Índios mbyá, Pesquisas de Humanidades. Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos)
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fabricioboesing7 de Junho de 2015

Índios mbyá, Pesquisas de Humanidades. Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos)

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Mbyá-Guarani Educação tradicional e

Implantação de escolas nas aldeias

SUMÁRIO

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INTRODUÇÃO........................................................................................................ 2

1. GUARANIS...............................................................................................

.........3

1.1. Mbyá- Guarani...............................................................................................3

2. FOCO DA PESQUISA – EDUCAÇÃO TRADICIONAL E IMPLANTAÇÃO DA ESCOLA NAS ALDEIAS....................................................................................4

1.2. Os Guarani Mbyá e o Guata Porã................................................................4

1.3. Educação indígena e identidade étnica.......................................................5

1.4. Os Guarani Mbyá e o processo de implantação das escolas nas aldeias...5

1.5. As visões guarani sobre a escola.................................................................7

CONCLUSÃO.......................................................................................................10

REFERÊNCIAS.....................................................................................................1 1

ANEXOS...............................................................................................................12

INTRODUÇÃO

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A pesquisa tem por objetivo, aprofundar os conhecimentos sobre uma determinada sociedade pertencente ao tronco linguístico Tupi, nominada Mbyá- Guarani ou Guarani Mbyá, em que o foco de estudo será nas formas de transmissão do conhecimento dos habitantes mais velhos e experientes às crianças das aldeias. Também será apresentada, a visão da população Mbyá referente à implantação de escolas dentro de suas comunidades.

Os dados provêm de pesquisas em livros, artigos, depoimentos e páginas da web, fontes: 2009.

A elaboração da pesquisa foi realizada em conjunto entre os integrantes do grupo, em que foram divididos os subtemas para agilizar a obtenção dos dados e não sobrecarregar cada indivíduo, assim facilitando a assimilação do conteúdo e o entendimento do mesmo.

O presente texto está dividido em títulos e subtítulos que definem o tema a ser tratado no trecho.

1. GUARANI

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1.1. Mbyá-Guarani

A Comunidade Mbyá-Guarani pertence ao tronco linguístico Tupi, família Tupi-Guarani e dialeto Mbyá. Os Guarani estão divididos em três parcialidades étnicas: Ñandeva, Kayová e os Mbyá.

Segundo contam os mais velhos aos mais novos, os Mbyá-Guarani tem uma história milenar, que surgiu junto com o princípio da Terra. Primeiro os Deuses criaram os homens e os ensinaram a viver segundo seus costumes e possibilitar seu crescimento, Ñhanderu (O Deus Pai do povo) criou as mulheres. Para os Guarani o universo está povoado por almas sagradas e almas perigosas.

Os Mbyá-Guarani vivem em várias aldeias situadas no Paraguai, Argentina, Uruguai e Brasil. No Brasil a grande maioria vivem em acampamentos e terras indígenas localizados principalmente nos estados do RS, SC, PR, SP, RJ e ES.

Os Guaranis foram uma das populações mais afetadas durante a Guerra do Paraguai, foram obrigados a lutar tanto do lado paraguaio quanto do lado brasileiro. Não existem estimativas quanto ao número de guaranis, entre guerreiros e civis, mortos nesta guerra, uma vez que eram classificados como camponeses e soldados pelo estado paraguaio nas políticas de negação étnica, muito comuns à época.

A Guerra do Paraguai é considerada um dos maiores massacres da história das Américas. Os historiadores divergem enormemente a respeito do número de mortos e do tamanho do território perdido pelo Paraguai. Na história oral Mbyá, existem diversas narrativas em torno da Guerra do Paraguai. Muitas falam das terríveis violências sofridas pelos antepassados, do alistamento obrigatório que levaria os homens às frontes de batalha e da evasão das regiões onde ocorreu o conflito.

Suas aldeias caracterizam-se por uma população pequena e a organização social gira em torno de uma família extensa e da liderança religiosa tradicional ou política. Em constante migração entre estas áreas, os índios desta etnia vivem em busca da “Terra sem mal”, onde eles poderiam viver a plenitude dos seus costumes. A divisão dos trabalhos desenvolvidos na aldeia tem relação com o dom, missão e aptidão de cada Mbyá e seu desenvolvimento sempre em favor da comunidade. O líder religioso (Karaí) trabalha o espírito, o cacique administra e o pescador, o caçador, o coletor e o plantador provêm o alimento. A cultura Mbyá- Guarani sobrevive e se expressa através de rituais e do conhecimento passado de geração em geração. Ela está baseada em um profundo respeito à vida, aos deuses e uma forte ligação com o meio natural. O Guarani traz em si a espiritualidade, o amor à terra e à natureza, a preservação de seus costumes e de sua tradição.

1. FOCO DA PESQUISA – EDUCAÇÃO TRADICIONAL E IMPLANTAÇÃO DA ESCOLA NAS ALDEIAS

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1.2. Os Guarani Mbyá e o Guata porã

Os Guarani Mbyá estabeleceram-se no município de Aracruz após a realização de uma longa caminhada, denominada por eles como o guata porã, que partiu do Rio Grande do Sul, por volta de 1940, chegando ao estado em meados de 1960. O guata porã pode ser entendido como o caminho sagrado percorrido pelos Guarani em busca da Terra sem Mal, Os Mbyá foram forçados a retirarem-se de suas terras no Rio Grande do Sul, devido ao conflito com fazendeiros locais que desejavam se apropriar de suas áreas para o plantio de erva-mate. Em 1967, a partir da instalação da empresa Aracruz Celulose, iniciou se a luta dos Tupinikim e dos Guarani pela posse da terra. O conflito tornou-se intenso, com a ocupação de terras indígenas por posseiros e a ação violenta da empresa que a todo instante manipulava a identidade étnica alegando não haver índios no estado, pois eles já estavam bastante aculturados. O conflito fundiário permaneceu por aproximadamente quarenta anos. A primeira fase da luta durou de 1967 a 1983, período que abrange a chegada da empresa até a demarcação das terras indígenas em 4.490 hectares. Com a demarcação das terras, os Guarani passaram a viver na parte ao sul do território indígena tupinikim de Caieiras Velhas. A segunda fase ocorreu de 1993 a 1998, que corresponde ao encaminhamento da ampliação de terras à assinatura do Termo de Ajustamento de Conduta com a empresa. A terceira fase teve início em 2005, com a realização da assembleia das duas etnias para reivindicar a ampliação dos 11.009 hectares. Após quatro décadas de luta pela terra, os índios Tupinikim e Guarani do Espírito Santo finalmente tiveram os 11.009 hectares homologados, em 2007. No momento, aguardam a demarcação de suas terras. O Estado os reconheceu apenas em 1973 oficialmente a presença de índios.

O povo Guarani Mbyá sustenta sua língua, o mais forte elemento de sua identidade, através da comunicação oral, que é o mais rápido sistema para a educação das crianças, e na divulgação de conhecimentos e comunicação entre aldeias. Com a pressão de serem poucos na sociedade os Mbyá falam o português com fluência e a grande maioria dos idosos, mulheres e crianças são monolíngues. o Mbyá um linguajar do idioma Guarani, que pertence à família Tupi-Guarani, Esta língua tão antiga e ao mesmo tempo tão falada por diferentes povos indígenas inclui o Brasil, Paraguai, Argentina, Uruguai, Bolívia, e no Paraguai. Historicamente, os Mbyá não se submeteram e fugiram da dominação dos colonos e da imposição cultural das missões jesuítas. Este grupo possui uma forte identidade cultural e linguística .Mbyá significa “gente”, pelo fato de as relações humanas entre os índios serem muito fortes e importantes para sua cultura. No Brasil, os Mbyá ocupam regiões próximas às faixas litorâneas do Sul e Sudeste. Os indígenas da etnia Guarani sofreram muito preconceito e confisco de terras, pois foram considerados “aculturados” por usarem roupas normais ,também sendo considerados como desinteressados por não lutarem por suas terras, mas na realidade, os Guarani são um grupo de cultura nômade e lutar por terra contraria seus valores. Os Guaranis são um povo diplomata e pacífico, mas ao longo da história desenvolveram

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mecanismos para a preservação de sua cultura. E embora eles tenham sofrido muitas pressões por “usarem roupas” comuns, grande parte de suas tradições e valores estão preservados. o tekoa são os lugares onde os Guarani formam suas aldeias. O teko pode significar “ser, estar, sistema, lei, cultura, norma, tradição, comportamento, costumes”. O tekoa consiste então no lugar onde existam condições apropriadas ao exercício do modo de ser guarani Mbyá.

1.3. Educação indígena e identidade étnica

A etnia Guarani Mbyá valoriza o conhecimento individual experimentado ao longo da vida

Oralidade é a forma de transmissão de saberes mais aceita entre os Guarani Mbyá e as falas ocorrem no opy (casa de reza Guarani), localizada próxima ou mesmo agregada à casa do tamõi, casa de referência em aconselhamento dirigido especialmente às crianças, em que idosos, adultos e até mesmo jovens podem falar, isto é, cabe à sociedade o processo de socialização das crianças. Quanto aos rituais, o canto e a dança sempre são dirigidos para a comunicação com a divindade, para os Mbyá e a maior parte das sociedades indígenas.

A sabedoria religiosa nativa dirige suas idealizações concebidas em torno de uma entidade superior teocêntrica chamada “Nhanderu”, Nhanderu não é propriamente um criador. Para os Mbyá, um orvalho primitivo chamado de xapy, deu origem ao embrião da terra e aos deuses que tal como os humanos, surgiram de uma mesma origem impessoal das coisas, criadora e não criada por deus algum.

As práticas religiosas dos Mbyá são frequentes e se estendem por muitas horas. Orientadas pelo dirigente espiritual as “rezas” também voltam-se às situações e necessidades corriqueiras (colheita, ausência ou excesso de chuva, problemas familiares, acontecimentos importantes, imprevistos etc.). Os Guarani Mbyá de hoje também sabem que suas crianças podem ser enganadas pela escola, talvez por isso adiem sua instalação completa.

1.4. Os Guarani Mbyá e o processo de implantação das escolas nas aldeias

Meliá (1979), em sua obra Educação indígena e alfabetização, estabelece a diferenciação entre educação indígena e educação para o indígena. Para Meliá, a educação indígena faz parte dos processos próprios de aprendizagem dentro da cultura nativa, isto é, a forma como o índio ensina a cultura e a tradição, através do seu modo de ser, dos costumes, da sua cosmologia, das relações sociais, da religião, dos mitos, dos ritos, das atividades da caça, da pesca e do artesanato. A educação assume um aspecto globalizante, é voltada para a vida e para a manutenção da cultura e da sociedade. Já a educação para o indígena refere-se à utilização da escola como espaço de civilização e transmissão de saberes da cultura ocidental sobre os povos nativos, sendo utilizada desde os tempos da colonização,

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perdurando até as ações das missões religiosas em pleno século XX. Paladino (2001) analisa a educação escolar enquanto discurso e prática dos diversos sujeitos, como os indígenas, o governo, as ONGs e os cientistas sociais. Através dos documentos oficiais, das pesquisas científicas e dos depoimentos indígenas, a autora procura verificar por que há um consenso dos sujeitos em relação à educação escolar quanto à necessidade de uma escola diferenciada, específica e bilíngue e a visão da escola como mantenedora da cultura. A autora realiza a sua pesquisa observando o curso de formação dos Guarani/ Kaiowá no Mato Grosso do Sul. Através da análise de discurso das fontes escritas e orais, e por meio da observação do cotidiano do curso de formação de professores, Paladino traça um painel complexo da realidade investigada no Mato Grosso do Sul em consonância com a realidade nacional. Paladino nos revela a educação escolar como um assunto que emerge de um espaço de conflitos políticos, escondidos através do consenso no discurso de que a escola deve ter um currículo, um conteúdo e um material próprio e elaborado por indígenas. Segundo a autora, a força dos conceitos e dos enunciados dos discursos é tão marcante que acaba por apagar as diferenças de políticas estatais. Ao investigar a comunidade de Dourados, no Mato Grosso do Sul, Paladino observou posições conflitantes acerca do papel da escola. Para os mais velhos, a escola era vista como um espaço não indígena que ameaçava a manutenção da cultura, uma vez que eles associavam a escola ao trabalho do branco e externo à aldeia, pois muitos Guarani/ Kaiowá eram obrigados a se deslocar para a cidade, no trabalho das usinas de açúcar, alterando a rotina na comunidade, deixando de participar dos rituais. Outro conflito revelado pela autora é a divergência religiosa entre os Guarani, pois existem aqueles que preservam a sua antiga religião e outros que optaram por religiões evangélicas. Esta diferença religiosa acaba entrando em conflito com o propósito do curso, que é o de manter e preservar a cultura. No entanto, os Guarani evangélicos acreditam que a cultura deve ser separada da religião, compreendendo ambos os aspectos como dissociados. Outro exemplo de conflito interno diz respeito ao papel do professor, em muitos casos, visto como uma ameaça ao poder da chefia local e excluído das reuniões da comunidade pelo cacique. Além dos conflitos dentro da comunidade, causados pela escolarização, ocorrem ainda os conflitos externos entre indígenas e sociedade envolvendo ONGS e governo.

1.5. As visões guarani sobre a escola

Os Mbyá-Guarani apresentam visões distintas sobre o papel da escola em suas aldeias e essas visões variam conforme os grupos sociais envolvidos, como os mais velhos e as lideranças políticas, os pais e os professores.

Mais velhos e lideranças políticas

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Para os mais velhos e as lideranças políticas, a escola é apenas mais um espaço de educação guarani. É constante a referência aos processos próprios de aprendizagem dentro da cultura indígena. Nesse sentido, para os Mbyá, um dos espaços primordiais para adquirir o conhecimento é a Opy, Casa de reza. Lá aprendem sobre a religião, a natureza e as normas de conduta social. Outro elemento central consiste na valorização dos mais velhos, considerados os verdadeiros professores e conselheiros.

Até os anos 90 do século passado, mais velhos e as lideranças políticas rejeitavam a implantação das escolas dentro de suas aldeias, eles acreditavam que a presença dessa instituição possuía uma função civilizatória através do ensino do português, e que perderiam suas tradições ao longo do tempo. No entanto, a escola deixou de significar para eles um espaço sinônimo de civilização e passou a constituir-se como espaço instrumental na medida em que possibilita aos índios mecanismos de defesa política e oportunidades de igualdade social diante do mundo “exterior a aldeia”.

A seguir, o depoimento de uma liderança política de um povo Mbyá, Werá Djekupé:

“As crianças já vão aprendendo carinho, amor com as pessoas, respeito com plantas, a educação com mais velhos, não entrar na casa dos outros à toa, não mexer com as coisas dos outros, não mexer com as plantas, não tirar plantas verdes, não consumir plantas verdes, entendeu? Ter respeito com os outros, entendeu? A geografia da vida através da explicação dos mais velhos, através da explicação do grande espírito. Ali que funciona tudo, os cânticos que as crianças aprendem são cânticos milenares. Então, cada conselho é supremo e o professor é o yraidjá, o conhecimento da nossa tradição, da reza e da dança, tudo é educação pra nós. O aprender para os Guarani não se restringe apenas a um espaço, quer seja a escola ou a Opy, mas aprender está contido em diversas situações de que podem tirar alguma lição de vida.”

Neste depoimento é possível entender as regras sociais como o relacionamento do índio com a comunidade e os mais velhos. A relação dos Guarani com a natureza é de profundo respeito. Mesmo que os animais e as plantas sejam destinados ao consumo, o Mbyá acredita que cada elemento vivo possui um espírito e, portanto, deve ser preservado.

Pais e mães

Os pais e as mães guarani consideram a escola um local onde as crianças devem aprender primeiramente a língua portuguesa e os conhecimentos do mundo não indígena. Interpreta-se tal visão da escola levando em conta a relação existente entre a sociedade indígena e a sociedade envolvente não indígena. Eles acreditam que a escola pode lhes fornecer o conhecimento do mundo djuruá e dessa forma conseguirão relacionar-se em condições de igualdade com a sociedade não indígena. Exemplo disso é o domínio da língua portuguesa que permite que eles consigam se comunicar quando precisarem ir ao hospital, ao comércio e à cidade. Também possibilita que conheçam melhor o mundo da escrita através do entendimento de leis e que não sejam lesados nos cálculos durante a venda de artesanato.

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De acordo com as mães, a escola no espaço da aldeia consiste em um meio de comunicação com o mundo exterior, conforme podemos observar nos depoimentos a seguir:

“A escola é muito importante para as crianças porque mais pra frente vão ser o futuro. Eles vão aprendendo muito pra trazer muitas coisas importantes pra aldeia. Aprender na escola não esquecer a língua e não perder a cultura da gente e outros estudos como o português pra não ter dificuldade. Quando sair lá fora, falar bem o português e trazer informações para aldeia. A escola é boa e é pertinho. Antes, eu não deixava as crianças estudar porque tinha que ir lá fora. Agora as crianças estudam na aldeia, isso vai ajudar muito porque as crianças não vão passar dificuldade porque não entendem o português, As crianças não vão ficar dependendo de outras pessoas. Lá em Santa Catarina não falava português porque minha avó não deixava estudar.”

Os pais acreditam que a escola constitui-se como espaço gerador de ascensão social, constituindo-se como o lócus preparatório para que os filhos exerçam profissões de prestígio na sociedade envolvente, como médicos, advogados, entre outras. Afirmam que o índio assegurado com igualdade de oportunidade possui a mesma capacidade que os brancos para exercer qualquer profissão. Ao afirmarem a sua identidade étnica, os Guarani opõem-se a situações de descaso e preconceito vivenciados diariamente e lutam contra os estereótipos de índio preguiçoso, incapaz, inferior e atrasado.

“Acho que o índio tem capacidade. Ele aprende. Tem capacidade pra ler, pra aprender, pra escrever, o que qualquer um que o branco faz. Se ele entra na sala de aula pra ser um astronauta, um juiz de direito, um advogado. Já temos guarani advogado, não aqui, mas lá no sul. Em São Paulo, já temos advogados guarani que tão na faculdade. Esses já avançaram mais um pouquinho, mas o estado no Espírito Santo, só tem um índio guarani que estudou até certo ponto que hoje ele é pedagogo, acho que ele faz não sei se é letras ou uma coisa assim. [...] Na verdade, a gente estuda pra se comunicar, pra se conviver com as pessoas, socialmente. Não importa se negro, se é branco, se é amarelo, o que importante é a pessoa ter educação. Aprender a viver nessa vida, não importa se é negro se é branco, porque na vida a gente tá de passagem mesmo [...]. O homem branco por discriminar, não entender direito, acha que o índio é incapaz, mas o índio é capaz. Pode aprender a escrever, pode aprender ser professor, pode ser um piloto de avião, pode ser qualquer coisa entende, pode ser engenheiro, pode ser qualquer coisa, como o filho do branco é.” (Werá Djekupé)

“A educação escrita ajuda para o futuro, a criança depois que avançar, pode avançar na cultura guarani porque sem estudo, sem saber ler, a gente sempre viveu em inferioridade. Os governantes não reconhece os índios como pessoas capazes, os mais velhos querem que os jovens voltem para o estudo, porque disso os povos guarani é reconhecido. Sem estudo como vão conseguir ler, escrever, entender o que se tá passando lá fora. Se a escrita está defendendo os índios para eles saberem para essa época e para o futuro.” (Kwaray Hatá Miri)

Professores

Os professores acreditam que devem ensinar tanto a cultura nativa como a cultura da sociedade envolvente. Assim como os pais, pensam que a escola possibilita a aquisição dos conhecimentos do mundo não indígena, como o domínio do português, e, dessa forma poderão ter condições de lidar com a sociedade ocidental e enfrentar o preconceito. Também compreendem a escola como um espaço de ensino da cultura indígena e não indígena. Acreditam que a instituição

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exógena pode recuperar os aspectos da tradição e da cultura considerados perdidos, conforme podemos observar através da afirmação da professora:

“O ensino deveria voltar mais para a cultura, porque hoje em dia, alguns não sabem pescar, capinar e a importância da plantação, então fica difícil. Fazer tipo de armadilha, ter aula prática para ensinar armadilha. Hoje em dia as crianças nem conhece andar na trilha e ver o tipo de remédio, não tem plantação.” (Kerexu Reté)

Os professores possuem em comum com os alunos os relatos de preconceito vividos ao estudarem em escolas não índias, conforme podemos verificar nos depoimentos que se seguem:

“Bom, estudei de 1ª a 4ª série na aldeia e estudei de 5ª a 8ª em escola não índia. Mais ou menos, foi bom sim. Foi meio difícil porque a gente fala duas línguas. Fica mais complicado pra gente entender. Mesmo português, a gente tem que entender em guarani, pra depois responder as perguntas, fazer as tarefas, aí ficava mais difícil, né. Discriminação a gente sempre enfrenta. Até hoje sofre um pouco. Tem gente que não gosta de índio. Fala que índio é feito bicho e não sei o quê. A gente já tá até acostumado com isso. E hoje é a mesma coisa.” (Karaí Djekupé Mirim)

“Estudei em escola não índia. Por um lado foi bom e por outro foi um desafio, porque a gente é muito discriminado. Eu mesmo briguei em Coqueiral e em Rio Bananal, pros próprios colegas meus não me inferiorizar. Agora eu luto pela minha defesa e pela defesa do meu povo, pela nossa cultura. Antigamente eu não tinha palavras e nem tinha argumentos. Hoje, se as pessoas me criticarem eu tenho argumentos, coragem e argumentos e dizer que sou índio e a cultura que tenho. E por quê? Antes, não tinha argumentos, antes aceitava as críticas negativas. Hoje não! Hoje eu brigo mesmo pela nossa cultura e tenho orgulho de ser índio, de ser um povo diferente.” (Karaí)

Antes de se tornarem professores, os mestiços, os Kaiowá ou os parentes de lideranças políticas trabalhavam em atividades nas quais ocorria o contato com a sociedade envolvente, como agentes de saúde, peões, auxiliares de serviços gerais. A inserção desse grupo no universo da educação escolar possibilitou-lhes a ascensão econômica e política em suas comunidades, pois desempenhavam, assim como os demais, atividades relacionadas à agricultura e ao comércio do artesanato.

Os mais velhos e os caciques agem tentando evitar conflitos internos advindos da posição de prestígio político que os professores ocupam dentro da comunidade indígena, pois emergem como novas lideranças. Os professores, antes de tomarem quaisquer decisões, devem consultar os mais velhos. Além disso, os mais velhos comentam sobre a postura do professor que deve seguir os preceitos e as normas da vida coletiva.

CONCLUSÃO

Com base nos conhecimentos obtidos durante a pesquisa, é possível verificar que a implantação das escolas nas aldeias Mbyá-Guarani é bem vista pela maior parte da população que está ligada com a geração mais nova, e é um fator

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que contribui e muito para o desenvolvimento das comunidades ao se relacionarem com o mundo exterior.

Interessante e importantíssimo o fato de manterem as tradições e os métodos de educação tradicional que ocorre na Opy. É agregando valores culturais e conhecimentos escolares, que podem transformar um índio em engenheiro, médico, professor universitário, empresário e etc.

Percebemos que com os conhecimentos passados de mais velhos aos mais novos sobre a natureza, é possível viver em harmonia com a fauna e a flora extraindo o que há de bom sem interferir no ciclo natural da Terra.

REFERÊNCIAS

• FAUSTO, C. “Se Deus Fosse Jaguar: Canibalismo e Cristianismo Entre os Guaranis ( Séc XVI – XX)” p. 349- 402.Horizontes Antropológicos, 2006.....G.Ghinzzi Godoy, Maria, Gimenes da Rocha, Edison, Ângela Marcondes, Marta, et al São Paulo, SP.Exito Editora Ltda, 2010....GEERTZ, C. A Interpretação das Culturas. Rio de Janeiro: Ed. Zahar. 2006.

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Karaí Adolfo Homem de conhecimento e líder espiritual. Confinado nos morros da nascente do rio dos Sinos. Terra que para os brancos, não tem valor comercial, mas onde ele consegue manter sua territorialidade e sobreviver com seus familiares. E manter sua vida Mbyá- Guarani.

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