Estudante-Atleta: caminhos e descaminhos no futebol - entre o vestiário e o banco escolar., Pesquisas de Sociologia do Desporto. Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)
danielmdac
danielmdac17 de Junho de 2015

Estudante-Atleta: caminhos e descaminhos no futebol - entre o vestiário e o banco escolar., Pesquisas de Sociologia do Desporto. Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)

PDF (1 MB)
82 páginas
943Número de visitas
Descrição
O presente trabalho dá sequência ao projeto de estudo mais amplo com jovens atletas realizado pelo Laboratório de Pesquisas em Educação do Corpo (LABEC/UFRJ) em conjunto com pesquisadores do Núcleo de Pesquisa Educação e...
20pontos
Pontos de download necessários para baixar
este documento
baixar o documento
Pré-visualização3 páginas / 82
Esta é apenas uma pré-visualização
3 shown on 82 pages
baixar o documento
Esta é apenas uma pré-visualização
3 shown on 82 pages
baixar o documento
Esta é apenas uma pré-visualização
3 shown on 82 pages
baixar o documento
Esta é apenas uma pré-visualização
3 shown on 82 pages
baixar o documento
01- O segredo da acumulação primitiva

UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA

CENTRO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS

DEPARTAMENTO DE SOCIOLOGIA E CIÊNCIA POLÍTICA

DEPARTAMENTO DE ANTROPOLOGIA

GRADUAÇÃO EM CIÊNCIAS SOCIAIS

Estudante-Atleta: caminhos e descaminhos no futebol - entre o vestiário e o

banco escolar.

Daniel Machado da Conceição

Florianópolis/SC

Maio/2014

Ficha de identificação da obra elaborada pelo autor,

através do Programa de Geração Automática da Biblioteca Universitária da UFSC.

Da Conceição, Daniel Machado

Estudante-atleta: caminhos e descaminhos no futebol - entre o vestiário e o banco

escolar / Daniel Machado Da Conceição; orientadora, Miriam Pillar Grossi;

coorientador, Jaison José Bassani. - Florianópolis, SC, 2014. 82 p.

Trabalho de Conclusão de Curso (graduação) - Universidade Federal de Santa

Catarina, Centro de Filosofia e Ciências Humanas. Graduação em Ciências Sociais.

Inclui referências

1. Ciências Sociais. 2. Escolarização. 3. Formação. 4. Futebol. 5. Projeto. I. Grossi,

Miriam Pillar. II. Bassani, Jaison José. III. Universidade Federal de Santa Catarina.

Graduação em Ciências Sociais. IV. Título.

Daniel Machado da Conceição

Estudante-atleta: caminhos e descaminhos no futebol - entre o vestiário e o

banco escolar.

Trabalho de Conclusão de Curso aprovado com nota Dez, como

requisito final para obtenção do título de Bacharel no curso de

Graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal de

Santa Catarina.

BANCA EXAMINADORA

_________________________________

Orientadora: Profa. Miriam Pillar Grossi, Dra.

__________________________________

Co-Orientador: Jaison José Bassani, Dr.

__________________________________

Membro: Profa. Antonella Tassinari, Dra.

Florianópolis/SC

Maio/2014

Sumário

I. Introdução: a peneira ......................................................................................................... 15

Capitulo 1 - Treinamento técnico: o pesquisador e a pesquisa .......................................... 18

1.1 Treinamento tático: a entrada no campo de pesquisa ................................. - 20

Capítulo 2 – Concentração: futebol um fenômeno social ................................................... 25

2.1. Esporte e jogo ................................................................................................... 26

2.2. Por que futebol? ............................................................................................... 29

2.3. O Alambrado .................................................................................................... 31

Capítulo 3 – Aquecimento: o mercado do futebol ............................................................... 37

3.1 - Preleção antes do jogo: estudos sobre o tema .............................................. 40

Capítulo 4 - A entrada em campo ......................................................................................... 45

4.1 - A hora do jogo: a descrição do campo .......................................................... 47

4.2 - A coletiva: os entrevistados ............................................................................ 48

4.3 - O apito inicial: a interpretação dos dados ................................................... 52

4.4 - As jogadas ensaiadas: relatos do diário de campo ...................................... 63

Capítulo 5 - Debate pós-jogo: conclusão .............................................................................. 76

Referência Bibliográfica ........................................................................................................ 78

Anexos ..................................................................................................................................... 81

Resumo: O presente trabalho dá sequência ao projeto de estudo mais amplo com jovens atletas realizado pelo Laboratório de Pesquisas em Educação do Corpo (LABEC/UFRJ) em conjunto com pesquisadores do

Núcleo de Pesquisa Educação e Sociedade Contemporânea (NEPESC/UFSC). A temática abordada visa

ampliar os dados sobre formação esportiva e escolarização de jovens atletas de futebol em um clube de Santa

Catarina. O sonho da profissionalização no futebol se objetiva em um projeto familiar, envolvendo meninos

que dedicam grande parte de sua juventude na superação de “dois alambrados”, o das categorias de base e o

do profissionalismo. O primeiro simboliza a entrada no Esporte Futebol, pois um alambrado separa os

jovens do gostar de brincar de bola e do jogar bola. A entrada na categoria de base de um clube de futebol

profissional dá início ao treinamento rotineiro objetivando o alto rendimento. Este fato em muitos casos

determina separação familiar, distanciamento da escola e um ascetismo esportivo. O segundo alambrado

significa a realização do sonho, com a passagem da base para o grupo profissional. A busca pelo esporte

como profissão passa pelo desejo de ascensão e mobilidade social e a alta demanda de jovens que querem

ingressar nesta carreira mostra que os interesses são construídos culturalmente e todo esforço é voltado para

oportunidades não muito concretas, em um mercado de trabalho bastante restrito. Com base nesse cenário, o

primeiro questionamento que instiga o trabalho é entender o porquê da escolha pelo futebol? Em seguida,

como é pertencer a uma categoria de base no futebol? E, consequentemente, perceber como o interesse pela

escola se dilui durante a formação esportiva? O campo de pesquisa selecionado foi a categoria de base do

Avaí Futebol Clube da cidade de Florianópolis/SC. O recorte etário analisado foram as categorias sub-15 e

sub-17. A Escola Estadual Básica Ildefonso Linhares também foi observada, pois atende 60 jovens atletas do

clube, matriculados no Ensino Fundamental e Médio. As observações foram realizadas durante o ano de

2013, com várias visitas ao clube para assistir aos treinamentos, conversar com profissionais, realizar

entrevistas, andar pelas dependências, sentando em locais de circulação, ouvindo conversas e observando

inscrições corporais. Para melhor captar o pensamento dos personagens, foram realizadas entrevistas com o

Psicólogo, a Assistente Social, o Supervisor das Categorias de Base e quatro atletas entre 16 e 17 anos. Estes

atores são fontes de informações preciosas para entender a atmosfera do futebol no clube e os desafios

pertinentes à formação. A maneira pensada para argumentar sobre as três perguntas que instigam o trabalho

foi dividi-lo em cinco partes. A primeira indica a metodologia utilizada e a inserção do pesquisador no

campo. A segunda parte tem o tema relacionando com a singularidade da modalidade no país e sua

representação que atrai o interesse de inúmeros jovens. Nesta parte, as categorias que norteiam o trabalho são

expostas como o Jogo Futebol e o Esporte Futebol, assim como a descrição do significado do alambrado e

de como essa categoria passa a ser representativa na trajetória dos jovens atletas. A terceira parte trata do

estudo da arte e sua contribuição para análise e interpretação do campo. Na quarta parte, é feita a descrição

das observações realizadas, corroborando com as entrevistas. A última parte traz as conclusões finais

esboçando as apreensões sobre o tema.

Palavras-Chave: Categoria de base. Escolarização. Formação. Futebol. Treinamento.

Abstract: This paper is a sequence if a more wide study project with young athletes made by the “ Reaserches about Body´s Education Laboratoty “ (LABEC/UFRJ) with researchers of Educational Research

Center and Contemporary Society (NEPESC/ UFSC). The theme aims to expend the data about the sport

formation and young soccer athletes schooling in Santa Catarina´s club. The dream of being a professional

soccer player which objective is a familiar project, involving boys that dedicate a great part of their youth

overcoming “two fences”, one of the basic category and the other is professionalism. The first one

symbolizes the entrance in the soccer, because a fence divides the youth from liking to play to actually

playing ball. The entrance to the basic category of a professional soccer club gives the initiation to a training

itinerary aiming the high productivity. This fact, in many cases determines separation from the family,

detachment from school and sports asceticism. The second fence means the realization of a dream, passing

from basic to a professional group. The search for sport as a profession goes through the desire if ascension

and social mobility and high demand of youth that wants to join this career shows that the interest are built

culturally and all the effort is directed to opportunities not really factual, in a very restrict labor market.

Based on this scenario, the first question that instigates this paper is to understand why choosing soccer?

Next, how is like to be part of a basic category at soccer? Consequently, noticing how does the interest for

school dilutes during the sports training. The selected research field was Avai´s basic category soccer club of

Florianópolis/ SC. The age cut analyzed were under15 and under17. The “Escola Estadual Básica Ildefonso

Linhares” school was also observed, because it attends 60 young athletes from the club, enrolled at the basic

education and secondary school. The observations were performed during the year of 2013, with many visits

to the club to watch the trainings, talking to professionals, making interviews, walking through the

dependencies, seating in circulation places listening to conversations and observing the registrations. To

better capture the character’s thought it were carried out an interview with a Psychologist, a Social Assistant,

the basic category supervisor and four athletes between 16 and 17 years old. These actors are source of

precious information to understand the soccer’s atmosphere at the club and the challenges relevant to the

formation. The way of thinking as an argument about the three questions that instigate the paper that were

divided in five parts. The first indicates the methodology used in an insertion of the researchers in the field.

The second part has the theme related with a singular modality in the country and the representation that

attracts the interest of a great amount of young people. In this part, the categories that guide the paper are

exposed as a Soccer Club and the Soccer as a sport, so as a description of the meaning of the fence and how

this category becomes representative in the young athletes trajectory. The third part talks about the study of

the art and it´s contribution for analyzes and interpretation of the field. In the fourth part it brings final

conclusions sketching the seizures about the theme.

Key words: Basic category. Schooling. Formation. Soccer. Training.

Agradecimentos:

Agradeço aos colegas e professores que foram pacientes comigo durante minha formação

em Ciências Sociais. Muitas vezes o sentimento de desânimo abateu quando, nas discussões em sala

de aula, meu raso conhecimento de Ciências Socais, assim como outras implicações de minha

socialização primária, me impediam de participar ativamente como outros colegas que lançavam

muitos argumentos sobre os temas discutidos. Quero deixar registrado a importância de um colega

monitor na primeira fase, Lucas Ferreira, que, ao ler minhas primeiras linhas escritas, sempre

manteve uma postura de retornar com comentários sugestivos sobre o que tinha sido desenvolvido.

Aprendi muito com essa primeira avaliação e a tomei como prática. Essa atitude permeou minha

graduação com uma postura disposta a aprender, buscando sempre alguém que repetisse tal ação.

Agradeço a PRAE, através da bolsa permanência, pela oportunidade de ser bolsista em

projetos vinculados à graduação, que proporcionaram, junto à Coordenação de Ciências Sociais, a

participação no projeto de divulgação do curso em escolas de Ensino Médio; e no Núcleo

Interdisciplinar em Políticas Públicas a participação na pesquisa As bases sociais e atitudinais da

participação política no Brasil. Agradeço ao CNPq pelo auxílio financeiro como bolsista de

Iniciação Científica que possibilitou a realização deste trabalho no Núcleo de Estudos e Pesquisas

Educação e Sociedade Contemporânea.

Faço um agradecimento especial à Professora Dra. Miriam Pillar Grossi que acreditou em

meu trabalho, mais do que isso, na capacidade e esforço de aprender. Em meu TCL e TCC, a

professora abriu mão de sua linha de pesquisa em que é reconhecida nos trabalhos de gênero.

Aceitou orientar um trabalho que nem margeava pelos temas que seriam então de maior relevância

ao NIGS. Por isso, sou-lhe muito grato pelos exemplos, questionamentos, cobranças e orientações.

Agradeço imensamente ao Professor Dr. Alexandre Fernandez Vaz que aceitou meu ingresso

no NEPESC desde minha segunda fase na graduação. Muitos ensinamentos me foram transmitidos

e os maiores estão no exemplo e na postura profissional de não desconsiderar aquilo que produzi.

As indicações e conselhos sempre foram úteis e ainda estão guardados. Saiba, professor, que estou

muito feliz e contente com a oportunidade que tenho de continuar as pesquisas e contato com o

núcleo, estando agora aos cuidados da orientação do Professor Dr. Jaison José Bassani no Programa

de Pós-Graduação em Educação.

O que dizer então de minha família! Primeiro onde minha socialização primária aconteceu.

Meu pai hoje falecido, sempre disse “seja melhor que eu”. Para alguém com 4ª ano fundamental,

quando terminei o primeiro grau, já parecia ser melhor que ele, mas seu exemplo de trabalho,

dedicação e bom relacionamento interpessoal ficaram marcados. E quem sabe algum dia possa

realmente ser melhor que ele. Sobre minha mãe, sei que deve estar felicíssima, pois sempre se

esforçou para que entendêssemos a importância dos estudos. E hoje digo que as madrugadas que me

tirou da cama para estudar valeram a pena.

Agora agradeço a minha família atual, pois lá se vão cinco anos limitando seus passeios,

presentes e festas, pois nossa meta era a conclusão da formação acadêmica. Obrigado, Marilene, por

seu empenho, sacrifício e esperança de algo melhor. Você foi quem aceitou compassivamente que as

aflições seriam só por um momento. Agradeço as minhas filhas Joanna e Iasmin pelo apoio e

compreensão. Saibam que vocês são o motivo por não desistir. A meu filho, recém-nascido, quem

não vivenciou os últimos cinco anos, mas agora simboliza os próximos dois, sendo a força para

continuar o aperfeiçoamento.

Agradeço a meu Pai Celestial, por esta crença ser a ancora de consolo e força, além dos

valores presentes em uma ascese de “ética protestante” que durante minha trajetória proporcionou

disciplina e regramento para conclusão dos objetivos.

Obrigado a todos os que, de alguma forma ou outra, foram participantes dessa jornada e que,

devido à limitação das linhas, não posso externar a cada um meu apreço.

Tá no sangue do brasileiro.

Uma paixão que dura o ano inteiro.

Todo mundo aqui é técnico, atacante, volante, zagueiro.

Pra gente é muito mais que um jogo, sim senhor.

Bem lá no fundo é uma história de amor.

Com muito orgulho eu sou o 12º jogador.

Na barreira.

No meio-de-campo.

Na grande área.

Ou lá no banco.

O meu negócio é gritar goool!

O meu negócio é gritar goool!

(Música: 12º jogador, Jair Oliveira)

15

1 Introdução: A peneira

Pensar atualmente nos jovens que estão se esforçando por um sonho no futebol faz lembrar

minha infância, quando comecei a praticar o esporte na escola. Segui os passos que geralmente são

percorridos por vários jovens, primeiro na escola e em seguida em um clube de futebol para

exercícios mais regulares. No meu caso, isso aconteceu no Esporte Clube Pelotas, onde encontrei o

treinador Alcione, muito reconhecido na cidade de Pelotas, no Rio Grande do Sul, por impulsionar

talentos. A estada no E. C. Pelotas não durou muito tempo, pois o técnico saiu e foi atuar no Paulista

Futebol Clube, um clube tradicional de futsal e com ele alguns atletas foram convidados a integrar a

nova equipe. Entre eles, há também um menino sem habilidades, mas muito esforçado e com

desejo de aprender. Por vários motivos e talvez o principal deles a falta de incentivo familiar, não

tenha dado sequência à carreira futebolística no Paulista. Não desistindo de jogar, fui inscrito no

SESI, onde podia passar as tardes com atividades no contraturno escolar, participando da escolinha

de futsal. Nesse período, uma falta violenta foi o estopim para problemas no joelho que pouco a

pouco me afastam das atividades esportivas, que na atualidade se reduzem a caminhadas. Durante

minha juventude, continuei a praticar outras modalidades esportivas, como vôlei, basquete, como

integrante da equipe do CAVG (Conjunto Agrotécnico Visconde da Graça) – uma equipe eufórica,

como as transmissões da NBA em TV aberta na década de 1990 – e o futebol de várzea, que sempre

recebeu atenção, embora as dores no joelho persistissem e aumentassem.

Os sonhos daquela época nunca foram concretizados quanto à carreira de jogador, mas o

clubismo canalizava uma espécie de investidura que viabilizava o ‘estar’ e ‘ser’ ‘esse’ ou ‘aquele’

jogador. Os trejeitos, a marra 1 , a tela

2 , o falar, o olhar, o tocar na bola etc. fizeram com que o

futebol, ao mesmo tempo como uma prática divertida, também ganhasse os contornos de espetáculo

produzido para multidões de aficionados. Que fascinante jogar sem ter hora para acabar e ao mesmo

tempo jogar como se a qualquer momento os pais/responsáveis pudessem chamar para jantar. Em

minha infância, o futebol já nos era dado como uma “possibilidade de futuro”, como uma carreira

desejável, mas a escola sempre foi mais exaltada pela família como um projeto desejável. Não

recordo se, dos vários meninos com quem jogávamos, algum deles virou jogador. O futebol já era

uma carreira difícil, de muito ardor e de bons relacionamentos, poucos conquistaram e, ao que

parece, poucos continuam conquistando tal carreira. Agora podemos pensar se há diferença na

atualidade. No que posso argumentar de imediato, é que hoje quase todo mundo conhece algum

jovem que se insere na carreira de jogador. Facilmente eles são destacados no meio da multidão,

seja por suas roupas, seja por seus cabelos, seja pela inscrição corporal.

1 “Marra” é um termo utilizado para marcar atitudes de atleta, muito semelhante a malandragem.

2 “Tela” é um termo utilizado para descrever a aparência de jogador.

16

Essa superexposição atual dos atletas em formação no futebol parece ser contraditória com o

fato de que, nos centros urbanos, houve uma redução dos espaços para práticas ao ar livre de

determinadas modalidades. Mas eles estão aí! Marcados na escola, no shopping e nas baladas. A

exposição destas figuras invade os espaços públicos onde o status adquirido pela prática esportiva

do futebol traz consigo uma gama de representações e imaginários que os tornam já ídolos mesmo

ainda não sendo. O potencial previsto está na esperança posta sobre o prata da casa, os jovens

atletas carregam em si as esperanças constantes de um futuro êxito do clube local nas variadas

competições. Os jovens são tratados como heróis em potencial, com um futuro bem sucedido. A

previsão desse sucesso no futuro, não impede que no presente já recebam privilégios. O “futuro”

pode envolver 10 anos de treinamento e aperfeiçoamento de técnica por meio de extenuantes

treinamentos. Pode também significar contratos pomposos para jovens de 16 a 20 anos com salários

em patamares muito acima de profissionais graduados, representando um grande diferencial se

comparados aos soldos de seus pais e responsáveis.

O universo do futebol parece seduzir e alimentar sonhos pessoais e familiares de jovens e

adultos especialistas 3 . Sonhos pautados no corpo e no uso do mesmo, a partir das habilidades físicas

com as quais se espera então superar os obstáculos culturais almejando ascensão e mobilidade

social. Este trabalho está centrado neste momento na formação dos futuros jogadores de futebol: em

ações e atitudes como jovens atletas que incorporam um ethos futebolístico. Para atingir este

objetivo escolhi compreender o universo de formação destes jovens, a partir do ângulo da escola

onde eles estudam.

Em pesquisa anterior (DA CONCEIÇÃO, 2013), me pautei em uma abordagem que buscava

entender a concomitância da formação entre o campo futebolístico e o campo escolar. O olhar

procurava privilegiar a escola que recebe o atleta como seu estudante. Pontos interessantes foram

visualizados e se abriram questionamentos que se traduzem neste TCC. Aqui, avanço um pouco

mais para entender melhor o universo de formação dos atletas no esporte e que reflete na sua

relação com o espaço escolar. Na busca por melhor entender a trajetória de formação e seu impacto

na vida escolar, o primeiro questionamento que instiga o trabalho atual é entender o porque da

escolha pelo futebol. Em seguida, entender como se sentem pertencendo a uma categoria de base no

futebol. E, por fim, busco perceber como o interesse pela escola se dilui durante a formação

esportiva.

Procurando responder a estas questões, realizei participação observante (GUBER, 2001)

no ambiente do clube e da escola onde os atletas estão matriculados. O usufruir de parte da rotina

3 O termo especialista é utilizado para designar, no processo de esportivização, a criação de um público apto a

apreciar a modalidade esportiva. Também pode designar ex-profissionais que como parte de sua reconversão

profissional atuam em carreiras de comentaristas ou treinadores.

17

desses atletas possibilitou compreender como os jovens se relacionam entre si, como percebem a

carreira, a fase de formação, sua relação com o clube e com a escola. Para melhor captar o ethos do

campo estudado foram realizadas entrevistas com o Psicólogo, a Assistente Social, o Supervisor das

Categorias de Base e quatro atletas da categoria sub-17 do Avaí Futebol Clube, clube de

Florianópolis, Santa Catarina. Estes atores sociais são fontes de informações preciosas para entender a

atmosfera do futebol no clube e os desafios pertinentes à formação.

A maneira pensada para argumentar sobre as três perguntas que instigam o trabalho foi

dividi-lo em cinco partes.:

a) A primeira indica a metodologia utilizada e a inserção do pesquisador no campo;

b) A segunda parte tem o tema relacionando com a singularidade da modalidade do futebol de base

no país e sua representação que atrai o interesse de inúmeros jovens. Nesta parte as categorias que

norteiam o trabalho são expostas como o Jogo Futebol e o Esporte Futebol, assim como a

descrição do significado do alambrado e de como essa categoria passa a ser representativa na

trajetória dos jovens atletas;

c) A terceira parte trata do estado da arte e sua contribuição para análise e interpretação do campo.

Os estudos versam sobre questionamentos da situação do estudante-atleta que se mostra muito

semelhante à do estudante-trabalhador amparado por legislação especifica;

d) Na quarta parte é feita a descrição das observações realizadas, corroborando com as entrevistas.

Neste momento, as relações que o estundate-atleta constrói com o espaço do clube e da escola são

apresentados;

e) A última parte traz as conclusões finais, esboçando as apreensões sobre o tema.

18

Capítulo 1 - Treinamento técnico: o pesquisador e a pesquisa

Durante a graduação, uma preocupação inicial foi procurar um tema de estudo que

possibilitasse leituras por fruição, as quais seriam uma estratégia pessoal para avançar em

abordagem e análise do que era apresentado nas diversas disciplinas. Identifiquei assim o esporte

como fenômeno social, tema em pleno desenvolvimento nas Ciências Sociais, que dizia também

respeito à minha trajetória pessoal, como relatei na Introdução. O primeiro texto que encontrei

buscando na internet falava sobre a sociologia do esporte na Alemanha 4 . Um texto traduzido por

Alexandre Fernandez Vaz, professor pertencente aos quadros da UFSC.

Embora versando sobre Sociologia, o professor e o núcleo de pesquisa se encontravam no

Departamento de Educação. Procurei mais informações, e algumas trocas de correio eletrônico me

inseriram no Núcleo de Estudos e Pesquisa Educação e Sociedade Contemporânea

(NEPESC/UFSC) 5 , no grupo de estudos Esporte e Sociedade. Naquele momento, mesmo com

parcos conhecimentos e pouco capital cultural, que são exigências da graduação em Ciências

Sociais, eu tinha uma quadra (cancha) para prática fora do campo de treinamento. O convívio com

um grupo interdisciplinar fez minha estada ser mais bem aproveitada, pois as relações de troca de

conhecimento com graduandos e alunos da pós-graduação facilitava o aprendizado de técnicas, de

táticas e de performance que na academia lhe são caras.

O convívio no núcleo foi ampliado quando passo a integrá-lo como bolsista de iniciação

científica (CNPq), dando sequência ao projeto de estudo realizado pelo Professor Dr. Antônio Jorge

G. Soares, líder no Laboratório de Pesquisas em Educação do Corpo (LABEC/UFRJ) 6 . A temática

do projeto visava ampliar os dados sobre formação esportiva e escolarização de jovens atletas.

Nossa contribuição seria realizar um mapa da situação catarinense nas modalidades do futebol de

campo, futsal, vôlei e turfe.

A entrada neste núcleo me trouxe o aprendizado do caráter investigativo, das reuniões de

planejamento, de organização, assim como as leituras direcionadas e a ida a campo. O primeiro

contato com o campo aconteceu no Avaí Futebol Clube, para aplicação de questionário junto aos

jovens atletas das categorias de base, em meados de 2011. Duas coisas aconteceram nesse

momento: a primeira diz respeito à maior integração com professores e colegas sobre o fazer

pesquisa; a segunda mostra minha identificação com o campo e a lembrança de quase dois anos

como Agente de Pesquisa no Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que me faz

encontrar minha real posição na configuração do jogo.

4 PILZ, Gunter A. Sociologia do esporte na Alemanha. Tradução do original em alemão e as notas de rodapé são

de Alexandre Fernandez Vaz (1998). 5 http://nucleodeestudosepesquisas.blogspot.com.br/

6 http://labec-ufrj.blogspot.com.br/

19

A prática de observador rendia apontamentos que enriqueciam o “estar no campo”. Mais do

que responder perguntas, surgiam outras e outras que instigavam meu interesse. Muitas arestas

ainda precisavam ser mais bem tratadas, ou melhor, meu “condicionamento físico” merecia ser

ampliado para conseguir correr um jogo todo, ter mais fôlego para pesquisa. Para isso, novas

leituras, outros contatos, participações e o exercício da escrita significaram um árduo

“treinamento”. Atingir a plenitude dos fundamentos ainda não foi possível, e por isso continuo em

formação. No entanto, reconhecer que não sou o mais habilidoso, nem sou o mais veloz, nem o de

maior força ou o líder, características que muitas vezes definem a posição de um atleta na equipe,

ajudaram a encontrar minha qualidade para pertencer ao grupo. Portanto, a atitude de jogar para o

time, ter a disciplina tática necessária para somar e não dividir, fez com que prosseguisse no

aprendizado. Talvez, como um volante “trombador” que mata as jogadas, mas ainda assim está no

meio do campo com uma visão privilegiada da defesa e do ataque, fazendo a ligação entre ambos.

O contato com a pesquisa e o campo de estudos se mostrou profícuo para novos

questionamentos. As leituras sobre a formação esportiva traziam sempre um olhar sobre o atleta, o

clube de futebol, a família e os empresários. A relação com a escola era apresentada como notória

devido à concomitância das atividades (banco do vestiário e banco da escola). Começava então a

instigar a percepção dos personagens no cenário da escola em relação aos meninos atletas. Como os

profissionais de educação acolhiam os jogadores? Como era a relação professor–aluno e professor–

atleta? Que práticas de flexibilização 7 seriam comuns? Em meu entendimento, uma oportunidade de

analisar a partir da escola as relações construídas com esses atletas passava a ser um recorte

interessante. Assim, começo a dar os primeiros “chutes” para problematizar desejando uma maior

compreensão da figura do atleta e estudante.

Uma primeira incursão com essa nova perspectiva foi realizada durante o primeiro semestre

de 2013 para a realização do trabalho de conclusão de licenciatura – TCL (Da Conceição, 2013)

que, devido a sua brevidade, resultou em mais perguntas do que respostas. Agora, para o trabalho de

conclusão de curso, a pesquisa ganha novos contornos. O objeto de investigação permanece sendo

os jovens como atletas e estudantes, e o objetivo principal é entender a escola como pano de fundo,

para descrever a maneira que o campo de possibilidades (VELHO, 1999), construído por meio da

formação esportiva, dilui o interesse pela escolarização, além de apresentar um tema que acredito

relevante, articulando reflexão sobre escola e mundo futebolístico.

7 Flexibilização é uma expressão que caracteriza ações que a escola tem com os atletas devido a seus vários

compromissos. Entre eles estão: saída e chegada fora do horário, remarcação de provas, trabalhos e avaliações e

validação de atestados de falta.

20

O futebol aparece como modalidade escolhida por sua maior abrangência e facilidade de

seleção do clube profissional que se enquadra como entidade de prática formadora de atletas,

reconhecido por sua atuação conforme exigências da Lei Pelé 8 .

Por fim, este TCC tem como objetivo consolidar cinco anos de escolhas feitas durante a

graduação que transformaram a experiência de um estudante em um pesquisador.

1.1 - Treinamento tático: a entrada no campo de pesquisa

O campo de pesquisa selecionado foi a categoria de base do Avaí Futebol Clube, na cidade

de Florianópolis/SC. Atualmente o clube forma aproximadamente 200 jovens divididos em várias

categorias que são classificadas por idade. O recorte etário analisado compreende as categorias sub-

15 e sub-17 9 , ou seja, jovens de 14 a 17 anos. A Escola Estadual Básica Ildefonso Linhares também

foi observada, pois atende 60 jovens atletas do clube, matriculados no Ensino Fundamental e

Médio. A localização da escola é de relativa proximidade com o clube e seu alojamento. Ambas as

instituições realizam uma parceria datada desde 2004, para acolhimento dos jovens no quesito

escolarização (DA CONCEIÇÃO, 2013).

O Avaí Futebol Clube, fundado em 1923, está localizado no bairro Carianos, em

Florianópolis, nas imediações do aeroporto da cidade. Possui uma estrutura profissional de clube

participante do Campeonato Estadual da Primeira Divisão e atualmente do Campeonato Brasileiro

da Série B. O estádio do clube é próprio com capacidade para aproximadamente 18.000 pessoas.

Conta com três campos de treinamento ao lado do estádio, onde as categorias de base realizam seus

treinamentos junto com a equipe principal. Seu quadro de funcionários está dividido entre

administração, secretaria do clube e departamento de futebol. O clube desenvolve atividades

formadoras no futebol de campo, futsal e também no ciclismo. A equipe principal de futebol conta

com todo um quadro técnico que dá suporte aos atletas profissionais, isto quer dizer, com roupeiro,

massagista, médico, preparador físico, técnico e outros auxiliares formam o conjunto de uma equipe

profissional. A importância que goza a categoria de base fica demonstrada na manutenção da

8 Lei nº 9.615, de 24 de março de 1998. Acessoem: 14 fev 2013.

http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9615consol.htm 9 Importante ressaltar que, embora a categoria sub-15 seja formada por jovens de 14 e 15 anos, e a categoria

sub-17 com jovens de 16 e 17 anos, não significa que o grupo esteja limitado pela idade. Elementos físicos e de

características técnicas podem permitir a participação de jovens com idades inferiores treinar com os mais velhos. Isso é

entendido como valorização do potencial e da capacidade do atleta, já o movimento contrário, alguém com idade

superior treinar com menores mostra um descompasso com a formação e significa desvalorização para o jovem atleta.

Esta situação acontece com maior frequência com atletas já profissionais que voltam de recuperação física e são

colocados com os mais jovens para ganhar ritmo e para avaliação de seu condicionamento físico. Nesse caso, a

desvalorização não acontece para o jogador profissional, e para os jovens é tido como um privilégio treinar com um

profissional.

21

mesma estrutura visualizada nas equipes sub-15, sub-17 e sub-20. Cada uma dessas categorias

possui em média 36 jovens atletas de 14 a 20 anos de idade separados por faixa etária. Os atletas

são naturais de diversas cidades e estados brasileiros, poucos são catarinenses. Para manter os

jovens em Florianópolis/SC, o clube dispõe de alojamento dentro do seu estádio e aluga casas ou

apartamentos para atender aos atletas. Como entidade formadora, disponibiliza refeitório com café

da manhã, almoço e jantar, atendimento médico odontológico e psicossocial, matrícula garantida em

escola pública da região, todo aparato técnico para o esporte de alto rendimento e, para alguns,

bolsas financeiras não muito altas, mas que garantem um vínculo com o clube.

O Avaí FC, no que compete às categorias de base, tem conseguido resultados expressivos,

como a conquista nas competições estaduais e boa participação nas nacionais. A rede de contatos se

estende por várias partes do país, contando com a marca Avaí vinculada a escolinhas de futebol em

outros Estados como o de Rondônia. O universo do futebol, ou melhor, a visão mercadológica que o

mesmo atinge nos últimos anos no Brasil é facilmente observado nesse ambiente. Sendo assim, o

clube merece destaque devido à relevância e à representação na cidade e no Estado, bem como no

cenário de formação de atletas nacionais.

A Escola Estadual Básica Ildefonso Linhares, localizada no bairro Carianos, recebe os

atletas do Avaí, os quais são matriculados no ensino regular. Todos os jovens atletas com relação

idade-série compatível frequentam a sala de aula. Atualmente 60 jovens das categorias de base estão

nos bancos escolares divididos entre o 9º ano do Ensino Fundamental e os três anos do Ensino

Médio. A escola atende alunos da região nos períodos da manhã, tarde e noite. Em média, cada sala

de aula possui 32 alunos matriculados. A maior concentração de atletas se dá no período noturno,

em que cada turma conta com pelo menos seis estudantes vinculados ao futebol. No ensino noturno,

temos três turmas de primeiro ano, duas turmas de segundo ano e duas turmas de terceiro do Ensino

Médio frequentando simultaneamente as dependências da instituição. Observamos em campo que a

presença dos atletas interfere na dinâmica da escola, nas aulas dos professores e consequentemente

nas regras de convivência. Esse cenário da escola é um espaço rico para observação e compreensão

da relação formação esportiva e escolarização. A importância desta instituição foi detectada na

primeira aplicação dos questionários com os atletas, em 2011, que evidenciava, desde aquele

momento, uma parceria entre o clube e a escola, que se intensificou desde então.

Após esse primeiro contato, o desejo de desenvolver a pesquisa começou a ganhar

contornos, objetivos e foco. No final de 2012, um contato foi realizado com o clube, com efetivação

de nova pesquisa de campo nos primeiros meses de 2013. Embora o clube tenha uma postura de

portas abertas para estudos universitários, adentrar esse mundo em que os jovens são entendidos

como mercadorias, os quais sofrem assédio constante, pareceu bastante desafiador. Uma tática

prevista foi contatar um colega do núcleo, aluno da pós-graduação e técnico de goleiros das

22

categorias de base do Avaí, da modalidade do futsal. Esse facilitador, um membro interno do grupo,

possibilitou o contato direto com a equipe do atendimento psicossocial que presta atendimento aos

jovens. Sei que poderia ter feito o contato com as mesmas pessoas sem sua intermediação, mas

acredito que a recepção e a tranquila confiança que os profissionais tinham sobre meu personagem

de pesquisador garantiu assim melhor aceitação. A partir desse contato, troquei correio eletrônico

com um dirigente e conversei com membros da comissão técnica das categorias de base, obtendo

livre acesso às dependências do clube. Isso também possibilitou realizar a ponte com os gestores da

escola na qual os atletas estão matriculados.

As observações de campo deste TCC foram realizadas durante o ano de 2013, com várias

visitas à escola e ao clube para assistir aos treinamentos, conversar com profissionais, realizar

entrevistas, andar pelas dependências sentando em locais de circulação, ouvindo conversas,

observando inscrições corporais e até mesmo o estranhamento de minha pessoa no local. Algumas

vezes era reconhecido como professor, estudante universitário, jornalista/repórter, familiar de atleta,

agente de atleta, fiscal de atleta e olheiro 10

. A figura de pesquisador sempre foi reconhecida pelos

profissionais que dão atendimento aos jovens e aos gestores da escola, por minha exposição e

contato serem maiores. Para os jovens, a pouca interferência em suas rotinas rendia a curiosidade

sobre minha tarefa. Pouco a pouco, algumas barreiras foram sendo superadas, e como estratégia

inicial de entrada em campo o caderno para anotações se fez presente. Com o tempo, já era natural

me ver escrevendo e anotando informações no clube ou no espaço escolar entre atletas e não-atletas.

A desconfiança inicial foi superada pela sociabilidade em cumprimentos e acenos, isto é, no

reconhecimento de minha pessoa no meio.

Devido à atividade desenvolvida pelos jovens e a diferença de geração entre nós, não podia

exercer plenamente uma observação participante nos moldes de experienciar aquilo que fazem e

como fazem. As equipes são fechadas em suas categorias pela faixa etária. Entre atletas de alto

rendimento, um “perna de pau” como eu seria classificado e facilmente reconhecido se eu me

aventurasse a acompanhá-los no treinamento. Assim, simplesmente “montei minha barraca”, como

diria Malinowski, e coloquei minha presença em inúmeros lugares que eles frequentavam,

observando os comportamentos dessa “comunidade de prática” (LAVE; WENGER, 1991). A

antropóloga Rosana Guber (2001, p. 60) define esse tipo de incursão como “participação

observante”, e foi isto que fiz, pois estava circulando pelo espaço, conversando com pessoas e

observando muito mais do que “participando” nos moldes que o campo escolhido exigiria, de

prática de futebol.

10

Profissional que descobre talentos circulando por clubes e competições e faz a intermediação de propostas

para ambos. Está é uma das razões para circularidade dos jovens no meio do futebol, pois são assediados

frequentemente para mudança de clube com oportunidades mais promissoras.

23

Uma das oportunidades, contruída com apoio dos integrantes do Núcleo de Identidade de

Gênero e Subjetividades (NIGS/UFSC) 11

, foi observar e interagir com os jovens atletas por meio da

realização da “Oficina Papo Sério”, que versa sobre questões de gênero e sexualidade na escola. A

oficina teve como proposta abordar temas sobre masculinidade e sexualidade com os estudantes, o

que possibilitou estar em sala de aula realizando dinâmicas e observação do comportamento dos

atletas junto a outros alunos de suas turmas.

As incursões a campo e as entrevistas e conversas foram gravadas com o gravador de um

dispositivo móvel da Nokia modelo Asha 202. O mesmo dispositivo também tirou fotografias.

Registros em diário de campo foram feitos para guardar impressões e fatos que ajudam a compor o

material em que procuro, na visão geertziana, trazer o ponto de vista do outro (GEERTZ, 2012b).

Uma proposta de falar sobre esporte, principalmente de futebol, não é simples, pelas

inúmeras interpretações de senso comum que buscam deslegitimar o conhecimento analítico do

mesmo. No Brasil, todos falam com propriedade sobre futebol, que é um tema muito caro aos

amantes da modalidade. Encontramos em livros, crônicas em revistas e jornais, debates em

televisão e rádio, rodas de bar e no trabalho, as mais diversas explicações para a paixão, sucesso e

interesses pelo futebol. Esse fato leva ao ponto destacado por Gilberto Velho (1997) e requer

atenção do pesquisador, pois o movimento de estranhar o familiar, de tentar compreendê-lo fora da

cultura de senso comum (GEERTZ, 2012a, p. 80), é desafiador. O fato de gostar de futebol,

torcendo pela parte vermelha da cidade de Pelotas/RS e também da parte vermelha no Rio Grande

do Sul, ajudou em certa medida a desconstruir o conhecimento prévio ou de senso comum que

induz respostas rápidas e simplórias. Esse foi um exercício constante, pois os subsídios de

acompanhar o futebol podiam ser questionados a todo o momento na procura por estranhar o

familiar.

Outro ponto de apoio que favoreceu a investigação foi o fato de que, mesmo vivendo em

uma sociedade complexa onde o fenômeno do futebol pode ser encarado como um fato social total,

minha presença dentro da comunidade de prática dos atletas era de um estranho. Meu personagem

de pesquisador estava carregado de interesses e olhares que me tornavam diferente dos atletas e

profissionais do clube. Minha aceitação se deu paulatinamente, e, se posso dizer, foi de maneira

respeitosa, pois me mantinha às margens, ou na gíria do futebol, “correndo por fora”, o que

possibilitou galgar e achar os espaços em que minha figura já não levantasse suspeita. Ser

reconhecido pelo nome parece algo simples, mas quando o rótulo de professor, estudante e outros,

deixa de ser referenciado e seu nome passa a ser lembrado, simboliza uma mudança, e acredito

então percorrer o caminho correto.

11

http://www.nigs.ufsc.br/

24

Os dados foram analisados com base em diários de campo, entrevistas e observações nos

espaços das duas instituições. Após tabulação, análise do conteúdo e a correlação teórica, os

resultados permitiram as interpretações e entendimentos sobre a formação futebolística.

25

Capítulo 2 – Concentração: futebol, um fenômeno social

No início dos anos 1990, Roberto Helal (1990) constatava que o fenômeno esportivo

adentrava os espaços da sociedade. Sua breve observação, ao embarcar no metrô da cidade de Nova

Iorque (EUA), o fez perceber que a coluna mais lida em vários jornais que os passageiros

consultavam se centrava no caderno de esportes. Esse fato o fez identificar a magnitude que os

eventos esportivos atingiam naquele momento.

No Brasil, a modalidade esportiva de maior evidência e que faz parte de nossa socialização

primária é o futebol. Como bem mostrou Arley Damo (2008), mesmo em tenra idade, o pequeno

infante passa a ser adotado a um clube de futebol, geralmente com o qual a figura paterna simpatiza.

Esse contato tende a se tornar maior ou menor conforme o círculo social do qual faz parte. O

futebol ganha grande representação à medida que invade os espaços sociais, influenciando até

mesmo comportamentos. Segundo Helal (1990), podemos encarar o futebol como um fato social

que:

(...) socialmente construído, que existe fora das consciências individuais de cada um,

mas que se impõe como uma força imperativa capaz de penetrar intensamente no

cotidiano de nossas vidas, influenciando os nossos hábitos e costumes. (HELAL,

1990, p. 14)

As influências são sentidas em implicações construídas historicamente como amarras do

futebol junto à sociedade brasileira, as quais podem ser percebidas no trabalho de José Manoel

Wisnik (2008), que revela estarem imbricadas a produção literária, musical e do futebol com a

construção identitária nacional. Nesse projeto identitário de nação que ocorre durante o século XX,

a relação da política e do futebol é destacada no trabalho de Marcos Guterman (2009),

demonstrando como a modalidade passa a ser colada à imagem do Brasil, país moderno e

multicultural. Outra vertente, agora presente na pesquisa de Roberto DaMatta (1982), descreve a

dramatização do social externada e vivenciada no futebol, que acaba sendo um palco interessante

das tensões sociais ou da supressão momentânea das hierarquias presentes na sociedade. Com esses

breves exemplos, pode-se destacar quanto o futebol, como um fato social total transpassa as

diversas esferas da sociedade, seus estratos sociais e espaços que afetam direta ou indiretamente o

cotidiano das pessoas nos centros urbanos.

O futebol, como representação e identidade do Brasil, vem a reboque da construção de uma

nação. Arraigado à “cultura do brasileiro”, e como prática que possibilita prestígio por meio da

profissionalização, a modalidade esportiva passa a ser procurada como caminho para ascensão e

mobilidade social de estratos com carência econômica. Como fato social total, promove

comportamentos e um tipo ideal de jogador com características técnicas e estéticas aceitáveis para a

modalidade. Essas características são exaltadas em um conhecimento que se pode dizer

comentários (0)
Até o momento nenhum comentário
Seja o primeiro a comentar!
Esta é apenas uma pré-visualização
3 shown on 82 pages
baixar o documento