Literatura Infantil e Infanto-Juvenil - Apostilas - Letras , Notas de estudo de Literatura
jacare84
jacare84

Literatura Infantil e Infanto-Juvenil - Apostilas - Letras , Notas de estudo de Literatura

92 páginas
20Números de download
1000+Número de visitas
Descrição
Apostilas de Letras sobre o estudo da Literatura Infantil e Infanto-Juvenil, leitura como responsabilidade social, surgimento da literatura infanto-juvenil: contexto histórico, narrativa destinada ao público infanto-juve...
40 pontos
Pontos de download necessários para baixar
este documento
Baixar o documento
Pré-visualização3 páginas / 92
Esta é apenas uma pré-visualização
3 mostrados em 92 páginas
Baixar o documento
Esta é apenas uma pré-visualização
3 mostrados em 92 páginas
Baixar o documento
Esta é apenas uma pré-visualização
3 mostrados em 92 páginas
Baixar o documento
Esta é apenas uma pré-visualização
3 mostrados em 92 páginas
Baixar o documento
ULBRA

ULBRA

LITERATURA INFANTIL E INFANTO-JUVENIL

NOTA SOBRE A AUTORA

Mara Elisa Matos Pereira é licenciada em Letras (1992) pela Universidade Federal do Rio

Grande do Sul (UFRGS), graduada em Psicologia (2003) pela mesma universidade, mestrado

em Lingüística e Letras (1996), com linha de pesquisa em teoria da literatura, pela Pontifícia

Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), e doutorado em Lingüística e Letras

(2001), com área de concentração também em teoria da literatura, pela mesma instituição.

Atualmente, é professora adjunta com doutorado da Universidade Luterana do Brasil (Ulbra).

Tem experiência na área de letras, com ênfase em teoria literária e literatura infantil.

APRESENTAÇÃO

A literatura infantil exerce um importante papel na formação da criança. Nesta obra,

abordaremos questões diretamente ligadas a esse gênero. Além de salientarmos sua importância,

destacaremos suas características principais, sua origem e evolução ao longo do tempo.

Falaremos a respeito de textos e autores infanto-juvenis e do papel do professor como mediador

da leitura literária, destacando os desafios enfrentados por aqueles que desejam formar leitores.

A abordagem por nós escolhida começa por apresentar as especificidades da leitura

literária, buscando fundamentar, através destas, a importância de estimularmos, desde cedo, na

formação das crianças, o contato com os mais variados textos literários. Em seguida,

procuramos traçar um perfil dos leitores infanto-juvenis, com o intuito de oferecermos, aos

futuros professores, um suporte teórico que os permita selecionar adequadamente textos a serem

apresentados em sala de aula.

Após falarmos da leitura e do leitor, partiremos para a exploração do terreno pertencente

à produção literária infanto-juvenil. Primeiro, contextualizamos seu surgimento, enfatizando sua

estreita ligação com as transformações ocorridas na sociedade européia, a partir do

estabelecimento do modo burguês de vida como paradigma. Em seguida, apontamos o caminho

seguido pelo gênero tanto na narrativa como na poesia. Por fim, apresentamos um panorama da

literatura infanto-juvenil brasileira, destacando as principais linhas que a constituem e os autores

significativos.

Os três últimos capítulos do livro são dedicados às possibilidades de trabalho com a

literatura em ambiente escolar. Elencamos, primeiramente, algumas formas de apresentação do

texto literário, dando destaque à contação de histórias. Depois, abordamos as relações entre

literatura e outros meios que se dedicam a apresentar textos ficcionais, como a televisão e o

cinema. Encerramos falando a respeito da importância de se trabalhar com a literatura na escola

através de projetos de leitura bem estruturados.

Assim, este livro é uma síntese de vários caminhos que constituem o território da

literatura infanto-juvenil. Ele se propõe a ser um mediador entre o aluno e a produção teórico-

crítica sobre o tema. Aqueles que reconhecerem a importância do trabalho com a leitura literária

devem continuar a percorrer este caminho de estudos aprofundando e ampliando suas leituras.

SUMÁRIO

1 A leitura literária

1.1 Leitura

1.2 A formação do leitor

1.3 A leitura do texto literário

1.4 Iniciação literária

1.5 A leitura como responsabilidade social

2 O leitor infanto-juvenil: uma tipologia

2.1 O leitor infanto-juvenil

2.2 Assimetria e adaptação

3 A literatura infanto-juvenil: origem

3.1 O surgimento da literatura infanto-juvenil: contexto histórico

3.2 Os textos destinados à criança

3.3 Problemáticas do texto infanto-juvenil

4 A narrativa infanto-juvenil

4.1 A narrativa literária

4.2 A narrativa destinada ao público infanto-juvenil

4.3 A formas narrativas oriundas da oralidade

4.4 As adaptações de narrativas destinadas ao público adulto

4.5 As narrativas autorais

5 A poesia infanto-juvenil

5.1 Um conceito de poesia

5.2 As fontes da poesia infanto-juvenil

5.3 As característica da poesia infanto-juvenil contemporânea

5.4 A poesia na sala de aula

6 A história da literatura infanto-juvenil brasileira: fases e autores I

6.1 A origem da literatura infanto-juvenil brasileira (1890 – 1920)

6.2 O gênero se consolida no Brasil (1920-1945)

6.3 As tendências seguidas pelo gênero (1945-1965)

7 A história da literatura infanto-juvenil brasileira: fases e autores II

7.1 Breve histórico da tranformação

7.2 Os caminhos da literatura infanto-juvenil contemporânea

7.3 As características estruturais

8 As formas de apresentação do texto literário na escola

8.1 A contação de histórias

8.2 Dramatização

8.3 A interação entre literatura e outras expressões artísticas

9 As relações entre texto literário, televisão, cinema e história em quadrinhos

9.1 No reino da imagem

9.2 As mídias analógicas

9.3 As histórias em quadrinhos

10 Projetos de leitura literária na escola

10.1 As relações entre literatura e escola: história

10.2 A leitura literária e as atividades escolares

10.3 Projetos de leitura literária

10.4 O método recepcional

Referências por capítulo

Referências

Gabarito

1 A leitura literária

Mara Elisa Matos Pereira

A leitura literária é um tipo especial de leitura. Sua especificidade decorre, sobretudo,

das características do texto literário. Não é fácil dizer exatamente o que o texto literário possui

que o diferencia dos demais textos que circulam na sociedade desde tempos remotos. Muitos

estudiosos, desde o filósofo grego Aristóteles 1 , buscaram estabelecer critérios para a

classificação de um texto como literário, mas o fato é que, até hoje, não temos nenhum traço que

esteja presente exclusivamente nele.

Mesmo diante dessa realidade, seguimos valorizando a literatura como uma

manifestação humana que merece lugar entre as práticas culturais de nossa sociedade e

continuamos reservando espaço para ela no ambiente escolar. Os motivos para valorizá-la e para

transformá-la em instrumento de formação do sujeito variaram ao longo do tempo.

Conseqüentemente, variou também a função social que ela assumiu de uma época para outra.

Apesar disso, é sempre bom lembrar que literatura é, antes de tudo, arte. Independente do que

façamos com ela ou de que forma ela repercute na sociedade, sua origem deve ser, em princípio,

um ato de criação artística e é assim que devemos considerá-la.

Quando falamos em literatura infanto-juvenil, geralmente corremos o risco de esquecer

o caráter artístico dos textos pertencentes ao gênero, a favor de uma abordagem mais lingüística,

aproveitando poesias e narrativas literárias para ensinarmos Língua Portuguesa, ou mais

ideológica, centrada na transmissão de valores e comportamentos – atitudes que, muitas vezes,

reduzem as possibilidades de interpretação do texto literário e o empobrece. A leitura literária

pode conduzir o leitor a mundos fascinantes. Estimulá-la de forma livre é permitir essa viagem

fantástica.

1.1 Leitura

Antes de falarmos a respeito da leitura literária, é importante estabelecermos um

conceito de leitura. Na atualidade, o termo ganhou um sentido amplo. Entendemos leitura como

um processo de compreensão e interpretação do mundo. É comum ouvirmos que a “leitura do

mundo precede a leitura da palavra”, colocação esta feita por Paulo Freire 2 .

Essa ampliação do termo foi acompanhada por uma transformação do conceito de

leitura. Atualmente, pode se dizer que ela não é mais concebida como um ato mecânico de

decodificação de palavras, frases, parágrafos etc. Não é mais compreendida como um exercício

de busca da interpretação correta de uma mensagem que está exclusivamente no texto.

Ler um texto é atribuir-lhe significações. Para isso, devemos desenvolver uma atividade

de reconstrução daquilo que nos é apresentado. Reconstruir o material escrito envolve um

mecanismo de decodificação e de ativação dos conhecimentos de que o leitor dispõe. Assim, a

leitura põe em ação o nosso conhecimento de mundo, isto é, o conjunto das experiências que

possuímos. Ela se caracteriza por ser uma atividade de assimilação de conhecimento, de

interiorização e de reflexão.

 É assimilação de conhecimento, não só porque, através da leitura, entramos em

contato com o conhecimento humano organizado, mas também porque o mundo

delineado pelo autor do texto é sempre fruto de seu olhar e, para nós, algo novo.

 É interiorização, porque o ato de ler desencadeia um intenso processo

psíquico, em que raciocínio, memória e emoção trabalham em conjunto para

gerar a significação do texto. A linguagem, por seu caráter lógico, aciona nosso

raciocínio, e por seu caráter simbólico, necessita de nossa memória para ser

significada, ativando também nossas emoções.

 É reflexão, porque quando significamos o texto de outro, reconstruindo suas

idéias, comparamos o nosso resultado com aquilo que sabíamos antes da leitura,

visto que cada indivíduo concretizará a significação conforme a experiência de

vida que possui. O resultado da comparação pode conduzir a um exercício

reflexivo transformador.

O processo de reconstruir um texto é resultado de um posicionamento ativo do leitor,

que une seu conhecimento de mundo à matéria escrita para, dessa união, produzir a significação.

Se entendermos a leitura dessa forma, o leitor passa a ter um papel de muito maior relevância no

processo, pois se torna sujeito das significações que constrói. Lógico que, para que isso ocorra,

ele precisa ter se tornado um leitor.

1.2 A formação do leitor

O processo de formação pelo qual passa um indivíduo, até não se atemorizar com o

texto escrito e perceber nele um grande número de significações possíveis, é muito longo. É por

isso que falamos de processo de leitura, pois é algo que se desenvolve no tempo e pressupõe

etapas. Ninguém se torna um leitor do dia para a noite.

Além disso, existe uma variedade imensa de textos, dos mais simples aos mais

complexos. Isso significa que também existe uma variedade de leitura e de leitores. Muitas

pessoas que lêem sem dificuldade uma série de textos, podem se sentir completamente perdidas

diante de um determinado gênero textual. Isso acontece porque cada gênero textual possui uma

estrutura, uma linguagem e uma função social determinadas. Podemos ler, sem dificuldades,

textos informativos, como notícias e reportagens jornalísticas, e nos sentirmos inseguros diante

de um texto teórico sobre uma área de conhecimento que não dominamos.

Ademais, é bastante comum, em nossa sociedade, encontrarmos pessoas que, mesmo

tendo sido alfabetizadas, não desenvolveram uma prática de leitura efetiva. São pessoas que se

restringem a ler textos simples e predominantemente informativos. Certamente, temos aí um

leitor diferente daquele que está em contato com textos variados ou mais complexos. Ele faz um

uso exclusivamente pragmático do ato de ler e sua competência de leitura é restrita à utilização

em situações cotidianas pontuais, como, por exemplo, a leitura de placas de orientação.

O desenvolvimento da competência de leitura ocorre pelo contato com textos de gêneros

variados e pela freqüência com que o leitor se exercita nela. Um leitor competente acaba por

tornar-se um leitor crítico. Podemos definir esse tipo de leitor como aquele que

não é apenas um decifrador de sinais, mobiliza seus conhecimentos para dar coerência

às possibilidades do texto; é cooperativo, já que deve promover a reconstrução de

mundo, a partir de indicações que o texto lhe oferece; é produtivo, na medida em que

ao refazer o percurso do autor, transforma-se em co-enunciador; é assim, sujeito do

processo de leitura e não objeto.3

A leitura crítica é o ponto culminante do processo de formação do leitor. Isso não

significa que um leitor crítico esteja pronto e não encontre mais obstáculos no mundo da escrita.

Como já observamos, toda vez que nos deparamos com um novo gênero textual, podemos

enfrentar dificuldades de compreensão e interpretação. Porém, quanto mais experientes formos,

mais recursos teremos para realizar a leitura do texto.

A leitura crítica é libertadora. Se escola consegue formar um leitor crítico, ela contribui

para que ele tenha acesso a um patrimônio cultural que lhe pertence por direito. Nas relações

entre leitor e mundo da leitura, pode se originar um processo de emancipação do sujeito, o qual

se transforma e, conseqüentemente, transforma sua realidade.

1.3 A leitura do texto literário

Tratamos, até aqui, do processo de leitura de forma geral. Agora, interessa-nos

caracterizar um tipo específico: a leitura literária. Partimos da idéia que esta possui

peculiaridades suscitadas não só pelo objeto em que está centrado o processo, isto é, o texto

literário, mas também pelo tipo de relação que se estabelece entre este e o sujeito que o lê.

O texto literário é diferente dos outros textos que circulam em nossa sociedade por

vários motivos. Gostaríamos de destacar, primeiramente, duas características que o

singularizam. Nele, a linguagem se apresenta de uma forma especial, as palavras ganham

sentidos novos, muitas vezes, inesperados, provocando uma atenção maior do leitor que precisa

encontrar um caminho de significação ainda não explorado. Além de se deparar com a

utilização da linguagem verbal diferente do uso cotidiano, o leitor também se depara com a

ficção, uma espécie de simulação da realidade, no sentido de que o texto constrói um mundo

semelhante ao mundo real, sendo, no entanto, fruto da imaginação do escritor. Esse mundo pode

abrigar seres fantásticos e, ainda assim, no momento da leitura, parecer um mundo de existência

possível.

Percebemos, então, outra peculiaridade desse tipo de texto: ele nos torna participantes

de uma realidade que não é a nossa, mas que, no momento da leitura, passa a existir. E isso

acontece mesmo quando essa realidade figurada é maravilhosa, como podemos observar neste

fragmento do conto Cinderela:

A rapariga saiu para o jardim a e lembrando-se do que a pomba lhe tinha dito,

– Dóceis pombinhos, rolinhas e todos os passarinhos do céu, venham ajudar-me a

escolher as lentilhas. Os grãos bons no prato, e os maus no papo.

Duas pombas brancas, seguidas de duas rolinhas e de uma nuvem de passarinhos

entraram pela janela da cozinha, e começaram a bicar as lentilhas. E muito antes de

terminarem as duas horas, separaram as lentilhas. Entusiasmada, a menina foi mostrar

o prato com as lentilhas escolhidas à madrasta.4

Tornamo-nos participantes do mundo apresentado no conto através de um processo de

identificação em que emprestamos nossa mente para que o texto literário se realize e

vivenciamos aquilo que, antes da leitura, era apenas letra impressa.

Como podemos observar, então, a leitura literária é produto das características do texto

literário. Vejamos mais um conceito de literatura:

Dúbia, a literatura provoca no leitor um efeito duplo: aciona a sua fantasia, colocando

frente a frente dois imaginários e dois tipos de vivência interior; mas suscita um

posicionamento intelectual, uma vez que o mundo representado no texto, mesmo

afastado no tempo ou diferenciado enquanto invenção, produz uma modalidade de

reconhecimento em quem lê. Nesse sentido, o texto literário introduz um universo

que, por mais distanciado do cotidiano, leva o leitor a refletir sobre sua rotina e a

incorporar novas experiências.5

Por todas as características apontadas, a literatura exerce um papel importante na

formação da criança e do adolescente. Mais do que um discurso que veicula valores e

comportamentos adequados para a boa convivência social, ela é um espaço de liberdade e

criatividade. Um estímulo à fantasia.

Para Sigmund Freud, criador de psicanálise, a criação de fantasias é uma parcela da

atividade psíquica que se mantém, independentemente do princípio da realidade, e é submetida

unicamente ao princípio do prazer. A fantasia é a expressão máxima da realidade psíquica

(núcleo do psiquismo, registro dos desejos inconscientes). Regina Zilberman, grande estudiosa

da literatura infanto-juvenil, concorda nesse aspecto quando afirma que:

Alojada no coração dos problemas de um indivíduo, a fantasia não pode ser escapista;

nem as imagens que ela libera desligam-se do cotidiano ou da existência dos homens.

A fantasia dá uma forma compreensível aos problemas do ser humano.

A fantasia transfere essa forma para a literatura, e o leitor procura ali os elementos

que expressam seu mundo interior.6

Assim, dar uma forma compreensível aos problemas humanos significa que, através de

uma espécie de encenação imaginária, aquilo que antes era confuso ou sem forma pode ser

compreendido. Por exemplo, o medo infantil frente ao desconhecido ganha a forma de criaturas

assustadoras no conto maravilhoso.

1.4 Iniciação literária

Não existe um momento ideal para a iniciação literária. Um bebê já pode criar vínculos

com o objeto-livro antes de entender a linguagem verbal. Hoje, o livro ganhou formato de

brinquedo e pode acompanhar a criança em diversos lugares. Além disso, as cantigas de ninar

são formas poéticas que encantam por sua sonoridade e estabelecem um vínculo para a relação

com a poesia no futuro.

A contação de histórias também desempenha um papel fundamental na aproximação

entre pequeno leitor e texto literário. Antes de ler, a criança ouve e conta histórias, sendo esse

fato decisivo para um futuro vínculo com a literatura. A contação e outras atividades lúdicas

como o desenho, a dramatização e os jogos podem reforçar ou dar início à formação literária da

criança no espaço escolar.

A maneira como o leitor entra em contato com o texto literário na infância, geralmente é

decisiva para a continuidade dessa relação. Se a iniciação é bem-sucedida e o afeto despertado,

as chances de que a criança se torne um leitor literário ao longo de sua vida é muito maior. O

que se constitui na infância deixa marcas significativas no sujeito. Todos aqueles que estão

comprometidos com o processo de formação de leitores literários devem se lembrar disso.

1.4.1 Mediadores de leitura

Quando falamos em iniciação literária, destacamos, como principais mediadores de

leitura, a família e a escola. Mediador de leitura nada mais é do que alguém ou algo que faz a

mediação entre o texto e o leitor ou, em outras palavras, apresenta o texto para o leitor. Se um

pai ou uma mãe conta histórias para seus filhos antes de eles dormirem, aí temos uma mediação

de leitura. Se a criança assiste ao Sítio do Pica-pau Amarelo e pede um livro de Monteiro

Lobato para ler, aí também temos uma mediação de leitura.

Um leitor não se forma sozinho, pois se investigarmos na história de vida das pessoas

que gostam de literatura, encontraremos a presença de um ou mais mediadores que contribuíram

para que esse leitor se formasse. Por isso, falamos em alguém ou algo.

A família ou pessoas próximas à criança são mediadores de leitura muito importantes,

pois são modelos com os quais ela se identifica. Se essas pessoas a apresentam ao texto literário,

estarão criando um vínculo entre ambos, e a forma de apresentação é muito importante para o

estabelecimento da qualidade desse vínculo. Afeto e ludicidade tendem a criar uma relação

significativa entre criança e texto literário.

Contudo, é com a escola que a formação de leitores está mais identificada. Essa

instituição assumiu a função de apresentar, regular e sistematicamente, o texto literário para a

criança. Por isso, ela pode ser um mediador poderoso, tanto no sentido de formar quanto no

sentido de afastar o leitor do texto literário. Tudo vai depender de como a mediação é

encaminhada.

Também, é bastante comum a influência da literatura em outros discursos direcionados

ao público infanto-juvenil. Filmes, desenhos animados e peças teatrais sofreram, ao longo do

tempo, essa influência. Atualmente, eles podem servir como mediadores que conduzem a

criança e o jovem de volta ao texto literário. Toda vez que um discurso retoma outro, cria-se a

possibilidade de que o receptor busque conhecer o discurso retomado. Chamamos essa retomada

de intertextualidade. Como exemplo, pensemos em desenhos animados que adaptaram os contos

maravilhosos, como os de Walt Disney, que nada mais são do que resultantes da

intertextualidade.

1.5 A leitura como responsabilidade social

Há muito a literatura é vista como um discurso que exerce uma função social

importante. Desde os gregos, ela assume tarefas relacionadas à formação do sujeito. Podemos

tomar como exemplo a seguinte colocação de Regina Zilberman:

Que a poesia assumiu desde cedo propensão educativa, prova-o o fato de Psístrato,

modernizador da sociedade ateniense durante o século VI a.C,, ter organizado os

concursos de declamação das epopéias: com isso, reconheceu que eles ofereciam ao

povo padrões de identificação imprescindíveis para ele se perceber como uma

comunidade, detentora tanto de um passado comum, quanto de uma promessa de

futuro, constituindo os vários grupos étnicos, geográficos e lingüísticos da Grécia.7

Como podemos observar, o reconhecimento de que os textos literários apresentam algo

em sua construção que contribui para a formação das pessoas, seja do ponto de vista individual

ou do social, há muito é reconhecida. Por isso, o Estado, ao longo da história, assumiu, de

muitas formas, a função de garantir a presença da literatura na vida das pessoas e a escola fez

mesmo. A parceria entre Estado e escola ainda é forte quando se trata de promover a leitura

literária.

São inúmeros os programas de incentivo e os discursos que defendem essa prática.

Porém, em contraste com o reconhecimento da importância da leitura literária como formadora

de sujeitos mais plenamente desenvolvidos, temos uma realidade social que atesta uma

decadência crescente do interesse pelos textos literários.

Falamos que o Estado e a escola tentam, de alguma forma, assumir a responsabilidade

de promover o contato do sujeito, desde muito cedo, com os textos literários. Os discursos de

incentivo à leitura literária partem dos mais variados setores da sociedade, porém, na prática, o

fracasso em garantir a presença da literatura na vida das pessoas é crescente.

As causas são diversas. Já há algum tempo, os meios de comunicação de massa se

tornaram instrumentos muito mais poderosos no oferecimento de padrões de comportamento e

valores. Além disso, a cultura da imagem também é predominante. Soma-se a isso a tendência

forte de uma visão pragmática e utilitarista do conhecimento e da cultura. A literatura parece, à

primeira vista, uma atividade inútil, pois não ensina nada que possa ser imediatamente aplicado.

As pessoas apresentam certa dificuldade em perceber qual o valor de ler literatura. Em nossa

sociedade, aquilo que não nos diz imediatamente para o que serve costuma ser desprezado.

Falar em leitura, literária ou não, como responsabilidade social, significa apontar para a

necessidade de que as pessoas, em geral, possam perceber a importância dessa atividade em em

seu cotidiano e em suas vidas. Todos reconhecem a importância de ler, mas em um país como o

Brasil, sabemos que o reconhecimento fica apenas no discurso.

Se a escola ocupa um lugar histórico como mediadora de leitura, ela não pode deixar de

exercer esse papel por meio daqueles que a fazem uma instituição viva e de grande influência

social.

Sabemos que a escola e o Estado não devem ser os únicos a assumirem a

responsabilidade de garantir a presença da literatura na vida de cada sujeito, mas todos os que

conseguem reconhecer a importância dessa arte podem se ocupar disso.

PONTO FINAL

Neste capítulo, falamos a respeito da importância da leitura de textos literários para a

formação integral do sujeito. Para tanto, exploramos o tema da leitura, buscando descrevê-la.

Enfatizamos, sobretudo, as características da leitura literária com o objetivo de justificar a

necessidade de um comprometimento, por parte dos adultos, em estimular, desde cedo, o

contato das crianças com diferentes textos literários. Apresentamos, então, o conceito de

mediador de leitura, pois a atividade de mediação entre texto e leitor é essencial para a formação

bem-sucedida deste último. Em virtude do reconhecimento da necessidade de que a literatura

seja apresentada e a leitura estimulada é que encerramos o capítulo tratando da responsabilidade

de todo o adulto para com as crianças que o cercam, no sentido de lhes oferecer a melhor

formação possível para que tenham um desenvolvimento integral.

ATIVIDADES

1) Entreviste pessoas de sua comunidade a respeito da importância da leitura literária.. Busque

determinar qual a realidade de sua comunidade no que se refere à leitura de textos literários.

Selecione pessoas das mais variadas idades e pergunte a respeito da leitura e da literatura.

Construa suas questões a partir da leitura deste capítulo.

2) Selecione textos literários e, a partir da leitura do capítulo, tente caracterizar esse tipo de

texto no diz respeito à linguagem, à construção de um mundo imaginário e à capacidade que

possui de produzir um tipo especial de experiência resultante do processo de identificação.

3) Pesquise, nas escolas de sua comunidade, como os professores exercem o papel de

mediadores de leitura. Quais os recursos empregados por eles para instigarem seus alunos a

lerem textos literários?

2 O leitor infanto-juvenil:uma tipologia

Mara Elisa Matos Pereira

Como observado no capítulo anterior, o leitor não se forma de uma só vez e não resulta

simplesmente do processo de alfabetização. Sabemos que não basta alfabetizar, visto que a

leitura vai além do domínio da língua como código e da mecânica de leitura. Quando falamos

em formação do leitor, devemos pensar em fases de leitura pelas quais passa um sujeito em

desenvolvimento intelectual, desde que ele não tenha o seu processo de formação prejudicado

ou interrompido.

A leitura, entendida como decodificação e interpretação de signos ou de símbolos,

começa muito antes do contato com o texto escrito. Desde os primeiros meses de vida, a

criança, em contato com os estímulos oferecidos pelo meio em que vive, vai aprendendo a

identificar determinados objetos e a eles conferir um significado. Ela, de certa forma, já lê o

mundo que a cerca. A aquisição da linguagem verbal passa por um estágio em que, por meio do

contato com as palavras em sua manifestação sonora ou fônica, a criança começa a relacionar

som e sentido.

A partir daí, a criança inicia seu caminho no mundo da linguagem verbal. A diferença

entre ser um leitor de textos orais e um leitor de textos escritos, é que a aquisição da linguagem

oral se processa de forma natural, sem que se precise de um ensino formal, realizado geralmente

pela escola, para dominá-la. Já o texto escrito só é acessível a quem passou por esse tipo de

ensino.

Com relação à leitura literária, podemos afirmar, então, que a criança, primeiro é uma

leitora de textos orais, pois escuta cantigas, poesias e historinhas para, depois, tornar-se uma

leitora de textos escritos. A escola é quem geralmente se encarrega da segunda etapa.

Apresentaremos, a seguir, uma proposta de sistematização das fases de leitura pelas

quais um sujeito leitor passa até se tornar um leitor crítico. É importante salientar que se trata

apenas de uma entre tantas outras que existem e têm como objetivo auxiliar os professores a

selecionar textos literários adequados para os seus alunos.

2.1 O leitor infanto-juvenil *

Ao descrevermos, de modo geral, o leitor infanto-juvenil, devemos destacar alguns

aspectos importantes. O perfil traçado para cada fase de leitura está diretamente marcado por

aspectos relacionados ao desenvolvimento físico e psíquico do sujeito. Ele, obviamente, não

* A tipologia aqui apresentada é de acordo com os pressupostos teóricos de Aguiar (2001) e Ferreira

(2002).

encontra total correspondência em pessoas reais, pois se trata de um construto teórico. Além

disso, cada fase de leitura foi apresentada de forma bastante sintética, deixando de fora muitos

aspectos do desenvolvimento humano. Outra ressalva importante é que características de uma

fase podem continuar presentes na fase seguinte.

a) Pré-leitura (2 a 6 anos)

Como o nome indica, pré-leitura pressupõe uma fase da linguagem em que a criança

experimenta a oralidade. Assim, escuta textos, a leitura que realiza é através da audição.

O estágio de desenvolvimento cognitivo em que ela se encontra nesse momento,

segundo Jean Piaget, é o pré-conceitual ou pré-operacional. A característica principal desse

estágio é, justamente, a aquisição da linguagem. A função simbólica desenvolve-se e a criança

ingressa como sujeito em um mundo que passará a contribuir intensamente para sua

subjetivação.

A criança, nesse momento de seu desenvolvimento, é egocêntrica, não consegue

assumir o ponto-de-vista do outro e está centrada em si mesma, por isso ela elabora seus

conceitos, constrói seus pensamentos e imagens exclusivamente a partir de suas percepções da

realidade. Observamos também a intensa presença da fantasia infantil: a criança explica a si

mesma as leis de funcionamento do mundo em que vive por meio desse processo de

pensamento.

A descoberta do sentido dos fenômenos e das coisas se dá mais através de seu aparato

perceptual e da linguagem visual do que da verbal, por isso, os textos literários adequados para

essa faixa etária são os livros de imagem, as cantigas e outras modalidades de poesia lúdica que

enfatizam a musicalidade e os jogos sonoros. As histórias curtas e lineares presentes nos contos

de fada e nas fábulas também são indicadas, porque apresentam, além da estrutura simples, a

presença do maravilhoso, elemento tão próximo ao funcionamento da mente infantil.

b) Leitura compreensiva (6 a 8 anos)

Nesse estágio, a criança já é capaz de usar símbolos para executar operações mentais. O

egocentrismo diminui e observamos a presença do que Piaget chama de realismo, isto é, a

criança confunde eventos psicológicos com a realidade objetiva. Por isso, muitas vezes, ela

parece estar mentindo, quando, na verdade, acredita naquilo que está contando.

É nesse período que o processo de alfabetização ocorre. Em um primeiro momento, a

leitura é silábica e está focada na compreensão do signo lingüístico e na articulação entre signos

na formação de frases simples. Aqui, também, a criança pode enumerar, classificar e seriar

objetos.

Os textos literários, nesta fase, devem ser muito curtos e necessitam do apoio da

ilustração para que o sentido se constitua. Os mais adequados a esse momento são as narrativas

curtas que apresentam como tema o cotidiano infantil, as narrativas folclóricas e os contos de

fada, além da poesia de forte apelo sonoro.

c) Leitura interpretativa (8 a 11 anos)

A leitura interpretativa depende da consolidação do processo de alfabetização e do

domínio da mecânica da leitura. Ela se estabelece em um momento do desenvolvimento

cognitivo do sujeito em que ele já pode compreender e utilizar conceitos.

A criança ainda está, segundo Piaget, no estágio operatório concreto, momento em que

ela começa a refletir, usar a lógica e o raciocínio, ampliar a manipulação de objetos concretos,

pensar antes de agir e coordenar suas ações com as dos outros. Além disso, ela vai perdendo o

egocentrismo social e cultural, pois já é capaz de estabelecer os sentimentos morais e sociais de

cooperação. Assim, o respeito, o companheirismo, a honestidade, a justiça e o auxílio ao

próximo podem ser observados.

As operações concretas se realizam no meio em que a criança vive, com objetos

manipuláveis e que podem ser submetidos à experiência afetiva. Observamos, também, a

consolidação dos conceitos de tempo, espaço e causalidade.

Quanto ao domínio da leitura, a criança manifesta uma relativa autonomia. Os textos

podem ser mais longos e menos ilustrados. Porém, as narrativas ainda devem ser lineares, isto é,

apresentar começo, meio e fim, seguindo a seqüência cronológica. A ausência de complexidade

também é condição importante para a compreensão dos textos. Os textos literários adequados

nesse momento são as narrativas e poesias que tematizam o cotidiano, a aventura, o mistério e a

fantasia.

d) Leitura crítica (a partir dos 12 anos)

O leitor crítico é um leitor, em certo sentido, pronto. Para quê? Para a grande aventura

da leitura, para viajar pelas incontáveis obras que existem. Ele já possui a autonomia necessária

para ir sozinho, embora busque sempre companhia, pois um leitor que ama a leitura quer dividi-

la com outros, quer compartilhar seus achados, suas impressões e opiniões.

Esse leitor começa a se constituir por volta dos 12 anos de idade. Para que isso

aconteça, ele precisa ter passado pelos outros estágios de leitura com sucesso. Isso significa que

não basta ter saído da infância e entrado na puberdade – período do desenvolvimento em que se

encontra então –, ele deve ter vencido as outras etapas de sua formação como leitor, pois sem

elas não está preparado para desenvolver a leitura crítica.

Para Piaget, esse é o estágio denominado operatório formal, quando as operações

intelectuais abstratas já podem ser realizadas.

Ademais, a partir da pré-adolescência, o sujeito pode tomar em consideração as regras

gerais, pensa mais em coisas que deduz que dariam certo do que no que é realmente real, além

de poder considerar hipóteses e examiná-las. Ele está apto para entender argumentos complexos

e utilizá-los e também para construir teorias.

Em relação ao campo afetivo, o jovem tem duas conquistas a realizar: a da

personalidade e a da sua entrada na vida adulta, já querendo mudar o mundo, interessando-se

por problemas que não estão diretamente relacionados à sua realidade. Pode elaborar, com

facilidade, teorias abstratas, tem preocupações filosóficas com a vida, começa a criticar a

sociedade e descobre a sexualidade “dos adultos”.

Nesse último estágio de formação, os textos de aventura, com conflitos que são

solucionados coletivamente, são os preferidos até os 14 anos. Posteriormente, textos que

abordam problemas sociais e psicológicos, os quais exigem uma maior capacidade de reflexão,

passam a interessar.

Isso posto, vê-se que a tipologia apresentada tenta delinear, de forma geral, o

desenvolvimento do leitor infanto-juvenil. Ela não corresponde a nenhum leitor real, sendo uma

generalização que serve como orientação no momento do professor avaliar as condições de

leitura de seus alunos e de selecionar textos adequados.

2.2 Assimetria e adaptação

O texto literário infantil, por ser destinado a um sujeito que está percorrendo as

primeiras etapas de seu desenvolvimento, apresenta características constitucionais que não

podem, de forma alguma, ser ignoradas no momento em que nos propusermos a desenvolver

atividades de leitura.

O processo de seleção e apresentação de material literário para crianças exige o

conhecimento desses traços constitutivos do texto literário infantil, a fim de que possamos

identificá-los e avaliá-los antes de processarmos a nossa tarefa de mediadores de leitura.

Isso significa que, além de sermos capazes de avaliar em que fase de leitura nossos

alunos se encontram, quais as dificuldades que apresentam, quais seus interesses e referências

culturais, precisamos também ter a capacidade de avaliar o texto literário que queremos levar

até eles.

O primeiro conceito a ser destacado é o de assimetria. Vejamos a definição de Lypp,

citada por Zilberman:

A particularidade mais geral e fundamental deste processo de comunicação é a

desigualdade dos comunicadores, estando de um lado o autor adulto e de outro o leitor

infantil. Ela diz respeito à situação lingüística, cognitiva, ao status social, para

mencionar os pressupostos mais importantes da desigualdade. O emissor deve desejar

conscientemente a demolição da distância preexistente, para avançar na direção do

recebedor.1

Assim, a assimetria indica uma relação de desigualdade entre o emissor/autor literário

que, na maioria das vezes, é adulto, e o leitor criança, pois eles se encontram em momentos

diferentes de desenvolvimento. A criação de textos para a criança está limitada por esse desnível

e o autor dever adaptar seu discurso ao interlocutor/criança que tem em mente

A adaptação é uma tentativa de aproximação da parte do autor da obra em relação ao

seu leitor. Para que ela se concretize, então, é necessário que o autor defina a quem o seu texto

se dirige. É a imagem de leitor que o autor constrói em sua mente que o guia no processo de

adaptação.

Nesse processo, o emissor deve desejar conscientemente a demolição da distância

preexistente, para avançar na direção do recebedor. Todos os meios empregados pelo autor para

estabelecer uma comunicação com o leitor infantil podem ser resumidos sob a concepção de

adaptação. 2

O processo de adaptação envolve uma série de escolhas da parte do autor literário. Não

é um passo a passo, pois o discurso literário conjuga as escolhas, ele é resultante delas.

Muitos escritores de literatura infanto-juvenil dizem que o segredo de sua arte está em

poder voltar a ser criança, ou poder encontrar a sua criança interior, aquela que o adulto foi um

dia, e ver o mundo através do olhar dessa criança. Esse é um exercício difícil, mas é a partir

desse exercício que o autor literário pode realizar a adaptação de seu discurso ao leitor que

deseja atingir.

2.2.1 Os ângulos da adaptação

O texto infanto-juvenil é resultado de uma adaptação que pode ser observada através de

quatro ângulos.

Vamos conhecê-los: *

a) Adaptação do assunto

Trata-se da escolha de temas, das situações problemáticas a serem abordadas nos textos

infanto-juvenis. Quais os temas que devemos escolher quando escrevemos para uma criança ou

* Os ângulos da adaptação aqui apresentados são baseados em Zilberman (1998).

para um adolescente? Aqueles que são do interesse deles ou aqueles que os adultos julgam

adequados e necessários para a formação do jovem leitor? Não é fácil decidir. Parece óbvio que

o ideal é escolher temas que vão ao encontro dos interesses daquele que irá ler o texto, mas a

tendência a transformar a literatura em instrumento de educação, muitas vezes, limita a escolha

de temas.

Outra questão importante diz respeito ao que não pode ser abordado, se há algum tema

proibido ou é só a complexidade da temática que deve ser levada em consideração, bem como

de que forma poderiam ser abordados temas como a morte, a violência ou a sexualidade. Não há

uma resposta fechada para essas perguntas. Cada autor literário faz suas escolhas, orientado,

principalmente, por aquela imagem de leitor que tem em sua mente.

b) Adaptação da forma

A percepção do mundo real na criança é limitada, daí a importância de se escolher uma

forma que coincida com suas expectativas recepcionais. A organização da estrutura textual deve

estar adequada às condições cognitivas do leitor.

Quando falamos em forma, é a estrutura do texto que está em questão. Uma narrativa

possui como elementos estruturais: enredo, personagens, tempo e espaço apresentados por um

narrador. Quanto mais jovem é a criança, mais essa estrutura deve ser simples e reduzida, isto é,

apresentar uma história curta, linear, com poucos personagens, tempo e espaço restritos e

narrador em terceira pessoa. À medida que o texto procura atingir leitores mais velhos, essa

estrutura pode ampliar-se e tornar-se mais complexa. A poesia, nesse caso, privilegia os

aspectos sonoros, quando se dirige ao jovem leitor, investindo no terreno do significado apenas

quando o leitor é mais maduro e capaz de empreender uma interpretação mais complexa

c) Adaptação do estilo

Esse ângulo refere-se à construção lingüística do texto: escolha do vocabulário,

organização das frases, construção dos parágrafos e articulação entre eles.

Quanto ao estilo, a linguagem também precisa estar de acordo com a faixa etária a qual

o texto se dirige: primeiro, somente palavras, depois, frases curtas, parágrafos e assim por

diante.

d) Adaptação do meio

Todos os aspectos externos do livro são importantes e podem atrair para uma possível

leitura. As ilustrações, formato, tamanho, tudo pode colaborar para o interesse da criança e ser

algo decisivo na sua escolha.

A apresentação gráfica do livro infanto-juvenil exerce uma função fundamental. Ela

atrai o leitor e o auxilia na compreensão do texto escrito. É importante que ela não seja apenas

uma espécie de bengala, mas que contribua para o enriquecimento do sentido do texto. Se bem

realizada, ela estimula a imaginação do leitor.

Muitos são os riscos na realização do processo de adaptação. Eles podem ser agrupados

em dois blocos: ou o autor não consegue romper a assimetria por apresentar um texto muito

complexo e distante do mundo de seu leitor, sendo até autoritário e prescritivo, não permitindo,

com isso, que a criança e o jovem realizem o percurso de leitura com liberdade para imaginar ou

pensar sobre o que está lendo; ou ele subestima a capacidade de seu receptor e apresenta textos

aquém da capacidade dele. Os textos repletos de diminutivos, em uma linguagem extremamente

infantil são exemplos disso.

Não é fácil escrever para crianças, o que, se levado a sério, é um grande desafio. Os

bons escritores de literatura infanto-juvenil revelam sempre um profundo respeito pelo seu

leitor, uma busca constante de cumplicidade com este, e é por isso que são bem-sucedidos.

Também não é fácil exercer a mediação de leitura, pois se os escritores devem levar em

consideração a necessidade de redução da assimetria entre eles e seus leitores e serem capazes

de adaptar seus discursos, os sujeitos que fazem a mediação de leitura, entre eles o professor,

também precisam avaliar os textos infantis no que se refere à assimetria e aos ângulos da

adaptação.

A seleção de um texto, para ser apresentado em sala de aula, não pode fugir da análise

que avalia o texto com relação aos temas abordados e a maneira como é feita essa abordagem.

Não pode fugir também de uma avaliação cuidadosa da estrutura e da linguagem do texto

selecionado, a fim de que este esteja de acordo com o estágio em que a maioria dos alunos de

uma turma se encontra. O projeto gráfico também merece atenção (tipo de letra, disposição do

texto na página e ilustrações, entre outros). Por fim, não podemos esquecer nunca de que o leitor

infanto-juvenil com quem trabalhamos é que deve guiar nossas escolhas. Só assim nossa

mediação pode ser bem-sucedida.

PONTO FINAL

Neste capítulo, apresentamos uma tipologia de leitura. Como salientamos, é apenas uma

entre tantas propostas pelos pesquisadores da área. Essa tipologia busca estabelecer um perfil de

leitor para cada uma das fases aqui apresentadas, apontando os temas e estruturas de texto mais

adequadas a eles.

Falamos também a respeito da relação assimétrica que se estabelece entre o texto

infantil, geralmente produzido por um adulto, e o leitor criança, e descrevemos o processo de

adaptação necessário para que haja uma quebra nessa assimetria. Por fim, exploramos os

ângulos da adaptação que devem ser avaliados quando selecionamos um texto para apresentar

no ambiente escolar.

ATIVIDADES

1. Selecione textos infantis de diferentes graus de complexidade e avalie-os quanto aos ângulos

da adaptação, estabelecendo uma descrição da apresentação de temas, estrutura, linguagem e

projeto gráfico.

3 A literatura infanto-juvenil: origem

Mara Elisa Matos Pereira

Neste capítulo, falaremos a respeito da origem da literatura infanto-juvenil. Falar em

surgimento já confere um caráter especial a essa modalidade literária, pois poder datá-la e

vinculá-la a um determinado projeto social é um dos pontos que a diferencia da literatura

destinada a adultos. Enquanto esta última tem sua origem indefinida, do ponto de vista histórico,

o nascimento da primeira ocorre na Idade Moderna.

Trataremos, então, dos aspectos históricos que determinaram a configuração do gênero,

destacando, sobretudo, aqueles que interferem na configuração dos textos literários infanto-

juvenis e que se fazem, de alguma maneira, presentes ainda hoje.

3.1 O surgimento da literatura infanto-juvenil: contexto histórico

A literatura infanto-juvenil tem sua origem vinculada a um processo de transformação

na ordem social européia, que apresenta como ponto central a ascensão da classe burguesa e o

estabelecimento do modo burguês de viver como dominante. Essa transformação se dá em um

processo lento que se instaura no final da Idade Média e atinge seu ápice no século XVIII.

Na sociedade medieval, a população estava distribuída em classes estanques, sem

nenhuma mobilidade. Quem nascia servo, seria servo por toda a sua vida, quem nascia senhor,

assim permaneceria até a sua morte. Esta configuração social pode ser descrita da seguinte

forma

O sistema de linhagem e clientela predominou na Europa durante a Idade Média,

vinculado à estrutura feudal. Centralizado na preservação das amplas relações de

parentesco, vigora sempre que se tem em meta a manutenção da propriedade e a

transmissão da herança. Supõe, pois, a supremacia de uma classe aristocrática,

proprietária de terras, que amplia sua dominação através da expansão dos vínculos

familiares. O casamento é um dos seus principais instrumentos, de modo que dele se

excluem os laços afetivos, devendo atender, antes de tudo, às prerrogativas do grupo.

Por isso, inexiste a noção de privacidade ou vontade individual, já que o chefe de

família centraliza o todo e defende seus interesses, assim como está ausente uma

solidariedade entre os cônjuges ou as gerações.1

As informações históricas do período medieval nos apontam, então, para uma estrutura

social que não privilegia a família nuclear, constituída de pai, mãe e filhos. Os vínculos de afeto

nas relações de parentesco não são estimulados da forma como serão tempos mais tarde. Além

disso, não verificamos, nessa sociedade, a noção de espaço privado, tão importante,

posteriormente, para definir o espaço ocupado pela família.

Nesse contexto social, também observamos que a criança não é vista como alguém que

precisa de cuidados especiais por estar no início de seu processo de desenvolvimento. É comum

encontrarmos, nos textos que tratam do tema, que a criança era considerada um mini-adulto,

sendo integrada às práticas sociais adultas tão logo estivesse apta fisicamente para tanto. Sendo

assim, ela participava das atividades sociais de sua classe social desde cedo, sem que nada lhe

fosse barrado por ser uma criança.

3.1.1 A construção do conceito de infância na Idade Moderna

O conceito de infância se estabelece só na Idade Moderna, diretamente relacionado à

constituição da família nuclear burguesa, como já observamos. Para tanto, Richter, citado por

Zilberman 2 , nos aponta a seguinte situação:

Na sociedade antiga, não havia “infância”: nenhum espaço separado do “mundo

adulto”. As crianças trabalhavam e viviam junto com os adultos, testemunhavam os

processos naturais da existência (nascimento, morte, doença), participavam junto

deles da vida pública (política), nas festas, guerras, audiências, execuções, etc., tendo

assim seu lugar assegurado nas tradições culturais comuns: na narração de histórias,

nos cantos, nos jogos

Muitas são as transformações sociais, de ordem política e econômica, que determinam a

nova configuração do cenário europeu e que deixam para trás essa sociedade antiga. Já não

vemos uma estratificação tão rígida. O homem burguês consegue se ver livre do jugo da nobreza

e conquista espaço à medida que se apropria de recursos econômicos. Seu poder, aos poucos, se

fortalece e sua visão de mundo começa a competir com a visão medieval. Evidentemente que

esse fenômeno não ocorre de uma hora para outra. A transição de um modelo social para o

outro, na sociedade européia, se dá em um processo lento e que não ocorre de forma

homogênea. Por isso, em muitas regiões, o modelo antigo vai se manter presente até o século

XIX.

Nas regiões em que o sistema capitalista foi implantado de forma mais acelerada, a

burguesia urbana ganha visibilidade e faz valer sua estrutura familiar. Nesse contexto, a família

nuclear passa a ter espaço, a mulher e a criança ganham novo status. Observamos, então, um

estímulo à visão da maternidade como algo sagrado. O papel de mãe passa a ser extremamente

valorizado. A mulher é a responsável pela sustentação afetiva do lar. 3

3.1.2 A escola burguesa

Nesse novo quadro social, surge a necessidade de preservação da vida dos pequenos.

Antes, eles eram criados por todos e, conseguir vencer os primeiros anos depois do nascimento

com vida, era um grande feito. A sociedade burguesa passa a cuidar de suas crianças de uma

forma diferente. Primeiro a separa do convívio indiscriminado com os adultos. Espaços

especiais e protegidos são construídos para elas. Um desses espaços é a escola, como observa

Zilberman 4 :

O êxito no processo de privatização da família – maior na camada burguesa, menor

entre os operários – gerou uma lacuna referente à socialização da criança. Se a

configuração da família burguesa leva à valorização dos filhos e à diferenciação da

infância enquanto faixa etária e estrato social, há concomitantemente, e por causa

disto, um isolamento da criança, separando-a do mundo adulto e da realidade exterior.

Nesta medida, e escola adquirirá nova significação, ao tornar-se o traço de união entre

os meninos e o mundo, restabelecendo a unidade perdida.

A escola, nesse período histórico, assume o papel de formar o futuro cidadão burguês,

isto é, apresenta o mundo à criança com a finalidade de prepará-la para viver nele de forma

adaptada e produtiva.

Além de preparar a criança intelectualmente, através da apresentação daqueles

conhecimentos julgados necessários para que ela possa se integrar no mundo do trabalho

quando se tornar adulta, a escola tem ainda a função de garantir que essa criança assuma para si

a ideologia da classe social dominante, adotando os valores por ela considerados desejáveis.

Outra tarefa importante está vinculada à formação dos Estados nacionais. Durante a

Idade Média, os feudos eram unidades muito poderosas e a idéia de um país unificado, com

identidade própria, não era relevante. Com o fim do regime feudal e o fortalecimento do

absolutismo, o qual centraliza o poder político na figura de um monarca, observamos o

crescimento de uma idéia de nação que vai sendo alimentada por um nacionalismo crescente.

A escola, identificada com a tarefa de estimular o nacionalismo e contribuir para a

constituição de uma identidade nacional por todos compartilhada, garante a apresentação e

valorização da história, da produção cultural e da língua nacionais. Tarefa que, de certa forma,

desempenha até os dias atuais.

3.1.3 A infância da classe trabalhadora

Na classe trabalhadora da Idade Moderna, o processo de valorização da infância não

acontece de forma semelhante ao anteriormente relatado. Com a transformação do sistema

econômico, centrando antes nos feudos e agora nas cidades, as relações de trabalho também

sofrem alterações importantes. Surgem novos trabalhadores, não mais os vassalos ligados à

produção agrícola. Muitos saem do espaço rural rumo às novas cidades em busca de outro tipo

de vida.

A configuração familiar dessa classe trabalhadora incorpora o modelo burguês, mas de

forma muito mais lenta. Primeiro, a família nuclear ainda não está plenamente estabelecida e o

casamento não é valorizado. Os filhos não recebem a proteção adequada e, freqüentemente, são

abandonados às instituições de caridade.

Quando isso não ocorre, eles entram muito cedo no mundo do trabalho e, muitas vezes,

trabalham enquanto seus pais ficam pelos bares envolvidos em atividades de todos os tipos,

inclusive políticas.

Como essa prática colocava as crianças em situação de risco e despreparo para o futuro,

uma preocupação com a preservação de uma mão-de-obra futura provoca a intervenção do

Estado.

Pois foi por causa dos alunos oriundos da classe operária que o ensino tornou-se

obrigatório na Europa, a partir do século 19. Assim, foi retirado do meio proletário um

contingente significativo de mão-de-obra, com o fito de proteger a infância e evitar o

aviltamento dos salários. Mas, ao mesmo tempo, isto provocou a diminuição de renda

familiar, o que repercutiu necessariamente no aumento da produtividade do adulto...

Fazendo obrigatório ensino, as crianças eram retiradas do mercado; porém, era preciso

estimular os pais a colocarem os filhos no colégio.5

Essas informações históricas são importantes, pois nos indicam o processo de

construção de uma escola que se mantém viva em muitos aspectos, apesar das transformações

radicais ocorridas durante o século XX e em nossa contemporaneidade. O compromisso do

estado em garantir a educação e regular, através da atividade legislativa, o espaço escolar, ainda

hoje se faz presente.

O que verificamos é um descompasso em nossa sociedade, como o que ocorreu no

surgimento do modelo social que estamos abordando. Países com muitas carências em seu

processo de desenvolvimento ainda dependem muito do Estado como regulador e patrocinador

do ensino. Este é o caso do Brasil.

3.2 Os textos destinados à criança

Conforme já observamos, todo esse processo de transformação levou séculos e,

obviamente, não foi homogêneo. A escola acompanha essas transformações, assumindo a

função de fornecer uma educação que contemple os interesses sociais. Dentro desse contexto,

então, surge a literatura infanto-juvenil. Seu surgimento acontece vinculado à preocupação com

a educação da criança e a função de contribuir para essa educação é logo por ela incorporada.

Os primeiros textos literários destinados às crianças são resultado de um processo de

adaptação de um material já existente. Isso significa que, em um primeiro momento, não

observamos a existência de autores infanto-juvenis.

Os contos maravilhosos são o primeiro material adaptado para o jovem leitor burguês.

Essas produções, antes de sofrerem a adaptação que as transforma nos primeiros de textos de

literatura infanto-juvenil, pertenciam à tradição oral européia há muitos séculos e eram

contados, indiscriminadamente, nas reuniões sociais, tanto para adultos quanto para crianças.

Até o momento nenhum comentário
Esta é apenas uma pré-visualização
3 mostrados em 92 páginas
Baixar o documento