nuevomundo - 1500 - monica, Notas de estudo de História

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A reflexão sobre as revistas vem ocupando espaço significativo na produção historiográfica brasileira, mostrando-se, no entanto, ainda lacunar no campo da história cultural. Entender como as pessoas liam, construiam e transmitiam significados, através da imprensa, é entender a sensibilidade e historicidade de uma época.Ao ampliar-se a própria idéia de documento, ampliaram-se os usos, à ele atribuídos.
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As modernas sensibilidades brasileiras

Nuevo Mundo Mundos Nuevos Debates, 2006

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Monica Pimenta Velloso

As modernas sensibilidades brasileiras Uma leitura das revistas literárias e de humor na Primeira República. ...............................................................................................................................................................................................................................................................................................

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Referencia electrónica Monica Pimenta Velloso, « As modernas sensibilidades brasileiras »,  Nuevo Mundo Mundos Nuevos [En línea], Debates, 2006, Puesto en línea el 28 janvier 2006. URL : http://nuevomundo.revues.org/index1500.html DOI : en cours d'attribution

Éditeur : EHESS http://nuevomundo.revues.org http://www.revues.org

Document accessible en ligne à l'adresse suivante : http://nuevomundo.revues.org/index1500.html Document généré automatiquement le 04 octobre 2009. © Tous droits réservés

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Monica Pimenta Velloso

As modernas sensibilidades brasileiras Uma leitura das revistas literárias e de humor na Primeira República.

As revistas como objeto de reflexão historiográfica 1  A reflexão sobre as revistas vem ocupando espaço significativo na produção historiográfica

brasileira, mostrando-se, no entanto,  ainda lacunar  no campo da história cultural.  Entender como as pessoas liam, construiam  e transmitiam significados, através da imprensa, é entender a sensibilidade e historicidade de uma época.Ao ampliar-se a própria idéia de documento, ampliaram-se os usos, à  ele atribuídos.

2 Esse artigo toma as revistas como expressão de práticas e de lógicas integrantes de um sistema cultural (Boutier, 1998),  buscando iluminar a relação entre o texto, a linguagem e o campo social da recepção. Essa questão foi tematizada anteriomente em O Modernismo no Rio de Janeiro (1996), mostrando-se como, nas crônicas e caricaturas das revistas de humor, esboçavam-se  distintas  receptividades em relação ao moderno. Trilhando esse caminho de buscar as configurações do moderno, a  partir da recepção, nesse artigo,  pretendo analisar as diferentes apropriações e usos que as revistas literárias e as semanais ilustradas estão fazendo em relação à idéia do moderno brasileiro.

3 Na história da imprensa, o contexto da Primeira República (1889-1930) destaca-se como particularmente expressivo. É nesse momento, em que se inicia, mesmo que em bases precárias, o processo da moderna comunicação de massa e formação de uma opinião pública. As revistas desempenham aí papel estratégico e de grande impacto social. Articuladas ao cotidiano, elas tem uma capacidade de intervenção mais rápida e eficaz, caracterizando-se, sobretudo, como “obra em movimento”(Pluet-Despatin, 1992).

4 Com o surgimento das primeiras revistas semanais de grande tiragem, modifica-se sensivelmente a dinâmica do campo cultural e a  própria inserção   intelectual. Percebendo o lugar estratégico dessas publicações na articulação de projetos político-culturais, parte expressiva da intelectualidade envolve-se na dinâmica do mercado  editorial. É o caso, por exemplo, de Paulo Prado que, em 1923, torna-se co-editor da  Revista do Brasil. Industrial de renome, vivamente interessado em estabelecer a sintonia da cultura brasileira com as vanguardas européias, Prado torna-se um mecenas, editando obras e incentivando discussões. Em 1926, inicia-se a fase carioca da publicação; Assis Chateaubriand entrega à Rodrigo de   Mello Franco Andrade a direção, Prudente de Moraes Netto torna-se secretário e Sérgio Buarque  colaborador de ponta. (Eulálio, 2001).

5 Essa articulação entre   as elites empresariais e   intelectuais,   revela o papel estratégico exercido pelas revistas como lugar de estruturação das redes de sociabilidade, conformando um  microcosmo específico de organização e de atuação em relação ao livro.(Pluet-Despatin, 1992). No contexto entre 1900-1920,   os intelectuais e artistas vão criar novas formas de expressão e de linguagens, difundindo-as através dos experimentos poéticos, das crônicas literárias,  das caricaturas, das gravuras, dos designers e da propaganda publicitária. Eles vão se mostrar, cada vez mais  atentos  para a “escuta” do público leitor.

6 É de  particular relevância a reflexão que autores como Robert Darnton (1986, 1989, 1998) e Roger Chartier (1992, 2002, 2006) vem desenvolvendo em relação à  história da leitura. Reforçando o papel das práticas culturais e mostrando a leitura como elaboração ativa de significados entre os diferentes grupos sociais, busca-se recapturar o passado na sua própria experiência dinâmica. O que significa entender que as pessoas,  nem sempre,  leram como o fazemos hoje.  Interessa mostrar, portanto, esses  distintos modos de leitura que implicam em práticas traduzidas em  gestos, espaços e costumes.

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7 É justamentente, nesse espaço “fora do texto” que Jean-Marie Goulemot (2001),  sugere que  se busque, as distintas formas históricas que moldam a leitura, produzindo sentidos. Essas abarcam atitudes corporais, lugares e situações de leitura, processo de memorização social e a própria intertextualidade e dialogismo.  Deve-se sempre considerar que aos sentidos já adquiridos vem se somar o atual. Essa reflexão traz um aspecto de fundamental importância em relação à própria natureza do fazer historiográfico: os documentos não devem ser considerados apenas pelas informações que nos fornecem. Desloca-se, assim, o seu estatuto de supremacia e a idéia de verdade, abrindo-se para a dinâmica da multiplicidade e das invenções. As revistas devem ser estudadas em si mesmas articulando-se os seus aspectos materiais e discursivos,  suas condições de produção,  utilizações estratégicas e recepção.

8 Elas passam a ser pensadas,   aqui, na   sua dupla dimensão: como fonte e  como objeto     de análise. Perspectiva essa que possibilita percebê-las na sua complexa historicidade e articulações  específicas que estabelecem em relação ao moderno.

9 Na dinâmica   modernista brasileira, o sentido do moderno mostra-se bastante polêmico,   impondo-se pelo seu caráter polissêmico. Se de um lado, ele é prontamente associado à materialidade das conquistas científico-tecnológicas e ao desenvolvimento do processo urbano-industrial, de outro, é marcante a sua vinculação à esfera das idéias e das representações,  enfatizando-se a urgência de construir um “modo de ser nacional”, capaz de traduzir o pensamento brasileiro e o lugar desse no contexto  civilizatório internacional. As revistas apresentam-se como órgão de ponta na construção, veiculação e difusão  do ideário moderno. São elas que ajudam a forjar a moderna sensibilidade brasileira, abrindo-se para diferentes leituras e sentidos.

10 Os estudos da história cultural  vem inspirando as suas abordagens com base em duas ordens distintas de significado atribuídos ao termo cultura. A primeira designa as obras e gestos que,  numa determinada  sociedade,  preferencialmente se subtraem  às urgências do cotidiano,    submetendo-se  à juízos estéticos ou intelectuais. A segunda visaria  as práticas vulgares através das quais  uma comunidade vive e reflete a sua relação com o  mundo , com os outros e consigo própria.(Chartier, 2006). As revistas literárias e as de humor  permitem contemplar essa dupla dimensão  da cultura,   configurando a complexidade simbólica que estrutura a sociedade brasileira na sua relação dialógica com o moderno.

11 A minha proposta de análise é a de analisar essas duas modalidades e tipos de revista,           percebendo-as como expressão das diferentes articulações do moderno brasileiro. Tais revistas fornecem, de um lado, instruções, conselhos, sugestões, colocando-se   como verdadeiras cúmplices dos leitores, de outro, veiculam  percepções e  conceitos intelectuais, procurando equacionar a inteligibilidade dos termos brasilidade -modernidade.

12 Vamos enfocar, portanto, duas modalidades distintas de revistas, estabelecendo-se tal distinção em  função do público leitor. As revistas semanais ilustradas, destinadas ao grande público, preferencialmente operacionalizam a idéia do moderno na vida cotidiana, buscando familiarizar  os leitores com as novas coordenadas espacio -temporais. É o caso das  revistas de grande circulação como  O Malho, Fon-Fon   e Para todos,  publicações essas que tiveram longa vida editorial  ou ampla receptividade junto ao público.

13 Já as revistas literárias, de perfil mais especializado, localizam o moderno brasileiro   no universo filosófico-conceitual, detendo-se na discussão sobre os significados da arte, da estética   e do pensamento modernos em consonância com a brasilidade.     Serão foco de análise as revistas Estética(1924/25) e   Revista do Brasil (1926), pelo fato de ocuparem a sua direção intelectuais como Sérgio Buarque de Holanda e Prudente de Moraes Netto, que considero figuras de fundamental importância no modernismo do Rio de Janeiro, estabelecendo interlocução com os intelectuais paulistas e de outros estados.

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Mutações do moderno 14 Na condição de “obra em movimento”, as revistas literárias se apresentam como   suporte

 altamente receptivo para a construção do pensamento modernista brasileiro que, após 1924, aparece como detentor de uma temporalidade   própria. É   na sessão da crítica literária, espaço conceitual-filosófico por excelência, que vão se expressar   as polêmicas   sobre o moderno brasileiro. Escrita forjada no calor da hora, comentando obras recém lançadas no mercado editorial brasileiro, as críticas literárias manifestam fina sintonia com o processo de  atualização cultural. Esboçam idéias inovadoras, polemizam, propondo conceitos e visões. Freqüentemente funcionam como termômetro do debate social, permitindo o mapeamento e configuração do campo  intelectual.

15 Sérgio Buarque de Holanda observa que a revista Estética (1924/25) conseguira romper  com "unidade fictícia” do modernismo brasileiro, ao mostrar as divergências internas do seu  pensamento.

16   Nessa polêmica sobre o moderno, destaca-se   o seu artigo : “O   lado oposto e os outros lados”(Revista do Brasil, out.1926). Nele, o Sérgio Buarque faz ressalvas ao termo modernismo, argumentando que   ser moderno não significava mais ser modernista. Cabe  notar que o termo modernista,   todas as vezes em que mencionado no texto, aparecia  em itálico ou entre aspas. O fato deixa claro a necessária acuidade visual do  historiador frente a determinados sinais gráficos que, frequentemente, visam colocar em questão práticas culturais ou apontar para uma discussão conceitual de relevância (Chartier, 2002). Ao colocar aspas no termo modernismo, Sérgio chamava a atenção para a historicidade conceitual a que deveria ser submetido o termo. O modernismo, em 1926, deixava de ser uma idéia consenso no campo intelectual brasileiro.

17 No artigo, o autor posicionava-se contra ideologia do construtivismo em arte que pressupunha a explicitação dos pressupostos teóricos e críticos da produção artística. Sérgio Buarque recusava a arte e a brasilidade como construção sistemática,   resultante da vontade e da programação intelectual. Entendia que a sistematização do pensamento brasileiro ainda era prematura, devendo ser privilegiado, nesse momento, o experimentalismo1.

18 O jovem Sérgio, então, na impetuosidade dos seus 20 anos, indignava-se com os intelectuais que denominava “modernistas academizantes”. Segundo ele, o equívoco desses intelectuais era o de considerar que a  expressão nacional estaria,  desde já, “pronta no cérebro”. Para Sérgio Buarque, esse procedimento estreitava o campo de possibilidades do experimento, tendo consequências altamente comprometedoras para o pensamento brasileiro: "Pedimos um aumento do nosso império e eles  nos oferecem uma amputação (...). O que idealizam, em suma, é a criação  de uma elite de homens inteligentes e sábios, embora, sem grande contato com a terra e com o povo(...) ( Revista do Brasil, out. 1926)

19 Esse ponto é importante : a inserção do Brasil, no contexto  moderno, só poderá ocorrer a partir da  necessária mediação do popular. Tal idéia, que vai se constituir em pedra angular   no conjunto da obra de Sérgio Buarque, começaria   a ser formulada na sua “teoria do homem americano”, ao longo da década de 1920. Dialogando com o acervo das tradições ocidentais, o autor buscava entendê-las na sua articulação com o moderno contexto brasileiro.  Encontra,   na obra de François Rabelais não apenas uma expressão da sensibilidade moderna mas, sobretudo, a tradução de um “mundo novo”. Interpretando o movimento político da Renascença e o advento do indivíduo, Rabelais viria configurar “o homem novo, sem raízes, sem tradição”. Conclui que é dessa  “canalha rabelaisiana” que sairiam as elites intelectuais e políticas do novo mundo(Estética, [1924]. 1974 p. 32)

20 Cabe notar que esse artigo fora  escrito num contexto em que Sérgio Buarque (e os demais modernistas)  buscava justificar a modernidade do pensamento de Graça  Aranha, intelectual da “velha guarda”mas que se apresentava como  uma das lideranças  do movimento modernista brasileiro. Dois anos depois, em outubro de 1926, Sérgio não o reconhecia mais como

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moderno. Postulava que a modernidade brasileira não era mais modernista mas moderna. No ano de 1926, ser moderno significava manter-se em contato “com a terra e o povo”, atitude que exigia  apreço ao passado histórico, recusa à estabilidade das velhas civilizações e, sobretudo, abertura à percepção do experimento. Esse era exatamente o ponto da divergência entre os intelectuais modernistas: a mediação da brasilidade.  

21 O artigo de Sérgio Buarque,  escrito em outubro de 1926,  na Revista do Brasil , era uma crítica literária à obra de Ronald  de Carvalho Toda a América.Tal crítica, acabou configurando uma verdadeira cisão no campo intelectual brasileiro. Em torno de Graça Aranha- que foi considerado um “modernista acadêmico”- agruparam-se  Ronald de Carvalho, Guilherme de Almeida e Renato de Almeida. Já Sérgio Buarque de Holanda recebe o apoio  incondicional de Prudente Moraes Netto. Em artigo publicado no jornal A Manhã, em 30/10/1926, Prudente reforçava a necessidade da percepção do experimento no modernismo brasileiro, combatendo as plataformas e  programas intelectuais. Manuel Bandeira, Oswald de Andrade e  Alcântara Machado identificam-se com essa perspectiva.

22 Para entendermos,  o sentido dessa polêmica é necessário contextualizá-la , na perspectiva de marcar a sua historicidade. Tanto a revista Estética(1924/25) quanto a  Revista do Brasil (1926), integraram o denominado “segundo tempo modernista”, em que,  passada a fase da atualização cultural, marcada pelo consenso, partiu-se para a compreensão do fenômeno da brasilidade. Surgiriam, a partir daí, polêmicas que vão dar  margem à pluralidade de leituras sobre a brasilidade modernista.

23 Nas críticas literárias, há um fato digno de nota: a autoria conjunta de Sérgio Buarque e de Prudente Moraes Netto. Em entrevista, já na década de 1980, ambos destacaram o fato, contando que costumavam assinar juntos as críticas, principalmente quando previam o desencadeamento de polêmicas. E quem costumava assinar em  primeiro lugar, era aquele que propunha a chave argumentativa (Leonel, 1984: 172)

24 Em termos de uma história da leitura, considero extremamente significativa  essa dupla autoria. Revela-se ,  aí, o quanto a recepção pode vir a interferir na produção do texto.  No ato de escrever, já está inscrita a figura do leitor; a apropriação cultural dos sentidos interfere na própria elaboração do texto. Nas críticas literárias, Sérgio e Prudente mostravam-se atentos à recepção do leitor, contando com o jogo de expectativas e de reações sociais,  fossem elas favoráveis ou não.

25 Algumas vezes, as reações foram imprevisíveis, conforme enfatizaram os autores. Falando sobre a  Estética, contam que,muitos anos depois, encontraram a revista em um  antiquário. O título da capa havia sido adulterado, colocando-se um B na frente da palavra, daí Bestética. No interior da publicação, foram encontradas várias anotações injuriosas aos autores. A revista, segundo eles, ocasionara  muita fofoca de livraria, piadas e todo gênero de agressões verbais(Leonel: 171). Dessa forma, os   leitores impunham a sua participaçãona construção de significados do texto ao tentar desfazer, através de insultos e brincadeiras,  a autoridade dos autores.

26   A questão da visualidade das artes gráficas ou   formas   tipográficas, constitui-se em elemento importante  na composição das revistas literárias. Frequentemente,  tais mudanças traduzem   novos sentidos conferindo-se um   novo estatuto à escritura, conforme nos lembra Roger Chartier(1992). A capa da revista Estética configura-se como um exemplo. Inspirado na Criterion, revista inglesa, dirigida por T.S. Eliot, Sérgio Buarque de Holanda, sugerira que a diagramação do título fosse em letras maiúsculas e simples. O propósito era diferençar a  Estética da revista Klaxon, consideradasua precursor no campo intelectual. Mas, diferentemente de Klaxon, que  apresentava-se como iconoclasta, a Estética propunha  impor- se como uma revista de “crítica”.

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27 O depoimento de Prudente de Moraes Netto é significativo: “tínhamos a intenção de marcar o início de uma fase construtiva e a parte material acompanhava essa intenção (...). Pretendíamos a agressividade interior” (Leonel: 181).

28 Em carta dirigida à Prudente de Moraes Netto, Rubens Borba de Moraes comentava  as  suas impressões  sobre as revistas  Estética e a Klaxon. Recorrendo à  um tom espirituoso e cheio de graça, ele deixava  clara a importância da materialidade das publicações. Destacava a textura do papel, espessura do volume e  relações  com o universo da publicidade.E é com base nessas referências que comentava.

29 A Estética é gorda. Bem nutrida, bom papel, (não liga para os anúncios, eu gosto disso). Meu maior desgosto era a Klaxon ser magra. Klaxon foi revista de combate, que lutava, mordia, arranhava, descabelava. Estética é o moderno triunfante , afirmativo, bem instalado na vida , o modernismo que cumprimenta com a ponta dos dedos: “Olá como vai Gosto muito das críticas das suas e das do Sérgio. São excelentes.(Arquivo de Prudente Moraes Netto, IHGB)

30 Humanizadas pelo olhar e manuseio do leitor, as revistas traduzem   as distintas fases do modernismo, fazendo entrecruzar o universo material e o conceitual.. A Estética apresentava- se como uma revista de “estudos”, destinando-se  a atingir um círculo de leitores específicos, tendo uma tiragem que variava   entre 500 a 800 exemplares. Nesse microcosmo, as polêmicas, tendiam a ocorrer inter pares; os textos elaborados dirigiam-se à   um público com maior disponibilidade para leitura. A discussão sobre o moderno, tinha como foco os aparatos conceituais, através dos quais, buscava-se construir um pensar capaz de expressar a temporalidade da brasilidade (Moraes,1983). Na crítica  literária, Sérgio já deixava entrever as bases do seu pensamento alicerçadas na análise da particularidade do tempo histórico brasileiro.

31 Sérgio Buarque e Prudente de Moraes Netto mantinham diálogo constante com as vanguardas européias, assinando a Nouvelle Revue Francaise, a Criterion, a Revista do Ocidente e as principais revistas expressionistas alemães(Leonel:  171-78). É a partir dessa sintonia com o moderno, que buscam  tornar a  revista  Estética  consciência crítica e reflexiva do modernismo

32 Esses dados permitem configurar as revistas literárias como relevante fonte de análise na conceituação do moderno brasileiro.É nas páginas da revista Espelho, que, Sérgio Buarque de Holanda publica a primeira versão do ensaio que, iria tornar-se um clássico na historiografia brasileira: Raízes do Brasil.

33 Em 1935, o texto é publicado na referida revista com o sugestivo título Corpo e alma do Brasil: ensaio de psicologia social. Mais tarde,  esse mesmo título - Corpo e alma do Brasil- seria retomado por Sérgio, na  edição de uma  coleção de estudos históricos que   também acabaria sendo um marco no campo da reflexão da historiografia brasileira:  História Geral da civilização brasileira, publicada no final da  década de 1960.

34 Mas o moderno brasileiro percorreria,  ainda, outros caminhos e inteligibilidades, alcançando o grande público.

Escutando ler: as operacionalizações do  moderno 35 Para saber mais sobre o mundo social, é necessário “ir além dos livros”, buscando espaços

onde se revela toda uma intrincada rede de vidas que acabam se desvanecendo no passado. Propondo-se a entender a emergência do público leitor e da opinião pública na França do século XVIII, Robert Darnton detém-se na análise   do submundo literário como lugar de elaboração de sentidos, integrando, assim, novas percepções ao Iluminismo. A história da leitura possibilita essa ressignificação do passado, considerando-se  não apenas o poder da palavra impressa mas também o da palavra falada e cantada (1989) (2000).

36 Esse o caminho que vamos  percorrer aqui. Entender como as pessoas liam um texto,  não implica, sómente, em tentar descobrir   as suas chaves conceituais. É necessário partir do pressuposto de que os  textos são feitos para serem lidos de distintas formas. Dessa maneira,  antes de tudo, conforme observa Pierre Bordieu, é preciso que o historiador efetue  uma crítica

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do estatuto social do documento, indagando-se para que uso destina-se o texto?  Na realidade, existem textos que não precisam da mediação de uma decifração pois comunicam “instruções”, sugerindo práticas culturais, modos de agir e de fazer (Bordieu, Chartier, 2001: 234).

37 Esse é o tom das   revistas semanais ilustradas.   Voltadas para o grande público, elas   acessam eficientes estratégicas comunicativas,   dialogando com recursos da linguagem literária e visual. Diferentemente da Estética que elege a sessão da crítica literária como espaço expressivo de formulação do moderno, essas  revistas tendem a centrar significados nos seus editoriais de lançamento. 2

38 A criação de personagens-símbolos, tais como o chofer da Fon-Fon e o operário de O Malho assegura a pronta comunicação com os leitores. Freqüentemente, eles marcam a sua presença em locais aos quais geralmente não tem acesso o público leitor, tais como o Senado e a Câmara. Na realidade, tais personagens atuam como mediadores entre o mundo do texto e o mundo do leitor, convidando incessantemente os leitores a deslocarem-se pelo texto e participar do seu processo de elaboração. Comunicam o que é ser moderno, buscando ancorar essa comunicação em tradições vivamente  compartilhadas pela cultura cotidiana. Cabe ressaltar os fortes traços de oralidade contidos no discurso textual e iconográfico dessas publicações.

39 Analisando as poesias medievais, Paul Zunthor chama a atenção para  a interferência da voz nas sociedades marcadas pelo forte índice de analfabetismo. Ressalta a dupla existência da escrita,   observando que vemos os grafismos mas escutamos a mensagem que está sendo pronunciada através  deles. No movimento de sua publicação, freqüentemente,   o texto  acaba liberando  verbos como dizer, falar e  contar completados pela recepção de escutar e  ouvir. (Zunthor, 2001: 39).

40 O símbolo da buzina (na Fon-Fon), do martelo e da bigorna (em O Malho), assim também como a recorrência à verbos de forte apelo sonoro-auditivo como fonfonar,  malhar, bimbalhar e  martelar expressam uma comunicação ruidosa que, voltada para a crítica de costumes, se inspira fortemente no humor.

41 As imagens dos editoriais são contundentes. Metamorfoseando letra e voz; as revistas se apresentam como a nota vibrante de uma cançoneta brejeira, um zé-Pereira audacioso irrompendo pela semana santa ou uma tribuna onde se fala bem alto para ser ouvido pelo grande público (O Malho, 20/9/1902, 23/9/1922) .

42  É clara a intervenção da voz  atravessando o texto. Esse se apresenta como conjunto complexo integrando emissão física,  espaço corpóreo -material e acolhida. Corpo, gesto, ouvido e  voz.   Relatando o seu nascimento aos leitores, a revista Fon-Fon, conta :

Saí  com uma grande mancha vermelha na pele, mas uma mancha tão nítida em seus contornos que se dizia propositalmente desenhada para determinar a minha origem sonora alma mater do meu ser buzina de automóvel"(13/4/1907).

43 Essa sonoridade vai marcar toda o discurso da   publicação. A   voz   faz-se presente   na  elaboração, circulação e acolhida do texto. Um jornaleiro, ao ser entrevistado sobre a venda das revistas,  conta que fora acusado de não vender determinadas publicações e de “matá-las” porque não gritava os seus nomes” nas ruas.(O Rio, cidade das revistas Para todos, 5/4/1919)

44 As inúmeras fotos e caricaturas  dos pequenos vendedores de jornal, assim também como as festas e piqueniques à eles dedicadas,  evidenciam o papel  que tiveram esses  garotos na distribuição das revistas:

Na Avenida, no Largo de S Francisco, no Largo do Rocio, na Estrada de Ferro, e em todos os grandes pontos, lá estão eles a vender infatigavelmente a Fon-Fon e a fonfoná-los desesperadamente (...) Fazem parte integrante do borborinho e do rumor incessante da cidade. (Fon-Fon, 27/7/1907).

45 A velocidade com que se deslocavam os garotos pela cidade, os pregões chamativos que gritavam para atrair leitores, os pontos de venda (em torno do qual costumavam

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agrupar pessoas em conversas) e as proibições da prefeitura para impedir essa prática,  são freqüentemente tematizados pelas  caricaturas,  fotos e ilustrações.

46 A questão das vendas das revistas é de fundamental importância na história dessas publicações. Em Paris,   a  introdução da máquina rotativa de Hippolyte Marinoni ocasionou  uma tiragem de 10.000 exemplares por hora.de o Petit Journal (Wolgensinger, 1992) Em agosto de 1905, a revista O Malho anunciava  ter adquirido de Paris a fantástica máquina, o que lhe ocasionaria um estouro de vendagem, alcançando a publicação uma tiragem de aproximadamente 35.0000 exemplares(O Malho,  19/8/1915).

47 Uma outra particularidade dessas publicações, refere-se à questão da autoria. Jacqueline Pluet-Despatin (1992) destacou como uma das especificidades das revistas   a sua escrita plural e de criação coletiva. Nas revistas semanais ilustradas, freqüentemente, recorre-se aos pseudônimos, sendo as matérias, muitas vezes,  assinadas pelos  personagens- símbolos que interpelam vivamente os leitores. Esse procedimento denota a força das tradições orais no sistema cultural brasileiro, abrindo-se espaço expressivo para a  denominada “literatura de aconselhamento”. Essa vai dos primeiros cuidados médicos e sugestões de tratamentos higiênicos às receitas culinárias e de beleza, passando pelo consultório sentimental, moda,  estética, astrologia e economia doméstica em geral.  É possível ao historiador, baseado nesses dados e nas iconografias, recompor marcas expressivas da presença do leitor.

48 Comentando o sucesso dos folhetins entre o público feminino, observa-se que o enredo desse, quanto mais violento e  cheio de  trágicas peripécias, maior era o seu impacto. Conversando  com as amigas e vizinhas sobre as vicissitudes amorosas da heroína ou a perfídia do galã, as mulheres envolviam a vida cotidiana na trama desses acontecimentos romanescos. Às vezes,  as polêmicas chegavam a ser motivo de sérias desavenças: "conheço duas senhoras, muito amigas, inseparáveis, que brigaram e nunca voltaram a fazer as pazes por causa de um folhetim" (Folhetins, Fon-Fon, 4/01/1908).

49 Esse envolvimento na trama fictícia, denota hábitos de leitura partilhados. Encontramos,   nas capas de algumas revistas, registros eloqüentes dessa prática de leitura. Caricaturas   mostravam como era comum, entre as camadas populares urbanas,   o hábito da leitura coletiva. Postados em círculo, os leitores, muitos deles desdentados, debruçavam-se sobre uma ilustração,  apontando-a,  às gargalhadas. Olhos arregalados, olhos que riem. Nas fisionomias,  denota-se a plena atenção dos sentidos. Rosto pousado sobre as mãos que estão sobre a página aberta da revista,  como se quisessem nela entrar (O Malho, 29/8/1903)

50 Nessas imagens são claros os indícios de uma prática de leitura coletiva fortemente ancorada no mundo dos sons e das oralidades. Alegria, atenção, nervosismo e indiferença revelam distintas   atitudes de recepção. Não se lê apenas com os olhos   mas com gestos, com a fisionomia e com posturas. Pode-se ainda "escutar ler", conforme  faz o analfabeto. Quando não consegue  compreender os “bonecos explicativos” das imagens, ele dá muchochos e  vira o rosto para o lado, fechando os olhos conforme mostra a caricatura “Leitores de jornais”, publicada na  Fon-Fon  em  8/6/1907.  

51 É interessante observar essa inclusão do analfabeto no circuito da leitura, mesmo que ela ocorra de  forma desqualificada e excludente. Existe,  aí,  um destinatário em jogo que obriga a  refletir sobre a situação do analfabetismo e da desigualdade social no Brasil. A situação é abordada com humor :

O que fazer  com a aristocracia dos doutores? Enforcar os doutores,  não. É fazer todo mundo douto, ou melhor, simplificar o problema pela supressão deste r impertinente, que obriga a dobrar a língua no fim da palavra. (Instrução, educação.  O Malho , 17/1/1920).

52 O artigo, assinado por Álvaro Moreira, sugere a revisão da cultura, criticando-se o bacharelismo e o “lado doutor” da cultura, questão essa abordada pelas crônicas de Lima Barreto e, mais tarde, pelos  modernistas paulistas. As diferenças entre a linguagem falada e a

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escrita, o erudito e o popular e o fosso existente entre as culturas já é tematizado pela revista que sugere maliciosamente : “doutos” ao invés de  doutores.

53 As revistas semanais ilustradas realizam esse movimento decodificador de culturas, atraindo,   com as suas tiradas de humor e picardia,   tanto os leitores das classes médias como os   das camadas populares, letrados e iletrados. Estruturando   seu texto com base nos escritos impressos, gravuras, ilustrações e caricaturas, tais publicações conseguem  cativar definitivamente o grande público.

54 Os estivadores, guarda- freios da Central, carroceiros, motoristas, porteiros e semi-analfabetos eram leitores assíduos dessas publicações, identificando-se  com os seus tipos.3 Fazendo uma análise perspicaz do impacto exercido pelas revistas ilustradas, Monteiro Lobato observava a abrangência do seu raio de ação Argumenta que tais publicações chegavam às fazendas do interior do Brasil, conquistando a atenção das crianças. Descreve como os   meninos entretinham-se com as histórias do “Zé caipora” na Revista Ilustrada:

Era de se ver o magote de guris em redor da folha, desdobrada no assoalho, à noite, à luz do lampião de querozene , o mais taludote explicando a um crioulinho, filho da mucama, como é que o Zé Caipora escapou das unhas da onça”(Lobato, 1915).

55 Esses dados evidenciam outras formas de leitura, desfazendo-se a centralidade do leitor enquanto indivíduo que lê só e em silêncio, visando o cultivo e o aprimoramento intelectual. Essa leitura concentrada, geralmente, ocorre no espaço privado. Trata-se de uma leitura de deleite e de contemplação. Confortavelmente instalada à poltrona, postura ereta, mantendo a revista à distância, entre livros e móveis art-noveau, uma mulher lê a revista  O Malho e sorri discretamente. É a partir desse lugar de silêncio que se constroem os sentidos. Mas há  leituras que incluem a diversão e o entretenimento. Elas são capazes de incorporar as interrupções, considerando-as espaço favorável  à compreensão do próprio texto. Interromper não significa parar mas abrir intervalos para comentários, explicações que suscitam risos, gestos  e atitudes corporais. Trata-se de uma leitura oralizada que precisa da voz para lhe dar sentido.

56 Realizada, preferencialmente,  no domínio público, essa leitura reúne pessoas,  sendo a audição e recepção intensamente partilhadas. É o que  mostra o texto de Monteiro Lobato ao  descrever  um serão de fazenda em que um   grupo de crianças se diverte com  as histórias do Zé Caipora (personagem do folclore brasileiro) Também as caricaturas descritas acima, publicadas em O Malho, mostram os populares agrupados em torno de uma revista de humor.

57 Jamais redutível ao que é lido, a leitura configura-se como  espaço de apropriação. E é a partir das referências sociais, experimentos e percepções que os leitores vão criar sentido singular aos textos lidos. Freqüentemente, os editores das revistas brincavam com essa idéia da recepção enquanto apropriação feita pelo leitor.

58 É o caso da sessão "Bis-charada”, publicada pela revista O Malho. Essa apresentava    um calendário dos  santos dos dias da semana, seguido de dicas para o jogo do bicho4. O próprio titulo da sessão já explora a polissemia da palavra, sugerindo os diferentes significados da escrita e da oralidade. Quando falada rápidamente,  o nome da sessão converte-se  em bicharada. A malícia do editor de O Malho é  deslocada para o leitor. Argumenta-se  que esse,  sim,  é que vê nos "inocentes versinhos"  da revista palpites para fazer o  jogo do bicho:

59 Quinta São Nicolau e Santa Pulcheria / A virgem pulchra de cabelo louro/ manda fugir da fome e da miséria/ Fazendo o jogo em borboleta e touro. (O Malho, 5/9/1903).

60 O fato de a revista destacar uma prática cultural extremamente popular, cujo exercício era proibido pela polícia, evidencia a presença do leitor moldando o texto.5 É essa voz  que marca toda a publicação. São nítidas as estratégias, através da quais, busca-se estabelecer contatos com a figura do leitor. Qual o seu caráter, tendências, vícios e qualidades? É o que indaga a sessão Retratos grafológicos, sugerindo, para isso, que os leitores  enviem à redação a sua assinatura, pseudônimo, seguidos de duas ou três linhas escritas, mais o título da publicação e data. (O Malho,22/2/1919)

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61 Decifrar a voz do texto, saber quem é que está por trás da letra, e, sobretudo, contar e revelar aos outros "quem é quem",  são  tarefas  as quais  se impõem as revistas. Essa experiência se inclui na própria cultura da modernidade que considerava ser inevitável a exposição do indivíduo na esfera pública. A idéia é a de que ninguém, nem nenhum fato ou acontecimento poderiam ficar fora do campo  da observação social(Sennnett, 1988).

62 Uma função básica das revistas semanais ilustradas, conforme já observei, era a de operacionalizar o moderno. Buscava-se “instruir” e familiarizar o público leitor com as novas coordenadas espacio temporais. Freqüentemente essa nova temporalidade era extensiva às práticas da escrita e da leitura. O recolhimento à casa, o recurso à  pena e à   luz de vela, assim como a apego à poesia e à musa inspiradora pertencem ao tempo passado. Na escrita  moderna,  a inspiração vem de fora,  trazida pela onda dos inventos tecnológicos. Ela surge  ao rítmo da máquina de datilografia e sob a forte claridade da luz elétrica. Essas imagens da moderna escrita, podem ser encontradas nas páginas da Fon-Fon,(8/6/1907),  aparecendo sob um curioso título “posições  intelectuais”.

63 A idéia de uma aceleração temporal faz-se fortemente presente nas páginas dessas publicações, buscando-se adequá-la e traduzi-las, em harmonia com as vivências do leitor. A temporalidade do grande público é acelerada. Geralmente a leitura é realizada nas brechas de tempo, configurando, sobretudo, instantes de lazer, de distração e de informação. Freqüentemente, as revistas sugerem essas modalidades concretas do ato de ler em função da própria ambiência urbana.

64 É caso  do editorial da revista Mercúrio (1889). Recomendava-se que ela deveria ser   lida   em trânsito, nos minutos de bonde ou de automóvel, no percurso da casa ao escritório. Freqüentemente, enfatizava-se a praticidade dessa leitura em relação à do livro. Ler revistas significava, então,  gastar menos tempo e obter mais informações. As revistas eram destacadas como um dos  grandes atrativos da modernidade:

Ler um grande livro não é coisa prática (...) a leitura tem de ser interrompida por várias vezes, as vezes, no melhor ponto justamente.  Por isso mesmo o leitor prefere nessas viagens percorrer as revistas que tendo assuntos para todos os gostos, artigos de todos os tamanhos , permitem a conclusão de leituras encetadas.

65 Era comum que tais conselhos de leitura viessem acompanhados pela publicidade:

E que melhor revista existe,   nessas condições,   no Brasil,   do que a leitura de Para todos? Aproveitem os nossos leitores o nosso conselho e adquiram esses números antes que se esgotem. ( As leituras no bonde, Para todos, 8/11/1919).

66 O leitor passa a percorrer o texto como quem percorre a cidade. Numa  panorâmica acidentada, composta pela pluralidade e polissemia  dos signos, ele  quer chegar logo. Como na crônica de João do Rio, do Cinematógrafo, ele tem "A pressa de acabar".

67 O tempo é imperativo : "Pouca gente lê um jornal de fio a pavio". Cada um tem a sua sessão predileta", observa a revista Fon-Fon.

68 Nas revistas de humor,  é entre o  "lápis brejeiro"  e a "folha folgazã"  que pode se entrever  esse novo  leitor, fazendo projetar no texto as suas percepções,  valores e vivências.

Concluindo 69 Expressando a complexa dinâmica e intertextualidade do moderno, as revistas do Rio de

Janeiro, no contexto da Primeira República (1889-1930), dialogam com a pluralidade de culturas, atores e  sentidos sociais. Nas revistas semanais de humor temos, em primeiro plano, a busca de atualização e familiarização com as novas coordenadas espacio -temporais.

70 Já as revistas literárias, notadamente a sessão referente às criticas literárias,  se estruturam com base em uma discussão filosófico-conceitual, no intuito de assegurar a sua sintonia com o moderno. Diferentes linguagens, diferentes estratégias comunicativas que, por sua vez, estão traduzindo distintas modalidades de inscrição do moderno na sociedade brasileira.

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71 As escritas de Sérgio Buarque de Holanda e de Prudente Moraes Netto enfatizam   a necessidade da brasilidade criar um tempo-experimento e  intervalar, para, em seguida, voltar se para a construção de um  pensamento próprio e original. Esse tempo é fixado pelo relógio império da literatura nacional, segundo a imagem metafórica de Oswald  de Andrade. As criticas literárias de Sérgio Buarque e de Prudente de Moraes Netto investem nessa direção, defendendo o espaço da experiência como condição primordial para a criação das bases conceituais de  um pensamento social brasileiro.

72 Já as imagens e escritas das revistas ilustradas transmitem a idéia de  um  tempo acelerado que demanda incessantemente agilidade tanto na produção e como na recepção de signos;  um  tempo que aparece mediado pela forte comunicabilidade do humor.

73 A apreensão dessas mutações do moderno no interior do pensamento social brasileiro e  na dinâmica cotidiana,   acentua a liberdade criadora dos agentes sociais contribuindo para a compreensão do nosso sistema cultural,  enquanto  sistema comunicante.  Leitura, leitor, texto, linguagens, gestos, costumes e espaços explicam as mutabilidades e invenções do moderno no corpo das revistas.

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Fontes

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O Malho Rio de Janeiro (1902-1920)

Fon-Fon Rio de Janeiro, (1907-12)

Para Todos, Rio de Janeiro (1918)

Notas

1 Uma  discussão detalhada sobre a questão da temporalidade no pensamento da critica literária de Sérgio Buarque de Holanda  e de Prudente de Moraes Netto está desenvolvida em “A cidade como texto experimental : intelectuais, revistas literárias e debate modernista” In: A cidade em revistas Rio de Janeiro, FCRB, 2005(no prelo) 2 Os  editoriais das revistas  de humor no Rio de Janeiro (1900-1930) foram  analisados  em Modernismo no Rio de Janeiro:turunas e quixotes. Rio de Janeiro, FGV, 1996.   3 A representação da nacionalidade pela figura do personagem  Zé Povo na revista Fon-Fon como contraface do regime republicano foi analisada por  Marcos Antonio da Silva Caricata República. Sâo Paulo, Marco Zero, 1990. 4 Esse jogo de sorte, em que cada animal representa um número, é um dos mais populares do Brasil. Realiza-se de forma paralela aos sorteios da loteria nacional. O jogo tem um caráter clandestino, não sendo legalizado pelo governo. 5 As charadas, enigmas e jogo de advinhações eram frequentemente    enviados à   redação das revistas,  evidenciando-se  aí  um dos focos de interesse  do público leitor .

Para citar este artículo

Referencia electrónica Monica Pimenta Velloso, « As modernas sensibilidades brasileiras »,  Nuevo Mundo Mundos Nuevos [En línea], Debates, 2006, Puesto en línea el 28 janvier 2006. URL : http://nuevomundo.revues.org/ index1500.html

Monica Pimenta Velloso Doutora em História social (USP), pesquisadora da FCRB. Esse texto  vincula-se ao projeto de pesquisa do CNPQ « A cidade em revistas: boemia literária e vida cultural no Rio de Janeiro (1900-1930) ».

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Resumen

  Partindo de um dos  pressupostos centrais da história cultural que enfatiza a dupla dimensão de significados atribuídos à ordem da cultura, esse artigo  analisa as diferentes articulações  do moderno brasileiro, no contexto da Primeira República. Com base em duas modalidades de revista: as literárias e as semanais ilustradas(de humor), mostra como é que tais publicações constroem sentidos diferenciados do moderno , em função do público leitor. Nas revistas literárias, as críticas literárias (Sérgio Buarque de Holanda e Prudente Moraes Netto) abordam o significado da brasilidade modernista a partir de bases conceituais filosóficas. Já as revistas semanais, destinadas ao grande público,   preferencialmente, vão operacionalizar a idéia do moderno através de práticas culturais, interpelando e envolvendo o leitor na trama na trama textual. Através desses diferentes tipos de publicações é possível reconstituir o caráter polissêmico e dialógico do moderno. Palabras claves :  identidade nacional, cultura popular, cultura erudita, Brasil Licence portant sur le document : © Tous droits réservés

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