Aspectos gerais, farmacolÓgicos e toxicolÓgicos da cocaÍna e seus efeitos na gestaÇÃo, Pesquisas de Gestão de Conhecimento. Universidade Federal do Pará (UFPA)
renan_rodrigues
renan_rodrigues23 de Outubro de 2016

Aspectos gerais, farmacolÓgicos e toxicolÓgicos da cocaÍna e seus efeitos na gestaÇÃo, Pesquisas de Gestão de Conhecimento. Universidade Federal do Pará (UFPA)

PDF (212 KB)
13 páginas
75Número de visitas
Descrição
Toxicologia cocaína
20pontos
Pontos de download necessários para baixar
este documento
baixar o documento
Pré-visualização3 páginas / 13
Esta é apenas uma pré-visualização
3 shown on 13 pages
baixar o documento
Esta é apenas uma pré-visualização
3 shown on 13 pages
baixar o documento
Esta é apenas uma pré-visualização
3 shown on 13 pages
baixar o documento
Esta é apenas uma pré-visualização
3 shown on 13 pages
baixar o documento
REVISÃO- ASPECTOS FARMACOLÓGICOS E TOXICOLÓGICOS DA COCAÍNA E SEUS EFEITOS NA GESTAÇÃO

REF ‒ ISSN 1808-0804 Vol. VIII (2), 75 - 87, 2011

ASPECTOS GERAIS, FARMACOLÓGICOS E TOXICOLÓGICOS DA COCAÍNA E SEUS

EFEITOS NA GESTAÇÃO

PHARMACOLOGICAL AND TOXICOLOGICAL GENERAL ASPECTS REGARDING COCAINE

AND ITS USE DURING PREGNANCY

GENERALES, FARMACOLOGÍA Y TOXICOLOGÍA ASPECTOS DE COCAÍNA Y SUS EFECTOS

EN EL EMBARAZO

Louise Pinhati Siqueira1; Angélica da Conceição Oliveira Coelho Fabri2; Rodrigo

Luiz Fabri*.

1. Aluna de Farmácia da UNIPAC/Juiz de Fora/ Minas Gerais

2. Enfermeira; Mestranda em Enfermagem pela UFMG

3. Professor Adjunto I; Faculdade de Ciências da Saúde; Universidade Presidente Antônio

Carlos/Juiz de Fora/ Minas Gerais

*Autor para correspondência e-mail: rodrigolfabri@yahoo.com.br

Recebido em 04/01/2011, Aceito em 29/05/2011

RESUMO: A utilização da cocaína durante a gestação pode causar efeitos gravíssimos no

feto, como má formação, desenvolvimento retardado e redução do fluxo sanguíneo

cerebral, o qual pode persistir até a adolescência. Com o objetivo de descrever os efeitos

do uso da cocaína na gestação, elucidando os seus principais efeitos farmacológicos e

toxicológicos, foi realizada uma revisão bibliográfica em que foram selecionados artigos,

dissertações, teses e livros didáticos de acordo com o tema em estudo no período

compreendido entre 2001 a 2009. No banco de dados Pubmed, foram utilizados dois

descritores: Cocaine prenatal e effects cocaine pregnancy. Após análise dos documentos

encontrados, foram eleitos 32 para compor a discussão deste estudo. Esse é um

problema que merece destaque dentro dos serviços de saúde, pois trata-se de um grave

Siqueira, L. P.; Fabri, A. C. O. C.; Fabri, R. L. Revista Eletrônica de Farmácia Vol. VIII (2), 75 - 87, 2011

problema de saúde pública passível de intervenção, a qual sendo realizada de forma

coerente e em tempo hábil pode reduzir ou até mesmo evitar agravos a saúde da

gestante e do feto, além de redução dos gastos públicos com os longos períodos de

internação e recuperação da saúde dos usuários.

Palavras-chave: cocaína pré-natal; efeitos cocaína gravidez

ABSTRACT: Its use can cause very serious effects on the fetus, such as malformation,

delayed development and decreased cerebral blood flow, which can persist into

adolescence. Aiming to describe the effects of cocaine use during pregnancy, explaining

its main pharmacological and toxicological effects, we performed a literature review that

were selected articles, theses, dissertations and textbooks according to the subject under

study in the period between 2001 to 2009. In the Pubmed database, we used two

descriptors: Cocaine prenatal cocaine effects and pregnancy. After examining the

documents found by following the inclusion criteria, 32 were elected to compose the

discussion of this study. This is a problem that deserves attention in health services,

because this is a serious public health problem susceptible to intervention, which is being

performed consistently and on time can reduce or even avoid injuries to pregnant

women's health and the fetus, and reduction of public spending long periods of

hospitalization and recovery of users' health.

Keywords: prenatal cocaine; cocaine effects pregnancy.

RESUMEN: Su uso puede tener efectos muy graves en el feto, tales como los pobres

formación, retraso en el desarrollo y la reducción del flujo sanguíneo cerebral, que puede

persistir hasta la adolescencia. Con el objetivo de describir el efectos del uso de cocaína

durante el embarazo, explicando su objetivo principal pruebas farmacológicas y

toxicológicas, se realizó un la literatura que se seleccionaron los trabajos, tesis y libros

de texto de acuerdo con el tema objeto de estudio en período comprendido entre 2001 y

2009. En la base de datos Pubmed, dos descriptores utilizados fueron: cocaína y prenatal

efectos de la cocaína embarazo. Después de examinar los documentos que se

encuentran, siguiendo los criterios de inclusión, fueron elegidos 32 para hacer la

discusión de este estudio. Este es un tema que merece atención en los servicios salud,

ya que es un problema grave de salud pública susceptibles de intervención, que se llevó

a cabo en un manera coherente y oportuna puede reducir o incluso evitar dañar la salud

de la madre y el feto, y la reducción de pública, pasar períodos largos de hospitalización

y recuperación de la salud de los usuarios.

Siqueira, L. P.; Fabri, A. C. O. C.; Fabri, R. L. Revista Eletrônica de Farmácia Vol. VIII (2), 75 - 87, 2011

Palabras-clave: prenatal a la cocaína, la cocaína el embarazo de efectos

INTRODUÇÃO

A cocaína é o principal constituinte

ativo encontrado nas folhas da

Erythroxylum coca, planta originária da

zona tropical dos Andes, que cresce

principalmente em regiões de clima

quente e úmido(¹). A pasta de coca é

obtida nas primeiras fases de preparação

através da maceração das folhas da

planta, contém muitas impurezas e é

fumada sozinha ou em combinação com

tabaco ou maconha. Além disso, pode

chegar ao consumidor nas formas de um

sal (cloridrato de cocaína), que pode ser

aspirado ou dissolvido em água e ser

utilizado por via endovenosa(2,3).

A cocaína é consumida

mundialmente por 13,4 milhões de

pessoas, o que corresponde a 0,3% da

população entre 15 e 64 anos, mas vem

se registrando uma queda moderada no

consumo desde 2004. A maior parte da

droga é usada nas Américas,

especialmente na América do Norte, com

6,5 milhões de dependentes químicos, o

que corresponde a quase metade da

demanda mundial da droga. No Brasil o

consumo de cocaína estabilizou no

período de 1997 a 2000, após

considerável aumento entre 1987 e

1997, no entanto, o abuso de cocaína

ainda configura em um grave problema

social, estando relacionado com a

crescente criminalidade no país(4).

Nos EUA, estima-se que 10% das

mulheres norte-americanas tenham

utilizado cocaína durante a gravidez,

tendo ocorrido deslocamento de placenta

prematura na maioria das pacientes,

além de outras complicações, tanto

perinatais quanto maternais(4,5).

A cocaína é uma substância

psicoativa que atua no sistema de

recompensa cerebral-brain reward

system-, através da recaptação de

neurotransmissores. Acredita-se que o

bloqueio da recaptação da dopamina

leva a um aumento da concentração

deste neurotransmissor na fenda

sináptica (espaço entre os neurônios),

fenômeno responsável pelas sensações

de euforia, prazer, poder, diminuição da

necessidade de sono, aumento das

sensações sexuais, redução do apetite,

estado de hiperatividade com aceleração

do pulso, aumento do ritmo respiratório,

febre, hipertensão arterial, tremor nas

mãos e agitação psicomotora. Provoca

uma constrição local dos vasos, fato este

que limita sua velocidade de absorção.

Apesar disso, a velocidade de absorção

pode exceder à de desintoxicação e

excreção podendo o composto ser

altamente tóxico(3,6).

A cocaína altera o funcionamento

normal da gestação e o desenvolvimento

do feto através da circulação, pois atua

no sistema nervoso central estimulando

o sistema dopaminérgico, aumentando

assim a frequência cardíaca e fazendo

vasoconstrição. Através da

vasoconstrição há uma diminuição da

Siqueira, L. P.; Fabri, A. C. O. C.; Fabri, R. L. Revista Eletrônica de Farmácia Vol. VIII (2), 75 - 87, 2011

chegada de oxigênio e nutrientes para a

placenta e consequentemente para o

feto, propiciando diversos problemas ao

desenvolvimento fetal(4,5).

Esta revisão tem como objetivo

descrever os aspectos gerais,

farmacológicos e toxicológicos da

cocaína e elucidar os seus efeitos na

gestação.

METODOLOGIA

O presente trabalho utilizou o

referencial da pesquisa bibliográfica,

entendida como “o ato de indagar e de

buscar informações sobre determinado

assunto, através de um levantamento

realizado em base de dados nacionais e

internacionais, com o objetivo de

detectar o que existe de consenso ou de

polêmico no estado da arte da

literatura”(7). Com este propósito foi

efetuada uma revisão das publicações na

área de saúde sendo consultada a base

de dados Pubmed utilizando como

descritores cocaine prenatal e effects

cocaine pregnancy, além de livros

didáticos, dissertações e teses no

período compreendido entre 2001 a

2009. Os livros didáticos, as dissertações

e as teses encontrados foram

selecionados de acordo com alguns

critérios de inclusão: informações

inerentes ao tema em estudo,

disponibilidade na integra em português,

em inglês ou em espanhol e ter sido

publicado dentro do período proposto

(2001 a 2009).

Após leitura na íntegra de todo o

material encontrado elegeram-se 23

artigos, cinco livros e quatro teses para

embasar esta revisão. Foram discutidas

questões relacionadas com aspectos

gerais, farmacológicos e toxicológicos, e

exposição pré-natal à cocaína.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Aspectos Gerais

A cocaína é um dos alcaloides

presentes nas folhas provenientes de

duas espécies do gênero da Erytroxylum,

vulgarmente denominado coca: a

Erytroxylum novogranatense (Morris)

Hieron, variedade trujjilo, cultivada

legalmente e cuja produção destina-se à

indústria farmacêutica, onde a cocaína é

utilizada como anestésico local ou à

indústria alimentícia como constituintes

de chás, e a Erytroxylum coca Lam, que

é a principal fonte de produção ilícita(2).

Das mais de 200 espécies do

gênero Erythroxylum, além da E. coca,

apenas a E. coca var. ipadu, E.

novogranatense e E. truxillense

produzem quantidades apreciáveis de

cocaína, sendo que o conteúdo varia

entre 0,5 e 2%(8).

A planta se desenvolve melhor em

clima úmido, à temperatura de 15° a

20° C em altitudes de 450 a 1800

metros, atingindo sua plenitude após 18

meses, mantendo-se produtiva por um

período de 10 a 30 anos ou mais com

sua colheita feita de três a quatro vezes

por ano. Produzem folhas brancas e

pequenas, frutos vermelhos em baga e

folhas que crescem em grupo de sete

Siqueira, L. P.; Fabri, A. C. O. C.; Fabri, R. L. Revista Eletrônica de Farmácia Vol. VIII (2), 75 - 87, 2011

por talo(9).

Os incas achavam que as folhas de

coca fossem um presente do deus Sol e

usavam durante suas cerimônias. Elas

podem ser mascadas ou ingeridas, nas

quais é adicionado carbonato de cálcio, o

que permite uma liberação sustentada e

lenta da droga pela mucosa bucal. Os

níveis sanguíneos atingidos e o risco de

dependência são baixos. No chá de

cocaína, prática comum no Peru, há

pouca quantidade do alcaloide(9,10).

Logo o plantio tornou-se popular

no velho mundo, despertando grande

interesse cientifico. Entre 1860 e 1885

passou a ser empregado como

anestésico local. Em razão de seus

efeitos colaterais e das novas

descobertas no campo da anestesia, foi

gradativamente substituída por drogas

mais seguras(11).

A partir de 1855, quando a cocaína

foi quimicamente isolada, seu uso

aumentou drasticamente pelas pessoas

que acreditavam que a substância tinha

poderes especiais. Sigmund Freud, em

1884, sugeria diversas aplicações

terapêuticas para a cocaína, incluindo

tratamento para asma, depressão e

alívio da fadiga crônica. Mais tarde, após

observar seus efeitos adversos como

tolerância e dependência, Freud, em

suas últimas escrituras, chamava a

cocaína de "terceiro flagelo da

humanidade", após o álcool e a

heroína(1).

Em 1885, nos Estados Unidos, a

cocaína era componente de diversas

formulações farmacêuticas comerciais,

além de ser ingrediente do refrigerante

“Coca-cola”, que até 1903, continha

cerca de 60 mg de cocaína por 250 mL

de bebida(9).

No final do século XIX, entretanto,

o interesse sobre a toxicidade da cocaína

aumentou devido aos crescentes casos

de intoxicação e morte relacionados ao

uso da droga(12).

Na forma de base livre a cocaína

apresenta baixo ponto de fusão (96°C a

98°C contra os 197°C do cloridrato),

volatiliza-se em aproximadamente 90°C

e, quando aquecida permite que seus

vapores sejam inalados no ato de fumar.

A forma mais comum pela qual se

comercializa a base livre é o chamado

crack(2), que é obtido pela fusão de éter

ou hidróxido de sódio à cocaína. O

precipitado é secado e filtrado, dando

origem a uma base livre, os cristais, que

são chamados de crack, pelos estalidos

que emitem quando fumados(13).

As formas de uso da cocaína são: a

aspirada, injetada, fumada e oral. Na

forma aspirada os efeitos começam em

torno de três minutos, na injetada os

efeitos iniciam-se em aproximadamente

um minuto e meio, na fumada os efeitos

demoram apenas alguns segundos para

aparecer e a oral, que não é

normalmente utilizada, os efeitos

demoram cerca de 20 minutos para

aparecer(2,14).

A pasta de coca pode ser fumada

em mistura de maconha e tabaco

também conhecida como “basuco” na

Siqueira, L. P.; Fabri, A. C. O. C.; Fabri, R. L. Revista Eletrônica de Farmácia Vol. VIII (2), 75 - 87, 2011

Colômbia. É um extrato bruto da folha

de coca, preparado pela adição de

solventes orgânicos, como querosene,

gasolina ou metanol, combinados com

ácido sulfúrico. Contém 60 a 80% de

sulfato de cocaína, acrescido de alcaloide

de coca, ecgonina, ácido benzoico,

metanol, querosene, compostos

alcalinos, ácido sulfúrico e algumas

impurezas(3,15).

Farmacologia e Toxicologia

A dopamina, a serotonina e a

noradrenalina são neurotransmissores os

quais são armazenados dentro de

vesículas sinápticas. Quando chega um

impulso elétrico no terminal nervoso,

essas vesículas se direcionam para a

membrana do neurônio e assim, liberam

seu conteúdo na fenda sináptica. A

dopamina atravessa a fenda e se liga aos

seus receptores específicos na

membrana do neurônio pós-sináptico.

Após a dopamina ter se ligado ao

receptor pós-sináptico ocorre sua

recaptação por sítios transportadores de

dopamina localizados no neurônio pré-

sináptico. A recaptura dos

neurotransmissores é um mecanismo

fundamental para manter a homeostase

e capacitar os neurônios a reagir

rapidamente a novas exigências, já que

o trabalho do cérebro é constante(5,16).

A cocaína é um inibidor da

recaptação de catecolaminas pelas

terminações nervosas noroadrenérgicas

potencializando os efeitos periféricos da

atividade nervosa simpática. Exerce

acentuado efeito estimulante semelhante

aos efeitos da anfetamina, exagero do

prazer, aumento da atividade motora,

euforia e loquacidade. Tais efeitos são

decorrentes da inibição de recaptação

neural de dopamina(17).

A cocaína entra no sistema de

recompensa do cérebro, bloqueia os

sítios transportadores dos

neurotransmissores, os quais têm a

função de fazer a recaptação de

neurotransmissores, que estavam agindo

na sinapse. Desta maneira, possibilita a

oferta excessiva de neurotransmissores

no espaço inter-sináptico à disposição

dos receptores pós-sinápticos. Acredita-

se que a presença normalmente longa de

neurotransmissores no cérebro é que

causa os efeitos de prazer, euforia,

excitação sexual correlacionados a esta

droga. Uma vez bloqueados estes sítios,

os neurotransmissores específicos não

são recaptados, ficando, portanto, livres

no espaço inter-sináptico até que a

cocaína saia do organismo(1,18).

Com uso prolongado da cocaína, o

cérebro pode se adaptar, fazendo com

que ele dependa desta substância para

funcionar normalmente. Se o indivíduo

parar de usar cocaína,

conseqüentemente a quantidade de

dopamina será reduzida no espaço inter-

sináptico apresentando como efeito

fadiga, depressão e humor alterado(¹).

A meia-vida plasmática da cocaína

é de cerca de 50 minutos, mas os

usuários do crack por inalação desejam,

geralmente, mais cocaína após 10-30

Siqueira, L. P.; Fabri, A. C. O. C.; Fabri, R. L. Revista Eletrônica de Farmácia Vol. VIII (2), 75 - 87, 2011

minutos. As aplicações intravenosa e

intranasal também provocam um efeito

mais curto do que seria previsto pelos

níveis plasmáticos de cocaína, sugerindo

que um declínio das concentrações

plasmáticas esteja associado à

supressão do efeito e ao reaparecimento

do desejo de usar a droga. Essa teoria

foi reforçada pelos estudos de

tomografia computadorizada por

emissão de pósitrons usando cocaína

marcada com carbono 11 (C¹¹).

Demonstram que o período de euforia

subjetiva corresponde à captação e

eliminação da droga do corpo

estriado(19).

A velocidade de absorção e a

máxima concentração plasmática

atingida são dependentes das vias de

introdução, as quais podem ser divididas

em intravenoso, pulmonar, intranasal e

oral; normalmente a absorção é rápida e

o pico de concentração plasmática

geralmente ocorre entre 45 e 90

minutos(2).

A droga, por via intravenosa,

produz euforia rápida e intensamente,

porém com curta duração, de 40 a 45

minutos. A administração da cocaína na

forma de base livre fumada pode ser

comparada à via intravenosa em termos

de velocidade de absorção, pico de

concentração plasmática, duração e

intensidade dos efeitos. A via intranasal

produz um efeito imediato, mas o pico

de concentração plasmática demora

cerca de 60 minutos para ser atingido. A

cocaína não é comumente utilizada por

via oral, mas quando utilizada demora

cerca de 20 minutos para começar a

exercer seu efeito e possui o pico de

concentração plasmática parecido com a

via intranasal, acabando o efeito de

ambas em torno de 90 minutos. A

duração dos efeitos produzidos pela

cocaína, tanto pela via intravenosa

quanto pela pulmonar, é curta, mas os

efeitos produzidos pela via pulmonar são

mais intensos e rápidos em relação à via

intravenosa(13,14,17,20).

A biotransformação da cocaína

ocorre com sua hidrólise espontânea ou

por reação catalisada pelas

carboxilesterases a qual origina a

benzoilecgonina. A cocaína é

quimicamente a benzoilmetilecgonina,

que após sua absorção é rapidamente

biotransformada em éster de

metilecgonina que constitui 32 a 49% da

excreção urinária da cocaína e

benzoilecgonina (29 a 45% da excreção

urinária). Há outros produtos, em menor

quantidade, da biotransformação da

cocaína, como ecgonina, norcocaína e

benzoilecgonina. A norcocaína é o único

produto da biotransformação da cocaína

que tem atividade biológica(¹).

Quando ocorre envenenamento o

indivíduo torna-se rapidamente excitado,

inquieto, perturbado e ansioso. Os

reflexos tornam-se exacerbados, o pulso

torna-se rápido e a respiração irregular.

Ocorre freqüentemente náuseas,

vômitos, e dores abdominais. Em

intoxicações letais ocorre taquicardia,

hipertermia, diminuição de respostas a

Siqueira, L. P.; Fabri, A. C. O. C.; Fabri, R. L. Revista Eletrônica de Farmácia Vol. VIII (2), 75 - 87, 2011

estímulos verbais, delírios, convulsões,

fibrilação ventricular e coma(20).

Exposição pré-natal à cocaína

A exposição a drogas durante o

período gestacional se configura em um

grave problema de saúde pública em

diversos países. Na Europa, a cocaína é

uma das drogas mais utilizadas por

mulheres no período gestacional. Em

1995 foi identificado por meio de análise

urinária que o consumo de substâncias

ilícitas em Londres ocorreu de forma

contínua durante a gestação,

apresentando uma taxa de exposição

10,6% no primeiro trimestre, sendo que

a cocaína contribuiu com 1,1% desta. As

maiores taxas de consumo de cocaína

pela população geral da Europa estão na

Espanha. Em Barcelona, no mesmo ano

foi encontrada, por meio de análise de

mecônio do recém-nascido, uma

positividade para drogas de abuso de

7,9%, dentre elas a cocaína com 4,4%.

No Brasil, em 1999, foi identificado por

entrevistas e análises toxicológicas que

1,7% a 6% das gestantes usaram

cocaína e que o uso desta apresentou

uma associação estatísticamente

significativa com a situação de

monoparentalidade e com menores

condições sócio econômicas. Além disso,

o uso de uma ou mais drogas associadas

à cocaína ocorreu em 71% dos casos(4).

Cunha(4) evidenciou em seu estudo

longitudinal que 13% das mulheres que

consomem cocaína no primeiro trimestre

gestacional continuam a utilizar no

segundo e terceiro trimestre. Fato este

preocupante, pois esta droga pode

possibilitar o aparecimento de

transtornos psiquiátricos na gestante

alterando seu estado mental o que pode

desencadear problemas de saúde e de

comportamento infantil(21).

A exposição à droga pode ser

avaliada por métodos diretos, através de

marcadores biológicos e indiretos a

partir de questionários e modelos

estatísticos. Todo método possui suas

vantagens e desvantagens, sendo,

portanto, essencial a associação de mais

de um método para a identificação da

exposição(22). Os métodos diretos são

utilizados para identificar as substâncias

resultantes da metabolização da cocaína,

sendo a benzoilecgonina, ecgonina e

metil ésteres de ecgonina os seus

principais marcadores biológicos. A

cocaína e seus metabólitos podem ser

encontrados no soro, na urina, no

cabelo, na saliva, no líquor, no líquido

amniótico, no suor, no fluido gástrico da

mãe e no mecônio do feto(19).

A cocaína é responsável por

propiciar alterações no organismo tanto

da mulher quanto do feto que pode ser

perpetuada por toda infância até a vida

adulta, uma vez presente no sangue da

gestante ela é capaz de atravessar a

membrana placentária, passando para os

vasos sanguíneos dos vilos e através do

cordão umbilical até o feto. Pode ser

identificada no mecônio desde a 20ª

semana de gestação(14,23). O uso da

cocaína durante a gestação é associado

Siqueira, L. P.; Fabri, A. C. O. C.; Fabri, R. L. Revista Eletrônica de Farmácia Vol. VIII (2), 75 - 87, 2011

com hipertensão arterial, taquicardia e

hipertermia maternais e fetais(5,24,25).

Além disso, eleva o risco de

aparecimento de transtornos

psiquiátricos e de doenças relacionadas

ao Sistema Nervoso Central, doenças

infectocontagiosas como sífilis,

gonorréia, Acquired immune deficiency

syndrome (AIDS) e hepatites B e C, pois

a utilização da cocaína por via

endovenosa eleva a vulnerabilidade das

gestantes a estas doenças(26).

O uso de cocaína na gestação

influencia no tempo de gestação, no

peso e na circunferência craniana(27), o

que pode ser também observado em

outros estudos, como o de Bauer e

colaboradores(28), os quais

demonstraram que bebês expostos à

cocaína eram cerca de 1,2 semanas mais

jovens, pesavam em torno de 536 g a

menos, eram 2,6 cm menor e tinha a

circunferência da cabeça 1,5 cm menor

do que os bebês que não foram expostos

à cocaína durante a gravidez,

evidenciando que os recém nascidos

expostos a cocaína durante o período

gestacional foram mais afetados do que

os não expostos.

A supressão do apetite que a droga

ocasiona na mãe associada à diminuição

do fluxo sanguíneo uterino e a alteração

do transporte de substâncias pela

placenta resultam em hiponímia e

redução do aporte de nutrientes ao feto.

A vasoconstrição causa complicações

como abortamento espontâneo,

deslocamento prematuro de placenta,

trabalho de parto prematuro e

prematuridade, crescimento intra-uterino

retardado, diminuição do comprimento e

do perímetro cefálico, crescimento intra-

uterino retardado, malformações

congênitas, apneia, síndrome da morte

súbita do lactente, infartos cerebrais,

hemorragia intraventricular, convulsões,

leucomalácia peri ventricular, baixo

índice de Apgar e hemorragia

intracraniana no feto. A cocaína e seus

metabólitos atravessam a placenta

rapidamente, podem concentrar-se no

feto e acumulam-se no líquido

amniótico, transformando-o num

reservatório da droga(5,24,25,29).

Em 2006, foi demonstrado por

Shankaran e colaboradores(30), que 20%

das crianças expostas à cocaína tiveram

hipertensão arterial e que bebês

expostos à cocaína durante o primeiro

trimestre de gravidez havia somente

reduzido o tempo de gestação em

comparação aos que não foram

expostos. Descobriram também que as

crianças expostas à cocaína durante o

pré-natal cresceram em ritmo mais lento

do que aquelas que não foram expostas,

de modo que a faixa etária de 7 a 10

anos foi a que melhor elucidou os efeitos

significativos desta exposição. Portanto

conclui-se que a exposição pré-natal à

cocaína tem efeito duradouro no

desenvolvimento infantil.

A ação da cocaína sobre o Sistema

Nervoso Central (SNC) do feto depende

do momento em que ele foi exposto,

quando atravessa a placenta age

Siqueira, L. P.; Fabri, A. C. O. C.; Fabri, R. L. Revista Eletrônica de Farmácia Vol. VIII (2), 75 - 87, 2011

diretamente no SNC do provocando

reações semelhantes às produzidas na

mãe. A vasoconstrição da artéria uterina

materna e vasoconstrição arterial fetal

podem influenciar no desenvolvimento

cerebral por hipóxia fetal, modificando a

perfusão de territórios vasculares

cerebrais através do mecanismo de

injúria pós-isquemia(4).

O reduzido fluxo sanguíneo

cerebral do feto devido a exposição pela

gestante pode persistir até a

adolescência, porque o desenvolvimento

do sistema nervoso central começa no

28° dia após a concepção e continua

durante a gestação e toda a infância.

Essa redução do fluxo sanguíneo

cerebral foi observada principalmente

nas regiões do cérebro posterior e

inferior, incluindo o córtex occipital e

tálamo(31,32).

Podem ocorrer outras complicações

associadas a exposição fetal à droga,

como hipertensão neonatal persistente,

anemia, isquemia miocárdia transitória,

arritmias com alterações

eletrocardiográficas no RN, enterocolite

necrotizante, aumento do risco para

infecção urinária, aumento da taxa de

internação em Unidade de Tratamento

Intensivo Neonatal (UTIN) e da duração

da hospitalização(4,24).

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Como foi discutido neste estudo, a

cocaína é uma droga que apresenta alto

poder de dependência por estimular o

sistema nervoso central através da

inibição da recaptação de

neurotransmissores, causando sensações

de prazer e bem estar. Este é um fator

que dificulta o abandono do vício pelos

usuários. Além disso, pode ser

observado que os problemas gerados

devido ao consumo da cocaína por

gestantes vão além do limiar individual.

Foi evidenciado também que o feto

de uma mãe usuária de cocaína sente as

mesmas sensações da mãe usuária,

como irritabilidade, euforia, prazer. Sua

utilização pode causar efeitos

gravíssimos no feto, como má formação,

desenvolvimento retardado e redução do

fluxo sanguíneo cerebral, o qual pode

persistir até a adolescência. Esse é um

problema que merece destaque dentro

dos serviços de saúde, pois trata-se de

um grave problema de saúde pública

passível de intervenção, a qual sendo

realizada de forma coerente e em tempo

hábil pode reduzir ou até mesmo evitar

agravos a saúde da gestante e do feto,

além de redução dos gastos públicos

com os longos períodos de internação e

recuperação da saúde dos usuários.

Acrescenta-se ainda que a

prevenção do uso da cocaína na gravidez

poderia contribuir para diminuição da

mortalidade fetal e neonatal, porque

diminuiria o número de abortos

espontâneos, partos prematuros e baixo

peso ao nascer.

O estudo de exposição pré-natal a

drogas foi complexo, pois houve

dificuldade na comparação entre os

dados existentes em razão da grande

Siqueira, L. P.; Fabri, A. C. O. C.; Fabri, R. L. Revista Eletrônica de Farmácia Vol. VIII (2), 75 - 87, 2011

diversidade metodológica entre as pesquisas publicadas

REFERÊNCIAS

1. Yonamine M. A saliva como espécime biológico para o uso de álcool, anfetamina, metanfetamina,

cocaína e maconha por motoristas profissionais [thesis]. São Paulo: Universidade de São Paulo/

USP; 2001.

2. Oga S. Fundamentos de toxicologia. 3rd ed. São Paulo: Atheneu; 2008.

3. Carlini EA, Nappo SA, Galduroz JCF, Noto AR. Drogas psicotrópicas - O que são e como agem.

Rev. IMESC2001;3:9-35.

4. Cunha GB. Exposição pré-natal à cocaína e efeitos comportamentais no recém-nascido [thesis].

Porto Alegre: Universidade Federal do Rio Grande do Sul/UFRS; 2007.

5. Yamaguchi ET, Cardoso MMSC, Torres ML, Andrade AG. Drogas de abuso e gravidez. Rev.

Psiquiatr. Clín. 2008;35(1):44-47.

6. Cunha PJ. Neuropsicologia do uso crônico de cocaína. In: Proceedings of the XXIV Congresso

Brasileiro de Psiquiatria [CD-ROM], São Paulo, Brasil, 2006.

7. Gil AC. Métodos e técnicas de pesquisa social. 6th ed. São Paulo: Atlas; 2008. 216 p.

8. Gontijo B, Bittencourt FV, Lourenço LFS. Manifestações cutâneas decorrentes do uso de drogas

ilícitas. An. Bras. Dermatol. 2006;81(4):307-317.

9. Ferreira PEM, Martini RK. Cocaína: Lendas, história e abuso. Rev. Bras. Psiquiatr.2001;23(2):96-

99.

10. Gazoni FM, Truffa AAM, Kawamura C, Guimarães HP, Lopes R.D, Sandre LV, et al.

Complicações cardiovasculares em usuário de cocaína. Relato de caso. Rev. Bras. Ter. Intensiva

2006;18(4):427-432.

11. Reis A. Sigmund Freud (1985-1939) and Karl Killer (1857-1944) and the Discovery of Local

Anesthesia. Rev. Bras. Anestesiol. 2009;59(2):244-257.

12. Bahls FC, Bahls SC. Cocaína: Origens, passado e presente. Interação em Psicologia

2002;6(2):177-181.

Siqueira, L. P.; Fabri, A. C. O. C.; Fabri, R. L. Revista Eletrônica de Farmácia Vol. VIII (2), 75 - 87, 2011

13. Baumkarten S. A drogadição e o consumo de merla na adolescência. Inter-Ação 2002; 27(1).

14. Moreau RLM. Fármacos e drogas que causam dependência. In: Oga S, Camargo MMA,

Batistuzzo JAO. (Org.). Fundamentos de Toxicologia. 3rd ed. São Paulo: Atheneu, 2008, p. 325-336.

15. Oliveira LG, Nappo SA. Crack na cidade de São Paulo: acessibilidade, estratégias de mercado e

formas de uso. Rev. Psiquiatr. Clin. 2008;35(6):212-218.

16. Lopes IA, Pinto J C, Fortunato JS. Desenvolvimento dos mecanismos dopaminérgicos cerebrais:

A influência da cocaína. Rev. Port. Psicossomática 2003;5(1):65-73.

17. Rang HP, Dale MM, Ritter JM. Farmacologia. 4th ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 2001.

18. Luft A, Mendes FF. Anestesia no paciente usuário de cocaína. Rev. Bras. Anestesiol.

2007;57(3):307-314.

19. Goodman AG, Luis SL, Hardman JG. As Bases Farmacológicas da Terapêutica. 9th ed. Rio de

Janeiro: McGraw-Hill; 2006.

20. Gonçalves DL. Efeitos da administração sistêmica aguda de cocaína nos hormônios ACTH,

cortisol e prolactina de micos-estrela (Callithrix penicillata) [thesis]. Brasília: Universidade de

Brasília/UnB; 2007.

21. Bada HS, Das A, Bauer CR, Shankaran S, Lester B, Lagane L, et al. Impact of prenatal cocaine

exposure on child behavior problems throught school age. Pediatrics 2007;119(2):347-359.

22. Cunha GB, Rotta NT, Silva AR, Dieder AL, Wolf AL, Moser C, et al. Prevalência da exposição pré-

natal à cocaína em uma amostra de recém-nascidos de um hospital geral universitário. J. Pediatr.

2001;77(5):367-373.

23. Cavalli RC, Baraldi CO, Cunha SP. Transferência placentária de drogas. Rev. Bras. Ginecol.

Obstet. 2006;28(9):557-64.

24. Guardiola A. Exposição pré-natal à cocaína. J. Pediatr. 2001;77(5):343-344.

25. Lester BM, Tronick EZ, Lagasse L, Seifer R, Bauer CR, Shankaran S, et al. Summary Statistics of

Neonatal Intensive Care Unit Network Neurobehavioral Scale Scores From the Maternal Lifestyle

Study: A Quasinormative Sample. Pediatrics 2004;113(3):668-675.

26. Bauer CR, Shankaran S, Bada HS, Lester B, Wright LL, Krause-Steinrauf, et al. The Maternal

Siqueira, L. P.; Fabri, A. C. O. C.; Fabri, R. L. Revista Eletrônica de Farmácia Vol. VIII (2), 75 - 87, 2011

Lifestyle Study: drug exposure during pregnancy snd short-term outcomes. Am. J. Obstet. Gynecol.

2002;186(3):487-495.

27. Bauer CR, Langer JC, Shankaran S, Bada HS, Lester B, Wright LL, et al. Acute neonatal effects of

cocaine exposure during pregnancy. Arch. Pediatr. Adolesc. Med. 2005;159:824-834.

28. Singer LT, Nelson S, Short E, Min MO, Kirchener L, Lewis B, et al. Prenatal cocaine exposure:

Drug and environmental effects at 9 years. Pediatrics 2008;153(1):105-111.

29. Richardson GA, Goldschimidt L, Larkby C. Effects of prenatal cocaine exposure on growth a

longitudinal analysis. Pediatrics 2007;120(4):e1017-e1027.

30. Shankaran S, Das A, Bauer CR, Bada H, Lester B, Wright L, et al. Fetal origin of childhood

disease: Intrauterine Growth Restriction in Term Infants and Risk for Hypertension at 6 Years of Age.

Arch. Pediatr. Adolec. Med.2006;160:977-981.

31. Richardson GA, Goldschinidt L, Willford J. The effects of prenatal cocaine use on infant

development. Neurotoxicol. Teratol. 2008;30(2):96-106.

32. Rao H, Wang J, Giannetta J, Korczykowski M, Shera D, Avants BB, et al. Altered resting cerebral

blood flow in adolescents with in utero cocaine exposure revealed by perfusion functional MRI.

Pediatrics 2007;120(5):1245-1254.

comentários (0)
Até o momento nenhum comentário
Seja o primeiro a comentar!
Esta é apenas uma pré-visualização
3 shown on 13 pages
baixar o documento