A experiência poética pessoal no roseiral de Matilde Campilho, Teses de Literatura. Universidade de São Paulo (USP)
analaura.giovanelli
analaura.giovanelli18 de fevereiro de 2018

A experiência poética pessoal no roseiral de Matilde Campilho, Teses de Literatura. Universidade de São Paulo (USP)

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Tese criada sobre a leitura do poema "O príncipe no roseiral", de Matilde Campilho, sob orientação do Prof. Dr. Marcos Piason Natali.
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Universidade de São Paulo

Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas

Ana Laura Rodrigues Giovanelli - 9371630

- 1 -

Universidade de São Paulo

Introdução aos Estudos Literários

Ana Laura Rodrigues Giovanelli

A experiência poética pessoal no roseiral de Matilde Campilho:

A poesia como estopim para a ação

São Paulo – SP

2015

- 2 -

A experiência poética pessoal no roseiral de Matilde Campilho:

A poesia como estopim para a ação

Escute só: isto não é um poema (?).

E o poema é um organismo que se funda sobre a percepção de limites

e terminações, que definem sem jamais coincidir completamente e

quase em oposta divergência. [...] Podemos contar as sílabas e os

acentos, verificar as sinalefas e as cesuras, classificar anomalias e

regularidades: mas o verso é, em qualquer caso, uma unidade que

encontra o seu principium individuationis somente no fim, que se

define só no ponto em que finda. [...] E o poema é como o catéchon da

epístola de Paulo aos Tessalonicenses (II, 2, 7-8): algo que freia e

retarda o advento do Messias, portanto daquele que, cumprindo o

tempo da poesia e unificando os dois éones, destruiria a máquina

poética precipitando-a no silêncio. Mas qual seria o fim dessa

conspiração teológica sobre a linguagem [poética]? (AGAMBEN,

2002, p. 114, 118)

Como presumir o poeta como um “salvador da pátria”? Como presumir seus versos

como heroicos? De que modo poderia se esperar de uma poesia a conquista da vitória sobre as

batalhas cotidianas? “Não vai melhorar / isto é um poema [...]” (CAMPILHO, 2014, p. 10).

De que modo criar expectativas tais se até mesmo para adicionar determinado poema ou poeta

ao hall daqueles que lhes abriram os olhos é preciso lê-los de forma que seus olhos se abram?

O Príncipe no Roseiral de Matilde Campilho pode ser lido como um pedido de

socorro em meio a uma supressão de tantos outros pedidos de socorro, que se liga

intimamente a uma segunda leitura: a explicação da poesia em seu papel daquela que

engatilha o leitor a agir.

Quando se fala de apreender a verdade, pensa-se nos livros. Mas os

livros são feitos de palavras. As palavras, é claro, têm um valor. O

valor das palavras reside no sentido que ocultam. Ora, esse sentido

não é senão um esforço para alcançar algo que não pode ser alcançado

realmente pelas palavras. (PAZ, 1972, p.128)

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Atendo-se então, em um primeiro momento, à leitura daqueles que seriam os pedidos

de socorro que sufocam a poeta. Pedidos que vêm dos que leem sua poesia. Pedidos de

qualquer leitor de poesia. Toca-se e segura-se um livro de poemas desejando “salve-me;

ajude-me; guie-me pelo caminho”. Procura-se por poemas que possam lhe esclarecer

problemas assim como se compram com afinco livros de autoajuda.

Quando percebemos um objeto qualquer, este se nos apresenta como uma

pluralidade de qualidades, sensações e significados. Essa pluralidade se unifica

instantaneamente no momento da percepção.” (idem, 1972, p. 131). Essa percepção gera a

visão do poema como solução transcendental. Crença de que o mesmo ultrapassa os limites

físicos de espaço e tempo para pousar nas mãos do leitor. “Era isto que buscava, era isto que

procurava. A lacuna está preenchida.”. E surge então o decoro do mantra transcendental e de

suas estrofes; as novas eleitas palavras de ordem e resolução.

Derrida em Che cos’è la poesia? (2001, p. 113-114) trata da aventura, ao se mergulhar

em uma nova leitura poética, de arriscar-se na língua do outro. Esta língua alheia pode ser

vista não só como outro idioma, mas também como uma maneira de recortar e recontar a sua

visão de mundo. Mas é justamente de riscos tomados e bem-sucedidos – do ponto de vista

daquele que lê – que nasce o desejo do decoro posteriormente discutido pelo autor e que

retoma o conceito levantado por Paz, acima apresentado, de unificação da pluralidade no

momento da percepção.

[...] Uma história de “coração”, poeticamente envolta no idioma

“aprender de cor” [...] O poético, diga-se seria o que você deseja

aprender, porém do outro, graças ao outro e sob ditado, de cor:

imparare a memoria. Assim surge em você o sonho de decorar. De

deixar-se atravessar o coração pelo ditado. (DERRIDA, 2001, p. 113-

114).

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Campilho vem com a proposta de erradicar a concepção errônea do que seria essa

espécie de poesia-oráculo. Não existe a possibilidade de libertação ao se jogar o fardo de suas

tormentas nas costas do poeta. Há a falsa ideia de que se faria valer de um “profundo

conhecedor da humanidade” para triunfar sobre o cotidiano, e caso o autor falhe em suprir as

expectativas, a culpa lhe é automaticamente atribuída. “Isto não me ajudou de nada. Este

poeta não sabe o que diz.”. Nesse sentido, dialogando junto de Campilho, encontra-se (um

desabafo de) Leminski:

eu queria tanto

ser um poeta maldito

a massa sofrendo

enquanto eu profundo medito

eu queria tanto

ser um poeta social

rosto queimado

pelo hálito das multidões

em vez

olha eu aqui

pondo sal

nesta sopa rala

que mal vai dar pra dois

(idem, 2013, p. 90)

(Pode-se conceber o termo sopa como uma alegoria ao termo poesia).

Com o que se depara, então, no poema aqui analisado, sobre a competência das

palavras versadas? “Escute lá / isto é um poema [...] / Não diz nada [...] / Não vai melhorar

[...]” (ibidem, p. 09-10). Seria este um grito em meio ao silêncio do papel? “Ajude-me você,

caro interlocutor. Liberte-me das amarras da pressão de ser uma conselheira infalível.

Depende apenas de você.”. A resposta veja só, não está nas mãos do autor; a resposta

encontra-se dentro do próprio leitor; a poesia intervém entre os dois e incita o caminho a se

percorrer, culminando na segunda argumentação de Campilho.

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O homem sabe que há na alma matizes mais desconcertantes, mais

inumeráveis e mais anônimos que as cores de uma floresta outonal...

Crê, no entanto, que essas matizes, em todas as suas fusões e

conversões, são representáveis com precisão por um mecanismo

arbitrário de grunhidos e chiados. Crê que de dentro de um corretor da

bolsa possam realmente sair ruídos capazes de significar todos os

mistérios da memória e todas as agonias do desejo. (WATTS, 1904,

apud BORGES, 1952, p. 126).

Se o caminho que o leitor busca já se encontra dentro de si e a poesia vem apenas para

apresentar caminho tal – e talvez apresentar certas ferramentas que tornem o percurso mais

fácil -, de que forma se dá a relação entre a poesia instigadora versus o leitor instigado?

Definir as diferentes recepções dadas a determinado poema que se lê apenas como

formas de interpretação de texto traria consigo uma descrição de certo modo simples e

empobrecida. É possível ir um pouco mais além.

“[...] não vai alinhar conceitos / do tipo liberdade igualdade e fé / [...] isso é um

poema” (CAMPILHO, 2014, p. 10). Tais conceitos já existem, eles vêm de uma bagagem

empírica construída ao longo de uma vida – e que não se resumem apenas a questões

literárias. Conceitos estes que podem ser afagados ou chocados frente a uma nova poesia. E

conceitos estes que só vão ser mudados, complementados ou realinhados caso seja da vontade

do leitor; uma mobilização inconsciente que reage sensivelmente ao menor toque do verso

que lhe diz respeito.

É essa inconsciência individual que vai ditar o significado do poema, assim como o

percurso a se seguir a partir da leitura do mesmo. “O poema não explica nem representa:

apresenta.”, mas só se apresenta aquilo que se deseja ver; e só se compreende aquilo que

inconscientemente se sente necessário saber.

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Leem-se poesias que falam sobre amor, sobre tristeza, sobre fatos corriqueiros, sobre

realidades fantásticas, sobre metapoesia (tal qual o fez a poeta portuguesa) e sobre o que mais

se puder escrever, mas no fim, se apreende um significado oculto que só possui sentido

completo para quem o percebeu; e, com probabilidades enormes, nem mesmo o poeta venha a

conhecer boa parte dessas compreensões individuais. E isto é o que se chama de experiência

poética pessoal e vem a intitular o texto. Não se trata do que foi escrito e nem de quem o

escreveu, se trata de quem lerá. Reproduzindo Paz, pode-se dizer que a capacidade do dizer

poético de transmitir aquilo que parece incomunicável reside em nos mostrar (ou no caso,

relembrar) quem realmente somos (PAZ, 1972, p. 133 e 136)

A verdade do poema apóia-se na experiência poética, que não difere essencialmente

da experiência de identificação com a ‘realidade da realidade’”. (idem, 1972, p. 137).

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PRÍNCIPE NO ROSEIRAL

Escute lá

isto é um poema

não fala de amor

não fala de cachecóis

azuis sobre os ombros

do cantor que suspende

os calcanhares

na berma do rochedo

Não fala do rolex

nem da bandeirola

da federação uruguaia

de esgrima

Não fala do lago drenado

na floresta americana

Não diz nada sobre

a confeitaria fedorenta

que recebe os notívagos

para o café da manhã

quando o dia já virou

Isto é um poema

não fala de comoções

na missa das sete

nem fala da percentagem

de mulheres que se espantam

com a imagem do marido

aparando a barba no ocaso

Não fala de tratores quebrados

na floresta americana

não fala da ideia de norte

na cidade dos revolucionários

Não fala de choro

não fala de virgens confusas

não fala de publicitários

de cotovelos gastos

Nem de manadas de cervos

Escute só

isto é um poema

não vai alinhar conceitos

do tipo liberdade igualdade e fé

Não vai ajeitar o cabelo

da menina que trabalha

com afinco na caixa registradora

do supermercado

Não vai melhorar

Não vai melhorar

isto é um poema

escute só

não fala de amor

não fala de santos

não fala de Deus

e nem fala do lavrador

que dedicou 38 anos

a descobrir uma visão

quase mística

do homem que canta

e atravessa

a estrada nacional 117

para chegar a casa

ou a algum lugar

próximo de casa.

(CAMPILHO, 2014, p. 09-10)

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Referências bibliográficas

AGAMBEN, G. O fim do poema. Trad. Sérgio Alcides. In: Cacto, n. 1. São Paulo: 2002, p.

114 e 118.

CAMPILHO, M. Príncipe no roseiral. In: Jóquei. Lisboa: Edições tinta-da-china, 2014, p.

09 e 10.

DERRIDA, J. Che cos’è la poesia? Trad. Tatiana Rios e Marcos Siscar. In: Inimigo Rumor,

n.10, 2001, p. 113 e 114.

LEMINSKI, P. Eu queria tanto. In: Toda Poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2013, p.

90.

PAZ, O. A imagem. Trad. (?). In: O arco e a lira. São Paulo: Perspectiva, 1972, p. 128, 131,

133, 136 e 137.

WATTS, G. 1904, p. 88, apud BORGES, J. O idioma analítico de John Wilkins. Trad. Davi

Agucci Jr. In: Outras Inquisições. São Paulo: Companhia das Letras: 1952, p. 126.

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