As influencias da literatura as artes, Pesquisas de Teoria da Literatura. Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS)
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mila_dar_s5 de Agosto de 2016

As influencias da literatura as artes, Pesquisas de Teoria da Literatura. Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS)

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Explora a noção de influência, um dos principais conceitos dentro da teoria da literatura; para tanto, traçamos um breve panorama contextual histórico desde os seus primórdios, realizando sua conceituação e delimitação t...
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UNIVERSIDADE FEDERAL DE MATO GROSSO DO SULCENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS E SOCIAIS

CURSO DE LETRAS

CLÁUDIA GAMAMARINA LUZ

MILA GUIMARÃES DARÓSPEDRO HENRIQUE ALVES DE MEDEIROS

AS INFLUÊNCIAS: da literatura às artes

CAMPO GRANDE – MSFEVEREIRO / 2016

UNIVERSIDADE FEDERAL DE MATO GROSSO DO SULCENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS E SOCIAIS

CURSO DE LETRAS

CLÁUDIA GAMAMARINA LUZ

MILA GUIMARÃES DARÓSPEDRO HENRIQUE ALVES DE MEDEIROS

AS INFLUÊNCIAS: da literatura às artes

Trabalho apresentado para fins de avaliação parcial da disciplina Teoria da Literatura II, no segundo semestre de 2015, ministrada pelo Prof. Drº. Edgar Cézar Nolasco, pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul.

CAMPO GRANDE – MSFEVEREIRO / 2016

Todos os escritores são iguais; a originalidade é improvável.

BLOOM. Cânone ocidental, p. 451.

AGRADECIMENTOS

Gostaríamos de agradecer sinceramente ao Professor Doutor Edgar Cézar

Nolasco pelo voto de confiança e por ministrar com extrema dedicação a matéria de

Teoria da Literatura II. Raros são os professores que dedicam sua atenção na

orientação aos alunos. Agradecemos também aos Professores Colaboradores Alex e

Camila, pela paciência e esforço tentando nos levar na direção do aprimoramento de

nossa pesquisa e ainda nos guiar para o processo de ensino aprendizagem, no

sentido de adquirir melhor conhecimento teórico. Expressamos também nossa

gratidão pelos monitores Fernando e Milena, que não mediram esforços para nos

dar o auxílio necessário para a conclusão desse trabalho. Palavras são poucas para

expressar nossos profundos sentimentos de gratidão.

Queremos ainda agradecer nossas famílias e amigos, que tiveram a

compreensão de entender nossa ausência temporária devido ao tempo ocupado

pelas leituras, pesquisas e escritas. Esperamos que honremos a vossa confiança

com o orgulho por um trabalho que foi feito com esforço e carinho.

RESUMO

O intuito deste trabalho é explorar a noção de influência, um dos principais conceitos dentro da teoria da literatura; para tanto, traçamos um breve panorama contextual histórico desde os seus primórdios, realizando sua conceituação e delimitação teórica. E, ao fazê-lo, perpassamos pelos principais críticos que dialogam sobre o conceito, como T.S Eliot, Harold Bloom e Jorge Luis Borges. A partir disso, as referências utilizadas baseiam-se nas obras de tais autores supracitados, como a Angústia da influência, “A biblioteca de babel”, O sul”, “Pierre Menard, autor do Quixotee“Kafka e seus precursores”, por exemplo. Além disso, com o intuito de melhor ilustrar a teoria, buscamos elucidar de forma clara e objetiva como a influência se manifestou dentro da perspectiva brasileira e, por fim, trazemos alguns exemplos de sua disseminação dentro dos mais variados vieses artísticos, como a pintura e a música pop contemporânea, especificamente no que se refere Paul Auster e Sophie Calle no contexto artístico-literário e a cantora Rihanna no âmbito na contemporaneidade.

Palavras-chave: Influência; tradição; cultura; cânone; autor.

ABSTRACT

This work has the intention of exploring a notion of influence, one of the principal concepts in the literature theory; for this purpose, we traced a brief contextual historic overview since their beginnings, realizing their concept and abstract delimitation. And, by doing it, going through the principals critics that talk about the idea, such as T. S. Eliot, Harold Bloom e Jorge Luis Borges. Moreover, the references used are based on the works of these writers above, like the “Angústia da influência”, “A biblioteca de babel”, “O sul”, “Pierre Menard, autor do Quixote” e “Kafka e seus precursores”, for example. Besides, with the intention to better illustrate the theory, we tried to elucidated in a light and objective way, how the influence grows inside the Brazilian perspective and, in conclusion, we brought some examples of their dissemination inside the many artistics biases, like the painting and the modern pop music, specifically in relation to Paul Auster and Sophie Calle in the artistic-literary context and the singer Rihanna in concern to our time.

Keywords: Influence; tradition; culture; canon; author.

SUMÁRIO

INTRODUÇÃO – OS DESDOBRAMENTOS DA INFLUÊNCIA ................................. 8 CAPÍTULO I - INFLUÊNCIA: um panorama histórico-conceitual ......................... 12

1 – Origem e definição conceitual ....................................................................... 13

1.1– O método comparativo e a Literatura .......................................................... 14

1.2 – O Estudo de Influências na Literatura Comparada .................................... 17

1.3 – A Literatura Comparada ............................................................................. 20

1.4 – A Literatura Comparada no continente europeu ........................................ 21

CAPÍTULO II - CRÍTICOS DA INFLUÊNCIA ............................................................ 26

2.1 – T.S. Eliot e Harold Bloom ........................................................................... 27

2.2 – As múltiplas influências no contexto brasileiro ........................................... 34

2.3 – Jorge Luis Borges e a crítica ...................................................................... 37

2.3.1 – Borges, Kafka e seus precursores .......................................................... 39

2.3.2 – Borges, Cervantes, Dante e As mil e uma noites ................................... 43

CAPÍTULO III - ALÉM DA LITERATURA: A influência na perspectiva artístico- contemporânea ........................................................................................................ 49

3.1 – A influência entre artistas ........................................................................... 50

3.2 – Jogos de influência entre Sophie Calle e Paul Auster ............................... 52

3.2.1 – A artista visual Sophie Calle ................................................................... 53

3.2.2 – O escritor Paul Auster ............................................................................. 54

3.2.3 – O romance Leviatã e a exposição Dieta cromática: jogos de amizade e

influência ............................................................................................................. 55

3.3 – Relações de amizade/influência ................................................................ 58

CONCLUSÃO - REDES DE INFLUÊNCIA: seria possível chegar a uma conclusão? .............................................................................................................. 61 REFERÊNCIAS ......................................................................................................... 64

INTRODUÇÃO – OS DESDOBRAMENTOS DA INFLUÊNCIA

8

Nosso trabalho tem como intuito apresentar o conceito de influência e defini-lo

criticamente a partir de autores da Teoria da Literatura, como T.S Eliot, Harold

Bloom e Jorge Luis Borges. Além disso, também nos deteremos à expressão do

conceito no contexto latino-americano, mais especificamente, no Brasil. E, por fim, o

aproximaremos dos vieses artísticos, com foco nas artes plásticas e na música pop

contemporânea. A introdução oral deste seminário será apresentada pelo acadêmico

Pedro Henrique Alves de Medeiros.

Assim, não podemos discutir sobre influência, principalmente no campo das

artes literárias, sem percorrer o caminho no tempo de nossa história ocidental; para

tanto, a aluna Cláudia Gama tratará no capítulo I “INFLUÊNCIA: um panorama

histórico-conceitual”, sobre esse viés histórico. Levando em consideração que a

literatura surgiu em nossa civilização ao mesmo tempo em que a escrita, quando

não mais necessitávamos buscar nosso alimento em meio a caçadas, mas

necessitávamos de alimento para nossa mente.

Desse modo, no item 1 – “Origem e definição conceitual” buscaremos definir o

conceito de influência a partir de um panorama histórico. Adiante no subitem 1.1 –

“O método comparativo e a Literatura” discorreremos sobre o início do pensamento

filosófico. Em seguida, com o item 1.2 – “O estudo de influências na Literatura

Comparada” faremos um paralelo entre autores do início do século XX. A seguir,

com 1.3 - “A Literatura Comparada” estudaremos certas influências que

prevaleceram na França e Estados Unidos. Encerrando o primeiro capítulo, 1.4 – “A

Literatura Comparada no continente europeu” tratará de alguns precursores da

escola francesa de Literatura.

Por isso, tentaremos em um curto espaço de tempo, mostrar através do

percurso que a Literatura Comparada, pois não poderemos estudar a definição de

9

Influência sem passar pelos estudos realizados por essa disciplina, desde os gregos

até meados do século XX. Dessa forma, apontaremos alguns teóricos que se

preocuparam em buscar a tradição e originalidade em nossas produções, como Paul

Valéry, por exemplo.

Dando continuidade ao trabalho, adentraremos no capítulo II, intitulado

“CRÍTICOS DA INFLUÊNCIA”, que está dividido em duas seções e abordará

questões pertinentes ao conceito de influência sob a visão de três prestigiados

críticos literários.

No primeiro item, sob responsabilidade da aluna Marina Luz, 2.1 – T.S. Eliot e

Harold Bloom têm como propósito fazer uma viagem pelo livro A angústia da

influência (2002) de Bloom a fim de compreender o ponto de vista do autor sobre o

tema, estabelecendo, para isso, relações entre as teorias do autor e as convicções

de Eliot.

No item seguinte 2.2, intitulado “As múltiplas influências no contexto

brasileiro”, a acadêmica Marina Luz retornará ao debate, comentando de maneira

breve e concisa sobre o contexto histórico cultural nacional no que se refere à teoria

literária e ao assunto de influência.

Na sequência, nesse mesmo capítulo, o acadêmico Pedro Henrique Alves de

Medeiros abordará o teórico Jorge Luis Borges, na seção 2.3 – Jorge Luis Borges,

com as subseções 2.3.1 – Borges, Kafka e seus precursores e 2.3.2 – Borges,

Cervantes, Dante e As mil e uma noites. O intuito da seção geral 2.3 será traçar um

panorama geral do autor e de sua obra, trazendo alguns teóricos os quais dialogam

com o conceito de influência em relação ao universo literário borgeano.

Já em 2.3.1 – Borges, Kafka e seus precursores, buscaremos relacionar o

ensaio “Kafka e seus precursores” ao texto “A biblioteca de babel” no intuito de

10

estabelecermos um liame de influência a partir de vários teóricos da área da teoria

da literatura. E, desse modo, engendrarmos todo nosso embasamento a partir de

críticos da teoria literária.

Adiante, teremos 2.3.2 – Borges, Cervantes, Dante e As mil e uma noites,

subseção na qual nosso objetivo será estabelecer vínculos de influência entre

Borges e todos os outros escritores especificados a partir de exemplificações de

cunho ficcional e teórico.

Durante o capítulo III - “ALÉM DA LITERATURA: a influência na perspectiva

artístico-contemporânea”, a acadêmica Mila Guimarães Darós, com o intuito de

melhor ilustrar a discussão teórico-crítica sobre a temática influência, apresentará

alguns breves exemplos de relações entre artistas e escritores, o que possibilitará

maior percepção sobre o assunto. O primeiro item do capítulo 3.1 – “A influência

inter/artes: relações entre artistas” trará algumas questões consideradas primordiais

para introduzir o assunto das relações entre diferentes linguagens artísticas e sobre

diferentes conceituações sobre a principal temático do presente trabalho.

No item 3.2 – “Jogos de influência entre Sophie Calle e Paul Auster” a artista

Sophie Calle e o escritor Paul Auster serão apresentados brevemente, tendo por

intenção situar os dois artistas amigos em seus trabalhos artísticos que dialogam

entre si. No item posterior 3.3 – “Amizades” serão expostos alguns dos artistas que

admitem explicitamente suas influências e inspirações, relações que se entrelaçam e

vão além da relação de dependência precursor/sucessor clássica. Além dos

exemplos propriamente ditos, serão apresentados concisamente alguns conceitos

que permeiam o assunto.

Por fim, em nossa conclusão “REDES DE INFLUÊNCIA: seria possível chegar

a uma conclusão?”, que será apresentada pela acadêmica Marina, chegaremos ao

11

consenso que seria impraticável determinar limites da influência, visto que é muito

vasto e sempre interligado, isto é, estabelecendo redes de influência entre

precursores e sucessores.

12

CAPÍTULO I - INFLUÊNCIA:

um panorama histórico-conceitual

[...] a influência é uma aquisição fundamental que modifica a

própria personalidade artística do escritor.

NITRINI. Literatura Comparada, p. 127.

13

1Origem e definição conceitual

Antigamente, percebia-se em você, aqui e ali, algumas nuances que eram como refinadas e benevolentes marcas da boa George Eliot – ecos de suas leituras extensas daquela excelente senhora...Mas agora é você que é como um “mestre do passado” ( de preferência grego), um mestre que ela parece ter lido e de quem só se observa, nas texturas dela, uma reflexão enfraquecida.

ARAC apud NESTROVSKI. Palavras da crítica, p.213.

A origem da palavra “influência” vem do latim influere, “fluir para dentro”. Em

seu sentido original, a influência é o fluxo de um fluido etéreo das estrelas,

supostamente responsável pelas alterações do caráter e das ações humanas.

Recurso muito usado na Antiguidade (como a consulta a vários Deuses; interesse

pela astronomia; o interesse em quase todas as civilizações conhecidas em mapas

astrológicos, e muito combatido na Idade Média – conhecimento elevado ao grau de

Bruxaria).

Quando se diz, no dia-a-dia, que determinada pessoa, ao tomar uma decisão,

se deixou influenciar por outra, é ainda o sentido medieval dos astrólogos que marca

a nossa linguagem. É o mesmo caso quando se diz que determinado autor foi

influenciado por outro. Subjacente a esta ideia, está a noção de uma história linear e

unidirecional da literatura, onde os autores mais antigos influenciam os mais

contemporâneos e o momento em que grande parte da individualidade poética não é

outra coisa senão a capacidade de se livrar da influência dos outros.

Todo o poeta quando tem força o bastante para ingressar no contínuo da

literatura, altera o passado assim como se deixa determinar por ele; a influência tem

duas mãos, e o gênio uma força de resistência capaz de equilibrar, ou suplantar, o

fluxo maciço das influências passadas. No momento “sublime”, as fronteiras se

dissolvem e o leitor é tomado pela ideia, como se a ideia e texto lhe pertencessem.

14

1.1– O método comparativo e a Literatura

O método comparativo de adquirir conhecimento é, num certo sentido, tão

antigo quanto o pensamento. Os voos mais altos e mais brilhantes da eloquência

oratória ou da imaginação poética são sustentados por esta estrutura rudimentar de

comparação e diferença. Seria a primeira etapa do pensamento humano.

A inteligência ateniense e a reflexão alexandrina não perceberam esta

verdade fundamental, e esta falha é atribuída principalmente a certas características

sociais dos gregos, no período clássico. Viviam em um mundo fechado, para o qual

todos os demais povos eram bárbaros.

O pensamento comparado estava fechado ao grego devido seu desprezo por

qualquer língua que não fosse a sua, e ao mesmo tempo, as comparações de sua

vida social, em etapas bastante diversas, foram reduzidas parcialmente pela falta de

monumentos do seu passado, muito mais por desprezo aos gregos menos

civilizados, como os macedônios, e principalmente por sua religião politeísta,

composta por vários deuses que regiam sua sociedade, para ser tocada pela

ciência. Sendo assim, fizeram pouco progresso em relação ao pensamento

comparativo.

Já os romanos eram profundamente conscientes de sua dependência em

relação aos gregos. No Diálogo sobre oradores (74-75 d.C.), de Tácito, por exemplo,

há um sofisticado paralelo entre oradores gregos e romanos, no qual cada escritor é

equiparado ou contrastado com certo cuidado. A obra é um elogio a monarquia de

Trajano, e propõe relatar um diálogo, que ouvira quando jovem, acerca do declínio

da eloquência.

Para Longinusou Longino, ou quem quer que tenha escrito o tratado

habitualmente chamado Sobre o Sublime (213–273 d.C.) com para o estilo de Cícero

15

ao de Demóstenes e dá, como exemplo do Grande Estilo, o trecho Da Gênese:

“Faça-se a luz; e a luz se fez”. A força do texto é descrita como a capacidade de

produzir no leitor a impressão de que é, ele mesmo, o autor daquilo que leu. A

apropriação não para por aí. Pois para Longinus “a força do texto é produzir a ilusão

de força no leitor, então existe de fato, uma prioridade do autor sobre seus leitores,

uma prioridade invisível, ou tornada invisível pela força que concede força ao outro.”1

Posteriormente Macrobiu2 escreveu a sátira Saturnalia que retrata um mito,

banquete dos deuses, discute longamente a imitação feita de poetas gregos.

Embora a experiência da variedade da literatura na Antiguidade seja limitada, e

embora muito de sua erudição tenha se perdido – durante a Idade Média ela deve

ter sido considerada efêmera ou local e por isso não digna de ser copiada – não se

deve subestimar o espectro e a intensidade da sabedoria literária da Antiguidade

Clássica, especialmente em Alexandria e em Roma. Havia muita crítica textual,

observação estilística e até mesmo a que poderia agradar um comparatista

moderno: preservou-se uma elaborada comparação do tema de Filoctetes em

Ésquilo, Sófocles e Eurípedes.

O Renascimento fez reviver em grande escala a erudição literária. Há uma

ruptura com as tradições intelectuais da Idade Média, embora não tenha sido tão

radical como se pretendeu no século XIX. Houve uma volta a Antiguidade Clássica e

se fizeram comparações de Homero com Virgílio, de Virgílio com outros gregos e

impor, pelo menos em teoria uma certa uniformidade.

Na retórica do Renascimento, retomou-se o conceito de mimese e

aconselhou-se a imitação dos grandes autores antigos, principalmente os Greco-

romanos, enquanto authorictas, de acordo com princípios e procedimentos de

1 LONGINUS apud NESTROVSKI. Influência, p. 217.

2 Foi um gramático do século IV d.C., funcionário de alto escalão em Constantinopla.

16

adaptação ao cânone e formas literárias em vigor. Outra confusão que ocorreu

nesse período foi entre poética e retórica, confusão esta que perdurou nos séculos

XVII e XVIII. Os comentadores renascentistas, comprometidos com a verdade literal,

a exortação moral e as necessidades de um público específico, fundaram-se, sem

rigor em Aristóteles.

A noção de imitação de Platão, contida de maneira detalhada nos livros II, III e

X da República, como uma cópia literal da realidade externa, levou os críticos

renascentistas a darem mais importância ao grau de conformidade entre obra e

modelo do que estrutura artística da obra. O sentido da imitação decorre do

processo de adaptação renascentista, em que o resultado é um produto literário,

uma obra escrita, cujo título remete sempre ao modelo.

Constituía a emulação de grandes modelos do passado, através dos quais o

escritor podia mostrar sua originalidade, mas difícil de apontar. Assim no

Renascimento, a noção literal de Aristóteles de imitação apresentada em sua

Poética tenha servido como uma importante fonte de deformação desse conceito

durante e depois da Renascimento.

A motivação da maioria dos eruditos do renascimento era patriótica: ingleses

compilavam listas de escritores com a finalidade de provar suas gloriosas conquistas

em todos os campos do saber; franceses, italianos e alemães faziam o mesmo. Um

exemplo que retrata bem o sentimento da época é a obra portuguesa de Camões

chamada Os Lusíadas. Mas havia também uma consciência eventual da existência

de literatura fora da tradição ocidental. A notável Defence of Rime, de Samuel Daniel

(1607) demonstra que o autor sabia que os turcos, árabes, eslavos e húngaros usam

a rima.

17

Assim, na mesma época, uma nova concepção de história literária foi

proposta por Francis Bacon em seu livro Advancement of Learning (1603). A história

literária deveria ser uma “história do florescimento, crises e extinções” de escolas se

aceitava tradições. Para Bacon, a história literária é a história do saber, que incluía a

poesia. A proposta de Bacon ia muito além das enfadonhas listas de autores,

compilações de vidas de autores, repertórios bibliográficos, que estavam sendo

organizados naquela época (Iluminismo) pelos Enciclopedistas, na maioria dos

países do ocidente.

Surgida na Europa na primeira metade do século XIX, no contexto de

formação das nações, quando novas fronteiras estavam sendo estabelecidas e a

ampla questão de cultura e da identidade discutidas, cujo o resultado é uma

modificação da forma mentis e da visão artística e ideológica do receptor. Deste

ponto de vista, a influência, modifica a personalidade artística do escritor.

A partir do século XX, a teoria da intertextualidade, no contexto da literatura

vem como um instrumento eficaz para injetar sangue novo no estudo dos conceitos

de “fonte” e de “influência”. Dizer que a literatura é “influência” é dizer que ela é

intertextual e deve nos conduzir, necessariamente, a um momento de interpretação.

1.2 – O estudo de influências na Literatura Comparada

Qualquer teoria sobre esse assunto implica uma compreensão, consciente ou

não, da natureza do ato criativo em arte. Segundo Cláudio Guillén, certas ideias que

prevaleceram na França e que foram adotadas em outros lugares durante o último

quartel do século XIX, o pensamento de Hippolite Adolphe Taine3, continua sendo o

exemplo mais representativo desse clima intelectual, em que tudo se explica através

3 Filósofo, crítico, historiador e um dos maiores teóricos do Naturalismo.

18

da ciência. No sistema de Taine cada obra de arte é determinada por uma causa e

deve ser explicada por ela. Taine utiliza o atalho biológico em sua crítica artística.

Influência, afinal, é para Paul De Man4, uma metáfora, que “dramatiza uma

estrutura linguística numa narrativa diacrônica”.5 Dentre as muitas questões das

quais não demos conta ainda na leitura de nossos poetas, a influência não é a

menor. Ligados diretamente à problemática da criação, no quadro da literatura

comparada tradicional, surgem-nos os conceitos de imitação, influência e,

colateralmente, o de originalidade.

Dessa forma, Alejandro Cionarescu foi um dos estudiosos que se dedicou ao

estudo dessa questão, tendo identificado duas acepções diferentes para o conceito

de influência, a mais corrente, indica as relações de contato de qualquer espécie

entre um emissor e um receptor; e a segunda refere-se a contatos artísticos entre

uma fonte e um autor, contatos que resultam do conhecimento direto ou indireto das

fontes, mas as obras literárias produzidas nesse quadro ostentam personalidade

própria, se bem que possam reconhecer os indícios de contato.

Tratando-se de conceitos que se confundiram em muitos momentos da Teoria

da Literatura, os estudos filiados a Literatura Comparada trataram de lhes delimitar

os contornos de forma a torná-los mais operacionais. Para Sandra Nitrini6, o conceito

de influência tem duas acepções diferentes7:

4 Paul De Man era belga, mas encontrou o reconhecimento como teórico e crítico literário nos Estados

Unidos. Foi professor universitário nas conceituadas Universidades de Yale e Cornell e pertencia a geração dos New Cristicism. Ajudou a converter a desconstrução, abordagem crítica originada por Jacques Derrida de quem era contemporâneo e sofreu influência, dando força na vida intelectual norte-americana. 5 HOLLANDER apud NESTROVSKI. Palavras da crítica, p. 227.

6 Possui graduação em Letras Português - Francês pela Universidade de São Paulo (1968), mestrado

em Letras - Ecole Pratique Des Hautes Etudes de Paris (1974) e doutorado em Letras (Teoria Literária e Literatura Comparada) pela Universidade de São Paulo (1984). É professora titular da Universidade de São Paulo. Foi professora visitante na Universidade de Paris 8, em 2003, 2008 e 2013. Tem experiência na área de Letras, com ênfase em Teoria Literária, atuando principalmente nos seguintes temas: literatura brasileira, critica literária, literatura comparada, literatura francesa e critica comparatista. Coordena a organização do Fundo Osman Lins junto ao IEB da USP. Participa do Grupo de Pesquisa Brasil-França do IEA da USP, tendo sido sua coordenadora por quatro anos.

19

a) A primeira, e mais corrente, é a que indica a soma de relações de contato

de qualquer espécie, que se pode estabelecer entre um emissor e um receptor.

b) A segunda acepção é de ordem qualitativa, influência é o “resultado

artístico autônomo de uma relação de contato”8, entendendo-se como contato o

conhecimento direto ou indireto de uma fonte por um autor.A expressão “resultado

autônomo” refere-se a uma obra literária produzida com a mesma independência e

com os mesmos procedimentos difíceis de analisar, mas fáceis de reconhecer

intuitivamente, da obra literária em geral, ostentando personalidade própria e

representa arte literária e as demais características próprias de seu autor, mas na

qual se reconhecem, ao mesmo tempo, num grau que pode variar

consideravelmente, os indícios de contato entre o seu autor, ou vários outros.

Tratando-se de conceitos que se confundiram em muitos momentos da

história literária, os estudiosos filiados a esta disciplina trataram de lhes delimitar os

contornos de forma a torná-los mais operacionais. Até certo ponto, a influência pode

confundir-se com a imitação, e a noção de imitação refere-se a detalhes materiais

como: traços de composição, a episódios, a procedimentos, ou tropos bem

determinados.

Nos estudos de tradição, imitação é entendida como mimesis, a imitação da

natureza como fonte arte, não se tratando de representação de uma ação, mas se

tratando da representação de uma experiência geral ou comum (a imitação facilita a

cópia da realidade).

membro da Associação Brasileira de Literatura Comparada, da qual foi presidente de 2006 a 2008 e membro da Associação Internacional de Literatura Comparada , colaborando com esta Associação na qualidade de membro do comitê de estruturas, desde 2007. Dentre suas publicações, salientam-se livros e artigos dedicados à Literatura Comparada e à obra de Osman Lins. Foi diretora da FFLCH da USP de 2008 a 2012. Atualmente é diretora do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP (gestão 2014-2018). Fonte: Plataforma Lattes. Disponível em: http://lattes.cnpq.br/6614065171029518 7 CIONARESCU apud NITRINI. Literatura comparada, p.127.

8 CIONARESCU apud NITRINI. Literatura comparada, p.127.

20

Influência denuncia a presença de uma transmissão menos material, mais

difícil de apontar. A influência é uma aquisição fundamental que modifica a própria

personalidade artística do escritor. Para o estudioso Cianorescu, influência é, até

certo ponto, confundido com imitação, sobretudo se o seu sentido se restringir à

primeira acepção.

O panorama da trajetória da literatura comparada, substanciada sobretudo em

três tendências – a francesa, a americana e a dos países do Leste europeu, ou

inserida em sua tradição teórica – com premissas de ordem positivista,

fenomenológica da obra literária e de dialética entre a sociedade e a literatura,

respectivamente.

Seja para afirmá-la, seja para negá-la, seja para transformá-la, seja para

substituí-la por um novo conceito, como o da “intertextualidade”, seja para renová-la

dentro do contexto da teoria da estética da recepção.

Tentaremos mostrar diferentes caminhos que foram e, eventualmente

poderão ser de acordo com a concepção teórica de cada estudioso citado nesse

trabalho.

1.3 – A Literatura Comparada

O conceito deinfluência surge juntamente com o surgimento da Literatura

Comparada. Como o seu objetivo primário é confrontar duas ou mais literaturas,

bastou que elas emergissem para os comparativistas manifestarem-se.

Apesar de ter despontado há milhares de anos, a Literatura Comparada surge

como disciplina de uma maneira sistematizada no século XIX e num contexto

europeu. Conceitos como paródia,paráfrase,plágio,imitação e de influênciaforam

colocados em manuais de literatura comparada e em comunicações proferidas no

21

âmbito dos congressos da Associação Internacional de Literatura Comparada. Com

o conceito de originalidade, encerra-se o núcleo tradicional de conceitos da literatura

comparada, diretamente ligados à problemática da criação literária.

O século XIX até meados do século XX, o vocabulário que melhor define a

Literatura Comparada, isto é, sua palavra chave, é influência, pois ela representa

uma ferramenta de afirmação de um país e de uma cultura nacional, mostrando a

força de um país sobre o outro.

Enquanto que em seus primórdios a literatura comparada encontra-se ligada

ao nacionalismo, criando relações de submissão cultural, atualmente baniu-se o

vocabulário influência de seu léxico deslocando sua atenção para um campo de

estudo muito mais abrangente, o qual rompe com fronteiras culturais e buscar firmar,

ao invés de um confronto entre obras e autores referênciasque o texto literário cria a

partir de um ponto de vista internacional.

1.4 – A Literatura Comparada no continente europeu

O século XIX, diante de uma visão cosmopolita, incitou o encontro de vários

intelectuais europeus, os quais sentiam uma necessidade de estar em contato com

literatura estrangeiras. A Literatura Comparada foi introduzida nas Universidades

francesas, a partir desse contexto por Abel Villemain, Jean-Jacques Ampère e

Philarète-Chasles. Este último definiu-se em sua aula inaugural o que seria o

comparativismo naquela época.

Deixe-nos avaliar a influência de pensamento sobre o pensamento, a maneira pela qual povos transformam-se mutuamente, o que cada um deles deu o que cada um deles recebeu, deixe-nos avaliar também o efeito deste

perpétuo intercâmbio entre nacionalidades individuais ( ... ). 9

9 CHASLES apud NITRINI. Literatura comparada, p.20.

22

Pode-se perceber que a palavra que traduz a concepção comparatista do

século XIX é influência, havendo uma forte razão para sê-lo, uma vez que foi

justamente nesse período que muitos países europeus se firmaram como nações e

buscavam identificar suas raízes culturais.

Vozes como a de Gustave Lanson e de Emile Fouguet até a década de 30,

quando entrou em cena Paul Van Tieghem, precursor da “Escola Francesa”, cuja

metodologia baseia-se em três elementos: o emissor (ponto de partida da passagem

de influência), o receptor (ponto de chegada), e o transmissor (intermediário entre o

emissor e o receptor). Essa tendência mostrou-se muito contextualizada uma vez

que a sua preocupação primordial não é a estrutura interna do texto, e sim o

contexto que o envolve.

Em 1931, Paul Tieghem publicou a obra La Littérature Comparée, revelando

sua tradição historicista nos estudos comparados na literatura em geral, quanto na

historiografia literária. Tem como objeto de estudo as diversas literaturas e suas

relações entre si como se ligam umas com as outras na forma, no conteúdo, no

estilo. Criando uma tríade (O emissor, o receptor e o transmissor), ele estabeleceu

diferenças entre Literatura Nacional, Literatura Comparada e Literatura Geral.

Em sua Literatura Comparada, revela a pertinência que tem o contexto, no

caso o emissor, em uma análise comparatista:

Aquela obra, aquele conjunto de obras que você leu com interesse, examinou e julgou, qual foi a origem, o que as ocasionou, qual seu destino, em resumo,qual sua história?, este escritor lhe agrada?, como foi sua carreira?, breve ou longa, brilhante ou obscura, abundante em publicações ou marcada por um único livro (...) que é uma obra prima?Sob que influências se formou como se desenvolveu seu talento, que relações manteve com seus contemporâneos dos quais você leu, certas

produções(...) 10

Nos início do século XX, anos de entre 1924 e 1927, Paul Valéry, poeta

francês, crítico de arte, arquitetura, participou do movimento moderno, contribuiu

10

NITRINI. Literatura comparada, p.90.

23

com seus estudos efetuados nesse período, mas ainda de grande atualidade, para a

compreensão e, consequente operacionalização, do conceito de influência. Paul

Valéry deu cara nova ao conceito de Influência Literária renovando as definições do

comparativismo. Para ele, a dependência entre autores se dá como fonte de

originalidade e não como imitação, sendo uma“intrusão do novo na criação”11.

Utilizarão diretamente de sua formulação sobre a influência para melhor

compreende-la: “ocorre que a obra de um recebe no ser do outro um valor

totalmente singular, engendrando consequências atuantes, impossíveis de serem

previstas e, com frequência, impossíveis de serem desvendadas”.12

Valéry explica a influência recorrendo à psicologia, uma vez que o método

objetivo de pesquisa de filiações e de causalidade por ele abandonado, atribuindo ao

conceito em questão um caráter emocional. Suas ideias sobre originalidade também

são muito interessantes, por isso se trata de assimilação, ou “caso de estômago”

(digerir o que leu), que garante uma impecável assimilação da “substância dos

outros”, segundo suas próprias palavras. A fronteira entre originalidade e plágio pode

ser estabelecida através de como se digeriu a influência exercida por outros, sendo

definida a partir da ação de uma obra sobre o escritor que a ela está exposto.

Sistematizando o pensamento de Paul Valéry, sobre a questão da influência,

identifica quatro categorias:

a) Influência Recebida – Consiste no contato misterioso de dois espíritos ou

na dívida de autor, ou seja, a influência que ocupa o centro dos estudos

comparatistas e que Valéry chamou de “modificação progressiva de um espírito pela

obra de um outro”13;

11

VALÉRY apud NITRINI. Literatura comparada, p. 132. 12

VALÉRY apud NITRINI. Literatura comparada, p.132. 13

VALÉRY apud NITRINI. Literatura comparada, p.132.

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b) Influência exercida sobre a posteridade, que determina, em grande

parte, o valor da própria obra emissora;

c) Influência que o autor exerce sobre si mesmo;

d) Influência por reação, ou seja, a recusa da influência.

Dessas categorias, a primeira por suas implicações no ato do criador,

mereceu maior atenção dos estudiosos. Para Valéry, o estudo da influência é a

pesquisa de semelhanças escondidas, de parentescos secretos entre duas visões

de mundo.

Resumindo, a influência é para o poeta Paul Valéry, uma aliada no processo

criador, pois sua poética é “o desejo de originalidade é o pai de todos os

empréstimos, de todas as imitações”14, e um dos princípios fundamentais para o

gênese de uma obra literária. A maior originalidade é garantida quando uma obra

age sobre o escritor, não por todas as suas qualidades, mas apenas por algumas

delas.

Outro comparatista que estudou a influência foi Claudio Gillén. Representante

da Escola Comparatista dos Estados Unidos, embora de naturalidade espanhola,

contribuiu com outros conceitos fundamentais para a teoria literária sobre convenção

e tradição.

Sobre influência, Gillén procurou estabelecer a distinção entre influência

relacionada estritamente à criação e influência como conceito operacional da teoria

literária. Seu método propõe na interpretação de fenômenos genéticos. O segundo

passo é textual e comparativo, mas inteiramente dependente do primeiro para a sua

significação. Primeiro se propõe apurar se uma influência ocorre e avaliar a

relevância ou função genética. Daí se pensaria em considerar o resultado objetivo

14

VALÉRY apud NITRINI. Literatura comparada, p.135.

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