Economia doc, Notas de estudo de Relações Internacionais
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BRICS e o Brasil
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A ATUAL SITUAÇÃO ECONÔMICA BRASILEIRA

BRICS

A sigla inicialmente chamada de BRIC foi criada pelo economista-chefe da Goldman Sachs, Jim O‘Neil em um estudo intitulado “Building Better Global Economic BRIC’s”. Nesse estudo, ele relatou sobre a construção de mercados globais. A sigla faz referência às iniciais dos países apontados como os mais economicamente promissores: Brasil, Rússia, Índia e China. Depois de alguns anos, mais precisamente em 2011, o “S” de South Africa também foi adicionado ao final da sigla, formando os BRICS. Conforme o tempo foi passando, o estudo foi ganhando mais notoriedade, pois essas economias ampliavam cada vez mais seus papeis no mercado internacional. Os BRICS, entre 2001 e 2011, adicionaram à economia mundial algo em torno de U$10 trilhões de dólares, ou seja, em uma década, eles ofereceram para o mundo uma “nova economia norte-americana”. Em 2012 a euforia ainda permanecia, pois os BRICS contribuíram com mais de U$2 trilhões de dólares para o mundo econômico em pouquíssimo tempo, o mesmo valor da economia italiana. A partir de 2013 essa situação começou a mudar devido ao fim dos estímulos monetários norte-americanos. Nesse mesmo ano surgiu uma nova sigla cunhada pela Bloomberg e depois adaptada por Morgan Stanley, que disse que das cinco nações que compunham os BRICS, Índia, Brasil e África do Sul estavam nessa nova sigla, que fazia referência às cinco economias mais vulneráveis. A partir deste cenário de 2013, esses países começaram a dar sinais de esgotamento, ao mesmo tempo em que havia sinais de melhorias das economias norte-americana e europeia, aliado a um aumento das taxas de juros, o que fez com que os investidores saíssem dessas economias mais vulneráveis e as levassem de volta aos seus países de origem, com maior segurança e maior expectativa de ganho. O diretor de Pesquisas para a América Latina da Nomura Securities em Nova York, Tony Volpon, em entrevista a Revista Exame, alertou para a necessidade dos BRICS de se "ajustarem à nova realidade". Ele disse: "Na verdade não tem porque o investidor ficar brincando nessas praias exóticas, com pessoas exóticas como Dilma e Mantega para rentabilizar meu capital". O economista da Oxford Economics, Marcos Casarin, em uma palestra na Fundação Armando Álvares Penteado, levantou várias questões sobre a atual situação da economia brasileira. Algumas delas são:

- Quais são os mecanismos de transmissão que fazem do Brasil um país vulnerável a choques externos?

- Quão vulnerável é o Brasil? - Como ele chegou a esse ponto? - Como a trajetória dos últimos dez anos impactará os próximos dez? - Se houver uma possível crise bancaria na China, como ela afetará o Brasil?

PARA ONDE VAI O ‘B’ DOS BRICS?

Dentre as grandes economias, o Brasil é a mais fechada do mundo para o comércio exterior. A soma das exportações e importações, como porcentagem do PIB no ano de 2012 foram de apenas 27%, atrás dos EUA com 30% e Argentina 37%. Isso significa que o Brasil não é severamente afetado por choques de volumes de exportações, já que elas representam somente 15% do PIB brasileiro. Por outro lado, os termos de troca podem afetar o Brasil severamente. Em 2003 o Brasil era um país que exportava majoritariamente produtos industrializados ou semimanufaturados, a história se inverteu na última década, e hoje o Brasil é um país primário-exportador. O commodity super-cycle, que foi um aumento desenfreado no preço das commodities de 2003 até setembro de 2008, no começo da crise internacional, fez com que os termos de trocas brasileiros (que são os preços das exportações divididos pelos preços das importações), melhorassem 33% em termos acumulados, o que é muito. Isso impactou os investimentos privados brasileiros. Quando os termos de troca são favoráveis, empresas que exportam principalmente commodities tendem a investir mais para conseguirem um aumento de produção. O Brasil parece ter estagnado nas exportações. Dois momentos importantes de observação são: pré-2008 e pós-2008. Antes de 2008, o aumento dos preços dos produtos brasileiros estimulou um aumento do volume de exportação, depois da crise esse volume estagnou. O Brasil tem hoje o mesmo nível de exportação que tinha em 2008, e mesmo assim os preços continuam subindo. A balança comercial do Brasil é muito afetada pelo preço e pouco afetada pelo volume, que deveria ser maior. É importante dar atenção às importações pois o crescimento econômico é um fenômeno importador. Quando se cresce, se importa. Alguns antes da crise, o volume importado continuava crescendo, porém depois da crise as importações cresceram ainda mais e o crescimento econômico não. Como resultado disso, surge uma deterioração na balança comercial brasileira. A balança que chegou a quase U$50 bilhões de dólares em 2005/2006, foi praticamente nula em 2013. Se não fosse pelo aumento dos termos de troca, o Brasil estaria em uma posição externa muito mais vulnerável do que está hoje. Segundo o economista Marcos Casarin, alguns efeitos colaterais também afetaram a economia doméstica brasileira. As vendas no varejo (que representa o consumo das famílias) continuaram a crescer enquanto a produção industrial continuava a mesma. Hoje o Brasil produz a mesma quantidade que produzia em 2008. Sobre a Conta-Capital, o economista-palestrante relatou que com um incremento nos termos de troca e um mercado financeiro bem desenvolvido e profundo, o Brasil atraiu muito capital externo, com a entrada de mais de U$500 bilhões de dólares desde 2003 – juntando investimentos diretos e em carteira. Quando se une isso tudo a um regime de câmbio flutuante, isso gera uma depreciação excessiva da taxa de câmbio. Houve uma depreciação de 50% se compararmos 2003 ao ano de 2011. Será que o Real estava supervalorizado? Segundo Casarin, sim. O Real esteve supervalorizado durantes os últimos 10 anos e sua última

depreciação é uma ótima notícia, pois o traz de volta ao valor que deveria estar. Contudo, somente essa depreciação não seria o suficiente para salvar a economia. O crescimento dos salários nominais convertidos em dólar divididos pelo PIB por trabalhador de cada um desses países: China, Índia, México. O Brasil foi o país que se tornou mais caro para se produzir nos últimos dez anos, se comparado a China, Índia e México. Uma das causas disso é quando o salário dos trabalhares é maior do que a produtividade, ou seja, quando há um aumento sem ter produzido mais. Uma das maneiras de consertar isso seria através da depreciação cambial, baratearia o preço dos produtos brasileiros no mercado internacional. Contudo, existe um fator fundamental, que é o custo da mão-de-obra, que é algo difícil de se mexer, pois, quem aceitaria uma queda de salários? As empresas brasileiras se tornaram fundamentalmente não-competitivas. Uma depreciação cambial não seria o suficiente para resolver esse problema. Algumas medidas como as ditas anteriormente estimulariam um ajuste da conta corrente brasileira. O déficit da conta corrente cairá, segundo o economista Marcos Casarin, gradualmente para ao redor de 3% do PIB, o que já é alguma coisa, se comparado ao máximo histórico de 3,7% que o Brasil teve no ano de 2013. O atual déficit de conta corrente do Brasil é possivelmente financiável. O Brasil no momento, não corre o risco de ter uma crise de balança de pagamento, isso se pressupormos que o capital continuará entrando. Segundo estudos da Oxford Economics, se esse capital deixasse de entrar, o Brasil teria, a principio, crescimento zero e logo uma recuperação bem lenta. Em um indicador de vulnerabilidade feito também pela Oxford Economics comparando os anos de 1997 e 2013 dos “cinco frágeis”: África do Sul, Turquia, Indonésia, Índia e Brasil, o mais vulnerável seria a África do Sul e o Brasil o menos. Mas de que forma o Brasil é vulnerável para choques externos? O Real apreciou de maneira significável devido a entrada de capitais na última década, entretanto a depreciação pode ser bem forte e acentuada assim que o investidor mudar de opinião. Uma ótima analogia foi feita pelo palestrante Casarin, ele disse que se o Brasil fosse um time de futebol, “teria uma das melhores defesas do mundo, já que teria 350 bilhões de reservas.” O setor público praticamente não tem divida em dólar, o déficit de conta corrente é largo mas pode ser controlado, então o Brasil não é totalmente vulnerável a choques externos, todavia, se houvesse uma fuga de capitais, não sairia ileso. O canal das exportações em volume é pequeno, o canal nos campos de troca é bem poderoso e o canal dos investimentos externos em carteira também é poderoso. Colecionando desequilíbrios – e não foram poucos os desequilíbrios colecionados pelo Brasil, é impossível tentar entender onde o Brasil está hoje sem olhar para o passado e refletir sobre o que aconteceu no mercado de trabalho, de crédito e nas políticas macroeconômicas. Tampouco podemos discutir o futuro sem pensar que se o Brasil não mudar alguns arranjos de política econômica, entrará em uma época onde crescer 2% ao ano, com uma inflação de 6% será normal.

A respeito do mercado de trabalho, não é preciso ser um economista para saber que quanto mais empregos, mais dinheiro na conta dos empregados. O emprego formal no Brasil quase duplicou nos últimos dez anos. A taxa de desemprego chegou ao nível histórico de 5%. Quando há uma melhoria rápida e constante no mercado de trabalho, uma consequência disso é o aumento dos salários. Os salários subiram cerca de 118% em termos nominais em relação ao ano de 2003 e a inflação engoliu grande parte desse aumento de salários. Quando as pessoas têm mais dinheiro para gastar, elas compram mais. Um aumento semelhante ao aumento dos salários foi acompanhado por uma elevação do consumo das famílias. Basicamente o Brasil gastou tudo aquilo que ganhou. Graças ao hábito brasileiro de pagar em prestações, o crédito ao consumidor também foi igualmente alargado. O crédito do Brasil era 20% do PIB em 2003, patamar baixo para qualquer comparação internacional, porém houve um crescimento muito rápido em um período muito curto de tempo. Alguns países como: Estados Unidos, Espanha, Irlanda e Bulgária tiveram bolhas imobiliárias gravíssimas, mas o Brasil conseguiu superar todos eles em relação a inflação. Pode-se concluir, então, que o primeiro desequilíbrio gerado é uma inflação no preço de ativos, que tem efeitos significativos no resto da economia. O segundo desequilíbrio é o endividamento excessivo das famílias. O brasileiro gasta 20% de sua renda para pagar suas dívidas. Antes de 2008 o Brasil tinha uma política fiscal saudável, com um superávit primário de ao redor de 3,5% do PIB. Depois da crise de 2008 ele caiu e a dívida pública que vinha sendo diminuída começou a aumentar novamente. Existe um risco real do Brasil ter um downgrade em seu risco soberano. A previsão da Oxford Economics é de que o superávit primário cairá para 1,4% em 2014, e depois subirá em 2015 para 2,3% do PIB. Não será suficiente para reduzir a dívida, ou seja, a política fiscal melhorará, mas longe da estimativa necessária. Boom de empregos, boom de crédito, política fiscal frouxa, crédito consignado gera uma inflação acima da meta. Segundo estudos, em 2014 haverão diversos fatores que segurarão a inflação ao redor de 6% e não muito mudará em 2015. A inflação nos serviços só terá uma desaceleração quando houver uma deterioração no mercado de trabalho. A partir de 2009 houve uma mudança de rumo na política econômica, temos uma nova Matriz Econômica. Foi feita uma política que priorizou o consumo e o emprego, porém deixou de lado o investimento e a produtividade. Quando um governo prioriza um crescimento da demanda em detrimento do crescimento da oferta, dois desequilíbrios são gerados: inflação e déficit em conta corrente. Quando os salários reais crescem mais do que a produtividade, o país fica menos competitivo no mercado internacional, pois perde market share.

QUAL SERIA O IMPÁCTO DE UMA CRISE BANCÁRIA CHINESA NO BRASIL?

Hoje, quase 40% dos empréstimos feitos na China não são feitos por instituições bancárias. Há um temor acerca da interconexão entre essas instituições com as empresas estatais e os governos locais da China. Não se sabe a taxa de inadimplência desses empréstimos pois as empresas não divulgam dados. Esse aumento de empréstimos por instituições não-bancárias provém de um desejo dos chineses de obter retornos maiores em suas poupanças. Como a China tem mais de U$3 trilhões de dólares em reserva, poderia ajudar a resgatar seu sistema bancário caso houvesse um breakdown. O governo já anunciou que está focado em fazer uma reforma financeira. As taxas de juros interbancárias que estavam baixíssimas já começaram a aumentar, porém o risco de contágio de outros mercados pela China é substancial. A Oxford Economics fez uma projeção onde expõe que o governo não saberia lidar com essa crise, fazendo assim com que os investidores tirassem seu dinheiro de lá. Essa projeção prevê que os preços das ações cairiam 25%, o que aumentaria ainda mais a taxa de inadimplência. O resultado disso seria um aumento na aversão ao risco, já que os investidores prefeririam tirar dinheiro dos países emergentes, como o Brasil. Isso atrapalharia a capacidade do Brasil de exportar, pois perderia market share. A China representava somente 6% das exportações do Brasil em 2003. Em 2013 esse número chegou a 19% do número total de exportações brasileiras. Se há um país que se tiver problema afetará o Brasil, esse pais é a China, nossa top destination. O efeito contágio faria com que nossas exportações caíssem e depois voltassem a subir muito lentamente. O Brasil exporta basicamente produtos primários para a China, como minérios e produtos agrícolas, então os termos de troca iriam se deteriorar rapidamente, já que quanto pior os termos de troca, menores são os investimentos. Uma continua depreciação do real também aconteceria. E o Brasil entraria em recessão. O cenário da China ter uma crise bancária felizmente é muito improvável, já que ela tem recursos para conter algo do tipo, porem se houvesse, haveria um impacto cujo Brasil não escaparia ileso.

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