As formas do silêncio - Eni Orlandi, Notas de aula de Literatura
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As formas do silêncio - Eni Orlandi, Notas de aula de Literatura

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Lu Zz UCCINELLI OR AO ORI CR No movimento dos sentidos EDITORA FICHA CATALOGRÁFICA ELABORADA PELO SISTEMA DE BJPLIOTECAS DA UNICAMP DIRETORIA DE TRATAMENTO DA INFORMAÇÃO Orlandi, Eni Puccinelli, 1942- Orsf As formas do silêncio: no movimento des sentidos / Eni Puccinelli Ogandi. - 6*ed, — Campinas, s?: Faditora dz Unicamp, 2907. 1. Linguagem — Filosofia, 2. Silêncio, 3. Sentidos e sensações 1 Tímlo. con 401 cor.56 ISBN 978-85-268-0755-6 1s21 Índices para catálogo sistemático: 1. Linguagem-Filoschia 401 oat.só 3. Sentidos e sensações 1821 Copyrighe O by Eni Puccinelli Orlandi Copyzight O 2007 by Editora da Unicamp 2 reirapressão, 2031 Nenhuma parte desta publicação podz ser gravada, armazenada em sisseraa eletrônico, fosocopiada, reproduzida por meios mecânicos ou outros quaisquer sem autorização préxia du editor, Editora da Unicamp Rua Caio Graca Prado, 50 — Campos Unicamp cur 15083-892 — Campinas — 8º = Brasil TeliTax: (19) a521-7718/7728 saweditoraunicampbr — vendasgpeditora unicampb Não há, ó gente, O não, lar como este do sertão... CATULO DA Paixão CEARENSE, “Luar do Sertão” SumáRIO IntroDuÇÃO. SILÊNCIO E SENTIDO .... Os Limites DO Método E DA OBSERVAÇÃO..... SILÊNCIO, SUJEITO, HISTÓRIA SIGNIFICANDO NAS MARGENS...... SiLêncios E RESISTÊNCIA Um Estudo DA CENSURA... SiLêncio, CóiA E REFLEXÃO...... ConcLusà BIBLIOGRAFI INTRODUÇÃO Escrever um livro sobre o silêncio apresenta suas di- ficuldades, Porque tomá-lo como objeto de reflexão, «e colocarmo-nos na relação do dizivel com o indizí- vel, nos faz correr o risco mesmo de seus efeitos: o de não saber caminhar entre o dizer e o não-dizer. De todo modo, é interessante lembrar aqui que, se meu primeiro livro publicado tinha como sub- título “As formas do discurso” (Brasiliense, 1983), não é por acaso que, feito um percurso de reflexão e escrita, eu tenha chegado a este que, de direito, tem como título Ás formas do silêncio. O fio conduror deste livro é a apresentação dos sentidos do silêncio e é isso que o estudioso da lingua- gem encontrará agui desenvolvido com a cautela de quem cuida de explorar os entremeios tanto das disci- plinas como das diferentes teorias da linguagem, procurando no entanto uma especificidade. Acredito que o mais importante é compreender que: 1. há um modo de estar em silêncio que corres- ponde a um modo de estar no sentido e, de certa ma- neira, as próprias palavras transpiram silêncio. Há silêncio nas palavras; 2. o estudo do silenciamento (que já não é silêncio mas “pôr em silêncio”) nos mostra que há um processo de pro! dução de sentidos silenciados que nos faz entender uma dimensão do não-dito absolutamente distinta da que se tem es- tudado sob a rubrica do “implícito”, Vale Jembrar que a significação implícita, segundo O. Ducror (1972), “aparece — e algumas vezes se dá — como sobreposta a uma outra significação”, Essa distinção que fazemos entre implícito e silêncio estará dita de muitos modos neste nosso trabalho, já que, para nós, o sentido do silêncio não é algo juntado, sobre- posto pela intenção do locutor; há um sentido no silêncio. O silêncio foi relegado a uma posição se- cundária como excrescência, como o “testo” da lin- guagem. Nosso trabalho o erige em faror essencial como condição do significar, como veremos. Se uma dessas características (a 1) livra o silêncio do sentido “passivo” e “negativo” que lhe foi atribuído nas formas sociais da nossa cultura, a outra (a 2) liga o não-dizer à história e à ideologia. Por outro lado, há uma dimensão do silêncio que remete ao caráter de incompletude da linguagem todo dizer é uma relação fundamental com o não- dizer. Essa dimensão nos leva a apteciar a errância dos sentidos (a sua migração), a vontade do “um” (da unidade, do sentido fixo), o lugar do nom sense, o equívoco, a incompletude (lugar dos muitos sentidos, do fugaz, do não-apreensível), não como meros acidentes da linguagem, mas como o cerne Movimento, mas também relação incerta entre mudança e permanênciase cruzam indistintamente no silêncio. Nem um sujeito tão visível, nem um sentido tão certo, eis o que nos fica à mão quando aprofundamos a compreensão do modo de signi- ficar do silêncio. E que chega a nos fazer com- preender de modo interessante o que [exe plo, à censura, vista aqui por nós não como um dado que tem sua sede na consciência que um in-"" divíduo tem de um sentido (proibido), mas como tm fato produzido pela história. Pensada através dla noção de silêncio, como veremos, a própria no- «ão de censura se alarga para compreender qual- quer processo de silenciamento que limite o su- jeito no percurso de sentidos. Mas mostra ao mesmo tempo a força corrosiva do silêncio que faz significar em outros lugares o que não “vinga” em um lugar determinado, O sentido não pára; ele muda de caminho. O silêncio é assim a “respiração” (o fôlego) da sig- nificação; um lugar de recuo necessário para que se possa significar, para que o sentido faça sentido. Re- duto do possível, do múltiplo, o silêncio abre espaço para o que não é “um”, para o que permite o movi- mento do sujeito. O real da linguagem — o discreto, o um — en- contra sua contraparte no silêncio. O silêncio como horizonte, como iminência do sentido, tal como expressamos no corpo de nosso trabalho, aponta-nos que o fora da linguagem não é mesmo de seu funcionamento. o nada mas ainda sentido. 12) asrormAs DO sLÊNUO imobLção | 13 14 Silêncio que atravessa as palavras, que existe en- tre elas, ou que indica que o sentido pode sempre ser outro, ou ainda que aquilo que é mais impor- tante nunca se diz, todos esses modos de existir dos sentidos e do silêncio nos levam a colocar que q silêncio é “fundante”, Desse modo, nesta nossa reflexão, procutamos indicar as várias pistas pelas quais alcançamos esse princípio da significação: o silêncio como fundador. Paralelamente, aprofunda- mos à análise dos modos de apagar sentidos, de si- lenciar e de produzir o nã o-sentido onde ele mostra algo que é ameaça. Assim, quando dizemos que há silêncio nas pa- lavras, estamos dizendo que elas são atravessadas de silêncio: elas produzem silêncio; o silêncio “fala” pos elas; clas silenciam. As palavras são cheias de sentidos a não dizer e, além disso, colocamos no silêncio muitas delas. Mas há também um outro aspecto da reflexão so- bre o silêncio que consideramos bastante relevante. Trata-se do fato de que, pela exploração mesma da capacidade de compreender o silêncio com nossos procedimentos reflexivos, fizemos um percurso pe- la análise de discurso que nos mostra, por Sus vez, a função e o alcance de alguns de seus conceitos, assim como nos permite avaliar melhor seu espaço teórico e a história de seu desenvolvimento. Isso se deve talvez ao faro de que, procurando entender a materialidade simbólica específica do silêncio, pudemos alargar a compreensão da nossa relação com as palavras. Esse laço, assim compreen- [E as Formas DO suENCIO dido, indica-nos gue não estamos nas palavras para falar delas, ou de seus “conteúdos”, mas para falar vom clas, Se assim podemos passar de palavras para 1 Imagens (relação do verbal com a metáfora), fa- semos ainda outra passagem mais radical, passan- do das palavras para o “jogo”, É nessa dimensão do dgnificar, como jogo de palavras, em que importa mais a remissão das palavras para as palavras — des- montando a noção de linearidade e a que centra o sentido nos “conteúdos” —, que o silêncio faz sua entrada. O não-um (os muitos sentidos), o efeito do um (o sentido literal) e o (in)definir-se na re- lação das muitas formações discursivas têm no si- lêncio o seu ponto de sustentação. Desse modo é que se pode considerar que todo discurso já é uma Lula que fala com outras palavras, através de outras palavras Com efeito, através da reflexão sobre o silêncio, reflexão que tem como base a formulação de ques- tões que pensassem o “não-dito” discursivamente, para que se tornassem visíveis aspectos deste que não aparecem no tratamento lingúístico ou prag- mática dado a ele, também alguns aspectos da aná- lise de discurso se tornaram mais claros. Uma observação sc impõe para situar um ponto ncial dessa relação de meu trabalho sobre o si- lêncio e a compreensão de certo percurso teórico da análise de discurso. Embora a condição do significar e 1 Sem esquecer gue, da perspectiva discursiva, as palavras já são sempre discursos, ma sua relação com es sentidos. imncoução | 15 seja o imaginário — do sujeito c do sentido — paraa análise de discurso há real (mesmo que para isso seja preciso distinguir diferentes tipos de “real, segun- do Pêcheux, 1983). É nessa relação do imaginário com o teal que podemos apreender à especificidade da materialidade do silêncio, sua opacidade, seu tra- balho no processo de significação. É a pastir desse ponto de vista que gostaríamos de situar algumas questões fundamentais para quem trabalha com o discursivo. Não devemos, por outro lado, esquecer que, embora as noções de imaginário, real e sim- bólico estejam definidas como tal no campo da psicanálise, o modo como à análise de discurso vai articular essas três noções é próprio de scu campo específico. Essa especificidade está cm que a articula- ção dessas três nações se dá, na análise de discurso, em relação à ideologia e à determinação histórica e não ao inconsciente, como é o caso da psicanálise. Isso produz um certo deslocamento no modo de pensar essas noções em suas posições relativas, par- ticularmente em relação ao que a análise de dis- curso trata no domínio do imaginário e dos efeitos da evidência, produzidos pelos mecanismos ide lógicos. Tomando Pêcheux como referência básica para entender a análise de discurso da escola francesa, podemos dizer que o que singulatiza o pensamento desse autor, e estabelece consegiientemente a susten- tação fundamental da análise de discurso, é o lugar particular que ele dá à língua, de um lado, em rela- ção à ideologia, que ele trata no domínio conceptual 16 | as Formas co suENco do “interdiscurso”, e, de outro, ao inconsciente, na telação da língua com o que seria a Zafangue (Lacan) de que Pêcheux não trata especificamente? em seu trabalho, já que ele visa justamente o outro lado des- vielação: o discurso como lugar de contato entre lingua e ideologia. Isso lhe permite conceber, diferentemente das ciên- lis sociais, o que é e como funciona a ideologia (pela não-transparência da linguagem: leia-se pela tomada vim consideração da materialidade lingiiística), ao tnesmo tempo em que desloca o conceito de língua em sua autonomia absoluta (como é vista na lingiiis tiva) para a autonomia relativa (pensando a mate- tialidade histórica). Daí ser a análise de discurso por ele proposta distinta da análise de conteúdo e da análise linguística. O funcionamento do silêncio atesta o movimen- to do discurso que se faz na contradição entre o um” e o “múltiplo”, o mesmo e o diferente, entre paráfrase e polissemia. Esse movimento, por sua ves, mostra o movimento contraditório, tanto do ujeito quanto do sentido, fazendo-se no entremeio entre a ilusão de um sentido só (efeito da relação vom o interdiscurso) e o equívoco de todos os sen- tidos (efeito da relação com a /alangue). Embora não trabalhasse, como trabalhamos, com o silêncio, Pêcheux conduziu com maestria, ao longo de sua M. Pécheux (1969, p. 119): “Nous soulignens encore une fois que Ie Ilisotie du disconrs ne peut en aucune façoa se substicuer à une Úréorie «le Vidéologie, pas plus qu'à une tiéorie de Vinconscient, mais qu'lle pet intervenir dans le charap e ces chéories” reflexão, a consideração da regularidade e do equi- jente, que, com voco. Não como observador oni seu esboço de teoria, tudo pudesse controlar, mas como quem sofria teoricamente os embates do jogo dos sentidos (no observado e no observador). Palavras com palavras, palavras com conceitos, pa- lavras com coisas, interioridade com exterioridade, descrição e interpretação, esses foram os pares que não deixaram de se colocar em sua movência no pró- prio modo de esse autor pensar à tcoria do discurso. No entanto, se algo fica como alvo fixo nessa cons- tante movência, é sem dúvida o reconhecimento de que se tem necessidade da “unidade” para pensar à diferença, ou melhor, há necessidade desse “um na construção da relação com o múltiplo. Não a “nidade” dada mas o fato da unidade, ou seja, à “umi- dade” construída imaginariamente. Aí está a grande contribuição da análise de discurso: observar os modos de construção do imaginário necessário na produção dos sentidos. Por não negar a eficácia ma- terial do imaginário, ela tona visíveis os processos da construção desse “um” que, ainda que imaginária, é ária e nos indica os modos de existência e dé ção com o múltiplo, pois, como diz Pêcheux (1975, pp. 83-84), “a forma unitária É o meio essen- cial da divisão é da contradição”, Ou, dito de outra maneira, a diferença precisa da construção imaginá- ria da “unidade”, Os que negam a cficácia do imagi- nário em geral o reduzem seja ao “irreal”, seja a um “efeito psicológico individual, de natureza poética. Não vêem assim sua necessidade e sua eficácia. RIMAS DO SILÊNCIO efa “ubemos que a dispersão dos sentidos e do sujei- té condição de existência do discurso (Orlandi e filmarães, 1988), mas para que funcione ele toma 1 aputência da unidade. Essa ilusão de unidade é eleito ideológico, é construção necessária do ima- pinário discursivo. Logo, tanto a dispersão como a ilunão da unidade são igualmente constitutivas. Listas nossas considerações vão na direção de pensar à língua como “base comum de todos os processos discursivos”, ou seja, de pensar a necessi- dude de manter a noção de lingua (enquanto estru- ita) como pré-requisito indispensável para pensar 1» processos discursivos, Entretanto, não se trata de pensar à língua enquanto forma abstrata mas em 114 materialidade. Isso tudo pode ser observado, no pensamento dl Pêcheux, quando ele considera que a ideologia into funciona como um mecanismo fechado (e sem talha istema homo- sínco, Mais precisamente, como tivemos a ocasião de aficmar muitas vezes em nosso trabalho (Or- lindi, 1983, p. 162), a telação entre língua e dis- «urso se faz por reconhecimento, e suas fronteiras wo colocadas em causa constantemente. À lingua não existe pois na “forma de um bloco homogê- neo de regras organizado à maneira de uma má- quina lógica” (Pêcheux, idem). Daí o vai-e-vem incessante entre a ordem das coi ) nem a língua como um » a do pen- samento e à do discurso, e que mostra a decalagem constante entre pensamento e forma gramátical na constituição discursiva dos referentes. Há, em su- ma, uma separação irremediável entre a ordem das coisas e a do discurso. É nesse lugar teórico que aparece à necessida- de da ideologia na relação com a produção de sen- tidos. A ideologia se produz justamente no ponto de encontro da materialidade da língua com a ma- terialidade da história. Como o discurso é o lugar desse encontro, é no discurso (materialidade espe- cífica da ideologia) que melhor podemos obser- var esse ponto de articulação. Para isso é preciso compreender o estatuto teórico e metodológico do conceito de formação discursiva na análise de dis- curso. Às diferentes formulações de enunciados se reúnem em pontos do dizer, em regiões historica- mente determinadas de relações de força e de sen- tidos: as formações discursivas. Expliquemo-nos. Para Pécheux, o discurso é efeito de sentidos entre locutores. Compreender o que é efeiro de sentidos é compreender que o sentido não está (alocado) em lugar nenhum mas se produz nas relações: dos su- jeitos, dos sentidos, e isso só é possível, já que sujeito e sentido se constituem mutuamente, pela sua ins- crição no jogo das múltiplas formações discursivas (que constituem as distintas regiões do dizível para os sujeitos). As formações discursivas são giferen- tes regiões que recortam O interdiscurso (o dizível, a memória do dizer) e que refletem as diferenças ideológicas, o modo como as posições dos sujeitos, seus lugares sociais aí representados, constituem sentidos diferentes. O dizível (o interdiscurso) se parte em diferentes regiões (as diferentes formações Edo 2 | asiom mações discursivas nos mostra que não há coin: div muisivas) desigualmente acessíveis aos diferentes locutores. Quando se concebe a língua — como os linptiistas — enquanto sistema de formas abstratas te não material), tem-se a transparência e o efei- to de literalidade. Porém, se a concebemos — na peopectiva discursiva — como materialidade, e: muterialidade lingiística é o lugar da manifestação ilus relações de forças e de sentidos que refletem os vunftontos ideológicos. Essa perspectiva devolve a apacidade do texto ao olhar do leitor. Compreender o que é efeito de sentidos, em su- ima, é compreender a necessidade da ideologia na constituição dos sentidos e dos sujeitos. É da relação iepulada historicamente entre as muitas formações «discursivas (com seus muitos sentidos possíveis que * limitam reciprocamente) que se constituem os diferentes efeitos de sentidos entre locutores. Sem esquecer que os próprios locutores (posições do su- jeito) não são anteriores à constituição desses efeitos inas se produzem com eles, Importa ainda lembrar que o limite de uma formação discursiva é o que a distingue de ontra (logo, é o mesmo limite da outra), o que permite pensar (como Courtine, 1982) que a formação discursiva é hercrogênca em relação a ela mesma, pois já evoca por si o “outro” sentido que cla não significa. Ota, a relação com as múltiplas for- ên- cia entre à ordem do discurso e a ordem das coisas. Uima mesma coisa pode ter diferentes sentidos para os sujeitos. E é af que se manifestam a relação contra- ditória da materialidade da língua e a da história. INRODLÇÃO Falar em “efeitos de sentido” é pois aceitar que se está sempre no jogo, na relação das diferentes for- mações discursivas, na relação entre diferentes sen- tidos, Daí a presença do equívoco, do sem-sentido, do sentido “outro” e, consegiientemente, do inves- timento em “um” sentido. Ai se situa o trabalho do silêncio. Essa relação entre os processos discursivos e a língua está na basc da compreensão do imaginário como necessário. Os processos discursivos se de- senvolvem sobre a base dessa estrutura (a língua) e não enquanto expressão de um puro pensamen- to, de uma pura atividade cognitiva que utilizaria “acidentalmente” os sistemas lingúísticos (Pêchcux, ibidem). Daí que discurso não é a fala, isto é, uma forma individual concreta de habitar a abstração da língua. Ele não tem esse caráter “antropológico”. Os discursos estão duplamente determinados: de um lado, pelas formações ideológicas que os relacio- nam a formações discursivas definidas e, de outro, pela autonomia relativa da língua. : modo, se o linguista pode dizer que a lín- gua é indiferente ao discurso, pois ten sua auto- nomia relativa, ela se rege por leis internas, o ana- lista de discurso dirá no entanto que o discurso não é indiferente à língua, É o que diz Courtine (1982) quando afirma que o discurso materializa o contaro entre o ideológico e o lingúístico, pois ele representa no interior da língua os efeitos das contradições ideológicas e manifesta a da marcrialidade lingitística no interior da ideo- | astmasmos o logia. Por que, diz ele, falamos a mesma língua e falamos diferente? É assim que podemos compreender o silêncio fundador como o não-dito que é história e que, dada a necessária relação do sentido com o imagi- nário, é também função da relação (necessária) en- tre língua e ideologia. O silêncio trabalha então essa necessidade. Sea linguagem implica silêncio, este, por sua vez, éo não-dito visto do interior da linguagem. Não é o nada, não é o vazio sem história. É o silêncio signi- ficante. Vale aliás a pena redizer, nesta introdução, o que será dito em muitas partes desta reflexão: o fato de que a relação silêncio/linguagem é comple- xa, sem deixar de sublinhar ainda uma vez que, no entanto, em nossa reflexão, o silêncio não é mero complemento de linguagem. Ele tem significância própria. E quando dizemos fundador estamos afir- mando esse seu caráter necessário e próprio. Funda- dor não significa aqui “originário”, nem o lugar do sentido absoluto. Nem tampouco que haveria, no silêncio, um sentido independente, auto-suficiente, preexistente. Significa que o silêncio é garantia do movimento de sentidos. Sempre se diz a partir do silêncio? O silêncio não é pois, em nossa perspec- tiva, o “tudo? da linguagem. Nem o ideal do lugar “outro”, como não é tampouco o abismo dos sen- 3, Einteressante observar, em celação a essa importância fundamental do lêncio, o faro de que à expressão “algo " mostez bem o sex sentido dúpii = impregnar o Jou fundo em + calar = não di: sujeito X daquele sentido. T, &, NO Cso, ca nmonição | 23 tidos. Ele é, sim, a possibilidade para o sujeito de trabalhar sua contradição conslitutiva, a que o situa na relação do “um” com o “múltiplo”, a que aceita a reduplicação e o deslocamento que nos deixam ver que todo discurso sempre se remete a outro discur- so que lhe dá realidade significativa. Por isso, distinguimos entre: a) o silêncio funda- dor, aquele que existe nas palavras, que significa o não-dito e que dá espaço de recuo significante, produzindo as condições para significar; « b) a po- lítica do silêncio, que se subdivide em: b 1) silêncio constitutivo, o que nos indica que para dizer é pre- ciso não-dizer (uma palavra apaga necessariamente as “outras” palavras); e b 2) o silêncio local, que se refere à censura propriamente (Aquilo que é proibi- do dizer em uma certa conjuntura). Isso tudo nos faz compreender que estar no sentido com palavras e estar no sentido em silêncio são modos absoluta- mente diferentes entre si. E isso faz parte da nossa forma de significar, de nos relacionarmos com o mundo, com as coisas e com as pessoas. Finalmente, se a reflexão sobre o silêncio nos mos- traa complexidade da análise de discurso, já que por ela podemos nos debruçar sobre os efeitos contradi- tórios da produção de sentidos na relação entre o dizer e o não-dizer, essa reflexão nos ensina também que, embora seja preciso que já haja sentido para produzir sentidos (falamos com palavras que já têm sentidos), estes não estão nunca completamente já lá. Eles podem chegar de qualquer lugar e eles se movem e se desdobram em outros sentidos. AS FORMAS DO 5 possibilidade de movimento, dedeslocamen- to de palavras em presença e ausência, leva-nos a fa- rev um paralelo que mostra ao mesmo tempo uma relação fundamental entre a linguagem e o tempo. Em latim, o tempo marcado (2c7pus) tem uma relação com o “evo” (aew), que é o tempo con- tinto. O tempo é que marca o “evo”, A definição do tempo medieval (em São Tomás) é memerus mo- “us secundum privs et posterits, ou seja, o número do movimento segundo o que vem antes e depois (medioevo = evo médio). Assim é que vemos a re- lação entre palavra e silêncio: a palavra imprime-se no contínuo significante do silêncio c cla o marca, o segmenta e o distingue em sentidos discretos, cons- tituindo um tempo (terzpus) no movimento con- tínuo (serum) dos sentidos no silêncio.* Podemos enfim dizer que há um ritmo no significar que su- põe o movimento entre silêncio e linguagem. 4 Apradeçõão professor Mendonça a possibilidade desse paralelo. Além a foenaa luna, ele rarmbém lembrou a presença do siêncio nus reseos de Guimarães Rosa, e te!eriu à falà da gence da roça ao negociar bois. Uma conversa que pode durar muito cempe e na qual desvios é iatrodução de sos ascumeos não significam incecrupção de negociação. Às expressões que vão marcar o negócio feito ou não (“Quanto você quer?"/“Quanto você d&?”) podem vir entremeadas de muico silêncio que não é de modo algum sem sentido. rgobução SiLÊncio E SENTIDO No início é o silêncio. À linguagem vem depois Quando o homem, em sua história, percebeu o si- lêncio como significação, criou a linguagem para retê-lo. O ato de falar é o de separar, distinguir e, parado- xalmente, vislumbrar o silêncio e evitá-lo, Esse ges- to disciplina o significar, pois já é um projeto de se- denrarização do sentido. A linguagem estabiliza o movimento dos sentidos. No silêncio, ao contrário, sentido e sujeito se movem largamente. Em suma: quando o homem individualizou (ins- tituiu) o silêncio como algo significativamente dis- cernivel, ele estabeleceu o espaço da linguagem. Apreendendo o silêncio Estudando o discurso religioso, tive de passar ne- cessariamente pela questão do silêncio. É para não estacionar no tão conhecido silêncio místico, fiz um esforço de reflexão para pensar as outras formas de silêncio, cu diria mesmo os outros silêncios. As palavras são múltiplas mas os silêncios tam- bém o são. A especificação dessa idéia começou a se elaborar a partir da minha observação sobre dife- rentes ordens de discurso em suas distintas propric- dades e definições. À primeira coisa que percebi é que, inadvertida- mente, eu havia mal definido o discurso religioso como “aquele em que fala a voz de Deus” (Orlandi, 1983). Essa definição pode ser interessante para o reó- logo, mas não o é para o analista de discurso. Dessa perspectiva, a do analista de discurso, o que se pade dizer é que o que funciona na religião é a oai- potência do silêncio divino. Mais particularmente, isso quer dizer que, na ordem do discurso religioso, Deus é o lugar da onipotência do silêncio. E o homem pre- cisa desse lugar, desse silêncio, para colocar uma sua fala específica: a de sua espiritualidade. Nem por isso a religião deixa de lhe ser funda- mental: no discurso religioso, não é apenas o mesmo sempre-homem falando; o que importa é quea reli gião institui um outro lugar e assim dá um estatuto (e, logo, um sentido) diferente a essa fala. Diferença à qual o homem não é indiferente. Assim, reformulando a definição que havia pro- posto, eu diria agora que no discurso religioso, em seu silêncio, “o homem faz falar a voz de Deus”. A partir dessas reflexões, e conduzida pela mi- nha convivência com a discussão sobre o político na linguagem, interessei-me por outra característi- 28 | astomas do supngo ca desse mesmo tema: à política do silêncio. Isto é, o silenciamento. At entra toda a questão do “tomar” a palavra, “tirar a palavra, obrigar a dizer, fazer calar, silenciar cre. Em face dessa sua dimensão política, o silêncio pode ser considerado tanto parte da retórica da do- minação (a da opressão) como de sua contrapartida, a retórica do oprimido (a da resistência). E tem todo um campo fértil para ser observado: na relação en- tre índios e brancos, na fala sobre a reforma agrária, nos discursos sobre a mulher, só para citar alguns terrenos já explorados por mim. A paxtir daí uma nova passagem teórica se faz necessária, Não é suficiente pensar o silenciamento. Para compreender alinguagem é preciso entender o silêncio para além de sua dimensão política. Desenvolvendo então essa reflexão podemos che- gar a algo que, a meu ver, coloca em estado de ques- tão a própria história da reflexão sobre a linguagem, corn respeito tanto à (Gramática quanto à Retórica. Chegamos então a uma hipótese que é extrema- mente incômoda para os que trabalham com a lin- guagem: o silêncio é funelante. Quer dizer, o silêncio é a matéria significante por excelência, um conti- uu significante, O real da significação é o silên- cio. E como o nosso objeto de reflexão é o discurso, chegamos a uma outra afirmação que sucede a essa: o silêncio é o real do discurso, O homem está “condenado” a significar. Com ou sem palavras, diante do mundo, há uma injunção à “interpretação”: tudo tem de fazer sentido (qual SofMUIGESENTOO | 29 quer que ele seja). O homem está irremediavelmen- te constituído pela sua relação com o simbólico. Numa certa perspectiva, a dominante nos estudos dos signos, produz-se uma sobreposição entre lin- guagem (verbal e não-verbal) e significação. Disso decorreu um recobrimento dessas duas no- ções, resultando uma redução pela qual qualquer sraté- ria significante fala, isto é, é remetida à linguagem (so- bretudo verbal) para que lhe seja atribuído sentido. Nessa mesma direção, coloca-se o “império do traduz-se o silên- verbal” em nossas formas sociai cio em palavras. Vê-se assim o silêncio como lingua- gem e perde-se sua especificidade, enquanto maré- ignificante distinta da linguagem. Revendo o dilema entre Semiologia e Lingúís- tica — qual contém qual? —, podemos colocá-lo como um falso dilema, pois pressupõe a domi- nância da linguagem verbal: toda linguagem está repassada de linguagem verbal ou, como se diz, todo sistema de signos (de qualquer natureza) é atravessado (interpretado) pela linguagem verbal. São pensadas aí as várias linguagens, sem, contudo, se conceder um lugar mais decisivo a seg exterior. Sendo a relação do homem com o sentido uma re- lação necessária, o significar não tem exterior; no ri entanto, se concebemos o silêncio tal coma estamos propondo, a linguagem tem. Só se pode pensar o silêncio, sem cair na armadi- lha dessa relação, quando se pensa o “avesso da es- trutura” sem o binarismo, sem as oposições e regras estritas e caregóricas. Quando se pensam radical- 30 | astormso mente não os produtos mas os processos de sig pão, isto é, O discurso. Então, ao invésde pensarosilênciocomo falta, pode- mos, ao contrário, pensar a linguagem como excesso, Essa possibilidade, aliás, já está tematizada na linguagem corrente em expressões que se opõem, como as que seguem: Estar em silêncio/Romper o silêncio Guardar o silêncio/ Tomar a palavra Ficar em silêncio/ Apropriar-se da palavra Nelas se pode perceber o silêncio como o estado primeiro, aparecendo a palavra já como movimento em torno, Na perspectiva que assumimos, o silêncio não fala. O silêncio é. Ele significa. Ou melhor: no silên- cio, o sentido é. Podemos mesmo chegar a uma proposição mais forte, invertendo a posição que nos é dada pelo senso comum (e sustentada pela ciência), na qual a linguagem aparece como “figura” e o silêncio como “fundo”, Desse modo, podemos dizer que o silêncio é que é “figura”, já que é fundante. Estru- turante, pelo avesso. Fazendo-se um paralelo com o que diz Hjelmslev (1943) a propósito dos três níveis, o da substância, o da forma c o da matéria (sens), é no nível dessa última que localizamos o silêncio fundante. Constitutivo em primeira e múltiplas instâncias, ele tem primazia sobre as palavras, suENci = sestino | 31 A linguagem, por scu lado, já é categorização do silêncio. É movimento periférico, ruído. O desejo de unicidade que atravessa o homem é função da sua relação com o simbólico sob o modo do verbal. A linguagem é conjunção significante da existên- cia e é produzida pelo homem, para domesticar a significação. A fala divide o silêncio. Organiza-o. O silêncio é disperso, c a fala é volrada para a unicidade e as entidades discretas. Formas. Segmentos visíveis c funcionais que tornam a significação calcilável, Se tudo isso pode ser dito a propósito da lingua- gem, falar do silêncio traz, em si, uma dificuldade maior, já que ele se apresenta como absoluto, conti- nuo, disperso, O silêncio não está disponível à visibilidade, não é diretamente observável, Ele passa pelas pa- lavras. Não dura. Só é possível vislumbrá-lo de modo fugaz. Ele escorre por entre a trama das falas. Para tratar da questão dósilêncio, já que é impos- sível observá-lo (organiz: ordens de metáforas: a do 727 e a do eco. Em ambas jogam a grande extensão e um certo 5), podemos usar duas movimento que retorna e, ao mesmo tempo, pro- duz um deslocamento. “O final da onda que o mar sempre adia” O mar: incalculável, disperso, profundo, imóvel em seu movimento monótono, do qual as ondas são as frestas que o tornam visível, Imagem. O SILÊNCIO | sm O eco: repetição, não-finitude, movimento con- tínuo. Também fresta para ouvi-lo, Som. Senosvoltamos agora para a história das palavras, encontramos a etimologia de silentium, referida a sílens, que significa: que sc cala, silencioso, que não faz ruído, calmo, que está em repouso, sombra etc. Algumas observações a respeito do uso dessa palavra são interessantes. Embora na época clássica não houvesse diferença de sentido entre sileo e taceo (calar), primitivamente si/eo não designava propria- mente “silêncio” mas “tranquilidade”, ausência de “Estar movimento ou ruído: “Estar em silêncio” quieto”, Empregava-se sileo para falar de coisas, de pessoas e, especialmente, da noite, dos ventos e do mar. Silentiuma, mar profundo. E aí deparamos com o aspecto fluido e líquido do silêncio. A nossa metáfora aproveita esse impulso etimo- lógico. Como para o mar, é na profundidade, no silêncio, que está o real do sentido. As ondas são apenas o seu ruído, suas bordas (limites), seu movi- mento periférico (palavras). A linguagem supõe pois a transformação da ma- téria significante por excelência (silêncio) em sig- nificados apreensíveis, verbalizáveis. Matéria e for- mas. À significação é um movimento. Errância do sujeito, erância dos sentidos. É preciso insistir que a matéria significante do silêncio é diferente da significância da linguagem (verbal e não-verbal). Ao tornar visível a significa- ção, a fala transforma a própria natureza da signi- ficação. suco esentDO | 33 o Q Essa diferença de natureza pode ser mais bem pen- sada se consideramos a articulação entre gesto e silên- cio, enquanto expressividade. Também a gestualidade, a relação com o corpo, está orientada pela fala. Quando alguém se pega em silêncio, rearranja-se, muda a “expressão”, os gestos. Procura terumá expressão que “fala”, É a visibilidade (legibilidade) que se configura exos configura. Alin- guagem se constitui para asseverar, gregarizar, unifi- car o sentido (e os sujeitos). Quer dizer: a identidade — coerência, rotalida- de, unicidade — produzida pela nossa relação com a linguagem nos faz visíveis c intercambiáveis (fa- miliares à espécie humana). O silêncio, de seu lado, é o que pode transtornar a unicidade. Não suportando a ausência das pala- vras — “por que você está quieto? O que você está pensando?”—, o homem exerce seu controle e sua disciplina fazendo o silêncio falar ou, ao contrário, supondo poder calar o sujeito. Isso resulta de um imediatismo tanto mais acen- tuado quanto mais vem em linha reta da tradição da racionalidade: o claro e distinto. O homem — tendo de responder à injunção de tiansparência objetividade — não se dá o tempo de trabalhar a diferença entre falar e significar. Para nosso contexto histórico-social, um homem em silêncio é um homem sem sentido, Então, o ho- memabre mão do risco da significação, da sua amea- ça e se preenche: fala, Atulha o espaço de sons e cria aidéia de silêncio como vazio, como falta. Ao negar 34 | asseamas Do sutnac sua relação fundamental com o silêncio, ele apaga uma das zxediações que lhe são básicas. Desse modo, a partir da elisão dessa mediação, estabelecem-se e desenvolvem-se as reflexões que te- matizam a relação linguagem/ pensamento e lingua- gem/mundo (sociedade) e que atribuem funções que confirmam a centralidade da linguagem. De nossa parte, proporfamos um deslocamento, um descentramento da linguagem, que permitiria refletir sobre um outra relação, anterior, a meu ver, a esta, e mediadora: a mundo (sociedade) Linguagem / silêncio pensamento Quando não falamos, não estamos apenas mu- dos, estamos em silêncio: há o “pensamento”, a in- trospecção, a contemplação etc. O nosso imaginário social destinou um lugar su- balterno para o silêncio. Há uma ideologia da comu- nicação, do apagamento do silêncio, muito pronun- ciada nassociedades contemporâneas. Isso se expressa pela urgência do dizer e pela multidão de linguagens a que estamos submetidos no cotidiano. Ao mesmo tempo, espera-se que se estejam produzindo signos visíveis (audíveis) o tempo todo. Ilusão de controle pelo que “aparece”: temos de estar emitindo sinais sonoros (dizíveis, visíveis) continuamente. Não acreditamos que tenha sido sempre assim. A nossa hipótese é a de que há, na relação com a lin- mo | 35 MM» guagem, uma progressão histórica do silêncio para a verbalização, o que se reflete não só na prática geral da linguagem como no discurso da ciência. Assim, teríamos: + silêncio — silêncio —————s mito tragédia filosofia Ciências Humanas e Sociais No mito, a significação prescinde da explicita- ção cabal de seus modos de significar. Já na tragé- dia, essa explicitação começa a alargar seu lugar. Podemos pensar, por exemplo, no zito de Electra, no reconhecimento de seu irmão Orestes, que se dá apenas pelo agor (confronto). Já na tragédia, há uma descrição do reconhecimento: ela o reconhe- ce porque cle carrega à espada de modo peculiar, porque tem uma cicatriz na testa etc. No caso da filosofia, passa-se pata um outro discurso, em que sc tematiza vastamente O sentido em sua relação com o ser. Percurso que desemboca nas Ciências Sociais e Humanas, que se institgem «em várias disciplinas diferentes com distintos objeros e dis- cursos diversos para falar dessa mesma coisa. Do- minado pelas múltiplas metalinguagens, o fato tem de significar nas diferentes “explicações”, que, por sua vez, O povoam de muitos signos. Exílio do silêncio. Do século XIX para cá se aceleram a produção de linguagens e a contenção do silêncio. As palavras se desdobram indefinidamente em pa- lavras (na maior parte das vezes, ecos do mesmo, sem sair do lugar). O silêncio, mediando as relações entre lingua- gem, mundo c pensamento, resiste à pressão de con- trole exercida pela urgência da linguagem c significa de outras e muitas maneiras. Essa mediação é mais um dos elementos que desve- lam a ilusão referencial: o silêncio não é transparente ele atua na passagem (des-vão) entre pensamento- palavra-e-coisa, Também aqui se verifica que não há uma relação termo a termo entre esses domínios. Para terminar, ainda uma vez Saussure. Ao tomarmos o silêncio como objeto de reflexão, não o fizemos sem pensar no mestre genebrino que aliou cm si duas formas de silêncio. Estamos fa- Jando: a) do silêncio de Saussure, que não se fez au- tor de seu Curso; e b) do silêncio sobre Saussure, o dos Anagramas, que os lingiistas preferem ignorar com deferência. Há ainda o silêncio em Saussure, quando tematiza uma certa noção de sistema (va- lor), ou do eixo das substituições etc. Tampouco vamos apagar, na questão do silêncio, a presença de Pêchewx. O interlocutor silenciado, ou em silêncio. Que se deu o trabalho difícil de falar da Langue Introsvable (1984) e que, com suas reflexões sobre o discurso, permitiu que se pensassem o silên- cio, a significação, no meio do alarido formalista. O Pécheux que, falando do “discurso-real autoprote- tor”, diz do engendramento de uma nova fraseologia que, “refletindo o que todo mundo sabe, permite ca- lar o que cada um entende sem confessar” (1982). esmo [37 Os Limites Do Método E DA OBSERVAÇÃO: A nica palavra que me devora é aque- a que meu conação não diz, Susti COSTA E ADEL SILVA, “Jura Secreta” Ui livro deve valer por sudo o que nele não deveu caber. G. Rosa, Tutuméia Os textos acima sugerem a reflexão sobre a relação entre silêncio e emoção, silêncio e escrita. Quer se trate de uma coisa ou de outra, essas duas citações referem o silêncio enquanto elemento constitutivo do sentido. Elas, no entanto, fazem isso contextua- lizando o silêncio de modo diferente. À primeira evoca o canibalismo (“devora”) pre- sente na cultura brasileira de várias maneiras: à) a antropofagia enquanto real histórico (atestado Uma primeira versão deste capítulo foi apresentada, em francês, no Coléguio de Urhina (1988), cujas atas forem publicadas no livro Les seas erses besérogêncises (1990). abundantemente na literatura européia dos séculos XVI e XVII); e b) o canibalismo simbólico, tornado movimento intelectual, inaugurado pela Semana de Arte Moderna em São Paulo (1922): a cultura euro- péia “digerida” pela cultura brasileira A antropofagia define, nos dois casos, para o bra- sileiro, uma origem em que a devoração (seja his- tórica, seja simbólica) está na base mesma de sua relação com a “alteridade”. Na segunda citação, trata-se da literatura brasilei- ra e de um de seus escritores mais expressivos, que trabalhou a língua “em seu estado gasoso”, segundo suas palavras: uma língua sem margens, sem limites. Em sua relação à alteridade, em sua relação à lín- gua, a cultura brasileira acolhe o silêncio. Teria pois o silêncio um aspecto cultural? Com toda a evidência. Mas a cultura não é o único fator que conta. Determinações políticas e históricas tão igualmente inscritas aí. Com efeito, as diferentes abordagens são muito distintas e resultam em concepções muito diversas de silêncio. Em nosso caso, essa abordagem foi estabelecida durante uma pesquisa de campo em que obsserváva- mos os processos de linguagem na situação de con- tato entre índios e brancos. es- Na Floresta Amazônica, nas margens do grande rio Xingu, compreendemos a importância fluida do silêncio. Ou melhor, compreendemos que há uma relação fundamental (fundadora) entre o homem e o silêncio, em face da significação. 49 | asim Outras experiências, dessa vez delinguagem, tam- bém nos fizeram entender isso. Na poesia, a leitura de Mallarmé, de M. Bandeira ou de Carlos Drummond de Andrade, entre outros. só na poesia, aliás, mas na literatura em geral, o silêncio é fundamental: Na música, compositores como P. Geist, J. Cage, Webern, E. Gismonti, E. Satie e o intérprete C. Ar- vau, em particular. Ou seja, também a música em geral, em suas diferentes expressões, propõe-nos uma relação com o silêncio. No campo das imagens, há filmes que no a reflexão sobre o silêncio de modo particular: Pai Patrão e Paris, Texas. Por outro lado, pela observação dos diferentes discursos, podemos reconhecer fatos que nos reme- tem à importância do silêncio: o discurso religioso, em que Deus representa a onipotência do silêncio (Eckart, segundo Heidegger, “é no que a linguagem não diz que Deus é verdadeiramente Deus”); o ju- rídico, em que o discurso liberal (“todos os homens são iguais perante a lei”), produzindo o apagamen- to das diferenças constitutivas dos lugares distin- tos, reduz o interlocutor ao silêncio; o científico, do qual é bem conhecido o fato de que há teorias que não deixamos significar; o discurso amoroso, em que a onipotência avizinha o impossível, é um discurso votado ao silêncio. azem 1 Aesserespeito veja-se, por exemplo, a reflezão de B. Waldman (1989) sobe « produção do silêncio em Dalton Trevisan, em Clarice Lispector, OS LIMITES CO METODO CDA CSSERVAÇÃO “ Os silêncios, o silêncio Eraassim preciso que trabalhássemos essas intui- ções sem cair na mística do silêncio ou na relação si- lêncio-NADA (morte), interpretação essa reiterada pela cultura ocidental (cf. Shakespeare, em Hamlet: “o resto é o silêncio”), Como fazer aparecer a dimensão, por assim di- ze, “otimista” do silêncio? Deinício, propondo-nosuma concepção não-no- gativa de silêncio: o silêncio não fala, ele significa. A partir dessa concepção não o definimos nega- tivamente em relação à linguagem (o que ele não é) mas em sua relação constitutiva com a significação (o que ele é). Esse era um início. A partir dessa definição (pro- visória) e de algumas noções aux res, procedemos a análises em que pudemos discernir traços do tra- balho do silêncio em diferentes discursos. O silêncio significa de múltiplas maneiras e é o objeto de reflexão de teorias distintas: de filósofos, de psicanalistas. de semiólogos, de ermólogos, e até mesmo os lingitistas sc interessam pelo silêncio, sob a etiqueta da elipse e do implícito. Além disso, há silêncios múltiplos: o silêncio das emoções, o místico, o da contemplação, o da intros- pecção, o da revolta, o da resistência, o da disciplina, o do exercício do poder, o da derrota da vontade etc. A partir da concepção não-negativa de silêncio, e da observação de seus modos de existência, outra questão se impõe: como compreender o silêncio? Inicialmente, tornando precisa a perspectiva da qual estamos falando: a perspectiva discursiva, que se define pelo fato de que a noção de discurso supõe 1superação da dicotomia estrita lingua/fala. Desta perspectiva, há alguns objetivos a atingir através da reflexão sobre o silêncio, que procurare- mos expor aqui. Esses diferentes objetivos têm em comum o fato de não proporem uma aproximação dos modelos existentes, mas, ao contrário, de recusarem o iso- morfismo. Procuramos assim nos distanciar desses modelos, mesmo se a finalidade última é a de retor- nar sobre a linguagem. Esse esforço de nos afastarmos dos modelos existentes permite que nos ponhamos em guarda contra o que chamaríamos de “tendências inte- gracionistas” — tais como a pragmática, a etno- metodologia, as teorias da enunciação — que referem (reduzem) o silêncio à linguagem verbal, apagando sua especificidade. Essa forma de traba- lho representa a redução dos fatos de linguagem ao “mesmo”, ao já conhecido, em suma, ao sistema lingiístico tal qual. Voltemos, pois, aos objetivos visados pela pers- pectiva discursiva na reflexão sobre o silêncio. CS .IMITES DO MÉrCIO ECA EStRVAÇÃO | 43 Pensar o silêncio Pensar o silêncio é um esforço contra a hegemonia do formalismo A reflexão sobre a linguagem conduzida pelas dife- rentes formas da lingiística — seja sob o modo do estruturalismo, seja do transformacionalismo — ex- clui o silêncio, pelo menos tal como o estamos defi- nindo, Primeiramente, pelo lugar ancilar que dá à significação e, em seguida, pelo compromisso com oobjerivisma abstrato, pela sua relação com o racio- nalismo, já que esta reflexão não leva em conta airra- cionalidade, o equivoco, a desorganização tanto do sentido quanto do sujeito. No estruturalismo, a idéia de “meta” e a de “D” como oposição não deixam lugar para o silêncio e preenchem tudo com o lingúístico definido em sua totalidade. O silêncio adquire o valor que lhe dita seu oposto; não existe como tal. O formalismo chomskiano, no seu intento, aliás louvável, de preen- cher o vazio teórico dos modelos behavioristas, im- pede, no entanto, que aí se elaboié uma teoria do ato” da linguagem e tapa o buraco com uma teoria rarefeita e de fôlego curto, dominada por fórmulas. Qui fala da gramática mas não fala da língua. O si- lêncio, com seu caráter não-visível (legível), obseu- 10, contínuo, não-calculável, está excluído. Propomos, pois, a problematização de toda ten- tativa de sedentarização da noção de silêncio, seja na forma da elipse (20 nível da frase), das “figuras” (em retórica), ou da distinção dito/não-dito, que reduz o não-dito ao implícito (as teorias da argu- mentação). Nós opomos a isso a idéia de que sem silêncio não há sentido, sendo que o silêncio não é apenas um acidente que intervém ocasionalmente: ele é necessário à significação. O implícito é já um subproduto desse trabalho do silêncio, um efeito particular dessa relação mais de fundo e constitutiva. O implícito é o resto visível dessa relação. É um seu resíduo, um epifenômeno. O silêncio, tal como o concebemos, não remete ao dito; ele se mantém como tal, permanece silêncio. Pensar o silêncio representa um esforço contra o positivismo na observação dos fatos de linguagem O silêncio não é diretamente observável e no en- tanto ele não é o vazio, mesmo do ponto de vista da percepção: nós o sentimos, ele está “lá” (no sorriso da Gioconda, no amarelo de Van Gogh, nas grandes extensões, nas pausas). Para torná-lo visível, é preciso observá-lo indire- tamente por métodos (discursivos) históricos, crfti- cos, desconstrutivistas. É preciso aqui lembrar que pensamos a relação indireta entre o produto e sua “origem”, sua “caus Sem considerar a historicidade do texto, os proces- sos de construção dos efeitos de sentidos, é impossi- vel compreender o silêncio. ão | 45 Não podemos observá-lo senão par seus efeitos (zetóricos, políticos) e pelos muitos modos de cons- trução da significação. Quando se trata do silêncio, nós não temos 7na?r- cas formais, mas pistas, traços. É por fissuras, rupturas, falhas, que ele se mostra, fugazmente: “É só de tempos em tempos que ele se volta para o homem” (Heidegger, falando do Ser e do Ente, 1969). Mesmo se o silêncio está sempre lá, ele é efême- ro em face do homem, no que diz respeito à sua observação. Assim, sem teoria não se atinge O seu modo de existência e de funcionamento na ficação. gni- Pensar 0 silêncio é problematizar as noções de linearidade, literalidade, completude Discursivamente, o sentido se faz em todas as di- reções. Conceitos discursivos como “interdiscurso” (memória do dizer), “intertexto” (relação entre tex- tos), “relação de sentidos” o atestam. - A significação não se desenvolvé sobre uma li- nha reta, mensurável, caleulável, segmentável. Os sentidos são dispersos, eles se desenvolvem em to- das as direções e se fazem por diferentes matérias, entre as quais se encontra o silêncio. A materialidade do sentido não é indiferente aos processos de significação e a seus efeitos: o si- | As Formas vo suENciO lêncio significa de modo contínuo, absoluto, en- quanto a linguagem verbal significa por unidades discretas, formais. Eis uma diferença que é preciso não apagar. Por outro lado, noções como as de incisa e de elipse são interessantes para observar a extensão do domínio conceptual da linearidade e da lite- ralidade. A incisa aparece, na história da reflexão gramatical, como acréscimo contingente, e à clip- se, como falta necessária. Quando tomamos o si- lêncio como fundante, essa dissimetria (paradoxal do ponto de vista da linearidade) se explica: o silên- cio é assimétrico em relação ao dizer e a elipse é do domínio do silêncio. A incisa é evitada; os gramá- ticos intuíram a importância do silêncio e a rejei- ram: o dizer precisa da falta. Quanto à completude, já tivemos ocasião de observar em diversas ocasiões que a incompletu- de é fundamental no dizer, É a incompletude que produz a possibilidade do múltiplo, base da polis- semia. E é o silêncio que preside essa possibilida- de. A linguagem empurra o que ela não é para o “nada”, Mas o silêncio significa esse “nada” se mul- tiplicando em sentidos: quanto mais falta, mais silêncio se instala, mais possibilidades de sentidos se apresentam. OS LUSTES DO wstao F Da aeseavação | 4 E Pensar o silêncio é colocar questões a propósito dos limites da dialogia. Pensar o silêncio nos limites da dialogia é pen- sara relação com o Outro? como uma relação contraditória Quando se pensa o sujeito em relação com o si- lêncio, a opacidade do “Outro” se manifesta. Ássiim, pensar o silêncio é pensar a solidão do sujeito em face dos sentidos, ou melhor, é pensar a história solitária do sujeito cm face dos sentidos. É por aí que se pode fazer intervir as “fissuras” que nos mostram efeitos de silêncio. O Outro está pre- sente mas xo discurso, de modo ambíguo (presente c ausente). E os modos de existência (presença) das Personagens do discurso são significativos. Pensar o silêncio como um limite ao dialogismo é fazer a crítica a uma sua concepção behaviorista, dominada pela função de informação e de turnos de fala, assim como à esquematização da relação 2 A questão da relação com o Outro como censticutiva do dição dialógica — que coloca que não há centro parao sujeito — tem era Auehier (1984) um momento de elaboração fimdamental ra confluência eárica dos campos enunciarivo, psicanalítico e discursivo, Estabelecendo 9 conceito de “hcrerogencidade? ela Fala da função do desconhecimento que, no imaginário do sujeiro di mstrói à imagem do sujeito 'ônomo apagando à divisão que remetÉ ao porto die vista segundo o sal “o censço é um “golpe montado! pars o sujo, de que as Ciências Humanas fazem seu objexo, ignorando que ele é imagináris” (Roudines- “0, Em 1977), Authies dirá então: “En rupsure avec le Moi, foncement de Je subjecaiviré classique conçue comme un incericu face à 'exterinriré du morde, e fondoment du sujer est ici déplacé, délogé cais an icu meltiple, fondameatalement héréronome, ot rextériorité ese à rincerieur du sujer (Clémene, C.. 1972). LA o se rejaignene ces conepeions da discute, de lidéologie, de rinconsciens, que les chéories de rénonciarion ne peuvent sans tisque pour la linguistigue, dluder,cese dans Laffirmarion que, consu- orivement dans le sojet, dans soa discours, il ya de EAutre” (1984). | asecamas Do cÉNCIO de significação entre os diferentes sujeitos e suas posições. A intervenção do silêncio faz aparecer a falta de dimetria entre os interlocutores. A relação de inter- locução não é nem bem-comportada, nem obedece 1 uma lógica preestabelecida. Ela é atravessada, en- tre outros, pela des-organização do silêncio. O conceito de dialogia só se faz necessário por- que as unidades são segmentáveis, A dialogia tem sua realidade conceptual sustentada pela noção de lingua (gregaridade, regras com suas ordens pró- prias, linearidade) e de segmental. A matéria significante do silêncio é de outra na- tureza e não opera pela “discreção”, pela “gregarida- de”, deslocando assim a noção de partilha, de com- pletude e também a de dialogia. A não-completude, que é própria a todo processo discursivo, vista na perspectiva da questão do silên- cio, fica então assim: a) o silêncio, na constituição do sujeito, rompe com a absolutização narcísica do eu que, esta, seria a asfixia do sujeito, já que o apa- gamento é necessário para sua constituição ciamento é parte da experiência da identidade, pois é parte constitutiva do processo de identificação, é o que lhe dé espaço diferencial, condição de moyi- mento; b) o silêncio, na constituição do sentido, é que impede o 220% sense pelo muito cheio, produ- zindo o espaço em que se move à materialidade s nificante (o não-dito necessário para o dito). o silen- OS LIMITES DO De oesRação | 49 Pensar 9 silêncio em sua especificidade significativa é problematizar palavras como “representação” “interpretação” O silêncio é representável? Não acreditamos. Esso coloca limites à interpretabilidade e à redu- ção da linguagem só à informação, à comunicação. Temos proposto, em nosso trabalho, distinguir (Orlandi, 1987): a) inteligibilidade (unidade signi- ficativa discernível em nível de frase); b) interpre- tabilidade (atribuição de sentido ao enunciado); e c) compreensão (apreensão dos processos de signi- ficação de um texto). Dirtamos que o silêncio não é interpretável, mas compreensível. Compreender o silêncio é explicitar o modo pelo qual ele significa. Compreender o silêncio não é, pois, atribuir-lhe um sentido metafórico em sua relação com o dizer (Ctraduzir” o silêncio cm palavras), mas conhecer os processos de significação que ele põe em jogo, Co- nhecer os seus modos de significar" Finalmente, pensar o silêncio, a nosso ver, é traçar um limiteàredução dasignificaçãoao paradigma dalinguagem verbal. Isso significa propor uma descentração do verbal À descentração do sujeito, que é um princípio constitutivo da análise de discurso, junta-se, pela re- flexão sobre os pro: “ssos significativos do silêncio, a descentração da linguagem verbal enquanto espaço privilegiado de significação. Fazendo apelo ao silêncio, deslocam-se as relações: SINTAXE = GRAMÁTICA SIGNIFICAÇÃO = LINGUAGEM VERBAT. A linguagem (e as contribuições de seu estudo) deve estar pressuposta, mas não podetero estatuto de paradigma ou de centro para o qual se orientam tan- to a significação do silêncio quanto sua explicação. Como se trata do domínio da semântica discursi- va, está excluída a possibilidade de falar em “gramá- tica do silêncio”, ou de Sintaxe do silêncio” coutras formas (integracionistas) de não considerar o silên- cio em sua especificidade material. Ao mesmo tempo, a observação da materialidade (significativa) do silêncio nos permite ser críticos em face da afirmação categórica de que a linguagem não tem exterior (Barthes, 1978). Essa é uma afir- mação que não reconhece a contradição, que elide O funcionamento paradoxal dos sentidos. As diversas categorizações de silêncio Podemos perceber que, em muitas propostas de classificação, domina a concepção negativa do silêncio. O METODO 2 DA Cssenyação | 57 Lyotard (1983, p. 30) propõe a distinção de quatro silêncios, Segundo ele, a frase que substitui o silêncio seria uma negativa. O que é negado por ela seria uma das quatro instâncias que constituem um universo de fia- ses; 0 destinatário, o referente, o sentido, o emissor, Ainda segundo esse mesmo autor; a ftase impli- cada pelo silêncio seria uma negativa que se formu- lavia assim: a) esse caso não é da sua conta; b) esse caso não existe; c) esse caso não é significável; d) esse caso não é da minha conta. Essas cateporizações, embora definidas negati- vamente, trazem alguma contribuição para a com- preensão do silêncio e organizam o sen modo de significar. Mas, de certa forma, remetem ainda for- temente o silêncio ao dito, permanecendo na ins- tância da frase, Também a retórica é, claramente, um lugar rele- vante para a discussão das formas de silêncio. É desse modo, em relação à retórica, que Prandi (1988) transpõe os limites da fiâge e do caráter no- gativo do silêncio. t No quadro da frase, dirá ele, a elipse, figura frás- tica do silêncio, qualifica-se negativamente, como realização vazia de uma categoria formal funcional dada. No discurso, entretanto, o silêncio adquire uma identidade positiva, índice, entre outros, que se traduz na presença das figuras do silêncio espe- cificamente textuais, da elipse. Prandi assinala: à rcticência (“a svenrurata rispose”), a descontinui- dade temática (“Pedro ganhou? Viva a França!”), a subdeterminação semântica (“Uma morte per- ftumada”), Nós acrescentaríamos aí à preteriçã êncio que é projetado para o futuro dliscursi 0) De modo geral, se nos colocamos em uma pers- pectiva discursiva e, em consegiiência, não -negativa do silêncio, toda uma revisão das “figuras” seria ne- cessária e revelaria aspectos interessantes do próprio estudo da retórica. No caso presente, o que nos interessa é sobretu- do fazer aparecer, em relação às categorizações das formas de silêncio, duas delas: à) o silêncio fandan- te; e b) a política do silêncio (o silenciamento). À primeira nos indica que todo processo de si gni- ficação traz uma relação necessária ao silêncio; a se- gunda dizque — comoo sentido é sempre produzido de um lugar, a partir de uma posição do sujeito — ao dizer, ele estará, necessariamente, não dizendo “ou- ” sentidos. Isso produz um recorte necessário no sentido. Dizer e silenciar andam juntos. Há, pois, uma declinação política da significação que resulta no silenciamento como forma não de calar mas de fazer dizer “uma” coisa, para não dei- xar dizer “outras”, Ou seja, o silêncio recorta o dizer. Essa é sua dimensão política. Essa dimensão política do silêncio está, no en- tanto, assentada sobre o fato de que o silêncio faz parte de todo processo de significação (dimensão tros OS LIMITES DO MÉTODO. F DA UBSERVAÇÃO |s
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