Introdução à Economia N.Gregory Mankiw - Livro (parte 3) POLITECNICOS.COM.BR, Manuais, Projetos, Pesquisas de Economia
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Introdução à Economia N.Gregory Mankiw - Livro (parte 3) POLITECNICOS.COM.BR, Manuais, Projetos, Pesquisas de Economia

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DESiGUALDAL POBREZA

A\

umca diferenca entre os ricos e os outros", disse Mary Colum a Ernest Hemingway, "é que os ricos tern mais dinheiro". Pode ser. I\4as essa afirmacao deixa muitas questaes sem resposta. A cliferenca entre os ricos e os pobres é urn topic() de estudo fascinante e importante — para os confortavelmente ricos, para os pobres que se esforcam e para a classe media, corn suas preocupacoes e aspiracoes.

Corn base nos dois capitulos anteriores, voce ja deve ter algum entendimento de por que pessoas diferentes tern rendas diferentes. Os ganhos de uma pessoa dependen-i da oferta e demanda pelo seu trabalho, que por sua vez depende do talent() natural, do capital human°, dos diferenciais compensatorios, da discrimi- nacao e assim por diante. Como os ganhos do trabalho representam cerca de tres quartos da renda total da economia americana, os fatores que determinam os sala- rios sa-o tambem, em g,rande medida, responsaveis por determinar como a renda total da economia é distribuida entre os v6rios membros da sociedade. Em outras palavras, dies determinam quern é rico e quern é pobre.

Neste capitulo, discutiremos a distribuicao de renda — urn topic° que levanta questoes fundamentals a respeito do papel da politica econemica. Urn dos Dez Principios de Economia do Capitulo 1 é de que os governos as vezes podem melho- rar os resultados de mercado. Essa possibilidade é particularmente importante

"Pelo que me diz respeito, podem fozer o que quiserem com o solOrio mThimo, desde que ri,ao interfiram com o solOrio mOximo."

430 PARTE 6 A ECONOMIA DOS MERCADOS DE TRABALHO

quando consideramos a distribuiao de renda. A mao invisível do mercado age de maneira a alocar recursos com eficiência, mas isso nao garante, necessariamente, que eles sejam alocados com justia. Como resultado, muitos economistas - mas nao todos - acreditam que o governo deve redistribuir a renda para conseg,uir uma maior igualdade. Ao fazer isso, o governo se depara com outro dos Dez Principios de Economin: As pessoas enfrentam tradeoffs. Quando o governo adota politicas para tornar a distribui o de renda mais eqüitativa, distorce os incentivos, altera os com- portamentos e torna a alocaao de recursos menos eficiente.

Nossa discussao da distribuiao de renda se dara ern tr's etapas. Primeiro, avalia- ren-los o grau de desigualdade que ha em nossa sociedade. Em seguida, considerare- mos alguns dos diferentes pontos de vista sobre a funa.- o que o govemo deveria desempenhar na altergao da distribuiao de renda. Por fim, discutiremos diversas polificas pUblicas que tth-n por objetivo ajudar os membros mais pobres da sociedade.

gri-h

NIENSURACAO DA DESIGUALDADE Comeamos nosso estudo da distribuiao de renda abordando quatro quesh5es ligadas à mensurgao:

• Quanta desigualdade ha em nossa sociedade? • Quantas pessoas vivem na pobreza? • Quais os problemas que surgem na mensuraao da desigualdade? • Com que frecjincia as pessoas mudam de uma classe de renda para outra?

Essas yuestes de mensuraao sao o ponto de partida natural a 13artir do qual se discutem as politicas púhlicas que pretendem mudar a distribuiao de renda.

Desiguaidade de Renda nos Estados Unidos

Imag,ine que você enfileirasse todas as familias da economia segundo sua renda anual e enta- o as dividisse em cinco grupos ig,uais: o quinto inferior, o segundo quinto, o quinto intermediario, o quarto quinto e o quinto superior. A Tabela 1 mos- tra as faixas de renda de cada um desses grupos. E mostra tambem a renda de corte para os 5% superiores.

TABELA 2

Desigualdade de Renda nos

Estados Unidos Esta tabela mostra a porcentagem da renda total, antes do pagamento de impostos, recebida pelas familias em coda quint° do distribuicao de renda e pelas familia que se encontram entre os 5% mais ricos.

Fonte: U.S. Bureau of the Census.

CAPITULO 20 DESIGUALDADE DE RENDA E POBREZA 431

Ano

Quinto

inferior

Segundo

Quint°

Quint°

Intermediario

Quarto

Quinto

Quinto

Superior

5010

Superiores

2000 4,3010 9,8% 15,50/0 22,80/0 47,40/0 20,8%

1990 4,6 10,8 16,6 23,8 44,3 17,4

1980 5,2 11,5 17,5 24,3 41,5 15,3

1970 5,5 12,2 17,6 23,8 40,9 15,6

1960 4,8 12,2 17,8 24,0 41,3 15,9

1950 4,5 12,0 17,4 23,4 42,7 17,3

1935 4,1 9,2 14,1 20,9 51,7 26,5

Para examinar as cliferencas de distribuicao de renda ao longo do tempo, os eco-

nomistas consideram mais titil apresentar os dados de renda como na Tabela 2. Essa

tabela mostra a parcela da renda total recebida por cada grupo de famIlias. Em 2000, o quinto inferior das fan-iflias recebeu 4,3% de toda a renda, e o quint° supe- rior, 47,4`)/0 de toda a renda. Em outras palavras, embora os quintos superior e infe- rior incluam o mesmo rdimero de familias, o quinto superior tern cerca de dez vezes mais renda do que o quinto inferior.

A Ultima coluna da tabela mostra a parcela da renda total recebida pelas famf- lias mais ricas. Em 2000, as familias do grupo dos 5% de maior renda receberam 20,8% da renda total. A renda total dos 5% de familias mais ricas foi maior do que

a renda total dos 40`)/0 mais pobres. A Tabela 2 mostra tambem a distribuicao de renda em diversos anos a partir de

1935. A primeira vista, a distribuicao de renda parece ter se mantido notavelmente estavel ao longo do tempo. Nas ultimas decadas, o quinto inferior das famIlias rece- beu cerca de 4% a 5% da renda, enquanto o quinto superior recebeu cerca de 40%

a 50% da renda. Mas uma inspecao mais cuidadosa da tabela mostra algumas ten- dencias quanto ao grau de desigualdade. De 1935 a 1970, a distribuicao tornou-se,

g,radualmente, mais igual. A participacao do quinto inferior subiu de 4,1% para 5,5% e a participacao do quinto superior caiu de 51,7% para 40,9%. Em anos mais recentes, essa tendencia se reverteu. De 1970 a 2000, a participacao do quint° infe- rior caiu de 5,5% para 4,3%, e a do quinto superior aumentou de 40,9% para 47,4%.

Discutimos, no Capitulo 19, algumas explicacoes para esse recente aumento da desigualdade. 0 crescimento do comercio internacional corn 'Daises onde os sal6- rios sao baixos e as mudancas tecnologicas reduziram a demanda por mao-de-obra nao-qualificada e aumentaram a demanda por mao-de-obra qualificada. Como resultado, os salOrios dos trabalhadores nao-qualificados cafram em relacao aos salOrios dos trabalhadores qualificados e essa mudanca dos salarios relativos aumentou a desigualdade de renda entre as familias.

Estudo de Caso

0 1VIOVIMENTO FEMINISTA E A DISTRIB KAO DE RENDA

Nas ultimas decadas, houve uma mudanca drarnatica no papel das mulheres na

economia. A porcentagem de mulheres empregadas aumentou de aproximadamen-

432 I PARTE 6 A ECONOMIA DOS MERCADOS DE TRABALHO

A maior iguaidade entre as mulheres significou uma menor igualdade entre as rendas familiares.

te 32%, na decada de 1950, para cerca de 54%, na decada de 1990. Como as donas de casa em tempo integr, al ficaram mais raras, os ganhos da mulher têrn adquirido importancia cada vez maior como componente da renda total da família tipica.

Embora o movimento feminista tenha levado a uma maior ig,ualdade entre homens e mulheres no que se refere ao acesso à educa o e aos empregos, tambem levou a uma maior desigualdade em relgo à renda familiar. Isso se deve ao fato de que o aumento da participa o da mulher na foNa de trabalho não foi o mesmo em todas as faixas de renda. Em particular, o movimento feminista teve maior in-ipacto sobre as mulheres de familias de alta renda. As mulheres de familias de baixa renda ha muito tempo tC.m altas taxas de participayo na foNa de trabalho.

Isso ocorre desde a decada de 1950, e seu comportamento n •Jio se alterou muito. Em sintese, o movimento feminista alterou o comportamento das esposas de

homens de alta renda. Na decada de 1950, um executivo ou um medico provavel- mente se casaria com uma mulher que ficaria em casa e cuidaria dos filhos. Hoje,

o mesma, uma executiva ou medica. Com isso, as familias ricas ficaram ainda mais

`-1 ricas, um padrio que aumentou a desigualdade da renda familiar. Como mostra esse exeMplo, há determinantes tanto sociais quanto econ micos

na distribui o de renda. Alem disso, a viso simplista cie que "desigualdade de renda é ruim" pode ser enganosa. Aumentar as oportunidades disponiveis para as mulheres foi, certamente, uma boa mudaNa para a sociedade, ainda que um de seus efeitos tenha sido uma maior desig,ualdade da renda familiar. Ao avaliar qual- quer mudaNa na distrihuição de renda, os formuladores de politicas precisam estudar os motivos da mudanyi antes de decidir se ela é ou n -ao um problema para a sociedade. •

P.sthde de Caso

DESIGUALDADE AO REDOR DO MUNDO

Como a desigualdade de renda nos Estados Unidos se compara com a de outros paises? Essa questk) e interessante, mas dar resposta a ela e problematico. Para alg,uns paises, n -ao há dados disponiveis. E mesmo quando hEl, nem todos os pai- ses coletam dados da mesma maneira; por exemplo, alguns coletam dados sobre a renda individual, enquanto outros, sobre a renda familiar. Outros, ainda, coletam dados sobre a despesa, em vez da renda. Como resultado, sempre que encontra- mos uma diferenc;a entre dois paises, nunca podemos ter certeza de que ela reflita uma diferenyi verdadeira entre as duas economias ou meramente uma difereNa na forma de coletar os clados.

Com essa advert'encia em mente, observe a Tabela 3, que compara a desig,ual- dade en-i 12 paises. Os paises esto classificados do mais igual para o mais desigual. No topo da lista está o Japão, onde os • 0% mais ricos da popula o tth-n renda ape- nas 4,5 vezes maior do que os 10% mais pobres. No final da lista est-1 o Brasil, onde os 10% mais ricos t&n renda 46,7 vezes maior do que os 10°/0 mais pobres. En-ibora todos os paises apresen tem desigualdade substancial, o grau de desig,ualdade varia substancialrnente ao redor do mundo.

a esposa de um executivo ou de um medico tem maiores chances de ser, ela

CAPITULO 20 DESIGUALDADE DE RENDA E POBREZA 433

Pais 10% mais pobres 10% mais ricos Raza"o

TABELA 3

Japao 4,8% 21,7% 4,5 A Desigualdade pelo Mundo

Alemanha 3,3 23,7 7,2 Esta tabelo mostra a porcentagem do renda que os

Canada 2,8 23,8 8,5 10% mais ricos e os 10% mais pobres do populacOo

India 3,5 33,5 9,6 deteLp. A razoo entre esses dois numeros mede a

Reino Unido 2,6 27,3 10,5 diferenca entre ricos e pobres.

China 2,4 30,4 12,7 Fonte: World Development Report: 2002, p. 234-235. Estados Unidos

Russia

1,8 1,7

30,5 38,7

16,9 22,8

Copyright 4: 2002 Banco Mundial. Reproduzido corn permissao do Banco Mundial no formato livro-texto via Copyright Clearance Center.

Nigeria 1,6 40,8 25,5 Mexico 1,6 41,1 25,7 Africa do Sul 1,1 45,9 41,7 Brasil 1,0 46,7 46,7

Quando os paises sao classificados por grau de desig-ualdade, os Estados Unidos ficam no meio do gr, upo. Em comparacao corn °taros paises economicamente avancados, como Japao, Alemanha e Canada, os Estados Unidos apresentam desi- g-ualdade substancial. Mas os Estados Unidos tem distribuicao de renda mais ig-ual do que muitos paises em desenvolvimento, como Mexico, Africa do Sul e Brasil. •

A Taxa de Pobreza

Uma medida comum da distribuicao de renda é a taxa de pobreza. A taxa de pobreza é o percentual da populac5o cuja renda familiar se encontra abaixo de urn nivel absoluto chamado linha de pobreza. A linha de pobreza 6 estabelecida pelo govemo federal em aproximadamente tres vezes o custo de uma dieta aclequada. Essa linha depende do tamanho da familia e é ajustada a cada ano para levar em conta =dal-lc:as no nivel de precos.

Para se ter uma ideia do que nos diz a taxa de pobreza, vamos considerar os dados de 2000. Naquele ano, a familia mediana teve rencla media de $ 50.890 e a linha de pobreza para uma familia de quatro pessoas era de $ 17.603. A taxa de pobreza era de 11,3%. Em outras palavras, 11,3% da populacao era membro de familias corn rencla inferior a linha de pobreza.

A Figura 1 mostra a taxa de pobreza clesde 1959, quando comecam os dados ofi- ciais. Poclemos ver que a taxa de pobreza caiu de 22,4%, em 1959, para 11,1%, em 1973. Essa queda nao surpreende porque a renda media da economia (descontada a inflacao) cresceu rnais de 50% nesse period°. Como a linha de pobreza é urn padrao absoluto, nao relativo, mais familias sac) traziclas }.-)ara cima da linha mecii- da que o crescimento economic° conduz toda a distribuicao de renda para cima. Como disse John F. Kennedy, a mare alta erg-ue todos os barcos.

Desde o inicio da decada de 70, contudo, a mare alta da economia deixou alguns barcos para tras. Apesar do crescimento continuado da renda media, a taxa de pobreza nao ficou abaixo do nivel atingido em 1973. Essa falta de avancos na redu- cao da pobreza nas tiltimas decadas esti estreitamente relacionacia ao aumento da desigualciade que vimos na Tabela 2.

taxa de pobreza

o percentual da populacao

cuja renda familiar se

encontra abaixo de urn nivel

absoluto denominado linha

de pobreza

linha de pobreza

urn nivel absoluto de renda

fixado pelo governo federal

para cada tamanho de

abaixo do qua l a

familia e considerada em

estado de pobreza

A Taxa de Pobreza

A taxa de pobreza mostra a por- centagem da populacao com renda inferior a um nivel absoluto chama- do linha de pobreza. Fonte: U.S. Bureau of the Census.

1965 1970 1975 1980 1985 1990 1995 2000

Percentual da Popula0.o Abaixo da

Linha de Pobreza

25

Taxa de pobreza 20

15

10

5

0 1960

434 PARTE 6 A ECONOMIA DOS MERCADOS DE TRABALHO

FIGURA 1

Embora o crescimento econOmico tenha aumentado a renda da famflia tipica, o aumento c-ia desigualdade tem impedido as famflias mais pobres de compartilhar essa maior prosperidade econOmica.

A pobreza e uma doeNa econOmica que afeta todos os g-rupos da populg:a-o, mas 1-1' o os afeta com igual freqencia. A Tabela 4 mostra as taxas de pobreza de diversos grupos e revela tres fatos marcantes:

• A pobreza está correlacionada à rac;a. Neg,ros e hispffi-licos tem cerca de tres vezes mais probabilidade de viver na pobreza do que os brancos.

• A pobreza está correlacionada à idade. As criaNas tem probabilidade acima da media de pertencer a fan-iflias pobres e os idosos tem menos probabilidade do que a media de ser pobres.

• A pobreza está correlacionada à composição da farnflia. As fainflias encabeyidas por um adulto do sexo feminino e sem cOnjuge tem cinco vezes mais probabi- lidade de viver na pobreza do que as farnflias encabeadas por urn casal.

Esses tres fatos descrevem a sociedade an-iericana há muitos anos e mostram quais pessoas tem maior probabilidade de ser pobres. Esses efeitos tambem trabalham juntos: entre as crianyis negras e hispffilicas que vivem em fan-iflias encabeadas por n-iulheres, cerca de metade vive na pobreza.

Problemas na Mensura0o da Desiguaidade

Embora os dados sobre distribui o de renda e taxa de pobreza nos ajudem a ter alguma ideia do g,rau de desigualdade na sociedade norte-americana, interpretar esses dados não é tão simples e direto quanto pode parecer à primeira vista. Os dados se baseiam nas rendas anuais das famflias. Mas o que interessa às pessoas não e sua renda, mas sua capacidade de manter um bom padr .. o de vida. Por diver- sos motivos, os dados sobre distribui o de renda e taxa de pobreza oferecem um quadro incompleto da desigualdade de padr" o de vida. Examinaremos esses moti- vos a seguir.

CAPITULO 20 DESIGUALDADE DE RENDA E POBREZA 435

'TABETA 4

Grupo Taxa de Pobreza

Tod os 11,3% Brancos nao-hispanicos 7,5 Negros 22,0 Hispanicos 21,2 Asiaticos, ilheus do Pacifico 10,7 Criancas (abaixo de 1 8 anos) 16,1 ldosos (acima de 64 anos) 10,2 Familias encabecadas por casal 5,6 Familias encabecadas por mulheres, sem presenca do conjuge 27,9

Quern E Pobre?

Esta tabela mostra que a taxa de pobreza vatic]

muito entre as diferentes grupos do populacao.

Fonte: U.S. Bureau of the Census. Dados de 2000.

Transierencias em Generos As medidas da distribuicao de renda e da taxa de pobreza se baseiam na renda monetaria clas famflias. Mas, por meio de diversos programas governamentais, os pobres recebem itens nao-monetarios, incluindo vales-alimentacdo, auxilio-moradia e servicos medicos. As transferencias aos po- bres dadas em forma de bens e servicos, ao inves de dinheiro, sao chamadas de transferencias em generos. As meclidas-padrao do grau de desig-ualdade nao levam em consideracao essas transferencias em especie.

Como as transferencias em generos sao recebidas predominantemente pelos membros mais pobres da sociedade, a sua na-o-inclusao na renda afeta em muito a taxa de pobreza medida. De acordo corn urn estucio do Census Bureau, se as trans- ferencias em generos fossem incluidas na renda pelo seu valor de mercado, o ntimero de familias em estado de pobreza seria cerca de 10% menor do que indi-

cam os dados padronizados. 0 importante papel desempenhacio pelas transferencias em generos toma mais

dificil a avaliacao das mudancas na pobreza. Ao longo do tempo, coin a evolucao das politicas ptiblicas de amparo aos pobres, a composicao da assistencia em ter- mos de dinheiro e transferencias em generos muda. Parte das flutuagoes da taxa de pobreza medida, portanto, reflete a forma do amparo oferecido pelo govern° e nao a verdadeira medida da privacao economica.

0 Cicio de Vida Economic° A renda varia de maneira previsivel durante a vida de cada pessoa. Um trabalhador jovem, especialmente se estiver estudando, tern renda baixa. A renda aumenta a medida que o trabalhador ganha maturidade e experiencia, atinge seu pico em tomo dos 50 anos de idade e cal acentuadamen- te quando o trabalhador se aposenta, por volta dos 65 anos. Esse padrao regular de variacao da renda é chamado de ciclo de vida.

Como as pessoas podem tomar emprestimos e poupar para suavizar as varia- goes da renda durante o ciclo de vida, seu padrao de vida en-1 qualquer ano depen- de mais da renda ao longo da vida do que da renda naquele ano. Os jovens muitas vezes se endividam, seja para pagar os estudos, seja para comprar uma casa, e entao pagam esses emprestimos quando sua renda aumenta. As pessoas tern sua major taxa de poupanca quando chegam a meia-idade. Como elas podem poupar antes de se aposentar, a g,rande queda da renda por ocasiao da aposentadoria nao leva a uma queda semelhante do padrao de vida.

Esse padrao normal do ciclo de vida causa uma desigualdade na distribuicao anual de renda, mas nao representa verdadeira desig-ualdade em termos de padrao de vida. Para medir a desigualdade do padrao de vida em nossa sociedade, a dis-

transferencias em generos transferencias aos pobres

dadas em forma de bens e

servicos, em vez de dinheiro

cid() de vida

o padrao regular de variacao

da renda ao longo da vida de

uma pessoa

436 PARTE 6 A ECONOMIA DOS MERCADOS DE TRABALHO

renda permanente a renda normal de uma

pessoa

tribuieo de renda ao longo da vida e mais relevante do que a distribuieJio de renda anual. Infelizmente, os dados sobre renda ao longo da vida nk, est5o prontamen- te disponiveis. Ao analisar quaisquer dados sobre desig,ualdade, contudo, é impor- tante ter em mente o ciclo de vicla. Con-io a renda das pessoas ao longo da vida suaviza os altos e baixos do ciclo de vida, as rendas ao longo da vida esth- o, com certeza, mais igualmente distribuidas entre a populae"a'o do que as rendas anuais.

Renda Transit6ria versus Renda Permanente As rendas variam ao longo da vida das pessoas nk) s6 por causa da variae"a"o previsivel resultante do ciclo de vida, mas tan-ibem por causa de foreas aleat6rias e transit6rias. Em um ano a geada destr6i a safra de laranja da Fl6ricla, e os produtores de laranja da Fl6rida veem sua renda cair temporariamente. Ao mesmo tempo, a geada na FlOrida faz o preeo da laranja subir, e os produtores da Calif6rnia veem sua renda aumentar temporaria- mente. No ano seguinte, pode acontecer o inverso.

Assim como as pessoas podem tomar emprestimos e poupar para suavizar as variae -6es de renda ao longo do ciclo de vida, tambem podern tomar e conceder emprestimos para suavizar uma variae-o transitOria da renda. Quando os produto- res de laranja da Califfirnia tem um bom ano, como no exemplo anterior, seriam tolos se gastassem toda a sua renda adicional. Em vez disso, eles poupam uma parte dela, sabendo que sua boa sorte provavelmente n'a"o persistinl. De forma simi- lar, os produtores da Fl6rida reagem a sua renda temporariamente baixa fazendo retiradas de sua poupanea ou tomando emprestimos. Na n-iedida ern que uma familia poupa e se endivida para proteger-se de variaees ten-lporalrias da renda, essas variaees não afetam seu pacIro de vida. A capacidade que uma familia tem de comprar bens e servieos depende, em grande parte, de sua renda permanente, que é sua renda normal, ou media.

Para medir a desigualdade dos padres cle vida, a distribuie5o da renda perma- nente é mais relevante clo que a distribuieo da renda anual. Embora seja dificil medir a rencla permanente, trata-se de um conceito importante. Por excluir varia- e6es transit6rias da rencla, a rencla permanente é distribuida de forrna mais igual do que a renda corrente.

Mobilidade EconOmica

As 1_->essoas às vezes referen-i-se aos "ricos"e aos "pobres"como se esses g,nipos con- sistissem das mesmas famflias, ano apOs ano. Mas isso não é verdade. A mobilida- de econ3mica, a movimentae'a'o das pessoas entre as classes de renda, e substancial na economia dos Estados Unidos. Movimentos para cima na escala de renda podem ser devidos à boa sorte ou ao trabalho duro, e movimentos para baixo podem ser devidos à má sorte ou à indolencia. Parte dessa rnobilidade reflete variae -6es transi- t6rias da renda, enquanto parte reflete mudaneas mais persistentes na renda.

Como a mobiliclade econ6mica e grande, muitas clas pessoas abaixo da linha de pobreza s6 est5o ali ten-iporariamente. A pobreza é um problema de longo prazo para um niimero relativamente pequeno de famflias. Ern um periodo tipico de dez anos, cerca de un-ia em cada quatro familias fica abaixo da linha de pobreza pelo menos um ano. Mas menos de 3% das famflias se mantem pobres por oito ou mais anos. Como e provvel que os temporariamente pobres e os persistentemente pobres enfrentern problemas diferentes, as politicas que tenham como prop6sito o combate à pobreza precisam disting-uir entre esses g,rupos.

Outra maneira de avaliar a mobilidade econ8mica é a persistencia do sucesso econOmico de gerae .a'o para geraec'io. Os economistas que estudaram esse tOpico identificaran-i mobilidade substancial. Se um pai ganha 20% mais do que a renda media de sua gerae^a"o, seu filho provavelmente ganhar 8°/0 mais clo que a

t-9 Citai

AlAIM 010) 0 çw Waa,

CAPITULO 20 DESIGUALDADE DE RENDA E POBREZA 437

rencia media de sua geracao. No ha praticamente qualquer correlacao entre a renda de urn avO e a de seu net°.

Um rcsultado dessa grande mobilidade econOmica é o fato de que a economia americana esta repleta de milionarios que se fizeram por si proprios (assim como de seus herdeiros que esbanjaram as fortunas que herdaram). De acordo corn esti- mativas para o ano de 1996, cerca de 2,7 milhoes de familias dos Estacios Unidos tem patrimonio liquido (ativo menos dividas) superior a $ 1 milhao. Essas familias repres -I am os 2,(7 0 ma's *co. ca o 1 çao. Cerca de quatro em cada cinco des- ses miliondrios fizeram sua riqueza por si prOprios, seja fundando uma empresa, seja subindo a escada da hierarquia corporativa. Apenas urn de cada cinco rios herdou sua fortuna.

Teste Rapid° 0 que mede a taxa de pobreza? • Descreva ties problemas em potencial na interpreta- cao da mensuracao da taxa de pobreza.

A F1LSOF1A Pal11CA IA REMSTR1BUIcA0 DE RENDA

Acabamos de ver como a renda da economia é distribuida e examinamos alguns dos problemas existentes corn a interpretacao da desig,ualdade medicia. Essa dis- cussao foi posith7a no sentido de que se limitou a descrever o mundo como é. Agora nos voltamos para a questao normativa corn quo se deparam os formuladores de politicas: 0 quo o govern() dove fazer a respeito da desigualdade economica?

Essa questa° nao é meramente econemica. A analise econOmica, por si so, nao pode nos dizer se os formuladores de politicas deveriam ou nao tentar fazer nossa sociedade mais igualitaria. Nossas opinioes sobre esse ponto sao, em grande medi- da, uma questa° de filosofia politica. Contudo, como o papel do governo na redis- tribuicao de renda é central para muitos debates de politica econemica, vamos nos desviar aqui da ciencia economica para tratar urn pouco da filosofia politica.

Utilitarismo

Uma proeminente escola de filosofia poiftica é o utilitarismo. Seus fundadores foram os filosofos ingleses Jeremy Bentham (1748-1832) e John Stuart Mill (1806- 1873). Em g,rande medida, o objetivo dos utilitaristas é aplicar a 16g,ica da tot-nada de decisoes individual a questoes ligacias a moralidade e as politicas publicas.

0 ponto de partida do utilitarismo é o conceit° de utilidade — o nivel de felici- dade ou satisfacao que alguem obtem do suas condicOes. A utilidade é uma medi- da de hem-estar e, segundo os utilitaristas, é o objetivo ultimo de todas as acoes ptiblicas e privadas. 0 objetivo adequado do govern°, eles alegam, é maximizar a soma de utilidade para todos os membros da sociedade.

0 arg-urnento utilitarista para a redistribuicao de renda se baseia na hipotese da utilidade marginal decrescente. Parece razoavel que urn dOlar a mais de renda para uma pessoa pobre lhe proporcione mais utilidade adicional do que urn Mar a mais para uma pessoa rica. Em outras palavras, a medida que a renda de uma pessoa aumenta, o bem-estar adicional derivado de urn Mar adicional de renda diminui. Essa suposicao bastante plausivel, junto corn o objetivo utilitarista de maximizacao da utilidade total, implica que o govern° deveria tentar atingir uma distribuicao de renda mais ig-ualitaria.

0 arg,umento é simples. Imagine quo Peter e Paul sejam iguais, a nao ser pelo fato de quo Peter ganha $ 80 mil, e Paul, $ 20 mil. Nesse caso, tirar urn Mar de Peter e entregzi-lo a Paul reduzira a utiliciade de Peter e aumentara a utilidade de Paul.

utilitarisrno a filosofia politica segundo a

qual o governo deve escolher

politicas que maximizem a

utilidade total de todos na

sociedade

utilidade

uma medida de felicidade ou

satisfacao

438 PARTE 6 A ECONOMIA DOS MERCADOS DE TRABALHO

Mas por causa da utilidade marginal decrescente, a utilidade de Peter cai menos do que a utilidade de Paul aumenta. Assim, essa redistribuiao de rencla aumenta a uti- lidade total, que é o objetivo dos utilitaristas.

primeira vista, esse argumento utilitarista parece implicar que o governo deve continuar a redistribuir a renda ate que todos os membros da sociedade tenham exatarnente a mesma renda. Realmente, seria esse o caso se a quantidade total de renda — $ 100 mil no nosso exemplo — fosse fixa. Mas, de fato, ela nao e. Os utilita- ristas rejeitam a completa equalizaao das rendas porque aceitam um dos Dez Prindpios de Economia apresentados no Capitulo 1: As pessoas reagem a incentivos.

Para tirar de Peter e dar a Paul, o governo precisa adotar politicas que redistri- buam a renda, tais como o imposto de renda federal e o sisten-ia de bem-estar social. Com essas politicas, as pessoas que tem renda elevada pagam impostos ele- vados e as que tem baixa renda recebem transferencias de renda. Mas, como vimos nos Capitulos 8 e 12, os impostos distorcem os incentivos e causam peso morto. Se o governo retirar a rencla adicional que as pessoas podem ganhar por meio de impostos mais altos ou reduzindo as transferencias, tanto Peter quanto Paul teriam menos incentivos para trabalhar mais duramente. Como eles trabalham menos, a renda da socieclade diminui e, com ela, a utilidade total. 0 governo utilitarista pre- cisa equilibrar os ganhos da maior igualdade com as perdas da distoNao de incen- tivos. Portanto, para maximizar a utilidade total, o govemo nao deve criar uma sociedade totalmente igualitaria.

Un-ia f)arabola famosa esclarece a 16g,ica utilitarista. Imagine que Peter e Paul sejam viajantes sedentos, presos em lugares diferentes do cleserto. 0 oasis de Peter tem muita ag,ua; o de Paul, pouca. Se o govemo pudesse transferir agua de um oasis para o outro sem custo, maximizaria a utilidade total da agua, ig-,ualando a quanti- dade dela nos dois lugares. Mas suponha que o govemo tenha somente um balde com furos. Quando tenta transportar a agua de um lugar para outro, parte dela se perde pelo caminho. Nesse caso, um governo utilitarista ainda assim poderia ten- tar transferir alguma agua de Peter para Paul, dependendo de quanto Paul estives- se sedento e de quantos furos o balde tivesse. Mas, se dispuser apenas de um balde furaclo, um governo utilitarista na- o tentara atingir a ig,ualdade completa.

Liberalismo

CAPITULO 20 DESIGUALDADE DE RENDA E POBREZA 439

de porque precisamos pensar em coma elas afetarao cada pessoa. Como coloca Rawls, "Desde que todos estao em situacao semelhante e ninguem é capaz de esta- belecer principios que favorecam suas condicoes pessoais, os principios de justica sao resulfado de acordo ou negociacao justos". Estabelecer politicas palicas e ins- tituicoes dessa maneira nos permite ser objetivos a respeito de quais politicas sao justas.

Rawls passa, entao, a considerar o que a politica publica concebida por tras (Jesse veil de ignorancia tentaria atingir. Mais especificamente, ele considera qual distribuicao de renda uma pessoa acharia justa se nao soubesse se iria estar no topo, na base ou no meio da distribuicao. Rawls argumenta que uma pessoa na posicao original estaria particularmente preocupada corn a possibilidade de se ver na base da distribuicao de renda. Ao estabelecer politicas ptiblicas, 'portant°, deve- mos procurar aumentar o bem-estar da pessoa que esta em pior situacao na socie- dade. Ou seja, em vez de maximizar a soma da utilidade de todos, como fariam os utilitaristas, Rawls maximizaria a utilidacle minima. A reg,ra de Rawls é chamada de criterio maximin.

Como o criteria maximin enfatiza a pessoa menos afortunada da sociedade, ele justifica politicas publicas que tenham par objetivo equalizar a distribuicao de renda. Transferindo renda dos ricos para os pobres, a sociedade aumenta o bem- estar dos menos afortunados. Entretanto, o criteria maximin nao levaria a uma sociedade inteiramente igualitaria. Se o governo prometesse ig,ualar completamen- te a renda de todos, as pessoas nao teriam incentivos para trabalhar duramente, a renda total da sociedade cairia substancialmente e a pessoa menos afortunada se veria em pior situacao. Assim, o criteria maximin ainda permite disparidades de renda porque elas podem melhorar os incentivos e, corn isso, aumentar a capaci- dade da sociedade de ajudar os pobres. Ainda assim, como a filosofia de Rawls poe peso apenas nos membros menos afortunados da sociedade, ela requer uma major redistribuicao de renda do que o utilitarismo.

Os pontos de vista de Rawls s5o controversos, mas o raciocinio experimental que ele propoe tern forte apelo. Mais especificamente, seu raciocinio experimental nos permite considerar a redistribuicao de renda como uma forma de seguro social. Ou seja, da perspectiva da posicao original, por tras do veil de ignorancia, a redis- tribuicao de renda é coma uma apOlice de seguro. Os proprietarios de imoveis fazem seg,uros contra incendio para se proteger do risco de que sua casa peg-ue logo. De maneira similar, quando nos, enquanto sociedade, escolhemos politicas que tri- butam os ricos para suplementar a renda dos pobres, estamos todos contratando um seg,uro contra a possibilidade de virmos a ser membros de uma familia pobre. Como as pessoas tern aversao ao risco, deveriamos estar felizes por termos nascido em uma socieciade que proporcione esse tipo de seg,uro.

Mas nao esti claro que as pessoas racionais por tras do veu de ig,norancia seriam realmente Ca() avessas ao risco a panto de seg,uir o criterio maximin. De fato, como uma pessoa na posicao original poderia ficar em qualquer ponto-da distribuicao de renda, ela poderia tratar odos os resultados possiveis da mesma maneira ao esta- belecer politicas p-Ciblicas. Nesse caso, a melhor politica por tras do \feu de ignoran- cia seria maximizar a -utilidade media dos membros da sociedade, e a nocao de jus- tica resultante seria mais utilitarista do que rawlsiana. I

Libertarismo

Uma terceira visa.° da desigualdade é o chamado libertarismo. Os dais pontos de vista de que tratamos ate aqui — o utilitarismo e o liberalism° — veem a rencia total da sociedade como urn recurso compartilhaclo que urn planejador social pode livre-

criterio maximin a afirmacao de que o governo

deveria ter por objetivo

maximizar o bem-estar da

pessoa em pior situacao na

sociedade

libertarismo

a filosofia politica segundo a

qual o governo deveria punir

os crimes e fazer valer as

acordos voluntarios, mas nao

redistribuir a renda

440 PARTE 6 A ECONOMIA DOS MERCADOS DE TRABALHO

mente redistribuir para atingir alg,um objetivo social. Os libertaristas, por outro lado, argumentam que a sociedade em si n'a"o ganha renda — apenas membros indi- viduais da sociedade ganham renda. Segundo os libertaristas, o governo não deve- ria tirar de alg,uns individuos e dar a outros com o objetivo de alcanar uma huição de renda particular.

Por exemplo, o fil sofo Robert Nozick escreveu o sepinte, em seu famoso livro Anarquia, Estado e Utopia, de 1974:

Não estamos na posi o de criaNas que receberam fatias de torta de alguem que agora faz ajustes de últirna hora para corrigir cortes malfeitos. Não hz1 dis- tribuição central, não há uma pessoa ou um gnipo encarregado de controlar todos os recursos, decidindo em conjunto como devem ser distribuidos. 0 que cada pessoa recebe, recebe de outros que lhe fflo em troca de algo, ou como presente. Em uma sociedade livre, diferentes pessoas controlam diferentes recursos e novas propriedades surgem das trocas e de ac;5es pessoais.

Enquanto utilitaristas e liberalistas procuram julgar quanto de desig-ualdade desej&vel em un-ia socieclade, Nozick nega a i_->rOpria validade da quest5o.

A alternativa libertarista à avaliação dos resultados econ6micos é avaliar o pro- cesso por meio do qual esses resultados surgen-i. Quando a distribui o de renda ating,ida de maneira injusta — por exemplo, quando uma pessoa furta de outra o govemo tem o direito e o dever de remediar o problema. Mas na medida em que o processo que determina a distribui o de renda seja justo, a distribui o resultan- te tambern o ser& não importa o quão desig,ual seja.

Nozick critica o liberalismo de Rawls fazendo uma analogia entre a distribui o de renda na sociedade e a distribui o de notas em um curso. Suponha que voce fosse chamado para avaliar a eqiiidade das notas do curso de economia em que está matriculado.Voce se imaginaria por trs de um veu de ignorkicia e escolheria uma distribui o de notas sem conhecer o talento e o esfoNo de cada aluno? Ou se certificaria cie que o processo de atrihuição de notas aos alunos é justo, indepen- dentemente de a distribui o de notas resultante ser igual ou desig,ual? Pelo menos no caso das notas, a enfase dos libertaristas no processo, em detrirnento do resul- tado, é convincente.

Os libertaristas concluem que a igualdade de oportunidades é mais importante do que a ig,ualdade de rendas. Eles acreditam que o govemo deve fazer valer os direitos individuais para garantir que todos tenham a mesma oportunidade de usar seus talentos e ter sucesso. Uma vez estabelecidas as regras do jogo, o governo tem qualquer rnotivo para alterar a distrihuição de renda resultante.

Teste R4icio Pam ganha mais do que Pauline. Alguem prope tributar Pam para suplementar a renda de Pauline. Como essa proposta seria avaliada por um utilitarista, um liberalista e um liber-tarista?

POUTICAS DE REDUC -40 DA POBREZA

Como acabamos de ver, os filOsofos politicos tem diversas teorias sobre o papel que o crovemo deve desempenhar na altera o da distrihuição de renda. 0 debate tico entre a g,rande populaio de eleitores reflete uma discusso semelhante. Apesar desses debates, contudo, a maioria das pessoas acredita que, no mínimo, o governo deveria tentar ajudar os mais necessitados. De acordo com uma metfora popular, o governo deveria oferecer uma "rede de seguraNa" para impedir que qualquer cidado sofra uma grande queda.

CAPiTULO 20 DESIGUALDADE DE RENDA E POBREZA 441

A pobreza é urn dos problemas mais dificeis enfrentados pelos formuladores de politicas. As families pobres estao mais sujeitas, do que a populacdo em geral, a falta de abrigo, depenciencia de drogas, violencia domestica, a problemas de saLide, a gravidez na adolescencia, ao analfabetismo, ao desemprego e ao baixo gr, au de escolaridade. Os membros de families pobres tern mais probabilidade de praticar crimes ou de serem vitimas de crimes. Embora seja dificil separar as cau- sas da pobreza de seus efeitos, nab he citivide de que ela esteja associada a diver- SOS males economicos e sociais.

Suponha que voce seja um formulador de politicas governamentais e que sua meta seja reduzir o numero de pessoas que vivem na pobreza. Como voce atingi- ria esse objetivo? Aqui, examinaremos algumas opcoes de politicas que voce pode- ria considerar. Embora cada uma dessas opcoes ajude algumas pessoas a escaper da pobreza, nenhuma é perfeita, e decidir qual delas é a melhor nao é fedi.

Legisiacao do Salado Minim°

A legislacao que estabelece o salerio minim° que deve ser pago aos trabalhadores 'Delos empregadores é uma fonte constante de debates. Os defensores enxergam o salario minim() como uma maneira de ajudar o trabalhador pobre sem qualquer custo pare o governo. Os criticos acreditam que ele prejudice aqueles a quern pre- tende ajudar.

0 salario minim() pode ser facilmente compreenciido corn as ferramentas de oferta e demanda que vimos pela primeira vez no Capitulo 6. Para trabalhadores corn baixos niveis de qualificacao e experiencia, urn salerio minim° elevado leva o salario acima do nivel que equilibra oferta e demanda. Corn isso, aumenta o custo da mao-de-obra pare as empresas e reduz a quantidade de rnao-de-obra que elas demandam. 0 resulted° é urn major desemprego entre os g,rupos de trabalhado- res afetados pelo salerio minima Embora os trabalhadores que mantem seus empregos sejam beneficiados por urn salerio major, aqueles que poderiam empre- gar-se a urn salerio menor sao prejudicados.

A magnitude desses efeitos depende crucialmente da elasticidade da demanda. Os defensores de urn salerio minim° elevado arg-umentam que a demanda por mao-de-obra nao-qualificada é relativamente inelastica, de modo que urn salerio minim° elevado diminuiria muito pouco o nivel de emprego. Os criticos do salario minim° argumentam que a demanda por mao-de-obra C mais elastica, especial- mente no longo prazo, quando as empresas podem ajustar producao e emprego mais plenamente. Observam tambem que muitos trabalhadores que recebem sale- rio minim° sao adolescentes de families de classe media, de mod° que o salerio minim° é uma politica imperfeita de assistencia aos pobres.

Bem-Estar

Uma maneira de elevar o padrao de vide dos pobres é a suplementacao de sua renda pelo governo. A principal via adotada pelo govemo nesse sentido é o siste- ma de hem-estar. Bem-estar é urn termo amplo que inclui diversos programas governamentais. A Temporary Assistance for Needy Families (Tanf) (Assistencia Temporaria a Families Necessitadas) é um programa que assiste families corn criancas, mas sem adultos capazes de sustentar a familia. Em uma familia tipica beneficiaria do programa, o pai este ausente e a mae fica em case cuidando dos filhos 1.-)equenos. Outro programa de bem-estar é a Supplemental Security Income — SSI (Rende de Seguranca Suplementar), que oferece assistencia aos pobres que sao doentes ou invelidos. Observe que ninguem pode se candidatar a qualquer urn desses dois programas simplesmente por ter uma renda baixa. 0 beneficierio pre-

bem-estar

programas governamentais

que suplementam a renda

dos necessitados

442 PARTE 6 A ECONOMIA DOS MERCADOS DE TRABALHO

NOTIICIAS

0 GOVERNO DEVER1A TENTAR AJUDAR AS REGlaJES POBRES?

Muitos programas antipobreza objetivam atThgir Oreas pobres do pais. 0 economista Edward Glaeser apresento argumentos contra essa abordagem geogrOfica.

Ajudar as Pessoas Pobres, Não os Lugares Pobres Por Edward L. Glaeser

0 tour do presidente Clinton por seis cida- des, chamado de "Novos Mercados", realiza- do no comeco deste verk sinalizou um foco renovado sobre os problemas enfrentados pelos pobres. Mas enquanto a preocupack do presidente é apreciada por todos n6s que nos preocupamos com as ilhas de pobreza

no mar de abun&ncia dos Estados Unidos, suas propostas são fundamentalmente fa- lhas. Elas ainda podem ajudar alguns pobres, mas tambem correm o risco de repetir os piores erros da era Johnson.

0 problema das recomenda0es do presidente é que elas violam a primeira re- gra econ6mica da politica para a pobreza urbana: os programas deveriam ser basea- dos nas pessoas, não nos lugares.

Os economistas há muito afirmam que os programas baseados nos lugares são um

erro. Eles preferem politicas baseadas nas pessoas, as quais criem transferencias, direi- tos ou assistencia a partir de regulamenta- ck com base em caracteristicas pessoais. São exemplos de politicas baseadas nas pessoas o Earned Income Tax Credit (Cre- dito de Imposto de Renda Recebido) e a GI Bill (Lei dos Recrutas).

As politicas baseadas nos lugares, por outro lado, concedem transferencias ou outros tipos de assistencia governamental com base na localizack. São exemplos des-

cisa provar ter tamb m alguma "necessidade" adicional, como filhos pequenos ou uma incapacidade.

Uma critica comum aos progr, amas de bem-estar social é que eles criam incen- tivos para que as pessoas se tornem"necessitadas". Por exemplo, esses prog,ramas podem incentivar a desestruturg'a- o familiar, porque muitas famflias s6 fazem jus assistencia financeira se o pai estiver ausente. Os programas tambem podem incentivar os nascimentos ilegítinios, porque muitas mulheres pobres e solteiras se qualificam para a assistencia se tiverem filhos. Como as mks pobres e solteiras são uma parte muito importante da questk da pobreza e como os progr, amas de bem-estar social parecem aumentar o n mero de mks pobres e solteiras, os cos do sistema de bem-estar afirmam que essas politicas exacerbam os problemas que deveriam sanar. Em conseqijencia desses argumentos, o sistema de bem-estar foi reformado em 1996 por uma lei que limitou o prazo pelo qual os beneficiarios poderiam permanecer no programa.

Qual a severidade desses problemas potenciais enfrentados pelo sistema de bem-estar social? Ninguem sabe ao certo. Os defensores do sistema observam que ser uma iiiãe solteira e pobre dependente do bem-estar social e, na melhor das hipteses, uma vida difícil e duvidam que muitas pessoas seriam incentivadas a levar esse tipo de vida se esse sistema rik lhes fosse imposto. Alem disso, as ten- dencias ao longo do tempo rik sustentam a visk de que o declinio das familias com pai e rnãe seja um sintoma do sistema de bem-estar social, como os criticos do sistema por vezes afirmam. Desde o inicio da decada de 70, os beneficios do bem-estar social (descontada a inflg:d. o) diminufram, mas a porcentagem de crian- as que vivem com apenas um dos pais aumentou.

CAPiTULO 20 DESIGUALDADE DE RENDA E POBREZA 443

sas politicas os programas de moradia popu- lar e as zonas de empreendimento. A recen-

te Assistencia a Moradia Rural e Desen- volvimento EconOmico (Rural Housing and

Economic Development Assistance) para o

estado do Kentucky ou a nova Concessao de

Potencializacao de Zona (Empowerment Zone Grant) para o Leste de St. Louis, Illinois, sk) exemplos tipicos das politicas baseadas

nos luga res. 0 problema com programas baseados

nos lugares e que eles criam incentivos a

manutencao dos pobres nos guetos. Ao sub-

sidiar o lugar e nao a pessoa que la vive, essas

politicas fazem com que seja mais atraente para os pobres continuarem nas areas de alta

pobreza. De fato, pesquisas recentes mos- tram que as politicas supostamente benevo- lentes de habitacao e transferencias para os pobres representam um papel crucial na con-

centracao dos pobres em guetos.

E dificil entender a logica em limitar arti- ficialmente a migracao e em concentrar os pobres em areas de baixa produtividade.

Movimentos para fora das areas de baixa

produtividade e alto desemprego sao uma das razOes pelas quais as taxas de desem-

prego nos Estados Unidos se mantem bai- xas. Alern disso, a fuga dos guetos permitiu que muitos afro-americanos evitassem o custo social de viver neles e a segregacao de

negros e brancos nos Estados Unidos decli-

nou substancialmente por causa dela.

Os programas baseados nos lugares tam-

bern sofrem pelo fato de que uma parcela

desproporcional de seus beneficios vai para os proprietarios de imoveis nas areas visadas — e nao para os beneficiarios pretendidos. Se

o governo oferece beneficios fiscais as empre- sas que investem em uma regiao pobre, por exemplo, entao elas irk se estabelecer nessa area, elevando o preco das propriedades e os

alugueis. Mas os beneficios da maior ativida- de econOmica evaporarao porque o custo mais alto da moradia ira corroer os beneficios planejados para os necessitados...

Se as politicas baseadas nos lugares sac) tao ruins, como podem ser tao populares? Um observador cinico poderia dizer que os moradores dos sub6rbios ricos preferem que os pobres permanecam nos guetos. Uma explicacao mais pratica e de que temos politicos baseados nos lugares que fazem lobby por politicas baseadas nos lugares...

Uma sabia alternativa a essa defeituosa assistencia aos pobres baseada nos lugares seria um programa que oferecesse benefi- cios fiscais as empresas que empregassem os necessitados. Este seria um meio menos distorcido de ajudar os pobres.

Fonte: The Wall Street Journal, 12 ago. 1999, p. A22. Copyright © 1999 Dow Jones & Co. Inc. Reproduzido corn permissao de Dow Jones & Co. Inc. no formato livro-texto via Copyright Clearance Center.

I mpost° de Renda Negativo

Sempre que o govern° escolhe urn sistema de arrecaciacao de impostos, isso afeta a distribuicdo de renda. Isso é claramente verdade no caso do imposto de renda prog,ressivo, segundo o qual as familias de alta renda pagam uma 1,-)orcentagem major de sua renda ern impostos do que as familias de baixa rencia. Como vimos no Capitulo 12, a equidade entre gr, upos de renda é urn criterio importante no pro- jeto de urn sistema tributario.

Muitos economistas sao favoraveis a suplementar a renda dos pobres usando urn imposto de renda negativo. Segundo essa politica, todas as familias cleclara- riam sua renda ao govern°. As familias de alta renda pagariam um impost() basea- do em suas rendas. As farnilias de baixa renda receberiam urn subsidio. Ern outras palavras, "pagariam"urn "imposto negativo".

Suponha, por exemplo, que o govern° use a seguinte formula para calcular quanto uma familia deve em impostos:

Impostos devidos = (1/3 da renda) — $ 10 mil.

Nesse caso, uma familia que ganhasse $ 60 mil pagaria $ 10 mil em impostos, e uma que ganhasse $ 90 mil, pagaria $ 20 mil. Uma familia que ganhasse $ 30 mil nao pagaria nada. E uma que ganhasse $ 15 mil "deveria" — $ 5 mil. Em outras pala- was, o governo enviaria a essa familia urn cheque no valor de $ 5 mil.

Corn urn imposto de renda negativo, as familias pobres receberiam assistencia financeira sem que precisassem demonstrar sua necessidade. A Unica qualificacao necessaria para receber a assistencia seria uma baixa renda. Dependenclo do ponto de vista, essa caracteristica pode ser uma vantagem ou uma desvantagem. Por urn

impost° de renda negativo

um sistema tributario que

arrecada receita das Tam [has

de alta renda e concede

transferencias a familias de

baixa renda

444 PARTE 6 A ECONOMIA DOS MERCADOS DE TRABALHO

lado, um imposto de renda negativo não incentiva nascimentos ilegitimos nem a desestnitura o familiar, como os criticos do sistema de bem-estar social acreditam que a atual politica fga. Por outro lado, um imposto de renda negativo subsidiaria aqueles que s"&) simplesmente indolentes e que, na vis^k3 de alg,umas pessoas, 11. 10 merecen-i apoio do governo.

Uma clkisula do sistema tributkio que funciona muito como se fosse um imposto de renda negativo é o Eamed Income Tax Credit (EITC), um cr&lito de imposto de renda. Esse crklito permite que familias de trabalhadores pobres rece- bam restitui aes de imposto de renda maiores do que os impostos pagos durante o ano. Como o EITC se aplica somente aos pobres que est^ o empregados, ele desestimula o trabalho, como dizem que os outros programas de combate à pobre- za fazem. Pelo mesmo motivo, contudo, não ajuda a aliviar a pobreza que resulta do desemprego, da doenyi ou de outra caracteristica que impka o trabalho.

Transferkcias em Gkeros

Outra n-ianeira de ajudar os pobres é lhes fornecer diretamente alguns dos bens e servios de que precisam para elevar seu padro de vida. Por exen-Iplo, 1-11 institui- (;6es de caridade que, no Natal, oferecem aos necessitados alimentos, abrigo e brin- quedos. 0 govemo fornece às familias pobres vales-alimenta o, que s"k) vales do governo que podem ser usados para comprar comida; as lojas depois trocam os vales por dinheiro. 0 govemo tambthn dá a muitas pessoas pobres assistencia

por meio de um prog,rama chamado Medicaid. n-lelhor ajudar os pobres com essas transferencias em generos ou com paga-

n-ientos em dinheiro? NIo há resposta clara. Os defensores das transferencias en-1 generos afim-iam que elas garanten-1 que os

pobres recebam aquilo de que mais precisam. Entre os membros mais pobre.s da sociedade, o vicio ern álcool e droga é mais comum do que na sociedade como um todo. Ao proporcionar alimentos e abrigo aos pobres, a sociedade pode estar mais segura de n5o estar ajudando a sustentar o vicio. Esse é um dos n-iotivos pelos quais as transferencias em generos s • - o mais 1,-)opulares politicamente do que os paga- mentos em dinheiro aos pobres.

Os defensores dos pagamentos em dinhciro, por outro lado, argumentam que as transferencias em generos so ineficientes e desrespeitosas. 0 govemo 1-1 0 sabe de que bens e servios os pobres mais necessitam. Muitos dos 1,-)obres são pessoas comuns que não tiveram sorte. Apesar de seu infortimio, eles est"k) na melhor posi- ção 1.->ara decidir como elevar o pr6prio pac-Ho de vida. Em vez de dar aos pobres transferencias em espkie dos bens e servios que eles podem não desejar, talvez seja melhor lhes dar dinheiro e permitir que comprem aquilo que pensam ser mais necessik-io.

Programas Antipobreza e Incentivos ao Trabalho

Muitas politicas que tem por objetivo ajudar os pobres podem ter o efeito intencional de desencoraj -los a escapar da pobreza por si pn5prios. Para ver 1.->or que, imag,ine o seg,uinte exemplo: suponha que uma familia precise de uma rencia de $ 15 mil para manter um padro de vida razovel. E suponha que, por sua preo- cupa o com os 1_-)obres, o governo prometa garantir essa renda a cada familia. Seja qual for a renda da familia, o governo complernentará a difereNa entre essa renda e os $ 15 mil. Que efeito teria essa politica?

Os seus efeitos em termos de incentivos so Obvios: qualquer pessoa que ganhasse menos de $ 15 mil trabalhando não teria qualquer incentivo para procu- rar e manter um emprego. Para cada dOlar que essa pessoa ganhasse, o govemo reduziria a renda complementar em um dOlar. Na prkica, o governo taxaria 100%

CAPITULO 20 DESIGUALDADE DE RENDA E POBREZA

de cada ganho adicional. Uma aliquota marginal efetiva de 100°/0 é certamente uma politica corn grande peso morto.

Os efeitos adversos dessa alta taxa efetiva podem persistir ao longo do tempo. Uma pessoa desencorajada a trabalhar perde o treinamento em uma empresa que poderia contrati-la. Alem disso, os filhos dessa pessoa perdem as licoes que pode- riam aprender ao observa-la trabalhando em tempo integral, e isso pode ter efeitos adversos sobre sua capacidade de encontrar e manter urn emprego.

Embora o programa antipobreza que estivemos debatendo seja hipotetico, é tao irreal como pode parecer a primeira vista. 0 bem-estar social, o Medicaid, os vales-alimentacao e o programa de restituicao do imposto de renda (EITC) sdo programas que tem por objetivo ajudar os pobres e estdo todos ligados a rencia familiar. A medida que a renda da famflia aumenta, ela deixa de ter direito a esses prog,ramas. Quando todos esses programas sao tornados em conjunto, é comum para as familias se depararem com aliquotas marg,inais efetivas muito altas. Al- gumas vezes, a aliquota marginal efetiva chega a mais de 100%, de modo que alg,umas familias pobres ficariam em pior situacao se ganhassem mais. Ao tentar ajudar os pobres, o govern° desencoraja essas familias a trabalhar. De acordo corn os criticos dos programas de combate a pobreza, esses programas alteram as ati- tudes em relacao ao trabalho e criam uma "cultura de pobreza".

Pode parecer que h uma solucdo simples para esse problema: reduzir os bene- ficios das familias gradualmente, a urn ritmo mais lento que o aumento de sua renda. Por exemplo, se uma familia pobre perde 30 centavos em beneficios para cada &Aar que ganha, sua aliquota marginal efetiva sera de 30%. Embora essa all- quota reduza o esforco do trabalho em certa medida, rid° elimina completamente o incentivo ao trabalho.

0 problema dessa solucdo é que ela aumenta em muito o custo dos programas de combate a pobrcza. Se os beneficios forem reduzidos g,radualmente a medida que a renda das familias pobres aumenta, entdo as familias logo acima do nivel de pobreza tambem estardo qualificadas a receber beneficios substanciais. Quanto mais gradual a reducdo dos beneficios, mais familias estardo qualificadas — e maio- res sera() os custos do programa. Assim, os formuladores de politicas se deparam corn um tradeoff entre onerar os pobres corn aliquotas marginais elevadas e onerar os contribuintes corn programas dispendiosos para a reducdo da pobreza.

Hi diversas outras maneiras de tentar reduzir o desestimulo ao trabalho causado pelos prog,ramas de combate a pobreza. Uma é exigir que qualquer pessoa que rece- ba os beneficios aceite urn emprego dado pelo governo — urn sister-11a por vezes cha- mado de workfare'. Outra possibilidade é oferecer os beneficios por urn prazo limita- do. Esse caminho foi adotado quancio cia reforma do sistema de bem-estar social, em 1996. Os defensores do limite de tempo apontam para a reducdo da taxa de pobreza no final da decada de 1990 como evidencia que da suporte a essa abordagem. Seus criticos arg,umentam que os limites de tempo sdo crueis para os membros mais desa- fortunados da sociedade e que a queda da taxa de pobreza no final da decada de 1990 deveu-se mais a uma economia forte do que a reforma do sistema de bem-estar.

Teste Rapid() Indique tres politicos que tenham por objetivo ajudar os pobres e discuta seus pros e contras.

CONC1 USA°

As pessoas ha muito refletem sobre a distribuicdo de renda na sociedade. Platao, o filosofo da Grecia antiga, concluiu que em uma sociedade ideal a renda da pessoa

2 NRT: Programa de obras ptiblicas (iniciativa tomada pelo governo para diminuir o ntimero de

desempregados).

445

446 PARTE 6 A ECONOMIA DOS MERCADOS DE TRABALHO

NOTliklAS

VALES-EDUCKAO

Um dos objetivos da educacao universal é reduzir a diferenca entre ricos e pobres. Mas a educacao finonciada pelo govemo nao exige escolos adminis- tradas pelo govemo.

0 Mercado Pode Transformar as Nossas Escolas Por Milton Friedman

A decisk da Suprema Corte sobre os vales

abre caminho para uma grande expansk da

possibilidade de escolha da escola pelos

pais. Os opositores da liberdade de escolha

rik podem mais usar a Clusula do Esta-

belecimento Religioso da Primeira Emenda

para atacar os programas de vales agora que

a Suprema Corte declarou que o programa

de Cleveland é constitucional, muito embo-

ra a maioria dos vales fosse para escolas

paroquiais.

0 estado de Ohio oferecia vales no

valor de at $ 2.250 para os pais de baixa

renda de Cleveland que optassem por enviar seus filhos a escolas privadas que cobrassem pelo custo da instru0o não mais do que $ 2.500 por crianca. 0 vale era ofe- recido como alternativa à instruck governa- mental, que custava aproximadamente tr6 vezes mais por estudante. Mas cerca de

4 mil pais de baixa renda ainda achavam preferfvel a alternativa privada — o suficiente para pagar 100/0 das anuidades das escolas com seu pr6prio dinheiro. Que acusack contra as escolas do governo!

A maioria das escolas que aceitam vales religiosa por um motivo simples e que

facilmente corrigido. 0 motivo é o baixo

valor do vale. Não é fácil — e talvez seja

impossivel — oferecer educack satisfat6ria a $ 2.500 por aluno. A maioria das escolas pri- vadas gasta mais do que isso. Mas as esco- las paroquiais conseguem aceitar esses vales de baixo valor porque são subsidiadas por suas igrejas.

Se o valor do vale aumentar para $ 7 mil — o que o estado de Ohio e os governos locais gastam hoje, por aluno, nas escolas pbIicas — e estiver disponivel para todos os alunos e não só para os estudantes de farni-

lias de baixa renda, a maioria das escolas pri- vadas que aceitam vales ri^k será mais reli-

giosa. Surgiria uma multidk de escolas com

mais rica ruo deveria ser mais do que quatro vezes maior que a da pessoa mais pobre. Embora a n-iensurgao da desigualdade seja difícil, é claro que nossa socie- dade tem muito mais desigualdade do que a recomendada por Platao.

Um dos Dez Principios de Economia discutidos no Capitulo 1 é de que os gover- nos podem, alg-umas vezes, melhorar os resultados de mercado. Mas ha pouco consenso sobre como esse principio deveria ser aplicado à distribui0o de renda. Os fil&sofos e formuladores de politicas de hoje nao concordam sobre quanto de desigualdade de renda é desejavel, ou ate se as politicas pUblicas deveriam ter como objetivo alterar a distribuiao de renda. Grande parte do debate pUblico reflete essa discordancia. Sempre que os impostos aumentam, por exemplo, os legisladores discutem a respeito de quanto do aumento deve recair sobre os ricos, a classe media e os pobres.

Outro dos Dez Principlos de Econontia é de que as pessoas se deparam com tradeoffs. É importante ter em mente esse principio quando se pensa a respeito da desig,ualdade econ.5mica. Politicas que penalizam os bem-sucedidos e recompen- sam os malsucedidos reduzem o incentivo para o sucesso. Conseq-Lientemente, os formuladores de politicas se deparam com um tradeoff entre ig,ualdade e efici"en- cia. Quanto mais ig-,ualmente o bolo esta dividido, menor ele se toma. Essa é uma lição relativa à distribui ao de renda sobre a qual quase todos concordam.

CAPITULO 20 DESIGUALDADE DE RENDA E POBREZA 447

ou sem fins lucrativos. Os alunos portadores dos vales seriam, entao, menos dependen- tes das escolas paroquiais de baixo custo de instrucao.

Entao os pais realmente teriam escolha, e a qualidade da educacao — tanto nas esco-

las p6blicas quanta nas escolas privadas —

aumentaria par causa da competicao. Isso aconteceu em Milwaukee, onde o programa

de vales evoluiu ao longo dos ultimos dez

anos. Desde a criacao do programa, foram

abertas 37 novas escolas, das quais quase dais tercos eram nao-religiosas.

0 fato de o governo assumir a responsa-

bilidade pela educacao de todas as criancas

no significa que ela deva ser proporcionada

par escolas estatais — assim coma as vales-

alimentacao do governo nao precisam ser

gastos em supermercados do governo.

Alem disso, a enfase na liberdade de escolha da escola nao e nova, mesmo entre programas pOblicos. A Lei dos Recrutas, san-

cionada apos a Segunda Guerra Mundial, demonstra coma a liberdade de escolha

pode funcionar bem. 0 programa oferecia

vales para o ensino superior — que podiam ser usados em instituicoes religiosas ou nao-

religiosas — a milhoes de veteranos de guer- ra; isso transformou a educacao universitaria e gerou a lideranca educacional que repre- sentou um papel de destaque nas mudan-

cas politicos e econOrnicas no pos-guerra.

Quando a Lei dos Recrutas foi sanciona- da, houve d6vidas sabre a capacidade de as

faculdades se expandirem cam a rapidez

necessaria para absorver o influxo de novas

alunos. Mas o nthero de alunos matricula-

dos nas faculdades quase dobrou nos dais anos apos o fim da guerra. A oferta se expan-

diu para fazer frente a explosao da demanda.

0 mercado respondera cam igual plenitu-

de e rapidez a maior demanda par escolas pri-

vadas gerada pela expansao dos vales para a

educacao fundamental e media. Programas

privados de vales, financiados par fundacoes e pessoas fisicas, e as limitados programas governamentais conduzidos ate o momenta ja causaram uma resposta do mercado.

Os vales-educacao podem tirar o ensino

fundamental e media do seculo XIX e trazé-

lo para o seculo XXI par meio da introducao

da competicao em larga escala, da mesma

forma que a competicao permitiu o progres-

so em todas as demais areas da vida econO- mica e civil.

A grande vencedora corn tal revolucao

educacional é a sociedade americana coma

urn todo. Uma forca de trabalho mais quali-

ficada promete maior produtividade e cresci-

mento econOrnico mais rapid°. E, o que é

ainda mais importante, urn melhor ensino

pode ajudar a reduzir a diferenca de renda

entre as trabalhadores mais qualificados e as

menos qualificados e afastar a perspectiva

de uma sociedade dividida entre as que tern

e as que nao tern, uma sociedade em que

uma elite instruida providencia para que haja

urna classe permanente de pessoas inade-

quadas ao trabalho.

Fonte: The New York Times, 2 jul. 2002, p. A21. Copyright C 2002 The New York Times Co. Reproduzido corn permissao.

• Os dados sobre a distribuic5o de renda mostram uma ampla disparidade na sociedade norte-ameri- cana. 0 quint° mais rico das familias ganha cerca de dez vezes mais renda do que o quinto mais pobre.

• Como as transferencias em especie, o ciclo de vida economic°, a renda transitoria e a mobilidade eco- nemica sac) tao importantes para a compreensao das variacoes da renda, é dificil medir o g,rau desigualdade na sociedade usando dados de distri- buicao de renda somente de urn ano. Quando esses outros fatores sao levados em conta, tendem a sugerir que o hem-estar economic° é distribuido mais igualmente do que a renda anual.

• Os filosofos politicos divergem em suas teorias sobre o papel do govemo na alterac5o da distribui-

cao de renda. Utilitaristas (como John Stuart Mill) escolheriam a distribuicao de renda que maximiza a soma das utilidades de todos na sociedade. Liberalistas (como John Rawls) deteminariam a distribuicao de renda como se estivessemos por tnis de urn "vet' de ignorancia" que nos impedisse de conhecer a situacao em que viveriamos. Liberais (como Robert Nozick) 1.-)refeririam que o govern° assegurasse os direitos individuals para garantir urn processo justo, mas nao se preocupa- riam corn a desigualdade da distribuicao de renda resul tante.

• Diversas politicas tern por objetivo ajuclar os 1,-) obres — legislacao do salad° minim°, bem-estar social, impost() de renda negativo c transferencias em generos. Embora cac-la uma dessas politicas

448 PARTE 6 A ECONOMIA DOS MERCADOS DE TRABALHO

ajude alg-umas familias a escapar da pobreza, tani- bem tem efeitos colaterais nc--io-intencionais. Co- mo a assistencia financeira diminui à medida que a renda aumenta, os pobres freqiientemente se de-

param com uma aliquota marg,inal efetiva muito elevada. Essas aliquotas efetivas elevadas desenco- rajam as farnilias pobres a escapar da pobreza si prOprias.

taxa de pobreza, p. 433 renda permanente, p. 436 criterio maximin, p. 439 linha de pobreza, p. 433 utilitarismo, p. 437 libertarismo, p. 439 transferencias em generos, p. 435 utilidade, p. 437 bem-estar social, p. 441 ciclo de vida, p. 435 liberalismo, p. 438 imposto de renda negativo, p. 443

QUESTI5E5 PARA REVS-A.0

1. 0 quinto mais rico da popula o americana tem renda duas, quatro ou dez vezes maior que o quin- to mais pobre?

2. Como a desig,ualdade de renda nos Estados Unidos se compara com a de outras nay5es ao redor do rnundo?

3. Que g,rupos da popula o tem maior probabilida- de de viver na pobreza?

4. Por que as variay5es transit6rias e ciclicas da renda causam dificuldades na avalia o do grau de desi- o-ualdacle?

5. Como um utilitarista, um liberalista e um liberta- rista deterininam o g,rau perinissivel de desigual- dade de renda?

6. Quais s" "o os prOs e os contras das transferencias eiii generos (em vez de dinheiro) para os 13obres?

7. Descreva como os programas de combate à pobre- za podem desencorajar os pobres a trabalhar. Co- mo você reduziria esse desestirnulo? Quais as des- vantagens da sua proposta politica?

PROBLEMAS E APLICAGES

1. A Tabela 2 mostra que a desigualdade de renda aumentou nos Estados Unidos nos últirnos 20 anos. Alguns fatores que contribuiram para esse aumen- to foram discutidos no Capitulo 19. Quais s rio eles?

2. A Tabela 4 mostra que o percentual de criaNas em familias com renda abaixo da linha de pobreza excede em muito a porcentagem de idosos nessas

Como a alocay-io de dinheiro do govemo entre diferentes programas sociais contribuiu para esse fen6meno? (Dica: ver Capitulo 12.)

3. Os economistas freqiientemente encaram a varia- ção da renda durante o ciclo de vida como uma forma de varia o transitOria da renda em tomo da renda permanente das pessoas. Nesse sentido, como sua renda corrente se compara com a sua renda permanente? Voce considera que sua renda corrente reflete corretamente seu 1.->adr - o de vida?

4. 0 capitulo discute a importSncia da mobilidade econOmica. a. Que politicas o govemo poderia empregar para

aumentar a mobilidade econmica dentro de uma gerac;. o?

b. Que politicas o governo poderia empregar para aumentar a mobilidade econ3mica entre gera-

es? c. Em sua opinio, devemos reduzir as despesas

com os atuais progTamas de bem-estar social a fim de aumentar as despesas com programas que intensifiquem a mobilidade econOmica? Quais s'a- o as vantagens e desvantagens de fazer isso?

5. Considere duas comunidades. Em uma delas, dez familias te‘m renda de $ 100 cada e dez familias tem renda de $ 20 cada. Na outra comunidade, dez familias tem renda de $ 200 cada e dez familias tem renda de $ 22 cada.

CAPITULO 20 DESIGUALDADE DE RENDA E POBREZA 449

a. Em qual comuniclade a distribuicao de renda é mais desig,ual? Em qual das comunidades o pro- blema da pobreza tende a ser pior?

b. Qual distribuicao de renda Rawls preferiria? Ex- plique.

c. Qual distribuicao de renda voce preferiria? Explique.

6. 0 capitulo faz uma analogia corn um "balde fura- do" para explicar uma restricab i redistribuiciio de renda.

a. Oual element() do sistema americano de redis- tribuicdo de renda cria furos no balde? Seja especifico.

b. Em sua opinido, quern, em geral, acredita que o balde usado para redistribuir a renda est a mais furado, republicanos ou democratas? Como essa crenca afeta suas opiniaes sobre o montante de redistribuic5o de renda que o govemo deveria realizar?

7. Suponha que haja duas distribuicoes de renda possiveis em uma sociedade de dez pessoas. Na primeira distribuicao, nove pessoas teriam renda de $ 30 mil e uma teria renda de $ 10 mil. Na seg,unda, todas as dez pessoas teriam renda de $ 25 mil.

a. Se a sociedade tivesse a primeira distribuicao, qual seria o argument° utilitarista para redistri- buir renda?

b. Qual distribuicao de renda Rawls consideraria mais equitativa? Explique.

c. Qual distribuicdo de renda Nozick consideraria mais eqiiitativa? Explique.

8. A taxa de pobreza seria substancialmente menor se o valor de mercado das transferencias em generos fosse somado a renda das familias. 0 croverno aosta mais dinheiro com o Medicaid do que corn qualquer outra transferencia em generos, corn despesas por farnIlia beneficiaria em tomb de $ 5 mil ao ano. a. Se o govemo entregasse a cada familia beneficiEi-

ria urn cheque nesse valor, em vez de inscreve-la no programa Medicaid, voce acha que a maioria dessas familias usaria essa quantia para fazer urn piano de assistencias medica? (Lembre-se de que a linha de pobreza é abaixo de $ 15 mil para uma familia de quatro pessoas.) Por que?

b. Como sua resposta a parte (a) afeta sua opinido sobre se deveriamos determinar a taxa de pobreza atribuindo as transferencias em gene- ros valor igual ao preco que o govern° paga por elas? Explique.

c. Como sua resposta a parte (a) afeta sua opiniao sobre se deveriamos oferecer assistencia aos pobres sob a forma de dinheiro ou transferen- cias em generos? Explique.

9. Suponha que o impost() a pagar de uma seja igual a sua renda multiplicada por meio, menos $ 10 mil. Nesse sistema, algumas familias pagariam impostos ao govern° e outras recebe- riam dinheiro dele por meio de urn "impost° de renda negativo".

a. Considere familias corn rendas, antes do impos- to, de $ 0, $ 10 mil, $ 20 mil, $ 30 mil e $ 40 mil. Crie uma tabela mostrando a renda antes do impost°, o impost° pago ao govemo ou o dinheiro recebido dele e a renda de cada apos o pagamento do impost°.

b. Qual a aliquota marginal desse sistema? (Ver o Capitulo 12 se precisar relembrar a definicao de aliquota marginal.) Qua! a renda maxima em quo Lima familia Iva* dinheiro do govemo?

c. Suponha agora que a tabela do impost() mude, de modo que cada farnflia deva sua renda mul- tiplicada por urn quarto, menos $ 10 mil. Qual a aliquota marginal do novo sistema? Qual a renda maxima ern que uma farnflia recebe di- nheiro do govemo?

d. Qual a principal vantagem de arida uma das tabelas de impost° aqui discutidas?

10. John e Jeremy sac) utilitaristas. John acredita que a oferta de mdo-de-obra é altamente elastica, e Jeremy, que ela é bastante inelastica. Em sua opi- niao, em quo diferem as opinioes deles sobre redistribuicdo de renda?

11. Voce concorda ou nao corn cada uma das coloca- goes a seguir? Quais as implicacbes que suas opi- nioes trazem para politicas publicas como impos- tos sobre a heranca?

a. "Os pais tern o direito de trabalhar duro c pou- par a fim de dar a seus filhos uma vida melhor."

b."Crianca alguma dove ser prejudicada pela inclo- lencia ou rn sorte de seus pais."

TC5PECOS iE.

A TEORIA DA ESCOLHA DO CO1SUMIDOR

Quando voce' entra em uma loja, confronta-se com milhares de bens que poderia comprar. Naturalmente, como os seus recursos financeiros são limitados, voc'e pode comprar todas as coisas que quer. Portanto, voce considera o prec;o dos varios bens à venda e compra um conjunto de bens que, dados os seus recursos, melhor atenda as suas necessidades e desejos.

Neste capitulo, desenvolveremos a teoria que descreve como os consumidores tomam decis6- es sobre o que comprar. Ate este ponto do livro, resumimos as deci- ses dos consumidores por meio da curva de demanda. Como vimos nos capitulos 4 a 7, a curva de demanda de um bem reflete a disposi o do consumidor para pagar por ele. Quando o preo de um bem aumenta, os consumidores esto dis- postos a pagar por menos unidades, de modo que a quantidade demandada dimi- nui. Agora analisaremos com maior profundidade as decis .6es que estio por tras da curva de demanda. A teoria da escolha do consumidor apresentada neste capitulo permite um entendimento mais completo da demanda, assim como a teoria da empresa competitiva do Capitulo 14 proporciona um entendimento mais comple- to da oferta.

Um dos Dez Principios de Econon•a discutidos no Capftulo 1 e de que as pessoas se deparam com tradeoffs. A teoria da escolha do consumidor examina os tradeoffs com os quais as pessoas se deparam no papel de consumidores. Quando um con-

454 PARTE 7 TOPICOS DE ESTUDOS AVANcADOS

sumidor compra major quantidade de urn bem, tem de comprar menos de outros bens. Quando despende mais tempo desfrutando de lazer e menos tempo traba- lhando, tern renda menor e pode consumir menos. Quando gasta mais de sua renda no presente e poupa menos, ele deve aceitar urn nivel de consumo mais baixo no futuro. A teoria da escolha do consumidor examina como os consumido- res que se deparam corn esses tradeoffs tomam decisoes e como respondem a mudancas em seu ambiente.

Apos desenvolver as bases da teoria da escolha do consumidor, iremos aplica-la a fres questoes sobre as decisoes das famflias. Mais especificamente, perg,untaremos:

• Todas as curvas de demanda tern inclinacao negativa? • Como os salarios afetam a oferta de mao-de-obra? • Como as taxas de juros afetam a poupanca das familias?

A primeira vista, parece que essas questoes nao estao relacionadas. Mas, como iremos ver, podemos usar a teoria da escolha do consumidor para responder a cada uma delas.

A 7E01100 OKAMENTARIA: 0 QUE 0 CONSUNDOR PODE GASTAR A maioria das pessoas gostaria de aumentar a quantidade ou a qualidade dos bens que consome — tirar ferias mais longas, dirig,ir carros mais imponentes ou comer em restaurantes melhores. ksp esso a s consomem menos do cue desejam porque suas

.,- (1,Apesas estao restringidas, ou seja, estao limitacias por sua renqa. Comecaremos nosso estu o da e c a do consumidor examinando essa 1ac4o entre renda e

esas. simplificar, vamos examinar a decisdo de urn consumidor que compra

somente dois bens: Pepsi e pizza. E claro que, no mundo real, as pessoas compram milhares de diferentcs tipos dc bens. Mas admitir que so haja dois bens simplifica o problema sem alterar a compreensao b6sica a respeito da escolha do consumidor.

Primeiro, vamos examinar como a renda do consumidor restringe o montante que ele gasta em Pepsi e pizza. Suponha que o consumidor tenha renda de $ 1 mil por mes e decida gastar toda a sua renda, a cada mes, em Pepsi e pizza. 0 preco de uma lata de Pepsi sao $ 2, e o de uma pizza, $ 10.

A tabela da Figura 1 mostra algumas das rnuitas combinacoes de Pepsi e pizza que o consumidor pode comprar. A primeira linha da tabela indica que, se o con- sumidor gastar toda a sua renda em pizza, podera corner 100 pizzas durante o rnes, mas nao podera comprar qualquer quantidade de Pepsi. A segunda linha mostra outra combinacao de consumo possivel: 90 pizzas e 50 latas de Pepsi. E assim por diante. Cada combinacdo de consumo mostrada na tabela custa exata- mente $ 1 mil.

0 g,rafico da Figura 1 ilustra as combinacoes de consumo que o consumidor pode escolher. 0 eixo vertical mede o niimero de latas de Pepsi, e o eixo horizon- tal, o numero de pizzas. Tres pontos estao marcados na figura. No ponto A, o con- sumidor n5o comj,-)ra Pepsi e consome 100 pizzas. No ponto B, o consumidor nao compra pizza e consome 500 latas de Pepsi. No ponto C, o consumidor compra 50 pizzas e 250 latas de Pepsi. 0 ponto C, que esta exatamente no meio da linha que liga A e B, é o ponto em que o consumidor gasta a mesma quantia ($ 500) em Pepsi e pizza. Naturalmente, estas sao apenas fres das muitas combinacoes de Pepsi e

Restrição oramentkia do consumidor

50 1 00 Quantidade de Pizza

CAPITULO 21 A TEORIA DA ESCOLHA DO CONSUMIDOR 455

A Restri b Orcamenthria do Consumidor

A restricao orcomentOria mostra os vOrias combinacaes de bens que o consumidor pode comprar com urna determinada rencla Aqui, o consumidor com-

pro combinacaes de Pepsi e pizza. A tabela e o grOfico mostram o que o consumidor pode compror se sua renda for de $ 1 mil, o preco de uma Pepsi

for $ 2 e o de umo pizzo for $ 10.

Latas de Pepsi

Nmero de Pizzas

Despesa em Pepsi

Despesa em Pizza

Despesa Total

Quantidade de Pepsi

0 100 $ 0 $1.000 $1.000 50 90 100 900 1.000 500

100 80 200 800 1.000

150 70 300 700 1.000 200 60 400 600 1.000 250 50 500 500 1.000 300 40 600 400 1.000 350 30 700 300 1.000

250

400 20 800 200 1.000 450 10 900 100 1.000 500 0 1.000 0 1.000

A A estri0o oramenthria

o limite das combinaces de(

„" )

consumo de bens que o -)___consumidor pode adquirir

pizza que o consumidor pode escolher. Todos os pontos da linha que vai de A a B s" "o possiveis. Essa linha, chamada de restri o oNamenffi-ia, mostra as combina- b'es de consumo de que o consumidor disp6e. Nesse caso, representa o tradeoff

entre Pepsi e pizza con-i que o consumidor se depara. restri or_c_a_r~r-ia mede a taxa a que o cons dor_p_ocle

t,roca ro. Corno vimos no apen—dice\c16–C4itu10 2, a entre dois pontos e calculada como a variaio da distffilcia vertical dividida pela varia o da distffilcia horizontal ("aumento sobre distffilcia"). Do ponto A ao ponto B, a disffincia vertical é de 500 latas e a distncia horizontal e de 100 pizzas. Assirn, a inclinação é de 5 latas por pizza. (Na verdade, como a restri o oNamentEiria se

inclina para baixo, a inclinação e um nUmero negativo. Para nosso prop5sito, entre- tanto, vamos ignorar o sinal negativo.)

Observe que a inclinação da restri o oNamentEiria é igual ao prep relativo dos dois bens – o prec;o de um bem comparado ao preo do outro. Uma pizza custa 5 vezes mais do que uma lata de Pepsi, de modo que o custo de oportunidade de uma pizza s.- o 5 latas cle Pepsi. A inclinação da restric;; .-io oNamentEiria no valor de 5 refle- te o tradeoff que o mercado oferece ao consumidor: 1 pizza por 5 latas de Pepsi.

Teste R4ido Represente graficamente a restrick orcamentria de uma pessoa com renda de $ 1 mil, se o preco da Pepsi for $ 5 e o da pizza for $ 10. Qual a inclinack dessa restri0o orcament a?

TMgS 1 2

Curve de indifererica

Qua ntidade de Pizza

456 PARTE 7 TOPICOS DE ESTUDOS AVANcADOS

PREFERENC1AS: 0 QUE 0 CONSUM1DOR QUER Nosso objetivo neste capitulo é ver como os consumidores fazem escolhas. A res- tricao orcamentaria é uma parte da analise: ela mostra quais combinacoes de bens o consumidor pode adquirir, dados a sua renda e o preco dos bens. As escolhas do consumidor, contudo, nao dependem apenas de sua restricao orcamentria, Inas tambem de suas preferencias em relacao aos dois bens. Portanto, as preferencias do consumidor representam a proxima parte de nossa analise.

(--' ; curva de indiferenca

/ uma curia que mostra as

, combinacOes de consumo

( que proporcionam ao

consumidor o mesmo nivel

_de satisfacao

Representacao das Preferencias corn Curvas de Indiferenca

As preferencias do consumidor lhe permitem escolher entre diferentes combina- cOes de Pepsi e pizza. Se voce oferecer ao consumidor duas combinacoes diferen- tes, ele escolhera aquela que melhor atenda a suas preferencias. Se ambas atende- rem igualmente a suas preferencias, dizemos que o consumidor é indifrrente entre as duas combinacoes.

Da mesma forma como representamos g,raficamente a restricdo orcamentaria do consumidor, podemos tambem representar graficamente suas preferencias. Fazemos isso corn as curvas de indiferenca. Uma curva de indifererica mostra as combinacoes de consumo que fazem o consumidor igualmente feliz. Nesse caso, as curvas de indiferenca mostram as combinacoes de Pepsi e pizza corn as quais o consumidor está ig,ualmente satisfeito.

A Figura 2 mostra duas das muitas curvas de indiferenca do consumidor. 0 con- sumidor é indiferente em relacao as combinacoes A, B e C porque elas est.do na mesma curva. Nab é de surpreender que, se o consumo de pizza do consumidor se

FIGURA 2

As Preferencias do Consumidor

As preferencias do consumidor sao representadas corn curios de indiferenca, que mostram as combinacbes de Pepsi e pizza que o deixam igualmente satisfeito. Como o consumidor prefere mois de urn bem, pontos que estejam em uma curio de indiferenca mais alto (12, nesse caso) sao preferidos em relocao aos pontos de urna curio de indiferenca mais boixo (1,). A taxa marginal de substituicao (TMgS) mostra o taxa a quo! o consumio'or est6 disposto o trocar Pepsi por pizza.

CAPh-ULO 21 A TEORIA DA ESCOLHA DO CONSUMIDOR 457

reduzir, digamos, do ponto A para o ponto B, o consumo de Pepsi precisath aumen- tar para igualmente satisfeito. Se o consumo de pizza for novamente reduzido, do ponto B para o ponto C, a quantidade consumida de Pepsi precisath aumentar novamente.

A inclinação em qualquer ponto de un-ia curva de indifereNa é igual à taxa qual o consumidor está disposto a substituir um bem por outro. Essa taxa e chama- da de taxa marginal de substitui o (TMgS). Nesse caso, a taxa marg,inal de subs- titui o n-iede quanto de Pepsi o consumidor precisa, a fim de se sentir compensa- do pela percla de uma uniclade no consumo de pizza. Observe que, como as curvas de indiferena n5o s'a- o linhas retas, a taxa marginal de substitui o não é a mesma em todos os pontos de uma dada curva de indifereNa. A taxa à qual o consumidor esta. disposto a trocar um bem por outro depende da quantidade de bens que esta' consumindo. Ou seja, a taxa à qual o consumidor está disposto a trocar pizza por Pepsi depende de ele estar mais faminto ou mais sedento, o que, por sua vez, depende de quanta pizza e quanta Pepsi ele possui.

0 consumidor está igualmente satisfeito em todos os pontos de uma dada curva de indifereNa, mas prefere algumas curvas de indifereNa a outras. Como ele pre- fere mais consumo (1que menos consumo, as cur,vas de indiferena mais—etev-a-das sao prerenveis as maks baixas._Na , igura qualquer po

-nto na curva de indiferena e preferivel:a qualqU---er 0 confun-to de curvas de indiferença de um consumidor nos dá uma classifica-

o conwleta das suas prefer'encias. Ou seja, podemos usar as curvas de indiferen- ça para classificar quaisquer duas combing'6'es de bens. Por exemplo, as curvas de indifereNa nos dizem que o ponto D é preferivel ao ponto A porque está em uma cuiva de indifereNa mais elevada do que o ponto A (essa concluso é óhvia, já que o 13onto D proporciona ao consurnidor mais pizza e mais Pepsi). As curvas de indi- fereNa tambem nos dizem que o ponto D é preferivel ao ponto C porque está em uma curva de indifereNa mais elevada. Embora no ponto D haja menos Pepsi do que no ponto C, ele contem uma quantidade de pizza adicional que é mais do que suficiente para fazer com que o consumidor prefira esse ponto. Vendo qual ponto está situado na curva cle indifereNa mais elevada, podemos usar o conjunto de cur- vas de indifererwa para classificar quaisquer combing r6es de Pepsi e pizza.

Quatro Propriedades das Curvas de IndifereNa

Como as curvas de indiferena representam as prefer'encias do consumidor, elas tem determinadas propriedades que refletem essas prefere'ncias. Examinaremos aqui quatro propriedades que descrevem a maioria das curvas de indifereNa:

(*, Propriedade 1: 4,.curvas de indik-enca mais elevadas . s4o .prgferiv.eis .tskmais baixas. 0,s- 9.1.4.sql:~orn=iatknente p-reerem__erTmais de a g,uma coisa a ter menos. Essa prefer'encia po-r mafOre-s-quanti-6-des se re-flete-ri- CU- rv—as- deindiferena. Como mostra a Figura 2, curvas de indiferena mais elevadas representam quantidades maiores de bens do que as curvas de indifereNa mais baixas. Portanto, o consumidor prefere estar nas curvas de indifereNa mais elevadas. Propriedade 2: As curvas_de indiferenca se inclinam para baixo. A inclinação de uma curv reNa reflete a taxa—a qual Q£onsumiclor est disposto—a'subStifuir um bem _por outro. -Na-maioria dos casos, o consuMidOr ,c;bsta dos dois bens.

s."` -a--quantidaTh—fe-7--le urribeMFOr re-crt:izTd-a,Ta:.1 h Ua=rx..tidade-d—o outrey,pre-

aiitn-en-t-ar:a- firrid-e -q-u--emicons-ufrildor fique igualmente satisfeito. 'Por essa rzãòa -ri-fffibfra- cTa-s-CTrv-as de indifei-eNa S'inclinam para-baix6":- Propriedatic 3: As,proas de indiferenp nr7o se cruzam. Para ver por que isso

suponha que duas -Curvas e MdItereNa se cruzassem como na Figura 3. EnUio, como o ponto A esth na mesma curva de indifereNa que o ponto B, os

taxa marginal de

/substitui(a.o

a taxa a qual um consumidor

está disposto a trocar um

bem por outro

• d...9.),(?,-14 o•Le

458 PARTE 7 TOPICOS DE ESTUDOS AVANcADOS

A Impossibilidade da Intersecao de Curvas de Indiferenca

Uma situacao como essa nao pode acontecer. De acordo corn essas curvas de indiferenca, o consumidor estoria igualmente satisfeito nos pontos A, B e C, embora o ponto C tenha mars dos dois bens que o ponto A.

Quantidade de Pizza

dois pontos deixariam o consumidor igualmente satisfeito. Alem disso, como o pont° B esti' na mesma curva de indiferenca que o ponto C, esses dois pontos tambem dariam ao consumidor o mesmo nivel de satisfacao. Mas essas conclu- saes implicam que os pontos A e C tambem deixem o consumidor igualmente satisfeito, embora o pont° C tenha major quantidade de ambos os bens. Isso contradiz nossa hipotese de que o consumidor sempre prefere mais dos dois hens a menos. Portant°, as curvas de indiferenca nao podem se cruzar. Propriedade 4: As . .u.,rvas de indiferen a sa convexas em relacao a origeni dos eixos. A

--- inclinacao de uma curva de indiferenca é a taxa marginal de sub-kituicao - a taxa

qual o consumidor esti disposto a trocar urn bem por outro. A taxa marginal de substituicao (77VigS) geralmente depende da quantidade de cada hem que o consumidor esta consumindo atualmente. De modo mais especffico, como asp. pessoas estdo mais dispostas a trocar bens que tenham em abundancia e menos dispostas:a trocaOpens_que-tenharn-eril'OciiiKliquanti-dad-e7a-S-C—u—rvaS-de ferenca so -convexas em relaci ridos eixo-s-.15or exemplo, considere a Figura 4. No ponto A, como o consumidor tern muita Pepsi e somente urn pouco de pizza, est corn muita fome, mas nao tern muita sede. Para induzir o consu- midor a abrir mao de 1 pizza, é precis° dar-lhe 6 latas de Pepsi: a taxa marginal de substituicao é de 6 latas por pizza. Por outro lado, no ponto B, o consumidor tern pouca Pepsi e muita pizza, de modo que esta sedento, mas nao tern muita fome. Nesse ponto, ele estaria disposto a abrir mao de 1 pizza para obter 1 lata de Pepsi: a taxa marginal de substituicao é de 1 lata por pizza. Portant°, a conve-------,_,--- xidade da curva de indiferEs_areflete a maior-4isposicao do_consumictor,para

mao do be que ere j6 tem em,g_a-iiae-

Dols Exemplos Extremos de Curvas de Indiferenca

0 formato de uma curva de indiferenca nos diz sobre a disposicao de urn consu- midor em trocar urn hem por outro. Quando os bens sao facilmente substituiveis

-

2 3

CAPfTULO 21 A TEORIA DA ESCOLHA DO CONSUMIDOR

Fith- RA4

Curvas de Indiferega Convexas

As curvos de indiferenca costumam ser convexas. Esse formato implica que o taxa marginal de substituicao

(TMgS) depende da quantidade dos dois bens que o consumidor esta consumindo. No ponto A, o consumidor

tem pouca pizza e muita Pepsi, de modo que sera preciso muita Pepsi a mais para induzi-lo a abrir mao de

umo pizza. A taxa marginal de substituicao é de 6 latas de Pepsi por pizza. No ponto B, o consumidor tem

muita pizzo e pouca Pepst de modo que sera preciso pouca Pepsi a mois paro induzi-lo o obrir mao de uma

pizza: a toxa marginal de substituicao é de 1 lata de Pepsi por pizza.

459

Quantidade de Pepsi

14

8

4 3

0

Curva de indifereNa

Quantidade de Pizza

um pelo utro, as curvas de indifereNa são menos convexas; quando é dificil subs- tituir um bem por ou_tro, as muik-o–co-fivexaS:-Para'ver-por Elue iss e ãde,vamš analisa—r os casos extrem--os.

Substitutos Perfeitos Suponha que alguem lhe oferea dois pacotes, cada um deles com diferentes combing -Oes de moedas de 5 e 10 centavos. Como voce clas- sificaria os diferentes pacotes?

Muito provavelmente, voce só se preocuparia com o valor nionet4rio total de cada pacote. Nesse caso, voce avaliaria cada pacote com base no n mero de moedas de 10 centavos somado ao n mero de moedas de 5 centavos multiplicado por dois. Em outras palavras, voce sempre estaria disposto a trocar uma moecia de 10 centa- vos por duas de 5 centavos, qualquer que fosse o n mero de moedas de 10 centavos e 5 centavos contidas em cada pacote. Sua taxa marginal de substituição entre moe- das de 5 e 10 centavos seria um ni:imero fixo: 2.

Podemos representar suas preferencias entre moedas de 5 e 10 centavos com as curvas de indifereNa do painel (a) na Figura 5. Con-io a taxa marginal de substitui-

o é constante, as curvas de indifereNa ski linhas retas. Nesse caso extremo de curvas de indifereNa retas, dizemos que os dois bens so substitutos perfeitos.

Complementos Perfeitos Suponha agora que alguen-i lhe ofere(;a lotes de sapatos. Alguns sapatos servem no pe direito, ao passo que outros servem no esquerdo. Como voce classificaria esses diferentes lotes?

substitutos perfeitos (,

L

' dois bens cujas curvas c1 7

indiferenca sk retas

3 Moedas de 10 Centavos

(b) Complementos Perfeitos

Sapatos para o Pe Esquerdo

7

5 /1

0 5 Sapatos para o Pe Direito

460 PARTE 7 TOPICOS DE ESTUDOS AVANcADOS

Substitutos Perfeitos e Complementos Perfeitos

Quando dais bens soo facilmente substituiveis urn pelo outro, as curvas de indiferenca sao linhas retas, como mostra o painel (a). Quando dais bens sao foriemente complementares, como as pes esquerdo e direito dos sapatos, as curvas de indiferenca apresentam urn angulo reto, como mostra o painel (b).

(a) Substitutos Perfeitos

Moedas de 5 Centavos

6

complementos perfeitos .} dois bens cujas curvas der indiferenca formam urn

I angulo reto

Nesse caso, voce ficaria preocupado somente corn o numero de pares de sapa- tos. Em outras palavras, avaliaria urn lote de sapatos corn base no numero de pares qua pudesse reunir a partir dee. Urn lote corn 5 pes esquerdos e 7 pes direitos ren- deria apenas 5 pares. Obter mais urn pe direito nao tern qualquer valor se n5o hou- ver urn pe esquerdo para lhe fazer par.

Podemos representar suas preferencias por sapatos para os pes esquerdo e direito por meio das curvas de indiferenca do painel (b) da Figura 5. Nesse caso, urn lote corn 5 pes esquerdos e 5 pes direitos tern o mesmo valor que urn lote corn 5 pes esquerdos e 7 pes direitos. Tern tambem o mesmo valor que urn lote corn 7 pes esquerdos e 5 pes direitos. As curvas de indiferenca, 1.-)ortanto, tern format° de ang-ulos retos. Nesse caso extremo de curvas de indiferenca corn angulo reto, dize- mos que os bens sao complementos perfeitos.

No mundo real, naturalmente, a maioria dos bens nao é nem de substitutos per- feitos (corno moedas de 5 e 10 centavos), nem de complementos perfeitos (como sapatos para os pes esquerdo e dircito). Normalmente, as curvas de indiferenca sao convexas, rnas nao a ponto de formar angulos retos.

Teste Rapid() Represente graficamente algumas curvas de indiferenca de Pepsi e pizza. Explique as qua- tro propriedades dessas curvas de indiferenca.

OTIMIZA00: 0 QUE C CONSUMIDOR ESCOLHE 0 objetivo deste capitulo é entender como urn consumidor faz suas escolhas. Ja temos os dois componentes de que precisamos para essa analise: a restricao °Ka- mentaria do consumidor e as preferencias do consumidor. Agora vamos reunir esses dois componentes e analisar a decisao do consumidor a respeito do qua comprar.

CAPftULO 21 A TEORIA DA ESCOLHA DO CONSUMIDOR 461

As Escolhas Ótimas do Consumidor

Vamos utilizar novamente o exemplo da Pepsi e da pizza. 0 consumidor gostaria de terminar com a melhor combina o possivel de Pepsi e pizza - ou seja, a com- binac:. -ao na curva de indiferena mais elevada possivel. Mas o consumidor tambem precisa manter-se na linha ou abaixo da linha de restri o oNamentaria, que mede o total de recursos disponiveis para ele.

A Figura 6 mostra a restriO- o oNamentaria do consumidor e tres de suas mui- tas curvas de indifereNa. A cu a mais ekvada que o consumidor pode atingir (12, na figura) e aquela q4e tangencia a restri o 6Namentana. em que essa-

curva de iniffereria

ë5an é chamado de 6thno. 0 P-cbnsumir-T-1--et-eriria o—p-dfito A, mas riThWTY0--cre --EiTifi&- o—rq 1-5-mif6--esta

acima da sua restri o oNamentaria. 0 consumidor pode optar pelo ponto B, mas esse ponto esta em uma curva de indifereNa mais baixa e, portanto, lhe proporcio- na menor satisfa o. 0 (5ti,mo representa a melhor combing -ao de consumo de Pepsi e pizza disponiverpara o consum

------------- -Observe que, no OTifno, a incling - o da curva de indiferena é ig-,ual da restrição oNamentria. Dizemos que a curva de indifereNa é tangente à restri-

o oNamentaria. A incling'a"o da curva de indifereNa é a taxa marg,inal de subs- titui o entre Pepsi e pizza, e a iiicliiiação da restri o oNamentaria é o prew rela- tivo da Pepsi em termos de pizza. Assim, o consumidor escolhe o constuno dos dois bens de tal modo que t? taxa marginal de substitui(do seja igual tiO preffl relativo.

Vimos no Capitulo 7 como os prec;os de mercado refletem o valor marginal que os consumidores atribuem aos bens. Essa analise da escolha do consumidor apre- senta os mesmos resultados de uma maneira diferente. Ao fazer suas escolhas de consumo, o consumidor toma como dado o pre9p relativo dos dois bens e, ento, escolhe um Otimo ao qual sua taxa_kal l de substitui -ao sej_a_igual o relathioT e relativo e a taxa'a qual o mercado esta _diszosto a trocar um bem

pas-so qur6 õ m- dor esta p. trocar um beM oiTh 1=5:1\Tr timo do que ele faz dos dois bens como me xa marginal de substitui o) e igual

FIGURA 6

Quantidade de Pepsi

0 0timo do Consumidor

0 consumidor escolhe o ponto de sua restricao orcamentaria que toca a curva de indiferenca mais elevada. Nesse ponto, chamado de atimo, a taxa marginal de substitukao é igual ao preco relativo dos dois bens. Aqui, a curva de indiferenca mais elevado que o consumidor pode atingir é 12. 0 consumidor prefere o ponto A, que esth na curva de indiferenca l, mas sua restricao orcamenthria o impede de obter esso combinacao de Pepsi e pizza. Por outro lado,

o consumidor poderia escolher o ponto B, que esta dentro de suas

possibilidades, mas como esse ponto se situa em uma curva de indiferenca mais baixa, o consumidor nao o prefere.

Quantidade de Pizza

462 PARTE 7 TOPICOS DE ESTU DOS AVANcADOS

SAIBA MAIS SOBRE...

UTILIDADE: UMA FORMA ALTERNATIVA DE DES- CREVER AS PREFERENCIAS E A OTIMIZAcA0

Temos utilizado as curvas de indiferenda para representar as prefe- rencias do consumidor. Outra maneira comum de representar pre- ferencias é par meio do conceito de utilidade. Utilidade é uma medida abstrata da satisfacao au felicidade que urn consumidor obtem de urn conjunto de bens. Os economistas dizem que urn consumidor prefere urn conjunto de bens a outro se o primeiro ofe- rece maior utilidade do que o segundo.

As curvas de indiferenda e a utilidade estao estreitamente relacio- nadas. Como o consumidor prefere pontos que estejam ern curvas de indiferenda mais elevadas, as conjuntos de bens que estao em curvas de indiferenda mais elevadas proporcionam maior utilidade. Como o consumidor fica igualmente satisfeito em todos as pontos que estejam em uma mesma curva de indiferenda, todos esses con- juntos proporcionam a mesma utilidade. Podemos pensar em uma curva de indiferenda coma se fosse uma curva de "utilidade igual".

A utilidade marginal de qualquer bem é o aumento de utilida- de que o consumidor obtern de uma unidade adicional do bem em questa°. Supoe-se que a maioria dos bens exibe utilidade marginal decrescente: quanta mais de urn bem o consumidor tern, menor a utilidade marginal proporcionada par uma unidade a mais do mesmo bem.

A taxa marginal de substituicao entre dais bens depende de suas utilidades marginais. Par exemplo, se a utilidade marginal do bem X e duas vezes a utilidade marginal do bem Y, entao o duo precisaria de duas unidades do bem Y para compensar a perda

de uma unidade do bem X, e a taxa marginal de substituicao é igual a 2. De maneira mais geral, a taxa marginal de substituicao (e, por- tanto, a inclinacao da curva de indiferenda) e igual a utilidade mar- ginal de urn bem dividida pela utilidade marginal do outro bem.

A analise da utilidade nos proporciona outra maneira de descre- ver a otimizadao para o consumidor. Lembre-se de que, no Otimo do consumidor, a taxa marginal de substituidao e igual a razao entre as precos. Isto é,

TMgS =

Como a taxa marginal de substituicao e igual a razao das utilida- des marginais, podemos escrever essa condic-ao de otimizacao coma

UMgx/UMgy=

E podemos reorganizar a equadao para chegar a

UMgx/Px= UMgy/l),

Essa equadao tern uma interpretacao simples: no Otimo, a utili- dade marginal par Mar gasto com o bem X e igual a utilidade mar- ginal par dolar gasto corn o bem Y. (Par que? Se essa igualdade nao se mantivesse, o consumidor poderia aumentar a utilidade gastando menos cam o bem que he proporcionasse menor utilidade margi- nal par dolar e mais corn o bem que !he proporcionasse maior uti- lidade marginal par Mar.)

Quando as economistas debatem a teoria da escolha do consu- midor, podem expressa-la usando diferentes palavras. Urn econo- mista poderia dizer que o objetivo do consumidor é maximizar a uti- lidade. Outro poderia dizer que o objetivo do consumidor é situar-se na curva de indiferenda mais elevada possivel. 0 primeiro economis- ta concluiria que, no atimo do consumidor, a utilidade marginal par dolar e a mesma para todos as bens, ao passo que o segundo con- cluiria que o otimo do consumidor fica no ponto em que a curva de indiferenda e tangente a restricao ordamentaria. Na fundo, sao duas maneiras de dizer a mesma coisa.

avaliaca-o do mercado (como medida pelo preco relativo). Como resultado clessa otimiza0o pelo consumidor, o preco de mercado dos diferentes bens reflete o va- lor que os consumiclores atribuem a cada bem.

Como as Variacoes na Renda Afetam as Escolhas do Consumidor

Agora que vimos como o consumidor toma a decisao de consumo, vamos estudar como o consumo responde a variac-.5es na renda. Sendo mais especificos, suponha que a rencia aurnente. Corn uma renda major, o consumidor pode comprar mais dos dois bens. 0 aumento na renda, portant°, desloca a restricao orcamentaria para fora, como na Figura 7. Como o preco relativo dos dois bens continua o mesmo, a inclina(ao da nova restricao orcamentaria é a mesma que a inclinacao da restricao orcamentaria original. Isto é rn aumento na renda leva a urn desloca- mento arale10 da restricao orcament6riz (.0

I k0,-,

Quantidade de Pizza

0

2.... aumentando o consumo de pizza...

Quantidade de Pepsi Nova restrição oNamentkia

1. Um aumento na renda desloca a restri0o oramentkia para fora...

Novo ótimo

3.... e o consumo — de Pepsi.

2

Restrição oramentria

inicial

CAPITULO 21 A TEORIA DA ESCOLHA DO CONSUMIDOR 463

FIGURA 7

Um Aumento na Renda

Quando a renda do consumidor aumenta, sua restric -ao orcomenthria desloco-se para foro. Se os dois bens forem bens normais, o consumidor responde ao aumento na renda comprando mais de ambos os bens. Aqui o consumidor compro mais pizza e mals Pepsi:

A restrição oNamentkia expandida permite que o consumidor escolha uma melhor combina o de Pepsi e pizza. Em outras palavras, o consun-lidor pode agora ating,ir uma curva de indifereNa mais elevada. Dados o deslocamento da restri o oNamentria e as prefefencias do consumidor, tais como representadas pelas suas curvas de indifereNa, o Otimo do consumidor move-se do ponto indicado como "OtiQo iniciar_za_r_a_o_pontO cor-r oTi7-11-6

Observe que, na Figura7o consumi or opta por Lonsumir mais Pepsi e mais pizza. Embora a lOgica do modelo não exija aumento do consumo dos dois bens em resposta a um aumento na renda, este e o resultado mais comum. Como vimos no Capitulo 4, se um consumidor deseja mais de um bem quando sua renda aumenta, os economistas chamam esse ben-i de bem normal. As curvas de indife- rena da Fig,ura 7 foram desenhadas supondo que tanto a Pepsi quanto a pizza sejam bens normais.

A Figura 8 mostra um exemplo em que um aumento na renda induz o consu- midor a comprar mais pizza, porem menos Pepsi. Se um consumidor cornpra menos de um bem quando sua renda aumenta, os economistas chamam esse ben-i de bem inferior. A Fig,ura 8 foi desenhada supondo que a pizza seja um bem nor- mal, e a Pepsi, um bem inferior.

Embora a maioria dos bens seja normal, existem alg,uns bens inferiores no mundo real. Um exemplo está nas passagens de Onibus. Para os consumidores de alta renda, e maior a probabilidade de que sejam proprietEirios de carros e menor a probabilidade de andarem de Onibus do que para os consumidores de baixa rencia. As passagens de Onibus são, portanto, um bem inferior.

Como as Variaces nos Precos Afetam as Escolhas do Consumidor

Vamos agora usar esse modelo da escolha do consumidor para ver como uma mudaNa no 1_-)reo de um dos bens altera as escolhas do consumidor. Suponha, mais especificamente, que o preo da Pepsi caia de $ 2 para $ 1 a lata.1\l'a"o é de sur-

bem normal

um bem para o qual um

aumento na renda eleva a

quantidade consumida

bem inferior

um bem para o qual um

aumento na renda diminui a

,quantidade consumida

Quantidade de Pepsi

3. ... mas o consumo de Pepsi cal, fazendo da Pepsi urn bem inferior.

Restricao orcamentaria

inicial 0

Nova restricao orcamentaria

1. Quando urn aumento na renda desloca a restricao orcamentaria para fora...

Novo Otimo

Quantidade de Pizza 2.... o consumo de pizza aumenta, o que faz da pizza urn bem normal...

464 PARTE 7 TOPICOS DE ESTU DOS AVANcADOS

FIGURA 8

Um Bern Inferior

Urn bem é urn bem inferior se o consumidor compra menos dele quando sua renda aumenta. Aqui, Pepsi é um bem inferior: quando a rendo do consumidor aumenta e sua restricao orcamentOria se desloca para fora, o consumidor compra mais pizza e menos Pepsi.

efeito renda

a variacao de consumo que

ocorre quando uma mudanca

\ de preco move o consumidor

para uma curva de indiferenca

I\ mais elevada ou menos

)elevada

/elk° substituicao

v, a ariacao de consumo que! 1 i ocorre quando uma mudanca

de preco move o consumidor

ao longo de uma dada curva de indiferenca ate urn ponto

\ corn uma nova taxa marginal

cle substituicao

preender clue o menor preco expanda o conjunto de oportunidades de compra do consumidor. Em outras palavras, Ulna queda no preso de qualquer urn dos bens desloca a -restricao orcamentaria para f- a.

A Figura 9 mostra mais especificamente como a queda de preco afeta a restri- (do orcamentaria. Se o consumidor gastar toda a sua renda de $ 1 mil em pizza, o preco da Pepsi ser6 irrelevante. Portant°, o ponto A na figura permanece o mesmo. Mas se o consumidor gastar toda a sua renda de $ 1 mil em Pepsi, podera agora comprar 1 mil latas em vez de apenas 500. Assim, o ponto final da restricao ment6ria desloca-se do ponto B para o pont° D.

Observe que nesse caso o deslocamento para fora da restricao orcamentaria altera sua inclinacao (isso difere do caso anterior, quando os precos se mantiveram os mesmos, mas a renda do consumidor mudou). Como ja foi visto, a inclinac5o da restric5o orcamentitria reflete os precos relativos da Pepsi e da pizza. Como o preco da Pepsi caiu de $ 2 para $ 1, enquanto o da pizza se manteve em $ 10, o consumi- dor pode agora trocar uma pizza par 10 latas de Pepsi, em vez de 5 latas, como ocorria anteriormente. Como resultado, knova.restric amentaria tern uma inclinacp major.

A maneira pela qual a alteracao na restricao orcamentdria muda o consumo de ambos as bens depende das preferencias do consumidor. As curvas de indiferenca tracadas nesta figura mostram que o consumidor compra mais Pepsi e menos pizza.

Efeito Renda e Efeito Substituicao

0 impact° de uma mudanca no preco de urn hem sobre o consumo pode ser decomposto em dois efeitos: o efeito renda e o efeito substituicao. Para ver o que

Quantidade de Pepsi

Nova restrição oNamentaria

Novo 6timo 1. Uma queda do preo da Pepsi provoca uma rota o para fora da restrição oramentria...

ti mo inicial

100 Quantidade 2.... reduzindo o consumo de pizza... de Pizza

1.000

500 3.... e aumentando-7 o consumo de Pepsi.

Restrição oramentaria inicial

CAPITULO 21 A TEORIA DA ESCOLHA DO CONSUMIDOR 465

FIGURA 9

Uma Variack no Preco

Quando o preco do Pepsi cat a restri- cao orcomentana do consumidor deslo- ca-se para fora e mudo sua inclinacao. 0 consumidor move-se do Otimo inicial para o novo atimo, o que muda suas compros tanto de Pepsi quonto de pizza. Nesse caso, a quontidode consu- mida de Pepsi aumento e a quantidade consumida de pizza cai.

são esses dois efeitos, imag,ine como o consumidor reagiria se soubesse que o preo da Pepsi caiu. Ele poderia raciocinar das seguintes maneiras:

• "Grande noticia! Agora que a Pepsi esti mais barata, minha renda ten-i maior poder de compra. Estou, de fato, mais rico do que antes. Como estou mais rico, posso comprar mais Pepsi e mais pizza." (Este e o efeito renda.)

• "Agora que o prec;o da Pepsi caiu, posso comprar mais latas de Pepsi para cada pizza de que eu abrir rnão. Como a pizza agora está relativamente mais cara, eu deveria comprar menos pizza e mais Pepsi." (Este é o efeito substitui .)

Qual c-ias duas afirmac;"(5es voce julga ser a mais correta? Na verdade, as duas afirmg -6es fazem sentido. A queda no pre9a da Pepsi deixa

o consumidor em melhor situa o. Se tanto a Pepsi quanto a pizza s' "o bens nor- mais, o consumidor desejará distribuir seu maior poder de con-yra entre os dois bens. Esse efeito renda tende a fazer com que o consumidor compre mais pizza e mais Pepsi. Mas, ao mesmo tempo, o consumo de Pepsi tornou-se mais barato em relgo ao consumo de pizza. Esse efeito suhstituição tende a fazer o consumidor escolher mais Pepsi e menos pizza.

Considere agora o resultado final desses dois efeitos. 0 consumidor certamen- te compra mais Pepsi, já que tanto o efeito renda quanto o efeito substitui o agem no sentido de aumentar as compras de Pepsi. Mas não se pode dizer com certeza se o consumidor comprará mais pizza porque os efeitos renda e substitui o tra- balham em dire es opostas. Essa concluso e sintetizada na Tabela 1.

Podemos interpretar os efeitos renda e substitui o usando curvas de indiferen- efeito renda é a variac, & no consunto que resulta da passagem pt7ra uma curva de

indiferent7 mais elevada. O efeito substituk y-7o (-5 a variaciTh no consumo que resulta de se

estar C111 11111 ponto de uma C1117,a de indifuen-a com Unla taxa marginal de substitui(do

difereitte.

466 PARTE 7 TOPICOS DE ESTUDOS AVANcADOS

TABELA 1

Os Efeitos Renda e Substituick Quando o Prey) da Pepsi Cai

Bern Efeito Renda Efeito Substituicao

Pepsi 0 consumidor esta mais rico, A Pepsi esta relativamente mais portant° compra mais Pepsi. barata, portant° o consumidor

compra mais Pepsi.

Pizza 0 consumidor esta mais rico, A pizza esta relativamente mais portant° compra mais pizza. cara, portanto o consumidor

compra menos pizza.

Efeito Total

Os efeitos renda e substituicao agem no

mesmo sentido, portant° o

consumidor compra

mais Pepsi.

Os efeitos renda e substituicao agem em direcoes opostas, portant° o efeito total sobre o consumo de pizza é incerto.

A Figura 10 representa graficamente como decompor a mudanca da decisao do consumidor em seus efeitos renda e substituicao. Quanclo o preco da Pepsi cai, o consumidor se move do Otimo inicial, ponto A, para o novo otimo, o ponto C. Podemos considerar que essa mudanca se de em duas etapas. Primeiro, o consu- midor se move ao ion go da curva de indiferenca inicial I, do ponto A para o ponto B. 0 consumidor esta igualmente satisfeito nesses dois pontos, mas no ponto B a taxa marginal de substituicao reflete o novo preco relativo (a linha pontilhada que passa pelo ponto B reflete o novo preco relativo, sendo paralela a nova restricao orcamenta-ria). Em seguida, o consumidor se desloca para uma curva de indiferen- ca mais elevada, movendo-se do ponto B para o ponto C. Embora os pontos B e C estejam em curvas de indiferenca diferentes, eles tem a mesma taxa marginal de substituicao. 0-u seja, a inclinacao da curva de indiferenca Li no ponto B é igual inclinacao da curva de indiferenca 12 no ponto C.

Embora o consumidor nunca chegue a escolher efetivamente o ponto B, esse ponto hipotetico é iitil para esclarecer os dois efeitos que determinam a decisdo do consumidor. Observe que a passagem do ponto A para o ponto B representa uma pura variacao da taxa marginal de substituicao sem qualquer mucianca no bem- estar do consumidor. De forma similar, a mudanca do ponto B para o ponto C representa uma pura mudanca no hem-estar do consumidor, sem qualquer varia- ca-o da taxa marginal de substituicao. Portanto, o movimento de A para B mostra o efeito substituicao, e o movimento de B para C mostra o efeito renda.

Derivando a Curva de Demanda

Acabamos de ver como mudancas no preco de um bem alteram a restricao orca- mentaria do consumidor e, portanto, as quantidades dos dois bens que ele escolhe comprar. A curva de demanda de qualquer bem reflete essas decisoes de consumo. Recorde-se que a curva de demanda mostra a quantidade demandada de um hem a qualquer preco dado. Podemos enxergar a curva de demanda de urn consumidor como urn resumo das decisoes otimas que decorrem de sua restricao orcamentaria e de suas curvas de inc-liferenca.

Por exemplo, a Figura 11 mostra a demanda por Pepsi. 0 painel (a) mostra que, quando o preco de uma lata cal de $ 2 para $ 1, a restricao orcamentaria do consu- midor desloca-se para fora. Por causa dos efeitos renda e substituicao, o consumi- dor aumenta suas compras de Pepsi de 250 para 750 latas. 0 painel (b) mostra a

Quantidade de PizzaEfeito substitui o

—01- Efeito renda

Quantidade de Pepsi

Nova restrição orcament&ia

C Novo dtimo Efeito renda

Efeito substitui0o

Restrição oNamentria

inicial

ti mo inicial

750 $ 2

Nova restrição orcamentria

(a) 0 0timo do Consumidor (b) A Curva de Demanda por Pepsi

Pre93 da PepsiQuantidadede Pepsi

250 Demanda

Quantidade 0 250 750 Quantidade de Pizza de Pepsi

Restri0o oNamentria inicial

CAPITTULO 21 A TEORIA DA ESCOLHA DO CONSUMIDOR 467

FIGURA 10

Efeito Renda e Efeito

Substituic&)

0 efeito de uma mudanca no preco pode ser decomposto em efeito renda e efeito substituicdo. 0 efeito substitui* - o movimento ao longo de uma cum de indiferenca para urn ponto com taxo marginal de substituicO-o diferente - representodo pela mudanca do ponto A pora o ponto B ao longo do curva de indiferenca I,. 0 efeito renda - o deslocamento para uma curva de indiferenca mais elevada - representado aqui pela mudanca do ponto B na curva de indiferenca I, para o ponto C na curva de indiferenca 12.

FICIURA 11

Derivando a Curva de Demanda

0 painel (a) mostra que, quando o preco da Pepsi cat de $ 2 para $ 1, o 6timo do consumidor se move do ponto A para o ponto B e a quantidade de Pepsi consumida aumento de 250 para 750 latas. A curva de demanda do painel (b) reflete essa relacCio entre o preco e a quantidade demandada.

468 PARTE 7 TOPICOS DE ESTU DOS AVANcADOS

rbern de Giffen um bem para o dual urn aumento no preco provoca urn aumento no quantidade demandada

curva de demanda resultante das ciecisOes desse consumidor. Dessa forma, a teoria da escolha do consumidor proporciona os fundamentos teOricos para a curia de demanda do consumidor, apresentada no Capitulo 4.

Embora seja reconfortante saber que a curia de demanda surge naturalmente da teoria da escolha do consumidor, esse exercicio, por si so, na-o justifica o desen- volvimento da teoria. Nao hd necessidade de uma estrutura analitica rigorosa ape- nas para estabelecer que as pessoas respondem as variacoes nos precos. A teoria da escolha do consumidor é, contudo, muito dtil. Como veremos na proxima secao, podemos usar a teoria para investigar corn mais profundidade os determinantes do comportamento das familias.

Teste Rapid° Represente graficamente uma restricao orcamentaria e as curvas de indiferenca de Pepsi e pizza. Mostre o que acontece corn a restricao orcamentaria e o atimo do consumidor quando o preco da

pizza aumenta. Ern seu diagrama, decomponha a variacao em efeito renda e efeito substituicao.

TRES APLICACOES Agora que desenvolvemos a teoria basica da escolha do consumidor, vamos usa-la para lancar luz sobre tres questOes a respeito de como funciona a economia. Essas tres questoes podem, de Mid°, parecer nao estar relacionadas. Mas como cada questa° envolve a tomada de decisoes pelas farnilias, podemos aborda-las corn o model° de comportamento do consumidor que acabamos de desenvolver.

Todas as Curvas de Demanda Tem Inclinacao Negativa?

Normalmente, quando o preco de urn bem aumenta, as pessoas compram menos desse hem. No Capitulo 4, chamamos esse comportamento usual de lei do demon- da. Essa lei se reflete na inclinacao negativa da curia de demanda.

Como assunto de teoria econamica, entretanto, as curvas de demanda podem, em alguns casos, ter inclinacao positiva. Ern outras palavras, os consumidores podem, as vezes, violar a lei da demanda e comprar major quantidade de urn bem quando o seu preco aumenta. Para ver como isso pode ocorrer, considere a Figura 12. Nesse exen-iplo, o consumidor compra dois bens — came e batatas. Inicialmente, a restricao orcamentaria é a linha que vai do ponto A ao ponto B. 0 Otimo é o ponto C. Quando o preco das batatas aumenta, a restricao orcamentaria se desloca para dentro e passa a ser a linha que vai do ponto A ao ponto D. 0 otimo é agora o ponto E. Observe que o aliment° do preco das batatas fez corn que o consumidor passasse a comprar uma quantidade major delas.

Por que o consumidor reage de maneira aparentemente perversa? A razao é por- que as batatas, nesse caso, sao urn hem intensamente inferior. Quando o preco das batatas aumenta, o consumidor fica mais pobre. 0 efeito renda faz corn que o con- sumidor deseje comprar menos came e mais batatas. Ao mesmo tempo, como as batatas se tomaram mais caras em relacao a came, o efeito substituicao faz corn que o consumidor deseje comprar mais came e menos batatas. Nesse caso particular, contudo, o efeito renda é tdo forte que supera o efeito substiwicao. No fim, o consu- midor responde ao major preco das batatas comprando menos came e mais batatas.

Os economistas usam o termo hem de Giffen para descrever urn bem que viola a lei da demanda (o termo vem do economista Robert Giffen, que foi o primeiro a observar essa possibilidade). Nesse exemplo, as batatas sao urn hem de Giffen. Os bens de Giffen sao hens inferiores para os quais o efeito renda domina o efeito substituicao. Portanto,_suas curvas de demanda tern inc1in 4Q2,scendente.-....--

/ /1 ' 2

se elas forem um bem de Giffen.

0

1. Um aumento no preco das aumenta o ,---- ........... ............................ batatas provoca uma rotac-a"o consumo da restrico orcamentkia de batatas para dentro...

ti mo com preco alto das batatas

ti mo com preco baixo das batatas

2.... o que

/

CAPIITULO 21 A TEORIA DA ESCOLHA DO CONSUMIDOR 469

FIGURA 12

Um Bem de Giffen

Neste exemplo, quando o preao das botatas aumenta o 6timo do consumidor desloca-se do ponto C para o ponto E. Nesse ccso, o consumidor responde oo maior preao das batatas comprando menos carne e mais batatas.

Quantidade de Carne

Os economistas discordam sobre se ja foi descoberto algum bem de Giffen. Alguns historiadores sugerem que as batatas foram, efetivamente, um bem de Giffen durante a sua escassez na Irlanda do seculo XIX. As batatas eram uma parte fao grande da dieta do povo que, quando o seu preo aumentou, o efeito renda foi enorme. As pessoas reag,iram a redu o no seu padr"ao de vida cortando o consu- mo do bem de luxo carne e aumentando suas compras de batatas, um alimento basico. Assim, argumenta-se que o elevado prec;o das batatas aumentou realmen- te a quantidade demandada de batatas.

Seja esse episOdio histOrico verdadeiro ou nceTi o, é seguro dizer que os bens de Giffea,,s'ao muito raros. A teoria da escolha do consumidor reconhece curvas de deman o positiva. Mas isso é tho raro que a lei da demanda e confiavel quanto qualquer outra lei econOmica.

Como os Sal rios Afetam a Oferta de Trabalho?

Ate aqui, usamos a teoria da escolha do consumidor para analisar como uma pes- soa decide alocar sua renda entre dois bens. Podemos usar a mesma teoria para analisar como uma pessoa decide alocar seu ten-ipo entre trabalho e lazer.

Vamos analisar a decis'ao com que se depara Sally, uma programadora de compu- tadores autOnoma. Sally permanece acordada 100 horas por semana. Ela gasta parte desse ten-ipo desfrutando de algum tipo de lazer — andando de bicicleta, assistindo

estudando economia e assim por diante. Ela passa o resto do seu tempo desen- volvendo prog,ramas em seu computador. Para cada hora que passa desenvolvendo programas, ela ganha $ 50, gastos no consumo de bens. Assim, seu salario ($ 50) reflete o tradeoff entre lazer e trabalho com o qual Sally se depara. Para cada hora de lazer de que abre iiião, ela trabalha uma hora a mais e ganha $ 50 para consumo.

A Figura 13 mostra a restrição oNamentaria de Sally. Se gastar todas as 100 horas desfnitando de lazer, , ela iião tera consumo. Se passar todas as 100 horas tra-

470 PARTE 7 TOPICOS DE ESTU DOS AVANcADOS

FIGURA 13

0 60 100 Horas de Lazer

balhando, ela ganhara consumo semanal de $ 5 mil, mas nao tera tempo para lazer. Se fizer uma jornada normal de 40 horas por semana, ter6 60 horas de lazer e con- sumo semanal de $ 2 mil.

A Figura 13 usa as curvas de indiferenca para representar as preferencias de Sally por consumo e lazer. Aqui, consumo e lazer sao os dois "bens" entre os quais Sally precisa escolher. Como ela sempre prefere mais lazer e mais consumo, sua preferencia é por pontos em curvas de indiferenca mais elevadas. Ao salario de $ 50 por bora, Sally escolhe un-ia combinacao de consumo e lazer representada pelo pont° indicado como "otimo". Estee o ponto da restricao orcamentliria que se situa na curva de indiferenca mais alta possivel, que é L.

Vejamos agora o que acontece quando o salario de Sally aumenta de $ 50 para $ 60 por hora. A Figura 14 mostra dois resultados possIveis. Em cada caso, a restri- cao orcamentaria mostrada no grafico a esquerda se desloca para fora, de ROi para RO.,. Nesse process°, a restri(ao orcamentaria se torna mais inclinada, refletindo a mudanca no preco relativo. Corn o sal6rio major, Sally obtem mais consumo para cada hora de lazer de que abre mao.

As preferencias de Sally, como representadas por suas curvas de indiferenca, determinam as respostas resultantes de consumo e de lazer ao major salario. Nos dois paineis, o consumo aumenta. Mas a resposta do lazer a mudanca no salario é diferente nos dois casos. No painel (a), Sally responde ao major salario desfnitan- do de menos lazer. No painel (b), ela responde desfrutando de mais lazer.

A decisao de Sally entre lazer e consumo determina sua oferta de trabalho por- que, quanto mais lazer ela desfruta, menos tempo ela tern para trabalhar. Em cada painel, o g,rzifico ii direita da Figura 14 mostra a curva de oferta de trabalho impli- cita na decisao de Sally. No painel (a), urn salario major induz Sally a desfrutar de menos lazer e trabalhar mais, de modo que a curva de oferta de trabalho tern incli- nacao positiva. No painel (b), um salario major induz Sally a desfnitar de mais lazer e trabalhar menos, de modo quo a curva de oferta de trabalho se inclina "para tras".

A primeira vista, a curva de oferta de trabalho corn inclinacao para tr6s é enig- matica. Por que alg-uem responderia a um salario major trabalhando menos? A res- posta é dada pelos efeitos renda e substituicao decorrentes de urn salario major.

1. Quando o aumenta...

Oferta de trabalho

Consumo

1. Quando o sal&io aumenta...

/ 2

CAPITULO 21 A TEORIA DA ESCOLHA DO CONSUMIDOR 471

Um Aumento no Salkio

Os dois paink desta figura mostram como uma pessoa poderia reagir a um aumento no salario. Os graficos ò esquerda mostram a restriccio orca- menthria original do consumidor, RO,, e a nova restricdo orcamentdria, RO,além das escolhas atimos do consumidor entre consumo e thzer. Os grafi- cos à direita mostram a curva de oferta de trabalho resultante. Como as horas trabalhadas sdo iguais ao total de horas disponlveis menos os horos de lazer, qualquer mudanco no nUmero de horos de lazer implica uma mudanca no sentido oposto na quantidade de trabalho ofertado. No painel (o), quando o salario aumenta, o consumo aumento e o lazer diminui, resultando em uma curva de oferta de trabalho de inclinacdo positiva. No painel (b), quando o salario aumenta, tanto o consumo quanto o lazer aumentam, resultando em uma curva de oferta de trabolho que se inclina para tras.

(a) Para uma pessoa com estas prefer&icias... a curva de oferta de trabalho tem inclina o positiva.

Consumo

Oferta de trabalho

\o 4,- i Horas 0 -n/ Horas dede Lazer2.... as horas de lazer diminuem... 3.... e as horas de trabalho Trabalho aumentam. Ofertadas

(b) Para uma pessoa com estas prefer&icias... a curva de oferta de trabalho se inclina para ts.

0 --> Horas 0 Horas de 2.... as horas de lazer aumentam... de Lazer 3.... e as horas de trabalho Trabalho

diminuem. Ofertadas

Vamos tratar, primeiro, do efeito substitui o. Quando o salffiio cle Sally s<.. aumenta, o lazer se torna mais caro em rela o ao consumo, e isso a encoraja a

Re-re,r;

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"Chega de trabalhar per/ado integral"

472 PARTE 7 TOPICOS DE ESTUDOS AVANCADOS

substituir lazer por consumo. Em outras palavras, o efeito substituic5o induz Sally a trabalhar mais em resposta aos maiores salkios, o que tende a fazer corn que a curva de oferta de trabalho tenha inclinac5o positiva.

Vamos analisar agora o efeito renda. Quando o sakirio de Sally aumenta, ela se move para uma curva de indiferenca mais elevada. Ela agora esti em uma situacao melhor do que antes. Desde que lazer e consumo sejam bens normals, ela tende- r i a usar esse aumento de hem-estar para desfrutar de mais consumo e mais lazer. Em outras palavras, o efeito renda a incluz a trabalhar menos, o que tende a fazer corn que a curva de oferta de trabalho se incline para tnis.

No fim, a teoria economica no nos dzi uma previsdo clara sobre se o aumento do sakirio induzird Sally a trabalhar mais ou menos. Se o efeito substituicdo major do que o efeito renda, ela trabalha mais. Se, para Sally, o efeito renda é major do que o efeito substituicao, ela trabalha menos. A curva de oferta de trabalho, por- tant°, pode ter inclina0o positiva ou pode se inclinar para tras.

ti r e Case

EFEITOS DA RENDA SOB RE A °FERIA DE TRABALHO: TEN DENCIAS HISTORICAS, GANHADORES DA LOTERIA E A CONJECTURA DE CARNEGIE

A ideia de uma curva de oferta de trabalho que se incline para trzis pode parecer, ,s1 primeira vista, uma mera curiosidade teorica, mas, de fato, nao é. A evidencia indi- ca que a curva de oferta de trabalho, quando considerada em longos periodos de tempo, de fat° se inclina para trEis. H-Ei cern anos, muitas pessoas trabalhavam seis dias por semana. Hoje, a norma é a semana de cinco dias de trabalho. Ao mesmo tempo em que a duracdo da jomada semanal de trabalho tern diminuido, o salkio do trabalhador tipico (descontada a inflaczio) tern aumentado.

Eis como Os economistas explicam esse padrao histOrico: corn o passar do tempo, os avancos tecnologicos aumentam a produtividade dos trabalhadores e, corn isso, a demanda por m50-de-obra. 0 aumento da demanda por mao-de-obra eleva os salkios de equilibrio. A medida que os salkios aumentam, aumenta a recompensa pelo trabalho. Mas em vez de reagir a esse aumento do incentivo tra- balhando mais, a maioria dos trabalhadores opta por usar parte de sua maior pros- peridade sob a forma de mais lazer. Ern outras palavras, o efeito renda dos maio- res salkios domina o efeito substituicao.

Outra evidencia de quo o efeito renda sobre a oferta de trabalho é forte vem de dados bem diferentes: os ganhadores de loterias. Os ganhadores de g,randes pre- mios veem urn grande aumento ern suas rendas e, como resultado, g,randes deslo- camentos para fora de suas restricoes orcamentkias. Entretanto, como os salkios dos ganhadores no mudam, a inclinaciio das suas restricoes orcamentkias per- manece a mesma. Nao 116, portant°, efeito substituic5o. Examinando o comporta- mento dos ganhadores de loterias, podemos isolar o efeito renda sobre a oferta de trabalho.

Os resultados dos estudos corn ganhadores do loterias sac-) dignos de nota. Dentre os ganhadores quo receberam mais de $ 50 mil, quase 25% pararam de tra- balhar em urn ano e outros 9% reduziram o numero de horas trabalhadas. Dentre os ganhadores que receberam mais de $ 1 milhao, cerca de 40(Y0 pararam do traba- Ulan 0 efeito renda sobre a oferta de trabalho dos ganhadores de 1Dremios oTandes é substancial.

Resultados semelhantes foram encontrados em um estudo, publicado na edicao de maio de 1993 do Quarterly Journal of Economics, sobre como o recebimento de

Consumo na Fase Idosa Restri o

oNamentaria$110.000

55.000

CAPftULO 21 A TEORIA DA ESCOLHA DO CONSUMIDOR 473

uma heraNa afeta a oferta de trabalho de uma pessoa. 0 estudo concluiu que uma pessoa solteira que herde mais de $ 150 mil tem quatro vezes mais probabilidade de parar de trabalhar do que uma pessoa solteira que herde menos de $ 25 mil. Essa conclus -ao não teria surpreendido Andrew Carnegie, um industrial do seculo XIX. Camegie alertou que "o pai que deixa ao filho uma enorme riqueza geralmente enfraquece o talento e a energ,ia desse filho e o tenta a levar uma vida menos útil e de menos valor do que se daria de outra forma". Ou seja, Camegie teve a percep-

o de que o efeito renda sobre a oferta de trabalho era substancial e, do seu ponto de vista patemalista, lamentavel. Durante a sua vida e ao morrer, Camegie doou grande parte de sua vasta fortuna a obras de caridade. •

Como as Taxas de Juros Afetam a PoupaNa das Famflias?

Uma deciso importante com que todas as pessoas se deparam é quanto da renda consumir hoje e quanto poupar para o futuro. Podemos usar a teoria da escolha do consumidor para analisar como as pessoas tomam essa decisio e em que medida o montante que poupam depende da taxa de juros que suas poupane , as renderL'io.

Considere a decisk) com que se depara Sam, um trabalhador que esta planejan- do sua aposentadoria. Para simplificar, vamos dividir a vida de Sam em dois periodos. No primeiro periodo, Sam e jovem e trabalha. No seg,undo, e idoso e esta aposenta- do. Quando jovem, Sam ganha $ 100 mil. Ele divide essa renda entre o consumo cor- rente e a pouparwa. Já idoso, Sam consumira o que poupou, incluindo os juros que sua poupaNa rendeu.

Suponha que a taxa de juros seja de 10%. Então, para cada d6lar que Sam poupa quando jovem, pode consumir $ 1,10 quando idoso. Podemos considerar o "consu- mo na fase joven-i"e o "consumo na fase idosa" como os dois bens entre os quais Sam precisa escolher. A taxa de juros determina o prev) relativo desses dois bens.

A Figura 15 mostra a restri o oNamentaria de Sam. Se ele não poupar nada, consome $ 100 mil quando jovern e nada quando idoso. Se poupar tudo, ru-io con-

FIGURA 15

A Decish Consumo-Poupanca

A Figura mostra a restricdo orcamentaria para uma pessoa que decide quanto consumir nos dois periodos de suo vida, as curvas de indiferenca representam suas preferencias e o ponto atimo.

$50.000 100.000 Consumo na Fase Jovem

(b) Major Taxa de Juros Reduz a Poupanca

Consumo na Fase ldosa

02

1. Uma major taxa de juros desloca a restricao orcamentaria para fora...

Consumo na Fase ldosa RO

2

Consumo na Fase Jovem

0 2.... resultando em menor consumo na fase jovem e, portant°, major poupanca.

1. Uma major taxa de juros desloca a restricao orcamentaria para fora...

474 PARTE 7 TOPICOS DE ESTU DOS AVANCADOS

some nada quando jovem e $ 110 mil quando idoso. A restricao orcamentaria mos- tra essas duas possibilidades e todas as possibilidades intermediarias.

A Figura 15 usa curvas de indiferenca para representar as preferencias de Sam por consumo nos dois periodos. Como ele prefere consumir mais nos dois perio- dos, ira preferir pontos que estejam nas curvas de indiferenca elevadas a pontos situados em curvas de indiferenca mais baixas. Dadas as suas preferencias, Sam escolhe a combinacao Otima de consumo nos dois periodos de sua vida, que é o ponto da restricao orcamentaria que esti na curva de indiferenca mais elevada pos- sivel. Nesse Otimo, Sam consome $ 50 mil quando jovem e $ 55 mil quando idoso.

Vejamos agora o que acontece se a taxa de juros aumentar de 10% para 20%. A Figura 16 mostra dois resultados possiveis. Nos dois casos, a restricao orcamenta- ria desloca-se para fora e se torna mais inclinada. Com a nova taxa de juros, mais alta, Sam pode consumir mais, quando idoso, para cada dolar de consumo de que abre mao quando jovem.

Os dois paineis mostram diferentes preferencias de Sam e a resposta ao aumen- to da taxa de juros. Nos dois casos, o consumo na fase idosa aumenta. Mas a res- posta do consumo na fase jovem a variacao da taxa de juros é diferente nos dois casos. No painel (a), Sam responde ao aumento da taxa de juros consumindo menos quando jovem. No painel (b), Sam responde consumindo mais quando jovem.

A poupanca de Sam, naturalmente, é sua renda na fase jovem menos o mon- tante que consome quando jovem. No painel (a), o consumo na fase jovem cai

FIGURA-16

Um Aumento da Taxa de Juros

Nos dois paineis, urn aumento do taxa de juros desloca a restrict° orcomentaria part fora No painel (a), o consumo no lase jovem cal e o consumo no lose idosa aumenta 0 resultado é urn aumento do poupanca no lase jovem. No painel (b), o consumo aumenta nos dois periodos. 0 resultado e uma reducto no poupanct no lase jovem.

(a) Major Taxa de Juros Aumenta a Poupanca

0

2.... resultando em major consumo na fase jovem e, portant°, menor poupanca.

Consumo na Fase Jovem

CAPIITULO 21 A TEORIA DA ESCOLHA DO CONSUMIDOR

quando a taxa de juros aumenta, de modo que a poupana tambem aumenta. No 1.-) ainel (b), Sam consome mais quando jovem, de modo que a poupaNa deve cair.

0 caso mostrado no painel (b) pode parecer estranho à primeira vista: Sam res- ponde a um aumento do rendimento da poupaNa poupando menos. Mas esse comportamento n'a"o e Ca- o peculiar quanto pode parecer. Podemos entende-lo con- siderando os efeitos renda e substitu o de uma taxa de juros mais elevada.

Vamos considerar, primeiro, o efeito substitui o. Quando a taxa de juros au- menta, o consumo na fase idosa se torna mais barato em rela o ao consumo na fase jovem. Assim sendo, o efeito substitu o induz Sam a consumir mais quando idoso e menos quando jovem. Em outras palavras, o efeito substitui o induz Sam a poupar mais.

Consideremos agora o efeito renda. Quando a taxa de juros aumenta, Sam se desloca para uma curva de indiferenyi mais elevada. Est,:l agora em melhor situa o do que antes. Desde que o consumo nos dois periodos consista de bens normais, ele tendeth a querer usar esse aumento do bem-estar para aumentar o consumo em ambos os periodos. Em outras palavras, o efeito renda o induz a poupar menos.

0 resultado final depende, e claro, dos efeitos renda e substitui o. Se o efeito) substituiy'l- o de uma taxa de juros mais alta for maior do que o efeito renda, San- poupará mais. Se o efeito renda for maior do que o efeito substitui o, Sam pou

-/-pani menos. Assim, a teoria da escolha do consumidor diz que um aumento da ta de juros pode encorajar ou desencorajar a poupaNa...

Embora esse resultado ambipo seja interessante do ponto de vista da teoria eco- n6mica, e desapontador do ponto de vista da politica econOmica. Ocorre que uma questo importante da politica tributkia depende em parte de como a poupaNa res- ponde , s taxas de juros. Alguns economistas propuseram reduzir a tributg. o sobre os juros e outras rendas de capital, argumentando que essa mudaNa aumentaria a taxa de juros recebida pelos poupadores apOs os impostos e, com isso, encorajaria as pessoas a poupar mais. Outros economistas argumentam que, como os efeitos subs- titui o e renda tendem a se anular, uma mudaNa tributkia como essa poderia n"a-o aumentar a poupaNa, podendo ate reduzi-la. Infelizmente, a pesquisa n'a'o leva a um consenso sobre como a taxa de juros afeta a poupaNa. Como resultado, permanece o desacordo entre os economistas sobre se as mudanas na politica tributkia com o objetivo de encorajar a poupanc;a teriam, de fato, o efeito desejado.

Teste R4ido Explique como um aumento no salário pode potencialmente diminuir o tempo que a pessoa deseja trabalhar.

CONCLUSAO: AS PESSOAS PENSAM REALMENTE ASSIM?

A teoria da escolha do consumidor descreve como as pessoas tomam decises. Como vimos, ela tem ampla aplicabilidade. Ela pode explicar como uma pessoa escolhe entre Pepsi e pizza, trabalho e lazer, consumo e poupaNa e assim por diante.

A esta altura, contudo, voce pode estar tentado a tratar a teoria da escolha do consumidor con-i alg,um ceticismo. Afinal de contas, voce é um consumidor. Voce decide o que comprar sempre que entra em uma loja. E sabe que n5.o decide utili- zando restri -cies oNamentkias e curvas de indiferenyi. Esse conhecimento do seu pr6prio processo de ton-lada de decises n'a"o fomece uma evidencia contra a teoria?

A resposta é não. A teoria da escolha do consumidor não pretende explicar de uma forma literal de que forma as pessoas tomam decis5es. Ela e um modelo. E, con-to vimos no Capitulo 2, os modelos não pretendem ser completamente realistas.

475

476 PARTE 7 TOPICOS DE ESTUDOS AVANcADOS

_VA melhor maneira de enxergar a teoria da escolhaido consumidor é como uma metafora de como os consumiclores tomam decis5es1Nenhum consumidor (exce- to urn ocasional economista) desenvolve as etapas da otimizac5o descrita pela teo- ria. Mas os consumidores est5o cientes de que suas escolhas sao restritas pelos seus recursos financeiros. E, dadas essas restricoes, eles fazem o melhor que podem para ating,ir o nivel mais elevado de satisfac5o. A teoria (la escolha do consumiclor pro- cura descrever esse process° psicologico implicit° de maneira a permitir uma

economica explicita. A prova do pudim esti em come-b. E o teste de uma teoria s5o suas aplicacoes.

Na sec5o do capitulo, aplicamos a teoria da escolha do consumidor a tres questoes pr5ticas sobre a economia. Se voce fizer cursos mais avancados de econo- mia, \Teri que essa teoria fornece o arcabougo para muitas analises adicionais.

RESUMO

• A restric5o orcamentaria do consumidor mostra as possiveis combinac5es de bens que ele pode corn- prar dados sua renda e os precos dos bens. A incli- nac.5° da restric5o orcamentaria é ig,ual ao preco relativo dos bens.

• As curvas de indiferenca do consumidor represen- tam suas preferencias. Uma curva de indiferenca mostra as diversas combinacoes de bens que dei- xam o consumidor igualmente satisfeito. Pontos localizados em curvas de indiferenca mais eleva- das sao preferiveis aos pontos localizados em cur- vas de indiferenca mais baixas. A inclinacao de uma curva de indiferenca em urn pont° qualquer é a taxa marginal de substituicao do consumidor — a taxa 5 qual o consumidor esta disposto a trocar urn bem por outro.

• 0 consumidor otimiza escolhendo o ponto de sua restric5o orcamentaria que tangencia a curva indiferenca mais elevada. Nesse pont°, a inclinac5o da curva de indiferenca (a taxa marginal de substi- tuicao entre os bens) é. igual inclinac5o da restri- c5o orcamentziria (o preco relativo dos bens).

• Quando o Few de urn bem cai, o impact() sobre as escolhas do consumidor pode ser decomposto em efeito renda e efeito substituic5o. 0 efeito renda é a variac5o de consumo que ocorre porque urn preco mais baixo deixa o consumidor em melhor situacao. 0 efeito substituic5o é a variacao do con- sumo que ocorre porque uma mudanca no preco encoraja urn aumento do consumo do hem que tiver se tornado relativamente mais barato. 0 efei- to rencia se reflete no movimento de uma curva de indiferenca mais baixa para outra mais elevada, ao passo que o efeito substituic5o se reflete em urn movimento ao bongo de uma curva de indiferenca para urn ponto corn uma inclinacao diferente.

• A teoria da escolha do consumidor pode ser cada a muitas situacoes. Pode explicar por que as curvas de demanda podem, potencialmente, ter in- clinacao positiva, por que maiores salarios podem aumentar ou diminuir a quantidade ofertada de trabalho e por que maiores taxas de juros podem aumentar ou diminuir a poupanca.

CONCEITOS-CHAVE restricao orcamentdria, p. 455 substitutos perfeitos, p. 459 efeito renda, p. 464 curva de indiferenca, p. 456 complementos perfeitos, p. 460 efeito substituic5o, p. 464 taxa marginal de substituic5o, hem normal, p. 463 bem de Giffen, p. 468

p. 457 bem inferior, p. 463

QUESTOES PARA REV'S-AO

1. Urn consumidor tern renda de $ 3 mil. 0 vinho desse consumidor. Qual a inclinac5o dessa restri- custa $ 3 por copo e o queijo custa $ 6 por quilo. 00 orcament6ria? Represente graficamente a restricao orcament6ria

CAPtTULO 21 A TEORIA DA ESCOLHA DO CONSUMIDOR 477

2. Represente graficamente as curvas de indiferenc,a entre vinho e queijo. Descreva e explique quatro propriedades ciessas curvas de indiferenc;a.

3. Escolha um ponto da curva de indiferenc;a entre vinho e queijo e mostre a taxa marginal de subs- titui ao. 0 que nos diz a taxa marginal de substi-

4. Mostre a restric;o oNamentaria de um consumi- dor e suas curvas de indifereNa entre vinho e queijo. Se o pre9D do vinho s -ao $ 3 por copo e o prey) do queijo sa- o $ 6 por quilo, qual a taxa mar- g,inal de substitui -ao nesse ()timo?

5. Uma pessoa que conson-ie vinho e queijo ganha um aumento, de modo que sua renda passa de $ 3 mil para $ 4 mil. Mostre o que ocorre se tanto o queijo quanto o vinho forem bens normais. Agora, mostre o que ocorre se o queijo for um bem inferior.

6. 0 preo do queijo sobe de $ 6 para $ 10 por quilo, enquanto o do vinho se mantm em $.3 por copo. Mostre o que ocorre com o consumo de vinho e de queijo para um consumidor com renda constante de $ 3 mil. Decomponha a varig .ao em efeito ren- da e efeito substitui-ao.

7. Um aumento no preo do queijo pode induzir um consumidor a comprar mais queijo? Explique.

PROBLEMAS E APL1CAOES

1. Jennifer divide sua renda entre café e croissants (que sa- o bens normais). Uma geada precoce no Brasil causa um g-rande aumento no j_-)reo do cat. nos Estados Unidos.

a. Mostre o efeito da geada sobre a restria- o oNa- mentaria de Jennifer.

b. Mostre o efeito da geada sobre a combina-ao (5tima de consumo de Jennifer, supondo que o efeito substitui -ao prevalec;a sobre o efeito renda no que diz respeito aos croissants.

c. Mostre o efeito da geada sobre a combina'ao Otima de consumo de Jennifer supondo que o efeito renda prevaleyi sobre o efeito substitui ao no que diz respeito aos croissants.

2. Compare os dois pares de bens a seg-uir:

• Coca e Pepsi

• Esquis e travas para esquis

Em qual caso voc s espera que as curvas de inc-life- reNa sejam linhas retas e em qual caso espera que as curvas de indiferena sejam muito convexas? Em qual caso o consumidor respondera mais a uma variay-io no prey) relativo dos dois bens?

3. Mario conson-ie apenas queijo e bolachas.

a.Tanto o queijo quanto as bolachas podem ser bens inferiores para Mario? Explique.

b. Suponha que, para Mario, o queijo seja urn bem norn-ial e as bolachas sejam um bem inferior. Se o prey) do queijo cair, o que acontece com o consumo de bolachas de Mario? 0 que aconte- ce com o seu consumo de queijo? Explique.

4. Jim s(5 compra leite e biscoitos. a. Em 2003, Jim ganha $ 100, o leite custa $ 2 o litro

e os biscoitos custam $ 4 a dúzia. Represente graficamente a restri -ao oNamentaria de Jim.

b. Suponha agora que todos os prec, os aumentem 10`)/0 em 2004 e que o salario de Jim tambm aumente 10°/0. Represente gr, aficamente a nova restriao oNamentaria de Jim. Compare a com- binKo Otima de leite e biscoitos (_-le Jim en-1 2004 a cornhinação ()tima em 2003.

5. Considere sua decis -ao a respeito de quantas horas trabalhar.

a. Represente gr, aficamente sua restri o oNan-ien- taria supondo que voc'es na- o pague imposto de renda. No mesmo diagrama, represente outra restri o oNamentaria supondo que voc' um imy.)osto de 15%.

b. Mostre como o imposto poderia leva-lo a traba- lhar mais horas, menos horas ou o mesmo nUmero de horas. Explique.

6. Sarah passa 100 horas por semana acordada. Usan- do um diag,rama, mostre as restrics'.

-6es oNamenta- rias de Sarah se ela ganhar $ 6 por hora, $ 8 por hora e $ 10 por hora. Agora, represente gr, aficamen- te as curvas de indiferena de tal forma que a curva de oferta de trabalho de Sarah tenha inclinga-o positiva quando o salario esta entre $ 6 e $ 8 por hora e inclinação para tras quando o salario esta entre $ 8 e $ 10 por hora.

7. Represente graficamente a curva de indifereNa de alguém que esteja decidindo quanto trabalhar. Suponha que o salario aun-iente. É possivel que o

478 PARTE 7 TOPICOS DE ESTUDOS AVANcADOS

consumo da pessoa diminua? Isso seria plausivel? Discuta. (Dica: Pense nos efeitos renda e substi- tuicao.)

8. Suponha que voce aceite urn emprego que pague $ 30 mil e clecida g-uardar parte desse clinheiro em uma conta de poupanca que renda 5% de juros ao ano. Use urn diagrama corn a restricao orcament6- ria e as curvas de indiferenca para mostrar como o seu consumo muda em cada uma das situagoes a seguir. Para simplificar, suponha que voce nao pague impost() de renda. a. Seu sakirio aumenta para S 40 mil. b. A taxa de juros de sua i.-)oupanca sobe para 8°/0.

9. Como vimos no texto, podemos dividir a vida de uma pessoa em dois periodos hipoteticos: "fase jovem" e "fase idosa". Suponha que uma pessoa ganhe renda somente quando jovem e poupe parte dela para poder consumir quando estiver idosa. Se a taxa de juros sobre a poupanca dimi- nuir, é possivel dizer o que acontece corn o consu- mo na fase jovem? E possivel dizer o que aconte- ce corn o consumo na fase idosa? Explique.

10. (Este problema é desafiador.) 0 sistema de hem- estar social oferece renda a algumas famflias necessitadas. Normalmente, o pagamento m6xi- mo é feito a farnilias que 1150 tern qualquer renda; entao, a medida que as familias comecam a ganhar renda, o pagamento diminui gradualmen- te ate desaparecer. Vamos considerar os possiveis efeitos desse programa sobre a oferta de trabalho de uma familia. a. Represente gTaficamente a restricao orcament6-

ria de uma familia supondo que o sistema de bem-estar social rid° exista. No mesmo diag,ra- ma, represente g,raficamente uma restricao or- camentdria que reflita a existencia do sistema de bem-estar social.

b.Acrescentando curvas de indiferenca ao seu dia- grama, mostre como o sistema de bem-estar social poderia reduzir o numero de horas traba- lhadas da familia. Explique fazendo referencia aos efeitos renda e substituic5o.

c. Usando seu diagrama da parte (b), mostre o efeito do sistema de bem-estar social sobre o bem-estar da familia.

11. (Este problema é desafiador.) Suponha que uma pessoa nao pague imposto sobre os primeiros $ 10 mil de renda e pague 15°/0 sobre qualquer renda ganha acima de $ 10 mil (esta é uma versa° sim- plificada do atual impost° de renda nos Estados Unidos). Agora, suponha que o Congress° esteja considerando duas maneiras de reduzir a carga tri- butjTia: uma reducao na aliquota do imposto e urn aumento da parte da renda que nao é tributada.

a. Que efeito teria uma reducao da aliquota sobre a oferta de trabalho da pessoa, se no inicio ela ganhasse $ 30 mil? Explique corn suas palavras, usando os efeitos renda e substituic5o. Mao 6 precis° utilizar urn diag,rama.

b. Que efeito teria urn aumento da parte da renda que n'ao é tributada sobre a oferta de trabalho da pessoa? Novamente, explique corn s-uas pa- lavras, usando os efeitos renda e substituicao.

12. (Este problema é desafiador.) Considere uma pes- soa que esteja decidindo quanto consumir e quan- to poupar t-)ara a aposentadoria. Essa pessoa tern preferencias muito particulares: sua utilidade ao longo da vida ciepende do mais baixo nivel de consumo durante os dois periodos de sua vida. Ou seja,

Utilidade = Minim° {consumo na fase jovem, consumo na fase idoso}

a. Represente graficamente as curvas de indiferen- ca dessa pessoa. (Dica: Lembre-se de que as curvas de indiferenca mostram as combinacoes de consumo nos dois periodos que proporcio- nam o mesmo nivel de utilidade.)

b. Represente graficamente a restricao orcamenta- ria e indique o otimo.

c. Quando a taxa de juros aumenta, essa pessoa po-upa mais ou poupa menos? Explique sua res- posta usando os efeitos renda e substituicao.

13. 0 economista George Stigler uma vez escreveu que, de acordo corn a teoria do consumidor, "se os consumidores ndo comprarem menos de uma mercadoria quando suas rendas aumentarem, eles certamente comprardo menos quando o preco da mercadoria subir". Explique essa declaracao.

FRONTEIRAS DA hVi I

economia e o estudo das escolhas que as pessoas fazem e das interacb- es resultan- tes que têm umas com as outras. Esse estudo tem muitas facetas, como vimos nos capitulos anteriores. Mas seria um erro pensar que todas as facetas que vimos com- p -b- em uma jóia acabada, perfeita e imutavel. Como todos os cientistas, os economis- tas estao sempre em busca de novas areas de estudo e novos fen8n-lenos para expli- car. Este L'iltimo capitulo sobre a microeconomia trata de trC'.s tc>picos que estao na fronteira da disciplina para mostrar como os economistas est -to tentando expandir sua compreensao do comportamento humano e da sociedade.

0 primeiro t(51.->ico é a economia da infortnKflo assindtrica. Muitas vezes, na vida, algumas pessoas estão mais bem informadas do que outras e essa diferenca de informaca- o pode afetar as escolhas que elas fazem e a maneira como se relacionam umas com as outras. Pensar nessa assimetria pode lancar luz sobre muitos aspec- tos do mundo real, do mercado de carros usados ao costume de dar presentes.

0 segt., mdo tc")pico que analisaremos neste capitulo é a cconomia política. Por todo este livro, vimos muitos exemplos em que os mercados falham e a politica govema- mental pode potencialmente melhorar a situaco. Mas a palavra "potencialmente"

um qualificador necessario: se esse potencial se realiza ou nao depende de qua-o bem nossas instituic5es politicas funcionam. 0 campo da economia politica aplica as ferramentas da economia para compreender o funcionamento do governo.

0 terceiro tpico do capitulo e a economia comportamental. Esse campo traz alg,uns conhecimentos cla psicologia para o estudo de quest6- es econewnicas.

480 PARTE 7 TOPICOS DE ESTUDOS AVANcADOS

Oferece uma visdo do comportamento humano que é mais sutil e complexa do que a encontrada na teoria economica convencional, mas é possivel tambem que essa visao seja mais realista.

Este capitulo é muito abrangente. Assim, nao trata ern profundidade de qual- quer urn dos tres topicos, mas oferece uma amostra de cada um deles. Urn dos objetivos é mostrar algumas das direcoes que os economistas estao explorando ern seus esforcos para expandir o conhecimento de como a economia funciona. Outro objetivo é despertar o seu interesse para mais cursos de economia.

INF0RMA00 ASSIMETRICA "Eu sei algo que voce nao sabe." Essa provocacao é comum entre criancas, mas tambem traduz uma verdade profunda sobre como as pessoas interagem umas corn as outras ern algumas situagoes. Ern muitas situagoes da vida, uma pessoa sabe mais do que outra sobre o que esta acontecendo. Uma diferenca de acesso a conhecimento relevante e chamada de informacao g,ss_2imetiica.

Os exemplos disso sao murtos. Um trabalhador sabe mais do que seu emprega- dor sobre quanto esforco despencie ern seu trabalho. Urn vendedor de carros Lisa- dos sabe mais do que o comprador sobre a verdadeira condicao do carro. 0 primei- ro caso 6 urn exemplo de (10-0 oculta, enquanto o seg,undo 6 urn exemplo de carac- teristica oculta. Ern cada caso, a parte que nao tern conhecimento (o empregador, o comprador do carro) gostaria de ter as informacoes relevantes, mas a parte infor- mada (o trabalhador, o vendedor do carro) pode ter urn incentivo para o_sultaTlas.

.Como a assimetria de informacao é Ca° predommanfe, tra Littimas decadas os economistas dedicaram grandes esforcos ao estudo dos seus efeitos. E, de fato, o Premio Nobel de Economia de 2001 foi concedido a tres economistas (George Akerlof, Michael Spence e Joseph Stiglitz) por seu trabalho pioneiro nesse campo. Vamos discutir algumas das conclusaes proporcionadas por esse estudo.

AcOes Ocultas: Principals, Agentes e Risco Moral

0 risco moral é urn problema que surge quando alguem, chamado de agente,,rsea- liza_algumttarefa e llome de outrApessoa, chamada de principal. Se o principal nao puder monitorar perfeitamente o comportamento do agente, este tende a empregar menos esforcos do que o principal consideraria desejavel. A expressao risco moral refere-se ao risco cJeco5t).t_ameto_in,a.clejjaado ou "imoral" por parte do agente. Em tal situacao, o principal tenta, de diversas maneiras, encorajar o agente a ag,ir de maneira mais responsavel.

A relacao de emprego é o exemplo classic°. 0 empregador é o principal e o tra- balhador é o agente. 0 problema do risco moral 6 a tentacao de trabalhadores ina- dequadamente monitorados de fugir as suas responsabilidades. Os empregadores podem reagir a esse problema de diversas maneiras:

Melhor Juonitor,azziento. Diversos pais que contratam babas instalam cameras de Ideo ocultas em seus lares para registrar o comportamento dela quando estao

ausentes. 0 objetivo é identificar comportamentos irresponsaveis. Altos_sqldrios, De acordo corn as teorias do saldrio de efici'encia (discutidas no Capitulo 19), alguns empregadores podem optar por pagar aos seus trabalhado- res urn salario superior ao nivel que equilibra oferta e demanda no mercado de trabalho. Um trabalhador..,que_receba urni. salario superiar_ao de,..equilibrio tern menos chances de esquivar-se do trabalho porque, se for observado e_ . pode nao ser capaz de erteenti.di out -empregO que—ifrifithere tao bem.

risco moral

a tendencia de alguem ina-

dequadamente monitorado

I de apresentar comportamen-

1 to desonesto ou indesejavel

agente

alguern que pratica urn ato

em nome de outra pessoa,

chamada de principal

principal 1

alguem em cujo nome outra

pessoa, chamada de agente,

pratica algum ato

CAPITULO 22 FRONTEIRAS DA IVIICROECONOMIA 481

Pagamento adiado. As empresas podem adiar o pagamento de parte da remune-—. , rack ote-iiiii_trabalag_Orlde mo-rtn- re_s_pcTsabilidades, sofra_qma__.grande p_.enalic-rade: Urn exemplo—tre pagaMento adiado e-a—gra—fificA5o de fim de ano.-De forma siMilar, uma empresa pode optar por pagar seus empregados mais adiante em suas vidas. Assim, os aumentos de salario que os trabalhadores recebem a medida que envelhecem podem refletir no so os beneficios da experiencia, mas tambem uma resposta ao risco moral.

Esses diversos mecanismos para reduzir o problema do risco moral rido preci- sam ser utilizados sozinhos. Os empregadores podem usar uma combinacao deles.

Para alem do ambiente de trabalho, hO muitos outros exemplos de risco moral. Urn proprietario de imovel que tenha seguro contra incendio provavelmente corn- Fara poucos extintores porque é ele quern arca corn o custo desse equipamento, enquanto a companhia de seg-uros recebe g,rande parte do beneficio. Uma familia pode viver proximo a urn rio corn alto risco de inundacao porque aprecia a paisa- gem, enquanto o governo arca corn o custo da assistencia as vitimas de desastres se houver uma inundacao. Muitas reg-ras tern por objetivo tratar desse problema: uma companhia de seg,uros pode exigir que os proprietarios comprem extintores, e o govern() pode proibir a construcao de imOveis em terras corn alto risco de inun- dac5o. Mas a companhia de seguros nao tern informacoes perfeitas sobre o g,rau de cuidado do proprietario do imovel, e o govern° nao tern informacoes perfeitas sobre o risco que as familias assumem quando escolhem onde morar. Como resul- tado, o problema do risco moral persiste.

Caracteristicas Ocultas: Selecao Adversa e o Problema dos "Abacaxis"

A selesdo ady_ersa._ um problema que surge em mercados ern que o vendedor- - _ sab_e_mais sobre os atributos de uri-i—bem cfue-esta--ser4o vendid-o qtre-a-c-anpriaor do bern Comotesi.iltado o con-Tea-dor—Cot-re-° risco de-cbtilprar urn bernde-baixa

seja, a "selecab" dos bens-vendidos cid-e-szef"-achier -db-poi-ito de sVISta--d—OZ6mprador desinformado. c-17

0 exemplo classic° de selecao adversa e o meLc- adg usados. Os yen- dedores de carros usados conhecem os defeitos dos veiculos, ao passo que os corn- pradores frequentemente os desconhecem. Como os proprietarios dos piores car- ros tern maior probabilidade de vende-los do que os proprietarios dos melhores carros, os compradores muitas vezes tern medo de adquirir urn "abacaxi". Corn isso, muitas pessoas evitam comprar veiculos no mercado de carros usados. 0 pro- blema dos "abacaxis" pode explicar por que urn carro corn apenas algumas sema- nas de uso pode ser milhares de Mares mais barato do que urn carro novo do mesmo tipo. 0 comprador pode achar que o vendedor esta tentando se livrar do carro rapidamente porque sabe de algo que o comprador desconhece.

Um segundo exemplo de selecdo adversa ocorre no mercado de trabalho. De acordo corn outra teoria do salario de eficiencia, as qualificacoes dos trabalhadores variam e eles podem conhece-las melhor do que as empresas que os contratam. Quando uma empresa reduz os salarios que paga, os trabalhadores mais talento- sos tern maior tendencia de pedir demiss5o, sabendo que tern maiores chances de conseg,uir outro emprego. Febo mesmo raciocinio, uma empresa pode optar por pagar salarios acima do equilibrio para atrair urn melhor mix de trabalhadores.

Urn terceiro exemplo de selecdo adversa ocorre nos mercados de seguros. Por exemplo, os usuarios de seguro-satide sabem mais sobre os seus problemas satide do que as seguradoras. Como as pessoas corn maiores problemas de satide ocultos tern major probabilidade de contratar um seguro-saiide do que as demais pessoas, o preco do seguro reflete os custos de uma pessoa mais doente do que a media. Com isso, as pessoas de saiide media podem ser desencorajadas a contra- tar urn seg-uro-saildc por causa do alto preco.

selecao adversa a tendencia de que o mix de atributos nao-observados se tome indesejavel do ponto de vista de uma parte desinformada

482 PARTE 7 TOP1COS DE ESTUDOS AVANADOS

Quando os mercados est"&) sujeitos à selecflo adversa, a rnão invisível pode n..o necessariamente operar sua ma"g,ica. No mercado de carros usados, os proprietkios de veiculos bons podem optar 1,-)or ficar com eles, em vez de vende-los pelo prey) baixo que os con-lpradores ceticos esto dispostos a pagar. No mercado de traba- lho, os salkios podem ficar acima do nivel que equilibra oferta e demanda, resul- tando em desemprego. Nos mercados de seg,uros, os compradores com baixo risco podem optar por permanecer sem seg,uro, já que as ap1ices que lhes são ofereci- das n;Tio refletem suas verdadeiras caracteristicas. Os defensores do seg,uro-sade clo govemo alpmas vezes apontam para o problema da Sele o adversa como uma das razes pelas quais mTh se deve confiar no mercado privado para oferecer, conta pn5pria, a quantidade adequada de seguro-satide.

sinalizack uma acao praticada por uma

1, parte informada para revelar

informaces particulares

parte desinformada

Sinalizack para Transmitir Informack Particuiar

Embora a informao assimetrica seja, algumas vezes, motivaio para politicas ela tambem motiva comportamentos individuais que, de outra forma,

poderiam ser diffceis de explicar. Os mercados respondem ao problema da infor- mao assimetrica de diversas maneiras. Uma delas e a sinalização, que se refere às ac;C5es praticadas por uma parte informada com o prop6sito exclusivo de revelar com credibilidade suas informa es particulares.

Vimos exemplos de sinalizgo em capitulos anteriores. Como vimos no Capitulo 17, as empresas podem gastar dinheiro em publicidade para sinalizar a clientes em potencial que seus produtos s'cio de alta qualidade. Como vimos no [Capitulo 20, os alunos podem concluir g,racluK5es e pOs-gradua es para sinalizar

empregadores em potencial que so pessoas de grande qualificg aa'o. Lembre-se ( -1

1e que a teoria da na educa5o contrasta com a teoria do capital huma- no, que afirma que a instrucfc-io aumenta a produtividade de uma pessoa, em vez de

\simplesmente transmitir informac;6"es sobre seu talento natural. Esses dois exem- Yslos de siiialização (publicidade e instru o) podem parecer muito diferentes, mas na verdade são muito parecidos: nos dois casos, a parte informada (a empresa, o aluno) está usando o sinal para convencer a parte desinformada (o cliente, o empregador) de que está oferecendo algo de alta qualidade.

0 que é preciso F.)ara que uma ac;: o seja um sinal eficaz? Obviamente, ela deve ter um custo. Se um sinal fosse gratuito, todos o usariam e ele iião transmitiria nenhuma informao. Pelo mesmo motivo, há outro requisito: o sinal deve ser menos custoso, ou mais benefico, para a pcssoa que tiver o produto de maior qua- lidade. Do contrkio, todos estariam sujeitos ao mesmo incentivo para usar o sinal e ele nada revelaria.

Considere novamente nossos clois exemplos. No caso da publicidade, uma empresa que tenha um bom produto colhe o beneficio da publicidade porque os consumidores que o experimentam uma vez tem maior chance de se tomarem

n clientes const.ntes. Portanto, é racional para a empresa com um bom produto pagar pelo custo do sinal (publicidade) e é racional para o consumidor usar o sinal omo fonte de informaio sobre a qualidade do produto. No caso da instru o,

uma pessoa talentosa pode concluir os estudos com mais facilidade do que outra com menos talento. Assim, é racional para a 1.-)essoa talentosa arcar com o custo do sinal (instruzio) e é racional para o empregador usar o sinal como fonte de infor- mgo sobre o talento de uma pessoa.

0 mundo está repleto de exemplos de sinalização. AnUncios em revistas mui- tas vezes recorrem à frase "como mostrado na TV". Por que uma empresa que vende um produto em uma revista iria querer destacar esse fato? Uma de e que a empresa esteja tentando transmitir sua disposição para pagar por um sinal caro (um spot na TV), na esperaNa de que o leitor fga a inferencia de que o produto é de alta qualidade. Pelo mesmo motivo, os formados de escolas de elite sempre destacam esse fato em seu curriculo.

"Agora veremos quanto ele

me oma."

f

sele0o

pa

urna ack praticada por uma

r-te desinformada para

induzir a parte informada a sVevelar informaces

.,_

CAPiTULO 22 FRONTEIRAS DA MICROECONOMIA 483

Estudo de Caso

PRESENTES COMO SINAIS

Um homem esta decidindo o que dar à sua namorada em seu aniversario. "Ja sei", diz a si mesn-io, "vou Ihe dar dinheiro. Afinal, nao conheo seu gosto tao bem quan- to ela mesma e, com o clinheiro, ela pode comprar o que quiser". Mas quando ele lhe entrega o dinheiro, ela se ofende. Convencida de que ele nao a ama, termina o relacionamento.

Onde esta a economia por tras dessa histria? Em alg,uns sentidos, dar presentes e um costume estranho. Como sugere o

homem da histkia, as pessoas normalmente conhecem as prOprias preferencias melhor do que os outros, de modo que seria de esperar que todos preferissem clinheiro a transferencias em especie. Se seu empregador trocasse o seu contrache- que por mercadorias, voce provavelmente faria objeao a essa forma de pagamen- to. Mas sua reaao é muito diferente quando alguern que (voce espera) goste de voce faz isso.

Uma interpretKao do ato de presentear é que ele reflete informac, ao assimetrica e sinalizgao. 0 homem de nossa histkia tem uma informKao particular que sua namorada gostaria de saber: Ele realmente a ama? Escolher um born presente é um sinal do seu amor. É claro que escolher um presente tem as caracteristicas necessa- rias para ser um sinal. É custoso (consome ten-ipo), e o custo depende da informa- ção particular (quanto ele a ama). Se ele realmente ama sua namoracla, escolher um presente para ela sera facil porque ele pensa nela o tempo todo. Se nao a ama, encontrar o presente certo é mais dificil. Portanto, dar urn presente que agrade a sua namorada e uma maneira de transmitir a inforrnação particular de seu amor por ela. Dar dinheiro significa que ele nem sequer se deu ao trabalho de tentar.

A teoria da sinalizaao do presentear condiz com outra observa(;:ao: As pessoas se preocupam mais com o costume quando a intensidade do afeto é mais questio- navel. Assim, dar dinheiro a uma namoracia ou um namorado costuma ser ma ide.ia. Mas quando estudantes universitarios ganham um cheque de seus pais, mui- tas vezes nao se ofendem. 0 amor dos pais provavelmente nao é questionavel, de modo que o presenteado nao interpretaria o presente em dinheiro como sinal de falta de afeto. •

SeIe0o para a Induck à Divulgack de Informaces

Quando uma parte informada pratica aY5es para revelar suas informay5es particu- lares, chamamos a esse fenOmeno sinalização. Quando uma parte desinformada pratica aY5es para induzir a parte informada a revelar informa95es particulares, o fen3meno é chamado de

Em alguns casos, a selec;ao nada mais e do que bom senso. Alg,uem que comi_-.)ra um carro usado pode perguntar se ele foi verificado por urn mecanico antes da venda. 0 vendedor que se recuse a responder revela sua informaao particular de que o carro e um abacaxi. 0 comprador pode optar por oferecer um preo mais baixo ou 1.-)rocurar por outro carro.

Outros exemplos de seleao sao mais sutis. Imagine, por exemplo, uma empresa que venda apOlices de seguro para carros. A empresa gostaria de cobrar um premio baixo dos motoristas cautelosos e um premio alto dos motoristas de maior risco. Mas como diferenciar uns dos outros? Os motoristas sabem se sao cautelosos ou de maior risco, mas estes nao o revelariam. 0 histkico do motorista e uma fonte de informaao (que as seguradoras efetivamente usam), mas, por causa da aleatorieda- de intrinseca aos acidentes de automOvel, é um indicador imperfeito do risco futuro.

484 PARTE 7 TOPICOS DE ESTUDOS AVANKADOS

A seguradora poderia separar os dois tipos de motorista oferecendo apolices diferentes que os induzissem a se disting,uirem por si mesmos. Uma politica teria premio elevaclo e cobriria o custo total de quaisquer acidentes que acontecessem. A outra teria urn premio menor, mas uma franquia de, digamos, $ 1 mil (ou seja, o motorista se responsabilizaria 'Delos primeiros $ 1 mil em danos e a seg,uradora cobriria o restante). Observe que a franquia representa urn encargo major para os motoristas de major risco porque eles tem mais chance de se envolverem em aci- dentes. Assim, havendo uma franquia g,rande o bastante, a apalice de premio menor corn a franquia atrairia os motoristas cautelosos, enquanto a de premio major sem a franquia atrairia os motoristas de major risco. Em face desses dois tipos de apolice, os dois tipos de motorista revelariam suas informacoes particula- res escolhendo apolices diferentes.

Informacao Assimetrica e Politica Publica

Examinamos dois tipos de informacao assimetrica - o risco moral e a selec5o adver- sa. E vimos como as pessoas podem responder ao problema por meio de sinaliza- cao ou selecao. Vamos ver agora o que o estudo da informacao assimetrica sugere a respeito do proposito adequado da politica publica.

A tensao entre o sucesso de mercado e a falha de mercado é crucial para a microeconomia. Vimos no Capitulo 7 que o equilibrio de oferta e demanda é efi- ciente no sentido de que maximiza o excedente total que a sociedade pode obter do mercado. A mac) invisivel de Adam Smith parecia ter poder supremo. Essa con- clusao foi entdo temperada corn o estudo das externalidades (Capitulo 10), dos bens publicos (Capitulo 11), da competic-do imperfeita (Capitulos 15 a 17) e da pobreza (Capitulo 20). Esses exemplos de falhas de mercado demonstraram que o governapode, as vezes, melhorar os resultados de mercado.

0 estudb—da rrrformac5o assimetrica nos-dThrn-a-tiova razao para ter cautela corn os mercados. Quando alg,umas pessoas conhecem mais do que outras, o mer- cado pode falhar ao colocar seus recursos em seu melhor uso. As pessoas que tern carros usados de alta qualidade podem ter dificuldade para vende-los porque os compraciores tern medo de ficar corn urn abacaxi. Pessoas saudaveis podem ter difi- culdade para conseguir seguro-sa6de de baixo custo porque as seguradoras as colocam na mesma categoria das pessoas que tern problemas de saude significati- vos (porem ocultos).

Embora a informacao assimetrica possa exigir acao do governo em alguns casos, ha tres fatos que cornplicam a questaotPrimeiro, como vimos, o mercado privado pode, algumas vezes, lidar sozinho corn as assimetrias de informacao usando uma combinac5o de sinalizacao e selecao. Segundo, o govern() raramente dispoe de mais informacoes que as partes privadaSA Mesmo que a alocacao de recursos do mercado nao seja a melhor possivel, pode ser a seg,unda melhor. Ou seja, quando ha informacoes assimetricas, os formuladores de politicas podem ter dificuldade para melhorar o resultado reconhecidamente imperfeito do mercado. E, terceiro, o prOprio governo é uma instituicao imperfeita - urn topic() que abordaremos na pro- ximo secao.

Teste Rapido Alguern que contrata urn seguro de vida paga uma determinada quantia por ano e sua familia recebe uma quantia muito maior no caso de sua morte. Na sua opiniao, as taxas de mortalidade entre os contratantes de seguro de vida devem ser maiores ou menores do que entre as pessoas medias? Como isso pode ser urn exemplo de risco moral? E de selecao adversa? Como uma companhia de seguros pode li dar corn esses problemas?

CAPjTULO 22 FRONTEIRAS DA MICROECONOMIA 485

ECOKOMIA POUTHCA

Como vimos, os mercados, por si sOs, nem sempre atingem uma alocac;cio deseja- vel dos recursos. Quando julgamos se o resultado de mercado é ineficiente ou injusto, pode ser a oportunidade para o governo entrar e melhorar a situação. Mas antes de adotarmos um governo ativista, precisamos considerar mais um fato: o governo tambem é uma instituição imperfeita. O carn:->“2_c_lacconomity_p_o_ift:wa (por vezes chamado de carni.-)o da escolha pirlilicti) aplica os metod Cife-cpnomia_para

dar.çQjoo g-ovemo funciona.

0 Paradoxo Eleitoral de Condorcet

A maioria das sociedades avaNadas usa os principios democraticos para estabele- cer politicas governamentais. Quando uma ciciade esta decidindo entre dois locais para a constru -ao de um novo parque, por exemplo, ha uma rnaneira simples de escolher: vence a maioria. Mas, para a maioria das quesffies politicas, o ninnero de resultados possiveis e bem maior do que dois. Um novo parque, por exemplo, poderia ser construido em muitos locais diferentes. Nesse caso, como observou o Marqu&s de Condorcet, um teOrico politico frances do seculo XVHI, a democracia 1,-) ode ter algumas dificuldades tentando escolher un-1 dos resultados.

Suponha, por exemplo, que haja tr-(" s resultados possiveis, chamados de A, B e C, e que haja três tipos de eleitores com as preferncias indicadas na Tabela 1. 0 prefeito da cidade quer ag-regar e.ssas prefer'encias individuais em prefere'ncias da sociedade como um todo. Como ele deve proceder?

De início, ele poderia experimentar agregar votos em pares. Se pedir que os elei- tores escolham entre B e C, os eleitores dos tipos 1 e 2 votar5o em B, dando a essa opc;"ao a maioria. Se, enth- o, pedir que os eleitores escolham entre A e B, os eleito- res dos tipos 1 e 3 escolhen:So A, dando a essa opção a maioria. Observando que A vence B e B vence C, o prefeito poderia concluir que A e a escolha dos eleitores.

Mas, espere: Suponha que o prefeito peça, então, que os eleitores escolham entre A e C. Nesse caso, os eleitores dos tipos 2 e 3 escolherão C, dando a essa opc; - o a maioria dos votos. Ou seja, nas eleições majoritarias em pares, A vence B, B vence C e C vence A. Normalmente, seria de se esperar que as preferencias apre- sentassem uma propriedade chan-lada trausitividade: se A e preferido em relaco a BeBe preferido ern rela o a C, ent'ao seria cle esperar que A fosse preferido a C. 0 paradoxo de Condorcet diz que os resultados democraticos nem sempre obe- decen-1 a essa propriedade. A votg^ao ern pares pode produzir preferCmcias transi-

0 Paradoxo de Condorcet Se os eleitores tivessem as prefere"ncias abaixo pelos resultados A, B e C, entao, em eleicaes majoritarias em

pares, A venceria B, B venceria C e C venceria A.

Tipo de Eleitor

Tipo Tipo 2 Tipo 3

Porcentagem do eleitorado 35 45 20

Primeira opc-ao Segunda opck B Terceira opcik C

paradoxo de Condorcet

o fracasso da regra de maioria

para produzir prefer&icias

transitivas para a sociedade

486 PARTE 7 TOPICOS DE ESTUDOS AVANcADOS

tivas para uma sociedacie, dependendo do pacir5o das preferencias individuais, mas, como mostra o exemplo da tabela, na-o ha nada que garanta que ela o faca.

Uma__implic-acao-cio_pal7a.doxo de_Conclorcet é de que a ordem as coisas saci_vot4das pode,aktQ.- o resultaio. Se o prefeito sugerir primeiro entre A —e B e, entao, comparar 6 .V-eriCed-or 'corn C, a cidade acabara por escolher C. Mas se os eleitores escolherem primeiro entre BeCe depois compararem o vencecior corn A, a cidade escolhera A. E se os eleitores primeiro escolherem entre AeCe depois compararem o vencedor corn B, a cidade acabara escolhendo B.

Podemos aprender duas lig-6es a partir do paradoxo de Condorcet. Uma, mais limitada, é de que, quando ha mais de duas opcoes, a agenda (ou seja, a ordem em que os itens sao votacios) pode ter forte impact° sobre o resultado de uma eleicao democratica. A segunda, mas ampla, é de que o voto da maioria, por si so, nao nos diz qual o resultado que uma sociedade realmente deseja.

0 Teorema da Impossibilidade de Arrow

Descie que os cientistas politicos perceberam o paradox° de Condorcet, eles dedi- caram grandes esforcos ao estudo dos sistemas eleitorais e a sugestao de novos sis- temas. Por exemplo, como alternativa ao voto majoritario ern pares, o prefeito da cidacie poderia pedir a cacia eleitor que classificasse os resultados possiveis por ordem de preferencia. Para cada eleitor, poderiamos atribuir 1 pont° para o Ultimo lugar, 2 pontos para o pentiltimo, 3 pontos para o antepeniiltimo e assim por dian- te.Venceria o resultado que tivesse o major numero total de pontos. Corn as prefe- rencias da Tabela 1, o vencedor seria o resultado B (fay' as contas voce mesmo). Esse metodo eleitoral é chamado de contagem de Borda, em homenarm ao mate- matico c cientista politico frances do seculo XVIII que o concebeu. E muito usado em pesquisas de classificacao de equipes esportivas.

Ha alg,um sistema eleitoral perfeito? 0 economista Kenneth Arrow abordou essa questa° em seu livro datado de 1951, Escollia Social c Valores Individuais. Arrow partiu da definicao do que poderia ser urn sistema eleitoral perfeito. Ele assume que os indi- viduos da sociedade tern preferencias entre os diversos resultados possiveis: A, B, C e assim por diante. Entao, faz a suposicao de que a sociedade deseja urn sistema elei- toral para escolher, entre esses resultados, aquele que satisfaca diversas condicaes:

• Unanimidade: se todos preferirem A a B, entao A deve superar B. • Transitividadc: se A supera B e B supera C, entdo A deve superar C. • Independencia de alternativas irrelevantes: a classificacao de dois resultados quais-

quer A e B nao deve depender de urn terceiro resultado C que tambem esteja disponivel.

• Ausencia de ditadores: nao existe nenhuma pessoa que sempre venca, indepen- dentemente das preferencias de todas as demais.

Todas essas propriedades parecem ser as que um sistema eleitoral deva ter. Mas Arrow provou, matematica e irrefutavelmente, que nenliwn sistema eleitoral e capaz de satisfazer todas essas propriedades. Esse resultado surpreendente é chamado de teorema da impossibilidade de Arrow.

Os calculos necessarios para provar o teorema de Arrow vao alem do objetivo deste livro, mas podemos entender urn pouco do sentido de por que o teorema é verdadeiro a partir de dois exemplos. já vimos o problema da votacao majoritaria em pares. 0 paradox° de Condorcet mostra que a regra da maioria nao é capaz de produzir uma classificacao de resultados que sempre satisfaca a transitividade.

Como urn outro exemplo, a contagem de Borda nao satisfaz a condicao de inde- pendencia das alternativas irrelevantes. Lembre-se de que, corn base nas preferen- cias da Tabela 1, o resultado B vence se for adotada uma contagem de Borda. Mas suponha que C subitamente desapareca como alternativa. Se o metodo de conta-

(teorema da impossibilidade de Arrow urn resultado maternatico mostrando clue, sob certas condicOes assumidas, nao ha sistema que permita agregar as preferencias individuais em urn conjunto valid° de preferencias sociais

teorema do eleitor mediano

um resultado matematico que

mostra que, se os eleitores

estao escolhendo um ponto

ao longo de uma linha e cada

eleitor desejar o ponto mais

pr6ximo de seu preferido,

entao a regra da maioria

levara a escolha do ponto

preferido do eleitor mediano

FIGURA 1

0 Teorema do Eleitor

Mediano: Um Exemplo

Este grOfico mostra como o orcamento preferido de cem eleitores se distribui entre cinco opces, de zero a $ 20 biMes. Se a sociedade decidir pela vontade da maioria, o eleitor mediano (que, nesse coso, deseja um orcamento de $ 10 bilh es) determinarO o resultado.

CAPITULO 22 FRONTEIRAS DA MICROECONOMIA 487

gem de Borda for aplicado somente aos resultados A e B, entho A venceth (mais uma vez, faa as contas voc&. mesmo). Portanto, a elirninação da alternativa C alte- ra a classifica o entre A e B. 0 motivo para essa altera o é que o resultado da contagem de Borda depende do niimero de pontos que A e B recebern e o n me- ro de pontos depende de a altemativa irrelevante C tambm estar disponivel.

0 teorema da impossibilidade de Arrow e um resultado profundo e perturba- dor. 1\1 •Zio nos diz que devemos abandonar a democracia como forma de governo. Mas diz, isso sim, que, independentemente do sistema eleitoral adotado por uma sociedade para ag,regar as preferncias individuais de seus membros, de algum modo ele será falho como mecanismo de escolha social.

0 Eleitor Mediano É o Rel

Apesar do teorema de Arrow, as eleices sk-) o meio usado por muitas sociedades para escolher lideres e politicas pb1icas, freqentemente por maioria. 0 passo secruinte do estudo do croverno é verificar como funcionam bos

aovernos reabidos- - pela vontade da maioria. Ou seja, em uma sociedade democrkica, quem determi- na qual a politica escolhida? Em alguns casos, a teoria do governo democrkico resulta em uma resposta surpreendentemente simples.

Vamos exemplificar. Imag,ine que a sociedade esteja decidindo quanto dinheiro gastar em algum bem público, como o exercito ou parques nacionais. Cada eleitor tem seu oNamento preferido, e sen-yre acha melhor resultados mais pn5ximos sua prefer&icia a resultados mais distantes dela. Portanto, poderiamos classificar os eleitores desde aqueles que preferem o menor oNamento aos que preferem o oNa- mento maior. A Fig,ura 1 e um exemplo. Aqui 1-u-1 cem eleitores e o oNamento varia de zero a $ 20 hilhões. Dadas essas prefer&.ncias, que resultado vocC.). poderia espe- rar que a democracia produzisse?

De acordo com um resultado famoso chamado de teorema do eleitor mediano, a vontade da maioria produzirá o resultado preferido pelo eleitor mediano. 0 eleitor mediano é aquele que está exatamente no meio de uma distribui o. Nesse exemplo, se tomarmos uma fila de eleitores organizada por ordem de preferncia do oNamen- to e contarmos 50 eleitores ate o fim da fila, veremos que o eleitor mediano deseja um oNamento de $ 10 bilhes. Por outro lado, o resultado 1.-)referido medio (calcula- do somando os resultados e dividindo pelo n mero de eleitores) e de $ 9 bilMes, e o modal (o resultado preferido do maior mimero de eleitores) e de $ 15 bil es.

Nmero de Pessoas

35

30

25

0

)"15

‘,1 0 /

/ 5

0

25

15

35

5

$0 $5 $10 $15 $20 ONamento Preferido (em bilhes)

488 PARTE 7 TOPICOS DE ESTU DOS AVAINcADOS

0 eleitor median() vence porque seu resultado preferido supera qualquer outra proposta em dois sentidos. Em nosso exemplo, mais da metade dos eleito- res quer orcamentos de $ 10 bilhoes ou mais, e mais da metade quer orcamentos de $ 10 bilhoes ou menos. Se alguem propuser, digamos, $ 8 bilhoes em vez de $ 10 bilhoes, todos os que preferem $ 10 bilhOes ou mais votarao corn o eleitor mediano. De forma similar, se alguem propuser $ 12 bilhoes, todos os que que- rem $ 10 bilhOes ou menos votarao corn o eleitor median°. Seja ern urn caso, seja no outro, o eleitor me_diano tern mais d_a_n-ietade dos eleitores.,ao„.seu. lado.

E quanto ao paradox° eleitoral de Condorcei? Ocorre que, quando a maioria dos eleitores esta escolhendo urn ponto ao longo de uma linha e cada eleitor tenta se aproximar do seu ponto preferido, o paradoxo de Condorcet nao pode surg,ir. 0 resultado preferido do eleitor mediano supera todos os concorrentes.

Uma implicacao do teorema do eleitor median° é que, se dois partidos politicos estiverem cada um tentando maximizar sua chance de eleicao, os dois moverao seu posicionamento para aproximar-se do eleitor mediano. Suponha, por exemplo, que o Partido Democrata proponha urn orcamento de $ 15 bilhoes e o Partido Repu- blican° proponha urn orcamento de $ 10 bilhoes. A posicao democrata é mais popular, no sentido de que a proposta de $ 15 bilhoes atrai mais eleitores do que qualquer outra proposta por si so. Ainda assim, os republicanos conseg,uem mais de 50% dos votos: eles atraem os 20 eleitores que desejam $ 10 bilhoes, os 15 que desejam $ 5 bilhoes e os 25 que desejam zero. Se os democratas quiserem vencer, terao de mover sua plataforma para urn pont° mais proximo do eleitor median°. Isso explica, na teoria, porque os partidos em urn sistema biparticlario sao tao pare- cidos. Os dois estao se aproximando do eleitor median°.

Outra implicacao do teorema do eleitor median() é que as opinioes minoritarias nunca recebem muita atencao. Imagine que 40% da populacao deseje que se gaste muito dinheiro nos parques nacionais e que 60% deseje que nao se gaste qualquer coisa neles. Nesse caso, a preferencia do eleitor median° é zero, independentemen- te da opinido da minoria. E assim que funciona a democracia. Em vez de ating,ir urn meio-termo que leve em_ consideracao_ as prefe.rencias_ de todos,. a regra .0airnaioria se:lc/oft-a—a-15-611as para a pessoa que e-sta exata nte no meio da distribuicao.

Os Politicos Tambern Sao Pessoas

Quando os economistas estudam o comportamento do consumidor, assumem que os consumidores comprem a combinacao de bens e servicos que lhes proporciona o maior nivel de satisfacao. Quando os economistas estudam o comportamento das empresas, assumem que elas produzem a quantidade de bens e servicos que leva ao maior nivel de lucros. 0 que os economistas deveriam assumir quando estudam as pessoas envolvidas na pratica de politicas?

Os politicos tambem tem objetivos. Seria born poder admitir que os lideres poli- ticos estao sempre em busca do hem-estar da sociedade como urn todo, que eles tern como meta uma combinacao otima de eficiencia e equidade. Seria born, mas nao seria realista. 0 interesse proprio é uma motivacao tao poderosa para os poli- ticos quanto o é para os consumidores e os proprietarios das empresas. Alg-uns politicos sao motivados pelo desejo de se reelegerem e estao dispostos a sacrificar o interesse nacional se isso puder solidificar sua base de eleitores. (Veja o quadro Noticias nas paginas 490 e 491.) Outros politicos sao motivados por simples ganan- cia. Se tiver alguma diavida disso, basta olhar para os paises mais pobres do mundo, onde a cornipcdo entre os executivos do govemo é urn obstaculo comum ao desen- volvimento economic°.

Este livro nao é o foro adequado para desenvolver uma teoria do comportamen- to politico. Trata-se de urn topic° que é melhor deixar para os cientistas politicos. Mas, ao pensar na politica econOmica, lembre-se de que essa politica é feita rid° por

CAPh-ULO 22 FRONTEIRAS DA MICROECONOMIA 489

um rei benevolente, mas por pessoas reais com seus prOprios interesses puramen- te humanos. Elas sao por vezes motivadas pelo desenvolvimento nacional, mas, em outros casos, sua motivacao esta em suas prOprias ambicOes politicas e financeiras. Na- o deveriamos nos surpreender quando a politica econOmica divergisse dos ideais derivados nos livros de economia.

Teste R4ido Uma escola pública distrital esta votando para decidir o orcamento escolar e, conseqen- temente, a proporck entre alunos e professores. Uma pesquisa revela que 35% dos eleitores desejam uma proporcao de 9/1, 25% desejam 10/1 e 40% desejam 12/1. Qual o resultado que voce esperaria da votack?

ECONOMIA COMPORTAMENTAL

A economia e o estudo do comportamento humano, mas nao e o Unico campo de que se pode dizer isso. A ciência social da psicologia tambem lanca luz sobre as escolhas que as pessoas fazem durante suas vidas. Os campos da economia e da psicologia costumam operar independentemente, em parte porque abordam um conjunto diferente de questOes. Mas surg,iu recentemente um campo chamado eco- nomia comportamental em que os economistas estao usando principios basicos da psicolog,ia.Vamos abordar aqui alguns desses principios.

As Pessoas nem Sempre São Racionais

A teoria econOmica é povoada por uma especie as vezes chamada de homo econo- micus. Os membros dessa especie s -ao sempre racionais. Como administradores de empresas, maximizam os lucros. Como consumidores, maximizam a utilidade (ou, o que da no mesmo, escolhem o ponto da curva de indiferenca mais alta). Dadas as restricOes a que estao sujeitos, ponderam racionalmente os custos e os benefi- cios e sempre escolhem o melhor curso de acao possivel.

As pessoas reais, contudo, sao homo sapiens. Embora lembrem de muitas manei- ras os habitantes racionais e calculistas da teoria econOmica, elas sao muito mais complexas. Podem ser esquecidas, impulsivas, confusas, emotivas e de horizontes curtos. Essas imperfeicOes do raciocinio hurnano são o ganha-pao da psicologia, mas, ate recentemente, os economistas as desconsideravam.

Herbert Simon, um dos primeiros cientistas sociais a trabalhar na fronteira entre economia e psicologia, sugeriu que os humanos podem ser vistos nao como maxi- mizadores racionais, mas como satisficers 1 . Em vez de sempre escolherem o melhor curso de acao, eles tomam decisOes que s'ao apenas boas o suficiente. De forma similar, outros economistas sugeriram que os humanos sao apenas "quase racio- nais" ou que apresentam "racionalidade limitada".

Estudos sobre a tomada de decisOes pelos humanos procuraram identificar erros sistematicos que as pessoas cometem. Eis algumas das descobertas:

• As pessoas sdo excessivamente confiantes. Imag,ine que alguen-i lhe faca perguntas numericas, como o nUmero de paises africanos membros das NacOes Unidas, a altura da montanha mais alta da America do Norte etc. Em vez de lhe ser pedi- da uma estimativa exata, contudo, voce' deve indicar um intervalo de confianca de 90% — uma faixa tal que voc'e possa ter 90% de certeza de que o nUmero ver- dadeiro esta dentro dela. Quando os psicOlogos fazem experimentos desse tipo, percebem que a maioria das pessoas propOe faixas muito estreitas: o nUmero verdadeiro fica dentro dos seus intervalos bem menos que 90°/0 das vezes. Ou seja, a maioria das pessoas confia demais na prOpria capacidade.

1 NRT: Consumidor que fica satisfeito quando encontra algo que é "bom o suficiente".

490 PARTE 7 TOPICOS DE ESTUDOS AVANcADOS

NOTICIAS

POLITICA AGRiCOLA E POLITICA

0 humorist° Dave Barry volta SUG miro para a Lei de Seguranca Agricola, que o Congresso americana aprovou e o presidente Bush sancionou em 2002.

0 Fazendeiro Passa o Chapeu Par Dave Barry

Se voce é coma a maioria dos contribuintes

americanos, volta e meia acorda no meio da

noite, suando frio e pensando: "Sera que

estou fazendo a minha parte para ajudar os

produtores de la de cabra?"

Fico feliz em informar que voce esta,

gracas a corajosa atitude tomada recente-

mente pelo Congresso americano (cujo le-

ma e "Ei, nao é o NOSSO dinheiro!"). Refiro-

me a Lei de Seguranca Agricola de 2002,

que emergiu recentemente do processo

legislativo mais ou menos como um punha-

do de capim processado sai, fumegante, do

trato digestivo de uma vaca.

0 objetivo da Lei de Seguranca Agricola

e proporcionar "estabilidade de precos" aos

fazendeiros. 0 que significa "estabilidade de

precos"? Significa: o seu dinheiro. Voces ja

estavam sendo bem generosos: So no ano

passado, deram mais de $ 20 bilhOes em

estabilidade de precos aos fazendeiros.

Desde 1996, deram mais de 1 milhao de

Mares a cada um dos mil felizardos, mui-

tos dos quais sao grandes empresas do

agribusiness. Alguns dos "fazendeiros" para

quern voces mandaram dinheiro sao bilio-

narios, como Ted Turner e Charles Schwab,

e grandes empresas, como a Chevron, a

DuPont e a John Hancock Mutual Life Insu-

rance.

Mas isso nao é NADA comparado a

como voces vao ficar generosos, contribuin-

tes! Gracas a Lei de Seguranca Agricola, nos

proximos dez anos voces vao proporcionar

aos fazendeiros 70% MAIS estabilidade, em

um total de $180 bilhoes. A essa taxa, em

alguns anos as fazendeiros estarao tao esta-

veis que terao de se esconder em seus

poroes com medo de serem atingidos por

fardos de dinheiro dos contribuintes sendo

despejados sobre os estados agricolas por

bombardeiros da Forca Aerea.

• As pessoas (Mo imporkincia demais a um pequeno 111,-071er0 de observacaes vividas. Imagine que voce esteja pensando em comprar urn carro da marca X. Para saber mais sobre a confiabilidade do veiculo, le a Consumer Reports, que fez uma pes- quisa corn mil proprietarios do carro X. Entao voce encontra uma amiga que possui urn carro da marca e ela lhe diz que é urn abacaxi. Como voce trata a observacao da sua amiga? Se voce pensar racionalmente, vera que ela so aumentou o tamanho da amostra de 1.000 para 1.001, o que nao representa muita inforrnacao nova. Mas como a historia da sua amiga é de fato vivida, voce pode sentir-se tentado a lhe dar major peso em sua tomada de decisao do que deveria.

• As pessoas relutain cm fluidal- de ideia. As pessoas tendem a interpretar as eviden- cias de maneira a confirmar crencas que ja tenham. Em urn estudo, pediu-se aos entrevistados que lessem e avaliassem urn relatario de pesquisa a respeito da pena capital e de sua capacidade de reduzir a criminalidade. ApOs ler o relato- rio, as pessoas inicialmente favor6veis a pena de morte afirmaram estar mais convencidas de sua opiniao e as que cram contrarias a pena de morte tambem disseram estar mais convencidas de sua opiniao. Os dois g,rupos interpretaram as mesmas evidencias de maneiras exatamente opostas.

Pense nas decisoes que tomou em sua vida. Voce apresenta alg,uns desses tracos?

CAF4TULO 22 FRONTEIRAS DA MICROECONOMIA 491

Talvez você esteja pensando: "Espera ai!

Isso nao é mais ou menos como... bem-

estar?"

Nao, nao é. Bem-estar é quando o

governo da dinheiro para quem nao produz

nada. Os beneficiarios dos recursos para a

agricuitura, por outro lado, produzem algo

que é critico para nosso pais: votos. Par-

lamentares poderosos de ambos os partidos,

a Wri do presidente Bush, acreditam que, se

jogarem dinheiro o bastante nos estados

agricolas, esses estados os reelegerao, per-

mitindo, assim, que d' em continuidade ao

trabalho vital de jogar dinheiro nos estados

agricolas. Assim, como se pode ver, nao

bem-estar social! É propina.

Mas nao vamos nos esquecer do ele-

mento da Seguranca Nacional. E aqui que

entra a lã de cabra. Durante a Segunda

Guerra Mundial, a lã de cabra foi usada para

fazer uniformes militares, de modo que era

considerada um material estrat4ico, e o

Congresso decidiu que vocs, contribuintes,

deveriam pagar as pessoas que o produ-

ziam. Mas é claro que, hoje, a la de cabra

nao tem qualquer aplicacao militar, por isso...

vocs AINDA continuam a pagar as pessoas

que a produzem! E, gracas à Lei de Se-

guranca Agricola, vocs continuarao a pagar

milhões e milhões de d6lares por ano aos

produtores de lã de cabra!

Como eu ja disse, isso é em nome da

Seguranca Nacional. Se os terroristas algum

dia conseguirem (Deus nos livre) construir

uma gigantesca maquina do tempo para

transportar os Estados Unidos para 1941 e

tivermos de travar a Segunda Guerra IVIundial

novamente, ESTAREMOS PRONTOS.

Na qualidade de contribuintes, voc's

tamb&n gostarao de saber que a Lei de

Seguranca Agricola oferece novos subsidios

aos produtores de lentilha e grao-de-bico.

Até que enfim. Nosso pais tornou-se por

demais dependente da lentilha e do grao-

de-bico importados. Tentem imaginar que

horror seria viver em um mundo em que os

estrangeiros de paises estrangeiros subita-

mente cortassem o fornecimento de lentilha

e grao-de-bico ao nosso pais. Imaginem

como se sentiriam se tivessem de olhar no

olhos dos seus filhos e dizer: "Desculpe, Billy

ou Suzy (conforme o caso), mas hoje nao

tem lentilha ou grao-de-bico porque n6s,

contribuintes, nao pensamos no futuro e dei-

xamos de entregar milhões de cl6lares em

auxilio aos produtores internos de lentilha e

grao-de-bico, que, por isso, foram obrigados

a competir no mercado como qualquer outra

pessoa e... El, VOLTE AQUI!"

Sim, seria um mundo horrivel, com cer-

teza. E é por isso que sou totalmente favora-

vel à Lei de Seguranca Agricola. Espero que

vocs concordem comigo, embora eu perce-

ba que ha quem possa discordar; na verda-

de, alguns de vocês podem estar tao bravos

com esta coluna que decidiram nunca mais

ler nada que eu tenha escrito.

Pois bem, adivinhem: Nao t6 nem ai!

Gracas à Lei de Seguranca Humoristica re-

centemente aprovada pelo Congresso, vou

receber um dinheirao do governo federal

para continuar a escrever estas colunas, ano

ap6s ano, mesmo que ningu&n as leia!

Nao, isso seria burrice.

Fonte: The Boston Globe Magazine, 30 jun. 2002, p. 8-9. Copyright 2002 Globe Nevvspaper Co. (MA) Reproduzido com permissk de Globe Newspaper Co. (MA) no formato livro-texto via Copyright Clearance Center.

Uma questa- o que é objeto de debates acalorados e se os desvios de racionali- dade s'ab importantes para entender os fenOmenos econOmicos. Um exemplo intri- gante surge no estudo dos planos 401(k), as contas de poupaNa para aposentado- ria que algumas empresas oferecem a seus trabalhadores. Em algumas empresas, os trabalhadores podem escolher participar do plano, bastando preencher um for- mulario simples. Em outras, os trabalhadores são inscritos automaticamente e podem optar por sair do plano, bastando preencher um formulario sin-tples. 0 fato e que mais trabalhadores participam no segundo caso do que no primeiro. Se os trabalhadores fossem maximizadores perfeitamente racionais, escolheriam a quan- tidade Otima de poupanyi para a aposentadoria, independenten-lente da condi o inicial oferecida pelo empregador. De fato, o comportamento dos trabalhadores parece exibir consideravel grau de apatia. Entender seu comportamento parece mais facil quando abandonamos o modelo do homem racional.

Por que, voc'e poderia perg-c, mtar, a economia se baseia na hipOtese da raciona- lidade, quando a psicologia e o bom senso a colocam em Uma resposta possivel é que a hipOtese, mesmo que na- o seja exatamente verdacleira, ainda é uma boa aproximay-io. Por exemplo, quando estudamos as diferenc;as entre as empre- sas monopolistas e as con-ipetitivas, a hipOtese de que as empresas racionais maxi- mizam o lucro rendeu muitas consider es importantes e validas. Lembre-se de que, como vimos no Capitulo 2, os modelos econ3n-licos n'ao pretendem ser repli- cas da realidade, mas simplesmente mostrar a ess'encia do problema a n-i`ao como uma ajuda para compreend&lo.

4921 1

PARTE 7 TOPICOS DE ESTUDOS AVANcADOS

Outro motivo pelo qual os economistas adotam corn tanta frequencia a hipote- se da racionalidade podc ser porque os pa-Trios economistas no sac) eles mesmos maximizadores racionais. Como a maioria das pessoas, eles tern excess() de confian- ca e relutam ern mudar de ideia. Sua escolha entre teorias alternativas do compor- tamento human° pode exibir apatia excessiva. Alem disso, os economistas podem se contentar corn uma teoria quo, se nao é perfeita, é boa o suficiente. 0 model° do homem racional pode ser a teoria da escolha que deixa satisfeito urn cientista social.

As Pessoas se Importam corn a Justica

Outro principio a respeito do comportamento humano pode ser mais bem ilustrado corn urn experiment° chamado logo do ultimato. 0 jogo é assim: dizemos a dois volun- tairios (quo nalo se conhecem) que vao participar de urn jogo e podem ganhar ate $ 100. Antes do jogo, cies aprendem as regras. Primeiro, joga-se uma moeda para atri- buir aos jogadores os papas de jogador A e jogador B. 0 objetivo do jogador A é pro- por uma divisao do premio de $ 100 entre ele e o outro jogador. Depois de o jogador A ter feito sua proposta, o jogador B decide se a aceita ou rejeita. Se aceitar, os dois jogadores s5o pagos de acordo corn a proposta. Se o jogador B rejeitai-la, os dois v5o embora sem ganhar qualquer coisa. Seja ern urn caso, seja no outro, o jogo termina.

Antes de prosseguir, pare para pensar no quo voce faria nessa situacao. Se fosse o jogador A, que divis5o dos $ 100 proporia? Se fosse o jogador B, que propostas aceitaria?

A teoria econemica convencional admite que as pessoas sejam maximizadoras de riqueza racionais. Essa hipatese leva a uma previsao simples: o jogador A deve pro- por ficar corn $ 99 e que o jogador B receba $ 1, e o jogador B deve aceitar. Afinal de contas, uma vez feita a proposta, o jogador B estarn em melhor situacao se aceitai-la, desde que receba alg,uma coisa. Alem disso, como o jogador A sabe quo aceitar a pro- posta favorece os interesses de B, n5o tem qualquer motivo para Ihe oferecer mais do que $ 1. Na linguagem da teoria dos jogos (discutida no Capitulo 16), a divisao 99-1

o equilibrio de Nash. Mas quando economistas experimentais pedem a pessoas rcais quo participem

do jogo do ultimata os resultados s5o muito diferentes dos previstos acima. As pes- soas que est5o no papel do jogador B costumam rejeitar as propostas que so lhes proporcionem $ 1 ou outra quantia muito pequena. Cientes disso, as pessoas que estao no papel do jogador A geralmente prop5em dar ao jogador B hem mais do quo $ 1. Algumas pessoas oferecem divisdo em partes iguais, mas é muito mais comum o jogador A oferecer ao jogador B uma quantia como $ 30 ou $ 40, manten- do a major parte para si. Nesse caso, o jogador B costuma aceitar a proposta.

0 que acontece aqui? A interpretacdo intuitiva é a de que as pessoas sdo moti- vadas, em parte, por urn sells° de justica inato. Uma diviszio 99-1 parece t5o injus- ta para tantas pessoas que elas a rejeitam, mesmo em detriment° de si proprias. For outro lado, uma divisao 70-30 ainda é injusta, mas nao tanto que leve as pes- soas ao abandon° de seu interesse proprio.

Em todo o nosso estudo do comportamento das familias e das empresas, o senso natural de justica n5o desempenhou nenhuma func5o. Mas os resultados jogo do ultimato sugerem que talvez devesse. Por exempla nos capitulos 18 e 19, discutimos como os salairios sac) determinados pela oferta de mao-de-obra e pela demanda de mao-de-obra. Alguns economistas sugerem quo a sensacao de justi- ca a respeito do quo uma empresa pap a seus trabalhadores tambem dove ser levada em considerac5o. Assim sendo, quando uma empresa tern urn ano especial- mente lucrativo, os trabalhadores (como o jogador B) podem esperar receber uma parte justa de recompensa, mesmo quo o equilibrio normal nao o determine. A empresa (como o jogador A) pode perfeitamente decidir dar aos trabalhadores mais do que o salzirio de equilibria temendo quo, do contrairio, eles procurem puni-la corn menor esforco, greves ou ate vandalism°.

CAPiTULO 22 FRONTEIRAS DA MICROECONOMIA 493

As Pessoas So Inconsistentes ao Longo do Tempo

Imagine alguma tarefa irritante, como lavar sua roupa, limpar a neve da cal ada ou preencher os formulzirios do imposto de renda. Agora considere as seguintes questOes:

1. Voc'e preferiria (A) passar 50 minutos cumprindo a tarefa imediatamente ou (B) passar 60 minutos cumprindo a tarefa aman W

2. Você preferiria (A) passar 50 minutos cumprindo a tarefa daqui a 90 dias ou (B) passar 60 minutos cumprindo a tarefa daqui a 91 dias?

Quando questOes como essas s"o propostas, muitas pessoas escolhem B na ques- tio 1 e A na questo 2. Quando olham para o futuro (como na questo 2), elas minimizam a quantidade de tempo dedicada à tarefa incOmoda. Mas ante a pers- pectiva de cumprir a tarefa imediatamente (como na quesfflo 1), preferem adiar.

Em certo sentido, esse comportamento não é surpreendente: todo mundo pro- crastina de tempos em tempos. Mas, do ponto de vista da teoria do homem racio- nal, isso causa estranheza. Suponha que, respondendo à questo 2, alguem opte por gastar 50 minutos daqui a 90 dias. Ent - o, quando chega o 90 9 dia, permitimos que mude de ideia. Na prElitica, a pessoa se deparani com a quesUio 1, de modo que optarEi por deixar a tarefa para o dia seguinte. Mas por que a siinples passagem do tempo afeta as escolhas feitas?

Em muitas situgOes na vida, as pessoas fazem planos para si mesmas, mas os cumprem. Un-1 fumante promete parar, mas, poucas horas depois de apagar o últiiììo cigarro, sente vontade de fumar e quebra sua proinessa. Alguem que esteja tentando emagrecer promete parar de comer sobremesa, mas, quando o gallom traz o carrinho de doces, a promessa é esquecida. Nos dois casos, o desejo por uma satisfaio imediata induz o tomador de decisOes a abandonar seus prOprios planos.

Alguns economistas acreditam que a decis'c'io consumo-poupanc, a é um exemplo importante dessa inconsistncia ao longo do tempo. Para muitas pessoas, os gastos representam uma forma de satisfa o imediata. Poupar, como parar de fumar ou abandonar a sobremesa, exige um sacrificio do presente em troca de uma recompen- sa no futuro distante. E assim, como muitos fumantes adorariam conseguir parar de fumar e muitas pessoas acima do seu peso ideal desejariam comer menos, muitos consumidores gostariam de poupar mais. De acordo com uma 1.-)esquisa, 76% dos americanos afirmam que não est5o poupando o suficiente para sua aposentadoria.

Uma implicKo dessa inconsist'encia ao longo do tempo e que as pessoas ten- tariam encontrar maneiras de se comprometer com o cumprimento dos planos que fazem. Um fumante que quer parar de fumar pode jogar fora os cigarros que lhe restam e alguem que esteja de dieta pode colocar um cadeado na geladeira. 0 que pode fazer alguem que mio poupa o suficiente? Essa pessoa precisa encontrar algu- ma maneira de "trancar"seu dinheiro antes que possa exatamente o que fazem algumas contas de aposentadoria, como os planos 401(k). Um trabalhador pode concordar em ter algum dinheiro retirado de seu contracheque antes mesmo de em rM-1os. O dinheiro e depositado em uma conta que somente pode ser usada antes da aposentadoria mediante o pagamento de uma multa. Talvez este seja o motivo pelo qual as contas cle aposentadoria sc5o tão populares: elas prote- gem as pessoas de seus desejos de satisfaio imediata.

7este R4ido Descreva pelo menos tr 's maneiras pelas quais a tomada de decises humana difere da do individuo racional da teoria econ6mica convencional.

CO IY_CLU5A0

Este capitulo examinou a fronteira da microeconomia.Vo& talvez tenha percebido que limitamo-nos a delinear as ideias, sem desenvolv&-las. Isso não foi por acaso.

494 PARTE 7 TOPICOS DE ESTUDOS AVANIcADOS

Urn dos motivos é que voce podera estudar esses topicos corn mais detalhes em cursos avancaclos. Outro é que esses tOpicos sao areas ativas de pesquisa e, portan- to, ainda estao sendo investigados.

Para ver como esses topicos se enquadram no panorama geral, lembre-se dos Dez Principios de Economia do Capitulo 1. Urn deles diz que os mercados costumam ser urn born jeito de organizar a atividade econamica. Outro declara que os gover- nos podem, as vezes, melhorar os resultados de mercado. IA° estudar a economia, voce podera apreciar mais plenamente a verdade desses principios e tambem as limitac5es que eles apresentam. 0 estudo das informacoes assimetricas deve te-lo deixado cauteloso corn os resultados de mercado. 0 estudo da economia politica deve te-lo deixado precavido corn as soluc5es do govern°. E o estudo da economia comportamental deve te-lo deixado precavido corn qualquer instituicao que depen- da da tomada de decisnes pelas pessoas — inclusive os mercados e o governo.

Se ha urn tema comum a esses topicos, é o de que a vida é complicada. A infor- maga° é imperfeita, o governo é imperfeito, as pessoas sao imperfeitas. E claro que voce ja sabia disso muito antes de comecar a estudar economia, mas os economis- tas precisam entender essas imperfeicoes corn a maior precisao possivel para expli- car e, quem sabe, melhorar o mundo que os cerca.

RESUMO

• Em muitas transacoes econernicas, a informacao é assimetrica. Quando ha acoes ocultas, os principais podem temer que os agentes sofram do problema do risco moral. Quando ha caracteristicas ocultas, os compradores podem temer a questa° da selecao adversa entre os vendedores. Os mercados priva- dos as vezes lidam com a informaca-o assimetrica por meio de sinalizacao e selecao.

• Embora a politica govemamental possa, as vezes, melhorar os resultados de mercado, os governos sac), eles mesmos, instituicoes imperfeitas. 0 para- dox° de Condorcet mostra que a regra da maioria fracassa em produzir preferencias transitivas para a sociedade, e o teorema da impossibilidade de Arrow mostra que rid° ha sistema eleitoral perfeito. Em

muitas situagoes, as instituicoes democraticas pro- duzem o resultado desejado pelo eleitor mediano, independentemente das preferencias do restante do eleitorado. Alem c-lisso, as pessoas que estabele- cern a politica govemamental podem ser motiva- das por interesses proprios e nao pelo interesse nacional.

• 0 estudo da psicologia e da economia revela que a tomada de decisoes humana é mais complexa do que se costuma admitir na teoria economica con- vencional. As pessoas nem sempre sac) racionais, elas se preocupam corn a justica dos resultados econamicos (mesmo em detriment° proprio) e podem ser inconsistentes ao longo do tempo.

CONCEITOS-CHAVE

risco moral, p. 480 sinalizacao, p. 482 teorema da impossibilidade de Ar- agente, p. 480 selecao, p. 483 row, p. 486 principal, p. 480 paradox° de Condorcet, p. 485 teorema do eleitor median°, p. 487 selecao adversa, p. 481

QUESTOES PARA REVISAO

1. 0 que é risco moral? Liste tres coisas que um empregador poderia fazer para atenuar esse pro- blema.

2. 0 que é selecao adversa? De um exemplo de urn mercado em que a selecdo adversa poderia repre- sentar urn problema.

CAFijTULO 22 FRONTEIRAS DA MICROECONOMIA 495

3. Defina sinaliza(do e sele o e dê um exemplo cada.

4. Que propriedade estranha do processo eleitoral foi observada por Condorcet?

5. Explique por que a reg,ra da maioria respeita as preferencias do eleitor n-iediano e n5o as do eleitor medio.

6. Descreva o jogo do ultimato. Que resultado a teoria econ mica convencional preveria para esse jogo? A pr5tica confirn-la essa previs-c-lo? Explique.

1. Todas as situa es a seguir envolvem risco moral. Em cada caso, identifique o principal e o agente e explique por que 1-15 infom-ia(;5o assimetrica. Como a açîio clescrita atenua o problema do risco n-loral?

a. Os proprietkios exigem que seus inquilinos depositem uma cau5o.

b. As empresas recompensam seus executivos mais graduados com oKb- es de compra de ações da empresa a um determinado prec;o no futuro.

c.As seguradoras de carros oferecem descontos a clientes que instalem dispositivos antifurto em s us veiculos.

7. Suponha que a Live-Long-anci-Prosper Health Insurance Company cobre $ 5 mil por ano por uma ap6lice familiar. 0 13residente da en-ipresa sugere elevar o preo anual para $ 6 mil para aumentar os lucros. Se a empresa seguir essa sugest5o, que pro- blema econ6mico poderia surgir? A clientela da en-ipresa tenderia a se tornar mais ou menos sau- d5vel, em media? Os lucros cla en-ipresa aumenta- riam, necessariamente?

3. 0 estudo de caso deste capitulo descreve como um homem pode sinalizar para sua namorada que a ama, oferecendo-lhe um presente apropriado. Voce acha que dizer "eu te amo"tambem pode ser- vir como um sinal? Por qu?

4. Alguns ativistas ligados à Aids acreditam que as companhias de seg,uro-sade n5o deveriam ter permiss5o de perguntar aos solicitantes de planos se eles est5o ou n5o contaminados com o virus HIV, que causa a Aids. Essa regra seria boa ou ruim para os HIV-positivos? E seria boa ou ruim para os que n5o s5o HIV-positivos? Ela exacerbaria ou atenuaria o problema da sele5o adversa no mer- cado de seguro-saiide? Em sua opini5o, isso aumentaria ou climinuiria o ninnero de pessoas

sem seguro-sallde? Em sua opini5o, esta seria uma boa politica?

5. 0 govemo est5 considerando dois meios de ajudar os necessitados: dar-lhes dinheiro ou refei es 0-ratuitas em refeit6rios comunitkios. De um ar- g,umento favor5vel à distribuiyTio de dinheiro. um arg,umento, baseado na assimetria de informa- 5o, segundo o qual os refeitOrios comunit5rios

podem ser melhores do que dar dinheiro.

6. Ken entra em uma sorveteria:

GARwivi: Hoje temos sorvete de creme e de chocolate.

KEN: Quero o cle creme. GARC;ONA: Q iiase me esqueci. Tambem temos de

morango. KEN: Nesse caso, quero o de chocolate.

Que propriedade-padr5o da tomada de decises Ken violou? (Dica: Leia a se5o sobre o teorema da impossibilidade de Arrow.)

7. Por que um partido politico em um sistema bipar- tid5rio poderia optar por n5o se deslocar em clire- c;50 ao eleitor mediano? (Dica: Pense nas absten- 5es de voto e nas contribui6es para as campa-

nhas politicas.)

8. Dois carrinhos de sorvete est5o decidindo onde se instalar eni uma praia com dois quil8n-letros de comprimento. Cada freqi_ientador da praia compra exatamente um sorvete por dia do carrinho preiximo. Cada vendedor de sowete deseja para si o niimero m5ximo de clientes. Em qual ponto da praia os dois carrinhos ir5o ficar?

9. Ap6s um terremoto muito noticiado na Califernia, muitas pessoas telefonaram a suas seguradoras para solicitar seguros contra terremotos. Essa rea- ção poderia representar um desvio da racionalida- de? Discuta.

DADOS IVIACROECO OMICOS

lir -------w

-- - -- -- lr

MEDINDO RENDA NACIONAL

'Ouando voce concluir os estudos e comecar a procurar por urn emprego em tempo integral, sua experiencia sera moldada, em g-rande medida, pelas condicoes econo- micas do momento. Em alg-uns anos, as empresas de toda a economia estao expan- dindo sua producao de bens e servicos, o nivel de emprego esta aumentando e é facil encontrar trabalho. Em outros anos, as empresas estao reduzindo a producao, o nivel de emprego esti em queda e leva muito tempo encontrar urn born trabalho. Nao é de surpreender, portanto, que qualquer estudante recern-formado prefira entrar no mercado de trabalho em urn ano de expansao econornica a ingressar em urn ano de contracao econOmica.

Como a condicao geral da economia afeta profundamente a todos nos, as mudancas das condicoes economicas sao muito noticiadas pela imprensa. De fato, é dificil ler urn jornal sem ver alg-uma nova estatistica sobre a economia. A estatfs- tica pode medir a renda total de todas as pessoas da economia (o PIB), a taxa a que os precos estao aumentando (a inflacao) a porcentagem da forca de trabalho que esta sem trabalhar (a taxa de desemprego), a despesa total nas lojas (vendas no varejo) ou o desequilfbrio do comercio entre os Estados Unidos e o restante do mundo (o deficit comercial). Todas essas estatisticas sao macroeconomicas. Em vez de nos dizerem algo a respeito de uma familia ou empresa especffica, nos dizem algo sobre a economia toda.

500 PARTE 8 DADOS MACROECONI5MICOS

Como vimos no Capitulo 2, a ciencia. econ6mica se divide ern dois ramos: microeconomia e macroeconomia. A microeconomia é o estudo de con-io as fami- lias e as empresas individuais tomam decis -cies e interagem umas com as outras nos mercados. A macroeconomia é o estudo da economia como um todo. 0 objetivo da macroeconomia é explicar as mudanas econe)micas que afetani muitas empresas e mercados simultaneamente. Os macroeconomistas abordam diversas questes: Por que a renda media e elevada em alg-uns paises e baixa em outros? Por que os prec;.-os sobem rapidamente em alg,umas'epocas e permanecem mais esta- veis em outras? Por que a produao e o emprego aumentam em alg,uns anos e se contraem em outros? 0 que o governo pode fazer para 1.->romover o crescimento acelerado da renda, a baixa inflac;a- o e um nivel de emj_-)rego estavel? Essas pergun- tas s .ao todas de natureza macroecon6mica porque se referem ao funcionamento da economia como um todo.

Como a economia nada mais e clo que um conjunto de muitas familias e mui- tas empresas que interagem em muitos mercados, a microeconomia e a macroeco- nomia estao intimamente associadas. As ferramentas basicas de oferta e demanda, por exemplo, sao tao cruciais para a analise macroecone)mica quanto para a microe- conmica. Mas estudar a economia levanta alg,uns de.safios novos e intrigantes.

Neste capitulo e no pr&imo, cliscutiremos alg,uns dos dados que os economistas e os formuladores de políticas usam para monitorar o desempenho da economia. Esses dados refletem as n-iudanas econ6micas que os macroeconomistas procuram explicar. Este capitulo trata do produto internol)ruto, ou simplesmente PIB, que mede a renda total de um pais. 0 PIB é a estatistica econ3mica acompanhada com mais aterio porque e considerada a melhor medida do bem-estar econ6mico de uma sociedade.

microeconomia

o estudo de como familias e

empresas' tbmam' decisq-es

e de como interagem-ries jrn.,

mercado0

macroeconomia

o estudo de fen6menos que

afetam a economia como

um todo, inclusive inflack,

desemprego e crescimento

ecorrqmico

RENDA E DESPESA DA. -r-CONWA

Se voce fosse julgar a situacAo econe)mica de uma pessoa, olharia primeiramente para a sua renda. Uma pessoa com renda elevada tem mais facilidade para pagar pelos bens necessarios e superfluos que existem. Nao é de surpreender que pes- soas de renda elevada desfrutem de melhor padrio de vida — melhor moradia, melhor atendimento à saLide, carros mais luxuosos, ferias mais opulentas e assim por diante.

A mesma I6gica se aplica à economia de um pais. Ao julgar se uma economia vai bem ou mal, é natural examinar a renda total obticla por todos os membros da economia. Essa e a func;ao do produto intemo bruto (PIB).

0 PIB mede duas coisas ao mesmo tempo: a renda total de todas as pessoas da economia e a despesa total com os bens e servic, os produzidos na economia. A razao pela qual o PIB consegue medir tanto a renda total quanto a despesa total que, na verdade, tanto a renda quanto a despesa sao a mesma coisa. Pl7r17 a CC0110- Mia COMO 11111 todo, a renda deve ser igual a despesa.

Por que isso e verdadeiro? A renda de uma economia é igual à despesa porque cada transac;o envolve duas partes: um comprador e um vendedor. Cada d6lar de despesa de alg-um comj.-)rador corresponde a um dlar de renda para um vendedor. Suponha, por exemplo, que Karen pague a Doug $ 100 para que corte seu graina- do. Nesse caso, Doug e um vendedor de um servio e Karen é uma compradora. Doug ganha $ 100 e Karen gasta $ 100. Assim, a transa o contribui igualmente para a renda da economia e para a despesa do pais. 0 PIB, seja ele medido pela renda ou pela despesa, aumenta em $ 100.

Outra maneira de enxergar a igualdade entre renda e despesa é por meio do diagr, ama de fluxo circular representado na Fig-ura 1 (voce talvez se lembre de que

Bens e servicos Bens e vendidos servicos

cornprados 1

Receitas (= P1B)

MERCADOS DE BENS E SERVICOS

Despesas PIB

CAPITULO 23 NIEDINDO A RENDA NACIONAL 501

FIGURA 1

0 Diagrama de Fluxo Circular

As familias compram bens e servicos dos empresas, e as empresas usam a receita que obtem dos vendas para pagar saldrios aos trabalhadores, aluguel aos proprietarios de terras e lucros aos proprietdrios dos empresas. 0 P1B e igual Go total dos despesas dos familias no mercado de bens e servicos. E e igual tambem Go total de soldrios, alugueis e lucros pogos pelas empresas no mercado de fatores de producao.

ja vimos esse diagrama no Capitulo 2). 0 diagrama descreve todas as transacoes que envolvem as familias e as empresas de uma economia simples. Nessa econo- mia, as familias compram bens e servicos das empresas; essas despesas fluem atra- ves dos mercados de bens e servicos. As empresas, por sua vez, usam o dinheiro que recebem pelas vendas para pagar salarios aos trabalhadores, alug-ueis aos pro- prietarios da terra e lucros aos proprietarios das empresas; essa renda flui através dos mercados de fatores de producao. Nessa economia, o dinheiro flui das familias para as empresas e destas para as familias.

Podemos calcular o PIB dessa economia de duas maneiras: somando a despesa total das familias ou son-tando a renda total (salarios, alug,ueis e lucros) paga pelas empresas. Como qualquer despesa da economia acaba como renda de alguem, o PIB é o mesmo, independentemente do metodo de calculo escolhido.

A economia real, naturalmente, é mais complicada do que a representada na Figura 1. Em particular, as familias nao gastam toda a sua renda. Elas entregam parte ao govemo sob a forma de impostos e poupam parte para algum uso futuro. Alem disso, as familias nao compram todos os bens e servicos produzidos na eco- nomia. Alguns bens e servicos sao comprados pelos governos e outros sao compra- dos por empresas que planejam usa-los no futuro para produzir seus produtos. Mas, independentemente de o comprador do bem ou servico ser uma familia, urn govern° ou uma empresa, a transacao tera urn comprador e urn vendedor. Assim, para a economia como urn todo, a despesa e a renda sao sempre ig-uais.

502 PARTE 8 DADOS MACROECONOMICOS

Teste R4ido Quais são as duas coisas medidas pelo produto interno bruto? Como ele pode medir duas coisas ao mesmo tempo?

Mensurack, do Produto Interno Bruto

produto interno bruto

o valor de mercado de todos

os bem e servicos finais

produzidos em um pais em

um dado periodo de tempo

Agora que discutimos o significado do produto interno bruto em termos gerais, vamos ser mais precisos a respeito da media-.10 dessa estatistica. Aqui estal uma defini o de PIB:

• Produto interno bruto (PIB) é o valor de mercado de todos os bens e serviv)s- finais produzidos em um pais em um dado periodo de tempo.

Essa defini o pode parecer bem simples. Mas, na verdade, surgem muitas ques- t es sutis quando calculamos o PIB de uma economia.Vamos, portanto, considerar cada frase dessa defini o com ateN`aio.

"PIB É o Valor de Mercado..."

Voce provavelmente já ouviu o adágio que diz "voce na-io pode somar rnaçãs com laranjas". Mas e exatamente o que o PIB faz. 0 PIB soma vkios tipos diferentes de produtos em uma única medida de valor da atividacle econ6mica. Para isso, usa os preos de mercado. Como os preos de mercado medem o montante que as pes- soas est5o dispostas a pagar por diferentes bens, eles refletem o valor desses bens. Se o preo de un-la mka-1 for o dobro do preo de uma laranja, enta-lo a mac;" con- tribuirá duas vezes mais para o PIB do que a laranja.

" de Todos..."

0 PIB tenta ser abrangente. Inclui todos os itens produzidos na economia e vendi- dos legalmente nos mercados. 0 PIB mede o valor de n-iercado não s(5 das ma s e das laranjas, mas tambem das peras e das uvas, dos livros e dos ingressos de cine- mas, dos cortes de cabelo e dos servios de sade, e assim por diante.

0 PIB tambem inclui o valor de mercado dos servios de moradia prestallos pelo estoque de moradias da economia. No caso das moradias alugadas, e fácil calcular esse valor — o aluguel é igual a=1 despesa do inquilino e à renda do proprietairio. Mas muitas pessoas s^ ."c) donas do lugar ern que vivem e, por isso, rik) pagam aluguel. 0 governo inclui a moradia pr6pria no PIB estimando o valor de aluguel. Ou seja, o PIB se baseia na hip(5tese de que o proprietkio pague o valor imputado do alu- guel a si preSprio, de modo que o aluguel esteja incluido tanto em suas despesas quanto em sua renda.

Entretanto, há alguns produtos que o PIB exclui por serem de dificil mensura- o. 0 PIB desconsidera todos os itens produzidos e vendidos ilegalmente, como

as drogas ilegais. Exclui tambem itens produzidos e consumidos em casa e que,

portanto, nunca entram no mercado. As verduras que voce compra na quitanda fazem parte do PIB; já as verduras que voce cultiva em sua casa, n' o.

Essas excluses do PIB podem, por vezes, levar a resultados paradoxais. Por exemplo, quando Karen paga a Doug para que corte seu gramado, a transk" "o faz parte do PIB. Se ela se casasse com Doug, a situk" "o mudaria. Embora Doug possa continuar a cortar o gramado de Karen, o valor do serviy) deixa de ser incluido no PIB porque o servio de Doug ri .k) está mais sendo vendido em um mercado. Assim, quando Karen e Doug se casam, o PIB se reduz.

CAPITULO 23 IVIEDINDO A RENDA NACIONAL

"... os Bens e Servicos..."

0 FIB inclui tanto os bens tangiveis (alimento, vestuario, carros) quanto os servi- cos intangiveis (cortes de cabelo, faxina, consultas medicas). Quando voce comipra urn CD de sua banda predileta, esti comprando urn hem, e o preco de compra faz parte do FIB. Quando voce paga para assistir a urn show da rnesma banda, esta comprando urn servico, e o preco do ing-resso tambem faz parte do FIB.

Uma excecao importante a esse principio surge quando urn hem intermediario é produzido e, em vez de ser usado, é acrescentado ao estoque de bens de uma empresa para ser usado ou vendido em uma data posterior. Nesse caso, o hem intermediario é considerado "final" nesse moment() e seu valor como investimento ern estoque é adicionado ao FIB. Quando o estoque do bem intermediario for, mais tarde, utilizado ou vendido, o investimento da empresa ern estoque sera negativo e o FIB do 'period° posterior sera reduzido de acordo.

"... Finais..."

Quando a International Paper produz papel que a Hallmark usa para fazer urn car- tao, o papel é chamado de bem intermedidrio, e o cartao, de bem _final. 0 FIB inclui somente o valor dos bens finals. A razao é que o valor dos bens intermediarios ja esta incluido no preco dos bens finals. Somar o valor de mercado do papel ao valor de mercado do cartao seria uma dupla contagem, ou seja, contar duas vezes (incor- retamente) o papel.

Produzidos..."

0 FIB inclui os hens e servicos produzidos no presente. Nao inclui transacoes que envolvam itens produzidos no passado. Quando a General Motors produz e vende urn carro novo, o valor do carro é incluido no FIB. Quando uma pessoa vende a outra urn carro usado, o valor do carro usado nao é incluido no FIB.

em um Pals..."

0 FIB mede o valor da producao dentro dos limites geograficos de urn pais. Quando urn cidadao canadense trabalha temporariamente nos Estados Unidos, sua producao faz parte do FIB dos Estados Unidos. Quando urn cidadao norte- americano é dono de uma fabrica no Haiti, a producao de sua fahrica não faz parte do PIB dos Estados Unidos (mas, sim, do Haiti). Assim, os itens sao incluidos no PIB de urn pais se forem produzidos internamente, independentemente da nacio- nalidade do produtor.

II em urn Dado Perlodo de Tempo"

0 PIB mede o valor da producao que tern lugar em urn interval° de tempo especi- fico. Geralmente esse intervalo costuma ser de urn ano ou urn trimestre. 0 PIB mede o fluxo de renda e despesa durante esse interval°.

Quando o governo divulga o FIB de urn trimestre, geralmente apresenta o FIB "a uma taxa anual", ou anualizado. Isso significa que o valor relatado do FIB é o mon- tante de renda e despesa durante o trimestre multiplicado por 4. 0 govemo usa essa convencao para facilitar a comparacao entre os valores trimestrais e anuais do FIB.

503

504 PARTE 8 DADOS MACROECONC/MICOS

Além disso, quando o govemo divulga o PIB trimestral, apresenta os dados depois de terem sido modificados por um procedimento estatistico chamado ajus- tamento sazonal. Os dados 1-u'io-ajustados normalmente mostram com clareza que a economia produz mais bens e servios em alg,umas epocas do ano do que em outras (como voc'e pode imaginar, dezembro, com as con-ipras de fim de ano, e um dos pontos altos). Quando monitoram as condi es da economia, economistas e legisladores freqientemente preferem olhar alem dessas varig6- es sazonais. Assim, os estatisticos do govemo ajustam os dados trimestrais de maneira a excluir o ciclo sazonal. Os dados sobre o PIB divulgados nos noticithios são sempre ajustados sazonalmente.

4--

SAIBA MA1S SOBRE...

OUTRAS MEDIDAS DE RENDA

Quando o Departamento de Com&cio dos Estados Unidos calcu-

la o PIB do pais, a cada três meses, calcula tamb&n vkias outras

medidas de renda para obter um panorama mais completo sobre o que esth acontecendo na economia. Essas outras medidas diferem do PIB porque incluem ou excluem certas categorias de renda. 0

que se segue é uma breve descrick de cinco dessas medidas de

renda, ordenadas da maior para a menor.

• Produto nacional bruto (PNB) é a renda total dos residentes per- manentes de um pais. Difere do PIB por incluir a renda que nos-

sos cidadks ganham no exterior e por excluir a renda que

os estrangeiros ganham aqui. Por exemplo, quando um cidadk

do Canadá trabalha temporariamente nos Estados Unidos, sua

produck é parte do PIB americano, mas não é parte do PNB americano (sua produ0o é parte do PNB canadense). Para a

maioria dos paises, incluindo os Estados Unidos, os residentes

domsticos são responsveis pela maior parte da produck inter-

na, de modo que o PIB e o PNB são muito prc5ximos.

Produto nacional (PNL) é a renda total dos residentes de uma nack (PNB) menos as perdas decorrentes da depre-

ciack. Deprecia0o é o desgaste do estoque de equipamentos e estruturas da economia, como a ferrugem dos caminhes e a obsolescncia dos computadores. Nas contas de renda nacional

preparadas pelo Departamento de Com&cio, a deprecia0o

chamada de "consumo de capital fixo".

Renda nacional é a renda total ganha pelos residentes de uma nack na produck de bens e servicos. Difere do produto nacio- nal liquido por excluir os impostos indiretos sobre as empresas

(como impostos sobre as vendas) e incluir os subsidios

empresas. 0 PNL e a renda nacional tamb m diferem por causa

de uma "discrepkcia estatistica" que surge por causa de pro-

blemas com a coleta de dados.

Renda pessoal é a renda recebida pelas familias e pelas empre- sas que ri",k são sociedades por aces. Ao contrkio da renda

nacional, a renda pessoal rik inclui os lucros retidos, que renda obtida pelas empresas, mas não distribuida aos seus pro-

prietkios. A renda pessoal tamb m subtrai o imposto de renda

das pessoas 'juriclicas e as contribuices para o seguro social

(principalmente os impostos para a Seguridade Social). Em adi- ck, a renda pessoal inclui a renda de juros que as familias rece- bem sobre os emprtimos que fazem ao governo e a renda que recebem de programas de transfer&icia governamental, como os de bem-estar social e a Seguridade Social. Renda pessoal dispordvel é a renda que resta às familias e empresas que não s",k sociedades por aces depois de satisfei-

tas todas as suas obrigaces perante o governo. É igual à renda

pessoal menos impostos pessoais e certos pagamentos que

não si - o impostos (como multas de trksito).

Embora as diversas medidas de renda difiram em detalhes,

quase sempre nos dizem as mesmas coisas sobre as condices eco- ndmicas. Quando o PIB está crescendo rapidamente, essas outras medidas de renda costumam crescer rapidamente. Quando o PIB

está em queda, essas outras medidas costumam cair tamb&n. Para

monitorar as fIutuaces da economia, não importa muito qual medi-

da de renda utilizamos.

CAPITLILO 23 IVIEDINDO A RENDA NACIONAL 505

Vamos agora repetir a definicao de FIB:

• Produto intern° brut° (FIB) é o valor de mercado de todos os bens e servicos finais produzidos em urn pais em urn dado period° de tempo.

Deve estar claro que o FIB é uma medicla sofisticala do valor da atividade econ8- mica. Nos cursos avancados de macroeconomia, voce aprendera mais sobre as suti- lezas que surgem clurante seu ciculo. Mas j da para perceber que cada express5o dessa definicao est6 repleta de significados.

Teste Rapid° 0 que contribui mais para o PIB - a producao de urn quilo de carne moida ou a produ- cao de urn quilo de caviar? Por que?

OS COMPOVENTES DO P

-1::40+.11)04 C )5 CAC( LI> t- Pt/ LA 12, 41A)A•Je 5

TE N e u - P Pctu/Arrp-o s

A despesa na economia assume diversas formas. A qualquer moment°, a familia Smith pode estar almocando ern uma lanchonete Burger King; a General Motors pode estar construindO uma fabrica de carros; a marinha pode adquirir urn subma- rino e a British Airways pode comprar urn avid° da Boeing. 0 FIB inclui todas essas diversas formas de despesas em bens e servicos produzidos internamente.

Para entender como a economia esta usando seus recursos escassos, os econo- mistas frequentemente se interessam em estudar a composicao do FIB de acordo corn diversos tipos de despesas. Para fazer isso, o PIB (que chamaremos de Y) é dividido em quatro componentes: consumo (C), investimento (I), compras do govemo (G) e exportacoes liquidas (EL):

Y =C+I+G+EL Oopoc:cto

Essa equacao é uma identidade — uma equac5o que deve ser vercladeira a prop6- sit° de como as vari6veis na equacao so definiclas. Nesse caso, como cada dOlar de despesa incluido no FIB é colocado em urn dos quatro componentes do FIB, a soma dos quatro componentes deve ser igual ao PIB.Vamos analisar cada urn desses qua- tro componentes com major profunclidade.

iNj O QJ C: PE FEE

(),PE (A 0/2' Coq) ik‘t)A-

105 E /405 61-epoS P6 Lt (.06-

t t 14 CXCAt ()) U +05 1 9°

0_1E- NOA f014.-)PON1 t) EL

Consumo

0 consumo 6 a despesa das familias em bens e servicos. Os "bens"incluem as des- pesas das fan-rilias ern bens duraveis, como carros e eletrodomesticos, e bens nao- duraveis, como aliment° e vestulirio. Os "servicos"incluem itens intang,iveis, como cortes de cabelo e servicos de saide. As despesas das familias em educacao tam- bem sao incluidas no consumo de servicos (embora seja possivel argumentar que elas se encaixariam melhor no proximo componente).

Investimento

0 investimento 6 a compra de bens que sera° usados no futuro para produzir mais bens e service's. E a soma das compras de bens de capital, estoques e estruturas. 0 investimento em estruturas inclui despesas em imoveis residenciais novos. Por

;.) t: c ij "_.)0 6),A Si° 406 E (2, N) ( i mw,-)00`0

-,i-11),ANsfeP.Ewc-\ Uut:.-ob .6u6 o5

consumo

as despesas das familias em

bens e servicos, excetuando-

se a compra de imoveis

residenciais novos

investimento as despesas em equipamento

de capital, estoques e

estruturas, incluindo a compra

de novos imoveis residenciais

pelas familias

c 0 a 1.)-E, fe• E. cA I\J 1) ') )

1)0,:}co AC 5c4A2,

fiLEJ4A(rA-t--3 De `)e,12A).1(,-

506 PARTE 8 DADOS MACROECONCMICOS

conveno, a compra de uma casa nova é a única forma de categoria de despesa das familias classificada como investimento, e n'a- o consun-io.

Como já foi dito neste capitulo, o tratamento dos estoques acumulados e digno de nota. Quando a IBM produz um computador e, em vez de vend&lo, acrescen- ta-o ao seu estoque, assume-se que ela tenha "comprado" o computador para si mesma. Ou seja, os contadores da renda nacional tratam o computador como parte das despesas de investimento da empresa. (Se a IBM depois vender o con-iputador, tirando-o de seu estoque, seu investimento em estoque ser, então, negativo, com- pensando a despesa positiva do comprador.) Os estoques so tratados dessa manei- ra porque um dos objetivos do PIB é medir o valor da produ o da economia, e os bens acrescentados aos estoques ,s . - c) parte da produ o do periodo em quest5o.

compras do governo

despesas em bens e servicos

pelos governos local,

estadual e federal

exportaces lkjuidas

despesas, por parte de

estrangeiros, em bens

produzidos internamente

(exportaces) menos

despesas em bens

estrangeiros por parte de

residentes internos

(importaces)

Compras do Governo

As compras do governo incluem as despesas em bens e servios dos governos locais, estaduais e federal. Isso inclui os salkios dos funcionkios do govemo e as despesas em obras pUblicas. Recentemente, as contas de renda nacional dos Estados Unidos passaram a ser chamadas pelo nome mais longo de "despesa de consumo e investimento bruto do govemo", mas neste livro usaremos a express-Eio mais tradicional e mais breve, "compras do govemo".

0 sig-nificado das "compras do governo" exige algum esclarecin-iento. Quando o governo paga o salkio de um general do exercito, o salkio faz parte das compras do govemo. Mas o que acontece quando o governo paga um beneficio da Seguridade Social a um idoso? Esse tipo de despesa do governo é chamado de pagamento de transferCmcia porque não é feito em troca de um bem ou servi93 pro- duzido correntemente na economia. Os pagamentos de transferth-icia afetam a renda das familias, mas rik-) refletem a produco da economia (do ponto de vista macroecon6mico, os pagamentos de transfer"th-icia s'a'o como impostos negativos). Como o PIB tem por objetivo medir a renda e as despesas ligadas à produ o de bens e servios, os pagamentos de transferth-icias não s, "o contados como parte das compras do governo.

Exportaces Liquidas

As exporta es liquidas são iguais às compras, por parte dos estrangeiros, de bens produzidos intemamente (exporta5es) menos as compras intemas de bens estran- geiros (importa es). Uma venda feita por uma empresa nacional a um comprador de outro pais, como a venda do Boeing à British Airways, aumenta as exportgi5es liquidas.

A palavra "liquida" no termo "exporta95es liquidas" refere-se ao fato de que as importg5es s -a".o subtraidas das exportg6- es. Essa subtrgrth) é feita porque as in-iportgb- es cie bens e servi os são incluidas em outros componentes do PIB. Por exemplo, suponha que uma familia compre um carro de $ 30 mil da Volvo, a fabri- cante sueca. Essa transa o aumenta o consumo em $ 30 mil, porq-ue as compras de carros fazem parte das despesas de consumo. E tambem reduz as exportg6es liquidas em $ 30 mil, porque o carro e uma importa o. Em outras palavras, as exportges liquidas incluem os bens e servios produzidos no exterior (com sinal negativo) porque esses bens e servios já est^a'o incluidos no consumo, no investi- mento e nas compras do govemo (com sinal positivo). Assim sendo, quando uma familia, empresa ou governo adquire um bem ou servio do exterior, a cornpra reduz as exportg.,5es liquidas — mas como tambem aumenta o consumo, o investi- mento ou as compras do governo, rik) afeta o PIB.

TABELA 1

0 PIB e seus Componentes

Esta tabela mostra o PIB total da economic] americana em 2007 e sua divisao entre as quatro componentes. Ao ler esso tobela, lembre-se do identidade Y=C+I+G+ EL

Fonte: Departamento de Comercio dos Estados Unidos.

CAPiTULO 23 IVIEDINDO A RENDA NACIONAL 507

Total (bilhoes

de Mares) Per Capita

(em Mares) Porcentagem

do Total

Produto interno bruto, Y $ 10.082 $ 35.375 1000/0

Consumo, C 6.987 24.516 69

lnvestimento, I 1.586 5.565 16

Compras do governo, G 1.858 6.519 18

Exportacao liquida, EL -349 -1.225 -3

Estudo de Caso

OS COMPONENTES DO P1B DOS ESTADOS UN1DOS

A Tabela 1 mostra a composicao do PIB americano em 2001. Naquele ano, o PIB dos Estados Unidos foi de, aproximadamente, $ 10 trilhoes. Dividindo esse mime- ro pela populacao de 285 milhoes de habitantes em 2001, resulta no PIB por pes- soa (por vezes chamado de PIB per capita). Verificamos que em 2001 a renda e a despesa do norte-americano medio foi de $ 35.375.

0 consumo compos cerca de dois tercos do PIB, ou $ 24.516 per capita. 0 inves- timento foi de $ 5.565 per capita. As compras do governo foram de $ 6.519 per capi- ta. As exportacoes liquidas foram de -$ 1.225 per capita. Esse valor é negativo por- que os norte-americanos ganharam menos vendendo ao exterior do que gastaram em bens importados.

Esses dados vem do Bureau of Economic Analysis, que é a divisdo do Depar- tamento de Comercio dos Estados Unidos que produz as contas de renda nacional. Voce pode encontrar dados mais recentes sobre o PIB no site http:// www.bea.doc.gov. •

Teste Rapido Liste os quatro componentes da despesa. Qual deles e o major?

PIB REAL VERSUS PIB NOMINAL

Como acabamos de ver, o PIB mede a despesa total em bens e servicos em todos os mercados de uma economia. Se a despesa total aumenta de urn ano para outro, uma dentre duas coisas deve ser verdadeira: (1) a economia esta produzindo uma quantidade maior de bens e servicos ou (2) os bens e servicos estao sendo vendi- dos a precos mais elevados. Quando estudam mudancas da economia ao longo do tempo, os economistas querem separar esses dois efeitos. Mais especificamente, o que querem é uma medida da quantidade total de bens e servicos produzidos pela economia que nao seja afetada pelas variacoes nos precos desses bens e servicos.

Para fazer isso, os economistas usam uma medida chamada PIB real. 0 PIB real responde a seg,uinte questa() hipotetica: Qual seria o valor dos bens e servicos pro- duzidos este ano se os avaliassemos aos precos vigentes em algum outro ano espe- cifico no passado? Avaliando a producao corrente a precos fixos em niveis passa-

PIB nominal

a produ0o de bens e

servicos avaliada a precos

correntes

PlE3 real

a produc -ao de bens e

servicos avaliada a

precos constantes

TABELA 2

PIB Real e PIB Nominal

Essa tabela mostra como calcular o P1B real, o P1B nominal e o deflator do PIB para uma economia hipotg,tica que só produz cachorros-quentes e hambrgueres.

508 PARTE 8 DADOS MACROECONCHVIICOS

dos, o PIB real mostra como a produc;'ao geral de bens e servios da economia muda com o passar do tempo.

Para ver mais precisamente como o PIB real é construido, vamos considerar um exemplo.

Um Exemplo Num&ico

A Tabela 2 mostra alguns dados de uma economia que produz somente dois bens — cachorros-quentes e hambUrgueres. A tabela mostra as quantidades produzidas dos dois bens e seus preos nos anos de 2001, 2002 e 2003.

Para calcular a despesa total dessa economia, devemos multiplicar as quantida- des de cachorros-quentes e hambi:irgueres por seus respectivos prec;os. Em 2001, 100 cachorros-quentes s.o vendidos a $ 1 cada, de modo que a despesa total com cachorros-quentes é de $ 100. No mesmo ano, s • - o vendidos 50 hambingueres a $ 2 cada, de modo que a despesa total com hambiirg-ueres tambem e de $ 100. A despesa total da economia — a son-ia das despesas com cachorros-quentes e das despesas com hambilrgueres — é $ 200. Esse montante, a produ-io de bens e ser- vios avaliada aos preos correntes, e chamado PIB nominal.

A tabela mostra o calculo do PIB nominal desses tres anos. A despesa total aumenta de $ 200, em 2001, para $ 600, em 2002, e em seguida para $ 1.200, em 2003. Parte desse aumento pode ser atribuida ao aumento nas quantidades de cachorros-quentes e hambiirgueres e parte pode ser atribuida ao aumento nos pre- os dos cachorros-quentes e dos hambingueres.

Para obter uma medida do montante produzido que na . o seja afetada pelas varig -6es nos pre93s, usamos o PIB real, que e a produc;.'ao dos bens e servios ava- liada a preos constantes. Para calcular o PIB real, selecionamos primeiro um ano como ano-base. Utilizamos, ent'ao, os preos dos cachorros-quentes e dos hamblir-

Precos e Quantidades

Preco dos Quantidade de Preco dos Quantidade de

Ano Cachorros-quentes Cachorros-quentes HambUrgueres Hamhrgueres

2001

2002

2003

100

4

50

-_ 100

150 2

3

150

200

Ano Calculo do PIB Nominal

2001 ($ 1 por cachorro-quente x 100 cachorros-quentes) + ($ 2 por hambUrguer x 50 hamb&gueres) = $20

2002 ($ 2 por cachorro-quente x 150 cachorros-quentes) + ($ 3 por hambiquer x 100 hamkirgueres) = $60

2003 ($ 3 por cachorro-quente x 200 cachorros-quentes) + ($ 4 por hambrguer x 150 hambi_igueres) = $1.20

Ano Calculo do PIB Real (ano-base 2001)

2001 ($ 1 por cachorro-quente x 100 cachorros-quentes) + ($ 2 por hambUrguer x 50 hambUrgueres) = $20 e 2002 ($ 1 por cachorro-quente x 150 cachorros-quentes) + ($ 2 por hambrguer x 100 hamb[:irgueres) = $35 2003 ($ 1 por cachorro-quente x 200 cachorros-quentes) + ($ 2 por hambUrguer x 150 hambUrgueres) = $500

Ano Calculo do Deflator do PIB ;'‘f`? rj:»1.44 x /1( 0 2001 ($ 200/$200) x 100 = 100 2002 ($ 600/$350) x 100 = 171 2003 ($ 1.200/$500) x 100 = 240

ijIhd

CAPiTULO 23 MEDINDO A RENDA NACIONAL 509

gueres no ano-base para calcular o valor dos bens e servicos em todos os anos. Em outras palavras, os precos do ano-base nos fomecem a base para comparar quan- tidades em diferentes anos.

Suponha que escolhamos 2001 como ano-base em nosso exemplo. Poclemos, entao, utilizar os precos dos cachorros-quentes e dos hambtirgueres em 2001 para calcular o valor dos bens e servicos produzidos em 2001, 2002 e 2003. A Tabela 2 mostra esses calculos. Para calcular o FIB real de 2001, usamos os precos dos ca- chorros-quentes e dos hamburgueres em 2001 (o ano-base) e as quantidades de cachorros-quentes e hambiugueres produzidas em 2001 (assim, para o ano-base, o FIB real serd sempre ig,ual ao FIB nominal). Para calcular o FIB real de 2002, utili- zamos os precos dos cachorros-quentes e dos hambnrgueres em 2001 (o ano-base) e as quantidades de cachorros-quentes e hambtirg,ueres produzidas em 2002. De forma similar, para calcular o PIB real de 2003, utilizamos os precos de 2001 e as quantidacies de 2003. Ao constatarmos que o FIB real aumentou de $ 200, em 2001, para $ 350, em 2002, e $ 500, em 2003, sabemos que o aumento é atribuido a uma elevacao nas quantidades produzidas porque os precos estao send° mantidos fixos nos niveis do ano-base.

Em resumo: 0,13743„no2Lidial usczA42.1.-=-eqrreato 7_7ara atribuir um valor a produ- clic) de bens e servicos da economia. gy.Zretzly.surecossoVkintes do ano-base para atribuir um valor a producao de bens e servicos da economia. Como o FIB real nao é afetado pela variac5o nos precos, as variacoes do FIB real refletem somente as mudancas nas quantidades produzidas. Assim, o FIB real é uma medida da produ- cdo de bens e servicos da economia.

Noss° objetivo ao calcular o FIB é medir o desempenho da economia como urn todo. Corno o FIB real mede a producao de bens e servicos da economia, ele refle- te a capacidade da economia em satisfazer as necessidades e os desejos das pes- soas. Assim, o PIB real é uma medida melhor do bem-estar economic° do que o FIB nominal. Quando os economistas falam do FIB da economia, geralmente estao se referindo ao FIB real, nao ao nominal. E quando falam do crescimento da eco- nomia, eles medem esse crescimento como a variacao percentual do PIB real de um period° para outro.

0 Deflator do PIB

Como acabamos de vet; o FIB nominal reflete tanto os precos dos bens e servicos quanto as quantidades de bens e servicos produzidas na economia. For outro lado, mantendo os precos constantes nos niveis do ano-base, o PIB real reflete somente as quantidades produzidas. A partir dessas duas estatisticas, podemos calcular uma terceira, chamada deflator do FIB, que reflete os precos dos bens e servicos, mas nao as quantidades produzidas.

0 deflator do PIB é calculado da seg-uinte maneira:

FIB nominal Deflator do FIB — x 100 PIB real

Como o PIB nominal e o FIB real devem ser iguais no ano-base, o deflator do FIB para o ano-base é sempre igual a cern. 0 deflator do FIB para os anos subse- quentes mede a variacao do FIB nominal a partir do ano-base que na-o pode ser atribuida a uma variacao do FIB real.

0 deflator do FIB mede o nivel de precos corrente em relacao ao nivel de pre- cos do ano-base. Para ver por que isso é verdade, consideremos dois exemplos sim- ples. Primeiro, imagine que as quantidades produzidas na economia aumentem corn o tempo, mas os precos permanecam os mesmos. Nesse caso, tanto o FIB

deflator do PIB

uma medida do nivel de pre-

dos calculada coma a raza.o

entre o PIB nominal e o PIB

real multiplicada par cem

Bilheies de Dlares de 1996

$10.000

9.000

8.000

7.000

6.000

5.000

4.000

510 PARTE 8 DADOS MACROECONCMICOS

nominal quanto o PIB real aumentam juntos, de modo que o deflator do PIB e constante. Suponha, agora que os preos aumentem com o tempo, mas as quanti- dades produzidas permaneam as mesmas. Nesse segundo caso, o PIB nominal aumenta, mas o PIB real se mantem inalterado, de modo que o deflator do PIB tambem aumenta. Observe que, em ambos os casos, o deflator do PIB reflete o que esta acontecendo com os pre9os, n.- o com as quantidades.

Vamos agora voltar para o nosso exemplo n-umerico da Tabela 2. 0 deflator do PIB e calculado na parte de baixo da tabela. Para o ano 2001, o PIB nominal e $ 200 e o PIB real e $ 200, de modo que o deflator do PIB e 100. Para o ano 2002, o PIB nominal é $ 600 e o PIB real e $ 350, de modo que o deflator do PIB é 171. Como o deflator do PIB aumentou, em 2002, de 100 para 171, podemos dizer que o nivel de preos aumentou 71%.

0 deflator do PIB é uma medida que os economistas usam para monitorar o nivel medio de preos da economia. Vamos examinar outra medida — o indice de preos ao consumidor — no pr6ximo capitulo, onde tambem descreveremos as dife- renas entre as duas medidas.

Estudo de Caso

0 PIB REAL NA HISTRIA RECENTE

Agora que sabemos como o PIB real é definido e medido, vamos ver o que essa variavel macroecon6mica nos diz a respeito da histOria recente dos Estados Unidos. A Fig-,ura 2 mostra dados trimestrais sobre o PIB real da economia americana desde 1970.

A caracteristica mais (5bvia desses dados é que o PIB real cresce ao longo do tempo. 0 PIB real da economia americana em 2001 foi mais do que o dobro do PIB real de 1970. Em outras palavras, a produ'ao de bens e servi9 ps nos Estados Unidos cresceu em media cerca de 3% ao ano descle 1970. Esse crescimento continuado do PIB real permite ao norte-americano tipico desfrutar de uma maior prosperidade econ Omica do que seus pais e av(5s.

Uma seg-uncla caracteristica dos dados do PIB é que o crescimento não e cons- tante. A ascensao do PIB real é ocasionalmente interrompida por periodos em que o PIB cai, chamados de recessaes. Na Figura 2, as recesses sao indicadas pelas bar- ras verticais sombreadas (n'ao ha uma reg,ra rigida que determine quando o comite

FIGUU"511—'

PIB Real nos Estados

Unidos

Esta figura mostra dados tri- mestrais sobre o P18 reol da economia norte-ornericana desde 1970. As recesses — periodos de queda do P1B real — sO-o indicadas pelos barras verticais sombreados.

Fonte: Departamento de Com&cio dos Estados Unidos.

CAPiTULO 23 MEDINDO A RENDA NACIONAL 511

oficial de datacao do ciclo de negocios ira declarar que ocorreu uma recessao, mas uma boa reg,ra geral sao dois trimestres consecutivos de queda do PIB real). As recess6es est5o associadas nao so a rendas mais baixas, mas tambem a outras for- mas de reves econ8mico: aumento do desemprego, queda dos lucros, major mime- ro de falencias e assim por diante.

0 PIB, CADA VEZ MAIS LEVE

0 PIB mede o valor do producao de bens e servicos do economic. Na sua opiniao, o que aprenderfamos se, em vez disso, medissemos o peso do pro- ducao do economic?

Uma Ideia (Literalmente) de Peso, de Greenspan Par David Wessel

Tendo pesado cuidadosamente as evidencias, o presidente do Federal Reserve, Alan Gre- enspan, quer que voce saiba que a economia norte-americana esta ficando mais leve.

Literalmente. Quando fala de "miniaturizacao" nesse

contexto, o Sr. Greenspan quer dizer que urn Mar ern bens e servicos produzidos na po- derosa economia norte-americana pesa, hoje, muito menos do que antes, mesmo depois de ajustado pela inflacao.

Urn Fedi() de dez andares modern°, segundo ele, pesa menos do que urn predio de dez andares construido no fim do seculo XIX. Corn as fibras sinteticas, as roupas pe- sam menos. E a revolucao da eletranica pro- duziu televisores tao leves que podem ser usados no pulso.

Pelas medidas convencionais, o produ- to interno bruto [real] — o valor de todos os bens e servicos produzidos no pais — é cinco vezes maior do que era ha 50 anos. Mas "o peso fisico de nosso produto interno bruto é, evidentemente, apenas urn pouco maior do que era 50 ou 100 anos atras",

disse recentemente o Sr. Greenspan a uma plateia em Dallas.

Quando se pensa no assunto, nao é tao surpreendente que a economia esteja fican- do mais leve. Uma parte crescente do PIB 'a mericana consiste de coisas que nao pesam absolutamente nada — servicos juridi- cos, psicoterapia, e-mail, informacOes on-line.

Mas o sr. Greenspan tem urn jeito espe- cial de fazer o que e obvio soar profundo. Apenas uma "pequena fracao" do cresci- mento econOrnico do pais nas ultimas deca- das "representa aumento do peso de mate- riais fisicos — petroleo, carvao, minerios, madeira, produtos quimicos", observou ele. "0 restante representa novas conhecimen- tos sobre como reorganizar esses materiais fisicos de maneira a atender melhor as necessidades humanas." (...)

0 incrivel encolhimento do PIB ajuda a explicar por que os trabalhadores norte- americanos conseguem produzir mais do que nunca por hora de trabalho (...) [e] tarn- bern ajuda a explicar por que ha tanto comercio exterior hoje em dia. "A (...) minia- turizacao do produto", disse o Sr. Greenspan, "significa que a movimentacao dos produtos se tornou mais facil e, portanto, mais barata, principalmente através das fronteiras nacio- nais." (...)

"0 mundo de 1948 era muitissimo diferente", observou o Sr. Greenspan, ha al- guns anos. "0 modelo fundamental de in- &stria, naquela epoca, era uma paisagem de enormes siderurgicas envoltas em fuma- ca (...) nas margens do [ago Michigan. A producao era de coisas fisicas grandes e pesadas."

Hoje, urn exempla do poderio economi- co norte-americano e a Microsoft Corp., corn sua producao de peso quase inexistente. "Era virtualmente inimaginavel, ha meio seculo, a extensao em que conceitos e ideias substituiriam as recursos fisicos e a forca humana na produco de bens e servi- cos", disse ele.

E claro que uma coisa nos Estados Unidos esta mais pesada do que antes: as pessoas. 0 Instituto Nacional de Sailcle afir- ma que 22,30/0 dos norte-americanos estao obesos, contra 12,80/o no inicio da decada de 1960. Mas nao é disso que a sr. Gre- enspan esta falando.

Fonte: The Wall Street Journal, 20 maio 1999, p. B1 . Copyright © 1999 Dow Jones & Co. Inc. Reproduzido corn permissk de Dow Jones & Co. Inc. no formato livro-texto, via Copyright Clearance Center.

512 PARTE 8 DADOS MACROECONCIMICOS

Grande parte da macroeconomia tem por objetivo explicar o crescimento de

longo prazo e as flutug8es de curto prazo do PIB real. Como veremos nos prOxi-

mos capitulos, precisamos de modelos diferentes para esses dois prop8sitos. Como

as flutuac-f6es de curto prazo representam desvios em rela o à tendencia de longo

prazo, exan-iinaremos, primeiro, o comportamento das vari veis macroeconOmicas

fundamentais, incluindo o PIB, no longo prazo. Enth"o, em capitulos posteriores,

vamos nos basear nessa análise para explicar as flutuag.-8es de curto prazo. •

Teste hpido Defina PIB real e PIB nominal. Qual dos dois é uma melhor medida do bem-estar eco- n'Omico? Por qu'&

PIB E BEM-ESTAR ECON MICO

No inicio do capitulo, dissemos que o PIB é a melhor medida do bem-estar econ8-

mico de uma sociedade. Agora que sabemos o que é PIB, podemos avaliar essa afir-

mao. Como vimos, o PIB mede tanto a renda total quanto a despesa total da econo-

mia em bens e servios. Assir4 o PIB per capita nos fala da renda e das despesas do

individuo medio na economia. Como a maioria das pessoas preferiria ter maior

renda e desfrutar de uma maior despesa, o PIB per capita parece ser uma pedida

natural do bem-estar econ6mico do individuo medio.

Mas alg,umas pessoas contestam a validade do PIB como medida do bem-estar.

Quando o senador Robert Kennedy concorreu à presid'encia, em 1968, fez uma

comovente critica a respeito dessas medidas econ8micas:

[0 procluto interno bruto] n' o leva em considera o a saUde de nossas criarwas,

a qualidade de sua educa o ou a felicidade de suas brincadeiras. Não inclui a

beleza de nossa poesia nem a solidez de nossos casamentos, a inteligencia do

nosso debate pUblico ou a integ-ridade dos funcionkios pUblicos. Não mede nem

nossa corao-em nem nossa sabedoria, nem nossa devoo ao pais. Em resumo,

mede tudo, exceto aquilo que faz a vida valer a pena, e pode nos dizer tudo sobre

a America, exceto a raz -&) pela qual nos orgulhamos de ser americanos.

Muito do que Robert Kennedy disse está correto. Ento, por que nos preocupamos

com o PIB? A resposta é que um PIB elevado nos ajuda, de fato, a levar uma vida confort-

vel. 0 PIB não mede a saUde das crianas, mas paises com PIBs maiores podem

arcar com o custo de um melhor atendimento de saUde para suas criaNas. 0 PIB

rt o mede a qualidade da educa o, mas paises com PIBs maiores podem ter siste-

mas educacionais melhores. 0 PIB não mede a beleza da nossa poesia, mas paises

com PIBs maiores podem ensinar mais cidafflos a ler e a apreciar a poesia. 0 PIB

ri o leva em conta nossa inteligência, integr, idade, coragem, sabedoria ou devo o

ao país, mas todos esses louwlveis atributos sk) mais fficeis de desenvolver quando

as pessoas est;-.10 menos preocupadas em garantir as necessidades materiais da vida.

Em suma, o PIB não mede diretamente as coisas que fazem a vida valer a pena, mas

mede nossa capacidade de obter os insumos para uma vida que valha a pena.

Entretanto, o PIB n -a‘o e uma medida perfeita do bem-estar. Algumas coisas que

contribuem para uma boa vida ficam de fora dele. Uma delas é o lazer. Suponha,

por exemplo, que todas as pessoas da economia subitamente comeassem a traba-

lhar todos os dias da semana, em vez de desfrutar de lazer nos fins de semana.

0 P1B reflete a producOo do fObrica, mos nao o dano que causa ao meio ombiente.

CAPITULO 23 NIEDINDO A RENDA NACIONAL 513

Mais bens e servicos seriam produzidos e o PIB aumentaria. Mas, apesar do aumento do PIB, ndo poderfamos concluir que todos estariam em melhor situacao. A perda de bem-estar decorrente da reducdo do lazer seria compensada pelos ganhos de hem-estar decorrentes da producdo e consumo de uma major quanti- dade de bens e servicos.

Como o FIB usa os precos de mercado para avaliar bens e servicos, ele descon- sidera o valor de quase todas as atividades que ocorrem fora dos nriercados. Mais especificamente, o FIB omite o valor dos bens e servicos produzidos em casa. Quando urn chef de cozinha prepara uma deliciosa refeicdo e a vende em seu res- taurante, o valor dessa refeicao faz parte do FIB. Mas se ele preparar a mesma refei- cdo para sua esposa, o valor quo agregou aos ingredientes ndo entrarEi para o FIB. De forma similar, o servico de cuidar das criancas oferecido em creches faz parte do FIB, enquanto o servico de cuidar das criancas realizado pelos pais em casa rid° faz parte do FIB. 0 trabalho voluntario contribui para o hem-estar dos membros da sociedade, mas o FIB ndo reflete essas contribuicoes.

Outra coisa que o FIB exclui é a qualidade do meio ambiente. Imagine que o govemo elimine todas as regulamentacoes ambientais. As empresas poderiam, entdo, produzir bens e servicos sem levar em consicieracdo a poluicao que criam, e o FIB poderia aumentar. Mas o bem-estar provavelmente diminuiria. A deteriora- cdo da qualidade do ar e da zigua mais do que contrabalancaria os ganhos decor- rentes da maior producdo.

0 FIB tambem ndo diz nada a respeito da distribuicao da renda. Uma socieda- de em que 100 pessoas tenham renda anual de $ 50 mil tern urn PIB de $ 5 milhoes e, o que nao é surpreendente, urn FIB per capita de $ 50 mil. 0 mesmo se da em uma sociedade em quo 10 pessoas ganhem $ 500 mil cada e 90 sofram sem ganhar nada. Poucas pessoas olhariam para essas duas situacoes e diriam que sac) equiva- lentes. 0 FIB per capita nos diz o que acontece corn a pessoa media, mas por tras da media existe uma ampla variedade de experiencias individuais.

No fim das contas, podemos concluir quo o FIB é uma boa medida do hem- estar economic° para a maioria dos propOsitos — mas ndo para todos. E importan- te ter em mente o que o FIB inclui e o que fica de fora.

Estudo de Caso

DIFEREKAS INTERNACIONAIS NO PIB E NA QUALIDADE DE VIDA

Uma maneira de avaliar a utilidade do FIB como medida do bem-estar economic° é examinar dados internacionais. Paises pobres e ricos tern niveis muito diferentes de FIB per capita. Se urn FIB elevado leva a um melhor padrao de vida, entdo deve- riamos observar que o FIB esta fortemente correlacionado corn medidas de quali- dade de vida. E, de fato, é isso o que acontece.

A Tabela 3 mostra 12 dos paises mais populosos do mundo, classificados por ordem de FIB per capita. A tabela tambem mostra a expectativa de vida (a esperan- ca de vida ao nascer) e a alfabetizacao (o percentual da populacdo adulta que sabe ler). Os dados mostram urn padrao claro. Nos parses ricos, como os Estados Unidos, o Japdo e a Alemanha, as pessoas tern expectativa de viver hem mais do que 70 anos e quase toda a populacdo sabe ler. Em paises pobres, como a Nigeria, Bangladesh e o Paquistdo, as pessoas em geral vivem somente ate os 50 anos e cerca da metade da populacao é analfabeta.

TABELA 3

PIB, Expectativa de Vida e

Alfabetizack

Esta tabela mostra o P1B per capita

e duas medidas de qualidade de vida em 12 grondes paises.

Fonte: Relak5no de Desenvolvimento

Humano 2001, NKiies Unidas.

514 PARTE 8 DADOS MACROECONC)11/11COS

Pafs PiB Real Per Capita (1999) Expectativa de Vida

Alfabetizack

entre os Adultos

Estados Unidos $ 31.872 77 anos 99%

Japk 24.898 81 99

Alemanha 23.742 78 99

Mexico 8.297 72 91

RUssia 7.473 66 99

Brasil 7.037 67 85

China 3.617 70 83

Indonesia 2.857 66 86

fridia 2.248 63 56

Paquistk 1.834 60 45

Bangladesh 1.483 59 41

Nigeria 853 52 63

Embora dados sobre outros aspectos da qualidade de vida não sejam t'a"o com-

pletos, eles contam uma histOria semelhante. Os paises com baixo PIB per capita

tendem a ter mais criaNas com peso baixo ao nascer, altas taxas de mortalidade

infantil, altas taxas cle mortalidade materna, altas taxas de desnutri o infantil e

menos acesso a 4ua tratada. Nos paises de baixo PIB per capita, menos crianas em

idade escolar freqiientam efetivamente a escola e aquelas que o fazen-1 dis em de

menos professores por aluno. Esses paises tambem tendem a ter menos televiso-

res, menos telefones, menos ruas pavimentadas e menos casas com eletricidade.

Os dados intemacionais n"th) deixam diwida de que o PIB de um pais está estreita-

mente relacionado ao padr5o de vida de seus cidadZios. •

Estudo de Case

QUEIVI GANHA NAS OLIMPADAS?

A cada quatro anos, os paises do mundo competem nos Jogos Olimpicos. Quando

os jogos terminam, os comentaristas utilizam o nUmero de medalhas obtidas por

cada pais como um indicador de sucesso. Essa medida parece muito diferente do

PIB usado pelos economistas para medir o sucesso. Mas ocorre que não é bem

assim. Os economistas Andrew Bemard e Meghan Busse examinaram os determinan-

tes do sucesso olimpico. A explica o mais Obvia e a paises que trri

mais habitantes tero, ern igualdade das demais condi es, mais atietas de desta-

que. Mas isso não e a histOria completa. China, Índia, Indonesia e Bangladesh tC. 'rn

juntos mais de 40% da populaio mundial, mas normalmente conquistam 6% das

medalhas. A raz'a"o é que esses paises s' o pobres: a despeito de sua grande popu-

eles respondem por apenas 5% do PIB mundial. Sua pobreza impede mui-

tos atletas talentosos de alcaNar seu potencial. Bemard e Busse concluiram que a melhor medida da capacidade que um pais

tem de produzir atletas de nivel mundial e o PIB total. Um PIB total elevado

CAPiTULO 23 IVIEDINDO A RENDA NACIONAL 515

fica mais medalhas, independentemente de ser esse total resultado de urn grande PIB per capita ou de urn grande numero de habitantes. Em outras palavras, se dois 'Daises tivercm o mcsmo PIB, é de se esperar que conquistem o mesmo numero de medalhas, ainda que urn deles (a India) tenha muitos habitantes e baixo PIB per capita e o outro (a Holanda) tenha menos habitantes e PIB per capita elevado.

Alem do PIB, dois outros fatores influenciam o numero de medalhas conquista- das. 0 pais-sede costuma ganhar medalhas extras, refletindo o beneficio que os atletas obtem de competir em casa. Alem disso, os antigos paises comunistas do leste europeu (Unido Sovietica, Romenia, Alemanha Oriental e outros) conquista- vam mais medalhas do que outros paises corn PIB semelhante. Esses paises corn economias de planejamento central dedicavam mais recursos nacionais ao treina- mento de atletas olimpicos do que as economias de liv-re-mercado, em que as pes- soas tern major controle sobre as proprias vidas. •

Teste Rapid° Por que os formuladores de politicos devem se preocupar corn o PIB?

CONCLUSA0 Este capitulo discutiu como os economistas medem a renda total de urn pais. A medi- cao, naturalmente, é somente urn ponto de partida. Grande parte da macroeconomia tern por objetivo revelar os deterrninantes de longo e de curto prazos do produto intern° bruto de urn pais. Por exemplo, por que o PIB é mais elevado nos Estados Unidos e no Japao do que na India e na Nigeria? 0 que os govemos dos paises n-tais pobres podem fazer para promover o crescimento mais thpido do PIB?Por que o PIB dos Estados Unidos aumenta rapidamente em alguns anos e cai em outros? 0 que os formuladores de politicas americanos podem fazer para reduzir a severidade des- sas flutuagOes do PIB? Essas sac, questoes que ser5o abordadas em breve.

Neste pont°, é importante reconhecer a relevancia da simples mensuracao do PIB. Corn isso, todos temos uma percepcao de como vai a economia enquanto levamos nossas vidas. Mas os economistas que estudam as mudanc.as na econo- mia e os formuladores de politicas que estabelecem as politicas economicas preci- sam de mais do que uma percepcdo vaga — cies precisam de dados concretos em que possam basear suas decisoes. Quantificar o comportamento da economia corn estatisticas como o PIB é, portant°, o primeiro passo para desenvolver a ciencia da macroeconomia.

RESUMO

• Como cada transacao tern urn comprador e urn vendedor, a despesa total da economia deve ser igual a renda total da economia.

• 0 produto interno brut° (PIB) mede a despesa total de uma economia em bens e servicos recente- mente produzidos e a renda total obtida corn a producao desses bens e servicos. Mais precisamen- te, o PIB é o valor de mercado de todos os bens e servicos finais produzidos em urn pais em determi- nado period° de tempo.

• 0 PIB se divide em quatro componentes de despe- sas: consumo, investimento, compras do govern° e exportacoes liquidas. 0 consumo inclui despesas das familias em bens e senricos, excetuando a corn- pra de novas residencias. 0 investimento inclui des- pesas em novos equipamentos e estruturas, incluin- do a compra de novas residencias por parte das familias. As compras do governo incluem as despe- sas em bens e seivicos dos governos locais (munici- pais), estaduais e federal. A exportacao liquida é

516 PARTE 8 DADOS MACROECONCMICOS

igual ao valor dos bens e servios produzidos inter-

namente e vendidos no exterior (exportgOes) menos o valor dos bens e serviv)s produzidos no exterior e vendidos internamente (importgOes).

• 0 PIB nominal usa os pre9 ps correntes para avaliar

a produ'do de bens e servi9c)s da economia. 0 PIB real usa preos constantes de um ano-base para avaliar a proclu o de bens e servios da economia.

0 deflator do PIB — calculado como a raz - a'o entre o

PIB nominal e o PIB real — mede o nivel de preos

da economia.

• 0 PIB e uma boa medida de bem-estar econOmico porque as pessoas preferem rendas elevadas a ren- das baixas. Mas n'a- o e uma medicla perfeita do

bem-estar. Por exemplo, o PIB desconsidera o valor do lazer e o valor de um meio ambiente limpo.

CONCEITOS-CHAVE

microeconomia, p. 500 compras do govemo, p. 506

macroeconomia, p. 500 exportaOes liquidas, p. 506

produto interno bruto (PIB), p. 502 PIB nominal, p. 508

consumo, p. 505 PIB real, p. 508

investimento, p. 505 deflator do PIB, p. 509

QUESTI5ES PARA REVISik0

1. Explique por que a renda de uma economia deve

ser igual às suas despesas.

2. 0 que contribui mais para o PIB — a produ o de um carro popular ou a produ o de um carro de luxo? Por qu'e?

3. Um agricultor vende trigo a um padeiro por $ 2. 0 padeiro usa o trigo para fazer pão, que e vendido a $ 3. Qual a contribui o total dessas transa0es para o PIB?

4. Há muitos anos, Peggy pagou $ 500 para montar

uma coleo de CDs. Hoje ela vendeu seus CDs por $ 100. Como essa venda afeta o PIB corrente?

5. Liste os quatro componentes do PIB. Dê um exem-

plo de cada.

6. Por que os economistas usam o PIB real, e não o

PIB nominal, para medir o bem-estar econOmico?

7. No ano 2001, a economia produz cem p5.es que so vendidos por $ 2 cada. No ano 2002, a econo- mia produz 200 pes que s'a'o vendidos a $ 3 cada. Calcule o PIB nominal, o PIB real e o deflator do PIB para cada ano (use 2001 como ano-base). Qual o aurnento percentual de cada uma dessas tr'es estatisticas de um ano para o outro?

8. Por que é desej vel para um pais ter um PIB ele-

vado? Dê um exemplo de algo que poderia aumentar o PIB, mas que seria indesevel.

PROBLEMAS E APLICAOES

1. Qual dos componentes do PIB (caso haja) seria afetado por cada uma das transgOes a seguir? Explique. a. Uma familia compra uma geladeira nova.

b. A tia Jane compra uma casa nova.

c. A Ford vende um Thunderbird de seus estoques.

d.Voce compra uma pizza.

e. A Calif6rnia repavimenta a Highway 101.

f. Seus pais compran-i uma garrafa de vinho frances.

g. A Honda expande sua filbrica em Marysville, Ohio.

2. 0 componente "compras do governo" do PIB n-a'o inclui as despesas em pagamentos de transferen- cia como Seg-uridade Social. Pensando sobre a

Quantidade Quantidade de Leite Preco do de Mel (litros) Mel (litros)

00 2 50 200 2 ri bo

200 4 00

Ano

2001

2002

2003

Preco do Leite

2

CAPITULO 23 IVIEDINDO A RENDA NACIONAL 517

definicao do PIB, explique por que os pagamentos de transferencia sao excluidos.

3. Na sua opinido, por que a compra de novas resi- dencias pelas familias esti incluida no componen- te investimento do PIB e nao no componente con- sumo?Voce conseg,ue imaginar alg,um motivo pelo qual as compras de carros novos pelas laminas tambem pudessem ser incluidas no investimento em vez do consumo? A que outros bens de consu- mo essa lOgica poderia se aplicar?

4. Como vimos neste capitulo, o PIB nao inclui o valor de bens usados que sao revendidos. Por que a inclus5o dessas transacoes faria do PIB uma medida menos precisa do bem-estar economico?

5. A seguir sdo apresentados alguns dados sobre a terra do leite e do me!.

a. Calcule o PIB nominal, o PIB real e o deflator do FIB para cada ano, usando 2001 como ano-base.

b. Calcule a varia(ao percentual do PIB nominal, do FIB real e do deflator do PIB em 2002 e 2003 em relacdo ao ano anterior. Para cada ano, iden- tifique a. variavelque se mantem Explique por que sua resposta faz sen-FiciO: --

c. 0 bem-estar economic° aumentou mais 2002 ou 2003? Explique. OM' e /191-laCttlintull,teu ‘7,_idASCr /17k.'s

6. Considere os seguintes dados sobre o PILS dos Estados Unidos:

Ano

2000

1999

a. Qual foi a taxa de crescimento do FIB nominal entre 1999 e 2000? (Observacao: A taxa de cres- cimento é a variacao percentual entre urn perfo- do e o seg,uinte.) 11.

b. Qual foi a taxa de crescimento do deflator do FIB entre 1999 e 2000?

c. Qual era o FIB real em 1999, medido a 1)r-egos de 1996?

d. Qual era o PIB real em 2000, n-iedido a precos de 1996?

e. Qual foi a taxa de crescimento do FIB real entre 1999 e 2000?

f.A taxa de crescimento do FIB nominal foi major ou menor do que a taxa de crescimento do FIB real? Explique.

Se os precos aumentam, a renda que as pessoas obtem da venda de bens tambem aumenta. Entretanto, o crescimento do FIB real ignora esse ganho. Por que, entao, os economistas preferem o PIB real como medida do hem-estar econamico? 0 governo costuma divulgar estimativas revistas do FIB norte-americano proximo ao fim de cada mes. Encontre urn artigo de jornal que fale da divulgacdo mais recente ou leia você mesmo o comunicado no endereco http://www.bea.doc.gov , o site do Bureau of Economic Analysis dos Estados Unidos. Discuta as variacoes recentes no PIB real, no FIB nominal e nos componentes do FIB. Urn dia, a barbearia Barry the Barber recebe $ 400 por cortes de cabelo. Durante esse dia, seu equipa- mento sofre deprecia0o no valor de $ 50. Dos $ 350 restantes, Barry envia $ 30 ao governo a titulo de impostos sobre vendas, leva para casa $ 220 em salarios e mantem $ 100 na empresa para adquirir novos equipamentos no futuro. Dos $ 220 que Barry leva para casa, $ 70 sdo pagos ao govemo a titulo de imposto de renda. Corn base nessas informacoes, calcule a contribuic5o de Barry para as seg,uintes medidas de renda: a. produto intern° bruto; b. produto nacional liquido; c. renda nacional;

d. renda pessoal; e. renda pessoal disponivel. Os bens e servicos que nao sao vendidos nos mer- cados, como alimentos produzidos e consumidos em casa, na'o costumam ser incluldos no PIB.Voce pode imaginar por que isso poderia fazer corn que os numeros da segunda coluna da Tabela 3 fossem enganosos em uma comparacao do hem-estar economic° nos Estados Unidos e na India? Explique.

Ate o inicio da deal& de 1990, o governo norte- americano dava enfase ao PNB, em vez do PIB, como medida do hem-estar economic°. Qual medida o governo deve preferir se estiver preocu- pado corn a renda total dos norte-americanos? Qual medida deve preferir se estiver preocupado corn o montante total de atividade econOmica que ocorre nos Estados Unidos?

7.

8.

9.

PIB Nominal Deflator do PIB 10.

(bilhOes) (ano-base 1996)

9.873 118 9.269 113

518 PARTE 8 DADOS MACROECONOMICOS

12. A participa o das mulheres na foNa de trabalho americana aumentou drasticamente desde 1970.

a. Na sua opinião, como esse aumento afetou o PIB?

b. Agora, imagine uma medida de bem-estar eco- nmico que inclua o tempo gasto com trabalhos domesticos e com lazer. Como a mudaNa dessa

medida de bem-estar se compararia com a mudaNa do PIB?

c.Voce consegue pensar em outros aspectos do bem-estar que estejam associados ao aun-iento da participa o feminina na foNa de trabalho? Seria prkico construir uma medida de bem- estar que incluisse esses aspectos?

MEDINDO 0 CUSTO DE VIDA

Em 1931, enquanto a economia norte-americana sofria os efeitos da Grande Depressao, Babe Ruth, o famoso jogador de beisebol, ganhou $ 80 mil. Na epoca, o salario era extraordinario, mesmo entre as estrelas do esporte. De acordo corn uma historia, urn reporter perguntou a Ruth se ele achava certo ganhar mais do que o presidente Herbert Hoover, cujo salario era de apenas $ 75 mil. Ruth respondeu: "Eu tive urn ano melhor".

Hoje, o jogador de beisebol medio ganha cerca de 30 vezes mais do que o said- rio de Ruth em 1931, e os melhores jogadores chegam a ganhar ate 200 vezes mais. A primeira vista, esse fato pode nos levar a pensar que o beisebol tornou-se muito mais lucrativo ao longo dos Ultimos 70 anos. Mas, como todos sabem, os precos dos bens e senricos tambem aumentaram. Em 1931, urn sorvete de casquinha custava 10 centavos e, corn 25 centavos, podia-se comprar urn ingresso para o cinema. Como os precos cram muito mais baixos na epoca de Babe Ruth do que hoje, nao esta claro se ele desfnitava de urn padrao de vida melhor ou pior do que os joga- dores de hoje.

No capftulo anterior, vimos como os economistas usam o produto intern° bruto (FIB) para medir a quantidade de bens e servicos que a economia esta produzindo. Este capItulo examina como os economistas medem o custo de vida geral. Para comparar o salario de $ 80 mil de Babe Ruth corn os salarios de hoje, precisamos encontrar uma maneira de transformar os valores monetarios em medidas signifi- cativas de poder aquisitivo. E exatamente essa a funcao de uma estatistica chama-

520 PARTE 8 DADOS MACROECONeMICOS

índice de precos ao

consumidor (IPC)

uma medida do custo geral

dos bens e servicos

comprados por um

consumidor tipico

da z'ndice de preps ao consunzidor. Depois de ver como se constrOi o indice de preos

ao consumidor, discutiremos con-io usar esse indice para comparar valores mone-

tkios em diferentes pontos no tempo. 0 indice de prec»s ao consumidor é usado para monitorar mudaNas no custo de

vida ao longo do tempo. Quando o indice de prey)s ao consumidor aumenta, a

lia tipica precisa gastar mais dlares para manter o mesmo padr -a- o de vida. Os eco-

nomistas empregam o terrno infla:(7o para descrever uma situgo em que o nivel

geral de preos da economia está em ascens -a"o.A taxa de iiiflação e a varig5o percen-

tual do nivel de pre9ps em rela o a um periodo anterior. Como veremos nos pr(5xi-

mos capitulos, a infla o é um aspecto do clesempenho macroeconmico cuidadosa-

mente observado e é uma varffirel-chave na orientg .a"o da politica macroeconC)mica.

Este capitulo fomece o conhecimento para essa análise, mostrando como os econo-

mistas medem a taxa de inflaco por meio do indice de preos ao consumidor.

0 ND10E DE PRECOS AO CONSUM1DOR

0 indice de preos ao consumidor (IPC) é uma n-iedida do custo geral de todos os bens e servios comprados por um consumidor tipico. A cada mes, o Bureau of

Labor Statistics, que é uma diviso do Departamento do Trabalho, calcula e divul-

ga o indice de preos ao consumidor. Nesta se - o discutiremos como o indice de

prec;os ao consumidor é calculado e quais os problemas que surgem em sua medi-

o.Veremos ainda como esse indice se compara ao deflator do PIB, outra medida

do nivel geral de prec;os que examinamos no capitulo anterior.

Como É Calculado o hidice de Precos ao Consumidor

Quando o Bureau of Labor Statistics calcula o indice de prec;os ao consumidor e a

taxa de infiação, usa dados relativos aos preos de milhares de bens e servi os. Para

ver como exatamente essas estatisticas são construidas, vamos considerar uma eco-

nomia simples em que os consumidores só comprem dois bens — cachorros-quen-

tes e hamb-Urg-ueres. A Tabela 1 mostra as cinco etapas seg,uidas pelo Bureau of

Labor Statistics.

1. Fixar a cesta. A primeira etapa no cálculo do indice de preos ao consumidor

determinar quais preos s"a"o mais importantes para o consumidor tipico. Se o

consumidor tipico compra mais cachorros-quentes do que hambUrgueres,

entk) o prec;o do cachorro-quente é mais importante do que o do hambUrg,uer

e, portanto, deve ter um peso maior no cálculo do custo de vida. 0 Bureau of

Labor Statislics estabelece esses pesos pesquisando os consumidores e identi-

ficando a cesta de bens e servios que o consumidor tipico compra. No exem-

plo da tabela, o consumidor tipico compra uma cesta de quatro cachorros-

quentes e dois hambiugueres. 2. Coletar os preps. 0 seg,undo passo no cálcuio do indice de preos ao consumi-

dor é coletar os preos de cada un-1 dos bens e servios da cesta em cada ponto

no tempo. A tabela mostra os preos dos cachorros-quentes e dos hambUrgue-

res em tres anos diferentes. 3. Ca/cular o custo da cesta. A terceira etapa é usar os dados sobre preos para cal-

cular o custo da cesta de bens e servios ern diferentes momentos. A tabela

mostra esse cálculo para cada um dos tres anos. Observe que, nesse ciculo,

somente os prey)s mudam. Mantendo constante a cesta de bens (quatro

cachorros-quentes e dois hambUrgueres), estamos isolando os efeitos das va-

? 6co 1-PbetA CAPITULO 24 NIEDINDO 0 CUSTO DE VIDA 521

TABELA 1

Etapa 1: Pesquisar os Consumidores para Determinar uma Cesta Fixa de Bens

4 cachorros-quentes, 2 hambUrgueres

Etapa 2: Coletar o Preco de Cada Bern ern Cada Ano

Ano Preco dos.Cachorros-Quentes Preco dos HambUrgueres

2001 $ 1 $ 2 2002 2 3 2003 3 4

Etapa 3: Calcular o Custo da Cesta de Bens a Cada Ano

2001 ($1 por cachorro-quente x 4 cachorros-quentes) + ($2 por hambUrguer x 2 hamburgueres) = $8 2002 ($2 por cachorro-quente x 4 cachorros-quentes) + ($3 por hambOrguer x 2 hamburgueres) = $14

2003 ($3 por cachorro-quente x 4 cachorros-quentes) + ($4 por hamburguer x 2 hamburgueres) = $20

Etapa 4: Escolher urn Ano como Ano-Base (2001) e Calcular o Indice de Precos ao Consumidor eni Cada Ano

2001 ($8/$8) x 100 = 100 2002 ($14/$8) x 100 = 175 2003 ($20/$8) x 100 = 250

Etapa 5: Usar o indice de Precos ao Consumidor para Calcular a Taxa de Inflacao em Relaeao

ao Ano Anterior

2002 (175 — 100)/100 x 100 = 750/o 2003 (250 — 175)/175 x 100 = 430/o

riacoes de precos do efeito de qualquer variacdo de quantidade que possa estar ocorrendo ao mesmo tempo.

4. Escolher um ano-base e calcular o Indice. A quarta etapa é designar urn ano como ano-base, que servira como padrao em relacao ao qual os demais anos serao comparados. Para calcular o indice, o preco da cesta de bens e servicos em cada ano é dividido pelo preco da cesta no ano-base, e essa razdo é entdo multipli- cada por\100A 0 mimero resultante é o indice de precos ao consumidor.

No exemplo da tabela, o ano-base é 2001. Nesse ano, a cesta de cachorros- quentes e.hamblirgueres custa $ 8. Consequentemente, o preco da cesta ern todos os anos é dividido por $ 8 e multiplicado por 100. 0 indice de precos ao consumidor é 100, em 2001 (o indice sera sempre 100, no ano-base). 0 indice de precos ao consumidor é 175, em 2002. Isso sig,nifica que o preco da cesta em 2002 é 175% do seu Few no ano-base. Em outras palavras, uma cesta de bens, que custa $ 100 no ano-base, custa $ 175, em 2002. De forma similar, o indice de precos ao consumidor é 250, em 2003, indicando que o nivel de precos nesse ano é 250% do nivel de precos no ano-base.

Calculo do indice de

Precos ao Consumidor e

da Taxa de Inflacao: Urn Exemplo Esta tabela mostra coma calcular o Indice de preps ao consumidor e a taxa de inflacao para uma economic hipotetica em que as consumidores compram apenas cachorros-quentes e hamburgueres.

522 PARTE 8 DADOS MACROECON ~COS

IPC do ano 2 — IPC do ano 1 x 100 IPC do ano 1

Em nosso exemplo, a taxa de inflação é de 75%, em 2002, e de 43%, em 2003. Embora esse exemplo simplifique a realidade, incluindo apenas dois bens, ele

mostra como o Bureau of Labor Statistics (BLS) calcula o indice de preos ao con- sumidor e a taxa de inflação. 0 BLS coleta e processa dados sobre os preos de milhares de bens e servi9os a cada m"es e, seguindo as cinco etapas que acabamos de discutir, determina o quk, rapidamente o custo de vida está subindo para o con- sumidor tfpico. Quando o BLS faz seu comunicado mensal do indice de prec;os ao

Cfi+01 - 4x (i -k imo E (i > 1 K2tJ

e?1)

(-Pi (kgc,12

Taxa de Inflação no ano 2 —

SAIBA MAIS SOBRE...

0 QUE HA NA CESTA DO IPC?

Ao construir o indice de precos ao consumidor, o Bureau of Labor Statistics tenta incluir todos os bens e servicos que o consumidor

tipico compra. Alem disso, ele tenta atribuir pesos a esses bens e

servicos, de acordo com a quantidade que os consumidores com-

pram de cada item.

A Figura 1 mostra a decomposicao das despesas de consumo

nas principais categorias de bens e servicos. A maior categoria, de

longe, é a moradia, que representa 41% do orcamento do consu-

midor típico. Essa categoria inclui o custo da moradia (31%), com-

bustivel e outros servicos pUblicos (5%) e mobilia e materiais de

li mpeza (5%). A segunda maior categoria, com 17%, é o transpor-

te, que inclui despesas com carros, gasolina, passagens de 6nibus,

metr6 etc. Em seguida, com 16%, vern a alimentack e as bebidas;

essa categoria inclui alimentos consumidos em casa (9%), alimen-

tos consumidos fora de casa (6%) e bebidas alcodicas (1%). A

seguir, v'em a assistencia medica, a recreack e a educacao e a

comunicack, cada uma com 6%. Essa úitima categoria inclui, por

exemplo, despesas com instruck e computadores pessoais. 0

vestuario, que inclui roupas, calcados e j6ias, representa 4 o/o do

orcamento do consumidor tipico.

Tambem inclufda na figura, com 40/0 das despesas, temos a

categoria chamada outros bens e servicos. É uma classificack

generica para as coisas que os consumidores compram e que nao

se enquadram nas demais categorias — como cigarros, cortes de

cabelo e despesas com funerais.

FIGURA 1

A Cesta Tipica de Bens e Servicos

Esta figura mostra como o consumidor tipico divide suas despesas entre as varias categorias de bens e servicos. 0 Bureau of Labor Statistics chama cada porcentagem de "importancia relativa" da

categoria

Fonte: Bureau of Labor Statistics.

Assistencia medica Outros bens Recreg'ao Vestuario e servi os

Educa0o e comunica o

CAPiTULO 24 IVIEDINDO 0 CUSTO DE VIDA 523

consumidor, geralmente ouvimos o ntimero no notici6rio not-urno da TV ou lemos sobre ele no jornal da manha seguinte.

Alem do indice de precos ao consumidor da economia como um todo, o Bureau of Labor Statistics calcula diversos outros indices de precos. Ele divulga o indice de regioes especificas do pais (como Boston, Nova York e Los Angeles) e de categorias restritas de bens e servicos (como alimentos, vestuario e energia). Calcula ainda o indice de precos ao produtor, que mede o custo de uma cesta de bens e servicos comprada pelas empresas, e nao pelos consumidores. Uma vez que as empresas acabam por repassar seus custos aos consumidores sob a forma de precos mais ele- vados, as variacoes no indice de precos ao produtor sac) frequentemente conside- radas uteis para prever variacbes no Inc-lice de precos ao consumidor.

Problemas no Calculo do Custo de Vida

0 objetivo do indice de precos ao consumidor é medir variacoes no custo de vida. Em outras palavras, o indice de precos ao consumidor tenta avaliar quanto as ren- das devem aumentar para manter urn padrao de vida constante. 0 indice de pre- cos ao consumidor, contudo, não é uma medida perfeita do custo de vida. 0 indi- ce tern tres problemas que todos reconhecem, mas que sac) de dificil resolucao.

0 primeiro problema é chamado de tendencia a substituicao. Quando os precos mudam de urn ano para outro, nao mudam todos na mesma proporcao: alg-uns aumentam mais do que outros. Os consumidores respondem a essas diferentes variacoes de precos comprando menos dos bens cujos precos subiram mais e mais dos bens cujos precos subiram menos ou ate diminuiram. Ou seja, os consumicio- res substituem os bens que se tornaram relativamente mais caros pelos bens que se tornaram relativamente mais baratos. Se urn indice de precos é calculado a partir de uma cesta fixa de bens e servicos, ele ignora a possibilidade de substituicao pelos consumidores e pressupoe, em essencia, que eles continuem comprando os produ- tos que agora estdo mais caros nas mesmas quantidades de antes. Ao desconside- rar a possibilidade de substituicao, o indice superestima o aumento do custo de vida de urn ano para o outro.

Vamos considerar urn exemplo simples. Imagine que, no ano-base, as macas estejam mais baratas do que as peras e que, portanto, os consumidores comprem mais macas do que peras. Quando o Bureau of Labor Statistics constroi a cesta de bens, inclui mais macas do que peras. Suponha que, no ano seg-uinte, as peras este- jam mais baratas do que as magas. Os consumidores respondem, naturalmente, mudanca de preco comprando mais peras e menos macas. Mas, ao calcular o indi- ce de precos ao consumidor, o Bureau of Labor Statistics usa uma cesta fixa que, em essencia, pressupoe que os consumidores continuem a comprar as magas, que agora estao mais caras, nas mesmas quantidades de antes. Por essa razdo, o indice medird urn aumento do custo de vida muito maior do que o efetivamente experi- mentado pelos consumidores.

0 segundo problema do indice de precos ao consumidor é a introducao de novas bens. Quando urn novo bem é introduzido, os consumidores tern maior variedade de produtos para escolher. Essa maior variedade, por sua vez, toma cada Mar mais valioso, de modo que os consumidores precisam de menos Mares para manter qualquer padrao de vida determinado. Mas como o indice de precos ao consumi- dor é baseado em uma cesta fixa de bens e servicos, ele nao reflete essa mudanca no poder aquisitivo do Mar.

Vamos considerar outro exemplo. Quando os videocassetes foram introduzidos, os consumidores passaram a poder assistir a seus filmes favoritos em casa. Comparado corn uma ida ao cinema, havia maior conveniencia e menor custo. Um indice de custo de vida perfeito teria refletido a introducao do videocassete por meio

indice de precos

ao produtor

uma medida do custo de uma

cesta de bens e servicos corn-

prados pelas empresas

524 PARTE 8 DADOS MACROECON(511/11COS

COMPRAS PARA 0 IPC

Por tr6s de cada estatistica macroecon6mica há milhares de dados individuais sobre a economia. Este artigo acompanha algumas das pessoas que coletam esses dados.

0 IPC É Correto? Pergunte aos Investigadores Federais que Coletam os Dados Por Christina Duff

Trenton. N.J. — A diretora financeira do hos-

pital é inflexivel em sua falta de cooperack,

mas n sk é pereo para Sabina Bloom, inves-

tigadora do governo. A sra. Bloom quer saber o preco exato

de alguns servicos hospitalares. "Nada

mudou", diz a diretora. "Bem, voce tem os

livros?", pergunta a sra. Bloom. "Mo muda-

mos preco algum", insiste a mulher. Mas a

conversa firme da sra. Bloom acaba por tirar

a mulher de tres de sua escrivaninha, e ela

pega os nmeros. Descobre-se que uma

sala de recuperack de p6s-operat6rio semi-

individual agora custa $ 753,80 por dia — ou

$ 0,04 menos do que he um mes.

Mais um pequeno sucesso da sra.

Bloom, uma entre os cerca de 300 funcione-

rios que o Bureau of Labor Statistics empre-

ga para coletar as informaces que alimen-

tam o indice de Precos ao Consumidor a

cada mes...

0 trabalho da sra. Bloom , s vezes lem-

bra um romance policial. A cada mes, ela

percorre 1.500 km com seu velho carro

(foram tres acidentes nos últimos 18

meses) para visitar cerca de 150 locais. Sua

missk: registrar os precos de determinados

itens, mes ap6s mes. Se os precos mudam,

ela precisa descobrir o porque. A cada mes,

cerca de 90 mil precos são enviados para

Washington, armazenados em um computa-

dor, analisados, agregados e ajustados em

relac;jo a subidas e descidas sazonais, ate

que finalmente saem sob a forma do relat6-

rio mensal do IPC.

Escolher o item cujo preco deve ser

acompanhado pode parecer arbitrerio. Ap6s

consultar levantamentos que registram os

hebitos de compra dos consumidores, o

Bureau of Labor Statistics escolhe lojas popu-

lares e categorias de itens — blusas femini-

nas, digamos. A pessoa encarregada da cole-

ta dos precos pede a uma funcioneria da loja

que a ajude a encontrar o item escolhido.

Elas passam entk para o tamanho da blusa,

seu estilo (mangas curtas, mangas longas,

decote em V ou gola rule) e assim por dian-

te. Os itens que geram a maior receita den-

tro de determinada categoria tendem a ter

mais chances de serem escolhidos.

Os compradores sabem que confiar nos

empregados das lojas pode ser arriscado.

Em uma loja de departamentos no centro

de Chicago (o governo não divulga o nome

dos estabelecimentos), a investigadora de

de uma reduo do custo de vida. Mas o indice de prey)s ao consumidor não caiu por causa da introdu o do videocassete. Mais tarde, o Bureau of Labor Statistics acabou por rever a cesta de bens para incluir o videocassete e, a partir daí, o indice passou a refletir as varig6'es nos prev)s dos videocassetes. Mas a redu o do custo de vida associada à introdu o inicial do videocassete nunca apareceu no indice.

0 terceiro problema do indice de preos ao consumidor é a mudawa de qualida- de ii^do medida. Se a qualidade de um ben-t deteriora de um ano para o outro, o valor do dlar cai, mesmo que o preo do bem continue o mesmo. De forma similar, se a qualidade de um bem aumenta de um ano para o outro, o valor do d6lar sobe. 0 Bureau of Labor Statistics faz o possivel para levar em conta as mudaNas qualita- tivas. Quando a qualidade de um bem da cesta muda — por exemplo, quando um modelo de carro tem a sua pot'encia aumentada ou passa a consumir menos gaso- lina de um ano para o outro o BLS ajusta o pre9D do bem para levar em conta a

CAPITULO 24 MEDINDO 0 CUSTO DE VIDA 525

precos Mary Ann Latter pisca os olhos na

frente de urn cartaz anunciando uma blusa

cor marfim: "Economize 45% — 60% ao

levar mais uma mercadoria corn preco redu-

zido de 30%".

Confusa, a srta. Latter pede a urn aten-

dente que passe o item no scanner. Uma

pausa. "Esta corn 300/b de desconto", diz o atendente, pouco antes de seu horario de

almoco.

"Eu sei", responde a srta. Latter, "mas sera que voce pode escanear s6 para ter cer- teza?" Baixinho, ela murmura: "Que empre- gado atencioso".

No andar de baixo, no departamento de

joias, a srta. Latter tenta descobrir o preco do

Onico colar de prata que resta, mas a peca

esta sem etiqueta. "Eu tenho de ver agora?",

resmunga a atendente, atras do balcao. A

srta. Latter espera que ela atenda diversas clientes e pede novamente: "Sera que voce pode ver agora?" A vendedora apressada

atira sobre o balcao urn volumoso catalog°

que contem a descricao de uma grande quantidade de joias. A srta. Latter finalmente

acaba encontrando uma peca de prata que parece ser a correta.

Quando o item exato no pode ser

encontrado, os funcionarios que coletam precos fazem substituicoes. lsso pode ser

Considere urn corte de cabelo: se urn

cabeleireiro vai embora, seu substituto deve

ter mais ou menos a mesma experiencia;

urn cabeleireiro principiante, por exempla, poderia cobrar menos. Nessa gelida tarde de inverno, a srta. Latter precisa substituir urn

casaco porque os itens de vestuario rara-

mente ficam nas prateleiras por mais de dois

meses. Deve ser urn casaco leve corn

menos de 50% de la na composicao. Apos vasculhar em meio as pesadas roupas de

inverno, procurando por etiquetas em tres

departamentos, ela desiste. De qualquer maneira, estamos fora da estacao, de modo que ela precisara esperar meses ate encon-

trar urn substituto para o item que procura.

Para dificultar ainda mais o trabalho que

os detetives de precos tern para alcancar o

verdadeiro custo de vida, a lista principal das

207 categorias cujos precos sao pesquisados

— chamada de cesta do mercado — so e atualizada a cada dez anos. Telefones celula- res? Sao recentes demais, nao se enqua- drando em nenhuma das categorias estabe-

lecidas na decada de 1980. Provavelmente serao incluidos quando chegarem as novas categorias, em 1998.

Algumas mudancas nas categorias ocor- rem a cada cinco anos. Assim sendo, na cate- goria "carros novos", por exemplo, se as ven-

das de carros nacionais superarem em muito

as de importados, os funcionarios que cole-

tam precos poderao pesquisar mais veiculos

da Ford e menos veiculos da Toyota. Mas

isso nao ocorre corn frequencia suficiente, dizem os criticos. Sheila Ward, uma colega da

srta. Latter que trabalha nos suburbios de Chicago, diz que a dependencia de itens

ultrapassados "seria uma das criticas que

sofremos". Ela se lembra do dono de uma

loja de instrumentos musicais que ficou frus-

trado porque ela sempre procurava o preco

de uma guitarra que ele nem se atrevia a imaginar que ainda fosse tocada — quanto mais vendida. Finalmente, ele acabou expul-

sando-a da loja, gritando: "Droga de governo!

E para isso que eu pago impostos?"

Os funcionarios que coletam precos nao

podem fazer muita coisa a respeito desses

problemas. Eles apenas podem perguntar. Em

urn restaurante simples, a sra. Ward pergunta

se as porcbes servidas tiveram alteracbes. 0 proprietario diz que nao. Mas ela lembra que o preco do bacon tern subido e pergunta novamente sobre as porcbes servidas.

Repentinamente, o proprietario lembra que reduziu o nirmero de fatias de bacon coloca- das no sanduiche, de tres para duas. E, corn

isso, tern-se urn sanduiche muito diferente.

Fonte: The Wall Street Journal, 16 jan. 1997, p. Al. © 1997 Dow Jones & Co. Inc. Reproduzido corn perrnis- s-jo de Dow Jones & Co. Inc. no formato livro-texto via Copyright Clearance Center.

mudanca qualitativa. Trata-se, em essencia, de tentar calcular o preco de uma cesta de bens de qualidade constante. Apesar desses esforcos, as mudancas de qualida- de continuam sendo urn problema, porque a medicao da qualidade é dificil.

Ainda ha muito debate entre os economistas a respeito da gravidade desses problemas de medicao e do que se pode fazer em relacao a eles. Diversos estudos publicados na decada de 1990 concluiram que o indice de precos ao consumidor superestimava a inflacao em cerca de urn pont° percentual ao ano. Em resposta a essas criticas, o Bureau of Labor Statistics adotou diversas mudancas tecnicas para melhorar o IPC, e muitos economistas acreditam que a distorcao é hoje cerca da metacle do que ja foi. A quest-do é importante porque muitos programas governa- mentais usam o indice de precos ao consumidor para ajustar valores as mudancas no nivel geral de precos. Os beneficiarios da Seguridade Social, por exemplo, rece- hem a-umentos anuais nos beneficios de acordo corn a variacao do indice de precos

ThE WALL ISTMIET JOURNAL

1AUDi0 VIDE0

"O preco pode parecer um pouco alto, mas você deve recordar que estq em dOlares de hoje."

526 PARTE 8 DADOS MACROECONCMICOS

ao consumidor. Alguns economistas sugeriram modificar esses progr, amas para corrig,ir os problemas de mensura o, reduzindo, por exemplo, a magnitude dos aumentos automaticos dos beneficios.

0 Deflator do PIB e o kidice de Precos ao Consurnidor

No capitulo anterior, exan-iinamos outra n-ledida do nivel geral de preos na eco- nomia — o deflator do PIB. 0 deflator do PIB é a razo entre o PIB nominal e o PIB real. Como o PIB nominal é a produ o corrente avaliada a preos correntes e o PIB real e a produ o corrente avaliada a prec;os do ano-base, o deflator do PIB reflete o nivel de preos corrente em rela o ao nivel de preos do ano-base.

Os economistas e formuladores de politicas monitoram tanto o deflator do PIB quanto o indice de preos ao consumidor para avaliar a velocidade de crescimento dos preos. Geralmente, essas duas estatisticas contam a mesma histOria. Mas exis- tem duas difereNas importantes que podem fazer com que elas divirjam.

A primeira difererwa é que o deflator do PIB reflete os preos de todos os bens e servios produzidos internamente, enquanto o indice de prec;os ao consumidor reflete os preos de todos os bens e serviy)s comprados pelos consumidores. Por exemplo, suponha que o preo de um avfae o produzido pela Boeing e vendido FoNa Aerea aumente. En-ibora o avic"-io fga parte do PIB, não faz parte da cesta de bens e servios comprados por um consumidor tipico. Assim, o aumento do preo aparece no deflator do PIB, mas não no indice de preos ao consumidor.

Como outro exemplo, suponha que a Volvo aumente os preos de seus carros. Como os Volvos s'a'o fabricados na Suecia, o carro não faz parte do PIB americano. Mas os consumidores dos Estados Unidos compram Volvos e, por isso, o carro faz parte da cesta de bens dos consumidores tipicos. Com isso, um aumento no preo de um bem importado, como um carro Volvo, aparece no indice de preos ao con- sumidor, mas n'a"o no deflator do PIB.

A primeira difereNa entre o indice de preos ao consumidor e o deflator do PIB e especialmente importante quando aumenta o preo do petr()leo. Embora os Estados Unidos produzam certa quantidade de petrleo, grande parte do que consumido no pais e importada do Oriente Medio. Com isso, o petrOleo e seus derivados, como a gasolina e o óleo combustivel utilizado para aquecimento, tem uma participg -iJo maior nas despesas do consumidor do que no PIB. Quando o pre9c, do petr6leo aumenta, o indice de prev)s ao consumidor aumenta muito mais do que o deflator do PIB.

A seg,unda e mais sutil difereNa entre o deflator do PIB e o indice de preos ao consumidor diz respeito a como os diversos pre9ps s'a- o ponclerados para que resul- tem em um s6 niimero referente ao nivel geral de preos. 0 indice de preos ao consumidor compara o preo de uma cesta fixa de bens e servi9os com o preo da mesma cesta no ano-base. 0 Bureau of Labor Statistics muda apenas ocasional- mente a composio da cesta de bens. Por outro lado, o deflator do PIB compara o pre9D dos bens e serviy)s produzidos correntemente com o preo dos mesmos bens e servk'os no ano-base. Assim sendo, o grupo de bens e servios usados para calcu- lar o deflator do PIB muda automaticamente ao longo do tempo. Essa difereNa

importante quando todos os preos mudain proporcionalmente. Mas se os preos de diferentes bens e servios estiverem mudando em ritmos diferentes, a forma pela qual os preos s, - o ponderados influencia a taxa geral de

A Fig-ura 2 mostra a taxa de inflação medida tanto pelo deflator do PIB quanto pelo indice de pre9ps ao consumidor para os anos que v"a"o de 1965 a 2000. Como podemos ver, as duas medidas às vezes divergem. Quando isso acontece, é possi- vel olhar por ti- s dos nim-ieros e explicar a divergencia com as duas difereNas que acabarnos de discutir. A figura mostra, contudo, que a divergencia entre as duas

Duas Medidas da Inflacao

Esta figura mostra a taxa de inflacao - a 1010- coo percentual do nivel de preps - medida pe/o deflator do P1B e pelo indice de preps ao consumidor usondo dodos anuais a partir de 7965. Observe que as duos medidas de inflacao em geral movem-se juntas.

Fonte: Departamento do Trabalho dos Estados Unidos; Departamento de Comercio dos Estados Unidos.

Percentual por Ano

15

10

5 Deflator do PIB

CAPITULO 24 MEDINDO 0 CUSTO DE VIDA 527

FIGURA 2

0 1965 1970 1975 1980 1985 1990 1995 2000

medidas é a exceed°, e ndo a regra. No final da decada de 1970, tanto o deflator do PIB quanto o indice de precos ao consumidor mostram taxas de inflaeao elevadas. No final dos anos 80 e 90, ambas as medidas mostram taxas de inflacdo baixa.

Teste Rapid° Explique em poucas palavras o que o indice de precos ao consumidor tenta medir e

como ele é construido.

CORRIGINDO AS VARIAVEIS ECONOMICAS DOS EFEITOS DA INFLAcii0

0 objetivo de medir o nivel geral de precos na economia é permitir uma compa- racdo entre os valores monetarios de diferentes pontos no tempo. Agora que sabemos como sdo calculados os indices de precos, vamos ver como podemos uti- liza-los para comparar uma quantia monetaria do passado corn uma quantia mo- netaria do presente.

Valores Monetarios em Diferentes Epocas

Primeiro, vamos voltar a questdo do salad° de Babe Ruth. Seu salario de $ 80 mil, em 1931, era alto ou baixo se comparado aos salarios dos jogadores de hoje?

Para responder a essa pergunta, precisamos conhecer o nivel de precos em 1931 e o nivel de precos de hoje. Parte do ailment° dos salarios no beisebol serve ape- nas para compensar os jogadores pelo major nivel de precos de hoje. Para compa- rar o salario de Ruth corn o dos jogadores atuais, precisamos inflacionar o salario de Ruth para transformar os &Mares de 1931 em Mares de hoje. Urn indice de pre- cos determina o montante clessa correcdo da inflacdo.

As estatisticas do govemo indicam urn indice de precos ao consumidor de 15,2 para 1931 e de 177 para 2001. Assim, o nivel geral de precos subiu por urn fator de

528 PARTE 8 DADOS MACROECONOMICOS

11,6 (o que e igual a 177/15,2). Podemos usar esses n meros para medir o saM.rio de Ruth em dOlares de 2001. 0 cfficulo é o seg-uinte:

Sal. rio em dfflares de 2001 = em dcf _)lares de 1931 x Nivel de preos em 2001

Nivel de preos em 1931

= $ 80.000 x 177

15,2

= $ 931.579

Concluimos que o sal. rio de Ruth en-i 1931 e equivalente a um salário de pouco menos de $ 1 milhão atuais. Não é uma renda pequena, mas é menos da metade do salário do jogador medio de beisebol de hoje e muito menos do que e pago aos supe- rastros da modalidade. Por exemplo, em 2001, o San Francisco Giants firmou com Barry Bonds um contrato de cinco anos que Ihe pagaria cerca de $ 18 milhes por ano.

Vamos examinar tambem o salEirio do presidente Hoover em 1931, que era de $ 75.000. Para converter esse valor em dOlares de 2001, novamente temos de

pela raz"k) dos niveis de pre9ps nos dois anos. Verificamos que o salário de Hoover era o equivalente a $ 75 mil x (177/15,2), ou $ 873.355 em dOlares de 2001. Isso está bem acima do salário de $ 400 mil e-le George W. Bush. Parece que, afinal, o presidente Hoover teve um ano bastante bom.

Estudo de Caso

0 SR. NDICE VAI A HOLLYWOOD

Qual foi o filme mais popular de todos os tempos? A resposta pode ser uma sur- presa.

A popularidade dos filmes costuma ser medida pela bilheteria. Por esse criterio, Titanic está em primeiro lugar, seguido por Guerra nas Estrelas, E.T.: 0 Extraterrestre, Star Wars: Ameap Fantasma e Homem-Aranha. Mas esse ranking ignora um fato Obvio, mas importante: os preos, inclusive os dos ingressos para o cinema, aumen- taram ao longo do tempo. Quando corrigimos as bilheterias pela inflação, a hist6- ria é outra.

A Tabela 2 mostra os dez filmes mais vistos de todos os tempos, classificados pela bilheteria reajustada pela inflação. Em primeiro lugar est ...E o Vento Levou, laNado em 1939, con-t uma grande vantagem em relg", o a Titanic. Nos anos 30, antes que todo mundo tivesse televisores em casa, cerca de 90 milh6es de norte- americanos iam ao cinema todas as semanas, comparado com os cerca de 25 milhes de hoje. Mas os filmes daquela epoca raramente aparecem nas listas de popularidade porque os ingressos eram vendidos a apenas 25 centavos. Scarlett e Rhett se dão bem melhor quando consideramos os efeitos da infla o. •

indexa k

a correck automatica, por

forca de lei ou de contrato,

de uma quantia pela inflack

Indexa0o

Como acabamos de ver, os indices de preQos s" - o usados para corrig,ir os efeitos da inflg ek) quando comparamos valores monetrios de diferentes epocas. Esse tipo de corre o aparece em muitas situg -6es da economia. Quando alg-uma quantia en-1 dOlares é automaticamente corrigida pela inflação, por foNa de lei ou de contrato, dizemos que a quantia está indexada pela

Por exemplo, muitos contratos de longo prazo entre empresas e sindicatos incluem uma indexa o total ou parcial do salffiio pelo indice de preos ao consu-

Fil me Ano de Lancamento

CAPiTULO 24 NIEDINDO

Bilheteria Total nos Estados Unidos (em milhOes de Mares de 2001)

0 CUSTO DE VIDA 529

TABELA 2

Os Fil mes Mais Populares de 1....E o Vento Levou 1939 $ 1.002 Todos os Tempos, Ajustados 2. Guerra nos Estrelas 1977 866 pela Inflack 3. A Novica Rebelde 1965 695 4. E.T.: 0 Extraterrestre 1982 687 Fonte: The Movie Times, Web site

5. Titanic 1997 640 (http://mv.the-movie-times.com ).

6. Os Dez Mandarnentos 1956 639 7. Tubardo 1975 625 8. Doutor Jivago 1965 591 9. Mogli, o Menino-Lobo 1967 519 10. Bronco de Neve e os Sete Andes 1937 518

midor. Condicoes como essa so chamadas c t-o allowance (reajuste pelo custo de vida) ou Cola. A Cola automaticamente aumenta os salarios quando o Indice de precos ao consumidor aumenta.

A indexacao tambem é uma caracterfstica de muitas leis. Os benefIcios da Seguridade Social, por exemplo, sao reajustados a cada ano para compensar os ido- sos pelos aumentos dos precos. As faixas do imposto de renda federal — os niveis de renda em que as aliquotas mudam — tambem sdo indexadas. Ha, contudo, mui- tos pontos do sistema tributario que rid° estdo indexados, quando talvez devessem estar. Discutiremos essas questoes em major profundidade quando tratarmos dos custos da inflacdo, mais adiante.

Taxas de Juros Reais e Nominais

Corrig,ir as variaveis economicas pelos efeitos da inflacdo é particularmente impor- tante, e por vezes complicado, quando observamos os dados sobre taxas de juros. Quando voce deposita sua poupanca em uma conta bancaria, recebe juros sobre seu deposit°. Por outro lado, quando toma urn emprestimo no banco para pagar seus estudos, voce tera de pagar juros sobre esse emprestimo. 0 juro representa urn pagamento no futuro por uma transferencia de dinheiro no passado. Corn isso, as taxas de juros sempre envolvem a comparacdo de quantias monetarias em diferen- tes pontos no tempo. Para entender hem as taxas de juros, precisamos saber como corrigir os efeitos da inflacdo.

Vamos considerar urn exemplo. Suponha que Sally Saver deposite $ 1 mil em uma conta bancaria que paga taxa anual de juros de 10%. Apos urn ano, Sally acu- mulou $ 100 em juros. Ela entdo retira seus $ 1.100. Esta ela $ 100 mais rica do que quando fez o deposit°, urn ano antes?

A resposta depende do que queremos dizer com"rica". Sally tern $ 100 a mais do que urn ano atras. Em outras palavras, o mimero de dOlares aumentou 10%. Mas se os precos tiverem subido ao mesrno tempo, cada Mar compra menos agora do que ha urn ano. Portanto, seu poder de compra ndo tera aumentado 10%. Se a taxa de inflacdo foi de 4%, a quantidade de bens que ela pode comprar tera aumentado somente 6%. E se a taxa de inflacdo tiver sido de 15 °A), entdo o preco dos bens aumentou proporcionalmente mais do que o Milner° de Mares em sua conta. Nesse caso, o poder aquisitivo de Sally tera caido 5%.

A taxa de juros que o banco paga é chamada de taxa de juros nominal, e a taxa de juros corrigida pela inflacdo é chamada de taxa de juros real. Pociemos repre-

taxa de juros nominal a taxa de juros tal como

normalmente cotada, sem o

desconto da inflacao

taxa de juros real

a taxa de juros apos o desconto da inflacao

Taxas de Juros Real e Nominal

Esta figura mostra as taxas de juros nominal e real usando dados anuals desde 1965. A taxa de juros nominal é a taxa para os titulos do Tesouro de tr .'s meses. A taxa de juros real é a taxa de juros nominal menos a taxo de inflac"do medida pelo indice de precos ao consumidor. Observe que as taxas de juros norninal e real freq0entemente n(io se movem juntas.

Fonte: Departamento do Trabalho dos Estados Unidos; Departamento do Tesouro dos Estados Unidos.

Taxas de Juros

( % ao ano) 15

10 — Taxa de juros nominal -

5

Taxa de juros real

530 PARTE 8 DADOS MACROECONOMICOS

FIGURA 3

_5 11965

[i 1‘1 970 1975 1980 1985 1990 1995 2000

sentar a rela -ao entre taxa de juros nominal, taxa de juros real e taxa de infla o da seguinte maneira:

Taxa de juros real = Taxa de juros nominal — Taxa de inflg-ao

A taxa de juros real é a diferena entre a taxa de juros nominal e a taxa de A taxa de juros nominal nos diz a velocidade a que cresce o nUrnero de dOlares

em s-ua conta bancaria com o passar do tempo. A taxa de juros real nos diz a velo- cidade a que cresce o poder aquisitivo de sua conta bancaria com o passar do tempo.

A Figura 3 mostra as taxas de juros real e nominal desde 1965. A taxa de juros nominal e a taxa de juros para titulos do Tesouro de tres meses. A taxa de juros real

calculada subtraindo-se a infla o — a varig'ao percentual do indice de prey)s ao consumidor — dessa taxa de juros nominal.

Como podemos ver, as taxas de juros nominal e real nem sempre se movem juntas. Por exemplo, no fim da decada de 1970, as taxas de juros reais estavam ele- vadas. Mas como a inflg"ao era muito alta, as taxas de juros reais eram baixas. Na verdade, em alguns anos, as taxas de juros reais foram negativas porque a infla'ao corroia as poupanyis mais rapidamente do que os pagamentos de juros nominais as aumentavam. Por outro lado, na decada de 1990, as taxas de juros nominais esta- vam baixas. Mas como a inflação tambem estava baixa, as taxas de juros reais esta- vam relativamente altas. Nos prOximos capitulos, quando est-udarmos as causas e os efeitos das varia6es nas taxas de juros, sera importante lembrarmos a distin o entre taxas de juros nominal e real.

Teste R4ido Henry Ford pagava a seus trabalhadores $ 5 por dia, em 1914. Se o indice de precos ao consumidor fosse 10, em 1914, e 177, em 2001, quanto valeria o salário dos empregados da Ford em dbla-

res de 2001?

CAPITULO 24 MEDINDO 0 CUSTO DE VIDA 531

CONCLUSAO "Urn dime (10 centavos) ndo vale nem um nickel (5 centavos) hoje em dia", obser- you certa vez o jogador de beisebol Yogi Berra. De fato, por toda a historia recen- te, os valores reais do nickel, do dime e do Mar no se mantiveram estaveis. Aumentos persistentes do nivel geral de precos tern sido a norma. Essa inflacao reduz o poder aquisitivo de cada uniclade monetaria ao longo do tempo. Quando comparamos valores expressos em Mar de diferentes epocas, C importante lem- brar que urn dOlar de hoje rid() 6 a mesma coisa que urn dolar de 20 anos atras ou, muito provavelmente, que urn Mar daqui a 20 anos.

Este capitulo discutiu como os economistas medem o nivel geral de precos da economia e como usam os indices de precos para corrig-ir variaveis econemicas dos efeitos da inflacdo. Essa analise é apenas urn ponto de partida. Ainda nao exami- namos as causas e os efeitos da inflacdo ou como a inflacdo interage coin outras variaveis economicas. Para fazer isso, precisamos ir alem das questoes ligadas a mensuracao. Com efeito, sera essa a nossa proxima tarefa. Tendo explicado, nos dois ultimos capitulos, como os economistas medem as quantidades macroecono- micas e os precos, agora estamos prontos para desenvolver os modelos que expli- cam os movimentos de longo prazo e de curt° prazo dessas variaveis.

RESUMO

• 0 Indice de precos ao consumidor mostra o custo de uma cesta de bens e servicos em relacdo ao custo da mesma cesta no ano-base. 0 indice é usado para medir o nivel geral de precos da econo- mia. A variacao percentual do indice de precos ao consumidor mede a taxa de inflac.do.

• 0 indice de precos ao consumidor é uma medida imperfeita do custo de vida por tress motivos. Primeiro, ele nao leva em consideracao a capacida- de que os consumidores tern de substituir, corn o passar do tempo, os bens que se tornam mais caros por bens que se tornam relativamente mais bara- tos. Segundo, ele ndo leva em consicieracao aumentos do poder aquisitivo do Mar devido introducdo de novos bens. Terceiro, ele é distorcido por variacOes ndo medidas na qualidade dos bens e servicos. Por causa desses problemas de mensu- racdo, o IPC superestima a inflacdo ocorrida.

• Embora o deflator do PIB tambem meca o nivel geral de precos da economia, ele difere do indice de precos ao consumidor porque inclui bens e servicos produzidos em vez de bens e servicos consumidos. Corn isso, os bens e servicos importaclos afetam o indice de precos ao consumidor, Inas ndo o defla- tor do PIB. Alem disso, enquanto o indice de pre-

cos ao consumidor usa uma cesta fixa de bens, o deflator do PIB muda automaticamente o grupo de bens e seivicos, a medida que, corn o passar do tempo, a composicdo do PIB muda.

• Os valores monetarios em diferentes pontos no tempo ndo representam comparacdo valida do poder aquisitivo. Para comparar valores monetarios do passado corn valores monetarios de hoje, o valor antigo precisa ser inflacionado por meio de um indice de precos.

• Varias leis e contratos privados usam indices de precos para corrigir os efeitos da inflacdo. As leis tributarias, contudo, sae, apenas parcialmente indexadas pela inflacdo.

• A correcdo da inflacdo 6 especialmente importante quando analisamos dados sobre taxas de juros. A taxa de juros nominal 6 a taxa de juros que costu- ma ser divulgada; 6 a taxa a qual o numero de Ma- res depositados em uma conta de poupanca aumenta corn o passar do tempo. Por outro lado, a taxa de juros real leva em consideracdo variacoes do valor do Mar ao longo do tempo. A taxa de juros real 6 ig-ual a taxa de juros nominal menos a taxa de inflacdo.

532 PARTE 8 DADOS MACROECON45MICOS

CONCEiTOS-CHAVE

QUEST(3ES PARA REVISA0

1. Na sua opinião, qual destas duas coisas tem maior efeito sobre o indice de preos ao cons-umidor: um aun-iento de 10% no preo do frango ou um aumento de 10% no preo do caviar? Por que?

2. Descreva os tres problen-las que fazem do indice de preos ao consumidor uma n-ledida imperfeita do custo de vida.

3. Se o 1_-)re o de um submarino da marinha aumen- tar, o que será mais afetado, o indice de 1_-)reos ao consumidor ou o deflator do PIB? Por que?

4. No decorrer de um longo periodo de tempo, o preo da barra de chocolate aumentou de $ 0,10 para $ 0,60. Ao longo do mesmo periodo, o indice de 1,-)recg-os ao consumidor aumentou de 150 para 300. Corrigindo pela inflação total, quanto aumen- tou o prec;o da barra de chocolate?

5. Explique o significado de taxa de juros nominal e de taxa de juros real. Como as duas est'a- o relaciona- das?

PROBLEMAS E APLICAOES

1. Suponha que as pessoas consumam apenas tres bens, como mostra a tabela:

Bolas de Raquetes

Te'nis de Tenk Gatorade

Preco de 2003 $ 2 $ 40 $1

Quantidade de 2003 100 10 200

Preco de 2004 $ 2 $ 60 $ 2

Quantidade de 2004 100 10 200

a. Qual a varia o percentual no prec-g .o de cada

dos tres bens? Qual a varia o percentual no nivel geral de preos?

b. As raquetes de tenis ficaram mais caras ou baratas em rela o ao Gatorade? 0 bem-estar de algumas pessoas muda em relacAo ao bem- estar de outras? Explique.

2. Suponha que os moradores da VegOpia gastem toda a sua renda em couves-flores, brc5colis e cenouras. Em 2003, eles compram 100 couves-flo- res por $ 200, 50 mgos de brOcolis por $ 75 e 500 cenouras por $ 50. Em 2004, compram 75 couves- flores por $ 225, 80 maos de br6colis por $120 e 500 cenouras por $ 100. Se 2003 for considerado

ano-base, qual o IPC nos dois anos? Qual a taxa de inflg5o em 2004?

13. Visite o site do Bureau of Labor Statistics (http://www.b1s.gov) e encontre dados sobre o indice de preos ao consumidor. Quanto o indice que inclui todos os itens aumentou durante o mo ano? Em quais categorias de despesas os pre- v)s subiram mais? Em quais categorias subiram menos? Houve categorias que apresentaram que- da de preos? Voce consegue explicar algum des- ses fatos?

4. A partir de 1994, a regulamenta(;:a. o ambiental passou a exigir que a gasolina contenha um novo aditivo para reduzir a poluição do ar. Essa exi- gencia aumentou o custo e o prey) da gasolina. 0 Bureau of Labor Statistics decidiu que esse aumento de custo representou uma melhoria na qualidade.

a. Dada essa deciso, o maior preo da gasolina elevou o IPC?

b. Qual o argumento a favor da deciso do BLS? Qual seria o argumento para uma decis -a"o dife- rente?

CAPiTULO 24 NIEDINDO 0 CUSTO DE VIDA 533

5. Qual dos problemas ligados a construcao do IPC pode ser exemplificado por cada uma das situa- caes a seguir? Explique.

a. a invencao do walk-man da Sony

b. a introducao de air bags nos carros

c. aumento das compras de computadores pes- soais em resposta a uma queda de seus precos

cl. major quantidade de passas em cada pacote de Raisin Bran

e. maior uso de carros que utilizam combustix,rel com eficiencia depois do aumento dos precos da gasolina.

6. 0 The New York Times custava $ 0,15, em 1970, e $ 0,75, em 2000. 0 salario medio na indlistria era de $ 3,36 por bora, em 1970, e de $ 14,26, em 1999.

a. Qual o percentual de aumento do preco do jor- nal?

b. Qual o percentual de aumento do salario?

c. Em cada ano, quantos minutos urn trabalhador precisa trabalhar para ganhar o suficiente para comprar urn jornal?

d. 0 poder aquisitivo dos trabalhadores em rela- cao ao jornal aumentou ou diminuiu?

7. 0 capitulo explica que os beneficios da Seg,uri- dade Social aumentam a cada ano de acordo corn o aumento do IPC, embora a maioria dos econo- mistas acredite que o IPC superestima a inflacao ocorrida.

a. Se os idosos consumirem a mesma cesta de mercado que as demais pessoas, a Sep., Iridade Social lhes proporciona uma melhoria de pa- drao de vida a cada ano?

b. Na verdade, os idosos consomem mais assis- tencia medica do que os mais jovens e os custos

da assistencia medica subiram mais do que a inflacao geral. 0 que voce faria para determinar se os idosos estao, realmente, em melhor situa- cdo a cada ano?

8. Na sua opinido, como a cesta de bens e servicos que voce compra difere da cesta de uma norte-americana tipica? Voce acha que se depara corn uma taxa de inflac5o mais alta ou mais baixa do que a indicada pelo IPC? Por que?

9. As faixas do impost() de renda so foram indexadas a partir de 1985. Quando a inflac5o aumentou a renda nominal das ipessoas durante a decada de 1970, o que voce acha que aconteceu corn a recei- ta tributaria real?

10. Ao decidir quanto de sua renda poupar para a aposentadoria, Os trabalhadores devem levar em consideracao a taxa de juros nominal ou a real que suas poupancas rendem? Explique.

11. Suponha quo um tomador de emprestimo e um emprestador concordem corn uma taxa de juros nominal a ser paga em urn emprestimo. Entao, a inflacao se revela mais alta do que eles espera- yam.

a. A taxa de juros real do emprestimo é major ou menor do que a esperada?

b. 0 emprestador sai ganhando ou perdendo corn essa infla(ao inesperadamente elevada? E o to- mador, sai ganhando ou perdendo?

c.A inflacao durante os anos 70 foi muito mais elevada do que a maioria das pessoas esperava quando a decada teve inicio. Como isso afetou os proprietarios de imoveis que obtiveram hipotecas a taxas fixas durante os anos 60? Como afetou os bancos que concederam os emprestimos?

A ECONOMIA REAL NO LONGO PRAZO

PRODKAO E CRESCIMENTO

Quando viajamos através do mundo, vemos tremendas variacoes nos padroes de vida. A pessoa media de urn pais rico, como os Estados Unidos, o Japao ou a Alemanha, tern uma renda mais de dez vezes major do que a da pessoa media em urn pais pobre como a tndia, a Indonesia ou a Nigeria. Essas grandes diferencas de renda se refletem em grandes disparidades na qualidade de vida. Os Raises mais ricos tern mais carros, mais telefones, mais televisores, melhor nutricao, moradia mais seg-ura, melhor atendimento de saUde e major expectativa de vida.

Mesmo dentro de urn so pais, ha grandes variacoes no padrao de vida ao longo do tempo. Nos Estados Unidos, durante o seculo passado, a renda media medida pelo PIB real per capita aumentou cerca de 2% ao ano. Embora 2% possam parecer pouco, essa taxa de crescimento significa que a renda media dobra a cada 35 anos. Por causa desse crescimento, a renda media de hoje é cerca de oito vezes major do que a renda media de um sec-ulo atras. Corn isso, o norte-americano tipico desfru- ta de major prosperidade economica do que seus pais, avos ou bisavos desfrutaram.

As taxas de crescimento variam substancialmente de pais para pais. Em alguns paises do Leste Asiatico, como Cingapura, Coreia do Sul e Taiwan, a renda media tern aumentado cerca de 7% ao ano nas Ultimas decadas. A essa taxa, a renda media dobra a cada dez anos. Esses paises, no espaco de uma geracao, deixaram de fig,urar entre os mais pobres do mundo e passaram a se encontrar entre os mais

538 PARTE 9 A ECONOMIA REAL NO LONGO PRAZO

ricos. Por outro lado, em alg-uns paises da Africa, como o Chade, a EtiOpia e a Nigeria, a renda media encontra-se estagnada há muitos anos.

essas difereny-is? garantir a manu- t odeseus elevados .padrOes de vida? •uais oliticas os aises mais pobres devem adotar -p_ara_piomover crescimento mais rápo, a fim de ing,re-ssar no mundo desenvol_y ? Essa es esto entre as maisim ortantes da macroe- conomia Como declarou o economista Robert Lucas, "As conseqiiencias para o bem-estar humano em questOes como estas s"a'o simplesmente inacreditveis: Quando se comea a pensar nelas, e difícil pensar em qualquer outra coisa".

Nos dois últimos capitulos, vimos como os economistas medem as quantidades e pre9ps do ponto de vista macroeconOmico. Neste capitulo, comearemos a estu- dar as foras que determinam essas varffiTeis. Como vimos, o produto intemo bruto (PIB) de um pais mede tanto a renda total auferida na economia quanto o gasto total em bens e servi.93s nessa economia. 0 nivel do PIB real é uma boa me.dida da prosperidade econOmica, e o crescimento do PIB real e uma boa medida do_ pro- aresso econOmico. A ui, vamos nos concentrar nos determinantes de lon ao ->razo do nivel e do crescimento do PIB real. Mais adiante, estudaremos as flutugOes de curto prazo do PIB real em torno de sua tendencia de longo prazo.

Prosseguiremos em tres etapas. Primeiro, examinaremos dados internacionais sobre o PIB real per capita. Esses dados nos dar - o uma ideia do quanto o nivel e o

( creseimento dos padrOes de vida variam em torno do mundo. Segundo, examina-n , n*')'s% remos o papel da produtividade — a quantidade de bens e servios F)roduzida por

cada hora de trabalho. Mais especificamente, veremos que o padro de vida de uma

I 4) na(;:a-o e determinado pela produtividade de seus trabalhadores e examinaremos os fatores que determinam a produtividade cle uma ng -a"o. Terceiro, examinaremos a

V _\ • ligaio entre a produtividade e as politicas econOmicas adotadas por uma nação.

CRESCIMENTO ECONMiCO AO REDOR DO MUNDO

Como ponto de partida para nosso estudo do crescimento no longo prazo, vamos verificar as experiencias de algumas das economias do mundo. A Tabela 1 mostra dados sobre o PIB real per capita em 13 paises. Para cada pais, os dados abrangem cerca de um seculo de histOria. A primeira e a seg-unda colunas da tabela apresen- tam os paises e os periodos de tempo (os periodos de tempo diferem um pouco de pais para pais por causa de diferenyis quanto à disponibilidade de dados). A ter- ceira e a quarta colunas mostram estimativas de PIB real per capita há cerca de um seculo e em um ano recente.

Os dados sobre o PIB real per capita mostram que os padrOes de vida variam consideravelmente de pais para pais. A renda per capita nos Estados Unidos, por exemplo, e cerca de nove vezes a da China e de 14 vezes a da India. Os paises mais pobres tem niveis de renda media que há muitas decadas não s'a- o vistos no mundo desenvolvido. 0 cidaffio chines tipico tinha, em 2000, renda real aproximadamen- te semelhante à do cidado tipico da Inglaterra em 1870. Um cidafflo paquistanes tipico tinha, em 2000, cerca de metade da renda real de um norte-americano tipi- co de um seculo atths.

A últirna coluna da tabela mostra a taxa de crescimento de cada pais. A taxa de crescin-iento mede a velocidade com que o PIB real aTcity_p_itg cresceu emumao

Nos Estados Unidos, por exemplo, o PIB real per capita foi de $ 3.347, em 1870, e de $ 34.260, em 2000. A taxa de crescimento foi de 1,81% ao ano. Isso sig- nifica que, se o PIB real per capita, partindo de $ 3.347, aumentasse 1,81°/0 ao ano durante 130 anos, acabaria em $ 34.260. E- claro que o PIB real per capita não aumen- tou exatamente 1,81% em todos os anos: em alguns anos, aumentou mais e, em

Taxa de crescimento (por ano)

2,81% 2,45 2,23 2,04 2,03 1,90 1,86 1,81 1,45 1,35 1,35 1,16

U

1 16

As Variedades de Experiencias de Crescimento

Fonte: Robert J. Barro e Xavier Sala-i-Martin, Economic growth. Nova York: McGraw-Hill, 1995, tabelas 10.2 e 10.3; World Development Report 2002, Tabela 1; e calculos do autor.

CAPITULO 25 PRODUcA0 E CRESCIMENTO 539

TABELA 1

Pais Period° PIB real per capita no inicio

do periodo*

PIB real per capita no fim

do periodo*

Japao 1890-2000 $ 1.2561.1640 $ 26.460 '0()c Brasil 1900-2000 650 7.320 Mexico 1900-2000 968 8.810 Canada 1870-2000 .984 27.330 Alemanha 1870-2000 .825 25.010 China 1900-2000 598 3.940 Argentina 1900-2000 .915 12.090 Estados Unidos 1870-2000 3.347 34.260 India 1900-2000 564 2.390 Indonesia 1900-2000 743 2.840 Reino Unido 1870-2000 4.107 23.550 Paquistao 1900-2000 616 1.960 Bangladesh 1900-2000 520 1.650

* PIB real medido em Mares americanos de 2000.

? rf\E E A %)et-toc-IDP, G c qt..K o ?1c3 9....E1 c3EV.C-AC:111-,', QIZE5C.E.0 Ely\

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40 Ida,

(1,1-6)01\).i titA)W

outros, aumentou menos. A taxa de crescimento de 1,81% ao ano desconsidera as flutuacLes de curto prazo_gm tomb da tendencia de long° prazo e re resenta uma taxa media de crescimento do PIB real per capita no decorrer de muitos anos.

Os liaises da Tabela 1 estao ordenados segundo a taxa de crescimento, da major para a menor. 0 Japao encabeca a lista, corn uma taxa de crescimento de 2,81% ao ano. Cern anos atras, o Japao nao era urn pais rico. A renda media do Japao era pouco major que a do Mexico e estava bem atras da renda media da Argentina. Colocando de uma outra maneira, a renda do Japao em 1890 era inferior a da india em 2000. Mas, por causa de seu crescimento espetacular, o japao é hoje uma superpotencia econornica, corn renda media apenas urn pouco menor que a dos Estados Unidos. Os tiltimos da lista sao Bangladesh e Paquistao, que tiveram cres- cimento de somente 1,16°/0 ao ano durante o Ultimo seculo. Como resultado, o morador tipico desses 'Daises continua a viver na maior pobreza.

Por causa dessas diferentes taxas de crescimento, a classificacao dos paises em termos de renda muda substancialmente ao longo do tempo. Como vimos, o Japao é urn pais que cresceu ern relacao aos outros. Urn que perdeu posicao na classifi- cacao é o Reino Unido. Em 1870, o Reino Unido era o pais mais rico do mundo, corn renda media cerca de 20°/0 maior do que a dos Estados Unidos e mais que duas vezes major do que a do Canada. Hoje, a renda media do Reino Unido esta abaixo da encontrada nessas suas duas antigas colonias.

Esses dados mostram que os paises mais ricos do mundo nao tern garantia de que continuarao sendo os mais ricos e que os maispobres nao estao condenados a permanecer na pobreza sara sem ore. Mas o sue explica essas mudancas ao longo do tempo? Por que alguns paises avancam rapidamente, enquanto outros ficam para tras? Sao ex er ntas que abordaremos em seguida.

,APCAAA (rtle hrAC41

John D. Rockefeller

540 PARTE 9 A ECONOMIA REAL NO LONGO PRAZO

SAIBA MAIS SOBRE...

vocË É MAIS RICO DO QUE 0 NORTE- AMERICANO MAIS RICO?

A revista American Heritage publicou, em outubro de 1998, uma lista dos norte-americanos mais ricos de todos os tempos. 0 primei-

ro lugar coube a John D. Rockefeller, o empres o do petr6leo que

viveu de 1839 a 1937. De acordo com os dlculos da

revista, sua fortuna equivaleria hoje a $ 200 bilh6es, mais

de duas vezes a de Bill Gates, o empreendedor do soft-

ware que é o americano mais rico de hoje.

Apesar de sua grande fortuna, Rockefeller n'k desfru- tava de muitos dos confortos a que estamos habituados.

Ele não podia assistir à TV, jogar videogames, navegar pela

Internet ou enviar e-mails. No calor intenso do verk, ele

rik podia refrescar sua casa com ar-condicionado. Por

grande parte de sua vida, n -k podia viajar de carro ou de

avik e rik tinha como telefonar a seus parentes e amigos. Se ficas-

se doente, não poderia se beneficiar de muitos rernlios, como os

antibi6ticos, que os rn&licos hoje usam rotineiramente para prolon-

gar e melhorar a vida.

Agora pense:iQuanto teriam de Ihe pagar para que você abris-

se mk, pelo resto da vida, de todos os confortos modernos que

Rockefeller desconhecia? Você o faria por $ 200 bilh6es? Talvez nk.

E se não o fizesse, seria correto dizer que você está em melhor

situack do que John D. Rockefeller, considerado o norte-americano

mais rico de todos os tempos?

0 ca itulo anterior discutiu como os indices de reco padrk,

usac aa=ai etbas de diferentes épocas,

conse plenamente a introduck de novos bens na eco- ,

nomia. Como resultado, a taxa deinflack restimada. 0 outro lado dessa moeda é iue a taxa

e crescimento econ6mico real é subestimada.

Pensar na vida de Rockefeller mostra como esse

problema pode ser significativo. Por causa dos tre-

rn- endos avancos da tecnolo ia, o norte-american6

mklio de hoie pode ser considerado "mais rico"

clogue_cLaarte:americano mais rico há cem anos, :muito embora essefatoestejap as atis: ticas econ6micas comuns.

Teste R4ido Qual a taxa aproximada de crescimento do PIB real per capita nos Estados Unidos? Indique

um pais com crescimento mais rkido e outro com crescimento mais lento.

PRODUTIV1DADE: SEU PAPEL E SEUS DETERMINANTES

Explicar as grandes vições dos padr"Oes de vida por todo o mundo é de certa forma, muito fácil. Como veremos, a explica oyode ser resumida em uma só pala-

v__La rodutividade. Em outro sentido, contudo, as varig^Oes internacionais s"a"o pro- fundamente complicadas. Para explicar por que as rendas s"a"o mais altas em alg,uns paises do que em outros, precisamos analisar os muitos fatores que determinam a

produtividade de uma na"a-o.

Por Que a Produtividade É Tão Importante

Vamos comear nosso estudo da produtividade e do crescimento econ mico desen- volvendo um modelo simples baseado no famoso romance Robinson Cruso£'?, de Daniel Defoe. Como voc"e pode recordar, Robinson Crusoe é um marinheiro que naufragou e está preso em uma ilha deserta. Como vive sO, Crusoe pesca seu prO- prio peixe, cultiva seus legumes e faz suas prOprias roupas. Podemos pensar nas ati- vidades dele — sua producfa. o e seu consumo de peixes, legumes e roupas — como sendo uma economia simples. Examinando a economia de Crusoe, podemos apren- der alg-,umas coisas que tambem se aplicam a economias mais complexas e realistas.

CAPITULO 25 PROMO° E CRESCIMENTO 541

O que determina o padrao de vida de Crusoe? A resposta é obvia: se ele for habil cm pescar, cultivar legumes e fazer roupas, vivera bem. Se nao tiver compe- tencia para realizar essas atividades, vivera mal. Como ele so pocle consun-iir o Iroduz, seu adrao de vida esta li ado a sua ca.—aCTE—ala ro

O termp produtividade se refere Lqusult..clialle de bens e servicos que urn tra-. balhador o • • • • cada hora de trabalho: No caso da economia de Crusoe, é facil perceber que_lprodutividade é o determinantc-chave do -)adrao de vida e que o crescimento da produtividade é o determinante-chave do crescimen- to do 1.-)adrao de vida. Quanto mais peixes Crusoe puder pescar por hora, mais podera corner ao jantar. Se ele encontrar urn lugar melhor para pescar, sua produ- tividade aumentara. 0 aumento da produtividade o deixara em melhor situacao: ele pode corner mais peixe ou despender menos tempo pescando e dedicar mais tempo a producao de outros bens que deseje.

O papel-chave da produtividade na determinacao dos padraes de vida é tao verdadeiro para as nacoes quanto para os marinheiros presos em uma ilha. Lembre-se de gue o lroduto intern° bruto (FIB) de urn pais mede duas coisas ao mesmo tempo: a renda total aufericap_oIcAr as as pessoas da economia e a despe- sa total corn os bens e servicos produzidos na economia. A razao -)elaqua! o PIB capaz de medir duas coisas simultaneamente ue, para a economia como urn todo, elas precisam ser iguais. Dito de maneira mais simples, a renda de uma eco- nomia é ig-u_ala_Rrociao ciaecoaomia.

Da mesma forma que Crusoe, uma de vida. _ elevado se uder roduzir uma o-rande uantidade de bens e seivi -Os. Os america- nos vivem melhor do que os nigerianos 1.-)orque os trabalhadores americanos sao mais produtivos do que os trabalhadores nigerianos. Os japoneses desfrutaram de urn crescimento mais rEipido de seu padrao de vida do que os argentinos porque a produtividade dos trabalhadores japoneses cresceu mais rapiclamente. De fato, urn dos Dez PrincOos de Economia do, Capitulo 1_6 o de tcueopach-ao vidkde um pais de ende cidade de_42Loduzir bens e servicos_._

Assim, -)ara entender as grandes diferencas entre os padraes de vida que obser- vamos em diversos paises, ou em diferente r

e servicos.—r Mas perceb a ligacao entre padraes de vida e pro- dutividade é apenas o primeiro passo. E nos leva naturalmente a proxima perg,un- ta: For que alg-umas economias sao tao melhores do que outras na producao de bens e servicos?

a quantidade de bens e

_servicos produzida em cada_ hora de trabalho de urn

trabalhador

Como a Produtividade E Determinada

Embora a produtividade tenha uma importancia singular para determinar o padrao de vida de Robinson Crusoe, sao muitos os fatores que a deterrninam. Crusoe pes- card melhor, por exemplo, se tiver mais varas de pesca, se tiver sido treinado nas melhores tecnicas de pesca, se sua ilha tiver uma oferta abundante de peixes e se ele inventar uma isca de pesca melhor. Cada urn desses determinantes da produti- vidade de Crusoe — que podemos chamar de (-2E/1E1f/sic°, capital human°, recursos paturais e conhecimento tecno16 rico — tem sua contraparte em economias mais corn- plexas e realistas.Vamos considerar cada um desses fatores.

• Capital Fisico Os trabalhadores sao mais produtivos se dispaem de ferramentas para trabalhar. 0 estoque de equi lamentos e estruturas usado para. produzir bens

. e servicos chamado d

,• • ou, simplesmente, capital. Por exemplo, quando os marceneiros fabricam moveis, usam serrotes, tornos e brocas de perfu-

capital fisi co _

o esto ue de equipamento e

_estruturas usado paiia_z_ocluziL

bens e servicos

542 PARTE 9 A ECONOMIA REAL NO LONGO PRAZO

\tcapital humano o conhecimento e as,

habilidades que os_.

trabalhadores adquirem por.. meto da educaca-o,

reinamento e experkicia

rar. Uma quantidade maior de ferramentas permite que o trabalho seja realizado com maior rapidez e precisk). Ou seja, um trabalhador que tenha apenas ferra- mentas manuais 13sicas fahricará menos mOveis por semana do que outro que tenha equipamento de marcenaria sofisticado e especializado.

Como vimos no Capitulo 2, os insumos usados para produzir bens e serviQc)s — trabalho, capital etc. — são chamados de fi1tores de i_g roduffio. Uma caracteristica importante do capital e ser um fator de produ o produzido. Ou seja, o capital e um insumo do rocesso rodutivo ue foi, no passado, o -)roduto de outro i_-)rocesso

ocp_it_Itir 0 marceneiro usa um torno para azer a perna de uma mesa. Antes -

disso, o prOprio torno foi produk) de uma empresa que fabrica tornos. 0 fabrican- te de tornos, por sua vez, usou outro equipamento para fazer seu produto. Assim, o capital é um fator cle produ o usado 1.-)ara produzir todos os tipos de bens e ser- vicos, incluindo mais capital.

• Capital Humano Um segundo determinante da produtividade é o capital humano. 0 capital humano e o termo utilizad lesipar o conhecin e as os trabJhadores_aç irern por meio de educa-

0 capital humano inclui as habilidades adquiridas nos programas de primeira inffincia, no ensino fundamental e medio, na universi- dade e no treinamento no emprego para trabalhadores adultos.

Embora educKk), treinamento e experi'encia sejam menos tangi:veis do que tor- nos, escavadeiras e predios, o capital humano e semelhante ao capital ffsico em muitos aspectos. Assim como o capital fisico, o capital hun-iano aumenta a

da naç ra a roduço de bens e serviços. Darnesma forrna qie o capital_ fis_Lojosa.p

• IltaLimano e um fator de produ o produzido. Produzir capital huma- no exige insumos sob a forma de professores, bibliotecas e tempo dos estudantes. De fato, os estudantes podem ser vistos como "trabalhadores"que t'ern a importan- te tarefa de produzir o capital humano que sera usado na produ o futura.

• Recursos Naturais Um terceiro determinante da produtividade s -a'o os_recursos naturals. Recursos naturais sk) os insumos proporcionados ela terra • de ó s minerais. 0 sos naturais se a resentam sob duas for;_- mas: re_pc_21_74yeise nk)-renowlveis. Uma floresta é um exemplo d Ei natura1 renovvel. Quando uma th-vore é dernibada, uma muda pode ser plantada em seu lugar para ser utilizada no futuro. 0 petrOleo e um exemplo de recurso natural n'a

- o- renowivel. Como ele e produzido pela natureza ao longo de milhares de anos, sua oferta é limitada. Uma vez esgotadas as reservas de petrOleo, é impossivel criar mais.

As difereNas quanto a recursos naturais sk) responsveis por alg,umas das dife- renas entre os paclffies de vida pelo mundo. 0 sucesso histOrico dos Estados Unidos foi impulsionado, em parte, pela grande oferta de terras adequadas para a ag,ricultura. Hoje, alguns paises do Oriente Medio, como Kuwait e Ar. bia Saudita, s .a- o ricos simplesmente porque estio localizados sobre algumas das maiores reser- vas de petrOleo do mundo.

Embora os recursos naturais sejam importantes, n'. To s'a'o necessrios para que uma economia seja altamente eficiente na j_-)rodu o de bens e servios. 0 Japk), por exen-iplo, e um dos paises mais ricos. do mundo, apesar de ter poucos recursos naturais. 0 comercio intemacional toma F)ossivel seu sucesso. 0 Jaj_-)k) importa muitos dos recursos naturais de que necessita, como petrOleo, e exporta bens manufaturados para economias ricas em recursos naturais.

Conhecimento Tecnoi6gico Um quarto determinante da produtividade é o conhecimento tecno1gico — conhecer as melhores •• s de roduzir bens e seri s.Hó cem anos, a maioria dos norte-americanos trabalhava em fazendas porque a tecnologia agropecuria exig,ia uma grande quantidade do insumo traba-

recursos naturais_

os insumos ara a produck

de bens e servicos due

fornecidos pela natureza,

como terra, rios e dep6sitos

minerais

conhecin _

o conhecimento que a

sociedade tem das melhores

manelras de produzir bens e

servicos

CAPITULO 25 PR0DUcii0 E CRESCIMENTO

lho para alimentar toda a populacao. Hoje, g,racas aos avancos da tecnologia agro- pecuaria, uma pequena fracao da populacao é capaz de produzir alimento suficien- te para 0 pais talc). Essa mudanca tecnologica disponibilizou ma-o-de-obra para a produc5o de outros bens e servicos.

0 conhecimento tecnologico assume diversas formas. Algumas tecnologias sdo de conhecimento comum — depois que alguem as utiliza, todos ficam a par delas. Por exemplo, depois que Henry Ford introduziu corn exito a producao em linhas de montagem, outros fabricantes de automoveis rapidamente seguiram seu exemplo. Outras tecnologias sao proprietarias — sao conhecidas apenas pela empresa que as descobriu. Por exemplo, apenas a Coca-Cola Company conhece a receita secreta para produzir seu famoso refrigerante. Outras tecnolog,ias ainda sao proprietarias por urn curto period() de tempo. Quando uma empresa farmaceutica descobre uma nova droga, o sistema de patentes lhe confere urn direito temporario de fabricacdo exclusiva. Mas quando a patente expira, outras empresas podem fabricar a droga. Todas essas formas de conhecimento tecnolog,ico sac) importantes para a producao de bens e servicos da economia.

Vale a •ena distinauir entre conhecimento tecnoloaico e ca ital humano. Embora este-am estreitamente relacionados, ha uma diferenca importante. 0 .conhecime.nto tecnologico se refere ao conhecimento ue a sociedade tern de como o mundo tunciona. 0 capital human° se refere aos recursos gastos para transmitir esse conhecimento a forca de trabalho. Fazendo uso de uma metafora relevante, o conhecimento é a qualidade dos livros-texto da sociedade, enquanto o capital human° é a quantidade de tempo que a populacao dedica a sua leitura. A produ- tividade dos trabalhadores depende tanto da qualidade dos livros-texto disponiveis quanto do tempo despendido estudando-os.

1543

SAIBA MAIS SOBRE...

A FUNcii0 DE PRODUcil0

Os economistas usam uma funcOo de trot CO ara descrever a celacao entre a quantidade de insumos utilizados na producao e a, quantidade de prodtitos obtida. Por exemplo, suponha que Y repre- sente a quantidade produzida, L a quantidade de trabalho, K a quan- tidade de capital fisico, H a quantidade de capital. humano e N a quantidade de recursos naturals. Entao, poderiamos escrever

Y= A F(L, K, H, N),

onde F() e uma funcao que mostra como os insumos sao combi- naclapara eraroproduto. A e u ta nologia produtiva disponiv ologileakerfei- coada, A aumenta, de modo que a economia produz mais a partir de qualquer combinacao de insumos dada.

Muitas funcOes de roducaa_temina_pmpriedide chamada de retomo constante de escala. Se uma funcao de produçao tern retor-

nos constantes de escala, entao a duplicacao de todos os insumos faz 44aiclade_42nduzida tam1.._&Laelliilp FE:a. Matematicamente, podemos dizer que uma func-jo de producao tern retornos constantes de escala se, para qualquer valor positivo de x,

xY = A F(xL, xK, xH, xN)

A duplicacao de todos os insumos e representada nessa equa- cao por x = 2. 0 lado direito mostra a duplicacao dos insumos, e o lado esquerdo mostra a duplicacao da producao. ..v? As funcOes de producao corn retornos constantes de escala tra- zem uma implicacao interessante. Para ver qual é, facamos x = 1/L. Entao, a equacao acima passaria a ser

Y/L = A F(1, K/L, H/L, N/L)

- ,Observe que Y/L é a producao por trabalhador, que é uma medida de produtividade. Essa equacao diz que a produtividade depende do capital fisico por trabalhador (K/L), do capital humano por trabalhador (H/L) e dos recursos naturals por trabalhador (NIL). A produtividade depende ainda do estado da tecnologia, represen- tado pela variavel A. Assim, essa equacao proporciona urn resumo matematico dos quatro determinantes da produtividade que acaba- mos de discutir.

544 PARTE 9 A ECONOMIA REAL NO LONGO PRAZO

Estudo de Caso

OS RECURSOS NATURAIS Sik0 UMA LIMITACAO AO CRESCIMENTO?

A populaao do mundo e hoje muito maior do que ha um seculo e muitas pessoas desfrutam de um padrao de vida mais elevado. 1-la um debate constante sobre se esse crescimento da populgao e dos padres de vida pode continuar no futuro.

Muitos comentaristas tem argumentado que os recursos naturais estabelecem um limite em relgao a quanto as economias cio mundo podem crescer. A primeira vista, esse argumento pode parecer difícil de ig,norar. Se o mundo tem uma oferta fixa de recursos naturais nao-renovaveis, como a populaao, a produ -ao e os pa- dres de vida podem continuar a crescer ao longo do tempo? Conseqentemente, os depOsitos de petr(51eo e minerais nao comearao a se esgotar? Quando essas carencias comearem a surg,ir, nao irao interromper o crescimento econ mico e, tal- vez, fazer ate com que os padres de vida decaiam?

Apesar do apelo aparente de tais arg,umentos, a maioria dos economistas nao esta tao preocupada com esses limites ao crescimento quanto se poderia imaginar. Eles argumentam que o progresso tecnoli3gico freqentemente revela meios para evitar esses limites. Se compararmos a economia de hoje corn a do passado, vere- n-los diversas maneiras em que houve uma melhora no uso de recursos naturais. Os carros modemos sao mais econOmicos. As casas novas tem melhor isolamen- to termico e precisam de menos energia para aquecimento ou refrigeraao. Equi- pamentos mais eficientes desperdiam menos petn5leo durante o processo de extraao. A reciclagem permite que alguns recursos nao-renovaveis sejam reutili- zados. O desenvolvimento de combustiveis altemativos, como o alcool em vez da gasolina, nos permite substituir recursos nao-renovaveis por outros renovaveis.

Ha 50 anos, alg,uns conservacionistas estavam preocupados com o uso excessivo de estanho e cobre. Na epoca, esses metais eram commodities cruciais: o estanho era usado para fabricar recipientes para alimentos e o cobre era utilizado para fazer cabos telefnicos. Algumas pessoas defendiam a reciclagem obrigatffla e o raciona- n-iento do estanho e do cobre, a fin-t de manter a oferta disponivel para as gera95es futuras. Hoje, contudo, o plastico substituiu o estanho na fabricgao de muitos reci- pientes de comida e as chamadas telefnicas freqiientemente percorrem cabos de fibra Optica, que sao feitos a partir da areia. 2_progresso tecno recur- sos naturais41Ie uciais, menos necessarios.

_Mass_eth4u.e._tados esses esforos sao suficientes para 422L-mitir o crescimento econmi ntinuado? U eira de responder a essa questk é olharjara os pre_552.5_du.s...recursos naturais m uma _econ omia de mercado, a escassez se refiete nos precos de_mercado. Se o mundo estivesse fica-ndo sem recursos naturais,_ entk_ s preos de m a u

o o osto est: • • • . a • a_yerciade. Os ços da maioria dos recursos naturais (corri estao estáveisou Parece que nossa capa_ cidade_ depreservar esses recursos está ciesç ndoj-naisrpidançntedo caindo. Os prey:ps de mercado na- o nos d'ao qualquer motivo para acreditar que os recursos naturais sejam uma limitgao ao crescimento econ(imico. @

Liste e descreva quatro determinantes da produtividade de um pais.

NNL

(\f\ l

C- 0 NJ !.\ V`VeX\)\-'0' C NOLO

(; ) S\--5 0 L) 1\-3 \\-) P,S\ (`)

Teste R4ido

CAPITULO 25 PRODUCAO E CRESCIMENTO

CRESCIMENTO ECONOMIC° E POLiTICAS POBLICAS Ate aqui, cieterminamos que o padrao de vida de uma sociedade depende de sua capacidade de produzir bens e servicos e que sua produtividade depende do capi- tal fisico, do capital human°, dos recursos naturais e do conhecimento tecnologi- co.Vamos agora nos voltar para a questao corn que se deparam os formuladores de politicas de todo o mundo: gue apolItica govemarnentalpode fazerparaaumen- tar a produtividade e os Eadroes de vida?

A Importancia da Poupanca e do Investimento

Como o capital 6 urn fator de produced° produzido, uma sociedade pode alterar a quantidade de capital de que dispoe. Se hoje a economia produz uma g,rande quantidade de novos bens de capital, amanha ela tere urn major estoque de capi- tal e podere produzir mais de todos os tipos de bens e servicos. Portant°, uma maneira de aumentar a produtividade futura 6 investir mais recursos correntes na zoducao de capital,

Urn dos Dez Principios de Economia do Capitulo 1 é o de que as pessoas enfren- tarn tradeoffs. Esse principio é particularmente importante quando consideramos a acumulacdo de capital. Como os recursos sao escassos dedicar mais recursos a producao de capital implica dedicar menos recurs_os a producao de bens e servic_o_s_

ara consumo corrente. Ou seja, para que uma sociedade invistamaiserncapita1 ela deve c_onsumir p. ar maisdesua renda corrente. 0 crescimento que

ia...acumulacao de capital ndo 6 aratuito:_ele exige q_ue a sociedade sacrifr-_ _ _ que o consumo de_b_ens a_s_ervicos_no_p_r_esente_p_ara desfrutar de maior consumo_ no futuro.

No proximo capitulo, examinaremos corn mais detalhes como os mercados financeiros da economia coordenam a poupanca e o investimento.Tambem exami- naremos como as politicas governamentais influenciam as quantidades de poupan- ca e investimento que ocorrem. Nesse ponto, é importante_observar quo incentivar _._p_OL112/21:1c P o investimento uma das maneiras pelas quais o_governo pode esti-_ mular o crescimento e, no longo prazo, aun-Leztar_o_pa_drdo de_ vida da economia.

Para entender a importancia do investimento para o crescimento economic°, examine a Figura 1, que apresenta dados sobre 15 paises. 0 painel (a) mostra a taxa de crescimento de cada pais em urn period° de 31 anos. Os paises estao ordena- dos por ordem decrescente da taxa de crescimento. 0 painel (b) mostra o percen- tual do PIB que cada pais dedica ao investimento. A correlacao entre crescimento e investimento 6 forte, embora nao seja perfeita. Os paises_gue dedican_m_maa_a_an- clepa_rcela de seu PIB a_o_imaatimeats ingapura e Japao, tendem a ter altas

iLescimento. Os que dedicam parcelas peque—nas do FIB aoinvestimento, como Ruanda e Bangladesh, tendem a ter baixas taxas de crescimento. Os estudos que examinam uma lista mais abrangente de 'Daises confirmam essa forte correla- cao entre investimento e crescimento.

He, entretanto, urn problema na interpretacao desses dados. Como vimos no apendice do Capitulo 2,..aco!_c-rela ao entre duas variaveis nao estabelece qua' delas 6 a cause e ual é o efeito. E possivel quo urn elevado investimento sere urn alto crescimento, mas tambem ossivel sue urn alto crescimentsLgere_um eleyacio, investimento. (Ou, talvez, que tanto urn elevado crescimento quanto urn alto in- vestimento sejam causados por uma terceira variavel que foi omitida da analise.) Os dados, por si sos, nao nos dizem qual a direcao da causa. Ainda assim, como a acumulacao de capital afeta a produtividade de maneira clara e direta, muitos eco- nomistas interpretam esses dados como mostra de que o investimento leva a urn crescimento econamico mais rapid°.

47c

545

1

1

1

<- .) k

)

retornos decrescentes

a propriedade segundo a qual

o beneficio de uma unidade

äicional de um insumo

diminui à medida que a

quantidade do insumo

aumenta

546 PARTE 9 A ECONOMIA REAL NO LONGO PRAZO

FIGURA 1 _

Crescimento e Investimento

0 poinel (a) mostra a taxa de crescimento do P18 per capita de 15 polses no pedodo 1960-1991. 0 painel (b) mostra o percentual do PIB que cada pais dedicou ao investimento nesse pedodo. A figura mostra que 1-1O uma correlacCio positiva entre investimento e crescimento.

Fonte: Robert Summers e Alan Heston, The Penn World Tables e calculos do autor.

(a) Taxa de Crescimento 1960-1991 (b) Investimento 1960-1991

Cor&a do Sul Cingapura

Japo Israel

Canach Brasil

Alemanha Ocidental Me'xico

Reino Unido Nig&ia

Estados Unidos kldia

Bangladesh Chile

Ruanda

Coria do Sul Cingapura

Japo Israel

Canaci,j Brasil

Alemanha Ocidental Wxico

Reino Unido Nigéria

Estados Unidos frldia

Bangladesh Chile

Ruanda o 2 3 4 5 6 7 0 10 20 30 40

Taxa de Crescimento ( %) Investimento ( % do PI13)

Retornos Decrescentes e o Efeito de Alcance

um 0-ovemo, convencido pelas evidencias da Fig-ura 1, adote eoliticas .que aumentem a taxade pou ana da ng -ao — o percentual do PIB destinado à pou-_ pa225.L_I, a consi_ji we aconteceria? Quando a na o poupa mais, mengs recursos são necessarios para -)roduzir bens de consumo e ha mais recursos _ nlv_e_i_.sEa_ra__p_roduzLLDr ens cl(_l_cjilpffl_11Como resultado, o estoque de ca ital aumen- ta, levando a uma Rrodutividade crescente e a um crescimento do do—f113. Mas quanto tempo dura essa alta taxa de crescimento? Na hipOtese de que a taxa de poupaNa permanea nesse novo nivel elevado, a taxa de crescimento do PIB se mantera elevada indefinidamente ou apenas por um periodo de tempo?

A visão tradicional sobre o 13rocesso cie produ o e de que o capital esta sujeito a retornos decrescentes: com o_aumento cj )._e_st e nal gerado 1.-)or uma unidade adicional de capital cai. Em outras palavras, quando os trabalh ores dispO- t-n-Lde uma grande_quantidade de c ital para utilizar na pro- duo de bens e hes uma unidade adicional de capital aumenta muito_ pouco sua produtividade. Por causa dos retornos ae poupanp leva a um maior crescimento=d po. kmedida que a maior taxa depoupança rmite rnaior acumulação de capital, os beneficips do capital adicional se tarnanainen do tem_po e o crescimento_ desaselera..No lorrgo_lp:aw, uma maior taxa de poupanp leva a um maiornível de_pro: dutividade erenda, mas ndo..a_um..maior erescinzento dessas varidveis. Ating,ir esse longo prazo, porem, pode levar bastante tempo. De acordo com estudos de dados inter- nacionais sobre crescimento econOmico, aumentar a taxa cle poupaNa pode levar a um crescimento substancialmente mais alto por um periodo de diversas decadas.

CAPITULO 25 PRODUCAO E CRESCIMENTO 547

Os retornos decrescentes ao capital tem outra implicacao importante: corn tudo o mais permanecendo constante, mais facil para um -)als crescer rapidamente se ele for relativan obr_e_no inicio sse efeito das condicOes iniciais sobre o crescimento subseqUente é por vezes chamado de efeito de alcance. Em 'Daises pobres, faltam aos trabalhadores ate as ferramentas mais rudimentares e, como resultado, a produtividade é baixa. _Pequenos investimentos _em capital au-, mentariam substancialmente a produtividade desses trabalhadores. Por outro lado,

adores de paises ricos tem grandes quantidades de capital a sua disposi- ca-o e isso exalica..e - ta lrodutividade. Mas se a quantidade de capital por trabalha iLr e tao elevada, investimentos adicionais de capita tenTereHto rela- tivamente pequeno sobre a prostuthida studos de dados intemacionais sobre crescimento economic°confirmam o efeito de alcance: controlando as demais. _ variaveis, tais c II I Al • centual do PIB oskajse,,s pobres tendem a creacer ajim ritmo n-1E_I s_r:a2ido do que_ospaises, ricos.

Esse efeito de alcance pode ajudar a explicar alguns dos resultados confusos da Figura 1. Durante esse period° de 31 anos, os Estados Unidos c a Coreia do Sul destinaram parcelas semelhantes de PIB ao investimento. Mas os Estados Unidos tiveram urn crescimento apenas mediocre, de cerca de 2%, enquanto a Coreia apre- sentou urn crescimento espetacular de mais de 6%. A explicac5o esti no efeito de alcance. Em 1960, o PIB per capita da Coreia era menos do que urn decimo do nivel dos Estados Unidos, ern parte porque o investimento anterior tinha sido muito baixo. Corn urn c)equeno estoque inicial de capital, os beneficios da acumulac:ao de capital foram muito maiores na Coreia, o que lhe proporcionou uma major taxa de crescimento subsequente.

0 efeito de alcance surge tambem em outros aspectos da vida. Quando uma escola concede urn premio no final do ano ao aluno que apresentou "melhor apro- veitamento", o aluno ag,raciaclo costuma ser alguem que comecou o ano com desempenho relativamente fraco. Os alunos que comecam o ano sem estudar tern maior facilidade para melhorar do que os que sempre estudaram muito. Observe que é born ser o aluno de "melhor aproveitamento", dado o ponto de partida, mas

ainda melhor ser o "melhor aluno". De forma similar, o crescimento economic° nas ultimas decadas foi muito mais rapid() na Coreia do Sul do que nos Estados Unidos, mas o PIB per capita ainda é major nos Estados Unidos.

lnvestimento Estrangeiro

Ate aqui, discutimos como as politicos que tern por objetivo aumentar a taxa de poupanca de um pais podem aumentar o investimento e, corn isso, o crescimento econOmico de longo prazo. Mas a poupanca dos residentes nao é a tinica maneira pela qual urn pais pode investir em novo capital. A outra maneira é o investimen- to estrangeiro.

0 investimento estrangeiro assume varias formas. A Ford Motor Company pode- ria construir uma fabrica de carros no Mexico. Urn investimento de capital que possuido e operado por uma entidade estrangeira é chamado de investimento estran- geiro direto. Altemativamente, um norte-americano poderia comprar acoes de uma empresa mexicana (ou seja, comprar uma participacao na propriedade da empresa); a empresa mexicana poderia, entao, usar os recursos obtidos corn a venda de acaes para construir uma nova fabrica. Urn investimento financiado corn dinheiro estran- aeiro, or re*lentes, é charnado_de investimento estrangeiro de portfolio. Nos dois casos, os norte-americanos proporcionam os recursos necessarios para' aumentar o estoque de capital do Mexico. Ou seja, a poupanca norte-americana esta sendo usada para financiar investimento mexicano.

Quail& estrangeiros investem em urn pais, eles o fazem porque esperam obter um retorno sobre seu investimento. A fabrica de carros da Ford aumenta o estoque

efeito de alcance a propriedade pela qual pai-

ses que partem de urn pate- - •

mar pobre crescem mais rapi-

damente do que poises gue

pattern de urn patamar rico

548 PARTE 9 A ECONOMIA REAL NO LONGO PRAZO

de capital mexicano e, com isso, aumenta a produtividade e o PIB do Mexico. Mas a Ford leva parte dessa renda adicional de volta aos Estados Unidos, sob a forn-ia de lucros. De forma similar, quando um investidor americano compra g -6es mexi- canas, tem direito a uma parte do lucro obtido pela empresa mexicana.

Assim, as medidas de prosperidade econ6n-lica — o PIB e o PNB — s" .o afetadas de forma diferenciada pelo investimento estrangeiro. Lembre-se de que o produto interno bruto (PIB) é a renda obtida dentro de um pais tanto por residentes quan- to por n'« o-residentes, enquanto o produto nacional bruto (PNB) e a renda obtida pelos residentes de um pais tanto dentro do pais quanto no exterior. Quando a Ford ab sua Qi_parte da renda g_e_rAdaiatpar_a ue n^k) vivem no Mexico. Como resultado, o investimento ,eiro no Mexico_aumen.: ta a renda dos mexicanos bedida ei -615-&- B) em menor medida_do_que_aunienta__

PIB).- Ainda assim, o investimento estrangeiro é uma maneira pela qual os paises

podem crescer. Mesmo que parte dos beneficios desse investimento retome ao pro- prietrio estrangeiro, o investimento aumenta o estoque de capital da economia, levando a maior produtividade e maiores salários. Alem disso, o investimento estrangeiro é uma maneira pela qual os paises pobres poden-i aprender tecnolog-ias avanadas desenvolvidas e usadas por paises mais ricos. Por essas razes, muitos economistas que assessoram govemos de paises n-ienos desenvolvidos apc5iam politicas que incentivan-i o investimento estrangeiro. Isso n-luitas vezes sig,nifica

NOTkIAS

PROMOVENDO 0 CAPITAL HUMANO

Gary Becker ganhou o Premio Nobel de Economia em parte por causa de seu trabalho pioneiro sobre o capital humano. Para muitos paises, ele argu- menta, esta é a chave para o crescimento econO'mico.

Subornar os Pais do Terceiro Mundo para Que Mantenham Seus Filhos na Escola Por Gary Becker

Muitos norte-americanos bem-intenciona-

dos, incluindo estudantes universitarios e

organizac6es religiosas, atacaram a Nike Inc.

e outras empresas acusadas de utilizar mk-

de-obra infantil em suas fabricas localizadas

em paises pobres. Concordo que alguma

coisa deveria ser feita para salvar as criancas

das desanimadoras perspectivas econ6mi-

cas de longo prazo. Entretanto, politicas efi-

cazes precisam reconhecer que a causa fun-

damental do trabalho infantil esta na pobre-

za, nao na ganancia dos empregadores

estrangeiros e locais. Para combater os efei-

tos da pobreza, as maes pobres devem ser

"subornadas" para manter seus filhos na

escola por mais tempo. Realmente, as familias pobres do Brasil,

do Maxico, do Zaire, da hdia e de muitas outras nac6es colocam seus filhos para tra- balhar porque suas pequenas rendas aju- dam a comprar alimento e remadios para eles mesmos e para seus irmaos maiS

novos. Embora os pais possam reconhecer que a escola melhoraria as habilidades de trabalho comerciaveis de seus filhos mais adiante, em suas vidas, eles não podem se dar ao "luxo" de retira-los do mercado de trabalho. Essencialmente, o trabalho infantil

o resultado de um conflito entre os inte- resses econ6micos de curto prazo dos pais

e os interesses econ6micos de longo prazo

dos filhos. 0 crescimento econ6mico adequado

sempre elimina o trabalho infantil, mesmo

quando nao ha leis que o proibam. Mas as nac6es pobres nao precisam esperar ata enriquecerem. Ha soluc6es de curto prazo. Muitos paises tam leis que tornam obrigat6-

rio o ensino ata os 15 anos de idade, aproxi-

madamente, mas essas leis sao de

aplicack, principalmente nas areas rurais e

nas zonas pobres das grandes cidades. As familias que querem que seus filhos traba-

lhem simplesmente deixam de manda-los

para a escola, ou as criancas apresentam

CAPiTULO 25 PRODUCAO E CRESCIMENTO 549

remover restricoes que esses govemos impuseram anteriormente a propriedacie estrangeira do capital.

LTma organizacao que procura incentivar o fluxo de capital para os paises

pobres é o Banco Mundial. Essa organiza0o internacional capta recursos dos pal-

ses avancaclos, como os Estados Unidos, e os utiliza para conceder emprestimos a

paises menos desenvolvidos, de forma que eles possam investir em estradas,

saneamento basic°, escolas e outros tipos de capital. E tambem oferece a esses pal-

ses assessoria sobre corn° empregar melhor os recursos. 0 Banco Mundial, junto

corn sua instituicao co-irma, o Fund° Monetario Internacional, foi estabeleciclo

apOs a Segunda Guerra Mundial. Uma HO° aprendida corn a guerra foi a de que

as dificuldades econOmicas muitas vezes levam a turbulencias politicas, tensaes

militares e conflitos intemacionais. Portant°, todos os 'Daises Cern interesse em pro-

mover a prosperidade economica em todo o mundo. 0 Banco Mundial e o Fund°

Monetario Internacional visam ating,ir esse objetivo comum.

Educacao

A educacao — o investimento em capital human° — é pelo menos tao importante

quanto o investimento em capital fisico para o sucesso economic° de longo prazo

de urn pais. Historicamente, nos Estados Unidos, cada ano de estudo eleva o sale-

ri° de uma pessoa em 10°/0, em media. Em paises menos desenvolvidos, onde o

altos indices de absenteismo. As autoridades

relutam em punir os pais das criancas traba-

lhadoras, talvez porque reconhecam que o

problema nao e egoism°, mas pobreza.

Proponho um caminho melhor: dar aos

pais urn incentivo financeiro para manter

seus filhos na escola por mais tempo. As

maes pobres deveriam receber algo se as

escolas atestassem que seus filhos frequen-

tarn regularmente as aulas. Os pais deve-

ria m ser fortemente motivados a mandar

seus filhos para a escola — mesmo quando

as criancas nao quiserem ir —, se esses

pagamentos nao forem muito menores do

que aquilo que as criancas ganhariam traba-

lhando. A maioria dos pais pobres contribui-

ria corn prazer corn algo para aumentar as

chances de seus filhos no longo prazo, mas

reluta em suportar toda a responsabilidade.

Venho propondo isso ha algum tempo,

e o governo mexicano deu inicio a urn pro-

grama assim, chamado Progresa, que abran-

ge 2 milhOes de familias muito pObres em

Chiapas e outras areas rurais. As maes cujos

filhos freqUentam as aulas regularmente,

passam de ano e por exames medicos regu-

lares recebem urn pagamento mensal do

governo central. Esses pagamentos sao, em

media, de $ 25 por familia. A maioria das

familias pobres do Mexico ganha apenas

cerca de $ 100 por mes. Urn aumento per-

centual tao grande deve ter urn efeito

perceptive' sobre seu comportamento.

As familias pobres de Raises subdesen-

volvidos cujos filhos estudam costumam

retirar suas filhas da escola quando elas

ficam adolescentes. lsso tende a perpetuar

desigualdades econornicas, ja que os filhos

de mulheres que receberam pouca educa-

cao tendem tambem a ter educacao ruim.

0 Progresa procura combater essa tenden-

cia ao favorecimento da educacao dos filhos

homens mais velhos pagando urn pouco

mais as familias que mantem suas filhas

adolescentes matriculadas.

Essa abordagem pioneira do Mexico

parece ser muito bem-sucedida. Uma avalia-

cao preparada para uma conferencia econO-

mica realizada no Chile em outubro mostra

que, apos poucos anos, o Progresa melho-

rou significativamente a educacao dos filhos

de familias mexicanas muito pobres. E redu-

ziu a disparidade educacional entre meninas

e meninos e a participacao de criancas na

forca de trabalho.

E claro que os governos precisam de

receita fiscal para financiar programas como

o Progresa. Urn born ponto de partida seria

reconhecer que o Mexico e muitos outros

paises subdesenvolvidos costumam gastar

muito corn as universidades e outras insti-

tuicbes de ensino dedicadas as elites. A

redistribuicao de parte desses gastos em

favor dos pobres reduziria a desigualdade e

estimularia urn crescimento econOrnico

mais rapido. Uma educacao basica generali-

zada e mais eficaz na promocao do desen-

volvimento econOrnico do que subsidios

generosos para os estudantes mais ricos

que frequentam a universidade.

Os criticos da mao-de-obra infantil gasta-

riam melhor seu tempo se atacassem nao as

politicas de emprego estrangeiro das multi-

nacionais, mas as politicas sociais dos gover-

nos dos Raises pobres, que sao as verdadei-

ras responsaveis pela existencia do trabalho

infantil nesses paises. Esses governos, e tal-

vez organizacOes internacionais como o

Banco Mundial, deveriam seguir o exemplo do Mexico e introduzir programas que

paguem as maes pobres para que mante-

nham seus filhos e filhas na escola e fora da

forca de trabalho.

Fonte: Business Week, 22 nov. 1999, p. 15. © Business Week, 22 de novembro de 1999. Reimpresso corn permissao de McGraw-Hill Companies, Inc. Todos os direitos reservados.

550 PARTE 9 A ECONOMIA REAL NO LONGO PRAZO

capital humano e especialmente escasso, o hiato entre os salarios dos trabalhado- res instruidos e nao-instruidos é ainda maior. Assim, un-ia maneira pela qual a politica govemamental pode elevar o padrao de vida e oferecer boas escolas e incentivar a populgao a utiliza-las.

0 investimento em capital humano, assim como o investimento em capital co, tem um custo de oportunidade. Quando os estudantes estao na escola, abrem mao dos salarios que poderiam ganhar. Ern paises menos desenvolvidos, as crian- as freqentemente abandonam a escola muito jovens, ainda que o beneficio da

educgao seja muito alto, simplesmente porque seu trabalho é necessario para aju- dar a manter a familia.

Alg,uns economistas argumentam que o capital humano e particularmente importante para o crescimento econ6mico porque propaga externalidades positi- vas. Un-la externalidade é o efeito das ac6es de uma pessoa sobre o bem-estar de quem esteja prOximo. Uma pessoa instruida, por exemplo, poderia gerar novas ideias sobre a melhor forrna de produzir bens e servios. Se essas ideias entraren-1 para o conjunto de conhecimentos de uma sociedade, de modo que todos possam usa-las, entao essas idelas serao uma extemalidade cla educKao. Nesse caso, o retorno da instruao para a sociedade é ainda maior do que o retorno para o indi- vicluo. Esse arg,umento justificaria os grandes subsidios ao investimento em capital humano que observamos sob a forma de educgao

Um problema que alguns paises pobres enfrentam é a fuga de c&ebros — a emi- g-rgao de n-mitos dos trabalhadores mais instruidos para paises ricos, onde eles podem desfrutar de um padrao de vida mais elevado. Se o capital humano tem externalidades positivas, essa fuga de cerebros cleixaria as pessoas que ficam para tras ainda mais pobres do que antes. Esse problema cria um dilerna para os formu- ladores de politicas. Por um lado, os Estados Unidos e outros paises ricos t&ri os melhores sistemas de educgao superior e seria natural que os paises mais pobres enviassem seus melhores alunos para o exterior, a fim de melhorar sua instniao. Por outro lado, esses alunos que passaram algum tempo fora podem decidir nao voltar para seus paises de origem, e essa fuga de cerebros reduzira ainda mais o estoque de capital humano da naao pobre.

Direitos de Propriedade e Estabilidade Politica

Outra maneira pela qual os forrnu1a jíticaspúblicaspodem incentivar o crescimento econ6mico_e .protegendo os direitos de pro_priedade e promovendo a

-estabilidade politica. Como observamos ao discutir a interdependencia econOnTS no Capitulo 3, a produc;ao nas economias de mercado resulta das intera es entre milh5es de indivicluos e empresas. Quando você compra um carro, por exemplo, esta comprando a produao de uma concessionaria de carros, de um fabricante de carros, de uma sidering,ica, de uma mineradora de ferro, e assim por diante. Essa divisao da produao entre muitas empresas permite que os fatores de produao da economia sejam usados da maneira mais eficaz possivel. Para atingir esse resulta- do, a economia tem de coordenar as transa6es entre as empresas e entre elas e os consumidores. As economias de mercado alcaNam essa coordenaao por meio dos preos de mercado. Ou seja, os preos de mercado sao o instrun-iento com que a mao invisivel do mercado equilibra a oferta e a demanda.

Um pre-requisito importante para o funcionamento do sistema de pre9os e um respeito amplo na economia pelos direitos de propriedade. Os direitos de proprieda- de referem-se a capacidade das pessoas de exercer autoridade sobre os recursos que possuem. Uma empresa mineradora nao se dara ao trabalho de extrair min& rio de ferro se achar que esse minério sera roubado. Ela só ira operar se tiver cer- teza de que ira se beneficiar da venda subseqente do minerio extraido. Por isso, os tribunais desempenham um papel importante nas economias de mercado: eles

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CAPITULO 25 PRODUcA0 E CRESCIMENTO 551

fazem corn que os direitos de propriedade sejam cumpridos. Por meio do sistema de justica penal, os tribunais desencorajam o roubo.Alem disso, por meio do siste- ma de justica civel, os tribunals garantem que compradores e vendedores respei- tern os contratos.

Embora nos paises desenvolvidos os direitos de propriedade sejam consiciera- dos garantidos, aqueles que vivem nos paises menos desenvolvidos sabem que a ausencia dos direitos de propriedade pode representar urn problema. Em muitos paises, o sistema de justica no funciona bem. E dificil fazer corn que os contratos sejam cumpridos, e fraudes freqidentemente ficam impunes. Em casos mais extre- mos, o govern() nao somente falha ao fazer corn que os direitos de propriedade sejam cumpridos, como tambem os infringe. Para fazer negOcios em alg,uns 'Daises, a expectativa 6 de que as empresas precisem subornar funcionarios priblicos im- portantes. Essa corrupcdo impede o poder de coordenacdo dos mercaclos. E tarn- hem desestimula a poupanca intema e o investimento estrangeiro.

Uma ameaca aos direitos de propriedade 6 a instabilidade politica. Quando revo- lucoes e golpes de Estado ocorrem corn frequencia, ndo se sabe se os ciireitos de pro- priedade sera° respeitados no futuro. Se urn governo revolucionario confiscar o capital de alg,umas empresas, como aconteceu corn freqUencia apOs revolucaes comunistas, os residentes terao menos incentivos para poupar, investir e iniciar novos negocios. Ao mesmo tempo, os estrangeiros terao menos incentivos para investir no pais. Ate uma ameaca de revolucdo pode servir para cieprimir o padrdo de vida de urn pais.

,Portanto, a prosas-idade economica de em parte, eridade ca. Urn )ais ue tenha urn sistema *udicigrio eficiente, funci • -rios •tiblicos

onestos e uma const -)adrdo de v_ _____i_da_ecan:omi- ca mais eleva o do que_auirsLq.ue...tealaa_um sistema judiciiirio_fraco,fi incionarios corruptos e revolucoes e 0_,41Res freqUentes.

Livre-Comercio

Alg,uns dos paises mais pobres do mundo tentaram ating,ir urn crescimento econ6- mico mais rapid° adotando politicos voltadas para dcntro. Essas politicas tem por objetivo aumentar a produtividade e os padroes de vida dentro do pais, evitando interacao corn o resto do mundo. Essa aborciagem obtem o apoio de algumas empresas locais, que reivindicam protecao contra concorrentes estrangeiros para competir e crescer. 0 argument° da inchistria nascente, juntamente corn uma des- confianca generalizada em relacdo aos estrangeiros, por vezes tem levado os formu- ladores de politicas de paises menos desenvolviclos a impor tarifas e outras restricoes ao comercio.

A maioria dos economistas de hoje acredita que os 'Daises pobres se do melhor quando adotam politicos voltadas para fora, que os integrem a economia mundial. Quando estudamos o comercio internacional no inicio do livro, vimos como ele pode melhorar o bem-estar econ3mico dos cidaddos de urn pais. 0 comercio 6, de certa forma, urn tipo de tecnologia. Quando urn pais exporta trigo e importa aco, beneficia-se da mesma forma que se tivesse inventado uma tecnologia capaz de transformar trigo em ago. Portanto, urn pais que elimine as restricoes ao comercio experimentara o mesmo tipo de crescimento econOmico que ocorreria apos um gr, ande avanco tecnologico.

0 impact° negativo da orientacdo para cientro torna-se claro quando se leva em consideracao o pequeno tamanho de muitas economias menos desenvolvidas. 0 PIB total da Argentina, por exemplo, 6 proximo do da cidacie de Filadelfia. Imagine o que aconteceria se a camara municipal da Filadelfia proibisse os seus habitantes de comerciar corn pessoas de fora dos limites da cidade. Sem poder tirar vantagens dos ganhos comerciais, a cidade precisaria produzir tudo o que consumisse. Tambern teria de produzir todos os seus bens de capital, em vez de importar equi-

g artils o c4 tkkot4

'asal,itatc„,rr.

Ed:). vixa: ck5--

552 PARTE 9 A ECONOMIA REAL NO LONGO PRAZO

pamentos de ponta de outras cidades. Os padres de vida da Filadelfia cairiam imediatamente e o problema provavelmente só pioraria com o tempo. Foi exata- mente o que aconteceu quando a Argentina adotou politicas voltadas para dentro, durante grande parte do seculo XX. Por outro lado, paises que adotaram politicas voltadas para fora, como Coreia do Sul, Cingapura e Taiwan, tem desfrutado de taxas elevadas de crescimento econOmico.

0 montante do comercio de uma nação com outras é determinado n - o só pela

politica do governo, mas tambem pela geografia. Paises com bons portos maritimos naturais tem mais facilidade para comerciar com outros paises do que aqueles que não dispem desse recurso. N - o e coincidencia que muitas das grandes cidades do mundo, como Nova York, S" To Francisco e Hong Kong, estejam perto dos oceanos. De forma similar, como os paises sem saida para o mar tem maior dificuldade para comerciar internacionalmente, tendem a ter niveis de renda menores do que os paises que tern fácil acesso às vias maritimas.

Pesquisa e Desenvolvimento

A principal razo pela qual os padres de vida sk, mais elevados hoje do que um seculo é o avallo do conhecimento tecnolOgico. 0 telefone, o transistor, o computador e o motor de combusth"o interna est:o entre os milhares de inovg-(5es que melhoraram a capacidade de produzir bens e servios.

Embora a maior parte dos avallos tecnolOgicos venha de pesquisas realizadas por empresas privadas e inventores individuais, há tambem um interesse pUblico em promover esses esforos. Em grande medida, o conhecimento é um bem

uma vez que alguem tenha uma ideia, essa ideia entra para o conjunto de conhecimentos da sociedade e outras pessoas podem fazer livre uso dela. Da mesma forma que o governo tem um papel na oferta de bens pUblicos como a defe- sa nacional, tambem tem um paj.-)el a desempenhar no incentivo à pesquisa e ao desenvolvimento de novas tecnologias.

0 governo americano há tempos desempenha um papel importante na crig-a"o e dissemingo do conhecimento tecnolOgico. Há um seculo, o govemo patrocina- va pesquisa de metodos de produ o agricola e aconselhava os agricultores sobre como usar melhor a terra. Mais recentemente, o governo americano, por meio da Fora Aerea e da Nasa, sustentou a pesquisa aeroespacial; como resultado, os Esta- dos Unidos tornaram-se lideres na produ o de foguetes e aviões. 0 governo con- tinua a incentivar o avallo do conhecimento com bolsas de pesquisa da Nationa Scieps.e_\Found, ation e do Najioal Institutes of alem de dedu

-O'es' de impostos para as empre -7§ Clue se a \fuisa e desenvolvimento.

Outra maneira pela qual a politica governamental incentiva a pesquisa é por meio do sistema de patentes. Quando uma pessoa ou empresa inventa um novo produto, como uma nova droga, por exemplo, o inventor pode solicitar uma paten- te. Se o produto for considerado realmente original, o govemo concede a patente, que dá ao inventor direito exclusivo de fabrica o do produto por um nUmero determinado de anos. Em essencia, a patente dá ao inventor direito de proprieda- de sobre sua inven o, tornando a nova ideia um bem privado, em vez de um bem

Ao permitir que os inventores lucrem com seus inventos — ainda que temporariamente o sistema de patentes aumenta o incentivo para que individuos e empresas se dediquem à pesquisa.

Estudo de Caso A DESACELERA00 E A ACELERAC -A0 DA PRODUTMDADE

A taxa de crescin-iento da produtividade não e nada estvel e confivel. Medida pela produo por hora trabalhada nas empresas americanas, a produtividade cresceu a

CAPiTULO 25 PRODUCAO E CRESCIMENTO 553

uma taxa media de 3,2% ao ano de 1959 a 1973. Depois disso, a produtiviciade dimi- nuiu a velocidade e, de 1973 a 1995, cresceu apenas 1,5% ao ano. A produtividade vol- tou a acelerar em 1995, crescendo 2,6°/0 ao ano em media pelos seis anos seguintes.

Os efeitos dessas mudancas no crescimento cia produtividade podem ser vistos facilmente. AEL-o.clutividade se reflete nos salarios reais e na renda das_ Quando o crescimento da produtividade desacelerou, o trabalhador tipico passou a receber aumentos menores (ajustados pela inflac5o) e muitas pessoas experimenta- ram uma sensacdo geral de ansiedade econemica. Acumulada ao longo de muitos anos, ate uma pequena variacao do crescimento da produtiviciade tern urn efeito profundo. Se nao tivesse ocorrido a desaceleracao de 1973, a renda do norte-ame- ricano medio seria, hoje, cerca de 50% mais elevada. De forma similar, a acelera . no crescimento da rodutividade - ii 1995 C elevou a renda real em cerca

As causas dessas variacoes do crescimento da produtividade sao mais dificeis de se compreender. Urn fato esta bem estabelecido: essas alteracoes ride, podem ser atribuidas aos fatores de producdo que sao mais facilmente mensuraveis. Os eco- nomistas podem medir diretamente a quanticiade de capital fisico disponivel para os trabalhadores. Tambem podem medir o capital human° sob a forma de anos de instrucao. Paress.c.:Eelsiesac_eleracaa_e-a-aceleracda_dsLcrescimerlos_41a 2rodutivi.- da tribuidasiundarraentalmenie_a va ria caps ciessesins_unao,5..

A tecnologia é urn dos poucos culpados restantes. Ou seja, tendo sido excluidas as demais explicacoes, muitos economistas atribuem a desaceleracao e a aceleracao do crescimento economic° a mudancas na criactc-io de novas ideias sobre como pro- duzir bens e senricos. Essa explicacao é dificil de confirmar ou refutar porque a quantidade de "ideias" é diflcil de medir, mas a hipOtese é plausivel. A aceleracao do crescimento da produtividade em 1995 coincidiu corn o rapid° crescimento da tecnologia da informacao e da Internet.

0 que o futuro reserva para o progresso tecnolOgico e o crescimento econOmi- co? A historia nos (la poucos motivos para confiar em qualquer previsao. Nem a desaceleracao nem a aceleracao da produtividade foram previstas por muitos ana- listas antes de terem ocorrido.

FIGURA 2

Taxa de Crescimento

( % ao ano) 4,0

3,5

3,0

2,5

2,0

1,5

1,0

0 1870 1890 1910— 1930— 1950— 1970— 1990— 1890 1910 1930 1950 1970 1990 2000

Crescimento do PIB Real Per

Capita

Esta figura mostra a taxa media de crescimento do P1B real per capita dos economias avancadas, incluindo as principals poises do Europa, o Canadd, as Estados Unidos, o Japao e a AustrOlia. Observe que a taxa de crescimento aumentou substancialmente apcis 7950 e caiu apos 7970.

Fonte: Robert J. Barro e Xavier Sala-i-Martin, Economic Growth. Nova York: McGraw-Hill, 1995, p. 6. Dados de 1990 a 2000 do World Development Report, 2002.

554 PARTE 9 A ECONOMIA REAL NO LONGO PRAZO

A histOria, entretanto, pode nos dar uma perceN -ao do que é uma taxa normal de progresso tecnolOgico. A Fig,ura 2 mostra o crescimento medio do PIB real per capita no mundo desenvoh4do desde 1870.A desacelera -ao da produtividade é evi- dente: por volta de 1970, a taxa de crescimento caiu de 3,7% para 2,2% (a acelera- ao da produtividade esta ausente desses dados porque é breve e é um fenOmeno

que ocorreu principalmente nos Estados Unidos). Essa fig-ura mostra uma impor- tante se comparada à maior parte da histOria, a anomalia é o crescimento ace- lerado durante as decadas de 50 e 60. Talvez as decadas que se seg-uiran-i a Segunda Guerra Mundial tenham sido um periodo de avanço tecnolOgico anormalmente acelerado e o crescimento tenha desacelerado em 1973 simplesmente porque o progresso tecnolOg,ico estava retomando a uma taxa mais normal. •

Crescimento Populacionai

Os economistas e outros cientistas sociais ha muito debatem sobre os efeitos do crescimento populacional em uma sociedade. 0 efeito mais direto se da sobre o tamanho da foNa de trabalho: uma grande populaio sig,nifica que ha mais traba- lhadores para produzir bens e servios. Ao mesmo tempo, significa que ha mais pessoas para consumir esses bens e servios. Alem desses efeitos Obvios, o cresci- mento populacional interage com outros fatores de produc; -ao de maneiras menos evidentes e mais abertas ao debate.

Expandindo o Aproveitamento dos Recursos Naturais Thomas Robert Malthus (1766-1834), um pastor e pensador econOn-lico ingles, é famoso por seu livro Ensaio sobre o Principio da Popula(co. Nele, Malthus apresentou o que pode ser a previs -ao mais aterradora da histOria. Malthus arg-umentou que um crescimento constante da populac; .ao sobrecarregaria cada vez mais a capacidade da sociedade de se prover. Como resultado, a humanidade estaria condenada a viver para sem- pre na pobreza.

A lOgica de Malthus er