Marx & engels a ideologia alemã, Manual de Desenvolvimento Humano. Universidade Regional do Cariri (URCA)
Ranildo
Ranildo10 de setembro de 2015

Marx & engels a ideologia alemã, Manual de Desenvolvimento Humano. Universidade Regional do Cariri (URCA)

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A ideologia alemã

a ideologia alemã

a ideologia alemã

1845-1846

Karl marx e Friedrich engels

Crítica da mais recente filosofia alemã em seus representantes Feuerbach, B. Bauer e Stirner,

e do socialismo alemão em seus diferentes profetas

Tradução

Rubens enderle Nélio Schneider

Luciano Cavini Martorano

Texto final

Rubens enderle

Copyright desta edição © Boitempo Editorial, 2007 Copyright da tradução © Boitempo Editorial, 2007

Título original: Die deutsche Ideologie: Kritik der neuesten deutschen Philosophie in ihren Repräsentanten Feuerbach, B. Bauer und Stirner, und des deutschen Sozialismus in seinen verschiedenen Propheten (1845-1846) Primeira parte e textos II a IV do Apêndice traduzidos de acordo com a edição do Marx-Engels-Jahrbuch 2003 (Berlin, Akademie Verlag, 2004, 2 v.), confrontada com a edição da MEW–Marx-Engels Werke, v. 3 (Berlin, Dietz Verlag, 1969) Segunda parte e textos I e V a IX traduzidos de acordo com a edição da MEW–Marx-Engels Werke, v. 3 (Berlin, Dietz Verlag, 1969)

Coordenação editorial Ivana Jinkings

Supervisão editorial desta edição Leandro Konder

Tradução Rubens Enderle Nélio Schneider Luciano Cavini Martorano

Texto final Rubens Enderle

Diagramação Raquel Sallaberry Brião

Capa Antonio Kehl (sobre ilustração de Loredano)

Equipe de realização Ana Paula Castellani e João Alexandre Peschanski (editores) Livia Campos e Vivian Miwa Matsushita (assistência editorial) Maurício Balthazar Leal (revisão) Ana Lotufo Valverde e Marcel Iha (produção)

CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE – SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ

M355i Marx, Karl, 1818-1883

A ideologia alemã : crítica da mais recente filosofia alemã em seus representantes Feuerbach, B. Bauer e Stirner, e do socialismo alemão em seus diferentes profetas (1845-1846) / Karl Marx, Friedrich Engels ; supervisão editorial, Leandro Konder ; tradução, Rubens Enderle, Nélio Schneider, Luciano Cavini Martorano. - São Paulo : Boitempo, 2007 Tradução de: Die deutsche Ideologie. Kritik der neuesten deutschen Philosophie in ihren Repräsentanten Feuerbach, B. Bauer und Stirner, und des deutschen Sozialismus in seinen verschiedenen Propheten Conteúdo parcial: Teses sobre Feuerbach / Karl Marx

1. Feuerbach, Ludwig, 1804-1872. 2. Materialismo dialético. 3. Socialismo. I. Engels, Friedrich, 1820-1895. II. Konder, Leandro. III. Enderle, Rubens. IV. Schneider, Nélio. V. Martorano, Luciano Cavini. VI. Título.

05-3365. CDD 335.4 CDU 330.85

Este livro atende às normas do acordo ortográfico em vigor desde janeiro de 2009.

É vedada, nos termos da lei, a reprodução de qualquer parte deste livro sem a expressa autorização da editora.

BOITEMPO EDITORIAL Jinkings Editores Associados Ltda. Rua Pereira Leite, 373 Sumarezinho 05442-000 São Paulo-SP Tel./fax: (11) 3875-7250 / 3875-7250 editor@boitempoeditorial.com.br www.boitempoeditorial.com.br

SUMáRIO

APRESENTAçãO – Emir Sader .......................................................................................................9

SOBRE A TRADUçãO ..................................................................................................................17

ABREVIATURAS ...........................................................................................................................20

PRIMEIRA PARTE Artigos, rascunhos, textos prontos para impressão

e anotações referentes aos capítulos “I. Feuerbach” e “II. São Bruno”

VOLUME I [Crítica da mais recente filosofia em seus representantes Feuerbach, B. Bauer e Stirner]

KARL MARx – CONTRA BRuNO BAuER .........................................................................................25

KARL MARx · FRIEDRICh ENGELS – FEuERBACh E hISTóRIA ...........................................................29 Rascunho das páginas 1 a 29 ..............................................................................................29 Rascunho das páginas 30 a 35 ............................................................................................47 Rascunho das páginas 36 a 72 ............................................................................................51 Anotações ...........................................................................................................................77

KARL MARx · FRIEDRICh ENGELS – FEuERBACh ............................................................................79

KARL MARx · FRIEDRICh ENGELS – I. FEuERBACh A. A IDEOLOgIA EM gERAL, EM ESPECIAL A ALEMã .................................................................83

KARL MARx · FRIEDRICh ENGELS – I. FEuERBACh (INTRODuÇÃO) 1. A IDEOLOgIA EM gERAL, EM ESPECIAL A FILOSOFIA ALEMã .................................................85

KARL MARx · FRIEDRICh ENGELS – I. FEuERBACh – FRAGMENTO 1 ................................................89

KARL MARx · FRIEDRICh ENGELS – I. FEuERBACh – FRAGMENTO 2 ................................................93

KARL MARx · FRIEDRICh ENGELS – O CONCíLIO DE LEIPzIG ..........................................................97

KARL MARx · FRIEDRICh ENGELS – II. SÃO BRuNO ........................................................................99 1. “Campanha” contra Feuerbach .......................................................................................99 2. Considerações de São Bruno sobre a disputa entre Feuerbach e Stirner .......................106 3. São Bruno contra os autores d’A sagrada família ..........................................................108 4. Necrológio de “M. heß” ...............................................................................................114

SEgUNDA PARTE Textos prontos para impressão e rascunhos referentes aos capítulos “III. São Max”,

“IV. Karl grün: ‘O movimento social na França e na Bélgica’ (Darmstadt, 1845) ou A historiografia do socialismo verdadeiro”, e “V. ‘O Dr. Georg Kuhlmann von holstein’ ou A

profecia do socialismo verdadeiro”

III. SãO MAX ..........................................................................................................................121

1. O ÚNICO E SUA PROPRIEDADE ..............................................................................................123

Antigo testAmento: o Homem .............................................................................................125 1. gênesis, isto é, Uma vida humana ...............................................................................125 2. Economia do Antigo Testamento ...................................................................................133 3. Os antigos .....................................................................................................................139 4. Os modernos ................................................................................................................147

A) O Espírito (história pura dos espíritos) ...................................................................150 B) Os possessos (história impura dos espíritos) ...........................................................155

a) A assombração .................................................................................................159 b) A obsessão .......................................................................................................162

C) Impura história impura dos espíritos .......................................................................165 a) Negros e mongóis ............................................................................................165 b) Catolicismo e protestantismo ...........................................................................171

D) A hierarquia ..........................................................................................................174 5. Stirner comprazendo-se com sua construção ................................................................185 6. Os Livres .......................................................................................................................192

A) O liberalismo político ............................................................................................192 B) O comunismo ........................................................................................................202 C) O liberalismo humano ...........................................................................................227

novo testAmento: “eu” ........................................................................................................235 1. Economia da Nova Aliança ..........................................................................................235 2. Fenomenologia do egoísta em acordo consigo mesmo

ou a doutrina da justificação ......................................................................................237 3. Apocalipse de João, o teólogo, ou “a lógica da nova sabedoria” ..................................263 4. A peculiaridade ............................................................................................................291 5. O possuidor ..................................................................................................................304

A) Meu poder .............................................................................................................304 I. O direito ...........................................................................................................304

A) Canonização em termos gerais ..................................................................304 B) Apropriação pela antítese simples .............................................................308 C) Apropriação pela antítese composta ..........................................................310

II. A lei .................................................................................................................316 III. O crime ...........................................................................................................325

A) Simples canonização de crime e punição .................................................325 B) Apropriação de crime e punição por meio de antítese ..............................328 C) O crime na acepção comum e na acepção incomum ...............................332 5. A sociedade como sociedade burguesa .....................................................336

II. A revolta ...........................................................................................................364 III. A associação ...................................................................................................375

1. Propriedade fundiária ................................................................................376 2. Organização do trabalho ...........................................................................378 3. Dinheiro ....................................................................................................382 4. Estado ........................................................................................................386

5. Revolta ......................................................................................................389 6. Religião e filosofia da associação ..............................................................390

A. Propriedade ........................................................................................390 B. Riqueza ...............................................................................................393 C. Moral, intercâmbio, teoria da exploração ...........................................394 D. Religião ..............................................................................................400 E. Adendo sobre a associação .................................................................400

C. Minha autofruição ..................................................................................................403 6. O Cântico dos Cânticos de Salomão ou O Único ..................................................412

2. COMENTáRIO APOLOgÉTICO ................................................................................................427

FIM DO CONCíLIO DE LEIPzIG ...................................................................................................433

VOLUME II [Crítica do socialismo alemão em seus diferentes profetas]

O SOCIALISMO VERDADEIRO ...................................................................................................437

I. DIE RhEInISChE JAhRBüChER OU A FILOSOFIA DO SOCIALISMO VERDADEIRO ........441 A) “Comunismo, Socialismo, humanismo” .......................................................................441 B) “Tijolos socialistas” .......................................................................................................453

Primeiro tijolo ............................................................................................................456 Segundo tijolo ............................................................................................................459 Terceiro tijolo .............................................................................................................463

IV. KARL gRüN: “O MOVIMENTO SOCIAL NA FRANçA E NA BÉLgICA” (DARMSTADT, 1845) Ou A hISTORIOGRAFIA DO SOCIALISMO VERDADEIRO ..........467 Sansimonismo...................................................................................................................474

1. Lettres d’un habitant de Genève à ses contemporains ............................................479 2. Catéchisme politique des industriels ......................................................................481 3. nouveau christianisme ...........................................................................................484 4. A escola sansimoniana ...........................................................................................485

Fourierismo .......................................................................................................................491 O “obtuso Pai Cabet” e o senhor grün .............................................................................499 Proudhon ..........................................................................................................................509

V. “O DR. GEORG KuhLMANN VON hOLSTEIN” OU A PROFECIA DO SOCIALISMO VERDADEIRO .........................................................511

APêNDICE

i. Karl Marx – Prólogo ........................................................................................................523 ii. JosePh WeydeMeyer (coM a colaboração de Karl Marx)

bruno bauer e seu aPologista ........................................................................................525 iii. trecho riscado no Manuscrito do caPítulo “ii. são bruno” (1) ..................................529 iv. trecho riscado no Manuscrito do caPítulo “ii. são bruno” (2) ..................................531 v. Karl Marx – 1. ad Feuerbach (1845) ..............................................................................533 vi. Karl Marx – Marx sobre Feuerbach (1845) ...................................................................537 vii. Karl Marx – [sobre a Fenomenologia do espírito de hegel] ........................................541

viii. Karl Marx – [Plano de trabalho sobre o estado] .......................................................543 iX. Karl Marx – [anotações esParsas] ..................................................................................545

NOTAS .....................................................................................................................................547

íNDICE ONOMáSTICO...............................................................................................................573

íNDICE DAS OBRAS CITADAS .....................................................................................................587

CRONOLOGIA RESuMIDA DE KARL MARx E FRIEDRICh ENGELS ...................................................597

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APRESENTAçãO

I

A busca do conhecimento e da verdade pelo pensamento humano partiu sempre da dicotomia entre sujeito e objeto. As diferentes respostas dadas pelas várias correntes do pensamento a essa questão permitiram sua classi- ficação na grande lista de tendências – idealistas, empiristas, racionalistas, materialistas, metafísicas etc.

Para o pensamento aristotélico, a verdade se identifica com a ausência de contradição. Se A é igual a A, não pode ser igual a B ou a qualquer não A. Simplesmente isso. Sua lógica codifica essas normas elementares, sem as quais qualquer discurso se torna impossível. Se uma coisa é igual a si mesma e diferente de si mesma, se ela é igual a si mesma e igual a outra coisa, trata-se de uma contradição, indicação insofismável de uma falsidade.

Essa lógica – chamada de formal ou da identidade – norteou a grande maioria das correntes do conhecimento ao longo dos séculos, da Antiguida- de, passando pela Idade Média, chegando ao mundo moderno e avançando até o contemporâneo. Podemos dizer que ela continua a moldar o senso comum, consistindo na leitura mais difundida da realidade empírica, tal como ela costuma ser vivenciada por grande parte da humanidade. Nela, a contradição é sintoma de falsidade.

A revolução copernicana no pensamento humano veio com a reversão dessa identificação na obra de Georg Wilhelm Friedrich hegel – para quem, em vez de falsidade, a contradição aponta para a apreensão das dinâmicas essenciais de cada fenômeno. Captar a contradição passa a ser sintoma da apreensão do movimento real dos fenômenos.

A inversão hegeliana coloca em questão outro pressuposto do pensamen- to clássico: a dicotomia sujeito/objeto. Antes, tal dicotomia era condição da reflexão epistemológica, assim como forma de compreensão da inserção do homem no mundo. Do cogito cartesiano ao eu transcendental kantiano, a diferenciação sujeito/objeto habitou, com diferentes roupagens, todos os sistemas filosóficos pré-hegelianos.

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Apresentação

O pensamento de hegel atinge justamente o que era assumido como um dado da realidade: a separação – contraposição ou reencontro – entre sujeito e objeto. Ele descarta a validade de interrogações tais como: se o objeto pode ser apreendido pelo sujeito ou em que medida este é deter- minado ou determina a existência daquele. Em sua perspectiva, a primeira e maior das questões para o conhecimento do mundo, mas também para a compreensão do estar do homem no mundo, passa a ser a busca das razões pelas quais sujeito e objeto aparecem diferenciados e contrapostos. Redefinem-se assim os termos subjetividade e objetividade, cada um deles, mas sobretudo a relação entre eles.

hegel marca também uma diferenciação com o nascente pensamento sociológico, que busca trilhas pelo caminho aberto pelas ciências biológi- cas e absolutiza a identificação da verdade com o máximo distanciamento entre sujeito e objeto, expresso paradigmaticamente na obra de Auguste Comte e Émile Durkheim. Para estes, a garantia da veracidade do conhe- cimento está na medida do afastamento entre sujeito e objeto – conside- ração dos fe nômenos sociais como “coisas” –, a ponto da identificação, incorporada à linguagem corrente, de objetividade com verdade, no sentido de conhecimento isento, universal. As dimensões subjetivas, por sua vez, passam a ser assimiladas a um falseamento do conhecimento verdadeiro dos objetos.

As novidades radicais da dialética hegeliana vão em duas direções. A primeira, a do questionamento dessa concepção de objetividade. Para hegel, o desafio maior é explicar o que costuma ser aceito como dado: por que o mundo nos aparece com uma grande cisão entre sujeito e objeto? Por que o mundo nos aparece como alheio?

Para responder a essas questões, hegel introduz no pensamento filosó- fico a noção de trabalho, uma noção altamente corrosiva para as preten- sões a-históricas e sistemáticas do pensamento tradicional. O conceito de trabalho – posteriormente redefinido por Marx em termos históricos e materiais – permite rearticular a relação entre sujeito e objeto, mediante a versão de que os homens produzem a realidade inconscientemente – “Eles fazem, mas não sabem”, na fórmula sintética de Marx no prefácio a O capital –, em que não se reconhecem. Introduz-se assim, junto com o conceito de trabalho, o de alienação.

Esse conceito diferencia radicalmente o pensamento dialético de outros enfoques, permitindo redefinir as relações entre sujeito e objeto, entre subjetividade e objetividade. O mundo é criado pelos homens, embora não de forma consciente, o que permite explicar tanto a relação intrínseca entre eles quanto o estranhamento do homem em relação ao mundo e a distância deste em relação ao homem.

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A ideologia alemã

hegel reivindica o conceito de contradição, não como sintoma de fal- sidade, mas como motor do movimento do real. O exemplo da dialética do senhor e do escravo é utilizado como a forma mais clara da relação de interdependência das determinações aparentemente opostas, mas que estão incluídas uma na outra. Apreender a contradição da sua relação é apreender a essência de cada polo e o sentido de sua relação mútua.

II

Após um período em que oscilou em torno da polarização herdada da filosofia política clássica e de hegel, entre sociedade civil e Estado, ora valorizando um polo em detrimento do outro, ora refazendo o caminho oposto, Marx rompe com essa visão, para fazer o que denomina “anatomia da sociedade civil”. A abordagem da ideologia é um passo essencial nessa anatomia, porque remete o conhecimento desta às condições materiais de existência em que se assenta. A Alemanha tornou-se objeto privilegiado dessa reflexão, pelo peso que tiveram os vários sistemas de ideias no seu desenvolvimento.

O acerto de Marx e Engels com sua herança filosófica conclui em A ideologia alemã um longo caminho – iniciado com os primeiros textos de Marx – e se dá ao mesmo tempo do amadurecimento de uma teoria alternativa. Tal teoria ganha corpo especialmente a partir dos Manuscritos econômico-filosóficos de Marx, quando se torna claro que o recurso à dia- lética hegeliana significa uma negação, uma incorporação e uma superação dessa herança, na direção da teoria materialista da história.

O roteiro d’A ideologia alemã retoma a trajetória de hegel, mas se vale de instrumentos distintos e desemboca em caminhos muito diferentes. Para hegel, é necessário começar pela crítica das ilusões do conhecimento – o que Marx e Engels passarão a cunhar como ideologia. hegel aponta duas dessas ilusões: tomar as coisas pela sua forma de aparição e relegar o real para um mundo completamente separado das suas aparências. Esses níveis de apreensão da realidade correspondem a níveis efetivamente existentes do real, porém segmentados, separados uns dos outros e sobretudo do significado que engloba a ambos. O mundo que nos aparece sob a dico- tomia entre sujeito e objeto, entre subjetividade e objetividade, tem de ser desvendado nas suas raízes, para compreendermos o porquê dessa cisão, enquanto as ilusões mencionadas optam por um dos dois polos e os abso- lutizam. A apreensão da verdade do real consiste justamente na explicação da forma pela qual o real se desdobra em sujeito e objeto.

Para hegel há dois movimentos. O primeiro, em que o mundo perde sua unidade, cinde-se, duplica-se, produzindo a dicotomia entre o mundo sensível e o mundo suprassensível. Surgem o estranhamento, a alienação,

12

Apresentação

a consciência que não se reconhece no mundo e o mundo como realidade alheia à consciência. De um lado, a consciência pura; de outro, ao alienar- -se, a consciência convertida em objeto de si mesma, contemplada, mas não reconhecida. É como se a consciência olhasse para o mundo tal qual estivesse olhando pela janela e não olhando para si mesma, no espelho do mundo.

O segundo movimento trata da passagem da consciência em si à cons- ciência para si, com o real retomando sua unidade perdida, reabsorvendo os dois polos em uma unidade superior, eliminando a cisão do mundo. O ca- minho da razão é portanto o caminho do reconhecimento da cisão e de suas raízes; em seguida, de sua superação e do restabelecimento de sua unidade.

Afirma-se, assim, pela primeira vez na história da filosofia, que o mun- do é produto do trabalho humano, como realidade histórica construída coletivamente pelos homens. Também pela primeira vez afirma-se, na filo- sofia, que o homem é um ser histórico, o que é dado por sua capacidade de trabalho.

O ajuste de contas de Marx e Engels começa pelo principal dos pensa- dores hegelianos de esquerda, aquele que mais os havia influenciado, Ludwig Feuerbach. Esse autor também se propôs a fazer a crítica do idea- lismo de hegel. Seu ponto de partida é o das ilusões, mas o das ilusões psicológicas, como chave para decifrar a expressão mais típica da aliena- ção – a religiosa.

Para Feuerbach, a capacidade de abstração está na origem da aliena- ção religiosa, em que o homem projetaria suas características, elevadas ao infinito, em um ser externo ao homem. Em vez de ser criado por Deus, como acredita a visão religiosa, é o homem quem cria Deus. De criação, se torna criador. “O homem é o Deus do homem”, conclui. Porém, Feuerbach não incorpora a categoria trabalho e assim a superação das ilusões se reduz a um processo de desmistificação, retomando a forma mais clássica de idealismo – o da primazia da consciência sobre a realidade. O sujeito volta o ocupar o lugar essencial como processo de desalienação. O pro- cesso de inversão da alienação religiosa orien ta a concepção de Marx sobre a alienação ainda nos Manuscritos econômico-filosóficos, mas em A ideologia alemã o caráter materialista da crítica à alienação surge como ponto de não retorno do pensamento marxista.

Nos Manuscritos..., o foco é colocado na economia política e a aliena- ção aponta para seu fundamento na categoria de trabalho. A produção de riqueza representa para o operário a transferência de valor para a merca- doria e seu empobrecimento como trabalhador. “A depreciação do mundo dos homens aumenta em razão direta da valorização do mundo das coisas.” O trabalho produz ao mesmo tempo mercadorias e o operário enquanto

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A ideologia alemã

mercadoria. O resultado do trabalho se enfrenta com seu produtor como um objeto alheio, estranho – está dado o mecanismo essencial de explicação da alienação. Como produtor, o operário não se sente sujeito, mas objeto do seu objeto. A ativi dade de produção é a fonte da alienação e não mais um processo de ilusão – psicológica ou intelectual.

Somente em A ideologia alemã, portanto, esses elementos serão articula- dos para constituir uma teoria explicativa das condições históricas de produção e reprodução da vida dos homens.

III

As “ilusões do espírito puro” fazem que Marx e Engels dediquem este longo livro a negar a filosofia de hegel, de que eles mesmos foram depo- sitários. O resultado é uma crítica dos devaneios, das fantasias humanas e das falsas ideias que fazem sobre si mesmos e sobre o mundo.

O exercício de método que enunciam, ainda incipientemente, não se limita à desmistificação de ideias equivocadas sobre a realidade, mas se propõe a pesquisar as condições que permitem que essas ideias existam e tenham tanta preponderância. há um deslocamento do debate do plano das ideias puras para o da realidade concreta em que elas são geradas.

Marx e Engels, desde o início de suas carreiras teóricas e políticas, se debruçaram sobre o entendimento de um fenômeno que identificavam como o atraso alemão: aparecia-lhes como uma figura desconjuntada, com uma cabeça enorme – onde cabiam, entre tantos, Immanuel Kant, hegel, heinrich heine, Johann Goethe, Ludwig van Beethoven –, porém com um corpo pequeno, mirrado, que não conseguia se libertar das travas das socie dades pré-capitalistas. Aprisionados por essas estruturas arcaicas, os alemães canalizavam para a cabeça, gerando maravilhosas obras do espírito, as energias com que não conseguiam promover a derrubada do velho regime e a Queda da Bastilha alemã.

Não se pode dizer que exista uma ruptura entre os escritos anteriores de Marx e Engels e A ideologia alemã. há sim uma evolução, com trans- formações em um processo que ganha novo corpo teórico especialmente desde os Manuscritos econômico-filosóficos, que representam a incorpo- ração de conceitos como os de trabalho e de alienação. As “Teses sobre Feuerbach” e o capítulo sobre esse filósofo alemão no corpo da obra re pro duzem temas esboçados anteriormente, mas agora em um marco histórico que ganha contornos mais definidos. Em A ideologia alemã, o ma terialismo histórico ganha o formato que terá no restante da obra desses dois autores.

O livro é um exemplo da dialética hegeliana: uma relação de negação e incorporação, de superação, no sentido dialético – de Aufhebung. Essa

14

Apresentação

superação parte da definição do significado do materialismo marxista, dos pressupostos incontornáveis para todo ser humano:

Os pressupostos de que partimos não são pressupostos arbitrários, dogmas, mas pressupostos reais, de que só se pode abstrair na imaginação. São os indivíduos reais, sua ação e suas condições materiais de vida, tanto aquelas por eles já encontradas como as produzidas por sua própria ação.1

Ao construir sua teoria – na luta constante para marcar uma clara deli- mitação em relação à presença monstruosa de um sistema de pensamento tão tentador como o hegeliano –, Marx e Engels concentraram o combate teórico inicial em uma diferenciação em relação aos pressupostos idealis- tas de hegel. Na diferenciação com o “saber absoluto”, os dois filósofos revelam a natureza do seu materialismo, que remete para a produção e a reprodução das condições de existência dos homens. Dela decorrem as relações dos homens com a natureza e com suas formas de organização social, isto é, dos sujeitos com o que lhes aparece como a objetividade do mundo. Uma forma específica de apropriação da natureza determina as formas de organização social e a consciência.

A apreensão do significado que as formas de reprodução da vida têm para a existência humana representa a primeira grande formulação do materialismo dialético para a compreensão da história e da consciência humana. A cada estado de desenvolvimento das formas de produção ma- terial da sua existência correspondem formas específicas de estruturação social, além de valores e formas de apreensão da realidade.

Destacar esse papel de pressuposto incontornável da produção da vida material significa, ao mesmo tempo, colocar o trabalho no centro das condições de vida e consciência humana. O homem se diferencia dos outros animais por muitas características, mas a primeira, determinante, é a capacidade de trabalho. Enquanto os outros animais apenas recolhem o que encontram na natureza, o homem, ao produzir as condições da sua sobrevivência, a transforma.

A capacidade de trabalho faz com que o homem seja um ser históri- co; isto porque cada geração recebe condições de vida e as transmite a gerações futuras, sempre modificadas – para pior ou para melhor. Embora tenha o potencial transformador da realidade, o que o homem mais recu- sa é trabalhar. Foge do que o tornaria humano porque não se reconhece no que faz, no que produz, no mundo que transforma. Porque trata-se de trabalho alienado.

Na introdução desta obra, Marx e Engels ridicularizam o essencialismo do idealismo alemão, reivindicado pelos chamados hegelianos de esquerda,

1 Ver adiante p. 86-7.

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A ideologia alemã

com base na contraposição entre a lei de gravidade e o “reino dos sonhos” em que eles descansam. Nas “Teses sobre Feuerbach”, essa crítica tem o impacto da forma de aforismos, mas a articulação entre as ilusões ideoló- gicas e as condições materiais de sua produção aparece em A ideologia alemã como seu eixo central.

Os neo-hegelianos não se perguntam em que o terreno social onde es- tão pisando condiciona o seu pensamento – colocando a questão central para a caracterização da ideologia. Não haviam incorporado a categoria trabalho, a qual, juntamente com a introdução inédita de categorias como “forças produtivas” – demonstrando como já se articulava o essencial do arcabouço de interpretação marxista da história –, permite a superação efetiva do marco do pensamento de hegel. A compreensão do processo de trabalho permite, ao mesmo tempo, a compreensão da origem da se- paração da teoria e da prática e das formas que permitem sua reconexão.

Desde suas primeiras obras, Marx e Engels identificam um papel para a categoria trabalho, porém inicialmente era apenas uma forma geral de luta do homem contra a natureza, como base de todas as sociedades humanas. O labor esteve, desde o início, ligado à alienação, provocando a questão da forma como essa degeneração da atividade humana foi possível. Mas, desde o começo, o trabalho era analisado na perspectiva da sua abolição, do processo de desalienação, revelando como se tratava já de uma análise ao mesmo tempo negativa e positiva.

A ideologia alemã é a primeira obra em que a articulação das catego rias essenciais da dialética marxista emerge, madura, à superfície. Aparição que surge, como vimos, sob a rica forma da negação e da superação, em que a crítica da realidade é, ao mesmo tempo, a crítica de sua ideo logia – nesse caso, dos neo-hegelianos de esquerda –, forjando simulta neamente as novas categorias, que irão transformar a teoria e a realidade concreta sobre a qual ela se constrói.

Emir Sader

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SOBRE A TRADUçãO

Saídos da obscuridade em 1921, os textos que compõem A ideologia alemã ainda aguardam edição definitiva. No árduo trabalho de editora- ção dessa obra inacabada, dotada de inúmeras lacunas e imprecisões, com algumas páginas faltando e outras tantas roídas por ratos, instalou-se desde o início uma grande controvérsia sobre sua verdadeira forma final. A polêmica girou fundamentalmente em torno do capítulo “I. Feuerbach”, deixado pelos autores como um conjunto de rascunhos e anotações esparsos. No contexto da luta ideológica da época, que confrontava stalinistas e socialdemocratas, era necessário que o primeiro capítulo d’A ideologia alemã fosse apresentado não como uma formulação in- completa, tão vigorosa quanto irregular, de uma “visão materialista do mundo”1, mas como a inequívoca exposição inaugural de um novo método: o “materialismo histórico e dialético”, do qual, dizia-se, dependia o futuro das massas trabalhadoras. Essa luta ideológica explica por que, em 15 de fevereiro de 1931, David Rjazanov, então diretor do Marx-Engels-Institute editor da Marx-Engels-Gesamtausgabe (MEGA), acabou preso pela polícia de Stalin e substituído por Vladimir Adoratskij2. Rjazanov fora responsável pela primeira edição do capítulo “I. Feuerbach”, publicado em alemão, em 1926, no primeiro volume dos Marx-Engels-Archivs. Apesar de pro- blemática quanto à constituição do texto, a edição de Rjazanov tinha, entre muitos outros méritos, o de reconhecer o caráter inacabado do manuscrito tal como este fora deixado pelos autores. Na nota editorial, dizia-se: “A primeira parte d’A ideologia alemã não foi levada até o fim nem elaborada num todo unitário”, suas partes “não formam nenhuma

1 N’A ideologia alemã inexiste a expressão “concepção materialista da história”. 2 Ver citação do discurso de Adoratskij contra Rjazanov na plenária do Comitê Executivo

da Internacional Comunista em 1o de abril de 1931, em Marx-Engels-Jahrbuch 2003 (Amsterdam, Akademie Verlag, 2003), p. 14-5.

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Sobre a tradução

unidade”3, afirmação que, diga-se de passagem, estava em perfeita har- monia com o que o próprio Engels reconhecia já em 1888: “A seção sobre Feuerbach não está acabada. A parte que foi concluída consiste numa apresentação da concepção materialista da história que só prova o quão incompletos ainda eram, à época, nossos conhecimentos sobre a história econômica. A própria crítica da doutrina feuerbachiana padece dessa incompletude [...]”4. Bas tante diferente, porém, era o juízo expresso na introdução ao volume I/5 da MEgA-1, já sob o comando de seu novo edi- tor, Adoratskij: “[...] em nenhuma outra obra de juventude encontramos as questões fundamentais do materialismo dialético esclarecidas de forma tão completa e exaustiva. [...] O capítulo ‘I. Feuerbach’ contém a primeira exposição sistemática de sua concepção histórico-filosófica da história econômica do desenvolvimento dos homens”, apresenta a união de “dia- lética” e “materialismo” num “todo unitário, indiviso”, expressa “a grande virada revolucionária” dos autores com a “criação de uma verdadeira ciên cia das leis de desenvolvimento da natureza e da sociedade”5 etc. E foi assim, em suma, que o capítulo “I. Feuerbach” passou a ser editorial- mente “construído” como um texto ideologicamente correto e dotado de uma coerência sistemática.

O trabalho de desconstrução do capítulo “I. Feuerbach” seria possível apenas décadas mais tarde, no âmbito da MEgA-2, cuja orientação editorial deixava de ser político-ideológica e assumia um caráter progressivamente crítico-filológico. Tratava-se, agora, não mais de montar os textos e preen- cher suas lacunas a partir de suposições arbitrárias e imperativos externos ao trabalho editorial, mas, ao contrário, de reproduzi-los da forma exata como Marx e Engels os haviam legado.

3 “Marx und Engels über Feuerbach. Der erste Teil der ‘Deutschen Ideologie’. Die handschrift und die Textbearbeitung” [Marx e Engels sobre Feuerbach. A primeira parte d’A ideologia alemã. O manuscrito e o estabelecimento do texto], em Marx-Engels-Archiv, editado por D. Rjazanov (Frankfurt, 1926), v. 1, p. 217, apud Marx-Engels-Jahrbuch2003, cit., p. 10.

4 Friedrich Engels, “Vorbemerkung zu ‘Ludwig Feuerbach und der Ausgang der klassischen deutschen Philosophie’” [Nota introdutória a Ludwig Feuerbach e o fim da filosofia clássica alemã], em MEgA-2,I/31, p. 123, apud Marx-Engels-Jahrbuch 2003, cit., p. 9-10.

5 Citamos a partir da Marx-Engels-Werke, que reproduz a “Apresentação” da MEgA-1. “Vorwort des Instituts für Marxismus-Leninismus beim zK der KPdSU zu Karl Marx und Friedrich Engels. 1845-1846” [Apresentação do Instituto de marxismo-leninis- mo do comitê central do Partido Comunista da União Soviética para Karl Marx e Friedrich Engels. 1845-1846], em Marx-Engels-Werke (Berlim, Dietz Verlag, 1969), v. 3, p. VI.

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A ideologia alemã

Em sua pré-publicação no Marx-Engels-Jahrbuch 20036,que serviu de base para a primeira parte da presente tradução, os manuscritos do capítulo “I. Feuerbach” aparecem em sua fragmentação originária, dispostos em partes independentes e em ordem cronológica. Evidencia-se, assim, que a crítica a Feuerbach foi escrita não antes, como até então se imaginava, mas ao longo (e depois) da elaboração dos capítulos “II. São Bruno” e “III. São Max”. Além disso, essa nova edição demonstra que a redação da obra se inicia com o artigo “Contra Bruno Bauer”, escrito por Marx logo após a publicação d’A sagrada família. Esse artigo, traduzido para o por- tuguês pela primeira vez, passa doravante a integrar o conjunto de textos d’A ideologia alemã.

A adoção desses critérios editorias nos trouxe, não obstante, novas difi- culdades e nos obrigou a fazer algumas adaptações em relação ao original:

1) As páginas do manuscrito “Feuerbach e história” foram divididas pelos autores em duas colunas. Na coluna da esquerda encontra-se o texto principal; na coluna da direita, Marx e Engels realizam anotações, acrescentam trechos ou desenvolvem temas paralelos. Nas edições anterio- res, baseadas na MEgA-1 ou na ME-Werke, grande parte dos textos mais longos que se encontram na coluna da direita foi incorporada ao texto principal, mesmo quando não havia indicação precisa da intenção dos autores ou do lugar correto onde a inserção supostamente deveria ser feita. No Marx-Engels-Jahrbuch2003, o manuscrito é reproduzido de acordo com o original, isto é, em duas colunas, o que de certo modo aumenta a cien tificidade da edição, porém dificulta a leitura. Em nossa tradução, a fim de evitar a divisão em duas colunas, optamos pelo uso de notas de rodapé, inserindo a chamada para a nota na altura em que o texto da coluna da direita tem início no original.

2) O “Prólogo” (“Vorrede”), que nas edições anteriores aparece como o primeiro texto d’A ideologia alemã, foi escrito somente depois de pronta a prova de impressão do capítulo “III. São Max”7. Por não integrar cronologi- camente o grupo de manuscritos que compõem o capítulo “I. Feuerbach”, decidimo-nos por colocá-lo no Apêndice.

Rubens Enderle

6 Marx-Engels-Jahrbuch2003 (Amsterdam, Akademie Verlag, 2003). A Ideologia alemã terá sua edição definitiva no volume I/5 da MEgA-2, ainda não publicado.

7 Cf. Marx-Engels-Jahrbuch 2003, cit., p. 6.

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ABREVIATURAS

A. E. – Anotação de Engels (escrita na margem do manuscrito) A. M. – Anotação de Marx (escrita na margem do manuscrito) N. A. – Nota dos autores N. E. – Nota do editor brasileiro N. E. A. / J – Nota da edição alemã ( Jahrbuch) N. E. A. / W – Nota da edição alemã (Werke) N. T. – Nota dos tradutores S. M. – Suprimido no manuscrito V. M. – Variante no manuscrito

p R i m e i R a p a R T e Artigos, rascunhos, textos prontos para impressão

e anotações referentes aos capítulos “i. Feuerbach”e “II. São Bruno”

volume i – [CRíTiCa da maiS ReCenTe FiloSoFia em SeuS RepReSenTanTeS

FeueRBaCh, B. BaueR e STiRneR]

Max Stirner, em desenho de Engels (Londres, 1892).

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KaRl maRx

ConTRa BRuno BaueR1

(20 de novembro de 1845)

Gesellschaftsspiegel2. V. 2, n. VII, janeiro de 1846

Bruxelas, 20 de novembro

na Wigand’s Vierteljahrsschrift, 3o volume, p. 138 ss.3, Bruno Bauer balbucia algumas palavras em resposta ao escrito de Engels e Marx: A sagrada família ou A crítica da Crítica crítica (1845)4. Desde o começo, B. Bauer afirma que Engels e Marx não o teriam entendido, repete com a mais cândida ingenui- dade suas velhas e pretensiosas fraseologias [Phrasen], de há muito reduzi- das a nada, e lamenta o desconhecimento daqueles autores acerca de seus apontamentos sobre “o perpétuo lutar e vencer, o destruir e criar da Crí- tica”, de como a Crítica é “a única força da história”, de como “o crítico, e somente ele, foi o único a destruir a religião em sua totalidade e o Estado em suas diversas manifestações”, de como “o crítico trabalhou e ainda trabalha” e o que mais se possa encontrar em queixumes sonoros e em derramamen- tos patéticos como esse. Em sua própria resposta, Bauer nos dá de imediato uma nova prova, decisiva, de “como o crítico trabalhou e ainda trabalha”. O “laborioso” crítico acha ser mais adequado ao seu desígnio não tomar por objeto de suas proclamações e citações o livro de Engels e Marx, mas sim uma medíocre e confusa resenha deste livro publicada no Westphälische Dampfboot (no de maio, p. 208 ss.)5 – uma escamoteação que ele, com precaução crítica, oculta de seu leitor.

este “árduo trabalho” de copista do Dampfboot só é abandonado por Bauer quando ele professa um dar de ombros monossilábico, porém pleno de signi- ficado. A Crítica crítica limita-se a dar de ombros, dado que ela não tem mais nada a dizer. Ela encontra sua salvação nas omoplatas, não obstante seu ódio contra o sensível [Sinnlichkeit], que ela só consegue conceber sob a forma de um cajado” (ver Wigand’s Vierteljahrsschrift, p. 130), instrumento de pastoreio bem adequado à sua rudeza teológica.

Tomado de uma sofreguidão sinóptica, o resenhista da Vestfália pro- duz sínteses ridículas, que estão em contradição direta com o livro por ele

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