Novos conceitos de reinos dos organismos, Notas de estudo de Bioquímica

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NOVOS CONCEITOS DE REINOS DOS ORGANISMOS
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whittaker.doc

NOVOS CONCEITOS DE REINOS DOS ORGANISMOS

Trechos traduzidos e adaptados por Maria Júlia E. Chelini e Profa. Dra. Sônia Lopes do artigo

“New Concepts of Kingdoms of Organisms”, Science, vol. 163, janeiro de 1969, escrito por

WHITTAKER, R.

Existem aqueles que consideram desprovidas de interesse as discussões sobre questões

sem respostas inequívocas, experimentalmente comprovadas. Esse sentimento junto com o

conservadorismo deve ser o responsável pela longa e incontestável dominância do sistema de

classificação em dois reinos. Minha proposta é discutir o mérito de dois outros sistemas de

classificação: o de Copeland (1956) e o de Whittaker (1959).

Sistema de Dois Reinos

O homem é terrestre e vê ao seu redor dois grandes grupos de organismos com

diferentes adaptações para alimentação nesse meio – as plantas superiores, fotossintetizantes, e

os animais superiores, que ingerem alimentos. Esses dois grupos são tão distintos quanto ao seu

modo de vida e organização corporal que um conceito dicotômico é inevitável. Os conceitos de

Reino Animal e Vegetal foram desenvolvidos pelos primeiros naturalistas sendo utilizados no

sistema formal de classificação dos seres vivos desde Lineus.

Musgos, liquens e algas macroscópicas aproximam-se claramente das plantas no seu

modo de vida fotossintetizante e sedentário e foram então agrupadas com as plantas terrestres.

Os fungos são sésseis e sua aparente capacidade de enraizar lembrava plantas. Pareceu então

razoável designá-los parte do Reino das Plantas. Já a diversidade de vida unicelular desvendada

pelo microscópio apresentou mais dificuldade. Algumas formas móveis e que se alimentam por

ingestão foram, por isso mesmo, vistas como animais unicelulares ou protozoários. Outras,

sésseis e fotossintetizantes, como plantas unicelulares. No entanto, restavam ainda muitos

organismos nos quais características como imobilidade e mobilidade por flagelo ou pseudópodes,

a capacidade de realizar fotossíntese e a de ingerir ou absorver nutrientes encontravam-se

combinadas de diversas formas tornando difícil a separação dos organismos em Planta ou Animal.

Também havia o caso das bactérias que podiam ser fotossintetizantes e móveis e que foram

consideradas plantas por apresentarem parede celular. Os Reinos Animal e Vegetal nasceram de

um processo em que organismos foram organizados em torno dos conceitos nucleares de planta e

animal, derivados dos organismos superiores terrestres.

Ficou reconhecido que o sistema de dois reinos apresentava problemas para tratar de

organismos unicelulares, sendo que alguns desses grupos eram reivindicados tanto por botânicos

quanto por zoólogos. O sistema parecia, no entanto, uma forma razoável de lidar com os seres

vivos em duas direções evolutivas. Com o tempo o sistema pareceu não mais ser satisfatório e

foram aparecendo novas propostas de classificação conforme as limitações do sistema tornavam-

se mais evidentes.

Limitação do sistema de Dois Reinos - Os protistas

A limitação mais evidente do sistema é aquela relativa a organismos, dentre os

unicelulares, que combinam características de plantas e animais. Devido à dificuldade de se

separar de forma segura esses organismos em Planta ou Animal, diversos autores propuseram

um terceiro reino de organismos primitivos. Hogg propôs para esses organismos o Regnum

Primigenum e o termo “Protoctista”. Haeckel propôs o Reino “Protista” que seria composto apenas

de organismos unicelulares.

Embora a definição desse terceiro reino de organismos primitivos e o uso de “Protoctista”

e “Protista” tenha variado, duas linhas principais podem ser apontadas. Ou esse reino

compreende apenas os organismos unicelulares (incluindo os que formam colônias), como o

Reino de Haeckel, ou inclui, além dos organismos unicelulares, organismos aos quais falta o tipo e

o grau de diferenciação tecidual de animais e vegetais superiores, como fungos e a maioria ou

todas as algas (Reino Protoctista de Hogg e Copeland).

Diferentes interpretações podem ser dadas a Protista baseando-se no trabalho do próprio

Haeckel. Protistas são concebidos como organismos unicelulares e como organismos que não

formam tecidos verdadeiros. A eles são contrapostos os organismos com tecido verdadeiro do

reino Histonia que inclui Metaphyta e Metazoa.

Dessa divisão em organismos unicelulares e organismos com tecidos verdadeiros nasceu

outra limitação. Esses reinos excluem um grupo intermediário formado por organismos que não

apresentam uma diferenciação tecidual verdadeira, mas que são claramente multicelulares ou

multinucleados como indicado pela diferenciação celular ou pela interdependência (esponjas); ou

diferenciação somática de órgãos (algas superiores e musgos). Sugiro então que o Reino Protista

reúna organismos que são unicelulares (coloniais ou não) que não formam tecidos. O reino

alternativo, Protoctista, será concebido, como foi por Copeland, como um reino com organismos

unicelulares, multicelulares ou multinucleados que não apresentam diferenciação tecidual,

incluindo algas e fungos superiores.

Sistema de Quatro Reinos de Copeland

Os reinos definidos por Copeland são:

1) Reino Monera: organismos procariontes, unicelulares ou de organização colonial

simples (bactérias e algas azuis);

2) Reino Protoctista (ou Protista para alguns): organismos eucariontes basais, podendo

ser unicelulares, unicelulares coloniais, sinciciais ou multicelulares sem diferenciação de tecidos

(algas, protozoários, e fungos);

3) Reino Metaphyta ou Embryophyta: eucariontes superiores, multicelulares com parede

celular e plastos verdes, com tecidos verdadeiros.

4) Reino Metazoa eucariontes superiores, multicelulares, sem parede celular ou plastos;

a maioria apresenta cavidade digestiva interna, movimentação por meio de fibras contrácteis,

além de diferenciação avançada de células, tecidos e órgãos; passam no seu desenvolvimento

pelos estágios de blástula e gástrula, são predadores típicos, e atingem alto nível de

complexidade estrutural e funcional.

Limitações do sistema de Copeland

1) Das três maiores formas de alimentação duas — fotossíntese e ingestão — dão um

sentido evolutivo aos reinos das plantas e animais superiores. O terceiro — absorção — é ligado

aos fungos superiores mas não define uma posição certa; o modelo evolutivo desses organismos

também não foi esclarecido.

2) O reino Protoctista perde em unidade e clareza de definição em relação aos três outros

reinos. A forma de organização dos protistas é tão variada que esse reino mais parece uma

confederação unindo todos os excluídos de Monera, plantas terrestres e animais multicelulares.

Os filos definidos por Copeland dentro do Reino Protoctista são efetivamente uma divisão dos

organismos eucariontes basais em grupos de linhas evolutivas pouco definidas. Na verdade, isso

não é um problema do sistema de classificação de Copeland e sim um problema ligado ao fato de

considerarmos os organismos vivos passíveis de serem classificados. Não existe uma forma

correta de se separar organismos eucariontes basais e superiores, existem apenas diferentes

formas com diferentes dificuldades.

Sistema de Cinco Reinos

Uma resposta diferente ao problema do sistema de quatro reinos é possível. Nesta

solução:

1) fungos seriam aceitos como um terceiro grupo de organismos superiores, como as

plantas e animais;

2) a linha divisória entre esses organismos e os protistas seria a transição da

organização unicelular para a multicelular ou multinuclear;

3) as algas superiores seriam então incluídas no reino das plantas junto com as plantas

superiores.

Originalmente considerei Monera um sub-reino de Protista, mas hoje considero preferível

uma separação total entre Monera e os protistas eucariontes.

Os cinco reinos seriam: Monera, Protista, Fungi, Plantae e Animalia

Escolhi como base para classificação, os três níveis de organização celular (procariótica

(MONERA), eucariótica unicelular (PROTISTA) e eucariótica multicelular ou multinucleada. Para

os multicelulares ou multinucleados, considerei três principais linhas evolutivas ligadas à nutrição,

que expressam as divergências evolutivas entre os três reinos superiores: absorção para os

fungos; fotossíntese para as plantas e ingestão para os animais.

.

Limitações do sistema de Cinco Reinos

1) A distinção entre organização unicelular e multicelular ou multinucleada tornou-se a

linha de divisão e ponto de dificuldade. O filo Chlorophyta inclui organismos unicelulares (coloniais

ou não) e multicelulares, não se adaptando assim à definição de Plantae nem à de Protista. Os

fungos amebóides (mixomicetos) também não se encaixam na definição de um único reino

quando consideramos sua nutrição e organização e poderiam ser considerados um fungo

aberrante, um protista excêntrico ou até mesmo uma planta muito peculiar. Eu havia sugerido que

a divisão considerando a organização celular era melhor conceitualmente do que a divisão pelo

grau de diferenciação tecidual. No entanto, as dificuldades práticas são tão grandes, se não

maiores, do que as encontradas para separar os organismos considerando o grau de

diferenciação tecidual. Pode-se encontrar diferentes opiniões tanto para uma como para outra

linha de divisão, todas com mérito.

2) Mesmo excluindo algas multicelulares e Fungos, Protista ainda forma um grupo com

direções evolutivas muito variadas. Alguns filos dentre os Protistas encontram-se mais próximos

de filos dos três outros reinos do que de outros filos dentre os próprios Protistas. Os Protistas

formam um complexo com enormes variações e conexões entre diferentes linhas evolutivas,

apresentando polifiletismo indubitável.

Conclusão

Desde os primeiros naturalistas, as propostas para correções nas formas de classificação

são conseqüência de um novo aporte de informações no que se refere às relações evolutivas

entre os organismos. Existem vantagens em se considerar sistemas de reinos concorrentes.

Nenhum desses sistemas é inteiramente satisfatório mas, com o tempo, pode ser que

percebamos que um deles demonstra melhor as relações entre os seres vivos. Por enquanto, os

sistemas merecem ser estudados com cuidado por biólogos para que seus méritos sejam

avaliados e a carga de informação neles contida utilizada ou ainda mais incrementada. Os novos

sistemas também são valiosos para o ensino pelo aporte de interesse e coerência que podem

trazer a uma discussão sobre diversidade biológica. Não existem respostas inequívocas à escolha

de um sistema de classificação mas a questão é digna de discussão.

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