Aristóteles a política, Dissertações de Mestrado de Filosofia. Universidade Estácio de Sá (Estácio)
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rangel_itamar25 de abril de 2016

Aristóteles a política, Dissertações de Mestrado de Filosofia. Universidade Estácio de Sá (Estácio)

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Aristóteles a política
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602Text

A POLÍTICA

ARISTÓTELES

Prefácio

Só penetramos bem as obras próximas de nós mesmos ou de nosso

tempo, pelo menos por algum aspecto.

Igualmente, só se amam os escritos cujo autor nos atrai por seu caráter e

por seu exemplo. Ora, Aristóteles, com a extrema dignidade de vida, a nobreza

de pensamento, o gosto por um justo equilíbrio, é para nós, por toda a sua

personalidade, um reconforto.

Com efeito, foi possível classificá-lo não apenas entre os "grandes

espíritos", mas também entre os "grandes corações". Na coleção de biografias

- quase de hagiografias - que levava este título, M. D. Roland-Gosselin chega a

esta conclusão um tanto inesperada: "Decididamente, não é demais dizer que

Aristóteles foi um excelente marido, um pai afetuoso e devotado, um bom

homem." Ela ilumina com uma luz bastante simpática a fisionomia do Estagirita,

cuja vida, na medida em que a conhecemos exatamente, revela poucos

acontecimentos e, afora a educação de Alexandre, é carente dos grandes

cargos que não raro acompanham os grandes livros consagrados ao Estado e

a seu governo.

Aristóteles não é nada mais do que um "intelectual", no melhor sentido da

palavra, um "letrado" que às vezes age não sem prudência, mas nunca sem

coragem ou sem retidão. Romperá com seu real discípulo depois do assassínio

de Calístenes; para retirá-la do cativeiro, desposará Pítia, sobrinha e filha

adotiva de seu amigo crucificado, Hérmias de Atárnea; com palavras tocantes,

cercará de zelos póstumos sua segunda esposa, Hérpilis, "que lhe foi muito

devotada".

Assim, por si mesmo, o homem deu testemunho do alto ideal de que está

impregnada toda a sua obra. Colocou-se naquela disposição de espírito que

Paul Bureau diz ser a condição primeira de todo estudo sociológico, exigindo

daqueles que se entregaram a ele o acordo da seriedade de suas vidas com a

gravidade de suas pesquisas.

Estas qualidades morais, no entanto, não teriam por si sós feito do autor da

Política senão um estimável pedagogo e não o gênio excepcional que "entreviu

de relance os problemas fundamentais da sociologia jurídica: a

microssociologia do direito, a sociologia jurídica diferencial e a sociologia

jurídica genética"; que, mais diretamente, fundou o direito constitucional com

seus diferentes ramos, histórico, nacional, geral e comparativo; que criou a

ciência política no sentido de que, estabelecendo a dinâmica e medindo o

rendimento das instituições, ela ultrapasse o direito. Um duplo concurso de

circunstâncias era necessário para o surgimento e o florescimento dessa

prodigiosa personalidade e para, dentro do "milagre grego", realizar o milagre

aristotélico.

Em primeiro lugar, era preciso que Aristóteles fosse, senão médico - ele

sempre se proibiu de ser um profissional , pelo menos biólogo, para que, dado

desde a infância às ciências da natureza, tivesse adquirido o método original

com o qual criaria as ciências do homem em sociedade.

Como Wilhelm Oncken faz lembrar, Aristóteles era filho de um Asclepíada

chamado Nicômaco, que vivia na corte de Macedônia como amigo e médico

pessoal do rei Amimas II. Nicômaco era considerado um dos homens mais

doutos e mais cultos de sua profissão. Segundo Dió Laércio, teria escrito seis

volumes de medicina e um de física, isto é, provavelmente, de ciências naturais,

no sentido amplo da palavra. Tal ascendência foi de decisiva importância para

Aristóteles, pois a ciência médica na época se transmitia de pai para filho,

numa iniciação confidencial que começava na mais tenra infância. Assim, sua

instrução já se mostrava acabada quando Nicômaco o deixou órfão, entre

dezesseis e dezessete anos. Já estava de posse de suas concepções mestras

quando veio a Atenas para seguir os ensinamentos do divino Platão. Estava

pronto para revolucionar o pensamento de seu tempo e para prefigurar a atitude

científica de que se orgulha a sociologia contemporânea. Ele levava à pesquisa

esta abnegação que é própria do verdadeiro cientista que não chega à

conclusão senão através de um longo exame analítico, esta paciência que

escapa às tentações dos resumos brilhantes e das conclusões a priori. O

Estagirita sempre prevenirá seus discípulos contra a facilidade e a presunção e,

se algumas vezes lhe acontecer, na aplicação de suas próprias regras, de

também pecar, sempre saberá voltar aos princípios essenciais do ensino

paterno. A pergunta do aluno Alexandre, que o interrogará sobre os seus

mestres, responderá altivamente que "as próprias coisas o instruíram e não lhe

ensinaram a mentir".

Mas uma segunda disposição da sorte deveria vir reforçar em Aristóteles as

virtudes do observador e a imparcialidade do cientista. Quando o autor da

Política começou seus estudos em Atenas, enfrentou a atmosfera pesada

criada pela perdida guerra do Peloponeso, deixando nos espíritos cultivados

uma dolorosa farpa. A última concepção do Estado, ideal e serena, é a de

Hipódamo de Mileto. Platão era uma criança quando a tempestade passou

sobre a Hélade, e a instabilidade de uma luta de partidários, durante cerca de

trinta anos, lhe inculcou uma concepção romântica do Estado que rejeita o

presente, idealiza o passado de maneira nostálgica e aumenta indevidamente

as virtudes da Lacedemônia, a rival vitoriosa.

Pelo contrário, Aristóteles sente-se imediatamente um ateniense. Está

convencido da missão ecumênica daquela Cidade, à qual pertence em parte

por seu nascimento, mas sobretudo pela educação e pelo afeto. No entanto,

não compartilha em seu coração a dor patriótica e o orgulho ferido de seus

contemporâneos para com Filipe e Alexandre. Esforça-se por escrutar o futuro e

nele descobre as tribos gregas divididas reunindo-se sob o forte cajado dos

macedônios. Na evolução dos povos, queria ver superpor-se aos três estados

que descreveu - a família, a aldeia, a Cidade - o da federação dos Estados.

Diferentemente de Demóstenes, mais velho três anos do que ele, e que morreu

no mesmo ano, ele se sente incapaz de se ligar ao passado e de lutar

desesperadamente por ele.

Além disso, Aristóteles, como mais uma vez explica muito bem Wilhelm

Oncken, não pode ser um escritor "engajado". Atenas era sua pátria por

eleição e predileção, mas não sua pátria carnal, e sua escolha, que tudo deve

ao espírito, surpreende de início quando imaginamos a gravidade da situação e

a asperidade da luta que na época dividia os patriotas democratas e os

macedônios monarquistas. Atenas concedia-lhe, conforme as regras, a

proteção de sua pessoa, dos bens e das convicções, mas ele continuava a ser

um "meteco", um indivíduo sem direitos públicos, meramente tolerado, que

precisava de uma causa diante dos tribunais, que pagava doze dracmas por

ano para não ser vendido como escravo, que carregava os vasos sagrados nas

procissões e era obrigado a muita discrição no comportamento exterior. Sem

dúvida, a democracia ateniense era vasta em suas concepções sobre o direito

de cada um à existência, ao pensamento, à palavra, mas a aristocracia reagia

violentamente contra esse liberalismo. Na maior parte do tempo, os "metecos"

não participavam em nada da vida intelectual. Eram homens de negócios que,

assim como os judeus na Idade Média, viviam à margem das altas classes e

não pediam para se misturarem a elas. Aristóteles, ao contrário, por causa de

seu ensino, achava-se necessariamente em contato com a melhor sociedade e

deve ter sofrido com isso. Foi obrigado a levar adiante a sua polêmica com

Platão segundo as regras de uma grande prudência e dar provas de uma real

coragem intelectual, até o dia em que um perigo mortal o obrigou a partir.

Anteriormente, um novo e decisivo obstáculo lhe viera de seu casamento,

tornando um abismo o fosso profundo das castas que já o isolava. Como

dissemos, casara-se com Pítia. Ora, ela era sobrinha e filha adotiva de um

liberto, Hérmias, três vezes vendido como escravo. Embora tivesse reinado

sobre Atárnea cidadezinha da costa do Oriente Médio, nada podia apagar sua

origem, nem sua triste condição de eunuco. Os melhores amigos de

Aristóteles, que sempre o haviam defendido diante da opinião pública

ateniense, quiseram que esse casamento não fosse realizado, mas são

conhecidas as razões decoração e de reconhecimento que impulsionaram o

Estagirita a ir adiante.

Assim, a posição de Aristóteles com relação ao meio em que viveu

mostra-se inteiramente particular. Jamais se envolveu com política prática. Sua

condição de "meteco" e seu mau casamento o teriam impedido, na falta de

motivos intelectuais mais profundos. Não podia, portanto, chegar ao

conhecimento do Estado senão através dos estudos históricos e da

observação dos acontecimentos em que não devia intervir diretamente. Não

possuindo nem os direitos, nem os reflexos de um cidadão, ele se viu fora,

senão acima, das brigas de partido. A própria força dos acontecimentos o

situava na posição de observador objetivo e desinteressado. Não devia, com

seu mestre Platão, esperar uma reviravolta política, nem, com Demóstenes,

lançar-se com todas as forças na luta, como herói trágico. Como estrangeiro,

pensa, senão em conformidade com seus anfitriões, pelo menos fora de suas

correntes políticas ordinárias. Como filósofo, também conquistou esta

"coragem do isolamento" - de que ainda fala Paul Bureau; leva outra vida;

realiza outros estudos; constrói outro sistema; segue seu próprio caminho,

combatido por seus êmulos, mas cercado de discípulos.

É em meio a estes últimos que devemos agora considerá-lo para

compreender a extensão e a execução de sua obra política. O espetáculo, sem

dúvida, não é o que nos propõem "as atitudes nobres e estilizadas da Escola

de Atenas, ou, no extremo oposto, a atmosfera monótona e fechada de nossos

anfiteatros da Sorbonne. Mas é extremamente provável que... o encanto e a

liberdade só pudessem vir de fora, das árvores próximas, consagradas ao

deus da música, da luz trêmula que banhava as colinas atenienses". Porque a

Escola é chamada peripatética, erraríamos se reduzíssemos todos os seus

exercícios a uma espécie de recreação espiritual, semelhante à de Péguy e

seus companheiros ao redor da "Courrose", ou ainda M. Verdier e seus

clérigos "rodando" nos caminhos do trágico jardim do Carmo. A Escola é um

grupo laborioso que se empenhou em todos os domínios do saber. O mestre

não ensina ali apenas o que ele próprio observou e meditou. Éum diretor de

estudos cujo primeiro dever é organizar o trabalho científico. Sem

colaboradores, não teria podido recolher os materiais de tantas obras, que são

a organização de uma documentação quase universal.

No que diz respeito à Cidade, os textos que chegaram até nós confirmam

este duplo aspecto da atividade de Aristóteles: por um lado, a grande coletânea

das Constituições, base documental, dossiê por assim dizer justificativo, como

diz Théodore Reinach, da Política, que representa, por outro lado, a obra crítica,

a síntese sociológica e doutrinal.

As Constituições ou Politeia formavam uma vasta e metódica compilação,

estabelecida por volta de 325, que compreendia a análise, em ordem

alfabética, de cento e cinqüenta e oito Constituições dos Estados simples ou

das confederações, com um apêndice sobre o governo dos tiranos, uma

monografia sobre as leis dos bárbaros (Cartago e Roma) e um estudo especial

sobre as pretensões territoriais dos Estados. A obra, insubstituível, infelizmente

se perdeu, mas um fragmento considerável que se refere à Constituição de

Atenas foi reencontrado e publicado pela primeira vez em janeiro de 1891 por

Sir Frederico Kenyon. Ele nos dá uma idéia de conjunto e nos permite constatar

que a ordem de exposição é a mesma adotada hoje pelo direito constitucional

nacional, distinguindo duas partes, uma histórica, que trata da formação das

instituições no passado, outra sistemática, que se ocupa em detalhe com sua

situação presente. Podemos também ressaltar que Aristóteles encara não

apenas os poderes políticos, mas também a estrutura e o comportamento das

autoridades administrativas e judiciárias.

Nestas análises de primeira mão, nesta informação direta extremamente

extensa e variada, o autor baseia-se a seguir para estudar na Política os

elementos que compõem o Estado: a população (famílias e cidadãos); o

território (geografia ideal da Cidade); a autoridade política (fins do poder,

formas de governo, comparação e apreciação destes, exame das causas que

acarretam sua ruína ou garantem sua conservação). Assim, a obra é ao mesmo

tempo descritiva, comparativa e crítica. Por seu senso de realidade, pelo

contato direto que constantemente nela encontramos com os textos e os

costumes, ela se mostra rigorosamente científica; por sua integração com a

filosofia de Aristótéles, ela se torna uma doutrina, isto é, ela traz em si um ideal

reformador.

O Estagirita, aliás, considera sua Política a pedra de toque de todo seu

sistema, pois, contrariamente a tantas obras que se seguirão à sua, não

separa a política da moral, nem tampouco a submete a esta última.

Considerando que o homem tem por fim a felicidade, cuja plenitude está no

pensamento puro, Aristóteles acha que o homem só é verdadeiramente ele

mesmo no seio, da Cidade. Aí está sua condição natural de "animal cívico", e

não apenas num constrangimento de fato que ele teria que sofrer. É uma

situação bela, boa e desejável, apesar de sua seqüela de confusões e de

deveres incessantes e variados. Conseqüentemente, a ciência por excelência,

no que se refere à vida humana, é a ciência da sociedade. "Não só há mais

beleza no governo do Estado do que no governo de si mesmo, mas... tendo o

homem sido feito para a vida social, a Política é, relativamente à Ética, uma

ciência mestra, ciência arquitetônica."Nela encontra seu termo 0 ciclo dos

conhecimentos e culmina a enciclopédia construída pela Escola do Liceu, suma

de todo o saber antigo.

Biografia

Aristóteles nasceu no ano de 385 a.C. em Estagiros, cidadezinha da Trácia

fundada por colonos gregos no lugar onde hoje se situa Stavro, na costa

setentrional do mar Egeu.

Era ainda muito jovem quando morreu seu pai, Nicômaco, médico bastante

famoso, neto de Esculápio. Um amigo da família, Próxeno, que morava em

Estagiros, se encarregou de sua educação.

Aos dezessete anos, foi para Atenas prosseguir seus estudos. Em 367,

quando Platão retorna da Sicília e retoma seu magistério na Academia,

Aristóteles aparece como um de seus alunos mais assíduos e se distingue por

seu ardor e pela excepcional inteligência.

Depois de alguns anos de estudo, rompe subitamente com Platão, mas

sem cessar de testemunhar-lhe respeito e continuando a conservar do mestre

uma grata lembrança. Permanece, no entanto, em Atenas até 347; presume-se

que teria fundado uma escola retórica que lhe valeu grande reputação.

De 347 a 342, Aristóteles deixa Atenas. Torna-se como que um

embaixador oficioso junto a Filipe, que acaba de subir ao trono da Macedônia

e é quase seu amigo. Mais tarde o encontramos junto com outros alunos de

Platão, como Xenócrates, na Eólida, junto a Hérmias, tirano de Atárnea, que

seguiu seus cursos em Atenas e está contente por tê-lo junto a si. Permanece

na corte do tirano até a morte de Hérmias, que será estrangulado pelos persas.

Hérmias deixa uma filha e uma sobrinha. Aristóteles casa-se com a

sobrinha. Não se sentindo em segurança em Atárnea, parte para Mitilene,

onde permanece até 342.

Vai então à Macedônia, onde o chamava Filipe para lhe confiar a

educação de seu filho Alexandre, de treze anos. O filósofo esforça-se por

desenvolver nele as qualidades de moderação e de razão que lhe parecem

essenciais para a conduta de um soberano. Alexandre sente por seu mestre

um grande apego, que conservará até quando suceder a seu pai.

Todavia, Alexandre parte em conquista da Ásia em 335, e Aristóteles

considera que seu papel terminou. Deixa Alexandre e retorna a Atenas.

O ensino de Platão na Academia tem seqüência com Xenócrates.

Aristóteles, então, abre uma escola perto do templo de Apolo Lício, donde o

nome de escola do Liceu que lhe foi dado. Aristóteles expõe suas idéias

enquanto passeia com seus discípulos, e é por isso que são chamados

peripatéticos, do grego nFpínaTov, que significa " lugar de passeio".

O ensino de Aristóteles compreende duas séries de aulas: de manhã, trata

das questões puramente teóricas, no ensino exotérico reservado aos iniciados.

À tarde, Aristóteles se dirige a um público mais amplo: as questões tratadas

são mais acessíveis. A retórica ocupa um lugar importante; é o ensino

exotérico. Durante doze anos, prossegue suas aulas, não sem publicar

numerosas obras que abordam todos os domínios do saber humano.

Com a morte de Alexandre, em 323, os partidários da Macedônia vêem-se

ameaçados de morte e de perda dos bens pelo partido nacional ateniense,

dirigido por Demóstenes. Aristóteles, pró-macedônio, é acusado. Sem

aguardar o julgamento que deve condená-lo, deixa Atenas e vai para Cálcis, na

ilha de Eubéia.

Morre ali um ano depois, em 322, aos 63 anos. Deixa dois filhos, uma

menina, Pítia, com o nome de sua mulher, e um menino, Nicômaco, com o

nome de seu pai.

Diógenes Laércio conta que Aristóteles era um pouco gago, muito magro

de pernas, tinha olhos pequenos e gostava de belas roupas. As gravuras mais

antigas representam-no com uma longa barba ondulada, um nariz muito

arqueado e um bigode pendente.

Da Origem do Estado

O Estado e seu Governo

Como sabemos, todo Estado é uma sociedade, a esperança de um bem,

seu princípio, assim como de toda associação, pois todas as ações dos

homens têm por fim aquilo que consideram um bem. Todas as sociedades,

portanto, têm como meta alguma vantagem, e aquela que é a principal e

contém em si todas as outras se propõe a maior vantagem possível.

Chamamo-la Estado ou sociedade política.

Enganam-se os que imaginam que o poder de um rei ou de um magistrado

de República só se diferencie do de um pai de família e de um senhor pelo

número maior de súditos e que não há nenhuma diferença específica entre seus

poderes. Segundo eles, se tem poucos súditos é um senhor; se tem alguns a

mais é um pai de família; se tiver ainda mais é um rei ou um magistrado de

República. Como se não houvesse diferença entre uma grande família e um

pequeno Estado, nem entre um rei e um magistrado de República. A distinção

seria que um rei governa sozinho perpetuamente, enquanto um magistrado de

República comanda e obedece alienadamente, em virtude da Constituição.

Tudo isso, porém, é errado, como veremos ao examinar esta matéria segundo

o método que usamos em nossas outras obras'.

Como não podemos conhecer melhor as coisas compostas do que

decompondo-as e analisando-as até seus mais simples elementos,

comecemos por detalhar assim o Estado e por examinar a diferença das

partes, e procuremos saber se há uma ordem conveniente para tratar de cada

uma delas.

A Formação da Cidade

Nesta como em qualquer outra matéria, uma excelente atitude consiste em

remontar à origem. É preciso, inicialmente, reunir as pessoas que não podem

passar umas sem as outras, coma o macho e a fêmea para a geração. Esta

maneira de se perpetuar não é arbitrária e não pode, na espécie humana

assim como entre os animais e as plantas, efetuar-se senão naturalmente. É

para a mútua conservação que a natureza deu a um o comando e impôs a

submissão ao outro.

Pertence também ao desígnio da natureza que comande quem pode,

por sua inteligência, tudo prover e, pelo contrário, que obedeça quem não

possa contribuir para a prosperidade comum a não ser pelo trabalho de

seu corpo. Esta partilha é salutar para o senhor e para o escravo.

A condição da mulher difere da do escravo. A natureza, com efeito, não

age com parcimônia, como os artesãos de Delfos que forjam suas facas para

vários fins; ela destina cada coisa a um uso especial; cada instrumento que só

tem o seu uso é o melhor para ela. Somente entre os bárbaros a mulher e o

escravo estão no mesmo nível. Assim, esses povos não têm o atributo que

importa naturalmente a superioridade e sua sociedade só é composta de

escravos dos dois sexos. Foi isso que fez com que o poeta acreditasse que os

gregos tinham, de direito, poder sobre os bárbaros, como se, na natureza,

bárbaros e escravos se confundissem. A principal sociedade natural, que é a

família, formou-se, portanto, da dupla reunião do homem e da mulher, do

senhor e do escravo. O poeta Hesíodo tinha razão ao dizer que era preciso

antes de tudo A casa, e depois a mulher e o boi lavrador, já que o boi

desempenha o papel do escravo entre os pobres. Assim, a família é a

sociedade cotidiana formada pela natureza e composta de pessoas que

comem, como diz Carondas, o mesmo pão e se esquentam, como diz

Epimênides de Creta, com o mesmo fogo.

A sociedade que em seguida se formou de várias casas chama-se aldeia e

se assemelha perfeitamente à primeira sociedade natural, com a diferença de

não ser de todos os momentos, nem de uma freqüentação tão contínua. Ela

contém as crianças e as criancinhas, todas alimentadas com o mesmo leite.

De qualquer modo, trata-se de uma colônia tirada da primeira pela natureza.

Assim, as Cidades inicialmente foram, como ainda hoje o são algumas

nações, submetidas ao governo real, formadas que eram de reuniões de

pessoas que já viviam sob um monarca. Com efeito, toda família, sendo

governada pelo mais velho como que por um rei, continuava a viver sob a

mesma autoridade, por causa da consangüinidade. Este é o pensamento de

Homero, quando diz:

Cada um, senhor absoluto de seus filhos e de suas mulheres,

Distribui leis a todos...

Isso ocorria porque nos primeiros tempos as famílias viviam dispersas. É

ainda por esta razão que todos os homens que antigamente viveram e ainda

vivem sob reis dizem que os deuses vivem da mesma maneira, atribuindo-lhes

o governo das sociedades humanas, já que os imaginam sob a forma do

homem.

O Homem, "Animal Cívico"

A sociedade que se formou da reunião de várias aldeias constitui a Cidade,

que tem a faculdade de se bastar a si mesma, sendo organizada não apenas

para conservar a existência, mas também para buscar o bem-estar. Esta

sociedade, portanto, também está nos desígnios da natureza, como todas as

outras que são seus elementos. Ora, a natureza de cada coisa é precisamente

seu fim2. Assim, quando um ser é perfeito, de qualquer espécie que ele seja -

homem, cavalo, família -, dizemos que ele está na natureza. Além disso, a coisa

que, pela mesma razão, ultrapassa as outras e se aproxima mais do objetivo

proposto deve ser considerada a melhor. Bastar-se a si mesma é uma meta a

que tende toda a produção da natureza e é também o mais perfeito estado. É,

portanto, evidente que toda Cidade está na natureza e que o homem é

naturalmente feito para a sociedade política. Aquele que, por sua natureza e

não por obra do acaso, existisse sem nenhuma pátria seria um indivíduo

detestável, muito acima ou muito abaixo do homem, segundo Homero:

Um ser sem lar, sem família e sem leis.

Aquele que fosse assim por natureza só respiraria a guerra, não sendo

detido por nenhum freio e, como uma ave de rapina, estaria sempre pronto

para cair sobre os outros.

Assim, o homem é um animal cívico, mais social do que as abelhas e os

outros animais que vivem juntos. A natureza, que nada faz em vão, concedeu

apenas a ele o dom da palavra, que não devemos confundir com os sons da

voz. Estes são apenas a expressão de sensações agradáveis ou

desagradáveis, de que os outros animais são, como nós, capazes. A natureza

deu-lhes um órgão limitado a este único efeito; nós, porém, temos a mais,

senão o conhecimento desenvolvido, pelo menos o sentimento obscuro do bem

e do mal, do útil e do nocivo, do justo e do injusto, objetos para a manifestação

dos quais nos foi principalmente dado o órgão da fala. Este comércio da

palavra é o laço de toda sociedade doméstica e civil.

O Estado, ou sociedade política, é até mesmo o primeiro objeto a que se

propôs a natureza'. O todo existe necessariamente antes da parte. As

sociedades domésticas e os indivíduos não são senão as partes integrantes da

Cidade, todas subordinadas ao corpo inteiro, todas distintas por seus poderes

e suas funções, e todas inúteis quando desarticuladas, semelhantes às mãos e

aos pés que, uma vez separados do corpo, só conservam o nome e a

aparência, sem a realidade, como uma mão de pedra. O mesmo ocorre com

os membros da Cidade: nenhum pode bastar-se a si mesmo. Aquele que não

precisa dos outros homens, ou não pode resolver-se a ficar com eles, ou é um

deus, ou um bruto. Assim, a inclinação natural leva os homens a este gênero de

sociedade.

O primeiro que a instituiu trouxe-lhe o maior dos bens. Mas, assim como o

homem civilizado é o melhor de todos os animais, aquele que não conhece nem

justiça nem leis é o pior de todos. Não há nada, sobretudo, de mais intolerável

do que a injustiça armada. Por si mesmas, as armas e a força são indiferentes

ao bem e ao mal: é o princípio motor que qualifica seu uso. Servir-se delas sem

nenhum direito e unicamente para saciar suas paixões rapaces ou lúbricas é

atrocidade e perfídia. Seu uso só élícito para a justiça. O discernimento e o

respeito ao direito formam a base da vida social e os juízes são seus primeiros

órgãos.

Do Senhor e do Escravo

Após ter indicado quais são as partes que constituem o Estado, devemos,

já que os Estados são formados de famílias, falar primeiro do governo

doméstico.

Uma família completamente organizada compõe-se de escravos e de

pessoas livres. Mas como só se conhece a natureza de um todo pela análise

de suas partes integrantes, sem exceção das menores, e como as partes

primitivas e mais simples da família são o senhor e o escravo, o marido e a

mulher, o pai e os filhos, convém examinar quais devem ser as funções e a

condição de cada uma destas três partes.

Chamaremos despotismo o poder do senhor sobre o escravo; marital, o do

marido sobre a mulher; paternal, o dopai sobre os filhos (dois poderes para os

quais o grego não tem substantivos).

Alguns fazem também entrar no econômico4 a parte relativa aos bens que

compõem o patrimônio das famílias e aos meios de adquiri-los. Trata-se até,

segundo outros, do elemento principal.

O Poder do Senhor ou "Despotismo"

Para conhecer o que é indispensável à composição da família,

comecemos por falar do poder despótico e da escravidão, e vejamos senão

seria possível encontrar sobre esta matéria algo mais satisfatório do que já foi

dito até o presente.

Uns, de fato, como já vimos, confundem todos os poderes e compreendem,

num só e único sistema, o poder do mestre e a realeza, o governo republicano

e a administração da economia; outros consideram que o poder senhorial não

tem nenhum fundamento na natureza e pretendem que esta nos criou a todos

livres, e a escravidão só foi introduzida pela lei do mais forte e é, por si mesma,

injusta como um puro efeito da violência.

Quanto à economia, observo que é impossível viver comodamente, ou

mesmo simplesmente viver, sem o necessário. Portanto, como os bens fazem

parte da casa, os meios de adquiri-los também fazem parte do governo

doméstico; e, assim como nenhuma das artes que têm um objeto preciso e

determinado realiza sua obra sem seus instrumentos próprios, a economia

também precisa deles para chegar ao seu objetivo.

Existem dois tipos de instrumentos: uns inanimados, outros animados.

Assim é que, para a navegação, o leme é o instrumento inanimado e o piloto, o

instrumento animado. Em todas as artes, o trabalhador é uma espécie de

instrumento.

Um bem é um instrumento da existência; as propriedades são uma reunião

de instrumentos e o escravo, uma propriedade instrumental animada, como um

agente preposto a todos os outros meios. Se cada instrumento pudesse

executar por si mesmo a vontade ou a intenção do agente, como faziam,

dizem, as marionetes de Dédalo ou os tripés de Vulcano, que vinham por si

mesmos, segundo Homero, aos combates dos deuses, se a lançadeira

tecesse sozinha a tela, se o arco tirasse sozinho de uma cítara o som

desejado, os arquitetos não mais precisariam de operários, nem os mestres

de escravos.

Chama-se "instrumento" o que realiza o efeito, e "propriedade doméstica" o

que ele produz. O tear, por exemplo, e o torno, além do exercício que nos

proporciona seu uso, fornecem-nos ainda pano e camas; ao passo que o pano

e a cama que eles nos produzem se imitam ao nosso simples uso.

Há também diferença entre "fazer" e "agir" e, como ambos precisam de

instrumentos, deve haver entre seus instrumentos a mesma diferença. A vida

consiste no uso, não na produção. O servidor é o ministro da ação; chamam-no

propriedade da casa, como parte dela.

A coisa possuída está para o possuidor assim como a parte está para o

todo; ora, a parte não é somente distinta do todo, ela lhe pertence; o mesmo

ocorre com a coisa possuída em relação ao possuidor. O senhor não é senão o

proprietário de seu escravo, mas não lhe pertence; o escravo, pelo contrário,

não somente é destinado ao uso do senhor, como também dele é parte. Isto

basta para dar uma idéia da escravidão e para fazer conhecer esta condição.

O homem que, por natureza, não pertence a si mesmo, mas a um outro, é

escravo por natureza: é uma posse e um instrumento para agir separadamente

e sob as ordens de seu senhor.

A Servidão Natural

Mas faz a natureza ou não de um homem um escravo? É justa e útil a

escravidão ou é contra a natureza? É isto que devemos examinar agora.

O fato e a experiência, tanto quanto a razão, nos conduzirão aqui ao

conhecimento do direito.

Não é apenas necessário, mas também vantajoso que haja mando por um

lado e obediência por outro; e todos os seres, desde o primeiro instante do

nascimento, são, por assim dizer, marcados pela natureza, uns para comandar,

outros para obedecer.

Entre eles, há várias espécies de superiores ou de súditos, e o mando é

tanto mais nobre quanto mais elevado é o próprio súdito. Assim, mais vale

comandar homens do que animais. O que se executa mediante melhores

agentes é sempre mais bem executado, partindo então a execução do mesmo

princípio que o comando; ao passo que, quando aquele que manda e aquele

que obedece são de espécies diferentes, cada um sacrifica algo de seu.

Em tudo o que é composto de várias partes, quer contínuas, quer disjuntas,

mas tendentes a um fim comum, sempre notamos uma parte eminente à qual

as outras estão subordinadas, e isso não apenas nas coisas animadas, mas

também nas que não o são, tais como os objetos suscetíveis de harmonia.

Mas, aqui, me afastarei por certo de meu objetivo.

O animal compõe-se primeiro de uma alma, depois de um corpo: a

primeira, por sua natureza, comanda e o segundo obedece. Digo "por sua

natureza", pois é preciso considerar o mais perfeito como tendo emanado

dela, e não o que é degradado e sujeito à corrupção. O homem, segundo a

natureza, é aquele que é bem constituído de alma e de corpo. Se nas coisas

viciosas e depravadas o corpo não raro parece comandar a alma, é

certamente por erro e contra a natureza.

É preciso, portanto, como dissemos, considerar nos seres animados a

autoridade do senhor e a do magistrado: a primeira é a da alma sobre o corpo;

a segunda exerce sobre as paixões humanas o poder da razão. É claro que o

comando, nestas duas espécies, é conforme à natureza, assim como ao

interesse de todas as partes, e a igualdade ou a alternância seriam muito

nocivas a ambas.

O mesmo ocorre com o homem relativamente aos outros animais, tanto os

que se domesticam quanto os que permanecem selvagens, a pior das duas

espécies. Para eles é preferível obedecer ao homem; seu governo é-lhes

salutar.

A natureza ainda subordinou um dos dois animais ao outro. Em todas as

espécies, o macho é evidentemente superior à fêmea: a espécie humana não é

exceção.

Assim, em toda parte onde se observa a mesma distância que há entre a

alma e o corpo, entre o homem e o animal, existem as mesmas relações; isto é,

todos os que não têm nada melhor para nos oferecer do que o uso de seus

corpos e de seus membros são condenados pela natureza à escravidão. Para

eles, é melhor servirem do que serem entregues a si mesmos. Numa palavra, é

naturalmente escravo aquele que tem tão pouca alma e poucos meios que

resolve depender de outrem. Tais são os que só têm instinto, vale dizer, que

percebem muito bem a razão nos outros, mas que não fazem por si mesmos

uso dela. Toda a diferença entre eles e os animais é que estes não participam

de modo algum da razão, nem mesmo têm o sentimento dela e só obedecem a

suas sensações. Ademais, o uso dos escravos e dos animais é mais ou menos

o mesmo e tiram-se deles os mesmos serviços para as necessidades da vida.

A natureza, por assim dizer, imprimiu a liberdade e a servidão até nos

hábitos corporais. Vemos corpos robustos talhados especialmente para

carregar fardos e outros usos igualmente necessários; outros, pelo contrário,

mais disciplinados, mas também mais esguios e incapazes de tais trabalhos,

são bons apenas para a vida política, isto é, para os exercícios da paz e da

guerra. Ocorre muitas vezes, porém, o contrário: brutos têm a forma exterior da

liberdade e outros, sem aparentar, só têm a alma de livre.

Limitando-nos aos aspectos materiais, como no caso das estátuas dos

deuses, não hesitamos em acreditar que os indivíduos inferiores devem ser

submissos. Se isto é verdade quando se trata do corpo, por mais forte razão

devemos di-lo da alma; mas a beleza de um não é tão fácil de discernir quanto

a da outra.

Não pretendemos agora estabelecer nada além de que, pelas leis da

natureza, há homens feitos para a liberdade e outros para a servidão, os quais,

tanto por justiça quanto por interesse, convém que sirvam. No entanto, é fácil

ver que a opinião contrária não seria inteiramente desprovida de razão.

A Servidão Convencional

Além da servidão natural, existe aquela que chamamos servidão

estabelecida pela lei; esta lei é uma espécie de convenção geral, segundo a

qual a presa tomada na guerra pertence ao vencedor.

Será justo? Sobre isso, os jurisconsultos não chegam a um acordo, nem

tampouco, aliás, sobre a justiça de muitas outras decisões tomadas nas

Assembléias populares, contra as quais eles reclamam. Consideram cruel que

um homem que sofreu violência se torne escravo do que o violentou e só tem

sobre ele a vantagem da força. Este, pelo menos, é um ponto muito

controverso para eles e, se têm muitos contraditores, têm também muitos

partidários, mesmo entre os filósofos.

A razão de duvidar e de contestar é que a coragem, num grau eminente,

sempre permanece vencedora; que a vitória de ordinário supõe em si uma

superioridade qualquer; enfim, que a própria força é uma espécie de mérito. A

dúvida só permanece, portanto, quanto ao direito: uns não podem separar o

direito da benevolência, outros afirmam que é da própria essência do direito

que o mais valente comande.

Destas duas opiniões, a segunda não é nem sólida nem tampouco

persuasiva. A superioridade de coragem não é uma razão para sujeitar os

outros.

Os que consideram a lei como justa (e o é, com efeito, quando não ordena

nada de ilícito) não rejeitam absolutamente a servidão estabelecida pelas leis

da guerra, mas tampouco a admitem inteiramente, pois a própria guerra pode

ser injusta em seu princípio; ora, jamais um homem de bom senso tratará como

escravo um homem que não mereceu a escravidão; caso contrário, dizem eles,

se bastasse pegar as pessoas e vendê-las, veríamos na escravidão

personagens do mais alto nível, elas e seus filhos que caíssem em poder do

vencedor. Pretendem, portanto, que se considerem estes homens

simplesmente como estrangeiros, mas não como escravos, o que, pela

intenção, se reduz ao que dissemos, que só são escravos os que foram

destinados à servidão pela natureza.

É preciso convir, com efeito, que certas pessoas são escravas em toda

parte e outras, nenhures.

O mesmo ocorre com a nobreza. Consideram a dos povos cultivados

como pura e existente em toda a parte; a dos povos bárbaros, como local e

boa somente para eles. Distinguem o homem livre do escravo, a nobreza do

vulgo pelas vantagens e vícios de nascimento. Como diz a Helena de

Teodecto:

Escrava, eu? Que homem tão audacioso

Poderia chamar assim uma filha dos deuses.

Os que partilham desta opinião não diferenciam o escravo do homem livre,

o nobre do plebeu, senão pela distância entre o vício e a virtude; e, como o

homem vem do homem e o animal do animal, acham que o bom só pode vir do

bom.

Pode ser esta a intenção da natureza. Mas, longe de ser sempre

bem-sucedida, muitíssimas vezes ela sofre desvios.

Embora a distinção entre o homem livre e o escravo por natureza tenha

seus partidários e seus adversários, pelo menos não resta nenhuma dúvida de

que se encontram em todos os lugares combinações de pessoas nas quais a

uma cabe servir e à outra comandar, assumindo o papel para o qual a natureza

as predestinou. O comando de uma pode ser justo e útil, e a liberdade da

outra, injusta e funesta para ambas.

O que convém ao todo convém também à parte; o que convém à alma

convém igualmente ao corpo. Ora, o escravo faz, por assim dizer, parte de seu

senhor: embora separado na existência, é como um membro anexado a seu

corpo. Ambos têm o mesmo interesse e nada impede que estejam ligados

pelo sentimento da amizade, quando foi a conveniência natural que os reuniu.

As coisas são diferentes quando eles só estão reunidos pelo rigor da lei ou

pela violência dos homens.

Diferenças entre o "Despotismo"

e o Poder Político

Vemos, assim, claramente que o poder "despótico" e o governo político

são, apesar da opinião de alguns, coisas muito diferentes. Um só existe para

os escravos; o outro existe para as pessoas que a natureza honrou com a

liberdade. O governo doméstico é uma espécie de monarquia: toda casa se

governa por uma só pessoa; o governo civil, pelo contrário, pertence a todos os

que são livres e iguais.

Não é, aliás, uma ciência adquirida que faz de um homem senhor de um

outro. Esta qualidade pode existir sem isso; como a liberdade e a servidão, ela

tem um caráter que lhe é natural. Sem dúvida, existe um talento para comandar

e para servir. Por exemplo, em Siracusa, uma espécie de preceptor abriu uma

escola de escravidão e exigia dinheiro para preparar as crianças para este

estado, com todos os pormenores de suas funções. Pode haver um ensino

completo dessa espécie de profissão, assim como existem preceitos para a

cozinha e outros gêneros de serviço, ou mais estimados, ou mais necessários,

pois também o serviço tem os seus graus. "Há serviçais e serviçais" - diz o

provérbio -, "e há senhores e senhores."

Quanto à ciência do senhor, como não é nem na aquisição, nem na posse,

mas no uso de seus escravos que está o seu domínio, ela se reduz a saber

fazer uso deles, isto é, a saber ordenar-lhes o que eles devem saber fazer. Não

há aí nenhum trabalho grande ou sublime, e assim os que têm meios de evitar

esse estorvo desembaraçam-se dele com algum intendente, quer para se

dedicar à política, quer para se dedicar à filosofias.

Da Propriedade e dos Meios de Adquiri-Ia

O talento para adquirir um bem difere claramente da ciência do governo ou

da do serviço. Parece-se mais com a arte militar ou com a caça. Ao expor a

teoria, porém, seguiremos o plano que traçamos mais acima, em que o

escravo só entra como coisa ou instrumento.

A arte de adquirir bens será idêntica à ciência do governo doméstico? Faz

parte dela ou será apenas um de seus meios? E, caso seja apenas um de seus

meios, será como a arte de fazer lançadeiras serve à do tecelão ou como a

forja do bronze serve à arte do fundidor de estátuas? Pois não é o mesmo

gênero de trabalho, já que uma dessas artes só fornece o instrumento e as

outras, só a matéria. (Entendo por matéria aquilo de que se faz a obra, como a

lã para o fabricante de tecidos e o bronze para o fundidor de estátuas.)

É claro que a arte de aprovisionar uma casa não é a mesma coisa que a

arte de governar. A primeira só traz os meios, a segunda faz uso deles; pois a

que pertenceria o uso dos bens da casa a não ser à ciência do governo

doméstico?

Mas uma faz parte da outra ou é uma espécie à parte? Isto oferece

dificuldade, pois, se para adquirir for preciso saber de onde vêm as riquezas e

os bens de todos os gêneros, não podemos deixar de reconhecer um grande

número de propriedades diferentes.

A Aquisição Natural ou "Economia"

É uma primeira questão dizer se a agricultura, que é apenas uma maneira

de obter os alimentos necessários à vida, ou alguma outra indústria que

também tenha os alimentos como objeto, pertencem à arte de se enriquecer.

Existem várias espécies de alimentos, e esta diversidade introduziu vários

gêneros de vida, tanto entre os homens quanto entre os outros animais. Pois

não se pode viver sem alimentos. Ora, é sua diversidade que torna

dessemelhante o gênero de vida dos animais.

Alguns dentre eles se reúnem em bandos, outros levam uma vida solitária,

conforme seja mais conveniente para obter alimento. Uns são carnívoros, outros

frugívoros e alguns comem de tudo. A natureza, portanto, distinguiu seu gênero

de vida conforme a espécie de alimentos e a facilidade que têm para obtê-los.

Nem todos gostam do mesmo alimento: tal agrada a alguns, outro aos: demais.

Eis por que os carnívoros e os frugívoros não têm o mesmo gênero de vida.

Todas estas diferenças também se notaram na vida dose, homens. Os que

amam o repouso preferiram a vida pastoral. Sem que isto lhes custe nenhum

trabalho, eles: tiram sua subsistência de animais domesticados e só mudam de

lugar com seus rebanhos, exercendo uma espécie de cultura de seres vivos.

Outros vivem de suas presas: os caçadores, de presas terrestres; os

pescadores, de presas aquáticas; estes,: à margem dos pântanos, das lagoas,

dos rios e do mar; aqueles, nas planícies e nos bosques onde habitam os

pássaros e os animais selvagens.

Mas a maioria dos homens tira seu alimento do seio da terra e vive de seus

frutos, adoçados pela cultura.

Numa palavra, existem tantos gêneros de vida quanto operações naturais

para obter víveres, sem contar os que se adquirem por troca ou compra. Vida

pastoral, vida agrícola, vida aventureira baseada nas capturas da caça ou da

pesca, todos estes são gêneros que se misturam e se combinam na maior

parte dos povos, conforme a necessidade, a fantasia ou o prazer, para suprir

através de um a falta do outro, sendo tal povo pastor e salteador, tal outro

agrícola e caçador, ou vivendo conforme a necessidade.

Assim, a natureza proveu todos os animais, tanto no momento de sua

geração como quando atingiram a perfeição: aqueles, por exemplo, que

nascem de ovos, colocando sob o próprio invólucro o alimento suficiente até

que nasçam; aqueles que pertencem à espécie vivípara, enchendo de leite o

seio de sua mãe até a hora em que podem dispensá-lo.

Da mesma forma, a natureza proveu as suas necessidades depois do

nascimento; foi para os animais em geral que ela fez nascerem as plantas; é

aos homens que ela destina os próprios animais, os domesticados para o

serviço e para a alimentação, os selvagens, pelo menos a maior parte, para a

alimentação e para diversas utilidades, tais como o vestuário e os outros

objetos que se tiram deles. A natureza nada fez de imperfeito, nem de inútil; ela

fez tudo para nós.

A própria guerra é um meio natural de adquirir; a caça faz parte dela;

usa-se desse meio não apenas contra os animais, mas também contra os

homens que, tendo nascido para obedecer, se recusam a fazê-lo. Este tipo de

guerra nada tem de injusto, sendo, por assim dizer, declarada pela própria

natureza.

Conforme esta breve exposição, é evidente que o governo, tanto o das

famílias particulares como o dos Estados, contém como parte integrante todas

as maneiras naturais de adquirir as coisas necessárias ou úteis à vida. Ele

deve encontrar sob sua mão todas as coisas, ou senão saber onde tomá-las.

As verdadeiras riquezas são essas; não é difícil determinar a quantidade

necessária para o bem-estar. Sólon não se referia a elas quando dizia:

O homem quer acumular sem fim e sem medida.

Exprimia-se, então, mais como poeta do que como filósofo, pois nesta

como em todas as coisas existem limites. Em qualquer arte possível, nenhum

gênero de instrumento é infinito em número ou em grandeza. Ora, quer nas

casas particulares, quer nas lojas públicas as riquezas naturais são apenas um

acervo de instrumentos para sustentar a vida humana.

A Aquisição Artificial ou "Crematística"

Existe, portanto - mostramos agora a razão disso -, um gênero de riquezas

naturais próprio à economia doméstica tanto quanto à economia política. Mas

existe também um outro gênero de bens e de meios que comumente

chamamos, e com razão, especulativo, e que parece não ter limites.

Alguns os confundem com as riquezas de que acabamos de falar, por

causa da sua afinidade. Embora elas

não estejam muito distantes, não são a mesma coisa: as primeiras são

naturais, enquanto as segundas são um produto da arte e da experiência.

Comecemos pela seguinte observação: cada coisa que possuímos tem

dois usos, dos quais nenhum repugna a sua natureza; porém, um é próprio e

conforme a sua destinação, outro desviado para algum outro fim. Por exemplo,

o uso próprio de um sapato é calçar; podemos também vendê-lo ou trocá-lo

para obter dinheiro ou pão, ou alguma outra coisa, isto sem que ele mude de

natureza; mas este não é o seu uso próprio, já que ele não foi inventado para o

comércio. O mesmo acontece com as outras coisas que possuímos. A

natureza não as fez para serem trocadas, mas, tendo os homens uns mais,

outros menos do que precisam, foram levadas por este acaso à troca.

Tampouco foi a natureza que produziu o comércio que consiste em

comprar para revender mais caro. A troca era um expediente necessário para

proporcionar a cada um a satisfação de suas necessidades. Ela não era

necessária na sociedade primitiva das famílias, onde tudo era comum.

Tornou-se necessária apenas nas grandes sociedades e após a separação

das propriedades. É até mesmo corrente ainda hoje entre vários povos

bárbaros. Quando uma tribo tem de sobra o que falta a outra, elas permutam o

que têm de supérfluo através de trocas recíprocas; vinho por trigo ou outras

coisas que lhes podem ser de uso, e nada mais. Trata-se de um gênero de

comércio que não está nem fora das intenções da natureza, nem tampouco é

uma das maneiras naturais de aumentar seus pertences, mas sim um modo

engenhoso de satisfazer as respectivas necessidades.

Foi esse comércio que, dirigido pela razão, fez com que se imaginasse o

expediente da moeda. Não era cômodo transportar para longe as mercadorias

ou outras produções para trazer outras, sem estar certo de encontrar aquilo que

se procurava, nem que aquilo que se levava conviria. Podia acontecer que não

se precisasse do supérfluo dos outros, ou que não precisassem do vosso.

Estabeleceu-se, portanto, dar e receber reciprocamente em troca algo que, além

de seu valor intrínseco, apresentasse a comodidade de ser mais manejável e de

transporte mais fácil, como o metal, tanto o ferro quanto a prata ou qualquer

outro, que primeiramente se determinou pelo volume ou pelo peso e a seguir se

marcou com um sinal distintivo de seu valor, a fim de não se precisar medi-lo ou

pesá-lo a toda hora.

Tendo a moeda sido inventada, portanto, para as necessidades de

comércio, originou-se dela uma nova maneira de comerciar e adquirir. A

princípio, era bastante simples; depois, com o tempo, passou a ser mais

refinada, quando se soube de onde e de que maneira se podia tirar dela o maior

lucro possível. É este lucro pecuniário que ela postula; ela só se ocupa em

procurar de onde vem mais dinheiro: é a mãe das grandes fortunas. De fato,

comumente se faz consistir a riqueza na grande quantidade de dinheiro.

No entanto, o dinheiro é somente uma ficção e todo seu valor é o que a lei

lhe dá. Mudando a opinião dos que fazem uso dele, não terá mais nenhuma

utilidade e não proporcionará mais a menor das coisas necessárias à vida.

Mesmo se se tiver uma enorme quantidade de dinheiro, não se encontrarão, por

meio dele, os mais indispensáveis alimentos. Ora, é absurdo chamar "riquezas"

um metal cuja abundância não impede de se morrer de fome; prova disso é o

Midas da fábula, a quem o céu, para puni-lo de sua insaciável avareza,

concedera o dom de transformar em ouro tudo o que tocasse. As pessoas

sensatas, portanto, colocam em outra parte as riquezas e preferem (e nisto

estão certas) outro gênero de aquisição. As verdadeiras riquezas são as da

natureza; apenas elas são objeto da ciência econômica.

A outra maneira de enriquecer pertence ao comércio, profissão voltada

inteiramente para o dinheiro, que sonha com ele, que não tem outro elemento

nem outro fim, que não tem limite onde possa deter-se a cupidez.

Em geral, todas as artes querem indefinidamente seu fim. A medicina, por

exemplo, que tem por objeto a saúde, abarca todos os casos que levam ao seu

restabelecimento, que são inúmeros. Mas cada um dos meios de cada arte tem

seus limites e está consumado quando chega ao seu fim, isto é, ao último termo

que deve alcançar.

O fim a que se propõe o comércio não tem limite determinado. Ele

compreende todos os bens que se podem adquirir; mas é menos a sua

aquisição do que seu uso 0 objeto da ciência econômica; esta, portanto, está

necessariamente restrita a uma quantidade determinada.

Não ignoramos que neste ponto a teoria é desmentida pela prática. Todos, e

principalmente os comerciantes, amam o dinheiro, não julgam ter o suficiente e

sempre acumulam. De um ao outro, é apenas um passo.

O dinheiro serve-lhes para dois usos análogos e alternativos: um, para

comprar as coisas e revendê-las mais caro; outro, para emprestar e retirar, após

o prazo estabelecido, seu capital com juros. Estes dois ramos do seu tráfico não

diferem, como se vê, senão porque um interpõe as coisas para aumentar o

dinheiro, enquanto o outro o faz servir imediatamente ao seu próprio aumento.

Alguns acham que as duas operações convêm ao governo doméstico e que

é preciso não somente conservar o que se tem, mas também multiplicar o

dinheiro ao infinito. O princípio desta disposição de espírito é que eles só

pensam em viver e não em bem viver', paixão que não tem limites e não refreia

de modo algum a escolha dos meios.

Aqueles mesmos que desejam bem viver não deixam de procurar também

os prazeres da vida animal e, como isso depende das faculdades pecuniárias,

põem todo seu zelo em obtê-los. Este é o princípio de uma outra espécie de

tráfico cujos recursos só foram imaginados para o luxo.

Aqueles que considerações particulares impedem de correr atrás da fortuna

através do comércio tentam consegui-la por outros meios, às vezes até pelo

mais monstruoso abuso de suas qualidades superiores e de suas faculdades. A

coragem, por exemplo, não foi dada ao homem pela natureza para acumular

bens, mas para proporcionar tranqüilidade. Não é esse tampouco o objeto da

profissão militar, nem o da medicina, tendo uma por objeto vencer, e outra curar.

Converteram-nas, porém, em meios de obter riqueza: elas se tornam o único fim

da maioria das pessoas que entram nessas carreiras e subordinam tudo à meta

que se propuseram.

Vemos quais são os meios artificiais e não necessários de adquirir bens, e

as causas que determinam que se recorra a eles; vemos também quais são os

meios naturais e necessários que têm por objeto garantir a subsistência e que

pertencem ao governo doméstico, gênero de aquisição que tem limites e é

muito diferente daquele que não os tem.

Apreciação dos Dois Modos de Aquisição

A questão pela qual começamos era saber se o governo, quer doméstico,

quer político, compreende a tarefa de adquirir ou se ele não pressupõe já feitas

as aquisições. Pois, assim como a política não faz os homens, mas os recebe

da natureza e se serve deles, assim também é preciso antes, para que a

economia possa administrá-los, que a natureza forneça nosso sustento, ou do

seio da terra, ou do mar, ou de qualquer outra maneira. Um fabricante de tecidos

não faz a lã, mas serve-se dela; julga se ela é boa ou má e própria ou não aos

seus fins.

Caso contrário, poderíamos perguntar por que a preocupação com a fortuna

faria, mais do que a medicina, parte do governo doméstico. Se, com efeito, é

preciso que a família tenha alimentos e outras coisas necessárias à vida, é

preciso também que ela goze de saúde, mas se convém, sob alguns aspectos,

que o chefe da família ou do Estado mantenha sob seus cuidados a saúde de

seus protegidos, sob outros aspectos isto cabe mais ao médico do que a ele;

igualmente, para o abastecimento e a abundância, este cuidado pode também

caber a seus ministros.

O governo, como já dissemos, pressupõe a existência de todas essas

coisas: cabe à natureza fornecer o alimento aos seres que gera e, de ordinário,

o pai o dá aos filhos. Nada de mais natural do que o cuidado em colher frutos ou

nutrir o gado para o uso.

Assim, das duas maneiras de adquirir e de se enriquecer, uma pela

economia e pelos trabalhos rústicos, outra pelo comércio, a primeira é

indispensável e merece elogios; a segunda, em contrapartida, merece algumas

censuras: nada recebe da natureza, mas tudo da convenção.

O que há de mais odioso, sobretudo, do que o tráfico de dinheiro, que

consiste em dar para ter mais e com isso desvia a moeda de sua destinação

primitiva? Ela foi inventada para facilitar as trocas; a usura, pelo contrário, faz

com que o dinheiro sirva para aumentar-se a si mesmo; assim, em grego, lhe

demos o nome de tokos, que significa progenitura,porque as coisas geradas se

parecem com as que as geraram. Ora, neste caso, é a moeda que torna a trazer

moeda, gênero de ganho totalmente contrário à natureza.

Algumas Maneiras Práticas de Adquirir

O que dissemos basta para a teoria. Agora é preciso dar à prática alguns

desenvolvimentos, pois, se a discussão da teoria tem sua liberdade, a prática

também tem sua necessidade.

A atenção deve concentrar-se principalmente no conhecimento das coisas

antes que elas próprias sejam adquiridas: saber quais são as melhores, onde se

encontram, e qual é a maneira mais vantajosa de obtê-las; por exemplo, quais

são os melhores cavalos, os melhores bois, os melhores carneiros ou outros

animais, em que regiões eles se dão bem (pois nem todas as regiões são

igualmente próprias para criá-los), e como podemos tê-los. O mesmo ocorre

para a agricultura: é preciso conhecer os diversos tipos de terrenos virgens ou

plantados; igualmente, ainda, para as abelhas, os animais aquáticos e as aves

de galinheiro: devemos saber que proveito podemos tirar deles.

Quanto às maneiras de adquirir por troca, a principal é o comércio, que se

divide em três partes: navegação, transporte por terra e venda no próprio local.

Estas partes diferem entre si, sendo umas mais seguras, outras mais lucrativas.

Depois do comércio, vem o tráfico de espécies metálicas.

Seguem-se os trabalhos mercenários, dos quais alguns dependem de

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