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INSTITUTAS DA RELIGIAO CRISTA
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Joao Calvino - Institutas volume 1

As Institutas

ou Tratado da Religião Cristã

vol. 1

Edição clássica (latim)

João Calvino

11CARTA AO REI

Í N D I C E

Prefácio à 1ª edição ................................................................................................................... 17 Prefácio à 2ª edição ................................................................................................................... 21 Carta ao Rei Francisco I ............................................................................................................ 23 Prefácio à edição de 1559 ......................................................................................................... 43 Prefácio à edição francesa de 1541 e subseqüentes, nessa língua ............................................ 45

CAPÍTULO I

O CONHECIMENTO DE DEUS E O CONHECIMENTO DE NÓS MESMOS SÃO COISAS CORRELATAS E SE INTER-RELACIONAM

1. O conhecimento de nós mesmos nos conduz ao conhecimento de Deus ........................................ 47 2. O conhecimento de Deus nos leva ao conhecimento de nós mesmos ............................................. 48 3. O homem ante a majestade divina ................................................................................................ 49

CAPÍTULO II

EM QUE CONSISTE CONHECER A DEUS E A QUE FIM LHE TENDE O CONHECIMENTO

1. Piedade é o requisito para se conhecer a Deus ............................................................................... 50 2. Confiança e reverência são fatores do conhecimento de Deus ....................................................... 51

CAPÍTULO III

O CONHECIMENTO DE DEUS FOI POR NATUREZA INSTILADO NA MENTE HUMANA

1. Universalidade do sentimento religioso ........................................................................................ 53 2. Religião não é invencionice gratuita ............................................................................................. 54 3. Impossibilidade de ateísmo real .................................................................................................... 55

CAPÍTULO IV

ESTE MESMO CONHECIMENTO É SUFOCADO OU CORROMPIDO, EM PARTE PELA IGNORÂNCIA, E EM PARTE PELA DEPRAVAÇÃO

1. Superstição ..................................................................................................................................... 57 2. Apostasia ........................................................................................................................................ 58 3. Idolatria .......................................................................................................................................... 59 4. Hipocrisia ....................................................................................................................................... 59

CAPÍTULO V

O CONHECIMENTO DE DEUS FULGE NA OBRA DA CRIAÇÃO DO MUNDO E EM SEU CONTÍNUO GOVERNO

1. Inescusabilidade do homem ........................................................................................................... 61 2. Visibilidade da sabedoria divina ................................................................................................... 62 3. O ser humano é evidência máxima da sabedoria divina ................................................................. 63 4. A ingratidão humana em relação a Deus ....................................................................................... 63

12 LIVRO I

5. Confusão de criatura e Criador ..................................................................................................... 64 6. A soberania de Deus sobre a criação ............................................................................................. 66 7. O governo e o juízo de Deus ........................................................................................................ 67 8. O soberano domínio de Deus sobre a vida humana ..................................................................... 68 9. Deus melhor visualizado em suas obras do que em especulações da razão .................................. 69 10. Propósito deste conhecimento ................................................................................................... 70 11. Cegueira humana ante a evidência de Deus na criação ............................................................... 71 12. A superstição humana e o engano dos filósofos constituem obstáculos à manifestação divina ... 72 13. Ao Espírito Santo é abominável toda e qualquer religião de procedência humana ..................... 74 14. Insuficiência da manifestação de Deus na ordem natural ........................................................... 75 15. Inescusabilidade final do homem .............................................................................................. 76

CAPÍTULO VI

PARA QUE ALGUÉM CHEGUE A DEUS O CRIADOR É NECESSÁRIO QUE A ESCRITURA SEJA SEU GUIA E MESTRA

1. O verdadeiro conhecimento de Deus na Bíblia ............................................................................ 77 2. A Bíblia, a Palavra de Deus escrita .............................................................................................. 78 3. A Bíblia é o único escudo a proteger do erro ............................................................................... 79 4. A superioridade revelacional da Bíblia sobre a criação ................................................................ 80

CAPÍTULO VII

POR QUE É NECESSÁRIO QUE SE ESTABELEÇA O TESTEMUNHO EM PROL DA ESCRITURA PARA QUE SUA AUTORIDADE SEJA INDUBITÁVEL: EVIDENTEMENTE, DO ESPÍRITO. DAÍ SER ÍMPIA FALSIDADE SUSTENTAR QUE SUA CREDIBILIDADE

DEPENDE DO ARBÍTRIO DA IGREJA

1. A autoridade da Bíblia provém de Deus, não da Igreja ................................................................. 81 2. A Igreja está fundamentada na Bíblia ........................................................................................... 82 3. Agostinho não contraria esta tese ................................................................................................. 83 4. O testemunho interior do Espírito é superior a toda prova ........................................................... 84 5. A Bíblia é autenticada pelo Espírito ............................................................................................. 85

CAPÍTULO VIII

ATÉ ONDE LEVA A RAZÃO HUMANA, HÁ PROVAS SUFICIENTEMENTE SÓLIDAS PARA ESTABELECER A CREDIBILIDADE DA ESCRITURA

1. Superioridade da Bíblia em relação a toda a sabedoria humana ................................................... 88 2. Beleza estilística de certas porções da Bíblia ............................................................................... 89 3. A antigüidade da Bíblia ............................................................................................................... 90 4. A fidedignidade de Moisés ........................................................................................................... 90 5. Os milagres reforçam a autoridade de Moisés, o mensageiro divino ............................................ 91 6. Incontestabilidade dos milagres mosaicos ................................................................................... 92 7. Cumprimento das profecias mosaicas .......................................................................................... 92 8. Cumprimento de predições de outros profetas ............................................................................. 93 9. Preservação e transmissão da lei .................................................................................................. 94 10. A Bíblia foi maravilhosamente preservada por Deus .................................................................. 95 11. Simplicidade e autoridade do Novo Testamento ........................................................................ 96 12. Perenidade da Bíblia .................................................................................................................. 97 13. Testemunho dos mártires ............................................................................................................ 98

13CARTA AO REI

CAPÍTULO IX

OS FANÁTICOS QUE, POSTA DE PARTE A ESCRITURA, ULTRAPASSAM A REVELAÇÃO E SUBVERTEM A TODOS OS PRINCÍPIOS DA PIEDADE

1. Apelo fanático ao Espírito em detrimento da Escritura ................................................................ 99 2. A Bíblia é o árbitro do Espírito .................................................................................................... 100 3. A Bíblia e o Espírito Santo não se dissociam .............................................................................. 101

CAPÍTULO X

PARA CORRIGIR TODA SUPERSTIÇÃO, A ESCRITURA CONTRAPÕE TODOS OS DEUSES DOS PAGÃOS EXCLUSIVAMENTE O DEUS VERDADEIRO

1. A doutrina bíblica de Deus como Criador .................................................................................. 103 2. Os atributos divinos atestados, de igual modo, na Bíblia e na criação ....................................... 103 3. Os idólatras são inescusáveis ante a noção generalizada da unicidade de Deus ......................... 105

CAPÍTULO XI

É UMA ABOMINAÇÃO ATRIBUIR FORMA VISÍVEL A DEUS, E GERALMENTE SE APARTAM DO DEUS VERDADEIRO QUANTOS ESTABELECEM ÍDOLOS PARA SI

1. Representar a Deus através de imagens é corromper-lhe a glória ............................................... 106 2. Representar a Deus por meio de imagens é contradizer-lhe o ser .............................................. 107 3. Manifestações e sinais que patenteavam a presença divina não servem de base para as imagens 108 4. A Bíblia condena imagens e representações de Deus ................................................................. 109 5. A Bíblia não justifica a representação iconoclástica ................................................................... 111 6. O parecer contra as imagens de certos vultos da patrística ........................................................ 111 7. Inaceitabilidade das imagens do romanismo .............................................................................. 112 8. A feitura de imagens procede do desejo de tocar a Deus ............................................................ 113 9. O uso das imagens conduz à idolatria ........................................................................................ 114 10. O culto de imagens então reinante ........................................................................................... 116 11. O sofisma do culto de latria e dulia .......................................................................................... 116 12. Função e limitação litúrgica da arte .......................................................................................... 117 13. A introdução de imagens na história da Igreja .......................................................................... 118 14. Argumentos enganosos que embasam a decisão iconólatra do Concílio de Nicéia de 787 ....... 119 15. O absurdo da hermenêutica bíblica dos paladinos da iconolatria ............................................. 120 16. Pronunciamentos e práticas blasfemas e absurdas em relação à iconolatria ............................. 121

CAPÍTULO XII

IMPORTA QUE DEUS SEJA DISTINGÜIDO DOS ÍDOLOS, PARA QUE SE CULTUE INTEGRALMENTE SOMENTE ELE

1. A verdadeira religião proclama o Deus único e absoluto ............................................................. 123 2. A ilusória distinção de latria e dulia ........................................................................................... 124 3. Improcedência do culto de dulia à luz das Escrituras ................................................................. 125

CAPÍTULO XIII

NAS ESCRITURAS, DESDE A PRÓPRIA CRIAÇÃO, SE ENSINA UMA ESSÊNCIA ÚNICA DE DEUS, QUE EM SI CONTÉM TRÊS PESSOAS

1. Infinitude e incorporeidade de Deus ............................................................................................ 127 2. A questão de três pessoas e a unidade substancial de Deus ........................................................ 128

ÍNDICE

14 LIVRO I

3. Adequação dos termos Trindade e Pessoaà interpretação do conceito bíblico ........................... 129 4. Utilidade dos termos Trindade e Pessoa em relação a conceitos heréticos ................................ 130 5. Sentido e distinção de termos fundamentais, a saber, substância, consubstancial, essência,

hipóstase, pessoa e trindade ...................................................................................................... 131 6. Pessoa, essência e subsistência .................................................................................................. 133 7. Deidade do Verbo ...................................................................................................................... 134 8. Eternidade do Verbo .................................................................................................................. 135 9. Evidências veterotestamentárias quanto à divindade de Cristo .................................................. 136 10. O Anjo das teofanias era Cristo ................................................................................................ 137 11. Os apóstolos aplicam a Cristo o que fora dito do Deus eterno .................................................. 139 12. As obras de Cristo atestam sua divindade ................................................................................. 140 13. Os milagres de Cristo e as prerrogativas divinas que lhe são outorgadas atestam sua divindade 141 14. A obra do Espírito Santo atesta sua divindade ......................................................................... 142 15. O Espírito identificado com a Deidade .................................................................................... 143 16. A unidade de Deus à luz do batismo ........................................................................................ 144 17. Três pessoas: distinção, não divisão ......................................................................................... 145 18. Funções distintivas das pessoas da Trindade ........................................................................... 146 19. O relacionamento hipostático e a unidade consubstancial ........................................................ 147 20. O conceito básico do Deus Triúno ........................................................................................... 148 21. A atitude própria em relação a esta doutrina e às heresias que se lhe opõem ........................... 149 22. A obstinação dos antitrinitários, principalmente Serveto .......................................................... 150 23. Há no Filho a mesma divindade do Pai .................................................................................... 152 24. O termo Deus não se aplica exclusivamente ao Pai; ele é igualmente extensivo à Palavra ....... 154 25. A essência única de Deus é comum às três pessoas .................................................................. 156 26. A subordinação do Filho não lhe implica divindade de categoria inferior ................................ 157 27. Irineu está longe de legitimar a tese dos que negam a Deidade de Cristo ................................ 159 28. Nem mais favorável lhes é Tertuliano ....................................................................................... 160 29. O testemunho patrístico em geral confirma a doutrina da Trindade ......................................... 160

CAPÍTULO XIV

ATÉ MESMO NA PRÓPRIA CRIAÇÃO DO MUNDO E DE TODAS AS COISAS, COM INCONFUNDÍVEIS MARCAS A ESCRITURA DISTINGUE O

DEUS VERDADEIRO DOS FALSOS DEUSES

1. O conhecimento de Deus à base da criação e o despautério da especulatividade ........................ 163 2. A bondosa providência de Deus para com o homem se acha espelhada na obra dos seis dias da

criação ........................................................................................................................................ 165 3. Os anjos são criaturas de Deus, que é de tudo o Senhor ............................................................ 165 4. Em matéria de angelologia, deve-se buscar somente o testemunho da Escritura ......................... 167 5. Funções e designativos dos anjos ............................................................................................... 168 6. O ministério dos anjos a velarem de contínuo pela proteção dos crentes ................................... 169 7. Precária é a base para afirmar-se a realidade de anjo da guarda individual ................................ 170 8. Hierarquia, número e forma dos anjos ....................................................................................... 170 9. A realidade pessoal dos anjos ..................................................................................................... 171 10. Improcedência da angelolatria .................................................................................................. 172 11. O ministério dos anjos motivado pela necessidade humana ...................................................... 173 12. Nossos olhos não devem desviar-se de Deus para os anjos ...................................................... 174 13. A luta contra o Diabo e suas hostes .......................................................................................... 175 14. O batalhão demoníaco é vasto ................................................................................................... 175

15CARTA AO REI

15. A malignidade do Diabo ........................................................................................................... 176 16. A degenerescência dos seres diabólicos .................................................................................... 177 17. O poder do Diabo está sujeito à autoridade de Deus ................................................................ 177 18. Limitação do poder satânico sobre os crentes e domínio sobre os incrédulos .......................... 178 19. A realidade pessoal dos seres diabólicos .................................................................................. 180 20. O que a criação nos ensina concernente a Deus ....................................................................... 181 21. A que nos deve conduzir a contemplação das obras de Deus ................................................... 182 22. Deus criou todas as coisas para o bem do homem, daí a gratidão que lhe devemos .................. 183

CAPÍTULO XV

COMO O HOMEM FOI CRIADO: ONDE SE TRATA DAS FACULDADES DE SUA ALMA, DA IMAGEM DE DEUS, DO LIVRE-ARBÍTRIO E DA INTEGRIDADE

ORIGINAL DE SUA NATUREZA

1. O homem foi criado sem mácula: Deus não é culpado do pecado humano ................................. 185 2. Espiritualidade e imortalidade da alma, contudo distinta do corpo ............................................. 186 3. O homem é imagem e semelhança de Deus ................................................................................ 188 4. A verdadeira natureza da imagem de Deus só determinável à luz da concepção bíblica da

regeneração em Cristo ................................................................................................................. 190 5. O emanacionismo dos maniqueus quanto à origem da alma ....................................................... 191 6. Definição e propriedade da alma ................................................................................................ 192 7. Entendimento e vontade: os centros das faculdades da alma ...................................................... 195 8. Livre-arbítrio e responsabilidade de Adão .................................................................................. 195

CAPÍTULO XVI

DEUS, POR SEU PODER, SUSTENTA E PRESERVA O MUNDO POR ELE CRIADO, E POR SUA PROVIDÊNCIA ELE REGE CADA UMA DE SUAS PARTES

1. A providência, corolário lógico da criação, razão por que não se separam .................................. 198 2. O que rege o mundo é a providência, não o acaso ou a sorte ...................................................... 199 3. Deus, causa primeira, também a tudo rege em sua providência .................................................. 200 4. Natureza da providência: não envolve presciência; é atual e eficaz, universal e particular ........ 202 5. A providência especial de Deus no âmbito da própria natureza .................................................. 204 6. A providência especial de Deus no âmbito da vida humana ........................................................ 205 7. A providência de Deus no âmbito dos fatos naturais .................................................................. 206 8. A doutrina da providência não é mera crença no destino ou fado, na sorte ou acaso .................. 207 9. A imprevisibilidade e ignorância humanas não discernem a causação divina dos eventos ........... 208

CAPÍTULO XVII

ATÉ ONDE E A QUE PROPÓSITO SE DEVE APLICAR ESTA DOUTRINA, PARA QUE SEU PROVEITO SE NOS EVIDENCIE

1. Sentido e alcance da providência ................................................................................................ 211 2. A reverência devida à providencial sabedoria e governo de Deus ............................................... 212 3. A providência não anula a responsabilidade humana .................................................................. 214 4. A providência divina longe está de dispensar todos os meios de proteção e socorro .................. 215 5. A providência divina não nos justifica a iniqüidade ................................................................... 216 6. O conforto que aos crentes propicia a doutrina da providência de Deus .................................... 218 7. A atitude do crente tocado pela visão da providência benigna de Deus ...................................... 219 8. A serenidade que a certeza da providência divina faculta ante as adversidades ........................... 220

ÍNDICE

16 LIVRO I

9. Relevância das causas intermédias ............................................................................................. 221 10. A certeza da providência divina nos sustenta ante os perigos múltiplos que nos ameaçam ....... 222 11. A certeza da providência divina nos propicia jubilosa confiança em Deus e sua operação ........ 223 12. Sentido das passagens que falam de arrependimento por parte de Deus ................................... 225 13. Arrependimento em Deus, antropomorfismo pedagógico ......................................................... 226 14. A condicionalidade dos fatos na perspectiva da soberana providência de Deus ........................ 227

CAPÍTULO XVIII

DEUS DE TAL MODO USA AS OBRAS DOS ÍMPIOS E A DISPOSIÇÃO LHES VERGA A EXECUTAR SEUS JUÍZOS, QUE ELE PRÓPRIO PERMANECE LIMPO DE TODA MÁCULA

1. Eficiência, não permissividade, é a relação de Deus para com a ação dos ímpios ....................... 229 2. A eficiência da providência divina na mente e coração de todos ................................................. 231 3. A vontade de Deus é una e soberana ........................................................................................... 233 4. Não é procedente incriminar a Deus pelo fato de fazer uso dos ímpios para seus propósitos

magnos ........................................................................................................................................ 235

17CARTA AO REI

P R E F Á C I O À 1ª E D I Ç Ã O

Indiscutivelmente, é João Calvino o pensador máximo da Reforma e sua famosa obra, as chamadas Institutas, o magnumopus não apenas de seus escritos, mas de toda a literatura produzida pelos Reformadores. Verdadeira aberração histórica, de um lado, deplorável lacuna teológica, de outro, mais até, pasmosa expressão da incúria ou displicência da liderança eclesiástica, esta obra monumental ainda não existe em português decorridos quatro séculos de existência da fé reformada! O presbiterianismo brasileiro, entretanto, de longa data vem clamando pela tradução das Institutas. Iniciativa tomada neste sentido, passados já duas décadas e mais de um lustro, ainda não parece haver vindo ao encontro desse desideratum. Em1970, se me não trai a memória, o Congresso de Homens Presbiterianos reunido no Recife dirigiu à direção da Igreja Presbiteriana do Brasil pedido formal a que providencias- se essa desejada, mas retardada tradução. Presente ao conclave, fui instado pelo então Presidente do Supremo Concílio a assumir essa tarefa, fazendo a tradução diretamente do latim, ao invés de o ser da versão francesa. Foi só em 1973, entretan- to, que, gozando de um estágio nos Estados Unidos, mercê da deferência da Chris- tian Reformed Church, pude tentar atender à incumbência. De fato, nesse período traduzi todo o livro I. Escrevi, porém, ao Presidente do Supremo Concílio que a tradução exigiria muito mais tempo e se faria de mister reduzir-se-me-ia o trabalho de docente no Seminário, que eu então exercia. Retornando ao Brasil, absorvido pelas obrigações do magistério e voltado à redação de meu Manual de Grego, des- continuei a tradução até 1979, quando, já agora professor da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), consegui que a tradução fosse aceita como correspon- dendo ao trabalho de pesquisa exigida dos professores dessa egrégia instituição de ensino. Revi a tradução já feita do livro Igreja e prossegui por um terço do livro II, quando, discutindo a matéria com o professor Franz Leonard Schalkwijk, do Semi- nário Presbiteriano do Recife, concluí que a obra assumira caráter excessivamente acadêmico, seja na linguagem demasiado erudita, seja nas notas inclusas, dada a forma do original latino para cada frase e cláusula. Resolvi, pois, não só refazer a redação, mas também reduzir ao mínimo necessário as referências e notas explica- tivas. É esta tradução revista que, com muitas graças ao Senhor, carinhosamente ofereço agora aos estudiosos, no desejo sincero de enriquecer-lhes a vida espiritual e legar à Igreja um tesouro precioso para a obra de doutrinação e aprofundamento teológico. Praza a Deus abençoa-la, para que alcance esse alvo, motivo de minhas orações e recompensa máxima de meus esforços.

18 LIVRO I

Uma palavra de explicação se impõe. Ante um documento histórico dessa im- portância e de teor tão distanciado da forma vernácula, um dilema se interpunha: ou apegar-me ao texto, buscando-lhe a máxima fidelidade, ou, com vistas à clareza da tradução, afastar-me sensivelmente do original. Optei pela primeira alternativa, dei- xando a futuros expositores a incumbência de interpretar e afeiçoar a expressão de Calvino a moldes mais comunicativos e a forma de fato mais vernácula, mais livre e atualizada, parafraseada até. Logo, em ser literal, busquei reter, tanto quanto exe- qüível, o exato sentido do original latino, quiçá a própria terminologia, se não a fraseologia, pois estou que a primeira e principal qualidade de uma boa tradução é a máxima fidelidade ao que diz o autor. Se, por vezes, a linguagem parece algo obscu- ra e especiosa, isso se deve à própria natureza do latim e ao estilo de Calvino, que não parece azado modificar. Todavia, inserem-se, em colchetes, palavras e expres- sões que, não parte do original, visam a tornar mais clara a tradução. Ademais, aduzem-se explicações e variantes ou alternativas à forma adoptada, facilitada, as- sim, a compreensão do texto. Entretanto, é uma obra que tem de ser lida de forma pausada, refletida, cuidadosa, sem sofreguidão nem açodamento, a atenção voltada para com o contexto e a tônica da matéria enfocada.

Afigurou-se proveitoso cotejar a tradução presente com outras de fácil acesso. Destarte, fiz uso da Edição Francesa, texto atualizado de Pierre Marcel e Jean Cadi- er, de 1955 (abreviatura: EF), da valiosa tradução para o inglês de Ford Lewis Bat- tles, edição de 1961 (abreviatura: B), da tradicional tradução de John Allen, 7a. edição americana, de 1936 (abreviatura: A), da versão alemã de Karl Muller, edição de 1928 (abreviatura: KM) e da espanhola de Cipriano de Valera, na forma da revi- são de 1967 (abreviatura: CR). Até onde possível, verifiquei as referências feitas aos acervos da Patrologia Latina de Magne (PLM) e sua congênere, a Patrologia Grega (PGM), bem como à Loeb Classical Library (LCL) e ao Corpus Scriptorum Ecclesiasticorum Latinorum (CSEL), de outra sorte citados conforme se mencio- nam nas versões cotejadas.

Ponto que merece esclarecimento é o referente às citações de textos bíblicos. Mantive a forma adoptada pelo próprio Calvino. Não é o texto da Vulgata, pelo menos na Versão Clementina, dela divergindo, por vezes, sensivelmente. É matéria para interessante consideração da Crítica Textual. Ademais, parece Calvino modifi- ca-los, alterá-los, adapta-los, fundindo passagens ou fracionando-as, conforme o a que visava, proceder longe de estranhável em uma época em que a moderna divisão capitular e versicular ainda não era generalizada, muito menos estereotipada, nem os cânones critico-textuais fixados e reconhecidos como hoje. Este é, portanto, um aspecto em que se há de atualizar ou revisar o texto ao aplica-lo em moldes corren- tes. A fidelidade histórica, entretanto, não permitiria referi-los em termos das tradu- ções modernas ou do texto agora vigente.

19CARTA AO REI

Muito e a muitos teria de registrar meu profundo agradecimento para que pu- desse levar a cabo esta para mim venturosa empreitada. Primeiramente, a Deus, Pai Amantíssimo, que me conservou com vida e conferiu a capacidade para esta delica- da e morosa tarefa; à Christian Reformed Church o propiciar-me período de estudos que me facultaram o contacto primeiro com o esforço de tradução, bem como o interesse na presente edição, objetivando em valioso subsídio financeiro; ao Dr. Peter de Klerk, bibliotecário do Calvin College, Grand Rapids, Michigan, a valiosa colaboração prestada no uso de obras de seu acervo e informações fornecidas poste- riormente; assim, ao Rev. Júlio Andrade Ferreira que, generosamente, tanto me as- sistiu com livros de que tive necessidade ao longo de todo o demorado labor da tradução; à Unicamp o sólido apoio à iniciativa, expresso na aceitação deste traba- lho como parte dos encargos exigidos dos docentes; ao professor Rodolfo Ilari, colega de docência, a inestimável ajuda na consecução desse apoio; ao Rev. Celsino da Cunha Gama, Diretor Executivo de Luz Para o Caminho, o empenho em fazer com que a obra viesse a lume, assumindo de começo a dura tarefa de publicação; ao presbítero Glaycon Andrade Ferreira, que se desdobrou na revisão primeira da com- posição; ao presbítero Dr. Paulo Breda Filho, Presidente do Supremo Concílio da Igreja Presbiteriana do Brasil, ao presbítero Antonio Ribeiro Soares, Diretor Supe- rintendente da Casa Editora Presbiteriana, e ao Rev. Sabatini Lalli, o interesse em ter a obra publicada sob o patrocínio da Igreja Presbiteriana do Brasil, como sempre desejamos. Ao Rev. Sabatini, ademais, o penoso trabalho de revisão final e as opor- tunas sugestões feitas na parte redacional. À minha nobre esposa, Amélia Stephan Luz, a dedicação e ajuda prestadas de mil e uma formas, sem o que não teria eu tido condições de levar a cabo a árdua empreitada. Aos estudantes do Seminário Presbi- teriano de Campinas e a muitos colegas o generoso estímulo, demonstrado vezes tantas e de tantas maneiras. De reconhecimento especial, finalmente, é credora a Comissão Calvino, constituída de ilustres irmãos do Norte, centralizados no Recife, que me respaldaram o esforço com sugestões preciosas, certa ajuda financeira até que assumi a docência com tempo integral na Universidade, leal incentivo e muita oração.

Que lhes recompense a todos a nobreza de alma o grande Senhor Nosso. E que seja este esforço, fruto de intenso labor e especial carinho, ricamente abençoado por Deus de sorte que dele possam muitos auferir grande proveito espiritual e muito estímulo para testemunhar eficazmente de Cristo e seu Evangelho.

Campinas, junho de 1984

Waldyr Carvalho Luz

PREFÁCIO À 1ª ED ÇÃO

20 LIVRO I

21CARTA AO REI

P R E F Á C I O À 2ª E D I Ç Ã O

É fato assaz auspicioso que a primeira edição das Institutas em nossa língua portu- guesa haja sido toda vendida em pouco mais de uma década de sua publicação. Por um lado, demonstra que nosso meio cultural, apesar de tantas limitações e carências, se esmera em cultivar e aprofundar seus conhecimentos teológicos, não desdenhando uma obra que, embora produzida no século 16, é de imensa atualidade, não somente porque representa a magnum opus da Reforma Protestante, documento histórico de real grandeza, mas também porque é uma sistematização da doutrina bíblica de invul- gar profundidade e acuracidade hermenêutica irretorquível, fundamento essencial do pensamento protestante clássico. Por outro lado, revela uma visão compreensiva e ampla do mundo teológico, o mais das vezes afeito a vultos e obras ditas modernas, modismos efêmeros e superficiais, de pouca duração e mesmo raízes.

A presente edição difere da anterior em que não mais se aduzem as repetidas notas de rodapé que registravam variantes comparativas de tradução verificadas em duas versões do inglês, da alemã, da espanhola e, mesmo, da francesa. Também, a critério dos editores, retiram-se os colchetes que assinalavam termos e formas que, não en- contradas no texto latino original, o tradutor inseriu para efeitos de clareza e expres- são, como é o caso dos artigos definido e indefinido e do pronome da terceira pessoa, ausentes na língua latina, que nós, falantes luso-brasileiros adaptamos do demonstra- tivo ille, illã, illud, em sua forma acusativa. Tais aduções bem que poderiam aparecer em itálico ou negrito. Tratando-se de documento de tal vulto, ao traduzirmo-lo, procu- ramos, sem sermos literais, ater-nos ao estilo e terminologia de Calvino o mais possí- vel, pelo que nem sempre a tradução é clara e fluente como seria de desejar-se. Os editores, para tornar o texto mais lúcido e acessível, tomaram a liberdade de fazer certos ajustes e alterações, registrando, porém, em nota de rodapé a forma integral da tradução de nossa lavra na primeira edição. É preciso que o leitor tenha em mãos exatamente o que o teólogo de Genebra escreveu, sem deturpações ou falseamento do teor, exatidão necessária em documento desse jaez e importância.

Congratulamo-nos com a Editora Cultura Cristã pela arrojada, mas oportuna, iniciativa de reeditar as Institutas e alegramo-nos em poder continuar facultando ao estudioso Calvino falado em nosso idioma.

Abençoe o Senhor este nobre empreendimento.

Campinas, setembro de 2003 Waldyr Carvalho Luz

22 LIVRO I

23CARTA AO REI

C A R T A A O R E I F R A N C I S C O I

Ao Mui Poderoso e Ilustre Monarca,

FRANCISCO,

Cristianíssimo Rei dos Franceses,

seu Príncipe,

JOÃO CALVINO

Roga Paz e Salvação em Cristo

1. CIRCUNSTÂNCIAS EM QUE A OBRA FOI INICIALMENTE ESCRITA

Quando, de início, tomei da pena para redigir esta obra, de nada menos cogitava, ó mui preclaro Rei, que escrever algo que, depois, houvesse de ser apresentado peran- te tua majestade. O intento era apenas ensinar certos rudimentos, mercê dos quais fossem instruídos em relação à verdadeira piedade quantos são tangidos de algum zelo de religião. E este labor eu o empreendia principalmente por amor a nossos compatrícios franceses, dos quais a muitíssimos percebia famintos e sedentos de Cristo, pouquíssimos, porém, via que fossem devidamente imbuídos pelo menos de modesto conhecimento. Que esta me foi a intenção proposta, no-lo diz o próprio livro, composto que é em uma forma de ensinar simples e, por assim dizer, superficial.

Como, porém, me apercebesse de até que ponto tem prevalecido em teu reino a fúria de certos degenerados, de sorte que não há neles lugar nenhum à sã doutrina, dei-me conta da importância da obra que estaria para fazer, se, mediante um mesmo tratado, não só lhes desse um compêndio de instrução, mas ainda pusesse diante de ti uma confissão de fé, mercê da qual possas aprender de que natureza é a doutrina que, com fúria tão desmedida, se inflamam esses tresloucados que, a ferro e fogo, conturbam hoje teu reino. Pois nem me envergonharei de confessar que compendiei aqui quase que toda a súmula dessa mesma doutrina que aqueles vociferam deveria ser punida com o cárcere, o exílio, o confisco, a fogueira, que deveria ser extermina- da por terra e mar.

2. DEFESA DOS FIÉIS PERSEGUIDOS

Sei perfeitamente de quão atrozes denúncias teriam eles enchido teus ouvidos e mente, no afã de tornar nossa causa diante de ti a mais odiosa possível. Mas, em função de tua clemência, isto deve ser-te cuidadosamente ponderado, se é suficiente

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haver acusado, que nenhuma inocência haverá de subsistir, nem nas palavras, nem nas ações.

Se no interesse de suscitar ódio, porventura alguém alegue que esta doutrina, da qual estou tentando dar-te a razão, já por muitos tem sido condenada pelo veredicto de todos os Estados, solapada por muitas sentenças peremptivas dos tribunais, outra coisa não estará a dizer senão que, em parte, ela tem sido violentamente pisoteada pela facciosidade e prepotência dos adversários; em parte, insidiosa e fraudulenta- mente oprimida por suas falsidades, invencionices e calúnias.

Constitui arbitrariedade o fato de que, não facultada oportunidade de defesa a uma causa, contra ela se passem sanguinárias sentenças; é dolo que, à parte de qualquer delito, ela seja acusada de fomentar sedições e promover malefícios.

Para que não pense alguém que estamos a queixar-nos dessas coisas injusta- mente, tu mesmo, ó Rei nobilíssimo, podes ser-nos testemunha de com que mentiro- sas calúnias ela é diariamente trazida diante de ti, como se a outro fim não disponha senão arrebatar das mãos dos reis os cetros, pôr por terra todos os tribunais e normas judiciárias, subverter a todas as instituições e estruturas político-administrativas, perturbar a paz e a tranqüilidade públicas, anular todas as leis, desmantelar domíni- os e posses, enfim, promover total ruína de tudo. E, no entanto, o que ouves é ape- nas uma parcela mínima. Pois que certas coisas horrendas se espalham entre o povo, coisas que, se fossem verdadeiras, deveria o mundo inteiro, com merecida razão, julgá-la digna, juntamente com seus autores, de mil fogueiras e cruzes.

Quem a esta altura haveria de surpreender-se de que, onde se dá crédito a essas civilizações profundamente iníquas, contra ela se tem inflamado o ódio público?

Eis por que todas as suas classes, de comum acordo, concordam e cooperam em nossa condenação, bem como de nossa doutrina, arrebatados por esta paixão, quan- tos se assentam nos tribunais para exercer o juízo, em lugar de sentenças reais, pronunciam os preconceitos que trouxeram de casa. E julgam haver-se criteriosa- mente desincumbido de suas funções, se a ninguém ordenam que seja levado ao suplício, a não ser que seja incriminado por confissão direta ou por sólidos teste- munhos.

Mas, de que crime? Dessa doutrina condenada, dizem-no. Mas, em bases de que direito foi ela condenada? Ora, isto deveria ser a essência da defesa, a saber, não repudiar a própria doutrina, ao contrário, havê-la por verdadeira. Aqui, no entanto, nos é vedado até mesmo o direito de falar em surdina!

3. APELO EM FAVOR DOS FIÉIS OPRIMIDOS

E assim, não sem justa razão, ó Rei invictíssimo, rogo-te que empreendas cabal investigação desta causa, causa que até agora tem sido tratada desordenadamente,

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quando não de todo tumultuada, e sem nenhuma sistemática de direito, e mais sob a agitação do impulso de seriedade condigna do judiciário.

Nem julgues que estou aqui arquitetando minha defesa pessoal, mercê da qual me resulte seguro regresso à pátria, da qual, embora a ame tanto quanto é próprio do sentimento humano, no pé em que estão as coisas atualmente não deploro profunda- mente estar dela distanciado. Antes, estou a abraçar a causa comum de todos os piedosos, que outra não é senão a própria causa de Cristo que, de todos os modos, jaz hoje em teu reino lacerada e espezinhada, dir-se-ia reduzida a desesperada con- dição, isto, por certo, mais em decorrência da tirania de certos fariseus do que de teu querer.

Aqui, porém, a nada leva denunciar como isso acontece. O certo é que esta causa está sofrendo dura opressão. Isto, pois, os ímpios têm conseguido: que a verdade de Cristo, se não é aniquilada como que em debandada e destroço, por certo que será ostentada como que enxovalhada e vilipendiada. E a pobrezinha da Igreja está ou devastada por cruéis morticínios, ou arruinada por banimentos, ou ralada por ameaças e terrores, que nem sequer ousa alçar a voz. E, ainda agora, com a costumeira insânia e ferocidade, investem desabusados contra a muralha que já está a desmoronar-se, e prontos a levar a plena consumação a devastação a que se acos- tumaram. Entrementes, ninguém vem à frente para opor-se, em sua proteção, a tais explosões de violência. E se alguns há que desejam ser tidos como a favorecer especialmente a verdade, são eles de parecer que se devam ignorar o erro e a impru- dência de homens incultos. Assim, pois, falam homens comedidos, chamando de erro e imprudência o que sabem ser a plena verdade de Deus; e chamando de ho- mens incultos, aqueles cuja inteligência vêem não ter sido, de modo algum, despre- zível a Cristo, uma vez que ele os teve por dignos dos mistérios de sua celestial sabedoria! A tal ponto, todos se envergonham do evangelho!

Cumprir-te-á, portanto, ó Rei sereníssimo, não apartares os ouvidos, nem a mente de tão justa defesa, mormente quando está em jogo questão de tão alta importância, a saber: como se fará patente na terra o caráter intocável da glória de Deus, como sua dignidade retenha a verdade de Deus, como entre nós o reino de Cristo perma- necerá íntegro e inabalável. Matéria essa digna de tua atenção, digna de teu conhe- cimento, digna de teu juízo!

Com efeito, certamente esta consideração faz o verdadeiro rei: reconhecer-se um ministro de Deus na gestão do reino. Aquele que assim não reina para o serviço da glória de Deus não exerce o reino; ao contrário, exerce a usurpação. Ademais, muito se engana quem espera a prosperidade diária do reino que não é regido pelo cetro de Deus, isto é, por sua santa Palavra, quando não pode falhar o oráculo celes- te em que se proclamou, a saber, onde haja faltado a profecia, haverá de espalhar-se o povo [Pv 29.18].

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Tampouco deve privar-te desse esforço o menosprezo de nossa humildade. De quão insignificantes somos, e abjetos homúnculos, na verdade disso estamos hones- tamente cônscios. Sim, diante de Deus, míseros pecadores; à vista dos homens, absolutamente desprezíveis, escória e lixo do mundo; se o queres, ou qualquer outra coisa que de mais vil se possa, porventura, referir. De sorte que nada resta de que nos possamos gloriar diante de Deus, senão tão-somente de sua misericórdia [2Co 10.17, 18], mercê da qual, à parte de qualquer mérito nosso [Tt 3.5], fomos admiti- dos à esperança da eterna salvação, nem mesmo diante dos homens nos sobra senão nossa impotência [2Co 11.30; 12.5, 9], o que, a mera admissão, sequer com um aceno, é entre eles suprema ignomínia.

Nossa doutrina, porém, sublime acima de toda glória do mundo, invicta acima de todo poder, importa que seja enaltecida, pois não é nossa, mas do Deus vivo e de seu Cristo, a quem o Pai constituiu Rei, para que domine de mar a mar e desde os rios até os confins do orbe das terras [Sl 72.8]. E de tal forma, em verdade, deve ele imperar, que, percutida só pela vara de sua boca, a terra toda, com seu poder de ferro e bronze, com seu resplendor de ouro e prata, ele a despedaçará como se outra coisa não fosse senão diminutos vasos de oleiro, na exata medida em que os profetas vaticinam acerca da magnificência de seu reino [Dn 2.34; Is 11.4; Sl 2.9].

Nossos adversários, é verdade, vociferam em contrário que nos servimos alei- vosamente da Palavra de Deus, da qual, a seu ver, seríamos os mais depravados corruptores. Esta, na verdade, não só é uma calúnia por demais maldosa, mas ainda é um deslavado despudoramento; tu próprio, ao leres esta nossa confissão, em virtu- de da prudência que te assiste, o poderás julgar. Aqui também será bom dizer algu- ma coisa, a qual te provoque ou desejo e atenção, ou pelo menos te abra algum caminho para lê-la.1

Quando Paulo quis que toda profecia fosse conformada à analogia da fé (Rm 12.6), estabeleceu uma regra extremamente segura, pela qual deva ser testada a interpretação da Escritura. Portanto, se a doutrina nos é esquadrinhada à base desta regra de fé, nas mãos nos está a vitória. Pois, que melhor se coaduna com a fé e mais convenientemente do que reconhecer que somos despidos de toda virtude, para que sejamos vestidos por Deus; vazios de todo bem, para que sejamos por ele plenifica- dos; escravos do pecado, para que sejamos por ele libertados; cegos, para que seja- mos por ele iluminados; coxos, para que sejamos por ele restaurados; fracos, para que sejamos por ele sustentados; despojando-nos de todo motivo de glória pessoal, para que somente ele seja glorioso e nós nele nos gloriemos? [1Co 1.31; 2Co 10.17].

Quando dizemos estas e outras coisas desta espécie, interrompem-nos eles e

1. Primeira edição: “Contudo, algo se impõe ainda aqui dizer que à própria leitura ou te desperte o desejo e a atenção, ou, certamente, o caminho [para isso te] aplane.”

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protestam com veemência, dizendo que, desse modo, se subvertem não sei que cega luz da natureza, pretensas preparações, além do livre-arbítrio e das obras meritórias da salvação eterna, com suas supererrogações. É que não podem suportar que em Deus residam o pleno louvor e a glória de todo bem, virtude, justiça e sabedoria.

Com efeito, não lemos que fossem repreendidos os que da fonte da água viva (Jo 4.14) tenham bebido sobejamente. Ao contrário, sofrem pesadas censuras os que cavaram para si cisternas rotas e que não conseguem reter água (Jr 2.13). Por outro lado, que mais se coaduna com a fé do que assegurar-se que Deus nos seja Pai propício onde a Cristo é reconhecido como irmão e propiciador; do que esperar todas as coisas alegres e prósperas confiadamente da parte desse Deus cujo inenar- rável amor para conosco a tal ponto chegou que não poupou ao próprio Filho, entre- gando-o por nós [Rm 8.32]; que aquiescer a segura expectação da salvação e da vida eterna, quando se tem em conta que Cristo nos foi dado pelo Pai, em quem todos os tesouros estão escondidos?

A esta altura, agarram-nos e bradam que não falta a essa certeza da fé arrogância e presunção. Como, porém, nada devemos presumir de nós próprios, assim de Deus se deve presumir tudo. Nem por outra razão nos despojamos de vanglória, senão para que aprendamos a gloriar-nos no Senhor [2Co 10.17; 1Co 1.31; Jr 9.23, 24].

Que mais direi?

Passa em rápida revista, ó mui poderoso Rei, todos os elementos de nossa causa e considera-nos mais execrável que qualquer espécie de homens celerados, se não verificares, com cristalina clareza, que nisto nos afadigamos e sofremos apróbrios, porque depositamos nossa esperança no Deus vivo [1Tm 4.10], porque cremos ser esta a vida eterna: conhecer ao único Deus verdadeiro e àquele a quem ele enviou, Jesus Cristo [Jo 17.3]. Em razão desta esperança, alguns dentre nós são confinados em grilhões, outros fustigados com varas, outros levados de um lado para outro como objeto de ridículo e zombaria; uns forçados ao exílio, outros torturados com extrema crueldade; outros, alijados pela fuga. Todos nos vemos oprimidos pela an- gústia da situação, apostrofados com terríveis execrações, lacerados de infâmias, tratados de maneiras as mais afrontosas.

Atenta, agora, para nossos adversários (falo da classe dos sacerdotes, a cujo arbítrio e talante os demais exercitam hostilidades para conosco, e por um momento pondera comigo de que são levados pelo zelo).

4. ESCRITURA E TRADIÇÃO

Permitem, com pronta facilidade, tanto a si mesmos como aos outros, ignorar, negligenciar, desprezar a verdadeira religião, que foi transmitida pelas Escrituras e que deveria ser mantida constante entre todos. E pensam pouco importar que al-

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guém creia ou deixe de crer acerca de Deus e de Cristo, desde que, pelo que cha- mam fé implícita, submeta o entendimento ao arbítrio da Igreja. Nem se preocupam muito se ocorre que se conspurque a glória de Deus com vociferantes blasfêmias, contanto que ninguém levante um dedo contra o primado da sé apostólica e a auto- ridade da Santa Madre Igreja.

Por que, afinal, lutam com tão acirrada virulência e ferocidade em favor da missa, do purgatória, das peregrinações e baboseiras tais, a ponto de negarem que tem de haver sã piedade, sem, por assim dizer, fé mais explícita nestas coisas, quan- do, entretanto, nada dessas coisas provam eles ser da Palavra de Deus?

Por quê, senão porque Deus é seu ventre [Fp 3.19], a religião a cozinha, priva- dos dos quais não só crêem que não serão cristãos, mas, realmente, nem ainda seres humanos? Ora, embora uns se empanturrem regaladamente, outros roam frágeis migalhas, todos, entretanto, vivem do mesmo caldeirão que, sem esses subsídios, não se esfriaria, não se congelaria de todo. Por isso, já que pelo próprio ventre cada um desses está extremamente solícito, assim cada qual se mostra acérrimo batalha- dor por sua fé. Enfim, todos à uma a isto se votam: ou preservar incólume o poder, ou abarrotar o ventre. Ninguém, contudo, dá sequer a mínima demonstração de zelo sincero.

5. LIBELO ADVERSÁRIO

Nem ainda assim cessam de investir contra nossa doutrina e de invectivá-la e infamá-lacom quantas alcunhas possam, no empenho de torná-la ou odiosa ou sus- peita. Dizem ser ela doutrina nova e originada não há muito. Ridicularizam-na de ser duvidosa e incerta. Indagam de que milagres tenha sido confirmada. Perguntam se porventura é procedente que ela prevaleça contra o consenso de tantos santos pais e contra o uso mui antigo. Insistem dizendo que confessamos ser ela cismática, uma vez que move guerra contra a Igreja, ou que declaramos que a Igreja esteve semimorta por muitos séculos, durante os quais nada parecido se fez ouvir.

Finalmente, ponderam que não se faz necessário farta cópia de argumentos, pois o que ela é se pode julgar pelos próprios frutos, visto que tem engendrado tão avul- tado acervo de seitas, cifra tão elevada de tumultos sediciosos, tão desbragada li- cenciosidade.

Certamente que lhes é muito fácil vituperar uma causa desassistida perante a multidão crédula e ignara. Entretanto, se a nós também fossem facultadas mútuas oportunidades de arrazoar, digo que de pronto lhes seria estancada a fervura desta acrimônia com que, nesse tom, de boca cheia, e tão viciosa quanto impunemente, espumejam contra nós.

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6. DE FATO É DOUTRINA RECENTE OU NOVA?

Em primeiro lugar, que a tacham de nova, fazem sério agravo a Deus, cuja Sagrada Palavra não merecia ser rotulada de novidade. Por certo que estou bem longe de duvidar que seja nova àqueles a quem Cristo tanto é novo quanto novo é o evangelho. Quantos, porém, sabem ser antiga essa proclamação de Paulo, a saber, que Jesus Cristo morreu por nossos pecados e ressuscitou para nossa justificação [Rm 4.25], entre nós não encontrarão nada novo. Que ela, por tão longo tempo, ficou desconhecida e confinada, que esteve obscurecida, é culpa da impiedade hu- mana. Agora, quando pela bondade de Deus, ela nos é restaurada, se deveria reco- nhecer a antigüidade, ao menos por direito pós-liminar.

Da mesma fonte de ignorância a têm por duvidosa e incerta. É precisamente isso o de que se queixa o Senhor por meio de seu Profeta: Que o boi conhece seu possuidor e o jumento, o estábulo de seus donos; ele, porém, não é conhecido de seu povo [Is 1.3]. Em verdade, por mais que motejem da incerteza de nossa doutrina, se tivessem de selar sua doutrina com o próprio sangue e às expensas da própria vida, seria oportuno ver de quanto valor ela haja de ser estimada! Muito outra é nossa confiança, a qual não teme nem os terrores da morte, nem mesmo o próprio tribunal de Deus.

7. FUNÇÕES DOS MILAGRES

O fato de exigirem de nós milagres, agem de má fé. Ora, não estamos a forjar algum evangelho novo; ao contrário, retemos aquele mesmo à confirmação de cuja verdade servem todos os milagres que outrora operaram assim Cristo como os após- tolos. Acima de nós, eles têm isto de singular, que podem confirmar sua fé mediante constantes milagres até o presente dia! Contudo, o fato é que estão antes a invocar milagres que se prestam a perturbar o espírito doutra sorte inteiramente sereno, a tal ponto são eles ou frívolos e ridículos, ou fúteis e falsos! Todavia, nem mesmo se esses alegados milagres fossem mui prodigiosos, certamente que não seriam contra a verdade de Deus, quando importa que o nome de Deus por toda parte e a todo tempo seja santificado, quer através de portentos, quer mediante a ordem natural das coisas.

Talvez mais deslumbrante poderia ser esse aparente matiz, não fora que a Escri- tura nos adverte quanto ao legítimo propósito e uso dos milagres. Ora, os sinais que acompanharam a pregação dos apóstolos, no-lo ensina Marcos [16.20], foram ope- rados para sua confirmação. De igual modo, também Lucas narra que o Senhor deu testemunho da palavra de sua graça, quando foram operados sinais e portentos pelas mãos dos apóstolos [At 14.13]. Ao que se torna muito semelhante esta palavra do Apóstolo: Anunciado o evangelho, a salvação foi confirmada, testemunhando jun-

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tamente com eles o Senhor, mediante sinais, portentos e muitos atos de poder [Hb 2.4; Rm 15.18, 19].

Quando, pois, ouvimos que eles constituem marcas do evangelho, porventura os converteremos em destruição da autoridade do evangelho? Quando ouvimos que foram destinados simplesmente à autenticação da verdade, porventura os acomoda- remos à confirmação de mentiras? Portanto, é conveniente examinar e investigar, em primeiro lugar, a doutrina, a qual o evangelista diz ter precedência sobre os milagres; doutrina que, se for aprovada, só então deve, por fim, de direito, receber a confirmação dos milagres.

Entretanto, a marca distintiva da boa doutrina, da qual o autor é Cristo, é esta: ela não se inclina a buscar a glória dos homens, mas a de Deus [Jo 7.18; 8.50]. Quando Cristo declara que esta é a comprovação da doutrina, os milagres são visu- alizados em falsa luz, os quais são levados a outro propósito que não é o de glorifi- car o nome do Deus único. E convém que tenhamos sempre em mente que Satanás tem seus milagres, os quais, embora sejam falazes prestidigitações, antes que genu- ínos prodígios, entretanto são de tal natureza, que podem seduzir os desavisados e simplórios [2Ts 2.9, 10]. Mágicos e encantadores sempre se destacaram por seus milagres. A idolatria sempre foi nutrida por milagres de causar pasmo. Contudo, eles não legitimam nossa superstição, nem dos magos, nem dos idólatras.

E com este aríete, os donatistas, outrora, abusavam da simplicidade da popu- lação, de que eram poderosos em milagres. Portanto, agora respondemos a nossos adversários, o mesmo que Agostinho respondeu então aos donatistas: o Senhor nos acautelou contra esses milagreiros quando predisse que haveriam de vir fal- sos profetas, os quais, em virtude de sinais mentirosos e prodígios vários, induziri- am os eleitos ao erro, se isso pudesse acontecer [Mt 24.24]. E Paulo advertiu que o reino do Anticristo haverá de vir com todo poder, e sinais, e prodígios enganosos [2Ts 2.9].

Mas, insistem eles, esses milagres não são operados por ídolos, nem por mistifi- cadores, nem por falsos profetas, mas pelos santos. Como se na verdade não soubés- semos que esta é a artimanha de Satanás: transformar-se em anjo de luz [2Co 11.14]. Em tempos idos, os egípcios cultuaram a Jeremias, sepultado em seu meio, com sacrifícios e outras honras divinas. Porventura não estavam abusando do santo pro- feta de Deus para os fins de sua idolatria? E no entanto com tal veneração de seu sepulcro chegavam ao ponto de pensar que, como justa recompensa disso, eram curados da picada de serpentes! Que diremos, senão que sempre foi esta, e haverá de sempre ser, a mui justa punição de Deus: enviar a eficácia do erro àqueles que não têm recebido o amor da verdade, para que creiam na mentira [2Ts 2.11]?

Portanto, de modo nenhum nos faltam milagres, e esses não são passíveis de dúvida, nem suscetíveis a zombarias. Aqueles,porém, aos quais eles apelam em seu

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abono, são meros embustes de Satanás, uma vez que desviam o povo do verdadeiro culto de seu Deus para o engano.

8. O TESTEMUNHO DOS PATRÍSTICOS

Além disso, os patrísticos se nos opõem cavilosamente (refiro-me aos escritores antigos e, além disso, de uma era melhor), como se os tivessem por sufragadores de sua impiedade, por cuja autoridade a contenda pudesse ser dirimida e se nos inclina- ria, para falar até com extremada modéstia, a melhor parte da vitória.

De fato, ainda que muitas coisas tenham sido escritas por esses patrísticos, com admirável descortino e reconhecida excelência, em certos casos, contudo tem-lhes acontecido o que só costuma acontecer aos homens, isto é, estes filhos piedosos, com a agudeza de espírito, de discernimento e de compreensão, com que são dota- dos, deles só cultuam os lapsos e erros. Aquilo, entretanto, que com acerto disse- ram, ou não o observam, ou o dissimulam, ou o deturpam, de sorte de possas dizer que sua única preocupação tem sido catar esterco em meio ao ouro.

Então, contra nós investem com ímpios brados como sendo nós desprezadores e inimigos dos patrísticos. Nós, porém, tão longe estamos de desprezá-los que, se fosse esse nosso presente propósito, de nenhuma dificuldade me seria possível com- provar-lhes com as próprias opiniões a maior parte daquilo que estamos hoje afir- mando. Contudo, em tais moldes lhes versamos os escritos que temos de ter sempre isto em mente [1Co 3.21-23]: tudo é nosso para servir-nos, não para dominar sobre nós, e nós somos de um, Cristo, a quem se deve, sem exceção, em tudo obedecer. Quem não observa esta distinção, na fé nada terá de sólido, uma vez que muita coisa ignoraram estes santos varões, não raro discreparam entre si, por vezes até a si mesmos se contradisseram.

Não sem razão, frisam eles que somos admoestados por Salomão [Pv 22.28] a não ultrapassarmos os marcos antigos que nossos pais estabeleceram. Mas, a norma não é a mesma em se tratando de limites de glebas e em questão de obediência da fé. Mais apropriada é esta que se estabelece nestes termos: “esqueça seu povo e a casa de seu pai” [Sl 45.10]. Se, porém, com tanto ardor se regozijam em avllhgorei/n [^ll@G(r#'n – alegorizar], por que não adotem os apóstolos como pais, antes que a qualquer outro, cujos termos prescritos não é lícito remover? Ora, assim interpretou Jerônimo, cujas palavras eles inseriram em seus cânones. E se querem que sejam fixos os limites destes a quem entendem por pais, por que eles próprios tão impie- dosamente os ultrapassam, quantas vezes lhes apraz?

Do elenco dos patrísticos eram aqueles dos quais um disse que nosso Deus não come, nem bebe, e assim não tem necessidade de cálices, nem de pratos; outro, que os ritos sagrados não requerem ouro, nem com ouro se fazem aceitáveis as coisas

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que com ouro não se compram. Ultrapassam, portanto, esse limite, quando em seus cerimoniais tão efusivamente se deleitam com o ouro, a prata, o marfim, o mármore, as pedras preciosas, as sedas, nem pensam que Deus só é devidamente adorado se o for através de tudo o que derive em requintado esplendor, ou, melhor, em extrava- gante pompa.

Patrístico era aquele que sentenciou que, por isso, sem reservas, fazia uso de carne no dia em que os demais dela se abstinham: que era cristão. Desse modo, eles ultrapassam os limites, quando com terríveis exprobrações execram a alma que tenha provado carne durante a quaresma.

Patrísticos eram esses dos quais um declarou que o monge que não trabalhasse com as próprias mãos fosse julgado igual ao assaltante, ou, se o preferes, ao ladrão; o outro, que não era próprio aos monges viverem do alheio, mesmo se fossem assí- duos nas contemplações, nas orações, nos estudos. Também este limite eles têm violado, quando encerraram em prostíbulos e bordéis os ociosos e bojudos ventres dos monges, para que se cevassem dos bens alheios.

Patrístico era quem afirmou ser horrenda abominação ver-se pintada em tem- plos de cristãos a imagem, seja de Cristo, seja de qualquer santo. Tampouco foi isto pronunciado pela voz de um único homem, mas até decretado por um concílio ecle- siástico: que não se pinte em paredes o que se adora. Muito longe está de que se contenham dentro destes limites, quando não deixam sequer um canto vazio de imagens.

Aconselhou outro patrístico que, após havermos cumprido o dever de humani- dade para com os mortos, em sepultando-os, os deixássemos descansar. Eles rom- pem totalmente estes limites quando incutem a perpétua solicitude dos mortos.

Do elenco dos patrísticos era aquele que testifica que a substância do pão e do vinho permanecem assim na Santa Ceia, e não cessam, como em Cristo, o Senhor, a substância e natureza humana subsistem unidas à divina. Desse modo, ultrapassam o limite quantos imaginam que, recitadas as palavras do Senhor, cessa a substância do pão e do vinho, para que se transubstancie em corpo e sangue.

Patrísticos eram os que, como exibiam a toda a Igreja uma só Eucaristia, e como, ademais,excluíam dela os dissolutos e os criminosos, assim drasticamente conde- navam a todos aqueles que, presentes, dela não participassem. Eles removeram es- ses limites para bem longe, quando não apenas os templos, mas até as casas particu- lares, enchem com suas missas, a cuja participação a todo mundo admitem, por mais vis e degenerados que sejam, e a cada um com tanto maior prazer quanto maior é a gorjeta? A ninguém convidam à fé em Cristo e à genuína comunhão dos sacra- mentos, antes, mercadejam sua própria obra como sendo a graça e o mérito de Cristo!

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Patrísticos eram os dois dos quais um decretou que fossem de todo excluídos da participação da Santa Ceia de Cristo quantos, satisfeitos em tomarem um dos ele- mentos, do outro se abstinham; o outro contende acirradamente que não se deve negar ao povo cristão o sangue de seu Senhor, a cuja confissão seu próprio sangue ordena que seja derramado. Eles subverteram também estes limites, quando, em virtude de lei inviolável, determinaram exatamente o mesmo que aquele punia com excomunhão, e este com válida razão condenava.

Patrístico era o que, se tratando de matéria obscura, asseverou ser temeridade decidir por uma ou outra das partes sem testemunhos claros e evidentes da Escritu- ra. Eles se esqueceram deste limite quando, à parte de qualquer palavra de Deus, promulgam tantas constituições, tantos cânones, tantas determinações magisteriais.

Patrístico era aquele que, entre outras heresias, reprovou a Montano por ter sido o primeiro a impor leis acerca de jejuns. Também a este limite o excederam em muito quando, mediante leis extremamente estritas, sancionaram os jejuns.

Patrístico era aquele que sustentou que não se deve proibir o matrimônio aos ministros da Igreja, e declarou ser castidade a coabitação com a própria esposa. E Patrísticos eram aqueles que anuíram à sua opinião. Destes limites se distanciaram eles quando, com extremo rigor, impuseram a seus sacerdotes o celibato.

Patrístico era aquele que sentenciou que se deve ouvir a um só, Cristo, de quem foi dito: “A ele ouvi” [Mt 17.5]; nem se deve atentar para o que, antes de nós, outros ou disseram, ou fizeram, mas para o que Cristo preceituou, que é de todos o primei- ro. Este limite eles próprios nem eles mesmos prescrevem, nem permitem que ou- tros o prescrevam, quando, antes, constituem por mestres a quem quer que sejam, e não a Cristo, tanto para si próprios quanto para os demais.

Patrístico era aquele que contende que não se deve antepor a Igreja a Cristo, visto que ele sempre julga segundo a verdade dos fatos, mas que os juízes eclesiás- ticos, como os demais homens, se equivocam na maior parte das vezes. Rompido totalmente também este limite, não hesitam em afirmar que toda a autoridade da Escritura depende do arbítrio da Igreja.

Os patrísticos todos, em unânime consenso, abominaram e a uma voz apostrofa- ram o contaminar-se a santa Palavra de Deus com as sutilezas dos sofistas e o enre- dilhar-se nas disputas dos dialéticos. Porventura eles se contêm dentro destes limi- tes, quando, em toda a vida, não engendram outra coisa senão toldar e prejudicar a simplicidade da Escritura com infindas discussões e querelas mais do que sofísti- cas, de tal sorte que, se os patrísticos voltassem agora à vida, e ouvissem esse gêne- ro de debate a que esses chamam de teologia especulativa, nada haveriam menos de crer que se tratar de troca de opiniões acerca de Deus?

Na verdade esta nossa oração teria de ser derramada para além de seus justos

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limites, se eu quisesse passar em revista quão petulantemente estes sacodem de sobre si o jugo dos patrísticos, de quem desejam parecer filhos obedientes. Não me seriam suficientes meses, realmente anos até.

E, não obstante, eles são de tão desabusada e deplorável impudência,que ou- sam invectivar-nos de que não hesitamos em transgredir os limites antigos!

9. O VALOR DO COSTUME

Ora, se nos evocam o costume, certamente que nada conseguem, pois se agiria mui injustamente conosco se tivéssemos que ceder ao costume. Sem dúvida que, se os juízes dos homens fossem retos, se fazia necessário buscar o costume dos bons. Contudo, não poucas vezes costuma acontecer mui diferentemente, pois o que se vê praticado por muitos logo adquire o foro de costume. Além disso, dificilmente em algum tempo as coisas humanas estejam tão bem que o melhor agrade à maioria. Portanto, o erro público quase sempre resultou dos vícios particulares de muitos, ou, melhor, o consenso comum dos vícios, que agora estes bons varões querem que seja tido por lei.

Que aqueles que têm olhos vejam que não apenas um oceano de males tem inundado o orbe, que numerosas pestes ameaçadoras o têm invadido, que tudo se precipita à ruína, de tal sorte que, ou haverá de desesperar-se inteiramente quanto à situação humana, ou fazer frente a tão grandes males que às vezes é preciso aplicar a força. E o remédio é rejeitado não por outra razão, mas porque já de muito nos acostumamos aos males.

Todavia, ainda que o erro público tenha lugar na sociedade dos homens, no reino de Deus, contudo, o que se ouve e se observa é só sua eterna verdade, à qual não se pode impor a injunção de alguma extensão de tempo, de algum costume, de alguma conjuração. Assim, outrora ensinava Isaías aos eleitos de Deus que não dissessem: Conspiração, em referência a tudo aquilo em que o povo dizia: Conspi- ração [Is 8.12]. Isto é, que eles próprios não conspirassem compartilhando do senti- mento ímpio do povo, nem temessem deles o que temiam, nemse espantassem, mas, ao contrário, se santificassem ao Senhor dos Exércitos e este fosse para eles o temor e espanto.

Agora, pois, que lancem eles exemplos diante de nós, como queiram, não ape- nas os séculos sucessivos, mas ainda os tempos atuais. Se santificarmos o Senhor dos Exércitos, não seremos grandemente espantados. Ora, ainda que muitos séculos tenham anuído à mesma impiedade, poderoso é aquele que exerce vingança até a terceira e quarta geração [Ex 20.5; Nm 14.18; Dt 5.9]; ainda que, a um só tempo, o orbe inteiro conspire na mesma maldade perversa, pela experiência ele nos ensinaram qual seja o fim daqueles que transgridem com a multidão, quando a todo o gênero

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humano destruiu pelo dilúvio, preservando apenas Noé com sua reduzida família, o qual, por sua fé, e esta de um só, condenasse ao mundo todo [Hb 11.7; Gn 7.1].

Afinal, o mau costume outra coisa não é senão uma como que peste pública, em que não menos sucumbem quantos tombam na multidão. Ademais, conviria que ponderasse o que em certo lugar diz Cipriano: Aqueles que pecam por ignorância, embora não podem ser eximidos de toda culpa, contudo podem parecer de certo modo escusáveis. Aqueles, porém, que obstinadamente rejeitam a verdade oferecida pela benevolência de Deus nada têm que possam pretextar.

10. CONCEPÇÕES ERRÔNEAS QUANTO À NATUREZA DA IGREJA

Com seu dilema, não tão prementemente nos arrocham que nos forcem a con- fessar, ou que a Igreja esteve por algum tempo semimorta, ou que agora estejamos nós em conflito com a Igreja. A Igreja de Cristo certamente tem estado viva, e viva continuará por quanto tempo Cristo reinar à destra do Pai, por cuja mão é ela sus- tentada, por cuja proteção é guardada, por cujo poder ela retémsua intangibilidade. Pois ele cumprirá, indubitavelmente, o que uma vez prometera, a saber, que haverá de estar com os seus até a consumação do mundo [Mt 28.20]. No momento não sustentamos contra ela nenhuma luta, uma vez que, em pleno consenso com todo o corpo dos fiéis, cultuamos e adoramos ao Deus único e a Cristo, o Senhor [1Co 8.6], nos moldes em que tem sido sempre adorado por todos os piedosos. Entretanto, eles não se desviam pouco da verdade, quando não reconhecem nenhuma Igreja senão aquela que descortinam pela visão natural e a tentam circunscrever aos limites a que, de modo algum, foi ela confinada.

A controvérsia gira nestes gonzos: primeiro, que eles contendem dizendo que a forma da Igreja é sempre concreta e visível; segundo, que identificam a própria forma com a sé da igreja romana e a ordem de seus prelados. Nós afirmamos, em contrário, não só que a Igreja pode subsistir sem nenhuma expressão visível, nem que ela contém a forma nesse esplendor externo que estultamente admiram, mas, em marca bem diferente, a saber, na pregação pura da Palavra de Deus e na legítima administração dos sacramentos.

Eles se exasperam quando nem sempre podem apontar a Igreja com o dedo. Quão freqüentemente, porém, aconteceu de ela deformar-se ante o povo judeu a tal ponto que não podia ser distinguida por nenhuma aparência? Que forma pensamos haver ela refulgido, quando Elias deplorava por ter ficado sozinho? [1Rs 19.14]. Quanto tempo, desde a vinda de Cristo, ela ficou obscura e sem forma? Quantas vezes, desde essa época, ela foide tal modo oprimida por guerras, por revoltas, por heresias, que em parte alguma fosse contemplada com esplendor? Se porventura tivessem vivido nesse tempo, teriam crido existir então alguma Igreja? Elias, po-

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rém, ouviu que foram conservados sete mil homens que não tinham dobrado os joelhos diante de Baal [1Rs 19.18]. Tampouco nos deve pairar alguma dúvida de que Cristo sempre reinou na terra, desde que subiu ao céu. Com efeito, se então os piedosos houvessem requerido alguma forma perceptível aos olhos, porventura não teriam prontamente cedido ao desânimo?

Aliás, já em seu século, Hilário havia considerado ser um mal superlativo que, tomados de estulta admiração pela dignidade episcopal, não se apercebiam que se ocultava por debaixo dessa máscara mortífera e sinistra, porque assim fala contra Auxêncio: “De uma coisa vos advirto: Guardai-vos do Anticristo! Pois é mal que de vós se haja apoderado o amor às paredes, mal que venerais a Igreja de Deus em tetos e edifícios, mal que sob essas coisas introduzis o nome de paz. Porventura é passí- vel de dúvida que nestes o Anticristo haverá de assentar-se? A mim mais seguros são as montanhas, as florestas, os lagos, os cárceres e as furnas. Pois nestes, profetiza o Profeta, ou habitam, ou são lançados.”

Entretanto, o que hoje o mundo venera em seus bispos cornudos, senão que presume serem santos prelados da religião aqueles a quem vê presidirem às cidades de maior renome?

Fora, portanto, com tão estulta admiração! Antes, pelo contrário, uma vez que só ele sabe quem são os seus [2Tm 2.19], permitamos ao Senhor isto: às vezes ele até mesmo priva a visão dos homens da percepção exterior de sua Igreja. Confesso que isso é o que merece a impiedade dos homens; por que porfiamos nós em opor- nos à justa vingança de Deus? Em moldes como esses, o Senhor puniu em tempos idos a ingratidão dos homens. Ora, visto que não quiseram obedecer-lhe à verdade, e sua luz extinguiram, quis ele que, tornando-se cegos em seu entendimento, não só fossem enganados por falsidades absurdas, mas ainda imersos em trevas profundas, de tal sorte que não se evidenciasse nenhuma expressão exterior da verdadeira Igre- ja. Contudo, em todo o tempo em que ela foi extinta, ele preservou os seus, ainda que não só dispersos, mas até mesmo submersos em meio aos erros e às trevas. Nem é de admirar, pois, que soube preservá-los tanto na própria confusão de Babilônia, quanto na chama da fornalha ardente.

Entretanto, o fato de quererem julgar a forma da Igreja em função de não sei que vã pompa, o quanto isso é perigoso, e para que a exposição não se prolongue desme- didamente, o indicarei em poucas palavras, em vez de tecer-lhe longa consideração.

O pontífice, insistem, que ocupa a sé apostólica, e quantos foram por ele ungi- dos e consagrados sacerdotes, uma vez que sejam assinalados por suas mitras e báculos, representam a Igreja e devem ser tidos como a Igreja. Por isso eles não podem errar. Por quê? Porque são pastores da Igreja e consagrados ao Senhor.

E porventura Arão e os demais guias de Israel não eram pastores? Contudo Arão e seus filhos, já investidos sacerdotes, no entanto erraram quando forjaram o bezer-

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ro [Ex 32.4].Segundo este raciocínio, por que não teriam representado a Igreja aqueles quatrocentos profetas que mentiam a Acabe? [1Rs 22.11, 12]. A Igreja, po- rém, estava do lado de Micaías, por certo um homem sozinho e desprezível, de cuja boca, entretanto, procedia a verdade.

Porventura os profetas não levavam diante de si não só o nome, como também a forma da Igreja, quando à uma se insurgiram contra Jeremias e, ameaçadores, se jactavam de que não era possível que a lei perecesse ao sacerdote, o conselho ao sábio, a palavra ao profeta? [Jr 18.18]. Jeremias é enviado sozinho contra toda essa horda de profetas, para que da parte do Senhor denunciasse que acontecerá que a lei perecerá ao sacerdote, o conselho ao sábio, a palavra ao profeta! [Jr 4.9].

Por acaso não refulgia tal esplendor naquela assembléia que os sacerdotes, os escribas e os fariseus reuniram a fim de captar pareceres acerca de como tirariam a vida a Cristo? [Mt 26.3, 4; Jo 11.47-53; 12.10]. Que se vão agora e se apeguem à máscara exterior, e assim se façam cismáticos a Cristo e a todos os profetas de Deus; por outro lado, que façam dos ministros de Satanás órgãos do Espírito Santo!

Ora, se estão falando a sério, respondam-me em boa fé: entre que agentes e lugares pensam que a Igreja residia depois que, por decreto do Concílio de Basiléia, Eugênio foi deposto e alijado do pontificado e Amadeu investido em seu lugar? Ainda que se arrebentem, não podem negar que, no que tange à exterioridade, esse Concílio foi legítimo, além de tudo convocado não apenas por um pontífice, mas por dois. Eugênio foi ali condenado de cisma, rebelião e contumácia, juntamente com todo o bando de cardeais e bispos que haviam com ele maquinado a dissolução do Concílio. Entretanto, mais tarde apoiado no favor dos príncipes, recuperou inte- gralmente o pontificado. Em fumaça se desfez essa eleição de Amadeu, solenemen- te consumada que fora pela autoridade de um sínodo geral e sacrossanto, exceto que o supracitado Amadeu foi aplacado em virtude de um chapéu cardinalício, como um cão a ladrar se cala quando lhe é tirado naco de carne. Do grêmio desses hereges rebeldes e contumazes procedeu tudo quanto em seguida tem havido de papas, car- deais, bispos, abades, padres.

Neste ponto, impõe-se agarrá-los e imobiliza-los. Pois, a qual das duas facções conferirão o nome de Igreja? Porventura negarão que foi esse um Concílio Geral, de nada carecendo quanto à majestade exterior, já