O TENENTISMO CHEGA AO SUL DO PAÍS: O OESTE PARANAENSE NO CONTEXTO DA FORMAÇÃO DA COLUNA PRESTES, Projetos de História Política. Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO)
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O TENENTISMO CHEGA AO SUL DO PAÍS: O OESTE PARANAENSE NO CONTEXTO DA FORMAÇÃO DA COLUNA PRESTES, Projetos de História Política. Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO)

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JOVENS TURCOS E A REVISTA “A DEFESA NACIONAL”: UMA ANÁLISE DA DÉCADA DE 1920

U N I V E R S I D A D E F E D E R A L D O E S T A D O D O R I O D E J A N E I R O CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS E SOCIAIS – CCH

LICENCIATURA EM HISTÓRIA

Monografia

O TENENTISMO CHEGA AO SUL DO PAÍS: O OESTE PARANAENSE

NO CONTEXTO DA FORMAÇÃO DA COLUNA PRESTES

Aluno(a): Ricardo Daniel da Silva Gomes

Matrícula: 10116090092

Polo: Resende/RJ

2016

U N I V E R S I D A D E F E D E R A L D O E S T A D O D O R I O D E J A N E I R O CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS E SOCIAIS – CCH

LICENCIATURA EM HISTÓRIA

Monografia

O TENENTISMO CHEGA AO SUL DO PAÍS: O OESTE PARANAENSE

NO CONTEXTO DA FORMAÇÃO DA COLUNA PRESTES

Ricardo Daniel da Silva Gomes

Monografia submetida ao corpo docente da Escola de História da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro – UNIRIO, como parte dos requisitos necessários à obtenção do grau de Licenciado em História, sob orientação do Prof. Me. Rafael Roesler.

Rio de Janeiro

2016

1

O TENENTISMO CHEGA AO SUL DO PAÍS: O OESTE PARANAENSE NO CONTEXTO DA FORMAÇÃO DA COLUNA PRESTES

Ricardo Daniel da Silva Gomes

Aprovado por:

Prof. Me. Rafael Roesler - Orientador (Mestre / UNIRIO)

Prof. ______________________ (Titulação/Instituição)

Rio de Janeiro 2016

A Deus, que é digno de toda a honra, glória e louvor e a minha família por nunca duvidar

da concretização deste sonho.

2

AGRADECIMENTOS

Primeiramente, agradeço ao Senhor e salvador de minha vida: Jesus, o Cristo, que

pela sua infinita misericórdia concedeu esta benção tão especial, que se materializará em

breve, com a sonhada graduação em um curso superior depois de tantas idas e vindas em

minha vida.

Um agradecimento especial a minha amada Kelly, esposa valorosa, amiga e

companheira de todas as horas, por tantas manifestações de apoio e por toda a compreensão e

abnegação vividas ao longo de toda esta caminhada acadêmica, culminando na elaboração do

presente trabalho. “Vidinha”, sou grato a Deus pela sua existência e por todo o seu amor.

A minha mãe Rosangela, pelo exemplo de determinação sempre dado e por lutar

pela minha formação, independentemente do tempo e da situação, incentivando e prestando

todo o suporte necessário a conclusão de minha graduação.

A minha amada filha Isabelle Victoria, a minha irmã Andréa e o meu sobrinho

Renan pelo carinho e apoio incondicional, se constituindo em instrumentos motivadores e

estimuladores para o prosseguimento perseverante em meus estudos.

Aos sogros Bispo Antonio Marcos de Oliveira e Pastora Ana Maria Motta de

Oliveira pelo carinho, esforço e hospitalidade, tão comuns a uma família cristã, que soube me

receber como um verdadeiro filho, zelando e aconselhando em todos os momentos desta

trajetória.

Ao Pastor Felipe Sá, sua digníssima esposa Irmã Ione Sá e seus queridos filhos

Thiago, Júlio e Mateus, pelas primeiras orações e palavras de convencimento, confiança e fé

direcionadas a mim e a minhas ações, mostrando que vale a pena confiar na Palavra de Deus e

em seus efeitos.

Ao Prof. Me. (e Doutorando) Rafael Roesler, pela amizade, consideração e pelos

momentos dedicados a transmitir seus caros conhecimentos em prol deste trabalho de

conclusão de curso, bem como de minha formação acadêmica e militar, mostrando que

verdadeiros líderes não se distanciam de seus subordinados. Muito Obrigado Coronel Roesler,

Brasil acima de tudo!

Ao Prof. Me. Edson Gavazzoni, grande exemplo de profissional, ecoeducador e

historiador, pela sua paciência, amizade e compreensão. Certamente, procurarei na carreira

que ora vislumbro, seguir todos os conselhos que o senhor sempre de forma cortez (que aliás

lhe é peculiar) me transmitiu, tendo sempre como guia os seus preciosos exemplos dentro e

fora da sala de aula do “seu” Colégio Estadual Pe. Carmelo Perrone, em Cascavel/PR.

3

A Professora e amiga Helena Botelho, tutora e conselheira, desde os tempos da

Disciplina de Estágio Supervisionado I, II, III e IV, pelas dicas e incentivos já nos primeiros

passos da faculdade, mostrando que, mais importante que um diploma de graduação em

Licenciatura, estão os valores como: caráter, ética, responsabilidade, ajuda mútua, dentre

outros tão deficitários nesta sociedade atual. Obrigado pelo seu trabalho e dedicação, que

servirão para mim como referência de carinho, educação e, principalmente, respeito com

todos os alunos.

A Coordenação do Curso de História da UNIRIO e demais tutores do Pólo

UAB/Cederj-UNIRIO, de Piraí/RJ, onde iniciei a graduação e posteriormente os professores

de Resende/RJ, pelas demonstrações costumeiras de profissionalismo e cordialidade, em

especial a Professora e ex-Coordenadora Mariana Amorim, que se transformou em um

exemplo de determinação pessoal, além de uma boa amiga que pretendo conservar para todo o

meu existir.

A direção do Pólo UAB/Cederj de Resende/RJ, na figura da renomada Professora

Alice Brandão, exemplo de força, perseverança, educação e amizade, dentre tantas qualidades

evidenciadas ao longo destes mais de três anos de convivência, bem como a Sra Regina

Carapeços, grande parceira e exemplo de excelência e competência na Secretaria do pólo.

Meu muito obrigado pela compreensão, paciência e cordialidade despendidos em todos os

contatos que travamos, saibam que sempre ficará guardado em minhas memórias todos os

momentos de alegria e amizade que passamos juntos.

Aos demais profissionais dos Pólos UAB/Cederj de Piraí/RJ e Resende/RJ, por

propiciarem sempre a todos os acadêmicos, excelentes condições de estudo e prática de

ensino, dedicando inúmeros de seus finais de semana em prejuízo do convívio familiar e de

lazer, tendo em vista a aplicação das diversas atividades e avaliações dos cursos. Saibam que

mesmo anonimamente, o trabalho de todos vocês serão recompensados na formação de uma

nova sociedade pautada na educação e no exemplo demonstrados por todos.

Ao Comando do 15º Batalhão Logístico do Exército Brasileiro, sediado em

Cascavel/PR, representado pelo Sr Coronel Mártin Schmitt da Silva, pelo Sr Capitão

Henrique Fernandes Castro e pelo Sr Tenente Allace dos Santos, pela amizade, confiabilidade

e respeito, além das demostrações de estímulo e apreço por ocasião das diversas viagens

realizadas em prol da conclusão deste trabalho e de minha graduação.

A todos os colegas da Graduação, “guerreiros” nestes quatro anos de “ADs”,

“APs” e seminários incontáveis, nosso vínculo será para sempre! Obrigado pelo momentos de

alegria e descontração nas horas mais tensas do nosso curso.

4

RESUMO

O presente trabalho tem por objetivo realizar uma análise contextualizada da

atuação do movimento tenentista na primeira metade da década de vinte do século passado,

referenciando especialmente, a área do Oeste paranaense em sua fronteira do Iguaçu, onde se

forjara o marco inicial da formação da Coluna Costa-Prestes que percorrera o país por mais de

10 (dez) estados federativos, perfazendo a histórica quilometragem de mais de vinte e sete mil

quilômetros, nos mais de dois ano e meio (1925-1927) de marcha pelo interior do Brasil de

Norte a Sul em ida e volta, começando em terras fronteiriças do Paraná e terminando com a

saída pelo Mato Grosso (divisa com a Bolívia), onde o movimento se desfizera, entrando

definitivamente para a História brasileira como o maior levante revoltoso de todos os tempos,

quer pelo tempo, pelo efetivo envolvido, por sua abrangência e, principalmente, pelas

consequências advindas do movimento dos tenentes em relação a crise do sistema oligárquico

no período conhecido pela historiografia como a Primeira República ou “República Velha”

(1889-1930).

Palavras-chave: Primeira República; Tenentismo; Formação da Coluna Prestes.

ABSTRACT

This study aims to carry out a contextualized analysis of the lieutenants'

movement performance in the first half of the twenties of the last century, referring especially

the area of Paraná West on its border do Iguaçu, where he forged the landmark training

Column Costa-Prestes who had traveled the country for more than ten (10) federal states,

making the historical mileage over twenty-seven thousand kilometers in more than two and a

half years (1925-1927) march by Northern Brazil interior the South in return, starting in the

borderlands of Paraná and ending with the output by Mato Grosso (border with Bolivia),

where the movement desfizera definitely going to Brazilian history as the greatest rebel

uprising of all time, either by time, involved effective, in scope and mainly the consequences

resulting from the movement of lieutenants against the oligarchic system crisis in the period

known to history as the First Republic or "Old Republic" (1889-1930).

Keywords: First Republic; Tenentismo; Creation of the Prestes Column.

5

LISTA DE ILUSTRAÇÕES

Figura 1 Tenentes reunidos na EMR 10 Figura 2 Os 18 do Forte 21 Figura 3 Barricada no Levante Paulista de 1924 23 Figura 4 Flagrante da Comuna de Manaus 27 Figura 5 Flagrante do Levante de Sergipe 29 Figura 6 Tropas Legalistas chegando em São Paulo, 1924 30 Figura 7 Líderes Tenentistas 31 Figura 8 Capitão Luiz Carlos Prestes 32 Figura 9 Luiz Carlos Prestes em 1990. 35 Figura 10 Revoltosos na chegado no Paraná 36 Figura 11 Telégrafo de Catanduvas-PR 43 Figura 12 Tropas Legalistas posicionadas em Catanduvas-PR 45 Figura 13 Memorial à Coluna Prestes, em Santa Helena-PR 46

6

LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS

EMR Escola Militar do Realengo IHGB Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro

FGV/CPDOC Fundação Getúlio Vargas / Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil ACISOS Ações cívico-sociais UNESP Universidade Estadual Paulista

"Júlio de Mesquita Filho" UFRJ Universidade Federal do Rio de Janeiro Gen General Cel Coronel Maj Major Cap Capitão Ten Tenente Sgt Sargento

7

SUMÁRIO

INTRODUÇÃO...........................................................................................................….........9 1. O Movimento dos Tenentes na historiografia brasileira e a liderança de Prestes....….......14 2. Os Tenentes chegam ao Oeste do Paraná: aspectos de uma História Local e a

formação da Coluna Prestes..........................................................................................….......36 CONCLUSÃO.............................................................................................................….......49 REFERÊNCIAS......................................................................................................... ….......54

8

INTRODUÇÃO

A “crise da República Velha” teve uma solução parcial e contraditória: reformas e remanejamentos políticos limitados, soluções contraditórias e sempre de cúpula, cuja expressão foi a Revolução de 30. As transformações posteriores ao movimento foram lentas, parciais e incompletas, porque sempre encaminhadas pelos grupos dominantes. Marly de Almeida Alves Vianna, 2007, p. 28.

A partir do início da década de 1920, se multiplicaram os movimentos de

contestação da situação vigente. Essas manifestações refletiam o grau de descontentamento de

setores da população brasileira com os rumos da República. As suas expressões mais

conhecidas foram: o movimento Tenentista, a Reação Republicana, a Semana de Arte

Moderna, a “Revolução de 1924”, a Coluna Prestes e a fundação do Partido Comunista do

Brasil. (FAGUNDES, 2010).

Essa ampla rede de compromissos pode ser configurada “como resultado da

superposição de formas desenvolvidas do regime representativo a uma estrutura econômica e

social inadequada” (LEAL, 1986). Sendo assim, este vasto conjunto de possibilidades nos

permite uma análise multifacetada de fontes ao se buscar os reais vestígios deixados nesta

parte importante de nossa história.

Para Frank McCann, os anos 1920 foram importantes para a história do Brasil

“por terem sido o cadinho onde o novo e o velho Brasil lutaram para moldar o futuro”.

Segundo o autor, foi nessa década que as mudanças que vinham acontecendo no País desde

1889 tornaram-se mais claras. (McCANN, 2009: p. 291).

Neste contexto efervescente, insere-se a proposta do presente trabalho,

obviamente longe de anacronismos e de vícios teleológicos, tendo a meta de buscar análises

qualitativas acerca de reabrir esse capítulo da história brasileira, uma vez que vivenciamos

atualmente “novos ventos” de mudança no panorama político, econômico e social, onde parte

da sociedade reitera uma atuação mais definitiva das Forças Armadas, sobretudo no viés da

Segurança Pública e de soberania nas fronteiras, bem como no viés social, através dos

ACISOS (realizados pela Marinha, Exército e Força Aérea) em todo o território nacional e

inadvertidamente, até mesmo, cobrando uma postura política da classe militar face a atual

conjuntura de instabilidade e incertezas, que se instaurou em todos os segmentos políticos

(municipal, estadual e federal) do país.

9

Desta feita, neste recorte historiográfico de quase cem anos, será abordado a

atuação de um movimento militar, que remonta ao início da era republicana brasileira que

com suas propostas ora politizadas, ora militarizadas, conquistaram um apêndice na

historiografia brasileira (quer local, militar ou da história da república) no que tange a se

transformar em um fator contestador que viria a desestabilizar sobremaneira a já titubeante

estrutura oligárquica brasileira, nos moldes dos oitocentos.

Interessante destacar que a temática do tenentismo, e em especial, a dos levantes

de 1924 e da Coluna Prestes ou Costa-Prestes, ficaram de certa forma “adormecidos” na

historiografia brasileira, o próprio Luiz Carlos Prestes em entrevista ao jornalista Florestan

Fernandes Júnior, filho do grande Florestan Fernandes, revelara que: “por mais de cinquenta

anos, desde o fim da marcha revolucionária da coluna, que ninguém abordava o assunto em

uma universidade federal brasileira e nem realizava-se pesquisas sobre a marcha”. (Prestes,

1986)

Donde concluí-se que, a abordagem deste trabalho é relativamente recente se

considerarmos o tempo da entrevista, uma vez que, somente depois da abertura política que as

pesquisas acadêmicas se intensificaram acerca desta grande epopeia militar pelo interior do

país. Obviamente que os rumos tomados na história do movimento e dos seus personagens,

onde o próprio Luiz Carlos Prestes se tornaria um importante líder do Comunismo no Brasil,

rompendo com seus companheiros de Exército e com a ideologia vigente no país,

dificultariam o caráter investigativo sobre aquele tempo e suas nuances, onde sem dúvida o

tenentismo se inseria como um movimento rebelde e contestador.

Figura 1. Tenentes reunidos na EMR

Fonte: IHGB

10

Faz-se mister desenvolver a hipótese ensinada por Fagundes (2010) que

compreende a existência de duas fases do movimento Tenentista, tendo a primeira onda se

manifestado durante as jornadas de 15 de novembro de 1889. Esse ciclo inicial de

intervenções militares perdurou até o fechamento da Escola Militar da Praia Vermelha em

1904 e foi caracterizada pela incapacidade de unificação das ações dos militares. A segunda

fase do movimento tenentista teve como estopim o episódio das chamadas “cartas falsas”

atribuídas a Artur Bernardes, presidente eleito na época. Os brios da tropa foram atingidos e a

tática utilizada em 1922 foi a intervenção militar com o objetivo de restabelecer o moral da

corporação e a libertação de oficiais presos por ocasião da repressão governista ao fato das

famosas “cartas falsas”.

Entende-se então a natureza inquietante do movimento tenentista, onde as suas

demandas como por exemplo: reforma da Constituição; limitação da autonomia local;

moralização dos costumes políticos; unificação da justiça e do ensino; unificação do regime

eleitoral e do fisco (FERREIRA, 2005) se imbricavam com o viés de inconformismo com a

situação precária das Forças Armadas somada ao grave quadro social da maioria população

levou os tenentes a responsabilizarem os políticos civis pela situação caótica do país.

(FAUSTO, 1986).

Cabe ressaltar que a organização hierárquica do Exército Brasileiro no período,

fixava limites de interstícios bem longos para permanência nos primeiros postos da carreira se

comparado a Exércitos mais modernizados de outros países. Para José Murilo de Carvalho,

adicionado este fator às frequentes revoltas dos alunos da Escola da Praia Vermelha no Rio de

Janeiro, com a anistia de um ou dois anos depois, fazia com que as tropas revoltosas voltassem, o

que contribuía para saturação dos primeiros degraus da hierarquia, primeiros e segundos tenentes,

onde, conforme o autor nos mostra em gráfico em seu texto baseado nos Almanaques do Exército,

concentraram até 1929 mais de 60% da categoria (CARVALHO, 2006: p. 224-225). Estes fatores,

que contribuíam para a insatisfação profissional, atrelados às origens sociais e o treinamento

desses oficiais, introduziram motivações externas para seu envolvimento em lutas políticas de

caráter contestatório (CARVALHO, 2006: p. 226).

Sem deixar de incluir a indignação com os baixos soldos, a péssima estrutura para

formação, a falta de oportunidade de ascensão, a incompetência dos oficias superiores

somados às denúncias de corrupção dos governos civis se configuraram nos fatos que

estimularam os tenentes a assumirem uma postura de oposição às oligarquias civis.

Para Edmundo Campos Coelho, as principais reivindicações do movimento

tenentista tiveram como base as questões do cotidiano da caserna, aliados entretanto, a

11

mudança que ocorria nos quartéis, conforme mais uma vez ensinado por José Murilo de

Carvalho, apresentando que “Se durante muito tempo o Exército foi encarado como um “antro

de desordeiros e bandidos” essa situação sofreu uma substancial modificação a partir de uma

série de iniciativas que pretendiam qualificar, equipar e formar as Forças Armadas brasileiras”

(COELHO, p. 99).

Daí se remonta em grande importância os chamados Jovens Turcos (estágio de

oficiais brasileiros na Alemanha) e a missão Francesa no Brasil, além é claro, da

implementação do recrutamento por sorteio universal, acarretando um tom mais corporativista

ao Exército.

No esteio deste raciocínio acrescenta-se o estudo de Edmundo Coelho (2000),

acerca da trajetória dos militares no Brasil, sistematizando em três fases distintas, a saber:

Hibernação (Império) – relacionada à política de exclusão das lideranças militares por parte da elite civil; Ativação (período desde o governo do marechal Floriano Peixoto até 1930) – corresponde à política de “cooptação” dos oficiais militares por parte da elite civil que foi compelida a ajustar-se às demandas de um Exército cada vez mais consciente de suas possibilidades políticas; e por último a fase Institucional (pós-1930) – corresponde à Política Laudatória (perda de autonomia por parte da elite civil e aquisição de poder por parte do Exército); o processo político na sociedade brasileira passa a ser mais dependente de um centro específico de decisão, o Exército. Teria se evidenciado, a partir de então, a forma pela qual os civis reconheciam e ajustavam-se à ascendência do Exército na política. (Apud Corrêa, p. 11)

Esse ativismo da qual fala Edmundo Coelho, se espelha nos diversos levantes

tenentistas, ocorridos a partir do efervescente ano de 1922, em diversas cidades da Velha

República como Rio de Janeiro, São Paulo, Campo Grande, Manaus, São Borja, Catanduvas,

Foz do Iguaçu, saindo das mais modernas e intelectuais até os mais formosos rincões

nordestinos e nortistas, realizando uma transformação no ideário inicial dos tenentes.

Esta dicotomia que, de certa maneira, move a pesquisa em tela. Pois busca-se

mergulhar neste universo de aventura e ideologia, indignação e luta, tão presentes até hoje no

cenário político-social de nosso país.

Assim, acredita-se que este trabalho se torna atual e válido, enquanto visa

rememorar um capítulo na chamada “revolução esquecida” de 1924, revisitando o passado de

uma região inteira que ainda hoje ocupa uma posição estratégica para os interesses nacionais,

como no caso da fronteiriça Foz do Iguaçu, com o seu potencial turístico e de recursos

hídricos, minerais e ambientais (por exemplo, com a construção da usina hidrelétrica de

12

Itaipu), além da sociedade de Catanduvas, que teve o eixo de sua colonização transformada

após a passagem dos “tenentes” por suas terras, bem como de todos os “oestinos”1 .

Esse locus da história local me foi estimulado ainda nas aulas do 3º período do

curso na disciplina de História da Região onde me foi apresentado os conceitos de micro-

história2 e de localismo, lembrando-me dos conhecimentos de Gellner3:

“um homem deve ter uma nacionalidade, assim como deve ter um nariz e duas orelhas”. A nação foi, durante os últimos duzentos anos, um elemento central em nossos sistemas de representação cultural. A ideia de ser brasileiro esteve arraigado (e ainda está) nas nossas percepções do mundo, acima de outros sistemas de representação cultural como, por exemplo, a religião, a cor ou o gênero. Nesses termos, a nação forja uma estrutura na qual os indivíduos sentem- se identificados, “costurados”. As identidades nacionais estabilizam “tanto os sujeitos quanto os mundos culturais que eles habitam, tornando ambos reciprocamente mais unificados e predizíveis”. (…) uma cultura nacional é um discurso, um modo de construir sentidos que influencia e organiza tanto nossas ações quanto a concepção que temos de nós mesmos. Esses sentidos são construídos, em grande parte, pelas imagens e símbolos que são socializados, através de inúmeros mecanismos de produção e difusão, estatais ou não, através das mais variadas memórias e histórias; (Gellner, p.38)

Neste intuito, ao me ver residindo em uma nova cidade, na verdade por motivos

profissionais, vivi em duas localidades completamente diferentes nos últimos dois anos, uma

no extremo Norte (Tefé/AM) e agora vivendo em Cascavel/PR, na fronteira Sudoeste do país,

fui instigado a recordar a saga tenentista no início do século passado e exercitar este viés

investigador e desafiante da micro-história, a fim de obter um paralelo com a historiografia

corrente e tão difundida nos meios acadêmicos.

Assim me propus a este desafio, me propondo de ante mão a me libertar dos pré

julgamentos e dos “achismos”, pesquisando em fontes locais confiáveis visitando in loco, por

exemplo a cidade e o Memorial de Catanduvas-PR e a bela cidade de Foz do Iguaçu, em

busca dos vestígios e marcas deixados por aquele passado revolucionário. Examinando as

“pegadas” dos jovens tenentes dos levantes de 1924. 1 Tratativa dos sertanejos em referência aos nascidos ou viventes na região do Oeste do Paraná, sendo o termo utilizado até hoje entre os mais velhos e pioneiros da região. 2 Conceito imputado aos historiadores italianos Carlo Ginzburg e Giovanni Levi - fundadores da revista intitulada Quaderne Storici, e diretores da coleção Microstorie, publicada pela Editora Einaudi, na década de oitenta. Ver Jacques Revel. “Microanálise e construção do social”. In Jogos de escalas. A experiência da microanálise. Rio de Janeiro, Editora da Fundação Getúlio Vargas, 1988, pp.15 a 38; e Giovanni Levi. “Sobre a micro-história”. In Peter Burke(org). A escrita da história. Novas perspectivas. São Paulo, Editora da UNESP, 1992. pp. 133 a 161. 3 Ernest Gellner. Nations and nationalism. Oxford: Blackwell, 1983, p. 6. e Stuart Hall. A identidade cultural na pós-modernidade. 2ed. Rio de Janeiro: DP&A, 1998, p. 12.

13

1 - O Movimento dos Tenentes na historiografia brasileira e a liderança de Prestes

Os estudiosos raramente examinam os soldados sob a rubrica de trabalhadores (...). Os soldados são tradicionalmente retratados pela história social como os partidários menores do Estado que oprimem vítimas mais corriqueiras da coerção estatal (...). No Brasil muitos soldados também foram "vítimas" diretas da coerção estatal. Antipatias políticas e teóricas levaram estudiosos a retratar os soldados como fantoches do Estado ou da classe capitalista. Embora "agentes" do Estado, os soldados mantiveram seu agency ou o seu poder, dentro dos limites de sua condição, de escolher a cooperar com sua instituição ou não (BEATTIE, 2009, p. 196).

Neste primeiro capítulo será abordado inicialmente, o pensamento de vários

estudiosos que se debruçaram na temática do Tenentismo4, discorrendo sobre o perfil

multifacetado do movimento e a sua relevância na historiografia para o país.

A seguir, será abordado os fatos historiográficos que marcaram o movimento dos

tenentes, sua abrangência e consequências, sobretudo sob a ótica política, social e militar, uma

vez que tais ações forjaram as características da baixa oficialidade da Escola Militar do

Realengo, extravasados, por exemplo, na revolta dos 18 do Forte e no levante paulista de

1924 que serviriam de esteio nas lutas travadas no Oeste Paranaense e na formação da Coluna

Prestes.

Finalmente, encerrando o presente capítulo, será analisada a figura emblemática

de Luiz Carlos Prestes, buscando compreender através de relatos biográficos e depoimentos

da época, a ascensão de Prestes na liderança do movimento e a correspondência entre a sua

atuação e a posterior formação da coluna de marcha que se iniciaria em terras do Oeste do

Estado do Paraná, na região do Iguaçu, perfazendo mais de 25.000 (vinte e cinco mil)

quilômetros pelo interior do Brasil em mais de dois anos, caracterizando Prestes como o

“Cavaleiro da Esperança5”.

No momento introdutório deste trabalho, foram apresentados e analisados alguns

dos fatores elencados pela historiografia brasileira que desembocariam na denominada “crise

da república velha”, para alguns, ou “crise da primeira república”, para tantos outros.

4 Conforme aponta o Professor Doutor Pedro Ernesto Fagundes, o termo tenentismo só adquiriu o significado que conhecemos atualmente a partir de 1933, com a publicação da obra O Sentido do Tenentismo, escrita por Virgilio Santa Rosa, trabalho pioneiro na interpretação desse movimento. 5 A alcunha de “Cavaleiro da Esperança”, foi materializada por Jorge Amado, na obra O Cavaleiro da Esperança: vida de Luís Carlos Prestes. São Paulo: Companhia das Letras, 29ª Ed., 2011.

14

Outrossim, e inequivocamente, a História do Brasil contempla o movimento tenentista como

um dos vieses articuladores para a derrocada das oligarquias dominantes, outrora instituídas,

desde o final do séc XIX advindas desde a época da proclamação republicana no Estado

brasileiro, culminando com a vitoriosa revolução varguista de 1930, apoiada pelos “velhos

tenentes”.

Neste entendimento, ao nos debruçarmos sobre a análise historiográfica sobre o

Tenentismo, percebemos sua complexidade e sua esfera heterogênea. Diversos eruditos

conferem amplos aspectos ao movimento dos tenentes, sempre seguindo entretanto a linha de

um movimento que surgira da conjuntura de declínio e desgaste que se encontrava a

denominada “Primeira República”, tendo sua derrocada com a revolução de Novembro de

1930 e a ascensão ao poder do gaúcho Getúlio Dornelles Vargas, sob o apoio majoritário dos

“tenentes” dos anos 20, inaugurando assim, um novo cenário na história republicana

brasileira.

O historiador Nilson Pereira cita o trabalho de Mário Cléber Lanna Júnior, que

mostra em sua publicação “O Brasil Republicano”, as três principais correntes de

pensamento historiográfico acerca do movimento tenentista da década de 20, do século

passado. Assim temos, em linha gerais:

A primeira corrente historiográfica, visualiza o Tenentismo como uma expressão

da classe média (SANTA ROSA, 1976) onde o Exército seria o representante das armas desta

camada social mais popular, ligando posteriormente a figura de Getúlio Vargas aos tenentes

(principalmente ligando-se a baixa oficialidade: Tenentes e demais subalternos). Tal corrente

ganhou força com os trabalhos de Virgílio Santa Rosa, seu principal defensor.

Já a segunda visão, desenvolvida nas décadas de 60 e 70 do século passado, por

historiadores liderados por Maria do Carmo Campelo de Souza (1968) e Bóris Fausto (1970),

além, nos idos de 1970, de José Murilo de Carvalho e Edmundo Coelho, que verificavam em

seus trabalhos que o Tenentismo poderia ser visto como uma expressão de descontentamento

do próprio exército (baixa oficialidade) frente ao desprestígio que as Forças Armadas sofriam

junto ao governo brasileiro (CARVALHO, 1985).

A terceira corrente historiográfica, advinda dos anos 80 até os nossos dias, foi

desenvolvida essencialmente pela historiadora Anita Leocádia Prestes, filha do próprio

Comandante Prestes, que exprime em seus estudos o movimento tenentista como “uma caixa

de ressonância” (PRESTES, 1999), fomentando o movimento dos tenentes como uma voz que

representava os anseios dos menos favorecidos, a saber: a baixa oficialidade, nos quartéis; e a

pequena burguesia popular, nas ruas.

15

Outra contribuição pertinente é a da Professora Emérita da UFRJ, Maria Yedda

Linhares que ensina:

A historiografia contemporânea sobre o tenentismo divide-se em torno de três posições. Para a maioria dos estudos é a determinação classista do movimento dos tenentes a mais acentuada, sendo-lhes atribuída a condição de representantes ou porta-vozes dos setores médios, inconformados com sua exclusão do jogo político e, supostamente, aliados dos segmentos industrialistas (posição de Virgílio Santa Rosa, por exemplo). Já outros analistas apontam ter sido, justamente, a especial inserção do grupo no aparelho de Estado – i.e., sua dimensão funcional – que lhe propiciou refletir, no conjunto, a crise do regime e do sistema de dominação (como Bóris Fausto, por exemplo). Finalmente uma terceira posição prefere conciliar ambas as dimensões – classista e funcional – do movimento na avaliação de seu significado e desdobramento. (LINHARES; 2000, p. 321)

Cabe-nos, neste momento, a atenção mais aprofundada a alguns destes estudiosos

sobre a temática do Tenentismo, iniciando obviamente com o precursor deste debate

historiográfico, o Professor Virgílio Santa Rosa, através de sua consagrada obra “O sentido

do Tenentismo” que fundamenta primordialmente a ideia de que as revoltas tenentistas foram

resultado do pertencimento dos militares às classes médias urbanas se baseando, neste

contexto, que a história republicana do Brasil nos idos da última década dos oitocentos e nas

primeiras três décadas dos novecentos se forja concomitantemente com a história da ascensão

da burguesia no País. Assim, os militares da baixa oficialidade teriam se transformado em

legítimos representantes das classes médias urbanas, assumindo uma posição de destaque e

sinalização de uma referência contestatória as intenções governistas centrais.

Na esteira deste raciocínio, a historiadora Andreza Santos Cruz Maynard, ao

escrever sobre o levante sergipano de 1924, trava contato com as ideias de Santa Rosa,

contextualizando que:

A necessidade de derrubar a oligarquia uniu políticos oposicionistas e tenentes, e desencadeou a série de conspirações no período de 1922 a 1930. O autor atribui o fracasso do tenentismo de 1922, 1924 e 1926 à inércia das massas rurais que contrastavam com o entusiasmo da cidade. Os tenentes eram oriundos das classes médias, levados ao poder só podiam contar com as multidões urbanas. Nada deteria a ascensão da burguesia e só o tenentismo podia acelerar as aspirações das classes médias. Sendo assim, a hipótese militarista está descartada. Os militares tiveram que intervir na política nacional, mas depois disso deveriam voltar ao quartel, pois só deveriam aparecer quando necessário. O autor não fala em indivíduos, mas em grupos representativos como classes médias urbanas, oligarquia, massas rurais, estados do Sul, estados do Norte. (MAYNARD, 2008).

16

Interessante notar que, os tenentes seriam legítimos representantes dos anseios e

perspectivas da classe média urbana brasileira, que se encontrava completamente à margem

do sistema político das oligarquias. Portanto, a falta de espaços e participação na vida política

nacional foi o combustível principal que incentivou o início dos atritos. Pela sua posição de

prestígio e destaque no conjunto da sociedade e, principalmente, pela ausência de outra

estrutura política com igual capacidade de organização e mobilização, naquele momento, os

tenentes acabaram assumindo a dianteira das manifestações de protesto contra as elites

políticas. (FAGUNDES, 2010) .

Neste raciocínio também repousa o entendimento de Nelson Werneck Sodré, uma

vez que o mesmo, defende que os levantes tenentistas seriam o primeiro degrau para uma

escalada revolucionária da burguesia sem representatividade no cenário da república

brasileira, cabendo aos militares esta atuação, tendo em vista o seu papel expressivo em todos

os capítulos da História do Brasil até aqueles momentos. Exatamente por isso, o grupo estava

apto a promover a revolução burguesa no país e a oposição às forças oligárquicas.

Os objetivos tenentistas eram modestos e faziam parte da “missão purificadora”

em que os militares estavam. As motivações dos militares em 1922 consistia em defender a

dignidade militar dos ataques de Epitácio Pessoa. Já em 1924, os militares pretendiam

moralizar o regime republicano. Sodré enxerga o tenentismo no Brasil como um fenômeno

levado à diante pela pequena burguesia. O autor menciona três fases pelas quais passou o

tenentismo. A primeira, de 1922 a 1927, teria sido marcada pela pureza e distanciamento das

forças políticas tradicionais. Nesse período, o movimento adquire dimensão nacional. Já na

segunda, de 1927 a 1930, o tenentismo aceita alianças com forças políticas civis. O momento

é caracterizado pela perda da pureza, uma vez que os militares abandonam seu isolamento. Na

última fase, a partir de 1930, o movimento é marcado pelo antagonismo. Sodré vê a revolução

de 1930 como um dos, ou, o último episódio do tenentismo e afirma que os militares tinham

ojeriza à política. Assim, Nelson Werneck Sodré acredita que durante a Primeira República, o

Exército esteve preocupado com os anseios do povo e contrário ao atraso do Império.

Maynard (2008) contribui ainda, citando o historiador e adepto da hipótese

institucional, Boris Fausto ensinando que de acordo com o autor, o tenentismo da década de

1920 teria características predominantemente militares e já traria o embrião de tendências

reformistas autoritárias. Os tenentes se identificavam como responsáveis pela “salvação

nacional”. O movimento de 1922 teria sido marcado por um isolamento e desconfiança para

com os civis. Já em 1924 houve uma persistência das características do movimento de 1920,

mas o episódio ganha maior amplitude. Para Boris Fausto a coluna Prestes foi a façanha mais

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arrojada do tenentismo. No entanto, o autor acredita que a utilização da violência por parte

dos tenentes afastou a oligarquia dissidente. Com relação à simpatia popular, reconhece que

foi inegável, embora a convocação de reservistas em São Paulo tenha sido um fracasso. A

“missão regeneradora” dessa primeira fase, antes de 1930, é marcada pelo ataque às

oligarquias, é centralizado, elitista e vagamente nacionalista. O autor reconhece a necessidade

de atentar para a origem humilde dos tenentes no momento de analisar o tenentismo. Para

Boris Fausto, o levante de 1924 não foi uma revolução das classes médias, mas é preciso

atentar para sua intervenção na revolução de 1930.

O que fica claro até aqui é a problematização sobre qual o viés que o movimento

dos tenentes se atentariam naqueles tempos de primeira república? Ficando perene o

entendimento que ora a oposição dos oficiais se daria na ordem militarista (visão classista) ou

se absorveria a ótica política e de movimento emancipador, sob a égide do funcionalismo.

A cientista política e professora Fabrícia Carla Viviani em sua dissertação de

Mestrado pela Universidade Federal de São Carlos/SP, em 2009, também nos aponta neste

mesmo horizonte, indo um tanto quanto além, enquanto ensina que, os trabalhos

historiográficos sobre o movimento tenentista geralmente o associam aos interesses

corporativos das Forças Armadas (CARVALHO, 1985) ou então às classes médias urbanas

(PINHEIRO, 1985) ou pequena burguesia (SANTA ROSA, 1976; SODRÉ, 1968),

destacando, também, sua trajetória pelo interior do país entre 1925 e 1927, durante a longa

jornada na Coluna Prestes (MEIRELLES, 1995). Ou então, o apontam como um grupo que se

fragmentou em fins dos anos 20 e se direcionou ao Partido Comunista Brasileiro ou à Aliança

Liberal (CARONE, 1975). Outros trabalhos destacam a participação dos “tenentes” na

derrocada da Primeira República e sua utilização enquanto “tropa de choque” do Governo

Provisório de Getúlio Vargas, sobretudo, na capital paulista (PRESTES, 1999; BORGES

1992).

Outra sinalização divergente é a adotada pela Historiadora Maria Cecília Spina

Forjaz, em seu livro “Tenentismo e política”, que defende que o movimento dos militares foi

desencadeado tanto pelo pertencimento dos militares às classes médias como também a

hipótese institucional. Apesar disso esforça-se para demonstrar a ligação e pertencimento dos

tenentes às classes médias e a importância desse contato para o desencadeamento dos fatos

que levaram à revolta de 1924. Segundo Maynard (2008), a autora em sua obra tenta combater

as ideias de Boris Fausto que negam a ligação dos tenentes com as classes médias urbanas.

Um dos argumentos utilizados é o de que, assim como os tenentes, as classes médias também

eram antioligárquicos.

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Noutra perspectiva, João Quartim de Moraes não está preocupado em classificar

os tenentes como expoentes das classes médias ou militares. Ele procura mostrar que a

diferença do movimento tenentista estava na oposição ao regime oligárquico e não apenas ao

governo. Em “A esquerda militar no Brasil”, o autor cita quatro fases para o tenentismo. A

primeira culminou e terminou com o episódio do forte de Copacabana, em 1922. A segunda,

com as revoltas ocorridas em 1924. A terceira, com a retirada dos rebelados de São Paulo e a

constituição da coluna guerrilheira comandada por Luiz Carlos Prestes. Este seria o momento

mais profícuo do tenentismo. Já a quarta fase seria marcada pela revolução de 1930. Moraes

destaca que em 1922 a motivação dos tenentes foi corporativa. Segundo ele, as revoltas de

1924 fracassaram em todos os estados, menos o levante chefiado por Luiz Carlos Prestes.

Para o autor, o tenentismo ganhou relevância a partir do momento em que se configurou como

esquerda, ou seja, quando se constituiu a Coluna Prestes e esta começou sua marcha.

José Murilo de Carvalho pensa diferente. Para ele, que também divide o

movimento em fases, as revoltas da década de 1920 marcariam um segundo tenentismo,

resultado ainda do dia 15 de novembro de 1889. Uma espécie de reedição da Proclamação da

República. Em sua obra “Forças Armadas e Política no Brasil”, o autor centra sua análise no

Exército destacando a importância dos fatores organizacionais. De acordo com Carvalho os

jovens oficiais formavam o grupo dentro do Exército que mais atuou na política entre 1889 e

1930. Por isso mesmo a intromissão dos militares na política não deve ser vista como uma

intervenção da corporação como um todo, já que predominam os movimentos de jovens

oficiais. José Murilo de Carvalho divide as intervenções em dois grandes ciclos. O primeiro,

compreendido entre 1889 e 1904; e o segundo, os anos que vão de 1922 a 1930. Na década de

1920 era grande o número de tenentes no quadro do Exército. Isso se devia, dentre outros

fatores, à demora das promoções, e ao retorno de muitos dos envolvidos nas revoltas da

Escola Militar 20 aos quadros da instituição. Com a República, a distribuição das tropas foi

modificada. Surgiu uma tendência de unir a presença das forças militares onde se concentrava

o poder político. O período de 1889 a 1930 caracterizou-se pela tentativa do Exército de se

transformar numa organização nacional. O autor acredita que o crescimento da urbanização e

da industrialização reduziu a influência das oligarquias rurais e forneceu aliados importantes

para os tenentes.

Outro fator a se destacar, conforme citado pela historiadora Lília Maria Schwarcz6

sobre os tenentes concerne que: “Eram liberais em temas sociais e autoritários em política”

(SHWARCZ, p. 347). Assim a autora mostra a heterogeneidade no ideário existente e comum

6 Brasil: uma biografia. Ed. Cia da Letras, São Paulo: 2015.

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aos jovens oficiais da década de 20, avançando seu pensamento sobre o movimento revoltoso

ao abordar com propriedade que:

Os tenentes como ficaram conhecidos, acreditavam que o Brasil precisava de um governo central forte capaz de intervir na economia para desenvolver os recursos naturais, promover a industrialização e proteger o país da exploração estrangeira. Também enxergavam no regionalismo e na corrupção a origem e os motivos do que havia de errado no Brasil. (Schwarcz, 2015).

Indubitavelmente eram fortes os argumentos dos jovens militares, e as suas

análises sobre o país coadunavam com a massa oposicionista (composta pelas oligarquias

menos protagonistas, classe média urbana, dentre outras dissidências) e estavam na esteira das

mudanças e quebras de padrões que os novos rumos dos anos 20 propiciavam.

Os próprios militares de baixa patente (Segundos e Primeiros Tenentes e Capitães)

representavam mais de oitenta e cinco por cento (85%) do número total de Oficiais do

Exército, o que por si só já explicaria uma tendência natural de inquietações e incertezas sobre

a realidade posta naqueles tempos. Soma-se a isso, uma alta dose de nacionalismo e

desenvolvimento da liderança propiciados desde os tempos da Escola Militar do Realengo,

combinados com a coragem e o destemor inerente a tenra idade, fortemente ligada ao culto e

as tradições históricas de outros oficiais em momentos críticos do país, faziam com que a

jovem oficialidade brasileira ensejassem em atuar no cenário público brasileiro.

Entretanto, dando continuidade em suas análises e estudos sobre a juventude

militar, Lilian Schwarcz, ressalta que os tenentes “tinham um pé no Exercito, outro na

sociedade”, apontando como fortes características acerca do movimento contestatório e por

assim dizer, intrinsecamente aos próprios jovens tenentes que:

“...estavam dispostos a proteger o país e a destruir o poder das oligarquias regionais, reduzir o quadro das profundas desigualdades sociais, acabar com o analfabetismo – mas não sabiam o modo de atingir seus propósitos nem como construir o país com que sonhavam. E, então, partiram praticamente sozinhos para enfrentar o governo”. (Schwarcz, 2015).

Neste escopo, é possível sintetizar (e até mesmo presumir) a resposta primária a

todos os anseios propostos pela juventude militar a resolver os problemas da nação, logo, a

resposta seria “a força das armas”. Assim, analisaremos a seguir, os principais eventos

revoltosos que caracterizariam esta “força” contrária e em oposição ao governo central, além

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de problematizar o papel dos tenentes nestes cenários de levantes insurgentes que

transformariam definitivamente o papel da juventude militar e de toda a sociedade brasileira.

Figura 2. Os 18 do Forte

Fonte: IHGB

O ano de 1922 representou uma conjunção de eventos que marcariam de forma

definitiva e indelével, o formato do panorama político, econômico, social e cultural do Brasil.

Não obstante, nesse ano de 22 se rememora o centenário da Independência do país, sendo seus

festejos instrumentos de reconsiderações sobre os anos passados, o presente em crise e,

principalmente se imaginava o futuro que se avizinhava.

Neste cenário de memórias e projeções futuristas é que se encaixam o advento da

Semana de Arte Moderna, a criação do Partido Comunista, a fundação do Centro Dom Vital 7,

e o próprio movimento Tenentista, dentre outros movimentos que analisariam, contestariam e

poriam em xeque toda a ordem vigente àquela época. Dentro deste contexto, a sucessão

presidencial de 1922 flagra-se como estopim de uma onda deste sentimento de mudanças que

foram vinculados no campo das artes, cultura, do trabalho, da economia e principalmente da

política.

Desta feita, a revolta dos 18 do Forte se incluiria neste panorama de ruptura de

paradigmas (dentro e fora da esfera militar), reivindicando e se solidificado como sendo uma

tentativa de instrumentalizar uma nova forma de atuação na própria caserna, bem como, no

cenário político do país.

7 Criado em 1922, pelo arcebispo do Rio de Janeiro, dom Sebastião Leme, o Centro Dom Vital fora idealizado para defender os ideais cristãos na vida política nacional frente a crescente urbanização, a secularização da cultura e a fundação do Partido Comunista do Brasil na década de 1920, que enfraquecera a influência tradicional do catolicismo. Foi somente no final da década de 1920, quando Alceu Amoroso Lima assumiu a direção do Centro Dom Vital que a Igreja conseguiu se tornar uma força político-social expressiva.

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Ao analisar a historicidade do assunto, nada melhor que expressar o próprio relato

do insurgente tenente Antonio Siqueira Campos, sobrevivente da marcha dos 18 do Forte

pela Avenida do Forte, como era conhecida na época a importante Avenida Atlântica, no

bairro de Copacabana no Rio de Janeiro. Seu relato exprime um pouco do sentimento do

movimento e da realidade daquele levante de julho de 1922:

As 6,30 horas do dia 6, cinco oficiais e vinte e três praças constituíam a guarnição do Forte. Após soltarem o general Bonifácio e os demais presos, dispuseram-se para a resistência. Os seus últimos defensores, no firme propósito de não se renderem, saíram para combater as forças do governo e, por terra sitiavam o Forte, evitando assim, a destruição do mesmo e talvez a do bairro de Copacabana; cada um trazia um pedaço da última bandeira do Forte de Copacabana. Na saída, aderiu a luta entre os revoltosos o civil Otávio Correia. Já disseram os jornais o que foi a luta entre os revoltosos, estabelecida na praia, nos trechos compreendidos pelas ruas que encerram a praça Sezefredo Correia e a Infantaria governista e que durou das 13,45 horas às 15 horas, onde pereceram algumas praças, o civil Otávio Correia e o bravo tenente Carpenter e foram feridos os tenentes Nilton Prado e eu e o tenente Eduardo Gomes, o último atirador do grupo, 1º sargento-mecânico- eletricista José Pinto de Oliveira, que faleceu 2 dias depois e mais duas praças que sobreviveram. (SILVA, 2004:154)

A grande historiadora Maria Cecília Spina Forjaz, contribui em seu artigo sobre o

Tenentismo ensinando que:

Os tenentes, que lideraram a rebelião, não tinham ainda um projeto de transformações políticas, mas agiram como membros de uma corporação que consideravam responsável pelas instituições republicanas. Os tenentes agiram isoladamente: a ausência de pronunciamentos é fato marcante do primeiro 5 de julho. Não houve tentativas de mobilizar o apoio popular e nem de se aliar às oligarquias dissidentes. (Forjaz, p. 3)

Neste ponto é acertado afirmar a dualidade do movimento tenentista que ora

passava por sua “prova de fogo”, uma vez que se caracterizaria por uma revolta sem apoio

popular, indo as ruas apenas com a bravura e determinação de soldados das armas sem muita

ambição e principalmente com uma estratégia “de mártires”, uma vez que as forças

governistas se encontravam em número maior e melhor preparada para um possível

confronto, que acabou por vitimar maioria esmagadora dos revoltos. Ademais, fica a certeza

que este componente de coragem seja de crucial importância para o sucesso dos militares

revoltosos que demonstraram com destemor, próprio a profissão da armas, que valia a pena

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pagar “com sangue” pelo ideário tenentista (mesmo que não muito claramente definido),

cingindo de forte apelo nacionalista e impactando cabalmente os padrões estabelecidos pelas

forças oposicionistas vigentes, marcando assim, através de uma revolta armada, um marco

contestatório na sociedade da época, assumindo imediatamente os tenentes, o posto de

representantes dos insatisfeitos e das forças antigovernistas, além de escreverem um novo

capítulo na história brasileira, no que tange ao declínio das forças oligárquicas que

dominavam a primeira república brasileira.

Tal ato revoltoso seria relembrado dois anos mais tarde, no mesmo dia 05 do mês

de julho agora na próspera São Paulo – “a locomotiva do Brasil” e em outras cidades

brasileiras, se configurando historicamente nos eventos chamados de “Levantes de 1924”.

Figura 3. Barricada no Levante Paulista de 1924

Fonte: IHGB

No levante paulista de 1924, conforme aponta José Inácio de Melo Souza (Nr), os

“tenentes” se inseriam nas fraturas do regime oligárquico agro-exportador com uma visão

eminentemente militar e golpista de resolução da questão política: a violência das armas

purificaria o regime republicano (SOUZA, 2003). Neste raciocínio, será importante destacar,

que os levantes de 1924 não eram apenas apenas um “ranço8 memorial” dos militares

derrotados em 1922 e sim, uma sinalização de uma mudança de postura dos tenentes após o

seu “batismo de sangue” em terras cariocas, no que pese o aperfeiçoamento da mudança do

Teatro de Operações (NR) dos tenentes, saía a capital federal e entrava São Paulo, a

“locomotiva do país”, com um inimigo a vista e determinado a longa data: a poderosa

oligarquia paulista e o entrave que ela representava.

8 Sentimento de repulsão sobre algo.

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