Concepções e práticas pedagógicas no ensino da arte na educação de jovens e adultos em mato grosso, Esquemas de Artes
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Concepções e práticas pedagógicas no ensino da arte na educação de jovens e adultos em mato grosso, Esquemas de Artes

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CONCEPÇÕES E PRÁTICAS PEDAGÓGICAS NO ENSINO DA ARTE

NA EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS EM MATO GROSSO

ARAÚJO, Gustavo Cunha1 - UFMT

OIVEIRA, Ana Arlinda2 - UFMT

Grupo de Trabalho: Educação, Arte e Movimento Agência Financiadora: CAPES

ResumoEste trabalho tem como objetivo apresentar resultados parciais de uma pesquisa em nível de Mestrado em desenvolvimento no Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal de Mato Grosso – IE/PPGE/UFMT, no qual se busca compreender como acontecem as práticas pedagógicas no ensino da arte com uma turma de alunos da Educação de Jovens e Adultos, segmento de Ensino Médio, e quais concepções fundamentam essas práticas desenvolvidas por uma professora de Artes. Tendo como suporte a pesquisa qualitativa utiliza a observação in loco das experiências produzidas. Desse modo, durante uma das aulas observadas no CEJA, foi possível constatar práticas pedagógicas embasadas nas concepções da Proposta Triangular para o ensino da arte, ao ressaltar a triangulação fazer artístico, leitura e contextualização da obra. Na Educação de Jovens e Adultos é preciso que estejamos atentos na forma como o ensino e a aprendizagem em arte são desenvolvidos, pois, é importante tanto a escola quanto o corpo docente estarem preparados para permitir que esse ensino ocorra de maneira adequada e eficaz, com materiais didáticos e espaços físicos próprios para o ensino e aprendizagem do educando. Dentre as linguagens artísticas, as Artes Visuais assumem papel relevante ao procurar ampliar nos alunos o saber, o fazer e o refletir em arte. A arte, além de ser registro visual das diferentes expressões e formas humanas criadas ao longo da história, acompanhando as mudanças e transformações ocorridas na sociedade, possibilita ao indivíduo diferentes formas de se expressar e dialogar com o mundo, transmitindo ideias e expressões humanas, construindo, portanto, conhecimento. Palavras-Chave: Ensino da Arte. Educação de Jovens e Adultos. Concepções e Práticas Pedagógicas.

1 Mestrando em Educação pela Universidade Federal de Mato Grosso - UFMT. Especialista em Docência na Educação pela Universidade Federal de Uberlândia - UFU. Graduado em Artes Visuais pela Universidade Federal de Uberlândia - UFU. Linha de Pesquisa em Culturas Escolares e Linguagens - PPGE/IE/UFMT. 2 Doutora em Educação pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho - UNESP, com Pós- Doutorado pela Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG. Atualmente é professora do Instituto de Educação e do Programa de Pós-Graduação em Educação da UFMT. Pesquisadora da Linha de Pesquisa em Culturas Escolares e Linguagens. Líder do Grupo de Estudos e Pesquisas em Leitura e Letramento - GPELL.

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Introdução Apresentamos neste texto alguns resultados parciais da pesquisa de Mestrado em

desenvolvimento no Programa de Pós-Graduação em Educação pela Universidade Federal de

Mato Grosso, na qual buscamos compreender como acontecem as práticas pedagógicas no

ensino da arte na Educação de Jovens e Adultos, e quais concepções fundamentam essas

práticas desenvolvidas por uma professora de Artes no Centro de Educação de Jovens e

Adultos em Cuiabá, Mato Grosso.

Optamos pela pesquisa qualitativa, de caráter interpretativo e descritivo (BOGDAN e

BIKLEN, 1999; LUDKE e ANDRÉ, 2011), por entendermos que são adequadas para o

propósito desta investigação. Enquanto pesquisadores em educação devemos incorporar novas

teorias e conhecimentos, possibilitando a produção de novas interpretações e reflexões.

Dentre as características da pesquisa qualitativa, buscamos observar atentamente a

preocupação em retratar a perspectiva dos sujeitos, a obtenção de dados descritivos no contato

direto do pesquisador com a situação estudada, favorecendo a compreensão do problema

central do estudo.

Para a discussão proposta neste texto, pontuamos questões referentes às principais

tendências pedagógicas para o ensino da arte surgidas ao longo da história da educação, e

refletir sobre os dados coletados in loco na sala de aula, analisados à luz das teorias que

fundamentam este estudo, os quais nos trouxeram alguns apontamentos sobre o objeto de

estudo elencado neste trabalho.

Dessa forma, o texto está dividido em duas partes, a saber: na primeira, procuramos

discutir brevemente sobre algumas tendências pedagógicas para o ensino da arte, destacando a

Proposta Triangular como a principal tendência para o ensino da arte na contemporaneidade,

buscando estabelecer algumas relações com concepções e as práticas pedagógicas

desenvolvidas pela professora nas aulas de Artes com alunos de EJA.

Em seguida apresentamos algumas reflexões construídas a respeito das observações

realizadas no Centro de Educação de Jovens e Adultos em Cuiabá, Mato Grosso, com alunos

de EJA no segmento de Ensino Médio. Entre os teóricos que buscamos para fundamentar a

pesquisa citaremos: (BARBOSA, 1988, 1991, 2002; DAL’MASO, 2011; FERRAZ e

FUSARI, 2010; IAVELBERG, 2012; OSINSKI, 2001).

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Na parte final do texto, são tecidas algumas considerações referentes aos resultados

parciais encontrados durante a pesquisa, no que toca as concepções e práticas pedagógicas

desenvolvidas por uma professora de Artes com alunos de EJA no Centro de Educação de

Jovens e Adultos – CEJA, em Cuiabá, Mato Grosso.

Tendências Pedagógicas para o Ensino da Arte

No Brasil, o ensino da arte passou por inúmeros contextos do processo educacional

nacional, a partir do século 19, devido à influência artística da escola francesa. Movimentos

artísticos e culturais que foram se desdobrando ao longo dos anos de nossa história estiveram

ligados ao surgimento das práticas educativas em arte, no qual destacamos a criação da Escola

de Belas Artes e da Missão Francesa no Rio de Janeiro em 1816, influenciando a arte

brasileira acadêmica dessa época (DICIONÁRIO DAS ARTES PLÁSTICAS NO BRASIL,

1969).

Outros momentos da história da arte nacional foram testemunhados por

acontecimentos como os da Semana de Arte Moderna da década de 1920, período responsável

pelas novas concepções de arte essencialmente brasileiras e pelo surgimento de grandes

artistas como Anita Malfatti, Tarsila do Amaral entre outros; o surgimento das universidades

nos anos 30 e das bienais de arte vinte anos depois, como Bienal de São Paulo; as

mobilizações culturais populares da década de 1960, a implantação da Educação Artística nas

escolas brasileiras por meio da Lei de Diretrizes e Bases da Educação nº. 5692/71; a

obrigatoriedade do ensino de arte nas escolas brasileiras nos anos 90 pela lei nº. 9394/96 e os

Parâmetros Curriculares Nacionais de 1997/98, além dos diversos debates e discussões de

pesquisadores da educação e da arte com relação a metodologias usadas por esse tipo de

ensino, e que se estende até os dias atuais (FERRAZ e FUSARI, 2010).

Partindo desse contexto, com forte teor tecnicista, no início do século passado, o

ensino da arte preparava o estudante para a sua inserção no mercado de trabalho por meio de

um conteúdo que valorizasse a repetição de desenhos geométricos, para que pudesse

desenvolver tal aprendizagem em fábricas (FERRAZ e FUSARI, 2010). Desse modo,

podemos afirmar que eram características de uma Pedagogia Tradicional, com atividades de

intensa repetição e memorização e com o conhecimento centrado exclusivamente no

professor.

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Com relação à escola nova, conhecida também como Pedagogia Nova, surgida nos

anos de 1930 no Brasil, o seu principal foco para o ensino de arte era a expressão livre em

todas as atividades do aluno, visto como ser criativo, implicando, assim, que o “fazer” estaria

diretamente relacionado à aprendizagem do aluno (FERRAZ e FUSARI, 2010). Não podemos

deixar de mencionar neste trabalho que foi durante essa tendência para o ensino da arte, mais

precisamente nos anos 30 e 40 que teóricos3 de renome da educação em arte publicaram

trabalhos relevantes a respeito dessa área, como Viktor Lowenfeld, Herbert Read e John

Dewey.

Outra tendência relacionada ao ensino da arte é a tecnicista. Presente no Brasil a partir

dos anos de 1970, o seu principal objetivo era organizar um sistema técnico de aula, com a

utilização de recursos audiovisuais, bastante pontuada na época, devido ao país ter passado

por uma fase de “modernização na educação”. Não menos importante, a tendência conhecida

como Pedagogia Libertadora teve como seu grande representante o educador brasileiro Paulo

Freire, tendo como principal objetivo procurar dar ênfase nas mudanças sociais e culturais de

nosso país, fomentando uma consciência crítica nos brasileiros na educação escolar e artística

(FERRAZ e FUSARI, 2010).

No que diz respeito a uma proposta de ensino da arte no Brasil, tem-se na

pesquisadora Ana Mae Barbosa (1988; 1991; 2002) uma proposta inédita sistematizada no

final da década de 1980 e colocada em prática no Museu de Arte Contemporânea da

Universidade de São Paulo, no período de 1987 a 1993.

Segundo essa intelectual, um currículo que atendesse as reais necessidades de

aprendizagem e conhecimento em arte deveria relacionar o fazer arte (criação/produção), a

análise ou decodificação (leitura de imagens/apreciação) da obra de arte e contexto ou

informação (História da Arte/contextualização),

estaria se organizando de maneira que a criança, suas necessidades, seus interesses e seu desenvolvimento estariam sendo respeitados e, ao mesmo tempo, estaria sendo respeitada a matéria a ser aprendida, seus valores, sua estrutura e sua contribuição específica para a cultura (BARBOSA, 1991, p. 35).

3 Segundo Osinski (2001) o filósofo inglês Herbert Read acreditava que a educação em arte poderia proporcionar um novo direcionamento estético como contributo para uma sociedade em harmonia e equilibrada socialmente. Contudo, o filósofo norte-americano Viktor Lowenfeld se concentrava em entender as fases de desenvolvimento infantil até a juventude, que pudesse explicar o processo criativo do indivíduo, centrado também na capacidade de percepção que esse sujeito pudesse desenvolver. O filósofo norte-americano John Dewey, pretendia um novo direcionamento do ensino de arte, que pudesse privilegiar a experiência do indivíduo com o seu meio social.

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Em suma, o conhecimento em arte, segundo essa pesquisadora, não pode estar

desvinculado dessa triangulação.

Em arte-educação, a Proposta Triangular, que até pode ser considerada elementar se comparada com os parâmetros educacionais e estéticos sofisticados das nações centrais, tem correspondido a realidade do professor que temos e a necessidade de instrumentalizar o aluno para o momento em que vivemos, respondendo ao valor fundamental a ser buscado em nossa educação: a leitura, a alfabetização (BARBOSA, 1988, p. 35).

Com a obrigatoriedade do ensino da arte na educação básica, de acordo com a Lei de

Diretrizes e Bases da Educação Nacional n. 9.394/96, é proposta uma renovação teórico-

metodológica desse ensino, mas pautada, principalmente, nas experiências e contribuições da

Proposta Triangular, de Ana Mae Barbosa, se consolidando como principal tendência voltada

para o ensino da arte oferecido nas escolas brasileiras.

Nessas reflexões, podemos afirmar que essa nova concepção de ensino da arte

ocorrida durante os anos de 1990 e início do século 21 fez com que essa área do

conhecimento obtivesse reconhecimento e importância efetivamente, enquanto disciplina

obrigatória no currículo das escolas brasileiras com a criação dos Parâmetros Curriculares

Nacionais de 1997 e 1998.

Faz-se relevante pontuar neste texto que no início desse século, o ensino da arte vem

se caracterizando como um ensino multi e interculturalista, e isto se deve aos estudos sobre a

diversidade e cultura visual4 surgidos nos últimos anos (DAL’MASO, 2011), influenciando

teórico e metodologicamente o ensino da arte, ou seja, “o compromisso com a diversidade

cultural é enfatizado pela arte-educação Pós-moderna” (BARBOSA, 2002, 19).

Em adição a esse pensamento, Barbosa afirma que “a educação cultural que se

pretende com a Proposta Triangular é uma educação crítica do conhecimento construído pelo

próprio aluno, com a mediação do professor, acerca do mundo visual” (BARBOSA, 1998, p.

40).

4 Contudo, é importante ressaltar que a discussão proposta neste estudo entende a Proposta Triangular como a tendência pedagógica para o ensino da arte mais difundida nas escolas brasileiras. Portanto, não é nosso objetivo elencar neste momento outras tendências como, por exemplo, as que se referem à cultura visual (BARBOSA, 1998; 2002), pois necessitaria de outro momento oportuno para ser discutido.

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Refletindo Concepções e Práticas Pedagógicas no Ensino da Arte na Educação de Jovens

e Adultos

A arte5, por meio de suas diferentes linguagens artísticas, como, por exemplo, as

quatro principais citadas pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional n.° 9.394/96,

Artes Visuais, Música, Teatro e Dança, além de ser registro visual das diferentes expressões e

formas humanas criadas ao longo da história, acompanhando as mudanças e transformações

ocorridas na sociedade, possibilita ao indivíduo diferentes formas de se expressar e dialogar

com o mundo, transmitindo ideias e expressões humanas, construindo conhecimento.

A construção do conhecimento humano e as diferentes formas do homem se

manifestar, transformando o meio em que vive e está inserido socialmente, foi se modificando

ao longo dos tempos na história da humanidade, acompanhando as modificações sociais,

políticas e históricas da própria sociedade, buscando criar novas e diferentes formas de se

comunicar com a realidade a sua volta e a interpretá-la.

Com esse pensamento, ressaltamos as linguagens artísticas, pois por meio delas, o

homem se manifesta, expressa e dialoga com o mundo, produzindo diferentes significados e

interpretações da realidade a qual está inserido. Considerando a arte como linguagem, em uma

das aulas observadas no Centro de Educação de Jovens e Adultos em Cuiabá, Mato Grosso, a

professora trabalhou com os alunos tema sobre o meio ambiente, pois, segundo ela todo

trimestre6 letivo a escola elenca um tema, com o qual os professores trabalham de forma

interdisciplinar.

A professora iniciou a aula perguntando aos alunos o que é meio ambiente para eles.

Dentre algumas respostas, um aluno respondeu: “o meio em que vivemos”. Em seguida, a

professora citou exemplo de um carro pintado em cima de uma grama, que ela viu na frente

de uma loja, perguntando aos alunos se esse carro, para eles, era um exemplo de obra de arte.

Uma aluna respondeu que sim, pois segundo ela, o carro estava decorado e, decoração para

esta aluna, é arte. Alguns alunos responderam também que acham que também seria obra de

arte esse carro.

É interessante notar a concepção de alguns alunos sobre arte, ao compreendê-la na

função decorativa, que é uma função social da arte contemporânea e a qual pensamos ser bem

5 A Arte só se efetivou como área do conhecimento humano no final dos anos 80, pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPq, segundo Zamboni (2012). 6 O regime ofertado no CEJA durante o ano letivo era trimestral.

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mais frequente entre as pessoas do que possamos imaginar. Depois dessa discussão, a

professora propôs aos alunos algo relacionado ao meio ambiente nas artes, neste caso, com o

tema “terra”. Solicitou à turma a leitura do texto sobre a Land Art, ou arte da terra, que é uma

modalidade artística contemporânea surgida em meados do século passado. entregue a eles e,

que anotassem algumas palavras que não entendessem e, posteriormente, a professora

explicaria o texto com a turma.

A escolha da professora pelo movimento artístico da Land Art se deu devido ao fato

de este ser o único movimento artístico que tem como objetivo interferir no meio ambiente

para criar arte na contemporaneidade. Geralmente, são obras colossais, que não tem como

ficar expostas em museus, e sim, em espaços abertos. Daí a sua relação com a natureza e,

também, de artistas que por meio dessa arte, denunciam os maus tratos à natureza, como é o

caso de Frans Krajcberg7.

Após a leitura, a professora perguntou aos alunos o que entenderam do texto,

contando somente com o silêncio da sala. Em seguida, ela pergunta se esta forma de arte é

vista em museus e alguns alunos responderam que não, se referindo a Land Art. Um aluno

responde também que não, que é uma arte a céu aberto. Contudo, outro aluno respondeu o

contrário, alegando que essa obra pode sim, estar dentro do museu. Ou seja, é possível

perceber duas concepções diferentes da mesma arte, neste caso, da Land Art.

Depois da reflexão inicial do texto, a professora explicou -o dizendo que a arte na

terra é a interferência do homem na natureza. Disse ainda que os alunos fariam uma

interferência na escola, relacionada a este tipo de arte, nesta mesma aula. Discutiu também

com os alunos por que os artistas mudam, por que utilizam outros materiais, até um dos

discentes interromper a professora dizendo: “em busca do novo, cansou da mesmice, eles tem

que pagar pra ver”. Outra aluna responde: “busca do conhecimento”.

Nesse momento, pensamos que é importante o professor contextualizar o meio em

que vive o aluno a partir do conteúdo que está trabalhando, neste caso, a arte na terra. Dessa

forma, segundo Iavelberg (2012), é preciso selecionar conteúdos que possam ser trabalhados

pelo professor, levando-se em conta o meio social em que está inserido o jovem e o adulto, e

as experiências artísticas vivenciadas pelo professor, ou seja, é essencial que o conteúdo a ser

trabalhado possa ser contextualizado com a realidade do jovem e do adulto. Assim, cabe ao

7 Artista contemporâneo da Land Art de origem polonesa, mas naturalizado brasileiro.

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docente saber orientar e mediar às aprendizagens relacionando as antigas e novas concepções

de artes com os alunos.

No momento seguinte da aula, a turma foi para a sala de vídeo. Ao entrarem, o vídeo

já estava pronto e a professora mostrou algumas imagens aos alunos, referentes a obras de arte

produzidas na natureza, neste caso, arte da terra, numa forma de exemplificar visualmente a

explicação dela em sala de aula. A professora apresentou outras obras de arte com

interferência na natureza explicando, fazendo relações com o trabalho que os alunos iriam

produzir no próximo horário. Após a apresentação das imagens, a professora acessou a

internet para mostrar mais algumas imagens da arte na terra aos alunos. Neste momento, foi

possível perceber que não bastava apenas à professora apresentar os vídeos e imagens sobre o

tema desta aula, pois ela sentiu a necessidade de complementar com outros conteúdos, devido

ao interesse apresentado pelos alunos. Então, a professora mostrou outras imagens de

interferência da arte na terra através de vídeos no youtube e de sites sobre a história da arte e

museus de outros países.

Ao finalizar a apresentação das imagens, a professora disse que a turma deveria

formar grupos para fazerem o trabalho de arte na terra, pois seria interessante trabalharem

coletivamente. A divisão dos grupos se deu da seguinte forma: numerando e separando os

alunos para formarem os grupos. Por exemplo: todos os alunos número 1 formaram um grupo,

todos os alunos número 2 formaram outro grupo, e assim por diante até completarem a

formação de cinco grupos.

Após essa etapa, a professora, novamente, explicou como seria o trabalho: os alunos

iriam pesquisar na escola e observar, a procura de materiais ou objetos que pudessem ser

utilizados na produção de uma obra de arte com interferência no meio ambiente, lembrando

que cada grupo produziria seu trabalho. A professora também informou à turma que

fotografaria os trabalhos dos alunos, pois estes eram os “autores” das obras visuais.

Ao saírem sala de vídeo para pesquisarem no interior da escola, foi possível observar

alguns alunos encontrando alguns materiais e objetos rapidamente, para utilizarem na

produção de seus trabalhos, tais como: pedras, folhas de árvores, terra e plantas, etc. A seguir,

apresentamos momentos do um dos trabalhos em que foram usados pedras, cal, terra, caju e

água, materiais estes que serviram para a produção de uma flor.

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Figura 1.

CEJA Cesário Neto, Cuiabá/MT, 2013.

Na figura 1, podemos observar o grupo trabalhando na produção de uma obra de arte

na terra. Começaram com areia, brita e água, formando inicialmente as pétalas de uma flor.

Pouco tempo depois de caminhar na escola, pesquisando outros materiais, os mesmos alunos

conseguiram encontrar cal, terra e, até mesmo, algumas frutas de caju, para continuarem na

criação da obra artística de Land Art.

Figura 2.

CEJA Cesário Neto, Cuiabá/MT, 2013.

O interessante que podemos notar neste trabalho de arte na terra, como se pode

observar na figura 2, é que os alunos trabalharam coletivamente, no qual cada componente do

grupo, formado por quatro alunos, tinha uma função: enquanto um ficava responsável por

coletar os materiais, outro ia pegando água, e outro produzindo o trabalho. Foi possível

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constatar que cada integrante do grupo sugeria algo para fazer na obra, procurando dar ideias

e sugestões na produção da mesma.

O fazer artístico dos alunos, um dos tripés da Proposta Triangular, está relacionado

diretamente à criatividade dos mesmos. Nesse raciocínio, a criatividade e a imaginação estão

sempre relacionadas com o fazer artístico, com o ser humano que cria uma obra de arte, com a

expressão de suas emoções, sentimentos e ideias, com o objetivo de comunicar alguma

informação a alguém.

É nesse processo, diante de novas necessidades, que o homem adquire consciência e procura dar sentidos às coisas atribuindo-lhes novos significados para explicar os fatos e fenômenos. Por essa constante superação, o homem é motivado a provocar mudanças nas formas de conhecer e pensar (DAL’MASO, 2011, p. 40).

Figura 3.

CEJA Cesário Neto, Cuiabá/MT, 2013.

O trabalho deles chamou bastante a atenção de quem passou por perto, como pode

ser observado na figura 3. A professora fotografou o trabalho, registrando a obra visual feita.

Também, foi possível notar a professora bastante animada com este trabalho, devido à

dedicação demonstrada pelos alunos na confecção da obra.

Considerando essa obra feita pelos alunos de Educação de Jovens e Adultos como

um exemplo de linguagem artística, é importante ressaltar que em nosso cotidiano

convivemos com diversas e diferentes linguagens. Um simples desenho, filme, uma imagem

na televisão, uma música, a dança, os movimentos corporais, anúncios publicitários e até,

mesmo, as placas de trânsito combinam códigos, textos e imagens, constituindo-se numa

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pluralidade de linguagens, as quais produzem sentidos e significados, fazendo parte de nossa

existência.

Desse modo, podemos dizer que as linguagens são constituídas e reconstruídas

historicamente, pois estão diretamente relacionadas à vivência do ser humano. Quando o

indivíduo modifica a sua realidade, no caso das artes ao produzir uma obra, assim como os

alunos de EJA fizeram, lhe atribuindo significados e conceitos, produz sentidos e

reconstrói/modifica a linguagem aprendida por eles ao longo de sua vida, criando e

socializando novas linguagens. Por meio das linguagens verbais e visuais o processo de

socialização do indivíduo se concretiza, ou seja, a linguagem possibilita essa interação entre

um indivíduo e o outro, e seu meio.

Assim que todos os grupos fizeram os trabalhos, a professora pediu para que eles

visitassem os trabalhos dos colegas, que estavam em diferentes locais da escola. Neste

momento, apenas alguns alunos foram conhecer os outros trabalhos.

Após a aula, já na sala dos professores, ela nos informou que estava bastante

contente com os trabalhos feitos pelos alunos, pois segundo ela, o objetivo dessa aula havia

sido alcançado.

Também, percebemos uma motivação a mais nos alunos durante a criação de seus

trabalhos. Os alunos se mostraram mais desinibidos ao trabalharem a arte na terra, utilizando

materiais diferentes daqueles que eles tinham costume nas aulas de Artes, como papéis, tintas,

entre outros. Alguns alunos chegaram a fotografar seus próprios trabalhos, mostrando-se

animados e satisfeitos com o que haviam produzido.

Nessa linha de pensamento, é preciso que estejamos atentos à forma como o ensino e

a aprendizagem em arte são desenvolvidos na Educação de Jovens e Adultos, pois, é

importante tanto a escola quanto o corpo docente estarem preparados para permitir que a arte

educação ocorra de maneira adequada e eficaz, com materiais didáticos e espaços físicos

próprios para o seu ensino e aprendizagem. Diante disso, é preciso levar os professores “[...] a

ver que a arte propicia um modo novo de compreender o mundo contemporâneo, [...] que ela

estabelece uma ordem no contato com o mundo cultural” (BRASIL. MEC, 2002, p. 136).

É relevante destacar neste trabalho que a professora seguiu a concepção da Proposta

Triangular (BARBOSA, 1988; 1991; 2002) para o ensino da arte, ao trabalhar com a

triangulação: leitura de imagem, contextualização e fazer artístico, ao possibilitar aos alunos

produzirem uma obra de arte baseada na Land Art, ou arte da terra.

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Na leitura de imagem, os alunos apreciaram a obra atribuindo-lhe significados e

interpretações diferentes, não apenas referente à sua composição visual (decodificando-a) –

forma, cor, linha entre outros -, mas apreciando-a no contexto da contemporaneidade,

reconhecendo os procedimentos utilizados pelos artistas da Land Art, ampliando o significado

da obra (BARBOSA, 2002).

Com a contextualização, a professora explorou obras e a biografia de alguns artistas

da Land Art, como o artista de origem polonesa naturalizado brasileiro Frans Krajcberg, por

meio de vídeos e apresentação de imagens desses artistas apresentados aos alunos. O tema foi

explorado pelos alunos na aula de Artes e, dentro dessa perspectiva, produziram seus

trabalhos artísticos.

No que toca ao fazer artístico, ou seja, na produção, os alunos criaram uma obra de

arte que estimula a aprendizagem da leitura e da contextualização da obra (DAL’MASO,

2011), impulsionando a imaginação criadora, proporcionando diferentes possibilidades de

expressão artística, segundo os procedimentos técnicos utilizados pelos artistas da Land Art

apresentados pela professora na contextualização.

Algumas Considerações...

O intento deste artigo foi apresentar alguns resultados parciais de uma pesquisa que

se encontra em desenvolvimento no Mestrado em Educação do Programa de Pós-Graduação

em Educação da Universidade Federal de Mato Grosso, no qual se objetiva compreender

como acontecem às práticas pedagógicas no ensino da arte numa turma de EJA na etapa do

ensino médio, no Centro de Educação de Jovens e Adultos em Cuiabá, Mato Grosso, e quais

concepções fundamentam essas práticas desenvolvidas por uma professora de Artes.

Dentre as linguagens artísticas, as Artes Visuais na EJA assumem papel relevante ao

procurar ampliar nos alunos o saber, o fazer e o refletir em arte, principalmente, por meio das

diversas formas de produção visual presentes em nosso meio, como o que aconteceu na aula

da professora, ao trabalharem com arte na terra, baseada da Abordagem Triangular para o

ensino da arte, se tornando fundamental para que o aluno de EJA amplie o seu conhecimento

sobre a arte produzida e, consequentemente, a sua percepção do mundo.

Durante o trabalho feito pelos alunos de EJA, é possível afirmar que o mesmo foi

desenvolvido baseado na Proposta Triangular para o ensino da arte, portanto, supomos que a

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professora de Artes, em sua prática pedagógica, utiliza essa tendência contemporânea durante

suas práticas pedagógicas nas aulas de Artes, além de entendemos ser a tendência pedagógica

voltada para o ensino da arte mais utilizada nas escolas brasileiras.

Finalizando este trabalho, mas não o debate educacional por ele provocado,

objetivamos apresentar algumas reflexões construídas em consonância com a observação in

loco realizada no Centro de Educação de Jovens e Adultos em Cuiabá, Mato Grosso, que

somado com pesquisa bibliográfica realizada no Mestrado em Educação, analisados à luz das

teorias que fundamentam este estudo, produziram algumas reflexões sobre concepções e

práticas pedagógicas no ensino da arte na EJA, construindo conhecimento para a pesquisa em

educação e arte.

REFERÊNCIAS

BARBOSA, Ana. Mae. Inquietações e mudanças no ensino da arte. São Paulo: Cortez, 2002. , Ana. Mae. Arte-educação: conflitos/acertos. São Paulo: Max Limonad, 1988. , Ana. Mae. A imagem no ensino da arte. São Paulo: Perspectiva, 1991. BRASIL. LDB -Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional: lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. 5. ed. Brasília: Câmara dos Deputados/Coordenação Edições Câmara, 2010. BRASIL. MEC. Proposta Curricular Para a Educação de Jovens e Adultos: Segundo Segmento – Artes. v. 3. Brasília: Ministério da Educação: MEC/SECAD. p. 135-189. 2002. Disponível em: < http://portal.mec.gov.br/secad/arquivos/pdf/eja/propostacurricular/segundosegmento/vol3_art e.pdf>. Acesso em: 12 de fev. de 2013. BOGDAN, Robert e BIKLEN, Sari. Investigação qualitativa em educação: uma introdução à teoria e aos métodos. Tradução de Maria João Alvarez. Porto: Porto Editora, 1999. DAL’MASO, Eunice Maria. Ensino da arte sob a ótica de professoras e alunos do ensino médio. 171f. Dissertação (Mestrado em Educação). Instituto de Educação: Universidade Federal de Mato Grosso, Cuiabá, 2011. DICIONÁRIO DAS ARTES PLÁSTICAS NO BRASIL. Roberto Pontual. Civilização Brasileira, 1969. FERRAZ, Maria Helena e FUSARI, Maria. Arte na educação escolar. 4. ed. São Paulo: Cortez, 2010.

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IAVELBERG, Rosa. Ensino de artes deve articular teoria e prática. Portal do Professor: Jornal do professor. 66. ed. janeiro de 2012. Disponível em: < http://portaldoprofessor.mec.gov.br/noticias.html?idEdicao=77&idCategoria=8>. Acesso em: 10 de mar. de 2013. LUDKE, Menga. e ANDRE, Marli. Pesquisa em educação: abordagens qualitativas. 13. ed. São Paulo: EPU, 2011. OSINSKI, Dulce. Arte, história e ensino: uma trajetória. São Paulo: Cortez, 2001.

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