante material com que se ocupar nestas conferências.

PREFÁCIO

Minhas Conferências Introdutórias sobre Psicanálise foram proferidas durante os dois

períodos de inverno de 1915-16 e 1916-17, em uma sala de conferências da Clínica Psiquiátrica de

Viena, perante ouvintes provenientes de todas as faculdades da Universidade. As conferências da

primeira metade foram improvisadas, sendo providenciada a sua redação logo após; as das

segunda metade foram delineadas num esboço feito durante as férias do verão desse intervalo, em

Salzburg, e lidas palavra por palavra no inverno seguinte. Naquela época eu ainda tinha o dom de

uma memória fonográfica.

Estas novas conferências, diferentemente das anteriores, nunca foram proferidas. Minha

idade, nesse ínterim, havia-me liberado da obrigação de expressar minha condição de membro da

Universidade (que, de qualquer modo, era uma condição periférica) fazendo conferências; e uma

operação cirúrgica havia-me impossibilitado de falar em público. Se, portanto, mais uma vez tomo

o meu lugar na sala de conferências, durante os comentários que se seguem, é somente por um

artifício de imaginação; isto pode ajudar-me a não me esquecer de levar em conta o leitor, à

medida que me aprofundar mais em meu tema.

As novas conferências de modo algum pretendem ocupar o lugar das anteriores. Em

nenhum sentido elas formam uma entidade independente, com a expectativa de encontrar um

círculo de leitores apenas seus; são continuações e suplementos que, em relação à série anterior,

se dividem em três grupos. Um primeiro grupo contém novas abordagens de assuntos que já

haviam sido discutidos, há quinze anos, mas que, em conseqüência de um aprofundamento de

nosso conhecimento e de uma modificação em nossos pontos de vista, requerem atualmente uma

exposição diferente, ou seja, revisões críticas. Os dois outros grupos contêm o que na verdade são

ampliações, pois tratam de coisas que não existiam na psicanálise à época das primeiras

conferências, ou que estavam muito pouco em evidência para justificar que constituíssem título de

capítulo. É inevitável, mas não é de se lamentar, que algumas das novas conferências reúnam

características de mais de um desses grupos.

Também assinalei a dependência destas novas conferências em relação às Conferências

Introdutórias, dando-lhes uma numeração contínua com a destas últimas. A primeira conferência

deste volume, por conseguinte, tem o nº XXIX. Assim como as suas predecessoras, oferecem ao

analista profissional pouca coisa nova; são endereçadas à multidão de pessoas instruídas às quais

talvez possamos atribuir um interesse benévolo, ainda que cauteloso, pelas características e

descobertas da jovem ciência. Também desta vez, meu objetivo principal foi o de não fazer

concessões que visassem a dar uma aparência de que as coisas sejam simples, completas,

acabadas, procurei não camuflar problemas e não negar a existência de lacunas e de incertezas.

Em nenhum campo de trabalho científico seria necessário proclamar tais intenções modestas. São

universalmente consideradas evidentes por si mesmas; o público não espera nada diferente.

Nenhum leitor de um artigo sobre astronomia se sentirá desapontado e desdenhoso em relação à

ciência quando lhe são mostradas aquelas fronteiras em que nosso conhecimento do universo se

transforma em nebulosidade. Somente na psicologia isto é diferente. Nesta, a inabilidade

constitucional da humanidade para a investigação científica surge inteiramente à mostra. O que as

pessoas parecem exigir da psicologia não é o progresso no conhecimento, mas satisfações de

algum outro tipo; todo problema não resolvido, toda incerteza reconhecida é transformada em

vitupério contra ela.

Todo aquele que zela pela ciência da vida mental deve aceitar também essas injustiças

que a acompanham.

FREUD

VIENA, verão de 1932.

CONFERÊNCIA XXIX

REVISÃO DA TEORIA DOS SONHOS

SENHORAS E SENHORES:

Depois de um intervalo de mais de quinze anos, se eu os reuni novamente para discutir

com os senhores quais novidades, e quais melhoramentos, talvez, o tempo intercorrente possa ter

introduzido na psicanálise, é correto e adequado, sob mais de um ponto de vista, que devamos

voltar nossa atenção primeiramente para a posição que ocupa a teoria dos sonhos. Esta ocupa um

lugar especial na história da psicanálise e assinala um ponto decisivo; foi com ela que a

psicanálise progrediu de método psicoterapêutico para psicologia profunda. Também, desde aí, a

teoria dos sonhos permaneceu o que é mais característico e peculiar na jovem ciência, algo em

relação ao qual não há similar no restante de nosso conhecimento, uma área de território novo que

foi reavido das crenças populares e do misticismo. O caráter exótico das asserções que ela foi

obrigada a apresentar, fê-la desempenhar o papel de senha, cujo uso decidiu quem poderia

tornar-se seguidor da psicanálise e a quem ela permaneceria para sempre incompreensível. Eu

próprio considerei a teoria dos sonhos âncora de salvação durante aqueles tempos duros nos

quais os fatos não-reconhecidos das neuroses costumavam confundir meu julgamento

inexperiente. Sempre que eu começava a ter dúvidas com referência à correção de minhas

conclusões hesitantes, a transformação exitosa de um sonho absurdo e intrincado em processo

mental inteligível da pessoa que teve o sonho vinha renovar minha confiança de estar no caminho

certo.

Portanto, é de especial interesse para nós, no caso particular da teoria dos sonhos, por um

lado, seguir as vicissitudes por que passou a psicanálise durante este intervalo, e, por outro lado,

verificar que progressos fez para ser compreendida e valorizada pelo mundo contemporâneo.

Posso dizer-lhes desde logo que os senhores ficarão desapontados em ambos esses sentidos.

Examinemos os volumes da Internationale Zeitschrift für (ärztliche) Psychoanalyse [Revista

Internacional de Psicanálise (Médica)], na qual, desde 1933, os escritos de peso em nossa área de

trabalho têm sido reunidos. Nos volumes iniciais, os senhores encontrarão um título de seção que

se repete, „Sobre a Interpretação de Sonhos‟, contendo numerosas contribuições sobre diferentes

pontos da teoria dos sonhos. No entanto, quanto mais prosseguirem cronologicamente nesse

exame, mais raras se tornam essas contribuições e, por fim, o título de seção desaparece

completamente. Os analistas fazem como se não tivessem nada mais a dizer acerca de sonhos,

como se nada mais houvesse a ser acrescentado à teoria dos sonhos. Se os senhores, contudo,

perguntarem quanto da interpretação de sonhos foi aceito pelos intrusos - pelos muitos psiquiatras

e psicoterapeutas que aquecem sua panela de sopa em nosso fogo (aliás, sem serem muito

agradecidos à nossa hospitalidade), por aqueles que são catalogados como pessoas cultas, que

têm o hábito de assimilar os achados mais surpreendentes da ciência, pelos literatos e pelo público

em geral -, a resposta dá poucos motivos para se ficar satisfeito. Algumas fórmulas passaram a ser

do conhecimento geral, entre elas algumas que nós nunca apresentamos - tal como a tese de que

todos os sonhos são de natureza sexual -, mas coisas realmente importantes, como a fundamental

diferença entre o conteúdo manifesto dos sonhos e os pensamentos oníricos latentes, a percepção

de que a função de realização de desejos dos sonhos não é contradita pelos sonhos de ansiedade,

a impossibilidade de interpretar um sonho a menos que se tenha à disposição as respectivas

associações do sonhador, acima de tudo a descoberta de que o essencial nos sonhos é o

processo da elaboração onírica - tudo isso ainda parece quase tão alheio ao conhecimento da

maioria das pessoas, como o era há trinta anos. Estou em condições de dizer isto, pois, no

decorrer desse período, tenho recebido inumeráveis cartas cujos autores apresentam seus sonhos

para interpretação, ou pedem informações acerca da natureza dos sonhos, e declaram que leram o

meu trabalho A Interpretação de Sonhos, embora em cada frase revelem sua falta de

compreensão de nossa teoria dos sonhos. Tudo isso, porém, não nos dissuadirá de mais uma vez

dar uma descrição coerente daquilo que sabemos acerca dos sonhos. Os senhores haverão de

lembrar-se de que, da última vez, dedicamos uma série inteira de conferências a mostrar como

chegamos a compreender esse fenômeno mental até então inexplicado.

Suponhamos, pois, que alguém - um paciente em análise, por exemplo - nos conta um de

seus sonhos. Haveremos de supor que, dessa maneira, ele nos estará fazendo uma das

comunicações a que se obrigou pelo fato de haver iniciado um tratamento analítico. Por certo que

é uma comunicação feita por meios inadequados, pois os sonhos não são, em si mesmos, uma

forma de comunicação social, não são um meio de fornecer informação. Na verdade, nem nós

compreendemos o que o sonhador tenta dizer-nos, e ele próprio igualmente o ignora. E, então,

temos de tomar uma decisão rápida. Por um lado, o sonho pode ser, conforme no-lo asseguram os

médicos não-analistas, um sinal de que o sonhador dormiu mal, de que nem todas as partes do

seu cérebro repousaram por igual, de que algumas áreas do cérebro, sob a influência de estímulos

desconhecidos, esforçaram-se por continuar funcionando, mas só foram capazes de fazê-lo de um

modo muito incompleto. Se é este o caso, faremos bem em não mais nos interessar pelo produto

de uma perturbação noturna destituída de valor psíquico: pois o que poderíamos esperar obter, da

investigação dele, que fosse de utilidade para nossos propósitos? Ou, por outro lado - mas é claro

que, desde o princípio, decidimos de outro modo. Temos - bastante arbitrariamente, forçoso é

admiti-lo - feito a suposição, adotada como postulado, de que mesmo esse sonho ininteligível deve

ser um ato psíquico inteiramente válido, com sentido e valor, que podemos utilizar na análise como

qualquer outra comunicação. Somente o resultado de nosso experimento pode demonstrar se

estamos certos. Se formos capazes de transformar o sonho em uma comunicação de valor desse

tipo, evidentemente teremos a perspectiva de aprender algo novo e de receber comunicações de

uma espécie que de outro modo seria inacessível para nós.

Agora, no entanto, as dificuldades de nossa tarefa e os enigmas de nosso tema surgem

diante de nossos olhos. Como iremos propor a transformação do sonho em comunicação normal e

como iremos explicar o fato de que algumas das comunicações do paciente assumiram uma forma

que é ininteligível tanto para ele como para nós?

Como vêem senhoras e senhores, desta vez estou tomando o caminho não de uma

exposição genética, mas de uma exposição dogmática. Nosso primeiro passo consiste em

estabelecer nossa nova atitude para com o problema dos sonhos, introduzindo dois novos

conceitos e nomes. O que tem sido chamado de sonho descrevemos como texto do sonho, ou

sonho manifesto, e aquilo que estamos procurando, o que suspeitamos existir, por assim dizer,

situado por trás do sonho, descreveremos como pensamentos oníricos latentes. Havendo feito isto,

podemos expressar nossas duas tarefas conforme se segue. Temos de transformar o sonho

manifesto em sonho latente, e explicar como, na mente do sonhador, o sonho latente se tornou

sonho manifesto. A primeira parte é uma tarefa prática, pela qual é responsável a interpretação de

sonho; exige uma técnica. A segunda parte é uma tarefa teórica, cuja atribuição é explicar a

hipotética elaboração onírica; e só pode ser uma teoria. Ambas, a técnica de interpretação de

sonhos e a teoria da elaboração onírica, têm de ser recriadas.

Por qual delas, pois, haveremos de começar? Pela técnica da interpretação de sonhos,

penso eu; apresentará uma aparência mais concreta e causará uma impressão mais vívida nos

senhores.

Pois bem, então o paciente nos contou um sonho, que nos caberá interpretar. Ouvimos

passivamente, sem colocar em ação nossa capacidade de reflexão. Que fazemos, a seguir?

Decidimos preocupar-nos o menos possível com aquilo que ouvimos, o sonho manifesto.

Naturalmente, esse sonho manifesto mostra todos os tipos de características que não nos são

propriamente indiferentes. Pode ser coerente, harmoniosamente construído como uma composição

literária, ou pode apresentar-se confuso a ponto de ser ininteligível, quase como um delírio; pode

conter elementos absurdos, ou anedotas, e conclusões aparentemente espirituosas; ao sonhador

pode parecer claro e preciso, ou obscuro e nebuloso; suas imagens podem exibir uma intensidade

de percepções sensoriais plenas, ou pode estar cheio de sombras como nevoeiro indistinto; as

mais diversas características podem estar presentes no mesmo sonho, distribuídas por diferentes

partes dele; o sonho, enfim, pode mostrar um tom afetivo indiferente, ou estar acompanhado de

sentimentos da mais intensa alegria ou sofrimento. Os senhores não devem supor que não

pensamos nada acerca dessa interminável diversidade encontrada nos sonhos manifestos. A ela

retornaremos posteriormente, e nela encontraremos muita coisa de que podemos fazer uso em

nossas interpretações. Mas, por agora, despreza-la-emos e seguiremos o caminho principal que

leva à interpretação de sonhos. Ou seja, pedimos ao sonhador, também, para livrar-se da

impressão que lhe causou o sonho manifesto, desviar sua atenção do sonho como um todo para

as diferentes partes do seu conteúdo e nos referir sucessivamente tudo o que lhe ocorre à mente

com relação a cada uma dessas partes - quais associações se lhe apresentam, se ele as focaliza

uma por uma, separadamente.

É curiosa essa técnica, não? - não é a maneira habitual de lidar com uma comunicação ou

expressão. E sem dúvida os senhores adivinham que, por trás desse procedimento, há hipóteses

que ainda não foram explicitamente formuladas. Prossigamos, porém. Em que ordem havemos de

fazer com que o paciente conte as partes do seu sonho? Aqui, várias possibilidades se nos abrem.

Simplesmente podemos seguir a ordem cronológica na qual apareceram durante a narrativa do

sonho. Isto é o que se pode chamar de o método mais estrito, clássico. Ou podemos dirigir o

sonhador a fim de que inicie com a procura dos „resíduos diurnos‟ no sonho; pois a experiência nos

ensinou que quase todo sonho inclui remanescentes de uma recordação ou de uma alusão a

algum evento (ou, freqüentemente, a diversos eventos) do dia anterior ao sonho, e, se seguimos

essas conexões, muitas vezes, de modo imediato, chegamos à transição do mundo onírico,

aparentemente muito remoto, para a vida real do paciente. Ou ainda, podemos dizer-lhe que

comece por aqueles elementos do conteúdo do sonho que lhe chamaram a atenção por sua

especial clareza e intensidade sensorial; pois sabemos que o paciente achará especialmente fácil

produzir associações a eles. Não faz nenhuma diferença por qual desses métodos abordamos as

associações que andamos buscando.

E a seguir obtemos essas associações. O que elas nos trazem é das mais variadas

espécies: lembranças do dia anterior, o „dia do sonho‟, e de épocas há muito transcorridas,

reflexões, discussões, com argumentos pró e contra, confissões e indagações. Algumas dessas

associações, o paciente as despeja; quando chega a outras, detém-se, por um momento. A

maioria delas mostra nítida conexão com alguns elementos do sonho; não é para admirar, de vez

que esses elementos eram o seu ponto de partida. Mas também acontece, às vezes, o paciente

apresentá-las com estas palavras: „Isto me parece não ter absolutamente nenhuma relação com o

sonho, mas conto-lhe porque me ocorre à mente.‟

Se se ouvem essas abundantes associações, logo se observa que elas têm mais em

comum com o conteúdo do sonho, do que seus pontos de partida sozinhos. Elas lançam

surpreendente luz sobre todas as diferentes partes do sonho, preenchem lacunas entre as

mesmas, e tornam inteligíveis suas estranhas justaposições. No final, é-se levado a entender a

relação entre as associações e o conteúdo do sonho. Vê-se que o sonho é uma seleção resumida,

feita a partir das associações, uma seleção feita, é verdade, consoante regras que ainda não

temos compreendido: os elementos do sonho são como representantes escolhidos por eleição

dentre uma massa de pessoas. Não pode haver dúvida de que, por meio de nossa técnica,

apreendemos algo do qual o sonho é um substituto e no qual se situa o valor psíquico do sonho,

mas que não mostra mais suas enigmáticas peculiaridades, sua aparência estranha e sua

confusão.No entanto, não se façam confusões. As associações ao sonho ainda não são os

pensamentos oníricos latentes. Estes estão contidos nas associações, assim como um álcali no

líquido-mãe, mas ainda não muito inteiramente contidos nelas. Por um lado, as associações nos

dão muito mais do que nos é necessário para formular os pensamentos oníricos latentes - ou seja,

todas as explicações, transições e conexões que o intelecto do paciente há de produzir no decorrer

de sua aproximação aos pensamentos oníricos. Por outro lado, uma associação freqüentemente

sofre uma parada precisamente diante do pensamento onírico genuíno: ela somente chegou perto

deste e apenas teve contato com ele através de alusões. Nesse ponto, nós próprios intervimos;

completamos aquilo que são idéias vagas, tiramos conclusões inegáveis e damos expressão plena

àquilo que o paciente apenas mencionou com suas associações. Isto soa como se permitíssemos

ao nosso engenho e capricho brincarem com o material posto à nossa disposição pelo sonhador, e

como se dele nós fizéssemos mau uso a fim de interpretar em suas comunicações aquilo que não

pode ser interpretado a partir delas. E não é fácil mostrar a legitimidade de nosso procedimento

numa descrição do mesmo. Basta, porém, que os senhores efetuem uma análise por si mesmos ou

estudem um bom relato de uma análise em nossa bibliografia, e os senhores se certificarão da

maneira convincente como atua um trabalho interpretativo como este.

Se, de modo geral, basicamente, ao interpretar sonhos, dependemos das associações do

sonhador, já em relação a determinados elementos do conteúdo onírico adotamos uma atitude

bastante independente, principalmente porque assim temos de fazê-lo, porque, via de regra, as

associações deixam de se concretizar no caso desses mesmos elementos. Em um estágio inicial,

verificamos que isto acontece sempre em relação ao mesmos elementos; não são muito

numerosos, e a experiência repetida nos tem ensinado que eles devem ser considerados e

interpretados como símbolos de alguma outra coisa. Em contraste com os outros elementos

oníricos, pode ser-lhes atribuída uma significação fixa, a qual, no entanto, não precisa ser isenta de

ambigüidade e cujo alcance é determinado por meio de regras especiais, desconhecidas para nós.

De vez que nós sabemos como traduzir esses símbolos, e o sonhador não sabe, a despeito de se

haver utilizado deles, pode acontecer que o sentido de um sonho possa, de imediato, se nos tornar

claro tão logo tenhamos ouvido o texto do sonho, antes mesmo de havermos feito qualquer esforço

de interpretá-lo, ao passo que ele ainda permanece um enigma para o sonhador. Contudo,

falei-lhes tanto, em minhas conferências anteriores sobre simbolismo, sobre nossos conhecimentos

acerca do mesmo e sobre os problemas que ele nos propõe, que não necessito repeti-lo hoje.

Este, pois, é o nosso método de interpretar sonhos. Uma primeira questão justificável é a

seguinte: „Podemos interpretar todos os sonhos por meio desse método? E a resposta é: „Não,

absolutamente não; mas são tantos os que podemos interpretar, que nos sentimos confiantes na

utilidade e na correção do procedimento.‟ „Mas por que não todos?‟ A resposta a isto tem algo

importante a nos ensinar, que de imediato nos conduz aos fatores determinantes psíquicos da

formação dos sonhos: „Porque o trabalho de interpretar é efetuado contra uma resistência, que

varia desde dimensões banais até a inexpugnabilidade (pelo menos até onde alcança a eficiência

de nossos métodos atuais).‟ É impossível, durante o nosso trabalho, desprezar as manifestações

dessa resistência. Em determinados pontos, as associações são fornecidas sem hesitação e a

primeira ou a segunda idéia que ocorrem ao paciente proporcionam uma explicação. Em outros

pontos, há uma parada, o paciente hesita antes de nos fornecer uma associação e, com isso,

muitas vezes temos de ouvir uma longa cadeia de idéias antes de receber algo que nos ajude a

compreender o sonho. Certamente temos razão ao pensar que, quanto mais longa e cheia de

rodeios for a cadeia de associações, tanto maior a resistência. Podemos detectar a mesma

influência em ação no esquecimento de sonhos. Muito freqüentemente acontece que um paciente,

apesar de todos os esforços, não consegue lembrar-se de um dos seus sonhos. Contudo, depois

de termos sido capazes de, no decurso de uma certa quantidade de trabalho analítico, eliminar

uma dificuldade que tinha estado perturbando sua relação com a análise, o sonho esquecido

subitamente reemerge. Cabem aqui, também, duas outras observações. Freqüentemente sucede

que, no início, uma parte do sonho é omitida, e, depois, acrescentada como adendo. Isto deve ser

considerado como uma tentativa de esquecer essa parte. A experiência mostra que é essa

determinada parte a mais importante: supomos ter havido uma resistência maior no caminho da

comunicação desta, do que na das demais porções do sonho. Ademais, amiúde verificamos que

uma pessoa que teve um sonho se esforça por evitar esquecer-se de seus sonhos, pondo-os por

escrito imediatamente após acordar. Podemos dizer-lhe que isto não tem utilidade. Pois a

resistência, contra a qual garantiu a preservação do texto do sonho, se deslocará, então, para as

associações respectivas e tornará o sonho manifesto inacessível à interpretação. Tendo em vista

esses fatos, não temos por que nos surpreender se um aumento adicional na resistência suprime

as associações completamente e, por conseguinte, não leva a nada a interpretação do sonho.

De tudo isso concluímos que a resistência que encontramos no trabalho de interpretar os

sonhos deve também ter compartilhado da origem destes. Realmente, podemos fazer uma

distinção entre sonhos que surgiram sob leve e sob elevada pressão da resistência. Essa pressão,

contudo, varia também de lugar para lugar, dentro de um mesmo sonho; é responsável pelas

lacunas, obscuridades e confusões que podem interromper a continuidade até dos sonhos mais

nítidos.

Mas, que coisa cria a resistência, e contra o que ela se dirige? Bem, a resistência é, para

nós, o sinal mais seguro de um conflito. Deve haver aqui uma força que procura expressar algo e

outra força que se esforça por evitar sua expressão. O que então resulta, em conseqüência, como

sonho manifesto, pode combinar todas as decisões em que se condensou essa luta entre duas

tendências. Num ponto, uma dessas forças pode ter conseguido efetuar o que quis dizer, ao passo

que, em outro ponto, é a instância contrária que fez a comunicação pretendida eclipsar-se

completamente, ou ser substituída por algo que não revela qualquer traço seu. Os casos mais

comuns e mais característicos de construção onírica são aqueles nos quais o conflito terminou em

uma conciliação, de forma tal que a instância com voz ativa certamente foi capaz de dizer o que

quis, mas não da forma como quis - apenas numa forma acentuada, distorcida, irreconhecível.

Assim, se os sonhos não fornecem um quadro fiel dos pensamentos oníricos, e se o trabalho de

interpretação se faz necessário a fim de transpor o hiato entre estes, isto é resultado da instância

oponente, inibidora e limitadora, que inferimos de nossa percepção da resistência enquanto

estamos interpretando sonhos. Enquanto estudávamos os sonhos como fenômenos isolados,

independentes das estruturas psíquicas que lhes são afins, denominávamos essa instância de o

censordos sonhos.Há muito os senhores estão cientes de que essa censura não é uma instituição

exclusiva da vida onírica. Sabem que o conflito entre as duas instâncias psíquicas, que nós -

impropriamente - descrevemos como o „reprimido inconsciente‟ e o „consciente‟, domina toda a

nossa vida mental e que a resistência contra a interpretação dos sonhos, sinal de uma censura

onírica, nada mais é que a resistência devida à repressão, pela qual as duas instâncias estão

separadas. Os senhores também sabem que o conflito entre essas duas instâncias pode, sob

determinadas condições, produzir outras estruturas psíquicas que, assim como os sonhos, são o

resultado de conciliações; e os senhores não haverão de esperar que eu lhes repita aqui tudo o

que estava contido em minha introdução à teoria das neuroses, a fim de lhes demonstrar o que

sabemos acerca dos fatores determinantes da formação de tais conciliações. Os senhores

perceberam que o sonho é um produto patológico, o primeiro membro da classe que inclui os

sintomas histéricos, as obsessões e os delírios, sendo, contudo, diferenciado dos outros por sua

transitoriedade e por sua ocorrência sob condições que fazem parte da vida normal. Pois levemos

na devida conta que, conforme já foi assinalado por Aristóteles, a vida onírica é a forma como

funciona nossa mente durante o estado de sono. O estado de sono implica um afastamento do

mundo externo real, e aí temos a condição necessária para o desenvolvimento de uma psicose. O

mais cuidadoso estudo das psicoses graves não nos revelará um único aspecto que seja mais

característico desses estados patológicos. Nas psicoses, porém, o apartar-se da realidade é

levado a cabo por duas espécies de vias: ou porque o reprimido inconsciente se tornou

excessivamente forte, de modo a dominar o consciente, que se liga à realidade; ou porque a

realidade se tornou tão intoleravelmente angustiante, que o ego ameaçado se lança nos braços

das forças instintuais inconscientes, em uma revolta desesperada. A inofensiva psicose onírica é o

resultado de uma retirada em relação ao mundo externo, retirada conscientemente desejada e

apenas temporária, e desaparece quando são reassumidas as relações com o mundo externo.

Durante o isolamento da pessoa em estado de sono, também se efetua uma modificação na

distribuição de sua energia psíquica; uma parte do dispêndio em repressão, que normalmente é

exigido a fim de submeter o inconsciente, pode sereconomizada, pois se o inconsciente faz uso de

sua relativa liberação para propósitos ativos, encontra fechada a via que conduz à motilidade, e o

único caminho aberto é um caminho inofensivo que leva à satisfação alucinatória. Agora, portanto,

um sonho pode ser formado; mas o fato da censura mostra que, mesmo durante o sono,

mantém-se muito da resistência devida à repressão.

Aqui se nos apresenta um meio de responder à pergunta que pretende saber se os sonhos

também possuem uma função, se eles estão incumbidos de alguma realização útil. A condição de

repouso livre de estímulo, que o estado de sono deseja estabelecer, é ameaçada desde três

direções diferentes: de modo relativamente casual, por estímulos externos, durante o sono, e por

interesses do dia anterior, que não podem ser interrompidos, e, de uma forma inevitável, pelos

impulsos instintuais reprimidos insatisfeitos que estão à espera de uma oportunidade de se

expressarem. Em conseqüência da diminuição das repressões, no sono, haveria o risco de que o

repouso proporcionado pelo sono fosse interrompido sempre que uma estimulação de fora ou de

dentro conseguisse vincular-se com uma fonte instintual inconsciente. O processo de sonhar

permite ao produto de elementos confluentes desse tipo encontrar uma saída através de uma

experiência alucinatória inofensiva, e desse modo assegura a continuação do sono. O fato de um

sonho ocasionalmente acordar a pessoa que dorme, quando se desenvolve ansiedade, não

contradiz essa função, mas antes, talvez, assinala que o guardião considera a situação por demais

perigosa e não se sente mais em condições de controlá-la. E então, muito freqüentemente,

enquanto ainda dormimos, ocorre-nos um consolo que busca impedir-nos o despertar: „Mas, afinal,

é apenas um sonho!‟

Isto era o que eu queria dizer-lhes, senhoras e senhores, acerca da interpretação de

sonhos, cuja tarefa é abrir caminho do sonho manifesto para os pensamentos oníricos latentes.

Quando isto foi conseguido, o interesse por um sonho, na medida em que diz respeito à análise

prática, na sua maior parte chega ao fim. A comunicação que recebemos na forma de sonho, nós a

acrescentamos ao restante das comunicações do paciente e prosseguimos com a análise.

Entretanto, temos interesse em nos demorar um pouco mais no sonho. Somos tentados a estudar

o processo pelo qual os pensamentos oníricos latentes são transformados em sonho manifesto. A

isto denominamos „elaboração onírica‟. Conforme os senhores se recordam, descrevi esse

processo de modo tão detalhado em minhas conferências anteriores, que posso limitar minha atual

revisão ao resumo mais conciso.O processo da elaboração onírica, portanto, é algo inteiramente

novo e diferente, não se assemelhando a nada conhecido anteriormente. Ele nos deu a

oportunidade de entrevermos, pela primeira vez, os processos que se realizam no sistema

inconsciente, mostrando-nos que são bastante diferentes daquilo que conhecemos acerca de

nosso pensar consciente, e a este forçosamente hão de parecer absurdos e incorretos. A

importância dessa constatação foi ainda acrescida da descoberta de que, na construção dos

sintomas neuróticos, estão em atividade os mesmos mecanismos (não nos aventuramos a dizer

„processos de pensamento‟) que aqueles que transformaram os pensamentos oníricos latentes em

sonho manifesto.

Nisto que segue, não poderei evitar um método esquemático de exposição. Suponhamos

que, num determinado caso, temos diante de nós todos os pensamentos latentes, carregados de

uma quantidade maior ou menor de afeto, pelos quais o sonho manifesto foi substituído após sua

interpretação ter sido completada. Então nos causará espécie uma diferença entre esses

pensamentos latentes, e essa diferença nos assinala um ponto importante. Quase todos esses

pensamentos oníricos são reconhecidos ou identificados pelo sonhador; ele admite haver pensado

isto, agora ou em alguma outra época, ou admite que pudesse haver pensado. Há somente um

único pensamento que recusa aceitar; é-lhe estranho ou até mesmo repulsivo; talvez possa

rejeitá-lo com sentimentos veementes. Torna-se agora evidente para nós que os outros

pensamentos são partes de uma cadeia de pensamentos conscientes ou, mais precisamente,

pré-conscientes. Podem ter sido pensados na vida desperta, também, e, na verdade, foram

formados provavelmente durante o dia precedente. Esse único pensamento, o pensamento

repudiado, porém, ou, para dizer melhor, esse único impulso é filho da noite; pertence ao

inconsciente do sonhador, e por esse motivo é repudiado e rejeitado por ele. Teve de esperar pelo

relaxamento noturno da repressão, a fim de chegar a alguma forma de expressão. Ainda assim, é

uma expressão acentuada, deformada e disfarçada; sem nosso trabalho de interpretação de

sonhos não o teríamos encontrado. Esse impulso inconsciente tem de agradecer à sua vinculação

com os demais pensamentos oníricos, os não-censuráveis, pela oportunidade de transpor

furtivamente a barreira da censura em um disfarce não evidente. Por outro lado, os pensamentos

oníricos pré-conscientes têm de agradecer a essa mesma vinculação pela possibilidade de ocupar

a vida mental também durante o sono. Pois não há dúvida quanto a isto: esse impulso inconsciente

é o verdadeiro criador do sonho; é o que produz a energia psíquica para a construção do sonho.

Assim como qualquer outro impulso instintual, não pode tender a nenhuma outra coisa se não à

sua própria satisfação; e nossaexperiência em interpretar sonhos nos mostra também que este é o

sentido de todo o sonhar. Em todo sonho existe um impulso instintual que é apresentado como

estando já satisfeito. Pelo fato de que, durante o sono, a vida mental está cerrada à realidade e se

produz uma regressão a mecanismos primitivos, isto possibilita que a almejada satisfação seja

experimentada numa forma alucinatória, como estando a ocorrer no presente. Em conseqüência

dessa regressão que existe, no sonho, as idéias são transformadas em imagens visuais, ou seja,

os pensamentos oníricos latentes são dramatizados e ilustrados.

Esse elemento da elaboração onírica dá-nos informações acerca de alguns dos mais

surpreendentes e peculiares aspectos dos sonhos. Repetirá o curso dos eventos da formação

onírica. Para começar: o desejo de dormir é o afastamento intencional do mundo externo. E

depois, duas conseqüências disto para o aparelho mental: a primeira, a possibilidade de nele

emergirem métodos de funcionamento mais antigos e mais primitivos - a regressão; a segunda, a

diminuição da resistência devida à repressão que pesa sobre o inconsciente. Como resultado

desse último fator, surge a possibilidade para a formação de um sonho, e disto tiram vantagem as

causas precipitantes, os estímulos internos e externos que se tornaram ativos. O sonho que se

origina dessa maneira já é uma estrutura fundada em conciliação. Tem uma dupla função: por um

lado, é egossintônico, pois, eliminando os estímulos que estão interferindo com o sono, serve ao

desejo de dormir; por outro lado, permite que um impulso instintual reprimido obtenha a satisfação

que nessas circunstâncias é possível na forma da realização alucinada de um desejo. Todo o

processo de formar um sonho, que é permitido pelo ego em estado de sono, é, entretanto, sujeito à

condição da censura, exercida pelo resto de repressão ainda operante. Não posso apresentar de

modo mais simples esse processo: ele não é mais simples. Posso, contudo, prosseguir, agora,

com minha descrição da elaboração onírica.

Retornemos, uma vez mais, aos pensamentos oníricos latentes. Seu elemento mais

poderoso é o impulso instintual reprimido, que neles criou uma expressão para si mesmo, com

base na presença de estímulos casuais e pela transferência para os resíduos diurnos - embora

uma expressão atenuada e disfarçada. Como todo impulso instintual, também ele pressiona no

sentido da satisfação pela ação; mas o seu caminho à motilidade está bloqueado pelas regulações

fisiológicas que o estado de sono implica; é compelido a tomar o caminho de retorno em direção à

percepção e acontentar-se com uma satisfação alucinada. Os pensamentos oníricos latentes se

transformam, pois, em um agrupamento de imagens sensoriais e de cenas visuais. O que nos

parece tão novo e tão estranho é o modo como lhes ocorre fazer esse percurso. Todos os

instrumentos lingüísticos pelos quais expressamos as relações mais sutis dos pensamentos - as

conjunções e as preposições, as alterações devidas à declinação e à conjugação - são eliminados,

porque não há meio de representá-los; assim como uma linguagem primitiva, sem nenhuma

gramática, expressa-se apenas a matéria-prima do pensamento, e os termos abstratos são

substituídos pelos termos concretos que estão na sua base. Depois disso, o que resta certamente

pode parecer desconexo. O abundante emprego de símbolos, que se tornaram estranhos ao

pensar consciente, para representar determinados objetos e processos, está em harmonia

semelhante com a regressão arcaica do aparelho mental e com as exigências da censura.

Outras modificações feitas nos elementos dos pensamentos oníricos, contudo, vão muito

além disto. Aqueles elementos que podem permitir que qualquer ponto de contato seja detectado

entre eles, são condensados em novas unidades. No processo de transformar os pensamentos em

imagens, dá-se inequívoca preferência àqueles que permitem esse agrupamento, essa

condensação; é como se atuasse uma força que sujeitasse o material à compressão e

concentração. Em conseqüência da condensação, um elemento do sonho manifesto pode

corresponder a numerosos elementos dos pensamentos oníricos latentes; mas, também,

inversamente, um elemento dos pensamentos oníricos pode estar representado por diversas

imagens no sonho.

Ainda mais notável é o outro processo - deslocamento ou mudança do acento - que, no

pensar consciente, encontramos somente como raciocínio falho ou como meio de construir uma

anedota. As diversas idéias contidas nos pensamentos oníricos, na realidade, não possuem todas

valor igual; são caracterizadas com quotas de afeto de magnitude variável e, por conseguinte,

julgadas importantes e merecedoras de interesse em maior ou menor grau. Na elaboração onírica,

essas idéias estão separadas dos afetos a elas vinculados. Os afetos são tratados

independentemente; podem ser deslocados para alguma coisa diversa, podem ser mantidos,

podem sofrer modificações, ou podem absolutamente não aparecer no sonho. A importância das

idéias que foram despojadas de seu afeto retorna, no sonho, como intensidade sensorial das

imagens oníricas; mas observamos que esse acento passou de elementos importantes para

elementos indiferentes. Assim, algo que desempenhou apenas um papel secundário nos

pensamentos oníricos, parece ter sidoempurrado para o primeiro plano, no sonho, como sendo a

coisa principal; ao passo que, pelo contrário, o que era a essência dos pensamentos oníricos só

encontra passagem e representação indistinta no sonho. Nenhuma outra parte da elaboração

onírica é tão responsável por tornar o sonho estranho e incompreensível para o sonhador. O

deslocamento é o meio principal usado na distorção onírica, à qual os pensamentos oníricos

devem submeter-se sob a influência da censura.

Após haverem essas influências sido aplicadas sobre os pensamentos oníricos, o sonho

está quase completo. Um fator adicional, um tanto variável, também entra em jogo - o fator

conhecido como „elaboração secundária‟ - depois de o sonho ter sido apresentado perante a

consciência como objeto da percepção. Neste ponto, tratamo-lo como em geral estamos

acostumados a tratar os conteúdos de nossa percepção: preenchemos as lacunas e introduzimos

conexões, e, ao fazê-lo, freqüentemente somos culpados de grandes equívocos. Essa atividade,

que poderia ser descrita como uma atividade racionalizadora e que, pelo menos, provê o sonho de

uma aparência externa homogênea que não pode corresponder ao seu conteúdo verdadeiro,

também pode, contudo, estar omitida ou apenas estar expressa em grau muito modesto - caso em

que o sonho exibirá ostensivamente todas as suas fendas e rachaduras. Também não se deve

esquecer, por outro lado, que a elaboração onírica nem sempre opera com igual energia; muitas

vezes limita-se apenas a determinadas partes dos pensamentos oníricos, e a outras permite que

apareçam inalteradas no sonho. Em tais casos, tem-se a impressão de o sonho ter efetuado as

mais delicadas e complexas operações intelectuais, de haver meditado, feito chistes, chegado a

decisões e resolvido problemas, enquanto tudo isso é produto de nossa atividade mental normal,

pode ter sido executado igualmente durante o dia anterior ao sonho, assim como durante a noite,

não tem nenhuma relação com a elaboração onírica e não esclarece nada de característico dos

sonhos. E não é demais insistir, mais uma vez, no contraste existente, dentro dos próprios

pensamentos oníricos, entre o impulso instintual inconsciente e os resíduos diurnos. Enquanto

estes mostram toda a multiplicidade de nossos atos mentais, aquele, que se torna propriamente a

força motriz da formação do sonho, encontra sua saída invariavelmente na realização de um

desejo.

Eu poderia ter-lhes dito todas essas coisas há quinze anos atrás; e, na verdade, creio ter

dito, de fato, naquela época. Agora, permitam-me reunir essas mudanças e descobertas novas tal

como podem ter sido feitas durante o intervalo. Já expressei meu temor de que os senhores achem

que istorepresenta muito pouco e deixem de compreender por que eu os obriguei a ouvir a mesma

coisa duas vezes. No entanto, nesse período se passaram quinze anos, e espero ser este o meu

mais fácil meio de restabelecer contato com os senhores. Ademais, estas são coisas tão

fundamentais, de tão decisiva importância para compreender a psicanálise, que se pode sentir-se

satisfeito ao ouvi-las uma segunda vez; e vale a pena saber que permaneceram exatamente as

mesmas por quinze anos.

Na bibliografia desse período, os senhores, naturalmente, encontrarão uma grande

quantidade de material que confirma os dados anteriores e que aduz novos detalhes, e disto

pretendo dar-lhes algumas amostras. Aliás, também poderei dizer-lhes algumas coisas que, de

fato, já eram conhecidas anteriormente. O que está em questão é principalmente o simbolismo nos

sonhos e os outros métodos de representação dos mesmos. Agora ouçam isto. Faz só bem pouco

tempo, a faculdade de medicina de uma universidade americana recusou-se a permitir à

psicanálise o status de ciência, com base no fato de que ela não comporta nenhuma prova

experimental. Poderiam ter levantado a mesma objeção com relação à astronomia; na realidade, a

experimentação com corpos celestes é particularmente difícil. Aí, tem-se de buscar apoio na

observação. Não obstante, alguns investigadores vienenses efetivamente deram um passo inicial

com a confirmação experimental de nosso simbolismo onírico. Já em 1912, um certo Dr. Schrötter

verificou que, se forem dadas instruções para sonhar sobre temas sexuais a pessoas

profundamente hipnotizadas, então, no sonho que assim é provocado, o material sexual emerge,

sendo o seu lugar ocupado por símbolos que nos são familiares. Por exemplo, foi dito a uma

mulher que sonhasse com relação sexual com uma amiga. Em seu sonho, aparecia com um saco

de viagem no qual estava colado o letreiro: „Só para Senhoras‟. Experimentos ainda mais

impressionantes foram efetuados por Betlheim e Hartmann, em 1924. Eles trabalharam com

pacientes que sofriam daquilo que se conhece como psicose confusional de Korsakoff. A esses

pacientes contaram histórias do tipo evidentemente sexual e observaram as distorções que

apareciam quando os pacientes eram instruídos a reproduzir o que lhes havia sido contado.

Também aí surgiram os símbolos de órgãos sexual e de relação sexual que conhecemos - entre

eles, o símbolo da escada, o qual, conforme acertadamente observam os escritores, jamais

poderia ter sido alcançado por um desejo consciente de deformar.Em uma série de experimentos

muito interessante, Herbert Silberer [1909 e 1912] mostrou que se pode, por assim dizer, pegar em

flagrante a elaboração onírica no ato de transformar pensamentos abstratos em imagens visuais.

Se ele tentava forçar a si mesmo a executar trabalho intelectual enquanto estava em estado de

fadiga e sonolência, o pensamento muitas vezes desaparecia e era substituído por uma visão, que

obviamente era um substituto do pensamento.

Aqui está um exemplo simples. „Eu pensei‟, diz Silberer, „em ter que revisar uma passagem

imperfeita em um ensaio.‟ A visão: „Vi-me aplainando um pedaço de madeira.‟ Durante essas

experiências, muitas vezes sucedeu que o conteúdo da visão não era o pensamento de que então

se tratava, mas o próprio estado subjetivo do experimentador, enquanto este fazia o esforço - o

estado em lugar do objeto. Isto é descrito por Silberer como um „fenômeno funcional‟. Um exemplo

mostrar-lhes-á prontamente o que se quer dizer com isso. O autor estava esforçando-se por

comparar as opiniões de dois filósofos acerca de determinada questão. Em sua condição

sonolenta, porém, uma dessas opiniões passou a escapar dele e, finalmente, ele teve uma visão

de que estava pedindo informações a uma secretária descortês que estava inclinada sobre sua

escrivaninha e que começou a não lhe dar atenção, e então ela lançou-lhe um olhar desagradável

e inamistoso. As condições sob as quais os experimentos foram feitos provavelmente explicam por

si mesmas por que a visão, que foi induzida, representava com tanta freqüência um evento de

auto-observação.

Ainda não terminamos esse assunto dos símbolos. Existem alguns que acreditamos ter

identificado, os quais, não obstante, nos preocuparam porque não pudemos explicar como esse

determinado símbolo veio a ter essa determinada significação. Em tais casos, confirmações de

outras fontes - da filologia, do folclore, da mitologia ou do ritual - tinham de ser especialmente

bem-vindas. Um exemplo desse tipo é o símbolo de um sobretudo ou capote [em alemão „Mantel„].

Temos afirmado que, num sonho de uma mulher, isto significa um homem. Suponho que os

senhores ficarão impressionados ao ouvir que Theodor Reik (1920) nos dá esta informação:

„Duranteas extremamente antigas cerimônias nupciais dos beduínos, o noivo cobre a noiva com

um capote especial conhecido como “Aba” e diz as seguintes palavras rituais: “De hoje em diante,

ninguém te cobrirá, exceto eu!”‟ (Citado de Robert Eisler [1910, 2, 599 e seg.]). Também

encontramos diversos símbolos novos; a respeito de pelo menos dois deles eu lhes falarei.

Segundo Abraham (1922), uma aranha, em sonhos, é um símbolo da mãe, mas da mãe fálica, a

qual tememos; assim, o medo de aranhas expressa temor do incesto materno e horror aos genitais

femininos. Os senhores sabem, talvez, que a criação mitológica, a cabeça da Medusa, pode ser

atribuída ao mesmo motif do medo de castração. O outro símbolo, sobre o qual quero falar-lhes, é

o da ponte, que foi explicado por Ferenczi (1921 e 1922). Primeiro, ela significa o órgão masculino,

que une os pais no coito; mas depois desenvolve outras significações que derivam desta primeira.

Na medida em que é absolutamente graças a esse órgão que somos capazes de vir ao mundo,

para fora do líquido amniótico, uma ponte se torna a travessia desde o outro mundo (o estado de

não-nascido, o útero) até este mundo (a vida); e, como os homens também descrevem a morte

como um retorno ao útero (a água), uma ponte também adquire o significado de algo que leva à

morte, e finalmente, em mais uma mudança de seu sentido original, significa transições ou

modificações de condição, genericamente. Está de acordo com isto o fato de que uma mulher, que

ainda não sobrepujou seu desejo de ser homem, tenha freqüentes sonhos com pontes que são

muito curtas para alcançar a outra margem.

No conteúdo manifesto dos sonhos, com muita freqüência encontramos quadros e

situações que lembram temas familiares em contos de fadas, lendas e mitos. A interpretação de

tais temas, portanto, elucida os interesses originais que criaram esses temas, embora, ao mesmo

tempo, não devamos esquecer, naturalmente, a alteração de significado pela qual esse material foi

atingido no decorrer do tempo. Nosso trabalho de interpretação traz à luz, por assim dizer, a

matéria-prima, que deve, no mais das vezes, ser descrita como sexual no mais amplo sentido, mas

que encontrou as mais variadas aplicações em adaptações posteriores. Derivações desse tipo são

capazes de fazer despenhar sobre nós a fúria de todos os eruditos investigadores não-analíticos,

como se nós estivéssemos procurando negar ou menosprezar tudo o que foi posteriormente

erigido em sua base original. Não obstante, tais descobertas são instrutivas e interessantes. O

mesmo fato procede, quando se situa a origem de determinados temas nas artes plásticas, como,

por exemplo, quando M. J. Eisler (1919), seguindo indicações de sonhos de seus pacientes, deu

umainterpretação analítica do jovem brincando com um menininho, representado no Hermes de

Praxíteles. E, por fim, não posso resistir à vontade de assinalar quão freqüentemente a

interpretação dos sonhos elucida, de modo especial, temas mitológicos. Assim por exemplo, a

lenda do Labirinto pode ser reconhecida como uma representação do nascimento anal: as vias

sinuosas são os intestinos e o fio de Ariadne é o cordão umbilical.

Os métodos de representação empregados pela elaboração onírica - material fascinante,

dificilmente capaz de ser exaurido - têm-se tornado, através de estudo mais atento, cada vez mais

familiares para nós. Dar-lhes-ei alguns exemplos deles. Assim, por exemplo, os sonhos

representam uma relação de freqüência por meio da multiplicação de coisas semelhantes. Eis aqui

um notável sonho de uma jovem. Sonhou que chegava a um grande saguão e encontrava nele

alguém sentado numa cadeira; isto se repetia seis ou oito vezes, ou mais; porém, em cada uma

das vezes, era seu pai. Compreende-se isto facilmente quando descobrimos, partindo de detalhes

acessórios da interpretação, que tal sala significava o útero. O sonho então se torna equivalente à

fantasia, habitualmente encontrada em meninas, de se haverem encontrado com o pai já durante

sua vida intra-uterina, quando ele visitava o útero enquanto sua mãe estava grávida. Os senhores

não devem confundir-se pelo fato de algo estar invertido no sonho - que o „entrar‟ de seu pai é

deslocado para ela; aliás, isto também tem um significado especial todo próprio. A multiplicação da

figura do pai só pode expressar o fato de que o evento em questão ocorria repetidas vezes. Afinal,

deve-se admitir que o sonho não se está excedendo muito ao expressar a freqüência através da

multiplicidade. Foi necessário apenas remontar à significação original da primeira palavra; hoje ela

significa para nós uma repetição no tempo, contudo deriva de uma acumulação no espaço. De

modo geral, com efeito, onde é possível, a elaboração onírica muda as relações temporais em

espaciais, e assim as representa. Em um sonho, por exemplo, pode-se ver uma cena entre duas

pessoas que parecem muito pequenas e à grande distância, como se estivessem sendo olhadas

pelo lado errado de um binóculo de ópera. Aqui, tanto a pequenez como o distanciamento no

espaço têm o mesmo significado: o que significa é o distanciamento no tempo e devemos entender

que a cena é de um passado remoto.

E, também, os senhores podem recordar que, em minhas conferências anteriores, já lhes

disse (e ilustrei o fato com exemplos) que aprendemos afazer uso, em nossas interpretações, até

mesmo dos aspectos puramente formais do sonho manifesto - isto é, transformá-los em material

oriundo dos pensamentos oníricos latentes. Conforme os senhores já sabem, todos os sonhos que

se passam numa noite só pertencem a um mesmo contexto. Não é, contudo, um fato destituído de

importância se esses sonhos parecem, ao sonhador, um todo contínuo, ou se ele os divide em

diversas partes, e em quantas partes. O número de tais partes, com freqüência, corresponde a

igual número de pontos focais separados na formação estrutural dos pensamentos oníricos

latentes, ou de tendências conflitantes na vida mental da pessoa que teve o sonho, cada um dos

quais encontra uma expressão dominante, embora nunca exclusiva, em uma determinada parte do

sonho. Um sonho introdutório breve e um sonho principal, mais longo, que àquele se segue,

freqüentemente estão na relação de prótase e de apódose [cláusulas condicional e conseqüencial],

da qual um exemplo claro será encontrado nas anteriores conferências. Um sonho que é descrito

pelo sonhador como „um tanto interpolado‟ realmente corresponderá a uma cláusula dependente

nos pensamentos oníricos. Franz Alexander (1925) mostrou, em um estudo sobre pares de

sonhos, que não raro acontece dois sonhos de uma mesma noite compartilharem do cumprimento

da tarefa do sonho produzindo uma realização de desejos em dois estádios, se eles são tomados

conjuntamente, embora cada sonho separadamente não atinja esse resultado. Suponha-se, por

exemplo, que o desejo contido no sonho tenha como seu conteúdo alguma ação ilícita com relação

a determinada pessoa. Então, no primeiro sonho, a pessoa aparecerá sem disfarce, mas a ação

será apenas timidamente insinuada. O segundo sonho comportar-se-á de modo diferente. A ação

será nomeada sem disfarce, mas a pessoa será tornada irreconhecível ou será substituída por

alguém indiferente. Isto, os senhores haverão de recordar, dá uma impressão de efetiva astúcia.

Outra relação semelhante entre dois membros de um par de sonhos se encontra onde um

representa uma punição e o outro representa a realização de desejos condenáveis. Equivale ao

seguinte: „se se aceita o castigo por isto, pode-se continuar a se permitir a coisa proibida.‟

Não posso deter os senhores, por mais tempo, nessas descobertas de menor importância

ou nas discussões relativas ao emprego da interpretação de sonhos no trabalho da análise. Sinto

que seguramente os senhores estão impacientes por ouvir quais mudanças foram feitas em

nossos pontos de vista fundamentais relativos à natureza e significação dos sonhos. Já os avisei

de que, precisamente nisto, há pouco a relatar-lhes. O ponto mais controvertido em toda a teoria

foi, sem dúvida, a afirmação de que todos os sonhos são realizações de desejos. A objeção

inevitável e sempre recorrente, levantada pelos leigos, de que, não obstante, há tantos sonhos de

ansiedade, foi, penso que posso dizê-lo, completamente eliminada em minhas conferências

anteriores. Com a divisão em sonhos de realização de desejos, sonhos de ansiedade e sonhos de

punição, mantivemos intacta nossa teoria.

Também os sonhos de punição constituem realizações de desejo, embora não de desejos

dos impulsos instintuais, mas de desejos da instância crítica, censora e punidora da mente. Se

temos diante de nós um sonho de punição puro, uma operação mental fácil nos possibilitará

restaurar o sonho de realização de desejos ao qual o sonho de punição é a resposta correta, e

que, devido a esse repúdio, foi substituído como sonho manifesto. Como sabem, senhoras e

senhores, o estudo dos sonhos foi o que por primeiro nos auxiliou a compreender as neuroses, e

os senhores julgarão natural que nosso conhecimento das neuroses, posteriormente, conseguiu

influenciar nossa visão dos sonhos. Conforme os senhores haverão de ouvir, fomos obrigados a

postular a existência, na mente, de uma especial instância crítica e proibidora, a qual

denominamos de „superego‟. Embora reconhecendo que a censura dos sonhos é também uma

função dessa instância, fomos levados a examinar, com maior cuidado, a parte desempenhada

pelo superego na construção dos sonhos.

Contra a teoria da realização de desejos dos sonhos surgiram apenas duas dificuldades

sérias. Uma discussão a respeito destas afastar-nos-ia muito do caminho que seguimos e, na

verdade, ainda não nos proporcionou qualquer conclusão inteiramente satisfatória.

A primeira dessas dificuldades apresenta-se no fato de que as pessoas que

experimentaram um choque, um trauma psíquico grave - tal como acontecia, com tanta freqüência,

durante a guerra, e tal como propicia a base para a histeria traumática -, são regularmente

reconduzidas, em seus sonhos, à situação traumática. De acordo com nossas hipóteses referentes

à função dos sonhos, isto não deveria ocorrer. Que impulso decorrente de desejospoderia

satisfazer-se retornando, dessa maneira, a essa experiência traumática tão desagradável? É difícil

imaginar.

Encontramos a segunda dificuldade quase diariamente no curso de nosso trabalho

analítico; e não implica objeção tão importante quanto a outra. Uma das atribuições da psicanálise,

como sabem, é erguer o véu da amnésia que oculta os anos iniciais da infância, e trazer à

memória consciente as manifestações do início da vida sexual infantil que está contida neles. Ora,

essas experiências sexuais iniciais de uma criança estão vinculadas a penosas vivências de

ansiedade, proibição, desapontamento e punição. Podemos entender que tenham sido reprimidas;

mas, sendo assim, não podemos compreender como têm elas acesso tão livre à vida onírica, como

oferecem o padrão para tantas fantasias oníricas e como os sonhos se enchem de reproduções

dessas cenas das infância e de alusões às mesmas. Deve-se admitir que seu caráter desagradável

e o propósito realizador de desejos da elaboração onírica parecem estar longe de serem

mutuamente compatíveis. Pode ser, contudo, que, nesse caso, estejamos exagerando a

dificuldade. Afinal, essas mesmas experiências infantis têm ligadas a elas todos os desejos

instintuais não satisfeitos, duradouros, os quais, através da vida, proporcionam a energia para a

construção dos sonhos e a que podemos sem dúvida creditar a possibilidade de, em sua poderosa

irrupção, forçar a vinda à superfície, junto com o restante, do material de eventos penosos. E, por

outro lado, a maneira e a forma em que esse material é reproduzido mostra inequivocamente os

esforços da elaboração onírica dirigidos a negar o desprazer, por meio da deformação, e a

transformar a decepção em concessão.

Nas neuroses traumáticas as coisas são diferentes. No caso destas, os sonhos

regularmente terminam em geração de ansiedade. Não teríamos receio de admitir, penso eu, que

aqui a função do sonho falhou. Não invocarei o ditado segundo o qual a exceção comprova a

regra: sua sabedoria me parece ser a mais questionável. Mas, sem dúvida, a exceção não

subverte a regra. Se, no interesse de estudá-la, isolamos determinada função psíquica, como o

sonhar, do mecanismo psíquico como um todo, possibilitamos a descoberta das leis que lhe são

peculiares; quando, porém, a inserimos novamente no contexto geral, devemos estar preparados

para descobrir que esses achados são obscurecidos e prejudicados por colidirem com outras

forças. Dizemos que um sonho é a realização de um desejo; mas se os senhores querem levar em

conta essas últimas objeções, os senhores podem dizer, ainda assim, que um sonho é uma

tentativa de realização de um desejo. Ninguém que possa devidamente constatar a dinâmica da

mente haverá de supor que os senhores tenham dito algo diferente disto. Em determinadas

circunstâncias, um sonho só é capaz de levar a efeito a sua intenção de modo muito incompleto,

ou, então, tem de abandoná-la por inteiro. A fixação inconsciente a um trauma parece estar, acima

de tudo, entre esses obstáculos à função de sonhar. Enquanto a pessoa que dorme é obrigada a

sonhar, porque o relaxamento da repressão, à noite, permite que se torne ativa a pressão

ascendente da fixação traumática, há um fracasso no funcionamento da sua elaboração onírica,

que gostaria de transformar os traços de memória do evento traumático em realização de um

desejo. Nessas circunstâncias, acontecerá que a pessoa não pode dormir, que ela desiste de

dormir por medo de que falhe a função do sonhar. As neuroses traumáticas oferecem-nos aqui um

caso extremo; mas devemos admitir que as experiências da infância também são de natureza

traumática, e não há por que nos surpreendermos se interferências relativamente banais na função

dos sonhos podem surgir também sob outras condições.

CONFERÊNCIA XXX

SONHOS E OCULTISMO

SENHORAS E SENHORES:

Hoje, prosseguimos através de um caminho estreito, mas que nos pode conduzir a uma

perspectiva ampla.

Dificilmente ficarão surpresos com a notícia de que vou falar-lhes sobre a relação entre

sonhos e ocultismo. Os sonhos, na verdade, freqüentemente têm sido considerados como o portão

de entrada para o mundo do misticismo, e, mesmo hoje em dia, são vistos por muitas pessoas

como fenômeno oculto. Até nós próprios, que os transformamos em tema de estudo científico, não

impugnamos o fato de que um ou mais fios os vinculam a essas matérias obscuras. Misticismo,

ocultismo - que significam essas palavras? Os senhores não devem esperar que eu faça alguma

tentativa de abarcar essa mal-circunscrita região com definições. Todos nós sabemos, de um modo

genérico e indefinido, o que essas palavras significam para nós. Referem-se a alguma espécie de

„outro mundo‟, situado além deste mundo visível, governado por leis imutáveis, construído para nós

pela ciência.

O ocultismo afirma que existem, de fato, „mais coisas no céu e na terra do que sonha a

nossa filosofia‟. Pois bem, não precisamos nos sentir amarrados pela estreiteza de vistas da

filosofia acadêmica; estamos prontos a acreditar naquilo que nos é demonstrado de forma a

merecer crédito.

Propomos lidar com essas coisas da mesma forma como o fazemos com qualquer outro

material científico: antes de mais nada, estabelecer se se pode realmente demonstrar que tais

eventos acontecem, e então, e somente então, quando sua natureza factual não pode ser posta

em dúvida, dedicar-nos à sua explicação. Não se pode negar, entretanto, que mesmo o colocar em

ação essa decisão se faz difícil para nós, devido a fatores intelectuais, psicológicos e históricos. O

caso não é o mesmo quando abordamos outras investigações.

Em primeiro lugar, a dificuldade intelectual. Permitam-me que lhes dê uma explicação chã

e óbvia do que tenho em mente. Suponhamos que a questão em referência seja a constituição do

interior da Terra. Conforme os senhores estão cientes, não temos um conhecimento certo a

respeito dele. Suspeitamos que consiste de metais pesados em estado incandescente.

Imaginemos, pois, que alguém nos apresenta a assertiva de que o interior da Terra consiste de

água saturada de ácido carbônico - ou seja, uma espécie de água de soda. Sem dúvida, diremos

que isto é muito improvável, que contradiz todas as nossas expectativas e que não concede

nenhuma atenção aos fatos conhecidos que nos levaram a adotar a hipótese dos metais. Ainda

assim, não é inconcebível; se alguém viesse a nos mostrar uma forma de testar a hipótese da

água de soda, nós a seguiríamos sem objeção. Mas suponham agora que vem uma outra pessoa

e afirma com seriedade que o miolo da Terra consiste de geléia. Nossa reação a isto será bastante

diferente. Diremos a nós mesmos que a geléia não ocorre na natureza, que ela é um produto da

culinária do homem e que, ademais, a existência desse material pressupõe a existência de árvores

frutíferas e de seus frutos, e que não podemos ver como localizar vegetação e culinária humana no

interior da Terra. O resultado dessas objeções intelectuais será uma mudança em nosso interesse:

em vez de começar a investigar se o centro da Terra de fato é feito de geléia, haveremos de nos

perguntar que espécie de pessoa deve ser essa que consegue chegar a uma tal idéia, ou, quando

muito, perguntar-lhe-emos de onde tirou essa idéia. O infeliz autor da teoria da geléia sentir-se-á

muito insultado e se queixará de que nós nos recusamos a fazer uma investigação objetiva de sua

afirmação com base num pretenso preconceito científico. Isto, porém, de nada lhe servirá.

Percebemos que nem sempre se deve reprovar os preconceitos, mas que, às vezes, eles se

justificam e têm utilidade de vez que nos poupam trabalho inútil. De fato, eles são apenas

conclusões baseadas em uma analogia com outros juízos bem fundamentados.

Toda uma série de afirmações ocultistas têm o mesmo tipo de efeito que a hipótese da

geléia, de modo que nos consideramos justificados ao rejeitá-las à primeira vista, sem outras

investigações. Ainda assim, a situação não é tão simples. Uma comparação como a que escolhi,

nada prova, ou prova tão pouco quanto as comparações em geral. Permanece duvidoso se ela é

procedente, e é claro que sua escolha já foi determinada por nossa atitude de rejeição

desdenhosa. Os preconceitos, às vezes, são convenientes e justificados; mas, às vezes, são

errôneos e prejudiciais, e jamais se pode dizer quando são uma coisa ou outra. A própria história

da ciência oferece abundantes exemplos que são uma advertência contra a condenação

prematura. Durante muito tempo considerou-se absurda a hipótese que aventava que as

pedras,que agora chamamos de meteoritos, pudessem ter chegado à Terra vindas do espaço

exterior, ou que as rochas que formam as montanhas, nas quais estão incrustados os

remanescentes de conchas, pudessem, em alguma época, ter formado o leito do mar. Aliás, coisa

muito semelhante aconteceu com a nossa psicanálise, quando apresentou sua conclusão da

existência de um inconsciente. Assim, nós, analistas, temos motivos especiais para sermos

cautelosos no uso das considerações intelectuais para rejeitar hipóteses novas, e devemos admitir

que elas não nos isentam de sentimentos de antipatia, dúvida e incerteza.

Falei do segundo fator [que complica nossa abordagem do tema] como sendo o fator

psicológico. Com isto quero significar a tendência geral da humanidade à credulidade e à crença

no miraculoso. Desde o início, quando a vida nos submete à sua rígida disciplina, dentro de nós se

levanta uma resistência contra a inflexibilidade e monotonia das leis do pensamento e contra as

exigências do teste de realidade. A razão se torna o inimigo que nos priva de tantas possibilidades

de prazer. Descobrimos quanto prazer nos dá retrair-nos dela, temporariamente ao menos, e nos

entregar aos atrativos do absurdo. Os escolares deliciam-se com deturpar palavras; quando um

congresso científico termina, os especialistas se divertem com suas próprias atividades; até

mesmo homens de mentalidade séria apreciam uma anedota. Uma hostilidade mais séria à „Razão

e Ciência, o mais elevado poder que o homem possui‟ aguarda sua oportunidade; apressa-se a

preferir ao médico habilitado o médico milagroso ou praticante de curas pela natureza; é favorável

às afirmações do ocultismo na medida em que esses pretensos fatos podem ser tomados como

rupturas de leis e de regras; faz adormecerem as dúvidas, falsifica as percepções e força

confirmações e concordâncias que não podem ser justificadas. Se se leva em conta essa

tendência do homem, há toda razão em descontar muita coisa das informações apresentadas na

literatura ocultista.

A terceira dúvida, denominei-a dúvida histórica; e com isto tenho a intenção de assinalar

que, de fato, não há nada de novo no mundo do ocultismo. Nele emergem, mais uma vez, todos os

sinais, milagres, profecias e aparições que nos foram relatados desde tempos antigos e em antigos

livros,e que pensávamos terem sido, há muito tempo, colocados de lado como produto de

imaginação desenfreada ou de fraude tendenciosa, ou produto de uma era na qual a ignorância do

homem era muito grande e o espírito científico estava ainda no seu berço. Se aceitamos a verdade

daquilo que, segundo as informações dos ocultistas, ainda acontece hoje em dia, também

devemos acreditar na autenticidade dos relatos que nos foram transmitidos pela tradição desde

épocas antigas. E então devemos raciocinar que a tradição e os livros sagrados de todos os povos

estão repletos de semelhantes lendas maravilhosas justamente sobre tais acontecimentos

miraculosos, e neles encontrar provas da atuação de poderes sobre-humanos. Sendo assim,

ser-nos-á difícil evitar a suspeita de que o interesse pelo ocultismo é, de fato, um interesse

religioso e que um dos motivos secretos do movimento ocultista é vir em auxílio da religião,

ameaçada, como ela está, pelo avanço do pensamento científico. E, com a descoberta desse

motivo, nossa desconfiança deve crescer e nossa aversão para nos dedicar ao exame desses

supostos fenômenos ocultos deve aumentar.

Mais cedo ou mais tarde, porém, essa aversão deve ser superada. Defrontamo-nos com

uma questão de fato: o que nos dizem os ocultistas é verdadeiro ou não? Deve ser possível, afinal

de contas, esclarecer esse ponto. No fundo, temos motivos para sermos gratos aos ocultistas. As

histórias miraculosas de épocas antigas estão além do alcance de nossas provas. Se, em nossa

opinião, não podem ser comprovadas, devemos admitir que, estritamente falando, não podem ser

refutadas. Mas, quanto a acontecimentos contemporâneos, aos quais podemos estar presentes,

deve ser-nos possível chegar a um julgamento definido. Se chegamos à convicção de que tais

milagres não ocorrem hoje em dia, não precisamos temer o contra-argumento de que, mesmo

assim, eles podem ter acontecido em tempos antigos; nesse caso, outras explicações serão mais

plausíveis. Assim, delineamos nossas dúvidas e estamos prontos para tomar parte em uma

investigação dos fenômenos ocultos.

Infelizmente, porém, aqui deparamos com circunstâncias que são por demais

desfavoráveis para nossas honestas intenções. As observações, das quais se supõe dependa o

nosso julgamento, realizam-se sob condições que tornam incertas as nossas percepções

sensoriais e que turvam a nossa capacidade de atenção; ocorrem na escuridão, ou sob luz

vermelha mortiça, após longos períodos de vã expectativa. É-nos dito que, de fato, nossa atitude

descrente - ou seja, nossa atitude crítica - pode evitar que os fenômenos esperados aconteçam. A

situação assim criada não é senão uma caricatura das circunstâncias em que geralmente estamos

acostumados a realizar pesquisas científicas. As observações são feitas no que se chama de

„médiuns‟ - indivíduos aos quais se atribuem faculdades especialmente „sensíveis‟, mas que de

modo algum se distinguem por qualidades excepcionais de inteligência ou de caráter, e que não

são, como os fazedores de milagres do passado, inspirados por qualquer idéia grandiosa ou

propósito sério. Pelo contrário, são considerados, até mesmo por aqueles que acreditam em seus

poderes secretos, como particularmente indignos de confiança; a maior parte deles já foi

desmascarada como sendo constituída de trapaceiros, e com razão podemos esperar que o

mesmo destino aguarda os restantes. Suas práticas dão a impressão de travessuras maliciosas de

crianças ou de truques de prestidigitação.1 Até hoje, nunca surgiu nada de importante das séances

com esses médiuns - a revelação de uma nova fonte de poder, por exemplo. É verdade que não

esperamos receber indicações sobre criação de pombos do mago que, através de mágica, faz sair

pombos de sua cartola vazia. Facilmente posso me colocar no lugar de uma pessoa que tenta

satisfazer as exigências de uma atitude objetiva e assim toma parte em séances ocultas, mas que

se cansa logo após e se afasta, desgostosa com aquilo que dela é esperado, e volta sem ter

esclarecidos os seus preconceitos anteriores. A uma tal pessoa pode ser feita a censura de que

não é esta a maneira correta de se conduzir: que não se deve antecipadamente formular quais

serão os fenômenos que se está procurando estudar e em que circunstâncias eles aparecerão. Ao

contrário, deve-se perseverar e conferir importância às medidas acauteladoras e fiscalizadoras,

pelas quais recentemente dispenderam-se esforços, para precaver-se contra a deslealdade dos

médiuns. Infelizmente, essa moderna técnica de proteção acaba com a fácil acessibilidade das

observações do oculto. O estudo do ocultismo torna-se uma profissão especializada e difícil - uma

atividade que não se pode praticar paralelamente aos demais interesses que se tem. E até que

aqueles que se dedicam a essas investigações tenham chegado às suas conclusões, nós ficamos

com nossas dúvidas e com nossas conjecturas.

Dentre essas conjecturas, sem dúvida a mais provável é aquela segundo a qual existe um

fundamento real nos fatos do ocultismo, até hoje não reconhecido e ao redor do qual o embuste e

a fantasia teceram um véu que é difícil descerrar. Como, porém, haveremos de nos aproximar

desse fundamento? Em que ponto podemos atacar o problema? Penso que aqui os sonhospodem

vir em nosso auxílio, dando-nos uma indicação de que, de dentro desse caos, podemos tirar o

tema da telepatia.

O que denominamos „telepatia‟ é, conforme sabem, o fato suposto de que um evento, que

ocorre em um determinado tempo, aproximadamente no mesmo momento chega à consciência de

alguém distante no espaço, desprezando as vias de comunicação conhecidas. Pressupõe-se

implicitamente que tal evento interessa a essa pessoa, por quem a outra pessoa (o recebedor da

informação) tem um intenso interesse afetivo. Por exemplo, a Pessoa A pode ser vítima de um

acidente, ou pode morrer, e a Pessoa B, que lhe tem uma ligação estreita - sua mãe, ou filha, ou

noiva - sabe do fato, quase ao mesmo tempo, através de uma percepção visual ou auditiva. Nesse

último caso, portanto, é como se tivesse sido informada por telefone, embora não seja este o caso;

é um tipo de equivalente psíquico da telegrafia sem fio. Não preciso insistir com os senhores sobre

a improbabilidade de tais fatos, e há bons motivos para desprezar a maior parte desses relatos.

Restam alguns que não podem ser eliminados assim tão facilmente. Permitam-me, agora, em

razão do propósito daquilo que tenho para dizer-lhes, que eu omita a cautelosa palavrinha

„suposto‟ e continue como se eu acreditasse na realidade objetiva do fenômeno da telepatia. Mas

tenham claro em mente que não é este o caso e que não aderi a nenhuma convicção.

Tenho, realmente, pouco para contar-lhes - apenas um fato modesto. Também de pronto

reduzirei ainda mais as suas expectativas dizendo que, no fundo, os sonhos têm escassa relação

com a telepatia. A telepatia não lança nenhuma nova luz sobre a natureza dos sonhos, e nem

recebem os sonhos qualquer evidência direta da realidade da telepatia. Ademais, o fenômeno da

telepatia não está de modo algum vinculado aos sonhos; pode ocorrer também durante o estado

de vigília. O único motivo pra discutir a relação entre sonhos e telepatia é que o estado de sono

parece particularmente adequado para a recepção de mensagens telepáticas. Em tais casos, a

pessoa tem o que se chama sonho telepático, e, quando analisado, adquire-se a convicção de que

a notícia telepática desempenhou o mesmo papel que qualquer outra parte dos resíduos diurnos, e

que foi modificada da mesma maneira pela elaboração onírica e transformada para servir ao

propósito desta.

Durante a análise de um desses sonhos telepáticos, ocorreu algo que me parece ser de

interesse suficiente, apesar de sua banalidade, para servir como ponto de partida para esta

conferência. Quando, em 1922, dei minha primeira descrição desse assunto, tinha à minha

disposição somente uma única observação. Desde então, fiz numerosas observações

semelhantes, mas manterei o primeiro exemplo, porque é o mais fácil de descrever, e eu os levarei

em seguida in medias res.

Um homem obviamente inteligente, que, por sua própria descrição, pelo menos, não era

„inclinado ao ocultismo‟, escreveu-me acerca de um sonho que tinha tido, e que lhe parecia digno

de nota. Começou por informar-me que sua filha casada, distante dele, estava esperando seu

primeiro parto para meados de dezembro. Essa filha significava muito para ele e ele também sabia

que ela lhe era muito afeiçoada. Durante a noite de 16 para 17 de novembro, então, ele sonhou

que sua mulher havia dado à luz gêmeos. Seguiam-se diversos detalhes, que aqui posso omitir, e

nenhum destes realmente jamais foi explicado. A mulher, que no sonho se havia tornado mãe de

gêmeos, era sua segunda esposa, madrasta de sua filha. Ele não desejava ter filhos dessa sua

segunda esposa, que, dizia ele, não tinha aptidão para criar filhos sensatamente; além disso, à

época do sonho, ele, há longo tempo, havia cessado de ter relações sexuais com ela. O que o

levara a escrever-me fora, não a dúvida a respeito da teoria dos sonhos, já que o conteúdo

manifesto de seu sonho a teria justificado, mas por que o sonho, em completa contradição com

seus desejos, fez sua esposa dar à luz? E, segundo ele, não havia qualquer motivo para temer a

ocorrência desse indesejado evento. O que o induziu a relatar-me esse sonho foi a circunstância

de que, na manhã de 18 de novembro, recebeu um telegrama anunciando que sua filha havia dado

à luz gêmeos. O telegrama havia sido expedido no dia anterior, e o nascimento havia ocorrido

durante a noite de 16 para 17 de novembro, quase na mesma hora em que ele tinha tido o sonho

do nascimento de gêmeos de sua esposa. Esse homem que teve o sonho perguntava-me se eu

pensava ser acidental a coincidência entre o sonho e o ocorrido. Ele não se arriscou a chamar o

sonho de telepático, de vez que a diferença entre seu conteúdo e o evento afetava justamente o

que lhe parecia essencial no sonho - a identidade da pessoa que deu à luz as crianças. Um dos

seus comentários, contudo, mostra que ele não se teria surpreendido com um sonho telepático

real; acreditava que sua filha certamente teria „pensado especialmente nele‟ durante o trabalho de

parto.

Senhoras e senhores, estou certo de que já conseguiram explicar esse sonho e

compreender, também, por que o contei para os senhores. Era esse um homem insatisfeito com

sua segunda esposa, que preferiria que sua esposa fosse como a filha de seu primeiro casamento.

Esse „como‟ desapareceu, naturalmente, no que se referia ao inconsciente. E agora a mensagem

telepática chegada durante a noite, para dizer que sua filha havia tido gêmeos. A elaboração

onírica assumiu o controle da notícia, permitiu que o desejo inconsciente operasse sobre ela - o

desejo de ele poder colocar a filha no lugar da segunda esposa - e assim surgiu o enigmático

sonho manifesto, que disfarçou o desejo e deformou a mensagem. Devemos admitir que é só a

interpretação do sonho que nos mostrou que era um sonho telepático: a psicanálise revelou um

evento telepático que de outra forma não haveríamos de descobrir.

Mas, por favor, não se deixem equivocar! Apesar de tudo isso, a interpretação de sonhos

não nos disse nada acerca da realidade objetiva do evento telepático. Pode ser igualmente uma

ilusão explicável de outra maneira. Os pensamentos oníricos latentes do homem podem ter sido

assim: „Hoje é o dia em que o parto se realizaria se minha filha estivesse mesmo enganada em

seus cálculos em um mês, conforme suspeito. E quando a vi pela última vez, ela parecia

justamente como se estivesse para ter gêmeos. Como se teria alegrado com gêmeos a minha

falecida mulher, que tanto gostava de crianças!‟ (Baseio esse último dado em algumas

associações tidas por esse sonhador, as quais não mencionei.) Nesse caso, a origem do sonho

teriam sido suspeitas bem fundamentadas, por parte do sonhador, e não uma mensagem

telepática; mas o resultado teria sido o mesmo. Os senhores vêem, pois, que mesmo a

interpretação desse sonho nada nos disse acerca da questão de saber se devemos admitir

realidade objetiva à telepatia. Isto só poderia ser decidido por esmerada investigação de todas as

circunstâncias do caso - o que, infelizmente, não foi mais possível nesse exemplo do que em

qualquer outro de minha experiência. Posto que a hipótese da telepatia oferece, sem dúvida, a

explicação mais simples, ainda assim não nos auxilia muito. A explicação mais simples nem

sempre é a correta; a verdade, com freqüência, não é uma questão fácil, e antes de nos

decidirmos a favor de uma hipótese de tão grande alcance, devemos preferentemente ter tomado

todo cuidado.

Podemos agora abandonar o assunto dos sonhos e da telepatia: sobre isto, nada mais

tenho a dizer-lhes. Mas observem cuidadosamente que aquilo que nos pareceu ensinar-nos algo a

respeito da telepatia, não foi o sonho, mas a interpretação do sonho, a sua elaboração

psicanalítica. Por conseguinte, nessas coisas que se seguem, podemos deixar inteiramente de

lado os sonhos e podemos manter a expectativa de que o emprego da psicanálise possa clarear

um pouco outros eventos descritos como ocultos. Existe, por exemplo, o fenômeno da transmissão

de pensamento, que tem tão estreitas relações com a telepatia e pode, na verdade, sem

deturpação demasiada, ser considerado a mesma coisa. Afirma que os processos mentais numa

pessoa - idéias, estados emocionais, impulsos conativos - podem ser transferidos para uma outra

pessoa através do espaço vazio, sem o emprego dos métodos conhecidos de comunicação que

usam palavras e sinais. Os senhores perceberão quão notável, e talvez mesmo de que importância

prática, isto seria, se algo desse teor realmente acontecesse. Pode-se notar aliás que, de maneira

muito estranha, justamente esse fenômeno é mencionado muito menos freqüentemente nas

histórias miraculosas do passado.

No decorrer do tratamento psicanalítico de pacientes, formei a concepção de que as

atividades dos adivinhos profissionais escondem uma oportunidade de fazer observações

especialmente irrefutáveis sobre transmissão de pensamento. Esses indivíduos são pessoas

insignificantes, e mesmo inferiores, que se aprofundam em determinado tipo de representação -

pôr as cartas, estudar a escrita ou as linhas da palma da mão, ou fazer cálculos astrológicos - e, ao

mesmo tempo, após haverem-se mostrado conhecedores de partes do passado ou das

circunstâncias presentes do visitante, continuam profetizando seu futuro. Via de regra, seus

clientes mostram grande satisfação com esses efeitos e não sentem qualquer ressentimento se,

depois, essas profecias não se cumprem. Encontrei diversos casos assim e pude estudá-los

analiticamente; em seguida, contar-lhes-ei o mais notável desses exemplos. Sua força de

convicção, infelizmente, é prejudicada por numerosas reticências a que sou compelido pela

obrigação do segredo médico. No entanto, evitei rigorosamente distorções. Ouçam, pois, a história

de uma de minhas pacientes, que teve uma experiência desse tipo com um adivinho. Ela era a

mais velha de uma família numerosa e havia crescido com uma ligação extremamente intensa com

seu pai. Tinha casado ainda jovem e encontrara inteira satisfação em seu casamento. Só uma

coisa estava faltando em sua felicidade: havia permanecido sem filhos, não podendo, assim,

colocar seu amado esposo inteiramente no lugar de seu pai. Quando, após longos anos de

desapontamento, decidiu submeter-se a uma operação ginecológica, seu marido revelou-lhe que a

culpa era dele: uma doença, anterior ao casamento, o incapacitara para procriar filhos. Ela

suportou mal essa desilusão, tornou-se neurótica e sofreu muito com temores de ser tentada [a ser

infiel ao marido]. Para alegrá-la, ele a levou consigo a Paris, em viagem de negócios. Certo dia, lá

estavam eles sentados no saguão do seu hotel, quando ela percebeu alguma agitação entre os

empregados do hotel. Perguntou o que é que estava acontecendo, e disseram-lhe que Monsieur le

Professeur havia chegado e estava dando consultas numa salinha ali perto. Expressou o desejo de

fazer uma tentativa. O marido rejeitou a idéia, mas enquanto ele não estava observando, ela se

esgueirou para dentro da sala de consultas e encontrou-se à frente do adivinho. Ela estava com 27

anos, mas parecia muito mais jovem, e havia tirado sua aliança de casada. Monsieur le Professeur

fê-la pousar a mão numa bandeja cheia de cinzas e estudou atentamente a marca deixada pela

mão; então ele lhe disse todos os tipos de coisas a respeito de árduas lutas que a esperavam, e

terminou com a confortadora promessa de que, apesar de tudo, ela ainda haveria de casar-se e ter

dois filhos quando chegasse à idade de 32 anos. Quando me contou esta história, ela estava com

43 anos, estava gravemente doente e sem qualquer perspectiva de algum dia ter um filho. Assim, a

profecia não se realizara; contudo, falou disso sem qualquer tipo de amargura, com uma

inconfundível expressão de satisfação, como se estivesse recordando um ditoso evento. Foi fácil

estabelecer que ela não tinha a mais leve noção do que poderiam significar os dois números na

profecia [2 e 32] ou se eles, de algum modo, significavam alguma coisa.

Os senhores dirão que esta é uma história estúpida e incompreensível e perguntarão por

que a contei aos senhores. Eu deveria ser inteiramente da opinião dos senhores - e este é o ponto

saliente -, se a análise não tivesse tornado possível chegar a uma interpretação da profecia, que é

convincente precisamente a partir da explicação, que ela permite, dos detalhes. Pois os dois

números encontram seu lugar na vida da mãe de minha paciente. Elahavia casado tardiamente -

não antes de ter mais de trinta anos, e na família haviam freqüentemente insistido no êxito com

que ela se havia apressado para compensar o tempo perdido. Seus dois primeiros filhos (sendo

nossa paciente a mais velha) haviam nascido com o mais curto intervalo possível entre si, em um

só período de um ano; e tinha, de fato, dois filhos, ao chegar aos 32 anos de idade. Portanto, o que

Monsieur le Professeur dissera à minha paciente significava: „Console-se com o fato de ser tão

jovem. Terá o mesmo destino que sua mãe, que também teve de esperar longo tempo pelos filhos,

e terá dois filhos quando tiver 32 anos.‟ Ter o mesmo destino que sua mãe, colocar-se no lugar de

sua mãe, tomar o lugar dela junto ao pai - fora este, contudo, o mais intenso desejo de sua

mocidade, e precisamente em virtude da não-realização desse desejo é que ela estava começando

a adoecer. A profecia prometia-lhe que o desejo ainda se cumpriria, apesar de tudo; como poderia

ela deixar de sentir simpatia pelo profeta? Entretanto, consideram os senhores possível que

Monsieur le Professeur fosse sabedor dos fatos da história íntima da família de sua cliente casual?

Absolutamente não! Como, então, chegou ele ao conhecimento que lhe possibilitou expressar o

desejo mais intenso e mais secreto de minha paciente incluindo os dois números em sua profecia?

Posso ver apenas duas explicações possíveis. Ou a história, tal como me foi contada, é inverídica,

e os fatos ocorreram de modo diverso, ou a transmissão de pensamento existe como fenômeno

real. Pode-se supor, indubitavelmente, que, após um intervalo de 16 anos, a paciente houvesse

introduzido os dois números em questão em sua lembrança, vindos do inconsciente. Não tenho

base para essa suspeita, mas não posso excluí-la; e imagino que os senhores estarão mais

prontos a acreditar numa solução dessa espécie, do que na realidade da transmissão de

pensamento. Se os senhores se decidem mesmo pela segunda alternativa, não se esqueçam de

que foi somente a análise que criou o fato oculto - descobriu-o quando estava distorcido a ponto de

ser irreconhecível.

Se se tratasse apenas de um caso, como o dessa minha paciente, não se lhe daria maior

importância. Ninguém sonharia erigir sobre uma única observação uma crença que implica tomar

uma direção tão decisiva. Mas os senhores devem dar-me crédito quando lhes asseguro que este

não é o único caso em minha experiência. Coligi toda uma série de tais profecias, e de todas elas

ficou-me a impressão de que o adivinho simplesmente havia dado expressão aos pensamentos, e,

mais especialmente, aos desejos secretos daqueles que vinham consultá-lo, e que, portanto,

estávamos autorizados a analisar essas profecias como sendo produções subjetivas, fantasias

ousonhos das pessoas em questão. Naturalmente, nem todo caso é igualmente convincente, e não

é, em todos os casos, igualmente possível excluir explicações mais racionais; contudo, tomando

esses casos em conjunto, permanece um forte saldo de probabilidades a favor da transmissão de

pensamento como um fato. A importância do tema justificaria que eu relatasse aos senhores todos

os meus casos; mas não posso fazê-lo, devido à prolixidade da descrição que se faria necessária e

à inevitável quebra do dever do sigilo. Na medida do possível, tentarei tranqüilizar minha

consciência dando-lhes mais alguns exemplos.

Um dia, procurou-me um homem jovem, muito inteligente, um estudante que se preparava

para seus exames finais de doutorado, mas incapaz de fazê-los, de vez que, conforme se queixou,

havia perdido todo o interesse e capacidade de concentração e até mesmo toda a faculdade de

memorizar regularmente. A história prévia dessa condição de quase paralisia logo foi revelada:

havia adoecido após ter realizado um grande ato de autodisciplina. Tinha uma irmã, a quem estava

ligado por uma afeição intensa, porém sempre refreada, e o mesmo se passava nela, em relação a

ele. „Que pena nós não podermos casar!‟, diziam freqüentemente um ao outro. Um senhor

respeitável apaixonou-se pela irmã; ela correspondeu a essa paixão, mas seus pais não

consentiram na união. Em sua dificuldade, o jovem casal voltou-se para o irmão dela, e este não

recusou sua ajuda. Fez o possível para que mantivessem correspondência, e sua influência

finalmente persuadiu os pais a consentirem. No decorrer do noivado, entretanto, ocorreu um

incidente cujo significado era fácil deduzir. Em companhia de seu futuro cunhado, ele empreendeu

uma difícil escalada de montanha, sem guia; perderam o caminho e estiveram em perigo de não

regressar sãos e salvos. Logo após o casamento de sua irmã, ele caiu nesse estado de exaustão

mental.

A influência da psicanálise restaurou sua capacidade de trabalho, e ele deixou-me para

prestar seus exames; mas após tê-los efetuado com êxito, voltou a mim por um curto período, no

outono do mesmo ano. Foi então que me referiu uma experiência singular que tivera antes do

verão. Na cidade de sua universidade, vivia uma adivinha que gozava de grande popularidade. Até

mesmo os príncipes da Casa Real costumavam ir fazer-lhe consultas antes de empreendimentos

importantes. O modo de trabalhar dela era muito simples. Pedia que lhe dissessem a data do

nascimento da pessoa interessada; não exigia saber nada mais sobre a pessoa, nem sequer seu

nome. Então elapassava a consultar seus livros de astrologia, fazia longos cálculos e, finalmente,

formulava uma profecia referente à pessoa em questão. Meu paciente decidiu recorrer às artes

místicas dessa mulher, com referência a seu cunhado. Foi visitá-la e disse-lhe a data pertinente.

Depois de efetuar seus cálculos, ela fez sua profecia: „A pessoa em questão morrerá em julho ou

agosto deste ano, de intoxicação causada por lagosta ou ostra.‟ Meu paciente terminou sua história

com as palavras: „Foi simplesmente maravilhoso!‟

Desde o início, eu escutava com irritação. Depois dessa exclamação sua, cheguei a

perguntar: „Que é que o senhor está vendo de tão maravilhoso nessa profecia? Agora estamos no

fim do outono, e o seu cunhado não está morto, ou o senhor me teria contado isto há muito tempo.

Então a profecia não se realizou.‟ „Sem dúvida, é isto‟, replicou, „mas é isto que é maravilhoso. Meu

cunhado tem paixão por lagosta e ostras, e, no verão anterior - isto é, antes de minha visita à

adivinha - ele teve um ataque de intoxicação por ostra do qual quase morreu.‟ Que é que eu iria

dizer em face disto? Apenas pude sentir-me aborrecido por esse homem altamente instruído (que,

ademais, havia passado por uma análise bem-sucedida) não conseguir ter uma visão mais clara de

sua situação. Quanto a mim, a acreditar que é possível calcular o início de um ataque de

intoxicação por lagosta ou ostras, com base em tabelas astrológicas, prefiro supor que meu

paciente ainda não vencera o ódio que sentia por seu rival, cuja repressão, anteriormente, o levara

a adoecer, e que a adivinha simplesmente estava expressando a expectativa dele mesmo: „um

gosto desse tipo, não é de se desistir, e um dia, de qualquer modo, vai chegar o fim dele.‟ Devo

admitir que não consigo pensar em nenhuma outra explicação para este caso, a não ser que,

talvez, meu paciente estivesse fazendo uma brincadeira comigo. No entanto, nem naquela

ocasião, nem em época posterior, ele me deu motivos para semelhante suspeita, e pareceu estar

levando a sério o que disse.

Aqui está outro caso. Um senhor jovem, que ocupava uma posição de destaque, foi

envolvido numa liaison com uma demi-mondaine, a qual se caracterizava por uma compulsão

curiosa. De tempos em tempos, ele era obrigado a provocá-la com comentários irônicos e

insultuosos até ela se sentir em completo desespero. Quando ele a levava até esse ponto,

aliviava-se, reconciliava-se com ela e dava-lhe um presente. Mas, agora, queria ver-se livre da

mulher: a compulsão parecia-lhe uma coisa muito estranha. Percebeu que a liaison estava

prejudicando sua reputação; queria ter sua esposa e constituir sua família. Entretanto, como não

podia livrar-se da demi-mondaine por suas próprias forças, procurou o auxílio da análise. Depois

de uma dessas cenas injuriosas, quando a análise já havia iniciado, ele a fez escrever algo num

pedaço de papel, a fim de mostrá-lo a um grafólogo. O informe que recebeu deste dizia que a

escrita era de alguém em extremo desespero, que certamente cometeria suicídio nos próximos

dias. É verdade que isto não ocorreu, e a mulher coninuou viva; mas a análise conseguiu afrouxar

os laços dessa ligação. Abandonou a mulher e voltou-se para uma moça jovem, esperando poder

vir a fazer dela uma boa esposa. Logo depois, surgiu um sonho que só podia insinuar uma

incipiente dúvida quanto ao valor da moça. Conseguiu uma amostra de sua escrita, também,

levou-a ao mesmo grafólogo e recebeu um veredicto da escrita dela que confirmava suas

apreensões. Com isso, abandonou a idéia de tomá-la como esposa.

A fim de formar uma opinião a respeito dos informes do grafólogo, especialmente do

primeiro, devemos conhecer algo da história de nosso personagem. No início de sua mocidade, ele

(de acordo com sua natureza impetuosa) se apaixonara arrebatadamente por uma mulher casada,

ainda jovem, mas mesmo assim mais velha do que ele. Quando ela o rejeitou, ele fez uma tentativa

de suicídio que, não pode haver dúvidas, foi empreendida a sério. Foi apenas por um fio que

escapou da morte, e só se recuperou depois de longo período de convalescença. Essa ação

tresloucada, porém, causou profunda impressão na mulher que amava; ela lhe concedeu seus

favores, ele se tornou amante dela e daí por diante permaneceu secretamente ligado a ela,

servindo-a com dedicação verdadeiramente cavalheiresca. Mais de vinte anos depois, quando

ambos haviam-se tornado mais velhos - mas a mulher, naturalmente, envelhecera mais do que ele

-, despertou nele a necessidade de se desligar dela, de tornar-se livre, de levar a sua própria vida,

de montar casa e constituir família. E ao lado dessa sensação de saciedade, surgiu nele a

profunda ânsia, há muito tempo reprimida, de vingar-se de sua amante. Assim como uma vez ele

havia tentado matar-se porque ela o desprezara, também desejava ele, agora, ter a satisfação de

ela buscar a morte porque ele a abandonava. O amor que ele tinha, porém, era ainda muito forte

para possibilitar que esse desejo se tornasse consciente nele; e não estava em condições de

causar a ela dano suficiente para levá-la à morte. Dentro desse esquema mental, fez da

demi-mondaine uma espécie de bode expiatório para satisfazer a sua sede de vingança in corpore

vili; e ele passou a infligir-lhe todos os tormentos que podia esperar causassem nela o resultado

que ele queria produzir em sua amante. Que a vingança se aplicava a esta revelava-se no fato de

ele fazer desta, da amante, uma confidente e conselheira de sualiaison, em vez de ocultar dela a

sua deserção. A desventurada senhora, que há muito tempo havia deixado de dar para receber

favores, provavelmente sofreu muito mais com essas confidências do que a demi-mondaine com

as brutalidades dele. A compulsão em relação a essa figura substitutiva, de que se queixava e que

o levou à análise, naturalmente havia sido transferida a ela a partir de sua antiga amante; era dela

que queria livrar-se, mas não podia. Não sou autoridade em assuntos de escrita e não tenho em

alto conceito a arte de adivinhar o caráter a partir da escrita; tampouco acredito na possibilidade de

assim predizer o futuro do autor da letra. Os senhores podem ver, no entanto, seja o que for que se

pense do valor da grafologia, não haver engano no fato de o perito, quando prometeu que o autor

da letra da amostra que lhe era apresentada, cometeria suicídio nos próximos dias, havia, mais

uma vez, tão-somente manifestado um poderoso desejo secreto da pessoa que lhe vinha fazer a

consulta. Algo do mesmo teor aconteceu posteriormente, no caso do segundo relato. Ali, o que

estava em questão, porém, não era um desejo inconsciente; era a dúvida crescente e a apreensão

do consulente que encontravam uma clara expressão na boca do grafólogo. Aliás, meu paciente

conseguiu, com o auxílio da análise, encontrar um objeto para seu amor, fora do círculo mágico em

que tinha sido enfeitiçado.

Senhoras e senhores, ouviram agora como a interpretação dos sonhos e a psicanálise em

geral elucidam o ocultismo. Mostrei-lhes com exemplos que, por sua aplicação, têm sido trazido à

luz fatos ocultos que de outro modo teriam permanecido desconhecidos. A psicanálise não pode

dar uma resposta direta à pergunta que, sem dúvida, mais lhes interessa - se haveremos de

acreditar na realidade objetiva desses achados. O material revelado com sua ajuda, contudo,

produz uma impressão que, sob todos os aspectos, é favorável a uma resposta afirmativa. O

interesse dos senhores não se deterá neste ponto, entretanto. Desejarão saber que conclusões se

justificam pelo material incomparavelmente mais rico no qual a psicanálise não tem qualquer

ingerência. Mas nisso não posso acompanhá-los; situa-se fora de meus domínios. A única coisa

adicional que poderia fazer, seria relatar-lhes observações que pelo menos têm tanta relação com

a psicanálise, por terem sido feitas durante tratamento psicanalítico e, até mesmo, talvez, se

tornaram possíveis por influências desta. Contar-lhes-ei um desses exemplos - o exemplo que

deixou em mim a impressão mais profunda. Relata-lo-ei extensamente e solicitarei a atenção dos

senhores para um grande número de detalhes, embora, ainda assim, tenha de suprimir muita coisa

que em muito haveria de aumentar a força de convicção da observação. É um exemplo no qual o

fato veio claramente à luz e não necessitou ser desenvolvido pela análise. Aodiscuti-lo, entretanto,

não poderemos prescindir da ajuda da análise. Contudo lhes direi antecipadamente que também

este exemplo de aparente transmissão de pensamento na situação analítica não está isento de

toda dúvida e não nos permite assumir uma posição de irrestrito apoio à realidade dos fenômenos

ocultos.

Ouçam, pois: Num dia do outono do ano de 1919, cerca das 10h.45m. da manhã, o Dr.

David Forsyth, que, havia pouco, chegara de Londres, enviou-me seu cartão de visita enquanto eu

estava tendo uma sessão com um paciente. (Meu prezado colega da Universidade de Londres,

estou certo, não considerará indiscrição se, dessa maneira, revelo o fato de que passou alguns

meses sendo iniciado por mim na arte da técnica psicanalítica.) Apenas tive tempo de saudá-lo e

marcar um encontro para vê-lo mais tarde. O Dr. Forsyth tinha direito ao meu interesse particular;

foi o primeiro estrangeiro a vir ter comigo, após eu haver sido interrompido em minhas atividades

pelos anos de guerra, e a trazer uma promessa de dias melhores. Logo depois, às onze horas,

chegou Herr P., um dos meus pacientes, um homem inteligente e agradável, entre quarenta e

cinqüenta anos de idade, que, inicialmente, me havia procurado por causa de dificuldades com

mulheres. Seu caso não prometia qualquer êxito terapêutico; muito tempo antes, eu havia proposto

que parássemos o tratamento, mas ele quisera continuá-lo, evidentemente porque se sentia à

vontade em uma transferência paterna bem temperada em relação a mim. Nessa época, o dinheiro

não tinha qualquer papel de importância: havia muito pouco em circulação. As sesões que eu tinha

com ele eram estimulantes e também reconfortantes, e, por conseguinte, passando por cima de

estritas regras da clínica médica, o trabalho analítico estava sendo levado adiante, até um limite de

tempo previsto.

Aquele dia, P. retornava a seus intentos de ter relações eróticas com mulheres e, mais

uma vez, mencionava uma jovem linda, provocante e muito pobre, com quem ele sentia que

poderia ter êxito, se o fato de ela ser virgemnão amedrontasse alguma tentativa séria por parte

dele. Freqüentemente, havia falado nela, antes; contudo, nesse dia, pela primeira vez, embora

naturalmente ele não tivesse noção dos verdadeiros motivos do impedimento dele, disse-me que

ela costumava chamá-lo „Herr von Vorsicht‟ Sr. Cuidado. Surpreendi-me com essa informação; o

cartão de visita do Dr. Forsyth estava junto a mim e mostrei-lho.

Estes são os fatos do caso. Suponho que aos senhores eles parecerão insignificantes;

ouçam, porém, um pouco mais, há mais coisas por trás deles.

Quando era jovem, P. havia passado alguns anos na Inglaterra e desde então conservara

um permanente interesse pela literatura inglesa. Possuía uma rica biblioteca inglesa e costumava

trazer-me livros dela. Devo a ele um conhecimento de autores tais como Bennett e Galsworthy, dos

quais até então havia lido pouca coisa. Um dia, emprestou-me um romance de Galsworthy

intitulado The Man of Property, cuja ação se passa no seio de uma família, inventada pelo autor, de

nome „Forsyte‟. O próprio Galsworthy estava evidentemente fascinado com essa criação sua, pois,

em livros subseqüentes, repetidamente retornou aos membros dessa família e, por fim, coletou

todas as histórias referentes a eles sob o título The Forsyte Saga. Apenas alguns dias antes da

ocorrência de que estou falando, ele me trouxera um volume recente dessa série. O nome

„Forsyte‟, e tudo o que de típico o autor havia procurado incorporar nele, tinha desempenhado um

papel, também, em minhas conversações com P. e se tornara parte da linguagem secreta que tão

facilmente se desenvolve entre duas pessoas que se vêem muito. Ora, o nome „Forsyte‟ desses

romances difere pouco do de meu visitante „Forsyth‟ e, conforme é pronunciado por um alemão, os

dois dificilmente podem ser distinguidos; e há uma palavra inglesa com uma significação -

„foresight‟ - que também teremos de pronunciar da mesma maneira e que seria traduzida como

„Voraussicht‟ ou „Vorsicht‟. Assim, P. realmente selecionara de suas preocupações pessoais

exatamente o nome que, ao mesmo tempo ocupava meus pensamentos, como resultado de uma

ocorrência da qual ele não tinha conhecimento.

Isto parece tomar rumos melhores, concordarão os senhores. Mas penso que ficaremos

mais impressionados com o surpreendente fenômeno e até mesmo obteremos uma compreensão

interna (insight) dos seus fatores determinantes se lançarmos a luz da análise sobre duas outras

associações apresentadas por P. durante a mesma sessão.Primeira associação: Um dia, na

semana anterior, eu ficara esperando em vão por Herr P., às onze horas, e então saí para visitar o

Dr. Anton von Freund em sua pension. Surpreendi-me ao verificar que Herr P. morava num outro

andar do mesmo prédio em que se localizava a pension. Com relação a isso, mais tarde, eu disse

a P. que, em certo sentido, eu lhe havia feito uma visita a sua casa; mas sei claramente que não

lhe disse o nome da pessoa que visitei na pension. E agora, logo depois de mencionar „Herr von

Vorsicht‟, ele me perguntou se talvez a Freud-Ottorego, que estava dando um ciclo de conferências

sobre inglês na Volksuniversität, era minha filha. E, pela primeira vez durante nosso longo período

de relacionamento, ele dava a meu nome a forma distorcida, a que realmente eu me acostumei

devido a autoridades, funcionários e tipógrafos: em vez de „Freud‟ ele disse „Freund‟.

Segunda associação: No fim da mesma sessão, contou-me um sonho do qual acordara

com pavor - um verdadeiro „Alptraum‟, disse ele. Acrescentou que, havia não muito tempo, tinha

esquecido a palavra inglesa que significa isso, e quando alguém lhe perguntara, disse que a

palavra inglesa para „Alptraum‟ era „a mare‟s nest.‟ Isto era absurdo, naturalmente, prosseguia ele;

„a mare‟s nest‟ significava algo incrível, um conto policial: a tradução de Alptraum era „nightmare‟. O

único elemento comum a essa associação e à anterior parecia ser o elemento „inglês‟. Porém, eu

me lembrava de um pequeno incidente, ocorrido cerca de um mês antes. P. estava sentado junto a

mim, na sala, quando outro visitante, um querido amigo proveniente de Londres, o Dr. Ernest

Jones, chegou inesperadamente, depois de uma longa separação. Fiz a este um sinal para que

entrasse na sala contígua, enquanto eu terminava a entrevista com P. Este, porém, o reconhecera

imediatamente, por causa de sua fotografia na sala de espera, e até expressara o desejo de

ser-lhe apresentado. Ora, Jones é o autor de uma monografia sobre o Alptraum - o pesadelo. Eu

não sabia que P. o conhecia; ele evitava ler literatura analítica. [Cf. Jones, 1912.]

Gostaria de, inicialmente, investigar com os senhores que compreensão analítica se

obteve com os antecedentes das associações de P. e com os seus motivos. Em relação ao nome

„Forsyte‟ ou „Forsyth‟, P. e eu nos situávamos de modo semelhante; para ele, o nome significava a

mesma coisa, e era inteiramente a ele, P., que eu devia o conhecimento do nome. O fato digno de

nota era que ele trouxe para a análise esse nome sem anunciá-lo, somentepouco tempo depois de

ter-se tornado importante para mim, num outro sentido, devido a um evento novo, a chegada do

médico de Londres. Mas a maneira pela qual o nome emergiu em sua sessão analítica é, talvez,

não menos interessante do que o fato em si. Ele não disse, por exemplo: „O nome “Forsyte”, dos

romances que o senhor conhece, acaba de me vir à mente.‟ Ele conseguiu, sem qualquer relação

consciente com essa fonte, a partir daí, juntar esse nome às suas próprias experiências e

expressá-lo - coisa que poderia ter acontecido muito tempo antes, mas não acontecera até então.

O que ele disse mesmo foi, pois: „Também eu sou um Forsyth: é como a namorada me chama!‟ É

difícil deixar de perceber a mistura de exigência ciumenta e de autodesvalorização melancólica que

encontra expressão no seu comentário. Não haveremos de errar o rumo se o complementarmos de

uma forma como esta: „Para mim é doloroso que os pensamentos do senhor se ocupem tão

intensamente com essa nova chegada. Volte para mim; afinal, eu também sou um Forsyth -

embora, é verdade, eu seja apenas um Herr von Vorsicht [cavalheiro do cuidado], conforme diz a

namorada‟. E, com isso, sua cadeia de pensamentos, passando pelas linhas associativas do

elemento „inglês‟, voltava a fatos anteriores, capazes de fazer despertar os mesmos sentimentos

de ciúme. „Uns dias atrás o senhor fez uma visita a minha casa - que pena, não a mim, mas a Herr

von Freund.‟ Esse pensamento fê-lo distorcer o nome „Freud‟ em „Freund‟. O nome

„Freud-Ottorego‟, tirado do roteiro de conferências, deve entrar aqui porque, tratando-se de

professora de inglês, proporcionou a associação manifesta. E agora veio a lembrança de um outro

visitante, umas semanas antes, do qual, sem dúvida, estava com ciúmes, mas com este sentia que

não podia competir, pois o Dr. Jones era capaz de escrever uma monografia sobre o pesadelo, ao

passo que ele, quando muito, conseguia apenas ter tais sonhos. Sua menção do erro a respeito do

significado de „a mare‟s nest‟ vem a se encaixar aqui, pois só pode querer dizer: „Afinal, não sou

um verdadeiro inglês, assim como não sou um verdadeiro Forsyth.‟

Não posso descrever agora seus sentimentos de ciúmes nem como estando fora de lugar,

nem como ininteligíveis. Ele havia sido avisado de que sua análise, e ao mesmo tempo nossos

contatos, terminariam tão logo os discípulos e os pacientes estrangeiros retornassem a Viena; e foi

realmente isto o que aconteceu, pouco depois. O que realizamos, no entanto, foi determinada

quantidade de trabalho analítico - a explicação das três associações apresentadas por ele na

mesma sessão e originadas do mesmo motivo; e isto não tem muita relação com a outra questão,

isto é, se essas associações podiam ter sido feitas sem transmissão de pensamento. Essa questão

aplica-sea cada uma das três associações e, portanto, divide-se em três questões separadas:

Poderia P. ter sabido que o Dr. Forsyth acabava de me fazer sua primeira visita? Poderia ele saber

o nome da pessoa que eu havia visitado em sua casa? Sabia ele que o Dr. Jones escrevera uma

monografia sobre o pesadelo? Ou foi apenas o meu conhecimento acerca dessas coisas que se

revelou em suas associações? Dependerá da resposta a essas três diferentes questões a

eventualidade de minha observação permitir uma conclusão favorável à transmissão de

pensamento.

Deixemos de lado, por um momento, a primeira questão; as outras duas podem ser

elaboradas mais facilmente. O caso de minha visita à sua pension causa uma impressão

particularmente convincente, à primeira vista. Estou certo de que, em minha breve e jocosa

referência à minha visita à sua casa, não mencionei qualquer nome. Penso ser muito improvável

que P. tivesse feito perguntas na pension quanto ao nome da pessoa em referência;

preferentemente acredito que a existência dessa pessoa tenha permanecido inteiramente

desconhecida para ele. O valor probatório desse caso é, porém, totalmente desfeito por uma

circunstância casual. O homem a quem fizera uma visita na pension não só se chamava „Freund‟;

era um verdadeiro amigo de todos nós. Era o Dr. Anton von Freund, cuja doação havia

possibilitado a fundação de nossa casa editora. Sua morte prematura, junto com a de nosso colega

Karl Abraham, alguns anos antes, são os mais graves infortúnios que atingiram o desenvolvimento

da psicanálise. É possível, pois, que eu tivesse dito a P.: „Visitei um amigo [Freund] na sua casa‟ e,

com essa possibilidade, desaparece o interesse oculto de sua segunda associação.

A impressão causada pela terceira associação também se desfaz rapidamente. Podia P.

saber que Jones publicara uma monografia sobre pesadelo, se ele nunca lia literatura analítica?

Sim, podia. Possuía livros de nossa editora e poderia, de algum modo, ter visto os títulos das

novas publicações anunciados nas capas. Isto não pode ser provado, mas também não pode ser

refutado. Por essa via, portanto, não podemos chegar a conclusão alguma. Para infelicidade

minha, essa observação que fiz padece da mesma debilidade de tantas outras: foi escrita muito

depois e foi discutida numa época em que não estava mais em contato com Herr P., e não pude

fazer-lhe mais perguntas.

Voltemos ao primeiro evento, que, mesmo tomado de per si, apóia o fato aparente de

transmissão de pensamento. Poderia P. saber que o Dr. Forsyth estivera comigo um quarto de

hora antes dele? Poderia ele ter absolutamentealgum conhecimento de sua existência ou de sua

presença em Viena? Não devemos ceder à tendência a repelir sem exame ambas as perguntas.

Posso entrever um caminho que leva a uma resposta parcialmente afirmativa. Afinal, eu podia ter

dito a Herr P. que eu estava esperando um médico, vindo da Inglaterra, que vinha receber

formação em análise, como uma primeira pomba após o dilúvio. Isto poderia ter acontecido no

verão de 1919, pois o Dr. Forsyth havia mantido entendimentos comigo, por carta, alguns meses

antes de sua chegada. Posso até mesmo haver mencionado seu nome, embora isto me pareça

muito improvável. Em vista da outra conexão que o nome evocava a nós dois, uma discussão a

respeito inevitavelmente deve ter tido lugar, e dela teria ficado algo em minha memória. Não

obstante, tal discussão pode ter-se dado e posso tê-la esquecido totalmente, depois, de modo que

isto possibilitou à emergência de „Herr von Vorsicht‟, na sessão analítica, surpreender-me como se

fosse milagre. Se alguém se considera um cético, é bom ter dúvidas, às vezes, também acerca do

ceticismo próprio. Pode ser que também eu tenha uma secreta inclinação ao miraculoso, o que

seria meio caminho andado para ir ao encontro da criação de fatos ocultos.

Se assim eliminarmos de nosso caminho uma das possibilidades miraculosas, há uma

outra esperando-nos, e é de todas a mais difícil. Supondo que Herr P. soubesse que havia um Dr.

Forsyth e que este era esperado em Viena no outono, como explicar que ele ficasse receptivo a

sua presença justamente no dia de sua chegada e imediatamente após sua primeira visita?

Poder-se-ia dizer que era uma casualidade - isto é, não há o que explicar. Mas foi justamente com

a finalidade de excluir a casualidade que discuti as duas outras associações de P., a fim de

mostrar-lhes que ele realmente estava ocupado com pensamentos ciumentos a respeito de

pessoas que me visitavam. Ou se poderia, não desprezando a possibilidade mais extrema, aventar

a hipótese de que P. havia observado um especial estado de excitação em mim (do que, para dizer

a verdade, eu mesmo não sabia nada) e tirou sua conclusão a partir disto. Ou Herr P. (embora ele

chegasse um quarto de hora depois de o inglês ter saído) encontrou-se com ele, no breve trecho

de rua que tanto um como o outro tinham de percorrer, reconheceu-o por sua aparência

caracteristicamente inglesa e, estando em permanente estado de expectativa ciumenta, pensou:

„Ah, então é este o Dr. Forsyth, com cuja chegada minha análise vai chegar ao fim! E

provavelmente ele acaba de vir agora mesmo do professor.‟ Não posso levar mais adiante essas

especulações de raciocínio. Mais uma vez, resta-nos um non liquet [não provado]; mas devo

confessar que tenho a impressão de que também aqui os pratos da balança se inclinam a favor da

transmissão de pensamento. Ademais, certamente não estou só ao ter-me decidido experimentar

eventos „ocultos‟ como este na situação analítica. Helene Deutsch publicou algumas observações

semelhantes, em 1926, e estudou a questão de serem eles determinados pela relação

transferencial entre paciente e analista.

Estou certo de que os senhores não se sentirão totalmente satisfeitos com minha atitude

referente a esse problema - com o fato de eu não estar inteiramente convencido, mas predisposto

a me convencer. Talvez os senhores possam dizer para si mesmos: „Está aí mais um caso de um

homem que fez um trabalho honesto, como cientista, durante toda a vida, e, ao ficar idoso,

tornou-se parvo, piedoso, ingênuo.‟ Estou consciente de que alguns grandes nomes devem ser

incluídos nessa categoria, mas não devem contar-me entre eles. Pelo menos piedoso não me

tornei, e espero que ingênuo também não. Apenas o que acontece é que, se alguém, durante toda

a vida, tratou de se abaixar a fim de evitar uma colisão dolorosa com os fatos, também na velhice

ainda mantém as costas prontas a se dobrarem diante de novas realidades. Sem dúvida, os

senhores gostariam que eu aderisse a um teísmo moderado e me mostrasse incansável em minha

rejeição a tudo o que é oculto. Sou, contudo, incapaz de cortejar favores, e devo insistir em que

tenham idéias mais gentis acerca da possibilidade objetiva da transmissão de pensamentos e, ao

mesmo tempo, também da telepatia.

Os senhores não se esquecerão de que aqui estou apenas tratando esses problemas na

medida em que é possível abordá-los do ponto de vista da psicanálise. Quando, pela primeira vez,

eles ficaram ao alcance de minha visão, há mais de dez anos, também eu senti o receio de uma

ameaça contra nossa Weltanschauung científica, que, eu temia, estava fadada a dar lugar ao

espiritualismo e ao misticismo, se partes do ocultismo se comprovassem verdadeiras. Atualmente,

penso de modo diverso. Em minha opinião, não mostra grande confiança na ciência quem não

pensa ser possível assimilar e utilizar tudo aquilo que talvez venha a se revelar verdadeiro nas

assertivas dos ocultistas. E especialmente no que diz respeito à transmissão de pensamento, ela

parece realmente favorecer a extensão do modo científico - ou, como dizem nossos opositores,

mecanicista - de pensamento aos fenômenos mentais que são tão difíceis de apreender. Supõe-se

que o processo telepático consiste num ato mental que se realiza numa pessoa e que faz surgir o

mesmo ato mental em uma outra pessoa. Aquilo que se situa entre essesdois atos mentais

facilmente pode ser um processo físico, no qual o processo mental é transformado, em um dos

extremos, e que é reconvertido, mais uma vez, no mesmo processo mental no outro extremo. A

analogia com outras transformações, tal como ocorre no falar e no ouvir por telefone, seria então

inequívoca. Imaginem só se alguém pudesse apreender esse equivalente físico do ato psíquico! A

mim haveria de parecer que a psicanálise, ao inserir o inconsciente entre o que é físico e o que era

previamente chamado „psíquico‟, preparou o caminho para a hipótese de processos tais como a

telepatia. Basta que a pessoa se habitue à idéia da telepatia, para que possa realizar muita coisa

com ela - por enquanto, é verdade, apenas na imaginação. É um fato bastante conhecido que não

sabemos como se realiza o propósito comum nas grandes comunidades de insetos: possivelmente

se faz por meio de uma transmissão psíquica direta desse tipo. É-se levado à suspeita de que este

é o método original, arcaico, de comunicação entre indivíduos e que, no decurso da evolução

filogenética, foi substituído pelo método melhor de dar informações com o auxílio de sinais

captados pelos órgãos dos sentidos. O método anterior, contudo, poderia ter persistido nos

bastidores e ainda ser capaz de se pôr em ação sob determinadas condições - por exemplo, em

multidões de pessoas apaixonadamente excitadas. Tudo isso ainda é incerto e pleno de enigmas

não solucionados; não há, porém, razão para temê-lo.

Se existe telepatia como processo real, podemos suspeitar que, apesar de tão difícil de

demonstrar, seja um fenômeno bastante comum. Ela concordaria com nossas expectativas se

fôssemos capazes de demonstrá-la especialmente na vida mental das crianças. Aqui nos

recordamos da freqüente ansiedade sentida pelas crianças ante a idéia de que seus pais

conhecem todos os seus pensamentos, sem que estes tenham sido contados a eles - equivalente

exato e talvez fonte da crença dos adultos na onisciência de Deus. Há pouco tempo, Dorothy

Burlingham, uma testemunha fidedigna, em um artigo sobre a análise da criança e da mãe [1932],

publicou algumas observações que, podendo ser confirmadas, viriam a terminar com as dúvidas

remanescentes a respeito da realidade da transmissão de pensamento. Fez uso da situação, que

já não é mais uma situação rara, em que uma mãe e seu filho estão simultaneamente em análise,

e relatou alguns eventos notáveis, como o que se segue. Um dia, a mãe, durante sua sessão

analítica, falou de uma moeda de ouro que tinha desempenhado um papel especial em uma das

cenas de sua infância. Imediatamente depois, tendo retornado a casa, seu filhinho, de cerca de

dez anos, veio até o quarto dela e lhe trouxe uma moeda de ouro e pediu-lhe que ela a guardasse

para ele. Surpresa, ela lhe perguntou de ondeele a tinha obtido. Haviam-lhe dado a moeda no seu

aniversário; mas o aniversário do menino tinha transcorrido diversos meses antes e não havia

motivo para a criança dever lembrar-se da moeda de ouro justamente agora. A mãe referiu a

ocorrência à analista do filho e pediu-lhe para descobrir junto à criança o motivo de sua ação. A

análise da criança, contudo, não elucidou nada do assunto; a ação se havia intrometido, naquele

dia, na vida da criança, como se fora um corpo estranho. Poucas semanas depois, a mãe estava

sentada à sua escrivaninha, redigindo, como lhe havia sido dito que fizesse, um relato da

experiência, quando entrou o menino e lhe pediu de volta a moeda de ouro, pois queria tê-la

consigo para mostrar em sua sessão de análise. Mais uma vez, a análise da criança não pôde

descobrir explicação alguma para esse desejo.

E isto nos faz retornar à psicanálise, que foi de onde partimos.

CONFERÊNCIA XXXI

A DISSECÇÃO DA PERSONALIDADE PSÍQUICA

SENHORAS E SENHORES:

Sei que estão conscientes, no que diz respeito aos seus próprios relacionamentos, seja

com pessoas, seja com coisas, da importância do ponto de partida dos senhores. Também foi isto

o que se passou com a psicanálise. Não foi uma coisa sem importância, para o curso do seu

desenvolvimento ou para a acolhida que ela encontrou, o fato de ela ter começado seu trabalho

sobre aquilo que é, dentre todos os conteúdos da mente, o mais estranho ao ego - sobre os

sintomas. Os sintomas são derivados do reprimido, são, por assim dizer, seus representantes

perante o ego; mas o reprimido é território estrangeiro para o ego - território estrangeiro interno -

assim como a realidade (que me perdoem a expressão inusitada) é território estrangeiro externo. A

trajetória conduziu dos sintomas ao inconsciente, à vida dos instintos, à sexualidade; e foi então

que a psicanálise deparou com a brilhante objeção de que os seres humanos não são

simplesmente criaturas sexuais, mas têm, também, impulsos mais nobres e mais elevados.

Poder-se-ia acrescentar que, exaltados por sua consciência desses impulsos mais elevados, eles

muitas vezes assumem o direito de pensar de modo absurdo e desprezar os fatos.

Os senhores estão bem informados. Já desde o início temos dito que os seres humanos

adoecem de um conflito entre as exigências da vida instintual e a resistência que se ergue dentro

deles contra esta; e nem por um momento nos esquecemos dessa instância que resiste, rechaça,

reprime, que consideramos aparelhada com suas forças especiais, os instintos do ego, e que

coincide com o ego da psicologia popular. A verdade foi simplesmente que, em vista da natureza

laboriosa do progresso feito pelo trabalho científico, até mesmo a psicanálise não conseguiu

estudar todas as áreas simultaneamente e expressar suas opiniões sobre todos os problemas de

um fôlego só. Mas, por fim, atingiu-se o ponto em que nos foi possível desviar nossa atenção do

reprimido para as forças repressoras, e encontramos esse ego que pareceratão evidente por si

mesmo, com a segura expectativa de que aqui novamente haveríamos de encontrar coisas para as

quais não podíamos estar preparados. Não foi fácil, porém, encontrar uma abordagem inicial; e é a

respeito disto que pretendo falar-lhes hoje.

Devo, no entanto, transmitir-lhes a minha suspeita de que esta minha exposição sobre

psicologia do ego os influenciará de forma diferente da introdução ao submundo psíquico, a qual a

precedeu. Não posso dizer com certeza por que isto tem de ser assim. Pensei, antes, que os

senhores descobririam que, enquanto anteriormente eu lhes relatei principalmente fatos, embora

estranhos e característicos, os senhores, agora, estarão ouvindo principalmente opiniões - isto é,

investigações teóricas. Isto, contudo, não contradiz a situação. Considerando melhor, devo afirmar

que o montante da elaboração do material concreto de nossa psicologia do ego não é muito maior

do que era na psicologia das neuroses. Fui obrigado a rejeitar também outras explicações do

resultado que prevejo: agora acredito que é, de certo modo, uma decorrência da natureza do

material em si, e de não estarmos acostumados a abordá-lo. Em todo caso, não me surpreenderei

se os senhores se mostrarem ainda mais reservados e cautelosos no seu julgamento do que até

agora.

Pode-se esperar que a própria situação em que nos encontramos no início de nossa

investigação nos aponte o caminho. Queremos transformar o ego, o nosso próprio ego, em tema

de investigação. Mas isto é possível? Afinal, o ego é, em sua própria essência, sujeito; como pode

ser transformado em objeto? Bem, não há dúvida de que pode sê-lo. O ego pode tomar-se a si

próprio como objeto, pode tratar-se como trata outros objetos, pode observar-se, criticar-se,

sabe-se lá o que pode fazer consigo mesmo. Nisto, uma parte do ego se coloca contra a parte

restante. Assim, o ego pode ser dividido; divide-se durante numerosas funções suas - pelo menos

temporariamente. Depois, suas partes podem juntar-se novamente. Isto não é propriamente

novidade, embora talvez seja conferir ênfase incomum àquilo que é do conhecimento geral. Por

outro lado, bem conhecemos a noção de que a patologia, tornando as coisas maiores e mais

toscas, pode atrair nossa atenção para condições normais que de outro modo nos escapariam.

Onde ela mostra uma brecha ou uma rachadura, ali pode normalmente estar presente uma

articulação. Se atiramos ao chão um cristal, ele se parte, mas não em pedaços ao acaso. Ele se

desfaz, segundo linhas de clivagem, em fragmentos cujos limites, embora fossem invisíveis,

estavam predeterminados pela estrutura do cristal. Os doentes mentais são estruturas divididas e

partidas do mesmotipo. Nem nós mesmos podemos esconder-lhes um pouco desse temor

reverente que os povos do passado sentiam pelo insano. Eles, esses pacientes, afastaram-se da

realidade externa, mas por essa mesma razão conhecem mais da realidade interna, psíquica, e

podem revelar-nos muitas coisas que de outro modo nos seriam inacessíveis.

Um dos grupos dentre tais pacientes, nós o descrevemos como padecendo de delírios de

estar sendo observado. Queixam-se a nós de que, permanentemente, e até em suas ações mais

íntimas, estão sendo molestados pela observação de poderes desconhecidos - presumivelmente

pessoas - e que, em alucinações, ouvem essas pessoas referindo o resultado de sua observação:

„agora ele vai dizer isto, agora ele está se vestindo para sair‟ e assim por diante. Uma observação

dessa espécie ainda não é a mesma coisa que perseguição, mas não está longe disto; pressupõe

que as pessoas desconfiam deles e esperam pilhá-los executando atos proibidos pelos quais

seriam punidos. Como seria se essas pessoas insanas estivessem certas, se em cada um de nós

estivesse presente no ego uma instância como essa que observa e ameaça punir, e que nos

doentes mentais se tornou nitidamente separada de seu ego e erroneamente deslocada para a

realidade externa?

Não posso dizer se com os senhores acontece a mesma coisa que a mim. Há longo

tempo, sob a poderosa impressão deste quadro clínico, formei a idéia de que a separação da

instância observadora, do restante do ego, poderia ser um aspecto regular da estrutura do ego;

essa idéia nunca me abandonou, e fui levado a investigar as demais características e conexões da

instância que assim estava separada. O passo seguinte é dado rapidamente. O conteúdo dos

delírios de ser observado já sugere que o observar é apenas uma preparação do julgar e do punir

e, por conseguinte, deduzimos que uma outra função dessa instância deve ser o que chamamos

nossa consciência. Dificilmente existe em nós alguma outra coisa que tão regularmente separamos

de nosso ego e a que facilmente nos opomos como justamente nossa consciência. Sinto-me

inclinado a fazer algo que penso irá dar-me prazer, mas abandono-o pelo motivo de que minha

consciência não o admite. Ou deixei-me persuadir por uma expectativa muito grande de prazer de

fazer algo a que a voz da consciência fez objeções e, após o ato, minha consciência me pune com

censuras dolorosas e me faz sentir remorsos pelo ato. Poderia dizer simplesmente que a instância

especial que estou começando a diferenciar no ego é a consciência. É mais prudente, contudo,

manter a instância como algo independente e supor que a consciência é uma de suas funções, e

que a auto-observação, que é um preliminar essencial da atividade de julgar da consciência, é

mais uma de tais funções. E desde que, reconhecendo que algo temexistência separada, lhe

damos um nome que lhe seja seu, de ora em diante descreverei essa instância existente no ego

como o „superego„.

Estou preparado para ouvir agora os senhores perguntarem-me ironicamente se nossa

psicologia do ego não está senão tomando literalmente abstrações de uso corrente, e num sentido

primário, e transformando-as de conceitos em coisas - com o que não se teria muito a ganhar. A

isto eu responderia que, na psicologia do ego, seria difícil evitar aquilo que é conhecido

universalmente; antes, será mais uma questão de novas formas de ver as coisas e novas maneiras

de situá-las, do que de novas descobertas. Assim, refreiem suas críticas irônicas, por agora, e

aguardem mais explicações. Os fatos da patologia conferem ao nosso trabalho uma base de

informações que os senhores procurariam inutilmente na psicologia popular. Portanto,

prosseguirei.

Seria difícil familiarizarmo-nos com a idéia de um superego como este, que goza de um

determinado grau de autonomia, que age segundo suas próprias intenções e que é independente

do ego para a obtenção de sua energia; há, porém, um quadro clínico que se impõe à nossa

observação e que mostra nitidamente a severidade dessa instância e até mesmo sua crueldade,

bem como suas cambiantes relações com o ego. Estou-me referindo à situação da melancolia, ou,

mais precisamente, dos surtos melancólicos, dos quais os senhores terão ouvido falar muito, ainda

que não sejam psiquiatras. O aspecto mais evidente dessa doença, de cujas causas e de cujo

mecanismo conhecemos quase nada, é o modo como o superego - „consciência‟, podem

denominá-la assim, tranqüilamente - trata o ego. Embora um melancólico possa, assim como

outras pessoas, mostrar um grau maior ou menor de severidade para consigo mesmo nos seus

períodos sadios, durante um surto melancólico seu superego se torna supersevero, insulta,

humilha e maltrata o pobre ego, ameaça-o com os mais duros castigos, recrimina-o por atos do

passado mais remoto, que haviam sido considerados, à época, insignificantes - como se tivesse

passado todo o intervalo reunindo acusações e apenas tivesse estado esperando por seu atual

acesso de severidade a fim de apresentá-las e proceder a um julgamento condenatório, com base

nelas. O superego aplica o mais rígido padrão de moral ao ego indefeso que lhe fica à mercê;

representa, em geral, as exigências da moralidade, e compreendemos imediatamente que nosso

sentimento moral de culpa é expressão da tensão entre o ego e o superego. Constitui experiência

muitíssimo marcante ver a moralidade, que se supõe ter-nos sido dada por Deus e,

portanto,profundamente implantada em nós, funcionando nesses pacientes como fenômeno

periódico. Pois, após determinado número de meses, todo o exagero moral passou, a crítica do

superego silencia, o ego é reabilitado e novamente goza de todos os direitos do homem, até o

surto seguinte. Em determinadas formas da doença, na verdade, passa-se algo de tipo contrário,

nos intervalos; o ego encontra-se em um estado beatífico de exaltação, celebra um triunfo, como

se o superego tivesse perdido toda a sua força ou estivesse fundido no ego; e esse ego liberado,

maníaco, permite-se uma satisfação verdadeiramente desinibida de todos os seus apetites. Aqui

estão acontecimentos ricos em enigmas não solucionados!

Sem dúvida, os senhores esperarão que eu lhes dê mais do que uma simples ilustração

quando lhes informo havermos descoberto todo tipo de coisas acerca da formação do superego -

isto é, sobre a origem da consciência. Seguindo um conhecido pronunciamento de Kant, que liga a

consciência dentro de nós com o céu estrelado, um homem piedoso bem poderia ser tentado a

venerar essas duas coisas como as obras-primas da criação. As estrelas são, na verdade,

magníficas, porém, quanto à consciência, Deus executou um trabalho torto e negligente, pois da

consciência a maior parte dos homens recebeu apenas uma quantia modesta, ou mal recebeu o

suficiente para ser notado. Longe de nós desprezarmos a parcela de verdade psicológica da

afirmação segundo a qual a consciência é de origem divina; contudo a tese requer interpretação.

Conquanto a consciência seja algo „dentro de nós‟, ela, mesmo assim, não o é desde o início.

Nesse ponto, ela é um contraste real com a vida sexual, que existe de fato desde o início da vida e

não é apenas um acréscimo posterior. Pois bem, como todos sabem, as crianças de tenra idade

são amorais e não possuem inibições internas contra seus impulsos que buscam o prazer. O papel

que mais tarde é assumido pelo superego é desempenhado, no início, por um poder externo, pela

autoridade dos pais. A influência dos pais governa a criança, concedendo-lhe provas de amor e

ameaçando com castigos, os quais, para a criança, são sinais de perda do amor e se farão temer

por essa mesma causa. Essa ansiedade realística é o precursor da ansiedade moral subseqüente.

Na medida em que ela é dominante, não há necessidade de falar em superego e consciência.

Apenas posteriormente é que se desenvolve a situação secundária (que todos nós com demasiada

rapidez havemos de considerar como sendo a situação normal), quando acoerção externa é

internalizada, e o superego assume o lugar da instância parental e observa, dirige e ameaça o ego,

exatamente da mesma forma como anteriormente os pais faziam com a criança.

O superego, que assim assume o poder, a função e até mesmo os métodos da instância

parental, é, porém, não simplesmente seu sucessor, mas também, realmente, seu legítimo

herdeiro. Procede diretamente dele, e verificaremos agora por que processo. Antes, porém,

atentemos para uma discrepância entre os dois. O superego parece ter feito uma escolha unilateral

e ter ficado apenas com a rigidez e severidade dos pais, com sua função proibidora e punitiva, ao

passo que o cuidado carinhoso deles parece não ter sido assimilado e mantido. Se os pais

realmente impuseram sua autoridade com severidade, facilmente podemos compreender que a

criança desenvolva, em troca, um superego severo. Contrariando nossas expectativas, porém, a

experiência mostra que o superego pode adquirir essas mesmas características de severidade

inflexível, ainda que a criança tenha sido educada de forma branda e afetuosa, e se tenham

evitado, na medida do possível, ameaças e punições. Mais adiante, retornaremos a essa

contradição, quando tratarmos das transformações do instinto durante a formação do superego.

Não posso dizer-lhes tanto quanto gostaria a respeito da metamorfose do relacionamento

parental em superego, em parte porque esse processo é tão complexo, que uma exposição dele

não cabe dentro do esquema de trabalho de uma série de conferências de introdução, como a que

tento dar-lhes, mas em parte, também, porque não nos sentimos seguros de que estejamos

compreendendo-a por inteiro. Assim, devem satisfazer-se com o esboço que se segue.

A base do processo é o que se chama „identificação‟ - isto é, a ação de assemelhar um

ego a outro ego, em conseqüência do que o primeiro ego se comporta como o segundo em

determinados aspectos, imita-o e, em certo sentido, assimila-o dentro de si. A identificação tem

sido comparada, não inadequadamente, com a incorporação oral, canibalística, da outra pessoa. É

uma forma muito importante de vinculação a uma outra pessoa, provavelmente a primeira forma, e

não é o mesmo que escolha objetal. A diferença entre ambas pode ser expressa mais ou menos

da seguinte maneira. Se um menino se identifica com seu pai, ele quer ser igual a seu pai; se fizer

dele o objeto de sua escolha, o menino quer tê-lo, possuí-lo. No primeiro caso, seu ego modifica-se

conforme o modelo de seu pai; no segundo caso, isso não énecessário. Identificação e escolha

objetal são, em grande parte, independentes uma da outra; no entanto, é possível identificar-se

com alguém que, por exemplo, foi tomado como objeto sexual, e modificar o ego segundo esse

modelo. Diz-se que a influência sobre o ego, motivada pelo objeto sexual, ocorre com particular

freqüência em mulheres e é característica da feminilidade. Devo ter-lhes falado, já, em minhas

conferências anteriores, daquilo que é, sem dúvida, a relação mais esclarecedora entre

identificação e escolha objetal. Pode ser observado com igual facilidade em crianças e em adultos,

tanto em pessoas normais como em pessoas doentes. Se alguém perdeu um objeto, ou foi

obrigado a se desfazer dele, muitas vezes se compensa disto identificando-se com ele e

restabelecendo-o novamente no ego, de modo que, aqui, a escolha objetal regride, por assim dizer

à identificação.

Eu próprio não estou, de modo algum, satisfeito com esses comentários sobre

identificação; mas isto será suficiente se os senhores puderem assegurar-me de que a instalação

do superego pode ser classificada como exemplo bem-sucedido de identificação com a instância

parental. O fato que fala decisivamente a favor desse ponto de vista é que essa nova criação de

uma instância superior dentro do ego está muito intimamente ligada ao destino do complexo de

Édipo, de modo que o superego surge como o herdeiro dessa vinculação afetiva tão importante

para a infância. Abandonando o complexo de Édipo, uma criança deve, conforme podemos ver,

renunciar às intensas catexias objetais que depositou em seus pais, e é como compensação por

essa perda de objetos que existe uma intensificação tão grande das identificações com seus pais,

as quais provavelmente há muito estiveram presentes em seu ego. Identificações desse tipo,

cristalização de catexias objetais a que se renunciou, repetir-se-ão muitas vezes, posteriormente,

na vida da criança; contudo, está inteiramente de acordo com a importância afetiva desse primeiro

caso de uma tal transformação o fato de que se deve encontrar no ego um lugar especial para seu

resultado. Uma investigação atenta mostrou-nos, também, que o superego é tolhido em sua força e

crescimento se a superação do complexo de Édipo tem êxito apenas parcial. No decurso do

desenvolvimento, o superego também assimila as influências que tomaram o lugar dospais -

educadores, professores, pessoas escolhidas como modelos ideais. Normalmente, o superego se

afasta mais e mais das figuras parentais originais; torna-se, digamos assim, mais impessoal. E não

se deve esquecer que uma criança tem conceitos diferentes sobre seus pais, em diferentes

períodos de sua vida. À época em que o complexo de Édipo dá lugar ao superego, eles são algo

de muito extraordinário; depois, porém, perdem muito desse atributo. Realizam-se, pois,

identificações também com esses pais dessa fase ulterior, e, na verdade, regularmente fazem

importantes contribuições à formação do caráter; nesse caso, porém, apenas atingem o ego, já

não mais influenciam o superego que foi determinado pelas imagos parentais mais primitivas.

Espero que já tenham formado uma opinião de que a hipótese do superego realmente

descreve uma relação estrutural, e não é meramente uma personificação de abstrações tais como

a da consciência. Resta mencionar mais uma importante função que atribuímos a esse superego.

É também o veículo do ideal do ego, pelo qual o ego se avalia, que o estimula e cuja exigência por

uma perfeição sempre maior ele se esforça por cumprir. Não há dúvida de que esse ideal do ego é

o precipitado da antiga imagem dos pais, a expressão de admiração pela perfeição que a criança

então lhes atribuía.

Tenho como certo que os senhores já ouviram falar muito no sentimento de inferioridade,

que se supõe caracterize especialmente os neuróticos. Ele freqüenta, em particular, as páginas do

que se conhece como belles lettres. Um autor, ao usar a expressão „complexo de inferioridade‟,

pensa que com isto satisfez todas as exigências da psicanálise e elevou sua criação literária a um

plano mais elevado. De fato, „complexo de inferioridade‟ é um termo técnico quase nunca usado

em psicanálise. Para nós, ele não comporta o significado de algo simples, nem, muito menos, de

algo elementar. Atribuí-lo à autopercepção de possíveis defeitos orgânicos, como pretende fazê-lo

a escola daqueles que são conhecidos como „psicólogos do indivíduo‟, parece-nos um erro

insensato. O sentimento de inferioridade possui fortes raízes eróticas. Uma criança sente-se

inferior quando verifica que não é amada, e o mesmo se passa com o adulto. O único órgão

corporal realmente considerado inferior é o pênis atrofiado, o clitóris da menina.A parte principal do

sentimento de inferioridade, porém, deriva-se da relação do ego com o superego; assim como o

sentimento de culpa, é expressão da tensão entre eles. Em conjunto, é difícil separar o sentimento

de inferioridade do sentimento de culpa. Talvez seja correto considerar aquele como o

complemento erótico do sentimento moral de inferioridade. Deu-se pouca atenção, na psicanálise,

à questão referente à delimitação dos dois conceitos.

Justamente porque o complexo de inferioridade se tornou tão popular, arriscar-me-ei, aqui

a entretê-los com uma breve digressão. Um personagem histórico dos nossos dias, que ainda vive,

embora no momento se tenha retirado de cena, sofre de um defeito em um dos membros, devido a

uma lesão no nascimento. Um conhecido escritor contemporâneo, especialmente dado a compilar

biografias de celebridades, abordou, entre outras coisas, a vida do homem de quem estou falando.

Ora, ao escrever uma biografia, talvez seja difícil suprimir uma necessidade de sondar as

profundezas psicológicas. Por essa razão, nosso autor arriscou-se a uma tentativa de erigir todo o

desenvolvimento do caráter de seu herói sobre o sentimento de inferioridade que devia ter sido

provocado por seu defeito físico. Com isso, desprezou ele um fato diminuto, mas não insignificante.

É comum as mães, a quem o destino presenteou com um filho doentio ou portador de alguma

outra desvantagem, tentarem compensá-lo de sua injusta desvantagem com uma superabundância

de amor. No exemplo em questão, a orgulhosa mãe portou-se de modo diferente; retirou do filho o

seu amor, por causa da enfermidade dele. Quando chegou a ser um homem de grande poder,

demonstrou inequivocamente, por seus atos, não se haver jamais esquecido de sua mãe. Quando

os senhores considerarem a importância do amor de uma mãe para a vida mental de uma criança,

sem dúvida efetuarão uma tácita correção da teoria da inferioridade proposta pelo biógrafo.

Retornemos, porém, ao superego. Atribuímos-lhe as funções de auto-observação, de

consciência e de [manter] o ideal. Daquilo que dissemos sobre sua origem, segue-se que ele

pressupõe um fato biológico extremamente importante e um fato psicológico decisivo; ou seja, a

prolongada dependência da criança em relação a seus pais e o complexo de Édipo, ambos

intimamente inter-relacionados. O superego é para nós o representante de todas as restrições

morais, o advogado de um esforço tendente à perfeição - é, em resumo, tudo o que pudemos

captar psicologicamente daquilo que é catalogado como o aspecto mais elevado da vida do

homem. Como remonta à influência dos pais, educadores, etc., aprendemos mais sobre seu

significado se nos voltamos para aqueles que são sua origem. Via de regra, os pais, e as

autoridades análogas a eles, seguem os preceitos de seus próprios superegos ao educar as

crianças. Seja qual for o entendimento a que possam ter chegado entre si o seu ego e o seu

superego, são severos e exigentes ao educar os filhos. Esqueceram as dificuldades de sua própria

infância e agora se sentem contentes com identificar-se eles próprios, inteiramente, com seus pais,

que no passado impuseram sobre eles restrições tão severas. Assim, o superego de uma criança

é, com efeito, construído segundo o modelo não de seus pais, mas do superego de seus pais; os

conteúdos que ele encerra são os mesmos, e torna-se veículo da tradição e de todos os

duradouros julgamentos de valores que dessa forma se transmitiram de geração em geração.

Facilmente podem adivinhar que, quando levamos em conta o superego, estamos dando um passo

importante para a nossa compreensão do comportamento social da humanidade - do problema da

delinqüência, por exemplo - e, talvez, até mesmo estejamos dando indicações práticas referentes à

educação. Parece provável que aquilo que se conhece como visão materialista da história peque

por subestimar esse fator. Eles o põem de lado, com o comentário de que as „ideologias‟ do

homem nada mais são do que produto e superestrutura de suas condições econômicas

contemporâneas. Isto é verdade, mas muito provavelmente não a verdade inteira. A humanidade

nunca vive inteiramente no presente. O passado, a tradição da raça e do povo, vive nas ideologias

do superego e só lentamente cede às influências do presente,no sentido de mudanças novas; e,

enquanto opera através do superego, desempenha um poderoso papel na vida do homem,

independentemente de condições econômicas. [Cf. [1]]

Em 1921, procurei utilizar a diferenciação entre o ego e o superego num estudo sobre

psicologia de grupo. Cheguei a uma fórmula do seguinte teor: um grupo psicológico é uma coleção

de indivíduos que introduziram a mesma pessoa em seu superego e, com base nesse elemento

comum, identificaram-se entre si no seu ego. Isto se aplica, naturalmente, apenas a grupos que

têm um líder. Se possuíssemos mais aplicações dessa espécie, a hipótese do superego perderia

seus últimos resquícios de ser uma coisa estranha para nós, e nos livraríamos completamente da

perplexidade de que somos tomados quando, acostumados como estamos à atmosfera do

submundo, nos movemos nas camadas mais superficiais, mais elevadas, do aparelho mental. Não

supomos, naturalmente, que, com o destaque dado ao superego, tenhamos dito a última palavra

sobre a psicologia do ego. É, antes, um primeiro passo; porém, nesse caso, o difícil não é só o

primeiro passo.

Agora, contudo, um outro problema nos aguarda - no lado oposto do ego, poderíamos

dizer. No-lo apresenta um fato observado durante o trabalho da análise, uma observação que é

realmente muito antiga. Como não raro acontece, levou muito tempo até se chegar ao ponto de ser

avaliada sua importância. Toda a teoria da psicanálise, como sabem, é de fato construída sobre a

percepção da resistência que o paciente nos oferece, quando tentamos tornar-lhe consciente o seu

inconsciente. O sinal objetivo dessa resistência é suas associações deixarem de fluir livremente do

assunto que está sendo tratado. Pode, também, o paciente reconhecer subjetivamente a

resistência pelo fato de que tem sentimentos desagradáveis quando se aproxima do assunto. Esse

último sinal, contudo, também pode estar ausente. Dizemos então ao paciente que inferimos de

sua conduta que ele está, agora, num estado de resistência; e ele responde que nada sabe disso e

só se apercebe de que suas associações se tornaram mais difíceis. Acontece que tínhamos razão;

mas, nesse caso, sua resistência também era inconsciente, tão inconsciente quanto o reprimido,

em cujo esclarecimento estamos trabalhando. Há muito deveríamos ter feito a pergunta: de que

parte de sua mente surge uma resistência de tal ordem? O principiante em psicanálise está pronto

para responder de imediato: é, naturalmente, a resistência do inconsciente. Resposta ambígua e

inútil! Se significa que a resistência surge do reprimido, devemos acrescentar: certamente não!

Devemos, antes, atribuir ao reprimido uma tendência ascendente, um impulso de irromper na

consciência. A resistência só pode ser manifestação do ego, que originalmente forçou a repressão

e agora deseja mantê-la. Ademais, esta é a opinião que sempre tivemos. Porque chegamos a

supor uma instância especial no ego, o superego, o qual representa as exigências de caráter

restritivo e objetável, podemos dizer que a repressão é o trabalho desse superego, e que é

efetuada ou por este mesmo, ou pelo ego, em obediência a ordens dele. Se, pois, na análise,

deparamos com o caso de a resistência não ser consciente para o paciente, isto significa que, em

situações muito importantes, o superego e o ego podem operar inconscientemente, ou que - e isto

seria ainda mais importante - partes de ambos, do ego e do superego, são inconscientes. Nos dois

casos, temos de contar com a desagradável descoberta de que, por um lado, o (super)ego e o

consciente e, por outro lado, o reprimido e o inconsciente não são de modo algum coincidentes.

E aqui, senhoras e senhores, sinto que devo fazer uma pausa para tomar fôlego - o que os

senhores receberão com alívio - e, antes de prosseguir, pedir-lhes desculpas. Minha intenção é

fornecer-lhes alguns acréscimos às conferências introdutórias sobre psicanálise, que iniciei há

quinze anos, e sinto-me obrigado a conduzir-me como se, tanto os senhores como eu, nesse

intervalo, não tivéssemos feito outra coisa senão exercer a psicanálise. Sei que uma tal suposição

é descabida; não tenho, porém, outro recurso, não posso agir de modo diferente. Isto se relaciona,

sem dúvida, ao fato de que, em geral, é tão difícil proporcionar a quem não é psicanalista uma

compreensão interna (insight) da psicanálise. Os senhores podem acreditar em mim, quando lhes

digo que não é de nosso agrado dar uma impressão de sermos membros de uma sociedade

secreta e de praticarmos uma ciência mística. Mesmo assim, temos sido obrigados a reconhecer e

a expressar nossa convicção de que ninguém tem o direito de participar de uma discussão sobre

psicanálise, se não teve experiência própria, que só pode ser obtida ao ser analisado. Quando lhes

proferi minhas conferências, há quinze anos, procurei poupar-lhes determinadas partes

especulativas de nossa teoria; mas é justamente delas que derivam as novas aquisições de que

devo falar-lhes, hoje.

Retorno, agora, ao nosso tema. Em face da dúvida quanto a saber se o ego e o superego

são inconscientes, ou se simplesmente produzem efeitos inconscientes, decidimo-nos, por boas

razões, a favor da primeira possibilidade. E é realmente este o caso: grande parte do ego e do

superego pode permanecer inconsciente e é normalmente inconsciente. Isto é, a pessoa nada

sabe dos conteúdos dos mesmos, e é necessário dispender esforços para torná-los conscientes. É

um fato que o ego e o consciente, o reprimido e o inconsciente não coincidem. Sentimos

necessidade de proceder a uma revisão fundamental de nossa atitude relativa a esse problema

consciente-inconsciente. Em primeiro lugar, sentimo-nos muito inclinados a reduzir o valor do

critério do ser consciente, de vez que se mostrou tão pouco digno de fé. Mas estaríamos

fazendo-lhe uma injustiça. E como se pode dizer de nossa vida: não tem muito valor, mas é tudo o

que temos. Sem a revelação proporcionada pela qualidade da consciência, estaríamos perdidos na

obscuridade da psicologia profunda; devemos, contudo, encontrar nosso rumo.

Não há necessidade de discutir o que se deva denominar consciente: não pairam dúvidas

sobre isto. O mais antigo e o melhor significado da palavra „inconsciente‟ é o significado descritivo.

Denominamos inconsciente um processo psíquico cuja existência somos obrigados a supor -

devido a algum motivo tal