Anaïs nin delta de vênus, Notas de aula de Cultura. Universidade Estadual do Ceará (UECE)
francisco_tulio
francisco_tulio23 de Setembro de 2015

Anaïs nin delta de vênus, Notas de aula de Cultura. Universidade Estadual do Ceará (UECE)

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Delta de Vênus

Prostitutas que satisfazem os mais estranhos desejos de seus clientes. Mulheres que se aventuram com desconhecidos para descobrir sua própria sexualidade. Triângulos amorosos e orgias. Modelos e artistas que se envolvem num misto de culto ao sexo e à beleza. Aristocratas excêntricos e homens que enlouquecem as mulheres. Estes são alguns dos personagens que habitam os contos – eróticos – de Delta de Vênus, de Anaïs Nin. Escritas no início da década de 40 sob a encomenda de um cliente misterioso, estas histórias se passam num mundo europeu-aristocrático decadente, no qual as crenças de alguns personagens são corrompidas por novas experiências sexuais e emocionais.

Discípula das descobertas freudianas, Anaïs Nin aplicou nestes textos a delicadeza de estilo que lhe era característica e a pungência sexual que experimentou na sua própria vida. Mais do que contos eróticos, Delta de Vênus oferece ao leitor histórias de libertação e superação.

Prefácio (Abril, 1940)

Um colecionador de livros ofereceu a Henry Miller cem dólares por mês para que ele escrevesse histórias eróticas. Era uma punição dantesca condenar Henry a escrever sobre o tema erótico a um dólar a página. Ele rebelou-se porque seu estado de espírito à época era o oposto do que se poderia chamar de rabelaisiano, pois escrever por encomenda era uma ocupação castradora, e trabalhar com um voyeur espiando no buraco da fechadura tirava todo o prazer e a espontaneidade de suas imaginarias aventuras.

(Dezembro, 1940)

Henry me falou a respeito do colecionador. Os dois tinham almoçado juntos. Ele comprou um trabalho de Henry e lhe sugeriu que escrevesse algo para um de seus clientes, homem rico e idoso. Não podia falar muito a respeito desse cliente, exceto que ele estava interessado no tema erótico.

Henry lançou-se ao trabalho alegremente. Inventou loucas histórias de que muito nos rimos. Ele se atirou àquela atividade como a uma experiência, e no princípio pareceu-lhe fácil. Mas após algum tempo perdeu o estímulo. Como não queria usar o material que vinha planejando empregar em seu verdadeiro trabalho, viu-se condenado a forçar sua criatividade e sua disposição.

Henry jamais recebeu uma palavra de reconhecimento do estranho cliente. Seria natural que essa pessoa não desejasse revelar sua identidade. Mas Henry começou a brincar com o colecionador.

"Adaptado do diário de Anaïs Nin, volume III".

Esse cliente realmente existia? Ou aquelas páginas eram para o próprio colecionador, destinadas a alegrar sua melancólica vida? Não seriam os dois a mesma pessoa? Henry e eu discutimos amplamente esses pontos, intrigados e divertidos.

Então o colecionador anunciou que seu cliente viria a Nova York e que

Henry o conheceria. Mas o encontro acabou por jamais se realizar. O colecionador foi minucioso em suas descrições ao lhe dizer como remetera os originais pelo correio aéreo, dizendo quanto custara e dando pequenos detalhes que visavam a acrescentar realismo às alegações que fazia sobre a existência de seu cliente.

Um dia ele pediu um exemplar de Black spring com uma dedicatória.

Henry lhe disse:

— Mas você não me disse que ele já tem todos os meus livros, com as edições assinadas?

— Ele perdeu seu exemplar de Black spring.

— E a quem devo dedicá-lo? — perguntou Henry

— Basta que você escreva: "A um bom amigo" e assine.

Algumas semanas depois Henry precisou de um exemplar do mesmo Black spring e não conseguiu encontrar nenhum. Decidiu pedir o do colecionador. Foi a seu escritório. A secretária mandou-o esperar. Ele pôs- se a examinar os livros que se encontravam na estante. Viu um exemplar de Black spring e o apanhou. Era o que tinha dedicado "a um bom amigo".

Quando o colecionador apareceu, Henry lhe falou a esse respeito, rindo. Com o mesmo bom humor, o colecionador explicou:

— Oh, sim, o velho ficou tão impaciente que lhe mandei o meu livro antes que você assinasse esse, na intenção de trocar quando ele vier de novo a Nova York. Quando nos encontramos, Henry me disse:

— Estou mais confuso do que nunca.

Quando Henry perguntou como o cliente reagia a seu trabalho, o colecionador respondeu:

— Oh, ele gosta muito. Tudo é maravilhoso. Entretanto, ele gosta mais quando é uma narrativa, só a história, sem análises, sem filosofia.

Assim que precisou de dinheiro para suas despesas de viagens, Henry

sugeriu que eu aproveitasse o intervalo para escrever um pouco. Decidi que não queria apresentar nada de excepcional e criei uma mistura de histórias que ouvira com invenções minhas, supondo que se tratava do diário de uma mulher. Jamais me encontrei com o colecionador. O trato era que ele leria meu trabalho e depois me diria o que achara. Recebi hoje um telefonema. Uma voz disse:

— É bom. Mas deixe de fora a poesia e as descrições de qualquer coisa que não seja sexo. Concentre-se em sexo.

Assim, comecei a me aplicar para tornar-me bizarra e criativa, exagerando tanto que pensei que ele fosse perceber que eu estava caricaturando a sexualidade. Mas não houve protesto. Passei dias na biblioteca estudando o Kama Sutra, e ouvi as mais disparatadas aventuras dos amigos.

— Menos poesia — disse-me a voz pelo telefone. — Seja específica.

Será que alguém terá retirado alguma vez prazer da leitura de uma descrição clínica? Não saberia o velho como as palavras podem introduzir cores e sons em nossa carne? Toda manhã, depois do café, eu me sentava para escrever um pouco. E um dia datilografei: "Era uma vez um aventureiro húngaro". Dei-lhe muitas vantagens: beleza, elegância, graça, talento de ator, conhecimento de muitas línguas, o dom da intriga, a capacidade para se livrar de dificuldades e para evitar as leis da permanência e da responsabilidade. Outro telefonema:

— O velho está satisfeito. Concentre-se em sexo. Deixe de fora a poesia.

Isso deflagrou uma epidemia de "diários" eróticos. Todos passaram a escrever suas experiências sexuais. Inventadas, ouvidas por acaso, pesquisadas no livro de Krafft-Ebing e em livros médicos. Tínhamos conversas cômicas. Contávamos uma história e as pessoas tinham que decidir se era falsa ou verdadeira. Ou plausível. Essa o era? Robert Duncan se oferecia para experimentar, para testar nossas invenções, para confirmar ou negar nossas fantasias. Todos nós precisávamos de dinheiro e, assim, somávamos nossas histórias.

Eu estava certa de que o tal velho nada sabia a respeito da beleza, dos êxtases e das deslumbrantes reverberações de um encontro sexual. Cortar a poesia era a sua mensagem. Sexo clínico, privado de todo o calor que só o

amor lhe pode dar — a orquestração de todos os sentidos, tato, audição, visão e paladar; todos os acompanhamentos eufóricos, música de fundo, estados de espírito, atmosfera, variações — forçava-o a recorrer a afrodisíacos literários.

Poderíamos ter reunido melhores segredos para lhe contar, mas a tais segredos ele seria surdo. Contudo, um dia, quando ele alcançasse a saturação, eu lhe diria como quase nos fizera perder o interesse na paixão, em razão de sua obsessão de gestos vazios de emoções, e também como nós o detestávamos por quase ter nos obrigado a fazer votos de castidade ao querer que excluíssemos aquilo que era o nosso próprio afrodisíaco: a poesia.

Recebi cem dólares pela minha história erótica. Gonzalo precisava de dinheiro para o dentista; Helba, de um espelho para suas danças; e Henry, de dinheiro para sua viagem. Gonzalo me contou a história do Basco e de Bijou e eu a escrevi para o colecionador.

(Fevereiro, 1941)

A conta do telefone não tinha sido paga. A rede das dificuldades econômicas se fechava sobre mim. Todas as pessoas que se achavam à minha volta eram irresponsáveis, estavam inconscientes do naufrágio. Escrevi trinta páginas eróticas.

Mais uma vez vi-me cônscia do fato de estar sem um centavo e telefonei para o colecionador. Ele tinha tido notícias de seu rico cliente e do último original que eu mandara? Não, não tinha, mas ficaria com o que eu acabara de escrever e me pagaria. Henry tinha que ir ao médico. Gonzalo precisava de óculos. Robert apareceu com B. e me pediu dinheiro para ir ao cinema. A fuligem da bandeira da porta caía sobre meu papel de datilografia e sobre meu trabalho. Robert adiantou-se e levou minha caixa de papel.

Não estaria o velho cansado de pornografia? Será que não seria possível ocorrer um milagre? Comecei a imaginá-lo dizendo: “Dê-me tudo o que ela escrever, quero tudo, gosto de tudo. Eu lhe mandarei um bom presente, um polpudo cheque por tudo o que ela tem escrito”.

Minha máquina de escrever estava quebrada. Com cem dólares no bolso, recuperei o otimismo. Eu disse para Henry:

— O colecionador gosta de mulheres simples, não intelectuais, mas me convida para jantar.

Eu tinha a impressão de que a caixa de Pandora continha os mistérios da sensualidade feminina, tão diferente da do homem e para a qual a linguagem masculina era inadequada. A linguagem do sexo ainda tinha que ser inventada. A linguagem dos sentidos ainda tinha que ser explorada. D. H. Lawrence começou a dar uma linguagem ao instinto, tentou fugir do relato clínico, do científico, que captura apenas o que o corpo sente.

(Outubro, 1941)

Quando Henry chegou, trouxe várias afirmativas contraditórias. Que poderia viver sem nada, que se sentia tão bem que era capaz até mesmo de arranjar um emprego, que sua integridade impedia que ele fosse escrever enredos em Hollywood. Então eu lhe disse:

— E o que lhe diz sua integridade quando você escreve história erótica por dinheiro?

Henry riu, admitiu o paradoxo, as contradições e mudou de assunto.

A França tem uma tradição de literatura erótica escrita em estilo fino e elegante. Assim que comecei a escrever para o colecionador, pensei que houvesse uma tradição similar aqui, mas nada encontrei. Tudo o que vi era de baixo nível, trabalho de escritores de segunda classe. Nenhum bom escritor jamais fizera qualquer tentativa para usar a linguagem erótica.

Contei a George Barker como Caresse Crosby, Robert, Virginia Admiral e outros estavam escrevendo. Aquilo agradou ao seu senso de humor, ou seja, a idéia de eu ser a madame daquela casa literária de prostituição de que a vulgaridade era excluída. Rindo, eu expliquei:

— Eu dou o papel e o carbono, remeto o original anonimamente e protejo o bom nome de todos.

George Barker considerou que era uma solução muito mais bem- humorada e criativa que implorar, pedir emprestado ou fazer os amigos pagarem nossas refeições. Reuni poetas à minha volta e juntos escrevemos belas páginas eróticas. E como éramos condenados a nos concentrar

apenas em sensualidade, tivemos violentas explosões de poesia. Escrever na linguagem sensual tornou-se mais uma estrada para a santidade que para o deboche.

Harvey Breit, Robert Duncan, George Barker, Caresse Grosby, todos nós concentramos nossos talentos em um tour de orce, suprindo o velho com tal abundância de perversa felicidade que ele passou a nos implorar por mais.

Os homossexuais escreviam como se fossem mulheres. Os tímidos escreviam sobre orgias. Os frígidos, sobre êxtases frenéticos. Os mais poéticos abandonavam-se à total bestialidade; e os mais puros, a incríveis perversões. Éramos perseguidos pelas histórias maravilhosas que não podíamos contar. Sentávamos em círculo, imaginávamos o velho, falávamos sobre quanto o odiávamos porque ele não permitia que fundíssemos sexualidade com sentimento, sensualidade com emoção.

(Dezembro, 1941)

George Barker estava em uma penúria terrível. Quis escrever mais histórias lascivas. Escreveu oitenta e cinco laudas. O colecionador as julgou por demais surrealistas. Eu as adorei. Suas cenas de amor eram desordenadas e fantásticas. Amor entre trapézios.

Ele bebeu seu primeiro lucro e eu não pude emprestar-lhe mais que papel e carbono. George Barker, o excelente poeta inglês, escrevia sobre erotismo para beber, tal como Utrillo pintara por uma garrafa de vinho. Comecei a pensar a respeito do velho que odiávamos. Decidi escrever-lhe diretamente, falar-lhe a respeito de nossos sentimentos.

“Caro Colecionador, nós odiamos você. O sexo perde todo o seu poder e sua magia quando se torna explícito, mecânico, exagerado, quando se torna uma obsessão mecanizada. Fica enfadonho. Você nos ensinou mais do que qualquer outra pessoa que eu conheça como é errado não misturar sexo com emoção, fome, desejo, luxúria, caprichos, laços pessoais, relações mais profundas que modificam sua cor, seu gosto, seu ritmo e sua intensidade.

Você não sabe o que está perdendo com seu exame microscópico da atividade sexual a ponto de excluir aspectos que são o combustível que lhe ateiam fogo. Intelectual, imaginativo, romântico, emocional.

É isso que dá ao sexo sua tessitura surpreendente, suas transformações sutis, seus elementos afrodisíacos. Você está reduzindo seu mundo de sensações, matando-o de fome, drenando seu sangue.

Se você alimentar sua vida sexual com todas as excitações e aventuras que o amor injeta na sensualidade, será o homem mais potente do mundo. A fonte da potência sexual é a curiosidade, a paixão. Mas você está vendo sua pequena chama morrer asfixiada. O sexo não viceja na monotonia. Sem sentimento, invenções ou surpresas na cama. O sexo deve ser misturado com lágrimas, risos, palavras, promessas, cenas, ciúme, inveja, todos os condimentos do medo, da viagem ao estrangeiro, novos rostos, romances, histórias, sonhos, fantasias, música, dança, ópio, vinho.

Quanto você perde por usar esse periscópio em tão pequena parte de uma coisa tão grande, quando poderia desfrutar um harém de maravilhas diferentes e jamais repetidas? Não há um fio de cabelo igual ao outro, mas você nunca permitirá que desperdicemos palavras com a descrição de um cabelo; não há dois odores iguais, mas se nos expandirmos sobre isso você gritará para que cortemos a poesia. Não existem duas peles com a mesma textura, e nunca o mesmo tom, temperatura, sombras, jamais o mesmo gesto; pois o amante, quando incendiado pelo verdadeiro amor, é capaz de percorrer a escala da sabedoria de muitos séculos. Quanta coisa, quantas variações de idade, de maturidade e inocência, de perversidade e arte...

Sentamo-nos juntos por horas e imaginamos como será você. Caso tenha fechado seus sentidos para a luz, a cor, o caráter, o temperamento, deve estar agora completamente paralisado. Há muitos sentidos menores, todos tributários do sexo, afluentes que o alimentam. Apenas o ritmo simultâneo do sexo e do amor pode criar o êxtase."

Pós-escrito Naquele tempo em que estávamos todos escrevendo sobre erotismo a um dólar a página, dei-me conta de que por séculos tínhamos tido um único modelo para esse gênero literário, ou seja: trabalhos escritos por homens. Eu já era então consciente da diferença entre o tratamento masculino e o feminino para com a experiência sexual. Sabia que havia grande disparidade entre a clareza de Henry Miller e as minhas ambigüidades; entre sua visão do sexo, rabelaisiana e bem-humorada, e as minhas descrições poéticas de relações sexuais como apareciam nas partes não publicadas do diário.

Conforme escrevi no volume três do Diário, eu tinha a impressão de que a caixa de Pandora continha os mistérios da sensualidade feminina, tão diferente da do homem e para a qual a linguagem masculina era inadequada.

As mulheres, pensava eu, eram mais aptas a fundir sexo com emoção ou amor, assim como a se dedicar a um único homem em vez de se tornarem promíscuas. Isso se tornou evidente para mim à época em que eu escrevia os romances e o Diário, e ficou ainda mais claro quando comecei a lecionar. Embora a atitude das mulheres para com o sexo fosse bem diferente da dos homens, não tínhamos ainda aprendido a escrever sobre isso.

Nestas histórias eróticas eu escrevia para distrair o leitor, sob a pressão de um cliente que queria que eu "cortasse a poesia”. Achei que meu estilo se derivava da leitura de trabalhos escritos por homens, e por esse motivo sempre julguei que houvesse comprometido meu eu feminino. Pus o erotismo de lado. Relendo as histórias muitos anos depois, vi que minha própria voz não tinha sido silenciada de todo. Em numerosas passagens eu usara intuitivamente uma linguagem de mulher, vendo a experiência sexual de um ponto de vista feminino. E, finalmente, decidi liberar os textos para publicação porque eles mostram os primeiros esforços de uma mulher em um mundo que sempre fora dominado pelos homens.

Se o Diário algum dia vier a ser publicado sem cortes, o ponto de vista feminino será estabelecido com mais clareza, demonstrando que as mulheres (e eu, no Diário) nunca separaram o sexo do sentimento, ou do amor do homem integral.

ANAïS NiN

O aventureiro húngaro

Era uma vez um aventureiro húngaro, dono de uma beleza estonteante, sedução infalível, graça, talento de um ator experiente, cultura, conhecimento de muitas línguas, maneiras aristocráticas. Por trás disso tudo havia uma grande capacidade para a intriga, para livrar-se de dificuldades e para entrar e sair com facilidade de qualquer país.

Ele viajava em grande estilo, com quinze arcas cheias das mais finas roupas e dois grandes cães dinamarqueses. Seu ar autoritário lhe granjeara o apelido de Barão. O Barão era visto nos mais luxuosos hotéis, em estâncias hidrominerais, corridas de cavalo, viagens ao redor do mundo, excursões ao Egito, viagens pelo deserto, safáris na África.

Aonde quer que ele fosse, era o centro de atração das mulheres. Como o mais versátil dos atores, passava de um papel para outro a fim de satisfazer o gosto de todas. Era o dançarino mais elegante, o mais animado dos convivas em um jantar, o mais decadentista dos anfitriões em tête-à- tétes; era capaz de velejar, montar, dirigir. Conhecia cada cidade como se tivesse morado nela toda a sua vida. Conhecia toda a sociedade. Era indispensável.

Quando precisava de dinheiro, casava-se com uma mulher rica, saqueava-a e partia para outro país. Nunca as mulheres se rebelavam contra ele ou se queixavam à polícia. As poucas semanas ou meses em que o tiveram como marido deixavam uma sensação mais forte do que o choque de perder o dinheiro. Por um instante tinham compreendido o que era viver com fortes asas, voando acima da cabeça dos medíocres.

Ele as levava tão alto, fazia-as girar tão depressa em sua série de encantamentos, que em sua partida era como se houvesse algo semelhante a um vôo. Parecia quase natural; nenhuma delas poderia seguir o Barão em seu vôo de águia.

O aventureiro livre e incapturável, pulando assim de um ramo dourado para outro, quase caiu em uma armadilha de amor, quando uma noite conheceu uma bailarina brasileira chamada Anita em um teatro peruano.

Os olhos amendoados de Anita não se fechavam como os das outras mulheres, e sim como os dos tigres, dos pumas e dos leopardos; as duas pálpebras se encontravam lenta e preguiçosamente; aqueles olhos pareciam implantados um tanto próximos do nariz, o que os fazia estreitos, com um jeito lascivo e oblíquo, como o olhar de uma mulher que não deseja ver o que está sendo feito de seu corpo. Tudo isso lhe dava o ar de uma criatura com quem estivessem fazendo amor, o que excitou o Barão ao conhecê-la.

Quando ele foi vê-la no camarim, Anita estava se preparando entre uma profusão de flores; e para a delícia dos admiradores que se achavam sentados à sua volta, pintava seu sexo com um batom, sem permitir que fizessem qualquer gesto em sua direção.

Com a entrada do Barão, ela limitou-se a erguer a cabeça e a sorrir para ele. Tinha um pé sobre uma mesinha, e seu requintado vestido brasileiro estava erguido; com as mãos cheias de anéis ela voltou à pintura, rindo da excitação dos homens que a cercavam.

Seu sexo era como uma gigantesca flor de estufa, maior do que qualquer um que o Barão já tinha visto, envolto por pêlos abundantes e crespos, lustrosos e negros. Eram os lábios que ela pintava como se fossem uma boca, com todo o cuidado até que ficaram semelhantes a camélias vermelho-sangue, abertos à força, mostrando o botão inferior fechado, o coração mais pálido, de fina pele de flor.

O Barão não conseguia persuadi-la a ir cear com ele. A aparição de Anita no palco era apenas o prelúdio de seu trabalho no teatro. Seguia-se depois o espetáculo pelo qual era famosa em toda a América do Sul, com os camarotes às escuras e de cortinas semicerradas cheios de homens da sociedade vindos de todas as partes do mundo. Não se levavam mulheres a esse espetáculo burlesco de alta classe.

Anita se vestira de novo; pusera um vestido de saia rodada que usava em cena para suas canções brasileiras, mas sem o xale. A parte superior não tinha alças, e seus seios ricos e abundantes, comprimidos pela roupa de cintura apertada, precipitavam-se para cima, oferecendo-se quase que por inteiro ao olhar de todos.

Enquanto o resto do espetáculo prosseguia, ela circulou pelos camarotes

nesse traje. Diante de um deles, a pedido, ajoelhou-se à frente de um homem, desabotoou suas calças, tomou-lhe o pênis entre suas mãos cheias de anéis, e com uma destreza, uma perícia, uma sutileza que poucas mulheres jamais haviam conseguido desenvolver, chupou-o até que o homem ficasse satisfeito. Suas mãos eram tão ativas quanto sua boca. A excitação era tanta que quase fazia os homens perderem os sentidos. A habilidade de suas mãos; a variedade de ritmos; a mudança de um aperto firme no pênis inteiro para o mais leve toque em sua extremidade, de uma vigorosa massagem em todas as partes com um quase imperceptível puxão nos pêlos, à volta — tudo isso feito por uma mulher excepcionalmente bela e voluptuosa, enquanto a atenção do público estava voltada para o palco. Ver o pênis entrar em sua boca magnífica por entre os dentes cintilantes, enquanto seus seios arfavam, dava aos homens um prazer pelo qual pagavam generosamente.

A presença de Anita no palco os preparava para sua aparição nos camarotes. Ela os provocava com a boca, com os olhos, com os seios. E chegarem ao clímax juntamente com a música, as luzes e as canções, em um camarote escuro, com as cortinas semicerradas e situado em um plano superior ao da platéia, era uma forma de diversão excepcionalmente excitante.

O Barão quase se apaixonou por Anita e ficou em sua companhia por mais tempo do que com qualquer outra mulher.

Ela apaixonou-se por ele e lhe deu duas filhas. Mas poucos anos depois ele partiu mais uma vez. O hábito era demasiado forte; o hábito de liberdade e mudança.

Ele foi para Roma e alugou no Grand Hotel uma suíte que, por acaso, situava-se ao lado do apartamento do embaixador espanhol, que lá morava com a mulher e duas filhas. O Barão encantou a todos. A mulher do embaixador o admirava.

Ficaram muito amigos, e ele era tão agradável às crianças, que não sabiam como se distrair naquele hotel, que logo ambas adquiriram o hábito de ir visitá-lo de manhã bem cedo a fim de acordá-lo com risos e brincadeiras, o que não era permitido fazer com os pais, bem mais solenes.

Uma das garotas tinha cerca de dez anos; a outra, doze. Eram bonitas,

tinham grandes olhos negros e aveludados, cabelos compridos e sedosos, e pele dourada. Usavam vestidos brancos curtos e meias também brancas. Com agudos gritinhos as duas garotas entravam correndo no quarto do Barão e se atiravam em sua imensa cama. Ele brincava com elas e as acariciava.

É que o Barão, como muitos homens, sempre despertava com o pênis em um estado particularmente sensível. Na verdade, ele se sentia muito vulnerável. Não tinha tempo de se levantar e acalmar sua condição urinando. Antes que pudesse fazê-lo, as crianças já tinham cruzado correndo o soalho lustroso e se atirado sobre ele e sobre seu pênis proeminente, que de certa forma o grande acolchoado azul-claro conseguia ocultar.

As duas meninas não se importavam com o fato de suas saias ficarem totalmente levantadas e com o modo como suas esbeltas pernas de dançarina se trançavam e pressionavam o pênis dele, intumescido sob a coberta. Rindo, rolavam sobre o Barão, sentavam-se em cima dele, montavam-no e o tratavam como se fosse um cavalo, instando para que ele balançasse a cama com um movimento de seu corpo. Além disso, beijavam- no, puxavam seus cabelos e mantinham com ele conversas infantis. O prazer do Barão em ser tratado assim crescia tanto que se transformava em suspense excruciante.

Com uma das garotas deitada de bruços, tudo o que ele tinha a fazer era mover-se um pouco contra ela para alcançar seu prazer. E ele assim o fez brincando, como se sua intenção fosse empurrá-la para fora da cama. E disse:

— Aposto como você cairá se eu a empurrar.

— Eu não caio — retrucou a menina, agarrando-se ao Barão por cima das cobertas enquanto ele se movia como se fosse forçá-la a rolar para fora da cama.

Rindo, ele se ergueu um pouco, mas ela continuou deitada e colada a seu corpo, com suas pequenas pernas, suas calcinhas, se esfregando nele, esforçando-se para não escorregar; o Barão deu seguimento à brincadeira enquanto riam. A outra menina, querendo equilibrar o jogo, montou a cavalo nele, em frente à irmã, o que permitiu que ele pudesse se mexer

com selvagem liberdade. Seu pênis, oculto pela grossa coberta, ergueu-se vezes sem conta por entre as pequenas pernas, e foi assim que ele gozou, com uma força que raramente conhecera, dando-se como perdedor na batalha que as duas meninas tinham vencido de um modo de que jamais suspeitariam.

De outra feita, quando elas foram brincar com o Barão, ele pôs suas mãos sob a coberta. Depois ergueu o indicador e desafiou-as a pegá-lo. Assim, com grande animação, elas se puseram a caçar seu dedo — que desaparecia e reaparecia em diferentes partes da cama —, agarrando-o firmemente. Em pouco tempo não era mais o dedo e sim o pênis que as duas pegavam repetidas vezes, e quando tentava libertá-lo, o Barão obrigava-as a agarrá-lo com mais força ainda. Fazia-o desaparecer completamente sob as cobertas e depois, pegando-o com a mão, jogava-o para cima a fim de que elas o pegassem.

O Barão também fingia que era um animal que tentava agarrá-las e mordê- las, às vezes bem perto dos lugares onde realmente o desejava fazer, e elas gostavam muito disso. Com o "animal" elas também brincavam de esconder. O "animal" queria lançar-se sobre elas de algum canto escondido. Ele se ocultava em um armário e se cobria de roupas. Uma das meninas abria a porta. Ele podia ver através do tecido; agarrava-a e a mordia de brincadeira nas coxas.

Tão quentes eram os jogos, tão grandes eram a confusão da batalha e o abandono das duas garotinhas na brincadeira, que com muita freqüência a mão dele passava por todas as partes que queria apalpar.

Um dia o Barão acabou por se mudar de novo, mas seus vôos no trapézio da fortuna foram se deteriorando à medida que seu impulso sexual foi se tornando mais forte que sua ânsia de dinheiro e poder. Era como se a força de seu desejo por mulheres não mais pudesse ser controlada. Ele se mostrava ansioso por se livrar de suas esposas para que pudesse prosseguir em sua busca de sensações pelo mundo afora.

Um dia soube que a bailarina brasileira a quem havia amado tinha morrido de uma dose excessiva de ópio. Suas filhas já estavam com quinze e dezesseis anos respectivamente e queriam que ele tomasse conta delas. O Barão mandou buscá-las.

Estava vivendo então em Nova York com uma mulher de quem tivera um filho. A mulher não ficou satisfeita com a notícia da chegada das filhas do Barão. Sentia ciúme pelo filho, então com apenas catorze anos. Depois de tantas aventuras, o Barão desejava um lar e descanso de tantas dificuldades e farsas. Tinha uma mulher de quem podia dizer que gostava e três filhos.

A idéia de estar de novo com as filhas o interessou. Recebeu-as com grandes demonstrações de afeto. Uma era linda; a outra menos bonita, mas muito interessante. Ambas tinham sido criadas testemunhando a vida que a mãe levava e não eram pudicas nem reprimidas.

A beleza do pai as impressionou. Por sua vez ele recordou as brincadeiras com as duas meninas de Roma, porém suas filhas eram um pouco mais velhas, o que adicionava grande atrativo à situação.

Uma grande cama foi destinada às duas mocinhas, e mais tarde, quando elas ainda estavam falando da viagem e do reencontro com o pai, ele entrou para lhes dizer boa-noite. Deitou-se ao lado delas e beijou-as. Elas retribuíram seus beijos. Mas quando ele as beijou de novo, correu as mãos pelo seu corpo, que podia sentir através da camisola.

As carícias agradaram às duas. E o Barão disse:

— Vocês. — Como vocês são bonitas! Estou muito orgulhoso de vocês. Não posso deixar que durmam sozinhas. Faz muito tempo não as vejo.

Segurando-as paternalmente, com as duas cabeças sobre o peito, acariciando-as protetoramente, ele deixou que dormissem, ladeando-o. Aqueles corpos jovens, com pequenos seios ainda em formação, o afetaram tanto que ele não pôde dormir. Afagou uma e depois a outra, mas após algum tempo seu desejo se tornou tão violento que ele acordou uma e começou a forçá-la. A outra também não lhe escapou. Elas resistiram e choraram um pouco, mas já tinham visto tantas coisas durante o tempo em que viveram com a mãe que não se rebelaram contra o pai.

No entanto, não se tratou de um caso comum de incesto, porque a fúria sexual do Barão crescia cada vez mais e se tornara uma obsessão. Gozar com elas não o libertava, não o acalmava. Saía da companhia das filhas e ia fazer amor com a mulher. Era como um excitante.

Com receio de que as filhas o abandonassem e fugissem, o Barão passou a espioná-las e praticamente as aprisionou.

Sua mulher acabou por descobrir e fez cenas violentas. Mas o Barão mais parecia um louco. Não se importava mais com suas roupas, sua elegância, suas aventuras, sua fortuna. Ficava em casa e só pensava no momento em que pegaria as filhas juntas. Ensinara-lhes todas as carícias imagináveis. Elas aprenderam a se beijar em sua presença até que ele se excitasse bastante para possuí-las.

Mas sua obsessão, seus excessos, começaram a pesar sobre elas. A mulher acabou por desertar.

Uma noite, após ter deixado as filhas, ficou vagueando pelo apartamento, ainda uma presa de seu desejo, de suas febris fantasias eróticas. Tinha exaurido as garotas, que caíram no sono. Porém seu desejo o atormentava de novo. Estava cego por ele. Abriu a porta do quarto do filho. O garoto estava dormindo calmamente, de barriga para cima, a boca ligeiramente aberta. O Barão o observou, fascinado. Seu pênis tumefacto continuava a atormentá-lo. Ele apanhou um tamborete e colocou-o junto da cama. Ajoelhou-se nele e inseriu o pênis na boca do filho, que acordou engasgado e o golpeou. As garotas também acordaram.

A rebelião dos três contra a loucura do pai os empolgou, e eles abandonaram o desvairado e velho Barão.

Mathilde

Mathilde era uma chapeleira de Paris e mal havia completado vinte anos quando foi seduzida pelo Barão. Embora o romance não tivesse durado mais que duas semanas, sua filosofia de vida a contagiara e adotara seu modo de fugir a passos largos dos problemas. Uma coisa que o Barão lhe dissera certa noite, casualmente, a deixara intrigada: que as mulheres parisienses eram altamente valorizadas na América do Sul em virtude de sua perícia nas questões de amor, de sua vivacidade e sabedoria, o que fazia grande contraste com a maioria das mulheres sul-americanas, que ainda cultivam uma tradição de obediência e se colocam em segundo plano; isso lhes enfraquece a personalidade e possivelmente se deve à relutância dos maridos daquele continente em fazerem de suas esposas amantes.

Tal como o Barão, Mathilde tinha desenvolvido uma fórmula para levar a vida desempenhando uma série de papéis; para isso, bastava dizer ao espelho, enquanto pela manhã escovava os louros cabelos:

— Hoje eu quero ser tal pessoa.

Um dia ela decidiu que seria uma elegantíssima representante de uma modista parisiense muito conhecida e que iria para o Peru. Portanto, foi preciso apenas que vivesse seu papel. Assim, vestiu-se com apuro, apresentou-se com extraordinária segurança na casa de modas, foi contratada e recebeu uma passagem marítima para Lima.

A bordo do navio, comportou-se como uma missionária francesa da elegância. Seu talento inato para reconhecer bons vinhos, bons perfumes e boas roupas a marcou como uma dama refinada. Seu paladar era o de um gourmet.

Mathilde tinha aptidão especial para bem viver o papel que escolhera. Ria o tempo todo, fosse o que fosse que lhe acontecesse. Quando sumiu uma valise, ela riu. Quando lhe pisaram o pé, também riu.

Foi seu riso que atraiu o representante da Spanish Line, Dai-vedo, que a

convidou para jantar à mesa do comandante.

Dalvedo era uma figura agradável em seu traje de noite, com a pose de um comandante e com muitas histórias para contar.

Na noite subseqüente ao jantar, ele a levou a um baile. Sabia muito bem que a viagem era curta demais para o tempo normal de namoro, e por isso se pôs a louvar, de imediato, uma pequena verruga que Mathilde tinha no queixo. A meia-noite perguntou se ela gostava de fruta de cacto. Ela nunca provara essa fruta. Ele disse que tinha algumas em seu camarote.

Mathilde desejava aumentar seu valor pela resistência, e estava em guarda quando entraram no aposento. Sempre conseguira se livrar com facilidade das mãos audaciosas dos homens quando ia ao mercado, bem como das palmadinhas que os maridos de suas clientes lhe davam às escondidas, dos beliscões no bico dos seios aplicados pelos amigos que a levavam ao cinema. Nada disso a excitava. Mathilde tinha uma idéia vaga mas persistente sobre o que a excitaria. Queria que lhe fizessem a corte usando uma linguagem misteriosa, o que fora determinado pela sua primeira aventura, quando tinha dezesseis anos.

Um escritor, que era uma celebridade em Paris, entrara um dia em sua loja. Não estava procurando um chapéu. Perguntou-lhe se vendia umas flores luminosas de que tinha ouvido falar, flores que brilhavam no escuro. Ele as queria, explicou, para uma mulher que brilhava no escuro. Era capaz de jurar que, quando a levava ao teatro e ela se recostava na cadeira do camarote às escuras, sua pele era tão luminosa quanto uma finíssima concha marinha, com um suave brilho cor-de-rosa. E ele queria as flores para que ela as usasse nos cabelos.

Mathilde não tinha as flores. Mas assim que o homem saiu, foi se olhar ao espelho. Aquele era o tipo de sentimento que desejava inspirar. Será que poderia? Seu brilho não era daquele tipo. Ela era mais como fogo do que como luz. Seus olhos eram ardentes, cor de violeta. O cabelo era pintado de louro, mas irradiava uma sombra de cobre à sua volta. Sua pele também tinha um tom acobreado, uma pele firme e sem nada de transparente. O corpo enchia o vestido com generosidade.

Não usava modelador, mas a forma de seu corpo era igual à das mulheres que o usavam. Quando se arqueava para trás, os seios se projetavam para

a frente e as nádegas ficavam mais altas.

O homem voltou. Mas dessa vez não desejava comprar nada. Ficou parado olhando para ela, o rosto comprido e finamente esculpido, sorridente, os gestos elegantes transformando o ato de acender um cigarro em um ritual, e disse:

— Desta vez eu voltei para ver você.

O coração de Mathilde bateu tão depressa que ela sentiu ser aquele o momento esperado havia tantos anos. Quase ficou na ponta dos pés para ouvir o resto de suas palavras. Era como se fosse a mulher luminosa sentada no camarote escuro recebendo as insólitas flores. Mas o simpático escritor grisalho disse com voz aristocrática:

— Assim que vi você, meu membro ficou duro dentro das minhas calças.

A crueza daquelas palavras foi como um insulto. Ela enrubesceu e o esbofeteou.

A cena foi repetida diversas ocasiões. Mathilde descobriu que, quando aparecia, os homens geralmente ficavam sem fala, privados de qualquer inclinação para um namoro romântico. Palavras como aquelas eram pronunciadas assim que a viam. O efeito produzido por Mathilde era tão direto que eles eram capazes apenas de exprimir sua perturbação física. Em vez de considerar isso um tributo, ela se magoava profundamente.

Encontrava-se, então, no camarote com Dalvedo, o gentil espanhol. Ele descascava frutos de cacto para ela, e falava.

Mathilde foi recuperando a autoconfiança. Seu vestido de noite era de veludo vermelho. Ela se sentou sobre o braço de uma poltrona.

Mas a tarefa de descascar as frutas foi interrompida. Dalvedo levantou-se e disse:

— Essa verruguinha que você tem no queixo é incrivelmente sedutora.

Mathilde pensou que ele fosse beijá-la. Mas ele não o fez. Desabotoou as calças rapidamente, puxou o pênis para fora e, com o gesto de um apache

para uma mulher das ruas, disse:

— Ajoelhe-se.

Mais uma vez Mathilde teve de dar uma bofetada, após o que correu para a porta.

— Não vá — implorou ele —, você me deixa louco. Olhe só o estado em que me deixou. Fiquei assim a noite toda enquanto estávamos dançando. Agora você não pode me abandonar.

Dalvedo tentou abraçá-la. Durante o tempo em que ela lutava para livrar- se, ele gozou em cima de seu vestido. Mathilde teve de se cobrir com a capa de noite para poder retornar ao próprio camarote.

Contudo, assim que chegou a Lima, conseguiu realizar seu sonho. Os homens se aproximavam com palavras rebuscadas, disfarçando as intenções com grande charme. Esse prelúdio ao ato sexual a satisfazia. Gostava de um pouco de incenso. E em Lima recebia muito incenso; fazia parte do ritual. Era colocada sobre um pedestal de poesia, de modo que quando caía subjugada pelo abraço final, mais parecia um milagre. Vendeu muito mais noites do que chapéus.

Naquele tempo, Lima era fortemente influenciada por sua grande população chinesa. Prevalecia o vício de fumar ópio.

Rapazes ricos andavam em bandos, de bordel em bordel; ou passavam as noites nos antros de fumantes de ópio, onde havia prostitutas disponíveis; ou então alugavam cômodos vazios em casas de zona de meretrício, onde podiam usar a droga em grupos e onde as prostitutas os visitavam.

Os rapazes gostavam de se encontrar com Mathilde. Ela transformou sua loja em um boudoir, cheio de espreguiçadeiras, rendas, cetins, cortinas e almofadas. Martínez, um aristocrata peruano, a iniciou no ópio. E ele levava seus amigos até lá para fumar. As vezes passavam dois ou três dias perdidos para o mundo, para sua família. As cortinas eram mantidas cerradas. A atmosfera era velada, calma. O ópio os fazia mais voluptuosos que sensuais. Podiam passar horas acariciando as pernas de Mathilde. Um deles talvez segurasse um de seus seios, outro concentraria os beijos na carne macia de seu pescoço, encostando apenas os lábios, porque o ópio

ampliava cada sensação.

Mathilde se deixava ficar nua, deitada no chão. Todos os movimentos eram vagarosos. Os três ou quatro homens ficavam deitados por entre as almofadas. Preguiçosamente, um dedo procurava seu sexo, entrava e ficava entre os lábios da vulva, sem se mexer. Outra mão depois se mexia, contentando-se com os círculos em torno do sexo, procurando o outro orifício.

Um homem oferecia-lhe o pênis, bem junto à boca. Ela o chupava lentamente, cada toque magnificado pela droga.

Depois ficavam quietos por horas, sonhando. Imagens eróticas se formariam de novo. Martínez via o corpo de uma mulher, estendido, sem cabeça, com os seios de uma balinesa, o ventre de uma africana, as nádegas altas de uma negra; tudo isso se confundia em uma imagem de carne móvel, uma carne que parecia ser feita de elástico. Os seios rijos inchavam na direção de sua boca, e a mão de Martínez se adiantava para eles; mas então eram as outras partes do corpo que se expandiam, tornavam-se proeminentes, pairavam sobre o corpo dele. As pernas se abriam de modo inumano, impossível, como se tivessem sido cortadas da mulher, para deixar o sexo exposto, aberto, como se alguém tivesse apanhado uma tulipa, abrindo-a completamente à força.

O sexo também era móvel, como borracha esticada por mãos invisíveis, mãos curiosas que desejavam despedaçar o corpo para chegar a seu interior. Depois as nádegas se voltavam totalmente para ele e começavam a perder a forma. Cada movimento tendia a abrir por completo o corpo, visando rasgá-lo. Martínez ficava furioso porque outras mãos manipulavam aquele corpo. Levantava um pouco o tronco, procurava o seio de Mathilde, e se visse a mão de alguém sobre ele, ou uma boca chupando-o, procuraria seu ventre, como se aquele ainda fosse a imagem que o assombrara no sonho provocado pelo ópio; inclinando-se um pouco, ele a beijava entre as pernas abertas.

O prazer de Mathilde ao acariciar os homens era tão grande, e as mãos deles passando em seu corpo a agradavam de modo tão completo, tão contínuo, que ela raramente tinha um orgasmo. Só se dava conta disso depois que os homens partiam. Acordava dos sonhos de ópio com o corpo

ainda inquieto.

Lixava e pintava as unhas, fazia um traje requintado para futuras ocasiões, escovava os cabelos louros. Sentada ao sol, pintava os pêlos púbicos com pequenos chumaços de algodão, querendo-os tão louros quanto seus cabelos.

Sozinha, via-se perseguida pela lembrança daquelas mãos que acariciavam seu corpo. Podia sentir então uma sob o braço, escorregando para a cintura. Lembrou-se de Martínez, de seu jeito de abrir seu sexo como se fosse uma flor, de sua língua rápida, cobrindo a distância dos pêlos púbicos às nádegas, terminando na covinha que Mathilde tinha na base da coluna. Como ele adorava aquela covinha, de onde seus dedos e sua língua seguiam para baixo, desaparecendo entre os dois abundantes montes de carne.

Pensando em Martínez, Mathilde sentiu-se arrebatada de paixão. Não podia esperar pelo seu retorno. Abaixou os olhos para as pernas. De tanto viver dentro de casa elas estavam muito brancas, fascinantes, com o tom branco de giz da pele das mulheres chinesas, a palidez mórbida de estufa que os homens, particularmente os peruanos de pele escura, tanto gostavam.

Olhou para seu ventre sem defeitos, sem uma única linha que não devesse estar presente. Os pêlos púbicos, ruivos, cintilavam ao sol.

"Como ele me vê?", perguntou-se ela. Levantou-se e pegou um espelho comprido que colocou no chão, encostado a uma cadeira. Sentou-se então diante do espelho e abriu lentamente as pernas. A visão que teve foi encantadora. A pele era imaculada; a vulva, rósea e cheia. Pensou nela como a folha da seringueira com seu leite secreto que poderia ser produzido pela pressão de um dedo, o líquido oloroso que vinha como o que se desprende das conchas do mar. Assim tinha nascido Vênus do oceano, com aquela pequena semente de salgado mel dentro de si; apenas carícias poderiam revelar os ocultos segredos de seu corpo.

Mathilde perguntou-se se seria capaz de retirar o seu favo de mel do esconderijo misterioso. Com os dedos, abriu os pequenos lábios da vulva e se pôs a acariciá-la com felina suavidade. Para a frente e para trás, como Martínez fazia com seus dedos escuros e nervosos. Lembrou-se do

contraste dos dedos morenos dele com sua pele clara, a pele grossa representando mais uma promessa de dor do que de prazer. Mas como seu toque era delicado, como ele retinha a vulva entre os dedos, como se estivesse segurando veludo! Ela o imitou, com o dedo indicador e o polegar. Com a outra mão continuou as carícias. E teve a mesma sensação maravilhosa de que ia se dissolver. De algum lugar surgia um líquido salgado, cobrindo os lados de seu sexo, que brilhava no centro.

Mathilde quis saber então qual sua aparência quando Martínez mandava que se virasse. Deitou-se sobre seu lado esquerdo e expôs a bunda ao espelho. Podia ver, assim, seu sexo de outro ângulo. Moveu-se como se movia para Martínez. Viu sua própria mão aparecer sobre a colina formada pelas nádegas, que ela começou a esfregar. A outra mão passou por entre as pernas e apareceu no espelho, vinda por trás. E foi essa mão que esfregou seu sexo para trás e para a frente. Ela introduziu o dedo indicador na vagina e começou a se esfregar de encontro a ele. Tomada pelo desejo de ser assaltada pelos dois lados, inseriu o outro indicador no orifício anal. Quando balançava o corpo para a frente, sentia o dedo enfiado no sexo, e quando recuava, sentia o outro dedo, como sucedia nas vezes em que Martínez e algum amigo a acariciavam ao mesmo tempo. A aproximação do orgasmo excitou-a mais ainda e seus gestos passaram a ser convulsivos, como que para arrancar a última fruta de um galho, puxando, puxando o galho para trazer tudo abaixo, num selvagem orgasmo, que veio enquanto ela se admirava ao espelho, vendo suas mãos se moverem, o mel brilhando, o sexo, as nádegas, tudo cintilando por entre as pernas.

Depois de acompanhar seus movimentos no espelho, ela compreendeu a história que lhe fora contada por um marinheiro a respeito dos marinheiros de seu navio, que tinham feito uma mulher de borracha para passar o tempo e satisfazer seus desejos durante os seis ou sete meses que passavam em alto-mar. A boneca de borracha tinha sido feita com capricho e lhes dava uma ilusão perfeita. Os marinheiros a amavam. Levavam-na para a cama. Fora construída de tal modo que todos os orifícios podiam satisfazê-los.

Tinha a qualidade que um velho índio uma vez atribuíra a sua jovem esposa: logo depois do casamento, a esposa passou a ser amante de todos os rapazes que viviam na hacienda. O proprietário chamou o índio velho

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