História secreta da rede globo de televisão em pdf, Manuais, Projetos, Pesquisas de História
artur-ricardo-9
artur-ricardo-9

História secreta da rede globo de televisão em pdf, Manuais, Projetos, Pesquisas de História

183 páginas
50Números de download
1000+Número de visitas
100%de 0 votosNúmero de votos
1Número de comentários
Descrição
O LIVRO NARRA A VERDADEIRA HISTÓRIA DO IMPÉRIO GLOBO DE COMUNICAÇÃO. É UM LIVRO ÓTIMO PARA SE TRABALHAR A PROBLEMÁTICA DO PODER E O MONOPÓLIO NOS MEIOS DE COMUNICAÇÃO NO BRASIL.
90 pontos
Pontos de download necessários para baixar
este documento
Baixar o documento
Pré-visualização3 páginas / 183
Esta é apenas uma pré-visualização
3 mostrados em 183 páginas
Esta é apenas uma pré-visualização
3 mostrados em 183 páginas
Esta é apenas uma pré-visualização
3 mostrados em 183 páginas
Esta é apenas uma pré-visualização
3 mostrados em 183 páginas
(Microsoft Word - Daniel Heiz - A Hist\363ria Secreta da Rede Globo.wbk)

Daniel Heiz

A história secreta da Rede Globo "SIM EU SOU O PODER"

Roberto Marinho

Para Walter, meu pai, que ensinou, A ser rigoroso com a verdade. Para Fernando, meu filho, presença de vida que faz renascer. AGRADECIMENTOS A Jane, companheira de vida, presente em todos os momentos. Aos colegas e companheiros Adelmo Genro Filho, Carlos Muller e Maria Helena Hermosilla de Los Angeles, que ajudaram a encontrar caminhos. Ao colega e companheiro, César Valente, sempre pronto para fazer as coisas acontecerem. Ao professor Homero Simon, pela decisiva ajuda para desvendar os problemas da radiodifusão e pelo exemplo de integridade e disposição de luta por um Brasil melhor. Ao companheiro e editor Tau Golin, cuja insistência amiga levou à publicação deste trabalho. Aos meus alunos e companheiros do Curso de Comunicação da Universidade Federal de Santa Catarina, pela convivência que anima para o trabalho.

“As empresas jornalísticas sofreram, mais talvez do que quaisquer outras, certas injunções, como depressões políticas, acontecimentos militares”. Os prognósticos que estamos fazendo na TV Globo dependem muito da normalidade, da tranqüilidade da vida brasileira. Esses planos podem ser profundamente alterados, se houver um imprevisto qualquer ou advir uma situação que não esteja dentro dos esquemas traçados, como se vê nas operações de guerra "". (Palavras de Roberto Marinho, diretor-presidente das organizações Globo, em 20 de abril de 1966, depondo na Comissão Parlamentar de Inquérito que investigou as ligações entre da Rede Globo e o Grupo Time-Life). “E esta é uma guerra - não é uma guerra quente, mas um episódio da guerra fria”. Entretanto, se perdemos neste episódio, o Brasil deixará de ser um país independente para virar uma colônia, um protetorado. 12 muito mais fácil, muito mais cômodo e muito mais barato, não exigem derramamento de sangue, controlar a opinião pública através dos seus órgãos de divulgação, do que construir bases militares ou financiar tropas de ocupação"". (Palavras de João Calmon, diretor dos Diários Associados), (Deputado federal e presidente da Associação Brasileira das Emissoras de Rádio e Televisão, em 13 de abril de 1966, depondo na Comissão Parlamentar de Inquérito que investigou as ligações entre da Rede Globo e o Grupo Time-Life).

1 DA REDE GLOBO E A NOVA REPUBLICA

"O CHEFE AQUI SOU EU" “A voz cavernosa que eu só conhecia através das televisões agradecendo a prêmios na maioria recebidos artificialmente estava lá”. - Quem era o responsável pelo jornalismo da Rede Globo ontem à tarde? - Pelo jornalismo nacional, Eduardo Simbalista; pelo jornalismo local, eu mesmo, Luís Carlos Cabral. - É com você mesmo que eu quero falar. Você me desobedeceu. Confesso, não é vergonha: a mão tremia. Não era medo do desemprega Era o terror de quem vê desabar sobre si, repentinamente, o próprio Spectro. Jung explica. Mas, sim: a voz era firme. - Dr. Roberto, se desobedeci foi involuntariamente. - Você me desobedeceu. Eu disse que não era para projetar e você passou o dia inteiro projetando, dizendo que o Brizola vai ganhar. Você me desobedeceu. - Mas, Dr. Roberto, eu não podia desobedecer a ordens que não recebi. Projetei segundo a orientação de meus chefes. - E quem são os seus chefes? - Os meus chefes são, pela ordem, Alice Maria, Armando Nogueira e Roberto Irineu. - Eles não são chefes coisa nenhuma. O chefe aqui sou eu e você me desobedeceu. - Bem, Dr. Roberto, não desobedeci. - Vai trabalhando aí que na segunda-feira agente conversa. “Até logo” 1. Este diálogo, travado em novembro de 1982 durante o processo de apuração das eleições, foi relatado pelo jornalista Luís Carlos Cabral, então diretor regional de jornalismo da Rede Globo no Rio. O seu interlocutor de "voz cavernosa" era o Dr. Roberto Marinho, diretor-presidente das organizações Globo. O Dr. Roberto, que é "doutor" unicamente pelo poder que desfruta, nesse momento, descia das alturas do seu cargo e despia-se da postura de estadista que ostenta em público para advertir um funcionário. E o que Roberto Marinho reclamava era o descumprimento de um plano maquiavélico: a divulgação de informações internacionalmente distorcidas sobre o processo de apuração das eleições. 2 Há muitas evidências de que esse comportamento da Rede Globo ocorreu em vários estados, seguindo um plano nacional para fraudar as eleições. Hoje ainda se sabe muito pouco sobre o episódio, mas quando esse momento nebuloso da história do Brasil for inteiramente descoberto, certamente serão revelados contornos ainda mais nítidos de uma face inusitada da Rede Globo: a intervenção política que não se restringe ao campo ideológico e avança para a colaboração ativa num processo de fraude eleitoral. O diálogo do presidente das organizações Globo com seu funcionário revelam mais do que a preocupação de um empresário com a condução de seus negócios. Revela: A determinação com que é manobrada essa fábrica de consciências revela a clareza com que seus proprietários procuram intervir politicamente, revela inequivocamente Uma intencionalidade.

A intervenção pessoal e direta do "Doutor" Roberto Marinho num episódio tão comprometedor como um processo de fraude eleitoral, evidencia um lado. Assim, o ex-diretor regional de jornalismo da Rede Globo no Rio relatou o processo que testemunhou bem de perto: “O papel da Rede Globo de Televisão no Caso Proconsult, nas eleições de 1982, era apenas o de preparar a opinião pública para o que iria acontecer: o roubo, por Moreira Franco, dos votos de Leonel Brizola”. Aliás, dos votos do povo. “Na época, eu era o responsável por todo o jornalismo da emissora no Rio”. O comando da Central Globo de Jornalismo - Armando Nogueira, Alice Maria, Alberico Souza Cruz e Woile Guimarães - estava em São Paulo, dirigindo o programa 'Show das Eleições’. "Quem estava no fogo era eu." E Antônio Henrique Lago, hoje (novembro de 1986) curiosamente envolvido na campanha de Moreira Franco, envolvido em mais uma tentativa de se ganhar as eleições através do amortecimento da opinião pública. Eu da Rede Globo que é invisível para os que se relacionam com essa empresa simplesmente como espectadores. Há algo que só se começa a perceber olhando- se por trás da Rede Globo. A maior parte do que se vê e do que se ouve da Rede Globo só adquire coerência se estivermos atentos para o sentido de tudo o que lá se produz. Há um sentido oculto e sua compreensão só pode ser alcançada quando se tem na mão - usando uma expressão policial - a "folha corrida", o "atestado de antecedentes" da Rede Globo. Analisando estes antecedentes, o papel histórico que vem sendo cumprido por essa que é a maior empresa de comunicação do hemisfério sul, podemos começar a entender o verdadeiro, conteúdo de certa entonação de voz do locutor Cid Moreira no Jornal Nacional, o valor real das inúmeras homenagens que o "Doutor" Roberto está continuamente recebendo, a intenção disfarçada na escolha de uma notícia, o sentido ideológico do comportamento de determinado personagem de uma novela, a significação, enfim, do modo que da Rede Globo quer que seu público perceba a realidade. NOTA DE RODAPÉ: 1 CABRAL, Luis Carlos. O Nacional. Rede de intrigas. Rio de Janeiro. 20-26 nov. 1986. 2 No Rio de Janeiro ficaram a descoberto as duas pontas desse plano de fraude: a tentativa de condicionamento da opinião pública desenvolvida pela Rede Globo e a da manipulação fraudulenta da totalização dos votos pela empresa Proconsult, responsável pela apuração dos resultados. Os registros jornalísticos do episódio não vinculam claramente o estreito relacionamento da atuação da Rede Globo com a manipulação da totalização. Esse tipo de fraude também foi detectado, pelo menos, em outros cinco Estados: Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Alagoas, Pernambuco e Mato Grosso.

O esforço da Rede Globo para garantir a expressão dos interesses de seus proprietários, entretanto, não impede que lá se manifeste uma série de processos difíceis de controlar integralmente, o espírito crítico do jornalista, do radialista, do artista, enfim, dos diversos profissionais que lá trabalham. Sejam por uma questão de mercado, seja pela combatividade dos profissionais, da Rede Globo é obrigada a tolerar, ou mesmo a engolir, certas ocorrências que contrariam a filiação ideológica de seus proprietários. Isso explica porque na Rede Globo passa filmes política e ideologicamente importante. Isso explica porque em certas notícias, ou até mesmo em certas novelas, surjam momentos de contradição. A luta por esses espaços, por mais limitados que sejam, está no horizonte de todos os profissionais dignos e verdadeiramente comprometidos com as maiorias populares. 3.

Todas as oportunidades de lançar lenha na fogueira das contradições devem ser aproveitadas. Mas é preciso reconhecer que, num sentido global aproveitando o trocadilho - o que predomina o que transparece na Rede Globo, é a ideologia das classes dominantes. É hora de lutar para que da Rede Globo seja apercebida sem ingenuidade, sem o respeito do senso-comum. "O povo não é bobo, abaixo a Rede Globo", diz um refrão que se torna cada vez mais freqüente em manifestações de rua, em assembléias de sindicatos, em comícios. Mas a análise crítica da Rede Globo tem que sair do terreno da suspeita, da mera desconfiança de que há interesse em "fazer o povo de bobo". A população tem que ser armada de referências sólidas, tem que ser municiada das certezas do "por que" a Rede Globo deve vir "abaixo". A origem deste livro é uma dissertação de mestrado 4 que abordou o problema da introdução de tecnologias de comunicação no Brasil, apresentada em 1983 à Universidade de Brasília (UNB). A história da implantação da Rede Globo ocupou a metade dessa dissertação e aqui está sendo publicada com poucas alterações. Essa dissertação recusou a mera formalidade acadêmica para afirmar-se também como uma reportagem jornalística. Na análise do processo histórico que envolveu a implantação da Rede Globo, procuramos fazer uma ampla caracterização das forças sociais que controlam os meios eletrônicos de comunicação de massa no Brasil A começar pelas diretrizes da política oficial de radiodifusão 5- rádio e televisão - que garante o predomínio das empresas privado- comerciais. Desde 1964, graças a essa política, a radiodifusão e a imprensa passaram a ser fortemente oligopolizadas, especialmente devido à moderna dinâmica de produção que foi imposta pela Rede Globo. Não se pode abordar o desenvolvimento dos meios de comunicação de massa no Brasil, a partir da década de 60, sem tocar na Rede Globo. Essa Rede, a partir da década de 70, passou a absorver mais de 40%da totalidade das verbas disponíveis no País e desse modo condicionou todo o desenvolvimento dos meios de comunicação de massa. Concluímos que a importância da Rede Globo - desde 1961, quando começou a ser implantada com a intervenção do capital estrangeiro - não só é subdimensionada como também é pouco conhecida. É impressionante a indulgência, a displicência e a irresponsabilidade com que a imprensa - quase sem exceção - e também muitos pesquisadores tratam do processo de implantação da Rede Globo. Concluímos que uma exposição detalhada desse processo é fundamental não só para um melhor entendimento do importante papel que da Rede Globo desempenha atualmente, mas também para entendermos a pressão pela implantação de novas tecnologias de comunicação que está se verificando hoje no Brasil. Da Rede Globo abriu uma fase acelerada de modernização dos sistemas de comunicação de massa, inaugurou práticas empresariais compatíveis com essa modernização e inspirou políticas oficiais que amparam as pretensões privado-comerciais dessas empresas Há muita análise sobre como as empresas. “A comunicação de massa se define como uma forma de comunicação social em que participam massas de pessoas”. Se aplicarmos à análise desta forma de comunicação as posições teóricas e metodológicas adquiridas com relação à comunicação social, de comunicação mediam os interesses do Estado e das classes dominantes. Neste trabalho, estamos insistindo num outro aspecto: como o Estado, gerindo recursos públicos como o espectro de freqüências de rádio e canais de televisão, media os interesses dos donos dos meios de produção, na área de

comunicação. Nosso trabalho procura evidenciar como o Estado é instrumentalizado pelos interesses capitalistas predominantes na radiodifusão. NOTA DE RODAPÉ: Ficava na emissora, em contato direto com a alta direção e Lago praticamente dormia na sala de computação de O Globo. Eram lá que as distorções aconteciam. O método correto de se computar as eleições no Rio é o seguinte: injetam-se dois votos da capital, um voto do interior e um voto da periferia. Essa mecânica permite a formação de um universo correto. Em 1982, como hoje, o processo de alimentação dos computadores era distorcido. Injetava-se, digamos, dois votos do interior, onde Moreira tinha sabida maioria, nenhum voto da Baixada e um da capital. Não posso dizer, embora intuíssemos todos, de quem partiam as ordens para que se trabalhasse assim. Ao Lago foi dito que havia problemas estruturais. O Sistema havia sido mal montado. Tratava-se, enfim, de uma questão de incompetência. A desculpa é logo se verá esfarrapada. Se há alguma coisa competente no Brasil, esta é, reconheça-se, o Globo e a TV Globo. Roberto Marinho sabe fazer o que quer. “Na emissora, eu e os jornalistas que convoquei para me auxiliarem - Mônica Labarth, Cláudio Nogueira, Johnson dos Santos, Renato Kloss”. Profissionais corretos foram ficando assustados. Primeiro, sim, com a incompetência. E depois, com as evidências. De todo lado estourava denúncias de fraudes eleitorais. Começamos a cobrir. Era a brecha do jornalismo. Mas nada pôde ir ao ar. Ordens de cima proibiram que noticiássemos as fraudes. Lembro-me bem de que houve um caso de roubo de urnas em Bangu que não pôde ir ao ar. Tornou-se inútil, desgastante, cobrir. As “proibições, como é evidentes, eram obedecidas”. In: CABRAL, Luis Carlos. Op. cit.3 O jornalista Luís Carlos Cabral, que denunciou publicamente a manipulação de informações pela da Rede Globo nas eleições de 1982, relata uma interessante passagem que mostra a angústia do jornalista diante do dono do veículo: "Nunca contei essa história. Achava que seria trair uma confiança que o Dr. Roberto Marinho depositou, em determinada hora da minha vida, em mim. Bobagem. Comecei a achar que deveria contá-la no dia em que Borjalo, esta figura fantástica, disse que passaria a colaborar em 'O Nacional' no dia que deixássemos de atacar o Dr. Roberto. "_Não vou cuspir no prato em que comi, comentou. “E eu, ali calado, como que acusado, descobri”: "_Eu jamais comi deste prato. Só o alimentei”. In: CABRAL. Luís Carlos, op. cit. 4 HERZ, Daniel. A introdução de novas tecnologias de comunicação no Brasil: Tentativas de implantação do serviço de cabodifusão, um estudo de caso. Brasília, Unb. 1983.751p.

Procuramos, por isso, examinar com detalhe o período de implantação da Rede Globo, que situamos entre 1961 e 1968 e que abre uma nova fase de renovação tecnológica dos meios de comunicação de massa no Brasil Essa análise procura explicar como da Rede Globo chegou ao que é atualmente. No final da década de 70, iniciou um irresistível desenvolvimento dos meios tecnológicos com as aplicações da microeletrônica. O contexto político da implantação de novas tecnologias de comunicação torna-se então muito conturbado até chegarmos a 1987, num momento crítico para o desenvolvimento dos sistemas de comunicação: o Estado está violentamente pressionado para institucionalizar as novas tecnologias sob o controle absoluto dos interesses privado-comerciais, mas - É o que procuramos demonstrar- ainda há condições para se reverter esta tendência, face à natureza singular dos novos recursos tecnológicos e face às contradições que atravessam o Governo e os grupos econômicos dominantes. Este trabalho pretende, por isso tudo, antes de ser uma análise exaustiva, oferecer uma contribuição teórica e política, dentro dos seus limites, para análises que levarão à ação, frente a um processo histórico irresolvido. A documentação referente à implantação da Rede Globo, face à inexistência de registros factuais expressivos na literatura corrente 7 foram detalhados ao máximo os registros desses fatos são escassos e, nas fontes básicas, são confusos e os fatos estão dispersos fragmentados, pouco compreensíveis. Apesar disso, é preciso ressaltar que os documentos que permitem revelar a história da Rede Globo, embora sejam "secretos" para a maioria da população, são acessíveis. É possível reconstituir a história da Rede Globo sem revelações ou descobertas bombásticas A história da Rede Globo pode ser delineada com base em documentos oficiais e com as informações jornalísticas disponíveis. O que faz secreta a história da Rede Globo é, por um lado a desorganização das informações disponíveis e, por outro lado, a falta

de determinação para integrá-las e dar-lhes o destino político necessário através da denúncia pública. NOTA DE RODAPÉ: 5 O termo Radiodifusão, tal como o utilizamos nesse trabalho, é empregado no seu sentido técnico mais geral, abrangendo tanto o rádio com o a televisão. 6 Cabem ressaltar que a natureza coletiva dos processos de comunicação viabilizados pelas tecnologias, especialmente as eletrônicas, é entendida no presente trabalho como um "processo de massa". Por isso usamos repetidas vezes a expressão comunicação de massa' , que aqui tem sentido descritivo e se refere à natureza coletiva do processo de comunicação que envolve as massas. Essa expressão não esconde o caráter de classe de utilização dos meios de comunicação. "Como propriedade e instrumentos de classes determinadas, os meios de comunicação de massas têm caráter de classe. Esse caráter se manifesta, sobretudo fato de que a classe que possui os meios de produção da comunicação determina também seu conteúdo ideológico".(In: ROMANO, Vicente. Estudio preliminar. In: BINSKY, Lothar Critica de la Comunica cl6n de massas. Madrid. Ediciones de la Torre. 1982. p. 16). Teremos como resultado, entre outras coisas, pelo menos as seguintes demandas: - Devemos analisar a comunicação de massa sob uma perspectiva histórico-concreta. Não basta a definição abstrata de seus elementos mais simples. Isto significa também que devemos analisar a comunicação de massa em sua determinação histórico-concreta dentro do sistema monopolista de Estado. - Devemos descobrir de que forma influi o modo de produção capitalista na comunicação de massa. - “Devemos estudar as relações especiais dos atores da comunicação entre si, como relações mediadas por sua posição na praxis social, assim como a determinação dessas relações pelas condições sociais”. (In: BINSKY Lothar op cit. P.65). 7 Algumas exceções são: ALMEIDA FILHO, Hamilton et ali. O Ópio do povo: o sonho e a realidade. São Paulo, Símbolo-Extra. 1976. CAPARELLI, Sérgio. Televisão e capitalismo. Porto Alegre, LPM. 1982.

Optamos por um método de exposição que esperamos ser adequado para a reintegração dos fatos e do processo histórico. Basta olhar as notas de rodapé deste livro para avaliar que, sobre um número relativamente limitado de fontes, fez-se um grande esforço para ordenar, cruzar e relacionar informações que, esperamos, tenha chegado a um resultado satisfatório. Na Parte II, fazemos uma breve síntese do desenvolvimento histórico da radiodifusão no Brasil. Esse projeto, por si só, poderia justificar uma volumosa obra. Mas nosso objetivo foi modesto: optamos por reduzir ao máximo essa síntese, valendo-nos das interpretações do período histórico que já estão praticamente incorporadas ao senso comum das ciências sociais no Brasil. Trata-se de uma síntese curta e densa, que propõe um quadro explicativo para os fatos mais recentes que serão examinados em detalhe. Como não nos movia a intenção de polemizar sobre a história do Brasil, corremos o risco de tomar vários pressupostos e referir apenas as fontes mais evidentes, para não estender em demasia um capítulo que tem objetivos limitados. Destacamos também que esse livro não pretende abranger toda a história da Rede Globo. Concentramos nossa análise no período mais obscuro, que vai de, entendermos que a investigação desse período esclarece aspectos essenciais de "como" foi implantada da Rede Globo e qual a "finalidade" de sua implantação. E essas são respostas imprescindíveis para a correta compreensão, não só do papel histórico da Rede Globo como também do atual estado da radiodifusão brasileira. Para vincularmos mais intensamente o período analisado com a atual conjuntura, apresentamos neste primeiro capítulo um rápido painel ilustrativo da situação da Rede Globo e da radiodifusão com o advento da chamada Nova República. Iniciamos este painel com a caracterização do peso atual da Rede Globo e seu papel nas articulações que levaram à Nova República protagonizada com destaque por Tancredo Neves. Mais adiante, examinamos o significado da indicação, como primeiro ministro das Comunicações da Nova República, do empresário Antônio Carlos Magalhães. E, na última parte, procuramos demonstrar o total

comprometimento da radiodifusão brasileira com os grupos políticos e econômicos predominantes durante as duas décadas de ditadura militar. Finalmente, cabe ressaltar que a técnica de exposição adotada, com a inclusão no texto de citações extensas - ao invés de uma simples caracterização conceitual dos fatos - corre o risco de resultar tediosa, mas, como já dissemos, corresponde à preocupação de documentar solidamente um processo que ainda é pouco divulgado. Se esta base documental tiver alguma. Utilidade na luta pela democratização dos sistemas de comunicação no Brasil pelo avanço dos setores populares em busca do seu controle, então teremos alcançado nosso maior objetivo. A Rede Globo é o centro de um império que abrange mais de quarenta empresas atuando em diversos ramos da economia. Só a Rede Globo - que inclui sete emissoras totalmente de sua propriedade, seis emissoras de propriedade parcial e 36 emissoras afiladas - tem uma receita anual estimada em US$ 500 milhões e um valor patrimonial em US$ 1 bilhão8. Com seus 12 mil funcionários - 1500 dos quais dedicados à produção de quase três horas diárias de ficção - a Rede Globo produz cerca de 80% dos seus próprios programas, sendo a quarta maior rede privada de televisão do mundo, só atrás das três gigantes norte-americanas (CBS, NCB e ABC)9. Na área da comunicação de massa, além dos ramos de televisão, as Organizações Globo envolvem pelo menos 18 emissoras de rádio AM e FM, o segundo maior diário do país, duas editoras de revistas e livros, produtora de vídeo, distribuidora de fitas videocassete, três gravadoras, produtoras de serviços para publicidade, entre outras empresas 10. O grupo econômico encabeçado por Roberto Marinho inclui ainda empresas envolvidas em diversos outros ramos: indústria de bicicletas, indústria eletrônica, indústria de telecomunicações, negócios imobiliários, agricultura e pecuária - destacando-se fazendas na Amazônia -, mineração, distribuidoras de títulos e valores, entre outras atividades econômicas 11. A Rede Globo absorve dois terços das verbas publicitárias distribuídas à televisão e tem urna audiência potencial de 80 milhões de telespectadores, abrangendo 98%do território nacional. Só o Jornal Nacional, noticiário das 20 horas tem uma audiência de mais de 50 milhões de telespectadores. Admitindo que a expansão na área de televisão no mercado interno "quase não é mais possível"12, como afirma Roberto Irineu, filho de Roberto Marinho e vice- presidente da empresa, a Rede Globo está se voltando para o mercado externo. Em 1986 a receita com exportação foi estimada em cerca de US $ 15 milhões' 3. Essa receita, ainda pode ser considerada pequena, e não revela o alcance da estratégia da Rede Globo para conquistar o mercado externo. Por enquanto, da Rede Globo procura marcar presença no maior número possível de países: na sede do império, junto ao Jardim Botânico, no Rio de Janeiro, há uma foto mostrando um globo terrestre com a inscrição "168 países", ao lado, sob um logotipo da Rede Globo, há outra inscrição que indica "128 países" l4• A penetração da Rede Globo no mercado externo começou a ser expressiva com a novela "Bem Amado", em 1977, exportada para Portugal e, dublada em espanhol, para alguns países da América Latina. Nesse ano, a receita de exportação foi de US $300 mil. "Hoje da Rede Globo detém quase 20%dos programas de televisão nos países latino-americanos e em Portugal"15 conforme explica Marina Feital, gerente de Administração e Vendas da Divisão Internacional, responsável pelas negociações com a América Latina, Estados Unidos, Portugal e Angola:

"Para entrar e ganhar este mercado tivemos de enfrentar a Televisa (televisão mexicana), que produz 26 horas diárias de programas em espanhol de nível menos elaborado que os nossos. Ainda assim, conseguimos vender nossos programas, mesmo novelas, sobretudo - adicionando os custos da dublagem - 50%abaixo dos preços da Televisa. Como? Usando o que chamei de 'estratégia da droga': você praticamente dá, espera o sucesso e depois vende pelo melhor preço. Igual ao que se lê nos jornais que fazem com a cocaína" 16• A Rede Globo preferiu não insistir, nessa fase, no mercado norte-americano, que exige enormes investimentos, lá marcando presença apenas através de emissoras de língua latina. Os maiores investimentos da Rede Globo estão sendo canalizados para a Europa, um mercado que Roberto Irineu reconhece ser "sem regras fixas"17 e onde se verifica uma expansão dos sistemas privados em detrimento dos estatais. Na França, por exemplo, o mercado ainda é considerado pequeno e gira em torno de US$ 250 milhões por ano. Na Itália, outro exemplo, que já dispõe de televisão privada há dez anos, movimenta-se cerca de US$ 1 bilhão anuais18. Foi justamente na Itália que da Rede Globo iniciou a invasão da Europa, adquirindo em 1985 a TV Monte Carlo. Foi um negócio de oportunidade, apadrinhado pelos democrata-cristãos, que bancaram a venda para atingir o gigante da comunicação italiana Berlusconi, tido como ligado aos socialistas: "A RAI estatal vendeu a TV Monte Carlo aos brasileiros e ainda participa dela com 1 0%.Da Rede Globo deverá constituir contrapeso diante do amigo do socialismo Berlusconi (...) que cresceu graças à sua amizade com o 'Premier' socialista Betino Craxi.19 A estratégia da Rede Globo na Itália é ambiciosa. "Em três anos, da Rede Globo pretende ter conquistado 10%do mercado italiano a partir de Monte Carlo. Por um convênio com três emissoras locais e pela construção de 36 estações de retransmissão, os brasileiros já teceram a sua rede em torno da área que vai do limite dos Alpes até a ponta da Sicília. Durante o campeonato mundial de futebol, 21,8%dos italianos acompanharam a bola via Rede Globo. A concorrência respondeu com sabotagem através de interferências e por meio de advogados. Já em novembro (de 1985), o gigante de comunicação italiana Berlusconi chamou da Rede Globo perante a justiça, como fim de conseguir seu fechamento. 'E uma bomba atômica, com que se pretende destruir-nos', queixa-se Dionísio Poli, o vice- presidente para a Europa"20. Para conquistar o mercado europeu da Rede Globo já tem uma estratégia delineada, como revelou o filho de Roberto Marinho à revista alemã Derspiegel: “Nos próximos cinco anos, haverá um ‘boom’ na Europa, profetiza Roberto Irineu Marinho”. O chefe-júnior da Rede Globo já dispõe de uma estratégia para assegurar para si uma boa parte do negócio. Em primeiro lugar, se negociará em tomo da compra da emissora francesa de Monte Cano. Na República Federal da Alemanha são travados os primeiros contatos - possivelmente também seremos 'presenteados' algum dia com os programas da Rede Globo. Antes de tudo, os brasileiros pretendem produzir programas na Europa, em inglês, pois só então terão acesso ao mercado dos Estados Unidos. “‘Só dois ou três nomes grandes dominarão, dentro de alguns anos, o mercado privado de TV na Europa’, diz o herdeiro de Marinho, Irineu”. 'Um deles será Berlusconi, outro talvez RTL-Luxemburgo... ' Da Rede Globo quer participar de um desses grupos, até editoras alemãs entram em cogitação como parceiros. Nem pretendemos que da Rede Globo tenha maioria diante desses parceiros', assegura

Roberto Irineu, 'a participação com 80% na TV Monte Carlo é puro acaso'. A história da Rede Globo parece seguir, porém, outra meta: Engolir, o que é possível engolir”21”. NOTA DE RODAPÉ: COSTA, Alcir Henrique; SIMÕES, Inimá Ferreira; KEHL, Maria Rita. Ur2 país no ar - História da TV Brasileira em 3 canais São Paulo, Brasiliense, 198. 8 GLOBO. 'Times' destacam sucesso da TV Globo e direção de Roberto Marinho. Rio, L3jan. 1987. P.5. ISTO É O fazedor de reis. São Paulo, n. 416. 12 dez. 1984, p.22. 9 BIZINUVER, Ana Lúcia. Status. Globo for export. São Paulo.jan. 1985. P.47. 10 DER SPIEGEL. Schucken was man Schulucken kaan. Hamburg, n. 38. 15 set. 1986. p.25 3. (Tradução de Arthur Kanitz). 11 DER SPIEGEL, op. Cit. E Globo. 'Times destaca... 29 DER SPIEGEL, op. cit. p. 259. 13 BIZINOVER, op. cit p.5O. 14 DER SPIEGEL, op. cit. p. 253. 15 BIZINOVER, op. cit. P.48 16 Ibidem. 17 DER SPIEGEL, op. cit. P. 259. 18 Ibidem. 19 Ibidem. 20 Ibidem A base desse império que espalha sua influência por todo o planeta, continua sendo a Rede Globo, com seus 70 a 80%de audiência. Boa parte da força política e econômica da Rede Globo vem do contato que tem, diariamente, com mais de 50 milhões de brasileiros, através do Jornal Nacional, cuja produção é fiscalizada diariamente por Roberto Marinho, como conta o jornalista Alain Riding, do 'New York Times': “Todos os dias da semana”, às 19h55min, pelo menos 50 milhões de brasileiros espalhados por este imenso território, incluindo um homem de 82 anos de idade - elegantemente vestido, com um telefone ao seu lado - assistem às notícias diárias escolhidas, interpretadas e transmitidas pela TV Globo, a maior rede de televisão do País. "Como único proprietário da Rede, o homem ao telefone, Roberto Marinho, assiste ao noticiário com especial atenção. Após os 30 minutos de transmissão, o Senhor Marinho, invariavelmente, telefona para a redação e faz comentários, sugestões e críticas"22. " 'Nós fornecemos todas as informações necessárias, mas nossas opiniões são de uma maneira ou de outra, dependentes do meu caráter, das minhas convicções e do meu patriotismo. Eu assumo a responsabilidade sobre todas as coisas que conduzo', disse Roberto Marinho"23. E são mais de 50 milhões de brasileiros que, diariamente, depende do crivo (do "caráter", das "convicções", do "patriotismo") do"Doutor" Roberto Marinho. Nessa reportagem, o "Times" destaca que, "com índices de audiência entre 70 e 80%, a TV Globo é hoje, claramente, um centro-chave de poder"': Eu uso esse poder', confessou o empresário ao jornal norte-americano, 'mas sempre de maneira patriótica, _tentai'4p corrigir as coisas, procurando caminhos para o país e seus estados. Nós gostaríamos de ter poder suficiente para consertar tudo o que não funciona no Brasil. A isso dedicamos todas as nossas forças‘24. É significativo, e assustador, que o homem mais poderoso do país admita que dedique "todas as suas forças" para manter e ampliar esse poder.

NOTA DE RODAPÉ: 21 Ibidem. 22 “É evidente que, apesar de ser excelente repórter, o correspondente Alain Riding deixou-se levar pelas palavras do empresário”. Na verdade, 'nunca' o empresário telefona para a redação logo após o noticiário, mesmo porque assim que o 'Jornal Nacional' acaba, a redação se esvazia rapidamente. Vão todos reunir-se em outro andar do prédio. O que o Senhor Marinho costuma fazer é ligar para alguns de seus ajudantes de confiança mais imediata - Armando Nogueira ou Alice Maria, por exemplo, que dirigem o departamento de jornalismo. - Para comentários que “muito raramente são elogiosos”. In: NEPOMUCENO, Eric. O Nacional. E o Dr. Roberto falou. Rio, n. 1. 15-21 jan. 1987. P.9. 23 GLOBO. 'Times 'destaca... Op. cit

Como exemplo desse exercício de poder, o "Times" cita o antagonismo de Roberto Marinho como governador do Rio, Leonel Brizola: “Num determinado momento, eu me convenci de que o Sr. Leonel Brizola era um mau governador’, afirmou o empresário”. 'Ele transformou a Cidade Maravilhosa num pátio de mendigos e marginais. Passei a considerar o Brizola perigoso e lutei, realmente usei todas as minhas possibilidades para derrotá-lo nas eleições. “Alain Riding diz, no texto, que o empresário de fala mansa não vê nada de mal nessa intervenção, que em diferentes ocasiões incluiu ‘a promoção ou o ataque a políticos ou assuntos’”. "'Usar o poder para perturbar um país, para destruir seus costumes, é algo ruim', analisa o empresário. 'Mas usar o poder para impulsar coisas, como eu faço, é algo bom. Eu não acredito que isso vá ocupar muito as atenções da Constituinte"'25. O poder da Rede Globo, administrado por Roberto Marinho, é usado indiscriminadamente, de acordo com seus mais privados e imediatos interesses políticos e econômicos, como analisa a revista Senhor: "As Organizações Globo continuam fazendo, hoje, o que fazem, com breves interrupções, há 61 anos, desde que o jovem Marinho herdou prematuramente o jornal de seu pai - isto é, manter-se próximo do poder. Faz isso mesmo correndo riscos (.)". NOTA DE RODAPÉ: 24 NEPOMUCENO, op. cit. 25 "O empresário Roberto Marinho certamente não contou ao jornalista Alain Riding que, na da Rede Globo, houve um determinado dia - lá por setembro de 1983 - em que se mandou suprimir a palavra "somozista" dos noticiários, quando se fizesse referências aos somozistas. E que não se pode dizer 'regime militar do general Pinochet', deve-se dizer 'governo militar do presidente Pinochet'. E que em política nacional, as regras são muito mais restritas. Durante muitos meses, até mesmo nos telejornais locais, o governador Brizola não podia aparecer. Depois, podia aparecer, mas não podia falar. Ou seja, ficava o governador do Estado mastigando no ar enquanto um dos locutores contava o que ele tinha dito: 'Depois. o governador declarou.., sobre esse assunto, disse o governador...' E o governador lá. mudo, abrindo aboca feito peixe". In: Ibidem. “(.)A esta altura, fica difícil saber quem deve mais favores a quem, se Sarney à Rede Globo, ou se a Rede Globo ao Presidente da República”. Deve haver, de qualquer modo, um fundo de sinceridade na defesa do Cruzado, a defesa que faria o pai de seu rebento desviado. A ponte avançada da Rede Globo no Festival Cruzado 1 instalou-se, com duas semanas de antecedência, no hotel Carlton, em Brasília, de onde se descortina sintomaticamente a Esplanada dos Ministérios. Ali Jorge Serpa, amigo do peito do comandante, ex-jornalista, ex-diretor financeiro da Mammesmann,

preparou a propaganda pela TV. O homem da Rede Globo ficou sabendo do sigilosíssimo choque heterodoxo com dias de antecedência em relação, por exemplo, ao principal articulador político do governo, o ministro Marco Maciel. "A conexão política-negócios não nasceu no Brasil, não é de hoje e não vem a ser uma estrada pela qual só trafeguem as Organizações Globo. Mas, no caso do Dr. Roberto Marinho, a conexão dá certo há décadas, e não é ocasional o fato de que 'o general civil das comunicações' - bajulação de um de seus subordinados, o colunista Ibrahim Sued - tenha deslanchado seu poderio sob a ditadura militar. (...) A república fardada se foi, veio a nova, pelas mãos de Tancredo Neves, mas o Dr. Roberto manteve-se na crista dos acontecimentos fundamentais da Nação. "(...) Pode-se alegar que, ao informar que a Petrobrás está prestes a achar um poço mirabolante na Amazônia, os noticiosos do jornalista Roberto Marinho ajudam a propiciar ganhos especulativos para a Distribuidora Roma, de títulos e valores, da qual o empresário Roberto Marinho é dono. Vale ouro a informação, sobretudo num mercado financeiro onde "quem tem caixa faz a festa", como comenta um corretor paulista. O Dr. Roberto tem informação e tem caixa. Se existe algum melindre entre o papel público de quem noticia e o lucro privado de quem especula, esse melindre não é, com certeza, um problema para o Dr. Roberto. “(...) Da parte do ‘general civil das comunicações’, a folha corrida insinua uma vocação monopolística e põe em dúvida seu credo pretensamente democrático”. Os 22 anos da Rede Globo, sua mais formidável obra, são uma história de virtuosismo técnico, sucesso comercial e má fé política. O homem que insiste em se dizer jornalista expurgou de seus jornais impressos e televisivos, fatos que o incomodavam e personagens por quem não nutria simpatias, reescrevendo as notícias como se fosse possível reescrever a realidade (...). “Os jornais que o Dr. Roberto põe no ar ou bota à venda desconheceram a campanha das diretas até o penúltimo comício, quando milhões de pessoas já tinham saído às ruas (a primeira manifestação em São Paulo), dia 25 de janeiro” de 1984, foi noticiada como 'festa de aniversário da cidade') e quando as multidões já tinham até um estribilho para saudar a omissão da Rede Globo. "(...) Nos anos da ditadura, os jornais do Dr. Roberto chamavam Médici de democrata, negavam a tortura e expurgavam dom Paulo Arns e dom Hélder Câmara. Nos tempos da Nova República, o chefão, pessoalmente, desce ao Departamento de Pessoal com a demissão dos funcionários graduados que haviam aderido à greve geral do dia 12 de dezembro (de 1986) - ante a oposição meio constrangida de outros diretores"26. "Sim eu uso o poder"27, admitiram publicamente o presidente das Organizações Globo nos primeiros dias de 1987, ano em que ele - associado com o banqueiro Amador Aguiar, dono do maior banco privado nacional pretende passar a controlar telecomunicações via satélite no Brasil28. No cenário da Nova República, parece não haver, de parte do dono da Rede Globo, mais limites para a sede de poder e o apetite por vantagens e favores. A existência da Rede Globo parece seguir uma regra tão simples, quanto aterradora, como observou a revista alemã Der Spiegel: "engolir, tudo o que é possível engolir"29. A origem deste desmesurado poder de Roberto Marinho, obtido através da sua Rede Globo, é o objeto deste livro. E o modo pelo qual este poder é exercido é o que veremos nas próximas páginas deste capítulo.

NA REVISÃO DA ESTRATÉGIA, MARINHO CERCA TANCREDO. Uma das decisivas manifestações do empresário Roberto Marinho diante do quadro da sucessão do general Figueiredo ocorreu no início de 1984, como revela a revista Isto Ë “Logo depois do ano novo”, num telefonema protocolar ao amigo de quarenta anos, embaixador Luiz Gonzaga do Nascimento e Silva, que serve, em Paris há cinco anos, o Dr. Roberto contou, com voz determinada como nos anos 60, quando apoiou Jânio Quadros ou conspirou para derrubar o governo presidencialista de João Goulart, que iria 'apoiar Aureliano Chaves, mesmo sabendo dos riscos sobre os meus interesses30. Roberto Marinho não fazia essa confissão a um estranho. Luiz Gonzaga do Nascimento e Silva era um confidente perfeitamente integrado à trajetória política e empresarial de Marinha Figura extremamente ativa no movimento que conduziu o golpe de 1964, Nascimento e Silva foi um destacado militante do Instituto de Pesquisas Econômicas e Sociais (IPES) que, na preparação do golpe, funcionaram como um verdadeiro partido político dos empresários nacionais e multinacionais, reunindo também parlamentares, militares e intelectuais. Luiz Gonzaga do Nascimento e Silva - ministro e colaborador assíduo dos governos pós-64 - foi também o advogado que representou os interesses de Roberto Marinho na assinatura dos contratos entre as organizações Globo e p grupo norte-americano Time-Life, estabelecendo um vínculo inconstitucional que iniciou em 1961 e assegurou da Rede Globo o impulso financeiro, técnico e administrativo para alcançar o poderio que tem hoje. O esgotamento do regime militar levou a que os outros conservadores que participaram do Golpe de 64 se reaglutinassem em busca de uma "saída civilizada", procurando alternativas para a sucessão do general Figueiredo. Perseguiam um processo de conciliação, temendo que o continuísmo puro e simples levasse as contradições a um ponto de ruptura. A conversa entre Roberto Marinho e Nascimento e Silva revelava o nome escolhido para deflagrar a conciliação: Aureliano Chaves. A evolução do quadro político com o crescimento da campanha das Diretas-Já3' e a afirmação do radicalismo continuísta de setores das Forças Armadas, do PDS e do empresariado, exigiu uma revisão de estratégia. A conclusão de que não era mais possível enfrentar a máquina do continuísmo radical fez com que os setores conservadores que pregavam a conciliação passassem a apoiar as Diretas-Já. Foi neste momento que a Rede Globo evoluiu, subitamente, do silêncio completo a uma grande cobertura do movimento das Diretas. Essa mudança no comportamento da Rede Globo, portanto, não pode ser creditada apenas ao crescimento avassalador do movimento das Diretas ou mesmo ao apedrejamento de viaturas da emissora e vaias de populares a repórteres em serviço, como passou a ocorrer capacidade da Rede Globo para enfrentar os movimentos populares, aliás, já fora amplamente comprovada na cobertura militante - evidentemente a favor das grandes empresas - que sempre deu aos movimentos operários do ABC paulista. E também quando da Rede Globo teve um papel decisivo na montagem do quadro nacional de fraude eleitoral em 1982. Não se pode precisar exatamente a estratégia das forças conservadoras que buscavam a conciliação. Mas, com certeza, as eleições diretas seriam uma alternativa diante do confronto com o continuísmo radical, sintetizado pelo ex- governador de São Paulo, Paulo Salim Maluf, que tinha como maior instrumento de luta a manipulação do Colégio Eleitoral. Por outro lado, o apoio às Diretas também

constituía um fator de barganha para uma conciliação que deveria se processar através do canal seguro do próprio Colégio Eleitoral. A emenda Dante de Oliveira, que reinstituiria as eleições diretas, foi derrotada. Mas tudo estava correndo dentro do previsto. A luta pelas Diretas e a luta pela conciliação eram controladas por relógios diferentes. A luta pelas Diretas, após a derrota de Dante de Oliveira, foi imediatamente abandonada pelas forças conservadoras. As Diretas-Já tinham, para essas forças, um valor apenas simbólico, ainda que importantíssimo para a legitimação da conciliação que entrava em seu momento decisivo. Embora houvesse tempo e condições institucionais para continuar a luta pelas Diretas, a partir da derrota da emenda Dante de Oliveira, gerou-se a impressão pública de que a conciliação teria inevitavelmente de processar-se através do canal estável do Colégio Eleitoral. Por isso tudo, o nome do situacionista dissidente, Aureliano Chaves, passou a ser impróprio para sintetizar a conciliação, Era preciso um nome que atraísse as oposições para a raia, repudiada nacionalmente, do Colégio Eleitoral. Nesse contexto, não foi difícil fazer a conciliação pender para o lado 'de Tancredo Neves, justamente o grande líder do Partido Popular -(o PP criado no início do governo Figueiredo para ser uma alternativa de transição civil e sem rupturas para a sucessão). O PP, que praticamente se apossou do PMDB no processo de fusão dos dois partidos e que foi o grande vitorioso - embora já extinto - nas eleições de 82, finalmente cumpriu o seu maior destino. Consciente disso, na própria campanha das Diretas, Tancredo Neves emitia mensagens cifradas para os articuladores da conciliação, lembrando sempre (muitas vezes enfrentando vaias) que havia "tempo certo" para essa luta. A montagem da conciliação teve de enfrentar uma lógica óbvia: se era possível aglutinar forças para vencer no Colégio Eleitoral, também, era possível reunir forças para desmanchar o Colégio. Para enfrentar essa lógica, politicamente inconveniente, foi preciso deflagrar no país o temor da vitória do continuísmo radical no Colégio. Os meios de comunicação contribuíram decisivamente para injetar na população o medo de que a conciliação não se processaria senão através do Colégio Eleitoral. O Colégio foi então definitivamente legitimado. E legitimar o Colégio significava legitima o nome de Tancredo Neves para conduzir a conciliação. A aproximação entre Tancredo Neves e Roberto Marinho era imprescindível nesse quadro, pois a conciliação deveria ser convenientemente veiculada nos meios de comunicação. O dois, segundo revela a revista Isto Ë, "se aproximaram definitivamente em março passado (1984), quando Tancredo jantou no casarão de Marinho, no Cosme Velho, um dos pontos nobres do Rio. A iniciativa foi do Dr. Roberto e o tema da longa conversa foi à resolução do anfitrião de apoiar a alternância mesmo que o candidato fosse o convidado, no caso de um eventual esvaziamento da candidatura do vice Aureliano Chaves"32. A candidatura de Aureliano, naquela oportunidade, já era tida como inviável. A aliança "democrática" entre Tancredo e Roberto Marinho não foi isenta de tensões, tendo o empresário promovido evidentes demonstrações de força. Essa tensão, como revela a mesma reportagem de Isto Ë, “foi detectada na noite” de 18 de outubro (de 1984) por alguns viajantes tancredistas numa caravana de 105 poderosos empresários, o Dr. Roberto entre eles, que foram passar três dias na região de Carajás, num programa de reconhecimento organizado pela companhia Vaie do Rio Doce e pelo presidente do Grupo Bradesco, Antônio Carlos de Almeida Braga.

NOTA DE RODAPÉ: 26 SENHOR. O atacado do Globo. São Paulo. N. 306. 27 jan. 1987. P.44-S. 27 O ESTADO DE SÃO PAULO. "Globo" e o poder, nos EUA. São Paulo. Op. cit. 1987. P. 9. 28 SENHOR. O atacado do Senhor Globo. Op. cit. P.45. E CHACEL, Cristina. Jornal do Brasil. Engenheiro teme Embratel privatizada. Rio, l8jan. 1987. P. 31. 29 DERSPIEGEL, op. cit. p 259. 30 ISTO É.O Fazedor de Reis op. cit. P.19. 31 A campanha das Diretas-Já defendia a imediata realização de eleições diretas para a presidência da república, o que seria constitucionalmente permitido com a aprovação da emenda apresentada pelo deputado Dante de Oliveira(PMDB-MT). 32 ISTO É. O Fazedor de Reis. Op. cit. -p. 2O.

Desde a partida do Rio, viu-se que Marinho estava chateado. Com muito tato, Márcio Fortes, herdeiro e principal executivo da construtora João Fortes, conversou e desconversou, ajudado pelo também tancredista Sérgio Quintella, do Grupo Montreal, até que na noite seguinte, uma sexta-feira, descobriram que o Dr. Roberto estava determinado a romper com o candidato das oposições - e já tinha mesmo escrito o editorial definitivo para ser publicado na segunda-feira seguinte. O motivo era a confraternização de Tancredo com um desafeto do Dr. Roberto - que adicionalmente é inidôneo (o nome qualificado por Isto 12 como 'inidôneo' é o do jornalista Hélio Fernandes)33. O telefone não parou de tocar entre o Pará, Brasília e Rio, até que o candidato concordou em se apresentar e dar explicações, em pleno domingo, tão logo o grupo pousou de volta no Rio. O editorial foi cancelado e a Aliança Democrática sobreviveu ao abalo, mas o Dr. Roberto também cristalizou sua disposição para ficar ao largo do situacionismo”34”. Desfrutando de um poder capaz de fazer o presidente Tancredo Neves justificar seus passos políticos e mesmo suas relações pessoais - sob a ameaça de lançar contra ele toda a força das organizações Globo - não é difícil entender como Roberto Marinho fechou o cerco sobre Tancredo assegurando, inclusive, que o Ministro das Comunicações fosse pessoa de sua confiança. E nem causa estranheza que, no dia de sua eleição pelo Colégio Eleitoral, tenha sido com o empresário Roberto Marinho que Tancredo almoçou festivamente. ANTÔNIO CARLOS MAGALHÃES: UM ALIADO IMPRESCINDÍVEL Aliaras oposições históricas e o setor conservador em torno da candidatura Tancredo Neves através do Colégio Eleitoral exigiu muito esforço. “Não há dúvida, porém de que o maior esforço desse trabalho de conciliação foi orientado para’ ‘ganhar” os conservadores: atrair os dissidentes e neutralizar o continuísmo radical35. Muito cedo, no PDS, surgiu a certeza de que a indicação de Paulo Maluf para a disputa no Colégio era inevitável. Logo ficou claro que o outro nome do PDS, o do Ministro do Interior Mário Andreazza, tido como candidato do General Figueiredo, não teria chance na disputa com Maluf. Desde o começo de 1983, um dos "andreazzistas" mais expressivos. Antônio Carlos Magalhães, já mantinha entendimentos com Tancredo Neves. No dia 14 de junho de 1984, Tancredo encontrou-se com Andreazza, sob o patrocínio de Magalhães, como revela a revista Veja:

"Logo que chegaram ao apartamento 801 do Edifício Golden State, entre os postos dois e três (Avenida Atlântica, Rio de Janeiro), Andreazza e Antônio Carlos foram conduzidos por Tancredo até a varanda de sempre e, reanimados apenas por xícaras de café, mergulharam numa conversa que durou até as duas da madrugada. Andreazza foi claro. Figueiredo, disse, não o estava apoiando em sua campanha. Se ele pudesse anunciar ao presidente que teria, no Colégio Eleitoral, os votos controlados por Tancredo no PMDB, talvez conseguisse tirá-lo de sua apatia. Tancredo podia ajudar? O então governador (de Minas Gerais) disse que sim - certo de que Andreazza não tinha mais chances e que, ao apoiá-lo, estava adquirindo o direito de cobrar, mais tarde, a mesma simpatia (a reunião ocorreu na madrugada do dia 15 de junho de 1984)." "A certo momento Andreazza levantou-se para ir ao banheiro. Rapidamente, Tancredo sussurrou para Antônio Carlos: 'Precisamos conversar sozinhos? ' Pode ser?". Podia. A conversa com Andreazza encerrou-se cordialmente e, dias depois, Tancredo e Antônio Carlos voltaram a encontrar-se - pela manhã e sempre no Edifício Golden State. “Se o Maluf ganhar a convenção do PDS, a Bahia me apóia”? - indagou Tancredo Neves. “- Sim - devolveu Antônio Carlos na hora - Mas só se o Maluf ganhar”. Se der Andreazza na convenção, vou com ele até o fim. "- Então eu vou começar a pensar sério em renunciar ao governo do Estado - encerrou Tancredo"36. A costura desse acordo com Andreazza e Magalhães rendeu a Tancredo, após a vitória de Maluf na convenção do PDS, o discreto apoio do primeiro e a militância engajada do segundo. O jornalista Villas-Bôas Corrêa conta a evolução deste acordo, logo após a derrota de Andreazza na convenção do PDS: “No dia seguinte (à convenção do PDS), 12 de agosto, a festiva Convenção do PMDB, no embalo da vitória já desenhada, consagraram a chapa Tancredo Neves - José Sarney”. E nesta mesma noite, às 22 horas, o candidato Tancredo Neves esteve discretamente na casa do Embaixador Paulo Tarso Flecha de Lima, onde Antônio Carlos se hospeda em Brasília A conversa foi aberta e conclusiva. Antônio Carlos jogou na mesa o seu cacife político que liquidava a fatura. Entendido com o Governador João Durval, da Bahia, controlava 15 dos 25 deputados do PDS baiano. Mais quatro estavam comprometidos com a Frente Liberal. “A conversa não acabou aí”. Antônio Carlos recordou o sabido, desfilando os seus problemas estaduais. A Bahia ou é perdidamente a favor ou encarniçadamente hostil à sua liderança. Ele necessitava de uma posição federal até para sair do Estado e não entrar em atrito com o seu aliado Governador. À hora era de efusão propícia. Colou na amabilidade bem administrada de Tancredo: "Você será, no meu Governo, ministro do que quiser"37. Lutando por fora do processo de conciliação, os setores engajados no continuísmo radical chegaram a patrocinar um clima de golpe militar- de sustentação duvidosa - mas que também se mostrava muito útil para legitimar e robustecer as manobras conciliatórias. Esse contexto levou a que mesmo os setores que se apresentavam como progressistas afirmassem a necessidade e a inevitabilidade da conciliação. A "questão militar" gerada pelo continuísmo radical levou Tancredo Neves a buscar uma base de apoio nas Forças Armadas, alargando cada vez mais as concessões.

Essa tensão foi finalmente dissipada no dia 20 de novembro de 1984, com a reunião do Alto Comando do Exército que decidiu o afastamento do general Newton Cruz do Comando Militar do Planalto, uma das figuras centrais das articulações golpistas38. A resolução da "questão militar", entretanto, começou a ser definida um pouco antes, no confronto de Antônio Carlos Magalhães com o ministro da Aeronáutica, Délio Jardim de Mattos. O general Figueiredo estava desesperado com a migração dos "andreazzistas" derrotados na convenção do PDS. No dia 4 de setembro, como revela a revista Veja, ocorreu a “inauguração das novas instalações do Aeroporto Dois de Julho, em Salvador, quando o ministro Délio Jardim de Mattos teve a idéia fatídica de”, agredir Antônio Carlos em sua casa, e no dia de seu aniversário. O torpedo que levou de volta acabou de vez com a candidatura Maluf e com qualquer autoridade que o governo ainda pretendesse ter sobre a sucessão. “Desde a véspera, Antônio Carlos sabia que Délio vinha a Salvador para fazer um discurso duro contra os dissidentes do PDS, e ficou prevenido”. Ele soube, também, que, no jato que conduzia a comitiva de Brasília a Salvador, Délio mostrara dois textos de seu discurso a Figueiredo - e o presidente escolheu o mais duro. Seja como for, ele estava decidido: iria responder aos ataques na hora, e no mesmo tom. “Délio iniciou sua catilinária às 10h l5min da manhã, reprovando os traidores”. Às 1lh l0min uma cópia do discurso, levada de carro do aeroporto até o apartamento de Antônio Carlos no bairro da Graça por um emissário previamente destacado para a missão, aportava às mãos do ex-governador. Às 12h30mín ele pediu licença aos amigos que lotavam o seu apartamento para cumprimentá-lo pelo aniversário, trancou-se em seu escritório e, em quinze minutos, escreveu à mão e num jato só sua resposta a Délio. A frase central, repetida depois brutalmente na 1V (e com especial destaque na Rede Globo), ficaria como uma marca feita a ferro na sucessão: “-Traidor é ele, que apóia um corrupto”. 'Pela primeira vez em vinte anos, alguém falava neste tom a um ministro militar. Todo o medo de 'vetos militares' à candidatura Tancredo evaporou-se, e outros dissidentes encheram-se de coragem para agir. A cortina final acabava de baixar sobre a candidatura Paulo Maluf’ 39. Magalhães, assim, teve atuação destacada para atrair os dissidentes do PDS para a candidatura de Tancredo no Colégio Eleitoral. O ex-governador da Bahia, elevado à condição de herói nacional pelo fulminante ataque a Maluf, passou a ser figura de sustentação da própria Aliança Democrática. Na eleição do presidente da Câmara Federal, por exemplo, a situação complicou-se para Tancredo quando o deputado Alencar Furtado resolveu levar à frente sua candidatura, enfrentando Ullisses Guimarães. Nesse episódio, em que Ulisses venceu por uma estreita margem de votos, Magalhães novamente deu importante contribuição. Para enfrentar os votos do PDS malufista e de muitos pedetistas, petistas e peemedebistas, Magalhães mobilizou os votos dos dissidentes do PDS com seu velho estilo: solicitações, pressões e até mesmo ameaças. Tancredo saberia demonstrar seu reconhecimento. Na época da disputa da presidência da Câmara, em março de 1985, diante de um documento assinado por 180 parlamentares do PMDB que defendiam a indicação do deputado Freitas Nobre para o Ministério das Comunicações e que se posicionavam contra Antônio Carlos Magalhães, Tancredo arrematou uma pergunta embaraçosa: " Quantos desses votam em Ulisses?"40.

Para driblar constrangimentos desse tipo, Tancredo omitiu a composição do seu Ministério até ás vésperas da sua posse. Mesmo assim, as pressões por um ou outro nome persistiam. No dia 6 de março de 1985, Tancredo recebeu o senador Severo Gomes (PMDB-SP), os Deputados Odion Salmória (PMDBSC) e Cristina Tavares (PMDB-PE) e representantes dos setores de comunicação e informática. Estes entregaram a Tancredo documentos com reivindicações de medidas para a área da comunicação. Nessa reunião, especialmente os dois deputados, Salmória e Cristina, expressaram a Tancredo a inconformidade com a possibilidade de Antônio Carlos Magalhães ocupar o Ministério das Comunicações e também com a ameaça de permanência no cargo do secretário geral deste ministério, Rômulo Villar Furtado. Salmória chegou a dizer que "aquelas indicações comprometiam não só o Ministério das Comunicações, mas o governo como um todo". Em resposta a essa argumentação, Tancredo só dissimulou. "O ministro não está escolhido" - repetiu várias vezes - "Antônio Carlos Magalhães será ministro, mas não necessariamente das comunicações". Mas Tancredo se traiu e deixou transparecer que o seu ministro das Comunicações seria alguém inacessível aos participantes da reunião. Em dado momento, Tancredo comprometeu-se a ser "interlocutor" das reivindicações que ali estavam sendo apresentadas "fosse qual fosse o ministro". Para os presentes, soou estranha esta afirmativa. Por isso, foi perguntado a Tancredo: "o senhor, interlocutor?". E Tancredo confirmou o sentido da sua frase, gracejando: "Por quê? Vocês acham que há alguém mais indicado que eu?". No final do encontro, para vários dos participantes, apesar das negativas de Tancredo, a escolha de Magalhães já estava assegurada41. Além desta reunião, registraram-se inúmeras manifestações contra Antônio Carlos Magalhães. A assessoria de Tancredo chegou a comentar que na maioria das audiências concedidas por Tancredo, nos dias que antecederam o anúncio do Ministério, foi levantado o "caso Magalhães". Três dias antes da apresentação oficial dos integrantes do novo ministério, apesar da solicitação expressa de Tancredo para que os convidados não se manifestassem publicamente, Antônio Carlos Magalhães - como se estivesse tentando tranqüilizar os reduzidos, mas poderosos setores que o apoiavam - concederam entrevistas à imprensa praticamente assumindo o Ministério das Comunicações Essas entrevistas, evidentemente, ganharam grande destaque, especialmente nos veículos das organizações Globo. O anúncio do ministério Tancredo, no dia 12/3/85, por isso, não surpreendeu. O que surpreendeu, nessa fase de transição de governo, foi a manutenção do secretário geral do Ministério das Comunicações, Rômulo Vilar Furtado. Para diversos interlocutores, Tancredo Neves garantiu que Furtado não permaneceria no cargo pela terceira gestão consecutiva. Furtado iniciou como secretário geral do ministro comandante Euclides Quandt de Oliveira, no governo Geisel. Posteriormente, as grandes empresas de radiodifusão e da área de telecomunicações tentaram fazê-lo ministro das Comunicações, no governo Figueiredo. Tentaram, mas não conseguiram derrubar o veto de certos setores das Forças Armadas que pesava sobre Furtado42. Ele foi mantido na Secretaria Geral, atuando como "ministro de fato" das Comunicações. Rômulo Vilar Furtado está por trás de algumas das piores coisas ocorridas no Ministério das Comunicações nesse largo período em que vem atuando como secretário geral. Nos últimos meses do governo Figueiredo, por exemplo, Furtado comandou a partir do Ministério das Comunicações-articulado com o senador Roberto Campos (PPDS-MT) - uma luta

contra a política desenvolvida pelo próprio governo, através da Secretaria Especial de Informática (SEI). Essa luta prosseguiu no governo Sarney, sendo as posições de Furtado hoje apoiadas publicamente por Antônio Carlos Magalhães. No governo Figueiredo, enquanto Furtado organizava a reação antinacionalista no Ministério das Comunicações, sua esposa, a deputada 'malufista' Rita Furtado (PDS- RO) cumpria na Câmara dos Deputados o mesmo papel que o senador Roberto Campos desempenhava no Senado. Derrotados, pelo menos parcialmente, na luta pela ampliação da presença dos interesses internacionais no setor de informática e vendo seu candidato (Paulo Salim Maluf) perder as chances no Colégio Eleitoral, os Furtado mudaram rapidamente de tática: Rita Furtado surpreendeu seus colegas "malufistas" ao votar em Tancredo Neves. Quando se avolumaram as reações à indicação de Antônio Carlos Magalhães para o Ministério das Comunicações, surgiu o nome do deputado Freitas Nobre, apresentado por setores do PMDB. Diante da crescente polarização entre Magalhães e Freitas Nobre, o presidente das organizações Globo, Roberto Marinho, fez uma exigência a Tancredo: podia até rediscutir o nome do ministro, mas Rômulo Villar Furtado deveria permanecer na Secretaria Geral43. A pressão de Roberto Marinho teve sucesso. No dia 19/3/85, com Tancredo agonizando, Antônio Carlos Magalhães confirmou publicamente a manutenção provisória de Furtado na Secretaria Geral. As reações à permanência de Furtado provocaram um inicio de crise no PMDB. Essa situação fez com que o vice-presidente em exercício, José Sarney, não quisesse comprometer-se com a confirmação de Furtado na Secretaria Geral, preferindo deixar essa responsabilidade para Tancredo Neves, quando ele se restabelecesse da doença e assumisse a Presidência. Sarney, numa atitude que surpreendeu os setores do próprio governo, negou-se, no dia 19/3/85, a assinar uma série de despachos do ministro Antônio Carlos Magalhães, das Comunicações. Sarney argumentou "que só poderia fazê-lo depois de consultar o presidente eleito, Tancredo Neves" 44. Fontes do próprio Ministério das Comunicações, na época, garantiram que entre esses atos estava a nomeação de Rômulo Vilar Furtado para a Secretaria Geral, na sua terceira gestão consecutiva. A demora na recuperação do presidente, entretanto, fez com que Magalhães atropelasse compromissos firmados por Tancredo junto ao PMDB e, acelerasse a confirmação definitiva de Vilar Furtado na Secretaria Geral do Ministério das Comunicações. Assim mesmo, com a importância adquirida por Magalhães na composição da Aliança Democrática, não foi fácil para Tancredo acomodá-lo no seu Ministério, enfrentando intensa resistência do PMDB. O preço pago por Tancredo para recompensar Magalhães foi muito alto. Custou não só a hostilidade aberta de setores do PMDB, mas também outros dois Ministérios, essa preciosa e escassa moeda para remunerar as transações políticas pré e pôs - eleitorais. Graças a Magalhães, a Bahia acabou ficando com três Ministérios, como explica o jornalista Villas-Bôas Corrêa: "O PMDB do ex-Governador Roberto Santos reclamou, não podia ficar de fora em discriminação desmoralizante, e ganhou o Ministério da Saúde para o Deputado Carlos Sant Anna. Foi à vez de o PMDB tradicional protestar, botando a boca no mundo. Miados sim, mas negócios à parte. A oposição baiana para valer, com carteira assinada, tradição de luta, é o velho PMDB de muitas campanhas e muitas derrotas. E ganhou o Ministério da Previdência Social para Waldir Pires. (...) Antônio

Carlos mirou um ministério, acertou em três. (...) Três ministros, o mesmo que o Partido da Frente Liberal. Antônio Carlos e o PFL empataram" 45. Mas por que o Ministério das Comunicações? Tancredo prometera "qualquer" Ministério. Teria o das Comunicações simplesmente sobrado para Magalhães? Há quem garanta que não. Para estes, o Ministério das Comunicações foi criteriosamente selecionado por Magalhães, depois de descartadas as duas prioridades de qualquer político profissional "ministeriável": a prioridade um, sem dúvida, era o Ministério do Interior, que seria enfraquecido com as fragmentações que sofreria; e a prioridade dois seria o Ministério das Minas e Energias, com suas ricas estatais (Petrobrás, Eletrobrás, Vale do Rio Doce, etc.), mas este já estava destinado como prêmio de consolação para o "ex-presidenciável" Aureliano Chaves. Villas-Bôas Corrêa defende essa tese e explica porque Magalhães teria então escolhido o Ministério das Comunicações. “Pousa agora, calculadamente, no campo que escolheu entre as alternativas possíveis”. Um ministério que tem os seus inegáveis encantos, especialmente sensíveis a um político. Não há por todo o país um lugarejo por mais pobre e escondido que seja que não tenha a sua agência de correio e telégrafo, o posto telefônico, onde não se ouça rádio e que não se faça a cabeça com as novelas coloridas da televisão. E tudo isso arrumado: as comunicações assinalam um dos raros êxitos indiscutíveis dos vinte anos de governos militares. Regado com verbas razoáveis, manipulando recursos próprios. Instigando a utilização esperta em áreas de instantâneo apelo popular, como na projetada utilização do sistema de comunicação nacional para que funcione como um regulador de preços de gêneros de primeira necessidade. “Podendo ser útil ou indispensável às emissoras de rádio e televisão, fazendo o mínimo que e não embaraçar o caminho por onde transite os legítimos interesses de cada um” 46. A escolha de Magalhães para o Ministério das Comunicações deriva deste quadro politicamente complexo. Por um lado, um conservador com o passado de Magalhães, empresário da área de comunicação, surgiu como um nome confiável - talvez o único que despontasse tão "naturalmente" - e credenciado para receber o apoio militante de Roberto Marinho. Por outro lado, as razões para a escolha de Magalhães também devem ser buscadas na natureza do processo da conciliação, nas condições inerentes às coligações que levaram Tancredo Neves ao poder. O futuro iria mostrar que Magalhães, o imprescindível aliado de Tancredo, era mesmo o melhor nome para representar os interesses de Roberto Marinho no Ministério das Comunicações. É o que veremos a seguir. NOTA DE RODAPÉ: 33 CASTRO, Tarso de. Folha de São Paulo. Isto é imprensa? São Paulo. 10 dez. 1984.p.24. 34 ISTO É.O Fazedor de Reis. Op. cit. P.19-2O. 35 No final do governo Figueiredo explicitou-se claramente uma articulação política de membros das Forças Armadas, empresários e burocratas estatais, que aqui definimos como "continuísmo radical". Essa articulação defendia a continuidade dos militares na Presidência da República. Uma de suas vertentes advogava a manutenção do general Figueiredo. Outra vertente exigia a posse de um militar "mais duro". O continuísmo radical era o continuísmo num sentido estrito, e seria a manutenção do regime sem concessões significativas no plano político. Na verdade, sem esse sentido estrito de continuísmo, também a candidatura Maluf poderia ser considerada como uma alternativa de continuidade do regime, de manutenção da hegemonia política dos principais grupos que sustentavam o regime militar. E também a candidatura Tancredo-Sarncy representava, do ponto de vista dos interesses de classes predominantes no Brasil, uma continuidade, embora envolvendo uma ruptura "democratizante" no plano político.

36 VEJA. O Torpedo baiano. São Paulo, n. 854. 1 Jan. l985. pk38.

37 CORREA, Villas-Bôas. Jornal do Brasil. Antônio Carlos Magalhães ou a arte da perfeita baldeação. Rio de Janeiro. LOMAR. 1985. Caderno Especial p. 1. 38 VEJA. Cem dias de medo. São Paulo, n.854. L6jan. 1985. p.40-45. 39 VEJA. O torpedo baiano, op. cit. P.39 40 Relatado por participantes da reunião. 41 Relatado por participantes da reunião .42 Informação prestada pelo general Octávio Costaem entrevista concedida ao autor. 43 Informação confirmada por fonte intimamente ligada a Tancredo Neves. 44 Conforme telegramas das agências Estado, Globo e JB. 45 CORREA, Villas-Boas. op. cit. 46 Ibidem. MARINHO E MAGALHÃES: BONS NEGÓCIOS. A presença de Antônio Carlos Magalhães no Ministério das Comunicações ampliou a influência de Roberto Marinho. Um dos episódios exemplares dessa nova fase de relacionamento entre da Rede Globo e o Ministério das Comunicações foi a transferência do controle acionário da NEC do Brasil (NDB) do empresário Mário Garnero para Roberto Marinho, consumada em outubro de 1986. Instalada no país há 20 anos, a NEC do Brasil - subsidiara da Nippon Electric Compary - passou por uma significativa reformulação em 1981, coma a implementação da política industrial definida pelo Ministério das Comunicações para o setor. Essa política refletia a instalação, em 1979, da Secretaria Especial da informática (SEI), responsável por medidas de proteção das empresas de capital nacional e estímulo ao desenvolvimento da tecnologia brasileira. Desde o surgimento da SEI, tornara-se incômoda a tolerância do Ministério das Comunicações com o monopólio do capital e da tecnologia estrangeira na indústria de telecomunicações. Apesar de ser quase totalmente dependente das encomendas das empresas estatais ligadas ao Ministério das Comunicações a indústria de telecomunicações nunca sofreu exigências como as que passaram a ser feitas pela SEI à indústria de informática. Ao contrário, enquanto a SEI reservava seguimentos de mercado exclusivamente para empresas nacionais, o Ministério das Comunicações executava política inversa, reservando cartorialmente mercado para empresas estrangeiras. Esse é o caso das centrais telefônicas, cuja demanda das estatais era suprido por um restrito clube formado pelas multinacionais Standard Electric, Simens, Ericsson e NEC. Para fortalecer esta política, o Ministério das Comunicações promoveu, com a diligente atuação do secretario geral Rômulo Villar Furtado, um processo de "nacionalização" das empresas estrangeiras através da presença de um sócio nativo que detivesse 51% do capital com direito a voto. Dissimulando a presença do capital estrangeiro no setor de telecomunicações e - o que é decisivo - o controle da tecnologia, as "nacionalizações" pretendiam defender estas empresas da política, de traços nacionalistas, implementada pela SEI. A entrega 51% do capital votante para sócios nacionais evidenciava a preocupação das indústrias estrangeiras, não só com a manutenção das posições no mercado de telecomunicações, mas com a necessidade crescente de avançar sobre o mercado da informática. Impulsionada pelo acelerado desenvolvimento tecnológico da última década, a indústria de telecomunicações aproxima-se cada vez mais da indústria de informática. Seja pela incorporação de componentes e microprocessadores originalmente usados em computadores, que fazem os equipamentos de telecomunicações cada vez mais "inteligentes", seja pela simples fusão de serviços

de telecomunicações e informática que torna cada vez mais difícil distinguir os sistemas de comunicação dos sistemas de processamento eletrônico de dados. Os computadores afirmam-se como centrais de controle de comunicação, versões muito melhoradas das antigas centrais de telefonia, e os aparelhos de telefonia se sofisticam transformando-se em terminais de computador. Redes de telecomunicações e equipamentos de processamento de dados fundem-se , num mesmo sistema: é a telemática viabilizando serviços que há poucos anos pertenciam ao terreno da ficção cientifica. As "nacionalizações" promovidas pelo Ministério das Comunicações, no inicio da década de 80 serviram para "maquiar" a presença do capital estrangeiro na área e armar as indústrias de telecomunicações com argumentos para furar o bloqueio da reserva de mercado controlada pela SEI. O governo do general Figueiredo ficou dividido entre as posições do Ministério das Comunicações e as da SEI. As contradições explicitaram-se publicamente e persistiram sem solução na Nova República, com os grupos de interesse firmemente entrincheirados nas duas áreas. 47. Foi nesse jogo pesado de disputa de mercado que, em 1981, aproximaram-se o empresário Mário Garnero, líder do grupo Brasilinvest e os japoneses da NEC. 'Garnero, que trafegava com facilidade nos gabinetes oficiais, tinha influência; os japoneses, dinheiro”48. Conduzida pelo secretário geral do Ministério das Comunicações Rômulo Villar Furtado, a associação de Garnero com os japoneses, que “nacionalizou” a NEC, foi acertada sem maiores problemas”. Os problemas começaram a surgir mais tarde quando se evidenciou para os japoneses o estilo de Garnero que, aproveitando-se da situação, insistia em controlar efetivamente a NEC. “Ao se tornar sócio da NEC do Brasil, com maioria de votos e minoria de ações ordinárias, 53 japoneses ocupavam cargos-chaves de gerenciamento”. Três anos depois, não chegaram a 20. “Moviam a Garnero não propriamente razões de natureza patriótica, mas conveniências, já que, por medida de economia, era bom ir reduzindo a importação de tecnologia do Japão” 49. A precária harmonia entre Garnero e os sócios japoneses, estimulada pelas perspectivas do negócio, durou até março de 1985 quando numa medida de impacto, o governo federal decretou a liquidação extrajudicial do Banco Brasilinvest e das demais empresas financeiras pertencentes ao grupo. As irregularidades constatadas levaram o então ministro da Fazenda, Francisco Dornelles, a solicitar a prisão preventiva de Mário Garnero. Gamero controlava a sua parte de ações da NEC do Brasil através da Brasilinvest Informática e Telecomunicações (BIT). Essa empresa não foi atingida, de imediato, pela liquidação dos ramos financeiros do grupo Brasilinvest. Mesmo assim, a repressão às atividades ilícitas de Garnero era o que faltava para os japoneses decidirem se afastar do sócio brasileiro. “O cerco nipônico buscou espaço, primeiro, na Justiça”. Uma ação cautelar da NEC Corporation - o sócio japonês - tentava assegurar-lhe preventivamente o controle da NEC do Brasil, já que o sócio brasileiro se encontraria impedido de exercer, de fato, o controle da companhia. O sócio, porém, não era o Dr. Garnero, pessoa física, e sim a BIT, pessoa jurídica, da qual Garnero era um dos acionistas, mas não o único. A Justiça não acatou a ação, mesmo tendo os japoneses juramentado que o controle estrangeiro, contrário à lei, seria temporário o suficiente para se encontrar um substituto para Gamero.

“Não houve acordo, só eventuais tréguas, nas reuniões que se sucederam asperamente, de outubro de 1985 aos primeiros meses de 1986, com direito eventual até a dose duplas de uísques às 10 da manhã e queixas contra autoridades federais que haviam recebido propinas milionárias para resolver o impasse, e não tinham resolvido”. “O sócio japonês continuou plantando espinhos no caminho do sócio brasileiro, escorado, já então, na defecção voluntária de dois dos quatro diretores nomeados por”. Garnero, “numa diretoria de sete, e na ajuda involuntária da repercussão pública do ‘affair’ Brasillnvest” 50. Com o passar do tempo, os japoneses aumentaram a pressão sobre Garnero. Através do advogado Ethevaldo Alves da Silva, dono das Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU) e da Rádio Capital de São Paulo, foi tentada a extensão da "liquidação extrajudicial do grupo Brasilinvest ao até então tronco das telecomunicações, a BIT"51. Ethevaldo Alves da Silva -'foi, na verdade, quem comprou as CDBs do credor Jamil Zeitune, bem depois da liquidação extrajudicial, para poder entrar na briga. Depois do pedido de falência, veio o pedido de arresto dos bens. Garnero estava acuado “52.”. “Garnero estava vendido, mas tinha um preço, e não era esse preço exatamente o mesmo que os japoneses da NEC insinuavam lhe pagar: isto é, nada”. A pretexto de empréstimos contraídos pelo Brasilinvest junto à companhia e a cobranças pendentes, achavam os japoneses bastante razoável que Garnero saísse pela porta da NEC com os bolsos vazios. Os planos de Garnero eram outros. Havia interessados no negócio, e ele queria presidir o acerto. O Banco Nacional, a princípio, fez um aceno, para logo desaparecer. Com Matias Machline, comandante do Grupo Sharp, chegou-se a fechar o negócio em abril do ano passado (1986), numa reunião definitiva, onde até o cheque foi assinado. A reunião terminou tarde da noite, no escritório de Machline, mas na manhã seguinte ele surpreendentemente recuou O que se diz é que Machline, um dos amigos mais íntimos de Sarney, não quis pôr em risco esta amizade, após receber um telefonema dissuasório do Palácio do Planalto. A Moddata, grupo carioca da área de informática se apresentaria em seguida, mas, assim como veio, foi-se: subitamente. “O telefonema persuasivo do Palácio do Planalto pode pertencer à lenda, não à realidade, mas o fato é que, em abril de 1986, o destino da sociedade comercial chamada”. NEC do Brasil emaranhava-se num enredo mais complexo. Deixava o reduto da Rua do Paraíso, em São Paulo, para se esparramar em outros territórios, cujos vértices passariam a ser a Rua Irineu Marinho, no Rio, e a Esplanada dos Ministérios, em Brasília. Desponta no horizonte o nome Roberto Marinho. (..j Marinho é homem do jornalismo e das comunicações, mas parece que andava meio distraído do assunto. Quem lhe chamou a atenção para a NEC foi Rômulo Vilar Furtado, secretário geral do Ministério das Comunicações há 13 anos. NOTA DE RODAPÉ: 47 Alguns meses após o surto de "nacionalização", quando a Secretaria Especial de informática (SEI) dava primeiros passos, começou a acirrar-se a luta pela Política de Informática e essas empresas "nacionalizadas" passaram a reivindicar seu ingresso no mercado reservado às indústrias nacionais. Por sua condição, essas indústrias de telecomunicações estavam impedidas de entrar no mercado de informática por não estar sob controle nacional a tecnologia utilizada. Iniciou então um intenso debate sobre o conceito de empresa nacional que colocou em confronto direto com o Ministério das Comunicações, aliado às grandes empresas estrangeiras e a Secretaria Especial de Informática.

Nesse quadro, em abril de 1983, o empresário Mário Garnero envolveu-se num rumoroso acontecimento ao precipitar, como presidente em exercício da Confederação Nacional da Indústria, a divulgação pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP), de um documento que atacava frontalmente a política de informática que vinha sendo conduzida pela SEI. Esse documento formalizou o conflito de interesses nacionalistas e multinacionais em relação à política de informática no Brasil. Além do destacado papel em defesa dos interesses multinacionais, a atuação de Mário Garnero em conjunto com a equipe entreguista do Ministério das Comunicações pode ser acompanhada no processo de instalação do projeto Videotexto, em São Paulo, que iniciou a partir de uma proposta do grupo Brasilinvest. Por muitos meses, o projeto Videotexto fui dirigido por um serviço especial de consultoria do grupo Brasilinvest, até que esses vínculos foram oficialmente extintos com o desligamento do "consultor" Luis Carlos Moraes Rego, do Brasilinvest que passou a apresentar-se como consultor independente permanecendo até hoje na direção do Vídeo texto paulista. O interesse do Brasilinvest no Videotexto começou justamente depois que o governo Figueiredo recuou da intenção de implantar por decreto o Serviço de TV por Cabos Ou Cabodifusão em 1979. A tentativa de implantação da TV por Cabos é outra manobra conduzida por Rômulo Villar Furtado, Secretário das Comunicações. Furtado desde 1974 coordenou a elaboração de uma legislação que visava garantir o monopólio da IV por Cabos por algumas grandes empresas da área da comunicação (com destaque para da Rede Globo), contando com a tecnologia das indústrias multinacionais de telecomunicações. Através das redes de IV por Cabos esses grupos da área da comunicação, associados às multinacionais de telecomunicações, pretendiam controlar o desenvolvimento da telemática (fundindo-os) 50 Idem, p. 42.51 Ibide 48 SENHOR. O atacado do Senhor Globo. op. cit p.41. 49 lbidem. (Serviços de telecomunicações e informática) no Brasil. Com os serviços de IV por Cabos implantados, seria um ambiente propício à internacionalização da indústria de informática. Esse projeto foi sustado graças à mobilização de Universidades, entidades de profissionais e de pesquisadores da área. Diante das denúncias dessas manobras, o governo preferiu recuar em 1975 no governo Geisel e em 1979 no governo Figueiredo. (o relato completo das tentativas de implantação da IV por Cabos do Brasil pode ser encontrado in: HERZ, Daniel, op. cit.) Recentemente, em outubro de 1986 o Secretário Geral do Ministério das Comunicações começou a pressionar em favor da implantação da IV por Cabos. Voltando a atuar como porta-voz dos interesses dos grupos econômicos interessados na implantação do serviço. (In: ZERO HORA. TV a cabo: sistema pode ser implantado em breve no País. Porto Alegre. 5 out. 1986.) Mas não apenas no Ministério das Comunicações localizam-se os entreguistas. Outra figura de destaque, no início do governo Sarney foi à do empresário e publicitário. 52 AFINAL. Uma novela baiana. São Paulo, 4.125. 20 jan. l987. P. 73. "Os olhos e ouvidos do Dr. Roberto são potentes como sua emissora de TV e, assim como ela, dispõem de estratégica localização. De resto, isso faz parte do negócio." O interesse do Dr. Marinho pela NEC passa a coincidir, porém, com a circunstância de a Rede Globo ter voltado à carga, com entusiasmo, na questão do"colarinho branco", e o ministro Antônio Carlos Magalhães, das Comunicações, ter ganhado muito espaço nos jornais de vídeo e de papel do Dr. Roberto, sempre fazendo comentários a respeito da reputação do Dr. Mário Garnero. "(...) De repente, Garnero, que sonhava em ver a luz no fundo do túnel, estava enredado num cipoal de coisas erradas. Os japoneses pareciam surpreendentemente confiantes, nas conversas. Os bancos, mais renitentes do que nunca em conceder créditos ou descontos de duplicatas (negócios acertados eram desfeitos, horas depois, por efeito de misteriosas conversações telefônicas). Os japoneses, com vocação para o 'harakiri’, botavam lenha na fogueira do quanto pior, melhor. Suspenderam todos os investimentos. De Tóquio, veio a estiletada: as importações feitas pelo Brasil teriam de ser feitas, doravante à vista, ainda que houvesse cartas de crédito, licenças da Cacex, etc. Na prática, significava: a NEC do Brasil passaria a funcionar a meio vapor (ainda assim, o faturamento de 86 chegou aos US$60 milhões, e a previsão para 87 é de dobrar)" 53. Sentindo a pressão aumentar Garnero - que tinha na NEC a parte mais sólida de seu patrimônio, quase integralmente comprometido pela liquidação extrajudicial - resolver jogar tudo para recuperar o controle da NEC. E começou voltando à presidência do Conselho de Administração da empresa, de onde se afastara desde

a liquidação do Brasilinvest. Esse esforço provocou uma irada e violenta reação do ministro Antônio Carlos Magalhães, como registra a imprensa: NOTA DE RODAPÉ: Mauro Salles, então Ministro para Assuntos Extraordinários. “Mauro Salles, que também participou da implantação da Rede Globo, adquiriu destaque internacional ao ser um dos responsáveis pelo “pool” de agências publicitárias que divulgou internacionalmente o ‘milagre brasileiro” (expressão esta que foi cunhada nessa campanha publicitária) durante o governo Médici. Em 1984, quando trabalhava na assessoria do candidato Tancredo Neves, Mauro Salles voltou a ser notícia ao surgir como sócio minoritário da multinacional japonesa Sony, defendendo seu ingresso na área da SUFRAMA, obtendo. os benefícios da Zona Franca de Manaus. Mauro Salles dirigiu bem-sucedido "lobby" que conseguiu furar o bloqueio, graças a manobras escandalosas, e instalar-se em Manaus passando a competir, com uma série de vantagens, com as empresas nacionais que lá se encontram. Nessa luta para introduzir a Sony em Manaus, Salles contou com a solícita colaboração do Secretário Geral do Ministério das Comunicações, Rômulo Vilar Furtado. Com o estouro do grupo Brasilinvest, a estrela de Salles ofuscou-se. Mauro Salles era 53 SENHOR. O atacado do Globo. op. cit. p.42-43.

No último dia 11 (de abril de 1986), numa reunião do conselho de administração da NEC, Garnero afastou Renato Ishikawa, representante do sócio japonês, da diretoria financeira da empresa, substituindo-o por Arnaldo de Alencar Lima, homem de sua confiança. No dia 24, ele completou o lance ao destituir da presidência do conselho de administração o coronel Hervê Pedrosa e indicar a si mesmo para o cargo. A mudança foi formalizada numa assembléia geral dos acionistas que contou com a presença de Garnero e de mais três diretores a ele ligados. A fulminante operação do empresário provocou a imediata reação do ministro das comunicações, Antônio Carlos Magalhães, a cujo ministério está subordinado as estatais que alimentam as encomendas das indústrias de telecomunicações no país. Magalhães levou o caso ao presidente José Sarney e foi autorizado a estudar com sua assessoria jurídica o cancelamento das encomendas que o governo mantêm junto à NEC, no valor de 100 milhões de dólares. 'Eu mudo de nome, mas não dou um tostão de dinheiro público a esse malfeitor', argumenta Magalhães. “O novo passo tumultuado de Garnero está entregue, assim como vários de seus outros negócios, à Justiça”. A NEC do Japão recorreu à l3° Vara Cível de São Paulo e conseguiu uma liminar que suspendeu provisoriamente as decisões promovidas por Garnero. A Brasilinvest Informática e Telecomunicações - através da qual Garnero detêm 17% do capital da NEC, mas 5l% das ações com direito a voto - contestou a liminar e teve sucesso. Ele se diz 'vitima de uma manobra' com o objetivo de forçá-lo a entregar o controle da NEC aos japoneses. O ministro Antônio Carlos Magalhães, porém, não se abala na sua decisão de cancelar as encomendas. Não está claro se, do ponto de vista legal, o governo teria direito a fazer um cancelamento. A tese do ministro é que, com a volta de Garnero, a empresa havia se tornado inidônea, modificando assim uma condição essencial do contrato. '“Não discuto a decisão judicial, mas não serei o primeiro a alforriar uma pessoa nacionalmente conhecida como inidônea’, diz Magalhães” 54. “O ministro das Comunicações cumpriu suas ameaças”. A partir daí não só as empresas do sistema Telebrás não fizeram novas contratações à NEC - um dos três fornecedores de centrais CPAS e responsável por 80% dos equipamentos da rede de microondas da Embratel - como deixaram de pagar as parcelas vencidas de contratos já assinados, inclusive na entrega de equipamentos.

NOTA DE RODAPÉ: Membro do Conselho de Administração do Brasilinvest e, com a liquidação pelo Banco Central, teve seus bens postos em indisponibilidade. (A revista SENHOR publicou diversas reportagens sobre o assunto em 1984 e 1985). 54 VEJA. Golpe branco. São Paulo. 7 maio 1986. p. 131.

Para evitar que a empresa deixasse de pagar seus funcionários, e o caso da NEC envolvesse outras áreas do governo, Antônio Carlos mandou liberar parte do pagamento. “E esse procedimento continuou sendo adotado nos meses seguintes”. Sofrendo as retaliações impostas pelo ministro das Comunicações pelos japoneses e por Roberto Marinho, Garnero resistiu pouco tempo. No final de junho teve de começar a negociar com os japoneses e com o dono da Rede Globo. "Da Rede Globo, em pessoa, só se materializa no final de junho de 1986, na esbelta figura de seu principal executivo da área financeira, Miguel Pires Gonçalves. Miguel avisou a Garnero que ia procurá-lo. No dia seguinte na casa do empresário, no Morumbi, exibiu uma procuração dos japoneses e a certeza de um negócio rápido"56. "A solução foi sacramentada na última terça-feira (dia 28 de outubro de 1986)numa suíte do hotel Maksound, em São Paulo, durante uma reunião das três partes envolvidas - Gamero, Marinho e os só aos japoneses da NEC. O acerto envolve a venda de 5l% do capital votante da NEC, que estava nas mãos de Garnero, para Marinho. Os japoneses conservaram os 49% restantes das ações com direito a voto. Garnero ficou na sociedade apenas com as ações preferenciais - que dão direito a dividendos, mas não a voto, e, portanto excluem seu detentor da direção da empresa. O negócio se fez a preço de dar água na boca. Por esse pacote, costurado pelo lado da Rede Globo pelo vice-presidente do grupo Miguel Pires Gonçalves - filho do ministro do Exército, general Leônidas Pires Gonçalves -, Marinho pagou a Garnero o equivalente a menos de 1 milhão de dólares. Ë o que valem, hoje, dois bons apartamentos de quatro quartos no Rio de Janeiro ou São Paulo"57."O capital total da empresa ficou assim dividido: Roberto Marinho (38%). Mano Garnero (25%) e NEC japonesa (37%). Ou seja, Garnero fica na “Sociedade apenas como ações preferenciais-que dão direito a dividendos, mas não a votos -, mas amplia sua participação no capital total da empresa de 17,5 para 257.”. "No dia 28 do mesmo mês (outubro de 1986), a Telebrás e suas 30 subsidiárias iniciaram a normalização dos pagamentos e das encomendas junto à NEC do Brasil" 58.0 negócio, que custou a Marinho menos de um milhão de dólares era 'avaliado pelos japoneses em 360 milhões de dólares, quando a carteira de pedidos da NEC não apresentava ociosidade. Vazia, como se encontrava a empresa não tinha valor algum - até pelo fato de que a sua tecnologia pertence ao sócio estrangeiro' 59. "Ainda hoje (novembro de 1986), apesar dos percalços que a atingiram, ela (a NEC) é, por exemplo, a maior fornecedora da Embratel - cujo maior cliente, por sua vez, é a própria TVGLOBO"60. NOTA DE RODAPÉ: 55 INFORMATICA HOJE. NEC: Garnero e Roberto Marinho sócios. Graças ao Minicom. São Paulo. N.78. 11 nov. 1986. p.4. 56 Idem, p.43. 57 VEJA. Linha direta. São Paulo 4.948.5 nov. 1985. p. 123. 58 AFINAL. Uma novela baiana. op. cit . p. 73.

Em janeiro de 1987 Roberto Marinho deu a Antônio Carlos Magalhães uma demonstração pública de apreço que tinha as feições típicas de um pagamento de dívida: tirou da TV Aratu, da Bahia, os direitos de retransmissão da Rede Globo no

Estado e os concedeu à TV Bahia, controlada por parentes e amigos de Magalhães, como veremos - em detalhe - mais adiante. O sucesso da operação levou a imprensa especializada a especular sobre um convite de Roberto Marinho ao secretário geral do Ministério, Rômulo Vilar Furtado, para que este assumisse a presidência da NEC 61• Mas não há indícios de confirmação dessa especulação, pois certamente é mais útil para os interesses predominantes na área, inclusive os da Rede Globo, a permanência de Furtado no seu posto, enquanto lá conseguir se manter. Pelo menos enquanto não houver bons motivos para "abandonar o barco", depois de mais de treze anos de usufruto do cargo de secretário geral. Como se pode observar nesse episódio, que é apenas um exemplo de como se processa o exercício do poder na área do Ministério das Comunicações, Roberto Marinho já auferiu excelentes resultados com a atuação de Antônio Carlos Magalhães: graças ao ministro, hoje Marinho é sócio de Mário Garnero que já teve sua prisão preventiva solicitada pelo Ministério da Fazenda e foi taxado publicamente por autoridades federais de "escroque internacional". As ligações explícitas entre Roberto Marinho e Antônio Carlos Magalhães são tão escandalosas que motivaram, desde o final de 1986, uma proposta, defendida por vários parlamentares e pelo governador eleito da Bahia, Waldir Pires, da realização de "uma investigação do Congresso em cima dos negócios especiais que o Dr. Roberto Marinho teria obtido, graças às suas íntimas relações com o poder" 62. Este é um veio que não terá fim - a menos que os senhores congressistas queiram desafiar o poder da Rede Globo Ainda na semana passada (meados de dezembro de 1986), o ministro Antônio Carlos Magalhães ganhou generosos minutos no 'Jornal Nacional' para anunciar que o Brasil passa a ser o fornecedor exclusivo de todos os equipamentos de telefonia para o vizinho Suriname. Celebrou-se efusivamente essa conquista nacional. “Quem fatura com as vendas, alardeadas pelo ministro, é uma empresa chamada Victory”: a Victory que mereceu o apoio do ministro Antônio Carlos Magalhães nas negociações com o Suriname, é resultante de uma associação entre a empresa italiana Victory, Roberto Marinho (Rede Globo) e Amador Aguiar (dono do Bradesco, maior banco privado do Brasil)63. A privatização de serviços da estatal Embratel e o controle do fluxo de tráfego nos satélites de telecomunicações são duas metas já anunciadas pela Victory. NOTA DE RODAPÉ 59 VEJA. Linha direta. Op.cit.p.123. 60 Ibidem. 61 INFORMÁTICAHOJE. Rômulo na NEC? São Paulo. n.78. 11 nov. 1986 p.2. 62 SENHOR. Dinamite contra da Rede Globo... op. cit. p. 37.

Os últimos registros da imprensa, no fechamento desta edição ampliavam ainda mais a lista dos favores trocados entre Magalhães e Marinho: "Não faltarão outros bons negócios, na área, inclusive os que envolverão as futuras listas telefônicas do Rio e da Bahia, supostamente já apalavradas com um grupo que dispõe, em sua direção de dois sobrenomes Marinho - João Roberto e Roberto Irineu, ambos os filhos do chefe supremo"64. “Os dois alertam que a negociação da estatal com as empresas Promon Engenharia e Victory (esta última de origem italiana, representada no Brasil pelo empresário)”.

(Roberto Marinho e o banqueiro Amador Aguiar),para a exploração de serviços de comunicação de dados via satélite é reflexo desta política de privatização.(...)" "A proposta da Victory à Embratel ainda não está clara mas é a segunda vez que a empresa investe na empreitada de explorar serviços de comunicação de dados via satélite." A primeira, no inicio do ano passado, acabou tendo de ser recusada pela Embratel, tal o volume de críticas e pressões recebidas de seu corpo técnico e de lideranças do setor de telecomunicações. “E para recusar, a diretoria da estatal alegou justamente a quebra do monopólio, pois o pleito era a ‘permissão para execução de serviços múltiplos destinados para difusão de informação de interesse público de abrangências nacional', incluindo a implantação do serviço, tanto para as transmissões via satélite quando para através de canais secundários em emissoras de FM". Além da solicitação para 'aluguel da capacidade necessária no satélite Brasilsat... '. Esses são trechos de carta enviada ao secretário geral do Ministério das Comunicações, em 2 de janeiro de 1986, com papel timbrado da Victory, assinada por Amador Aguiare Roberto Marinho. “Na mesma carta a Victory informa que utilizaria tecnologia da Equatorial Comunications Company e da Mutual Broadcasting System”. “Jorge Bittar e Paulo Eduardo Gomes estão convictos que, renovado o pleito, o projeto não mudou nada, embora o presidente da Embratel tenha declarado que, desta vez, ‘não fere o monopólio estatal’”. Para os dois líderes da Embratel, o projeto, cujo conteúdo vem sendo mantido sob rigoroso sigilo pela diretoria da estatal, está recebendo uma boa maquiagem. A Victory fez uma proposta completa, pela qual a empresa, que representa com exclusividade a Equatorial, norte-americana, importaria e comercializaria os equipamentos (estações terrenas e computadores para o controle de transmissão de dados via satélite), e seria a operadora do serviço - adverte Bittar. Não temos nenhum elemento que caracterize o acordo de agora como diferente da pretensão anterior - completa Paulo Eduardo Gomes. “A chave da questão, segundo eles é o direito a um determinado fluxo de tráfego no satélite, que poderá constar no acordo de operação conjunta, como admitiu o presidente”da Embratel. “Jorbe Bittar chama atenção para o fato de que não há diferença entre ter um fluxo garantido no Brasilsat e o aluguel do satélite”. RADIODIFUSÃO BRASILEIRA; HERANÇA DA DITADURA. A legislação que regulamenta as concessões de rádio e televisão, vigentes há vinte e dois anos, atribuem ao presidente da República um poder absoluto. A outorga de concessões independe de pareceres técnicos ou qualquer outro de avaliação relevante: é uma decisão pessoal da Presidência. No governo do general Figueiredo esse arbítrio foi levado ao extremo: foi feito mais de 700 concessões de rádio e televisão, o que representa mais de 1/3 do total das emissoras existentes desde o surgimento da radiodifusão no Brasil. Somente no período que vai do início do governo Figueiredo até maio de 1984 (cerca de dez meses antes do final do mandato) "foram outorgadas 295 rádios AM, 299 FMs e 40 emissoras de televisão. O que corresponde, a 23,5, a 56,3 e a 27,3% do total das emissoras existentes no país" 65• Boa parte dessas concessões foi outorgada por motivos políticos e a empresários parlamentares ligados ao governo.

Estreando no Ministério das Comunicações um estilo que marcou suas passagens por governos e órgãos públicos, Antônio Carlos Magalhães iniciou muito cedo uma luta implacável contra seus adversários políticos. Num lance tão ousado quanto demagógico, Magalhães começou sua gestão acusando o ex-presidente Figueiredo de ter desrespeitado procedimentos técnicos do Ministério das Comunicações na outorga de concessões de rádio e televisão. Essas concessões foram outorgadas principalmente a políticos malufistas e amigos pessoais do general Figueiredo. Para enfrentar o problema, Magalhães suspendeu todas as concessões realizadas desde outubro de 1984 e criou, para revisá-las, uma comissão coordenada pelo comprometido secretário geral, Rômulo Vilar Furtado. NOTA DE RODAPÉ: 63 A Victory, apoiada pelo secretário geral do Ministério das Comunicações, Rômulo Villar Furtado, está encabeçando uma campanha pela privatização dos serviços de telecomunicações, em particular os prestados pela Embratel. 'A tendência presente em alguns segmentos do Ministério das Comunicações. Em defesa da privatização da Embratel, não é uma novidade, de acordo com os engenheiros Jorge Bittare Paulo Eduardo Gonics (respectivamente diretor da Federação Nacional dos Engenheiros e presidente da Associação dos Empregados da Embratel). Segundo eles, o secretário geral Rômulo Villar Furtado, que ocupa este cargo há 13 anos, já propunha publicamente a privatização em 1984. Durante seminário patrocinado pela revista Telebrasil, do sistema Telebrás. "Mas a corrente privatizante acaba de ser fortalecida nesta virada do ano (de 1986 para 1987), quando a Embratel de última hora, incluiu o seguinte item em sua publicação interna, sob o título Missão e Políticas" 87: “Admitir, em casos específicos, a participação de organizações (públicas e privadas) com atividades”.64 Senhor. Dinamite contra da Rede Globo... op. cit. p. 38.65 FOLHA DE SÃO PAULO. Figueiredo fez 634 concessões de rádio e TV. São Paulo. l4mar. 1985 p.4. O anúncio da revisão dessas concessões fez com que a imprensa divulgasse, em alguns poucos dias, uma avalanche de informações sobre favorecimentos, Perseguições, apadrinhamentos, chantagens, pressões e todo tipo de venalidade e corrupção. Vejamos uma amostra desses relatos. Bahia “O apadrinhamento político esteve presente sempre e, praticamente foi decisivo, nas concessões de canais de TV e de emissoras de rádio, durante os últimos meses”. Do Governo Figueiredo. Na Bahia, por exemplo, um dos principais casos é o da TV Cabrália, que tem em Luiz Viana Neto (filho do senador Luiz Viana, do PDS) um dos sócios, por sua vez, também sócio da TV Aratu, controladora da TV Cabrália. “Das concessões para a televisão” e rádio suspensa na Bahia, a que se encontra sobre exame mais rigoroso do Ministério das Comunicações é a TV Cabrália, em Itabuna - principal centro econômico da região cacaueira - e Cujo processo está formalmente completo, inclusive com o contrato assinado entre a concessionária e o Ministério das Comunicações. “Na concorrência pelo canal em Itabuna, houve uma longa disputa entre o grupo liderado por Luiz Viana Neto e dois outros grupos ligados ao negócio do cacau”, liderados pelos empresários Manoel Joaquim de Carvalho e Manoel Chaves, este muito amigo do atual Ministro das Comunicações. “Luiz Viana Neto não se encontrava ontem (22/3/85) na capital baiana, mas pessoas ligadas a seu grupo na área de comunicação deram a entender que uma eventual”. Revogação da concessão da TV Cabrália provocará fatalmente uma batalha judicial, 'porque o ato jurídico está perfeito e acabado'. Também comentaram que as concessões para rádio e televisão vinham obedecendo a critérios políticos há bastante tempo e estranharam que a revisão determinada pelo Ministério abranja apenas as concessões dadas a partir de outubro último.

“A concessão para Feira de Santana foi cancelada ainda no Governo Figueiredo, para satisfação do Governador João Durval, que a deseja para um grupo empresarial”. Comandado por Modezil Siqueira (politicamente ligado a ele), com atuação na área de comunicações, com duas emissoras de rádio e um jornal. “O critério político parece, de fato, ter sido a norma para as concessões em revisão na Bahia”. A FM Cidade Sol Ltda., de Jequié, pertence a um grupo vinculado ao senador Lomanto Júnior (PDS) e a concessão foram obtidas no apagar das luzes do Governo passado, por interferência do ministro Leitão de Abreu, a pedido do senador. Em Xique-Xique, uma rádio OM foi concedida à empresa de propriedade da mulher do deputado estadual Reinaldo Braga. Mas ele alega que foi o único concorrente e cumpriu todas as exigências, acreditando que não correm riscos: 'Acho que a emissora foi incluída apenas porque se tratava de uma medida geral' “66•”. Rio Grande do Sul “Com uma única exceção, as 13 emissoras gaúchas de rádio que tiveram as concessões suspensas pertencem a pessoas vinculadas ao PDS ou têm deputados deste partido entre seus acionistas”. São os casos dos deputados Rubens Ardenghi e Pedro Germano, principais cotistas respectivamente da Rádio Difusora (Palmeira das Missões) e da Rádio Botucaraí (Cachoeira do Sul). “Apenas o empresário Antônio Luís Consetino, diretor da Rádio Iguaçu (FM), do município de Santiago, é vinculado ao PMDB, tendo sido vereador pelo ex-MDB”. Mesmo assim, ele revela que muitos deputados do PDS-inclusive o ex-líder do Governo, Nelson Marchezan - ofereceram seus préstimos para agilizar seu processo no Ministério das Comunicações na gestão de Haroldo Corrêa de Mattos (governo Figueiredo). “Eles me ofereceram, mas nunca aceitei - frisou”. Sua rádio é a única no Estado que já estava funcionando em caráter experimental, com todo o equipamento e instalações montadas e funcionários contratados. Segundo ele, foram investidos cerca de Cr$ 100 milhões no projeto: 'Esperamos que prevaleça o bom senso; o novo Governo tem que entender que toda uma comunidade está na expectativa desta rádio', observou. “O mesmo diz o Prefeito de Lavras do Sul, Cláudio Bulcão (PDS), sobre a rádio Pepita, constituída como fundação, na qual a Prefeitura também é cotista”. Ele informou que a concessão foi intermediada pelos deputados Nelson Marchezan e Pedro Germano e o Senador Carlos Alberto Chiarelli (antes de ir para o Partido da Frente Liberal). Ele pretende recorrer aos mesmos políticos para que a concessão da emissora seja assegurada, embora, até agora, nenhuma providência para instalação tenha sido tomada. O deputado Pedro Germano postulava a criação da Rádio Botucaraí FM, no município de Cachoeira do Sul, que engrossaria o monopólio radiofônico da família na região (além do deputado, o clã dos Germanos é integrado por seus irmãos Geraldo, deputado estadual do PDS, e Octávio, presidente da Caixa Econômica Estadual e ex-vice-governador, e Rafik, administrador dos negócios). Com a concessão de mais essa freqüência, a rede somaria cinco emissoras apenas em Cachoeira do Sul (93 mil e 338 habitantes), além de mais seis espalhadas pelo Estado. O grupo obteve concessão também para um canal independente de televisão, há cerca de seis anos, cujo prazo de validade esgota em abril (de 1985).

NOTA DE RODAPÉ: 66 JORNAL DO BRASIL. Favoritismo foi decisivo na concessão de rádio e TV. Rio de Janeiro. 23 mar. 1985. 19 Caderno PS

“A rádio Vale do Gravataí, na região metropolitana, tem entre seus principais acionistas o ex-prefeito nomeado de Tramandai, Elói Brás Sessin, exonerado pelo Governador Jair Soares por irregularidades administrativas”. Uma fonte ligada à cúpula do PDS gaúcho informou que a concessão foi obtida através do ex-ministro- chefe do SNI, general Otávio Medeiros, amigo do ex-prefeito. "Já a Rádio Gramado FM, no município serrano de Gramado, tem entre seus fundadores o deputado estadual Horst Volk, também do PDS. E a Rádio Santa Rosa, do empresário Roberto Doladel, e a Rádio Noroeste, do empresário Sérgio Mallmann, segundo já informou inclusive o jornal local (Município de Santa Rosa) foram obtidos graças à intervenção dos deputados Nelson Marchezan e Irineu Collato (ambos do PDS)”. 67 Rio Grande do Norte Malufista ferrenho, antigo companheiro eleitoral do governador Agripino Maia e hoje um de seus principais adversários políticos, o senador Carlos Alberto de Souza (PDS) conseguiu, ao apagar das luzes do Governo Figueiredo, uma de suas maiores vitórias sobre o grupo Maia, ao obter a concessão para um canal de televisão, a TV Ponta Negra, um sonho acalentado há bastante tempo pelo grupo Maia. Hoje, a TV Ponta Negra está no rol das concessões sob revisão pelo ministro Antônio Carlos Magalhães e mais uma vez o senador viu-se obrigado a adiar a inauguração da emissora, que havia prometido colocar no ar antes do último dia 15 de março(de 1985), até mesmo com a presença do ex-presidente João Figueiredo. “Ex-radialista e disc-jóquei, o senador Carlos Alberto de Souza tem tentado inúmeras formas de ter seu próprio meio de comunicação, uma das principais armas políticas no Estado”. Sua primeira experiência patronal no setor revelou-se desastrosa, quando foi obrigada a fechar a empresa Gráfico-Jornalística Aliança Gráfica e Editora Ltda., responsável pela curta vida de dois jornais: Folha da Tarde e Repórter Primeira-Mão. Dessa sua experiência, restaram ações de falência fraudulenta e ações trabalhistas movidas por jornalistas e gráficos que ficaram meses sem receber salários. "Ano passado (1984), entrando numa disputa com membros do grupo Maia, já em pleno processo da sucessão presidencial, conseguiu a concessão da TV Ponta Negra, tendo como sócios o diretor-gerente dos Diários Associados em Natal, Luís Maria Alves, com 30% das ações e o médico desportista Maeterlinock Rego e o empresário comerciante Francisco Brilhante, que com ele dividem os 70%restantes das ações" 68, Paraná A TV Carimá Ltda. empresa paranaense que ganhou em dezembro do ano passado (1984) as concessões para operar o Canal 10 de Cascavel, oeste do Estado, e o

canal 7 de Curitiba está vinculada ao Deputado José Carlos Martinez (PDS), principal representante do malufismo no Paraná e amigo de George Gazale, empresário e anfitrião do ex-presidente Figueiredo no Rio. "Os donos da TV Carimá são: Miguel Joaquim Castro Kohl e Adalberto Manoel do Nascimento, respectivamente gerente-geral e diretor financeiro da Rede OM de Comunicações - Canal 6 de Curitiba - que pertence ao deputado Oscar Martinez. O terceiro sócio da TV Carimá é Cláudio Correia da Mota, primo do deputado. A concessão do canal 10 de Cascavel foi dada à Carimà no dia 5 de dezembro de 1984, conforme decreto publicado no Diário Oficial. E somente no dia 4 de fevereiro de 1985 o Governo Federal publicou no Diário Oficial a inclusão de Cascavel no plano básico de distribuição de canais de TV em VHF. “O Deputado José Carlos Martinez nega qualquer envolvimento com a Carimá”. 'São apenas meus amigos', afirma. A concessão do Canal 7 de Curitiba para a TV Carimá já estava sendo motivo de estudos por parte do empresário Mário Petreli, ligado ao setor de comunicação do Estado. Ele e mais um grupo de empresários participaram da concorrência e foram preteridos pela Carimá que, um dia antes da data da concorrência, apresentou um simples requerimento e foi à vencedora. "Além da concessão dos dois canais de TV à Carimá, um outro caso já estava sendo motivo de análises na Assembléia Legislativa do Paraná antes ainda da decisão do Ministério das Comunicações anunciarem a suspensão. Trata-se da concessão da Rádio FM de Paranaguá para a empresa Radiodifusão Litoral Ltda., cujo dono é Sérgio Bianco, filho do atual delegado regional do Dentel/PR, Oswaldo Bianco. Essa concessão foi dada à radiodifusão através da Portaria 233 do Ministério das Comunicações no dia 3 de dezembro do ano passado, sem qualquer concorrência". 69. Minas Gerais “O apadrinhamento político foi decisivo em Minas Gerais nas últimas concessões para TV e rádio assinada pelo ex-ministro Haroldo Correa de Mattos (Governo Figueiredo)”. O critério trouxe à baila a antiga rivalidade política fica entre Biase Andradas, em Barbacena, da qual se beneficiou o chefe de jornalismo da TV Globo em Nova Iorque, Hélio Costa, apoiado pela segunda corrente, e que ganhou a FM de Barbacena, a ABC Rádio e Televisão. “Não acredito que o Governo, em época de Nova República, vã preocupar-se com coisa pequena”. Mas, se for retroagir, terá de voltar um pouco mais no tempo e, então, o ministro das Comunicações, Antônio Carlos Magalhães, terá de punir a si próprio - declarou ontem (22/3/85) o deputado estadual Samir Tannus (PDS), malufista, que confessou ter 'prestado ajuda política para resolver problemas' em favor de empresários amigos seus em Ituiutaba(Triângulo Mineiro), onde é majoritário. "Os empresários amigos de Samir Tannus, proprietários da Sociedade Rádio Cancela de Ituiutaba, venceram a concorrência da 17V Ituiutaba que terá penetração em todo o Triângulo Mineiro, norte de São Paulo, partes de Goiás e Mato Grosso do Sul, fazendo repetição da TV Manchete. O deputado informou que os vencedores já assinaram o contrato no Dentel e estão procedendo a compra dos equipamentos. "- Não acredito que a revisão se faça com base em critérios políticos, que seria o critério da perseguição - disse Samir Tannus, que garantiu não participar da sociedade que ganhou a concessão da 17 v Ituiutaba. 'Venceram os que

convenceram tecnicamente o Governo e que apresentavam as melhores condições', concluiu. “O atual presidente do PDS em Minas, deputado Cyro Maciel, com muita naturalidade, admitiu que sua atuação fosse decisiva na concessão da OM Piranga, para a Rádio Difusora de Piranga”. 'Eu encaminhei o processo: Emprestei o meu prestígio', disse o deputado, ao revelar que os vencedores da concessão de Piranga, sua cidade natal, são pessoas amigas suas. 'A meu ver, porém, venceu o edital, entre os dois concorrentes, a melhor proposta', completou, assinalando que 'não deve prevalecer critério político na revisão das concessões’. “Em Barbacena, o jornalista Hélio Costa há uns sete anos pede concessão para uma rádio FM”. Desta vez, apenas a Rádio Barbacena OM, dos Bias, concorreu com o jornalista. Com Crispim Jacques Bias Fortes sendo beneficiado pelo Acordo de Minas, ganhando a pasta da Secretaria de Estado de Segurança Pública e tendo entrado para o PFL, os Andrada, através do deputado federal Bonifácio Andrada (ex-vice-líder do PDS), donos da Rádio Correio da Serra, resolveram 'apadrinhar' Hélio Costa. “Eu não sei se o critério político funcionou”. Mas acho que o critério político deve pesar, mesmo que seja contra mim - disse Bias Fortes. "O maior peso político, porém, para beneficiar um concorrente, verificou-se em Juiz de Fora, na disputa pela 17 v Juiz de Fora- TV Tiradentes. Entre os sócio- vencedores estão: 1) o deputado federal José Carlos Raposo Fagundes Neto (PDS), representado pelo ex-deputado e ex-secretário Fernando Fagundes Neto; 2)o deputado estadual Fernando Junqueira (PDS); 3) o ex-prefeito Fernando Antônio Meio Reis (PDS), nomeado pelo ministro Murilo Badaró para diretor da Açominas. Todos políticos de Juiz de Fora, que tiveram, ainda, o apoio, junto ao Dentei de Minas, do deputado Fernando Rainho (PDS), votado na mesma cidade. “A minha participação foi de apoio político”. Não figuro na sociedade como proprietária. Eu e Meio Reis, como ex-prefeito, emprestamos o nosso prestígio político, solicitando a concessão para esse grupo, que entendemos ser o mais gabaritado para operar a televisão - declarou Fernando Rainho, acrescentando que a concessão foi publicada no Diário Oficial da União no dia 15 de janeiro, coincidindo com a reunião do colégio eleitoral que elegeu Tancredo Neves presidente. "Um assessor do atual prefeito de Juiz de Fora, Tarcísio Delgado (PMDB), informou que Meio Reis, Fernando Rainho e José Carlos Fagundes Neto, há mais tempo, foram os fundadores da 17 v Rádio Nova Cidade, repetidora da TVE". 70. Espírito Santo "A 17V Sombrasil de Cachoeira do Itapemirim pertence ao filho do Deputado Federal Teodorico de Assis Ferraço (PDS-ES), Marcus Vinícius Resende Ferraço, de 22 anos. E a concessão foi, segundo o parlamentar, ganha em concorrência pública, embora a firma do filho tenha concorrido sozinha. “E ele ainda conseguiu outras concessões: há três anos, uma rádio FM e outra AM em Cachoeira do Itapemirim”. E mais recentemente, também com efeito suspensivo, a Rádio Sombrasil de Vila Velha, que fica a apenas treze quilômetros de Vitória. Mas nessa, segundo Ferraço, concorreram oito firmas. Mas o deputado assegurou que não recorreram, para ganhar essas concessões, ao presidente João Figueiredo, todas ganhas em processos, regulares de concorrência pública. E eu não acredito que tenha nas demais havido tráfico de influências

porque o atual ministro das Comunicações, Antônio Carlos Magalhães, apesar de ter apoiado a candidatura de Tancredo Neves, também recebeu a concessão de urna TV na Bahia. Na área de rádios, as concessões suspensas, AM São Mateus, Rádio Difusora de São Mateus Ltda e FM Barram de São Francisco pertencem, respectivamente, ao ex-deputado federal Walter de Prá (PDS), ao deputado federal Pedro Ceolim (PDS- ES) e ao deputado federal José Carlos da Fonseca (PDS-ES)71. Paraíba A TV Cabo Branco já encomendou parte dos seus equipamentos no exterior, e um escritório de consultoria técnica em São Paulo enviou pessoal a esta capital para observar a topografia do terreno comprado para ela. Seus cotistas mais conhecidos são o vice-governador do Estado, José Carlos da Silva Júnior, próspero industrial, e o senador Milton Cabral, que até a pouco ocupava um cargo na Mesa do Senado. Completam o seu quadro de cotistas o irmão do senador, empresário Antônio Cabral Sobrinho, o presidente da Companhia de Habitação Popular da Paraíba (CEHAP), José Teotônio, muito ligado ao governador Wilson Braga. O ex-dirigente da Caderneta de Poupança Própria, Gilberto Sala Portela, o engenheiro e empresário da construção civil Giovani Petrucci e o médico Gilson Espínola Guedes, casado com a sobrinha do Ministro José Américo. “Um assessor do vice-governador José Carlos da Silva Júnior disse que ele recebeu a notícia da suspensão das concessões ‘com muita tranqüilidade’ e observou que não há motivos para preocupação, sobretudo porque as concessões não foram canceladas”. Argumentou que os canais foram disputados em concorrências das quais participaram grupos empresariais da terra, observando-se a legislação em vigor. NOTA DE RODAPÉ:

66 Ibidem. 67 Ibidem. 68 Ibidem. 69 Ibidem70 Ibidem. "O empresário Antônio Cabral Sobrinho, que já controla duas emissoras de rádio AM e FM em João Pessoa - a Arapuã -, mostrava-se tranqüilo e num telefonema ao vice- governador José Carlos da Silva Júnior, ontem (22/3/85) informou que não havia interrupção nos planos para a montagem da emissora de televisão, cujos projetos técnicos estão em fase de conclusão. "Segundo o empresário, para a compra do equipamento estão sendo mantidos contatos já com organismos financeiros, pois já é desejo do grupo obter um financiamento de 90% para pagar em cinco anos. Na área da comunicação, o vice- governador Silva Júnior já atua há algum tempo, mesmo antes de entrar para a política: é dono do Jornal da Paraíba, um diário editado em Campina Grande"72. Pernambuco O deputado estadual Argemiro Pereira (PDS-PE) lidera o grupo que recebeu a última permissão para exploração de um canal de radiodifusão do Governo passado. A informação foi comprovada pelo deputado Inocêncio Oliveira (PFL-PE), com base política na mesma região de Argemiro, Serra Talhada, no sertão pernambucano.

“Argemiro é conhecido em Pernambuco pela sua intransigente posição malufista”. Sua concessão foi outorgada pela Portaria número 126, assinada pelo ministro Haroldo Correa de Mattos no dia 15 de março último (1985), que se apressou em mandá-lo publicar na edição do mesmo dia 15 de março no Diário Oficial da União. Nessa disputa, Argemiro ganhou do deputado Inocêncio Oliveira, que já opera uma emissora OM em Serra Talhada, a Rádio Voz do Sertão, e, segundo acredita, teria prioridade para um canal de FM - corno o concedido a Argemiro - por 'já ter tradição no setor'. “Com a determinação do atual ministro das Comunicações, Antônio Carlos Magalhães, em rever todas as concessões e permissões efetuadas no período de outubro de 84 a 15 de março de 1985, ele pode ter sua concessão anulada”. “A luta pelo poder de informar e influir na opinião pública não privilegia, entretanto, políticos simpáticos ao candidato do PDS”. É o caso, por exemplo, da Rádio Guararapes Metropolitana FM, entregue ao grupo do deputado Geraldo Meio (PFL-PE). Localizada em Jaboatão, a emissora tem tudo para influir na área metropolitana do Recife. Geraldo, que já foi prefeito de Jaboatão pelo PMDB e de lá migrou para o PDS, de onde seguiu viagem para o PFL, tem evidentes interesses no assunto. "A portaria que dá permissão para o funcionamento da Guararapes Metropolitana foi assinada no dia 22 de janeiro, quando Geraldo já havia votado em Tancredo Neves, no Colégio Eleitoral" 73. São Paulo Analisando a relação de emissoras do Estado de São Paulo encontra-se o nome de vários deputados federais entre os cotistas e gerentes. O que é uma irregularidade, para dizer o mínimo, já que o artigo 34 da Constituição Federal diz que deputados e senadores não podem firmar ou manter contrato com pessoa de direito público, desde a expedição do diploma. “Essa proibição” não é do conhecimento do deputado Federal Jorge, Maluly Neto, 54, pedessista que votou em Tancredo Neves e aparece nos documentos oficiais do Dentel como sócio de três emissoras: Rádio Cidade de Araçatuba, Rádio Jóia de Adamantina e Rádio Líder do Vale. A esposa dele, Terezinha de Faria Maluly, está relacionada como sócia da Rádio Centro América e o filho, Jorge de Faria Maluly, na Rádio Clube de Mirandópolis. “O deputado Maluly Neto diz que não sabia da proibição constitucional, e que entrou no negócio por causa de um amigo, Jair Sanzone, mas admite que a esposa e o filho sejam sócios minoritários em emissoras de rádio”. “‘Fui portador de muitos pedidos”. Naquele tempo, era modismo se conseguir rádios e eu tive de participar também de alguma coisa. Mas não acho normal esse tipo de negócio. Deveria ter concorrência. E eu vou mais longe:estão dando muitas concessões, isso aniquila com as rádios já instaladas, com os que não têm tanto poder econômico. A maioria das concessões feitas foi por influência política, admite o parlamentar. “O deputado Natal Gale, do PDS, é outro que tem participação em várias emissoras”. Ë sócio majoritário da Rádio Difusora Princesa D'Oeste de Casa Branca e da Rádio independente Stéreo.

“O deputado Alcides Franciscato, do PDS, amigo do presidente João Figueiredo, é sócio da Rádio Jornal Cidade de Bauru e da Rádio Urubupungã, onde divide as cotas, democraticamente, com Roberto Purii, deputado estadual do PMDB”. Franciscato não vê nenhuma irregularidade nisso: "'Participamos de uma concorrência e ganhamos a concessão. Mesmo sendo deputado eu também tenho outros negócios. Ninguém pode negar o peso de ser deputado,mas nós preenchemos todos os requisitos. Não ganhei por ser amigo do presidente. E não é proibido um deputado conseguir uma rádio. Se fosse, poria em nome de um parente ou de qualquer outra pessoa que pudesse me representar(grifo do autor). “A Rádio Urubupungá, o deputado Franciscato disse que vendeu para Maluly Neto, porque não dava lucro”. “O ex-deputado federal e ex-prefeito de Osasco, Francisco Rossi, é sócio da Rádio Difusora Oeste”. “O presidente regional do PDS, Antônio Cunha Bueno, é sócio da Rádio”. Paranapanema e da Rádio Palmital. O irmão do deputado Nabi Abi Chedid, Jesus Adib Abi Chedid, é sócio da Rádio Técnica de Atibaia. E o deputado Gióia Jr., do PDT, aparece como cotista da Rede Central de Comunicação Ltda. ao lado do filho, e de Dinorah Fernandes Gióia Martins. “Gióia Jr., 53, diz que a rádio foi concedida no governo Geisel e que já vendeu sua parte, o mesmo ocorrendo com o filho”. Ele é membro da Comissão de Comunicação da Câmara dos Deputados e admite que entrou no negócio como um dos deputados mais votados da cidade. Na relação oficial do Ministério das Comunicações - que registra as concessões até maio do ano passado (1984) - não aparece o nome do deputado José Camargo, do PDS Mas contra ele, o prefeito de Itu, Lázaro José Piunti, 38, do PMDB, elaborou um verdadeiro dossiê. O prefeito pediu ao ministro das Comunicações, Haroldo Correa de Mattos, um canal para a Prefeitura, destinado à programação cultural. Não foi atendido, recebendo a resposta que a rádio estava destinada à iniciativa privada. Mais tarde, teria recebido a visita de José Camargo, que se dizia capaz de obter a concessão. “Em dezembro do ano passado (1984), foi concedida urna FM para o grupo do ex- prefeito e deputado Galileu Bicudo, do PDS”. E em janeiro, Itu ganhou outra FM, para o grupo do ex-deputado-federal Rui de Almeida Barbosa, do PDS de Campinas. Por trás das duas rádios estaria José Camargo, que teria o controle acionário de vinte FM sem todo o Estado. O deputado José Camargo não foi localizado pela Folha. Seu filho, José Ernesto Camargo, e um irmão, João Carlos Camargo, dirigem a FM Pool em São Paulo e a Iguatemi (AM) de Osasco, cujas cotas são do deputado, em sua maioria. “O deputado estadual Hélio César Rosas é um dos donos da rádio Difusora de Assis há vinte anos”. Mas condena o atual sistema de concessões: 'Não faço parte desse esquema pernicioso - explica. Sou vítima dele. Assis tem setenta mil habitantes e quatro rádios - duas AMS, duas FMS. A maioria foi entregue aos políticos do PDS nos últimos anos. E agora, o deputado Cunha Bueno está instalando uma na vizinha Palmital. Não há quem resista a essa concorrência. Todas as rádios vão operar no vermelho, inclusive as antigas' “74”.

No coração da Nova República Com essas referências que abrangem alguns aspectos da situação de nove Estados, pode-se ter uma idéia do grau de comprometimento da radiodifusão brasileira com os interesses que predominaram nos vinte anos de ditadura militar. Se aqui incluíssemos dados de mais Estados, ou informações mais detalhadas sobre cada Estado, mais evidentes ficariam estas características da atual situação da radiodifusão brasileira: a de ser marcada pela corrupção, pelo tráfico de influências e pela ilegitimidade. Certamente haveria, forma mais sistemática, de apresentar esse quadro. Como isso foge ao objetivo específico deste trabalho; preferimos apresentar esses ilustrativos flagrantes colhidos pela imprensa no calor dos acontecimentos. Quem se dispuser a fazer uma análise completa dessa situação estará prestando um inestimável serviço à história e à luta pela democratização da radiodifusão, mas certamente não enfrentará uma tarefa fácil. Em primeiro lugar, porque esta realidade envolve uma situação muito dinâmica. Como vimos vários cotistas de emissoras, relacionados em documentos oficiais do Ministério das Comunicações, já haviam vendido suas cotas sem que a transferência estivesse devidamente apurada. E é assim que a manipulação privada funciona: uns solicitam concessões para não colocar emissoras no ar, só querem eliminar a concorrência; outros são os testas-de-ferro; outros querem concessões apenas para vender e o Ministério a tudo tolera com exceção de uns raros casos em que se aplica o provérbio popular: "para os amigos, tudo, para os inimigos, a lei ". Em segundo lugar, porque o Ministério das Comunicações manipula tanto as concessões como os registros e informações sobre os seus atos. Há muita dificuldade em reunir informações sobre as centenas de renovações, autorizações, permissões e transferências que ocorrem a cada ano. Até mesmo fontes do Ministério têm dificuldade em fazer essa análise: poucos têm acesso livre a esse tipo de informação. Para encerrarmos esse panorama, vamos apresentar três últimos registros que ajudam a explicar porque essa seara de privilégios permanece intocada no terceiro ano da Nova República. São alguns registros que mostram que a impunidade que marca esse estado de coisas está profundamente arraigada no coração da Nova República. O Ministro, seus amigos e parentes. O deputado Elquisson Soares (PMDB-BA) denunciou no plenário da Câmara Federal, em março de 1985, que o ministro das Comunicações, Antônio Carlos Magalhães, controla - através do seu filho, do seu genro e de, outros parentes - 85%do capital da TV Bahia recém-inaugurada em Salvador. A concessão foi outorgada em 7/5/84 e a instalação aprovada em 2/8/84. Apesar de terem sido registradas modificações técnicas em 3 1/12/84, o mais novo canal de televisão da Bahia foi inaugurado apressadamente em 10/3/85, três dias antes da indicação oficial de Antônio Carlos Magalhães para o Ministério das Comunicações 75. No final de 1986, estourou o escândalo das trocas de favores entre Antônio. Carlos Magalhães e Roberto Marinho. Na repercussão pública das denúncias, destacaram- se dois episódios. No primeiro, Magalhães usou ostensivamente seu poder de

Ministro ajudando Marinho a arrancar do empresário Mário Garnero o controle da indústria de telecomunicações NEC. NOTA DE RODAPÉ: 71 Ibidem: 72 Ibidem. 73 Ibidem. 74 FOLHA DE SAOP AULO: Figueiredo fez 634 concessões... op. cit.

No segundo, Marinho tirou da TV Aratu da Bahia, os direitos de retransmissão da Rede Globo e os concedeu à TV Bahia. E então a denúncia do deputado Elquisson Soares, feita quase dois anos antes, passou a ser de domínio público: o próprio Ministro das Comunicações controla indiretamente uma concessão de televisão. “Há dezoito anos, a TV Aratu, de Salvador, funciona em associação com a Rede Globo, retransmitindo sua programação para todo o Estado da Bahia”. Os contratos são renovados automaticamente, de três em três anos, sem a menor burocracia. No início de dezembro, a diretoria da emissora recebeu a informação de que não interessa mais da Rede Globo renovar o contrato com a TV Aratu, que vence a 20 de janeiro (de 1987). Confirma-se, assim, na prática, o que o ministro das Comunicações vinha alardeando, sem constrangimentos, a seus amigos: que, de janeiro em diante, seria dele a programação da Rede Globo, na Bahia. Isto é, a retransrnissora passaria a ser a TV Bahia cujos acionistas principais são César Mota Pires, seu genro, Luis Eduardo Magalhães, seu filho, e Oscar Maron, seu cunhado. “A direção da TV Aratu tentou, naturalmente, negociar, e ainda não entregou os pontos, mas tem esbarrado em informações peremptórias”. A primeira diz que a decisão não tem nenhuma motivação de deficiência técnica ou jornalística; ao contrário, a Aratu, entre todas as coligadas, é das que recurso principalmente para burlar os limites legais de propriedade e diversas finalidades escusas. Em 1979, num debate público, o Secretário de Radiodifusão do Ministério das Comunicações, Lourenço Chehab, colocou todos os empresários de radiodifusão sob suspeita ao admitir publicamente que este ministério não tem condições para impedir o controle indireto das concessões. Mais que um desaparelhamento circunstancial, a inexistência de qualquer iniciativa para evitar essa ação criminosa dos concessionários demonstrou que o Ministério das comunicações efetivamente não tem interesse em resolver o grave problema e é conivente este tipo de situação melhor se comportam. 76 A segunda constatam que a decisão foi 'pessoal, do Dr Roberto'. Aparentemente, ela contraria a opinião de influentes funcionários da própria Globo. Mas o Dr. Roberto mantém-se irredutível. "Uma nota plantada, na semana passada, numa coluna social de alta leitura, a respeito das tratativas que o Dr. Ulysses Guimarães (presidente nacional do PMDB) fez com o Dr. Roberto Marinho, na sexta-feira, 12 (de dezembro de 1986), antes de despejar a dinamite na mesa de Sarney, tentava veicular a versão dos acusados Primeiro, de que se trata de um negócio privado, a quem ninguém mais interessa. Segundo, de que não passa de uma rusguinha paroquial entre adversários políticos, já que a TV Aratu é ligada ao senador Luís Viana Filho, hoje no PMDB. O poder que beneficia e influencia, porém, é o de um ministro de Estado" 77. NOTA DE RODAPÉ: 75 A denúncia do deputado baiano levantou, mais uma vez, o grave problema do controle indireto das concessões. Esse tipo de suspeita é autorizado pelo próprio Ministério das Comunicações que tem se confessado desaparelhado para coibir o controle das concessões por "testas-de-ferro" que se valem desse

76 "Na realidade, a TV Aratu de propriedade de Neston Tavares, Luís Viana Neto, Humberto Castro e Carlos Jesuíno é das coligadas da Rede Globo, a que tem a rentabilidade mais alta, com um faturamento mensal de cerca de 12 bilhões de cruzados e considerada pela própria rede como a que possui uma equipe jornalística comparável às de São Paulo e Rio de Janeiro. Além disso, a TV Aratu, coligada da Rede Globo há 18 anos, chega a 319 municípios dos 336 que compõem o Estado da Bahia. Os índices de audiência nunca foram menores que 85%, os mais altos de toda a rede. A TV Bahia, por outro lado, não entra em 110 municípios, fatura mensalmente cerca de 2 bilhões de cruzados e tem um dos menores índices de audiência de toda a Rede Manchete, à qual está coligada: cerca de 2%, segundo informações do PMDB baiano". In. AFINAL. Uma novela baiana. op. cit. 77 SENHOR. Dinamite contra da Rede Globo... op. cit., p.37-8.

O governador da Bahia, Waldir Pires, tão logo foi eleito, em 1986, aumentou junto com a bancada peemedebista a pressão - contra o ministro Antônio Carlos Magalhães - sobre o presidente Sarney. A falta de resposta precipitou uma interpelação direta a Sarney: "Há poucos dias (janeiro de 1987), o próprio presidente do PMDB baiano, Genebaldo Correia, levou ao Palácio do Planalto uma carta- denúncia onde à transação Globo - TV Bahia era apresentada como ‘... uns fatos essencialmente políticos, como o são todos os vinculados à radiodifusão'. A resposta não veio. Os deputados tentaram então marcar uma audiência com José Sarney. Não conseguiram. A decisão da bancada, então, foi ir até o Palácio do Planalto diretamente para cobrar uma atitude do presidente. (...) No final da manhã da última terça-feira, dia 13 (de janeiro de 1987), o presidente José Sarney foi obrigado a disfarçar seu humor, sorrir para fotografias e receber - mesmo fora da agenda - 20 dos 25 deputados eleitos que compõem a nova bancada federal do PMDB baiano, além do senador Juthay Magalhães. (..)Sarney, constrangido, confessou ao deputado Domingos Leonelli que já havia feito tudo para contornar a situação. 'Mas não tive sucesso. Há uma intransigência do Roberto Marinho nesse assunto. Ele alega que essa é uma transação meramente comercial."78 Ao comentar os fatos denunciados com evidência de favorecimento à Globo, o ministro Antônio Carlos Magalhães, assumindo uma postura que é muito própria, reagiu com um tom ameaçador: "Antônio Carlos Magalhães, em entrevista à 'Folha de São Paulo', mostrou que se for arrastado, arrasta gente com ele: "Tudo o que fiz foi discutido em despachos com o Presidente da República"'79 A TV Aratu não se conformou com a decisão da Rede Globo e obteve no dia 15 de janeiro de 1987 a concessão de uma liminar, pedida em ação cautelar, que determinou a continuidade da exibição da programação da Rede Globo. Esta liminar, concedida pelo juiz Luiz Fux, das 9° Vara cível, do Rio, visava assegurar os direitos da TV Aratu "pelo menos até o julgamento de uma ação ordinária" que seria impetrada dentro de um mês80 - Os advogados da Rede Globo solicitaram, ao juiz da 9° vara cível, reconsideração e suspensão da liminar, o que foi negado no dia 21 de janeiro 8l. No dia seguinte, os advogados da Rede Globo voltaram à carga e impetraram mandado de segurança no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, “pedindo revogação da liminar que beneficiou a TV Aratu”. 82 No dia 23 de janeiro, sexta-feira, a TV Bahia começou a transmitir a programação da Rede Globo. Deste dia até a tarde de segunda-feira, da Rede Globo foi retransmitida, simultaneamente, pela TV Aratu e pela TV Bahia, deixando perplexos os telespectadores baianos. No dia 25, domingo, da Rede Globo finalmente obteve a cassação da liminar conseguida pela TV Aratu, impedindo que esta medida cautelar solicitada pela TV Aratu contra a TV Globo, no episódio do rompimento unilateral do contrato da transmissão de sua produção na Bahia, fez surgir informações sobre um assunto tratado com muita reserva: a relação da Rede Globo com as empresas "afiliadas".

As informações surgidas demonstraram que da Rede Globo, "de fato", controla suas afiliadas: “Ao se referir à natureza das relações entre as duas emissoras, Bermudas (Sérgio Bermudas, advogado da TV Aratu) argumentam que existe uma evidente superioridade contratual’ da estação do Rio em relação à de Salvador”. 'Foi um negócio pelo menos estranho', reagia o jurista e diretor da TV Aratu, professor Milton Tavares, ao receber ontem pela manhã (26/1/87) em seu gabinete um documento do desembargador Hermano Duncam Ferreira Pinto, da Justiça do Rio de Janeiro, com despacho do diretor-geral do Dentel, Rubens Busacos, com data de 25, domingo, com a determinação para deixar de retransmitir a programação da TV Globo. O desembargador deu seu parecer num domingo, no Rio de Janeiro, que nesse mesmo domingo deve, supostamente, ter sido levado para Brasília, onde deveria estar o diretor-geral do Dentel e, já na segunda-feira pela manhã, logo cedo, estava aqui na TV Aratu o diretor regional do Dentel para fazer cumprir a decisão judicial' - comentou Tavares. (...) "A liminar do desembargador cassou liminar anterior do juiz Luiz Fux, da 9~ Vara Cível, que impedia da Rede Globo de romper unilateralmente o contrato com a Aratu. Sérgio Bermudes (advogado da TV Aratu) comentou que o juiz Fux, ao conceder a primeira liminar, oficiou ao Dentel para que o órgão oficial garantisse sua determinação, mas o Dentel respondeu que não tinha competência para isso. " No entanto, quando o desembargador Ferreira Pinto concedeu liminar beneficiando da Rede Globo, o Dentel imediatamente mandou ofício à TV Aratu, mandando que a decisão fosse cumprida, sob pena de a emissora ser lacrada com a presença de força policial - disse o advogado. Bermudes lamentou que o Dentel tivesse tratado do mesmo assunto de maneiras tão diferentes"83 A TV Aratu, por isso, denunciou o Dentel por "crime de prevaricação" num documento intitulado patifaria da grossa e pediu reconsideração ao Tribunal de Justiça do Rio 84 - Mas no dia 28/1/87, "por unanimidade - oito votos a zero - o Conselho da Magistratura do Estado negou o recurso interposto por Sergio Bermudes, advogado da TV Aratu, e manteve liminar do desembargador Hermano Duncan Ferreira Pinto, que permite à TV Globo romper o contrato de transmissão que mantinha com aquela emissora de televisão' '85 No fechamento desta edição, os últimos registros sobre o caso demonstravam a determinação da Rede Globo para fazer valer a vontade de seu diretor-presidente, Roberto Marinho. Independentemente do desfecho, esses fatos servem como exemplar ilustração do jogo de poder que condiciona a radiodifusão brasileira. As denúncias contra o ministro Antônio Carlos Magalhães, surgidas no início de 1987, não se limitaram ao episódio Globo - TV Aratu. “Logo ao assumir o Ministério, Magalhães denunciava o favorecimento do governo Figueiredo na concessão de emissoras de rádio e TV.”. 'Houve uma orgia de concessões tanto de emissoras de rádio como de TV, a partir do mês de outubro (de 1984), o que caracteriza clientismo e favoritismo', dizia Antônio Carlos Magalhães. E completava: 'A intenção é moralizar a concessão de emissoras'. Hoje, quase dois anos depois, Antônio Carlos Magalhães declara não duvidar 'que haja um ou outro caso de benefício. '86 'Entretanto - disse Magalhães - as concessões são rigorosamente estudadas e só são liberadas face aos estudos feitos pelos organismos do ministério. ' O ministro declarou também que, quando há 'problemas de segurança' envolvidos em alguma concessão, 'o Ministério das Comunicações se aconselha com os órgãos competentes, essencialmente o Conselho de Segurança Nacional e o SNI. O ministro disse que pretende "defender" no Congresso constituinte o atual"sistema de

concessões" (que depende de decisão pessoal do presidente da República) para a exploração comercial de emissoras de rádio e televisão. “Ele declarou possuir vários estudos” sobre a conveniência da manutenção deste sistema, e ter conversado sobre o assunto em despachos com Sarney”.87 NOTA DE RODAPÉ: 76 "Na realidade, a TV Aratu. de propriedade de Neston Tavares, Luís Viana Neto, Humberto Castro e Carlos Jesuíno é. das coligadas da Rede Globo, a que tem a rentabilidade mais alta, com um faturamento mensal de cerca de 12 bilhões de cruzados e considerada pela própria rede como a que possui uma equipe jornalística comparável às de São Paulo e Rio de Janeiro. Além disso, a TV Aratu, coligada da Rede Globo há 18 anos, chega a 319 municípios dos 336 que compõem o Estado da Bahia. Os índices de audiência nunca foram menores que 85%, os mais altos de toda a rede. A TV Bahia, por outro lado, não entra em 110 municípios, fatura mensalmente cerca de 2 bilhões de cruzados e tem um dos menores índices de audiência de toda a Rede Manchete, à qual está coligada: cerca de 2%, segundo informações do PMDB baiano". In. AFINAL. Uma novela baiana. op. cit. 77 SENHOR. Dinamite contra da Rede Globo... op. cit., p.37-8. 78 AFINAL. Uma novela baiana. op.cit.p.72. 79 SENHOR. O atacado do Sr. Globo. op. cit. p.44. 80 Jornal do '3rasil. TV Aratu vai continuara exibir programas da Rede Globo. Rio, l6 jan. 1987. p.8. 81 FOLHA DE SÃO PAULO. Globo pede reconsideração de liminar e juiz rejeita. São Paulo. 22jan. 1987. p.a. 82 lbidem Advogado na petição - mas quer apenas demonstrar o que esta situação acarretou: “Para tornar possível a existência” de uma relação contratual tão rígida e de tão longa duração, a TV Aratu se estruturou, se expandiu, se organizou, se adaptou, se equipou e endividou e contraiu toda sorte de obrigações, tudo para preservar o negócio proveitoso para ambos, como é testado pela ausência de queixas. "A Aratu, hoje (janeiro de 1987), depende visceralmente da Rede Globo, sustenta o jurista, e tem na continuidade do contrato o fator essencial e insubstituível da sua sobrevivência como empresa, já que não poderia, de uma hora para outra, abruptamente, recompor-se, a toque de caixa, para viver realidade diferente. 84 JORNAL DO BRASIL. TV Aratu quer liminar para voltar à Globo. Rio, 28 jan. 1978. p.12. 85 JORNAL DO BRASIL. Conselho da magistratura nega imagens da Rede Globo à TV Aratu.Rio,29jan l9W7.p17. 86 FOLHA DE SÃO PAULO. Magalhães admite casos de "benefícios" nas concessões. São Paulo, l5jan. l978.p.S.

“Em agosto de 1985, em debate na Câmara dos Deputados, Antônio Carlos Magalhães defendia a extinção do Imposto Sobre os Serviços de - Comunicação (ISSC) e a reformulação do Conselho Nacional de Telecomunicações”. Mas, de maneira nenhuma, queria retirar do presidente da República o direito de decisão sobre uma concessão ou a cassação de uma emissora. Hoje, embora afirme que as concessões são 'rigorosamente estudadas', está sendo desmentido pelo deputado Domingos Leonelli. “Segundo o deputado”, Antônio Carlos Magalhães 'deu duas rádios FM na área do Pólo Petroquímico de Camaçari' uma para o jornalista Carlos Libório, coordenador da campanha de Josaphat Marinho, o candidato de Antônio Carlos Magalhães ao governo da Bahia derrotado por mais de 1,5 milhão de votos em novembro, e outra para o deputado federal eleito Benito Gama, ex-secretário da Fazenda no governo João Durval. Em Salvador, o ministro deu a concessão de mais duas rádios FM: uma para Kleber Prachedes, um de seus assessores, e outra para Luís Lula Laranjeiras, seu sócio na Construtora Santa Helena.

"Mas foi na extinção do Imposto Sobre Serviços de Comunicação que o ministro voltou a favorecer a Rede Globo, possibilitando a implantação de retransmissoras a cada 1.000 quilômetros, a um preço baixo, aumentando, assim, a capacidade da rede"88 No coração da Nova República, palpitam as forças que mantêm a Velha República no ar. Os negócios da família Tancredo “ Além “do gosto pela política, Aecinho Cunha, que é candidato a”. Tancredo Neves, também nos negócios. Seu pai. Aécio Cunha tem uma rádio em Teófilo Otoni e o avô tinha a sua em São João Del-Rey. Agora (maio de 1986), Aecinho entrou em concorrência junto ao Dentel para ser contemplado com a concessão de três emissoras de rádio: uma em São João, a Rádio FM Colonial, em sociedade com o tio Tancredo Augusto, que toca a rádio AM herdada de Tancredo Neves, as outras em Cláudio, onde a família Neves tem uma fazenda, e Divinópolis, por onde estende sua influência política”.89 O parceiro comercial de Silvio Santos no Maranhão "Dono de um jornal e de uma rádio FM, o presidente Sarney vai inaugurar no Maranhão em junho (1986), com a Copa do Mundo, a TV Mirante, uma concessão que lhe foi presenteada pelo presidente João Figueiredo. Apesar de sua amizade com Roberto Marinho. Sarney irá transmitir a programação de Sílvio Santos para não se meter em novos problemas políticos em sua terra. Da Rede Globo já é retransmitida em São Luís pela TV Difusora, do deputado Magno Bacelar, seu aliado no PFL, que não admite perder a concessão"90. CENAS DE GANGSTERISMO Os problemas da radiodifusão brasileira, obviamente, não se restringem à existência da Rede Globo. As distorções são conseqüências da política de radiodifusão adotada pelos governos militares e mantida sem reparos pela Nova República. Esta política de radiodifusão reduz o serviço público a uma atividade meramente privado- comercial Mas é uma política tão incoerente que nem esse caráter privado-comercial é adequadamente administrado: não há avaliação de mercado para viabilizar as emissoras, as concessões são superpostas indiscriminadamente e a abrangência geográfica das emissoras é aumentada arbitrariamente, só para citarmos alguns aspectos. Enfim, impõe-se à radiodifusão um caráter privado-comercial, mas não há sequer uma lógica comercial orientando este modelo. Nesse quadro, tendem a predominar dois tipos de emissoras: as controladas pelas grandes redes de rádio e televisão e as obtidas pelos apadrinhados do poder. As concessões acabam servindo apenas para contemplar diretamente o poder econômico e o poder político. A radiodifusão brasileira chegou a um ponto em que simples reformas são inúteis, isto é, não é possível afirmar o interesse público com a simples definição de critérios democráticos, a serem aplicados às próximas outorgas de concessões. A grande maioria das concessões tecnicamente possíveis no Brasil foi distribuída até o governo do general Figueiredo. Além de restarem poucos canais e freqüências disponíveis, é preciso destacar que a absoluta maioria das emissoras atualmente concedidas o foi por um processo viciado, corrupto e antidemocrático. Não há como democratizar a radiodifusão brasileira sem uma completa redistribuição das concessões, visando a

desconcentração da propriedade e dando prioridade a entidades socialmente representativas. Só uma completa reorganização da radiodifusão brasileira pode superar o atual quadro de ilegalidade e ilegitimidade. É necessário ressaltar também que esta reivindicação é amparada na legislação vigente que, apesar de limitada e autoritária em muitos aspectos, define o caráter precário das concessões e atribui ao Governo autoridade para dispor legalmente dessas concessões, visando o interesse público. Não há argumento jurídico, ético ou político aceitável - mesmo do ponto de vista da tradição liberal que legitima a propriedade - capaz de justificar a manutenção da submissão privada e político-partidária que caracteriza esse serviço público no Brasil Essa situação é muito mais inaceitável se nos posicionarmos ao lado dos setores operários e populares, que se coloca numa perspectiva antagônica à opressão capitalista. A origem dessas aberrações da radiodifusão brasileira pode ser buscada em muitas causas. Mas uma delas, sem dúvida, é a sustentação econômica e política desse modelo de radiodifusão pela Rede Globo. Foi a política de operação em rede, imposta pela Rede Globo, que estruturou o mercado, tal como o encontramos hoje. Pelo seu poderio econômico, absorvendo mais de 40% da totalidade das verbas publicitárias investidas no País, a Rede Globo impõe uma organização ao mercado. Por outro lado, o controle que mantém sobre a Associação Brasileira das Emissoras de Rádio e Televisão (ABERT), controle este que as afiliadas da Rede Globo reproduzem sobre as entidades regionais, garante um poderoso braço de sustentação política desse modelo. Controlando as entidades representativas das emissoras de radiodifusão, o sistema da Rede Globo faz predominar seus interesses e neutraliza as manifestações das pequenas e médias empresas que são sufocadas pela concorrência dos oligopólios. Pelo poderio político e econômico, que permite à Globo comportar-se como um poder autônomo e incontrolável, podemos dizer com convicção que o maior problema da radiodifusão brasileira é o monopólio dessa empresa. Não é o único problema, mas sem dúvida é o maior por ser a expressão mais gigantesca e acabada de um modelo comprometido com interesses antipopularess e antinacionais. Com a Nova República, da Rede Globo teve seu poder fortalecido. Por isso, mais do que nunca é necessário conhecer da Rede Globo e seus porões. O desvendamento do passado e do presente da Rede Globo constitui um subsídio valioso para entendermos não só a empresa de Roberto Marinho, mas também a natureza da própria Nova República. Uma Nova República que sustenta da Rede Globo e nela se sustenta. Há muito que aprender nas cenas de gangsterismo que marcaram a implantação da Rede Globo. Essa história, que se tenta dissimular, que se procura manter secreta, precisa ser descrita em todos os seus detalhes. Não há como tratar um assunto desses com assepsia acadêmica. A história da Rede Globo exige um relato que popularize a sua compreensão. Na descrição do gangsterismo, por exemplo, estamos fixando um aspecto da trama que levou da Rede Globo ao poder - e das ações ilegais planejadas - e com isso procuramos aproximar do senso comum o absurdo da existência e da ilegitimidade de um monopólio dessa natureza numa área de enorme interesse público. Entender que a implantação ilegal é o primeiro passo para uma crítica mais profunda do seu papel político na dominação e opressão das maiorias. O processo de conciliação deflagrado pela Nova República imobilizou os setores que poderiam se antepor ao poder desmedido que os meios de comunicação de massa, especialmente os eletrônicos, desfrutam no Brasil. É preciso sacudir as

consciências eticamente comprometidas com os interesses operários e populares. É preciso que as maiorias passem a impor, cada vez mais, seus interesses nos sistemas de comunicação de massa. NOTA DE RODAPÉ: "Em 1985m da Rede Globo chegou a induzir a Aratu a expandir suas instalações, encaminhando-lhe um layout para essa ampliação. Cumprindo a determinação - relata Bernardes na petição - a Aratu encomendou no exterior sofisticado e dispendioso equipamento, que nem sequer foi ainda integralmente recebido, bem como iniciou, de acordo com as especificações daquele layout, a construção de três pavimentos, hoje em fase de acabamento." ( In: Jornal do Brasil, TV Aratu vai continuar... op. Cit). 87 Ibidem. 88 AFINAL, Uma novela baiana. Op. Cit. P. 74. 89 VEJA. Aecinho quer concessões de rádio em Minas. São Paulo, 7 mai. 1986, p.35.90 VEJA. Sarney se associa o Sílvio Santos na TV. São Paulo, 30abr., 1986, p. 35.

II SÍNTESE DA HISTÓRIA DA RADIODIFUSÃO NO BRASIL INTRODUÇÃO DA TECNOLOGIA E PRIMEIRO SISTEMA NACIONAL: 1919 a 1945 Uma síntese da história da radiodifusão brasileira deve relacionar o desenvolvimento dos meios eletrônicos de comunicação e a evolução econômica, política e cultural da sociedade. Esse relacionamento dos meios com o contexto social exige uma rápida revisão da história do Brasil desde a virada do século. Como traço mais geral da evolução da sociedade brasileira no século XX apontamos a dependência externa que é síntese de uma inter-relação histórica de causas e efeitos. É a dependência externa, simultaneamente, resultado e razão de uma correlação interna de forças sociais. Podemos apontar a dependência como a feição exterior, fenomênica, da luta de classes no Brasil. Destaca-se a dependência externa como traço marcante da sociedade brasileira neste século, como expressão das contradições internas e externas de nossa formação econômico-social. O principal motivo que leva a balizar a história da radiodifusão com a evolução da dependência externa é a decisiva determinação que as relações internacionais exercem na configuração da comunicação de massa no Brasil. A pressão das potências internacionais gerou no Brasil uma tendência "modernizadora" das relações capitalistas, com a imposição de um perfil empresarial, tecnológico e político para as empresas de comunicação. Por isso, a dependência externa reflete- se de modo particularmente agudo na organização dos meios de comunicação de massa. E manifesta-se com cristalina evidência na utilização econômica e política das modernas tecnologias de comunicação. Nessa linha de observação, constatamos três grandes fases da radiodifusão brasileira. Na primeira, introduz-se no país a tecnologia; na segunda, cria-se o primeiro grande sistema nacional de comunicação, promovido e controlado pelo Estado; na terceira, internacionalizando-se a economia, internacionalizam-se também os meios de comunicação de massa que se expandem violentamente, afirmando progressivamente a hegemonia da atuação privado-comercial. Interiorização da tecnologia: 1919 a 1930

O desenvolvimento dos meios de comunicação no Brasil, no inicio do século, seguiu a tendência predominante nas relações internacionais. Na medida em que a produção dos países industrializados excedia a demanda interna, os equipamentos iam sendo colocados à disposição do mercado mundial, especialmente dos países compelidos pela divisão internacional do trabalho a exportar produtos primários e importar produtos industrializados. A introdução da tecnologia de radiodifusão no Brasil, pela simples importação, corresponde a um momento de expansão do capitalismo monopolista no plano internacional. E corresponde, no plano interno, a um período de ascensão de uma burguesia industrial e comercial que disputava a hegemonia política com as oligarquias rurais ligadas à produção agrário- exportadora. No ano de 1919, aqui tomado como o ano do surgimento da radiodifusão brasileira, assinala-se a criação da Rádio Clube de Pernambuco, uma entidade de caráter associativo e cultural, como outras tantas sociedades rádios-emissoras que desde então foram implantadas em diversas unidades da federação. Até 1930, existiam funcionando pelo menos dezenove emissoras 1. Nos primórdios de seu desenvolvimento, predominou na radiodifusão brasileira seu caráter cultural, mantendo-se relativamente desvinculada do sistema produtivo, ao contrário do verificado nos Estados Unidos, onde as indústrias eletrônicas iniciaram operando as emissoras para estimular a venda de receptores. Nos Estados Unidos, a radiodifusão desde logo foi manipulada pela indústria e pelo comércio em geral, como instrumento de intervenção no mercado. 2 Nas primeiras décadas do século, para vencer as dificuldades causadas pelo fechamento do mercado internacional provocado pela 1 Guerra, ocorreu no Brasil um brando processo de industrialização que, embora restrito à indústria alimentícia e outros setores industriais pouco dinâmicos, foi decisivo para a superação do modo colonial de produção e também para a ascensão política das burguesias industrial e comercial e dos produtores rurais que incorporavam as relações capitalistas 3. O desenvolvimento do caráter capitalista da economia brasileira intensificou a integração da radiodifusão ao sistema produtivo. A partir de 1925, a publicidade comercial generalizou-se como meio de financiamento e as emissoras passaram a desenvolver suas potencialidades econômicas atuando como estimuladoras de mercado. As rádios-sociedade e rádios-clube transformaram-se em empresas. E essa redefinição das bases econômicas de sustentação das emissoras provocou uma imediata reorientação da programação que se popularizou na busca quantitativa de audiência4. O mercado publicitário em expansão atraiu, já em 1928, a penetração das subsidiárias das grandes agências estrangeiras de publicidade com a instalação da N. V/. Ayer and Son, representando os interesses da Ford. No início da década de 30 chegariam a J W. Thompson e a McCan Erickson, sempre atendendo as contas de grandes empresas estrangeiras. Muito mais do que simples produtoras de anúncios publicitários, as agências estrangeiras atuaram com programadoras de uma "economia política" da radiodifusão e da imprensa. Captando e distribuindo criteriosamente as verbas publicitárias, as agências estimulavam um modelo político para a imprensa e a radiodifusão, e viabilizavam-no economicamente. O primeiro sistema nacional de comunicações: 1930 a 1945A nova retração do mercado internacional causada pela crise mundial do capitalismo de 1929 aguçou violentamente as contradições da sociedade brasileira. O novo

golpe no modo de produção de base agrário-exportadora atingiu duramente as oligarquias rurais que sustentavam uma dependência estrutural da economia brasileira ante o capitalismo mundial. A reação das burguesias industrial e mercantil, aliadas os setores trabalhistas e de classe média, contra o domínio das oligarquias, pressionou a adaptação do sistema produtivo a uma base urbano-industrial, capaz de permitir o enfrentamento das crises continuamente importadas do exterior. A revolução de 1930 impôs a ruptura do poder oligárquico e a emergência das classes comprometidas com um desenvolvimento capitalista menos atrelado aos centros hegemônicos do capitalismo mundial. Era um nacionalismo ambíguo e limitado, sendo acompanhado de uma aliança com os setores populares que são excludentes no plano político. Houve uma ruptura do poder político das oligarquias, mas não se criaram antagonismos entre as classes dominantes. O novo pacto social, acima de tudo, preservava a estrutura de classes. Desde 1930, e especialmente depois do golpe que levou à implantação do Estado Novo em 1937, o Governo Federal passou a servir como intermediário nas negociações sobre a política econômica. Foram criados órgãos e instituições que fortaleceram e dinamizaram as ações do Executivo e o Estado, ao exercer sua função planificadora, operava regulando as perdas e ganhos entre os diversos estratos e grupos de classe capitalista. O setor industrial passou a ser o centro da atividade planificadora e a regulamentação do trabalho, a política cambial e os investimentos em infra-estrutura destinaram-se prioritariamente à sua expansão. Apesar disso, o novo modo de acumulação mantinha e adaptava a base primitiva à base capitalista urbano-industrial. A acumulação não-capitalista verificada nos setores primário e terciário foi, inclusive, necessária à expansão da forma capitalista industrial de produção.51 Coincide com essas profundas transformações econômicas e sociais a constituição de um sistema nacional de comunicação que expressa a conjunção de duas forças que atuavam sobre a radiodifusão - e também sobre a imprensa - nesse período. Por um lado, há um aprofundamento do caráter comercial das emissoras, que corresponde a uma maior assimilação da radiodifusão pelo sistema produtivo. Por outro lado, há a pressão do Estado, especialmente através do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), que estabelecia as normas de censura e distribuía as verbas da publicidade oficial, conformando um papel político para a radiodifusão, orientado para o fortalecimento do "poder central"6. Além da intervenção cotidiana do DIP, foi criada a "Hora do Brasil", um programa diário de divulgação dos atos oficiais, que é mantido até hoje, com retransmissão obrigatória e simultânea por todas as emissoras de rádio no território nacional. Já em 1931, poucos meses após a eclosão do movimento revolucionário, foi formulado um modelo institucional para a radiodifusão brasileira cujas bases, no fundamental, permanecem até nossos dias7. Neste modelo, os serviços de radiodifusão são executados por entidades públicas e privadas, mediante a concessão do Executivo outorgada em caráter precário. Esse regime jurídico especial dava ao Estado o pleno poder de arbitrar sobre as concessões, com critérios aparentemente técnicos, mas que no fundamental são políticos. O rádio, nesse período, ainda que restrito aos grandes centros urbanos, pelo custo relativamente alto dos receptores e pela dependência da eletricidade, foi o grande instrumento de promoção dos novos valores culturais correspondentes às transformações econômicas e sociais que estavam em marcha. O controle da radiodifusão pelo Estado assegurou a sua relativa imunidade ante a influência estrangeira e pressionou a difusão dos "valores culturais" e da "ideologia

nacionalista" ligados à sociedade capitalista urbano-industrial em expansão. A radiodifusão consolidou-se, assim, como um instrumento político particularmente eficaz de mediação entre as classes capitalistas dominantes, as classes médias e as massas trabalhadoras. A organização econômica da radiodifusão (sob o controle do capital privado ou diretamente pelo Estado) e sua institucionalização política (através de um sistema jurídico especial que a mantém atrelada ao Estado, além de meios informais de pressão) asseguraram às classes dominantes a orientação da sua atuação. Marginalizados desse controle político e econômico da radiodifusão, por sua vez, as classes populares nunca chegaram ater o controle de seu conteúdo. O projeto de "capitalismo nacional", entretanto, não resistiu à pressão imperialista e da burguesia associada ao capitalismo internacional. O fortalecimento das Bases populares e a ameaça de permanência de Getúlio com o poder legitimado pelo voto, depois de quinze anos de governo autoritário, tiveram como resposta o Golpe Militar de 1945, alguns meses antes das eleições para a Presidência. A deposição de Vargas, com a justificativa de derrocar o Estado Novo e seus vícios, atendia à necessidade de instalação de um governo mais afinado com as potências imperialistas, especialmente com os Estados Unidos. Iniciou-se então um processo de agudização da dependência externa da qual o Brasil não se livrou até os dias atuais. A INTERNACIONALIZAÇÃO DO SISTEMA DE COMUNICAÇÕES: 1945 a 1987 Acontra-ofensiva imperialista: 1945 a 1950 Imediatamente após a deposição de Vargas, liberalizou-se a economia e estabeleceram-se estreitos limites no plano político. A Constituinte de 1946 foi pressionada por grupos econômicos e o entreguismo ficou patente com a ascensão política da União Democrática Nacional (UDN). Entre 1945 e 1946 foram gastas superfluamente as divisas acumuladas durante a II Guerra. A política salarial foi conduzida exclusivamente de acordo com os critérios do desenvolvimento das empresas privadas e, entre 1946 e 1950, o salário-mínimo não foi reajustado uma só vez. A importação da Guerra Fria, por outro lado, foi acompanhada da perseguição aos partidos de oposição e da repressão política generalizada9. Desde o início da II Guerra, os EUA passaram a realizar "operações culturais" que, como "frentes ideológicas", garantiram as justificativas de sua hegemonia sobre o mundo capitalista. Ao assistencialismo dirigido aos países subdesenvolvidos foi acoplada a difusão de todo o aparato tecnológico de imprensa, cinema, indústria fonográfica e das agências de publicidade. As empresas estrangeiras, notadamente as norte-americanas, passaram a dominar a economia e o mercado publicitário, consistindo praticamente no único sistema de financiamento das empresas jornalísticas, editoras e emissoras de rádio e assim, "porque as mantinham e lhes permitiam realizar lucros, logo, as condicionavam" 10. O aparato que fora montado para apoiar a propaganda ideológica da frente anti-Eixo da II Guerra Mundial foi reorientado no sentido leste-oeste, alimentando a "guerra-fria" e voltado contra os setores populares em cada país. Nesse contexto, principalmente a partir da II Guerra, a imprensa e a radiodifusão passaram a permear diretamente os valores culturais do imperialismo. Inverteu-se

assim a condição "nacionalista" do sistema de comunicação de massa no Brasil. Na medida em que essas tecnologias aprofundavam sua integração ao sistema produtivo e na medida em que a política econômica escapava do controle das classes empenhadas na construção de um capitalismo nacional, passavam ao controle da burguesia associada ao capital estrangeiro. Fortalecendo-se como estrutura de poder, os meios de comunicação de massa prosseguiam favorecendo a adequação da ideologia dominante às relações de produção capitalista em evolução, agora, porém, subordinados mais diretamente às imposições das forças imperialistas e da burguesia associada. Retomada populista: 1951 a 1954 A volta de Getúlio pela via eleitoral, em 1950, encontrou um processo, irreversivelmente desencadeado no plano internacional, de avanço das torças imperialistas que intensificaram sua interferência política, econômica e cultural nos países periféricos. A reorientação do intervencionismo estatal, novamente voltado para um projeto de expansão da economia com a participação de capital e tecnologia estrangeira, mas sob controle nacional, renovou as tensões com o imperialismo. Desenvolveu-se no Governo e especialmente no Exército - uma campanha de repressão contra os que pugnavam por posições nacionalistas. O Estado era corroído por dentro pelos aliados da internacionalização da economia. Enfraquecido em sua oposição à aliança conservadora, o projeto de desenvolvimento capitalista autônomo, representado por Getúlio Vargas, era obrigado a "pagar um preço" mais alto em troca do apoio das classes populares. A presença ascendente dos setores populares, em especial do operariado urbano organizado nos sindicatos, determinava o surgimento de novas contradições que, progressivamente, deterioravam a posição "nacionalista". É nesse período que a Central Intelligence Agency (DA), norte-americana, começa a operar no país. E os grandes jornais, financiados pelas agências de publicidade estrangeira e pelas grandes empresas multinacionais, moveram violentas campanhas contra o governo, conseguindo, entre outras concessões, a demissão do ministro do Trabalho, João Goulart. Os Estados Unidos desestabilizaram a economia com uma série de medidas, entre as quais: Bloqueio às exportações de café. O jornal "última Hora", apoiado por Vargas, foi massacrado por receber financiamento de órgãos públicos, o que era comum mesmo entre os jornais que promoviam a arrasadora campanha de perseguição. Ficou comprovado que "O Estado de São Paulo", o "O Globo" e o “Correio da Manhã’ foram remunerados pela publicidade estrangeira para moverem campanhas contra a nacionalização do petróleo, conforme investigou em 1957 uma Comissão Parlamentar de Inquérito da Câmara Federal 12”. O apoio da maioria das empresas jornalísticas e de radiodifusão (inclusive a televisão, que surge em 1950) à aliança conservadora foi fundamental na definição desse período histórico. As campanhas políticas movidas pelos meios de comunicação de massa, com denúncias verdadeiras de casos de corrupção ou mesmo calúnias, comprometiam a percepção que o proletariado, as classes médias e a burguesia nacionalista tinham do processo histórico em marcha. Impotentes para conceber uma estratégia de ação, os setores nacionalistas foram surpreendidos pela armadilha montada pelas forças imperialistas e seus aliados brasileiros. A utilização estratégica dos meios de comunicação, posta em prática neste período, vinculou indissoluvelmente os grandes grupos que operam nos diversos ramos da indústria

cultural no Brasil aos grupos estrangeiros. Mas a utilização política dos meios de comunicação de massa, experimentada na queda de Getúlio, foi só o preâmbulo do papel ideológico que lhes seria atribuído nas décadas seguintes. Abertura da economia: 1954 a 1960 Com Juscelino Kubitschek na Presidência, instaurou-se uma nova ideologia de desenvolvimento no país. Em Juscelino e em Vargas o desenvolvimento está ligado à idéia de industrialização. O que difere um do outro é a presença do conceito de "autonomia econômica" que é primordial em Getúlio e que parece ser secundário ou distinto em Juscelino. A associação com o capital estrangeiro foi importante, principalmente, pela modernização do sistema produtivo, com a diversificação da produção e a sua "atualização" tecnológica. Liberalizou-se a entrada de capital estrangeiro e seus vultosos investimentos pressionaram a implantação de infra- estrutura em larga escala 13. A acentuada internacionalização da economia também se refletiu na organização econômica dos meios de comunicação de massa. As agências de publicidade estrangeira passaram a controlar o mercado publicitário gerado pela volumosa inversão de capital praticada pelas empresas - igualmente estrangeiras - instaladas no Brasil. Os meios de comunicação de massa, especialmente algumas empresas, desenvolveram-se e sofisticaram-se tecnologicamente com a concentração do capital. Financiadas direta e indiretamente pelo capital estrangeiro, essas empresas passaram a atuar como estrutura de poder que mediavam os interesses do imperialismo e da burguesia associada. Nesse período, a televisão começou a adquirir crescente importância na captação de verbas publicitárias. Na segunda metade da década de 50, evidenciava-se uma tendência de queda nos investimentos publicitários no rádio e aumento das inversões aplicadas na televisão. O rádio, em 1950, captava em torno de 24% dos investimentos publicitários, caindo para 14% em 1960. A televisão, surgida em 1950, já participava, em 1960, com 9% de verba publicitária. Isto, apesar do pequeno número de receptores de televisão registrado em 1960(cerca de um milhão) em relação ao número de receptores de rádio (cerca de seis milhões). Em 1956 realizaram-se as primeiras experiências de operação em rede, entre o canal 13 do Rio de Janeiro e o canal 7 de São Paulo através de um link de microondas' 5. Em 1957 chegaria ao Brasil o vídeo - tape que revolucionaria o modo de produzir televisão, embora só tenha sido amplamente difundido a partir do início da década de 60. Crise da democracia representativa: 1961 a 1964 A estratégia de desenvolvimento baseada no capital e na tecnologia estrangeira, empreendida no governo Kubitschek, aguçou as contradições internas, acirrando a luta de classes e a resistência anti-imperialista. A renúncia de Jânio Quadros e as dificuldades para a posse do vice-presidente João Goulart, só assegurada por intensa mobilização popular, mostraram a gravidade das tensões existentes. Em todo este período há a ameaça de enfrentamento dos setores nacional-populistas e a burguesia associada ao capital estrangeiro, que comandava o séqüito das classes

médias angustiadas com a crise social e amedrontadas com os fantasmas ressuscitados da Guerra-Fria. A crise social, elaborando a crise econômica, provocou uma queda violenta nas inversões de capital nos principais setores da economia, pois ampliavam-se as barreiras políticas e institucionais16. As classes trabalhadoras avançavam, reivindicando soluções que foram enfeixadas nas Reformas de Base e que nunca chegariam a ser implementadas. Mais uma vez ficou demonstrado que o projeto nacionalista dependia crescentemente dos setores populares e menos do capital nacional, o que praticamente inviabilizava qualquer projeto de conciliação: entre o avanço das classes populares e o projeto pró-imperialista da burguesia associada, a burguesia "nacionalista" só podia ficar ao lado das forças que sustentariam o capitalismo no Brasil 17. A estrutura de poder, configurada pela atuação de diversas empresas de comunicação manobradas pelo imperialismo ou por seus agentes nacionais, foi movimentado contara o Estado. O Executivo foi bombardeado por denúncias de corrupção, incompetência, irresponsabilidade e ilegalidade. Os meios de Comunicação controlados pela publicidade estrangeira, assumiram estas e esforçaram-se, por um lado, para desmobilizar os setores que reivindicavam as mudanças sociais e, por outro lado, para instigar toda a sociedade contra o poder legalmente constituído. A economia brasileira foi novamente desestabilizada pelos EUA. Atuaram abertamente no país entidades financiadas por empresas nacionais e estrangeiras, pela CIA e outros órgãos norte-americanos, em apoio à conspiração. O Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (IPE 5) - que ocupou um lugar central como instrumento de organização e intervenção da burguesia industrial e financeira associada ao capital estrangeiro - e o Instituto Brasileiro de Ação Democrática (IBAD) foram duas das principais entidades que compraram o apoio de órgãos de comunicação, financiaram campanhas, corromperam parlamentares e criaram o apoio logístico (inclusive com armamentos) para o golpe que se gestava. Foi nesse contexto que uma nova estratégia das forças imperialistas, em relação aos meios de comunicação, começou a delinear-se. Em 1961 surgiram os contratos elaborados inconstitucionalmente entre as organizações Globo e o grupo norte- americano Time-Life, que iriam transformar aquele grupo empresarial brasileiro na maior potência econômica na área da comunicação na América Latina. As dificuldades institucionais, entretanto, só permitiram que os contratos fossem plenamente executados após 1964. O modelo de desenvolvimento econômico adotado no período pós-64 levou a grandes investimentos públicos em infra- estrutura de telecomunicações. Criou-se assim um setor de serviços públicos que modernizaria as telecomunicações no Brasil e constituiria demanda para a produção da indústria eletrônica transnacional que se instalou no país. Só após o golpe de março de 1964, porém, é que foram criadas as condições econômicas e institucionais para o desenvolvimento de um sistema nacional de telecomunicações e de radiodifusão compatível com as novas exigências do capitalismo internacional. O sistema global: 1964 a 1987 Com a derrubada, em 1964, do governo constitucional, o desenvolvimento baseado no capital e na tecnologia estrangeira desenfreou-se. O Executivo usurpou as funções do Legislativo e até mesmo do Judiciário. A concentração de poderes facilitou as relações com os centros do capitalismo mundial criando-se as condições

institucionais favoráveis à reprodução do capital em altas taxas, pressionada pelo aporte de capital estrangeiro desenvolveu-se infra-estrutura de serviços públicos em larga escala. O Estado passou a atuar como um importante fator de estímulo à acumulação do capital privado. O caráter do desenvolvimento dos meios de comunicação de massa no Brasil revela a importância das tecnologias de comunicação no processo de evolução das relações capitalistas mundiais. A comunicação de massa apresenta-se como um elemento vital na inversão da conquista pela agressão armada por uma estratégia de domínio pela "base filosófica" e pelo "colonialismo cultural". Verificam-se, neste processo, três diferentes estágios nas relações internacionais'8. O primeiro era um "simples subproduto do contato entre diferentes grupos", e foi o que persistiu durante mais tempo na história da humanidade. O segundo é a imposição intencional de uma cultura dominante sobre uma cultura dominada. Era causa e também efeito de "guerras, comércio, organização de hegemonias e rivalidades entre impérios". Deste período, "das grandes explorações e da colonização", passou-se para o terceiro estágio, no qual existe um intenso intercâmbio e um fluxo bidirecional entre nações e povos, entre dominantes e dominados. Neste estágio, as complexas instituições resultantes de igualmente complexas relações sociais, são mobilizadas de maneira sistemática para interferir nas sociedades dominadas. Assim, hoje assistimos à atuação de um "complexo industrial eletrônico agressivo e poderoso trabalhando para expandir o sistema sócio-econômico, espacial e ideologicamente" l9. Essa tendência acentuou-se na década de 70 com a expansão da atuação dos setores da indústria eletrônica norte-americana que foram beneficiadas com a acumulação intensiva gerada pelas inversões maciças do Estado na indústria bélica (especialmente durante a guerra do Vietnã) e aeroespacial. A produção da indústria eletrônica foi então voltada para a introdução de sofisticadas tecnologias de comunicação e informática nos países do terceiro mundo. Esse fluxo econômico e tecnológico, além dos interesses imediatos da indústria eletrônica, atua como apoio logístico para a instalação das transnacionais que operam em diversos setores da economia e que necessitam de instrumentos de estimulação de mercado20. Dentro do processo de expansão e modernização do sistema produtivo no Brasil, foi instalado um gigantesco sistema nacional de comunicações, composto por uma avançada infra-estrutura de serviços de telecomunicações e por dezenas de emissoras de televisão, centenas de emissoras de rádio e dezenas de milhões de receptores de rádio e televisão. A economia sofre um processo de concentração de capital e tecnologia que alijou pequenas e médias empresas, em todos os setores, e fez surgir imensos oligopólios. Paral