A Fabrica do Futuro, Notas de estudo de Engenharia de Produção
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A Fabrica do Futuro, Notas de estudo de Engenharia de Produção

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A Fabrica do Futuro
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AA AS nie TRC ICAO) DO FUTURS Movida por milhares de robôs, digitalização e muita inovação, a indústria mundial está num processo de mudança tão profundo quanto o da Revolução Industrial — será que as empresas brasileiras vão conseguir entrar nessa nova era? 9 de iulho de 2014 [33 CAPA | tecnologia fábrica mais moderna da Europa em nada se parece com as descrições da U.S. Robots and Mechanical Men, a indústria inventada pelo ame- ricano Isaac Asimov, um dos maiores autores de ficção científica de todos os tempos. Em vez do prédio sem graça e com paredes cinza dos textos de Asimov, o edifício que abriga a produção de carros da BMW em Leipzig, na Alemanha, tem forma arredondada, é todo en- vidraçado e lembra um museu de arte moderna. Pode não produzir robôs, camo a imaginária U.S. Robots and Mechanical Men, mas, na linha de montagem do i3, o primeiro modelo elétrico da BMW, tudo parece futurista. Não há barulho nem sequer faíscas. Como em uma dança sincronizada, braços mecânicos levantam carcaças, juntam pedaços e ali mesmo fazem testes de qualidade. A indústria automo- bilística está entre as mais robotizadas do mundo, mas ainda assim a unidade mais moderna da BMW, com seus mais de 1000 robôs, é um caso à parte. Os funcionários, todos de colete azul, acompanham tu- do a distância pelas telas de computadores. Os seres humanos só su- pervisionam o trabalho das máquinas. A unidade de Leipzig é uma prévia do futuro das fábricas. “Estamos no estágio inicial de uma mudança tão profunda na manufatura como aquela provocada pela Revolução Industrial”, afirma Erik Brynjolfsson, professor de tecno- logia da informação do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT). Junto com Andrew McAfee, também professor do MIT Bryn- jolfsson é autor do livro A Segunda Era das Máguinas, com previsão de lançamento no Brasil para até o fim do ano e aclamado como a nova bíblia das tendências do setor industrial. Para McAfee e Brynjolfsson, que teve uma conversa em junho com o presidente americano, Barack Obama, para discutir o tema da com- petitividade, o setor produtivo mundial está num processo movido por três forças: o avanço exponencial da capacidade dos computado- res, a imensa quantidade de informação digitalizada e novas estratégias de inovação. O progresso computacional fez com que as máquinas 34 | wwwexamecom FÁBRICA DA SIEMENS, EM AMBERG, NA ALEMANHA: a automação levada ao peças produz AS FORÇAS QUE MOVEM A INDÚSTRI/ DO FUTURO De acordo com pesquisadores do Instituto de Tecnologic de Massachusetts, três forças movem anova Revolução Industrial. Entenda quais são elas PROGRESSO TECNOLÓGICO A velocidade do avanço tecnológico permitiu a popularização e o barateamento de componentes. Se, em 1991, um chip de memória com capacidade del gigabyte custava 45000 dólares, hoje é vendido por 55 centavos de dólar. Isso tem criado máquinas cada vez mais potentes e baratas | DIGITALIZAÇÃO SEM FRONTEIRAS Hoje em dia é possível digitalizar quase tudo: documentos, mapas, os, manuais, vídeos. Uma vez digitalizados, dados que antes não se comunicavam podem gerar novas informações e circular via internet MAX ETZOLO NOVAS FRENTES DE = INOVAÇÃO A inovação deverá ocorrer de forma cada vez mais colaborativa. Pesquisadores enhuma relação com a | ria poderão criar novas | tecnologias (ou recombinar antigas), que deverão ser usadas no chão de fábrica RESULTADO As três forças que movem a nova Revolução Industrial se autoalimentam. Isoiadamente, o impacto delas seria mais limitado. Juntas, elas ampliam exponencialmente a chance de criação de novas tecnologias voltadas para a indústria 9 de julho de 2014 | 35 CAPA | tecnologia ficassem muito mais potentes, ágeis e, sobretudo, baratas. Em 1985, 0 compu- tador mais rápido do mundo era o Cray-2, que custava 30 milhões de dó- lares. Em seus anos de glória, foi utili- zado para pesquisas em energia atômi- ca. Hoje, um iPad tem capacidade de processamento superior à do Cray-2. Na última década, o preço de alguns modelos de sensores usados nos apa- relhos eletrônicos caiu 85%. Na indús- tria, em geral, e no caso específico da fábrica da BMW, em Leipzig, essa ten- dência pode ser sentida pela forte ex- pansão dos robôs. Em 2013, as vendas de robôs industriais no mundo foram recorde: 179 000 unidades. A popula- xização é resultado do preço em queda e das novas habilidades que eles estão ganhando. De acordo com um estudo da consultoria americana McKinsey, o preço dos robôs vem caindo 10% ao ano nas últimas décadas. E a produti- vidade deles está aumentando. Depen- dendo do tipo de aplicação, os modelos mais novos são 40% mais rápidos do 36 | www.examecom que os das gerações anteriores. Máqui- nas de alta destreza que hoje são ven- didas a 150 000 dólares deverão custar metade desse valor até 2025. A segunda característica dessa nova era industrial é a imensa quantidade de informação digital disponível. A concepção dos produtos, o design, os testes com novos materiais, os protó- tipos, a arquitetura da fábrica, a orga- nização da linha de produção, o esto- que de materiais, o manual de um equipamento, tudo é digital. Isso per- mitiu criar e operar ambientes fabris virtuais em sincronia com a unidad física. Os ganhos já são visíveis anti mesmo de os primeiros produtos ficl rem prontos. Nas montadoras de ai tomóveis Toyota, Fiat e Nissan, o tem po de desenvolvimento de um nov modelo caiu até 50% a partir do mé mento que designers e engenheiro passaram a usar informações digital zadas e testes virtuais de peças. M fabricante de aviões Embraer, os op; rários responsáveis pela produção é jato Legacy 500, em São José dos Car pos, no interior paulista, começara! MAIS PRODUTIVIDADE A automação industrial reduz custos de produção e aumenta a qualidade dos itens fabricados, mas elimina empregos AUTOMAÇÃO E ROBOS Softwares que integram as linhas de à produção estão criando as fábricas inteligentes. Por meio de sensores, produto e maquinário trocam informações durante o processo de manufatura. o avanço da inteligência artificial, os robôs de última geração já conseguem trabalhar em ambientes caóticos e tomar decisões ILUSTRAÇÃO: Wi kalack é a redução de custos operacionais estimada com O a adoção de sistemas de automação na indústria DEMANDA ANUAL DE ROBÔS INDUSTRIAIS trilhões POR SETOR NO MUNDO (em número de uniciades) de dólares Automotivo é o impacto Elétrico e eletrônico i econômico Químico, plástico e borracha i globaf dos Í sistemas Meialurgia 20! 000 40000 60 000 de automação ESTOQUE DE ROBÔS INDUSTRIAIS NO MUNDO (em milhão de unidades) 1,06 0,75 0,45 milhões de empregos industriais deverão ser substituídos por 1ggo 2000 2010 robôs até 2025 no mundo (Em 202 Fontes: Stotista, Federação Intemecional de Robótica e Mckinsey ) atreinar, de forma virtual em 3D, o que fariam no chão de fábrica um ano an- tes do início da produção. O projeto teve 12000 horas de testes antes de a aeronave fazer a primeira decolagem. Defeitos que eram detectados somen- te com o avião no ar foram resolvidos ainda na fase de preparação. Na linha de montagem, os operários usam com- putadores e tablets. Em caso de dúvi- da, há sempre um vídeo para explicar como colocar uma peça. Com todos os ganhos da digitalização, o tempo de montagem já caiu 25%. “Assim como os smartphones facilitaram a vida das pessoas, o uso de computadores e ta- blets está revolucionando o chão de fábrica”, diz Marco Túlio Pellegrini, presidente do segmento de aviação executiva da Embraer. Os computadores mais potentes e a digitalização são tendências já ampla- mente visíveis em alguns segmentos da indústria. Mas a nova era das má- quinas também deverá ser movida por avanços na área de inovação que ain- da estão em gestação. Uma das ten- dências mais promissoras é a inova- ção colaborativa. Pessoas sem ne- shum contato com a indústria pode- rão recombinar tecnologias existentes e fazer contribuições nas áreas de design, novos materiais, gestão e pro- dução. Algumas empresas já estão dispostas a apostar nessa estratégia. Em novembro, a companhia de tecno- logia IBM criou um fundo de 100 mi- lhões de dólares para impulsionar a imovação tendo como base a platafor- ma do supercomputador Watson, fa- moso por ter vencido competidores humanos num programa de quiz da TV americana. Pela primeira vez, à tecnologia de inteligência artificial da IBM ficou disponível para a criação de novos aplicativos e novos negócios. O acesso à plataforma do Watson será gradual e começou com startups que submeteram à IBM projetos de apli- cativos focados em diferentes setores. Em junho, a americana Tesla, fabri- cante de carros elétricos da Califórnia e considerada uma das empresas mais inovadoras do mundo, anunciou que abriu todo o seu portfólio de 160 pa- 9 de julho de 2014 | 37 CAPA | tecnologia CONTROLE À DISTÂNCIA A digitalização muda a dinâmica de gestão das fábricas e impulsiona o mercado MERCADO DE DIGITALIZAÇÃO INDUSTRIALO (em bilhões de dólares) O avanço da computação 2012 2020 está permitindo criar : css versões digitaís de uma fábrica real. Com à digitalização do ambiente fabril, é possível acionar máquinas, controlar o ritmo de produção e administrar estoques de matérias-primas e de componentes — tudo remotamente e com a mínima interação do ser humano )/ careducão DA simon “ 4 W5 lançamento de produtos em empresas que utilizam plataformas de fábricas digitais LUSTRAÇÃO: WL ENACK, 0) Inclui softwares e soluções para tecnologia da informação (2) Previsão Fontes Sie AN SANA ER Le fed [e EA aro DR ES al RU Riad GERMANO LODERS tentes para outros inventores. “Hoje em dia as patentes servem apenas pa- ra abafar a inovação”, escreveu Elon Musk, presidente da Testa, em seu blog 20 comunicar a decisão, O obje- tivo de Musk é que, com mais gente usando as tecnologias criadas pela Tesla, novas ideias surjam e ajudem a criar mais mercado para o ainda timi- do segmento de carros elétricos. Transformações incrementais fa- zem parte da história das fábricas desde o seu nascimento. O que mais impressiona hoje, além da extensão das mudanças, é o ritmo frenético. A Revolução Industrial, iniciada na En- glaterra no século 18, demorou mais de 100 anos para ganhar uma escala global. As máquinas a vapor levaram sete décadas para dobrar sua produ- tividade. Em apenas 15 anos, a popu- larização dos computadores e da in- ternet já deixou um rastro de trans- formação. É essa revolução que agora está invadindo o chão de fábrica. Em- bora seja um fenômeno mundial, ele é mais presente nos Estados Unidos e na Europa — e isso tem uma explica- ção. Durante boa parte das duas últi- mas décadas, a manufatura dos países ricos se deslocou em direção ao mun- do emergente em busca de custos mais baixos. Foi esse movimento que transformou a China na fábrica do mundo. O modelo Made in China rei- nou absoluto enquanto o país tinha uma vasta reserva de mão de obra qualificada a preços irrisórios. Mas, nos últimos dez anos, os custos traba- lhistas chineses aumentaram quase 190%. Nesse mesmo período, a pres- são política para que as empresas vol- tassem a produzir em seu país de ori- gem aumentou devido à crise econô- mica. No caso específico dos Estados Unidos, houve ainda a queda da preço da energia em razão da exploração do gás e do petróleo de xisto. A China continua tendo um dos mais poderosos parques fabris do mundo, mas a lista de empresas que estão promovendo o que está sendo chamado de renascimento da indús- tria nos países ricos inclui nomes co- mo as europeias Philips e Zara, e as americanas Apple, GE, Ford e Whirl- pool. “Quando essas companhias vol- tam para casa, abrem fábricas com a tecnologia mais avançada que existe para se manter competitivas”, diz Ter- ry Hannon, vice-presidente de estra- tégia da fabricante de robôs Adept Technology, com sede em Pleasanton, na Califórnia. Fábricas automatizadas OS CUSTOS TRABALHISTAS NA CHINA AUMENTARAM 190% EM DEZ ANOS — O QUE ESTIMULA O RETORNO DAS INDUSTRIAS PARA OS PAÍSES RICOS e robotizadas significam indústrias com cada vez menos gente. Esse dile- ma é antigo. Quase três décadas de desindustrialização eliminaram 6 mi- Thões de postos de trabalho industriais nos Estados Unidos — fazendo com que o emprego nas fábricas atingisse o patamar dos anos 40. Mesmo com o rerorno das indústrias, essa parece ser uma tendência sem volta. Há um ano, a Philips construiu uma fábrica de bar- beadores elétricos na Holanda com 126 robôs e algumas dezenas de pes- soas. “Os empregos que envolvem fun- ções repetitivas vão desaparecer rapi- damente nos próximos anos”, diz 0 economista Michael S$pence, ganha- dor do Prêmio Nobel e professor da Universidade de Nova York. Nos paí- ses ricos, estima-se que 25% de todas as funções na indústria deverão ser substituídas por tecnologias de auto- mação até 2025. No mundo, a estima- tiva é que 60 milhões de postos de trabalho em fábricas sejam limados, FÁBRICAS INTELIGENTES Entre os países ricos, a Alemanha apa- rece como exceção. Primeiro, porque suas indústrias sempre mantiveram uma presença forte na Europa. Segun- do, porque há uma promissora coalizão entre governo, empresas, universida- des e associações de classe para tentar garantir a competitividade local, Cria- do em 2012, o projeto Indústria 40 tem como foco pesquisas sobre o que se convencionou chamar de fábricas inte- ligentes. Nelas, linhas de montagem e produtos “conversam” ao longo de pro- cesso de fabricação. Unidades em dife- rentes lugares também trocam infor- 9 de julho de 2014 | 39 Ra mações de forma instantânea sobre compras e estoques. “Numa fábrica inteligente, trabalhadores, máquinas, produtos e matérias-primas se comu- nicam de forma tão natural quanto pes- soas numa rede social”, diz Henning Kagermann, diretor da Academia Ale- máã de Ciência e Engenharia, uma das entidades que lideram o projeto Indús- tria 4.0, A estimativa é que, em 20 anos, boa parte da indústria alemã tenha adotado esse padrão de produção. Hoje, o país já conta com alguns exemplos de fábricas inteligentes. Na unidade de equipamentos eletroele- trônicos da Siemens, em Amberg, as linhas de produção não lembram em nada as tradicionais, que repetem continuamente a manufatura da mes- ma peça. Sem a interferência de fun- cionários, máquinas que operam 24 horas por dia fabricam 950 diferentes A IMPRESSÃO CONSUMIDOR CAPA | tecnologia MUITO ALÉM PITA /IROU MODA ENTRE OS - NA INDÚSTRIA, A P DA TECNOLOGIA DEPENDE DE UM CUSTO MENOR componentes que são encomendados pelo sistema. A automação extrema leva a um baixíssimo índice de de- feitos — um estudo da consultoria americana Gartner em Amberg regis- trou 15 peças com defeito a cada 1 milhão produzido. “Não são apenas a competição e o aumento de custos que estão exigindo mudanças na ma- nufatura”, diz Siegfried Russwurm, presidente mundial da divisão indus- trial da Siemens. “O ciclo de vida da tecnologia está se reduzindo e as de- mandas por uma produção sob medi- da estão aumentando” A fábrica in- teligente da Siemens é um laboratório para criar plataformas de automação que depois são vendidas. A empresa forneceu para a montadora Volkswa- gen um software que cria um ambien- te fabril virtual. Modernizada, a linha de produção digitalizada aumentou O PULARIZAÇÃ EVENTO DE IMPRESSÃO 3D EM LONDRES: o baixo PERO R Rad RT RR PISTA tecnologia já existe há mais de duas décadas, mas A: recentemente as impressoras 3D viraram mo- da. O equipamento, que constrói produtos cama- da sobre camada com polímeros e metais derretidos, tem sido a promessa de ama manufatura descentralizada e democrática — afinal, com 3000 dólares é possivel com- prar um modelo caseiro. Virou um oba-oba. “Muita gente imaginou que poderia ter uma impressora 3D em casa e imprimir partes de um refrigerador. Isso, definitivamente, não vai ocorrer tão cedo”, diz o israelense David Reis, pre- sidente da Stratasys, maior fabricante de impressoras 3D momundo. Em 2013, foram vendidas 57000 unidades, com valor inferior a 100000 dólares — boa parte para consumi- dores domésticos. Até agora, essa onda do faça você mes- mo apenas fez com que a produção com impressoras 3D 40 | wwwexamecom de peças de xadrez e capinhas para celular aumentasse, Se boa parte dos consumidores usa a tecnologia quase como um hobby, a indústria tem levado a sério a ferra- menta. Antes confinada à construção de protótipos rápi- dos de peças, a impressão 3D ganha funções mais nobres no chão de fábrica. Empresas como Airbus, Boeing e GE vêm utilizando a tecnologia para manufaturar compo- nentes mais leves para a indústria de aviação. Na multi- nacional francesa de aviação Airbus, algumas centenas de peças fabricadas em impressoras já voam em jatos executivos da empresa, O novo avião da familia A350, o XWB, que fez seus primeiros voos comerciais em junho, traz um suporte estrutural da cabine, em titânio, fabrica- do em impressoras 3D, A divisão de aviação da GE vem trabalhando desde 2012 em bocais de combustíveis de um motor para aviões que deverá ser lançado no ano que vem. À expectativa é fabricar 25 000 unidades anualmen- te. Tanto as empresas de aviação quanto as montadoras de carros têm tirado proveito da tecnologia para conso- lidar processos industriais transformando, por exemplo, 20 peças em um único item manufaturado (o que reduz o número de fornecedores). Um estudo da consultoria americana McKinsey indica que, em uma década, o pre- go final de um produto manufaturado numa impressora 3D deverá ser de 40% a 55% menor do que o valor atual, em razão, sobretudo, de um menor desperdício de ma- téria-prima. “As impressoras 3D funcionam bem para uma produção altamente customizada e com volume pequeno”, diz Terry Wohlers, presidente da consultoria americana Wohlers Associates. “Mas o potencial de apli- ILUSTRAÇÃO: WWiLL ENA AO GOSTO DO CLIENTE A impressão 3D permite maior personalização da produção industrial 335. de dólares é o tamanho do mercado estimado em 2025 para peças complexas, itens sob medida e componentes produzidos com impressoras 3D VALOR DE VENDAS DE IMPRESSORAS 3D E SERVIÇOS RELACIONADOS (em bilhões de dólares) e cações é imenso e ainda precisa ser descoberto.” Esse potencial, porém, pelo menos no curto prazo, de- verá ser menor do que os entusiastas da tecnologia pro- clamam. A estimativa é que, do total da produção indus- trial mundial — hoje em 10,5 trilhões de dólares —, somen- te 3% venham a ser manufaturados em impressoras 3D em dez anos. O principal entrave é o preço. Hoje, uma impressora industrial de ponta custa 500000 dólares. Faitam também modelos que comportem fabricar peças maiores, como uma asa de avião — os exemplares de gran- de porte em fase experimental pecam por falta de preci- são. Outra demanda da indústria é por um processo de produção mais ágil. Peças simples e pequenas podem demorar mais de 20 horas para ser fabricadas. Nesse rit- mo, a farra das capinhas de celular deverá continuar. (3 Previsão Fontes: Wohfers Associates e Mekinsoy 9 de julho de 2014 [41 h misses oe = A CAPA | tecnologia 30% a produtividade e diminui 40% o consumo de energia. Nas fábricas inteligentes, os destaques serão cada vez mais os robôs. 4 atual sensação no mundo da automação in- dustrial é o Baxter, um robô de quase 2 metros de altura com dois braços e um monitor que faz as vias de uma cabeça. Lançado em 2012 pela americana Re- think Robotics (um dos primeiros inves- tidores da empresa foi Jeff Bezos, pre- sidente do site de vendas Amazon), Baxter é um robô que se adapta ao am- biente de trabalho. Ele tem câmeras que permitem que objetos sejam vistos, sen- sores que captam a presença de pessoas e um software que aprende novas fun- ções. Seu preço inicial é 22000 dólares. A perspectiva de sucesso do Baxter e do crescimento desse segmento está atraindo empresas de tecnologia que, até pouquíssimo tempo atrás, não man- tinham conexão nenhuma com o uni- verso de robôs. Em 2013, por exemplo, a Google comprou oito empresas de robótica avançada — a mais famosa é a Boston Dynamics, que desenvolveu o robô com aplicações militares Big Dog (uma espécie de mula de carga que anda em terrenos acidentados e íngremes). DEFASAGEM TECNOLÓGICA Enquanto o mundo se prepara para es- sa nova Revolução Industrial, o Brasil parece não ter se dado conta dos imen- sos desafios que o cercam. Em 2013, 0 país comprou menos de 1300 robôs in- dustriais — a Coreia do Sul adquiriu 21000, e a China, 37000. No Brasil, a idade média de máquinas e equipamen- tos é 17 anos — ante sete anos nos Esta- dos Unidos e cinco na Alemanha. Numa era de imensos ganhos tecnológicos, as empresas brasileiras estão presas a tec- nologias ultrapassadas, o que afeta di- retamente a produtividade do país, Essa defasagem tecnológica tem vá-. rias explicações. A primeira é que 0) Brasil ainda tem uma economia fecha- da. Com o mercado doméstico garanti do, as indústrias instaladas aqui têm: menos incentivos para investir em au- mento de produtividade. Não é coinci- dência que as empresas expostas à com- petição internacional, como a Embraer, são justamente as mais avançadas em termos de tecnologia. “A indústria bra- PARA O ECONOMISTA ERIK BRYNJOLI economista americano Erik Brynjolfsson, do Ins- tituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), tem uma visão otimista do futuro do emprego. Um dos autores do livro The Second Machine Age (“A segunda era das máguinas”, numa tradução livre), Brynjolfsson diz que muita gente perderá o lugar para máquinas cada vez mais inteligentes, mas defende que a vantagem comparativa dos humanos é fruto da criatividade e do empreendedorismo. O senhor diz que vivemos uma nova Revolução Industrial, Mas quase ninguém notou. Por quê? Ainda estamos no início desse processo. A primeira Re- volução Industrial levou mais de um século para atingir seu ápice. Agora deveremos levar décadas para vera total aplicação dessa nova guinada industrial. A tecnologia avança muito rápido, mas leva tempo para que nossas ha- bilidades, instituições e modelos de negócios se ajustem. Nessa transição, muitos empregos serão extintos? E verdade que o progresso tecnológico elimina empregos 42 | www.exame.com ITENS EE MUITO QUALIFICADO” 1) N, DO MIT, A TECNOLOGIA VAI ELIMINAR AINDA MAIS EMPREGOS, MAS NÃO FALTARÁ TRABALHO PARA OS BEM PREPARADOS — e, talvez, muito mais do que as pessoas gostariam. Não há pior hora para ser um trabalhador sem capacitação específica. Mas também não há melhor momento para ser um trabalhador altamente qualificado e educado. As máquinas desempenham atividades cada vez mais complexas. Como é possível competir com elas? A automação substitui muito bem o trabalho repetitivo deumalinha de montagem ou as atividades rotineiras de um escritório, como o processamento de pagamentos. Mas as máquinas são péssimas em entender as reações de um cliente frustrado. Por isso, o trabalho que envolve as relações pessoais e as conexões emocionais torna-se mais importante. Essa é nossa vantagem comparativa. Como isso impactará os negócios? Acriatividade e o empreendedorismo vão gerar novos mo- delos de negócios e novas formas de usar a tecnologia. É por meio da combinação de máquinas mais inteligentes como talento das pessoas que o valor será gerado no futuro. Na e Ee re neeqa PRIOR RE trabalhadores PRP in STEVE OUNWEL sileira precisa estar inserida nos mer- cados globais para poder importar as melhores práticas”, diz Pedro Passos, fundador e sócio da fabricante de cos- méticos Natura e atual presidente do Instituto de Estudos para o Desenvol- vimento Industrial. Outra razão que inibe o investimento em tecnologia é o custo, Uma empresa brasileira gasta, em média, 37% mais do que uma compa- nhia americana na aquisição do mesmo maquinário. A terceira razão é a buro- cracia. Máquinas que trazem uma ino- vação tecnológica estão livres de impos- tos de importação, mas, para conseguir obenefício, a empresa precisa submeter o pedido ao governo, que, por sua vez, consulta as entidades patronais. O pro- cesso dura cerca de três meses. Um es- tudo inédito sobre difusão tecnológica no Brasil produzido pelo Senai com os nove principais setores da indústria na- cional mostra um quadro desalentador. Na área metal-mecânica, por exemplo, apenas de 10% a 30% do mercado de- verá adotar robôs de soldagem e mon- tagem nos próximos cinco anos. “Ó problema é maior nas pequenas e mé- dias empresas”, diz Marcello Pio, dire- tor de pesquisas do Senai. “Elas demo- ram até dez anos para adquirir uma tecnologia lançada hoje” As exceções estão nos setores mais dinâmicos da indústria. A Kepler We- ber, fabricante de silos para armazena- gem de grãos, está desenvolvendo um novo equipamento que responde auto- maticamente às mudanças de tempera- tura e umidade, Amplamente utilizada no exterior, a ferramenta elimina a ne- cessidade de ter um técnico de plantão em cada armazém. “Conheço produto- res que perderam parte da safra porque o funcionário mexeu no botão errado e acabou torrande a soja que estava den- tro do silo”, diz Anastácio Fernandes Filho, presidente da Kepler Weber. Ou- tro canal de inovação no Brasil são as multinacionais, que trazem plataformas globais de produção. No setor de gases industriais, a alemã Linde adotou re- centemente um sistema de gerencia- mento remoto. De um centro de opera- ções em Jundiaí, no interior paulista, cerca de 50 engenheiros operam 33 9 de julho de 2014 | 43 CAPA | tecnologia à duas formas de encarar o desenvolvimento il industrial. Uma é por meio de investimento em produtividade e tecnologia. Com as práticas mais inovadoras e eficientes, novos produtos são cria- dos, permitindo que as empresas do país possam con- correr de igual para igual com as de outras nações. A outra forma é se fechar para o mundo. Os fabricantes locais são protegidos dos competidores externos com taxas e cotas de importação, fazendo com que os pro- dutos de fora fiquem mais caros — ou nem entrem no mercado. No Brasil, infelizmente, escolhemos a segunda via. De 2008 para cá, o Brasil adotou 69 medidas para barrar a entrada de Ro produtos importados — como aumen- 13 / i to detarifas, cotas e imposição de bar- die reiras não tarifárias. Todos os países | º da União Europeia, juntos, adotaram 1947 1879 PARTICIPAÇÃO DA INDÚSTRIA DE TRANSFORMAÇÃO NO PIB (em %) 40 medidas. O mercado protegido desincentiva a ino- vação — o que explica o fato de o Brasil estar perdendo posições no ranking mundial de inovação compilado pela Organização das Nações Unidas. Em 2011, o Brasil ocupava o posto de 47º país mais inovador. No ano pas- sado, caiu para o 64º lugar. A combinação de protecionismo em alta com inovação em baixa não evitou a perda de relevância da indústria na economia brasileira. No início dos anos 80, um quarto do PIB vinha da área industrial. Em 2012, a fatia era de 13% — mesmo patamar dos anos 50. “Se não buscarmos a indústria do futuro, não vamos escapar da desin- dustrialização precoce”, diz Jorge Bor- ges, diretor de marketing estratégico da i ê divisão industrial da multinacional ale- Í ; máã Siemens no Brasil, Afinal, a fórmula 2072 2079 atual já provou que não funciona. unidades na América Latina. Se uma máquina apresenta um comportamen- toforado padrão na unidade de Guaya- quil, no Equador, ela é desativada por um clique no computador de um enge- nheiro em Jundiaí. Isso fez com que as unidades da Linde, que antes tinham cada uma cerca de 20 funcionários, tra- balhem agora com equipes de três pes- soas. “Ao concentrar todos os especia- 44 | www.examecom listas no centro de operações em Jun- diaí, aumentamos 30% nossa produti- vidade”, diz Max Amilcar, diretor da Linde. Hoje, a unidade é referência da multinacional alemã no mundo e não para de receber visitas de estrangeiros curiosos em conhecer seus detalhes. A Linde criou seu modelo de inovação e vemrecebendo as recompensas por ele. Se quiser manter a relevância, a indús- (0 Previsão Fonte: Siomens tria brasileira terá de seguir o mesmo caminho. A competição com a mão de | obra chinesa nas últimas décadas já | causou estragos. Sem preparação, a dis- | puta com máquinas americanas e euro- peias poderá ser pior. Abraçar a inova- | ção — seja ela um robô, um sensor ou o que vier pela frente — pode garantir um futuro para quem está cada vez menos relevante no presente. m
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