A Epopéia de Gilgamesh (rev) - Anonimo, Notas de estudo de História
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A Epopia de

A Epopéia de

Anônimo

Tradução de Carlos Daudt de Oliveira ISBN 85-336-1389-X

Sumário Introdução

Agradecimentos

A Epopéia de Gilgamesh

Prólogo: Gilgamesh, rei de Uruk

1. A chegada de Enkidu

2. A jornada na floresta

3. Ishtar e Gilgamesh, e a morte de Enkidu

4. A busca da vida eterna

5. A história do dilúvio

6. A volta

7. A morte de Gilgamesh

Glossário onomástico

Apêndice: fontes

Introdução

1. A história da Epopéia A Epopéia de Gilgamesh, o famoso rei de Uruk, na Mesopotâmia,

provém de uma era totalmente esquecida até o século passado,

quando os arqueólogos começaram a escavar as cidades soterradas

do Oriente Médio. Até então, toda a história relativa ao longo período

que separa Noé de Abraão estava contida em dois dos livros menos

atraentes, por serem de cunho genealógico, do Livro do Gênesis. Destes

capítulos, apenas dois nomes são lembrados até hoje no linguajar

cotidiano: o do caçador Nimrod e o da torre de Babel. O ciclo de

poemas reunidos em torno de Gilgamesh nos leva, contudo, de volta ao

meio daquele período.

Estes poemas têm direito a um lugar na literatura mundial, não

apenas por precederem às epopéias homéricas em pelo menos mil e

quinhentos anos, mas principalmente pela qualidade e originalidade da

história que narram. Trata-se de uma mistura de pura aventura,

moralidade e tragédia. Por meio da ação estes poemas nos revelam

uma preocupação bastante humana com a mortalidade, a busca do

conhecimento e a tentativa de escapar ao destino do homem comum.

Os deuses não podem ser trágicos, pois não morrem. Se Gilgamesh não

é o primeiro herói humano, é o primeiro herói trágico sobre o qual

conhecemos alguma coisa. É aquele com quem mais nos identificamos

e que melhor representa o homem em busca da vida e do

conhecimento, uma busca que não pode conduzi-lo senão à tragédia.

Pode talvez causar alguma surpresa o fato de que algo tão antigo

quanto uma história do terceiro milênio a.C. tenha ainda algum poder

para comover e continuar atraindo leitores no século XX; isto no entanto

acontece. A narrativa está incompleta e pode ser que continue assim;

ela é, porém, o mais admirável poema épico que nos chegou de todo o

período anterior ao aparecimento da Ilíada de Homero; e é também

incomparavelmente mais antigo.

Temos boas razões para crer que a maior parte dos poemas de

Gilgamesh já haviam sido escritos nos primeiros séculos do segundo

milênio a.C. e que provavelmente já existiam numa forma bastante

semelhante muitos séculos antes disso, ao passo que o texto definitivo e

a edição mais completa da epopéia vêm do século VII, da biblioteca de

Assurbanipal, antiquário e último dos grandes reis do Império Assírio.

Assurbanipal foi um grande general, o saqueador do Egito e de Susa;

mas foi também o compilador de uma notável biblioteca, composta por

documentos relativos à história contemporânea e por hinos, poemas e

textos científicos e religiosos muito mais antigos. Ele nos conta que enviou

seus servos aos antigos centros de saber de Babilônia, Uruk e Nippur para

que pesquisassem seus arquivos e copiassem e traduzissem para o

semítico acadiano da época os textos escritos na antiga língua suméria

da Mesopotâmia. Entre esses textos, "Copiados segundo o original e

cotejados no palácio de Assurbanipal, Rei do Mundo, Rei da Assíria",

estava o poema que chamamos a Epopéia de Gilgamesh.

Não muito depois de este trabalho de cotejo ter sido concluído, a

epopéia virtualmente perdeu-se e o nome do herói foi esquecido,

deturpado ou desfigurado até se tornar praticamente irreconhecível —

até ser redescoberto no século passado. Esta descoberta deveu-se, em

primeiro lugar, à curiosidade de dois ingleses, e depois ao trabalho de

muitos estudiosos em diferentes partes do mundo, que juntaram,

copiaram e traduziram as tábuas de argila onde o poema foi escrito.

Esta é uma obra ainda em andamento, e a cada ano que se passa mais

lacunas são preenchidas; mas o corpo principal da epopéia assíria não

tem sido alterado em seus aspectos essenciais desde a monumental

publicação do texto, Com transliteração e comentários, por Campbell

Thompson, em 1928 e 1930. Mais recentemente, contudo, atingiu-se um

novo estágio, e uma nova onda de interesse surgiu em torno do trabalho

do Professor Samuel Kramer, da Pensilvânia, cujo cotejo e tradução dos

textos sumérios leva a história da epopéia

de volta ao terceiro milênio antes de Cristo. Já é possível agora

combinar e comparar um corpo de escritos bem maior e bem mais

antigo do que o que tínhamos até então.

2. A descoberta das tábuas

A descoberta das tábuas remonta à era heróica das escavações,

em meados do século XIX, quando, embora os métodos não fossem

sempre tão escrupulosos nem os objetivos tão estritamente científicos

como hoje, as dificuldades e até mesmo os perigos do empreendimento

eram bem maiores, e os resultados causavam um impacto capaz de

alterar profundamente a perspectiva intelectual da época. Em 1839, um

jovem inglês, Austen Henry Layard, partiu com um amigo para uma

viagem por terra até o Ceilão; mas ele se deteve por algum tempo na

Mesopotâmia para fazer um reconhecimento das colinas assírias. A

demora de algumas semanas se estendeu por anos, mas por fim Nínive e

Nimrud foram escavadas; e foi de uma dessas escavações que Layard

trouxe para o Museu Britânico uma grande parte de sua coleção de

esculturas assírias, junto com milhares de tábuas quebradas do palácio

de Nínive.

Quando Layard começou a escavar em Nínive, esperava

encontrar inscrições; mas a realidade, uma biblioteca soterrada

contendo toda uma literatura perdida, superou suas maiores

expectativas. Na verdade, a extensão e o valor da descoberta só foram

avaliados posteriormente, depois que as tábuas com caracteres em

forma de cunha foram decifradas. Como era de esperar, algumas

dessas tábuas se perderam; mas mais de vinte e cinco mil tábuas

quebradas, uma quantidade enorme, foram levadas para o Museu

Britânico. O trabalho de decifração foi iniciado por Henry Rawlinson, na

residência oficial do governador-geral em Bagdá, onde Rawlinson

ocupava o cargo de agente político. Antes de ir para Bagdá, Rawlinson,

então um oficial do exército a serviço da Companhia das índias Orientais,

havia descoberto aquilo que acabaria se revelando a principal chave

para a decifração do cuneiforme: uma grande inscrição, a "Inscrição de

Dario", encontrada na rocha de Behistun, perto de Kermanshah, na

Pérsia, escrita em caracteres cuneiformes em três línguas — o persa, o

babilônico e o elamita arcaicos. O trabalho iniciado por Rawlinson em

Bagdá prosseguiu no Museu Britânico quando o orientalista retornou à

Inglaterra em 1855. Logo após seu retorno, começou a publicar

Cuneiform Inscriptions of Western Ásia. Em 1866, George Smith juntou-se a

Rawlinson como assistente no trabalho de decifração das tábuas. Nesse

meio tempo, Rassam, o colaborador e sucessor de Layard em Nínive,

havia escavado em 1853 a parte da biblioteca em que estavam as

tábuas com o cotejo assírio da Epopéia de Gilgamesh. A importância da

descoberta só foi percebida vinte anos mais tarde, quando em

dezembro de 1872, num encontro da recém-fundada Sociedade de

Arqueologia Bíblica, George Smith anunciou: "Pouco tempo atrás,

descobri entre as tábuas assírias no Museu Britânico um relato do dilúvio."

Era a décima primeira tábua da recensão assíria da Epopéia de

Gilgamesh. Logo depois desta revelação, Smith publicou Chaldean

Account of the Deluge, contendo um resumo da narrativa de Gilgamesh.

O interesse foi imediato e geral; mas a própria tábua do Dilúvio estava

incompleta, e isto fez com que se iniciasse uma nova busca para trazer

de volta mais tábuas. O Daily Telegraph contribuiu com mil guinéus para

que fossem feitas mais escavações em Nínive. George Smith

comandaria o trabalho em nome do Museu Britânico. Pouco depois de

sua chegada a Nínive, Smith encontrou as linhas que faltavam da

descrição do dilúvio. Este material era na época, e ainda é, a parte mais

completa e bem preservada de toda a epopéia. Muitas outras tábuas

foram achadas naquele ano e no ano seguinte, e Smith pôde reconstituir

a maior parte da versão assíria antes de sucumbir, em 1876, à doença e

à fome, vindo a falecer perto de Alepo aos trinta e seis anos; mas já

desbravara todo um novo território na área dos estudos bíblicos e da

história antiga.

Ao publicar o "Dilúvio" assírio, Smith afirmou tratar-se

evidentemente de uma cópia de uma versão muito mais antiga feita em

Uruk, a Erech da Bíblia, conhecida hoje como Warka. Alguns anos antes,

entre 1849 e 1852, W. K. Loftus, membro da Comissão de Fronteira

Turco-Persa, passara duas curtas temporadas escavando em Warka,

onde encontrou curiosos restos, inclusive tábuas e aquilo que hoje

sabemos ser paredes de mosaico do terceiro milênio. Mas Warka teve de

esperar até os anos vinte e trinta deste século para vir a receber mais

atenção; foi quando os alemães empreenderam grandes escavações

que revelaram uma longa série de construções, bem como tábuas e

esculturas. Graças a esse trabalho, sabe-se muito hoje em dia a respeito

da antiga Uruk, de seus templos e da vida de seus habitantes.

Ainda mais importantes para a história da Epopéia de Gilgamesh

foram as atividades de uma expedição americana da Universidade da

Pensilvânia, comandada por John Punnet Peters, que ao final do século

XIX começou a trabalhar no monte de Niffer, a antiga Nippur, no sul do

Iraque. Já se tinha nessa época bem mais experiência com os

problemas que envolviam a escavação de cidades antigas; mas ainda

assim os riscos eram enormes. O primeiro período em Nippur, 1888-9,

começou alegremente com a chegada de Peters e seu grupo ao sítio

de escavação, depois de um galope desenfreado através dos

bambuzais em cima de fogosos garanhões; mas sua última visão do

monte ao final da temporada foi a de árabes hostis executando uma

dança de guerra nas ruínas do acampamento. O trabalho continuou,

contudo, no ano seguinte, e um total de trinta a quarenta mil tábuas

foram encontradas e distribuídas entre museus na Filadélfia e Istambul.

Em um pequeno grupo destas tábuas encontram-se as versões mais

antigas do ciclo de Gilgamesh na língua suméria. O trabalho em campo

e nos museus continua. Com a publicação das tábuas de Ur que se

encontram no Museu Britânico, novos acréscimos foram feitos ao texto

conhecido. Foram também identificadas tábuas em Bagdá e em outras

partes, algumas de importância histórica, outras diretamente

relacionadas ao texto. A dispersão deste material tem complicado o

trabalho de decifração, pois, em alguns casos, metade de uma tábua

importante está guardada na América e a outra em Istambul,

fazendo-se necessário juntar cópias de ambas as partes para que seu

conteúdo possa ser compreendido.

A maioria dos textos antigos são documentos comerciais e

administrativos, arquivos de negócios, listas e inventários que, embora

sejam profundamente interessantes para o historiador, não o são para o

leitor médio. A recente decifração da escrita conhecida como "linear B",

da Era do Bronze de Micenas e Creta, não revelou literatura alguma.

Uma enorme biblioteca descoberta em Kültepe, na Anatólia Central,

compõe-se integralmente de registros de transações comerciais;

excetuando-se um solitário texto, que, além disso, é uma maldição, não

há ali nada de natureza literária. A importância das escavações em

Nippur, Nínive e outros grandes centros da antiga civilização

mesopotâmica é terem restaurado uma literatura de alta qualidade e

de caráter único.

A Epopéia de Gilgamesh deve ter sido bastante conhecida no

segundo milênio antes de Cristo, pois encontrou-se uma versão da

narrativa nos arquivos da capital imperial hitita em Boghazköy, na

Anatólia, escrita em acadiano semítico; e foi também traduzida para o

hitita indo-europeu e para a língua hurrita. Encontraram-se partes da

epopéia em Sultantepe, no sul da Turquia-; e um fragmento, pequeno

mas importante, descoberto em Megido, na Palestina, aponta para a

existência de uma versão cananéia ou palestina mais moderna, o que

sugere a possibilidade de os primeiros autores da Bíblia estarem

familiarizados com a história. O fragmento palestino vem da tábua que

descreve a morte de Enkidu. A versão que mais se aproxima deste

fragmento é a do conhecido relato de Boghazköy. As escavações feitas

em Ras Shamra, a antiga Ugarit, na costa síria, trouxeram de volta à vida

uma literatura épica independente, cujas versões escritas datam em sua

maioria da segunda metade do segundo milênio. Esta literatura era

também conhecida na capital hitita, e um de seus fragmentos refere-se

a uma narrativa do dilúvio que provavelmente foi derivada da narrativa

de Gilgamesh. Percebe-se, então, que as várias tradições literárias da

época, incluindo as hititas, coincidiam em muitos pontos e às vezes

chegavam a se misturar, e recentemente levantou-se a hipótese da

provável existência de uma tradição poética egéia-micênica bem

semelhante, cujos elementos teriam sobrevivido à era das trevas e

reaparecido na poesia homérica e na poesia grega posterior. Toda a

questão envolvendo a data e a natureza deste indiscutível elemento

asiático na mitologia e nas primeiras produções poéticas da Grécia

ainda está sob discussão e se mantém envolta em incertezas.

Tenha ou não chegado ao Egeu a fama de Gilgamesh de Uruk —

e esta é uma idéia fascinante —, não resta a menor dúvida de que o

herói gozou de tanto renome quanto qualquer outro de tempos

posteriores. Seu nome tornou-se aos poucos tão familiar que passaram a

lhe imputar anedotas e outras invenções, como numa fraude popular

que sobreviveu em tábuas do século VIII a.C, que provavelmente são

cópias de um texto mais antigo. Trata-se de uma carta supostamente

escrita por Gilgamesh a um outro rei, com ordens para que enviasse uma

quantidade absurda de gado e metais, assim como de ouro e pedras

preciosas, que serviriam à confecção de um amuleto para Enkidu, que

não pesaria menos de quinze quilos. A anedota deve ter sido muito bem

recebida, pois sobreviveu em quatro cópias, todas de Sultantepe. O

texto foi recentemente traduzido e publicado pelo Dr. Oliver Gurney.

3. O contexto histórico

As escavações arqueológicas e a decifração dos textos

ensinaram-nos muito a respeito do contexto histórico e literário da

Epopéia. Embora somente a última versão, a da biblioteca de

Assurbanipal, tenha sobrevivido em forma relativamente completa, a

impressão que se tem é de que todos os elementos mais importantes da

história existiam como poemas separados na literatura suméria mais

antiga; poemas estes que podem ter sido, e é quase certo que foram,

compostos e recitados oralmente muito antes de terem sido registrados

em forma escrita. Embora nenhum elemento da história possa ser

posterior à destruição de Nínive no século VII, uma situação típica do

terceiro milênio é discernível por detrás de grande parte da ação e

provavelmente proporcionou seu contexto. A tradição por trás disso

remonta mais uma vez à era anterior ao aparecimento da escrita, na

fronteira entre a lenda e a história, um pouco depois do Dilúvio, quando

os deuses foram substituídos pelos mortais nos tronos das

cidades-estados. Estamos falando da civilização suméria arcaica. Os

sumários foram os primeiros habitantes da Mesopotâmia a conhecer a

escrita, e é na língua deles que foram escritas as mais antigas tábuas de

Nippur relacionadas a Gilgamesh. Eles já haviam irrigado o país e

povoado o território com suas cidades antes da invasão das tribos

semíticas no decorrer do terceiro milênio. Os próprios sumérios devem ter

sido conquistadores a entrar na região pelo norte e pelo leste durante o

quarto milênio. A influência deste povo talentoso, demonstrada nas leis,

na língua e no campo das idéias, persistiu por muito tempo após a

invasão de seus vizinhos semitas. Esta influência tem sido comparada, e

com justiça, à de Roma sobre a Europa medieval. Seu idioma continuou

sendo utilizado na escrita, como o latim na Idade Média, por muitos

séculos após a perda de sua identidade política. Por isso, não representa

anacronismo algum o fato de encontrarmos os primeiros textos de

Gilgamesh escritos nesta língua "culta", embora a maior parte deles date

do começo do segundo milênio, após a conquista semita.

As escavações mostram que a civilização suméria arcaica do

começo do terceiro milênio, também chamada civilização do antigo

período dinástico, é posterior aos notáveis sinais de enchentes

constatados em vários sítios importantes: entre eles, Shurrupak, Kish e Uruk.

Estes sinais coincidem com o final do último período pré-histórico, que os

arqueólogos chamam Período de Jemdet Nasr; mas não há provas de

que tenham sido rigorosamente contemporâneos. Sir Leonard Wolley

identificou em Ur uma catástrofe ainda mais antiga, mas sua extensão foi

apenas local, e não há provas arqueológicas que corroborem a

ocorrência de um desastre natural de proporções devastadoras; nem

mesmo as mais antigas tradições sumérias fazem menção a um dilúvio

de conseqüências catastróficas. Nos escritos sumérios posteriores, bem

como nos antigos textos babilônicos, as enchentes e os dilúvios são

enviados pelos deuses, junto com outros castigos igualmente

catastróficos: a doença, a seca e a fome. Citam-se cinco cidades que

teriam existido antes do dilúvio, e, para elas, "o Poder Real descia do

Céu". Após a catástrofe, "O Poder Real mais uma vez desceu à Terra", e

as cidades-estados que surgiram nessa época freqüentemente se

punham em guerra umas contra as outras. A semi-histórica "Lista

Dinástica Suméria", composta no começo do segundo milênio, mostra

que Kish foi a primeira cidade a ganhar preeminência; mas, algum

tempo depois, Uruk derrotou Kish e tirou-lhe a supremacia. Estes dois

Estados eram tradicionalmente rivais. Na lista dinástica, Gilgamesh

consta como o quinto monarca da primeira dinastia pós-diluviana de

Uruk (ver abaixo).

A riqueza destas cidades tornava-as alvo de cobiça, uma grande

tentação para as tribos semitas selvagens da Arábia e para os povos

guerreiros do Elam e das regiões montanhosas da Pérsia, a leste. Pouco

depois da queda da dinastia de Uruk, quando os semitas se instalaram

em Agade, no norte, seu rei, Sargão, afirmou ter sob seu comando um

exército fixo de 5.400 soldados. Entre suas principais façanhas estava a

destruição das muralhas de Uruk. Estas muralhas haviam se tornado

proverbiais. Dizia-se "Uruk das fortes muralhas", e, tradicionalmente, fora

Gilgamesh o grande construtor.

No antigo período dinástico sumério, cada cidade já tinha seus

próprios templos em homenagem aos deuses. Eram construções

magníficas, decoradas com mosaicos e relevos, e geralmente

compreendiam um grande pátio e um santuário interno, tendo às vezes,

como em Uruk, um zigurate na parte de trás. O zigurate era uma

montanha sagrada em miniatura: uma antecâmara entre o Céu e a

Terra, onde os deuses podiam conversar com os homens. Assim, quando

Gilgamesh evoca a deusa Ninsun, sua mãe divina, ela sobe ao topo do

templo para oferecer orações e sacrifícios ao grande Deus-Sol. Os

templos eram cuidados por um corpo perpétuo de sacerdotes, em cujas

mãos, em determinada época, chegou a ficar quase toda a riqueza do

Estado. Entre os sacerdotes estavam os arquivistas e os professores, os

estudiosos e os matemáticos. Logo no começo, todo o poder temporal

estava em suas mãos, já que eram servos do deus cujas propriedades

administravam. Mais tarde, um único indivíduo passou a ser o "locatário

da fazenda" ou o zelador, até o momento em que o "Poder Real desceu

do Céu", quando o poder foi secularizado, e as dinastias reais, de

aspecto agressivo e competitivo, passaram a suceder-se umas às outras.

O grande prestígio dos templos, porém, permaneceu inalterado.

Uma das causas do militarismo no terceiro milênio era o fator

econômico. A parte sul da Mesopotâmia até o Golfo Pérsico era, e

ainda é, um território pantanoso, quente e plano, bastante produtivo

quando drenado, mas, com exceção das tamareiras, absolutamente

desprovido de madeira e metais. O que as cidades rivais necessitavam

de seus vizinhos nas montanhas ia além do que a troca pacífica de

mercadorias poderia fornecer. Foram criadas colônias de mercadores e

entrepostos comerciais, mas o tráfego de caravanas era

freqüentemente interrompido, e a matéria-prima acabava sendo tirada

à força de relutantes tribos da Pérsia, da Arábia ou da Capadócia. Foi

assim, pois, que se estabeleceu a imemorial hostilidade entre os

montanheses e os homens da planície, sentimento que serviu de tema

para um grupo de poemas sumérios que descrevem o relacionamento

conturbado entre Uruk e Aratta, um Estado nas colinas orientais.

Possuímos documentos históricos com registros quase

contemporâneos de várias expedições empreendidas durante o terceiro

milênio por Sargão de Agade e Gudea de Lagash, para proteger suas

colônias de mercadores e obter madeira para suas construções. Tais

expedições, além disso, certamente não foram as primeiras. O cedro

vinha das montanhas Amano, no norte da Síria e sul da Turquia, e talvez

do Líbano e do sudeste da Pérsia. Relata-se que Sargão empreendeu

uma campanha vitoriosa pelos territórios do norte, e que seu deus Dagon

deu-lhe a "região superior" até a "Floresta de Cedros" e a "Montanha de

Prata". A floresta de cedros, neste caso, é certamente Amano. Por sua

vez, quando Gudea, rei de Lagash, quis construir um templo para o deus

Ningirsu, "Trouxeram para Gudea o cobre de Susa, do Elam e das terras

ocidentais... trouxeram-lhe grandes toras de salgueiro e ébano, e Gudea

abriu uma trilha na montanha de cedros onde ninguém jamais

penetrara; ele cortou os cedros com grandes machados. Balsas de

cedro, como gigantescas cobras, flutuavam rio abaixo vindas da

montanha de cedro; balsas de pinho vinham da montanha de pinheiro.

Em pedreiras onde ninguém jamais esteve, Gudea, o sacerdote de

Ningirsu, abriu uma trilha; as pedras chegavam em grandes blocos, e

chegavam também caçambas de betume e gesso das montanhas de

Magda; tantos quantos os barcos que trazem aveia dos campos." Por

detrás do Gudea de carne e osso podemos discernir a figura nebulosa

de Gilgamesh, o grande construtor de templos e cidades, que se

aventurou pelo interior das florestas trazendo de volta a preciosa

madeira do cedro.

4. O contexto literário Sobreviveram da literatura sumária cinco poemas relacionados a

Gilgamesh. Destes poemas, dois foram utilizados e combinados com

material mais recente nesta versão da epopéia; são eles "Gilgamesh e a

Terra dos Vivos" e fragmentos da "Morte de Gilgamesh", que, como

sabemos hoje, fazia parte de um texto bem mais longo, de pelo menos

450 linhas. A linguagem usada aqui é muito semelhante à de um

lamento por Ur-Nammu, monarca de Ur que viveu por volta de 2100 a.C.,

cujo texto, de passagem, cita o nome de Gilgamesh. Um outro poema,

enfocando "Gilgamesh e o Touro do Céu", está por detrás dos episódios

da recensão ninivita que descrevem o insulto à Deusa Ishtar e sua

vingança. Uma grande parte do poema sumério "Gilgamesh, Enkidu e o

Mundo Inferior" foi traduzida quase que literalmente e acrescentada à

epopéia assíria (Tábua XII) sem tentativa de adaptação, embora seja

incompatível com eventos anteriormente descritos (Tábua VII). Este

adendo, porém, parece fornecer uma alternativa ao "Sonho" e à "Morte

de Enkidu", episódios colocados no centro da versão assíria. O episódio

"Gilgamesh e Agga", assim como "A Morte de Gilgamesh", é conhecido

apenas em sumério. Tratava-se de uma narrativa não muito heróica e

sem muita relação com o resto do texto, sobre disputas e um leve

conflito armado envolvendo os Estados rivais de Kish e Uruk. Embora seu

espírito seja típico de parte da poesia suméria, foge demais ao estilo do

resto da obra para que possa ser incluído numa "Epopéia de Gilgamesh".

Não seria surpreendente descobrir que os estudiosos e copistas de

Assurbanipal o rejeitaram, embora, é claro, talvez desconhecessem sua

existência.

A história do Dilúvio não fazia parte do ciclo de Gilgamesh na

literatura suméria; era um poema independente que tinha no papel de

Noé um herói chamado Ziusudra, nome que significa "ele viu a vida". Há

também um "Dilúvio" babilônico arcaico, datando da primeira metade

do segundo milênio, no qual o herói chama-se Atrahasis. Neste poema, a

enchente é apenas a última de uma série de catástrofes enviadas para

destruir a humanidade. A primeira parte da história ocupa-se de outros

assuntos, incluindo a criação do homem. Já fizemos menção aqui a um

fragmento achado em Uga-rit, na Síria. Uma versão posterior do poema

de Atrahasis foi escrita no reino de Assurbanipal. É impossível dizer em

que época o dilúvio foi incorporado ao ciclo de Gilgamesh, uma vez

que não há informações suficientes relativas ao período babilônico

antigo. Têm surgido muitas controvérsias em torno da relação existente

entre o dilúvio do Gênesis e o dos escritores assírios, babilônios e sumérios.

A opinião geral que se tinha até certa época, segundo a qual o relato

do Gênesis seria uma versão mais refinada e recente de uma história

bastante conhecida nas cidades da Babilônia, já não é mais de

aceitação geral; muitos sustentam a idéia de que tenha se originado

diretamente de uma história muito antiga e independente. Não é

preciso abordar esta complexa controvérsia para que se possa

acompanhar o relato do dilúvio tal como ele nos é narrado na décima

primeira tábua da Epopéia de Gilgamesh. A decifração de novos textos

pode vir a esclarecer melhor toda esta questão, mas, no momento, é

provável que a melhor maneira de avaliarmos o relato do Gênesis seja

utilizando como pano de fundo as muitas histórias antigas de dilúvios,

histórias que não estão necessariamente relacionadas à mesma

catástrofe e que têm protagonistas — humanos e divinos — diferentes. E

possível que nem todas as versões correntes na Mesopotâmia e no

Oriente Próximo durante o terceiro milênio tenham sobrevivido até os

dias de hoje. Uma mostra de que diferentes narrativas persistiram

independentemente no passado está no fato de que o herói de uma

versão do século III a.C. — que pode até ser de autoria de Beroso, um

sacerdote helenófono da Babilônia — recebeu o nome de Xisuthros ou

Sisuthros, que não pode ser senão o Ziusudra sumério, embora o nome

tenha desaparecido das versões semíticas conhecidas.

Fora do ciclo de Gilgamesh sobreviveram dois poemas sumérios

(incompletos, como de costume) que tratam de um certo Enmerkar, um

antecessor de Gilgamesh no trono de Uruk; na lista dinástica suméria, ele

é o segundo nome após o dilúvio. Nos poemas de Enmerkar, o rei está

em conflito com o senhor de Aratta, Estado situado a leste, nas

montanhas da Pérsia. motivo da briga é comercial e parece girar em

torno de uma troca do trigo de Uruk por pedras para construção e

metais preciosos, ouro, prata e lápis-lazúli de Aratta. Embora o texto

conte com a participação de arautos e grandes guerreiros, sua ação é

ainda menos heróica do que a de "Gilgamesh e Agga". Como poderia

se esperar de uma obra originada em Uruk, o Estado sai sempre

vencedor em suas contendas contra Aratta.

Também herói de dois poemas é Lugulbanda. Este rei é o terceiro

da lista dinástica, e Gilgamesh às vezes se refere a ele como sendo seu

"pai" semidivino. Lugulbanda é uma figura mais interessante do que

Enmerkar e, como Gilgamesh, é um viajante. Em "Lugulbanda e

Enmerkar", ele é vassalo e paladino deste último. Também como

Gilgamesh, Lugulbanda atravessa grandes montanhas e o rio Kur (isto é,

o rio do mundo inferior) antes de conseguir livrar Enmerkar de seus

inimigos. Em "Lugulbanda e o Monte Hurrum", ele é dado como morto e

abandonado por seus companheiros em uma outra jornada pelas

montanhas, desta vez em Aratta. Por meio de piedosos sacrifícios,

Lugulbanda obtém a proteção do Deus-Sol; e, mais uma vez, tal como

Gilgamesh em suas peregrinações pelas regiões agrestes, ele come

carne de animais selvagens e plantas silvestres como se fosse um pobre

caçador. Nossa epopéia parece conter uma alusão proposital a este

episódio, quando os conselheiros de Gilgamesh o fazem recordar-se da

devoção de Lugulbanda e o exortam a fazer sacrifícios ao sol e a "não se

esquecer de Lugulbanda". E possível então que os compiladores mais

recentes tenham se inspirado também neste ciclo, além do ciclo original

de Gilgamesh.

A epopéia suméria foi provavelmente criada na fase

proto-histórica da civilização suméria arcaica, no começo do terceiro

milênio. O poema, contudo, só veio a ser transcrito muitos séculos mais

tarde. Segundo uma teoria bastante aceita, estes sumérios chegaram à

Mesopotâmia antes de 3000 a.C. Instalaram-se em suas férteis planícies,

herdando a prosperidade dos habitantes originais, que, não dominando

a escrita, são conhecidos apenas pela beleza de sua cerâmica e por

suas aldeias de cabanas cobertas de colmos e casas de tijolos secos ao

sol. Segundo uma teoria alternativa, os próprios sumérios foram os

primeiros agricultores na Mesopotâmia. De qualquer maneira, o mundo

descrito nas "epopéias" é bem semelhante àquele dos primeiros cinco

séculos do terceiro milênio, antes da unificação do panteão no fim do

milênio (sob a terceira dinastia de Ur) e antes da padronização e do

formalismo do segundo milênio.

Dentre as primeiras obras literárias sumérias, os poemas de

Enmerkar parecem mais narrativas de disputa e debate argumentativo

do que epopéias heróicas. Não se traduziu ainda o suficiente do ciclo de

Lugulbanda para se julgar até que ponto seu estilo pode ser considerado

épico e heróico. A maior parte dos demais poemas sumérios são hinos e

lamentos dirigidos aos deuses, ou que se ocupam de seus atributos e

atividades. Conhecem-se alguns poemas "épicos", todos mais ou menos

fragmentários, do período babilônico arcaico ou de períodos mais

recentes, mas seus protagonistas são em geral deuses ou monstros.

Gilgamesh é o único personagem humano de estatura heróica que

chegou a nossos dias, embora alguns fragmentos heróicos possam ser

encontrados em outros textos literários, como o "Cântico de Débora" no

Livro dos Juizes.

5. O herói da Epopéia

As dúvidas quanto à existência de um Gilgamesh histórico não

afetam seriamente a nossa fruição da epopéia; mas recentemente" os

estudiosos conseguiram comprovar, sem sombra de dúvida, que um

homem, um rei, chamado Gilgamesh, viveu e reinou em Uruk em alguma

época da primeira metade do terceiro milênio. A questão se limita agora

a determinar se ele viveu por volta do ano 2700 a.C. ou uns cem anos

mais tarde. Foram encontrados em vasos e tijolos os nomes dos

antecessores de Gilgamesh e de seus contemporâneos; ao mesmo

tempo, certos documentos semi-históricos — a "Lista Dinástica Suméria",

da qual já falamos, e a chamada "História de Tummul" — fornecem

testemunhos históricos e genealógicos conflitantes. Segundo a lista

dinástica, Gilgamesh foi o quinto na linha de reis que se seguiram à

fundação da primeira dinastia de Uruk (após o dilúvio) e teria reinado

por 126 anos; seu filho, contudo, reinou por meros trinta anos, e daí por

diante os reis viveram e reinaram por períodos humanos comuns. O

documento de Tummul, também datado do começo do segundo

milênio, diz que Gilgamesh reconstruiu o santuário da deusa Ninlil em

Nippur, depois das restaurações anteriores feitas pelos reis de Kish.

As várias discrepâncias cronológicas são de menor importância

em vista da comprovação da existência de Gilgamesh como

personagem histórico: um rei que provavelmente comandou uma

bem-sucedida expedição para trazer madeira das florestas do norte e

que certamente foi um grande construtor. As muralhas de Uruk eram

famosas, mas ainda não eram construídas com tijolo cozido. Trata-se de

um anacronismo possivelmente originado pela má compreensão de

redatores mais modernos de um texto mais antigo.

Evocava-se a qualidade superior dos tijolos "plano-convexos"

utilizados na construção das fortalezas. As escavações em Warka

mostram o esplendor dos templos ainda no período do surgimento da

escrita. Gilgamesh, contudo, também é lembrado como um juiz justo, e

relatos posteriores o transformaram, como o Minos de Creta, num juiz do

mundo inferior, a quem as pessoas dirigiam suas orações e que era

invocado através de encantamentos e rituais.

Uma prece começa: "Gilgamesh, rei supremo, juiz dos Anunnaki."

O herói é descrito no começo do poema. Ele é dois terços deus e

um terço homem, pois sua mãe era uma deusa, como a mãe de Aquiles.

Dela Gilgamesh herdou grande beleza, força e inquietude. De seu pai

herdou a mortalidade. A história tem muitos desdobramentos, mas eis

sua tragédia: o conflito entre os desejos do deus e o destino do homem.

A mãe de Gilgamesh era uma deusa relativamente obscura, que

possuía um templo-palácio em Uruk. Na lista dinástica, seu pai é descrito

um tanto misteriosamente como um "lillû", que quer dizer um "tolo" ou um

demônio vampiresco, e também como um sumo sacerdote. Na versão

suméria, Gilgamesh é o "sacerdote de Kullab", uma área de Uruk, mas

em seus momentos de tensão ele invoca Lugulbanda chamando-o de

"pai". O reinado de Lugulbanda foi o segundo antes de Gilgamesh e o

terceiro após o dilúvio. Ele era o protetor da cidade e era chamado de

deus. Lugulbanda reinou por 1200 anos.

Numa obra que existe há tanto tempo e que foi tão

freqüentemente copiada e alterada, é inútil buscar precisão histórica

nos eventos narrados. Exprimi a opinião de que a situação política do

terceiro milênio constitui o mais provável pano de fundo da ação. O fato

mais impressionante é o grau de unidade espiritual encontrado em todo

o ciclo — no sumério, no babilônio antigo e no assírio —, unidade que se

origina do caráter do herói e de uma atitude profundamente pessimista

em relação ao mundo e à vida humana. A insegurança da vida na

Mesopotâmia explica, pelo menos em parte, essa atitude. Havia, além

disso, aquele sentimento a que Henri Frankfort deu o nome de "angústia

implícita", devida ao "terror obsessivo de que forças turbulentas e

misteriosas pudessem trazer a qualquer momento uma catástrofe à

sociedade humana". Percebemos de antemão no caráter de Gilgamesh

uma preocupação dominante com a fama e a reputação, assim como

a revolta do homem mortal contra as leis da separação e da morte. O

conflito do homem selvagem ou "natural", representado pelo

personagem Enkidu, com o civilizado, representado por Gilgamesh,

parece menos fundamental, embora tenha sido reenfatizado

recentemente por pelo menos um autor.

A história é dividida em episódios: um encontro de amigos, uma

jornada pela floresta, o insulto a uma deusa caprichosa, a morte do

companheiro e a busca da sabedoria ancestral e da imortalidade. Por

todos eles perpassa uma mesma idéia, como no refrão do poeta

medieval, "Timor mortis conturbai-me". No episódio da Floresta de Cedros,

esta idéia central funciona apenas como um estímulo à ambição do

herói de deixar um nome a ser lembrado; mas após a morte de seu fiel

companheiro o tema torna-se mais imperioso: "Como posso descansar

depois que Enkidu, a quem amo, virou pó, e quando também eu

morrerei e serei enterrado para sempre?" No final do poema, este espírito

se transforma em mofa devido às oportunidades perdidas e às

esperanças desfeitas. Esta atmosfera continua até a cena final, a da

morte do próprio herói, quando a ambição humana é tragada pelo

destino e acaba por se realizar através dos antigos rituais.

A causa do pessimismo que dominava o pensamento

mesopotâmico jaz em parte na precariedade da vida nas

cidades-estados, uma vida submetida aos caprichos das enchentes, das

secas e das ações de uma vizinhança turbulenta. O destino destes povos

dependia também do caráter dos deuses, que eram considerados os

poderes responsáveis por tais condições. Uma vez que os deuses

desempenham um papel tão importante na epopéia, é bom falarmos

um pouco a respeito destas criaturas imprevisíveis e aterrorizantes. Seus

nomes e principais atributos estão arrolados no Glossário (p.165), mas

alguns deles, que desempenham um papel decisivo na ação, exigem

por isso uma descrição um pouco mais detalhada. Seus nomes parecem

estranhos e soam pouco familiares aos ouvidos ocidentais, e a

topografia de seu mundo é, à primeira vista, tão peculiar, que uma

explicação mais pormenorizada parece se fazer necessária. O leitor

pode, contudo, se assim o desejar, deixar de lado o capítulo seguinte

até o momento em que se sentir propenso a conhecer mais a respeito

dos principais deuses e de suas habitações no céu ou no mundo inferior.

6. Os principais deuses da Epopéia

As cidades da Mesopotâmia compartilhavam um mesmo

panteão, mas os deuses não eram cultuados em todas as partes sob os

mesmos nomes. Os semitas, ao invadirem a Mesopotâmia, herdaram a

maioria dos deuses sumérios, mas alteraram seus nomes, a relação que

mantinham entre si e muitos de seus atributos. Hoje, é impossível dizer se

qualquer um desses deuses originou-se na própria Mesopotâmia, se

pertenceu ao panteão mitológico daquele estrato populacional ainda

mais antigo que pode ter ocupado o território mesopotâmico antes da

chegada dos sumérios; mas são os deuses destes últimos que

desempenham os principais papéis em toda a epopéia; e este é um

argumento a mais, se mais algum argumento fosse necessário, a favor

da grande antigüidade de todos os episódios. Deuses mais recentes,

como Marduk, de Babilônia, não são mencionados em Gilgamesh.

Cada cidade tinha seu próprio protetor, que morava entre seus

muros e zelava por sua fortuna. Anu (o An sumério) era um pai dos

deuses, guardando menos identidade com Zeus do que com Urano, o

Deus-Céu, que para os gregos não representava mais do que um elo

ancestral na corrente da criação e de cuja união com a Terra, segundo

algumas genealogias, surgiram o Oceano, os rios, os mares, os Titãs e,

finalmente, Crono, o pai de Zeus. Numa reconstrução da teogonia

suméria, feita pelo Professor Kramer, An foi o primogênito do mar

primordial. Ele era o firmamento, as camadas superiores do céu, e não o

ar que sopra sobre a terra. Como Urano, An se uniu à Terra (a Ki suméria)

e gerou Enlil, o deus do ar. Nesta época o mundo ainda estava envolto

na escuridão, e Enlil, o ar, vivia aprisionado entre o teto escuro do céu,

uma noite sem estrelas, e a superfície da terra. Enlil gerou então a lua,

Nanna (o Sin dos semitas), que viajou num barco e trouxe a luz aos céus

de lápis-lazúli; e Nanna por sua vez gerou o sol, Utu (o Shamash dos

semitas), e Inanna (a Ishtar dos semitas), a deusa do amor e da guerra.

Os textos permanecem muito obscuros; um deles é a introdução ao

poema sumério que trata da descida de Enkidu ao mundo inferior. Anu

nesta época ainda não é tão ignorado quanto Urano, mas também já

não é mais visto como o criador ativo dos deuses. Esta posição suprema

foi sendo gradualmente usurpada por Enlil, e em nosso poema é Enlil que

profere os destinos, como sinal de sua autoridade. Mas ele, por sua vez,

acabaria destronado por um novo deus, o Marduk babilônio. Enlil, que

tinha Nippur como sua cidade, era o vento e a tempestade, o hálito e o

"verbo" de Anu, pois, segundo os hinos em seu louvor, "O espírito do verbo

é Enlil, o espírito do coração de Anu". Enlil é o poder em ação, enquanto

Anu é o poder em essência. Ele é "o verbo que acalma os céus", mas

também é "um violento dilúvio que perturba o semblante dos homens,

uma torrente que destrói baluartes". Na Epopéia de Gilgamesh ele

aparece mais freqüentemente sob seu aspecto destrutivo; Anu, por sua

vez, é um ser remoto que vive bem longe, no firmamento, além dos

portões do céu. Em um dos textos Enlil parece encorajar a jornada à

Montanha dos Cedros, mas também é ele quem repreende Gilgamesh e

Enkidu por assassinar o sentinela da floresta.

Figuras igualmente importantes na Epopéia são Shamash, o

Deus-Sol, a quem os sumérios chamavam Utu, e Ishtar, a bela mas terrível

deusa do amor. O sol em árabe ainda é "shams", e naquela época

Shamash era a entidade onisciente e onividente, o grande juiz a quem

os mortais aflitos podiam apelar contra as injustiças sofridas, sabendo

que seriam ouvidos. Os hinos de Nínive descrevem seus muitos atributos:

"A humanidade inteira se regozija em vós, oh, Shamash, o mundo inteiro

anseia por vossa luz... numa voz cavernosa, o homem fraco clama por

vós... quando está longe de sua cidade e de sua família, o menino

pastor temeroso do campo aberto recorre a vós, o pastor confuso entre

seus inimigos... a caravana que marcha aterrorizada, o comerciante, o

mascate com seu saco de pesos." Nada escapa aos olhos do sol: "Guia e

farol que passa constantemente sobre o mar infinito, cuja profundidade

os grandes deuses do céu desconhecem; vossos raios brilhantes

penetram o Abismo, e os monstros das profundezas vêem vossa luz...

queimais por sobre imensuráveis extensões de terra por horas sem fim... a

terra é esmagada por vosso terrível brilho." Os dois aspectos de

onisciência e justiça em Shamash estão unidos na imagem da rede:

"Vossa rede está estendida para apanhar o homem que cobiça" e

"Vossos raios caem como uma rede sobre a terra". Ele é também o deus

dos oráculos: "Através da taça do adivinho, dos feixes de cedro, instruís o

sacerdote do oráculo, o intérprete de sonhos, o feiticeiro..."; e em outro

hino ele é o juiz: "Proferis diariamente os veredictos do céu e da terra; o

fogo e as chamas que vos acompanham em vossa vinda ofuscam todas

as estrelas do céu." Foi também ele quem deu a Hamurabi seu sistema

de leis.

Ishtar (a Inanna dos sumérios) era cultuada, junto com Anu, num

grande templo em Uruk. Ela é a rainha do céu e, como deusa do amor e

da guerra, uma personagem ambígua; "uma deusa bela e terrível",

como Afrodite. A maioria dos deuses tinha um lado benigno e outro

perigoso, e até mesmo Shamash podia ser terrível; mas neste poema,

exceto por um só instante, vemos Ishtar somente por seu ângulo mais

sombrio. Que ela sabia ser encantadora, isto mostra-nos um hino

composto por volta do ano 1600 a.C. "Reverenciai a rainha das mulheres,

a maior entre todos os deuses; o amor e o deleite revestem seu corpo;

ela está cheia de ardor, encanto e voluptuosa alegria; seus lábios são

doces, sua boca é a Vida, a felicidade atinge seu auge quando ela está

presente; que visão gloriosa, os véus cobrindo,seu rosto, suas graciosas

formas, seus olhos cheios de brilho." Esta é a radiante deusa do amor em

sua primeira aparição a Gilgamesh, mas seu aspecto logo se transforma

e ela assume uma face mais familiar, o da "senhora das dores e das

batalhas". É a este lado de seu caráter que lhe foi dirigido um hino de

Babilônia: "Oh, estrela da lamentação, fazeis com que irmãos na paz se

ponham em luta uns contra os outros e, no entanto, inspirais uma

amizade leal e perseverante. Oh, poderosa, senhora das batalhas, que

derruba montanhas."

Resta apenas mais um deus a desempenhar um papel importante

no poema; é Ea (o Enki sumério), o deus da sabedoria, cujo elemento era

a água doce que traz vida à terra, e cujo lar ficava em Eridu, então

situada às margens do Golfo Pérsico. Ele aparece como um ser benigno,

um pacificador, mas nem sempre é um amigo confiável, pois, como

tantos expoentes da sabedoria primitiva, ele se utilizava de truques e

subterfúgios, sendo, ocasionalmente, um tanto malévolo. Mas aqui ele

aparece como o grande "senhor da sabedoria que vive nas

profundezas". Sua origem é obscura, mas às vezes é chamado de filho

de Anu, "gerado à sua própria imagem... de grande inteligência e

enorme força". Ele é também, em certo grau, o criador e benfeitor da

humanidade.

Em contraposição ao céu e suas divindades, encontra-se o mundo

inferior com suas divindades sombrias. No antigo mito sumério da criação,

ao qual já nos referimos, depois de An ter arrebatado os céus e ter-se

apossado do firmamento, e depois de Enlil ter arrebatado a terra,

Ereshkigal foi levada como prêmio para o mundo inferior (ou talvez

tenha sido ela a levar o mundo inferior como prêmio). O significado

deste mito é obscuro, mas parte dele parece descrever um outro rapto

de Perséfone. Algumas vezes se referiam a Ereshkigal como a irmã mais

velha de Ishtar, tendo talvez, em determinado momento, sido ela própria

uma deusa do céu que acabou tornando-se rainha do mundo inferior;

mas ela não obteve o direito de voltar à terra em toda primavera.

O nome que os sumérios davam ao mundo inferior, "Kur", também

servia para designar "montanha" e "terra estrangeira", e há

freqüentemente uma grande ambigüidade em seu uso. O mundo

inferior ficava abaixo da superfície da terra, mas acima das águas

inferiores, do grande abismo. O caminho para o inferno começava

"montanha adentro", mas havia muitos circunlóquios para designar o

lugar em si ou o caminho que levava a ele. Falava-se da "estrada da

carruagem" ou da "estrada sem retorno". Nós, contudo, não somos tão

diferentes dos sumérios nesse aspecto; para prová-lo, basta comparar o

número de sinônimos nos dicionários ingleses sob os verbetes "Vida" e

"Morte".

Aparentemente, a história do rapto (se é que houve algum) foi

mais tarde esquecida ou perdeu a importância, e com isso perdeu-se

também a personalidade de "Kur"; pois, como aconteceu a Hades, o

sinistro deus acabou tornando-se pouco mais do que um lugar escuro e

Ereshkigal desposou outros maridos. A Rainha do Mundo Inferior é um ser

absolutamente aterrador, sempre descrita de maneira evasiva: "Aquela

que descansa, aquela que descansa, a mãe de Ninazu, as roupas não

cobrem seus sagrados ombros, o linho não cobre seus seios." Há vários

poemas, sumérios e semíticos, que descrevem o mundo inferior. Às vezes

ele é cenário de alguma jornada empreendida por algum deus ou

mortal. Certo príncipe assírio, sob o pseudônimo de "Kummu", legou uma

terrível visão da morte e do além. É um apocalipse sombrio em que os

anjos são todos demônios; onde podemos reconhecer a esfinge, o leão

e o grifo, o querubim com mãos e pés humanos, ao lado de muitos

monstros da imaginação que durante muito tempo acossaram a mente

humana. Eles reaparecem continuamente em sinetes de pedra, marfins

e rochas, e sobreviveram através da iconografia medieval e da

heráldica até os dias de hoje. Embora possam ter perdido sua força

simbólica, os mistérios que representavam são os mesmos que ainda hoje

nos deixam perplexos.

Pode-se sentir por toda a Epopéia de Gilgamesh a presença do

mundo inferior. Já se sabe de antemão que é lá que terminará a jornada

do herói, por mais que lute para escapar a esse destino, pois "só os

deuses vivem para sempre". Enkidu sonha com o mundo inferior antes de

sua morte e, num outro poema, o mesmo Enkidu desce vivo pela

"estrada sem retorno" para trazer de volta um tesouro perdido. Mas, ao

contrário das jornadas de Hércules e Teseu, os heróis gregos que partiram

em missões semelhantes, a aventura de Enkidu foi fatal; apenas um

breve retorno lhe foi permitido, provavelmente na forma de um

fantasma, uma substância não mais concreta do que um sopro de brisa

que, ao ser inquirido por Gilgamesh respondeu: "Senta-te e chora; meu

corpo, que costumavas tocar e enchia teu coração de alegria, os

vermes devoram como se fosse um velho agasalho."

Seria demasiado simplista dizer que, enquanto os egípcios nos

fornecem uma visão do céu, os babilônios nos dão uma visão do inferno;

há, contudo, certa verdade nisso. No universo sumério-babilônico,

apenas os deuses habitavam o céu. Entre os mortais, apenas um foi

transportado à vida eterna, "lá longe, na foz dos nos", e ele viveu

naqueles obscuros dias da época antediluviana, tal como Enoc, que

"caminhou com Deus e desapareceu, pois Deus o levou". Os mortais

comuns tinham de ir para "A casa onde ficam sentados no escuro, onde

o pó é sua comida e o barro sua carne; vestem-se como os pássaros,

tendo asas como traje; por sobre o ferrolho e a porta jazem o pó e o

silêncio". E uma visão deprimente de pássaros pesados, mudos e

apáticos, agachados na sujeira com suas penas enlameadas. Neste

mundo inferior viviam também os Anunnaki, os "Magníficos" sem nome,

que, como Ereshkigal, chegaram a viver no alto entre os anjos do céu,

mas que por causa de uma má ação foram de lá banidos para se

tornarem os juizes do mundo inferior, quase da mesma forma como os

Titãs foram banidos por Zeus, ou como sucedeu a Lúcifer, o anjo caído.

Na Babilônia, a alma de um homem morto era exorcizada com o

seguinte encantamento: "Deixai-o ir para o sol poente, deixai que seja

confiado a Nedu, o porteiro-mor do mundo inferior; que Nedu o vigie

atentamente, que sua chave cerre a fechadura."

Talvez este cenário não tenha sido sempre tão sombrio. Um

fragmento de uma tábua suméria nos diz que a alma do justo não

sucumbirá e insinua a existência de um juiz a quem os virtuosos não

precisam temer: mas, no que diz respeito aos poemas de Gilgamesh, o

mundo inferior é aquele lugar de lamentações que Enkidu, ou seu

espírito, descreve na Tábua XII. A jornada faz lembrar o último livro da

Odisséia, em que os pretendentes à mão de Penélope são levados,

"algaraviando como morcegos que guincham e esvoaçam nas

profundezas de uma misteriosa caverna quando um deles cai do teto

rochoso ao soltar-se do aglomerado formado por seus companheiros.

Nesta estridente algazarra de discórdia o grupo foi conduzido por

Hermes, seguindo o Libertador pelos sombrios caminhos da ruína. Eles o

seguiram para além da corrente do Oceano, do rochedo alvo, para

além dos portões do sol e da região dos sonhos, e logo chegaram ao

campo de asfódelos, onde moram as almas, os espíritos descarnados

dos homens". Ao contrário do que aconteceu a Enkidu, que foi

conduzido ao palácio de Ereshkigal por uma criatura com garras e ar

sinistro, este grupo foi escoltado pelo "Libertador" Hermes. Fora isso, esta

descrição é bastante semelhante à visão babilônica dos momentos

finais, e até mesmo a alegoria dos morcegos foi usada pelo autor de um

poema em homenagem a Inanna. Aparentemente, tal concepção da

região dos mortos também era familiar ao autor do Salmo XLIX, que

escreveu: "Eles formam um rebanho destinado ao Inferno; a morte os

conduz ao pasto, e os justos os dominarão pela manhã; sua beleza será

consumida pelo Inferno, para que não haja lugar para ela."

Por sua vez, o egípcio às portas da morte tinha uma modesta

pretensão ao paraíso para confortá-lo e encorajá-lo em seus últimos

momentos. Após o julgamento e a pesagem das almas, o justo podia ter

esperança de entrar nos campos do paraíso através de uma espécie de

renascimento: "Conheço os campos de colmos de Re... a altura de sua

cevada... ela é ceifada pelos habitantes do horizonte e pelas Almas do

Oriente." Este renascimento não era apenas para o homem excepcional

ou para o rei, mas para "milhões de milhões... não há ninguém que não

consiga chegar lá... quanto à duração da vida na terra, trata-se de uma

espécie de sonho. Aqueles que chegam ao Oeste é dito: 'Bem-vindo,

são e salvo.'"

7. A narrativa

Embora os deuses desempenhem papéis importantes em

Gilgamesh — pelo menos nas últimas versões do poema —, a Epopéia

parece ter sido uma obra tão secular quanto a Odisséia. Mesmo

contendo elementos quase religiosos, como as lamentações pelos

mortos e as composições formalizadas sobre a "Sabedoria", não há

indício de que fosse recitada em rituais religiosos, como acontecia com

o grande poema babilônico sobre a Criação, o Enuma Elish. Gilgamesh

é uma narrativa secular, dividida em episódios vagamente relacionados,

que cobrem os eventos mais importantes da vida do herói.

Estes poemas não atribuem a Gilgamesh um nascimento

fantástico ou lendas de infância, como aquelas dos heróis folclóricos.

Quando a história começa, ele já é um homem maduro e supera todos

os outros em beleza, força e nos desejos insatisfeitos de sua natureza

se-midivina, uma natureza que não lhe deixa rivais no amor ou na guerra;

ao mesmo tempo, é possuidor de uma energia demoníaca que exaure

seus súditos. Estes são obrigados a invocar a ajuda dos deuses, e o

primeiro episódio descreve como conseguem arranjar-lhe um

companheiro que é seu oposto. Trata-se de Enkidu, o "homem natural",

criado entre os animais selvagens e rápido como uma gazela. Enkidu

acaba sendo seduzido por uma meretriz da cidade, e a perda da

inocência representa um passo irreversível para a domesticação de seu

espírito selvagem. Os animais passam a rejeitá-lo, e ele gradualmente se

deixa civilizar, aprendendo a vestir-se, a comer comida humana, a

pastorear, a guerrear o lobo e o leão, até finalmente chegar à grande

cidade de Uruk. Ele não torna a pensar em sua antiga vida de liberdade

até seus momentos finais, no leito de morte, quando é dominado por um

sentimento de dor e de arrependimento que faz com que amaldiçoe

todos os educadores. Esta é a história da "Queda" contada ao contrário,

uma felix culpa despojada do desenvolvimento trágico; mas é também

uma alegoria dos estágios por meio dos quais o homem atinge a

civilização, partindo da selvageria, passando pelo pastoreio, até

finalmente chegar à vida urbana. Chegou-se até mesmo a afirmar que

esta história provava que os babilônios eram evolucionistas sociais!

Recentemente, o Professor G. S. Kirk fez uma interessante tentativa de

interpretar Enkidu — seu nascimento, sua sedução e sua luta com

Gilgamesh — à luz do estruturalismo de Lévi-Strauss; tendo Enkidu como

símbolo da "natureza" em oposição a Gilgamesh como representante da

"cultura", o propósito da história seria o de mediar essas contradições e

resolver a tensão entre elas. Embora esta possa ser uma das facetas do

poema, não creio que seja a mais importante. Ela sugere uma

identificação infundada do homem civilizado com a doença, do

homem natural com a saúde e o bem-estar; ao mesmo tempo, é

bastante ilusório tentar equiparar o ambiente sofisticado e letrado da

Babilônia do segundo milênio e da Assíria do começo do primeiro milênio

com o mundo simples dos gregos do tempo de Homero ou Hesíodo, isso

sem falar no dos ameríndios de Lévi-Strauss. De qualquer maneira, a

impressão que se tem é a de que Enkidu está longe de ser um mero

"personagem-tipo". Num prefácio ao livro que contém as mais recentes

traduções das tábuas de Ur, o Professor Gadd chama a atenção para a

conversa do fadado e moribundo Enkidu com o Deus-Sol, na qual

insinua-se que ele tivera uma vida feliz nas planícies ao lado de sua

mulher, uma "mãe de sete". O Professor Gadd vê nesta história uma

tragédia tripla: a do marido seduzido por encantos meretrícios que

acabam por levá-lo a uma vida da qual ele logo se cansa; a do

nômade perdido na cidade para onde fora levado; e, finalmente, a do

"nobre selvagem" tentado por uma mulher que lhe transmite um tipo de

conhecimento que só lhe trará infortúnios.

A grande amizade entre Gilgamesh e Enkidu, que tem início com

uma luta corpo a corpo em Uruk, é o elo que liga todos os episódios da

história. Até mesmo em sonho, antes de vir a conhecer Enkidu,

Gilgamesh se sentia atraído por ele "como pelo amor de uma mulher".

Após o encontro entre os dois, Enkidu torna-se "um irmão mais moço", um

"amigo querido", embora os poemas sumérios, que não fazem nenhuma

referência ao passado de Enkidu, dêem mais ênfase à relação entre

servo e senhor. É Enkidu quem traz notícias sobre a misteriosa floresta de

cedros e seu terrível sentinela, com quem eles se verão face a face num

encontro que é o tema do segundo episódio.

A jornada na floresta e a batalha daí resultante podem ser lidas

em diferentes planos de realidade, tal como uma alegoria medieval. A

floresta é uma floresta de verdade, algumas vezes identificada como

Amano, no norte da Síria, ou talvez Elam, no sudoeste da Pérsia; mas é

também a morada de poderes sobrenaturais e o cenário de estranhas

aventuras, como as vividas pelos heróis celtas e os cavaleiros medievais;

e é ainda a obscura floresta da alma. No primeiro nível, o histórico, a

necessidade que as cidades tinham de madeira é a razão de todo o

empreendimento. Gilgamesh, o jovem rei de Uruk, desejava ostentar seu

poder e ambição construindo templos e grandes muralhas, como

fizeram Sargão de Agade e Gudea de Lagash. Mas nas montanhas

viviam tribos desconhecidas que opunham resistência a qualquer

tentativa de remoção dos cedros pela força. Era preciso lutar para que

a valiosa mercadoria pudesse ser embarcada para Uruk, e na batalha os

deuses das tribos da floresta lutavam por trás de seu próprio povo. Era,

portanto, essencial recrutar contra eles um dos grandes deuses da

Mesopotâmia, usando sua mágica superior contra a mágica do inimigo.

Shamash acede, em face da promessa de um novo templo a ser erigido

em sua honra, e concede sua proteção especial ao empreendimento.

Entre os terrores da montanha estavam os vulcões e os terremotos. Há

uma falha geológica que atravessa a Anatólia e a Armênia, e é provável

que os vulcões da área ainda estivessem ativos por volta do terceiro

milênio a.C, um fato que acrescenta interesse à acurada descrição de

um vulcão em erupção contida num dos sonhos de Gilgamesh na

Montanha dos Cedros.

No segundo nível, este episódio é uma aventura. Dois jovens heróis

partem em busca de fama; a montanha e os cedros, com seu sentinela,

são desafios que ultrapassam os horizontes da vida cotidiana. Eles

partem armados mas sós, e sozinhos encontram o gigante Humba-ba,

que foi diversamente identificado como um deus do norte da Síria, da

Anatólia ou do Elam, dependendo do destino que se imagine ter tido a

expedição — as montanhas do norte ou do leste. Ele protege a floresta

com vários encantamentos, embora talvez tenha havido uma confusão

no que diz respeito ao portão encantado que Enkidu deveria abrir e que

acabaria lhe trazendo sofrimentos. Mais tarde, na conversa que Enkidu

tem em seu leito de morte, fala-se de um portão situado em Uruk, feito

com a madeira vinda da floresta. Há ainda o misterioso sono ao qual

Gilgamesh sucumbe logo após ter derrubado o grande cedro; e,

quando o herói finalmente descobre Humbaba nas profundezas da

floresta, o gigante quase o mata ao balançar sua cabeça lançando-lhe

um "olhar" mortal. A criatura só é dominada com o auxílio de Shamash e

dos oito ventos. Esses eram armas bastante poderosas, pois foi com eles

que o deus Marduk subjugou as águas do caos primevo na batalha do

começo do mundo, tal como ela é narrada no Enuma Elish.

Há também um terceiro nível, pois Humbaba é o "Mal". A primeira

referência que lhe é feita é simplesmente esta: "Por causa do mal que

existe sobre a terra, nós iremos à floresta destruir esse mal." Gilgamesh

desempenha, então, o papel do cavaleiro que mata o dragão. Os dois

companheiros saem vitoriosos do conflito; apesar disso, por terem

tomado partido entre duas divindades, usando as armas de Shamash

para destruir o protegido de Enlil, acabam incorrendo na ira do

rancoroso e irascível deus da tempestade, vindo a sofrer as

conseqüências disso mais tarde. Realmente, visto de determinado

ângulo, todo o episódio da floresta não é senão uma cruel armadilha de

Enlil para destruir Gilgamesh e Enkidu.

A floresta é "a Terra dos Vivos", ou simplesmente "a Terra", que fica

em alguma parte para além dos limites do mundo e da realidade

terrestres. No meio dessa Terra está a montanha, que é ao mesmo tempo

a moradia dos deuses e o mundo inferior, o lugar de onde vêm os sonhos.

Mas a. floresta está também relacionada ao "Jardim do Sol", onde

Gilgamesh acaba entrando numa jornada futura e onde reencontra,

não em sonho, mas face a face, o grande Deus-Sol, pois "a Terra

pertencia a Shamash". A floresta é estranhamente familiar, assim como

seu sentinela. "Vereis um vale semelhante a um grande canal e no meio

desse vale uma grande árvore cujos galhos têm pontas mais verdes do

que o mais verde dos pinheiros. E sob essa árvore encontra-se uma

fonte." São estas as instruções que Cynon recebe do sentinela da floresta

em suas peregrinações "através do mundo e de sua imensidão", tal

como nos diz um dos romances galeses do Mabinogion. Lá ele

encontrou "o mais belo vale do mundo, as árvores da mesma altura, e

havia um rio correndo através do vale com um caminho que seguia à

sua margem". Embora isto seja um texto gales do século XII, ela descreve

o que Gilgamesh e Enkidu viram ao entrar na floresta de cedros: o cedro

em frente à montanha, a clareira coberta de mato verde e a estrada

larga e fácil de percorrer.

No relato, o sentinela da floresta tinha poder sobre os animais que

pastavam ao seu redor na clareira; o sentinela da floresta de cedros do

poema semítico conseguia "ouvir uma novilha se mexer a sessenta

léguas de distância". Humbaba é o perpétuo Monstro-Pastor, como o

horrível homem da clava que Cynon ou o Cavaleiro Verde do poema

setentrional encontram em suas aventuras; é uma divindade da

natureza selvagem que, como as próprias florestas, os séculos não

conseguem mudar. No poema sumério, contudo, ele tem ainda um

aspecto ígneo, talvez relacionado aos vulcões.

Após o episódio da floresta, concluído com aparente sucesso,

vem o grande ato de glorificação de Gilgamesh, o Rei: paramentado,

com coroa e manto, quase tão belo quanto um deus, o herói lembra

Ulisses depois de sua penosa aventura no mar, quando Atena dotou-o

de beleza- divina. Neste momento a deusa Ishtar o vê e passa a

desejá-lo apaixonadamente; tenta seduzi-lo com promessas tentadoras,

após o que vem uma notável passagem: a deusa é insultada por um

desdenhoso mortal. Há algo aqui do orgulhoso Hipólito, ou de Picus e

Circe em Ovídio, ou de Anquíses, o menino pastor do Monte Ida, que no

hino homérico foi, para sua desgraça, seduzido por Afrodite, pois

"Aquele que se deita com uma deusa imortal perde para sempre a sua

força e vigor". Gilgamesh então acusa Ishtar, lembrando-a do miserável

destino reservado a seus infelizes amantes do passado, um deles tendo

sobrevivido como um pássaro com a asa quebrada, outro como um

lobo, e um terceiro como uma toupeira cega; pois Ishtar tinha os

poderes de Circe. Estes acontecimentos bem poderiam ter feito parte

de uma "Metamorfose" babilônica.

A seguir vem a morte do "Touro do Céu", um monstro que

personifica a seca de sete anos enviada pela deusa como castigo por

ter sido rejeitada por Gilgamesh. Anu a princípio se recusa a criar o touro;

quando, porém, a enfurecida Ishtar ameaça pôr abaixo os portões do

inferno e trazer os mortos para comerem com os vivos, ele aquiesce, pois

não se trata de uma simples ameaça, já que, como nos narra um outro

poema, o episódio realmente se concretizou. O feito acrobático por

meio do qual o touro é morto assemelha-se aos executados nas

touradas de Creta.

O desastre chega através da hubris. Enkidu se recusara a atender

o pedido de clemência de Humbaba e insultara Ishtar. Gilgamesh

parece menos culpado desse pecado, pois ele se comovera com as

súplicas de Humbaba, embora tivesse permitido, depois de terem

matado o touro, que os jovens que se juntaram ao seu redor para

admirá-lo gritassem: "Gilgamesh é o mais glorioso dos heróis, Gilgamesh é

o mais eminente entre os homens." Por isso, a vingança divina recai

primeiro sobre Enkidu. Ele é avisado em sonho. Vê os deuses reunidos em

conselho, e ouvimos retumbar a ominosa pergunta: "Por que estão

reunidos os grandes deuses?" Anu declara sua imparcialidade, como

convém a um personagem tão majestoso e distante: "Um dos dois tem

de morrer." Shamash vem em defesa de ambos, mas a contenda entre

Shamash e Enlil, como a existente entre o sol e a tempestade, torna a

irromper, e Shamash só pode salvar um deles, Gilgamesh, seu protegido:

Enkidu tem de morrer. A noite, Enkidu tem uma visão da morte. Esta visão

é uma de nossas principais fontes de conhecimento acerca do que era

a vida após a morte para os babilônios. Uma outra fonte é o poema

sumério independente "Enkidu e o Mundo Inferior" e suas traduções

acadianas, que foram incorporadas à Epopéia de Gilgamesh na

décima segunda tábua da recensão ninivita. Enkidu desce vivo ao

Mundo Inferior para trazer de volta um misterioso tambor e sua baqueta,

talvez objetos xamanísticos, que Gilgamesh havia ali deixado cair.

Apesar dos avisos, ele quebra todos os tabus e é preso, "pois o Rei do

Mundo Inferior o pega"; mas um buraco é feito na crosta da terra para

que ele (ou seu espírito) possa retornar e descrever o que viu.

Com a morte de Enkidu, ultrapassamos a metade da história. O

companheirismo é interrompido e Gilgamesh fica só. Depois de

experimentar as alegrias de uma amizade quase perfeita, ele tem de

aprender a viver sem ela; mas isso é exigir demais. O conhecimento de

que a morte é inevitável servira antes como um desafio a

empreendimentos audazes e ações vitoriosas; mas agora estultifica a

ação e traz consigo um novo sentimento, o da derrota. O grande rei é,

no final das contas, um mortal comum. No meio desta crise ele relembra

seus antepassados, e especialmente Utnapishtim, que, segundo se dizia,

alcançara a vida eterna, passando a integrar a companhia dos deuses.

Ele fora o sobrevivente do dilúvio, um outro Noé, a quem os deuses

levaram "para viver na foz dos rios" e era chamado "o Longínquo". Depois

disso segue-se a procura pela sabedoria ancestral, que conduz

Gilgamesh aos limites da terra, como aconteceu a Ulisses em sua

jornada em busca de Tirésias. Esta segunda jornada não é uma

repetição da primeira, à Montanha dos Cedros. Ela não pode basear-se

em nenhum fato histórico; a topografia é sobrenatural como antes não o

era. Nesta aventura, os planos espiritual e romântico se fundem. Embora

revestida de uma aparência de geografia primitiva, a paisagem é tão

espiritual quanto a Selva Escura, a Montanha e o Abismo de Dante. Não

se conhece até agora qualquer correspondente sumério deste episódio;

não é impossível, porém, que algo venha a ser encontrado no ciclo

inédito de Lugulbanda.

Após uma longa peregrinação pelo mundo selvagem, vivendo

como um caçador pobre e vestindo peles de animais, Gilgamesh chega

a um desfiladeiro, onde mata leões que vê brincando sob a luz da lua.

Este curto episódio é introduzido quase casualmente, mas é provável

que tivesse um significado que se perdeu para nós, pois um grande

número de sinetes os--tenta uma imagem em que um homem, que se

acredita ser Gilgamesh, trava combate com leões; e por todo o resto da

jornada, até chegar à Fonte da Juventude, o herói veste a pele do leão.

O grupo heráldico com um guerreiro flanqueado por dois leões

rampantes passou para a iconografia do mundo clássico, medieval e

moderno e é até hoje conhecido como "o motivo de Gilgamesh".

Sabemos que o leão encontrado por Dante no sopé da montanha,

"Fronte erguida e louco de fome", simbolizava o pecado da Soberba,

enquanto a pantera entalhada no coro de uma igreja medieval pode

estar simbolizando Cristo, visto como a pantera que matou o dragão,

dormiu por três dias e então refrescou o mundo com seu hálito. Mas

como poderíamos compreender estas imagens, tão corriqueiras para

nossos ancestrais da Idade Média, sem as pesquisas feitas pelos

medievalistas com o intuito de explicá-las? Por isso, não chega a

surpreender que não tenhamos hoje em dia nenhuma pista em relação

ao significado real deste combate com o leão. A versão hitita do poema

é a única a oferecer um indício de uma possível relação especial entre

os leões e o Deus-Lua.

Do desfiladeiro onde matou os leões, Gilgamesh vai para a

montanha do sol, guardada por terríveis sentinelas, seres parte homem,

parte dragão, com cauda de escorpião. Pode ser que o objetivo dessa

descrição seja o de lembrar-nos de que o homem-escorpião foi um dos

monstros criados pelo caos no começo do mundo, segundo o Enuma

Elish. A montanha aparece em vários sinetes, com o sol se pondo por trás.

Ela se situa na última cordilheira do horizonte ocidental; atrás de sua

enorme massa pétrea, Shamash desaparece no ocaso e torna a

aparecer no romper da aurora; ela é ao mesmo tempo a muralha do

céu e o portão do inferno. Para os sumérios, o sol dormia à noite no seio

de sua mãe, a terra; mas os semitas sustentavam que ele continuava sua

jornada num barco, passando por baixo da terra e sobre as águas do

mundo inferior até chegar à montanha oriental, elevando-se no céu

pela manhã, acompanhado de sua noiva, a aurora. Gilgamesh, em sua

jornada através da montanha Mashu, refaz a pé o itinerário solar; os dois

cumes da montanha representam o nascer e o pôr do sol, e o destino

final da viagem é o jardim do Deus-Sol, que fica nas margens do

Oceano.

Este jardim dos deuses não é a morada celeste, mas antes um

paraíso terrestre; é a terra da aurora, "situada a leste, no Éden". Mas, ao

contrário da terra de Dilmun, para onde o sobrevivente do dilúvio foi

levado para passar a eternidade, este lugar fica na margem de cá do rio

da morte. Infelizmente, o episódio chegou até nós em estado bastante

fragmentário, e a narrativa das maravilhas do jardim, com seus frutos

adornados de jóias, foi quase toda perdida; restou apenas o suficiente

para nos fornecer um dos raros vislumbres do jardim do Éden segundo o

antigo idioma semítico. Ali, caminhando de madrugada, o deus do sol

vê Gilgamesh desmazelado, com ar de desespero. Ele o repreende, mas

Gilgamesh segue em frente, apesar de avisado de que sua busca

certamente resultaria em fracasso. Numa casa à beira do mar ele

encontra uma mulher, Siduri, com suas vinhas e adegas. Ela também é

chamada Sabit, que, antes de tornar-se um nome próprio, significava

"taberneira". Pode ser que haja também uma relação entre esse nome e

o da sibila caldéia descrita por Beroso. Siduri é uma figura enigmática,

nunca explicada, mas sua linguagem é semelhante à de Circe, que era

filha do sol. Circe habitava uma ilha no meio do oceano, onde o leste e

o oeste se confundiam e onde cresciam ervas mágicas e móli. Como

Circe e seu filho Como, Siduri é partidária da "filosofia" do comer, beber e

ser feliz "pois isto também é o destino do homem". A imagem da

carregadora de vinho ainda foi usada pelos poetas sufistas medievais,

para quem ela era o símbolo da "realidade revelada". Gilgamesh foi

instruído por Sidun sobre como atravessar as águas da morte, assim

como Ulisses foi informado por Circe do caminho para o Hades através

do "rio Oceano". Mas, ao contrário de Ulisses, Gilgamesh está só e não

tem um barco; tem de achar o barqueiro, e as instruções dadas por

Siduri são confusas e pouco confiáveis. Há uma outra grande diferença:

embora esta expedição acarrete a travessia do Oceano e das águas da

morte, não é uma jornada pelo mundo inferior, nem tampouco

Urshana-bi é o barqueiro dos mortos. A rota é, ainda, o caminho

percorrido pelo sol toda noite até "o ponto de trânsito na foz dos rios".

Para chegar até Utnapishtim, "o Longínquo", Gilgamesh tem de

atravessar o mesmo Oceano que representava a última fronteira do

território conhecido ou conhecível para todos os povos antigos, gregos,

semitas ou sumérios. Era uma barreira intransponível, pois se comunicava

com as águas da morte e com o abismo, o "Absu", as águas que estão

acima do firmamento. Até mesmo os experientes romanos temiam o

Atlântico, e a travessia de César para a Grã-Bretanha foi vista como um

ato de ousadia quase sobre-humana, pois, ao contrário do mar

Mediterrâneo, o canal da Mancha era considerado o começo do

Oceano.

Para os sumérios, o Oceano ficava em algum lugar para além do

Golfo Pérsico, e era lá também que se situava Dilmun, onde os rios

desembocavam no mar. Deste modo, "a foz dos rios" correspondia

exatamente às "nascentes do Oceano" dos gregos, o lugar onde

ficavam os Campos Elíseos e as ilhas abençoadas de Homero e Hesíodo,

"em direção à noite, no longínquo Ocidente, nas suaves campinas, entre

as flores da primavera". O Dilmun, como o paraíso grego, não era para

os mortais comuns. Utnapishtim não morreu, mas foi escolhido para viver

lá para sempre, assim como Menelau entre os heróis gregos, que foi

enviado "às planícies elisias no fim do mundo para se juntar ao ruivo

Radamanto, na terra onde a vida é mais fácil para os homens, onde não

há neve, onde o vento é sempre suave e onde nunca chove; onde, dia

após dia, a brisa melodiosa do Vento Oeste chega do Oceano para

refrescar sua gente". Há uma descrição muito antiga de Dilmun, escrita

numa tábua de Nippur. Segundo este registro, no começo do mundo,

quando o trabalho da criação havia apenas começado, Dilmun era um

lugar onde "não se ouvia o grasnido do corvo, a ave da morte não

lançava o grito da morte, o leão não devorava, o lobo não lacerava a

ovelha, a pomba não pranteava, não havia viúvas, doenças, velhice ou

lamentação".

Apesar da publicação recente de escritos inéditos, nossos textos

ainda são bastante problemáticos na parte da obra que descreve o

encontro de Gilgamesh com o barqueiro e a partida de ambos em

viagem. Alguns sinetes mostram duas figuras humanas, que podem ser

Gilgamesh e Urshanabi, navegando em um barco com proa em forma

de serpente. Esta proa pode ser a explicação para a serpente

mencionada quando do encontro de Gilgamesh com o bar-queiro; mas

a natureza dos "Objetos de Pedra" que Gilgamesh imprudentemente

despedaça permanece um mistério. Tudo o que pode ser dito a respeito

deles é que sua destruição tornou necessário o uso de varas para a

propulsão do barco e que eles estavam de alguma maneira

relacionados a "asas" ou a "seres ou figuras aladas", mas, no mais, "eles

conservam até o presente a maior parte de seu mistério", como afirmou

o professor Gadd num ensaio escrito em 1966 sobre os novos textos.

O encontro de Gilgamesh com Utnapish-tim, "o Longínquo",

começa com uma daquelas composições literárias sobre a "Sabedoria",

que, tal como a exortação à vida de prazer e despreocupação

pregada por Siduri, parece ter como objetivo reconciliar o homem com

o seu destino na terra, embora tenha um tom pessimista. Segue-se o

relato do dilúvio por Ütnapishtim. Esta é a mais bem preservada de todas

as tábuas da versão assíria, com mais de trezentos versos ainda

conservados. Já fiz menção a outras versões mais antigas não

relacionadas a Gilgamesh: o "Dilúvio" sumério, em que Ziusudra

desempenha o papel de Noé ou Utnapishtim, e o Atrahasis babilônico.

Há notáveis semelhanças entre a história narrada no Gênesis e a da

tábua de Gilgamesh, mas há também diferenças surpreendentes. O

Gênesis não menciona o nome da cidade, mas as outras versões

apontam Shurrupak, atual Fará, uma das primeiras cidades-estados

sumérias a conquistar uma posição hegemônica.

A narrativa da décima primeira tábua começa com um conselho

realizado entre os deuses. Tais conselhos nunca pressagiavam nada de

bom para os mortais, e este não foge a regra. Não é dada nenhuma

explicação do motivo imediato que levou os deuses a optar pela

destruição da humanidade. Ele devia ser semelhante ao do Gênesis: "A

terra estava corrupta diante de Deus, e cheia de violência", pois mais

adiante no texto fala-se em "infligir ao pecador o seu pecado". Na

história suméria, a narrativa do dilúvio segue-se às da criação do homem,

dos vegetais e dos animais, da instituição da monarquia e do

estabelecimento da maneira correta de cultuar os deuses. Infelizmente,

neste ponto o texto é longamente interrompido, o que obliterou o motivo

da ira dos deuses e de sua decisão de destruir a humanidade através do

dilúvio. Não deixa de ser sugestivo o fato de a última linha decifrável

estar relacionada à limpeza e irrigação de riachos..Quando a história

volta a ficar inteligível os deuses estão divididos, exatamente como na

décima primeira tábua de Gilgamesh. Conheciam-se outras histórias do

dilúvio na antiga Mesopotâmia, mas a primeira referência ao evento na

literatura suméria não parece ser muito anterior ao Atrahasis, obra

composta no antigo idioma babilônico no começo do segundo milênio.

Neste poema a enchente se segue à pestilência, à fome e à seca, cada

uma delas ideada para exterminar a raça humana. Na edição definitiva

de W. G. Lambert e A. R. Millard, encontramos estes versos:

Mil e duzentos anos não haviam ainda se passado

Quando a terra se estendeu e o povo se multiplicou,

A terra bramia como um touro,

O tumulto dos homens perturbou o deus.

Enlil ouviu o barulho que faziam...

A descrição do dilúvio na Tábua III tem tanta coisa em comum

com a linguagem da Tábua XI de Gilgamesh que esta última parece ter

tomado a primeira como modelo, ou melhor, deve ter se utilizado de

uma recensão perdida, compilada no período babilônico médio.

No dilúvio de Gilgamesh, Ishtar e Enlil são, como sempre, os

advogados da destruição. Ishtar fala, talvez na qualidade de deusa da

guerra, mas é Enlil quem prevalece na escolha da tempestade como

arma. Apenas Ea, em sua superior sabedoria, não se manifestou; talvez

nem estivesse presente. Mas, sagaz, cuidou para que pelo menos um da

raça dos homens sobrevivesse.

A terrível devastação estarreceu até mesmo os deuses, pois Enlil

convocou para ajudá-lo não apenas os horrores da tempestade, mas

também os Anunnaki, deuses do mundo inferior, cujos raios dançavam

por sobre as águas em elevação. A descrição da tempestade é mais

elaborada e impressionante do que a narrada no Gênesis. Para se

encontrar uma linguagem comparável à descrição da nuvem negra

que se aproxima vinda do horizonte, dentro da qual os trovões

retumbam anunciando a aproximação do deus da tempestade, é

preciso recorrer aos Salmos — "... a escuridão estava sob seus pés. E ele

cavalgou um querubim e voou; sim, voou sobre as asas do vento... no

clarão que resplandecia à sua frente suas espessas nuvens despejaram

granizo e carvões em brasa. E o Senhor trovejou nos céus".

O mesmo mecanismo é utilizado na história bíblica: a construção

da arca, a entrada dos animais, o dilúvio, a soltura das pombas e o

sacrifício; mas, enquanto o deus que "se lembrou de Noé" vive num

terrível isolamento, nas versões assírias e suméria ainda estamos num

mundo de divindades facciosas, atarantadas e falíveis. Há um perigo

real de que os poderes do caos e da destruição escapem ao seu

controle. As coisas realmente acabam indo longe demais, e os deuses

ficam chocados com o resultado de sua própria ação; mas nada mostra

com mais clareza a diferença de objetivo e perspectiva dessas histórias

do que sua conclusão. No lugar da promessa solene feita por Deus a

Noé — "Enquanto a terra durar, a semeadura e a colheita, o frio e o calor,

o verão e o inverno, o dia e a noite não mais cessarão" —, há uma

repugnante descrição dos deuses a aglomerar-se como moscas em

torno do sacrifício. No lugar do juramento do arco-íris, há apenas Ishtar

brincando com o colar entre os dedos enquanto exclama que jamais se

esquecerá "daqueles dias". Mas essas são as palavras da divindade mais

notoriamente infiel. Da mesma forma, há também uma grande

diferença entre a condição de semidivindade e imortalidade que

Utnapishtim, Atrahasis e Ziusudra obtêm para si e suas famílias e a solene

aliança bíblica entre Deus e um Noé ainda inteiramente humano, graças

a quem toda a humanidade pode respirar aliviada e viver sem

ansiedades. A causa do mal-estar presente na psique do povo

mesopotâmico pode ser explicada em parte por essa insegurança que

dominava a vida das pessoas: a inexistência de uma aliança.

A narrativa do dilúvio, todavia, é um poema independente,

inserido na estrutura da Epopéia de Gilgamesh. Depois que a lemos,

voltamos ao ponto onde estávamos; mas ela tende, como os outros

incidentes que sobrevém no final da história, a convencer o herói da

futilidade de sua busca. Apesar de tudo, porém, o herói retém uma

esperança obstinada; ela deve ser esmagada e exposta como aquilo

que realmente é, uma fuga. Ao ser desafiado e posto à prova,

Gilgamesh não consegue sequer ficar acordado. Na Fonte da

Juventude, onde recebe os trajes que não apresentam sinais de

envelhecimento, ele percebe a ironia do fato de meros bens materiais

terem maior duração do que o corpo; ao lado disso, a planta da

Juventude Recuperada, trazida com tamanha dificuldade do fundo do

mar, cai brevemente em suas mãos para ser logo perdida; e assim a

lição é aprendida pela última vez. O texto aqui torna a apresentar muitas

lacunas, mas não é preciso outra explicação para a cobra que muda de

pele; ela é o símbolo da auto-renovação. Há também uma ligação

lingüística entre o nome dado à planta e aquele dado à casca que

envolve a cássia, "casca de cobra", ou seja, a pele descascada da

cobra.

Por que é que Gilgamesh não come imediatamente a planta,

recuperando assim sua juventude? Será por causa de um desejo altruísta

de compartilhá-la com seu povo, devolvendo aos idosos seu vigor

juvenil? Será apenas mais um truque dos deuses? Não creio; nem

tampouco acredito que Gilgamesh seja vítima da impostura divina toda

vez que chega perto da imortalidade; penso que, em vez disso, o

propósito de cada um desses incidentes é cumulativo e tem como

objetivo minar sua recusa em aceitar o destino humano. Gilgamesh não

estava em busca de uma eterna renovação da natureza, algo que

poderia ter obtido com a deusa Ishtar, nem tentava meramente escapar

da velhice, passando a levar uma vida tranqüila e ociosa, como a que

fora concedida a Utnapishtim; ele estava muito mais interessado na

imortalidade terrena e nas oportunidades que esta oferecia para ações

heróicas; buscava uma vida de glórias na terra semelhante à dos deuses

no céu. É preciso que a lição seja repetida para que Gilgamesh, o rei,

perceba que não é diferente dos outros homens. Só depois que a cobra

volta para dentro do lago é que o herói finalmente se convence da

futilidade de lutar por algo que não se pode ter, "correndo atrás do

vento", como dissera-lhe Siduri. É o fim da busca. Não há mais nada a

fazer a não ser voltar para casa.

A volta é descrita sumariamente e deixa muita coisa inexplicada.

O final da aventura é como um feitiço que se quebra; depois das

tribulações, da busca e de um prêmio quase ganho, tudo volta

subitamente ao normal e nos encontramos novamente no ponto onde

começamos, admirando a prosaica excelência dos muros da cidade.

Todas as coisas boas que esperávamos encontrar — juventude, vida

eterna, o amigo morto — desaparecem. Este final foi descrito como

"Zombeteiro, insatisfatório, desprovido de sentido trágico ou catártico".

Não concordo com essa opinião, pois é um final verdadeiro, é o que

realmente acontece e, à sua maneira, é tão trágico quanto o fim de

Heitor sob as muralhas de Tróia.

O último ato, a morte de Gilgamesh, existe apenas na versão

suméria. É um lamento solene; o lamento não é tanto um grito de dor

individual, mas parte de um elaborado ritual funerário. É uma cena igual

à revelada pela escavação do Cemitério Real em Ur, com imolações

em massa e uma magnífica parafernália fúnebre: presentes, banquetes,

mantos e o pão e o vinho oferecidos pelo rei falecido aos deuses do

mundo inferior no momento de sua entrada na "Terra Sem Retorno".

8. A sobrevivência do texto

Esta história conservou-se precariamente, só tendo sido

redescoberta no século passado; pois, quando Nínive caiu, em 614 a.C,

dominada pelas forças conjuntas dos medos e babilônios, a destruição

que se seguiu à sua queda foi tão completa que a cidade jamais se

reergueu, ■ e sob as ruínas da capital assíria foi soterrada toda a

biblioteca de Assurbanipal. Os assírios nessa época não gozavam de

muito prestígio entre seus vizinhos, e o profeta Naum sem dúvida falou

por muitos deles em "O Fardo de Ní-nive", quando exultou com sua

iminente queda: "As bigas correrão enfurecidas pelas ruas, chocar-se-ão

umas com as outras; parecerão tochas, correndo como relâmpagos de

um lado para o outro... Nínive está devastada: quem dela se

compadecerá?"

O século VII foi talvez o último momento na história do Oriente

Próximo em que uma grande literatura, e uma história como a de

Gilgamesh de Uruk, pôde quase desaparecer por completo. A descrição

do dilúvio tornara-se mais uma vez uma história independente, mas sua

estrutura, como podemos observar na narrativa de Eusébio, citando

Beroso no século III a.C, mudou surpreendentemente pouco. Foi

provavelmente em Babilônia que a Epopéia sobreviveu por mais tempo

em sua forma integral, e conhecem-se cópias do texto feitas após o

saque de Nínive; mas esta sobrevivência se deu sob a forma de um tipo

especial de narrativas de viagens e aventuras, sempre presentes no

mundo atemporal e sem fronteiras da lenda e do romance folclórico.

Eliano, escrevendo em grego por volta do ano 200 d.C, sabia da

existência de um certo Gilgamos, rei de Babilônia, e narrou a história de

seu nascimento, que não é muito diferente daquela que se conta de

Perseu e também de Ciro. Foram detectados elementos da narrativa nas

lendas folclóricas persas da Idade Média e até em escritos de regiões

mais longínquas; mas foi uma sobrevivência crepuscular. Os escritos do

Oriente Próximo e do Mediterrâneo na idade clássica não acusam um

conhecimento concreto da existência de nossa Epopéia.

Uma das razões para esse desaparecimento pode estar nos

caracteres cuneiformes com os quais a obra foi escrita. Este tipo de

escrita estava saindo de uso e logo se tornaria ininteligível aos habitantes

do novo mundo mediterrâneo. Talvez tenham surgido algumas versões

populares em aramaico, que não sobreviveram; mas os persas, que

continuaram a usar a antiga escrita, possuíam sua própria literatura, e

obviamente tinham muito pouco interesse pela história e pelas lendas de

seus antigos inimigos. Os hebreus tinham razões ainda mais fortes para

querer esquecer a Assíria, a Babilônia e tudo o que dizia respeito a tais

nações, que passaram a figurar apenas em parábolas admonitórias.

Além do mais, o século em que Nínive caiu foi o mesmo que viu o

aparecimento de duas novas formas poéticas, o poema lírico e a ode

para coral, ambas utilizando a escrita alfabética. Mas, embora a poesia

lírica produzida na Grécia do século VII seja moderna, a literatura épica

daquele país ainda pertencia em parte ao mesmo mundo lendário de

Gilgamesh, o rei da antiga Uruk. Teria sido historicamente possível ao

poeta da Odisséia ter escutado a história de Gilgamesh, não numa

versão truncada, mas no original, pois os navios da Jônia e das ilhas já

comerciavam na costa síria. Os gregos mantinham contato com os

assírios em Al Mina e Tarso. É improvável, mas não impossível, que

Assurbanipal tenha ouvido um contador de histórias grego recitar a

Ilíada em Nínive.

É possível que ultimamente se tenha dado importância demais às

aparentes semelhanças entre a mitologia dos antigos gregos e a dos

povos da Ásia Ocidental. Este volume não é o lugar adequado para

aprofundarmos-nos nessas discussões críticas, ao mesmo tempo

fascinantes e quiméricas: seria Gilgamesh um protótipo de Ulisses, ou

empunhava ele a clava de Hércules? Não é tanto uma questão de

protótipos e parentesco, mas, antes, de uma similaridade de atmosferas.

O mundo em que viviam os bardos gregos e os escribas assírios nos

séculos VII e VIII era pequeno demais para que não tenha havido algum

contato entre eles; e as viagens comerciais dos aventureiros e

mercadores gregos forneciam um cenário mais do que propício ao

intercâmbio de histórias; especialmente quando o campo para isso fora

preparado séculos antes pelos micênios da era do bronze, em seus

contatos com o povo da Síria e, possivelmente, com os hititas da

Anatólia. Por isso, não chega ser assim tão surpreendente que Gilgamesh,

Enkidu e Humbaba pareçam viver no mesmo universo dos deuses e

mortais dos Hinos Homéricos, da Teogonia de Hesíodo e da Odisséia.

Todas estas obras têm em comum uma mesma mise-en-scène, um

mundo em que deuses e semideuses se confraternizam com os homens

num pequeno universo de terra conhecida, cercado pelas águas

desconhecidas do Oceano e do Abismo. Estes homens ocasionalmente

emergem da sombra do mito e da magia para aparecerem como seres

humanos compassivos e comuns, tais como os heróis homéricos; e, entre

eles, encontramos Gilgamesh de Uruk. Os deuses babilônicos e seu

universo desapareceram para ressurgir mais tarde nas religiões

mediterrâneas, especialmente nas crenças gnós-ticas. Os heróis também

se transformaram e sobreviveram, viajando para o oeste e para o leste.

Muitos reconhecem no Alexandre da Idade Média a figura de

Gilgamesh, e algumas de suas aventuras podem ter sido transferidas

para os romances. Desta forma, por trás do gales Cynon, por trás de

Owen e Ivain, por trás de Sir Gawain, que procura a Capela Verde

passando pela gélida floresta setentrional com seus carvalhos e suas

trilhas de musgo, por trás de Dermot em sua luta com o "selvagem" na

fonte (situada no caminho que leva ao país submarino), talvez se

esconda a Terra dos Vivos dos sumérios, a Floresta de Cedro e a

Montanha de Prata, Amano, Elam e Líbano. São romances e histórias

folclóricas surgidas nas cortes medievais, cujas origens passam pelo

cancioneiro dos menestréis e pelas lendas célticas, remontando à

Suméria arcaica ou talvez até antes, aos primórdios da arte de narrar.

Embora o herói sumério não seja um Ulisses mais antigo, ou um Hércules,

ou um Sansão, ou um Dermot, ou um Gawain, é possível que nenhum

destes fosse tão celebrado se não houvesse a história de Gilgamesh.

O mundo de hoje é tão violento e imprevisível quanto o de

Assurbanipal, o rei da Assíria, o Grande Rei, o rei do mundo, e o de Naum

da Judéia e até mesmo o de Gilgamesh, personagem histórico que, no

terceiro milênio antes de Cristo, guerreou e enviou expedições pelo

mundo. A única diferença é que, para nós, o "grande redemoinho do

Oceano" não fica para além dos limites de um horizonte plano, mas na

outra extremidade de nossos telescópios, na escuridão onde eles não

podem penetrar, onde o olho e sua extensão mecânica se vêem

obrigados a retornar. Nosso mundo pode ser infinitamente maior, mas

ainda assim acaba num abismo, nas águas superiores e inferiores da

nossa ignorância. Os mesmos demônios ficam de emboscada à nossa

espera, "o Demônio no relógio", e no final de tudo retornamos ao ponto

de onde saímos, como quem "partiu numa longa jornada, cansou-se,

exauriu-se em trabalhos e, ao retornar, gravou na pedra toda a sua

história".

9. A linguagem da Epopéia

Em obras separadas por um longo período de tempo, como o que

transcorreu entre a versão suméria da epopéia e as mais recentes

versões semíticas, é natural que haja diferenças de linguagem e

sentimento. Os próprios escritores da Antigüidade referiam-se à Epopéia

como "o Ciclo de Gilgamesh", um poema em doze cantos, cada um

com mais ou menos trezentos versos, inscritos em tábuas separadas. A

recensão ninivita está escrita em versos rítmicos com quatro acentos por

verso, enquanto a do antigo idioma babilônico apresenta versos mais

curtos de dois acentos cada. Apesar das características primitivas, a

repetição e o uso de epítetos padrão, sua linguagem não é de modo

algum primitiva ou ingênua; pelo contrário, é altamente elaborada. Os

curtos epítetos homéricos são utilizados com parcimônia; o Deus-Sol é

"glorioso" e Ninsun "sábia", mas não invariavelmente, e esses epítetos são

bem menos freqüentes do que aqueles que acompanham o nome de

Heitor ou Ulisses. O que encontramos em ambas as versões, a suméria e a

semítica, é a repetição, palavra por palavra, de passagens

relativamente longas de narrativa ou conversação e também de

elaboradas fórmulas de saudação. Estas eram características comuns

da poesia oral, que serviam para ajudar o recitador ao mesmo tempo

que satisfaziam à platéia. Qualquer contador de histórias infantis sabe

que sua platéia quer a repetição exata de uma passagem conhecida

ou popular e que se opõe ferozmente a qualquer desvio, por menor que

seja, em relação às palavras usadas na primeira vez em que a história foi

contada. Hoje, como no passado, exige-se do recitador e do contador

de histórias a mesma exatidão ritualística.

Não sabemos por quanto tempo o poema foi recitado, mas a

conservação destas palavras no texto sugere a coexistência de uma

tradição oral e uma tradição escrita. Para o tradutor essas seções

representam um problema especial, particularmente quando vêm muito

seguidas umas às outras sem uma forte razão emocional ou narrativa.

Isto se aplica às instruções recebidas pelo caçador com referência à

armadilha para a captura de Enkidu, dadas rápida e sucessivamente

por seu pai, por Gilgamesh e repetidas por ele mesmo. Neste caso,

condensei as informações (um recitador talvez as tivesse expandido com

interpolações). Mas, com relação às saudações dirigidas ao herói pelos

vários personagens que encontra em seu caminho à procura de

Utnapishtim e suas longas réplicas a elas, as palavras têm um efeito

cumulativo; cada repetição intensifica a atmosfera de cansaço,

frustração e esforço obstinado e deve, por isso, ser mantida. Há também

momentos em que a repetição de palavras semelhantes, com

pequenas variações, intensifica a tensão e conduz a um clímax, como

na jornada de Gilgamesh à montanha. Isso, quando dito em voz alta,

causaria uma forte impressão da passagem do tempo e do desgaste

resultante dessa prova; por isso, embora muito do efeito se perca com a

simples leitura, optei por condensar o texto o mínimo possível. Realmente,

expressar a passagem do tempo deve ter representado um grande

desafio, e esse artifício deve ter sido criado para enfrentá-lo, pois o

mesmo tipo de repetição ocorre toda vez que uma jornada tem de ser

descrita.

Vários dos mecanismos comuns de embelezamento poético foram

utilizados na obra, inclusive trocadilhos, ambigüidades propositais

(também encontradas na versão suméria) e ironia. Quase não se

encontram alegorias no texto, mas, quando usadas, os resultados são

ótimos. No conjunto, as descrições são vividas e diretas, como a do

vulcão e a da tempestade que precede o dilúvio. A "poesia" foi

concebida dentro daquele espírito de quem vê nos relâmpagos que

surgem no horizonte os deuses do mundo inferior a elevar suas tochas por

cima de suas cabeças. A linguagem do texto sumério é diferente em

qualidade; em parte, talvez, por estar mais próxima de um hino ou de

uma liturgia. O lamento acadiano por Enkidu é mais elaborada mente

expressado, mas o pranto sumério por Gilgamesh tem uma nobreza e

uma força ritual que a outra versão desconhece. Já estamos de tal

maneira habituados a versões literariamente mais sofisticadas dos mitos

que às vezes nos sentimos tentados a enxergar intenções "poéticas" ou

"literárias" onde elas não existem, interpretando exageradamente

símbolos que por acaso atraíram a imaginação de escritores mais

recentes e com uma consciência maior do ofício. Não é possível dizer

até que ponto determinado efeito poético foi obtido deliberadamente,

nem tampouco até que ponto as composições se libertaram dos antigos

padrões ritualísticos. A partir do momento em que o mito se cristaliza em

forma literária, está morto enquanto crença ou forma de ritual; mas é

possível que, pelo menos nos estratos mais antigos do nosso material,

essa mudança não tivesse ainda ocorrido de maneira completa, e por

esta razão não devemos nos surpreender de encontrar incrustados em

poemas tão primitivos certos fragmentos míticos que parecem grotescos

ou banais, ao mesmo tempo que, em outros momentos, defrontamos

com os escombros de uma poesia que nunca chega a se desenvolver

plenamente.

10. Notas sobre esta versão

Esta versão da Epopéia de Gilgamesh não é uma nova tradução

do original cuneiforme. Uma trabalho dessa natureza exigiria um

conhecimento profundo das línguas nas quais as várias partes desta

obra chegaram a nós — o sumério, o acadiano e o hitita são as

principais entre elas —, e esta é uma tarefa que não creio ter

competência para levar a cabo. Existem hoje em dia várias traduções

acadêmicas para o inglês, o francês e o alemão, que fornecem um

texto preciso e acrescido de longas notas explanatórias. Para o leitor

comum, que não é um especialista em assiriologia ou estudante das

literaturas e da história antiga, estes textos são de difícil leitura, pois

tendem a enfatizar, e não a mitigar, os defeitos e falhas do original.

Cada palavra ausente ou de significado duvidoso é assinalada por

chaves ou lacunas; estes sinais variam conforme a palavra entre

colchetes tenha sido inserida pelo tradutor ou pelo antigo redator. Além

do mais, a tradução é aproximada o máximo possível da estrutura

semítica ou suméria do original, o que muito freqüentemente dá origem

a um texto em mau vernáculo. Existem muitas e felizes exceções das

quais pude me beneficiar, aproveitando-me também dos comentários

que explicam as limitações e dificuldades das várias leituras. Este

método acadêmico fornece ao estudante e ao especialista aquilo de

que eles precisam, mas apresenta ao leitor comum uma página que

mais se assemelha a um problema de palavras cruzadas inacabado. Por

isso, achamos que valia a pena tentar uma versão que, sem acrescentar

nada ao texto que não tenha sido corroborado pela autoridade

acadêmica nem tampouco omitir qualquer palavra cujo significado

fosse inquestionável, procuraria evitar a aparência tosca da tradução

verso a verso, fornecendo ao leitor uma narrativa simples e direta.

Tenho plena consciência da temeridade de tal empreendimento

e da minha grande dívida para com os especialistas responsáveis pelas

traduções do original em cuneiforme. Apoiei-me especialmente em

Alexander Heidel, do Instituto Oriental da Universidade de Chicago,

autor de Gilgamesh Epic and Old Testament Parallels (segunda edição,

1949), e em E. A. Speiser e sua tradução publicada, entre outros textos

acadianos, numa coletânea editada por J. B. Pritchard sob o título

Ancient Near Eastern Texts Relating to the Old Testament (segunda

edição, 1955; existe agora uma terceira edição, de 1969, com material

suplementar). Todas as traduções posteriores fizeram extenso uso da

versão de Campbell Thompson (em hexametros ingleses) e de suas notas

publicadas em 1928 e 1930. Para o material sumério, utilizei a tradução

de S. N. Kramer, publicada em Ancient Near Eastern Texts e em seu livro

From the Tablets of Sumer, 1956 (reeditado na Inglaterra como History

begins at Sumer, 1958). O importante fragmento de Sultantepe foi

publicado por O. R. Gurney no Journal of Cuneiform Studies de 1964, e

pode ser encontrado, numa versão ligeiramente modificada, na

segunda edição de Ancient Near Eastern Texts; as demais passagens

suplementares ou variantes do texto foram tiradas de artigos especiais

publicados em periódicos e serão designadas adiante, em seu contexto.

Não segui o exemplo das demais versões, que transpuseram a

Epopéia em verso, por achar que a prosa proporcionaria um meio mais

flexível e direto de comunicação, particularmente nas passagens mais

difíceis; pela mesma razão, desisti de tentar manter a divisão por tábuas.

Dentro da estrutura do texto ainda há espaço para uma considerável

variedade de abordagens e interpretações, como nos revela uma

comparação entre as diferentes traduções existentes. Meu objetivo

geral foi a inteligibilidade e, até onde os textos existentes permitiram,

proporcionar uma história coerente num ritmo suave e espontâneo.

Qualquer versão que tenha como objetivo unificar a narrativa precisa

desenvolver um trabalho de cotejo. O "Texto Padrão" criado pelos

escribas de Assurbanipal no século VII era um cotejo, assim como o são

todas as versões modernas. Distanciei-me do método de trabalho mais

comum e utilizei as fontes sumérias lado a lado com as versões hitita e

acadiana — não apenas por causa de sua preeminência, e pelo fato de

os próprios escritores acadianos terem ido buscar no Ciclo Sumério a

base para a maior parte dos episódios de sua Epopéia, mas também

porque elas preenchem lacunas importantes, especialmente no

episódio da "Jornada na Floresta", e porque somente elas contêm o

"Destino" e a "Morte de Gilgamesh". Além disso, trata-se de textos de alta

qualidade.

As diferenças de detalhe entre a versão suméria e a babilônica

arcaica não são maiores do que as verificadas entre as recensões de

Nínive e Boghazköy, que são geralmente utilizadas em conjunto pelos

tradutores modernos; e a data em que foi escrito o material sumério

ainda existente (na primeira metade do segundo milênio) é muito

próxima daquela em que foi produzida a versão babilônica arcaica

contida nas tábuas de Yale e Pensilvânia (Primeira Dinastia da Babilônia).

A versão hitita parece divergir radicalmente das demais no que se refere

aos últimos episódios, mas apresenta contribuições importantes em

muitos pontos do texto, especialmente no que diz respeito ao conflito

com Humbaba (Huwawa) e ao primeiro encontro com Urshanabi.

A ordem dos acontecimentos não fica sempre clara e é

particularmente confusa no episódio da floresta; mas a ordem dos

episódios é relativamente uniforme. Não segui o novo arranjo das tábuas

IV e V proposto por J. V. Kinnier Wilson (VII Rencontre Assyriologique

Internationale [1960], ver abaixo), segundo o qual os sonhos de

Gilgamesh acontecem antes de sua chegada na floresta. Embora, sob

certos aspectos, isto seja mais lógico, podem-se fazer sérias objeções a

este tipo de alteração. A seqüência seguida por mim é basicamente a

de Heidel e Speiser, que combina os textos hitita, assírio e babilônico,

incluindo o fragmento de Sultantepe. O uso adicional de "Gilgamesh e a

Terra dos Vivos" e a "Morte de Gilgamesh" forçou-nos a fazer algumas

alterações neste arranjo. A versão suméria do episódio da floresta é

suficientemente fiel às demais para poder preencher diretamente as

muitas lacunas do trecho que narra o encontro com Humbaba. A

principal divergência nos textos está na descrição suméria dos

"cinqüenta filhos da cidade" que acompanham os dois heróis em sua

jornada, uma descrição por mim omitida. Um fragmento no antigo

idioma babilônico, recentemente publicado, sobre a luta com

Humbaba e sua morte, aproxima bastante o texto da versão suméria; e

uma tábua hitita há pouco descoberta sugere a existência de uma

terceira variante. As versões suméria, babilônica e assíria diferem

ligeiramente entre si na seqüência de eventos relativos aos preparativos

para a "Jornada na Floresta". Fiz aqui um amálgama das versões assíria e

babilônica, seguindo porém o texto sumério ao colocar o apelo ao

Deus-Sol antes dos encontros com os cidadãos e com os ferreiros. A

incorporação do texto sumério "A Morte de Gilgamesh" justifica-se

porque ele proporciona à narrativa um final mais satisfatório do que a

Tábua XI assíria. A razão para não incluir a Tábua XII já foi dada. Ela é

incompatível com o relato que recebemos da morte de Enkidu após o

episódio do "Touro do Céu". O trecho em questão é comprovadamente

uma tradução literal do poema sumério que devia ocupar o lugar do

sonho e da morte de Enkidu descritos na sétima tábua da recensão

ninivita. Mais exposta a possíveis objeções talvez seja minha opção de

usar o texto sumério "Destino" no começo da "Jornada na Floresta".

Sendo Enkidu o intérprete de sonhos nas ocasiões que se seguem, e uma

vez que o "Destino" é obviamente revelado a Gilgamesh por meio de um

sonho, achei que seria permissível inseri-lo neste ponto, repetindo-o, além

disso, no final, junto com "A Morte" (fragmentos A e B), onde o trecho

arremata adequadamente a narrativa. Ambos os textos, sumério e

babilônico arcaico, fazem de Enlil o autor do "Destino".

Há outros pontos que precisam ser explicados. Omiti inteiramente

a alusão feita ao "sentinela" do portão de Humbaba, por achar que o

texto se refere sempre ao próprio Humbaba. Embora a linguagem

utilizada seja ambígua, não se faz qualquer outra menção a um

segundo sentinela, e este personagem seria supérfluo. Além do relato

sumério do assassinato de Humbaba, utilizei integralmente a versão

babilônica do evento, embora as duas descrições sejam coincidentes

em muitos trechos. Alterei muito ligeiramente a seqüência das frases no

início da última jornada (Tábua XI assíria), para deixar claro o motivo do

empreendimento o mais cedo possível. As linhas adicionais no "Jardim

dos Deuses" baseiam-se na tradução de L. Oppenheim (Orientalia 17,

1948, 47-48). A mesma fonte emprega a alegoria da "lã" no lugar do sono.

Os "Objetos de Pedra" despedaçados por Gilgamesh antes de zarpar

com Urshanabi desafiam qualquer explicação no momento. E difícil

acompanhar a corrente de água doce e os movimentos de Gilgamesh e

Urshanabi ao deixarem Utnapishtim; utilizei-me aqui de uma pista

deixada por Speiser em Ancient Near Eastern Texts (p. 96, nota 232). A

afirmação de que Gilgamesh saiu "pelo portão por onde havia entrado"

foi tirada das palavras da mulher de Utnapishtim (Heidel XI, 207-208).

Neste ponto, é preciso algo que assinale a transição.

Na lista de nomes, ao final de "A Morte de Gilgamesh" (texto

sumério), deixei de fora quatro deles, por pertencerem a personagens

sobre os quais nada se sabe; em relação a cada um dos demais,

acrescentei um epíteto explanatório para transmitir uma idéia do

significado desse catálogo. Em três pontos da narrativa, tomei

emprestado alguns trechos de outras epopéias. No início do relato do

dilúvio, enxertei algumas linhas que explicam a ira de Enlil, tirando-as da

epopéia de Atrahasis, escrita no idioma babilônico arcaico (ver abaixo p.

83). Trata-se dos versos que se iniciam: "Naqueles dias a terra fervilhava,

os homens multiplicavam-se..." No fim do sonho que Enkidu tem do

mundo inferior, o símile do intendente é tirado do texto assírio "Visão do

Mundo Inferior", que contém uma passagem bastante semelhante a

esta.

As linhas que descrevem a localização do Dilmun foram tiradas do

"Dilúvio" sumério. O Apêndice traz um pequeno resumo classificatório do

material encontrado em cada uma das tábuas.

Julho de 1959 (1972) N. K. Sandars

Desde a publicação desta versão da Epopéia de Gilgamesh, em

1961, a decifração de novas tábuas e o estudo mais profundo daquelas

já conhecidas acrescentaram muito à nossa compreensão da obra em

si e ao nosso conhecimento do seu contexto histórico e literário.

Gilgamesh foi objeto de um congresso no "Rencontre Assyrioíogique

Internationale", cujas atas foram transcritas e publicadas sob o título de

Gilgamesh et sa legende no Cahiers du Groupe François-Thureau-Dangin,

I, Paris, 1960. Aí podem ser encontradas uma bibliografia completa,

novas discussões e novo material textual. Entre as substanciais adições

das quais me vali, apesar de algumas incongruências, está um novo

relato sumério do episódio de Humbaba (Hu-wawa) (J. van Kijk). Um

exemplo do tipo de dificuldade inerente a este tipo de interpretação

está no fato de que os "cedros abatidos", a amarração e o depósito dos

galhos de uma tradução tornaram-se, em outra, "vestimentas de aura",

rosetas ou "os seguidores adormecidos da expedição". Um outro

acréscimo se fez num ponto onde o texto é particularmente defeituoso:

a crise no encontro entre Humbaba e Gilgamesh. Às versões suméria e

babilônica pode-se agora acrescentar uma tábua hitita de Boghazköy,

escrita no século XIII e contendo, ao que tudo indica, a versão deste

episódio segundo a tradição hitita, na qual o herói parece ser Humba-ba

e não Gilgamesh (H. Otten, 1958). A linguagem utilizada é muito

semelhante à empregada nos outros mitos hititas conhecidos, e uma

única tábua cobre toda a sucessão de eventos que vai do episódio em

que Gilgamesh recebe seus talentos dos deuses até o assassinato de

Humbaba. Esta mesma narrativa ocupa cinco tábuas na versão

acadiana, donde se conclui ter havido aí considerável condensação.

Mesmo assim, algumas lacunas são preenchidas pelo texto hitita, que

também oferece um material alternativo para outros pontos da história.

Por exemplo: é perfeitamente natural que, para os hititas, seja o deus

hitita do clima a conceder o dom da coragem, e não o Adad acadiano,

em relação a quem a divindade hitita mantém uma posição hierárquica

equivalente, embora relativamente superior. O preparador de

armadilhas que engoda Enkidu tem um nome acadiano, Sangasu, que

significa "golpeador mortal". O mais importante, porém, é que o texto

sugere a possibilidade de Gilgamesh só ter chegado a Uruk após

peregrinações pelo mundo, o que torna mais compreensível o

ressentimento causado por sua "tirania". A jornada na floresta ganha

nesta versão um cenário físico real. Ela começa às margens do Eufrates,

onde os heróis oferecem sacrifícios ao Deus-Sol. De lá, uma jornada de

seis dias os leva à Montanha dos Cedros. O texto é mais uma fonte a

confirmar sua localização a noroeste, e não a leste, e está perfeitamente

de acordo com o fragmento babilônico arcaico de Tell Iscali, que, ao

final da luta com Humbaba, situa a ação no Líbano. Embora na tábua

hitita Humbaba se revele uma ameaça mais perigosa, a conclusão é

exatamente a mesma e vem a se encaixar muito bem entre os

fragmentos sumério e babilônico. Mais detalhes aparecem em outras

fontes e foram publicados por A. Falkenstem {(Journal of Near Eastern

Studies, 19, abril de 1960, 2, 65-71) e J. van Dijk, (Sumer, 15, 1959, i, 8-10),

mas as diferenças estão perfeitamente dentro daquilo que podemos

esperar de uma tradição oral. Uma tábua de Ur, talvez do século XI a. C,

contém uma outra versão de parte da Tábua VII da recensão ninivita,

que descreve a conversa entre Shamash e Enkidu no leito de morte

deste último. Este texto liga-se ao fragmento de Sultantepe, tendo sido

publicado por C. J. Gadd em Iraq, 28, 1966, 105-121, com uma série de

comentários que incluem interessantes sugestões relativas ao nome e ao

perfil psicológico de "Siduri" e considerações referentes aos "Objetos de

Pedra" destruídos por Gilgamesh antes de sua travessia pelas Águas da

Morte.

Boa parte desses novos textos foram incorporados à terceira

edição do Ancient Near Eastern Texts Relating to the Olá Testament,

Princeton, New Jersey, 1969, ou ao Suplemento, pp. 503-7, numa

tradução de A. R. Grayson. Um fragmento de Tell Harmall narra o

"primeiro" sonho de Gilgamesh na montanha e contém acréscimos à

conversa entre Gilgamesh e Ishtar e ao episódio do "Touro do Céu".

Importantes contribuições que elucidam a doença e o sonho de Enkidu

podem ser encontradas no material hitita de R. Stefanini (1969) e nos

textos de Ur de C. J. Gadd, loc. cit. (1966). Estes últimos são do período

babilônico médio ou cassita — talvez do começo do século XI — e

fornecem uma alternativa à versão ninivita, além de acrescentar

consideravelmente ao diálogo entre Enkidu e Shamash. O problema do

"portão" — se era o "portão da floresta" ou o da cidade de Uruk, feito

com a madeira da floresta — é discutido por I. M. Diakonoff (Bibliotheca

Orientalis, XVIII, 1961, 61-67). Usei aqui a segunda alternativa por achá-la

mais provável. Os Objetos de Pedra são novamente discutidos por C. J.

Gadd, A. R. Millard (1964), em sua edição de um fragmento no

babilônico arcaico que se sobrepõe a de Meissner, e também por D.

Wiseman em Gilgamesh et sa legende (1960). Acréscimos menores à

Tábua X também foram tirados da terceira edição de Texts Relating to

the Old Testament, e aceitei as sugestões do artigo de L. Matous

(Bibliotheca Orientalis, XXI, 1964, 3-10), bem como dos vários autores do

artigo "Gilgamesh" no Reallexikon der Assyriologie, partes 3 e 4, pp. 357-74.

Uma pista em relação à natureza da planta da juventude eterna

provém do Dictionary of Assyrian Botany, de R. Campbell Thompson

(Londres, 1949). O primeiro verso da epopéia foi emendado em Assyrian

Dictionary of the Oriental Institute of Chicago, 7, 33b.

Mencionei nesta introdução a descoberta de novas provas

relativas à existência de um Gilgamesh histórico. Esta questão é discutida

em Gilgamesh et sa legende por W. G. Lambert, S. N. Kramer e, numa

nota curta, por E. O. Edzard; e também por M. Rowton, no Journal of

Near Eastern Studies, 19, 1960, 2, 156-62. As divergências, embora

importantes, não são muito grandes, e qualquer que seja a época que

adotemos, o período de vida de Gilgamesh não estará muito distante da

data de construção do Túmulo Real de Ur, com seus requintes e rituais

bárbaros; por isso, o texto fragmentário de "A Morte de Gilgamesh" pode

ser usado como um documento semi-histórico para elucidar aspectos

dos ritos fúnebres da casa real de Ur no terceiro milênio, o que de fato foi

feito pelo prof. Kramer num artigo publicado em Iraq, 22, 1960, 58. O prof.

Mallowan escreveu a respeito do dilúvio, ou dos dilúvios (Iraq, 26, 1964,

62-82), que também são discutidos em Atrahasis, The Babylonian Story of

the Flood, de W. G. Lambert e A. R. Millard (1969). M. Civil examinou o

assunto à luz da tradição suméria.

A possível dívida da mitologia grega para com o Oriente vem

sendo estudada por vários autores desde o aparecimento de From

Mycenae to Homer, de T. B. L. Webster (Londres, 1958): P. Walcott, em

Hesiod and the Near East (Cardiff, 1966), G. S. Kirk, Myth, its Meaning and

Functions in Ancient and other Cultures (Cambridge, 1970), e M. L. West,

Early Greek Philosophy and the Orient (Oxford, 1971).

Quanto ao problema de determinar quem eram os sumérios, a

questão permanece sem resposta, e talvez continue assim. Se chegaram

à região vindos de uma outra parte, é possível que tenham sido poucos,

e talvez nunca saibamos ao certo a extensão de sua influência na língua

e na literatura local.

Maio de 1972

N. K. Sandars

Continuam a surgir dados relacionados a Gilgamesh. Novos textos

vêm à luz que incrementam nosso conhecimento da Epopéia e do

Gilgamesh histórico, ao mesmo tempo em que trabalhos realizados

sobre os textos existentes ajudam-nos a obter uma compreensão maior

das passagens difíceis. Nestes últimos anos, duas obras de especial

importância foram lançadas. The Treasures of Darkness, de Thorkild

Jacob-sen (New Haven e Londres, 1976), contém uma análise nova e

original de toda a Epopéia à luz da visão geral que o autor tem das

religiões da Mesopotâmia; e The Evolution of the Gilgamesh Epic, de J. H.

Tigay (Filadélfia, 1982), mostra-nos, por meio da comparação das

diferentes versões e da distinção das diferentes fontes — cronológicas e

geográficas —, como as mudanças teológicas e políticas moldaram o

poema e como esses diferentes elementos se combinaram na

compilação final do texto. Novas e interessantes observações sobre o

poema podem ser encontradas em The Theology of Death, de W. G.

Lambert (edição de B. Alster, XXVI Rencontre Assyriologique

Internationale, 1980), e um novo fragmento da quinta tábua foi

publicado por E. von “Weiher em Baghdader Mitthei-lungen (1980, II,

90-105)”. R. A. Veenker, no Biblical Archaeologist 1981, 44/45, 199-205), se

aprofundou no significado da Planta Mágica da Juventude Recuperada

como um mito à parte, e a pesquisa prossegue. Sou grata à Sra.

Stephanie Dalley por sua ajuda com as referências bibliográficas.

Setembro de 1987 N. K. Sandars

Agradecimentos

Listar aqui todas as autoridades a quem sou grata implicaria

compilar uma volumosa bibliografia, mas não posso me esquivar a umas

poucas menções especiais. Contei com a valiosa ajuda do Professor D. J.

Wiseman, que me salvou de uma série de armadilhas; todos os erros

remanescentes são meus. Tenho uma enorme dívida de gratidão para

com os muitos amigos que contribuíram com críticas e sugestões, me

encorajando nos diversos estágios deste trabalho. Entre eles, agradeço

particularmente a Ruth Harris, Katherine Watson e a minha irmã. Acima

de tudo sou grata ao Dr. E. V. Rieu por sua paciência, compreensão e

estímulo. Sei bem das muitas imperfeições ainda contidas neste livro, mas

sem essa ajuda tão generosamente prestada elas seriam bem mais

numerosas.

Agradecida, reconheço minha dívida para com as seguintes

pessoas e instituições pela permissão de uso de material protegido por

Copyright: Princeton University Press (Editores), pelas citações tiradas de

Ancient New Eastern Texts Relating to the Old Testament, editado por

James B. Pritchard, 1950,1955,1969. Algumas passagens de minha

introdução são baseadas em excertos tirados das seguintes traduções:

The Fields of Paradise e The Good Fortune of the Dead, traduzidos por

John A. Wilson; Gudea: Ensi of Lagash, traduzido por A. Leo Oppenheim;

Enki and Ninhursag:A Paradise Myth, traduzido por S. N. Kramer; Hymn to

lshtar e Prayer of Lamentation to lshtar, e também Prayer of Ashurhanipal

to the Sun-God, traduzidos por Ferris J. Stephens; A trahasis, Lambert e

Millard; e A Vision of the Nether World, traduzido por E. A. Speiser. Sou

grata de maneira mais geral às traduções de S. N. Kramer de Gilgamesh

and the Land of the Living e The Death of Gilgamesh; e a E. A. Speiser

pelas onze primeiras tábuas da recensão assíria da Epopéia de

Gilgamesh, todas publicadas em Ancient Near Eastern Texts. Devo muito

também a A. Heidel e à University Press of Chicago pela permissão dada

para o uso de The Gilgamesh Epic and Old Testament Parallels, Copyright

1946 e 1949, da Universidade de Chicago. Agradeço ao Dr. E. V. Rieu,

pela permissão dada para que citasse trechos da sua tradução da

Odisséia, Penguin Classics, 1945, e aos editores da Loeb Classical Library,

Harvard University, e a William Heinemann, pelas citações tiradas do

Hesiod, de H. G. Evelyn-White (1950). Agradecimentos vão também para

o Professor Gwyn Joyes pelas citações tiradas da tradução de The

Mabinogion, realizada por Gwyn e Thomas Jones, na coleção Everyman

Library, J. M. Dent, 1949.

N. K. Sandars 88

A Epopéia de Gilgamesh

Prólogo

Gilgamesh, rei de Uruk

Proclamarei ao mundo os feitos de Gilgamesh. Eis o homem para

quem todas as coisas eram conhecidas; eis o rei que percorreu as

nações do mundo. Ele era sábio, ele viu coisas misteriosas e conheceu

segredos. Ele nos trouxe uma história dos dias que antecederam o dilúvio.

Partiu numa longa jornada, cansou-se, exauriu-se em trabalhos e, ao

retornar, descansou e gravou na pedra toda a sua história.

Quando os deuses criaram Gilgamesh, deram-lhe um corpo

perfeito. Shamash, o glorioso sol, dotou-o de grande beleza; Adad, o rei

da tempestade, deu-lhe coragem; os grandes deuses tornaram sua

beleza perfeita, superior à de todos os outros seres, terrível como um

enorme touro selvagem. Eles o fizeram dois terços deus e um terço

homem.

Em Uruk ele construiu muralhas, grandes baluartes, e o abençoado

templo de Eanna, consagrado a Anu, o deus do firmamento, e a Ishtar, a

deusa do amor. Olhai-o ainda hoje: a parte exterior, por onde corre a

cornija, tem o brilho do cobre; sua parte interior não conhece rival. Tocai

a soleira, ela é antiga. Aproximai-vos de Eanna, a morada de Ishtar,

nossa senhora do amor e da guerra: é inigualável, não há homem ou rei

que possa construir algo que se equipare. Subi as muralhas de Uruk; digo,

caminhai por cima delas; observai atentamente o terraço da fundação,

examinai o trabalho de alvenaria: não é feito com tijolos cozidos, e bem

feito? Os sete sábios lançaram suas fundações.

1. A chegada de Enkidu

Gilgamesh correu o mundo, mas, até chegar a Uruk, não

encontrou quem pudesse opor-se à força de seus braços. Entretanto, os

homens de Uruk murmuravam em suas casas: "Gilgamesh toca o sinal de

alarme para se divertir; sua arrogância, de dia ou de noite, não conhece

limites. Não há pai a quem tenha sobrado um filho, pois Gilgamesh os

leva todos, até mesmo as crianças; e, no entanto, um rei deveria ser um

pastor para seu povo. Sua luxúria não poupa uma só virgem para seu

amado; nem a filha do guerreiro nem a mulher do nobre; no entanto, é

este o pastor da cidade, sábio, belo e resoluto."

Os deuses escutaram o lamento do povo. Os deuses do céu

gritaram para o Senhor de Uruk, para Anu, o deus de Uruk: "Uma deusa o

fez forte como um touro selvagem; ninguém pode opor-se à força de

seus braços. Não há pai a quem tenha sobrado um filho, pois Gilgamesh

os leva todos; e é este o rei, o pastor de seu povo? Sua luxúria não poupa

uma só virgem para seu amado, nem a filha do guerreiro nem a mulher

do nobre." Depois de Anu ter escutado seu lamento, os deuses gritaram

para Aruru, a deusa da criação: "Vós o fizestes, oh, Aruru, criai agora um

outro igual; que seja tão parecido com ele quanto seu próprio reflexo;

que seja seu segundo eu, coração tempestuoso com coração

tempestuoso. Que eles se enfrentem e deixem Uruk em paz."

A deusa então concebeu em sua mente uma imagem cuja

essência era a mesma de Anu, o deus do firmamento. Ela mergulhou as

mãos na água e tomou um pedaço de barro; ela o deixou cair na selva,

e assim foi criado o nobre Enkidu. Havia nele virtudes do deus da guerra,

do próprio Ninurta. Seu corpo era rústico, seus cabelos como os de uma

mulher; eles ondulavam como o cabelo de Nisaba, a deusa dos grãos.

Ele tinha o corpo coberto por pêlos emaranhados, como os de Samuqan,

o deus do gado. Ele era inocente a respeito do homem e nada

conhecia do cultivo da terra.

Enkidu comia grama nas colinas junto com as gazelas e rondava

os poços de água com os animais da floresta; junto com os rebanhos de

animais de caça, ele se alegrava com a água. Mas um dia, no poço, ele

se viu frente a frente com um caçador, pois os animais de caça haviam

entrado em seu território. Por três dias eles se encontraram frente a frente,

e o caçador se intimidou. Voltou para casa com sua caça e

permaneceu mudo, paralisado de terror. Seu rosto estava alterado

como o de alguém que retorna de uma longa viagem. Com o coração

cheio de pasmo, ele falou a seu pai: "Pai, há um homem, diferente de

todos os outros, que desce das colinas. Ele é o homem mais forte do

mundo, parece um dos imortais do céu. Vagueia pelas colinas com os

animais selvagens e come grama; vagueia por tuas terras e desce até os

poços d'água. Tenho medo e não ouso dele me aproximar. Ele tapa os

buracos que cavo e destrói as armadilhas que preparo para a caça; ele

ajuda as feras a escapar e agora elas escorregam por entre meus

dedos."

Seu pai abriu a boca e disse ao caçador: "Filho, em Uruk vive

Gilgamesh; ninguém jamais o venceu, ele é tão forte quanto uma estrela

do céu. Vai a Uruk, encontra Gilgamesh e exalta-lhe a força deste

selvagem. Pede-lhe que te arranje uma rameira, uma dissoluta do

templo do amor; retorna com ela e deixa que seu poder subjugue este

homem. Da próxima vez que ele descer para tomar água no poço, ela

estará lá, nua; e quando a vir, acenando para ele, vai abraçá-la, e os

animais da selva passarão a repudiá-lo."

O caçador partiu para Uruk e se dirigiu a Gilgamesh, dizendo: "Um

homem diferente de todos os outros anda vagueando por nossos pastos;

ele tem a força de uma estrela do céu e tenho medo de aproximar-me

dele. Ele ajuda as presas a escapar e tapa e destrói as minhas

armadilhas." Gilgamesh disse: "Caçador, volta, leva contigo uma rameira,

uma filha do prazer. No poço ela se desnudará; ao vê-la acenando, ele

a tomará em seus braços e os animais da selva certamente passarão a

repudiá-lo."

O caçador então retornou, levando consigo a rameira. Após três

dias de viagem, eles chegaram ao poço e lá se sentaram; a rameira e o

caçador se sentaram frente a frente e se puseram a esperar pela

chegada dos animais. Por dois dias o caçador e a rameira ficaram

esperando, mas no terceiro dia eles chegaram; chegaram para beber

água e Enkidu estava entre eles. As pequenas criaturas selvagens

regozijaram-se com a água, e entre elas Enkidu, que comia grama junto

com as gazelas e nascera nas colinas; e ela o viu, o selvagem, vindo das

distantes colinas. O caçador disse à rameira: "Lá está ele. Agora, mulher,

desnuda teus seios, não tenhas vergonha; anda, acolhe o seu amor.

Deixa que ele te veja nua, deixa que possua teu corpo. Quando ele

chegar perto, tira tua roupa e deita-te com ele; ensina ao selvagem tuas

artes de mulher, para que, quando venha murmurar-te palavras de amor,

os animais da selva, que compartilharam sua vida nas colinas, passem a

repudiá-lo."

Ela não teve pudores em tomá-lo em seus braços, ela se despiu e

acolheu de bom grado o corpo ávido de Enkidu. Ele se deitou sobre ela

murmurando palavras de amor, e ela lhe ensinou as artes da mulher. Por

seis dias e sete noites eles ali ficaram deitados, pois Enkidu se esquecera

de seu lar nas colinas; depois de satisfeito, porém, ele voltou para os

animais selvagens. Mas agora, ao vê-lo, as gazelas punham-se em

disparada; as criaturas agrestes fugiam quando delas se aproximava.

Enkidu queria segui-las, mas seu corpo parecia estar preso por uma

corda, seus joelhos fraquejavam quando tentava correr, ele perdera sua

rapidez e agilidade. E todas as criaturas da selva fugiram; Enkidu perdera

sua força, pois agora tinha o conhecimento dentro de si, e os

pensamentos do homem ocupavam seu coração. Então ele voltou e

sentou-se ao pé da mulher, e escutou com atenção o que ela lhe disse:

"És sábio, Enkidu, e agora te tornaste semelhante a um deus. Por que

queres ficar correndo à solta nas colinas com as feras do mato? Vem

comigo. Vem e te levarei à Uruk das poderosas muralhas, ao

abençoado templo de Ishtar e Anu, do amor e do céu; lá vive

Gilgamesh, que é forte, e como um touro selvagem domina e governa

os homens."

A fala da mulher agradou a Enkidu; ele ansiava por ter um

companheiro, alguém que pudesse compreender seu coração. "Vamos,

mulher, leva-me a esse templo sagrado, à casa de Anu e de Ishtar, ao

lugar onde Gilgamesh domina e governa seu povo. Eu audazmente o

desafiarei; gritarei em Uruk: 'Sou o mais forte daqui, vim para mudar a

velha ordem, sou aquele que nasceu nas colinas, sou aquele que é de

todos o mais forte.'"

Ela disse: "Vamos, e deixa que ele te veja o rosto. Sei muito bem

onde se encontra Gilgamesh na grande Uruk. Oh, Enkidu, lá todos se

vestem magnificamente, todos os dias são de festa, e que maravilhosa

visão fornecem os rapazes e as jovens. Como é suave e doce seu cheiro!

Todos os poderosos estão despertos pela cidade. Oh, Enkidu, tu, que

amas a vida, farei com que conheças Gilgamesh, um homem de muitos

humores; tu o conhecerás em seu radiante apogeu de virilidade. Seu

corpo é perfeito em força e maturidade; ele jamais descansa, nem à

noite nem de dia. Ele é mais forte que tu, por isso põe de lado essa

bravata. Shamash, o glorioso sol, concedeu-lhe favores, assim como Anu

dos céus, e Enlil; e Ea, o sábio, deu-lhe discernimento e inteligência. Eu te

digo, mesmo antes de teres deixado a vida selvagem, Gilgamesh saberá

de tua chegada através de sonhos."

Então Gilgamesh se levantou para contar o sonho que tivera à sua

mãe, Ninsun, uma das deusas de grande saber. "Mãe, tive um sonho esta

noite. Eu me sentia muito feliz, cercado de jovens heróis, e caminhava

pela noite sob as estrelas do firmamento. Um meteoro, feito da mesma

substância de Anu, caiu do céu. Tentei levantá-lo do chão, mas era

pesado demais. Toda a gente de Uruk veio vê-lo; o povo se empurrava e

se acotovelava ao seu redor, e os nobres se apinhavam para beijar-lhe

os pés; ele exercia sobre mim uma atração semelhante à que exerce o

amor de uma mulher. Eles me ajudaram; levantei seu corpo com o

auxílio de correias e trouxe-o à vossa presença, e vós declarastes ser ele

meu irmão."

Então Ninsun, que é sábia e bem-amada, disse a Gilgamesh: "Esta

estrela do céu que caiu como um meteoro, que tentaste levantar do

chão, mas achaste muito pesada, que tentaste remover, mas que dali

não arredava pé, e então trouxeste a mim; eu a criei para ti, para

estimular-te como que com um aguilhão, e te sentiste atraído como que

por uma mulher. Ele é um forte companheiro, alguém que ajuda o

amigo nas horas de necessidade. Ele é o mais forte entre todas as

criaturas selvagens; é feito da substância de Anu. Ele nasceu nos

campos e foi criado nas colinas agrestes. Ficarás feliz ao encontrá-lo; vais

amá-lo como a uma mulher, e ele jamais te abandonará. E isto o que

significa teu sonho."

Gilgamesh disse: "Mãe, tive um segundo sonho. Um machado jazia

no chão de Uruk das poderosas muralhas; seu formato era estranho e as

pessoas se amontoavam ao seu redor. Eu o vi e fiquei contente. Eu me

abaixei, sentindo-me profundamente atraído por ele; eu o amei como a

uma mulher e passei a levá-lo comigo, ao meu lado." Ninsun respondeu:

"Aquele machado que viste, que te atraiu tão profundamente como o

amor de uma mulher, aquele é o companheiro que te envio, e ele

chegará com força e pujança como um deus da hoste celeste. Ele é o

bravo companheiro, que salva o amigo que dele precisa." Gilgamesh

disse a sua mãe: "Um amigo, um conselheiro chegou até mim vindo de

Enlil; serei, pois, seu amigo e lhe darei conselhos." Gilgamesh assim narrou

seu sonho; e a rameira o repetiu para Enkidu.

E ela disse então a Enkidu: "Olho para ti e vejo que agora és como

um deus. Por que anseias por voltar a correr pelos campos com as feras

do mato? Ergue-te do chão, a cama do pastor." Ele escutou com

atenção suas palavras. Era um bom conselho que lhe dava. A rameira

dividiu sua roupa em duas partes; com uma metade o vestiu, usando a

outra para si. Tomando Enkidu pela mão, como a uma criança, ela o

conduziu ao aprisco, para as tendas dos pastores, que se amontoaram

ao seu redor para vê-lo. Eles depositaram pão à sua frente, mas Enkidu só

estava habituado ao leite que sugava dos animais selvagens. Ele se

atrapalhou com as mãos e pasmou, sem saber o que fazer com o pão e

o vinho forte. A mulher então disse: "Enkidu, come o pão, é o suporte da

vida; bebe o vinho, é o costume da terra." Enkidu então comeu até ficar

satisfeito e bebeu do vinho forte, sete cálices. Ele ficou alegre, seu

coração exultou e seu rosto se cobriu de brilho. Enkidu escovou os pêlos

emaranhados de seu corpo e untou-se com óleo. Ele se transformara

num homem; mas, ao vestir as roupas humanas, ficou parecendo um

noivo. Ele se armou para caçar o leão, para que os pastores pudessem

repousar à noite. Ele caçou lobos e leões, e os pastores puderam dormir

em paz, pois Enkidu, aquele homem forte e sem rivais, era seu sentinela.

Ele se sentia feliz vivendo com os pastores, até que um dia,

levantando o olhar, viu que um homem se aproximava. Ele disse à

rameira: "Mulher, traze aqui aquele homem. Por que veio aqui? Quero

saber seu nome." Ela foi e chamou o homem, dizendo: "Senhor, onde vais

nesta fatigante jornada?" O homem respondeu, falando a Enkidu:

"Gilgamesh foi para o templo do casamento e não deixa que o povo lá

entre. Ele faz coisas estranhas em Uruk, a cidade das grandes ruas. Ao

rufar dos tambores, os homens e as mulheres começam a trabalhar.

Gilgamesh, o rei, está prestes a celebrar as núpcias com a Rainha do

Amor, e ele ainda insiste em estar primeiro com a noiva; primeiro o rei,

depois o marido, pois assim ordenaram os deuses desde a época de seu

nascimento, quando lhe foi cortado o cordão umbilical. Mas agora os

tambores rufam para a escolha da noiva, e a cidade geme de dor." Ao

ouvir estas palavras, Enkidu empalideceu. "Irei à cidade cujo povo

Gilgamesh domina e governa; vou desafiá-lo au-dazmente para um

combate e gritarei por Uruk: 'Vim para mudar a velha ordem, pois sou o

mais forte daqui.'"

Enkidu ia agora na frente, a largas passadas, e a mulher o seguia.

Ele entrou em Uruk, aquele grande mercado, e todo o povo se

amontoou ao seu redor. Naquela rua de Uruk das poderosas muralhas,

as pessoas se comprimiam e se acotovelavam e, falando dele, diziam:

"Ele é a imagem de Gilgamesh." "Ele é mais baixo." "Ele é mais robusto."

"Esta é a criatura que se criou tomando leite das feras selvagens. Sua

força é superior à de todos os outros." Os homens se regozijavam de

felicidade: "Agora Gilgamesh encontrou um rival à sua altura. Esta

grande criatura, este herói de divina beleza pode enfrentar até mesmo

Gilgamesh."

Em Uruk o leito nupcial fora preparado, um leito digno da deusa

do amor. A noiva ficou esperando seu prometido; à noite, porém,

Gilgamesh levantou-se e se dirigiu à casa. Enkidu foi então para a rua e

bloqueou sua passagem. O poderoso Gilgamesh se aproximou e

encontrou Enkidu no portão. Este esticou sua perna para impedir-lhe a

entrada. Os dois então se engalfinharam como touros. Destruíram a

porta da casa, e suas paredes tremeram; bufavam como dois touros

trancados juntos. Os batentes da porta ficaram em pedaços e as

paredes da casa tremeram. Gilgamesh curvou o joelho, fincou os pés no

chão e, virando-se, derrubou Enkidu. Sua fúria então se desvaneceu

imediatamente. Após a queda, Enkidu disse a Gilgamesh: "Não há

ninguém como tu no mundo. Ninsun, que tem a força de um boi

selvagem no estábulo, foi quem te deu à luz, e agora estás acima de

todos os homens. Enlil te deu a coroa, pois tua força ultrapassa a força

dos homens." Enkidu e Gilgamesh então se abraçaram, e assim foi selada

sua amizade.

2. A jornada na floresta

ENLIL da montanha, o pai dos deuses, havia decretado o destino

de Gilgamesh. Por isso Gilgamesh teve um sonho, e Enkidu disse: "O

significado do teu sonho é o seguinte: o pai dos deuses te deu um trono,

reinar é o teu destino; a vida eterna não é teu destino. Por isso, não fiques

triste, não te atormentes nem te deixes oprimir por causa disso. Ele te deu

o poder de atar e desatar, de ser as trevas e a luz da humanidade. Ele te

deu supremacia sem paralelo sobre o povo, te garante a vitória nas

batalhas de onde não escapam fugitivos; o sucesso é teu nas incursões

militares e nos implacáveis assaltos por ti empreendidos. Mas não abuses

deste poder; sê justo com teus servos no palácio; faze justiça perante

Shamash."

Os olhos de Enkidu encheram-se de lágrimas e seu coração foi

tomado de angústia. Ele suspirava cheio de tristeza. Gilgamesh fitou-o

nos olhos e perguntou: "Amigo, por que suspiras tão tristemente?" Enkidu

abriu a boca e respondeu: "Sinto-me fraco, meus braços perderam sua

força, o grito de dor está preso em minha garganta e o ócio me oprime."

Foi então que o grande Gilgamesh começou a pensar na Terra dos

Vivos; sobre a Terra dos Cedros refletiu o senhor de Uruk. Ele disse a seu

servo Enkidu: "Sobre as lápides ainda não deixei impresso o meu nome,

como decretou o destino; irei então à terra onde são abatidos os cedros.

No lugar onde estão inscritos os nomes de homens ilustres, deixarei

gravado o meu nome; e onde nome de homem algum foi jamais inscrito,

mandarei erigir um monumento aos deuses. Por causa do mal que existe

sobre a terra, nós iremos à floresta destruir esse mal; pois é lá que mora o

feroz gigante Humbaba, cujo nome é 'Enormidade'." Mas Enkidu suspirou

tristemente e disse: "Descobri essa floresta quando corria no mato com as

feras selvagens; ela se estende por dez mil léguas em todos os sentidos.

Enlil designou Humbaba para tomar conta dela e o armou com sete

horrores; Humbaba é uma criatura hedionda para todos os mortais. Seu

rugido é como uma terrível borrasca, seu hálito é como o fogo, suas

mandíbulas, a própria morte. Ele guarda tão bem os cedros que

consegue ouvir um novilho se mexer na selva a sessenta léguas de

distância. Que espécie de homem iria de sua própria vontade penetrar

nesta terra e explorar suas profundezas? Eu te digo, a fraqueza toma

conta de todo aquele que dela se aproxima: ninguém luta com

Humbaba em pé de igualdade; ele é um grande guerreiro, um aríete. O

sentinela da floresta jamais dorme, Gilgamesh."

Gilgamesh replicou: "E que homem pode chegar ao céu?

Somente os deuses vivem eternamente na companhia do glorioso

Shamash; nós, homens, temos nossos dias contados. Nossos trabalhos e

empreendimentos são como um sopro de vento. Como, então, já estás

com medo? Embora seja teu senhor, irei na frente e poderás gritar com

segurança: 'Avante, não há nada a temer!' Se eu cair, deixarei então um

nome que ficará para a posteridade; os homens dirão a meu respeito:

'Gilgamesh caiu lutando com o feroz Humbaba.' Muito tempo depois do

nascimento de meu herdeiro, eles estarão falando disso e se lembrando

do meu feito." Enkidu tornou a falar com Gilgamesh: "Oh, meu senhor, se

algum dia decidires entrar naquela terra, procura primeiro o herói

Shamash; fala com o Deus-Sol, pois é dele aquela terra. A terra onde o

cedro é abatido pertence a Shamash."

Gilgamesh tomou em seus braços um cordeiro branco, sem

qualquer mácula, e um outro castanho; ele os segurou contra o peito e

os levou à presença do sol. Carregando na mão seu cetro de prata,

Gilgamesh disse ao glorioso Shamash: "Vou para aquela terra, oh,

Shamash, para lá eu vou; minhas mãos suplicam, protejei minha alma e

trazei-me de volta ao cais de Uruk. Eu imploro vossa proteção; permiti

que os augúrios sejam propícios." Shamash, o glorioso, respondeu:

"Gilgamesh, és forte, mas que é para ti a Terra dos Vivos?"

"Oh, Shamash, ouvi-me; ouvi-me, Shamash; ouvi o que tenho a

dizer. Os homens aqui da cidade morrem com o coração oprimido, eles

morrem com o desespero em seus corações. Tenho olhado por cima do

muro e visto seus corpos flutuando no rio, e este será também o meu fim.

Estou certo disso, pois por mais alto que seja um homem, ele jamais

atingirá os céus, e o maior entre todos jamais conseguirá abarcar a terra.

Por isso quero entrar naquela terra: por não ter ainda inscrito meu nome

sobre as lápides, como decretou meu destino, irei à terra onde são

abatidos os cedros. No lugar onde estão inscritos os nomes de varões

ilustres, deixarei gravado o meu nome; e onde nome de homem algum

foi jamais inscrito, mandarei erigir um monumento aos deuses." Lágrimas

escorreram por seu rosto, e ele disse: "Ai de mim! É longa a jornada até a

Terra de Humbaba. Se esta iniciativa está fadada ao fracasso, por que

encheste-me, oh, Shamash, de um sôfrego desejo de empreendê-la?

Como poderei ter sucesso neste empreendimento sem vossa ajuda? Se

eu morrer naquela terra, morrerei sem rancor; mas, se retornar, gloriosos

serão os presentes e louvores que dedicarei a Shamash."

Shamash aceitou então o sacrifício de suas lágrimas. Tal como o

homem piedoso, compadeceu-se de Gilgamesh. Escolheu aliados fortes

para ajudá-lo, todos filhos de uma mesma mãe, e os posicionou nas

cavernas da montanha. Recrutou os ventos poderosos: o vento norte, o

furacão, o temporal e o vento gélido, a tempestade e o vento cáustico.

Como víboras, como dragões, como um fogo devastador, como uma

serpente que gela o coração, como um implacável dilúvio, como o

grande raio; assim eram eles, e Gilgamesh exultou.

Ele se dirigiu à forja e disse: "Darei ordens aos armeiros; eles forjarão

nossas armas enquanto nós os observamos." Deu então instruções aos

armeiros e os artífices sentaram-se em conferência. Eles foram ao

arvoredo que ficava na campina e cortaram a madeira do salgueiro e

do buxo; e forjaram-lhes machados de cento e oitenta libras, e espadas

majestosas com lâminas de cento e vinte libras, com punhos e botões de

trinta. Forjaram para Gilgamesh o machado "Força dos Heróis" e o arco

de Anshan. Gilgamesh e Enkidu estavam armados, e o peso das armas

que carregavam era de seiscentas libras.

O povo e os conselheiros se reuniram nas ruas e no mercado de

Uruk. Atravessaram o portão dos sete ferrolhos e Gilgamesh lhes falou no

mercado: "Eu, Gilgamesh, irei encontrar essa criatura de quem tanto se

fala, cuja fama se espalhou pelo mundo. Vou derrotá-lo na floresta dos

cedros e mostrar a força dos filhos de Uruk; o mundo inteiro saberá disso.

Eu me comprometo a levar a cabo este empreendimento: subir a

montanha, abater o cedro e deixar para trás um nome ilustre e

duradouro." Os conselheiros de Uruk e o povo responderam: "Gilgamesh,

sois jovem; vossa coragem faz com que ambicioneis demais; certamente

não sabeis o que para vós significa esta empresa. Soubemos que

Humbaba não é igual aos mortais; tais são suas armas que ninguém

pode vencê-lo. A floresta se estende por dez mil léguas em todos os

sentidos; quem iria de sua própria vontade explorar suas profundezas?

Quanto a Humbaba, seu rugido é como uma terrível borrasca, seu hálito

é como o fogo, suas mandíbulas a própria morte. Por que ansiais,

Gilgamesh, por tal empreendimento? Ninguém luta com Humba-ba em

pé de igualdade; ele é um aríete."

Ao ouvir estas palavras dos conselheiros, Gilgamesh olhou para seu

amigo e pôs-se a rir. "Como responder a isso? Devo dizer-lhes que tenho

medo de Humbaba e por isso ficarei sentado em casa pelo resto de

meus dias?" Gilgamesh então tornou a abrir a boca e disse para Enkidu:

"Amigo, vamos para o Grande Palácio, para Egalmah, e postemos-nos

diante de Ninsun, a rainha. Ninsun tem profunda sabedoria; ela nos

aconselhará quanto ao caminho que devemos tomar." Dando-se as

mãos, eles seguiram a Egalmah e se dirigiram à grande rainha Ninsun.

Gilgamesh se aproximou do palácio, entrou e falou a Ninsun: "Ninsun, por

favor, escutai-me; tenho de empreender uma longa jornada à Terra de

Humbaba; tenho de viajar por uma estrada desconhecida e me bater

numa estranha batalha. Do dia em que eu partir até o dia da minha

volta, até ter chegado à floresta de cedro e destruído o mal que

Shamash abomina, rezai a Shamash por mim."

Ninsun foi para seu quarto, pôs um vestido que ficava bem em seu

corpo, enfeitou-se com jóias para embelezar os seios e colocou uma

tiara na cabeça; sua saia varria o chão. Ela dirigiu-se então ao altar do

Sol, postando-se em cima do telhado do palácio; ela acendeu incenso e

elevou seus braços a Shamash, enquanto a fumaça subia aos céus: "Oh,

Shamash, por que dotastes Gilgamesh, meu filho, de um coração tão

inquieto; por quê? Vós o incitastes, e ele agora está prestes a partir numa

longa jornada para a Terra de Humbaba; ele vai viajar por uma estrada

desconhecida e se bater numa estranha batalha. Do dia em que ele

partir até o dia de sua volta, até que tenha chegado à floresta de cedro,

morto Humbaba e destruído o mal que vós, Shamash, abominais, não

vos esqueçais dele; deixai que vossa amada esposa, Aya, a aurora, vos

lembre sempre disso, e ao final do dia entregai sua guarda à sentinela

da noite, para que mal algum lhe advenha." Ninsun, a mãe de

Gilgamesh, extinguiu então o incenso e chamou Enkidu com a seguinte

exortação: "Poderoso Enkidu, não és filho do meu corpo, mas recebo-te

como filho adotivo; és meu outro filho, como os bebês abandonados no

templo. Serve a Gilgamesh como estas crianças servem ao templo e à

sacerdotisa que os criou. Na presença de minhas servas, de meus

sacerdotes e hierofantes, eu o declaro." Ela colocou então em torno de

seu pescoço o amuleto do juramento e disse-lhe: "Eu te confio meu filho;

traze-o de volta para mim em segurança." Trouxeram-lhes então as

armas. Depositaram em suas mãos as grandes espadas com suas

bainhas de ouro, o arco e a aljava. Gilgamesh tomou o machado em

suas mãos, pôs o arco de Anshan e a aljava sobre o ombro e afivelou a

espada a seu cinto; estavam armados e prontos para partir. O povo

havia chegado e se apinhava ao seu redor perguntando: "Quando

retornareis à cidade?" Os conselheiros abençoaram Gilgamesh e o

advertiram: "Não confieis demais em vossa própria força, tende cuidado

e poupai vossos golpes no começo da luta. O que for à frente deve

proteger seu companheiro; o bom guia que conhece o caminho

protege seu amigo. Deixai que Enkidu vá na frente; ele conhece o

caminho que leva à floresta, já viu Humbaba e é experiente na batalha.

Deixai que avance primeiro pelos desfiladeiros, que fique alerta e que

cuide de si mesmo. Deixai que Enkidu proteja seu amigo e que tome

conta de seu companheiro, conduzindo-o em segurança através das

armadilhas do percurso. Nós, conselheiros de Uruk, te confiamos nosso rei,

oh, Enkidu; traze-o de volta em segurança para nós." E novamente

tornaram a Gilgamesh, dizendo: "Que Shamash vos conceda o desejo

de vosso coração, que ele permita que vejais com vossos olhos o sucesso

do empreendimento proposto por vossos lábios; que ele vos abra uma

trilha na estrada bloqueada; que ele crie um caminho para vossos pés.

Que ele abra as montanhas para a vossa passagem, que a noite vos

traga as bênçãos da noite, e que Lugulbanda, o deus que vos protege,

esteja a vosso lado na luta pela vitória. Que saiais vitorioso da batalha,

como se houvésseis lutado com uma criança. Lavai vossos pés no rio de

Humbaba, ao qual vos dirigis; cavai um poço à noite e tende sempre

água pura e límpida em vosso odre. Oferecei água fria a Shamash e não

vos esqueçais de Lugulbanda."

Enkidu então abriu a boca e disse: "Avante, não há nada a temer.

Segue-me, pois conheço o lugar onde vive Humbaba e as trilhas por

onde ele passa. Deixa que os conselheiros retornem. Não há o que

temer." Ao ouvirem isso, os conselheiros se despediram de Gilgamesh.

"Ide, Gilgamesh, que vosso deus protetor vos ajude e vos traga de volta

com segurança ao cais de Uruk."

Depois de vinte léguas de viagem, eles quebraram seu jejum;

depois de outras trinta, pararam para passar a noite. Caminharam

cinqüenta léguas num dia; em três dias, haviam percorrido o equivalente

a uma jornada de um mês e duas semanas. Eles atravessaram sete

montanhas antes de chegar ao portão da floresta. Enkidu então gritou

para Gilgamesh: "Não te embrenhes na floresta; ao abrir o portão, minha

mão perdeu sua força." Gilgamesh respondeu: “Caro amigo, não fales

como um covarde”. Sobrepujamos tantos perigos e viajamos tanto para

acabar voltando? Tu, que carregas a experiência de tantas batalhas e

guerras, fica perto de mim e não terás medo da morte; fica do meu lado

e tua fraqueza passará, os tremores abandonarão tua mão. Preferirias,

amigo, ficar para trás? Não, desceremos juntos ao coração da floresta.

Deixa as batalhas que estão por vir despertarem tua coragem; esquece

a morte e segue-me, um homem resoluto mas prudente. Quando dois

homens estão juntos, cada um se protege e escuda seu companheiro, e,

se eles caem, deixam para trás um nome ilustre e duradouro.

Juntos eles se dirigiram à floresta e chegaram à montanha verde.

Ali pararam, estupefatos, fitando imóveis a floresta. Viram a altura do

cedro, examinaram o caminho que penetrava na floresta e a trilha por

onde Humbaba costumava passar. O caminho era largo e fácil de

percorrer. Eles contemplaram a montanha dos cedros, a morada dos

deuses e o trono de Ishtar. O enorme cedro se elevava em frente à

montanha; sua sombra era linda e cheia de conforto. A montanha e a

clareira eram cobertas pelo verde do matagal.

Ali Gilgamesh cavou um poço antes do pôr-do-sol. Ele subiu a

montanha, deitou farinha fina ao chão e disse: "Oh, montanha, morada

dos deuses, trazei-me um sonho auspicioso." Os dois então deram-se as

mãos e se deitaram para dormir, e o sono que flui da noite os envolveu

docemente. Gilgamesh sonhou, e à meia-noite o sono o deixou.

Gilgamesh contou seu sonho ao amigo. "Enkidu, o que foi que me

acordou se não foste tu? Amigo, tive um sonho. Levanta e olha o

despenhadeiro da montanha. O sono enviado pelos deuses foi

interrompido. Ah, meu amigo, que sonho tive eu! Terror e confusão; eu

havia agarrado um touro selvagem no meio da floresta. Ele urrava e

batia com a pata no chão, levantando uma poeira que escureceu todo

o céu. Meu braço foi imobilizado e minha língua mordida. Caí de joelhos.

Alguém então me refrescou com água de seu odre."

Enkidu disse: "Caro amigo, o deus que procuramos nesta viagem

não é nenhum touro, embora tenha uma forma misteriosa. O touro

selvagem que viste é Shamash, o Protetor; quando estivermos em perigo,

ele nos tomará pela mão. Aquele que te deu água tirada de seu odre é

Lugulbanda, teu deus protetor, aquele que zela por teu bom nome.

Unidos a ele, nós dois juntos realizaremos um feito cuja fama jamais será

esquecida."

Gilgamesh disse: "Tive um outro sonho. Nós nos encontrávamos

num desfiladeiro profundo da montanha, e perto dela éramos como

minúsculas moscas de pântano. De repente a . montanha desmoronou;

ela me atingiu e me derrubou. Veio então uma luz de brilho intolerável, e

nela, alguém cuja beleza e graça eram superiores à beleza deste

mundo. Ele me puxou de baixo da montanha e deu-me água para

beber. Meu coração se sentiu confortado e ele tornou a colocar-me de

pé sobre o chão."

Enkidu, o filho das campinas, então disse: "Desçamos a montanha

e vamos conversar sobre isso." E disse a Gilgamesh, o jovem deus: "Teu

sonho é bom, teu sonho é excelente; a montanha que viste é Humbaba.

Agora sei com certeza que vamos pegá-lo, liquidá-lo e atirar seu corpo

lá de cima, como a montanha que caiu sobre a planície."

No dia seguinte, depois de percorrer vinte léguas, eles quebraram

seu jejum e, depois de mais trinta léguas, pararam para dormir. Cavaram

um poço antes do pôr-do-sol, e Gilgamesh subiu a montanha. Ele deitou

farinha fina ao chão e disse: "Oh, montanha, morada dos deuses,

mandai um sonho para Enkidu; fazei com que seja um sonho auspicioso."

A montanha moldou um sonho para Enkidu e ele lhe foi enviado; era um

sonho ominoso. Uma chuva fria passava por cima dele e fazia com que

fosse obrigado a se agachar, como a cevada da montanha que se

curva sob um temporal. Mas Gilgamesh ficou sentado com o queixo

sobre os joelhos até que o sono, que flui para toda a humanidade, se

apoderou dele. Então, à meia-noite, o sono deixou-o; ele se levantou e

disse para o amigo: "Tu me chamaste? Por que acordei? Tu me tocaste?

Por que me sinto aterrorizado? Será que algum deus não passou por nós,

pois meus membros estão paralisados pelo medo? Amigo, tive um

terceiro sonho, e este sonho foi absolutamente terrível. Os céus troavam

e a terra rugia de volta; a luz do dia apagou-se e a escuridão se instalou;

os raios caíam, o fogo ardia com um brilho intenso, as nuvens baixaram

do céu e derramaram sobre a terra uma chuva mortal. Então o brilho se

extinguiu, o fogo se apagou, e tudo ao nosso redor havia se

transformado em cinzas. Desçamos a montanha e vamos conversar

sobre isto, e pensar sobre o que devemos fazer."

Depois de descerem a montanha, Gilgamesh tomou o machado

em sua mão e abateu o cedro. Quando, a distância, Humbaba ouviu o

barulho, ficou furioso e gritou: "Quem violou minha floresta e abateu o

meu cedro?" Mas o glorioso Shamash gritou para eles do céu, "Avante,

não temais!" Mas uma fraqueza se apoderara de Gilgamesh; ele fora

repentinamente tomado por um sono profundo. Ele se estendeu no chão

sem dizer uma só palavra, como num sonho. Enkidu tocou-o, mas ele

não se levantou; Enkidu lhe falou, mas ele não respondeu. "Oh,

Gilgamesh, Senhor da planície de Kullab, o mundo vai escurecendo, as

sombras se espalham sobre sua superfície; eis os últimos e trêmulos raios

do crepúsculo. Shamash partiu, sua cabeça incandescente repousa no

colo de sua mãe Ningal. Oh, Gilgamesh, por quanto tempo ficarás assim,

dormindo? Não permitas jamais que tua mãe, aquela que te deu à luz,

seja forçada a velar-te na praça da cidade."

Gilgamesh por fim escutou-o; ele vestiu seu peitoral, "A Voz dos

Heróis", que pesava trinta siclos; ele o colocou em seu corpo como se

fosse o mais leve dos trajes. Gilgamesh estava totalmente coberto. Sua

postura era semelhante à do touro quando calca o chão; seus dentes se

cerraram. "Pela vida de minha mãe Ninsun, que me deu à luz, e pela

vida de meu pai, o divino Lugulbanda, que eu viva para encher minha

mãe de pasmo, como fazia quando ela me embalava em seu colo." Ele

tornou a repetir para Enkidu: "Pela vida de Ninsun minha mãe, que me

deu à luz, e pela vida de meu pai, o divino Lugulbanda, até que

tenhamos lutado com este homem, se homem ele é, ou este deus, se

deus ele é, a via que tomei para chegar à Terra dos Vivos não me levará

de volta a Uruk."

Então Enkidu, o fiel companheiro, implorou em resposta: "Oh, meu

senhor, tu não conheces este monstro e por isso não tens medo. Eu o

conheço e estou aterrorizado. Seus dentes são como as presas do

dragão, seu semblante é como o do leão, a fúria de seu ataque se

assemelha à da torrente do dilúvio; com seu olhar ele esmaga as árvores

da floresta e os juncos dos pântanos. Oh, meu senhor, podes prosseguir

em tua incursão por este território se quiseres, mas eu retornarei à cidade.

Contarei teus feitos gloriosos a tua mãe até que ela grite de júbilo: falarei

então da morte que se seguiu até que ela chore de amargura." Mas

Gilgamesh disse: "Ainda não estou preparado para a imolação e para o

sacrifício, a barca dos mortos não descerá o rio comigo, nem tampouco

será necessário que se prepare para mim a mortalha de três pregas. Meu

povo também será poupado da tristeza; a pira não será acesa em

minha casa; minha morada não será consumida pelo fogo. Dá-me tua

ajuda hoje e te ajudarei amanhã: o que poderá então dar errado com

nós dois juntos? Todas as criaturas nascidas da carne terão um dia que

tomar um lugar na barca do Oeste, e, quando ela afundar, quando a

barca de Magilum afundar, elas perecerão; mas nós continuaremos em

frente e olharemos este monstro de frente. Se teu coração está tomado

de medo, joga fora esse medo; se há terror nele, joga fora esse terror.

Toma o machado em tua mão e lança-te ao ataque. Aquele que

abandona a luta não fica em paz."

Humbaba irrompeu de sua sólida casa de cedro. Enkidu então

gritou: "Oh, Gilgamesh, lembra-te agora de tuas bravatas em Uruk.

Avante, ataca, filho de Uruk, não há o que temer." Ao ouvir estas

palavras, Gilgamesh recobrou sua coragem; ele respondeu: "Rápido,

cerca o sentinela; se ele passar por ali, não deixes que fuja para a

floresta, onde acabará desaparecendo. Ele vestiu apenas o primeiro de

seus sete esplendores e ainda não colocou os outros seis. Vamos

apanhá-lo antes que se arme." Gilgamesh resfolegou como um touro

enfurecido. O sentinela da floresta virou-se ameaçadora-mente, e

Gilgamesh gritou. Humbaba balançava e sacudia a cabeça,

ameaçando Gilgamesh. O olho do gigante fixara-se nele, o olho da

morte. Gilgamesh então invocou Shamash com os olhos cheios de

lágrimas: "Oh, glorioso Shamash, tomei o caminho que me ordenastes,

mas se não me mandardes socorro como poderei escapar?" O glorioso

Shamash escutou sua prece e convocou o grande vento, o vento norte,

o furacão, o temporal e o vento gélido, a tempestade e o vento

cáustico. Eles chegaram como dragões, como o fogo devastador, como

a serpente que gela o coração, como o implacável dilúvio, como os

grandes raios. Os oito ventos se lançaram contra Humbaba, atingindo

seus olhos; ele foi imobilizado, não conseguindo mover-se para a frente

ou para trás. Gilgamesh gritou: "Pela vida de Ninsun, minha mãe, e do

divino Lugulbanda, meu pai, nesta terra, na Terra dos Vivos, descobri tua

morada. Vim a esta terra com meus frágeis braços e minhas pequenas

armas para enfrentar-te, e agora entrarei em tua casa."

Ele então abateu o primeiro cedro; eles cortaram seus galhos e os

depositaram ao pé da montanha. Ao primeiro golpe do machado

Humbaba explodiu de ira, mas eles foram em frente. Abateram sete

cedros, cortaram e amarraram seus galhos e os depositaram ao pé da

montanha; e por sete vezes Humbaba lançou sobre eles o brilho de sua

glória. Eles chegaram à caverna do gigante quando se extinguia o

sétimo clarão. Humbaba esmurrou sua coxa em sinal de desdém. O

gigante foi se aproximando como um touro nobre e selvagem que foi

amarrado na montanha, um guerreiro com os cotovelos presos e atados

por uma corda. As lágrimas corriam de seus olhos e a palidez lhe cobria

o rosto. "Gilgamesh, deixa-me falar. Jamais tive uma mãe, não, nem um

pai para me criar. Nasci da montanha, ela me criou, e Enlil fez de mim o

sentinela da floresta. Deixa-me ir, Gilgamesh, e serei teu servo; tu serás

meu senhor. Todas as árvores da montanha, que foram cuidadas por

mim, serão tuas. Eu as abaterei e te construirei um palácio." Ele tomou

Gilgamesh pela mão e o conduziu à sua casa, e isso fez com que o

coração do herói se enchesse de piedade. Ele invocou a vida celestial,

a vida terrena, o próprio mundo inferior: "Oh, Enkidu, não deveria o

passarinho apanhado na armadilha retornar ao seu ninho, ou o

prisioneiro para os braços de sua mãe?" Enkidu respondeu: “O mais forte

dos homens cairá ante o destino se não tiver discernimento”. Namtar, o

fado maligno, que não faz distinção entre os homens, devorá-lo-á. Se o

pássaro preso na armadilha retornar ao seu ninho, se o prisioneiro voltar

para os braços de sua mãe, então tu, meu amigo, jamais retornarás à

cidade onde te espera a mãe que te gerou. Ele te bloqueará o caminho

da montanha e tornará impossível tua passagem.

Humbaba disse: "Enkidu, isso que disseste é uma coisa má; tu, um

mercenário, que dependes do trabalho para obter teu pão! Por inveja e

por medo de um rival disseste essas maldades." Enkidu disse: "Não ouças

o que ele diz, Gilgamesh: Humbaba tem de morrer. Mata Humbaba

primeiro e seus servos depois." Mas Gilgamesh disse: "Se tocarmos nele, o

brilho e o esplendor da luz serão perturbados; ela perderá seu encanto e

sua majestade; seus raios se extinguirão." Enkidu disse a Gilgamesh: "De

modo algum, meu amigo. Primeiro apanhas o pássaro, e para onde

então correrão os passarinhos? Podemos depois procurar o encanto e a

majestade, enquanto os passarinhos correm atarantados pela grama."

Gilgamesh ouviu seu companheiro. Ele tomou o machado em sua

mão, desembainhou a espada e acertou Humbaba com uma estocada

no pescoço. Seu companheiro Enkidu golpeou-o uma segunda vez. Na

terceira investida Humbaba tombou. Seguiu-se então uma grande

confusão, pois este a quem eles haviam morto era o sentinela da floresta.

Por duas léguas os cedros estremeceram quando Enkidu abateu o vigia

da floresta, aquele cuja voz fazia o montes Hermon e Líbano tremerem.

As montanhas e todas as colinas se achavam agora agitadas e

comovidas, pois o guarda da floresta fora morto. Eles atacaram os

cedros; os sete esplendores de Humbaba se extinguiram. Eles então

prosseguiram floresta adentro carregando a espada de oito talentos.

Eles acharam as moradas sagradas dos Anunnaki e, enquanto

Gilgamesh abatia a primeira árvore da floresta, Enkidu ia limpando suas

raízes até as margens do Eufrates. Eles expuseram aos deuses, a Enlil, o

corpo de Humbaba; eles beijaram o chão, deixaram cair a mortalha e

apresentaram ao deus a cabeça do gigante. Ao ver a cabeça de

Humbaba, Enlil gritou: "Por que fizestes isso? De agora em diante que o

fogo castigue vossos rostos, que ele coma o pão que corneis, que beba

a água que bebeis." Enlil então tomou de volta o brilho e os sete

esplendores que haviam pertencido a Humbaba: ele deu o primeiro

deles ao rio, e os outros ao leão, à pedra de execração, à montanha e à

temida filha da Rainha do Inferno.

Oh, Gilgamesh, rei e conquistador do brilho terrível, touro selvagem

que pilha a montanha, que atravessa o mar, louvado seja; e dos

corajosos a maior glória é a de Enki!

3. Ishtar e Gilgamesh, e a morte de Enkidu

Gilgamesh lavou seus longos cabelos e limpou suas armas; jogou

os cabelos para trás dos ombros, tirou as roupas manchadas que vestia e

trocou-as por novas. Ele colocou seus mantos reais e os ajustou ao corpo.

Ao vestir a coroa, a gloriosa Ishtar elevou seus olhos e divisou a beleza de

Gilgamesh. Ela disse: "Vem comigo, Gilgamesh, e sê meu consorte;

infunde-me a semente de teu corpo; deixa-me ser tua mulher e serás

meu marido. Arrearei para ti uma carruagem com ouro e lápis-lazúli; as

rodas serão de ouro, as trompas de cobre; em vez de mulas, terás para

puxá-la os poderosos demônios da tempestade. Ao entrares em nossa

casa, envolvida na fragrância do cedro, terás a soleira e o trono a

beijar-te os pés. Reis, tiranos e príncipes se curvarão à tua presença; eles

te trarão tributos das montanhas e das planícies. Tuas ovelhas darão à luz

gêmeos e tuas cabras trigêmeos; teus burros de carga serão mais

rápidos do que as mulas; nada se igualará a teu gado, e os cavalos de

tua carruagem serão conhecidos em terras distantes por sua

velocidade."

Gilgamesh abriu a boca e respondeu à gloriosa Ishtar: “Se vos

tomar como esposa, que presentes poderei oferecer em troca”? Que

vestes e perfumes poderia te dar? De bom grado dar-vos-ia pão e todo

tipo de comida à altura de um deus. Dar-vos-ia de beber um vinho digno

de uma rainha. Eu abarrotaria vosso celeiro de cevada; mas fazer de vós

minha esposa, isso não. O que seria de mim? Fostes para vossos amantes

como um braseiro que arde sem chama no frio, como uma porta que

não protege do vento cortante ou da tempestade, uma fortaleza que

esmaga sua guarnição, uma jarra que enegrece o ombro de quem a

carrega, um odre que escoria e esfola a pele de seu portador, uma

rocha que cai do parapeito, um aríete vindo do inimigo, uma sandália

que faz tropeçar aquele que a veste. Qual de vossos amantes chegastes

alguma vez a amar para sempre? De qual de vossos pastores não vos

cansastes? Escutai-me enquanto conto a história de vossos amantes.

Havia Tammuz, o amor de vossa juventude; decretastes por ele o choro

e a lamentação, ano após ano. Amastes o multicolorido gaio, mas ainda

sim desferistes um golpe contra sua asa, quebrando-a; agora, pousado

em alguma árvore do bosque, ele chora 'cápi, cápi, minha asa, minha

asa'. Amastes o leão de tremenda força; preparastes para ele sete

armadilhas, e mais sete. Amastes o garanhão que era magnífico na

batalha, e para ele decretastes o chicote, a espora e a correia;

ordenastes que galopasse sete léguas todos os dias e que lhe dessem

água suja para beber; e para sua mãe, Silili, impusestes as lamentações.

Amastes o pastor do rebanho; dia após dia ele vos preparava um bolo

de aveia; e sacrificava cordeiros em vossa homenagem. Vós o

golpeastes e o transformastes num lobo; agora seus próprios filhos o

afujentam, seus próprios cães de caça o acossam, lacerando-lhe os

flancos. E não amastes também Ishullanu, o jardineiro do bosque de

palmeiras de vosso pai? Ele vos trazia incontáveis cestas repletas de

tâmaras; todos os dias ele cobria vossa mesa. Então olhastes para ele e

dissestes: 'Caro Ishullanu, vem comigo, vamos desfrutar de tua virilidade,

aproxima-te e toma-me em teus braços, sou tua.' Ishullanu respondeu: 'O

que estais me pedindo? Minha mãe cozinhou e eu comi; por que

deveria recorrer a alguém como vós para obter comida contaminada e

pútrida? Pois desde quando um biombo de treliça é proteção suficiente

contra a geada?' Ao ouvir sua resposta lançastes contra ele um feitiço.

Ele se transformou numa toupeira cega que habita as profundezas da

terra, alguém cujos desejos estão sempre além de seu alcance. E, se nos

uníssemos, será que eu não receberia o mesmo tratamento dispensado

a todos esses que um dia amastes?

Ao ouvir esta resposta, Ishtar foi tomada de uma implacável cólera.

Ela subiu aos céus e chorou convulsivamente diante de seu pai, Anu, e

sua mãe, Anion. E disse: "Pai, Gilgamesh cobriu-me de insultos; ele expôs

toda a minha abominável conduta; denunciou minhas infâmias e

torpezas." Anu abriu a boca e disse: "És um pai de deuses? Não discutiste

com Gilgamesh, o rei, e por isso ele denunciou tua abominável conduta,

tuas infâmias e torpezas?"

Ishtar abriu a boca e tornou a falar: "Pai, dai-me o Touro do Céu

para destruir Gilgamesh. Enchei, eu vos peço, Gilgamesh de arrogância

para sua própria destruição; mas, se vos recusardes a me dar o Touro do

Céu, destruirei os portões do inferno e despedaçarei seus ferrolhos;

haverá confusão entre os seres que estão nas camadas superiores e os

que estão nas profundezas da terra. Trarei os mortos para cima, para que

se alimentem como os vivos, e a hoste dos mortos será mais numerosa

que a dos vivos." Anu disse à poderosa Ishtar: "Se eu fizer o que tu me

pedes, haverá sete anos de seca por toda Uruk; o trigo só terá palha e

nada de semente. Guardaste uma quantidade suficiente de grãos para

as pessoas e capim para o gado?" Ishtar replicou: "Guardei grãos para as

pessoas e capim para o gado; há uma quantidade suficiente de grãos e

capim para os sete anos de trigo sem semente."

Ao ouvir a resposta de Ishtar, Anu entregou-lhe o Touro do Céu

para que fosse conduzido pelo cabresto até Uruk. Quando eles

chegaram aos portões da cidade, o Touro dirigiu-se ao rio. Ele bufou

uma vez e a terra abriu-se em fendas, engolindo a vida de cem homens.

Ele bufou uma segunda vez e mais fendas se abriram, levando a vida de

duzentos homens.

Na terceira vez novas fendas se abriram, lançando Enkidu para a

frente; mas ele imediatamente recuperou o equilíbrio, se esquivou e

lançou-se sobre o touro agarrando-o pelos chifres. O Touro do Céu

espumava em seu rosto e o escoriava com a parte mais grossa de sua

cauda. Enkidu gritou para Gilgamesh: "Amigo, nós alardeamos que

deixaríamos uma fama duradoura atrás de nossos nomes. Agora enfia

tua espada entre a nuca e os chifres do touro." Gilgamesh foi então atrás

da fera, agarrou o talo de sua cauda, enfiou a espada entre sua nuca e

seu chifre e a matou. Depois de matarem o Touro do Céu, eles

arrancaram seu coração e o ofereceram a Shamash. Os dois irmãos

então descansaram.

Mas Ishtar levantou-se e escalou a grande muralha de Uruk; ela

pulou para a torre e proferiu uma maldição: "Ai de Gilgamesh, pois

zombou de mim ao matar o Touro do Céu." Ao ouvir essas palavras,

Enkidu arrancou a coxa direita do touro e atirou-lhe ao rosto, dizendo:

"Se pudesse colocar minhas mão em ti, é isso que te faria, e açoitaria

com as entranhas o teu corpo." Ishtar então conclamou sua gente, as

prostitutas do templo, as jovens que cantavam e dançavam, as cortesãs.

Em torno da coxa do Touro do Céu, organizou um velório de choro e

lamentação.

Mas Gilgamesh reuniu todos os ferreiros e alfagemes. Eles ficaram

impressionados com a imensidão dos chifres, que eram revestidos de

uma camada de lápis-lazúli de duas polegadas de espessura. Cada um

deles pesava quinze quilos, e em seu interior cabia o equivalente a seis

medidas de óleo, que Gilgamesh ofereceu ao seu deus protetor,

Lugulbanda. Mas ele levou os chifres para o palácio e os pendurou na

parede. Eles então lavaram suas mãos no Eufrates, abraçaram-se e

foram embora. Atravessaram as ruas de Uruk, onde os heróis haviam se

reunido para vê-los, e Gilgamesh virou-se para as jovens que cantavam

e gritou: "Quem é o mais glorioso dos heróis, quem é o mais eminente

entre os homens?" "Gilgamesh é o mais glorioso dos heróis, Gilgamesh é o

mais eminente entre os homens." Houve então um banquete, e festejos,

e o palácio encheu-se de alegria, até os heróis se deitarem, dizendo:

"Descansaremos agora até o amanhecer."

Quando a manhã chegou, Enkidu levantou-se e gritou para

Gilgamesh: "Oh, meu irmão, que sonho tive esta noite. Anu, Enlil, Ea e o

celestial Shamash se reuniram em conselho, e Anu disse a Enlil: 'Por terem

matado o Touro do Céu e por terem morto Humbaba, que tomava

conta da Montanha de Cedro, um dos dois tem de morrer.' O glorioso

Shamash respondeu então ao herói Enlil: 'Foi sob tuas ordens que eles

mataram Humbaba e o Touro do Céu, será que Enkidu tem de morrer

apesar de ser inocente?' Enlil virou-se bruscamente para o glorioso

Shamash e disse, em fúria: 'Ousas dizer uma coisa dessas, tu que estavas

sempre a acompanhá-los como se fosses um deles!' '

Enkidu jazia estendido diante do amigo. Suas lágrimas vertiam

copiosamente, e ele disse a Gilgamesh: "Oh, meu irmão, és tão querido

por mim, e eles no entanto vão tirar-me de ti." Ele tornou a falar: "Devo

sentar-me à entrada da casa dos mortos e jamais tornar a ver com meus

olhos o meu querido irmão."

Solitário e enfermo em seu leito, Enkidu amaldiçoava o portão

como se ele fosse de carne viva: "Tu, madeira do portão, inerte, insensível

e apática; viajei vinte léguas procurando por ti, até achar o gigantesco

cedro. Não há madeira igual em nossa terra. Setenta e dois côvados de

altura e vinte quatro de largura; eixo, virola e batente perfeitos. Foste

feito pelo mestre dos artesãos de Nippur; mas, ai, se eu soubesse o que

aconteceria! Se soubesse que serias o único bem resultante desta

aventura, teria levado o machado ao ar e te feito em pedaços, e em

teu lugar construiria aqui um portão de vime. Ai, se pelo menos tivesses

chegado aqui por obra de algum futuro rei, ou se um deus te tivesse

criado! Que ele apague o meu nome e o substitua pelo seu; que a

maldição recaia sobre sua cabeça em vez de tombar sobre a de

Enkidu."

Ao primeiro brilho da alvorada, Enkidu levantou a cabeça e

chorou diante do Deus-Sol; suas lágrimas corram por seu rosto ao brilho

da luz solar. "Deus-Sol, eu vos imploro, a respeito daquele caçador

infame, aquele caçador vil, por culpa de quem vim a receber menos

que meu companheiro; fazei com que capture menos presas, tornai a

caça mais escassa, fazei com que ele se enfraqueça, que receba a

menor parte nas divisões entre os caçadores, que suas vítimas fujam de

suas armadilhas."

Depois de imprecar contra o caçador até desabafar seu coração,

ele se voltou para a rameira. Crescera nele uma necessidade de

também amaldiçoá-la. "Quanto a ti, mulher, lanço-te uma grande

maldição! Prometo-te um destino para toda a eternidade. Minha praga

se abaterá sobre ti imediata e repentinamente. Ficarás sem teto para o

teu comércio, pois não manterás casa com outras mulheres na taberna,

mas terás de realizar teu negócio em lugares fétidos e empestados pelo

vômito do bêbado. Teu preço será barato; teus pequenos furtos serão

lançados com desdém ao chão de tua choupana; tu te sentarás na

encruzilhada poeirenta do quarteirão dos oleiros; farás tua cama à noite

sobre um monte de estrume, e durante o dia tomaras teu lugar sob a

sombra da muralha. Sarças e espinhos rasgarão teus pés; o bêbado e o

sóbrio te golpearão o rosto e sentirás dores na boca. Que sejas

despojada de tuas tintas purpúreas, pois também eu na selva com

minha mulher tinha todos os tesouros que desejava."

Ao ouvir as palavras de Enkidu, Shamash gritou-lhe do céu: "Enkidu,

por que amaldiçoas a mulher, a concubina que te ensinou a comer pão

digno dos deuses e a beber o vinho dos reis? Ela, que colocou sobre ti

um magnífico traje, não foi ela quem te deu o glorioso Gilgamesh por

companheiro, e Gilgamesh, teu próprio irmão, não fez ele com que te

deitasses num leito real e te reclinasses sobre um diva à esquerda de seu

trono? Ele fez com que os príncipes da terra beijassem teus pés, e hoje

todo o povo de Uruk chora e se lamenta por ti. Quando morreres, ele

deixará seus cabelos crescerem por tua causa; ele vestirá a pele de um

leão e vagueará pelo deserto."

Ao ouvir as palavras do glorioso Shamash, seu coração colérico se

acalmou; ele retirou a maldição e disse: "Mulher, prometo-te um outro

destino. A boca que te amaldiçoou agora te abençoa! Serás adorada

por reis, príncipes e nobres. Embora a doze milhas de distância, exercerás

forte atração sobre um homem e o perturbarás. Ele te abrirá as portas de

seu tesouro e terás tudo o que desejares: lápis-lazúli, ouro e cornalina,

tirados da sua pilha de tesouros. Ganharás um anel para teu dedo e um

manto. Um sacerdote de conduzirá à presença dos deuses. Por tua

causa uma esposa, mãe de sete, foi abandonada."

Enquanto Enkidu dormia sozinho em sua enfermidade, com o

coração amargurado ele se virou para o amigo e desabafou: “Fui eu

quem abateu o cedro, quem limpou a floresta, quem matou Humbaba,

e agora olha o que me aconteceu”. Escuta, meu amigo, o sonho que

tive esta noite. Os céus troavam e a terra rugia de volta; entre os dois

estava eu, diante de um ser aterrador, o homem-pássaro de feições

sombrias. Ele havia me escolhido como presa. Seu rosto era como o de

um vampiro, seus pés como as patas de um leão, suas mãos como as

garras de uma águia. Ele se abateu sobre mim e suas presas agarraram

minha cabeça; ele me apertou com força e me senti sufocar; ele então

transformou meu corpo de tal maneira que meus braços viraram asas

cobertas de penas. Ele me olhou fixamente e levou-me para o palácio

de Irkalla, a Rainha das Trevas, à casa de onde ninguém que entra

jamais torna a sair, à estrada sem retorno.

"Ali fica a casa onde as pessoas sentam-se no escuro, onde o pó é

sua comida e o barro sua carne. Elas se vestem como os pássaros, tendo

as asas como traje; elas não vêem a luz e sentam-se na escuridão. Eu

entrei na casa do pó e vi os reis da terra, suas coroas guardadas para

sempre; vi tiranos e príncipes, todos aqueles que outrora usavam coroas

reais e governavam o mundo. Aqueles que no passado haviam

ocupado o lugar de deuses como Anu e Enlil agora trabalhavam como

servos, buscando carne assada na casa do pó e carregando carne

cozida e água fria tirada do odre. Na casa do pó em que entrei estavam

os altos sacerdotes e os acólitos, os sacerdotes do êxtase e do

encantamento; lá se encontravam os servidores do templo e Etana, o rei

de Kish, a quem outrora a águia carregou para o céu. Também vi

Samuqan, o deus do gado, e Ereshkigal, a Rainha do Mundo Inferior; e,

agachada em frente a ela, Belit-Sheri, escriba dos deuses e guardiã do

livro da morte. Ela estava lendo uma tábua que tinha em suas mãos. Ela

levantou a cabeça, me viu e falou: 'Quem trouxe este aqui?' Eu então

acordei e parecia um homem sangrado que erra solitário por entre os

juncos; alguém que foi agarrado pelo intendente e cujo coração bate

disparado, cheio de agonia e terror."

Gilgamesh havia se despido; ele escutou as palavras do amigo e

chorou intensamente. Ele abriu a boca e disse a Enkidu: "Quem na Uruk

das poderosas muralhas tem tamanha sabedoria? Coisas estranhas

foram ditas, por que teu coração fala assim tão estranhamente? Teu

sonho foi grandioso, mas terrível; devemos conservá-lo na memória

apesar de seus horrores, pois ele demonstra que a miséria acaba

abatendo-se sobre o homem saudável, que o fim da vida é doloroso." E

Gilgamesh lamentou: "Rezarei agora aos grandes deuses, pois meu

amigo teve um sonho ominoso."

O dia do sonho chegou ao fim, e Enkidu jazia enfermo. Passou um

dia inteiro no leito e seu sofrimento aumentou. Enkidu disse a Gilgamesh,

o amigo por quem ele abandonara sua vida no meio da natureza:

"Houve época em que lutei por ti, pela água da vida, e agora eu não

tenho nada." Enkidu passou um segundo dia no leito e Gilgamesh velou

por ele, mas a doença piorou. No terceiro dia, ele chamou Gilgamesh,

acordando-o. Enkidu estava fraco e seus olhos já não enxergavam mais

de tanto chorar. Dez dias se passaram e seu sofrimento aumentava; onze,

doze dias, e Enkidu continuava em seu leito de dor. Ele então chamou

Gilgamesh e disse: "Amigo, a grande deusa me amaldiçoou e devo

morrer na vergonha. Não morrerei como um homem que tomba durante

a batalha; eu temia ser derrubado na luta, mas feliz é aquele que morre

lutando, pois eu morrerei na vergonha." E Gilgamesh chorou por Enkidu.

Ao primeiro brilho da alvorada ele elevou sua voz e falou aos

conselheiros de Uruk:

"Ouvi-me, homens ilustres de Uruk,

Choro por Enkidu, meu amigo.

Com as lagrimas pungentes da mulher aflita

Choro por meu irmão.

Oh, Enkidu, meu companheiro,

Foste o machado que levava ao meu lado,

A força do meu braço, a espada em meu cinturão,

O escudo que me protegia,

Um glorioso manto, meu mais belo ornamento;

Um destino cruel roubou-o de mim.

O asno selvagem e a gazela

Que como pai e mãe te criaram,

Todas as criaturas de cauda longa que te alimentaram

Choram por ti.

Todas as coisas agrestes das campinas e dos pastos,

As trilhas que amavas na floresta dos cedros,

Noite e dia murmuram.

Que os homens ilustres de Uruk,

A cidade das poderosas muralhas,

Chorem por ti;

Que o dedo que abençoa

Se estenda para pranteá-lo.

Enkidu, meu jovem irmão, ouve,

Um eco atravessa todo o país

Como um lamento de mãe.

Choram todos os caminhos que juntos percorremos,

E as feras que caçamos: o urso e a hiena,

O tigre e a pantera, o leopardo c o leão,

O veado e o cabrito montes, o touro c a corça.

Os rios cujas margens percorríamos

Choram por ti,

O Ula do Elam e o querido Eufrates,

De onde tirávamos água para os odres.

A montanha que escalamos para o Sentinela matar

Chora por ti.

Os guerreiros de Uruk,

Cidade das poderosas muralhas,

Onde o Touro do Céu foi morto,

Choram por ti.

Todo o povo de Endu

132

Chora por ti, Enkidu.

Aqueles que trouxeram cereais para conteres

Choram agora por ti;

Que o óleo em tuas costas esfregavam

Choram agora por ti;

Que te enchiam o copo de cerveja

Choram agora por ti;

A meretriz que com o perfumado ungüento te untava

Lamenta-se agora por ti;

As mulheres do palácio, que te deram uma esposa,

Um grupo seleto de boas conselheiras,

Lamentam-se agora por ti.

E os jovens, teus irmãos,

Como se fossem mulheres

De cabelos compridos choram por ti.

Que sono é este que em seu poder te mantém?

Estas perdido no escuro e não me podes ouvir."

Gilgamesh tocou o coração de Enkidu, mas ele já não batia; seus

olhos também não tornaram a se abrir. Gilgamesh então cobriu o amigo

com um véu, como o noivo cobre a noiva. E pôs-se a urrar, a desabafar

sua fúria como um leão, como uma leoa cujos filhotes lhe foram

roubados. Vagueou em torno da cama, arrancou seus cabelos e os

espalhou por toda parte. Arrancou seus magníficos mantos e atirou-os

ao chão como se fossem abominações.

Ao primeiro brilho da alvorada, Gilgamesh gritou: "Fiz com que te

deitasses num leito real, te reclinaste sobre um diva à esquerda de meu

trono, os príncipes da terra beijaram teus pés. Farei com que todo o povo

de Uruk chore por ti e te cante hinos fúnebres. As pessoas alegres se

curvarão de dor; e, depois de desceres à terra, deixarei que meu cabelo

cresça em tua homenagem e errarei pelas matas na pele de um leão."

De novo no dia seguinte, ao primeiro brilho da aurora, Gilgamesh se

lamentou; por sete dias e sete noites ele chorou por Enkidu, até que os

vermes tomaram-lhe o corpo. Somente então Gilgamesh entregou

Enkidu à terra, pois os Anunnaki, os juizes do mundo inferior, o haviam

capturado.

Gilgamesh então mandou proclamar um edito por todo país. Ele

convocava todos os caldeireiros, ourives e pedreiros e os intimava: "Fazei

uma estátua de meu amigo." A estátua foi moldada com grande

quantidade de lápis-lazuli no peito e de ouro no resto do corpo. Foi

então montada uma mesa de madeira de lei, e em cima dela foram

colocadas uma tigela de cornalina cheia de mel e uma de lápis-lazuli

contendo manteiga. Gilgamesh as ofereceu ao Sol, e, chorando, partiu.

4. A busca da vida eterna

Gilgamesh chorou amargamente por seu amigo Enkidu. Ele errou

pelas matas como um caçador e vagueou pelas planícies. Em sua

tristeza ele gritou: "Como posso descansar, como posso ficar em paz? O

desespero se instalou em meu coração. Isso que meu irmão é agora, o

mesmo serei eu quando morrer. Por medo da morte farei o possível para

encontrar Utnapishtim, a quem chamam o Longínquo, pois ele se juntou

à assembléia dos deuses." Gilgamesh então correu o mundo selvagem;

vagou pelos campos e pastos numa longa jornada em busca de

Utnapishtim, a quem os deuses acolheram após O dilúvio e instalaram na

terra de Dilmum, no jardim do sol; e somente a ele, entre todos os

homens, os deuses concederam a vida eterna.

A noite, chegando ao desfiladeiro da montanha, Gilgamesh

rezou: "Neste desfiladeiro, há muito tempo atrás, encontrei leões. Tive

medo e elevei meu olhar para a lua. Eu rezei e os deuses escutaram

minha prece; por isso agora, oh, Sin, deus da lua, protegei-me." Após a

oração, ele se deitou para dormir, até ser acordado de um sonho. Ele se

viu rodeado de leões que se regozijavam de estarem vivos; tomou então

o machado nas mãos, sacou a espada de seu cinturão e se lançou

sobre eles como uma flecha disparada por um arco. Ele golpeou as feras,

matou-as e dispersou-as.

Finalmente Gilgamesh chegou a Mashu, as grandes montanhas

que guardam o nascer e o pôr do sol e sobre as quais ele havia ouvido

muitas histórias. Seus picos são gêmeos e da altura das muralhas do céu;

suas encostas descem até o mundo inferior. Os Escorpiões vigiam sua

entrada. Eles são metade homem e metade dragão; sua fama inspira

terror, seu olhar é mortal aos homens e o brilho tremeluzente que deles

emana varre as montanhas que guardam o nascer do sol. Ao vê-los,

Gilgamesh protegeu os olhos, mas apenas por alguns momentos; ele

então tomou coragem e se aproximou. Vendo-o com um ar tão

impávido, o Homem-Escorpião gritou para seu companheiro: "Este que

ora se aproxima tem a carne dos deuses." Seu companheiro respondeu:

"Ele é dois terços deus, mas um terço homem."

Ele então gritou para o homem Gilgamesh, ele gritou para o filho

dos deuses: "Por que fizeste tão longa jornada? Por que viajaste de tão

longe, cruzando os perigosos mares? Dize-me a razão de tua vinda."

Gilgamesh respondeu: "Por Enkidu, a quem muito amava. Juntos

enfrentamos todos os tipos de dificuldade. Por causa dele eu vim, pois

caiu vítima do destino que assola os homens. Chorei por ele noite e dia e

me recusava a entregar seu corpo para o funeral. Pensei que meu

pranto fosse trazê-lo de volta. Desde sua partida minha vida deixou de

ter sentido; por isso viajei até aqui em busca de Utnapishtim, meu pai;

pois diz-se que ele se juntou aos deuses e que encontrou a vida eterna.

Desejo fazer-lhe algumas perguntas com relação aos vivos e os mortos."

O Homem-Escorpião abriu a boca e disse, falando a Gilgamesh:

"Nenhum homem nascido de mulher fez o que tu pedes, nenhum mortal

jamais entrou na montanha. Ela se estende por doze léguas de

escuridão; não há luz em seu interior e o coração se sente oprimido pelas

trevas. Do nascer ao pôr do sol, não há nada além de escuridão."

Gilgamesh disse: "Embora seja para mim um caminho de tristeza e dor,

de gemidos e lágrimas, ainda assim devo tomá-lo. Abri o portão da

montanha." E o Homem-Escorpião disse: "Vai, Gilgamesh. Permitirei que

atravesses a montanha de Mashu e as elevadas cordilheiras; que teus

pés te levem ao destino em segurança. O portão da montanha está

aberto."

Gilgamesh escutou o que o Homem-Escorpião lhe disse e seguiu,

através da montanha, pela estrada do sol até o lugar de seu nascente.

Depois de caminhar por uma légua, a escuridão se intensificou ao seu

redor, pois não havia mais luz; ele não conseguia enxergar nada, nem o

que estava à frente nem o que estava atrás. Depois de duas léguas a

escuridão era intensa e não havia luz; ele não conseguia enxergar nada,

nem o que estava à frente nem o que estava atrás. Depois de três léguas

a escuridão era intensa e não havia luz; ele não conseguia enxergar

nada, nem o que estava à frente nem o que estava atrás. Depois de

quatro léguas a escuridão era intensa e não havia luz; ele não conseguia

enxergar nada, nem o que estava à frente nem o que estava atrás. Ao

final de cinco léguas a escuridão era intensa e não havia luz; ele não

conseguia enxergar nada, nem o que estava à frente nem o que estava

atrás. Ao final de seis léguas a escuridão era intensa e não havia luz; ele

não conseguia enxergar nada, nem o que estava à frente nem o que

estava atrás. Depois de percorrer sete léguas a escuridão era intensa e

não havia luz; ele não conseguia enxergar nada, nem o que estava à

frente nem o que estava atrás. Depois de percorrer oito léguas, ele soltou

um grande grito, pois a escuridão era intensa e ele não conseguia

enxergar nada, nem o que estava à frente nem o que estava atrás.

Depois de nove léguas, ele sentiu o vento norte em seu rosto, mas a

escuridão era intensa e não havia luz; ele não conseguia enxergar nada,

nem o que estava à frente nem o que estava atrás. Depois de dez léguas,

o final estava próximo. Depois de onze léguas apareceram os primeiros

raios da alvorada. Ao final de doze léguas a luz do sol enfim refulgiu.

Lá estava o jardim dos deuses; por todos os lados cresciam

arbustos carregados de pedras preciosas. Ao vê-los, ele imediatamente

se aproximou, pois havia frutas de cornalina pendendo de uma parreira,

lindas de ver; folhas de lápis-lazúli cresciam em profusão por entre as

frutas e eram doces ao olhar. No lugar dos espinhos e dos cardos

encontravam-se as hematitas e as pedras raras, e mais a ágata e pérolas

do mar. Shamash viu Gilgamesh caminhando pelo jardim à beira do mar,

e ele viu que o herói estava vestido com peles de animais e que se

alimentava de sua carne. Isto o aborreceu, e falando ele disse: "Nenhum

mortal jamais tomou este caminho antes, nem tomará, enquanto os

ventos soprarem por sobre os mares." E virando-se para Gilgamesh ele

falou: "Jamais encontrarás a vida que procuras." Gilgamesh respondeu

ao glorioso Shamash: "Então, depois de errar e me esfalfar pela vastidão

selvagem, terei ainda de dormir e deixar que a terra cubra para sempre

a minha cabeça? Que meus olhos fitem o sol até seu brilho ofuscá-los.

Embora não seja melhor que um homem morto, ainda assim deixai-me

contemplar a luz do sol." Ao lado do mar ela vive, a mulher do vinhedo, a

fabricante de vinho. Siduri fica sentada no jardim à beira do mar, com a

tigela e os tonéis de ouro que os deuses lhe deram. Ela está coberta por

um véu e, de onde se encontra, vê Gilgamesh se aproximar, vestindo

peles, com a carne dos deuses no corpo, mas com o desespero no

coração. Seu rosto era como o de alguém que chegou de uma longa

jornada. Ela olhou e, observando com atenção o que se passava a

distância, disse para si mesma: "Trata-se sem dúvida de um criminoso;

aonde estará indo?" E ela fechou o portão com a tranca e passou-lhe o

ferrolho. Mas Gilgamesh, ao ouvir o barulho do ferrolho, lançou a

cabeça para a frente e deteve a porta com o pé. Ele gritou para Siduri:

"Jovem fabricante de vinho, por que trancas tua porta? O que viste que

te fez trancar teu portão? Quebrarei tua porta e arrebentarei teu portão,

pois sou Gilgamesh, que capturou e matou o Touro do Céu. Eu matei o

sentinela da floresta de cedro, derrubei Humbaba que vivia na floresta e

matei os leões no desfiladeiro da montanha."

Siduri então disse a ele: "Se és o Gilgamesh que capturou e matou

o Touro do Céu, que matou o sentinela da floresta de cedro, que

derrubou Humbaba que vivia na floresta e matou os leões no desfiladeiro

da montanha, por que tens as faces tão encovadas e o rosto tão

abatido? Por que trazes o desespero em teu coração, e por que teu

rosto lembra o de alguém que chega de uma longa jornada? Sim, por

que tua face está queimada pelo calor e pelo frio, e por que chegas

aqui vagando pelos pastos à procura do vento?"

Gilgamesh respondeu-lhe: "E por que meu rosto não haveria de

estar encovado e abatido? Trago o desespero em meu coração; meu

rosto lembra o de alguém que chega de uma longa jornada e foi

queimado pelo calor e pelo frio. Por que não haveria de vagar pelos

pastos à procura do vento? Meu amigo, meu irmão mais novo, que

caçava o asno selvagem e a pantera das campinas, meu amigo, meu

irmão mais novo, que capturou e matou o Touro do Céu e derrubou

Humbaba na floresta de cedro, meu amigo, alguém que me era

caríssimo e que enfrentou muitos perigos ao meu lado, Enkidu, meu

irmão, a quem tanto amava, a morte o alcançou. Chorei por ele

durante sete dias e sete noites, até os vermes tomarem-lhe o corpo. Por

causa do meu irmão, tenho medo da morte; por causa do meu irmão,

vagueio pelas matas e pelos campos e não consigo descansar. Mas

agora, oh, jovem que prepara o vinho, já que vi tua face, não permita

que eu veja a face da morte a quem tanto temo."

Ela respondeu: "Gilgamesh, onde vais com tanta pressa? Jamais

encontrarás a vida que procuras. Quando os deuses criaram o homem,

eles lhe destinaram a morte, mas a vida eles mantiveram em seu próprio

poder. Quanto a ti, Gilgamesh, enche tua barriga de iguarias; dia e noite,

noite e dia, dança e sê feliz, aproveita e deleita-te. Veste sempre roupas

novas, banha-te em água, trata com carinho a criança que te tomar as

mãos e faze tua mulher feliz com teu abraço; pois isto também é o

destino do homem."

Mas Gilgamesh disse a Siduri, a jovem: "Como posso ficar calado,

como posso descansar, quando Enkidu, a quem amo, tornou-se pó, e

quando também por mim a morte e a terra esperam? Vives à beira do

oceano e vês o seu interior; dize-me, oh, jovem, como chegar a

Ut-napishtim, o filho de Ubara-Tutu. O que preciso saber para chegar até

ele? Instruí-me, dize o que tenho de fazer. Atravessarei o Oceano se isto

for possível; se não for, vagarei por regiões ainda mais desoladas." A

fabricante de vinho lhe disse: "Gilgamesh, não há como atravessar o

Oceano; todos os que aqui vieram, desde os dias de outrora, não

conseguiram viajar pelo mar. O Sol em sua glória atravessa o Oceano,

mas quem além de Shamash jamais logrou tal feito? O lugar é perigoso e

a passagem difícil; as águas da morte que por ali correm são profundas.

Gilgamesh, como vais atravessar o Oceano? Quando chegares às

águas da morte, o que farás? Mas, Gilgamesh, no meio da floresta

encontrarás Urshanabi, o barqueiro de Ut-napishtim; com ele estão os

objetos sagrados, os objetos de pedra. Ele está talhando a proa do

barco em forma de serpente. Observa-o bem. Se for possível, talvez

consigas atravessar as águas do Oceano com ele; se não, terás de

voltar."

Ao ouvir isso, Gilgamesh ficou furioso. Ele tomou o machado em

uma das mãos e sacou o punhal de seu cinturão. Gilgamesh avançou

furtivamente e se atirou como um dardo em cima dos apetrechos do

barco. Então voltou para dentro da floresta e sentou-se. Urshanabi viu o

brilho da faca e escutou o machado, e ficou perplexo, pois Gilgamesh,

em sua fúria, havia destroçado o equipamento da embarcação.

Urshanabi disse a ele: "Dize-me, qual é o teu nome? Sou Urshanabi, o

barqueiro de Utnapish-tim, o Longínquo." Ele lhe respondeu: "Gilgamesh

é meu nome. Sou de Uruk, da casa de Anu." Urshanabi perguntou-lhe

então: "Por que tens as faces tão encovadas e o rosto tão abatido? Por

que trazes o desespero em teu coração, e por que teu rosto lembra o de

alguém que chega de uma longa jornada? Sim, por que tua face está

queimada pelo calor e pelo frio, e por que chegas aqui vagando pelos

pastos à procura do vento?"

Gilgamesh disse-lhe: "E por que meu rosto não haveria de estar

encovado e abatido? Trago o desespero em meu coração; meu rosto

lembra o de alguém que chega de uma longa jornada e foi queimado

pelo calor e pelo frio. Por que não haveria de vagar pelos pastos à

procura do vento? Meu amigo, meu irmão mais novo, que capturou e

matou o Touro do Céu e derrubou Humbaba na floresta de cedro, meu

amigo, alguém que me era caríssimo e que enfrentou muitos perigos ao

meu lado, Enkidu, meu irmão, a quem tanto amava, a morte o alcançou.

Chorei por ele durante sete dias e sete noites, até os vermes tomarem-lhe

o corpo. Por causa do meu irmão, tenho medo da morte; por causa do

meu irmão, vagueio pelas matas e pelos campos. Seu destino pesa sobre

mim. Como posso descansar, como posso ficar em paz? Ele virou pó e

também eu vou morrer e ser enterrado para sempre. Tenho medo da

morte; por isso, Urshanabi, mostre-me o caminho para chegar até

Utnapishtim. Se for possível, atravessarei as águas da morte, se não for,

vagarei por regiões ainda mais desoladas."

Urshanabi disse a ele: "Gilgamesh, foram tuas próprias mãos que

tornaram impossível tua travessia do Oceano; ao destruíres o

equipamento do barco, destruíste também sua segurança." Os dois

então discutiram o assunto e Gilgamesh disse: "Por que estás tão

zangado comigo, Urshanabi? Pois tu mesmo atravessas o mar dia e

noite; em qualquer estação tu o atravessas." "Gilgamesh, estes objetos

que destruíste tinham a propriedade de levar-me por sobre as águas da

morte, impedindo-as de tocarem em mim. Era por esta razão que eu os

preservava, mas tu os destruíste, e com eles liquidaste também as

serpentes urnu. Mas vai agora à floresta, Gilgamesh, corta com teu

machado cento e vinte toras de sessenta côvados de cumprimento,

pinta-as com betume, reforça-as com virolas e traze-as de volta para

mim."

Ao ouvir isso, ele foi à floresta, cortou cento e vinte toras de

sessenta côvados de cumprimento, pintou-as com betume, reforçou-as

com virolas e trouxe-as de volta para Urshanabi. Eles então subiram no

barco, Gilgamesh e Urshanabi, e o lançaram sobre as ondas do Oceano.

Durante três dias eles singraram o mar com velocidade, percorrendo o

equivalente a uma jornada de um mês e quinze dias. Urshanabi por fim

levou o barco às águas da morte. Ele então disse para Gilgamesh: "Vai

em frente, pega uma das toras e empurra-a para dentro do mar, mas

não encostes tua mão na água. Gilgamesh, pega uma segunda tora,

uma terceira, uma quarta. Agora, Gilgamesh, pega uma quinta, uma

sexta e uma sétima tora. Gilgamesh, pega uma oitava, uma nona e uma

décima tora. Gilgamesh, pega uma décima primeira; pega uma décima

segunda tora." Depois de empurrar para dentro d'água cento e vinte

toras, Gilgamesh ficou sem nenhuma. Ele então tirou a roupa e elevou

seus braços para cima para servir de mastro, e usou suas vestimentas

como vela. Assim Urshanabi, o barqueiro, trouxe Gilgamesh até

Utnapishtim, a quem chamam o Longínquo e que vive em Dilmun, a leste

da Montanha, no lugar por onde transita o sol. Somente a ele, entre

todos os homens, os deuses concederam a vida eterna.

Enquanto isso, Utnapishtim, confortavelmente instalado, observava

tudo a distância e, dentro de seu coração, meditava: "Por que o barco

navega por aqui sem seu mastro e sem equipamento? Por que foram

destruídas as pedras sagradas, e por que o barco não é conduzido por

seu capitão? Aquele homem que chega não é um dos meus; vejo um

homem coberto com pele de animais. Quem é este que vem pela praia

atrás de Urshanabi, pois certamente que não é um dos meus homens?"

Utnapishtim então olhou para ele e disse: "Qual é o teu nome, tu que

chegas vestido de pele de animais, com as bochechas famintas e o

rosto abatido? Aonde vais com pressa? Por que razão fizeste uma

jornada tão longa, atravessando mares cuja passagem é tão difícil?

Dize-me a razão de tua vinda."

Ele respondeu: "Gilgamesh é meu nome. Sou de Uruk, da casa de

Anu." Utnapishtim então disse a ele: "Se és Gilgamesh, por que tens as

faces tão encovadas e o rosto tão abatido? Por que trazes o desespero

em teu coração, e por que teu rosto lembra o de alguém que chega de

uma longa jornada? Sim, por que tua face está queimada pelo calor e

pelo frio, e por que chegas aqui vagando pelos pastos à procura do

vento?"

Gilgamesh disse-lhe: "E por que meu rosto não haveria de estar

encovado e abatido? Trago o desespero em meu coração; meu rosto

lembra o de alguém que chega de uma longa jornada e foi queimado

pelo calor e pelo frio. Por que não haveria de vagar pelos pastos à

procura do vento? Meu amigo, meu irmão mais novo, que capturou e

matou o Touro do Céu e derrubou Humbaba na floresta de cedro, meu

amigo, alguém que me era caríssimo e que enfrentou muitos perigos ao

meu lado, Enkidu, meu irmão, a quem tanto amava, a morte o alcançou.

Chorei por ele durante sete dias e sete noites, até os vermes tomarem-lhe

o corpo. Por causa do meu irmão, tenho medo da morte; por causa do

meu irmão, vagueio pelas matas e pelos campos. Seu destino pesa sobre

mim. Como posso descansar, como posso ficar em paz? Ele virou pó e

também eu vou morrer e ser enterrado para sempre." Gilgamesh tornou

a dizer, falando a Utnapishtim: "Foi para ver Ut-napishtim, a quem

chamamos o Longínquo, que fiz esta jornada. Por isso vagueei pelo

mundo, atravessei tantas cordilheiras perigosas, cruzei os mares e me

esfalfei viajando; minhas juntas doem e há muito que já não sei o que é

uma doce noite de sono. Minhas roupas se esfarraparam antes de

chegar à casa de Siduri. Matei o urso e a hiena, o leão e a pantera, o

veado e o cabrito montes, o tigre e todos os tipos de caça, e também as

pequenas criaturas dos pastos. Comi sua carne e vesti suas peles; e foi

assim que cheguei ao portão da jovem fabricante de vinho, que fechou

contra mim seu portão de piche e betume. Mas recebi dela instruções

sobre a jornada e cheguei então até Urshanabi, o barqueiro, com quem

atravessei as águas da morte. Oh, pai Utnapishtim, tu que te juntas-te à

assembléia dos deuses, desejo fazer-te algumas perguntas sobre os vivos

e os mortos: como encontrar a vida que estou buscando?"

Utnapishtim disse: "Não existe permanência. Acaso construímos

uma casa para que fique de pé para sempre, ou selamos um contrato

para que valha por toda a eternidade? Acaso os irmãos que dividem

uma herança esperam mantê-la eternamente, ou o período de cheia

do rio dura para sempre? Somente a ninfa da libélula despe-se da larva

e vê o sol em toda a sua glória. Desde os dias antigos, não existe

permanência. Como são parecidos os adormecidos e os mortos, eles são

como um retrato da morte. O que existe entre o servo e o senhor depois

de ambos terem cumprido seus destinos? Quando os Anunnaki, os juizes

do mundo inferior, se reúnem com Mammetum, a mãe dos destinos,

juntos eles decidem a sorte dos homens. Eles distribuem a vida e a morte,

mas o dia da morte eles não revelam."

Gilgamesh então disse a Utnapishtim, o Longínquo: "Olho para ti,

Utnapishtim, e vejo que és igual a mim; não há nada estranho em tuas

feições. Pensei que fosse encontrar um herói preparado para a batalha,

mas aqui estás, confortavelmente refestelado. Conta-me a verdade,

como foi que vieste a te juntar aos deuses e ganhaste a vida eterna?"

Utnapishtim disse a Gilgamesh: "Eu te revelarei um mistério; eu te contarei

um segredo dos deuses."

5. A história do dilúvio

"Conheces a cidade de Shurrupak, que fica às margens do

Eufrates? A cidade envelheceu, assim como os deuses que ah moravam.

Havia Anu, o senhor do firmamento e pai da cidade; o guerreiro Enhl, seu

conselheiro; Ninurta, o ajudante; e Ennugi, que vigiava os canais. Entre

eles também se encontrava Ea. Naqueles dias a terra fervilhava, os

homens multiplicavam-se e o mundo bramia como um touro selvagem.

Este tumulto despertou o grande deus. Enlil ouviu o alvoroço e disse aos

deuses reunidos em conselho: 'O alvoroço dos humanos é intolerável, e o

sono já não é mais possível por causa da balbúrdia.' Os deuses então

concordaram em exterminar a raça humana. Foi o que Enlil fez, mas Ea,

por causa de sua promessa, me avisou num sonho. Ele denunciou a

intenção dos deuses sussurrando para minha casa de colmo: 'Casa de

colmo, casa de colmo! Parede, oh, parede da casa de colmo, escuta e

reflete. Oh, homem de Shurrupak, filho de Ubara-Tutu, põe abaixo tua

casa e constrói um barco. Abandona tuas posses e busca tua vida

preservar; despreza os bens materiais e busca tua alma salvar. Põe

abaixo tua casa, eu te digo, e constrói um barco. Eis as medidas da

embarcação que deveras construir: que a boca extrema da nave tenha

o mesmo tamanho que seu comprimento, que seu convés seja coberto,

tal como a abóbada celeste cobre o abismo; leva então para o barco a

semente de todas as criaturas vivas.'

"Quando compreendi, eu disse ao meu senhor: 'Sereis testemunha

de que honrarei e executarei aquilo que me ordenais, mas como

explicarei às pessoas, à cidade, aos patriarcas?' Ea então abriu a boca e

falou a mim, seu servo: 'Dize-lhes isto: Eu soube que Enlil está furioso

comigo e já não ouso mais caminhar por seu território ou viver em sua

cidade; partirei em direção ao golfo para morar com o meu senhor Ea.

Mas sobre vós ele fará chover a abundância, a colheita farta, os peixes

raros e as ariscas aves selvagens. A noite, o cavaleiro da tempestade vos

trará uma torrente de trigo.'

"Ao primeiro brilho da alvorada, toda a minha família se reuniu ao

meu redor; as crianças trouxeram o piche e os homens todo o resto

necessário. No quinto dia eu aprontei a quilha, montei a ossatura da

embarcação e então instalei o tabuado. O barco tinha um acre de área

e cada lado do convés media cento e vinte côvados, formando um

quadrado. Construí abaixo mais seis conveses, num total de sete, e dividi

cada um em nove compartimentos, colocando tabiques entre eles.

Finquei cunhas onde elas eram necessárias, providenciei as zingas e

armazenei suprimentos. Os carregadores trouxeram o óleo em cestas. Eu

joguei piche, asfalto e óleo na fornalha. Mais óleo foi consumido na

calafetagem, e mais ainda foi guardado no depósito pelo capitão da

nave. Eu abati novilhos para a minha família e matava diariamente uma

ovelha. Dei vinho aos carpinteiros do barco como se fosse água do rio,

vinho verde, vinho tinto, vinho branco e óleo. Fez-se então um banquete

como os que são preparados à época dos festejos do ano-novo; eu

mesmo ungi minha cabeça. No sétimo dia, o barco ficou pronto.

"Foi com muita dificuldade então que a embarcação foi lançada

à água; o lastro do barco foi deslocado para cima e para baixo até a

submersão de dois terços de seu corpo. Eu carreguei o interior da nave

com tudo o que eu tinha de ouro e de coisas vivas: minha família, meus

parentes, os animais do campo — os domesticados e os selvagens — e

todos os artesãos. Eu os coloquei a bordo, pois o prazo dado por

Shamash já havia se esgotado; e ele disse: 'Esta noite, quando o

cavaleiro da tempestade enviar a chuva destruidora, entra no barco e

te fecha lá dentro.' Era chegada a hora. Caiu a noite e o cavaleiro da

tempestade mandou a chuva. Tudo estava pronto, a vedação e a

calafetagem; eu então passei o timão para Puzur-Amurri, o timoneiro,

deixando todo o barco e a navegação sob seus cuidados.

"Ao primeiro brilho da alvorada chegou do horizonte uma nuvem

negra, que era conduzida por Adad, o senhor da tempestade. Os

trovões retumbavam de seu interior, e, na frente, por sobre as colinas e

planícies, avançavam Shul-lat e Hanish, os arautos da tempestade.

Surgiram então os deuses do abismo; Nergal destruiu as barragens que

represavam as águas do inferno; Ninurta, o deus da guerra, pôs abaixo

os diques; e os sete juizes do outro mundo, os Anunnaki, elevaram suas

tochas, iluminando a terra com suas chamas lívidas. Um estupor de

desespero subiu ao céu quando o deus da tempestade transformou o

dia em noite, quando ele destruiu a terra como se despedaça um cálice.

Por um dia inteiro o temporal grassou devastadoramente, acumulando

fúria à medida que avançava e desabando torrencialmente sobre as

pessoas como os fluxos e refluxos de uma batalha; um homem não

conseguia ver seu irmão, nem podiam os povos serem vistos do céu. Até

mesmo os deuses ficaram horrorizados com o dilúvio; eles fugiram para a

parte mais alta do céu, o firmamento de Anu, onde se agacharam

contra os muros e ficaram encolhidos como covardes. Foi então que

Ishtar, a Rainha do Céu, de voz doce e suave, gritou como se estivesse

em trabalho de parto: 'Ai de mim! Os dias de outrora estão virando pó,

pois ordenei que se fizesse o mal; por que fui exigir esta maldade no

conselho dos deuses? Eu impus as guerras para a destruição dos povos,

mas acaso estes povos não pertencem a mim, pois fui eu quem os criou?

Agora eles flutuam no oceano como ovas de peixe.' Os grandes deuses

do céu e do inferno verteram lágrimas e se calaram.

"Por seis dias e seis noites os ventos sopraram; enxurradas,

inundações e torrentes assolaram o mundo; a tempestade e o dilúvio

explodiam em fúria como dois exércitos em guerra. Na alvorada do

sétimo dia o temporal vindo do sul amainou; os mares se acalmaram, o

dilúvio serenou. Eu olhei a face do mundo e o silêncio imperava; toda a

humanidade havia virado argila. A superfície do mar se estendia plana

como um telhado. Eu abri uma janelinha e a luz bateu em meu rosto. Eu

então me curvei, sentei e chorei. As lágrimas rolavam pois estávamos

cercados por uma imensidade de água. Procurei em vão por um

pedaço de terra. A quatorze léguas de distância, porém, surgiu uma

montanha, e ali o barco encalhou. Na montanha de Nisir o barco ficou

preso; ficou preso e não mais se moveu. No primeiro dia ele ficou preso;

no segundo dia ficou preso em Nisir e não mais se moveu. Um terceiro e

um quarto dia ele ficou preso na montanha e não se moveu. Um quinto

e um sexto dia ele ficou preso na montanha. Na alvorada do sétimo dia

eu soltei uma pomba e deixei que se fosse. Ela voou para longe, mas,

não encontrando um lugar para pousar, retornou. Então soltei uma

andorinha, que voou para longe; mas, não encontrando um lugar para

pousar, retornou. Então soltei um corvo. A ave viu que as águas haviam

abaixado; ela comeu, voou de um lado para o outro, grasnou e não

mais voltou para o barco. Eu então abri todas as portas e janelas,

expondo a nave aos quatro ventos. Preparei um sacrifício e derramei

vinho sobre o topo da montanha em oferenda aos deuses. Coloquei

quatorze caldeirões sobre seus suportes e juntei madeira, bambu, cedro

e murta. Quando os deuses sentiram o doce cheiro que dali emanava,

eles se juntaram como moscas sobre o sacrifício. Finalmente, então,

Ishtar também apareceu; ela suspendeu seu colar com as jóias do céu,

feito por Anu para lhe agradar. 'Oh, vós, deuses aqui presentes, pelo

lápis-lazúli que circunda meu pescoço, eu me lembrarei destes dias

como me lembro das jóias em minha garganta; não me esquecerei

destes últimos dias. Que todos os deuses se reúnam em torno do

sacrifício; todos, menos Enlil. Ele não se aproximará desta oferenda, pois

sem refletir trouxe o dilúvio; ele entregou meu povo à destruição.'

"Quando Enlil chegou e viu o barco, ele ficou furioso. Enlil se

encheu de cólera contra o exército de deuses do céu. 'Alguns destes

mortais escaparam? Ninguém deveria ter sobrevivido à destruição.'

Então Ninurta, o deus das nascentes e dos canais, abriu a boca e disse

ao guerreiro Enlil: 'E que deus pode tramar sem o consentimento de Ea?

Somente Ea conhece todas as coisas.' Então Ea abriu a boca e falou

para o guerreiro Enlil: 'Herói Enlil, o mais sábio dos deuses, como pudeste

tão insensatamente provocar este dilúvio?

Inflige ao pecador o seu pecado,

Inflige ao transgressor a sua transgressão,

Pune-o levemente quando ele escapar,

Não exageres no castigo ou ele sucumbirá;

Antes um leão houvesse devastado a raça humana

Em vez do dilúvio,

Antes um lobo houvesse devastado a raça humana

Em vez do dilúvio,

Antes a fome houvesse assolado o mundo

Em vez do dilúvio.

Antes a peste houvesse assolado o mundo

Em vez do dilúvio.

Não fui eu quem revelou o segredo dos deuses; o sábio soube dele

através de um sonho. Agora reuni-vos em conselho e decidi sobre o que

fazer com ele.'

"Enlil então subiu no barco, pegou a mim e a minha mulher pela

mão e nos fez entrar no barco e ajoelhar, um de cada lado, com ele no

meio. E tocou nossas testas para abençoar-nos, dizendo: 'No passado,

Utnapishtim era um homem mortal; doravante ele e sua mulher viverão

longe, na foz dos rios.' Foi assim que os deuses me pegaram e me

colocaram aqui para viver longe, na foz dos rios."

6. A volta

Utnapishtim disse: "Quanto a ti, Gilgamesh, quem irá reunir os

deuses por tua causa, de maneira a poderes encontrar a vida que estás

buscando? Mas, se quiseres, vem e põe-te à prova: terás apenas que

lutar contra o sono por seis dias e sete noites." Mas, enquanto Gilgamesh

estava lá sentado, descansando sobre as ancas, uma bruma de sono,

semelhante à lã macia cardada do velocino, pairou sobre ele, e

Utnapishtim disse a sua mulher: "Olha para ele agora, o homem forte e

poderoso que quer viver por toda a eternidade; as brumas do sono já

estão pairando sobre ele." Sua mulher replicou: "Toca no homem para

acordá-lo, para que possa retornar em paz ao seu país, voltando pelo

portão pelo qual entrou." Utnapishtim disse a sua mulher: "Todos os

homens são impostores, até a ti ele tentará enganar; por isso, põe-te a

assar pães, cada dia um, e coloca-os ao lado de sua cabeça; e marca

na parede o número de dias que ele dormiu."

Ela então se pôs a assar os pães, cada dia um, e a colocá-los ao

lado de cabeça de Gilgamesh, marcando na parede o número de dias

que ele vinha dormindo. Chegou o dia em que o primeiro pão estava

duro, o segundo parecia couro, o terceiro se encharcara, o bolor se

formara na crosta do quarto, o quinto havia mofado, o sexto estava

fresco e o sétimo ainda estava sobre as brasas. Utnapishtim então tocou

em Gilgamesh e ele acordou. Gilgamesh disse a Utnapishtim, o

Longínquo: "Eu mal havia começado a dormir quando tocaste em mim e

me acordaste." Mas Utnapishtim disse: "Conta estes pães e vê quantos

dias dormiste, pois o primeiro está duro, o segundo parece couro, o

terceiro está encharcado, a crosta do quarto está embolorada, o quinto

está mofado, o sexto está fresco e o sétimo ainda se encontrava sobre

as brasas incandescentes quando toquei em ti e te acordei." Gilgamesh

disse: "Oh, que farei, Utnapishtim, para onde irei? O ladrão da noite já se

apoderou do meu corpo, a morte habita o meu espaço; encontro a

morte onde quer que pouse meus pés."

Utnapishtim falou então a Urshanabi, o barqueiro: "Pobre de ti,

Urshanabi, de agora em diante este porto de abrigo te odeia; ele não

mais te acolherá, nem tampouco terás permissão para atravessar estas

águas. Vai, agora, banido destas margens. Mas este homem, a quem

conduziste, trazendo-o aqui, cujo corpo está coberto de imundície e

cujos membros perderam sua graça e encanto, tendo sido deteriorados

peIo uso de peles de animais, leva-o para se banhar. Ele então lavará

seus cabelos na água, deixando-os limpos como a neve; jogará fora

suas peles e deixará que as águas do oceano as levem para longe. A

beleza de seu corpo será então revelada. A fita que ele usa na testa

ficará como nova, e ele receberá roupas para cobrir sua nudez. Até que

ele chegue à sua cidade de origem e até que complete sua jornada,

estas roupas não darão sinal de uso e parecerão sempre novas." Assim,

Urshanabi pegou Gilgamesh e levou-o para se banhar. Ele lavou seus

cabelos, deixando-os limpos como a neve; ele jogou fora suas peles, que

foram levadas para longe pelo mar. A beleza de seu corpo foi revelada.

A fita que usava na testa ficou como nova, e ele recebeu roupas para

cobrir sua nudez, roupas que não dariam sinais de uso, mas pareceriam

sempre novas até que ele chegasse a sua cidade de origem e sua

jornada chegasse ao fim.

Então Gilgamesh e Urshanabi colocaram o barco na água,

embarcaram e se prepararam para partir; mas a mulher de Utnapishtim,

o Longínquo, disse ao marido: "Gilgamesh chegou aqui exausto, está

extenuado; o que darás a ele para levar de volta a seu país?" Então

Utnapishtim falou, e Gilgamesh tomou uma zinga em suas mãos e trouxe

o barco de volta à margem. "Gilgamesh, chegaste aqui exausto, e te

extenuaste; o que darei a ti para levares de volta a teu país? Gilgamesh,

eu te revelarei um segredo, é um mistério dos deuses que estou te

revelando. Existe uma planta que cresce sob as águas; ela tem um

espinho que espeta como o de uma rosa. Ela vai ferir tuas mãos, mas, se

conseguires pegá-la, terás então em teu poder aquilo que restaura ao

homem sua juventude perdida."

Ao ouvir isso, Gilgamesh abriu as comportas para que uma

corrente de água doce pudesse levá-lo ao canal mais profundo.

Amarrou pesadas pedras a seus pés e elas o arrastaram para baixo, até

o leito do rio. Lá ele encontrou a planta que crescia sob a água. Embora

ela o espetasse, Gilgamesh tomou-a nas mãos. Ele então cortou as

pesadas pedras presas a seus pés e as águas o carregaram, atirando-o à

margem. Gilgamesh disse para Urshanabi, o barqueiro: "Vem ver esta

maravilhosa planta. Suas virtudes podem devolver ao homem toda a sua

força perdida. Eu a levarei à Uruk das poderosas muralhas. Lá, eu darei a

planta aos anciãos para que a comam. O nome dela será 'Os Velhos

Voltaram A Ser Jovens'. E, finalmente, eu mesmo a comerei e recuperarei

toda a minha juventude perdida." Gilgamesh então retornou pelo portão

por onde havia entrado. Gilgamesh e Urshanabi viajaram juntos. Depois

das primeiras vinte léguas, eles quebraram seu jejum; depois de mais

trinta léguas, pararam para passar a noite.

Gilgamesh encontrou um poço de água fresca e entrou nele para

se banhar; mas nas profundezas do poço havia uma serpente, e a

serpente sentiu o doce cheiro que emanava da flor. Ela saiu da água e a

arrebatou; e imediatamente trocou de pele e voltou para o fundo do

poço. Gilgamesh então sentou-se e chorou. As lágrimas corriam por seu

rosto e ele tomou a mão de Urshanabi: "Oh, Urshanabi, foi para isso que

esfalfei minhas mãos? Foi para isto que arranquei sangue de meu

coração? Nada obtive para mim, nada; mas a fera do poço agora

usufrui do meu esforço. A corrente já arrastou a planta por vinte léguas,

levando-a de volta aos canais onde a encontrei. Eu encontrei algo

prodigioso e agora o perdi. Deixemos o barco nesta margem e vamos

embora."

Depois de caminharem vinte léguas, eles quebraram seu jejum;

depois de trinta léguas, eles pararam para passar a noite. Em três dias de

viagem eles haviam percorrido a pé um percurso equivalente a uma

jornada de um mês e quinze dias. Ao completarem a jornada, eles

chegaram a Uruk, a cidade das poderosas muralhas. Gilgamesh falou a

ele, a Urshanabi, o barqueiro: "Urshanabi, sobe na muralha de Uruk,

inspeciona o terraço onde sua estrutura foi fundada, examina bem a

alvenaria de tijolos; vê se não foram usados tijolos cozidos. Não foram os

sete sábios que assentaram estas fundações? Um terço do todo é

cidade, um terço é jardim e um terço é campo, incluindo o períbolo da

deusa Ishtar. Estas partes e o períbolo formam toda a Uruk."

Isto também foi obra de Gilgamesh, o rei, que percorreu as nações

do mundo. Ele era sábio, ele viu coisas misteriosas e conheceu muitos

segredos. Ele nos trouxe uma história dos dias que antecederam o dilúvio.

Partiu numa longa jornada, cansou-se, exauriu-se em trabalhos e, ao

retornar, descansou e gravou na pedra toda a sua história.

7. A morte de Gilgamesh

O destino decretado por Enlil da montanha, o pai dos deuses, foi

cumprido: "No mundo inferior a escuridão vai mostrar-lhe uma luz: na

humanidade, por todas as gerações conhecidas, ninguém legará um

monumento que se compare ao dele. Os heróis e os sábios, como a lua

nova, têm seus períodos de ascensão e declínio. Os homens dirão:

'Quem jamais governou com tamanha força e tamanho poder?' Como

no mês escuro, no mês das sombras, sem ele não há luz. Oh, Gilgamesh,

era este o significado de teu sonho. Foi-te dado um trono, reinar era teu

destino; a vida eterna não era teu destino. Assim, não fiques triste, não te

atormentes, nem te deixes oprimir por causa disso. Ele te deu o poder de

atar e desatar, de ser as trevas e a luz da humanidade. Ele te concedeu

supremacia sem paralelo sobre o povo, vitória nas batalhas de onde não

escapam fugitivos; o sucesso é teu nas incursões militares e nos

implacáveis assaltos por ti empreendidos. Mas não abuses deste poder;

se justo com teus servos no palácio, faze justiça ante a face do Sol."

O rei se deitou e não mais se levantara;

O Senhor de Kullab não mais se levantará;

Ele venceu o mal, ele não mais voltará;

Embora tivesse braços fortes, ele não mais se levantará;

Ele era sábio e tinha um belo rosto, ele não mais voltará;

Ele adentrou a montanha, ele não mais voltará;

Em seu leito fatídico ele jaz, ele não mais se levantará;

De seu divã multicolorido ele não mais voltará.

O povo da cidade, os grandes e os humildes, não estão em

silêncio. Eles se lamentam em voz alta; toda a humanidade se lamenta

em voz alta. O destino se cumpriu; como uma gazela apanhada num

laço, como um peixe fisgado, ele jaz estirado sobre a cama. O

desumano Namtar pesa sobre ele; Namtar, que não tem mão nem pé,

que não bebe água nem come carne.

Por Gilgamesh, filho de Ninsun, eles fizeram inúmeras oferendas;

sua esposa querida, seu filho, sua concubina, seus músicos, seu bufão e

todos os que pertenciam à sua casa; seus servos, seus camareiros, todos

os que viviam no palácio fizeram inúmeras oferendas a Gilgamesh, filho

de Ninsun, o coração de Uruk. Eles fizeram inúmeras oferendas a

Ereshkigal, a Rainha dos Mortos, e a todos os deuses do inferno. A Namtar,

que é o destino, eles fizeram oferendas. Pão para Neti, o Sentinela do

Portão; pão para Ningizzida, o deus da serpente, o senhor da Arvore da

Vida; pão também para Dumuzi, o jovem pastor, para Enki e Ninki, para

Endukugga e Nindukugga, para Enmul e Ninmul, todos eles deuses

ancestrais, antepassados de Enlil. Um banquete para Shulpae, o deus

dos festejos. Para Samuqan, o deus dos rebanhos, para a mãe Ninhursag

e para todos os deuses da criação, para a hoste do céu, sacerdote e

sacerdotisa fizeram inúmeras oferendas fúnebres. Gilgamesh, o filho de

Ninsun, jaz em seu túmulo. No lugar das oferendas ele ofertou o pão, no

lugar da libação ele derramou o vinho. Naqueles dias partiu o senhor

Gilgamesh, o filho de Ninsun, o rei, o incomparável, um homem sem rival

que não negligenciou Enlil, seu mestre. Oh, Gilgamesh, senhor de Kullab,

grande é a tua glória.

Glossário onomástico

Este glossário apresenta breves referências sobre os deuses,

personagens e lugares mencionados na Epopéia. Imputava-se aos

deuses, em diferentes épocas, uma grande variedade de atributos e

características, algumas vezes contraditórios entre si; apenas as que são

relevantes à Epopéia de Gilgamesh são mencionadas aqui. Os poucos

deuses e personagens que têm um papel mais importante na história são

descritos na Introdução. Nestes casos, uma referência no fim da nota

remete à página que contém a descrição. As remissões a outros

verbetes do Glossário são também são indicadas.

ADAD: Deus do clima, da chuva e da tempestade.

ANUNNAKI: Em geral, deuses do mundo inferior; eram os juizes dos

mortos e filhos de Anu.

ANSHAN: Um dos distritos do Elam, no sudoeste da Pérsia; era

provavelmente a fonte de suprimento de madeira para a fabricação de

arcos. Gilgamesh tem um "arco de Anshan".

ANTUM: Consorte de Anu.

ANU: O An sumério; pai dos deuses e deus do firmamento, o

"Grande Acima". Segundo a cosmogonia suméria, havia em primeiro

lugar o mar primitivo, de onde nasceu a montanha cósmica, que

continha o céu, "An", e a terra, "Ki"; eles foram separados por Enlil. An

então arrebatou o céu, e Enlil a terra. Anu mais tarde foi se tornando

cada vez mais uma figura de fundo; ele teve um importante templo em

Uruk.

APSU: O Abismo; as águas primevas sob a terra; na mitologia

posterior do Enuma Elish, Apsu representava mais especificamente a

água doce que se mistura à água salgada do mar e a um terceiro

elemento aquoso, possivelmente as nuvens, de onde foram gerados os

primeiros deuses. Achava-se que as águas de Apsu eram mantidas

estagnadas no mundo inferior por um "feitiço" de Ea, que as colocou sob

um sono mortal.

ARURU: Uma deusa da criação; criou Enkidu da argila à imagem

de Anu.

AYA: A alvorada, consorte do Deus-Sol Shamash.

BELIT-SHERI: Escriba dos deuses do mundo inferior.

DILMUN: O paraíso sumério, talvez o Golfo Pérsico, algumas vezes

descrito como "o lugar onde nasce o sol" e "A Terra dos Vivos"; o cenário

de um mito sumério da criação, e o lugar para onde Ziusudra, o herói

deificado da versão suméria do dilúvio, foi levado para viver

eternamente.

DUMUZI: A forma suméria de Tammuz; um deus da vegetação e da

fertilidade, e por isso deus do mundo inferior; também chamado de "o

Pastor" e "senhor dos oviários". Companheiro de Ningizzida "para toda a

eternidade", ele guarda o portão do céu. No texto sumério "A Linhagem

de Inanna", ele é apresentado como o marido da deusa Inanna, a

correspondente suméria de Ishtar. Segundo a lista dinástica suméria,

Gilgamesh descendia de "Dumuzi, um pastor".

EA: O Enki sumério; deus da água doce e da sabedoria, patrono

das artes e um dos criadores da humanidade, em relação à qual ele

geralmente demonstra boa vontade. O deus principal de Eridu, onde

tinha um templo, vivia "nas profundezas". Sua linhagem é pouco

conhecida, mas ele era provavelmente filho de Anu.

EANNA: O períbolo do templo em Uruk consagrado a Anu e Ishtar.

EGALMAH: O "Grande Palácio" em Uruk, o lar da deusa Ninsun,

mãe de Gilgamesh.

ENDUKUGGA: Com Nindukugga, deuses sumérios que vivem no

mundo inferior; pais de Enlil.

ENKIDU: Moldado em argila por Aruru, deusa da criação, segundo

a imagem e a "essência de Anu", o deus do céu, e de Ninurta, o deus da

guerra, Enkidu, o companheiro de Gilgamesh, representa o homem

selvagem e natural; ele foi mais tarde considerado o protetor ou deus

dos animais, e talvez tenha sido o herói de um outro ciclo de poemas.

ENLIL: Deus da terra, do vento e do ar universal; essencialmente,

espírito; o deus que executa as vontades e as funções de Anu. Segundo

a cosmogonia suméria, ele nasceu da união de An, o céu, com Ki, a

terra. Ele separou os dois e arrebatou a terra para si. Mais tarde,

suplantou Anu como o deus principal. Era o deus da cidade de Nippur.

ENMUL: Ver Endukugga.

ENNUGI: Deus da irrigação e inspetor dos canais.

ENUMA ELISH: A epopéia semítica da criação que descreve a

criação dos deuses, a derrota dos poderes do caos pelo jovem deus

Marduk e a criação do homem a partir do sangue de Kingu, o guerreiro

derrotado do caos. O título é tirado das primeiras palavras da epopéia

"Quando lá no alto..."

ERESHKIGAL: A Rainha do mundo inferior, deusa correspondente a

Perséfone; antes, era provavelmente uma divindade celeste. Segundo a

cosmogonia suméria, ela foi raptada para o mundo inferior após a

separação do céu e da terra. Ver p. 38.

ETANA: Lendário rei pós-diluviano de Kish; na epopéia que leva o

seu nome, ele foi levado ao céu nas costas de uma águia.

GILGAMESH: O herói da Epopéia; filho da deusa Ninsun e de um

sacerdote de Kullab. Quinto rei de Uruk depois do dilúvio, ficou famoso

como grande construtor e como juiz dos mortos. Um ciclo de poemas

épicos foi composto em torno de seu nome.

HANISH: Um arauto divino da tempestade e do mau tempo.

HOMEM-ESCORPIÃO: Junto com um monstro similar do sexo

feminino, é o sentinela da montanha onde o sol se põe ao cair da noite.

E representado nos sinetes e nos entalhos em marfim como uma figura

cuja parte superior do corpo é humana e a inferior animal, terminando

com a cauda de um escorpião. Segundo o Eluma Elish, foi criado pelas

águas primitivas para combater os deuses.

HUMBABA: Também Huwawa; sentinela da floresta de cedro que

opõe resistência a Gilgamesh e é morto por ele e por Enkidu. Uma

divindade da natureza, talvez um deus anatólio, elamita ou sírio.

IGIGI: Coletivo para designar os grandes deuses do céu.

IRKALLA: Outro nome de Ereshkigal, a Rainha do mundo inferior.

ISHTAR: A Inanna suméria; deusa do amor e da fertilidade e

também da guerra; era chamada a Rainha do Céu. Ela é filha de Anu e

padroeira de Uruk, onde tem um templo. Ver p. 36.

ISHULLANA: Jardineiro de Anu, outrora amado por Ishtar, a quem

rejeitou; ela o transformou numa toupeira ou numa rã.

Kl: A terra.

KULLAB: Bairro de Uruk.

LUGULBANDA: Terceiro rei da dinastia pós-diluviana de Uruk; deus,

pastor e herói de um ciclo sumério de poemas; protetor de Gilgamesh.

MAGAN: Uma região situada a oeste da Mesopotâmia, algumas

vezes o Egito ou a Arábia, outras vezes a terra dos mortos, o mundo

inferior.

MAGILUM: Significado incerto, talvez "o barco dos mortos".

MAMMETUM: Deusa ancestral responsável pelos destinos.

MASHU: A palavra significa "gêmeos" na língua acadiana. Uma

montanha com dois picos onde o sol se põe ao cair da noite e de onde

ele torna a aparecer na alvorada. Algumas vezes identificada com

Líbano e Antilíbano.

NAMTAR: A ruína, o destino em seu aspecto funesto, calamitoso e

maligno; representado como um demônio do mundo inferior e também

como o mensageiro e principal ministro de Ereshkigal; um portador da

peste e da doença.

NEDU: Ver Neti.

NERGAL: Deus do mundo inferior, algumas vezes descrito como

marido de Ereshkigal, ele é o tema central de um poema acadiano que

descreve seu traslado do céu para o mundo inferior; deus da praga.

NETI: A forma suméria de Nedu, o principal porteiro do mundo

inferior.

NINDUKUGGA: Com Endukugga, deuses ligados à paternidade,

que viviam no mundo inferior.

NINGAL: Consorte do Deus-Lua e mãe do Sol.

NINGIRSU: Uma forma mais primitiva do deus Ninurta; deus da

irrigação e da fertilidade.

NINGIZZIDA: Também Gizzida; um deus da fertilidade com o título

de "Senhor da Árvore da Vida"; algumas vezes é representado como

uma serpente com cabeça humana; posteriormente, tornou-se o deus

das curas e da magia; companheiro de Tammuz, ao lado de quem

tomava conta do portão do céu.

NINHURSAG: Deusa-mãe suméria; uma dos quatro principais

deuses sumérios, junto de An, Enlil e Enki; algumas vezes descrita como

consorte de Enki, ela criou toda a vegetação. Seu nome significa "a

Mãe"; é também chamada de "Nintu", senhora do nascimento, e Ki, a

terra.

NINKI: A "mãe" de Enlil, provavelmente uma variante de Ninhursag.

NINLIL: Deusa do céu, da terra e do ar, e, sob certo aspecto,

também do mundo inferior; consorte de Enlil e mãe da Lua; cultuada

junto de Enlil em Nippur.

NINSUN: Mãe de Gilgamesh, uma deusa menor cujo lar ficava em

Uruk; era conhecida por sua sabedoria, e era a consorte de Lugulbanda.

NINURTA: Forma posterior do deus Ningirsu. Deus das nascentes e

da irrigação, Ninurta era também guerreiro e deus da guerra, arauto e o

vento sul. Segundo um poema, ele no passado represou as águas

amargas do mundo inferior e venceu vários monstros.

NISABA: Deusa dos cereais.

NISIR: Este nome provavelmente significa "Montanha da

Salvação"; o topônimo é algumas vezes identificado com a cordilheira

Pir Oman Gudrun, ao sul da parte mais baixa de Zab, ou com o Ararat,

região montanhosa bíblica ao norte do Lago Van.

PUZUR-AMURRI: O timoneiro de Utna-pishtim durante o dilúvio.

SAMUQAN: Deus do gado.

SETE SÁBIOS: Os sábios que trouxeram a civilização às sete cidades

mais antigas da Mesopotâmia.

SHAMASH: O Utu sumério; o sol; para os sumérios, ele era

principalmente o juiz e o legislador, com alguns atributos ligados à

fertilidade. Para os semitas, era também um guerreiro vitorioso, o deus da

sabedoria, o filho de Sin e um deus "mais eminente e poderoso" que seu

pai. Shamash era irmão e mando de Ishtar. E representado com o serrote

com o qual corta suas decisões. Nos poemas, o nome "Shamash" pode

estar se referindo ao deus ou simplesmente ao sol.

SHULLAT: Um arauto divino das tempestades e do mau tempo.

SHULPAE: Divindade que presidia banquetes e festejos.

SHURRUPAK: A moderna Fará, que fica vinte e nove quilômetros a

noroeste de Uruk; uma das cidades mais antigas da Mesopotâmia e uma

das cinco apontadas pelos sumérios como tendo existido antes do

dilúvio. O lar do herói da história do dilúvio.

SIDURI: Entidade divina que preparava o vinho e a cerveja: ela

vive à beira do mar (talvez no Mediterrâneo), no jardim do sol. Seu nome

na língua hurriana significa "mulher jovem"; Siduri pode ser também uma

forma variante da deusa Ishtar.

SILILI: Mãe do garanhão; talvez uma égua divina.

SIN: O Nanna sumério, a lua. A principal divindade astral suméria,

pai de UtuShamash, o sol, e de Ishtar. Era filho de Enlil e Ninlil. Seu principal

templo ficava em Ur.

TAMMUZ: O Dumuzi sumério; o deus moribundo da vegetação,

pranteado por Ishtar, em torno do qual foram compostos vários lamentos

e ladainhas. Num poema acadiano, Ishtar desce ao mundo inferior em

busca de seu jovem marido Tammuz; mas, no poema sumério no qual

esta obra se baseia, é a própria Inanna a responsável pelo envio de

Dumuzi ao mundo inferior, por causa de seu orgulho e para que servisse

de penhor e garantia do retorno seguro da deusa ao céu.

TOURO DO CÉU: Personificação da seca, criada por A nu para

Ishtar.

UBARA-TUTU: Rei de Shurrupak e pai de Utnapishtim. O único rei de

Kish, além de Ut-napishtim, apontado na lista dinástica antediluviana.

URSHANABI: O Sursunabu da versão babilônica arcaica. Barqueiro

de Utnapishtim, Ur-shanabi atravessa diariamente as águas da morte

que dividem o jardim do sol do paraíso onde Utnapishtim vive

eternamente (o Dilmun sumério). Ao aceitar Gilgamesh como passageiro,

ele acaba perdendo este privilégio e decide então acompanhar

Gilgamesh de volta a Uruk.

URUK: A Erech bíblica, atualmente conhecida como Warka,

situada ao sul da Babilônia, entre Fará {Shurrupak) e Ur. As escavações

mostram que desde muito cedo Uruk já era uma cidade importante,

possuindo grandes templos consagrados aos deuses Anut Ishtar.

Tradicionalmente, a cidade era rival e inimiga de Kish e após o dilúvio

tornou-se a sede de uma dinastia de reis, entre os quais se incluía

Gilgamesh, que foi o quinto e o mais famoso deles.

UTNAPISHTIM: Utanapishtim para os antigos babilônicos, Ziusudra

para os sumérios. Nos poemas sumérios, além de um rei sábio, Ziusudra

era sacerdote de Shurrupak; as fontes acadianas o descrevem como um

cidadão sábio de Shurrupak. Ele é filho de Ubara-Tutu, e seu nome é

geralmente traduzido por "Aquele que viu a vida". Era o protegido do

deus Ea, com a conivência de quem sobreviveu ao dilúvio na

companhia de sua família e das "sementes de todas as criaturas vivas";

depois disso, foi levado pelos deuses para viver para sempre "na foz dos

rios" e recebeu o epíteto de "o Longínquo"; ou, segundo as fontes

sumérias, foi viver no Dilmun, onde nasce o sol.

Apêndice: fontes Já indicamos as principais fontes usadas para esta versão da

Epopéia (ver pp. 73-79). Para uma relação bibliográfica completa basta

consultar Ancient Near Eastern Texts Relating to the Old Testament,

organizado por James B. Pritchard; Gilgamesh et sa legende, do Cahiers

du Groupe François-Thureau-Dangin; e o Reallexikon der Assyriologie. O

que ora se segue é uma breve nota sobre a distribuição do material

textual entre as diferentes tábuas.

(i) O poema sumério "Gilgamesh e a Terra dos Vivos"; texto tirado

de quatorze tábuas encontradas em Nippur, de uma tábua achada em

Kish e de mais duas de origem desconhecida, totalizando 175 versos.

Todo este material data da primeira metade do segundo milênio e cobre

os seguintes incidentes: a amizade entre o Senhor Gilgamesh e seu servo

Enkidu; o desejo de deixar um nome para a posteridade; a súplica a Utu

(Shamash), que designa forças sobrenaturais para ajudá-los; o

armamento de Gilgamesh e Enkidu; a partida com cinqüenta

companheiros; a derrubada do cedro; a fraque Journal of Near Eastern

Studies, 28, 1958, fornece uma versão ligeiramente diferente do Conselho

dos Deuses no sonho que Enkidu tem em seu leito de morte.

(v) Um fragmento hurrita, também vindo de Boghazköy, fornece

parte da jornada até Ut-napishtim. Ele foi publicado no Zeitschrift für

Assyriologie, 35, 1923.

(vi) Versões semíticas. Havia uma versão acadiana em uso no

Império Hitita, e fragmentos dela foram encontrados em Boghazköy; mas

a mais completa de todas as versões é a assíria. Ela foi escrita

originalmente em doze tábuas de seis colunas; cada tábua continha

aproximadamente trezentos versos. Partes de todas as doze tábuas

ainda existem; quase todas provêm da biblioteca do palácio de Nínive e

datam do século VII antes de Cristo. Baseado em material mais antigo,

este texto cobre todos os incidentes da história até o retorno da busca

de Utna-pishtim. O material está dividido da seguinte maneira: na Tábua

I, as descrições de Gilgamesh e Enkidu, até o fim do segundo sonho de

Gilgamesh sobre Enkidu. A Tábua II, bastante fragmentária,

provavelmente continha o encontro de Gilgamesh e Enkidu e a primeira

menção à floresta de cedro. A Tábua III, também bastante fragmentária,

provavelmente continha as entrevistas de Gilgamesh com os

conselheiros da cidade, com Ninsun, e a exortação a Enkidu. A Tábua IV,

da qual nos chegaram apenas alguns versos, provavelmente cobria a

jornada à floresta e a chegada ao portão. A Tábua V continha a

descrição da floresta, os sonhos na montanha e provavelmente o

encontro com Humbaba e seu assassinato. A Tábua VI continha o

encontro de Gilgamesh e Ishtar, a aventura do Touro do Céu e o

começo da doença de Enkidu. A Tábua VII trazia a continuação da

doença de Enkidu, seus sonhos e sua morte. A Tábua VIII relatava os

lamentos por Enkidu e provavelmente uma descrição do funeral. A

Tábua IX cobre a jornada de Gilgamesh em busca de Utnapishtim até o

encontro com Siduri. A Tábua X cobre o episódio de Siduri, o encontro

com Urshanabi e Utnapishtim. A Tábua XI é a mais completa e mais bem

preservada de todas, com trezentas linhas. Ela descreve o Dilúvio, os

testes a que Gilgamesh é submetido e seu retorno a Uruk. A recensão

assíria não faz qualquer menção à morte de Gilgamesh, e a décima

segunda e última tábua reconta um episódio independente, uma versão

alternativa à morte de Enkidu narrada na Tábua VIL A Tábua XII é uma

tradução direta de um original sumério, que também sobreviveu

parcialmente. A relação entre as duas versões foi discutida pelo Prof.

Kramer no Journal of American Oriental Society, 64, 1944, e por vários

escritores, especialmente L. Matous, em Gilgamesh et sa legende.

(vii) O fragmento acadiano de Sultantepe. Este material foi

escavado pelo Sr. Seton Lloyd e por Bay Nun Gokçe em 1951. Foram

encontradas duas tábuas de uma coluna cada; uma delas continha um

fragmento da doença de Enkidu e a outra o lamento de Gilgamesh pelo

amigo, e provavelmente também uma descrição do funeral e da

estátua de Enkidu erigida por Gilgamesh. Embora muito curtos, ambos os

fragmentos preenchem lacunas deixadas pela recensão de Nínive, da

qual diferem ligeiramente, e foram publicados no Journal of Cuneiform

Studies, 8, 1954, e no Anatolian Studies, II, 1952, pelo Dr. Gurney, que

considera os dois textos como tendo sido escritos por aprendizes, devido

a seus erros característicos.

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