Língua Portuguesa Geral - Gramática, Manual de Língua Portuguesa. Universidade Estácio de Sá (Estácio)
mei-satsuki
mei-satsuki2 de outubro de 2017

Língua Portuguesa Geral - Gramática, Manual de Língua Portuguesa. Universidade Estácio de Sá (Estácio)

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Acentuação, Concordâncias, Orações, Emprego das Palavras, Figuras de Linguagem, etc.
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autor do original

MARIA BEATRIZ GAMEIRO

1ª edição

SESES

rio de janeiro 2015

LÍNGUA PORTUGUESA

Conselho editorial luís cláudio dallier, roberto paes e gladis linhares

Autor do original maria beatriz gameiro

Projeto editorial roberto paes

Coordenação de produção gladis linhares

Projeto gráfico paulo vitor bastos

Diagramação andré lage e paulo vitor bastos

Validação de conteúdo fábio macedo simas e luciana varga

Imagem de capa cienpies design — shutterstock

Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou transmitida

por quaisquer meios (eletrônico ou mecânico, incluindo fotocópia e gravação) ou arquivada em

qualquer sistema ou banco de dados sem permissão escrita da Editora. Copyright seses, 2015.

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (cip)

G184 Gameiro, Maria Beatriz

Língua Portuguesa

— Rio de Janeiro: Editora Universidade Estácio de Sá, 2015.

176 p

isbn: 978-85-5548-156-7

1. Linguagem. 2. Português. 3. Educação. I. Título.

cdd 469.5

Diretoria de Ensino — Fábrica de Conhecimento

Rua do Bispo, 83, bloco F, Campus João Uchôa

Rio Comprido — Rio de Janeiro — rj — cep 20261-063

Sumário

Apresentação 7

1. Nem todo brasileiro fala do mesmo jeito 21

Fala e escrita 26

Norma padrão, norma culta e norma popular 28

Construções da norma padrão e da norma coloquial:

correções dos desvios mais comuns 29

2. Noções básicas de sintaxe: regência e concordância 39

Noções básicas da sintaxe 41

A transitividade verbal 41

A regência verbal 45

Regência nominal 52

A variação linguística e a concordância verbal 53

A concordância nominal 63

3. Usos da língua: pontuação, acentuação e ortografia. 73

Introdução à clareza e à pontuação: a ordem direta no português brasileiro 75

Regras de acentuação 86

O novo Acordo Ortográfico 91

Regras ortográficas 98

A crase 101

O internetês e a ortografia 104

Importância da escrita para o mercado do trabalho 108

4. A estrutura do parágrafo, a coesão e a coerência 113

A estrutura do parágrafo 114

As qualidades do parágrafo 118

Coesão e coerência 128

A coerência 133

5. Leitura e significação 137

O Sincretismo de linguagens 138

O texto literário e o não-literário 139

Principais critérios para distinção entre o texto literário e o não literário 142

A construção do significado no texto: a conotação e a denotação 143

Figuras de Linguagem 146

5

PRÓLOGO A ESTE LIVRO,

Por Deonísio da Silva

Nunca uma palavra foi tão apropriada: prólogo. Veio do Grego, passou pelo Latim “prolo-

gus” e chegou ao Português “prólogo”. Designava a primeira parte da tragédia, também

uma palavra vinda do Grego “tragoidía”, composta de “tragos”, bode, e “oidé”, canção,

significando “canção do bode”: nas tragédias gregas era sacrificado um bode enquanto

o coro cantava.

Nós vivemos uma tragédia no ensino do Português. Faz décadas que professores,

pagos pelo Estado, por mantenedoras privadas ou por universidades comunitárias para

ensinar a norma culta do Português, deformam este ensino à base de um vale-tudo, em

que a norma culta não vale nada, praticando crimes de lesa-língua. E fazem isso com

uma disciplina estratégica, pois todas as outras disciplinas são ensinadas em Português!

Na Universidade Estácio de Sá, como em outras instituições de qualidade, o ensino

do Português vem merecendo atenção especial. A Língua Portuguesa é a menina dos

olhos da Estácio.

Meia dúzia de coisas que nunca falharam: você vai ouvir, falar, ler e escrever

melhor (e passar com folga em todas as AVs), se:

1) Assistir a todas as aulas;

2) Fizer as tarefas que os professores indicarem;

3) Ler todos os dias, nem que seja um pequeno trecho;

4) Consultar as obras de referência, como gramáticas e dicionários;

5) Ler os livros indicados;

6) Escrever alguma coisa todos os dias, nem que seja um recado a seus amigos.

1 As Palavras

O brasileiro fala bastante. E fala bem. Talvez não preste a devida atenção ao que

o outro fala. Começa na infância."Quantas vezes eu já te disse para não fazer

isso, menino?". Ou: "Eu já te disse mil vezes que eu não quero ouvir palavrão

nesta casa", "eu te mato" etc.

Esta mãe imaginária usava bem o vocativo, com a pausa antes dele, que

na escrita levou uma vírgula. Ela invocava expressões de linguagem que to-

6

dos conhecemos.

Mil vezes? Ainda que as admoestações fossem muito repetidas, talvez não

passassem de algumas dezenas, acompanhadas de ameaças de morte de brin-

cadeirinha, como faz toda mãe. Ela sabia que a língua portuguesa, ao lado de

olhares e gestos repreensivos ou de aprovação, era poderoso recurso para edu-

car os filhos.

Como se sabe, a educação começa em casa. Foi lá, aliás, que você aprendeu

a ouvir e a falar em Português. Seu pai foi seu primeiro professor. Sua mãe foi

sua primeira professora. Por isso, a língua portuguesa é sua língua materna,

palavra que veio do Latim materna, isto é, que se refere à mater, "mãe".

Escolas e universidades dão instrução e ajudam a educar os alunos, mas to-

dos os professores sabem que os alunos estão sob seus cuidados apenas um

sexto do dia. E os mestres precisam ensinar-lhes um cesto de coisas. O tempo é

pouco. Se a casa, a empresa, a mídia e a rua (lugares onde os discípulos passam

a maior parte do tempo) não colaboram com a escola e com a universidade, a

tarefa fica muito mais difícil. Sim, a boa empresa facilita a formação de seus

empregados, isto é um investimento para ela.

Nas ruas, nas estradas e em outros lugares públicos, cartazes com erros de

Português infiltram na mente de todos formas erradas de escrever! Programas

de baixo nível, no rádio, na televisão, na internet etc. são outros empecilhos

na tarefa de ensinar. Como se sabe, muito ajuda quem não atrapalha. E esses

erros são como uma virose. Se o organismo não tem as devidas defesas, contrai

doença de escrever mal antes de aprender a escrever bem.

Mas, se falamos bem, por que escrevemos tão mal? Uma campanha convida

ou ordena "Avança Brasil". Foram gastos milhões de reais para imprimi-la em

cartazes e exibi-la na televisão e na internet. Está errada. Não puseram vírgula

depois de "avança" e antes de "Brasil".

Hora do recreio

O “site” www.simplesmenteportugues.com.br apresenta este divertido e curio-

so exercício sobre a vírgula, ao apresentar o texto de um moribundo – ele mor-

reu antes de fazer a pontuação -, numa espécie de minitestamento: “Deixo

meus bens a minha irmã não a meu sobrinho jamais será paga a conta do pa-

deiro nada dou aos pobres”.

Eram quatro os herdeiros. Como ele distribiu a herança? Como exercício,

7

os alunos devem pontuar o texto como se fossem os advogados dos herdeiros.

Divididos em quatro grupos, cada um dos grupos deve defender o sobrinho (1),

a irmã (2), o padeiro (3) ou os pobres (4).

As respostas corretas são:

1) O sobrinho pontuaria assim: Deixo meus bens à minha irmã? Não! A meu

sobrinho. Jamais será paga a conta do padeiro. Nada dou aos pobres.

2) A irmã, assim: Deixo meus bens à minha irmã. Não a meu sobrinho. Ja-

mais será paga a conta do padeiro. Nada dou aos pobres.

3) O padeiro, assim: Deixo meus bens à minha irmã? Não! A meu sobrinho?

Jamais! Será paga a conta do padeiro. Nada dou aos pobres.

4) Os pobres, assim: Deixo meus bens à minha irmã? Não! A meu sobrinho?

Jamais! Será paga a conta do padeiro? Nada! Dou aos pobres

Erros de ortografia

Os erros mais numerosos são de ortografia. Até um professor anunciou:

"aulas de reforsso escolar, todas matérias". Está errado. As suas são de reforço

escolar e é necessário o artigo em "todas AS matérias".

Um quiosque quis melhorar as vendas de sorvetes e de picolés e anunciou

"temos picolé premeado". Está errado. O certo é premiado.

Certa padaria avisou: "nossos produtos não tem glúteos". Está errado. O

certo é "nossos produtos não têm glúten". Glute também estaria correto, mas

glúteo é nádega; veio do Grego gloutós, "nádega".

Uma cabeleireira anunciou que fazia "itradação" de pele e cabelos. Está er-

rado. O certo é hidratação.

Uma floricultura oferecia "violentas" a menos de cinco reais. Está errado. O

certo é violetas.

Um açougue avisou os clientes que tinha "frango bovino". Ora, a carne à

venda era de frango ou de boi! O açougueiro não cruzou uma galinha e um touro

(boi ainda não castrado), ou um galo e uma vaca para produzir a tal carne.

A maioria das pessoas comete erros ortográficos, não porque seja difícil es-

crever corretamente, mas sim porque elas leem pouco. Esta é a grande causa.

A ortografia do Português não é tão simples como a do Espanhol e a do

Italiano, mas não é complicada como a do Inglês, por exemplo. Estão errados

aqueles que dizem que a do Inglês é mais simples. Não é.

Cláudio Moreno, nosso colega de docência na Estácio há muitos anos, em

8

Guia Prático do Português Correto (vol. 1 - Ortografia), livro indicado na biblio-

grafia desta disciplina, lembra que em Inglês a palavra lives é pronunciada /

livz/ quando significa "vive, mora, reside", e /laivz/ quando quer dizer "vidas".

Você escreve key e pronuncia o conjunto "ey" como /i/, mas no pronome they

(eles, elas), a pronúncia é /êi/. Em he goes ("ele vai"), você diz /gous/, mas o mes-

mo encontro "oes", pronunciado /ous/ neste verbo, muda para /us/ em my shoes

("meus sapatos"), que você pronuncia /mai shus/.

Outras amostras de que o Português tem uma grafia mais simples do que a

do Inglês: para typography, pharmacy, theater, psychology, escrevemos tipo-

grafia, farmácia, teatro, psicologia.

O objetivo deste livro é ajudar os alunos a aprender a Língua Portuguesa. É

uma língua que os alunos já sabem, mas ainda não sabem o suficiente. De todo

modo, não é uma língua estrangeira. Se estivéssemos ensinando Inglês, Espa-

nhol, Latim, Russo ou Mandarim, os métodos seriam outros.

Mas por que ensinamos Português? Porque os alunos precisam muito

aprender a ler e a escrever numa língua que já entendem e falam.

Se o professor disser ou escrever "minha colega ficou RUBICUNDA, mas

abriu uma EXCEÇÃO e deu um ÓSCULO no MANCEBO", provavelmente o alu-

no irá ao dicionário em busca de saber como se escreve e o que querem dizer as

palavras escritas em maiúsculas. De 14 palavras, ele provavelmente não sabe o

significado de apenas três. E tem dúvida de como se escreve exceção.

É um índice muito alto de conhecimento do vocabulário que ele precisa

saber para compreender o texto, uma vez que já conhece 78,58% das palavras

empregadas.

Na verdade, quando você lê qualquer texto ― uma notícia, uma petição, um

salmo, uma bula de remédio, um relatório, um poema, um conto, um trecho de

romance etc. - é provável que você conheça a maioria das palavras que ali apare-

cem, pois elas se repetem muito.

Se você gosta mais de números do que de letras, faça um exercício curioso.

Aplique ao texto escolhido a Lei de Zipf, formulada pelo filólogo, linguista e es-

tatístico George Kingsley Zipf, da prestigiosa Universidade de Harvard.

Estudando a obra de James Joyce, famoso escritor irlandês de língua inglesa,

ele mostrou que no livro Ulisses, tido como um dos romances mais difíceis de

ser lido e entendido em todos os tempos (inclusive nas traduções), a palavra mais

comum aparece 8.000 vezes. Examinando muitos outros textos, concluiu que a

maior parte de qualquer texto é coberta pelas palavras mais usadas na língua.

9

Concluímos desta lei que somos capazes de entender qualquer texto, tendo

um bom vocabulário. E que para as palavras desconhecidas, só o que precisa-

mos é de um dicionário.

Quando ouvirem o texto "minha colega ficou RUBICUNDA, mas abriu uma

EXCEÇÃO e deu um ÓSCULO no MANCEBO", os alunos provavelmente irão ao

dicionário para certificar-se de como se escreve exceção, mas eles sabem que

exceção quer dizer "exclusão, algo fora da norma, fora do comum" naquele con-

texto. E provavelmente sabem também, sem consultar o dicionário, como são

escritas as três restantes, marcadas em vermelho, embora sejam de uso raro,

pois elas são escritas como pronunciadas. Talvez aqueles que não conhecem

a forma correta mancebo, escrevam a forma errada "mansebo"... Mas, então, o

problema será facilmente resolvido, pois "mansebo" não existe...

O ditado, uma antiga prática das salas de aula, ajudava muito nisso. Nas pri-

meiras séries do ensino fundamental, a professora pronunciava palavras que os

alunos deveriam escrever.

O passo seguinte é saber o significado das palavras até então desconheci-

das, aquelas três marcadas em maiúsculas: rubicunda, ósculo e mancebo.

Um bom dicionário ou um bom professor ou uma boa professora lhes ex-

plicará que rubicunda é da mesma família de rubrica, porque antigamente as

primeiras letras dos capítulos dos livros eram escritas com tinta vermelha. E

também é parecida com rubéola, infecção percebida por exantema de manchas

vermelhas. Também são parentes o rubor nas faces e a cor rubro-negra de clu-

bes, com o Flamengo, duas cores que, juntas ou separadas, estão nos uniformes

de muitos clubes brasileiros de futebol, como o Corinthians, o Internacional, o

Sport do Recife, o Vasco, o Grêmio, a Ponte Preta, o Atlético (do PR, de MG etc.).

Mas, voltemos à palavra exantema, que o dicionário usou para explicar ou-

tra. Não se assustem! Os dicionários às vezes usam palavras ainda mais desco-

nhecidas para explicar aquela que você procurou.

Aliás, é um lado bom dos dicionários, longe de ser um defeito. Você atira

no que viu, acerta no que não viu, como diz o ditado, talvez antiecológico. Você

procura exantema e descobre que a nova palavra, que você não procurou, veio

do Grego eksanthéma, "florescência, florido", porque as feridas de tal enfermi-

dade semelham flores desabrochando sobre a pele.

O dicionário é uma festa, onde você vai com quem já conhece e descobre

desconhecidos que são ainda mais interessantes. E que você não procurava,

mas que podem vir a ser seus novos amigos.

10

A seguir, você procura ósculo, cujo significado é "beijo", que veio do Latim

osculum, "boquinha", diminutivo de os, "boca", assim como minúculo veio do

Latim minisculum, diminutivo de minus, que significa "pequeno". Então, mi-

núsculo quer dizer "muito pequeno".

Por fim, procura mancebo, que quer dizer "jovem, moço". Na antiga Roma,

manceps, de onde veio a palavra, era o escravo jovem que ficava no quarto, to-

mava as roupas do senhor nas mãos e o ajudava a vestir-se.

Os escravos foram cartões de crédito e de débito, ainda antes de existirem

estes plásticos de tanta utilidade: ninguém fazia nada sem eles!

O feminino manceba designou a amante, a concubina, a mulher jovem que

ficava no quarto do senhor fazendo mais do que segurar as roupas dele, aju-

dando-o a vestir-se. Talvez o ajudasse mais a desvestir-se, ela mesma se des-

pindo junto. Outras palavras e expressões vieram do mesmo étimo, de que são

exemplos mancebia e amancebado, palavras que aparecem em numerosos do-

cumentos do Brasil colonial e imperial, dando conta de que os senhores das

casas-grandes não apenas visitam as senzalas, como frequentemente viviam

amancebados com as próprias escravas, com elas gerando filhos, que eram

escravizados também. A expressão "Fulano tem um pé na cozinha" também

exemplifica isso, apesar do ponto de vista preconceituoso, pois poderia ser des-

cendente de um escravo com um pé no quarto da casa-grande....

Como vimos, é preciso conhecer o vocabulário empregado num texto, não

apenas porque esta tarefa é indispensável para compreender o texto, como tam-

bém pela viagem que as palavras nos levam a fazer, cheia de escalas em pontos

e portos interessantíssimos

Na busca pelo significado das palavras que ainda lhe são desconhecidas,

você não pode desprezar o contexto em que foram empregadas. O mancebo de

que fala o texto não é o "móvel ou o pedaço de pau em forma de cabide", uma

vez que "minha colega ficou rubicunda, mas abriu uma exceção e deu um óscu-

lo no mancebo". Ela não ficaria vermelha se tivesse que beijar um móvel...

11

2 Reflexões para você estudar Português

1. O domínio da língua materna é o requisito fundamental para o sucesso

em qualquer campo de atividade. Independentemente do curso escolhido na

Universidade, ler e escrever com proficiência é indispensável para que o acadê-

mico possa participar da sua área de saber, qualquer que seja ela.

2. A ausência desse conhecimento básico compromete todas as suas formas

de expressão; sem ele, até mesmo o seu contato com os textos imprescindíveis

a cada especialidade fica prejudicado.

3. Em geral, o aluno brasileiro deixa de estudar português no momento em

que conclui o Ensino Médio e ingressa na universidade ou no mercado de tra-

balho. Quase todos nós passamos por isso e conhecemos muito bem esse traje-

to: por algum tempo, absorvidos por nossas novas ocupações, passamos a dar

pouca ou nenhuma atenção àqueles conteúdos gramaticais que, na opinião da

maior parte dos adolescentes, constituem um emaranhado de regrinhas capri-

chosas e desnecessárias.

4. A vida profissional ou acadêmica, no entanto, logo faz dissipar essa ilusão

e muda nossa maneira de ver as coisas, pois descobrimos finalmente que aque-

las regras que considerávamos supérfluas são instrumentos indispensáveis para

o sucesso pessoal. Este curso se destina exatamente àqueles que perceberam a

importância do domínio da língua materna para sua vida e sua carreira e que pre-

tendem atualizar seus conhecimentos gramaticais. Os mesmos fatos e princípios

que você estudou na escola voltam agora sob novo enfoque, selecionados e orga-

nizados para solucionar, na prática, as dúvidas e hesitações que afligem quem

escreve. Este curso apresenta, por isso mesmo, o mínimo de teoria necessário

para entender os fenômenos explicados: o seu foco é a gramática do uso culto.

5. A língua é transmissora da cultura e da civilização. Ela é um sistema orgâni-

co de regras e princípios, estabelecido, de geração em geração, século por século,

pela soma dos discursos de todos os indivíduos que têm o Português como língua

materna. A língua que estou usando hoje para falar com vocês vem sendo usada

há quase mil anos. Foi usada por cruzados, por navegadores, por carrascos e por

vítimas da Inquisição. Quando o Brasil foi descoberto, o escrivão da frota, nosso

12

Pero Vaz e Caminha, relatou .... Camões cantou seus amores, Vieira pregou na

Igreja contra as invasões holandesas, falando a colonos, índios e escravos.

6. Foi por causa disso, por exemplo, que a escola dispendeu tanto esforço

para ensinar a vocês a conjugação completa dos verbos, incluindo o vós. Como

entender uma frase clássica como "Vinde a mim as criancinhas" sem conhecer

a flexão do verbo na 2ª pessoa do plural?

7. Mito: "Como nunca pretendo usar essas formas, elas não são importan-

tes para mim". Na verdade, "usamos" um vocábulo tanto quando o emprega-

mos numa frase, quando o compreendemos ao vê-lo num texto de outrem. Por

exemplo, o costume de não trabalhar, na escola, com a 2ª pessoa do plural na

conjugação dos verbos — sob a alegação infantil de que "ninguém usa mais esta

forma" — acarreta uma série de problemas na compreensão de textos tão sim-

ples e fundamentais como, por exemplo, as orações: “Pai nosso que estais nos

céus, santificado seja o vosso nome; venha a nós o vosso reino, seja feita a vossa

vontade, assim na terra como no céu. O pão nosso de cada dia nos daí hoje;

perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem

ofendido; e não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal. Amém.”.

Ou: “Ave, Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco; bendita sois vós entre as

mulheres, bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus. Santa Maria, Mãe de Deus,

rogai por nós, pecadores, agora e na hora de nossa morte. Amém”.

8. Nosso propósito é levá-lo a posicionar-se criticamente sobre tudo aquilo

que já aprendeu sobre nosso idioma (que é, acredite, muito mais do que você

imagina). Viajando pela história de nossa língua, você vai entender o quanto

devemos ao Grego e ao Latim; além disso, vai poder avaliar a dívida cultural

que temos para com os árabes e os povos indígenas e africanos. Com base nas

leituras escolhidas, queremos mostrar a você que os fatos mais corriqueiros da

língua influem na nossa interpretação de um texto literário, e que os escrito-

res sabem, como ninguém, utilizar a seu favor as várias escolhas que têm à sua

disposição — e você vai entender de que maneira um autor como Machado de

Assis, utilizando a mesma língua que você usa (e praticamente o mesmo voca-

bulário) construiu verdadeiras obras-primas.

13

9. A língua é um sistema desenvolvido no tempo e no espaço, formado pelo

trabalho de milhões de falantes. Outra coisa bem diferente é o uso que cada

um de nós faz desse repertório. Cada um de vocês tem um discurso próprio —

cada um usa o sistema à sua maneira, de acordo com sua formação, sua idade,

sua região ou simplesmente o grau de consciência com que se relaciona com

a linguagem. Por isso, ver como os outros usam ou usaram a língua aumenta

o nosso repertório de possibilidades e nos ajuda a definir o estilo que preferi-

mos e o que realmente nos desagrada. O uso individual pode mudar a língua?

Se houver a concordância de muitos indivíduos, sim. Há quem se escandalize

com as mudanças, mas não podemos esquecer que, se ocorrerem, tudo vai se

dar dentro do sistema próprio do nosso idioma. Invariavelmente, elas são feitas

para tornar o sistema ainda mais homogêneo. Os "erros" que as pessoas come-

tem — que, não por acaso, são os mesmos em todo o país — revelam pontos de

atrito com a norma culta, em que os discursos individuais acabarão inconscien-

te, mas inexoravelmente, limando e polindo o sistema.

10. A evolução do sistema. As mudanças que ocorrem, no entanto, sempre

se dão dentro da direção de tendência — como o sentido dos pelos do veludo,

ou, mais domesticamente, o sentido dos pelos do gato. Um exemplo que está

em processamento é a transformação do vocábulo grama (unidade de medida),

considerado substantivo masculino. A tendência é transformá-lo em feminino

— como lama, cama, rama, etc. É por isso que a maioria dos falantes brasilei-

ros vem aderindo à mudança, inclusive com a adesão de autores tão importantes

quanto Machado de Assis, o patrono deste curso. Machado de Assis, por exem-

plo, em crônica publicada em A Semana, fez como os falantes de hoje: usou gra-

ma (peso) no feminino “O caso da grama. Contaram algumas folhas, esta sema-

na, que um homem, não querendo pagar por um quilo de carne preço superior ao

taxado pela prefeitura, ouvira do açougueiro que poderia pagar o dito preço, mas

que o quilo seria mal pesado. [...] Um quilo mal pesado. Pela lei, um quilo mal

pesado não é tudo, são novecentas e tantas gramas, ou só novecentas. E voltou

ao feminino de grama (peso) nesta outra, publicada em Balas de Estalo: “Pode ser

que haja nesta confissão uma ou duas gramas de cinismo; mas o cinismo, que é

a sinceridade dos patifes, pode contaminar uma consciência reta, pura e elevada,

do mesmo modo que o bicho pode roer os mais sublimes livros do mundo.”

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3 Frase, Oração, Período, Parágrafo, Texto

“Uma noite destas, vindo da cidade para o Engenho Novo, encontrei no trem da Central um

rapaz aqui do bairro, que eu conheço de vista e de chapéu”. (abertura de Dom Casmurro)

“Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria.” (final de

Memórias Póstumas de Brás Cubas)

“Naquele dia – já lá vão dez anos! -, o dr. Félix levantou-se tarde, abriu a janela e cum-

primentou o sol. (...) Alegres com vermos o ano que desponta, não reparamos que ele é

também um passo para a morte. (abertura de Ressurreição)

Estas frases, orações e período integram (1) o primeiro parágrafo do roman-

ce Dom Casmurro, (2) o fechamento de Memórias Póstumas de Brás Cubas e

(3) a abertura de Ressurreição, três romances de Joaquim Maria Machado de

Assis, o maior escritor brasileiro de todos os tempos, mulato, descendente de

escravos, filho de família pobre, epiléptico, gago.

Francisco José de Assis, seu pai, filho de escravos alforriados, era pintor de

paredes; Maria Leopoldina da Câmara Machado, sua mãe, imigrante portugue-

sa dos Açores, era lavadeira.

Machado foi autodidata (estudou por conta própria) e jamais frequentou

uma universidade. Escreveu nove romances, cerca de duzentos contos, seiscen-

tas crônicas, além de peças de teatro, poemas e ensaios.

Sua madrinha se chamava Maria, e seu padrinho, Joaquim. Foi por isso que

o pai lhe deu este nome: Joaquim Maria (do padrinho e da madrinha) Machado

(sobrenome da mãe) de Assis (sobrenome do pai).

Aos dez anos, ficou órfão de mãe e passou a ser cuidado pela madrasta, Ma-

ria Inês da Silva, que fazia doces que Machado vendia nas ruas, como hoje fa-

zem adolescentes e jovens nos faróis. Isto levou o menino a ter contato com

um padeiro que lhe ensinou Francês. Tornou-se também coroinha e sacristão,

e aprendeu Latim com o padre.

Aos 17 anos teve seu primeiro emprego: aprendiz de revisor e de tipógrafo

na Imprensa Nacional, onde foi orientado e ajudado por Manuel Antônio de

Almeida, autor de Memórias de um Sargento de Milícias. Em seguida, recebeu

15

ajuda de Quintino Bocaiúva (homenageado no nome de um bairro no Rio, co-

nhecido mais como Quintino apenas, onde nasceu o jogador Zico) e de Salda-

nha Marinho (pernambucano, que governou São Paulo e foi um dos autores de

nossa primeira Constituição).

Mas quem mais ajudou Machado de Assis foi a portuguesa Carolina Augus-

ta Xavier de Novais, uma solteirona de 35 anos, bonita, culta e elegante, que

ele desposou aos trinta anos. Ela vinha de uma desilusão amorosa com um

português, e a família dela não queria que a moça casasse com um mulato. O

casamento aconteceu, mas eles não tiveram filhos. O motivo foi confessado

em complexas sutilezas, como era de seu estilo, no fechamento de Memórias

Póstumas de Brás Cubas: “Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o

legado da nossa miséria”.

Por que estas explicações e por que estes trechos? O livro é o pão nosso de cada

dia, o pão do espírito. Ele nos alimenta a alma. E nos ajuda a aprender Português.

Depois do vocabulário, vamos às frases e orações que compõem um período.

Um ou mais períodos formam um parágrafo. Um ou mais parágrafos foram um

texto, que pode ser dividido em capítulos, como faz Machado nos seus romances.

O Português tem algumas singularidades. A maioria das palavras não tem

acento. A maioria das palavras são paroxítonas, isto é, a sílaba mais forte é a

penúltima: abacate, bergamota, cavalo, ditado, escola, faculdade, ginecologis-

ta, hospedagem, idealista, juramento, laranja, moleque, narciso, obcecado, po-

tranca, quadrado, recado, sulfato, timaço, umbanda, varanda, xavante, zeloso.

A ordem direta é predominante no Português. Isto é, para arrumar as pala-

vras e construir frases e orações, a ordem é a seguinte: primeiro o sujeito; de-

pois o verbo; por último, o(s) complemento (s). O professor ensinou concor-

dância verbal (ontem, na aula à distância, com exemplos na lousa eletrônica).

O aluno aprendeu a lição (com leitura, exemplos e exercícios feitos em casa).

Mas podemos construir frases também com outras ordens: complemento,

verbo, sujeito; verbo, complemento, sujeito; verbo, sujeito, complemento.

Machado de Assis, na abertura de Dom Casmurro, usou complemento(s)

(uma noite destas, vindo da cidade para o Engenho Novo), sujeito oculto, ver-

bo (encontrei), complemento(s) de novo (no trem da Central um rapaz aqui do

bairro, que eu conheço de vista e de chapéu).

No fechamento de Memórias Póstumas de Brás Cubas, ele usa a ordem dire-

ta: sujeito oculto, verbo (Não tive) complemento (filhos), e a seguir emenda outra

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frase com sujeito oculto, verbo (não transmiti) complementos (a nenhuma cria-

tura o legado da nossa miséria).

Notem que as frases ou orações formam um ou mais períodos, como tam-

bém ocorre neste último caso, na abertura do romance Ressurreição, quando

ele usa complementos (“Naquele dia – já lá vão dez anos!”), sujeito (o dr. Félix)

verbo(s) (levantou-se tarde, abriu a janela e cumprimentou o sol). (...) sujeito

oculto, verbo (estamos) complementos (Alegres com vermos o ano que des-

ponta), e sujeito oculto de novo, verbo (não reparamos), complementos (que

ele é também um passo para a morte)”.

Ele nos disse que:

1) O dr. Félix levantou-se tarde;

2) (O dr. Félix) abriu a janela;

3) (O dr. Félix) cumprimentou o sol;

4) (o Dr. Félix fez as três coisas): “naquele dia”, “já lá vão dez anos”;

5) (Nós ficamos) alegres com vermos o ano que desponta;

6) (Nós) não reparamos que ele é também um passo para a morte.

Arrumando uma boa ordem também para os períodos, fazemos um parágrafo:

1) Capítulo I de Dom Casmurro. Primeiro parágrafo.

Uma noite destas, vindo da cidade para o Engenho Novo, encontrei no trem da

Central um rapaz aqui do bairro, que eu conheço de vista e de chapéu. Cumpri-

mentou-me, sentou-se ao pé de mim, falou da Lua e dos ministros, e acabou

recitando-me versos. A viagem era curta, e os versos pode ser que não fossem

inteiramente maus. Sucedeu, porém, que, como eu estava cansado, fechei os

olhos três ou quatro vezes; tanto bastou para que ele interrompesse a leitura e

metesse os versos no bolso.

2) Capítulo I de Ressurreição. Primeiro parágrafo.

“Naquele dia, — já lá vão dez anos! — o Dr. Félix levantou-se tarde, abriu a jane-

la e cumprimentou o sol. O dia estava esplêndido; uma fresca bafagem do mar

vinha quebrar um pouco os ardores do estio; algumas raras nuvenzinhas bran-

cas, finas e transparentes se destacavam no azul do céu. Chilreavam na chácara

17

vizinha à casa do doutor algumas aves afeitas à vida semi-urbana, semi-silvestre

que lhes pode oferecer uma chácara nas Laranjeiras. Parecia que toda a natu-

reza colaborava na inauguração do ano. Aqueles para quem a idade já desfez

o viço dos primeiros tempos, não se terão esquecido do fervor com que esse

dia é saudado na meninice e na adolescência. Tudo nos parece melhor e mais

belo, — fruto da nossa ilusão, — e alegres com vermos o ano que desponta, não

reparamos que ele é também um passo para a morte.”

3) Capítulo CLX de Memórias Póstumas de Brás Cubas Último parágrafo.

“Este último capítulo é todo de negativas. Não alcancei a celebridade do em-

plasto, não fui ministro, não fui califa, não conheci o casamento. Verdade é que,

ao lado dessas faltas, coube-me a boa fortuna de não comprar o pão com o suor

do meu rosto. Mais; não padeci a morte de D. Plácida, nem a semidemência do

Quincas Borba. Somadas umas coisas e outras, qualquer pessoa imaginará que

não houve míngua nem sobra, e conseguintemente que saí quite com a vida. E

imaginará mal; porque ao chegar a este outro lado do mistério, achei-me com

um pequeno saldo, que é a derradeira negativa deste capítulo de negativas: —

Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria.”

Por fim, recomendamos que você faça boas leituras. Como estas, de Macha-

do de Assis, nosso maior escritor. Você vai aprender Português com os mestres

da língua portuguesa. E este é o maior deles. (fim).

18

Nem todo brasileiro fala do mesmo jeito

1

22 • capítulo 1

Apresentação do capítulo

Neste primeiro capítulo, discutiremos algumas diferenças entre “fala” e “es-

crita” e ainda as noções de variação linguística e adequação da linguagem.

Compreender o funcionamento básico da linguagem é essencial para utilizá-la

adequadamente. Além disso, é preciso aprender a norma padrão, estabelecida

pelas gramáticas, pois é ela que é exigida em contextos formais, assim, apre-

sentaremos alguns casos básicos que geram muita dúvida ao escrever e falar.

Esperamos que você conheça passe a usar os aspectos da norma padrão nos

contextos em que eles são exigidos.

OBJETIVOS

• Conceber fala e escrita não como modalidades opostas, mas como um continuum de diferenças;

• Apreender a variação linguística e a adequação da linguagem;

• Analisar as diferenças entre a norma padrão, culta e coloquial;

• Conhecer alguns usos linguísticos recomendados pela norma padrão.

REFLEXÃO

Você se lembra?

Você já parou para refletir sobre o papel central que a língua ocupa em nossas vidas? Cer-

tamente sim, pois utilizamos a língua e a linguagem nas mais diversas situações. A todo mo-

mento, usamos a fala, a escrita, gestos, símbolos, sinais e outras formas nos comunicarmos.

Mas você já observou que a língua que usamos para falar em situações informais com nossos

amigos íntimos e parentes é diferente da língua que empregamos em situações formais, com

chefes no trabalho, em reuniões de negócio, pessoas com as quais não temos intimidade etc.

Reparou também que dependendo do canal onde nos comunicamos ou nos expressamos, a

nossa língua muda? A linguagem das redes sociais é distinta das encontradas em romances,

artigos de opinião veiculados em jornais etc. Toda essa reflexão envolve uma teoria básica

sobre língua, linguagem, gêneros textuais, adequação da linguagem e outros termos que

você conhecerá nesse capítulo.

capítulo 1 • 23

O professor Luís Cláudio Dallier, no livro Comunicação e Expressão, trata

da variação linguística. Ele a define como o fenômeno de uma língua que sofre

variações ao longo do tempo, do espaço geográfico, do espaço ou da estrutura

social, da situação ou do contexto de uso. Isso significa dizer que uma língua

está sujeita a reajustar-se no tempo e no espaço para satisfazer às necessidades

de expressão e de comunicação, individual ou coletiva, de seus usuários.

Podemos abordar a variação linguística sob diversas perspectivas. Se levar-

mos em conta uma situação de comunicação qualquer, teremos alguns ele-

mentos que vão apontar para variedades no modo de usar a língua.

Por exemplo:

• Quem fala?

• Para quem fala?

• Quando fala?

• Como fala?

• Por que fala?

Essas perguntas evidenciam que nossa fala pode variar de acordo com a si-

tuação ou com o contexto da comunicação, conforme as pessoas que nos ou-

vem, o assunto de que estamos tratando ou a intenção de nossa mensagem.

Outra forma de abordarmos a variação linguística é por meio da constata-

24 • capítulo 1

ção de variações no uso da língua em algumas dimensões:

a) Dimensão geográfica ou regional: um mesmo idioma pode variar de um

lugar para o outro.

Por exemplo, o Português tem variações nas nove nações lusófonas, isto

é, aquelas em que é a língua oficial ou uma das línguas oficiais: Angola, Bra-

sil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique, Portugal, São

Tomé e Príncipe, Timor Leste. É muito falada também em regiões como Macau

(na China), Goa (na Índia), Galiza (na Espanha), sem contar regiões do Para-

guai, Uruguai e EUA.

Às vezes, há variações também dentro do próprio país em que o Português

é a língua oficial. Na escrita, que adota a norma culta, é mais uniforme, mas

na fala, não! O gaúcho fala de um modo que é só seu; o catarinense falado em

Florianópolis, uma ilha, não é o mesmo do resto do litoral, nem o da região ser-

rana, que é muito mas semelhante ao modo de falar do gaúcho. Os brasileiros

que habitam o Nordeste falam com variações, que se subdividem se os falantes

são baianos ou cearenses. Temos também o falar caipira, próprio do interior

do estado de São Paulo. Em Minas, a palavra “trem” tem tantos usos que num

dicionário do mineirês, seria um dos verbetes mais extensos.

Essas variações não atrapalham, antes enriquecem a língua portuguesa,

com um dia já foi enriquecida por árabes, judeus, espanhóis, índios, africanos,

alemães, franceses, italianos, poloneses etc. Por exemplo: quantos nomes de

pratos culinários são franceses ou de origem africana? Quantos nomes de rios,

lagoas e montanhas são indígenas? Quantas danças e canções foram trazidas

por imigrantes e ainda são cantadas na língua original? Quem já não ouviu a

expressão “mamma mia”, “porca miséria”

b) Dimensão social: a classe social dos falantes pode influenciar seu modo

de dizer as coisas. Por que acontece isso? Porque, por norma, quem está situa-

do do meio da pirâmide social para cima convive com quem fala de acordo com

a norma culta, uma vez que é maior a possibilidade de acesso ao ensino e aos

bens culturais (livros, bibliotecas, teatro, cinema etc.). E quem está na base da

pirâmide social lê pouco, não vai ao cinema, não vai ao teatro. não assina jornal

ou revista. Mas ainda assim sofre grande influência do rádio e da televisão, por

exemplo. E, mais recentemente, também da internet.

capítulo 1 • 25

Este cartum mostra um exemplo de variação na dimensão social.

c) Dimensão da idade: Pessoas de idades diferentes (crianças, jovens, adul-

tos e idosos) podem apresentar um modo variado de usar a língua. Veja o se-

guinte exemplo:

Situação: um jovem falando com seu pai ao telefone.

O jovem fala: Ô velho, já faz um tempão que sou dono do meu nariz... Sem-

pre batalhei, arrumei um trampo, dou um duro danado!

Me empresta o carango pr’eu sair com a gata hoje?

O pai responde: Só se você conseguir traduzir o que disse para uma lingua-

gem que eu gosto de ouvir de meu filho!

d) Dimensão do sexo: Em função de condicionamentos culturais e sociais,

homens e mulheres podem usar a língua ou se expressarem de forma diferente.

Vamos a um exemplo:

Homem: Cara, comprei uma camisa muito legal!

Mulher: Menina, comprei uma blusinha linda! Ela ficou “maaaaravilhosa”!

e) Dimensão da geração: Está relacionada com a variação histórica no uso

da língua. Veja o exemplo:

Jornal O Estado de S. Paulo, de 11 de março de 1900: “O dr. Vital Brasil se-

guiu hontem para Sorocaba, afim de obter aguas remanciais (...) para ser exami-

26 • capítulo 1

nada aqui bacteriologica e chimicamente, aver se pode servir o abastecimento

de agua daquela cidade.”

Jornal O Estado de S. Paulo, de 11 de março de 2000:

“O governador do Rio, Anthony Garotinho, disse ontem que a principal cau-

sa da morte de 132 toneladas de peixes e crustáceos na Lagoa Rodrigo de Freitas

(...) foi o excesso de peixes e não o lançamento clandestino de esgoto.”

1.1 Fala e escrita

É comum ouvirmos que a fala é informal e a escrita, formal, que a fala não é

planejada e que a escrita é planejada, que a fala é repleta de “erros” e a escrita

não, que a fala é contextualizada e a escrita, descontextualizada etc. Porém,

essa visão dicotômica não está correta, visto que há muitos gêneros textuais

de língua falada que seguem os preceitos da norma padrão, como por exem-

plo, uma conferência, as notícias veiculadas nos grandes telejornais, uma

sentença proferida por um juiz, um discurso político bem planejado, uma

mesa-redonda etc. Por outro lado, existem exemplos de escrita informal,

como bilhetes, recados em redes sociais e outros repletos de informalidades,

como bem explica Marcuschi (2010, p. 9):

Em certos casos, as proximidades entre fala e escrita são tão estreitas que parece

haver uma mescla, quase uma fusão de ambas, numa sobreposição bastante grande

tanto nas estratégias textuais como nos contextos de realização. Em outros, a distância

é mais marcada, mas não a ponto de se ter dois sistemas linguísticos ou duas línguas,

como se disse por muito tempo. Uma vez concebidas dentro de um quadro de inter-re-

lações, sobreposições, gradações e mesclas, as relações entre fala e escrita recebem

um tratamento mais adequado, permitindo aos usuários da língua maior conforto em

suas atividades discursivas.

Dessa forma, Marcuschi sugere uma distinção entre fala e escrita baseada

em suas características estruturais, tais como se evidencia no quadro a seguir:

FALA ESCRITA

Plano da oralidade (prática social interativa) Plano do letramento (diversas práticas

da escrita)

capítulo 1 • 27

Usa aparato biológico do ser humano Usa “tecnologia” escrita

Sons articulados e significativos; aspec-

tos prosódicos, recursos expressivos

como gestualidade, movimentos do cor-

po, mímica etc.

Unidades alfabéticas, ideogramas ou

unidades iconográficas

Aspecto sonoro Aspecto gráfico

Quadro 2- Fala e escrita

(Elaborado pela autora com base em Marcuschi, 2010, p. 25-26)

Com base na concepção discursiva e no meio de produção, Marcuschi apre-

senta o seguinte gráfico:

GÊNEROS TEXTUAIS MEIO DE PPRODUÇÃO CONCEPÇÃO DISCURSIVA DOMÍNIO

Sonoro Gráfico Oral Escrita

Conversação

espontânea X X A

Artigo científico X X D

Notícia de TV X X C

Entrevista publi-

cada na Veja X X B

(MARCUSCHI, L. A., 2010, p. 40)

A produção do domínio “a” −conversação espontânea− é protótipo da orali-

dade por ser um texto tipicamente oral, visto que é sonoro e oral. A produção do

domínio “b” –entrevista publicada na revista Veja –não é um protótipo nem da

escrita nem da oralidade por ser um texto misto, já que é gráfico apesar de oral.

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