Cultura Brasileira volume 1, Resumos de História e Filosofia. Universidade de São Paulo (USP)
giovana_beraguas
giovana_beraguas15 de setembro de 2016

Cultura Brasileira volume 1, Resumos de História e Filosofia. Universidade de São Paulo (USP)

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Apostila referente à introdução do tipo cultural brasileiro
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Unidade 1: Cultura e Culturas: os brasis que reinventamos

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Unidade I:

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Unidade: Cultura e Culturas: os brasis que reinventamos

Se o homem nasceu bom e bom não se conservou, a culpa é da sociedade que o

transformou. Paulinho da Viola

Introdução

Neste texto de abertura da disciplina Cultura Brasileira pretendemos

iniciar um diálogo sobre este tema, já extensamente estudado por

antropólogos, sociólogos e pesquisadores de áreas afins.

Para nós é importante ressaltar o vínculo entre cultura e comunicação,

algo já explorado por praticamente todas as correntes teóricas do campo da

comunicação, com destaque para os chamados “Estudos Culturais” de origem

britânica e com fortes influências em diversas regiões e países, inclusive o

Brasil.

1. Cultura, brasileira

Comecemos pelos termos que dão nome à disciplina: Cultura Brasileira.

Esta já é uma característica do que estamos tratando: é preciso dar nome às

coisas, objetos, ideias, pessoas. Neste caso há junção de dois campos – o da

cultura e o do Brasil. Assim, podemos definir cultura como hábitos, obras,

objetos e, posteriormente, reduzir isto ao que é brasileiro. Haveria, portanto, a

cultura, algo que diferencia os humanos das demais espécies; em seguida esta

definição aplicar-se-ia ao povo brasileiro, que teria uma cultura específica, que,

além de diferenciá-lo de outras espécies, também o faria em relação a outros

povos. É isto, e, aparentemente, estamos em condições de iniciar nosso

percurso: a cultura é expressão humana em valores e objetos que ligam uma

geração a outra pela presença de elementos do passado nas relações do

presente. A cultura brasileira, a partir deste viés, é composta pelos valores e

objetos que a sociedade produziu ao longo dos séculos de existência do país.

2. Cultura: raça, etnia, classe social

Observamos sem dificuldades que tal definição é insuficiente para tratar

do tema. Podemos levantar uma série de questões não respondidas por ela:

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existe apenas uma cultura no Brasil? Há alguma distinção entre culturas

regionais e nacional? Outros fatores devem ser considerados para que “cultura

brasileira” congregue todas as representações materiais e simbólicas do povo

brasileiro?

Bem, estas questões são relevantes e procuraremos respondê-las ao

longo de nosso percurso na disciplina. Por enquanto, seguindo a formulação de

um pesquisador brasileiro (Bosi, 1992), consideremos algumas possibilidades e

façamos nossa opção metodológica.

Procurando estabelecer outros elos para o nosso tema, podemos afirmar

que a Cultura brasileira expressa a necessidade de identificar particularidades

na cultura de um país, diferenciando-a da de outros. A cultura é o que une um

determinado povo e o diferencia de outros povos. A língua, neste aspecto, é o

primeiro elemento de identificação. Por isso o esforço em homogeneizar a

língua culta, com regras rígidas seguidas em toda parte. A liberdade fica por

conta dos modos de expressão locais e regionais, que tornam o país um

ambiente feito de oralidades calcadas nas histórias destes lugares, formados,

em diferentes épocas, por diferentes raças e etnias.

A partir destas análises verificamos a possibilidade de considerar, pela

extensão territorial e diferenças regionais, a existência de culturas brasileiras

marcadas pela diversidade nos modos de ser e de viver dos habitantes de tais

regiões. Esta é uma opção que encontra respaldo na realidade que vemos e

vivemos. Não há como não perceber diferentes ritmos na música e na dança;

percebemos também grande diversidade de hábitos alimentares, modos de

falar e de se relacionar dos brasileiros espalhados por um território tão grande

quanto heterogêneo no que se refere a clima e condições para a organização

social.

E nem é preciso ir muito longe, pois dentro de um mesmo estado há

grandes diferenças, principalmente entre os cidadãos da capital e os do

“interior”. Muitas vezes há mais semelhanças entre habitantes de grandes

cidades de diferentes regiões que destes com os interioranos, que mantêm

hábitos e modos de viver tradicionais, abandonados por aqueles que vivem nas

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metrópoles cada vez mais assimiladas por valores globais.

A cultura de massa cria alguns estereótipos, inventa características

“brasileiras” ao apresentar determinados produtos e manifestações como

“nacionais”, o que pode criar falsas identidades “nacionais”. Nestas

construções, o carnaval, o futebol, o samba, entre outras manifestações,

seriam nacionais. São? O que vemos/vivemos não é bem isto, pois, se é

verdade que tais manifestações são importantes para os meios de

comunicação de massa e têm relevância, além de cultural, política e

econômica, não há homogeneidade em suas representações e presença na

vida das pessoas. O que vemos na tevê não resume as expressões locais e

regionais, apresentando apenas as manifestações de maior apelo de público,

capazes de atrair a audiência. O carnaval, por exemplo, veiculado em redes

nacionais de tevê como grande espetáculo, revela diferenças significativas (Rio

de Janeiro, São Paulo, Salvador e Recife, os mais explorados, mostram ritmos,

organização e formas de participação do público bastante diversos).

Isto se presta a diversos usos, dentre os quais destacamos o viés

ideológico de tais construções acerca da cultura e sua relação com o conceito

de nação. Em um país marcado por desigualdades étnicas, raciais, lingüísticas

e sociais, desde a colonização procuramos elementos de brasilidade, aspectos

que nos unam e que, frente ao espelho, nos afirmem brasileiros.

Da possibilidade de identificarmos culturas regionais, passamos às

considerações sobre a diversidade étnica e racial e o processo de

miscigenação que, para muitos, é a característica mais significativa na

formação do nosso povo. Aqui também é possível observar práticas culturais

identificadas com raças e etnias, que remeteriam às origens africanas,

européias e asiáticas, que se somaram às dos indígenas que habitavam a terra

brasilis. Deveríamos, então, observar a existência de culturas indígenas,

africanas, européias, asiáticas e suas derivações no contexto brasileiro.

Esta proposição também teve ampla aceitação entre nós, pois

reconhece a formação do país a partir da origem de seus habitantes, indicando

a relevância desta na formação cultural dos brasileiros. Tal formulação, porém,

recebeu muitas críticas por definir padrões culturais a partir de concepções

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racistas ou elitistas. Tendeu-se, a partir do critério raça ou etnia, a considerar

as culturas européias como padrão sofisticado e que atendiam aos anseios das

elites brancas, e, em contraposição a este, o universo cultural indígena e

africano como as referências para o povo pobre, caracterizado pela

miscigenação. A oposição entre raças e etnias revelaria preconceitos

embutidos em certa admiração pela capacidade criativa da população pobre,

fruto da miscigenação e, ao mesmo tempo, certo repúdio por suas formas de

expressão, identificadas com ausência de cultura. Como veremos, tal

formulação permanece como entrave à compreensão das culturas brasileiras

ao reforçar estereótipos e contribuir para visões distorcidas de nossa realidade

cotidiana.

Temos que considerar,ainda, as diferenças sócio-econômicas. Seguindo

esta linha de pensamento, seria possível identificar a cultura do rico e a cultura

do pobre. O que definiria cultura seria o status sócio-econômico. Para os ricos,

a cultura erudita, alta cultura; para os pobres, a cultura popular. Mesmo a

tradição marxista de brasileiros que estudaram a realidade do país a partir do

conceito de sociedade de classes – burguesia e proletariado – acabou por

reconhecer a impossibilidade de uma separação tão rígida no campo da

cultura, uma vez que nele há manifestações de tal maneira heterogêneas que

se torna necessário incluir nos estudos outros fatores, para além da classe

social. Isto ocorre, principalmente, a partir do século XX, com a formação de

metrópoles nas quais padrões culturais e de relacionamento social foram

substancialmente alterados e manifestações de uma classe seriam apropriadas

por outra, culturas estrangeiras seriam adaptadas às realidades locais,

caracterizando o que Oswald de Andrade definiria como “antropofagia”.

Nossa argumentação indica a existência de diferentes critérios, sem

definir um como correto, mas, antes, a necessidade de reconhecermos a

pluralidade como critério para a compreensão da diversidade das expressões

culturais do povo brasileiro.

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3. Culturas: resistência e submissão

Bem, até aqui expusemos algumas possibilidades para a definição da

cultura brasileira, seus aspectos positivos e negativos. Entendemos que

estamos em condições de fazer nossa opção. Seguindo a definição de BOSI

(1992, p. 356), reconhecemos a existência no Brasil de duas culturas

“fundadoras”: a erudita e a popular, resultantes da ação de brasileiros ricos e

pobres, de diversas etnias e raças, considerando, ainda, a heterogeneidade

que caracteriza as regiões que formam o país. Nesta concepção é essencial

reconhecer a pluralidade de expressões e, ao mesmo tempo, verificar a

existência de processos que possibilitariam termos valores e objetos criados e

mantidos ao longo de nossa história, responsáveis por garantir a formação de

identidades culturais suficientemente estabelecidas e capazes de manter os

laços sociais. Para usar expressões do autor citado anteriormente, as culturas

brasileiras conformam uma situação em que vivemos o “plural, mas não

caótico”. Para o observador crítico, é preciso não confundir diversidade com

desorganização. Ao longo de sua curta trajetória o Brasil construiu significativas

formas de organização, valores e objetos que o projetam como referência na

constituição de um país a partir das diferentes culturas trazidas por aqueles

que vieram de outros continentes e os que aqui estavam, em meio às enormes

dificuldades típicas de uma nação construída pela força utilizada para subjugar

ou eliminar culturas e expressões originais. O intenso convívio entre pessoas

com histórias tão diversas, em situações sociais, culturais e políticas

determinadas, possibilitou a formação destas culturais iniciais. Não há como

apagar as marcas da imposição de modelos, como, por exemplo, no campo da

religiosidade, porém é possível observar a resistência de amplos segmentos e

a permanência de objetos e valores alheios ao que foi imposto pelas classes

dominantes.

Além disso, é intensa a convivência entre cultura erudita e cultura

popular, na medida em que temas, práticas e valores migram de uma para a

outra na dinâmica da sociedade de classes. Isto acaba por produzir

movimentos de aceitação e de recusa, levando a situações novas que,

dialeticamente, alimentam tanto uma quanto outra. Mais uma vez é preciso

manter a capacidade crítica para não compactuar com posições racistas ou

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elitistas de um lado, ou ingênuas, de outro. Entendemos a cultura como um

campo de disputas e de produção simbólica de grande significado para um país

e, como tal, marcado pela presença de projetos e análises conflitantes.

O Século XX, caracterizado, entre outros aspectos, por seu

extraordinário desenvolvimento tecnológico, faria surgir no campo cultural uma

inovação significativa: a cultura de massas. Saudada pelos “integrados” e

veementemente recusada pelos “apocalípticos” - conforme Umberto Eco (1972)

– tal cultura viria alterar as relações culturais no Brasil e no mundo.

Esta “nova” cultura produziria acirrados debates no âmbito acadêmico,

incluindo os estudos sobre comunicação e cultura. Nele destacam-se alguns

posicionamentos hoje consolidados: a interpretação elitista, para a qual cultura

é apenas a arte produzida nos padrões estéticos estabelecidos pelas classes

dominantes, o que leva à conclusão de que o povo não teria cultura. Tal

concepção alimenta confusões entre cultura e escolaridade, por exemplo.

No campo da comunicação os Estudos Norte-Americanos, com

destaque para o Funcionalismo, tendem a conceber a cultura desta forma, o

que tende a levar os trabalhos realizados a enaltecer a cultura de massas, que

seria a primeira possibilidade na história, de uma cultura verdadeiramente

democrática. Para as maiorias “sem cultura” a cultura de massas significaria a

oportunidade de acesso aos bens culturais antes restritos às elites.

No campo oposto, a Escola de Frankfurt, corrente teórica desenvolvida

na Europa nas primeiras décadas do Século XX, que vê a cultura de massas

como fim das culturas erudita e popular, em função da transformação da

cultura em mercadoria. Observando a ascensão do totalitarismo na Europa, os

autores ligados a esta corrente concluíram que a cultura de massa seria um

instrumento ideológico sem precedentes e que seu uso pelas classes

dominantes consolidaria um sistema capaz de manipular as massas.

Também na Europa e, posteriormente, em diversos países de outros

continentes, os Estudos culturais desenvolvem análises nas quais reconhecem

as culturas erudita e popular, como os Frankfurtianos, porém, contrariamente a

estes, não aceita que o surgimento da cultura de massas signifique o fim das

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culturas, antes, pelo contrário, estabeleceria uma relação de exploração

destas, que continuariam sua trajetória, tendo a cultura de massa como um

novo elemento da realidade.

No Brasil tais correntes teóricas do campo das comunicações tiveram e

têm grande repercussão. Sem desconsiderar as demais, verificamos que os

Estudos Culturais têm proporcionado amplas possibilidades de análise das

culturas brasileiras ao examinar as relações tensas entre erudita, popular e de

massas. Dois conceitos discutidos por BOSI (1992) são bastante ilustrativos de

tais contribuições – o Mundo do Receituário e o Duplo Vampirismo.

A transformação da cultura crítica em fórmula pronta a ser assimilada

pelo sistema é o que caracteriza o Mundo do Receituário apresentado pelo

autor. Seria a passagem, na cultura erudita, do conhecimento obtido na

educação formal, para as práticas de mercado. Em toda parte fórmulas prontas

substituiriam a busca criativa e crítica aos desafios apresentados nas diversas

carreiras para as quais o ensino superior prepara jovens privilegiados. A todos

restaria reproduzir o sistema existente, sem questionamentos. Como aponta o

autor e também podemos verificar, tal situação ocorre nos diversos campos de

atuação, porém a passagem da cultura crítica para a aceitação dos valores

dominantes não ocorre de maneira tranquila, antes produzindo tensões que

podem levar a rupturas, mesmo que parciais.

Já a ideia de Duplo Vampirismo procura definir a cultura de massas

como segmento sem vida própria, que precisaria alimentar-se,

vampirescamente, das culturas erudita e popular. O duplo movimento ocorre

pelo uso das formas e criações destas culturas e pela devolução da “nova”

cultura como mercadoria a ser comprada e usufruída por todos, de maneira

segmentada, levando em conta as diferenças de gosto, capacidades

econômicas e de decodificação.

Finalizando esta nossa primeira elaboração acerca das culturas

brasileiras, apresentamos alguns aspectos fundamentais destas:

1. É preciso reconhecer a existências de culturas, no plural, como parte

do processo de constituição de uma sociedade heterogênea. Para

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esta caracterização podem-se utilizar critérios sócio-econômicos,

raciais, étnicos.

2. A opção metodológica aqui adotada segue parcialmente a

formulação de Alfredo Bosi (1992), identificando duas culturas

brasileiras – erudita e popular – como expressões de brasileiros ricos

e pobres ao longo da formação e vida nacional; a partir do Século

XX, principalmente da segunda metade, uma terceira cultura viria se

somar às demais: a cultura de massa;

3. Cultura e Comunicação são campos que se inter-relacionam desde

sempre, porém isto ganhou importância com o surgimento dos meios

de comunicação de massa e da cultura de massa;

4. Diferentes teorizações buscam explicar as relações entre cultura e

comunicação, sem haver uma verdade estabelecida, o que gera

diferentes interpretações, que incluem otimismo e total aderência à

cultura disseminada pelos meios de comunicação de massa e, em

situação oposta, total recusa a esta cultura, que teria transformado a

cultura em mercadoria.

O tema cultura brasileira tem atraído o interesse de pesquisadores de

áreas diversas. Para estudiosos e profissionais da comunicação é fundamental

participar dos debates e contribuir para melhor compreendermos o papel da

cultura na sociedade brasileira.

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Referências

BOSI, A. Dialética da Colonização. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.

ECO, U. Apocalípticos e Integrados. São Paulo: Pioneira, 1972.

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Responsável pelo Conteúdo:

Prof. Dr. João Elias Nery

www.cruzeirodosul.edu.br

Campus Liberdade

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