O novo capital social, Notas de estudo de Contabilidade
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O novo capital social, Notas de estudo de Contabilidade

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20 IBEF NEWS • Março 2008

O novo capital social

A sustentabilidade como um conceito em movimento: empresas brasileiras devem incorporar práticas à estratégia do negócio

por Carolina Bridi

Diante do triple bottom line, que coloca as esfe- ras social, ambiental e econômica lado a lado, é indispensável lembrar que não podemos resolver um problema usando o mesmo raciocínio que o criou, como pensou Einstein. Hoje, nasce, perante uma socie- dade formada por consumidores – entre outros stakeholders, cada vez mais atentos –, uma vertente do capitalismo liderada pela preocupação socioambiental. Um novo conceito de capital surge quando o consumo selvagem de recursos dá espaço à consciência da palavra sustentabilidade: é o novo signifi cado da expressão capital social.

No universo fi nanceiro, hoje, já se ouve dizer que é difícil imaginar uma organização responsável obtendo ótimos resultados mediante negócios que são realizados com terceiros pouco preo- cupados com o ambiente social, econômico e ambiental. No entanto, é inevitável a cer- teza de que muito se tem a evoluir neste campo no Brasil. Desde o completo entendi- mento do que signifi ca o conceito sustenta- bilidade até a sua inserção no core business das empresas, traça-se um caminho que está sendo construído enquanto trilhado, onde so- ciedade civil, governo, entidades e empresas aprendem juntos a partir de diretrizes discutidas no mundo todo.

Enquanto a sustentabilidade cria-se e recria-se em suas necessidades, seu conceito não permanece imutável. Trata-se de um movimento que interage com suas práticas e praticantes.

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21IBEF NEWS • Março 2008

Uma questão moral Em Uma Verdade Inconveniente, o ati-

vista ecológico Al Gore defende que as questões ambientais dizem respeito à questão moral. Para o diretor de co- municação institucional da Accor Brasil, Jean François Hue, trata-se de um com- promisso do ser humano. Especifica- mente dentro da empresa, é uma ques- tão que exige o engajamento individual e coletivo em todas as áreas e níveis da organização, ele defende. Esta é a forma de conduta que o Grupo Accor disse- mina aos seus funcionários e colabora- dores. E talvez este tenha sido o segredo para o reconhecimento da organização recentemente como uma das 20 melho- res empresas em sustentabilidade.

Para a autora do livro Compêndio para a Sustentabilidade, Anne Louette, é uma questão que já não se restringe a poucos visionários. “Integrar-se nesta discussão é imperativo. Trata-se de um exercício inexorável em que, quanto mais breve- mente começarmos, mais eficazes sere- mos”, afirma. Com maneiras incontáveis de praticá-las, bem como incontáveis são os seus benefícios, Anne diz que se envolver é estrategicamente necessário para todos.

Neste contexto, fica evidente o papel do executivo de finanças diante da incorporação destas práticas pelas com-

panhias, porém, o que falta ainda é a tomada da sustentabilidade como parte da estratégia. “O primeiro ponto é des- mistificar, ou seja, tirar a sustentabilida- de das áreas de comunicação ou de RI simplesmente. Tem que levar para o core business. É quando a empresa co- meça a pensar em como isso impacta no seu negócio”, argumenta a coordena- dora do Programa Finanças Sustentáveis do GVces (Centro de Estudos em Sus- tentabilidade da Escola de Administra- ção de Empresas de São Paulo da Fun-

“Esta forma de conduzir os negócios torna a empresa parceira e co-responsável pelo desenvolvimento de uma sociedade viável para as próximas gerações. A Responsabilidade Social dá lucro, promove o bem- estar e faz evoluir” Anne Louette (Autora do livro Compêndio para a Sustentabilidade)

dação Getulio Vargas), Renata Brito. Desta forma, é preciso que os pro-

fissionais da área financeira fiquem atentos para a existência de novos per- sonagens no cenário de seu ofício diá- rio. Para a coordenadora da área de capacitação comunitária do Instituto Akatu, Raquel Diniz, é preciso obser- var as mudanças de paradigmas vindas com a governança corporativa, às quais as empresas ainda estão se adaptando. “Diz respeito principalmente à área fi- nanceira, em relação aos stakeholders. O que é importante? Será que é só o acionista que conta?”, questiona. Ela defende que existe um deslocamento de eixo, em que a atenção do finan- ceiro fica voltada não só ao acionista, mas a outros stakeholders de toda a cadeia que antes eram importantes para outros setores da empresa, como consumidores, clientes, fornecedores, meio-ambiente e comunidade.

Para Carlos Nomoto, superintenden- te de desenvolvimento sustentável do Banco ABN Amro – outra empresa lis- tada entre as 20 melhores em sustenta- bilidade –, cada vez mais os profissio- nais da área financeira devem ampliar sua visão do que significa ser um inter- mediador financeiro. Ele lembra que devem estar cada vez mais atentos aos tratados internacionais, como Princípios

“Acredito que temos sinais promissores: a difusão de testemunhos de líderes empresariais que se envolvem pessoalmente com as boas práticas a favor dessa grande causa é cada vez mais freqüente” Jean François Hue (Accor)

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do Equador, Pacto Global, Metas do Milênio e Protocolo de Kyoto, entre outros. “Com todas as suas perfeições e imperfeições, são documentos que começam a reger e direcionar o setor financeiro para incluir cada vez mais este critério nas decisões de negócios”, afirma. Para ele, isso evidencia a impor- tância dos profissionais da área finan- ceira compreenderem o impacto des- tes aspectos nos resultados financeiros da empresa.

A diretora executiva da Fundação Brasileira para o Desenvolvimento Sus- tentável (FBDS) e especialista em Sus- tentabilidade Corporativa, Clarissa Lins, defende que estes profissionais são res- ponsáveis por evidenciar as práticas de sustentabilidade em todas as comuni- cações da empresa para o mercado, mostrando o impacto de sua adoção na valorização da empresa. “Executi- vos da área financeira da maioria das empresas já começaram a incorporar variáveis não-financeiras aos negócios da companhia. E, na prática, a adoção de práticas de sustentabilidade abre as portas para investidores mais seletivos e financiadores que utilizem essas prá- ticas em suas análises.”

As companhias que adotam estas práticas se destacam por atender a cri- térios mínimos de saúde financeira, res- ponsabilidade social, ambiental e gover- nança corporativa. Teoricamente, isso significa que essas companhias apre- sentam menor risco aos seus acionistas. Portanto, suas ações tendem a oferecer desempenho melhor no longo prazo. Ou seja, é possível captar mais recur- sos financeiros.

Para Jean François, além disso, há be- nefícios em relação à maior produtivi- dade, já que os melhores profissionais preferem trabalhar em empresas cida- dãs. Ele cita ainda melhores negociações com fornecedores e investidores, cada dia mais preocupados com este assunto, além de uma imagem institucional e comercial mais favorável, criando maio- res e melhores oportunidades de negó- cios. O presidente do Centro Empresa- rial para o Desenvolvimento Sustentável

Ações indicativas de responsabilidade social de uma grande empresa - Brasil e mundo (2005)

A visão dos executivos - Motivação

Fonte: Globescan/Market Analysis Brasil

Fonte: Pesquisa FBDS/IMD.

Tratar os empregados de forma justa

Proteger o meio ambiente

Criar empregos/dar suporte à economia

Providenciar serviços sociais/retorno à comunidade

Produzir produtos de qualidade/seguros Ser honesto/confiável

Fazer doações/caridade

Mostrar preocupação/ter responsabilidade social

Obedecer leis/pagar impostos

Lucrar/bom desempenho

Preços baixos/justos

Ficar no país/não mudar de país

Proteger direitos humanos/lutar contra trabalho infantil Outros Investir em educação/educação profissional Investir em esporte Creches

26% 25%

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1% 8%

7% 4%

3%

Mundo

Brasil

Os contrastes entre a opinião pública mundial e a brasileira são destacados pelas setas laranjas

Média mundial (12 países)

“O que uma empresa deve fazer para você considerá-la socialmente responsável?” (menções espontâneas, até 2 por entrevistado)

Nível de Conhecimento do Conceito de Sustentabilidade

Desenvolvimento do Conceito dentro da Empresa

Muito familiarizada

Familiarizada

Alguma coisa

Pouco

Nenhum

Disposição para Integração do Conceito na Estratégia

Aumentará

Permanecerá sem mudanças

Diminuirá

Bastante

Muito

Alguma coisa

Um pouco

Nada

Muito mais positivamente

Um pouco mais positivamente

Sem mudanças

Um pouco mais negativamente

Muito mais negativamente

Reação do Mercado de Capitais ao tema

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42% 6%1%

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1% 5% 34%

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(Cebds) e autor do livro “Os desafios da sustentabilidade: uma ruptura urgente”, Fernando Almeida, lembra ainda como benefício, a facilidade maior em linhas de crédito. Ou seja, por aspectos diver- sos chega-se à mesma conclusão: o cres- cimento dos resultados.

Almeida alerta para a questão dos bens intangíveis, referentes à marca e reputação. “Os bens intangíveis respon- dem pelo menos por 75% do seu valor de mercado”, observa. Ele afirma que sustentabilidade é um conceito multis- setorial e multifacetado, ou seja, deve envolver os profissionais da área finan- ceira bem como todos os demais funcio- nários, independentemente da área de atuação ou graduação hierárquica.

Assim, ele explica que, se uma em- presa desenvolve um produto ou presta um serviço de forma irresponsável social e ambientalmente, será alvo de críticas e campanhas e acabará rejeitada pelo mer- cado. Ou seja, não sobreviverá no longo prazo. Se o procedimento for o oposto, a empresa terá ganhos com a valoriza- ção de seus ativos intangíveis e garan- tirá sobrevivência no longo prazo. Isso fi ca claro ao analisarmos que as empre- sas listadas no Índice Dow Jones de Sus- tentabilidade de Nova York chegam a ser 20% mais valorizadas no mercado em relação às empresas que se mantêm

no modelo tradicional, com foco basica- mente nos investidores e acionistas.

Ativos e passivos numa questão de impacto

Anne Louette diz que a amplitude do impacto financeiro da sustentabilida- de depende do grau de incorporação do conceito na estratégia e nas práticas cotidianas da organização. É consenso que aquelas que comungam com o con- ceito porque têm seus valores internali- zados avançam de forma consistente e

coerente e, conseqüentemente, os im- pactos financeiros são positivos não só para a empresa, mas também para seus acionistas, funcionários e comunidade, entre outros. “Todos ganham direta ou indiretamente. Trata-se de um modus operandi pragmático e estratégico, e não de um exercício ideológico”, afirma.

Ela explica o processo. A compa- nhia reconsidera seus critérios de renta- bilidade eficaz, integra o socioambien- tal em sua estratégia global de desen- volvimento, passa a associar lucro com o bem comum, redefine os critérios de prosperidade e progresso e, assim, torna-se uma “empresa-ativo” da socie- dade, que agrega valor a todos. “Esta forma de conduzir os negócios torna a empresa parceira e co-res- ponsável pelo desen- volvimento de uma sociedade viável para as próximas gerações. A Responsabilidade Social dá lucro, pro- move o bem-estar e faz evoluir”, declara.

Renata Brito, do GVces, observa que a disseminação da sus ten tab i l idade dentro das empre- sas ainda é pequena

“Com todas as suas perfeições e imperfeições, [os tratados internacionais] são documentos que começam a reger e direcionar o setor financeiro para incluir cada vez mais este critério nas decisões de negócios” Carlos Nomoto (ABN Amro)

“O primeiro ponto é desmistificar, ou seja, tirar a sustentabilidade das áreas de comunicação ou de RI simplesmente. Tem que levar para o core business. É quando a empresa começa a pensar em como isso impacta no seu negócio” Renata Brito (GVces)

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Matéria de capa

e localizada. “Temos que admitir para poder avançar. Não adianta fingir que isto é algo que faz parte de toda reu- nião de board. Já começou a fazer parte, mas muito mais pelos problemas do que pelas soluções. E isso é às vezes tratado como algo paliativo, como uma questão de comunicação, e pouco introduzido no que chamamos de core business da empresa”, reclama. O foco da empresa tem que ser no seu negócio, mas susten- tabilidade, assim como outros aspectos, deve influenciar e fazer parte da tomada de decisão e da estratégia da empresa, ela defende.

“As práticas que são temporárias e não incorporadas na estratégia não chegam a afetar a área financeira”, ob- serva Raquel Diniz, do Instituto Akatu. Ela diz que quando sustentabilidade é encarada como uma estratégia, os ganhos são maiores não só para a área financeira, mas para a companhia como um todo, principalmente na hora de uma nova aquisição ou de atrair novos investidores e novos mercados. Ela lembra da questão da inovação, em que empresas desenvolvem pes- quisas para criar novos produtos vol- tados à sustentabilidade. Nesta ques- tão, a Braskem é um exemplo, com o desenvolvimento de matéria-prima para a fabricação de plásticos derivados da cana-de-açúcar, chamada de resina verde. No dia que a Braskem divulgou seu novo produto, as ações na bolsa subiram 4%. “É um bem tangível, prin- cipalmente este investimento em pes-

quisa, quando se chega a um produto que é voltado à

sustentabilidade e que está coberto de inova- ção”, aponta Raquel.

Há ainda empresas que traçam novos nichos

do negócio com base na sustentabilidade. O

ABN Amro tem uma série de negócios voltados à respon- sabilidade socioam- biental. O Fundo

Ethical é um deles.

A visão dos executivos Alinhamento das diversas áreas da organização

Agenda Futura

• Bom alinhamento entre executivos de uma mesma instituição

• Não identifi cação de áreas com maior resistência ao tema

• Principais barreiras apontadas:

Cultura organizacional e falta de conhecimento ou expertise gerencial

Percepção diferente daquela apontada pelos executivos entrevistados

Principais barreiras à sustentabilidade

Cultura organizacional

Falta de conhecimento/expertise gerencial

Mentalidade gerencial

Regulação (ex. subsídios, baixo padrão ambiental/social)

Ausência de ferramentas e processos apropriados

Outros

Falta de interesse dos clientes

Oposição ou falta de interesse por parte dos investidores

Conscientização Disseminação do conceito Engajamento de stakeholders

Ferramentas Aprimoramento para inserção efetiva das variáveis socioambientais

Transparência Prestação de contas para todos

os stakeholders Maior abertura ao diálogo

TR A

N SP

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FERRAMENTAS

Fonte: Pesquisa FBDS/IMD.

Fonte: Pesquisa FBDS/IMD.

17%

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23%

3% 3%

6%

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25IBEF NEWS • Março 2008

Para Carlos Nomoto, este fundo prova que é possível desenvolver um pro- duto sustentável em todos os sentidos. É um fundo de ações, então remunera o acionista. Ao mesmo tempo, a avalia- ção e escolha das empresas que com- põem este fundo são feitas com base em um conjunto de critérios sociais e ambientais. “Ou seja, conseguimos garantir, desta forma, as pessoas, o pla- neta e o retorno financeiro. Promovo as empresas que têm boas práticas, rentabilizo o acionista, e o cliente tem ainda a possibilidade de alavancar ou diversificar os seus investimentos”, ex- plica o superintendente de desenvol- vimento sustentável do Banco ABN. O Fundo Ethical é uma operação de microcrédito que já passou de 40 mil clientes.

Há ainda empresas que têm a sus- tentabilidade como foco inicial do seu negócio, como a Novagerar, empresa de tratamento de resíduos para gera- ção de energia responsável pelo pri- meiro projeto de mecanismo de de- senvolvimento limpo do Protocolo de Kyoto registrado no mundo. Hoje, a Novagerar investe na criação de uma usina de geração de energia a partir do gás da decomposição do lixo. “No iní- cio de 2009 devemos estar com a usina de geração de energia pronta e come-

çaremos a negociar a venda desta ener- gia para consumidores. Vamos trans- formar os dejetos da população em energia limpa para comercializar, além de não poluir o solo, a água e a atmos- fera”, conta a diretora da Novagerar, Adriana Felipetto. Para ela, a empresa que não investir em sustentabilidade está fadada ao fim num intervalo de tempo pequeno. Adriana diz que sus- tentabilidade é um bom negócio, e ex- plica: “Além de se transformar num ativo, evitam-se os passivos”.

Brasil Mesmo assim, é evidente o atraso

brasileiro no movimento mundial pela sustentabilidade. Entre pontos fortes, o País ainda amarga um avanço pequeno e centralizado, mesmo que venha ga- nhando maior destaque e preocupação perante as recentes divulgações sobre os efeitos da degradação do meio-ambiente. “Produzir sim, mas de forma diferente, sem provocar impactos negativos na so- ciedade. Consumir sim, mas de forma consciente e equilibrada, sem consumir o mundo em que se vive”, defende Anne Louette.

Fica claro que este movimento é liderado pelas empresas exportadoras e pelas multinacionais através do contato direto com as exigências para sobreviver no mercado mundial. A FBDS realizou uma pesquisa para avaliação da susten- tabilidade corporativa, que ouviu cerca de 300 executivos das maiores empre- sas de cinco diferentes setores do Bra- sil. Clarissa Lins conta que os processos estão em estágio inicial na maior parte das empresas. O conceito da sustenta- bilidade não é plenamente entendido e em função disso a gestão ainda não foi adaptada à nova realidade. Os execu- tivos brasileiros são sensíveis ao tema responsabilidade social, mas a maioria ainda confunde ações de sustentabilida-

“Executivos da área financeira da maioria das empresas já começaram a incorporar variáveis não-financeiras aos negócios da companhia. E, na prática, a adoção de práticas de sustentabilidade abre as portas para investidores mais seletivos e financiadores que utilizem essas práticas em suas análises” Clarissa Lins (FBDS)

“No início de 2009 devemos estar com a usina de geração de energia pronta e começaremos a negociar a venda desta energia para consumidores. Vamos transformar os dejetos da população em energia limpa para comercializar, além de não poluir o solo, a água e a atmosfera” Adriana Felipetto (Novagerar)

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de com políticas assistencialistas. Entre- tanto, as empresas mais expostas ao mercado internacional – seja em fun- ção de seus clientes, financiadores ou in- vestidores – tendem a implementar as práticas com mais eficácia. “Ter relacio- namento com o mercado internacional, aliás, é um fator que vai influenciar bas- tante as práticas de sustentabilidade cor- porativa, principalmente entre empresas exportadoras, que têm uma boa parcela da receita vinda do exterior, ou empre- sas que tenham na sua base de acionis- tas investidores estrangeiros, que costu- mam ter políticas mais avançadas de res- ponsabilidade social”, explica.

Fernando Almeida, do Cebds, alerta que o padrão de compreensão a respeito da sustentabilidade está muito aquém do mínimo necessário. Ele lembra que exis- tem exemplos extremamente positivos de ações estratégicas de empresas com visão de futuro. Mas observa que, nas empresas de menor porte, difunde-se o conceito de ecoefiência. “São mu- danças importantíssimas e fundamentais. Mas não o suficiente para reformulação estruturada e articulada do modelo de negócios e do padrão de desenvolvi- mento”, argumenta.

O professor da Fundação Instituto de Administração da Universidade de São Paulo (FIA/USP) e fundador do Ins-

tituto para o Desenvolvimento Sustentá- vel (IDS), Antonio Luís Aulicino, avalia que os executivos adquiriram o hábito, no Brasil, de pensar em curto prazo em razão do período em que havia alta inflação. “Dificilmente, as empresas brasileiras quando elaboram seus pla- nos consideram todas as dimensões do desenvolvimento sustentável ao mesmo tempo”, observa.

De acordo com ele, o hábito é pla- nejar considerando a dimensão eco- nômica e uma reflexão política de maneira simplista, sabendo-se que esta interpretação gerará muitos problemas empresariais que serão detectados anos depois da tomada de decisão, gerando passivos e queda de rentabilidade. Auli- cino lembra que essa situação é mun- dial, com exceção de alguns países como a Holanda, onde o conceito da sustentabilidade está incorporado pelo povo em razão da geografia física do país, principalmente.

Para Anne Louette, a competitivida- de necessária ainda está no estágio ini- cial. Ela lembra que, apesar do avanço metodológico e técnico e do número expressivo de ferramentas, o Brasil está apenas começando uma longa etapa de remodelação de um sistema que prio- rizava apenas os aspectos econômicos. Ela cita a falta de articulação institu-

cional entre os três setores – empre- sas, setor público e sociedade civil – como o principal obstáculo à incorpo- ração dos desafios da sustentabilidade aos objetivos e ações estratégicas das organizações.

Segundo a autora do Compêndio para a Sustentabilidade, o caminho da trans- formação exige estratégia, metodologia, persistência e muita coerência, além do reconhecimento de políticas públicas como fator de universalização de inte- resses coletivos e a coerência dos agen- tes econômicos entrando em consenso. Para Anne, este movimento, no Brasil, é centrado na atuação de empresas. A diretora da Novagerar, Adriana Feli- petto, acredita que este processo, no País, começou tardiamente, e lembrando que algumas regiões lideram esta arran- cada, como Região Sul e São Paulo, ela lamenta uma evolução lenta. “Se pen- sarmos na Alemanha, que está na ponta deste processo, o Brasil tem entre 20 a 30 anos de atraso”, argumenta.

Na análise do desenvolvimento da sustentabilidade no mundo empresa- rial, Jean François, da Accor, defende que, para o sucesso desse engajamento, a exemplaridade dos dirigentes é fun- damental. “Acredito que temos sinais promissores nesse sentido: a difusão de testemunhos de líderes empresa- riais que se envolvem pessoalmente com as boas práticas a favor dessa grande causa é cada vez mais freqüen- te”, observa. Para Fernando Almeida, as empresas devem se posicionar no que chama de “zona-chave”, na qual a empresa está acima das exigências legais e, ao mesmo tempo, mantém a valorização crescen- te de seus ativos tan- gíveis e intangíveis.

Fazendo um retros- pecto desta evo- lução de concei- tos, Raquel Diniz cita ações que ocorreram depois da Segunda Guerra

Se uma empresa desenvolve um produto ou presta um serviço de forma irresponsável social e ambientalmente, será alvo de críticas e campanhas e acabará rejeitada pelo mercado. Ou seja, não sobreviverá no longo prazo Fernando Almeida (Cebds)

Matéria de capa

Um fator importante do processo de inserção de práticas de sustentabilidade na estratégia da empresa

passa pela instrumentalização de suas lideranças e gestores na escolha de ferramentas que os auxiliem

na estruturação planejada de suas ações, no estabelecimento de indicadores de performance, na

aferição de resultados concretos, na prestação de contas e no efetivo diálogo com a sociedade. As

ferramentas são instrumentos de aprendizagem, por meio dos quais é possível integrar as atividades

cotidianas às decisões estratégicas em prol da sustentabilidade do planeta.

Existe, no mundo, um conjunto significativo de ferramentas e cabe a cada empresa eleger aquelas

mais alinhadas às suas crenças e valores, à sua visão e que melhor se alinhem ao seu posicionamento

perante o mercado e a sociedade. O Compêndio para Sustentabilidade - Ferramentas de Gestão de

Responsabilidade Socioambiental: uma Contribuição para o Desenvolvimento Sustentável é a publicação

mais recente e atualizada voltada ao tema. A obra reúne e sistematiza as ferramentas de apoio à gestão

sustentável utilizadas em 33 países.

Tais ferramentas de gestão têm em comum a capacidade de ordenar o tema da responsabilidade

sociambiental (RSA) nas organizações. “Talvez seja esta a principal motivação para quem procura um

modelo de gestão: integrar as práticas de RSA de forma natural, respeitando os diferentes estágios

de evolução de cada organização, desmistificando seus aspectos abstratos e tornando-as, assim, uma

atividade cotidiana”, afirma Anne Louette, autora do Compêndio.

Serviço: O Compêndio para a Sustentabilidade tem sua obra completa disponível em http://www.institutoatkwhh.org.br/compendio/?q=node/8

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Mundial, com a criação de alguns prin- cípios internacionais, como princípios da OCDE (Organização para Coope- ração para Desenvolvimento Econômi- co) e declarações da OIT (Organiza- ção Internacional do Trabalho). Além disso, na década de 70 a 80, houve a redemocratização, após um período de ditadura, em que as empresas ganha- ram destaque, “não só pelo tamanho de operação, mas pelo poder econô- mico das empresas. Sabemos que das 100 maiores economias do mundo, cerca de 30 são empresas”, afirma. Depois disso, aconteceram movimen- tos de direitos aos consumidores, de ciência do impacto de transformação e movimentos ambientais. Raquel enu- mera estes fatos como pilares do pro-

cesso de mudanças de paradigmas que levaram até o conceito de sustentabi- lidade. Hoje, ela vê novas configura- ções de parcerias envolvendo empre- sas, ONGs, cooperativas, comunidade, governo. “São novas perspectivas de parceria em busca de um desenvolvi- mento”, reflete. Entre evoluções, Car- los Nomoto, do ABN, lembra que grandes universidades já oferecem cur- sos de especialização específicos nes- tes temas, “o que mostra a existência de busca por este conhecimento, que é fundamental para a perpetuidade das empresas”, segundo ele. “É um movi- mento onde todos ganham, em que o elemento principal é o capital social”, declara Raquel Diniz.

Contudo, Renata Brito, do GVces,

afi rma que nenhuma empresa pode se dizer sustentável e talvez nunca possa. Não se trata de uma opinião pessimista. Ela explica que, cientifi camente, é difícil defi nir o que é sustentável. “Todos os dias estamos mudando esta realidade. Sus- tentabilidade pretende ter um equilíbrio, mas um equilíbrio dinâmico porque está em constante movimento”, diz. “O fato é que nós estamos engatinhando neste pro- cesso”, lamenta. Entre o que são opiniões e o que já se tornou ação, está a inversão do processo de destruição em movimento de aprendizado constante e a recriação de um mundo, por onde empresas transi- tam com a responsabilidade de atingir as expectativas de uma sociedade formada por consumidores interessados em man- ter a própria sobrevivência.

Ferramentas a serviço do futuro

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