O Enigma do Capital e as Crises do Capitalismo - David Harvery, Outro de Sociologia Econômica. Universidade Federal de São Paulo (Unifesp)
JulioSantin
JulioSantin25 de Junho de 2017

O Enigma do Capital e as Crises do Capitalismo - David Harvery, Outro de Sociologia Econômica. Universidade Federal de São Paulo (Unifesp)

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O Enigma do Capital - e As Crises do Capitalismo

O ENIGMA DO CAPITAL

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NOTA DA EDIÇÃO ELETRÔNICA

Para aprimorar a experiência da leitura digital, optamos por extrair desta versão ele- trônica as páginas em branco que intercalavam os capítulos, índices etc. na versão impressa do livro. Por este motivo, é possível que o leitor perceba saltos na numeração das páginas. O conteúdo original do livro se mantém integralmente reproduzido.

O ENIGMA DO CAPITAL e as crises do capitalismo

Tradução João Alexandre Peschanski

David Harvey

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Copyright © David Harvey, 2010 Copyright desta tradução © Boitempo Editorial, 2011

Tradução do original em inglês The Enigma of Capital: and the Crises of Capitalism (Londres, Profile, 2010)

Coordenação editorial Ivana Jinkings

Editora-adjunta Bibiana Leme

Assistência editorial Caio Ribeiro

Tradução João Alexandre Peschanski

Revisão Livia Campos

Diagramação Acqua Estúdio Gráfico

Capa David Amiel

sobre fotos de Ana Yumi Kajiki

Produção Ana Lotufo Valverde

CIP‑BRASIL. CATALOGAÇÃO‑NA‑FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ

H271e Harvey, David, 1935‑ O enigma do capital : e as crises do capitalismo / David Harvey ; tradu‑ ção de João Alexandre Peschanski. ‑ São Paulo, SP : Boitempo , 2011.

Tradução de: The enigma of capital : and the crises of capitalism Apêndice Inclui bibliografia e índice ISBN 978‑85‑7559‑184‑0

1. Capitalismo. 2. Capitalismo ‑ Filosofia. I. Título.

11‑6593. CDD: 330.122 CDU: 330.142.1 03.10.11 07.10.11 030281

É vedada, nos termos da lei, a reprodução de qualquer parte deste livro sem a expressa autorização da editora.

Este livro atende às normas do acordo ortográfico em vigor desde janeiro de 2009.

1ª edição: novembro de 2011

BOITEMPO EDITORIAL Jinkings Editores Associados Ltda.

Rua Pereira Leite, 373 05442‑000 São Paulo SP

Tel./fax: (11) 3875‑7250 / 3872‑6869 editor@boitempoeditorial.com.br www.boitempoeditorial.com.br

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Sumário

Preâmbulo .............................................................................................................. 7

1. A crise ................................................................................................................. 9

2. O capital reunido .............................................................................................. 41

3. O capital vai ao trabalho ................................................................................. 55

4. O capital vai ao mercado .................................................................................. 91

5. O capital evolui ................................................................................................. 101

6. A geografia disso tudo ..................................................................................... 117

7. A destruição criativa da terra ......................................................................... 151

8. Que fazer? E quem vai fazê‑lo? ......................................................................... 175

Epílogo ................................................................................................................... 211

Apêndices ................................................................................................................ 225

Fontes e leituras complementares ...................................................................... 229

Índice onomástico ................................................................................................. 233

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Preâmbulo

Este livro é sobre o fluxo do capital. O capital é o sangue que flui através do corpo político de todas as sociedades

que chamamos de capitalistas, espalhando‑se, às vezes como um filete e outras ve‑ zes como uma inundação, em cada canto e recanto do mundo habitado. É graças a esse fluxo que nós, que vivemos no capitalismo, adquirimos nosso pão de cada dia, assim como nossas casas, carros, telefones celulares, camisas, sapatos e todos os ou‑ tros bens necessários para garantir nossa vida no dia a dia. A riqueza a partir da qual muitos dos serviços que nos apoiam, entretêm, educam, ressuscitam ou purificam são fornecidos é criada por meio desses fluxos. Ao tributar esse fluxo os Estados aumentam seu poder, sua força militar e sua capacidade de assegurar um padrão de vida adequado a seus cidadãos. Se interrompemos, retardamos ou, pior, sus‑ pendemos o fluxo, deparamo‑nos com uma crise do capitalismo em que o coti‑ diano não pode mais continuar no estilo a que estamos acostumados.

Compreender o fluxo do capital, seus caminhos sinuosos e sua estranha lógica de comportamento é, portanto, fundamental para entendermos as condições em que vivemos. Nos primeiros anos do capitalismo, economistas políticos de todos os matizes se esforçaram para entender esses fluxos, e uma apreciação crítica de como o capita lismo funciona começou a emergir. Mas nos últimos tempos nos afastamos do exer cício desse tipo de compreensão crítica. Em vez disso, construí‑ mos modelos matemáticos sofisticados, analisamos dados sem fim, investigamos planilhas, dissecamos os detalhes e enterramos qualquer concepção do caráter sis‑ têmico do fluxo de capital sob um monte de papéis, relatórios e previsões.

Quando Sua Majestade a rainha Elizabeth II perguntou aos economistas da London School of Economics, em novembro de 2008, como não tinham visto a atual crise chegar (pergunta que certamente estava em todos os lábios, mas que apenas uma monarca feudal poderia tão simplesmente fazer e dela esperar alguma

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resposta), eles não tinham nenhuma explicação pronta. Em conjunto, sob a égide da British Academy, só puderam confessar numa carta coletiva a Sua Majestade, após seis meses de estudo, ruminação e consulta minuciosa a importantes políti‑ cos, que haviam perdido de vista o que chamavam de “riscos sistêmicos”, que, co‑ mo todos, haviam se perdido em uma “política de negação”. Mas o que estavam negando?

Meu homônimo do início do século XVII William Harvey (assim como eu, nascido “homem de Kent”) é em geral considerado a primeira pessoa a mostrar correta e sistematicamente como o sangue circula pelo corpo humano. Foi com essa base que a pesquisa médica passou a estabelecer como ataques cardíacos e outras doenças podem afetar seriamente, se não terminar, a força vital dentro do corpo humano. Quando o fluxo de sangue para, o corpo morre. Nos sas compreen‑ sões médicas atuais são, naturalmente, muito mais sofisticadas do que Harvey poderia ter imaginado. No entanto, nosso conhecimento ainda repousa sobre as conclusões sólidas apresentadas por ele pela primeira vez.

Na tentativa de lidar com os graves tremores no coração do corpo político, eco‑ nomistas, líderes empresariais e políticos, na ausência de qualquer concepção da na tureza sistêmica do fluxo de capital, têm ou ressuscitado antigas práticas ou apli‑ cado concepções pós‑modernas. Por um lado, as instituições internacionais e am‑ bulantes de crédito continuam a sugar, como sanguessugas, a maior quantidade que podem do sangue de todos os povos do mundo – independentemente de quão po‑ bres sejam – por meio dos chamados programas de “ajuste estrutural” e toda sorte de outros esquemas (como a repentina duplicação das taxas de nossos cartões de crédito). Por outro lado, os presidentes dos bancos centrais inundam suas econo‑ mias e inflam o corpo global político com excesso de liquidez na esperança de que as trans fusões de emergência curem uma doença que exige diagnóstico e interven‑ ções muito mais radicais.

Neste livro tento restaurar algum entendimento sobre o que o fluxo do ca pital representa. Se conseguirmos alcançar uma compreensão melhor das perturbações e da destruição a que agora estamos todos expostos, poderemos começar a sa ber o que fazer.

David Harvey Nova York, outubro de 2009

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1 A crise

Algo sinistro começou a acontecer nos Estados Unidos em 2006. A taxa de des‑ pejos em áreas de baixa renda de cidades antigas, como Cleveland e Detroit, repen‑ tinamente explodiu. Contudo, as autoridades e a mídia não deram atenção porque as pessoas afetadas eram de baixa renda, principalmente afro‑americanos, imi‑ grantes (hispânicos) ou mães solteiras. Os afro‑americanos, em especial, vinham tendo dificuldades com o financiamento de habitações desde o fim dos anos 1990. Entre 1998 e 2006, antes de a crise imobiliária bater com seriedade, estima‑se que perderam entre 71 bilhões e 93 bilhões de dólares em ativos ao se envolver com empréstimos conhecidos como subprime. Mas nada foi feito. Mais uma vez, como aconteceu durante a pandemia de HIV/Aids, que aumentou durante a adminis‑ tração Reagan, o custo humano e financeiro final da sociedade por não dar atenção aos claros sinais de alerta, pela falta de interesse coletivo e pelo preconceito contra os primeiros na linha de fogo foi incalculável.

Foi somente em meados de 2007, quando a onda de despejos atingiu a classe média branca, nas áreas urbanas e suburbanas dos EUA outrora crescentes e signi‑ ficativamente republicanas no Sul (em particular na Flórida) e Oeste (Califórnia, Arizona e Nevada), que as autoridades começaram a levar em consideração e a grande imprensa, a comentar. Projetos de novos condomínios e comunidades fe‑ chadas (muitas vezes em “bairros dormitórios” ou atravessando zonas urbanas pe‑ riféricas) começaram a ser afetados. Até o fim de 2007, quase 2 milhões de pessoas perderam suas casas e outros 4 milhões corriam o risco de ser despejados. Os valo‑ res das casas despencaram em quase todos os EUA e muitas famílias acabaram de‑ vendo mais por suas casas do que o próprio valor do imóvel. Isso desencadeou uma espiral de execuções hipotecárias que diminuiu ainda mais os valores das casas.

Em Cleveland, foi como se um “Katrina financeiro” atingisse a cidade. Casas abandonadas, com tábuas em janelas e portas, dominaram a paisagem nos bairros

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pobres, principalmente negros. Na Califórnia, também se enfileiraram casas abando‑ nadas e vazias em ruas de cidades inteiras, como Stockton; na Flórida e em Las Vegas, os condomínios permaneceram vazios. As vítimas de despejo tinham de encontrar alojamento em outros lugares: cidades de tendas começaram a se formar na Califór‑ nia e na Flórida. Em outras áreas, famílias ou dobraram de tamanho, com a chega‑ da de amigos e parentes, ou organizaram suas casas em quartos de hotéis baratos.

As pessoas por trás do financiamento da catástrofe das hipotecas inicialmente pareceram não se abalar. Em janeiro de 2008, os bônus em Wall Street somaram 32 bilhões de dólares, apenas uma fração menor do que o total em 2007. Esta foi uma recompensa notável pela destruição do sistema financeiro mundial. As per‑ das dos que estão na base da pirâmide social quase se igualaram aos extraordinários ganhos dos financistas na parte superior.

No outono de 2008, no entanto, a “crise das hipotecas subprime”, como veio a ser chamada, levou ao desmantelamento de todos os grandes bancos de investi‑ mento de Wall Street, com mudanças de estatuto, fusões forçadas ou falências. O dia em que o banco de investimentos Lehman Brothers desabou – em 15 de setem‑ bro de 2008 – foi um momento decisivo. Os mercados globais de crédito conge‑ laram, assim como a maioria dos empréstimos no mundo. Como o venerável ex‑ ‑presidente da Federal Reserve Paul Volcker (que cinco anos antes, juntamente com vários outros comentaristas de prestígio, previra a calamidade financeira se o gover‑ no dos EUA não forçasse o sistema bancário a reformar seu funcionamento) obser‑ vou, nunca antes as coisas haviam despencado “tão fácil e tão uniformemente ao redor do mundo”. O resto do mundo, até então relativamente imune (à exceção do Reino Unido, onde problemas análogos no mercado da habitação já tinham vindo à tona, o que levou o governo a nacionalizar uma casa de empréstimos importantes, a Northern Rock), foi arrastado precipitadamente para a lama, gerada em particu‑ lar pelo colapso financeiro dos EUA. No epicentro do problema estava a montanha de títulos de hipoteca “tóxicos” detidos pelos bancos ou co mercializados por inves‑ tidores incautos em todo o mundo. Todo mundo tinha agi do como se os preços dos imóveis pudessem subir para sempre.

Até o outono de 2008, tremores quase fatais já haviam se espalhado para o exte‑ rior, dos bancos aos principais credores da dívida hipotecária. As instituições de crédito Fannie Mae e Freddie Mac, licenciadas pelo governo dos Estados Unidos, tiveram de ser nacionalizadas. Seus acionistas foram destruídos, mas os portadores de títulos, incluindo o Banco Central chinês, mantiveram‑se protegidos. Investido‑ res incautos em todo o mundo, como fundos de pensão, pequenos bancos regionais europeus e governos municipais da Noruega à Flórida, que haviam sido atraídos para investir em carteiras de hipoteca com “muita garantia de retorno”, terminaram segurando pedaços de papel sem valor e incapazes de cumprir suas obrigações ou pagar seus empregados. Para piorar, gigantes dos seguros como a AIG, que haviam

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Propriedade de casa nos EUA, 1970-2008

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segurado as apostas de risco dos EUA e bancos internacionais, tiveram de ser socor‑ ridos por causa das grandes dificuldades que enfrentavam. Os mercados de ações se desintegraram na medida em que especialmente as ações de bancos tornaram‑se quase inúteis; fundos de pensão racharam sob a tensão; orçamentos municipais en‑ colheram; e espalhou‑se o pânico em todo o sistema financeiro.

Tornou‑se cada vez mais claro que só um maciço plano de socorro do governo poderia restaurar a confiança no sistema financeiro. A Federal Reserve reduziu as taxas de juro a quase zero. Pouco depois da falência do Lehman, alguns funcioná‑ rios e banqueiros do Tesouro, incluindo o secretário do Tesouro, que era um ex‑ ‑presidente da Goldman Sachs e atual diretor executivo da Goldman, surgiram de uma sala de conferências com um documento de três páginas exigindo 700 bilhões de dólares para socorrer o sistema bancário, prenunciando um Armageddon nos mercados. Era como se Wall Street tivesse iniciado um golpe financeiro contra o governo e o povo dos Estados Unidos. Algumas semanas depois, com ressalvas aqui e ali e muita retórica, o Congresso e, em seguida, o presidente George Bush cederam e o dinheiro foi enviado, sem qualquer controle, para todas as instituições financeiras consideradas “grandes demais para falir”.

Mas o mercado de crédito permaneceu congelado. Um mundo que antes pare‑ cia estar “inundado com excesso de liquidez” (como o FMI frequentemente rela‑

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Financiamentos com casas como colateral nos EUA, início dos despejos,1985-2007

Fonte: Associação dos Banqueiros Financiadores

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tou) de repente se viu sem dinheiro e inundado por casas, escritórios e shopping centers em excesso, além de ainda mais capacidade produtiva e trabalho excedentes.

No fim de 2008, todos os segmentos da economia dos EUA estavam com pro‑ blemas profundos. A confiança do consumidor despencou, a construção de habi‑ tação cessou, a demanda efetiva implodiu, as vendas no varejo caíram, o desem‑ prego aumentou e as lojas e as fábricas fecharam. Muitos dos tradicionais ícones da indústria dos EUA, como a General Motors, chegaram perto da falência, e um socorro temporário das montadoras de Detroit teve de ser organizado. A economia britânica estava igualmente com sérias dificuldades, e a União Europeia foi abala‑ da, mesmo com níveis desiguais, com a Espanha e a Irlanda, juntamente com vá‑ rios dos Estados orientais europeus que recentemente aderiram à União, mais seria‑ mente afetados. A Islândia, cujos bancos tinham especulado nesses mercados financeiros, ficou totalmente falida.

No início de 2009, o modelo de industrialização baseado em exportações, que gerou um crescimento tão espetacular no Leste e Sudeste da Ásia, contraía‑se a uma taxa alarmante (muitos países como Taiwan, China, Coreia do Sul e Japão viram suas exportações caírem em 20% ou mais em apenas dois meses). O comércio global internacional caiu em um terço em poucos meses, criando tensões nas economias majoritariamente exportadoras, como a da Alemanha e a do Brasil. Produtores de matérias‑primas, que andavam em alta no verão de 2008, de repente depararam com uma queda de preços que trouxe sérias dificuldades para países produtores de petróleo, como a Rússia e a Venezuela, assim como os Estados do Golfo. O desemprego começou a aumentar a uma taxa alarmante. Cerca de 20 milhões de pes‑ soas perderam subitamente seus empregos na China, e relatos perturbadores de agita‑ ção social vieram à tona. Nos Estados Unidos, o número de desempregados au‑ mentou em mais de 5 milhões em poucos meses (de novo, fortemente concentrado em comunidades afro‑americanas e hispânicas). Na Espanha, a taxa de desempre‑ go saltou para mais de 17%.

Na primavera de 2009, o Fundo Monetário Internacional estimava que mais de 50 trilhões de dólares em valores de ativos (quase o mesmo valor da produção total de um ano de bens e serviços no mundo) haviam sido destruídos. A Federal Reser‑ ve estimou em 11 trilhões de dólares a perda de valores de ativos das famílias dos EUA apenas em 2008. Naquele período, o Banco Mundial previa o primeiro ano de crescimento negativo da economia mundial desde 1945.

Esta foi, sem dúvida, a mãe de todas as crises. No entanto, também deve ser vista como o auge de um padrão de crises financeiras que se tornaram mais fre‑ quentes e mais profundas ao longo dos anos, desde a última grande crise do capi‑ talismo nos anos 1970 e início dos anos 1980. A crise financeira que abalou o Leste e Sudeste Asiático de 1997 a 1998 foi enorme, e as repercussões na Rússia (que decretou a moratória de sua dívida em 1998) e, em seguida, na Argentina em

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2001 (causando a um colapso total que levou a instabilidade política, ocupações de fábrica, bloqueios espontâneos de estradas e formação de associações de vizinhan‑ ça) foram catástrofes locais. Nos Estados Unidos, a falência de empresas‑estrela como a WorldCom e a Enron em 2001, que basicamente negociavam instrumentos financeiros chamados derivados, imitava a enorme falência do fundo de cobertura Long Term Capital Management (cuja gestão incluía dois vencedores do Prêmio Nobel de Economia) em 1998. Antes da bancarrota havia vários sinais de que nem tudo estava bem no que ficou conhecido como o “sistema de banco às escuras” em negociações financeiras entre particulares, ou seja, em mercados não regula‑ mentados que haviam surgido como que por mágica depois de 1990.

Houve centenas de crises financeiras ao redor do mundo desde 1973, em com‑ paração com as muito poucas entre 1945 e 1973, e várias destas foram baseadas em questões de propriedade ou desenvolvimento urbano. A primeira crise em es‑ cala global do capitalismo no mundo pós‑Segunda Guerra começou na primavera de 1973, seis meses antes de o embargo árabe sobre o petróleo elevar os preços do barril. Originou‑se em um crash do mercado imobiliário global, que derrubou vários bancos e afetou drasticamente não só as finanças dos governos municipais (como o de Nova York, que foi à falência técnica em 1975, antes de ser finalmente socorrido), mas também as finanças do Estado de modo mais geral. O boom ja‑ ponês da década de 1980 terminou em um colapso do mercado de ações e preços da terra em queda (ainda em curso). O sistema bancário sueco teve de ser nacio‑ nalizado em 1992, em meio a uma crise nórdica que também afetou a Noruega e a Finlândia, causada por excessos nos mercados imobiliários. Um dos gatilhos para o colapso no Leste e Sudeste Asiático de 1997 a 1998 foi o desenvolvimento urbano excessivo, alimentado por um influxo de capital especulativo estrangeiro, na Tai‑ lândia, em Hong Kong, na Indonésia, na Coreia do Sul e nas Filipinas. E as crises prolongadas nas poupanças e no crédito ligados ao setor imobiliário comercial nos Estados Unidos de 1984 a 1992 levaram mais de 1.400 companhias de poupança e empréstimo e 1.860 bancos a fechar as portas, com um custo de cerca de 200 bilhões de dólares para os contribuintes do país (uma situação que preocupou tan‑ to William Isaacs, então presidente da Federal Deposit Insurance Corporation, que, em 1987, ele ameaçou a Associação dos Banqueiros Estadunidenses com a nacionalização dos bancos, a menos que eles retomassem o rumo correto). Crises associadas a problemas nos mercados imobiliários tendem a ser mais duradouras do que as crises curtas e agudas que, às vezes, abalam os mercados de ações e os bancos diretamente. Isso porque, como veremos, os investimentos no espaço construído são em geral baseados em créditos de alto risco e de retorno demorado: quando o excesso de investimento é enfim revelado (como aconteceu recentemen‑ te em Dubai), o caos financeiro que leva muitos anos a ser produzido leva muitos anos para se desfazer.

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Índice dos preços de títulos de propriedade na Inglaterra

Fonte: Secretaria de Comércio

Fonte: Revista Fortune

Fonte: Revista Investers Chronicle

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Não há, portanto, nada de original no colapso atual, além do tamanho e alcan‑ ce. Também não há nada de anormal sobre seu enraizamento no desenvolvimento urbano e no mercado imobiliário. Há, temos de concluir, alguma conexão inerente em jogo aqui, que exige cuidado na reconstrução.

Como, então, é que devemos interpretar a confusão atual? Será que a crise sinaliza, por exemplo, o fim do neoliberalismo de livre‑mercado como modelo econômico dominante de desenvolvimento capitalista? A resposta depende do que entendemos com a palavra neoliberalismo. Minha opinião é que se refere a um projeto de classe que surgiu na crise dos anos 1970. Mascarada por muita retórica sobre liberdade individual, autonomia, responsabilidade pessoal e as virtudes da privatização, livre‑ ‑mercado e livre‑comércio, legitimou políticas draconianas destinadas a restaurar e consolidar o poder da classe capitalista. Esse projeto tem sido bem‑sucedido, a julgar pela incrível centralização da riqueza e do poder observável em todos os países que tomaram o caminho neoliberal. E não há nenhuma evidência de que ele está morto.

Um dos princípios básicos pragmáticos que surgiram na década de 1980, por exemplo, foi o de que o poder do Estado deve proteger as instituições financeiras a todo custo. Esse princípio, que bateu de frente com o não intervencionismo que a teoria neoliberal prescreveu, surgiu a partir da crise fiscal da cidade de Nova York de meados da década de 1970. Foi então estendido internacionalmente para o México durante a crise da dívida que abalou os fundamentos do país em 1982. De modo nu e cru, a política era: privatizar os lucros e socializar os riscos; salvar os bancos e colocar os sacrifícios nas pessoas (no México, por exemplo, o padrão de vida da população diminuiu cerca de um quarto em quatro anos após o socorro econômico de 1982). O resultado foi o conhecido “risco moral” sistêmico. Os bancos se comportam mal porque não são responsáveis pelas consequências nega‑ tivas dos comportamentos de alto risco. O socorro bancário atual é essa mesma história, só que maior e, dessa vez, centrado nos Estados Unidos.

Da mesma forma que o neoliberalismo surgiu como uma resposta à crise dos anos 1970, o caminho a ser escolhido hoje definirá o caráter da próxima evolução do capitalismo. As políticas atuais propõem sair da crise com uma maior consoli‑ dação e centralização do poder da classe capitalista. Restaram apenas quatro ou cinco grandes instituições bancárias nos Estados Unidos, embora muitos em Wall Street estejam prosperando. Lazard, por exemplo, especializada em fusões e aquisi‑ ções, está fazendo dinheiro a rodo, e a Goldman Sachs (que muitos agora chamam de brincadeira “governo Sachs”, para marcar sua influência sobre a política do Tesouro) está muito bem, obrigado. Alguns ricos vão perder, com certeza, mas segundo a famosa observação de Andrew Mellon (banqueiro dos EUA, secretário do Tesouro de 1921 a 1932): “Em uma crise, os ativos retornam aos seus legítimos proprietários” (ou seja, ele). E assim vai ser desta vez também, a menos que um movimento político alternativo surja para detê‑lo.

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Índice dos preços de terra em todo o Japão

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As crises financeiras servem para racionalizar as irracionalidades do capitalismo. Geralmente levam a reconfigurações, novos modelos de desenvolvimento, novos campos de investimento e novas formas de poder de classe. Tudo isso pode dar er‑ rado, politicamente. Mas a classe política dos EUA até agora cedeu ao pragmatis‑ mo financeiro e não tocou as raízes do problema. Conselheiros econômicos do presidente Obama são da velha escola – Larry Summers, diretor de seu Conselho Econômico Nacional, foi secretário do Tesouro no governo Clinton, quando o fer‑ vor pela desregulamentação das finanças dominava. Tim Geithner, secretário do Tesouro de Obama, ex‑chefe da New York Federal Reserve, tem contatos íntimos com Wall Street. O que poderia ser chamado de “o Partido de Wall Street” tem imensa influência dentro do Partido Democrata, assim como com os republicanos (Charles Schumer, o poderoso senador democrata de Nova York, arrecadou mi‑ lhões de Wall Street ao longo dos anos, não apenas para suas próprias campanhas políticas, mas para o Partido Democrata como um todo).

Aqueles que fizeram a licitação do capital financeiro outrora nos anos Clinton já estão de volta ao leme. Isso não significa que eles não vão redesenhar a arquite‑ tura financeira, porque eles devem. Mas para quem vão redesenhá‑la? Será que vão nacionalizar os bancos e transformá‑los em instrumentos para servir o povo? Será que os bancos vão simplesmente se tornar, como vozes influentes agora propõem até mesmo no Financial Times, serviços públicos regulamentados? Duvido muito. Será que os poderes que atualmente dominam o sistema vão apenas procurar lim‑ par o problema com o sacrifício popular e, em seguida, devolver os bancos aos in‑ teresses de classe que nos colocaram nessa confusão? Isso é quase certamente para onde nos dirigimos, a menos que uma onda de oposição política indique outra maneira de solucionar o problema. Já os assim chamados “bancos de investimento boutique” estão se formando rapidamente às margens de Wall Street, pron tos para entrar na pele de Lehman e Merrill Lynch. Enquanto isso os grandes ban cos que ainda restam estão depositando secretamente fundos para retomar o pagamento dos bônus milionários que pagavam antes da crise.

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A possibilidade de sairmos da crise de uma maneira diferente depende muito do equilíbrio das forças de classe. Depende do grau com que a massa da população se levanta e diz: “Já basta, vamos mudar o sistema”. O Joe e a Jean médios (mesmo se ele ou ela é um encanador) têm boas razões para dizer isso. Nos Estados Unidos, por exemplo, a renda familiar desde a década de 1970 tem em geral estagnado em meio a uma imensa acumulação de riqueza por interesses da classe capitalista. Pela primeira vez na história dos EUA, os trabalhadores não têm participação em qual‑ quer dos ganhos de produtividade crescentes. Temos vivenciado trinta anos de repressão salarial. Por que e como isso aconteceu?

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Ganhos reais na Inglaterra

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Consumo residencial

China: salário e consumo residencial (parte do PIB), 1998-2008

Salário

Fonte: Escritório Nacional de Estatística

Um dos principais obstáculos para o contínuo acúmulo de capital e a consoli‑ dação do poder de classe capitalista na década de 1960 foi o trabalho. Havia escas‑ sez de mão de obra, tanto na Europa quanto nos EUA. O trabalho era bem orga‑ nizado, razoavelmente bem pago e tinha influência política. No entanto, o capital precisava de acesso a fontes de trabalho mais baratas e mais dóceis. Houve uma sé rie de maneiras para fazer isso. Uma delas foi estimular a imigração. O Ato de Imi gração e Nacionalidade de 1965, que aboliu as cotas de origem nacional, per‑ mitiu o acesso ao capital dos EUA à população excedente global (antes apenas eu‑ ropeus e caucasianos eram privilegiados). No fim dos anos 1960, o governo francês começou a subvencionar a importação de mão de obra da África do Norte, os ale ‑ mães transportaram os turcos, os suecos trouxeram os iugoslavos, e os britânicos valeram‑se dos habitantes do seu antigo império.

Outra forma foi buscar tecnologias que economizassem trabalho, como a robo‑ tização na indústria automobilística, o que criou desemprego. Um pouco disso acon‑ teceu, mas houve muita resistência por parte do trabalho, que insistia em acordos de produtividade. A consolidação do poder de monopólio das empresas também enfraqueceu a implementação de novas tecnologias, porque custos laborais mais elevados eram transferidos para o consumidor por meio de preços mais altos (resultando em inflação estável). As Três Grandes empresas automobilísticas em

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Detroit geralmente faziam isso. Seu monopólio acabou finalmente quebrado quan do os japoneses e alemães invadiram o mercado de automóveis dos EUA na década de 1980. O retorno às condições de uma maior concorrência, que se tornou um objetivo político fundamental nos anos 1970, então forçou o uso de tecnolo‑ gias que economizassem trabalho. Mas isso entrou bem tarde em jogo.

Se tudo isso falhasse, havia pessoas como Ronald Reagan, Margaret Thatcher e o general Augusto Pinochet à espera, armados com a doutrina neoliberal, prepa‑ rados para usar o poder do Estado para acabar com o trabalho organizado. Pinochet e os generais brasileiros e argentinos o fizeram com poderio militar, enquanto Reagan e Thatcher orquestraram confrontos com o grande trabalho, quer diretamente no caso do confronto de Reagan com os controladores de tráfego aéreo e a luta feroz de Thatcher com os mineiros e os sindicatos de impressão, quer indiretamente pela criação de desemprego. Alan Budd, conselheiro‑chefe econômico de Thatcher, mais tarde admitiu que “as políticas dos anos 1980 de ataque à inflação com o arrocho da economia e gastos públicos foram um disfarce para esmagar os traba‑ lhadores”, e assim criar um “exército industrial de reserva”, que minaria o poder do trabalho e permitiria aos capitalistas obter lucros fáceis para sempre. Nos EUA, o desemprego subiu, em nome do controle da inflação, para mais de 10% em 1982. Resultado: os salários estagnaram. Isso foi acompanhado nos EUA por uma política de criminalização e encarceramento dos pobres, que colocou mais de 2 milhões atrás das grades até 2000.

O capital também teve a opção de ir para onde o trabalho excedente estava. As mulheres rurais do Sul global foram incorporadas à força de trabalho em todos os lugares, de Barbados a Bangladesh, de Ciudad Juarez a Dongguan. O resultado foi uma crescente feminização da proletariado, a destruição dos sistemas campone‑ ses “tradicionais” de produção autossuficiente e a feminização da pobreza no mun‑ do. O tráfico internacional de mulheres para a escravidão doméstica e prostituição surgiu, na medida em que mais de 2 bilhões de pessoas, cada vez mais amontoadas em cortiços, favelas e guetos de cidades insalubres, tentava sobreviver com menos de dois dólares por dia.

Inundadas com capital excedente, as empresas norte‑americanas começaram a expatriar a produção em meados da década de 1960, mas esse movimento ape‑ nas se acelerou uma década depois. Posteriormente, peças feitas quase em qualquer lugar do mundo – de preferência onde o trabalho e as matérias‑primas fossem mais baratos – poderiam ser levadas para os EUA e montadas para a venda final no mer‑ cado. O “carro mundial” e a “televisão global” tornaram‑se um item padrão na década de 1980. O capital já tinha acesso ao trabalho de baixo custo no mundo inteiro. Para completar, o colapso do comunismo, drástico no ex‑bloco soviético e gradual na China, acrescentou cerca de 2 bilhões de pessoas para a força de traba‑ lho assalariado global.

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“Globalizar‑se” foi facilitado por uma reorganização radical dos sistemas de transporte, que reduziu os custos de circulação. A conteinerização – uma inovação fundamental – permitiu que peças feitas no Brasil pudessem ser utilizadas para montar carros em Detroit. Os novos sistemas de comunicações permitiram a orga‑ nização rigorosa da cadeia produtiva de mercadorias no espaço global (lançamen‑ tos da moda de Paris puderam ser quase imediatamente enviados a Manhattan por meio das maquiladoras de Hong Kong). Barreiras artificiais do comércio, como tarifas e cotas, foram reduzidas. Acima de tudo, uma nova arquitetura financeira global foi criada para facilitar a circulação do fluxo internacional de capital‑di‑ nheiro líquido para onde fosse usado de modo mais rentável. A desregulamentação das finanças, que começou no fim dos anos 1970, acelerou‑se depois de 1986 e tornou‑se irrefreável na década de 1990.

A disponibilidade do trabalho não é mais um problema para o capital, e não tem sido pelos últimos 25 anos. Mas o trabalho desempoderado significa baixos salários, e os trabalhadores pobres não constituem um mercado vibrante. A persis‑ tente repressão salarial, portanto, coloca o problema da falta de demanda para a expansão da produção das corporações capitalistas. Um obstáculo para a acumula‑ ção de capital – a questão do trabalho – é superado em detrimento da criação de outro – a falta de mercado. Então, como contornar essa segunda barreira?

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A lacuna entre o que o trabalho estava ganhando e o que ele poderia gastar foi preenchida pelo crescimento da indústria de cartões de crédito e aumento do endi‑ vidamento. Nos EUA, em 1980 a dívida agregada familiar média era em torno de 40 mil dólares (em dólares constantes), mas agora é cerca de 130 mil dólares para cada família, incluindo hipotecas. As dívidas familiares dispararam, o que deman‑ dou o apoio e a promoção de instituições financeiras às dívidas de trabalhadores, cujos rendimentos não estavam aumentando. Isso começou com a população cons‑ tantemente empregada, mas no fim da década de 1990 tinha de ir mais longe, pois esse mercado havia se esgotado. O mercado teve de ser estendido para aqueles com rendimentos mais baixos. Instituições financeiras como Fannie Mae e Freddie Mac foram pressionadas politicamente para afrouxar os requerimentos de crédito para todos. As ins tituições financeiras, inundadas com crédito, começaram a financiar a dívida de pessoas que não tinham renda constante. Se isso não tivesse acontecido, então quem teria comprado todas as novas casas e condomínios que os promotores de imóveis com financiamento estavam construindo? O problema da demanda foi temporariamente superado, no que diz respeito à habitação, pelo financiamento da dívida dos empreendedores, assim como dos compradores. As instituições finan‑ ceiras controlavam coletivamente tanto a oferta quanto a demanda por habitação!

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Razão das prestações da dívida ao consumidor

Fonte: Conselho dos Governadores, Conselho do Federal Reserve, razões das prestações da dívida residencial e obrigações nanceiras

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A grande bolha da dívida estadunidense

Fonte: Barron’s, 21 de fevereiro, atualizado em 2006

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A mesma história ocorreu com todas as formas de crédito ao consumo para todos os produtos, desde automóveis e cortadores de grama até fácil acesso a cartões de pre‑ sente de Natal na Toys ‘R’ Us e Wal‑Mart. Todo esse endividamento era obviamente arriscado, mas isso era para ser controlado por maravilhosas inovações financeiras de securitização que, supostamente, partilhariam o risco, criando a ilusão de que este tinha desaparecido. O capital financeiro fictício assumiu o controle e ninguém queria pará‑lo porque todo mundo que importava parecia estar fazendo muito dinheiro. Nos EUA, as contribuições políticas de Wall Street subiram. Você se lembra da famosa pergunta retórica de Bill Clinton quando ele assumiu o cargo? “Você quer me dizer que o suces‑ so do programa econômico e minha reeleição dependeram da Federal Reserve e de um monte de negociantes de títulos?” Clinton não era mais que um aprendiz astuto.

Mas havia outra maneira de resolver o problema da demanda: a exportação do capital e o cultivo de novos mercados ao redor do mundo. Essa solução, tão antiga quanto o próprio capitalismo, foi perseguida com mais determinação a partir dos anos 1970. Os bancos de investimento de Nova York, então lotados de excedentes de petrodólares dos Estados do Golfo e desesperados por novas oportunidades de investimento num momento em que o potencial de rentabilidade de investimento dentro dos Estados Unidos estava exausto, fizeram empréstimos maciços para países em desenvolvimento como México, Brasil, Chile e até mesmo Polônia. Isso aconte‑ ceu porque, como Walter Wriston, chefe do Citibank, colocou, países não podem desaparecer – você sempre sabe onde encontrá‑los em caso de dificuldades.

As dificuldades logo surgiram com a crise da dívida dos países em desenvolvi‑ mento da década de 1980. Mais de quarenta países, principalmente na América Latina e África, tiveram dificuldade em pagar suas dívidas quando as taxas de juros de repente subiram após 1979. O México ameaçou ir à falência em 1982. Os Es‑ tados Unidos prontamente revigoraram o Fundo Monetário Internacional (FMI) (que a gestão Reagan tinha procurado enfraquecer em 1981, em conformidade com o princípio neoliberal estrito) como um disciplinador global, para assegurar aos bancos que teriam seu dinheiro de volta e que as pessoas seriam obrigadas a pa‑ gar. Os “programas de ajuste estrutural” do FMI, que impuseram austeridade a fim de pagar aos bancos, proliferaram em todo o mundo. O resultado foi uma cres‑ cente onda de “risco moral” nas práticas de empréstimo dos bancos internacionais. Por um tempo, essa prática foi um enorme sucesso. No vigésimo aniversário do socorro financeiro mexicano, o economista‑chefe da Morgan Stanley saudou tal so‑ corro como “um fator que preparou o espaço para aumentar a confiança dos inves‑ tidores em todo o mundo e ajudou a inflamar o mercado de crescimento do fim dos anos 1990, junto com uma forte expansão econômica dos EUA”. Salvar os bancos e arre bentar com o povo funcionou às mil maravilhas – para os banqueiros.

Mas para que tudo isso fosse realmente eficaz, era preciso construir um sistema globalmente interligado de mercados financeiros. Dentro dos Estados Unidos, as restrições geográficas sobre o setor bancário foram retiradas passo a passo a partir do

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fim dos anos 1970. Até então, todos os bancos, exceto os de investimento – que foram separados judicialmente de instituições de conta corrente –, tinham sido con‑ finados a operar dentro de um Estado, enquanto as empresas de poupança e emprés‑ timos financiavam hipotecas, que eram separadas dos bancos de conta corrente. Mas a integração dos mercados financeiros global e nacional também foi vista como vital e isso levou, em 1986, à articulação de ações globais e mercados de negocia‑ ção financeira. O “Big Bang”, como foi chamado na época, conectava Londres e Nova York e imediatamente a seguir todos os mais importantes mercados financei‑ ros mundiais (e em última instância, locais) em um único sistema de negociação. Nesse sentido, os bancos puderam operar livremente sem levar em consideração fronteiras (em 2000 a maioria dos bancos do México era estrangeira, e o HSBC es‑ tava em toda parte, referindo‑se a si mesmo carinhosamente como “o banco do povo local global”). Isso não significa que não havia barreiras aos fluxos de capitais internacionais, mas barreiras técnicas e logísticas ao fluxo de capital global certa‑ mente foram muito diminuídas. O capital‑dinheiro líquido podia vaguear mais fa‑ cilmente pelo mundo à procura de locais onde a taxa de retorno fosse maior. A suspensão da distinção entre bancos de investimento e conta corrente nos Estados Unidos em 1999, que já estava em vigor desde a Lei Glass‑Steagall de 1933, inte‑ grou ainda mais o sistema bancário em uma rede gigante do poder financeiro.

Mas na medida em que o sistema financeiro se globalizou, a competição entre os centros financeiros – principalmente Londres e Nova York – cobrou seu pedágio coercivo. As sucursais de bancos internacionais, como Goldman Sachs, Deutsche Bank, UBS, RBS e HSBC, internalizaram a concorrência. Se o regime regulador em Londres era menos rigoroso do que nos EUA, então as filiais na cidade de Lon‑ dres começaram o negócio, em vez de Wall Street. Como o negócio lucrativo fluía naturalmente para onde o regime regulatório fosse mais relaxado, a pressão política sobre os reguladores para olhar para outras questões crescia. Michael Bloomberg, o prefeito de Nova York, encomendou um relatório em 2005 que concluiu que regulamentação excessiva nos EUA ameaçava as futuras companhias financeiras de sua cidade. Toda a gente em Wall Street, juntamente com o “Partido de Wall Street” no Congresso, ecoou essas conclusões.

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O sucesso da política de repressão salarial depois de 1980 permitiu que os ricos ficassem muito ricos. Dizem‑nos que isso é bom porque os ricos vão investir em novas atividades (depois de satisfazer sua necessidade competitiva de se deleitar com o consumo conspícuo, é claro). Bem, sim, eles investem, mas não necessariamente direto na produção. A maioria deles prefere investir em ações. Por exemplo, eles colocam dinheiro no mercado de ações e o valor das ações sobe, então colocam ainda mais dinheiro, independentemente de quão bem as empresas em que inves‑ tem estão de fato. (Você se lembra das previsões do fim dos anos 1990 da Dow em

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35 mil?) O mercado de ações tem um caráter Ponzi, mesmo sem os Bernies Madoffs deste mundo precisarem organizá‑lo explicitamente assim. Os ricos apostaram alto em todo tipo de ativos, incluindo ações, propriedades, recursos, petróleo e outras mercadorias futuras, bem como o mercado de arte. Eles também investiram no ca‑ pital cultural com o patrocínio de museus e todo o tipo de atividades culturais (tornando assim a chamada “indústria cultural” uma estratégia preferida para o de‑ senvolvimento econômico urbano). Quando o Lehman Brothers quebrou, o Museu de Arte Moderna de Nova York perdeu um terço de sua receita de patrocínio.

Novos mercados estranhos surgiram, liderados pelo que se tornou conhecido como “sistema de banco às escuras”, permitindo o investimento em trocas de cré‑ dito, derivativos de moeda e assim por diante. O mercado de futuros abarcou tudo desde o comércio de direitos de poluição até apostas sobre o tempo. De quase nada em 1990, esses mercados cresceram e passaram a circular aproximadamente 250 trilhões de dólares em 2005 (a produção total mundial foi então de apenas 45 tri‑ lhões de dólares) e talvez algo como 600 trilhões de dólares em 2008. Os investi‑ dores puderam investir em derivativos de ativos e, finalmente, até mesmo em deri‑ vativos de contratos de seguros de derivativos de ativos. Esse foi o ambiente em que os fundos de cobertura floresceram, com enormes lucros para quem investiu neles. Aqueles que o administravam acumularam grandes fortunas (mais de 1 bilhão de dólares em remuneração pessoal por ano para vários deles em 2007 e 2008, e algo como 3 bilhões de dólares para os que mais receberam).

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Valor dos títulos e casas nos EUA, como percentual do PIB

TÍTULOS

RECESSÃO

Fonte: Federal Reserve, Secretaria de Comércio via Economy

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