A historiografia contemporânea, do papel à era digital, Notas de estudo de História

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O artigo discute a ampliação do conceito de fonte histórica, ao longo do século XX, e o impacto causado pela revolução tecnológica na produção do conhecimento histórico. Além disso, propõe algumas possibilidades abertas ao historiador pelos novos tipos de mídia e pela digitalização de acervos documentais.
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A Historiografia Contempornea, do papel era digital

I Seminário de História: Caminhos da Historiografia Brasileira Contemporânea Universidade Federal de Ouro Preto

http://www.ichs.ufop.br/seminariodehistoria

A Historiografia Contemporânea, do papel à era digital.

Lívia de Azevedo Silveira Rangel – UFV

- As Escolas Históricas do século XIX e XX e a noção de documento.

O século XIX trouxe para a historiografia uma mudança extremamente considerável, a

partir da substituição dos interesses que delimitavam o objeto e a análise do conteúdo

histórico. A nova corrente historicista inaugurava a importância da reflexão e do saber

humanos em detrimento das concepções teológicas e dos aspectos metafísicos. A teologia

jamais aplicou método algum para explicar ou corroborar suas afirmativas históricas, para

esta concepção bastava a revelação dos fatos. Já o Iluminismo do século XVIII considerava a

ciência como um conhecimento que deve ser submetido ao método empírico e isso apenas

cabia a ciência natural estando a história distante de tais elementos, por isso, segundo seus

critérios, a história somente poderia ser apreendida através de considerações extra-empíricas,

ou seja, através de uma inspiração sobrenatural1, sendo assim, este pensamento não

relacionava passado e presente, articulação essencial aos parâmetros históricos. A História

reduzia-se a um “repositório de informações para reflexões ulteriores”2, a preocupação em

analisar outras sociedades mantinha-se fechada aos interesses intelectuais de reafirmação de

sua superioridade racional.

Embora no século XIX tenha havido uma deslocação, uma reestruturação frente às

visões históricas, comparativamente ao século XX a noção de documento ainda era restrita.

Pensaremos, primeiramente, sobre às dimensões históricas oitocentistas.

A ruptura anunciada pelos eruditos do século XIX remeteu a categoria histórica

condições de análise mais condizentes ao plano científico, através de uma aplicação

metodológica ao objeto pertencente à disciplina. Os Românticos falaram de “cultura”,

valorizando o tempo histórico e os aspectos intrínsecos às sociedades. Alargaram o plano da

História que havia se estreitado com os iluministas, exaltando a criação, o pensamento

fantástico, relacionando homem e natureza. Negaram a superioridade da razão pela vontade

humana, desenvolvendo um método (empático) que ajudou a compreender uma sociedade

1 HADDOCK, B.A. Uma Introdução ao Pensamento Histórico. Trad. De Maria Branco. Lisboa: Gradiva, 1989, p- 109. 2 Ibidem; p- 107.

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diferente da sua3. No entanto, a principal escola que se apoderou da idéia de um método foi a

escola positivista, também alcunhada escola metódica. Segundo os positivistas, os métodos da

ciência da natureza poderiam ser aplicados à interpretação histórica. Tal assimilação devia-se

a incessante busca pela verdade, a qual somente poderia ser alcançada caso houvesse uma

confluência entre a investigação documental, o poder da indução, da crença nos fatos

históricos e da narrativa, autorizados pelo método.

A objetividade almejada nas pesquisas históricas encetadas pelos positivistas foi sendo

lapidada a partir do desprezo pela história universal e pela elevação da história

particularizada, como única possibilidade de verdade, já que o universalismo era considerado

um ideal inatingível. Esta história dita factual acabou por exaltar os grandes acontecimentos e

as grandes personalidades. A historiografia positivista tinha um domínio sem precedentes

sobre pequenos problemas e, “uma fraqueza sem precedentes no tratamento dos grandes

problemas.”4

A noção de documento característico das visões tradicionalistas limita-se a eleger

fontes que possam oferecer maior credibilidade e segurança quanto ao seu conteúdo e

posteriormente na sua corroboração, essa seria a principal função da História, recolher dados

a partir de um grau hierarquizado de importância, seria o princípio da “história rankeana”. O

método de Ranke, historiador alemão, consiste em estabelecer critérios de conduta frente os

documentos. Para ele a fonte oficial, escrita, sempre deve se antepor a qualquer fonte e, caso

não se encontrem disponíveis documentos escritos deve-se então apelar e suportar outras

formas e outros objetos de pesquisa, sejam eles artefatos ou dados orais5. A metodologia de

Leopold Von Ranke foi, pela Nova história, superada. Insurgir contra esse método

representava negar a premissa de Ranke, sustentada sobre a égide da objetividade. Segundo

ele, "o objectivo da história é dar os acontecimentos do passado como eles na realidade se

passaram"6

O sentido progressista, o desejo de verdade, a ânsia pela exatidão, levaram os

metódicos a se posicionarem como meros observadores de suas próprias práticas. Suas fontes

históricas não passavam de objetos passíveis à apreensão sensível, empírica, como se a

complexidade documental pudesse ser denunciada a partir da aplicação de um método

3 Ibidem; p- 135. 4 COLLINGWOOD, R. G. A idéia de História. Trad. De Alberto Freire. Lisboa. Abril, 2001, p-149. 5 PRINS, Gwyn. “História oral”. In: Peter Burke (org.). A Escrita da história: novas perspectivas. Tradução de Magda Lopes. São Paulo: Editora da Universidade Estadual Paulista,1992.

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confiável e inabalável por qualquer eventualidade e, portanto, delimitado, restrito.

Conseqüentemente, os conceitos positivistas sobre História foram duramente criticados,

principalmente a partir de 1929, com o advento da Escola dos Annales. Membros da primeira

geração como Lucien Febvre e Marc Bloch procuraram distanciar-se da história basicamente

factual, narrativa, política, para agregar significado a outros campos de estudo, bem como a

economia, a psicologia coletiva e o social. Para solidificar uma História mais profunda e

universalizante tornava-se imprescindível à ampliação da noção de documento, assim

pretendia-se reformular a metodologia para que os fatos históricos não fossem tão somente

analisados imparcialmente como se fossem fatores isolados e imutáveis, mas sim fatores

suscetíveis a interpretações.

No Brasil, uma visão posteriormente denominada tradicionalista, inaugurava uma

nova fase historiográfica voltada para os estudos que partiam do ponto de vista cultural,

evitando a discussão racial ou de cunho apenas econômico ou apenas político. Gilberto Freyre

com sua obra Casa Grande & Senzala, conquistou lugar de destaque por ser pioneiro dessa

reestruturação temática e metodológica. Embora a análise de Freyre tenha inovado ao trazer à

tona a discussão sobre a formação do povo brasileiro, suas origens e mudanças (ou melhor,

suas continuidades), elevando a característica híbrida da sociedade colonial ao epicentro da

originalidade brasileira, ou seja, a herança cultural como sendo a maior contribuição frente ao

que delinearia, séculos mais tarde, a nacionalidade brasileira, houve em suas considerações

um caráter que superestimava a participação portuguesa, “exaltando a superioridade dos

portugueses como colonizadores”7. Mas o presente trabalho nos limita a enfatizar somente sua

colaboração histórica diante da ampliação documental, temática e metodológica.

A pesquisa ao universo do Brasil colonial por Freyre, introduziu na historiografia

nacional o uso de fontes consideradas heterodoxas, chamadas assim por não serem fontes

denominadas como oficias. Esse novo conjunto documental era composto por “anúncios de

jornais, os diários e a correspondência familiar, os escritos de viajantes estrangeiros, os livros

de receitas, as fotografias, as cantigas de roda e toda tradição oral”8, enfim, tudo aquilo que

fazia parte do cotidiano colonial entrou como recurso que deveria estar disponível para

compor um trabalho histórico.

6 AS CONCEPÇÕES de história e os cursos de licenciatura. Revista de História Regional. [citado em 17 abril 2006]. Disponível na World Wide Web: <http://www.uepg.br/rhr/v2n2/cerri.htm>. 7 SOUZA, Laura de Mello. “Aspectos da historiografia da cultura sobre o Brasil colonial”. In: Marcos Cezar de Freitas (org.). Historiografia brasileira em perspectiva. 5ª ed. São Paulo: Contexto, 2003. 8 Ibdem; p- 20.

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A dilatação do conceito de fonte histórica, a partir do início do século XX, surgiu no

Brasil, como já foi esclarecido, a partir da obra de Gilberto Freyre, encontrando outros tantos

historiadores posteriores que caminharam sobre a mesma corrente cultural, diante da análise

de formação da nacionalidade brasileira. A ampliação da noção de fonte aliciou para junto de

suas perspectivas documentais uma série de resquícios humanos. Assim, no âmbito

internacional, a Escola dos Analles, no que diz respeito as suas três gerações, possibilitou uma

nova visão histórica reconstruída através de uma aplicação renovada, seja das mesmas fontes

utilizadas pelos tradicionais ou àquelas ignoradas pelos mesmos. A geração que atravessou o

pós-guerra e chegou na segunda metade da década de 1960, cuidou de ampliar não somente a

noção de fonte, como já havia sido iniciado na geração anterior, como também estendeu o

conceito de tempo. Fernand Braudel foi um dos grandes historiadores da longa duração, ao

afastar-se do tempo histórico curto. A nova História, portanto, preocupava-se em entender as

estruturas, tentando explicar sempre as continuidades e as mudanças e não somente os

acontecimentos. A interdisciplinaridade proposta pela Escola dos Analles aumenta seu campo

de domínio sobre a História demográfica, serial e das mentalidades.

Ainda na alçada da longa duração e voltando ao final do século XIX, encontramos

uma outra ruptura, anterior a qualquer uma das citadas acima. Trata-se da teoria de Marx.

Tributário da filosofia dialética hegeliana, Marx estabeleceu um diálogo com seu tempo, no

qual a história deixava de ser pensada unicamente pelo ângulo da política para adentrar

também nos aspectos econômicos. A metodologia marxista fundou-se na concepção

materialista da história, pretendeu um estudo empírico distinguindo-se do idealismo de Hegel.

Para Marx o motor da História era o homem e sua ação como indivíduo ou coletivamente. Sua

teoria muito influenciou e ainda influencia a produção historiográfica, no entanto sua real

contribuição ainda vem sendo discutida. A noção de documento construída através da teoria

marxista é muito restrita, segundo Pierre Villar.9 Marx somente voltou-se para a investigação

do passado para ilustrar os seus paradigmas, que ao final não sofreram qualquer interferência

promovida por essa pesquisa. O modelo marxista já estava concluído antes mesmo de uma

investigação sistemática ao passado.

A contribuição da teoria de Marx é também pensada sobre o ângulo do revisionismo,

corrente historiográfica ocupada em reavaliar os propósitos marxistas incutindo novo ânimo e

novas perspectivas aos seus argumentos. Edward Palmer Thompson, foi um dos principais

9 VILLAR, Pierre. “História marxista, história em construção”. In: LE GOFF, Jacques e NORA, Pierre (orgs.). História: Novos Problemas. Trad. De Theo Santiago. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1976.

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expoentes da história revisionista, destacando sua preocupação em retocar o conceito de luta

de classes de maneira a compreender a classe trabalhadora da Inglaterra industrializada e os

movimentos sociais provenientes da ofensiva industrial, do excesso de exploração, da carga

sobrehumana atirada sobre os trabalhadores. Thompson entenderá a história da classe

trabalhadora como uma luta constante pela sobrevivência, pela “defesa de sua humanidade” e

pela busca do bem comum, do bem coletivo.“O objetivo geral de sua iniciativa era o de

substituir o “homem econômico”(...)pelo “homem socialista””10.

A inclinação de Thompson para a História Social leva-o a resgatar o tema do costume,

focalizado por ele como uma condição pré-existente ao capitalismo industrial. O costume,

pensado também sobre o aspecto de cultura, estava inserido no cotidiano dos trabalhadores

como uma forma tradicional de se exigir alguns direitos que estavam consolidados por

gerações passadas acerca de sua condição vital, era uma forma de reivindicar e resistir à

exploração. A transição entre uma forma rudimentar de mercado para outra forma mais

complexa é a conjuntura na qual detém-se Thompson, “por isso, podemos entender boa parte

da história social do século XVIII como uma série de confrontos entre uma economia de

mercado inovadora e a economia moral da plebe, baseada no costume.”11

O revisionismo marxista adotou a história social e assim procurou desvencilhar a luta

de classes do seu aspecto meramente econômico, analisando com maior profundidade a

categoria social dessas classes, o motor cultural que os movia, a influência do costume como

regra geral de sobrevivência. A revisão da teoria marxista se fez necessária a partir da crise

dos grandes paradigmas por ela formulados. Tal reanalise, como já foi dito, forneceu a

historiografia novas abordagens sobre o mesmo objeto. A abertura de possibilidades deu-se

igualmente através da nova história cultural ou microhistória, emergida de uma discussão

sobre as diferentes direções que a Escola dos Analles deveria considerar como novas

perspectivas. O interesse por fatores micros em detrimento dos macros suscitou uma abertura

no panorama documental. O empenho historiográfico voltou-se para as minorias, para a

história “vista de baixo”, restituindo importância à cultura popular. Embora a microhistória

insinue temas isolados, na verdade, todo micro-historiador deve relacionar seus recortes

temáticos a uma consideração mais ampla.

10 RAZÃO e utopia: Thompson e a História. Publicações de História.[citado em 17 abril 2006]. Disponível na World Wide Web: <http://www.dhi.uem.br/publicacoesdhi/dialogos/volume01/vol6_rsm5.htm>. 11 THOMPSON, E. P. Costumes em comum: estudos sobre a cultura popular tradicional. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

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http://www.ichs.ufop.br/seminariodehistoria Ao expandir a noção de documento o historiador da microhistória remete a si o papel

de investigador e produtor de suas próprias fontes, já que seu objeto de estudo, por fazer parte

dos grupos até então excluídos, revelam uma precariedade imensa de material investigativo.

Assim, no decorrer do século XIX e XX, vimos às noções de documento ganharem

gradualmente amplitudes maiores, favorecendo o enriquecimento temático com as novas

abordagens, novos questionamentos e novas fontes em detrimento de uma noção tradicional

que adotava o conceito de documento histórico como sendo sinônimo de texto escrito

produzido pelos detentores do poder político, garantindo para as gerações futuras

possibilidades de escolha e criticidade para criarem tantas outras possibilidades.

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I Seminário de História: Caminhos da Historiografia Brasileira Contemporânea Universidade Federal de Ouro Preto

http://www.ichs.ufop.br/seminariodehistoria - Revolução tecnológica do século XX e o ofício do historiador.

A intensa evolução que a tecnologia apresentou no século XX redefiniu as formas de

pensar e agir em sociedade e individualmente. No domínio acadêmico e profissional a

revolução tecnológica modificou igualmente as relações, sejam elas de proximidade com seu

objeto de estudo ou na velocidade e facilidade de se coletar dados e verificá-los. As vantagens

reunidas ao redor do aparato eletrônico, movido a acessos constantes de renovação

tecnológica, entranham-se ao trabalho do historiador e outros estudiosos, determinando os

novos suportes de pesquisa que antes ficavam restritos a lugares específicos e imóveis,

exigindo um deslocamento contínuo.

A era da informatização generalizada nos parece, senão uma realidade pelo menos um

processo em rápida emergência, o que faz com que o particular se interligue ao universal,

diminuindo as fronteiras e os limites de comunicação humana. Frente à busca incessante pela

concentração do maior número de informações, pela redução do espaço geográfico e pela

conquista do instantâneo, virtualmente falando, vemos um conjunto de profissionais

envolvidos nessa rede que absorvem de maneira produtiva os resultados dispostos na teia

tecnológica. Dentre tais profissionais encontramos o historiador, obrigado desde sempre a

confrontar-se com reduzidas possibilidades de pesquisa devido à dificuldade de se apreender

fontes incompletas, inalcançáveis e ou até mesmo inexistentes. Os obstáculos postos ao

estudioso da História jamais podem ser sanados integralmente, já que seu objeto situa-se em

tempos remotos e não pode garantir-lhe qualquer segurança de verdade e totalidade.

A História, bem como outras ciências, sofreu mudanças e intervenções do tempo. A

história-narrativa, factual, esvaiu-se dos meios acadêmicos para dar vazão a um outro tipo de

produção histórica, caracterizada pela ampliação do conceito de documento em conseqüência

de suas novas abordagens temáticas e de seus novos questionamentos. A história-problema

pôde romper com a estrutura tradicional para adentrar na contemporaneidade, transformando

o trabalho intelectual numa ferramenta ampla de aprendizagem. A interdisciplinaridade, ou

seja, a descoberta das relações internas que cada campo de estudo traça entre si,

redimensionou as considerações da história, sendo assim, a economia, a demografia e a

antropologia, por exemplo, puderam ser associadas ao objetivo historiográfico sem perder

suas características insolúveis.

As novas aspirações da História puderam dispor a seu favor os meios eletrônicos

capazes de comprazer suas necessidades investigativas. O computador passou a ser a principal

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ferramenta, pois ao passo que a informática foi se consolidando na sociedade, o pesquisador

foi se permitindo investir nessa estrutura, alargando suas perspectivas e irrompendo

construções históricas melhor elaboradas.12

O desenvolvimento da computação passou a permitir uma maior confrontação de

dados, sejam eles de origem econômica, demográfica, política ou social. As inconstâncias na

história passam então a serem avaliadas mais sistematicamente, o que favorece de maneira

distintiva a prática da história serial, quantitativa. As diversas fontes numéricas que antes

protelavam a conclusão de uma pesquisa agora são rapidamente postas a prova e conferidas a

análise por um sistema computadorizado, bem como Furet aponta: “o impacte da informática,

permite cálculos até aqui inimagináveis.”13

A destreza eletrônica em realizar cálculos, quantificar, enfim, em operar

matematicamente, é apenas uma das utilidades da tecnologia aplicada em computadores, pois

o impacto realmente significativo e revolucionário está compreendido na criação da World

Wide Web, mais conhecida como Internet. As redes interligadas alteraram mais uma vez o

campo de ação historiográfica, a começar pela ampliação e maior acesso a documentações,

teses, bibliotecas e museus, mas as transformações referentes ao ofício do historiador não se

restringem à abertura por novas possibilidades, a discussão adentra o âmbito da produção

textual, dos resultados dos estudos, das publicações em geral.

A Internet é o reflexo da total ausência de fronteiras entre o escritor ou autor de um

certo conteúdo e o leitor, que se torna parte integrante e agente interventor das obras

digitais14. O autor teme, portanto, pela autenticidade de seu trabalho, já que a Internet o torna

público e sondável por qualquer navegador: “Para os autores de hoje, o perigo de perder seus

direitos é, de fato, mais difundido que o de perder sua liberdade.”15. Assim nos postamos

frente a uma problemática bastante atual. Ao mesmo tempo em que o profissional da História

encontra fissuras suficientes para embrenhar-se no mundo informatizado, a vulnerabilidade

também o ataca, a partir do momento em que seu texto torna-se um texto eletrônico

possibilitando “reescrituras múltiplas” e apropriações desmedidas. Roger Chartier considera o

que chamamos de problemática, de um procedimento corrente iniciado no século XVIII,

quando passou a haver uma preocupação em “desmaterializar a propriedade” textual, ou seja,

12 FURET, François. “Da história-narrativa à história-problema”. In: FURET, François. A Oficina da História. Tradução de Adriano Duarte Rodrigues. Lisboa: Gradiva. 13 Ibdem; p- 85. 14 CHARTIER, Roger. A aventura do livro: do leitor ao navegador. Tradução Reginaldo de Moraes. São Paulo: Editora UNESP/ Imprensa Oficial do Estado de São Paulo. 1999.

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“fazer com que ela se exercesse não sobre um objeto no qual se encontra um texto, mas sobre

o próprio texto.”16. Dessa maneira, o computador e a Internet seriam os dois principais

agentes da modernidade incumbidos de retirar a materialidade do texto e transformá-lo em

algo virtual e impalpável. Assim, Chartier localiza há três séculos atrás o precedente de tal

intenção.

A tecnologia da informação, como já foi ressaltado, modificou as relações tradicionais

entre estudiosos e seus objetos de estudo, entre o escritor e o leitor, entre um texto e seu

suporte, entre o possível e o impossível. A revolução tecnológica propiciou uma ruptura em

vários aspectos, dentre eles o aspecto espacial. A memória de um computador ou as

informações que viajam pelas ondas, fios e satélites comportam em si um arsenal infinito de

conhecimento e informações, transferindo do mundo sensível para o mundo virtual conteúdos

e formas, prescindindo de qualquer espaço físico, a não ser o espaço que separa o indivíduo

do aparelho eletrônico em questão.

15 Ibdem; p- 45. 16 Ibdem; p- 67.

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http://www.ichs.ufop.br/seminariodehistoria – A História na era digital.

A historiografia contemporânea tem presenciado as mudanças estabelecidas pela

tecnologia no que diz respeito a sua concepção material de fonte e pesquisa histórica. Quando

dizemos que a história está saindo da era do papel e entrando no circuito digital, queremos

dizer que seu campo de visão está se ampliando concomitantemente. Mas de que maneira? A

informática e o sistema que interliga computadores mundialmente nos remete a uma cadeia de

informações infinitas que são recolhidas de vários acervos, museus, bibliotecas e arquivos,

sendo assim, a noção de documento amplia-se para além do espaço físico e adentra num corpo

virtual capaz de localizar dados de qualquer natureza, o que nos implica a concluir que as

fontes alteram-se quantitativamente e qualitativamente.

A internet, usada como agente agregador, motiva a democratização de acesso a fontes

documentais que anteriormente eram de difícil apreensão. A busca por documentos no meio

eletrônico tornou-se a forma mais eficaz e rápida de ter acesso a um material investigativo.

Grandes acervos encontram-se disponíveis. A Biblioteca Nacional, uma das instituições de

afluência à memória mais importantes do país, tomou a iniciativa de disponibilizar sua

documentação em páginas eletrônicas, trazendo enormes benefícios aos diversos campos das

ciências humanas.

Alguns projetos de digitalização de documentos estão, da mesma maneira, diretamente

ligados com a questão atual no que se refere a preocupação em democratizar e facilitar o

trabalho das diferentes áreas de atuação do conhecimento. Um dos exemplos relevantes que se

pode destacar é o do Projeto Resgate, idealizado pela Universidade de Brasília e o Ministério

da Cultura. O projeto “tem como objetivo principal disponibilizar documentos históricos

relativos à História do Brasil existentes em arquivos de outros países”17. Através do método

da microfilmagem foi possível recriar em cds os documentos e divulgá-los aos pesquisadores.

Muitos outros exemplos podem ser ilustrados aqui, como é o caso do site scielo, uma

biblioteca eletrônica que dispõe de um vasto conjunto de periódicos científicos, ensaios,

artigos e relatórios. Frequentemente atualizado, é um ótimo caminho de descobertas e rumos

de pesquisa.

O espaço virtual precisa de poucos atributos para inserir comunidades inteiras dentro

de sua “geometria”, já não é o caso de um espaço fisicamente composto. A maioria dos

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arquivos, museus e bibliotecas estão concentrados nos grandes centros urbanos ou culturais,

restringindo sua área de acesso a este espaço delimitado. Cidades que não representam um

sítio histórico relevante, e por isso não sustentam qualquer instituição de apoio ao seu

patrimônio, encontram na internet e nos multimeios eletrônicos, como microfilmes, cds, dvds,

etc., uma saída para os limites geográficos que se impõem sobre o objeto de estudo e o

pesquisador. O Laboratório Multimídia de Pesquisa Histórica (LAMPEH), da Universidade

Federal de Viçosa, funciona como um centro de pesquisa para os estudantes. Seu acervo é

composto por microfilmes relativos a imprensa do século XIX e início do XX, principalmente

do Estado de Minas Gerais, periódicos, relatórios, teses condensadas em cds, fotografias, e

consultas a sites que disponibilizam conteúdo de pesquisa. A intenção é permitir que o

historiador, ou outro profissional, tenha acesso a documentos sem precisar estar de corpo

presente na instituição que o guarda. Isso é democratizar os meios.

Mas tal revolução ainda não se consolidou por completo, ela é um processo em

corrente construção. Muitas questões devem ainda ser levantadas sobre as vantagens e

desvantagens que a tecnologia nos aponta a experimentar e incluir no cotidiano. Sabemos

apenas que sua inserção na historiografia trouxe enormes benefícios e possibilitou a

ampliação da noção de documento, a democratização da informação e o acesso irrestrito a

conteúdos de pesquisa, fatores que só tendem a fortalecer a construção do conhecimento

histórico.

17 HISTÓRICO do Projeto Resgate. Centro de Memória digital. [citado em 17 abril 2006]. Disponível na World Wide Web: <http://www.resgate.unb.br/rhistorico.html>.

11

gostei do site.
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