Afinal, porque eram as mulheres bruxas?, Pesquisas de História. Università Roma Tre
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AntonellaMC26 de Abril de 2017

Afinal, porque eram as mulheres bruxas?, Pesquisas de História. Università Roma Tre

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Ensaio entregue em curso de pós-graduação em módulo de gênero, buscando pesquisas acerca do papel da bruxa na crença masculina no medievo.
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Afinal, por que eram as mulheres bruxas?

Antonella Cavicchiolo 1

“Ao falar de sua inteligência, minha esposa, cujo

coração não era afetado pela mínima superstição,

fazia frequentes alusões à antiga crença popular de

que todos os gatos pretos eram bruxas disfarçadas”.

-Edgar Allan Poe, O Gato Preto, 1843.

Das mais de 130 pessoas acusadas de bruxaria no grande julgamento de

Salém entre 1692 e 1693, apenas 27 eram homens, dos quais 6 foram executados.

Tendo tal contagem em consideração, chegamos aos mais diversos motivos pelos

quais mesmo em um evento completamente irregular o sexo masculino chega a ser

no máximo um em cada quatro dos indiciados por bruxaria (importante notar que a

maioria não chegava a ser executado, como já exemplificado por Salém). Então,

como introdução, por que tantas “bruxas” eram mulheres viúvas, pobres, velhas?

Dentre os diversos motivos discutidos (tais como conexões familiares, conflito

no vilarejo e propriedades), também são citadas crenças populares que faziam de

uma mulher solitária conversando com seu gato imediatamente uma feiticeira

agourenta (THOMAS, 1997). A figura feminina no medievo passa sim por figuras

divinas, como Maria, mas as terrenas sempre acabam por carregar os espinhos da

cristandade; no provérbio 14 em verso leonino no manuscrito de Sankt Gallen, o

corpo da mulher é considerado receptáculo do Demônio: Femina vas sathane, rosa

fetens, Dulce venenum/ Semper prona rei, que prohibetur ei, ou seja, “A mulher é o

vaso de Satanás, uma rosa fétida, um doce veneno/ Sempre inclinada para as

coisas que lhe são proibidas”. Assim, é vera a afirmação de Robyne Conway,

historiadora da Universidade da Tasmânia, quando constata que o Malleus

Maleficarum, obra tão criticada nos dias atuais pela óbvia misoginia, não era único e

separado da ideia pública de que a mulher é decaída por natureza e adversária do

homem, a quem insinua palavras predispostas ao mal. Desta forma, mulher e bruxa

são praticamente sinônimos.

1 Graduanda em História e pós-graduanda em História Cultural com ênfase em Antropologia pela Faculdades Integradas “Espírita”.

Retomando o termo misoginia, diversos historiadores a negam como motivo

para tantas acusações a mulheres nas práticas de bruxaria justamente por muitas

testemunhas pertencerem ao mesmo sexo, mas logo outros autores discorrem sobre

todo um sistema patriarcal extremamente em voga e como este acabava por forçar

as vozes femininas na transmissão da “ordem” (KARLSEN, 1998). O século XVI foi

um período de crescente patriarcado, o que fez com que a figura feminina cada vez

mais fosse submetida a trancar-se na sombra do marido, “Para que uma esposa

cumpra sua obrigação e traga harmonia e paz ao seu lar, ela deve concordar com o

primeiro principio: que não discorde de seu esposo em momento algum” segundo o

político Francesco Barbaro, comentado na obra The Renaissance in Europe

(Margaret L. King, 2005). Desse modo, mulheres que fossem argumentativas e

talvez agressivas para os quesitos da época encontravam-se em um caminho curto

para a fogueira, sendo solteiras, poderiam sentir o calor em seus pés.

Como se pode observar, eram muito fortes as tradições populares, inclusive

as de cunho religioso, mantidas dentro de um ambiente sagrado por uma sociedade

quase que exclusivamente patriarcal onde crianças e as mulheres jovens deviam,

até a puberdade pelo menos, seguir as normas e aprender os serviços de casa,

citadas por uma matrona (como discorre Edward Thompson em sua obra Costumes

em Comum, onde analisa folclore e hábitos antigos). Desta forma percebe-se que a

mulher estava como exemplo desde que estivesse no ambiente familiar, e, dentro

desta sociedade, o que fugisse da tradição era visto com maus olhos pelos

integrantes, assim, a mulher solitária poderia sofrer sanções como antipatia, ou

mesmo ser condenada por ser contrária aos costumes preexistentes.

A sexualidade feminina é outro ponto que fez com que a mulher se

distanciasse mais do divino no imaginário popular, um homem idoso e sexualmente

ativo era visto como ridículo, quando o caso era uma mulher, além do primeiro

atributo era ainda considerada perigosa, taciturna como um gato. Este animal

durante séculos encarnou mistérios da terra e ocultismo nas crenças e religiões, bem

como simbolizava a sensualidade (no século XV era recomendado se ter gatos para

conseguir sucesso na corte às mulheres, no XVII se recomendava comê-los para

engravidar e por aí adiante), foi só um passo para que a mistura sobrenatural e

erotismo resultasse numa ligação à bruxaria, ocasionando um famoso massacre de

gatos na França que desempenhava ainda uma implícita acusação de feitiçaria a

uma mulher deveras infiel no casamento.

Por conseguinte, personagens na história foram ostracizadas por serem de

um molde inferior ao vigente na mentalidade de toda uma época, tal qual foi com as

denominadas feiticeiras, que não só representaram o “sexo frágil”, o velho e o pobre,

como permaneceram no imaginário popular mesmo após séculos, tanto que “No creo

en brujas, pero que las hay, las hay”2.

REFERÊNCIAS

DARNTON, Robert. O Grande Massacre de Gatos, e os outros Episódios da História

Cultural Francesa. Tradução de Sonia Coutinho. Rio de Janeiro: Graal, 1986.

2 Ditado popular espanhol, típico da região de Castella.

KARLSEN, Carol F. The Devil in the Shape of a Woman: Witchcraft in Colonial New

England. New York: W. W. Norton & Company, 1998.

THOMAS, Keith. Religion and the Decline of Magic: Studies in popular beliefs in

sixteenth and seventeenth century England. New York: Oxford University Press,

1997.

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