Leitura do romance macunaíma , Pesquisas de Literatura. Universidade Federal de Rondônia (UNIR)
juliana_budin
juliana_budin12 de Dezembro de 2015

Leitura do romance macunaíma , Pesquisas de Literatura. Universidade Federal de Rondônia (UNIR)

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trabalho de literatura um olhar do formalismo russoViktor Chklovski.
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Leitura do romance Macunaíma: o herói sem nenhum caráter, de Mário de Andrade

sob a luz do formalismo russo.

Juliana BUDIN, Rosangela UGOLINI1

Resumo: Objetivo desta análise é expor alguns pressupostos da crítica formalista russa a

partir dos quais tentaremos analisar no romance Macunaíma: O herói sem nenhum caráter.

Delimitaremos-nos aos primeiros fragmentos sobre o nascimento do herói, sob a

perspectiva do ensaio A Arte como procedimento de Viktor Chklovski refletindo sobre a

linguagem poética na construção da imagem do herói.

Unitermos: Formalismo russo, Macunaíma: O herói sem nenhum caráter, Viktor

Chklovski.

O papel do artista não é figurar uma nacionalidade, mas

transformá-la de maneira a sintetizar na obra dele o que

na pátria está disperso.

Mário de Andrade

O surgimento do formalismo russo

Um descontentamento genuíno fez nascer à corrente crítica literária do formalismo

russo, dois grupos de estudantes a constituíram; o inicio se deu em 1915, universitários

moscovitas, Brulaev, Per Bogat Yrev, R Jakobson, G. O. Vinekur fundavam o Circulo

lingüístico de Moscou. Já em 1916 O. Brik foi responsável pela coletânea poética e a

fundação do grupo batizado por O. P. O. I. A. Z. Ambos os grupos foram apreciados como

Formalistas russos, os quais discordavam das outras correntes literárias como a crítica

impressionista, simbolista e outras.

“Para os formalistas a concepção de arte parte de um produto verbal”. Priorizando a

linguagem poética, rompendo o modo de fazer poesia por imagens, que explicam “o

desconhecido pelo conhecido”, eles rejeitam a inspiração, valorizaram a elaboração e a

construção, mostram que há na arte uma técnica; recusam qualquer ingerência no texto

pautada na psicologia, filosofia, sociologia, a não ser ele mesma em si, ou seja, o texto pelo

texto.

1 Discentes do 4° período do curso de letras pela universidade Federal de Rondônia- Campus de Vilhena.

Garantindo a autonomia da crítica literária fundamentada “num método imanente,

centrada sobre o estudo da literariedade”. A priori seus estudos se baseavam na linguagem

poética, a partir de Tynianov e Propp passaram a analisa o problema das estruturas

literárias, e outras partes que formam o conjunto poético.

O livro intitulado Teoria da literatura, formalistas russos, editora globo, terceira

edição de 1976, Contém vários ensaios como: A Arte como Procedimento – V. Chlovski,

Sobre a Teoria da Prosa – B. Eikhenbaum, Temática – B. Tomachevski. As

Transformações dos contos fantásticos – V. Propp e outros.

A frase “a poesia é língua em sua função estética” de Jacobson marca o movimento.

Deste modo, “o objeto de estudo literário não é a literatura, mas a literariedade, isto é,

aquilo que torna determinada obra uma obra literária”. (Boris Schnaiderman. p xi. 1978)

As atividades dos formalistas russos continuarão se desenvolvendo publicações e

ampliando o campo de estudo anualmente. Por volta de 1924, inicia-se um difícil período

de ataques violentos aversão dos intelectuais dos dirigentes marxistas às doutrinas da escola formalista.

Trotsky foi dos que criticou rigorosamente os pressupostos teóricos e o método

formalistas em sua obra Literatura e revolução (1924); contudo foi com o texto “Um

monumento ao erro científico” que “Chklovski, um defensor ardente do formalismo,

indicia a suspensão, assim durante muito tempo as doutrinas formalistas foram silenciadas

na U.R.S.S. a continuação no estrangeiro e o encontro de alguns formalistas russos com o

pensamento checo faz surgir o Círculo lingüístico de Praga.” (Osvaldo Duarte. p 35. 2014.)

As percepções de Chlovski na imagem poética de Macunaíma o herói.

O texto A Arte como Procedimento, V. Chlovski faz diferenciação entre a linguagem

poética e a linguagem prosaica, esclarece como esta distinção ocorre na literatura, como as

imagens cotidianas se refazem em meio à arte, renascendo poéticas; será por meio deste

ensaio que identificaremos alguns aspectos da desautomatização da figura do herói da obra

de Mário de Andrade, Macunaíma: O herói sem nenhum caráter.

Mas antes de adentrarmos na análise, uma breve apresentação da rapsódia

marioandradina, chamada: Macunaíma: O herói sem nenhum caráter. Está composta por

complexa poética que se forma com a combinação de contos, mitos, falas, lendas,

expressões, manifestações folclóricas e outras obras como a obra de Koch-Grünberg, a qual

o autor faz referência relatando como motivação para a criação do personagem Macunaíma.

A obra é produto de muitas investigações das lendas e mitos indígenas e folclóricos que o

autor reuniu utilizando à linguagem popular de diversas regiões do Brasil.

O autor inova empregando a técnica cinematográfica de cortes no discurso do

narrador para dar vez à fala dos personagens, onde Macunaíma se sobre sai no discurso.

Segundo Monica Saad Madeira a técnica imprime velocidade, simultaneidade e

continuidade à narrativa de Mário de Andrade. Cavalcanti Proença que Macunaíma assume

ao longo do livro diversas identidades, sem que isso pareça inverossímil: nas narrativas

míticas e folclóricas, a mudança de identidade e até da forma física de herói é

absolutamente comum.

As características de sua escrita sendo metafórica e abundantes em fragmentos poéticos

alegres expressam os principais conceitos do movimento modernista, que tinha por objetivo

repensar a vinculação cultural brasileira, seu manifesto teve por nome Manifesto antropófago de Oswald de Andrade, que propõe a consumir, comer a simbólica da cultura

do conquistador europeu, sem com isso perder nossa identidade cultural.

Após uma breve apresentação de alguns aspectos que compõem a obra Macunaíma,

retornemos as considerações que V Chklovski ressalta na A Arte do Procedimento:

“No processo... de automatismo do objeto, obtemos a máxima economia de forças perceptivas: os objetos são, ou dados por um só de seus traços, por

exemplo o número, ou reproduzimos como se seguíssemos uma fórmula, sem que

eles apareçam á consciência.” (p.44)

O discurso prosaico, cotidiano é falado por meio de frases inacabadas que se

explicam pelo processo de automatização, obtendo a máxima economia de força

perceptiva, ou seja, as imagens não são pensadas, somente reproduzidas, o cotidiano as

automatiza em nossa mente. Chklovski afirma que assim a vida desaparece, “se toda a vida

complexa de muita gente se desenrola inconscientemente, então é como se esta vida não

tivesse sido.” (p 45)

Ao olharmos para obra em análise a primeira desvinculação da imagem

automatizada já ocorre no título Macunaíma – herói sem nenhum caráter, ele nega aquilo

que remete um homem ser herói, o caráter, nos causando um estranhamento.

A contrariedade da imagem prosaica está na poética, a qual o crítico definiu como

objeto da arte, que tem por finalidade dar sensação, visão do objeto e não reconhecimento,

método este que visa obscurecer a forma, com isso aumentar a dificuldade e a duração da

percepção.

Vejamos como isso se dá em alguns fragmentos da obra de Macunaíma:

No fundo do mato-virgem nasceu Macunaíma, herói de nossa gente. Era preto retinto e filho do medo da noite. Houve um momento

em que o silêncio foi tão grande escutando o murmurejo do Uraricoera, que a índia, tapanhumas pariu uma criança feia.

Essa criança é que chamaram de Macunaíma.

(Andrade, Mário de. p 13. 2000).

Mário de Andrade se utiliza da automatização, da obscuridade ao formar a

fisionomia de seu herói ao descrever “preto retinto” e “uma criança feia”. Características

não encontradas nos heróis das grandes obras, índio negro?, Mário nos remete as duas raças que predominaram o Brasil, ao mesmo tempo ele nos distancia da literatura de influência

europeia, que se tem por herói outros aspectos físicos. Criando uma literatura nacionalista.

Martin Cezar Feijó em seu livro O QUE É O HERÓI, define os heróis como

indivíduos que se destacam em meio ao povo por serem superdotados valentes. Algumas

características são utilizadas por José de Alencar no “O Guarani”:

Mas o inimigo caiu no meio deles, subitamente, sem que pudessem saber se tinha surgido no seio da terra, ou se tinha descido das nuvens.

Era Peri. Altivo, nobre, radiante da coragem invencível e do sublime

heroísmo de que já dera tantos exemplos, o índio se apresentava só em face de duzentos inimigos fortes e sequiosos de vingança.

(Alencar. p 220. 1992).

O romance datado em 1857 descreve europeizando o nativo como altivo, nobre,

palavras estas que descreviam a imagem do clássico herói, José Alencar que fazia parte do

indianismo no Brasil, movimento que tinha como intuito valorizar o elemento humano

nativo como fundador da nacionalidade juntamente com o seu conquistador português. Ao

contrário de tal ideia estava Mário escritor modernista, queria formar um herói nacional,

romper com a cultura europeia, queria formar uma cultura autêntica brasileira, a qual se

sentia responsável por assim afirmar em sua carta a Carlos Drummond: “Nós temos que dar

ao Brasil o que ele não tem e que por isso até agora não viveu, nós temos que dar uma alma

ao Brasil e para isso todo sacrifício é grandioso, é sublime.” (Andrade Mário de. p. 21-22.

2015).

Tais fragmentos do textoPodemos afirmarOutro aspecto na vida do herói

Macunaíma reflete em sua primeira conquista com as palavras: “primeiro passou mais de

seis anos não falando. Se o incitavam a falar exclamava: Ai! Que preguiça”... e não dizia

mais nada”( Andrade, Mário de. p 13. 1982.) Foge dos padrões estereotipados do ideal de

herói que se sobressaem em ações, ultrapassando até mesmo do comum, visto que uma

criança dita norma até seus 18 meses encontrar-se andando.

É por meio do método da singularização, de V. Chklovski onde o objetivo da arte é

criar uma percepção particular do objeto, criar uma visão e não o seu reconhecimento, a

ruptura com a sistemática do texto prosaico realizada por Mário de Andrade, se ocupou

com a tentativa de construção de uma linguagem poética e ao mesmo tempo peculiar do

Brasil.

Não é por acaso que existem tantas referências à cultura do país em Macunaíma: O herói sem nenhum caráter. Todas essas citações a elementos presentes em nosso país

perpassam por essa tentativa de construção da cultura nacional, sobre tudo na

caracterização do próprio herói nacional do povo brasileiro.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Andrade, Mário de. Macunaíma: O herói sem nenhum caráter. Belo Horizonte/Rio de

Janeiro: Livraria Garnier.

ANDRADE, Mário. A lição do amigo – cartas de Mário de Andrade a Carlos

Drummond de Andrade anotadas pelo destinatário. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1982. p

21-22.

BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. 37 edição. São Paulo: Cultrix,

1994.

DUARTE, Osvaldo. Teoria da Literatura III. Vilhena, 2014.

Alencar, José de. O Guarani. São Paulo: Ática, 1992. p 220-222.

SCHULER, Donaldo. Teoria do Romance. São Paulo: Ática, 1989.

Chklovski Viktor. A arte como procedimento in Teoria da literatura: os formalistas russos,

Porto Alegre, Globo, 1976. p 39-56.

ANDRADE, Oswald de. O manifesto antropófago. In: TELES, Gilberto Mendonça.

Vanguarda europeia e modernismo brasileiro: apresentação e crítica dos principais

manifestos vanguardistas. 3ª ed. Petrópolis: Vozes; Brasília: INL, 1976.

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