pae cad7, Notas de estudo de Enfermagem

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P nfermagem

rofissionalização de

uxiliares deA E Cadernos do Aluno

SAÚDE MENTAL 7

P nfermagem

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uxiliares deA E Cadernos do Aluno

SAÚDE MENTAL

Ministério da Saúde Secretaria de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde

Departamento de Gestão da Educação na Saúde Projeto de Profissionalização dos Trabalhadores da Área de Enfermagem

Série F. Comunicação e Educação em Saúde 2a Edição

1a Reimpressão

Brasília - DF 2003

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Ó2001. Ministério da Saúde. É permitida a reprodução total ou parcial desta obra, desde que citada a fonte. Série F. Comunicação e Educação em Saúde Tiragem: 2.ª edição - 1.a reimpressão - 2003 - 100.000 exemplares

Elaboração, distribuição e informações: MINISTÉRIO DA SAÚDE Secretaria de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde Departamento de Gestão da Educação na Saúde Projeto de Profissionalização dos Trabalhadores da Área de Enfermagem Esplanada dos Ministérios, bloco G, edifício sede, 7.º andar, sala 733 CEP: 70058-900, Brasília - DF Tel.: (61) 315 2993

Fundação Oswaldo Cruz Presidente: Paulo Marchiori Buss Diretor da Escola Nacional de Saúde Pública: Jorge Antonio Zepeda Bermudez Diretor da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio: André Paulo da Silva Malhão

Curso de Qualificação Profissional de Auxiliar de Enfermagem Coordenação - PROFAE: Leila Bernarda Donato Göttems, Solange Baraldi Coordenação - FIOCRUZ: Antonio Ivo de Carvalho

Colaboradores: Ana Lúcia Jesuino, Dayse Lúcia Martins Cunha, Gustavo de Mello, Leila Bernarda Donato Göttems, Maria de Jesus Martins Cunha, Maria Regina Araújo Reicherte Pimentel, Marta de Fátima Lima Barbosa, Sandra Ferreira Gesto Bittar

Capa e projeto gráfico: Carlota Rios, Adriana Costa e Silva Editoração eletrônica: Carlota Rios, Ramon Carlos de Moraes Ilustrações: Marcelo Tibúrcio, Maurício Veneza Revisores de português e copidesque: Lilian Rose Ulup, Mônica Caminiti Ron-Ren Apoio: Abrasco

Impresso no Brasil/ Printed in Brazil

Ficha Catalográfica

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde. Departamento de Gestão da Educação na Saúde. Projeto de Profissionalização dos Trabalhadores da Área de Enfermagem.

Profissionalização de auxiliares de enfermagem: cadernos do aluno: saúde mental / Ministério da Saúde, Secretaria de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde, Departamento de Gestão da Educação na Saúde, Projeto de Profissionalização dos Trabalhadores da Área de Enfermagem. - 2. ed., 1.a reimpr. - Brasília: Ministério da Saúde; Rio de Janeiro: Fiocruz, 2003.

126 p. : il. - (Série F. Comunicação e Educação em Saúde)

ISBN 85-334-0551-0

1. Educação Profissionalizante. 2. Auxiliares de Enfermagem. 3. Saúde Mental. I. Brasil. Ministério da Saúde. II. Brasil. Secretaria de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde. Departamento de Gestão da Educação na Saúde. Projeto de Profissionalização dos Trabalhadores da Área de Enfermagem. III. Título. IV. Série.

NLM WY 18.8

Catalogação na fonte - Editora MS

SUMÁRIO

1 Apresentação pág. 7

2 Saúde Mental pág. 9

Parasitologia e

Microbiologia

Psicologia Aplicada

Ética Profissional

Estudos Regionais

Nutrição e

Dietética

Higiene e

Profilaxia

Fundamentos de

Enfermagem

Saúde Coletiva

Saúde do Adulto

- Assistência

Clínica

Saúde do Adulto

- Atendimento

de Emergência

Saúde do Adulto

- Assistência Cirúrgica

Saúde da Mulher, da Criança

e do Adolescente

Disciplinas Inst rumen tai s

Disc iplinas Profissionalizantes

Anatomia e

Fisiologia

Saúde Mental

APRESENTAÇÃO

MINISTÉRIO DA SAÚDE

SECRETARIA DE GESTÃO DO TRABALHO E DA EDUCAÇÃO NA SAÚDE

PROJETO DE PROFISSIONALIZAÇÃO DOS TRABALHADORES DA ÁREA DE ENFERMAGEM

processo de construção de Sistema Único de Saúde (SUS) colocou a área de gestão de pessoal da saúde na ordem das

prioridades para a configuração do sistema de saúde brasileiro. A formação e o desenvolvimento dos profissionais de saúde, a regulamentação do exercício profissional e a regulação e acompanhamento do mercado de trabalho nessa área passaram a exigir ações estratégicas e deliberadas dos órgãos de gestão do Sistema.

A descentralização da gestão do SUS, o fortalecimento do controle social em saúde e a organização de práticas de saúde orientadas pela integralidade da atenção são tarefas que nos impõem esforço e dedicação. Lutamos por conquistar em nosso país o Sistema Único de Saúde, agora lutamos por implantá- lo efetivamente.

Após a Constituição Federal de 1988, a União, os estados e os municípios passaram a ser parceiros de condução do SUS, sem relação hierárquica. De meros executores dos programas centrais, cada esfera de governo passou a ter papel próprio de formulação da política de saúde em seu âmbito, o que requer desprendimento das velhas formas que seguem arraigadas em nossos modos de pensar e conduzir e coordenação dos processos de gestão e de formação.

Necessitamos de desenhos organizacionais de atenção à saúde capazes de privilegiar, no cotidiano, as ações de promoção e prevenção, sem prejuízo do cuidado e tratamento requeridos em cada caso. Precisamos de profissionais que sejam capazes de dar conta dessa tarefa e de participar ativamente da construção do SUS. Por isso, a importância de um "novo perfil" dos trabalhadores passa pela oferta de adequados processos de profissionalização e de educação permanente, bem como pelo aperfeiçoamento docente e renovação das políticas pedagógicas adotadas no ensino de profissionais de saúde.

Visando superar o enfoque tradicional da educação profissional, baseado apenas na preparação do trabalhador para execução de um determinado conjunto de tarefas, e buscando conferir ao trabalhador das profissões técnicas da saúde o merecido lugar de destaque na qualidade da formação e desenvolvimento continuado, tornou-se necessário qualificar a formação pedagógica dos docentes

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para esse âmbito do ensino. O contato, o debate e a reflexão sobre as relações entre educação e trabalho e entre ensino, serviço e gestão do SUS, de onde emanam efetivamente as necessidades educacionais, são necessários e devem ser estruturantes dos processos pedagógicos a adotar.

Não por outro motivo, o Ministério da Saúde, já no primeiro ano da atual gestão, criou uma Secretaria de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde, que passa a abrigar o Projeto de profissionalização dos Trabalhadores da Área de Enfermagem (PROFAE) em seu Departamento de Gestão da Educação na Saúde. Dessa forma, o conjunto da Educação Profissional na Área da Saúde ganha, na estrutura de gestão ministerial, nome, lugar e tempo de reflexão, formulação e intervenção. As reformulações e os desafios a serem enfrentados pela Secretaria repercutirão em breve nas políticas setoriais federais e, para isso, contamos com a ajuda, colaboração, sugestões e críticas de todos aqueles comprometidos com uma educação e um trabalho de farta qualidade e elevada dignidade no setor da saúde.

O Profae exemplifica a formação e se insere nesta nova proposta de educação permanente. É imprescindível que as orientações conceituais relativas aos programas e projetos de formação e qualificação profissional na área da saúde tenham suas diretrizes revistas em cada realidade. Essa orientação vale mesmo para os projetos que estão em execução, como é o caso do Profae. O importante é que todos estejam comprometidos com uma educação e um trabalho de qualidade. Esta compreensão e direção ganham máxima relevância nos cursos integrantes do Profae, sejam eles de nível técnico ou superior, pois estão orientadas ao atendimento das necessidades de formação do segmento de trabalhadores que representa o maior quantitativo de pessoal de saúde e que, historicamente, ficava à mercê dos "treinamentos em serviço", sem acesso à educação profissional de qualidade para o trabalho no SUS. O Profae vem operando a transformação desta realidade. Precisamos estreitar as relações entre os serviços e a sociedade, os trabalhadores e os usuários, as políticas públicas e a cidadania e entre formação e empregabilidade.

Sabe-se que o investimento nos recursos humanos no campo da saúde terá influência decisiva na melhoria dos serviços de saúde prestados à população. Por isso, a preparação dos profissionais-alunos é fundamental e requer material didático criterioso e de qualidade, ao lado de outras ações e atitudes que causem impacto na formação profissional desses trabalhadores. Os livros didáticos para o Curso de Qualificação Profissional de Auxiliar de Enfermagem, já em sua 3ª edição, constituem-se, sem dúvida, em forte contribuição no conjunto das ações que visam a integração entre educação, serviço, gestão do SUS e controle social no setor de saúde.

Humberto Costa Ministro de Estado da Saúde

Saúde Mental

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P EAROF

ÍNDICE

1 Apresentação 2 Psiquiatria ou Saúde Mental? 3 A evolução da Saúde Mental

3.1 Portas abertas para a liberdade

4 Epidemiologia da Saúde Mental 4.1 Você gostaria de integrar uma equipe

de Saúde Mental? 4.2 Quem é o paciente que procura o Setor

de Saúde Mental? 4.3 Quem é o profissional que trabalha no

setor de Saúde Mental? 4.4 Integração da equipe de saúde mental

5 Processo Saúde - Transtorno Mental 5.1 Fatores de influência 5.2 E o que são os tais de id, ego e

superego? 5.3 Mesclando os três tipos de fatores

6 Classificação de Transtornos Mentais e de Comportamento 6.1 Métodos diagnósticos em Psiquiatria 6.2 Sinais e sintomas de transtornos

mentais 6.3 Os principais tipos de transtorno

mental

7 Formas de Tratamento de Transtornos Mentais 7.1 Terapia medicamentosa 7.2 ECT - eletroconvulsoterapia ou

eletrochoque

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8 Condutas do Auxiliar de Enfermagem no Setor de Saúde Mental

8.1 Setores de atendimento em Saúde Mental

8.2 Relação terapêutica: a ferramenta indispensável

8.3 Intervenções do auxiliar de enfermagem diante de determinados comportamentos

9 Promoção e Prevenção em Saúde Mental 10 O Auxiliar de Enfermagem e a (sua própria) Saúde

Mental 11 Emergência Psiquiátrica

11.1 Caracterizando as intervenções diante das crises

11.2 Avaliação primária na emergência psiquiátrica

11.3 Classificando emergências psiquiátricas

12 Referências Bibliográficas 13 Anexos

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P EAROFIdentificando a ação educativa

S a úde Mental

O 1- APRESENTAÇÃO

constante avanço de novas abordagens no setor de Saú- de Mental faz com que os livros relativos a este assunto

se desatualizem com facilidade, a menos que apresentem uma abordagem desvinculada de conceitos rígidos e utópi-

cos. Foi o que pretendemos fazer durante a elaboração deste trabalho: fornecer, de forma ampla, e ao mesmo tempo leve e descontraída, con- teúdos que permitam ao profissional de nível médio refletir e agir, atu- alizando-se a cada passo de sua atuação neste setor.

Mediante apresentações de fatos reais, históricos ou obtidos atra- vés de experiências profissionais, os autores levantam situações para reflexões, pois todas as áreas de atuação da Enfermagem estão intima- mente ligadas à Saúde Mental. A Saúde Mental é um saber fundamental para promoção da saúde.

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Saúde Mental

2 - PSIQUIATRIA OU SAÚDE MENTAL?

Por que preferimos falar em “En- fermagem Saúde Mental”? Por que não usar- mos o velho termo “Enfermagem Psiquiá- trica”, que, afinal de contas, até parece nos dar maior status? Por que mudar?

Vamos respondendo passo a passo as dúvidas que podem surgir a esse res- peito. Falar em Saúde Mental é muito mais do que uma troca de termos; inclui uma diferença de critérios, da doença – foco central da Psiquiatria – para a saúde. Isso mesmo! Vamos falar em transtornos men- tais, mas com os olhos voltados para a re-

abilitação, a saúde e a reintegração. Obviamente a Psiquiatria, com todo o seu conhecimento, é parte essencial desse estudo, mas não a única. Outras áreas de estudo se integram para formar um conheci- mento mais amplo, que tente dar conta desta forma de sofrimento humano.

O termo Saúde Mental se justifica, assim, por ser uma área de conhecimento que, mais do que diagnosticar e tratar, liga-se à preven- ção e promoção de saúde, preocupando-se em reabilitar e reincluir o paciente em seu contexto social.

Outro ponto é o fato de que a Enfermagem sempre pareceu, para alguns olhares menos perspicazes, estar à sombra do conhecimen- to médico. Mas, na verdade, ela constrói seu conhecimento e divide com todas as outras áreas envolvidas os louros e as frustrações de trabalhar em (ou para a) Saúde Mental.

Em última análise, a flexibilidade para desprender-se de concei- tos científicos fixos e a atenção para as necessidades de mudanças a cada passo constituem pontos-chave para o crescimento pessoal e do conhecimento no setor Saúde Mental.

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P EAROF

3 - A EVOLUÇÃO DA SAÚDE MENTAL

_ Pessoas normais estão agora em outro lugar. _ Como será que se sentem? O que pensam? _ Não pensam. A doença não lhes deixou capacidade de raciocinar. _ Podemos tomar como fato? _ Podemos. _ Por quê? _ Porque a outra alternativa é inconcebível

(Do filme “Tempo de Despertar”)

O diálogo de dois personagens, médicos do filme “Tempo de Despertar”, expressa a problemática do relacionamento do homem com o que denominamos de “transtornos mentais”. Embora o filme aborde uma enfermidade oriunda de uma virose contraída – no caso, encefalite letárgi- ca –, a questão de como os problemas de incapacitação das faculdades mentais, ou da agressividade desprovida de senso crítico, limites e padrões éticos e morais, sempre amedrontou e ainda amedronta a humanidade.

Para evitar uma situação desesperadora, em que se admitisse que, de alguma forma, os sofredores dos transtornos mentais tivessem cons- ciência de suas enfermidades, encarou-se o “louco” como alguém to- talmente alienado ao que se passa ao redor. Neste contexto, mais fácil seria definir que “outra alternativa é inconcebível”, simplesmente por ser aterradora sua perspectiva.

Atualmente novas terapêuticas no tratamento destes tipos de doentes têm sido adotadas na tentativa de uma maior integração entre o paciente e a sociedade. Mas esta forma de encarar o problema da “loucura” nem sempre ocorreu assim.

Para se entender a Saúde Mental nos dias de hoje, é necessário que se tenha conhecimento do processo histórico ao longo do qual ela evoluiu.

Você já deve ter assistido a algum filme bíblico, independente da religião da qual você é adepto. Se já assistiu, deve ter reparado que aquelas pessoas viviam em uma época em que a ciência era pratica- mente desconhecida. Sem o conhecimento científico para explicar o mundo que o cercava, como aqueles homens conseguiam entender fe- nômenos como o raio e o trovão, as fases da lua, o ciclo das marés, as estações do ano?

Assim, para aquelas pessoas, tudo na natureza se explicava atra- vés de idéias ligadas a práticas de magia e religião.

Da mesma forma, o conceito de doença mental estava ligado a explicações mágico-religiosas, que atribuíam a uma força sobrena- tural a origem dos transtornos mentais. Assim, a loucura era aceita

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Saúde Mental

como uma imposição divina, uma interferência dos deuses. Por con- seqüência, o modo como a sociedade a encarava tornava-se ambí- guo, pelo fato de que tanto poderia ser o enfermo um portador, ou intérprete da vontade divina, como também um castigado pelos deuses ou um endemoninhado.

Desta forma o tratamento não poderia ser aplicado de maneira diferente. Este tinha como objetivo controlar, apaziguar ou expulsar estas forças “demoníacas”.

Na Grécia Antiga, mesmo que os distúrbios mentais fossem encarados ainda com origens sobrenaturais, procurou-se em causas somáticas a origem dos distúrbios mentais. Neste novo pensamen- to, a doença era causada pelo desequilíbrio interno, originado pelos humores corporais. A melancolia, por exemplo, era descrita como um quadro de tristeza causado pela “bílis negra” do fígado.

Também neste modelo surge, pela primeira vez, a descrição da histeria, que curiosamente era atribuída ao deslocamento do útero (histero), por falta de atividades sexuais.

Pode parecer engraçado, mas acreditava-se que movendo-se pelo corpo, o útero poderia atingir o cérebro, causando dispnéia, palpitação e até desmaios. Recomendava-se então, como terapêutica, o casamen- to para viúvas e moças, além de banhos vaginais com ervas para atrair o útero de volta ao seu local de origem.

Voltemos agora às imagens dos filmes aos quais já assistimos. Qualquer filme que trate da vida de Jesus apresenta soldados armados com escudos e lanças e que são os responsáveis pela crucificação. Es- tes soldados pertenciam ao Império Romano. Pois bem! No Império Romano, o tratamento dos transtornos mentais adquiriu novas idéias, que defendiam uma maior relação individual entre o médico e o porta- dor de transtornos mentais, e se diferenciava as alucinações das ilu- sões, recomendando-se que o tratamento da primeira doença fosse re- alizado em salas iluminadas, devido ao medo que o portador de aluci- nações tinha da escuridão.

Ao contrário da concepção grega, que atribuía à migração do útero a causa da histeria, Galeno, em Roma, afirmava que a retenção do lí- quido feminino pela abstinência sexual causava envenenamento do sangue, originando as convulsões. Assim, a histeria não tinha uma cau- sa sexual-mecânica, como afirmava o paradigma grego, mas uma causa sexual-bioquímica.

Entretanto, para o eminente médico romano, não apenas a reten- ção do líquido feminino era a causa dos distúrbios psíquicos. Para o alívio das mulheres da época, e das de hoje, o homem também tinha as suas alterações mentais oriundas da retenção do esperma. Desta for- ma, as relações sexuais e a masturbação, para Galeno, serviriam de alívio para as tensões.

O tratamento era um conjunto de métodos que variavam de rituais mágicos, exorcismo e até supliciação (tortura) dos doentes, empregados por homens a quem se atribuía a capacidade de manter um inter-relacionamento com o sobrenatural, criando explica- ções dentro de suas respecti- vas crenças. Ainda hoje, esses tratamentos são utilizados por algumas pessoas ou grupos no Brasil. Você já ouviu falar, viu ou vivenciou algum caso desse?

Ainda hoje não é raro, quan- do uma mulher mostra-se irritada ou mal humorada, dizerem que “é falta de casa- mento”. Isto acontece na sua cidade?

Ambígua – É toda situação em que se apresenta duas faces ou versões, neste caso como enviado de Deus ou do demônio.

Causas somáticas – É todo dis- túrbio cuja origem é orgânica.

Humores - Substância orgâni- ca líquida ou semilíquida, como por exemplo: bile, san- gue, esperma.

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P EAROF Deixando de lado a questão das flutuações dos líquidos seminais,

a verdade é que foi graças aos romanos que, pela primeira vez, surgiu uma concepção diferente com relação aos doentes mentais. Foram cri- adas leis em que se detalhava as várias condições, tais como insanidade e embriaguez, que, se presentes no ato do crime, poderiam diminuir o grau de responsabilidade do criminoso. Outras definiam a capacidade do doente mental para contratar casamento, divorciar-se, dispor de seus bens, fazer testamento e até testemunhar.

Com o fim do Império Romano, em 476 d.C., iniciou-se um perí- odo que a História denominou de Idade Média. Foi também o período em que o cristianismo expandiu-se. Muitos chamam a Idade Média de “Idade das Trevas”, mas não é pela falta de energia elétrica, que ainda não havia sido descoberta, e sim devido ao fato de todo pensamento cultural estar ligado às idéias religiosas. Isso fez com que todas as descobertas no campo científico e nos outros campos do conhecimento humano progre- dissem muito lentamente.

Neste período, o conceito de doença mental que surgiu foi a de uma doutrina dos temperamentos, isto é, do estado de humor do paci- ente. “Melancolia” era o termo utilizado com freqüência para descre- ver todos os tipos de enfermidades mentais.

Mas afinal, o que eles chamavam de melancolia? Constantino Africano, fundador da Escola de Salermo, descre-

veu os sintomas de melancolia como sendo a tristeza - devido à perda do objeto amado -, o medo - do desconhecido -, o alheamento - fitar o vazio - e a culpa e temor intenso nos indivíduos religiosos. São Tomás de Aquino descreveu a mania - fúria patológica -, a psicose orgânica - perda de memória - e a epilepsia, além de comentar também sobre a melancolia. Mas Aquino acreditava que a causa e o tratamento da do- ença mental dependiam fortemente da influência dos astros sobre a psique e do poder maléfico dos demônios.

Apesar de todas essas concepções científicas, seguindo o pensa- mento religioso da época, a possessão da mente de uma pessoa por um espírito maligno, e suas alterações verbais e de comportamento, retornou como a principal causa dos distúrbios mentais, como havia sido em épocas anteriores.

Desta forma, muitos dos portadores de alienações mentais en- contraram a “cura” para seus males nas fogueiras e nos patíbulos de suplícios. Aos doentes mentais que escapavam a essa “terapêutica” imposta pelas idéias religiosas da época, o abandono à própria sorte foi o que restou. Assim, os poucos esforços como os empreendidos duran- te o governo do imperador romano Justiniano, para que os portadores de transtornos mentais tivessem direito a tratamento juntamente com outros enfermos em instituições próprias, foi abandonado.

Durante todo o período da Idade Média, as epidemias como a “peste negra” aliadas à “lepra” causavam grande medo na população. Quando

Ainda hoje é comum dizer que alguém é “de lua” quan- do queremos nos referir a uma pessoa que muda cons- tantemente de humor.

! Por mais estranhas que essas teorias possam parecer, ainda na atualidade ouvimos falar que o esperma acumulado sobe ao cérebro, transformando-se em algo semelhante ao queijo, ou que a menstruação pode “subir à cabeça”, ocasionado altera- ções de comportamento.

Psique – Palavra de origem grega que, neste contexto, significa “mente”.

Patíbulos de suplícios – É a denominação figurada dos locais em que se realizam manobras de tortura e castigo, como surras, banhos gelados, sangrias e tantas outras.

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Saúde Mental

estes “flagelos” começaram a se dissipar, achava-se que uma nova ameaça pairava sobre a população: os “loucos”, criminosos e mendigos.

Se por um lado, realmente liberta de muitos preceitos religiosos a ciência pode caminhar um pouco mais livremente, para os portadores de enfermidades mentais novas nuvens tempestuosas se aproximavam.

Para uma sociedade que iniciava um processo de produção capi- talista, a existência de indivíduos portadores de transtornos mentais, ou de alguma forma “inúteis” à nova ordem econômica (tais como os “loucos”, os criminosos e os mendigos), andando livres de cidade em cidade tornava-se uma ameaça.

Os antigos “depósitos de leprosos”, cuja ameaça já não se fazia tão presente, abriram suas portas para a recepção destes novos “inqui- linos”. Sem preocupar-se em resolver esses problemas sociais, a nova ordem político-social decidiu pelo isolamento destes seres considera- dos “improdutivos”.

Excluídos do mundo, os enfermos mentais foram trancafiados nos porões das prisões juntamente com todos aqueles que por algum motivo não participavam da nova ordem mundial. A semente dos ma- nicômios havia sido plantada.

Ainda que vozes se levantassem clamando por um tratamento mais digno aos alienados, e por conseguinte se fizesse uma seleção mais nítida das “anomalias mentais”, a idéia de que “os loucos” eram perigosos e inúteis permaneceu na sociedade até os fins do século XVIII. A internação destes tornou-se caso de polícia, e a sociedade não se preocupava com as causas, manifestando insensibilidade ao seu cará- ter patológico. É verdade que em determinados hospitais os doentes portadores de distúrbios mentais tinham lugar reservado, o que lhes dava uma imagem de tratamento médico, sendo uma exceção; a maio- ria residia em casas de internamento, levando uma vida de prisioneiro.

Em 1789 (século XVIII), novos ventos sopraram na Europa Ocidental. A ordem absolutista, onde o Rei mandava sozinho à re- velia dos anseios do povo, entrou em falência, e idéias mais liberais e libertadoras passaram a ser discurso constante, principalmente na França, onde a revolução vitoriosa levou grande parte daqueles que não se importavam com os problemas das cabeças alheias a perde- rem as suas.

É neste clima de luta pelos direitos de cidadania e da valorização do “homem” que um jovem médico, chamado Phillipe Pinel, libertará dos porões destes hospitais aqueles cuja alienação mental, e principal- mente a ignorância social, haviam condenado ao isolamento.

Descendo aos subterrâneos da incompreensão humana, repre- sentados por esses porões, Pinel encontrou acorrentados às paredes fétidas e sombrias seres “humanos”, que ali jaziam há quase meio

O período que se seguiu à Idade Média foi batizado de “Renascimento”, pois toda manifestação cultural, impe- dida de se desenvolver pela concepção das idéias religio- sas da Idade Média, “renas- cia” neste “Século das Luzes”.

A situação em que profissio- nais buscavam outra forma de atendimento ao “louco” é retratada em vários filmes. Um deles é “O outro lado da nobreza”.

Phillipe Pinel, médico francês, foi responsável pela direção do hospital de Bicêtre, e pos- teriormente também do de Salpêtrière. Sua influência, atuação e grau de envolvimento com a Saúde Mental foi tão significativa que até hoje, vulgarmente se usa o termo “pinel” para denominar qualquer indivíduo que apa- rente um transtorno mental.

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P EAROF século, condenados pelo “crime” de serem portadores de transtor- nos mentais.

Com uma proposta de tratamento humanitário para os doentes, alia- dos à prática de docência, Pinel desenvolveu uma corrente de pensamento de médicos especialistas em doenças mentais, aprimorando as descrições detalhadas dos transtornos mentais através de longas observações.

A escola francesa, inaugurada com Pinel, trouxe muitas inova- ções neste campo, como por exemplo, a influência de tóxicos nas alte- rações do comportamento, a conceituação de esquizofrenia e a divisão dos portadores de doenças mentais em duas classes: os degenerados, que apresentariam estigmas morais e físicos, sendo propensos a apre- sentar acessos delirantes; e os não-degenerados, que eram indivíduos normais, porém predispostos ao transtorno mental.

Esta “Escola” desenvolveu o conceito de inconsciente, paralela- mente à aplicação da hipnose como método terapêutico. Nesse perío- do, Jean Martin Charcot, que descreveu diversos sintomas histéricos, reconhecia que um trauma, em geral de natureza sexual, estava relacio- nado a idéias e sentimentos que se tornaram inconscientes. Como os sintomas da histeria podiam ser reproduzidos através da hipnose, sua cura também poderia advir desta prática.

Enquanto os alienistas franceses desenvolviam suas observações clínicas, na Alemanha uma nova corrente com relação aos transtornos mentais surgia: a psiquiatria. Essa corrente seguiu os caminhos da me- dicina, recebendo um reconhecimento internacional, e o estabelecimen- to de um sistema moderno de estudo dos transtornos mentais.

Nesta nova corrente de pensamento do campo dos transtornos mentais, estava um médico de origem austríaca chamado Sigmund Freud.

Formado em um ambiente científico fervoroso, Freud, um neu- rologista com um grande censo de rigor experimental, conservou a idéia da importância de um método científico para compreender o psiquismo e sua estreita relação com os processos físicos e fisiológicos.

Rompeu com a terapêutica da hipnose, quando influenciado por Josef Breuer, outro médico austríaco. Ele havia curado uma paciente com sintomas histéricos usando um novo método: a catarse. Durante a hipnose, a paciente relatou um acontecimento do passado relegado a um segundo plano em sua mente/memória, como se o estivesse vivenciando no momento. O fez com violenta expressão de suas emoções (catarse), e depois experimentou alívio substancial dos seus sintomas.

Através dessas observações, Freud desenvolveu os conceitos de “inconsciente e repressão”, nos quais a emoção ligada às idéias reprimi- das podia afetar o comportamento nos eventos do presente.

Embora a utilização de substâncias como terapêutica no campo das doenças mentais já ocorresse desde a Antigüidade, é a partir do século XIX que o uso de substâncias (Haldol R )que agem diretamente no

Esses médicos especialistas em doenças mentais eram conhecidos como alienistas, que tratavam as alienações mentais.

Você por certo já ouviu falar de Freud. Ele é considerado o Pai da Psicanálise.

Psiquismo – É tudo aquilo ori- ginado da compreensão da mente.

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Saúde Mental

Psicocirurgia – Cirurgias mutiladoras do sistema ner- voso central que separavam as fibras que unem uma parte do cérebro com a outra, com o objetivo de destruir ou estimu- lar o tecido cerebral, reduzin- do as perturbações de com- portamento e/ou alterando o conteúdo do pensamento ou humor.

Toxicômanos – Termo anterior- mente utilizado para denomi- nar indivíduos viciados no uso de drogas que causam de- pendência.

Interdição civil – É quando o indivíduo perde os seus diretos civis através de ordem judicial a pedido de alguém, não po- dendo se casar, negociar seus bens ou administrar suas fi- nanças, entre outras ações.

Curatela – É a indicação judi- cial de alguém (curador) para administrar e fiscalizar os bens de outro indivíduo.

sistema nervoso central passaram a ser amplamente difundidas, sendo várias delas sintetizadas na segunda metade do século.

Mas foi no final dos anos de 1930, que para os casos de transtor- nos mentais graves houve a introdução do tratamento de choque e da psicocirurgia, sendo esta última introduzida somente baseada nos resulta- dos da experimentação animal, sem qualquer base teórica, anatômica ou fisiológica. Após expectativas ilusórias, estas práticas foram limitadas a condições clínicas específicas. Ao término da Segunda Guerra Mundial, iniciou-se a terapia medicamentosa, com bastante sucesso.

No Brasil, paralelamente a todo este processo, a política com relação ao tratamento dos transtornos mentais permaneceu sempre “atrelada” ao modelo europeu do século XIX, centrado no isolamento dos psicopatas ou indivíduos suspeitos, toxicômanos e intoxicados ha- bituais em instituições fechadas, mesmo quando tal modelo tornou-se ultrapassado em muitos outros países.

Já em 1916, o Código Civil prescrevia a interdição civil e a con- seguinte curatela aos “loucos” de todo os gêneros. Até recentemente, a Saúde Mental brasileira estava ligada à legislação de 1934, que legali- zava o seqüestro de indivíduos e a subseqüente cassação de seus direi- tos civis, submetendo-os à curatela do Estado.

No fim da década de 1980, a partir das transformações sociais e polí- ticas que vinham acontecendo no campo da psiquiatria, em países da Euro- pa (Inglaterra, França e principalmente Itália) e nos Estados Unidos da Amé- rica, inicia-se no Brasil o movimento da Reforma Psiquiátrica. Este movi- mento recebeu esta denominação por apresentar e desencadear mudanças que vão muito além da mera assistência em saúde mental. Estas vêm ocor- rendo nas dimensões jurídicas, políticas, sócio-culturais e teóricas.

3.1 Portas abertas para a liberdade

Desde a 8ª Conferência Nacional de Saúde, profissionais de saúde e gru- pos da sociedade civil organizada avalia- ram que o sistema de assistência ao do- ente com transtornos mentais era excludente, impedindo que os indivídu- os ali tratados exercessem os seus direi- tos civis, políticos e sociais.

Os hospitais superlotados de do- entes não dispunham de programas que os reintegrassem à sociedade. Ao serem filmados pela imprensa, as imagens

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Dentro desta realidade, quantas riquezas no passado foram desviadas? Quantas pensões foram utilizadas por terceiros? E quantos donos de hospitais enriqueceram com os moradores deste sistema de custódia? As condições subumanas negavam diaria- mente o reencontro do usuário consigo mesmo, e a esperan- ça de recuperação transfor- mava-se em “ficção”.

apresentadas à opinião pública eram de descuido, expresso em pacien- tes contidos nos leitos e em enfermarias gradeadas. A higiene precária, o sussurro de palavras arrastadas e a expressão facial de desespero de- monstravam que essas pessoas, chamadas de internos, estavam aban- donados à própria sorte.

Muitos chegavam ao hospício levados por seus familiares depois de um “ataque de loucura”, quando gritavam e quebravam objetos. Outros eram levados pelos familiares que queriam seqüestrar bens e/ ou heranças, acreditando, por vezes, na proteção do patrimônio famili- ar. Havia também aqueles que, por falta de informação sobre as doen- ças da mente, acabavam convencidos de que a hospitalização era a melhor alternativa em momentos de crise.

Muitos advogados também utilizavam a loucura como argumen- to para inocentar ou amenizar a pena de seus clientes que praticavam crimes hediondos. Infelizmente para os clientes, esta estratégia nem sempre dava certo, pois acabavam sendo condenados e encaminhados aos manicômios judiciários.

Uma coisa era certa: todos os que no hospício chegavam eram sub- metidos às rotinas institucionais, que incluíam na terapêutica a camisa de força, o eletrochoque, a medicação em excesso e inade- quada as psicocirurgias, à revelia do querer do cliente.

Neste momento, a prática predominante na área de saúde mental sustentava-se nos princípios: da here- ditariedade – acreditavam que passava de geração em geração; da institucionalização - o tratamento só pode- ria ocorrer através da hospitalização; da periculosidade - todos os “loucos” eram agressivos e perigosos; e da incurabilidade – a loucura não tinha cura. O paciente era visto como um transtorno para a sociedade e por isso as práticas adotadas seqüestravam este cidadão tem- porariamente dos direitos civis, isolando-o e segregan- do-o em manicômios, afastando-o dos espaços urbanos.

Mas por que chegamos a este ponto? Por que no Brasil, na década de 1960, chega-se à margem de cem mil leitos psiquiátricos, quando no restante do mundo estava se refazendo conceitos sobre o tratamento desta clientela? Por que mantivemos, por tanto tempo, seres humanos encarcerados de suas identidades?

Nesta época estávamos em plena ditadura militar e não havia espaço para nenhum tipo de questionamento político e social. Dentro deste contexto, reforçava-se que o louco era de difícil convivência, pe- rigoso e representava o diferente do convencional, do aceitável pelas regras sociais. Por isso, fazia-se necessário segregá-lo, seqüestrá-lo e cassar seus direitos civis, submetendo-o à tutela do Estado. Isso per- dura na atualidade, pois o Código Civil em vigor reforça que os “lou-

Crimes hediondos –É todo crime sinistro, medonho, pa- voroso, como por exemplo: chacina, assassinato de crian- ças, torturas com morte.

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cos de todo o gênero” são incapazes para os atos da vida civil. Com esta afirmação, a segregação deste grupo era considerada legal.

Neste caos do sistema psiquiátrico, juntamente com os avanços da Constituição de 1988, surgiram espaços de elaboração e aprofundamento de leis voltadas para o atendimento das questões so- ciais, propiciando um ambiente adequado para que a sociedade civil, trabalhadores de Saúde Mental e a articulação Nacional da Luta Antimanicomial se organizassem pela reforma do sistema psiquiátrico, buscando um novo estado de direito para o doente mental.

Norteadas pelos princípios da universalização, integralidade, eqüi- dade, descentralização e participação popular, foram realizadas suces- sivas conferências de Saúde Mental nos diversos níveis (nacional, esta- dual, municipal e distrital), tendo como objeto a inserção da Saúde Mental nas ações gerais de saúde. O importante é que nestas conferên- cias o processo de municipalização, a criação dos conselhos de saúde e os dispositivos legais previstos para a efetivação do SUS foram consi- derados, como mecanismos na desconstrução do modelo asilar dos hos- pitais psiquiátricos (asilo de “loucos”).

Abandonar a idéia de que transtornos mentais eram produzidos somente por causas naturais e aceitar que os fatores sociais podem ser determinantes destes transtornos, foi uma reflexão difícil para muitos profissionais de saúde, gestores e familiares.

Atualmente, considera-se que existe uma relação estreita entre transtorno mental e a exploração da força de trabalho, as condições insalubres dos ambientes, o viver na linha da miséria, o alto índice de desemprego, as relações familiares, o estresse, a violência e a sexuali- dade mal resolvida como causas. Enfim, são “pequenas e grandes” coisas que a qualquer momento nos deixam no limite entre a sanida- de e a loucura.

Na 2ª Conferência de Saúde Mental, em 1992, os delegados pre- sentes resgataram propostas previstas no projeto do Deputado Paulo Delgado, de 1989, que previam a substituição do “modelo hospitalo- cêntrico” por uma rede de serviços descentralizada, hierarquizada, di- versificada nas práticas terapêuticas, favorecendo o acesso desse clien- te ao sistema de saúde, diminuindo o número de internações, reinte- grando-o à família e comunidade, resultando, desta forma, na melhoria da qualidade dos serviços nesta área.

Entre os delegados, estavam representantes do segmento públi- co e do segmento privado, que concordavam, pelo menos no discurso, em que a assistência ao cliente com transtorno mental precisava ser mais humanizada. A discordância surgia quando o tema era a substitui- ção do sistema de internações hospitalares pela adoção de outras mo- dalidades terapêuticas que investiam na ressocialização deste indiví- duo, ou seja, sua desospitalização.

Compreendendo que a estru- tura social influi no limite entre a sanidade e a loucura, e que todos nós somos clientes em potencial do sistema de saú- de mental, devemos pergun- tar: Nesse caso, seremos con- siderados “loucos”? Seremos excluídos do convívio social?

Delegados - São pessoas que representam nas conferências os segmentos dos usuários, profissionais e gestores de saú- de na área de Saúde Mental.

Modelo hospitalocêntrico – É o modelo assistencial baseado na prestação de tratamento hospitalar através da internação do indivíduo.

Insalubres – São condições do ambiente e do trabalho que podem levar à deformação, ao adoecimento físico e/ou psicológico do trabalhador.

Segregação – É todo processo de marginalização, isolamen- to, separação em uma socie- dade, das minorias como as religiosas, raciais, pessoas com transtornos mentais.

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P EAROF Os contrários a esta idéia, ao serem vencidos nas Conferências

de Saúde Mental, passaram a fazer pressão no Congresso Nacional, impedindo a tramitação do projeto. A luta deles era pela manutenção da prática de asilamento e exclusão deste usuário do convívio social.

Justificavam sua posição argumentando que os lares não teriam estrutura para manterem financeiramente estes pacientes, somando-se os compromissos empregatícios e atividades diárias dos familiares, o que poderia indisponibilizá-los a levar os pacientes às sucessivas ses- sões terapêuticas e de cuidar diariamente deste indivíduo adoecido. Mas o que de fato lhes preocupava era a redução dos lucros gerados por este sistema de encarceramento do louco.

O outro lado, representado pelo movimento da reforma sanitá- ria, sustentava a desospitalização e desinstitucionalização dos pacien- tes como uma forma de garantir a cidadania àqueles que passaram anos de suas vidas encarcerados em enfermarias sombrias. Esta lógica trans- formava também as relações institucionais, alcançando as necessida- des dos funcionários e técnicos que ali trabalhavam no que diz respeito à melhoria das condições de trabalho, à implantação de um modelo participativo de gerenciamento, rompendo com a estrutura que distan- ciava o fazer do saber e vice-versa.

Ingenuamente, os familiares dos pacientes que há anos esta- vam hospitalizados, mesmo conscientes das falhas do sistema hos- pitalar psiquiátrico, o defendiam. O que mais os preocupava era a convivência com indivíduos com histórico de desvios da personali- dade que os deixavam violentos, letárgicos, eufóricos, repetitivos, sem nexos, enfim, cujo afastamento desgastou os sentimentos, o gostar de estar junto.

A prova desta oposição de idéias foi o a tramitação lenta do pro- jeto-de-lei de autoria do deputado Paulo Delgado, conforme se obser- va nos seguintes movimentos:

DATA ENCAMINHAMENTOS

1989 Projeto-de-lei (PL) é aprovado na Câmara dos Deputados, por acordo de lideranças. 04/04/1991 PL deu entrada no Senado Federal na Comissão de Assuntos Sociais (CAS)

14/03/1995 PL foi redistribuído sendo indicado como relator o Sen. Lúcio de Alcântara

08/11/1995 O Sen. Lúcio de Alcântara dá parecer favorável a aprovação do projeto original. No mesmo dia o Sen. Lucídio Portella pede vista do processo e retarda a aprovação.

23/11/95 Sen. Lucídio Portella apresenta outro texto, de caráter eminentemente científico, fundamentado em resolução da Assembléia da Organização das Nações Unidas (ONU),de 17/11/91 intitulado “Princípios para proteção das Pessoas Acometidas de Transtornos Mentais e para a melhoria da assistência à Saúde Mental. Este procedimento teve como objetivo atrasar o processo, numa tentativa de evitar a extinção dos manicômios.

Tramitação – É a via legal percorrida por um projeto-de- lei até sua aprovação ou ar- quivamento.

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1 Padrão, 1992, p.13.

1999 Comissão Diretora apresenta redação final do substitutivo do Senado ao Projeto de Lei da Câmara nº 8, de 1991 (nº 3.657, de 1989 na casa de origem), que dispõe sobre a extinção progressiva dos manicômios e sua substituição por outros recursos assistenciais e regulamenta a internação psiquiátrica compulsória, consolidando as emendas e subemendas aprovadas.

De janeiro Com o nº 43, o parecer de 1999 retornou à Câmara dos Deputados para aprovação final. de 1999 a março de 2001

Em 2001 Em 06 de Abril foi sancionada a Lei nº 10.216, pelo Presidente da República, sendo publicada no DOU em 09 de Abril (ANEXO I)

Esta longa tramitação de uma lei de caráter nacional não impe- diu que cidades como Rio de Janeiro, Brasília, Santos, Santo André e São Bernardo inserissem em suas Leis Orgânicas Municipais dispositivos le- gais de promoção de atendimento fora dos manicômios, já se responsabi- lizando pela desativação gradativa, criando uma rede alternativa de aten- dimento aos usuários acometidos por transtornos mentais1 .

Mas o que dizem esta lei e este substitutivo que geram tanto desconforto entre parte da sociedade civil, profissionais de saúde e gestores? O que moveu tantos interesses e que serve de referência para aqueles que trabalham na área de saúde?

Em primeiro lugar, esta lei propõe a extinção progressiva dos manicômios (instituições fechadas) e sua substituição por instituições abertas, tais como: unidades de Saúde Mental em hospital geral, emer- gência psiquiátrica em pronto socorro geral, unidade de atenção inten-

siva em Saúde Mental em regime de hospital-dia, Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), serviços territoriais que funcionem 24 horas (NAPS), pensões protegidas, lares abri- gados, centros de convivência, cooperativas de trabalho e outros serviços que preservem a integridade do cidadão.

A escolha de modalidade libertadora de atenção aos clientes com transtorno mental depende da criatividade e visão de mundo dos gestores, trabalhadores da saúde, asso- ciações de familiares e de todos os delegados dos conselhos de saúde que são responsáveis por estabelecer princípios filosóficos, operativos ou normativos, tendo como finalida- de o resgate da cidadania desta parcela de excluídos da po- pulação.

Na realidade, substituir a lógica hospitalar por no- vas modalidades de atenção ao cliente com transtornos

mentais sustenta-se nos princípios de inclusão, solidariedade e cidada- nia e representa um resgate ético.

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2 Padrão, 1992, p.13.

Consentâneo – Em conformi- dade; conveniente; adequado as necessidades de um gru- po, no caso, as pessoas com transtornos mentais.

O direito à informação sobre a sua doença representa um dos pontos críticos da relação instituição/profissional de saúde e família/ usuário, tendo em vista a falta de diálogo imposta pelo sistema asilar. Aos profissionais de saúde cabia o “tratar/cuidar”; à família cabia o aceitar/calar e confiar. Esta relação de poder ainda é muito forte nos dias de hoje, sendo um fator impeditivo da consolidação na prática do Art. 2º da lei, o qual prevê que o usuário tem o direito de receber o maior número de informação a respeito de sua doença e de seu trata- mento, detalhado em seu parágrafo único.

I - ter acesso ao melhor tratamento do sistema de saú de, consentâneo às suas necessidades;

II - ser tratada com humanidade e respeito e no interesse ex clusivo de beneficiar sua saúde, visando alcançar sua recu peração pela inserção na família, no trabalho e na comuni dade;

III - ser protegida contra qualquer forma de abuso e explora ção;

IV - ter garantia de sigilo nas informações prestadas; V - ter direito à presença médica, em qualquer tempo, para es

clarecer a necessidade ou não de sua hospitalização involuntária;

VI - ter livre acesso aos meios de comunicação disponíveis; VII - receber o maior número de informações a respeito de sua

doença e de seu tratamento; VIII - ser tratada em ambiente terapêutico pelos meios menos

invasivos possíveis; IX - ser tratada, preferencialmente, em serviços comunitários

de Saúde Mental”. Observa-se nessa lei que a família, o trabalho e a comunidade

recebem lugar de destaque, contribuindo para a inserção deste indiví- duo no cenário social. Em particular, a família é levada a refletir sobre o seu papel no processo de reintegração deste indivíduo, embora exis- tam famílias que continuem achando a internação uma solução. Nestes casos, para elaborar um plano terapêutico familiar, é pertinente estudar a cultura desta família, a maneira pela qual ela se organiza e expressa o sofrimento físico e psicológico para si e para o mundo exterior.

Outro aspecto importante é que a lei inibe a construção de novos hospitais psiquiátricos e a contratação ou financiamento de novos lei- tos nesta área pelo poder público, utilizando critérios rígidos e atrelan- do sua aprovação a comissões intergestoras e de controle social dos três níveis de gestão do SUS. Exemplificando: se quiséssemos implan- tar um hospital de 400 leitos para assistir clientes com transtornos men- tais no município do Rio de Janeiro, teríamos de levar a proposta aos

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Território – É a área ou região de abrangência do serviço de saúde, neste caso de Saúde mental, pelo qual este deve se responsabilizar. Este espaço está sempre em processo permanente de transforma- ção e construção, em que os conflitos de interesses, projetos e sonhos fazem parte das relações entre os sujeitos.

Responsabilidade - Estabele- ce relação de compromisso pelos rumos do sistema de atenção na área de Saúde Mental. Para transformar este sistema, profissionais de saú- de e população devem esta- belecer uma parceria em busca da melhoria de quali- dade de vida.

3 Lei n.º 10.216, de 2001.

Conselhos Nacional, Estadual e Municipal de Saúde, além de requerer a aprovação das Comissões Bipartite e Tripartite.

Esta medida não somente dificulta a ação dos empresários que lucram com este setor, mas força a rede pública e privada de saúde a criar efetivamente mecanismos concretos de desospitalização, como os hospitais-dia, Lares Abrigados, pensões protegidas e os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS).

Para efetivar este processo de desmobilização da hospitalização, foi proposto na 2ª Conferência de Saúde Mental o limite e redução gradual de pagamentos de Autorização de Internação Hospitalar (AIHs) até alcançar a meta de desocupação de 20 % dos leitos ao ano. O nú- mero de hospitais distribuídos em 22 Estados era de 241, totalizando 55.387 leitos contratados e 55.488 existentes. Os estados, em ordem decrescente, que mais investiram na desospitalização foram: São Pau- lo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Paraná, Pernambuco e Goiás.

Assim sendo, do total de leitos contratados pelo SUS, 11.774 leitos por ano deveriam ser desativados. Pode-se dizer que a meta para garantir o acesso da população com transtornos mentais a novas moda- lidades de serviços é de 20% ao ano, por estado.

Para alcançar esta meta, faz-se necessário o resgate do conceito de território e responsabilidade, proporcionando aos sistemas locais ou distritos sanitários a descentralização das dimensões política, ideológi- ca e técnica de romper com o modelo hospitalocêntrico, garantindo o direito dos usuários à assistência e à recusa ao tratamento, observando a obrigação dos serviços em não abandoná-los à própria sorte.

Com relação ao processo de internação, está previsto que só po- derá se dar quando os recursos extra-hospitalares se mostrarem insufi- cientes. Desta forma, a lei prevê três tipos de internação: voluntária, aquela consentida pelo usuário; involuntária, aquela a pedido de ter- ceiro, sem consentimento do usuário; e compulsória, aquela determi- nada pela justiça3 .

É bom lembrar que a internação involuntária a pedido da famí- lia, sem consentimento expresso do paciente, deve ser comunicada ao Ministério Público, à autoridade sanitária e ao Conselho Local de Saú- de no prazo de 48 horas. Deve também ser composta uma comissão interdisciplinar com integrantes da administração pública, de entida- des profissionais, de usuários e da sociedade civil, para avaliar a pertinência legal da internação.

Esta medida evita o uso indevido pela família e classe jurídica da prerrogativa de dispor sobre a vida de pessoas com transtornos men- tais, tendo como finalidade o gerenciamento dos seus bens e a libera- ção de penas judiciais.

Em casos de internação, existe também um movimento que luta pela revisão da legislação cível, no sentido de responsabilizar proprie-

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P EAROF tários de clínicas e a equipe envolvida no processo terapêutico quando houver erro, dano ou omissão. Nestes casos, deverão ser aplicadas “(...) penalidades, sem prejuízos de eventuais processos judiciais e indenizatórios relativos ao paciente ou à família”4 .

Na 2ª Conferência de Saúde Mental, as propostas sobre o direito à informação estão conjugadas ao direito à divulgação e educação. A divulgação desses direitos devem contemplar ações educativas em saú- de mental para toda a população, extrapolando os espaços das institui- ções de saúde, da família e do usuário, chegando aos meios de comuni- cação de massa como TVs, rádios e jornais.

Esta divulgação de informações legais da Reforma Psiquiátrica inclui debates sobre um dos problemas mais sérios do mundo contem- porâneo, que é o problema da droga, com a finalidade de minimizar a divulgação de notícias distorcidas sobre o assunto.

Em toda discussão sobre este assunto se defende a discriminalização do usuário e dependente de drogas, recusando os pro- cedimentos penais e apoiando os encaminhamentos para assistência à saúde. A finalidade é evitar a exclusão deste grupo do convívio social com internações prolongadas em clínicas de recuperação, garantindo o acesso e a permanência nas escolas, de todos os níveis, dos usuários e/ ou dependentes de substâncias psicoativas.

Para tal, o movimento de reforma psiquiátrica vem lutando para modificar o artigo 16 do código penal que trata das sanções aos alcoó- latras e drogaditos, que os coloca no mesmo nível dos traficantes. A proposta é incluir o direito ao tratamento e à reabilitação de todos os usuários, penalizando apenas os traficantes.

A propaganda direta ou indireta de fumo, álcool, agrotóxicos e medicamentos deve ser limitada ou eliminada dos meios de comunica- ção. Somado a isto a frase “Faz mal a saúde” deve estar contida em todos os produtos que trazem dependência química. A implantação desta medida nos anúncios de cigarro é a maior prova do alcance das ações construídas em parceria com outros setores, que ultrapassam os espa- ços hospitalares.

Outro ponto crítico é a prescrição abusiva de medicamentos que causam dependência, tais como: anorexígenos, antitussígenos e anticonvulsivantes. Para o controle do uso dessas drogas, é importante que os Conselhos Profissionais e a Vigilância Sanitária Estadual fiscali- zem e avaliem as corporações de médicos, farmacêuticos, indústria far- macêutica e comércio, visando o controle do processo de medicalização, e implementem programas de educação continuada para os profissio- nais envolvidos que apontem para a desmedicalização.

O movimento de reforma psiquiátrica, nos anos 1980/1990, dis- cute os instrumentos que incluam na vida produtiva as pessoas porta- doras de transtornos mentais e de deficiências, bem como defende

Lícitas ou ilícitas, as drogas na atualidade são ou não um pro- blema de saúde pública? Elas trazem dependência e podem levar o indivíduo a apresentar transtornos mentais?

Discriminalização – É não mais considerar a dependên- cia de drogas como crime.

Drogadito: denominação atu- al das pessoas que conso- mem drogas ilícitas e que causam dependência.

Anorexígeno, Antitussígenos e Anticonvulsivantes - Medica- mentos inibidores do apetite, da tosse e utilizados para evitar convulsões, respectivamente.

Muitos mecanismos foram previstos para reintegrar es- tes pacientes ao contexto so- cial, melhorando a qualidade de sua assistência. Mas como se dá esta reintegração no mundo do trabalho? O que está sendo pensado para evitar a estigmatização e a exclusão deste cidadão da vida produtiva?

4 Relatório da 2ª CNSM, 1994, p. 43.

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modificações na CLT (Consolidação das Leis do Trabalho) e nos esta- tutos dos funcionários públicos municipais, estaduais e federais, no intuito de preservar a saúde mental da classe trabalhadora, tais como:

! diminuição do tempo de exposição dos trabalhadores às condi- ções de fadiga e tensão psíquica, através da diminuição das jornadas de trabalho e do aumento do período de tempo livre (folgas e férias), de acordo com a natureza das atividades;

! período de descanso durante a jornada cotidiana, destinados também a permitir a preservação da atividade mental autôno- ma. Tais intervalos deverão ser em número e duração suficientes para tais finalidades, em conformidade com as necessidades de- terminadas pela carga de trabalho exigida em cada posto, evitan- do as patologias do tipo lesões por esforços repetidos (LER);

! em se tratando de atividades reconhecidas como especialmen- te desgastantes do ponto de vista psíquico, diversificar estas atividades;

! para a prevenção da fadiga mental será obrigató- ria, sempre que solicitada pelos trabalhadores - através de seus sindicatos, comissões de fábricas, Comitê de Saú- de ou Comissão Interna de Prevenção de Acidentes (CIPA) - a formação de grupos de avaliação dos condicionantes de fadiga e tensão psíquica. Tais grupos deverão ser cons- tituídos de forma igual entre os pares, por técnicos especializados e trabalhadores do local, devendo, neces- sariamente, ao final dos estudos, formular sugestões para modificações - cuja implantação deverá ser acompanha- da pelos trabalhadores, em todas as suas etapas;

! os prazos e as alternativas de modificação das condições organizacionais e ambientais deverão ser objeto de negociação entre empresas e trabalhadores;

! a duração normal do trabalho, para os empregados que traba- lham em regime de turnos alternados e para os que trabalham em horário fixo noturno, não poderá exceder 35 horas semanais;

! a preservação do emprego aos trabalhadores alcoolistas, drogaditos e portadores de transtornos mentais deve ser asse- gurada com garantia de estabilidade no emprego por 12 meses após o retorno ao trabalho, penalizando-se as empresas e em- pregadores que desrespeitarem a lei e garantindo-se que ne- nhuma outra dependência cause exclusão do trabalho5

Pode-se perceber a categoria de enfermagem incluída nos itens acima, principalmente no que diz respeito à exposição deste traba- lhador a condições de fadiga e de tensão, vivenciada diariamente pela equipe de enfermagem. Quando a pessoa só tem um emprego,5 Relatório da 2ª Conferência de Saúde

Mental, 1994, p. 51-54

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P EAROF a carga horária é normalmente de 40 horas semanais, sendo duplicada quando este trabalhador possui outro emprego. Conside- rando que esta equipe é formada predominantemente por mulheres, essa jornada pode ser tripla, com as atribuições domésticas (casa, filhos, marido).

Além da jornada excessiva de trabalho, a equipe de enfermagem vive em constante nível de estresse, pois seu objeto de trabalho é o cuidar do outro com o seu sofrimento, com as lesões que transfiguram o corpo, com os seus resíduos (urina, fezes e sangue), o que leva ao des- gaste emocional do profissional.

Desta forma, é comum que se encontre nos corredores dos hos- pitais profissionais em crise, alcoolistas, drogaditos e portadores de trans- tornos mentais. São pessoas que estão doentes, se sentem doentes, mas não podem ficar doentes por depender mensalmente daquele pequeno salário para o sustento de sua família. Talvez a efetivação desta propos- ta no âmbito legal e a criação de um serviço de saúde mental para aten- der os profissionais de saúde, em particular os de enfermagem, pela natureza de seu trabalho, já seria um solução.

Como pode-se perceber, o projeto-de-lei de autoria do deputado Paulo Delgado demorou a ser sancionado no parlamento, o que não impediu que, na prática, mudanças na estrutura dos serviços de atendi- mento ao cliente em sofrimento psíquico fossem conquistadas. A mobilização de familiares, usuários, gestores e profissionais de saúde pela aprovação das propostas nos conselhos de saúde é que vem pressi- onando as autoridades municipais e estaduais a investirem em atos con- cretos que apontam para a ressocialização desta clientela.

Finalizando, você há de perguntar: e os pacientes que estão há longo tempo hospitalizados, sem perspectiva de integração, que desti- no terão? Essa também é a preocupação dos familiares destes doentes. Na Lei nº 10.216 de 2001, isto está previsto no artigo 6º, que diz: “O paciente há longo tempo hospitalizado ou para o qual se caracterize situação de grave dependência institucional, decorrente de seu quadro clínico ou de ausência de suporte social, será objeto de política especí- fica de alta planejada e reabilitação psicossocial assistida, sob respon- sabilidade da autoridade sanitária competente e supervisão de instân- cia a ser definida pelo Poder Executivo, assegurada a continuidade do tratamento quando necessário”.

Outra referência é a Carta de Direitos dos Usuários e Familia- res de Serviço de Saúde Mental (Anexo II), que contém, como o pró- prio nome indica, os direitos destes usuários e sua família. Esta foi elaborada durante o III Encontro Nacional de Entidades de Usuários e Familiares de Saúde Mental, realizado em Santos em 1993, sendo uma importante conquista para os usuários dos serviços de saúde mental em nosso país.

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Saúde Mental

4 - EPIDEMIOLOGIA DA SAÚDE MENTAL

4.1 Você gostaria de integrar uma equipe de saúde mental?

Com freqüência, a idéia de trabalhar com “doentes mentais” pode ser assustadora para al- guns profissionais de saúde, mas encantadora para outros. Apesar do desenvolvimento de programas relativos à Saúde Mental, a imagem de alguém agressivo, desprovido de senso crítico, de limites e de padrões éticos e morais ainda costuma perse- guir esse tipo de clientela.

Mas se esta imagem se forma em mentes teoricamente mais esclarecidas para a área de saúde, como não haveria de se propagar para a população?

Pesquisas realizadas demonstram que uma em cada três pessoas terá pelo menos um episódio de transtorno mental no decorrer da vida, e, no período de um ano, um entre cinco indivíduos encontra-se em fase ativa da doença. No entanto, a prática aponta o período de resistência pelo qual as pessoas passam antes de se sentirem “obrigadas” a procurar ajuda, ressaltando-se o fato de que algumas jamais a procuram.

Freqüentemente ouve-se colocações do tipo: “Vim procurar aju- da porque não agüentava mais”; ou: “Há muitos anos sinto isso, mas tinha medo de me tratar”; ou ainda: “Ficava pensando no que os meus amigos iriam dizer se soubessem que me trato aqui...” O medo de “en- louquecer” ou de ser “taxado como louco” ainda é o causador de uma enorme demanda reprimida, que dificulta qualquer análise numérica mais exata. Isso sem se falar no estigma do próprio tratamento, seja ele medicamentoso ou psicoterápico.

Em nível de Brasil, principalmente em algumas áreas carentes, tor- na-se ainda mais difícil se obter estatísticas, pois ainda são poucos os locais onde o Programa de Saúde Mental está implantado de forma satisfatória.

Apesar de tudo isso, a demanda nesse setor vem aumentando a cada dia, causando muitas vezes a impressão errônea de que hoje as pessoas apresentam mais transtornos mentais que antigamente. É co- mum ouvirmos nossos pais ou avós afirmando que “estão todos enlou- quecendo”, ou que “antigamente não tinha nada disso”. É verdade que o ritmo da vida de hoje é capaz de causar maior tensão nas pessoas e com isso desencadear episódios de transtornos mentais; no entanto, outros fatores podem estar influenciando no aumento desta demanda:

Demanda reprimida - É um contingente de pessoas com necessidades de atendimento e que tem seu acesso aos serviços de saúde impedidos por algum motivo: falta de vagas, do serviço ou de infor- mações, questões culturais entre outras. Neste caso espe- cífico, os fatores principais são o medo e o estigma, além da falta de informações.

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P EAROF 1 A introdução de um programa de Saúde Mental ocasionou um

número maior de unidades assistenciais. 2 A conscientização da necessidade do acompanhamento psico-

lógico para os pacientes de outros programas, como Saúde da Mulher (gestação, climatério, aborto), hanseníase, DST (princi- palmente para os portadores de HIV), tuberculose etc.

3 A introdução de novas formas de tratamento na Saúde Mental vem apresentando melhoras nos quadros clínicos e diminuindo o “medo do tratamento” por parte de pacientes e familiares.

4 A conscientização da população de que o programa de Saúde Mental pode e deve atuar como prevenção, e não só como tra- tamento nos surtos, vem fazendo com que a população busque assistência antes de apresentar sintomas de maior complexida- de. Assim, a dona de casa que não tinha vontade de sair e que era considerada excelente, hoje se vê deprimida. O pai de famí- lia que chegava em casa exaltado e achava que era cansaço, hoje se acha nervoso. Observa-se, desta forma, uma mudança de padrões de normalidade.

5 A veiculação de informações sobre transtornos mentais através dos meios de comunicação (jornais, revistas, televisão, rádio etc), vem fazendo com que as pessoas identifiquem-se com os sintomas e busquem ajuda por valorizarem o que sentem. Pas- sam a perceber que não estão sozinhas e que muitas vezes po- dem até estar na “moda”.

Com todos estes fatores atuando na demanda de Saúde Mental, é possível perceber que a alteração que ela vem sofrendo não é apenas numérica. Embora em números venha alcançando índices considerá- veis, a sua caracterização é surpreendentemente diferente da observa- da há alguns anos.

4.2 Quem é o paciente que procura o setor de saúde mental?

Você já esteve em contato com alguém que sofria de transtorno mental? Qual era sua aparência? Estava desorienta- do? Ele agrediu você?

Sua resposta provavelmente será positiva para a primeira per- gunta. Com o atual índice de usuários do setor de Saúde Mental, é muito difícil encontrar alguém que ainda não tenha tido este tipo de contato, mesmo que não atue na área de saúde. No entanto, procure as respostas para as perguntas subseqüentes.

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Saúde Mental

Havia algo de estranho em sua aparência? A aparência do in- divíduo que procura este setor pode ser um sinal muito importante na detecção de determinados quadros mentais e o auxiliar de enfer- magem deve saber percebê-los. Mas o que desejamos ressaltar neste momento é que a menos que o paciente estivesse em franco surto, dificilmente haveria nele algo que o classificasse como um paciente com transtorno mental.

É verdade que com as variações da “moda”, muitas vezes en- contramos pessoas de aparência estranha, não somente no que se refe- re ao vestuário, mas também com auto-mutilações, como tatuagens ou piercings. No entanto, estas pessoas nem sempre freqüentam um setor de Saúde Mental, embora algumas vezes precisem de ajuda pela razão com que justificam tais procedimentos.

O nível de orientação de uma pessoa é variável com a situação que está experimentando. As atribulações do dia-a-dia e as preocupa- ções podem nos deixar “desligados”, o que não quer dizer, necessaria- mente, que devamos nos inscrever num setor de Saúde Mental. O inver- so também é verdadeiro. Nem todo o usuário deste setor encontra-se desorientado e suas colocações devem sempre ser ouvidas com atenção.

Em relação à agressão, embora este pareça ser o maior ponto de receio para os profissionais quando se trata de lidar com o paciente com transtorno mental, o índice de profissionais de saúde agredidos neste setor não é maior que em muitos outros setores. Isso se deve a dois fatores: violência não tem que estar necessariamente presente no transtorno mental, e nem todos os usuários do setor apresentam um transtorno mental de maior gravidade.

O grau de dificuldade em lidar com todas estas questões pode variar. No entanto, pessoas consideradas saudáveis conseguem perce- ber suas dificuldades e procurar ajuda. Estas constituem grande parte da demanda do setor de Saúde Mental, sem que sejam portadoras de transtornos mentais mais graves, como as psicoses.

Também fazem parte dessa demanda indivíduos que buscam lau- dos para conseguirem uma aposentadoria por invalidez ou mesmo um período de licença. A maioria destes não pretende ficar em casa, e sim conseguir um ganho monetário extra que permita satisfazer as necessi- dades básicas suas e de sua família.

O transtorno mental pode causar um profundo sofrimento ao portador, à sua família e amigos. Freqüentemente, ele abate o ânimo e leva à autodestruição, que se reflete, em parte, na elevada taxa de ten- tativas de suicídio entre esses pacientes.

Muitas vezes tais pacientes encontram-se abandonados pela fa- mília, que ou se afasta por medo de sofrer ou por não acreditar, de fato, que as alterações de comportamento que os indivíduos apresentam se- jam derivadas de uma patologia, e sim de uma deficiência de caráter.

Lidar com nossas emoções é sempre algo muito difícil. En- frentar os desafios e as mu- danças que a vida nos oferece todos os dias, assim como lidar com traumas e transi- ções importantes, como a per- da de pessoas queridas, difi- culdades conjugais, proble- mas escolares e profissionais ou a perspectiva de uma apo- sentadoria, por exemplo, pode não ser muito fácil.

Num setor de Saúde Mental você deve estar atento aos sinais e sintomas que os usu- ários apresentam e não aos diagnósticos que “carregam”. Por exemplo: tendemos a só considerar em risco de suicí- dio os pacientes com transtor- nos. No entanto, um indivíduo passando por períodos críti- cos, ou ainda usuário de dro- gas, pode apresentar riscos reais de autodestruição, mes- mo que seu transtorno ainda não tenha sido identificado.

Para a família é difícil caracte- rizar um transtorno mental como patologia, pois esse nem sempre pode ser com- provado por exames laboratoriais.

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P EAROF O importante é lembrar que, num setor como este, você vai encon-

trar pessoas que buscam ajuda para seus transtornos. O fato de reconhece- rem que precisam de ajuda para resolver suas questões emocionais pode ser a única linha que o diferencia dos pacientes dos demais setores.

4.3 Quem é o profissional que trabalha no setor de Saúde Mental?

Por sua vez, o profissional que recebe este tipo de clientela é muitas vezes encarado por seus colegas como corajoso, ou masoquista, quando não afirmam que também é “doente”. Comumente ouvimos este tipo de afirmação: “Trabalhou tanto tempo com malucos que ficou maluco também”. Esse tipo de preconceito abrange todos os níveis de escolaridade e não é raro escalar-se os profissionais “pro- blemas” para este setor, como uma forma de castigo.

Quando uma mulher vai trabalhar no setor de Gi- necologia, torna-se muito mais atenta aos possíveis pro- blemas ginecológicos que venha a ter; quando o profissi- onal insere-se no setor de Tuberculose, passa a prestar mais atenção em possíveis sintomas respiratórios que venha a apresentar; o funcionário do setor de DST/AIDS preocupa-se demasiadamente com seu emagre- cimento. Por que seria diferente com a Saúde Mental?

O medo de vir a apresentar um transtorno mental passa muitas vezes pela mente deste indivíduo. Porém, o medo de buscar as respostas pode ser maior, pois a própria dúvida pode ser relacionada à patologia. O desconheci- mento do transtorno mental associado à diversidade de fatores e sintomas pode gerar uma grande insegurança no profissional, provocando reações e posturas lamentáveis para com os pacientes e colegas. Como exemplo, certa vez, uma psicóloga foi mantida presa durante duas horas numa enfermaria com uma paciente agressiva por ter interferido quando os auxiliares de enfer- magem se negavam a alimenta-la por ter se “comportado mal”.

O despreparo dificulta o funcionamento de todos os setores, mas o preconceito vem atrapalhando o preparo dos profissionais para o setor em questão. Afirmar que sente prazer em atuar na Saúde Mental pode muitas vezes custar ao profissional o rótulo de “maluco” e dimi- nuir seu status e valor de representatividade diante do grupo.

O preconceito é o fruto da árvore da ignorância. É imprescindí- vel a busca de conhecimentos por parte dos profissionais de saúde quanto aos fatores geradores do processo saúde-doença na área de Saú- de Mental para que ele possa elaborar estratégias no lidar com este tipo de clientela contraditoriamente tão comum, mas tão especial.

Masoquista – No sentido real da palavra, é a pessoa que sofre de um tipo de perversão sexual em que procura al- guém que o maltrate. No con- texto aqui descrito, seria uma pessoa que gosta de sofrer.

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4.4 Integração da equipe de saúde mental

Certa vez, num encontro para integrantes da equipe de Saúde Mental, uma profissional contou um fato que trazia uma questão inte- ressante, que era mais ou menos assim:

Sendo atuante em um Centro de Atenção Psicossocial (CAPS), afirmava que sempre sentiu-se feliz com a maneira inte- grada com que sua equipe atuava. Era uma equipe composta por psiquiatras, psicólogos, assistentes sociais, terapeutas ocupacionais, um enfermeiro e uma auxiliar de enfermagem. Po- rém, na prática não havia qualquer linha hierárquica que demar- casse as profissões. O paciente que chegasse poderia ter seu pron- tuário preenchido por qualquer um dos profissionais, só depen- dendo de quem estivesse disponível no momento. Assim tam- bém as participações nas oficinas ou outras atividades terapêuti-

cas eram obrigação de todos, pois todos, igualmente, eram capazes de estabelecer relações terapêuticas com o paciente.

Até mesmo na cozinha algumas psi- cólogas foram atuar para que a cozinheira tivesse férias. “Éramos uma família!” – dizia nossa narradora. Todos eram igual- mente importantes e indispensáveis; em- bora suas profissões fossem diferentes, suas funções se confundiam num único objetivo: atender o usuário.

Foi então que apareceu Carlos. Ele era um paciente com dependência total que fora encaminhado àquela unidade por acharem que poderia beneficiar-se deste

tipo de assistência. Na primeira vez que sujou as fraldas, surgiu a pergunta: quem vai trocar as fraldas de Carlos?

Uma pergunta que se repetiria inúmeras vezes. E nunca a função da auxiliar de enfermagem fora tão lembrada. Esta, por sua vez, argumentava que como fazia parte de uma equipe inte- grada, todos teriam que executar a troca de fraldas. Os outros se negavam, afirmando que sua função não era essa.

Carlos não continuou na unidade. Seu grau de dependên- cia não era compatível com os recursos do local. No entanto, uma dúvida passou a dificultar a aparente integração da equipe, que até aquele momento se perguntava: quem vai trocar as fral- das de Carlos?

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P EAROF Quando se fala de uma integração de equipe de saúde, é natural

que surjam as distorções e confusões que muitas vezes tendem a minar esse processo de trabalho. A equipe de saúde vem de uma história de relação de poder em que o médico está sempre no topo da escala. E o auxiliar de enfermagem na base.

Muitas vezes fazemos parte de uma equipe sem que estejamos integrados a ela. Assim, se você trabalha numa equipe onde cada um tem seu papel isolado, sem nenhuma relação entre si, onde cada um preocupa-se em realizar a sua tarefa independente da do outro, você faz parte desta equipe, mas não está, por certo, integrado a ela.

Integrar-se a uma equipe é antes de mais nada entregar-se ao que ela representa. Não é cumprir tarefas, mas realizar trabalhos. Numa equipe integrada, não existe o bom funcionário, só a boa equipe. É estar ciente de que o outro precisa de você e que você precisa do outro. É ainda romper as linhas divisórias que o separa do outro e o distância do objeto a ser atingido – no caso de uma equipe de assistência em saúde, quase sempre a recuperação do paciente.

As funções do auxiliar de enfermagem não são diferentes porque eles atuam numa equipe de Saúde Mental. Promover o conforto do paciente, atender suas necessidades básicas, prevenir agravos são questões sempre presentes em sua atuação, seja lá em que setor es- teja. No entanto, ele deve ter consciência de que, muitas vezes, pode estar percebendo detalhes relativos ao paciente que os outros mem- bros da equipe, mesmo tendo uma formação mais aprofundada, po- dem não ter captado. Sensibilidade não se aprende na escola, faz parte das vivências de cada um.

Assim, são indispensáveis as observações do auxiliar de enfer- magem, como a de qualquer outro profissional.

Posso citar, como exemplo, o caso de uma paciente que havia sido internada em um hospital psiquiátrico com um diag- nóstico de esquizofrenia. O interessante, no entanto, tinha sido a forma como ela surgira. Ao término de uma festa de integração entre família, paciente e equipe de saúde, depois de todos terem ido embora, ficando apenas os internos, lá estava ela! Comoda- mente sentada, assistindo televisão. Ao indagar-se quem era e onde morava, respondeu apenas: Quem eu sou não sei, mas moro aqui!

E morou mesmo! Por três meses, Norma, como mais tarde se identificou, morou no hospital e por mais que se tentasse des- cobrir sua origem ou família, nada havia sido obtido. Até que um dia, enquanto a auxiliar de enfermagem lia para ela um gibi do Mickey, (atividade prazerosa para ambas) ela, identificando-se com o personagem que dava o endereço para a namorada Minnie,

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também começou a fornecer o seu endereço. O momento era aquele! Uma pequena corti- na se abriu! Não havia tempo de se chamar uma psicóloga, assistente social ou enfermei- ra. Mais que depressa, a profissional, valori- zando a informação, tratou de anotá-la em prontuário e de notificar a equipe.

Duas semanas depois, a equipe presen- ciava, emocionada, o reencontro de Norma (este não era o seu nome) com sua família, que a procurava há dois anos. Hoje ela en- contra-se reintegrada a uma sociedade, por- que uma profissional não se deteve em reali- zar tarefas limitadas, foi além.

Integrar-se à equipe, modificando esse papel tão comum de “cumpridor de tarefas”, é necessário; e, em Saúde Mental, poderia se dizer que é essencial. Conscientizar-se de seu grau de importância numa equipe, não como cumpridor de tarefas, mas como membro atu- ante e indispensável na recuperação do paciente e prevenção de surtos ou desenvolvimento de transtornos, é, para o auxiliar de enfermagem, a maneira de humanizar-se.

Retornando à questão das fraldas de Carlos, qualquer membro da equipe poderia e deveria trocá-la, se a necessidade surgisse enquan- to ele estivesse com o paciente. Porém o auxiliar de enfermagem não pode esquecer-se que esta atividade faz parte de seu preparo e não da de outro profissional. Uma dobra na roupa de cama é capaz de produzir bem mais que desconforto num paciente acamado, não é?

Mesmo que entenda isso, os demais profissionais podem não ter a destreza e habilidade desenvolvida pelo auxiliar de enfermagem em seu curso. Neste caso a especificidade era outra.

Assim, todos podem participar das oficinas, porém o terapeuta ou psicólogo não podem estar alheios ou distantes a isso, para que o processo não seja prejudicado. Todos poderiam trocar as “fraldas de Carlos”, mais o auxiliar de enfermagem deve estar sempre atento quan- to à maneira como este cuidado vem sendo realizado. Não se trata apenas de trocar fraldas, mas de prevenir desconforto, transtornos e agravos ao paciente.

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5 - PROCESSO SAÚDE - TRANSTORNO MENTAL

5.1 Fatores de influência

Você já enfileirou peças de dominó uma após a outra? Ou quem sabe já tentou fazer um castelinho de blocos de madeira? O que acontece se derrubarmos a primeira peça da fila, ou se puxarmos uma das peças que formam a base do castelo? As outras caem em seguida, não é verdade? E, ao ver- mos todas as peças derrubadas, muitas ve- zes não somos capazes de identificar qual foi a causadora do desastre, até porque uma foi causando a queda da outra.

Com os fatores geradores do trans- torno mental acontece algo muito pareci- do. Precisamos compreender que nós, se- res humanos, funcionamos como um todo, ou seja, vários fatores influenciam ao mesmo tempo os nossos compor- tamentos, as nossas escolhas. Por exemplo, se alguém desenvolve um medo excessivo da violência atual, a ponto de recusar-se a sair às ruas, ou até mesmo a atender o telefone, assistir televisão ou chegar ao portão de casa, podemos pensar de imediato que há várias causas colaborando para isso, como: a história de vida do indivíduo, se foi uma criança muito protegida ou excessivamente exposta; os mecanismos fisiológicos que atuam na resposta de medo; o próprio aumento da violência nos dias atuais e a exploração que a imprensa faz disso; alguma perda de pessoa querida em período recente. Tudo pode atuar ao mesmo tempo.

Esse é um conceito do qual ouvimos muito falar atualmente: o de multicausalidade. Ou seja, várias são as causas que fazem com que o indivíduo venha a desenvolver, em determinado momento de sua história, um transtorno mental.

No entanto, muitas vezes é difícil trabalharmos com esse concei- to em mente, pois não somos acostumados a avaliar situações como um todo, além de ficarmos achando que se encontrarmos uma única causa para o problema, o resolveremos mais depressa. Essa forma de raciocínio é tão tentadora que existem até muitos especialistas que fi- cam insistindo que a causa de tal transtorno mental é “apenas” física ou “apenas” emocional. O que acontece é que, com isso, acabamos vendo só um pedacinho do paciente e acabamos por não ajudá-lo a se ver por inteiro, dificultando o processo de melhora. Felizmente, profissionais com essa visão restrita estão ficando mais raros.

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Assim, precisamos tornar nossa visão mais ampla. Quando nos detemos a tentar conhecer mais as pessoas que estamos atendendo, saber do que gostam, de onde vêm, como vivem, torna-se mais fácil fazer uma idéia dos fatores que podem estar exercendo maior influên- cia no momento atual de seu transtorno.

De forma simplificada, podemos dizer que três grupos de fatores influenciam o surgimento da doença mental: os físicos ou biológicos, os ambientais e os emocionais.

5.1.1. Fatores físicos ou biológicos

O nosso corpo funciona de forma inte- grada, isto é, os aparelhos e sistemas se comu- nicam uns com os outros e o equilíbrio de um depende do bom funcionamento dos outros.

Muitas vezes podemos achar difícil de entender como sintomas tão “emocionais” como sentir-se culpado ou ter pensamentos re- petidos de morte ou ouvir vozes possam ter também uma base orgânica, mas ela existe. O envelhecimento, o abuso de álcool ou outras

substâncias são exemplos comuns. Em muitos casos essa base já pode ser identificada e descrita pelos especialistas, em outros casos ainda não.

O que se sabe é que sempre que temos alguma emoção, seja ela agradável ou desagradável, ocorrem uma série de trocas elétricas e quí- micas em nosso cérebro, o que já constitui, por si só, um fator orgânico.

Podemos definir os fatores físicos ou biológicos como sendo as alterações ocorridas no corpo como um todo, em determinado órgão ou no sistema nervosos central que possam levar a um transtorno mental.

Dentre os fatores físicos ou biológicos que podem ser a base ou deflagrar um transtorno mental, existem alguns mais evidentes, que avaliaremos a seguir.

a) Fatores genéticos ou hereditários

Quantas vezes já ouvimos dizer que fulano “puxou” o gênio do pai? Ou que tem “problema de cabeça” que nem a tia? Ou que é nervo- so que nem a mãe?

Quando usamos essas expressões, estamos nos referindo às pos- síveis heranças genéticas que possamos trazer em nosso comporta- mento e forma de ser.

O nome “genético” vem da palavra genes, que são grandes mo- léculas que existem dentro de nossas células contendo informações

Qualquer alteração no corpo como um todo é chamada de sistêmica.

Herança genética é tudo aqui- lo que “passa” do pai e da mãe para os filhos através de códigos que vêm inscritos em nossas células.

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P EAROF sobre como nosso corpo deve se organizar. As informações contidas nos genes são muitas e não são todas que utilizamos; algumas ficam guardadas.

Em Psiquiatria, os fatores genéticos ou hereditários têm sido muito falados ultimamente, muitas vezes em programas de televisão, sempre caracterizados como grandes descobertas. Isso porque embora popular- mente sempre se diga que a pessoa com transtorno mental o herdou de alguém da família, há muito tempo os cientistas tentam identificar se essa “herança” veio através do corpo ou do ambiente em que a pessoa foi criada. Atualmente, os avanços da Medicina têm permitido identifi- car alguns genes que possam ter influência no desenvolvimento de trans- tornos mentais.

No entanto, é importante deixar claro que quando se fala de fato- res genéticos em Psiquiatria, estamos falando de tendências, predispo- sições que o indivíduo possui de desenvolver determinados desequilíbrios químicos no organismo que possam levá-lo a apresentar determinados transtornos mentais.

Ainda assim, é uma grande armadilha acreditarmos que aí está “toda” a causa da doença mental, pois passamos a acreditar que a solu- ção do problema só estará neste ponto e deixamos de prestar atenção em todos os outros aspectos da pessoa que atendemos em sofrimento mental.

Dessa forma, a constituição genética precisa ser vista como uma “facilidade orgânica” para desenvolver um determinado transtorno mental, mas não há garantias de que, ao longo da vida do sujeito, tal fato ocorrerá, visto que dependerá de outros fatores para que tal “ten- dência” de fato se manifeste.

Em alguns filmes de ficção do futuro, vemos pessoas tendo car- tões magnéticos contendo informações sobre seu genoma (o “mapa” de seus genes), utilizados como carteira de identidade. Os cientistas afirmam que isto não está tão longe de acontecer. Imaginamos até que seja possível, mas esperamos que até lá a sociedade tenha evoluído o suficiente para não usar de forma preconceituosa tais informações. Ou talvez venhamos a descobrir que todos nós temos uma ou outra altera- ção genética que possa nos predispor ao transtorno mental.

b) Fatores pré-natais

As condições de gestação, dentre eles os fatores emocionais, eco- nômicos e sociais, o consumo de álcool, drogas, cigarro e de alguns tipos de medicação podem prejudicar a formação do bebê, gerando pro- blemas futuros que poderão comprometer sua capacidade adaptativa no crescimento e desenvolvimento, podendo facilitar o surgimento da doença mental.

Os genes se organizam den- tro de estruturas que se cha- mam cromossomas (tudo isso ainda dentro de cada célula do nosso corpo). Em cada célula existem 46 cromossomas, orga- nizados em pares. Todas as células de nosso organismo possuem os mesmos 46 cromossomas, menos as células germinativas, ou seja, os óvulos e os espermatozóides. Essas células contêm somente 23 cromossomas, apenas a meta- de das outras células do corpo.

Quando ocorre a fecundação, os cromossomas de uma e outra célula germinativa (espermatozóide e óvulo) se unem, formando pares, so- mando um total de quarenta e seis, dando início ao novo ser. Quando os cromossomos se unem, os genes neles contidos formam diferentes combina- ções, o que faz com que filhos dos mesmos pais tenham ca- racterísticas diferentes.

Há casos nos quais a influên- cia genética é determinante de um problema. Por exem- plo, a existência de um tercei- ro cromossoma no par 21 ge- rará, sem dúvida, a Síndrome de Down, que trará uma situa- ção de atraso mental para esse indivíduo. Isso nos infor- ma que esse indivíduo terá uma adaptação mais difícil ao mundo e que, portanto, necessitará de recursos espe- ciais, no caso a educação especializada.

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c) Fatores peri-natais

Peri-natal é tudo aquilo que acontece “durante” o nascimento do bebê. Em algumas situações o bebê pode sofrer danos neurológicos devido a traumatismos ou falta de oxigenação do tecido cerebral. Nes- ses casos, dependendo da gravidade desses danos, a criança poderá desenvolver problemas neurológicos (como, por exemplo, a epilepsia ou diversos tipos de atraso de desenvolvimento) que podem formar a base para futuros transtornos psiquiátricos. d) Fatores neuro-endocrinológicos

O sistema endócrino, que é responsável pela regulação do equilí- brio de nosso organismo, faz isso através da produção de hormônios pelas glândulas endócrinas (pituitária, tireóide). Acontece que esse sis- tema tem estreita ligação com o sistema nervoso central, havendo uma influência recíproca entre eles, isto é, o que acontece em um causa reações no outro e vice-versa.

Muitos estudos recentes têm mostrado a ligação entre mecanis- mos neuro-endocrinológicos e reações cerebrais. As mudanças hormonais podem influenciar nosso estado de humor e deflagrar até mesmo estados psicóticos como é o caso da psicose puerperal ou da tensão pré-menstrual (TPM).

e) Fatores ligados a doenças orgânicas

O transtorno mental pode também aparecer como conseqüência de determinada doença orgânica, tal como infecções, traumatismos, vasculopatias, intoxicações, abuso de substâncias e qualquer agente nocivo que afete o sistema nervosos central.

5.1.2. Fatores Ambientais Você acorda pela

manhã e percebe que o tempo mudou. O sol que havia ontem não apareceu hoje, faz frio e cai forte chuva. Ao se preparar para sair, com certeza você buscará roupas mais quentes e procurará se proteger com capa ou guarda chuva. Estamos, assim, procurando nos ajustar aos fatores ambientais (nesse caso, climáticos).

Na verdade, estamos o tempo todo procurando formas de nos adaptarmos, o melhor possível, ao que acontece à nossa volta. Tantos

Psicose puerperal - É um esta- do psicótico que pode ocorrer na mulher após o parto.

Por ambiente podemos definir tudo aquilo que está “fora do indivíduo, que não é inerente a ele, mas que está o tempo todo à sua volta”. Não há como não estabelecer trocas com o ambiente em que vive- mos, estamos o tempo todo interagindo com ele. Como você interage e se adapta ao ambiente em que você mora ou trabalha?

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P EAROF são os estímulos que sofremos que acabamos desenvolvendo maneiras características de reagir, muitas vezes supervalorizando as informações que nos chegam, outras vezes tornando-nos apáticos a elas. Que sensa- ção você experimenta quando entra em contato com as constantes (e massacrantes!) notícias de violência via rádio e televisão? As pessoas costumam ter diferentes reações: algumas tornam-se apáticas a elas, outras fazem uso do humor para digeri-las, outras tornam-se excessiva- mente medrosas, e assim por diante. Como exemplo, uma paciente pas- sou a pensar na possibilidade de fazer algum mal à sua pequena filha a partir de noticiários de rádio que relatavam maus tratos e até homicídi- os materno-infantis.

Os fatores ambientais exercem forte e constante influência sobre nossas atitudes e nossas escolhas diárias, tanto externa quanto interna- mente, isto é, como nos sentimos e enxergamos a nós mesmos. As rea- ções a cada estímulo ambiental se darão de acordo com a estrutura psíquica de cada pessoa, e essa estrutura psíquica estará intimamente ligada às experiências que a pessoa teve durante a vida. Assim se esta- belece uma relação circular entre todos os fatores geradores de trans- torno mental onde um ocasiona o outro.

Para melhor compreensão, podemos dizer que os fatores ambientais podem ser sociais, culturais e econômicos.

Como sociais podemos compreender todas as interações que te- mos com o outro, nossas relações pessoais, profissionais e com outros grupos. Estudos falam da importância das pessoas significativas em nossa infância e de como ficam marcadas em nós as suas formas de pensar e agir, assim como as reações que passamos a ter influenciam o nosso comportamento diante de outras pessoas. Se, com as pessoas importantes de nossa infância, aprendemos que existem pessoas que não são confiáveis e que devemos estar sempre atentos para não ser- mos enganados, possivelmente teremos dificuldades em confiar em al- guém mesmo em nossa vida adulta.

Entre os fatores ambientais culturais podemos lembrar de todo o sistema de regras no qual estamos envolvidos. Este sistema varia de país para país, de estado para estado, de grupo para grupo, e também de acordo com a época. Ou seja, noção de certo e errado, de bom e mau varia muito dependendo do local e época em que estamos. Os mitos, as crenças, os rituais que nos cercam, nos dão as noções de bem e mal que são aceitas pelos grupos aos quais pertencemos, seja ele o nosso país, o nosso grupo religioso, a nossa escola ou mesmo a nossa família.

Outro grupo de fatores ambientais que podemos perceber como exercendo influência sobre nós são os econômicos. Nesse tópico tan- to podemos nos referir à nossa possibilidade mais direta de aquisição de bens, ou seja, “nosso bolso”, quanto às atuais condições sociais, onde a miséria, aliada à baixa escolaridade, pode levar ao aumento da criminalidade e esta ao aumento de tensão em nosso dia-a-dia.

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Vale observar que todos estes grupos de fatores ambientais es- tão presentes tanto em meios menos extensos, como a família, quanto em meios mais amplos, como a própria humanidade.

5.1.3. Fatores emocionais ou psicológicos Continuamos tentando compreender o que, afi-

nal de contas, torna as pessoas diferentes umas das outras. O que faz com que se comportem de uma maneira e não de outra. Já abordamos os aspectos físicos e os ambientais e, não por acaso, deixamos para abordar os aspectos emocionais depois de bem compreendidos os anteriores. Isso porque, como já foi visto an- tes, os fatores influenciam-se entre si, mas no

caso dos aspectos emocionais estamos falan- do de formação de identidade, que se inicia jus- tamente com a conjugação dos aspectos físicos e ambientais.

Cada pessoa vem a este mundo como ser único, diferente de todos os outros. Cada um de

nós apresenta, mesmo ao nascer, uma forma de interagir com o mundo que influencia o comportamento de quem está à nossa volta e é influ- enciado por ele. Não é incomum as mulheres que possuem mais de um filho afirmarem que foram bebês totalmente diferentes: um dormia mais, outro chorava o tempo todo, ou estava sempre doente.

Também devemos lembrar que, quando nascemos, já trazemos conosco uma “história de vida”. Se fomos desejados ou não, se somos o primeiro filho ou o décimo, se nossa estadia na barriga foi tranqüila ou cheia de altos e baixos, se a mamãe fez uso de algum medicamento ou droga que tenha nos deixado mais agitados ou mais apagados, se tivemos ou não dificuldades maiores no parto, se fomos bem atendidos e fomos logo para perto da mamãe, ou se tivemos que ficar mais tempo longe (indo para uma UTI neonatal, por exemplo), se a mamãe ficou bem após nosso nascimento (disponível para gente) ou se teve, por exemplo, uma depressão puerperal.

Bom, estes são só alguns exemplos que mostram que nós já “bota- mos o pé na vida” com algumas características que nos são indivi- duais e que as interações que vamos estabelecer com o mundo, a partir de nosso nascimento, serão formadoras de um modo de ser caracteristicamente nosso, mais ou menos ajustado, ao qual chama- mos personalidade.

Pois bem, voltemos a pensar um pouco no “nosso bebê”...

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P EAROF Ao nascer, o bebê não tem ainda consciência de si mesmo e do

mundo à sua volta. Não consegue diferenciar suas sensações internas do mundo externo. Apenas consegue perceber sensações boas (prazerosas) e más (desprazerosas). A fralda molhada dá desprazer e ele chora. O colo da mamãe dá prazer (possivelmente lembra o conhecido aconchego do útero e dá segurança) e ele dorme.

Nessa seqüência, entre chorar e ser confortado, se dá um dos alicerces fundamentais para o restante da vida do bebê (e dificilmente a mãe se dá conta do papel fundamental desses momentos), pois, aos poucos, a criança vai cons- truindo a noção de confiança, que é o ponto de partida para sentimentos como segurança, otimismo e fé na vida adulta. Além disso a formação do vínculo afetivo com a mãe ou pessoa substituta faz com que o bebê ganhe condições para amadurecer e voltar-se para conhecer e experimentar o mundo.

Imagine-se chegando sozinho a um país estranho, onde você não conhece a língua, os costumes, nada (que sufoco, não?). Agora imagine que nesse lugar esteja te esperando alguém que fala a sua língua (que alívio!) e que pode te ensinar tudo quanto você precisa para se adaptar melhor. A mãe e o pai, ou pessoas substitutas, atuam mais ou menos como “guias turísticos” do mundo para o bebê que chega. A grande diferença é que o bebê é um “turista” até mesmo em seu próprio corpo, precisando de alguém para ajudá-lo a se conhecer.

Acontece que quando o bebê não tem suas necessidades atendi- das, ele não tem ainda a capacidade de suportar a sensação ruim para aguardar a boa. O bebê não diz para si mesmo: “Ah! Agora estou com fome, mas mamãe não pode me dar de mamar porque está tomando banho. Tudo bem! Quando ela sair do banheiro, eu choro de novo.” Não! Para o bebê recém-nascido, a fome é um desprazer tão intenso que, se não atendida, adquire tons de ameaça de destruição (mais ou menos como nos sentiríamos diante do fim do mundo). Nesses mo- mentos o bebê experimenta profunda sensação de desamparo.

A repetição constante de tais exposições à frustração, por perío- dos mais prolongados, pode levar o indivíduo, no futuro, a desenvolver uma série de transtornos mentais. Alguns autores identificam aí as raízes emocionais das psicoses e da famosa síndrome do pânico.

À medida que vai estabelecendo trocas positivas com as pessoas que cuidam dele, o bebê vai criando uma diferenciação entre ele e o restante do mundo (que, nesse momento, ainda são as pessoas mais próximas) e vai adquirindo uma certa tolerância à frustração e maior capacidade de espera, pois já consegue “antecipar” (fazendo uso da memória) a satisfação de suas necessidades.

Com a continuidade de seu crescimento e desenvolvimento, a criança vai adquirindo noções de julgamento de si e dos outros, isto é, vai internalizando as regras e proibições de seu ambiente e passando a captar a impressão que ela própria provoca no ambiente.

As experiências posteriores da criança podem aumentar ou diminuir os efeitos das pri- meiras experiências do bebê.

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Assim, entramos em contato com o ambiente social mais amplo pelas portas que abrimos nas relações com nossa família nuclear ou com outras figuras de sobrevivência de nossas vidas.

5.2 O que são os tais de id, ego e superego?

Sigmund Freud identificou cada uma das formas de funcionamento da estrutura psíqui- ca com nomes que nos parecem estranhos, pois têm sua origem na língua alemã.

Ao modo de funcionamento mais primi- tivo, aquele do bebê recém-nascido, onde pre- dominam os impulsos e sensações corporais de forma mais desorganizada, Freud chamou de id. Id seria o ponto de partida de todo ser hu- mano, a fonte básica de energia de nosso ser, que será organizada a partir de nosso contato com o ambiente.

O aparecimento da consciência eu/ou- tro, da capacidade de espera, mostra o

surgimento do ego (de acordo com as idéias de Freud). Ego é a parte de nós que lida com a realidade e negocia com ela as satisfações das necessidades geradas no id. Por exemplo, quando sentimos fome estamos detectando o surgimento de uma necessidade. Sabemos que para satis- fazermos esta necessidade precisamos comer algo porque lembramos de outras vezes em que isto aconteceu (memória já é uma atuação do ego). Podemos decidir se vamos para a cozinha, a uma lanchonete ou a um restaurante de luxo através da avaliação de quanto dinheiro temos para gastar com esta refeição (estamos buscando, na realidade, meios adequados para a satisfação de nossa necessidade).

O ego tem três tarefas básicas: a nossa auto-preservação, nosso auto-controle (não é porque sentimos atração sexual por alguém que vamos “atacar” tal pessoa) e nossa adaptação ao meio ambiente.

Quando o indivíduo sofre de transtornos mentais, as funções adaptativas do ego geralmente são afetadas, especialmente nos trans- tornos psicóticos que se caracterizam por um vínculo precário com a realidade externa.

À capacidade de julgamento moral (noção de certo e errado) que passamos a adquirir com o passar da infância, Freud chamou superego. Esta seria a parte de nós mesmos que se liga aos códigos morais de nosso ambiente e de nossa espécie. Ter essa noção de certo e errado

Id não pode ser comparado ao “diabinho” que nos leva a fazer coisas erradas. Por si só não é bom nem mau, é apenas nos- sa fonte de necessidades.

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P EAROF muitas vezes não chega a nos impedir de realizar determinadas ações, mas nos sinaliza que fizemos algo inadequado.

Estas três instâncias de nossa mente vivem, assim como o nosso corpo, em busca de um nível de equilíbrio que nos permita ter o máxi- mo possível de experiências boas e o mínimo de experiências ruins. Mas nem sempre isso é fácil. Muitas vezes nos encontramos dentro de situações das quais não gostaríamos de participar, mas não vemos ou- tra saída. Outras vezes, ainda, nos percebemos querendo e não queren- do alguma coisa ao mesmo tempo. Nessas situações se estabelecem conflitos dentro de nós.

Os conflitos podem ser extremamente desgastantes do ponto de vista emocional. Sempre em busca do equilíbrio, lançamos mão de “es- tratégias” que nos tirem pelo menos temporariamente daquela situa- ção. A essas “respostas de proteção”, que são, em geral, inconscientes e automáticas, chamamos mecanismos de defesa.

Os mecanismos de defesa não são, por eles mesmos, patológi- cos nem saudáveis. É o uso que fazemos deles e o grau de rigidez que estabelecemos internamente para seu uso que faz com que sejam mais ou menos favoráveis ao nosso ajustamento. Por exemplo, sair para cami- nhar pode ser uma excelente solução quando estamos prestes a “explo- dir” com alguém em determinada situação, mas se soubermos fazer isso para lidar com nossos conflitos, em breve estaremos em apuros.

5.3 Mesclando os três tipos de fatores

A partir de agora veremos alguns conceitos muito usados em Psi- quiatria, sendo muitas vezes apontados como constitutivos ou provo- cadores do transtorno mental, nos quais percebemos que há uma mes- cla dos fatores físicos, ambientais e emocionais.

5.3.1 Ansiedade é doença? Em nosso contato com a realidade, é comum desen-

volvermos sentimentos de felicidade e gratificação diante de sucessos e sentimentos de decepção e sofrimento diante de nossos insucessos. Diante de nossos sofrimentos passamos a detectar como “perigo” tudo aquilo que ameace nossa segu- rança e tranqüilidade, seja real ou imaginário. Costumamos também desenvolver uma série de reações diante das situa- ções que julgamos ameaçadoras, reações às quais chamamos ansiedade.

Geralmente o que chamamos de “doer a consciência” tem a ver com a atuação do superego.

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Saúde Mental

A ansiedade apresenta reações emocionais e fisiológicas. As re- ações emocionais são ligadas ao medo e se apresentam como descon- forto, intranqüilidade, apreensão. As reações fisiológicas são ligadas à tensão e aparecem como sudorese, taquicardia, opressão no tórax ou epigastro, dores musculares, cefaléia, boca seca, queimação no estô- mago, ou ainda diarréia, náuseas, vômito, tonturas, turvação na vista.

Ansiedade está intimamente ligada às situações de mudança, uma vez que teremos de sair do ritmo com o qual estamos acostumados, o que mexe com nossa segurança. Por isso, todos nós experimentamos ansiedade em vários momentos de nossas vidas. Ansiedade é uma emoção normal, como a tristeza ou a alegria, e até um certo ponto desejável, visto que pode estimular a inteligência e a criatividade, além de nos impulsionar para mudanças necessárias.

Podemos dizer que a ansiedade torna-se um transtorno quando mantém seu grau elevado por um período mais prolongado do que, por exemplo, alguma situação de crise que estejamos passando, e/ou quan- do se torna incapacitante, dificultando ou impossibilitando nossas ati- vidades cotidianas.

5.3.2 Por falar em crise... Crise é uma palavra das mais usadas atualmente. O país está em

crise, a saúde está em crise, o local onde trabalhamos geralmente está pas- sando por uma crise, o paciente “teve uma crise”, nós estamos em crise.

Mas o que quer dizer crise dentro da Saúde Mental? Existem coisas que acontecem uma vez ou outra em nossas vi-

das, e que podem nos parecer agradáveis ou desagradáveis, tais como ter um filho, ficar doente, perder o emprego etc. Essas situações muitas vezes nos pegam de surpresa e exigem que a gente busque uma forma de se adaptar. Costumamos chamá-las de crise, um con- ceito muito importante para quem procura compreender a pessoa com transtorno mental.

O termo crise foi inicialmente empregado em Psiquiatria em 1963, por Caplan e Lindemann, para descrever as reações de uma pessoa a situações traumáticas, tais como uma guerra, desemprego, morte de alguém querido.

Eric Erikson usou o mesmo termo para descrever as diversas etapas normais do desenvolvimento de uma pessoa, momentos nos quais ela teria que passar por mudanças. Ele identificou essas crises que ocorrem na vida de todos nós desde o nascimento até a morte (passando pela infância, adolescência, idade adulta e velhice) como crises evolutivas. Ele também nomeou as crises imprevisíveis, anteri- ormente descritas, como crises acidentais.

Em geral, na ansiedade tam- bém podem ser observadas reações comportamentais como irritabilidade, dificulda- des em conciliar o sono, difi- culdades em ficar parado, roer unhas, alterações de apetite, aumento no uso de álcool, cigarros e outras dro- gas ansiolíticas.

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P EAROF E qual é a importância de saber esse conceitos para quem vai

trabalhar com Saúde Mental? Acontece que verificou-se que muitos pacientes com transtornos

mentais haviam tido seus sintomas intensificados após atravessarem um período de crise. Outros tiveram seu primeiro episódio relativo ao transtorno mental em questão durante ou após o período de crise. E outros ainda sofreram alterações importantes de personalidade ao en- trar em um período de crise, fosse ela evolutiva ou acidental.

Isso quer dizer que devemos estar atentos não só ao que já acon- teceu ao paciente (história da doença atual), mas também ao que vem acontecendo, que possa estar gerando um nível maior de tensão. Muitas vezes o auxiliar de enfermagem é sentido como mais próximo pelo pa- ciente do que os “doutores”, e este sente-se mais à vontade em contar- lhe das dificuldades atuais que possam estar gerando alterações em seu quadro mental.

Outro ponto importante é procurarmos não “minimizar” a crise alheia, com palavras como: “Ah! É um período de crise, isso logo passa.” Crise é crise e, para cada pessoa, tem um peso diferente. Se ficarmos usando os nossos parâmetros para medir o sofrimento do ou- tro, perderemos o que há de mais importante no atendimento em Saúde Mental (e em geral): o contato com o paciente e a percepção real do transtorno em sua vida.

Só para encerrar a crise, ou melhor, o assunto, é interessante sa- ber que, no vocabulário chinês, crise aparece como a fusão de duas palavras: perigo e oportunidade. Vale pensar sobre isto, pois se as crises nos trazem sofrimentos por vezes profundos, também nos trazem as melhores oportunidades de mudança e crescimento pessoal.

5.3.3 Ansiedade... crise... e estresse são a mesma coisa? Hoje em dia, todo mundo se diz estressado. Estresse virou sinô-

nimo de irritação, cansaço, nervosismo, ansiedade, raiva e as mais di- versas sensações e emoções.

Na verdade o estresse foi conceituado, em princípio, como um conjunto de reações fisiológicas, comandadas pelo sistema nervoso autônomo, possivelmente desenvolvidas em nossa longa história de adap- tação ao mundo. Tais reações têm o objetivo de preparar nosso organismo para lutar ou fugir diante de uma situação de perigo, que, na época das cavernas, poderia ser, por exemplo, o ataque de algum animal.

Através dos tempos, o tipo de “perigos” aos quais podemos ser submetidos foram se modificando (e multiplicando), mas as reações

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Saúde Mental

fisiológicas permaneceram as mesmas. O estresse é uma resposta de adaptação do organismo ao meio.

É normal, por exemplo, que ao passarmos à noite por um lugar escuro e deserto e vendo dois sujeitos estranhos vindo em nossa dire- ção, nosso coração dispare (para enviar mais sangue aos músculos), nossas mãos fiquem frias (pois maior aporte sangüíneo está nos gran- des músculos), nossa pele fique pálida (assim evitamos maior sangramento, caso soframos algum ferimento), enfim ..., que nosso or- ganismo, com sua “sabedoria” milenar, se prepare para uma emergên- cia, na qual ele vai precisar reunir energias para lutar ou fugir.

No entanto, não é normal nem desejável que estejamos em cons- tante estado de alerta, sempre prontos para respostas de emergência, pois o nosso organismo tem gastos excessivos de energia nesses mo- mentos e precisa de um tempo para se recuperar.

O problema é que, hoje em dia, multiplicaram-se em milhões as situações sentidas como perigosas, causadoras de ansiedade e deflagradoras da resposta de estresse. O que antes era o medo de um animal feroz, hoje é o trânsito, o chefe difícil, a ameaça de desemprego, o resultado de algum exame importante, enfim tudo pode concorrer para nos manter em estado quase constante de estresse.

Tanto o estresse crônico quanto o agudo podem ser precipitadores de quadros de sofrimento mental, não só pelas inúmeras reações fisio- lógicas, como também pelas emocionais que provocam.

A crise pode ser entendida como um agente estressor, ou seja, que leva a respostas de estresse. Como já dito antes, precisamos estar atentos para os fatores de estresse na vida atual das pessoas a quem atendemos e também estar atentos para que não imponhamos a eles mais situações estressantes desnecessárias.

Um indivíduo chega a um centro de saúde ansioso por sua consulta com o psiquiatra, que havia sido marcada há algumas semanas. Após alguns minutos é informado pela auxiliar de en- fermagem que havia um engano na marcação, pois aquele não era mais o dia do médico na instituição. O paciente, apresentan- do evidentes sinais de estresse, reafirma em voz alta a sua neces- sidade de atendimento, ao que a auxiliar de enfermagem respon- de, com certa irritação, que nada tem a fazer (ignorando os sinais apresentados). O paciente então perde o controle, começando a atirar objetos e virar móveis. Enquanto é chamado o reforço da segurança, outro profissional de enfermagem consegue conver- sar com Seu João e este, sentindo-se ouvido, informa que possui epilepsia, faz uso de anticonvulsivantes, os quais acabaram há duas semanas, expondo sua necessidade urgente de nova receita,

O estresse crônico pode agir em nossas defesas mais ou menos como “água mole em pedra dura...”, enquanto o estresse agudo às vezes é como uma grande quantida- de de explosivos – vai pedra para todo lado.

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P EAROF

já que tem sofrido crises convulsivas graves, tendo sido quase atropelado ao apresentar uma delas durante a travessia de uma rua. Fala que teme por sua vida e que tem estado muito nervoso. Quando chegam os seguranças, encontram Seu João arrumando a desordem que havia feito e indo, em seguida, aguardar por con- sulta com outro médico.

6 - CLASSIFICAÇÃO DE TRANSTORNOS MENTAIS E DE COMPORTAMENTO

Embora saibamos que o essencial é lidar com a história individual de cada paciente, procurando a forma de cuidado que mais atende às suas necessidades, não podemos deixar de tomar conhecimento dos sinais, sintomas e diagnósticos mais comuns em psiquiatria.

O fato de termos uma idéia do transtorno do qual o indivíduo sofre não quer dizer que saibamos tudo sobre ele, ou que haja uma conduta padronizada para lidar com ele, mas nos faz ficarmos atentos para alguns pontos importan- tes em seu tratamento e compreendermos a linguagem pro- fissional. Assim, fica claro que o diagnóstico é algo que aju- da o profissional em sua organização e não um letreiro que o paciente terá que carregar à sua frente onde quer que vá.

Mas como podemos identificar o transtorno mental? Onde passa a linha divisória, que separa o normal do patoló- gico, mentalmente falando?

6.1 Métodos diagnósticos em Psiquiatria

Existem várias técnicas de exploração e avaliação que podem colaborar para o levantamento de uma hipótese diagnóstica em Psiqui- atria. Dentre os mais conhecidos, podemos citar: entrevista, testes e questionários psicológicos e explorações neurofisiológicas, por neuroimagem ou neuroquímicas.

A entrevista é um método essencial a qualquer avaliação do pa- ciente psiquiátrico. Geralmente se dá no primeiro contato com ele e,

O que você acha dessa situa- ção? O que consegue perce- ber da importância do que temos visto até agora para a atuação do auxiliar de enfer- magem ?

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Saúde Mental

embora pareça, não se constitui numa simples “conversa” com o paci- ente, mas na observação, coleta de dados e tentativa de compreensão do papel da doença na vida daquele indivíduo.

Os testes e questionários psicológicos são instrumentos pró- prios de utilização pelo psicólogo, que colaboram com a compreensão diagnóstica do indivíduo.

As explorações neurofisiológicas, onde podemos incluir o eletroencefalograma (EEG) e o Registro Poligráfico do Sono, são mais usados em detecção de causas de transtornos do sono, tais como a apnéia do sono.

As explorações por neuroimagem, dentre as quais podemos citar a ressonância magnética nuclear (que permite avaliar parte da fun- ção mental), a tomografia axial computadorizada cerebral (onde se faz várias radiografias do cérebro com contraste aplicado por via endovenosa, estando indicado em casos em que se suspeita de trans- tornos de base orgânica), a tomografia de emissão de pósitrons (tam- bém chamada PET, constitui-se em uma técnica mais evoluída para definir melhor alguns diagnósticos) e fluxo sangüíneo regional cerebral. Tais técnicas têm uso muito específico, a critério médico.

As explorações neuroquímicas, que incluem provas onde se podem perceber algumas alterações determinantes de alguns quadros, como a depressão, por exemplo.

As técnicas exploratórias ligadas aos aspectos físicos são de uso específico, limitado e ainda pouco freqüente, com exceção do eletroencefalograma, que na verdade acaba por constituir a demanda de muitos pacientes, que procuram o serviço para “bater um eletro”.

Já a entrevista constitui-se como método primordial de avalia- ção, onde, além de se colher a história do paciente, também se está atento para os sinais e sintomas dos transtornos mentais. No entanto, chegar a um diagnóstico psiquiátrico correto nem sempre constitui ta- refa fácil e muito menos imediata.

6.2. Sinais e sintomas de transtornos mentais

Os sinais e sintomas também precisam continuar sendo observa- dos e registrados por toda a equipe que atende o paciente a fim de manter uma avaliação dinâmica dele e ajustar o tratamento sempre que se faça necessário. Nesse aspecto, a participação do auxiliar de enfer- magem é essencial, devendo este conhecer os sinais e sintomas mais comuns e estar atento a suas manifestações nos pacientes a fim de transmiti-las ao restante da equipe.

Vale lembrar que o eletroencefalograma não é capaz de detectar todos os transtornos mentais (nem mesmo a maioria), e que não apresentará a solução para os “problemas de cabeça”, como acham alguns pacien- tes (que inclusive se acham pouco assistidos se “o doutor não passa nem um eletro”).

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P EAROF Vamos descrever alguns sinais e sintomas das principais funções

psíquicas. Em um transtorno mental podem estar presentes vários de- les ao mesmo tempo, assim como um mesmo sintoma pode pertencer a quadros psíquicos diversos. Nem sempre os nomes são muito fáceis de serem gravados, mas é importante para o auxiliar de enfermagem engajado na Saúde Mental ter melhor compreensão dos termos usados pelo restan- te da equipe a fim de estabelecer com ela uma troca adequada.

6.2.1 Alterações da sensopercepção Sensopercepção é a capacidade que desenvolvemos de formar

uma síntese de todas as sensações e percepções que temos a cada mo- mento e com ela formarmos uma idéia do nosso próprio corpo e de tudo o que está à nossa volta. Para isso, fazemos uso de todos os nossos órgãos dos sentidos.

As alucinações, típicas dos estados psicóticos, não costumam constituir um nome estranho, especialmente para quem trabalha em um setor de psiquiatria, mas, às vezes, são confundidas com outras altera- ções. As alucinações são sensações ou percepções em que o objeto não existe, mas que é extremamente real para o paciente, e ele não pode controlá-las pois independem de sua vontade. Assim, numa alucinação auditiva, o paciente não dirá “parece que ouço vozes”, e sim “as vozes voltaram e estão me dizendo para não escutar o que você diz”. As alu- cinações podem ser auditivas, visuais, gustativas, olfativas, táteis, cinestésicas e das relações e funções corporais.

Nas ilusões, ao contrário das alucinações, o objeto percebido exis- te, mas sua percepção é falseada, deformada. O paciente pode, por exem- plo, estar convencido que o teto está baixando e que poderá esmagá-lo.

6.2.2 Alterações do pensamento Pensamento é o processo pelo qual associamos e combinamos

os conhecimentos que já adquirimos no mundo e chegamos a uma con- clusão ou a uma nova idéia. Inicia-se com uma sensação (visão, olfato, paladar, audição e tato) e conclui-se com o raciocínio, que é caracteri- zado pela associação de idéias.

Podem ser classificadas de acordo com a direção ou com o con- teúdo do pensamento.

a) Alterações da direção do pensamento:

Na inibição do pensamento, este se apresenta lentificado, pou- co produtivo, com pobreza de temas. O indivíduo costuma falar em

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Saúde Mental

voz baixa e fica “ruminando” sempre as mesmas idéias. É uma altera- ção típica dos quadros depressivos.

Ao contrário da alteração anterior, na fuga de idéias o indiví- duo tem um aporte tão grande de idéias que não consegue concluí-las. Em geral possui boa fluência verbal e possui grande dificuldade de interromper o fluxo do seu pensamento, que é contínuo. O indivíduo “emenda” um assunto no outro de tal maneira que torna difícil sua compreensão. Bastante típico dos quadros maníacos.

Quando o indivíduo constrói sentenças corretas, muitas vezes até rebuscadas, mas sem um sentido compreensível, fazendo associa- ções estranhas, tem-se a alteração de desagregação do pensamento, que é típica da esquizofrenia. Um bom exemplo é a seguinte frase “se você não gostava de jaca porque roubou minha bicicleta?”

b) Alterações do conteúdo do pensamento

As idéias sobrevalorizadas e obsessivas apresentam-se como idéias que assumem papel central no pensamento do indivíduo. Ele mantém um discurso circular, retornando a elas por mais que se tente diversificar o assunto.

Já as idéias delirantes são idéias que não correspondem à rea- lidade, mas que para o indivíduo são a mais pura verdade. Tais idéias assumem a característica de serem indiscutíveis mesmo com a mais pro- funda lógica, pois o indivíduo fundamenta-as em uma lógica à parte.

6.2.3 Alterações da linguagem Podem se tratar de alterações na articulação da linguagem ou no

uso da mesma. A logorréia é a fala acelerada e compulsiva; a gagueira é a repetição de sílabas, com dificuldade para dar início e prossegui- mento à fala.

Na ecolalia há repetição, como em eco, das últimas palavras pro- feridas por alguém; na glossolalia, o paciente usa a linguagem de for- ma estranha e incorreta, muitas vezes com a criação de novos termos, incompreensíveis (neologismos).

No mutismo, o indivíduo mantém-se mudo, sendo comum em estados depressivos e de esquizofrenia catatônica.

6.2.4 Alterações da consciência A consciência é que faz de nós mesmos seres psíquicos vincula-

dos à realidade. É através dela que nos damos conta de nossas sensa- ções, percepções, de nosso ser. Sua alteração apresenta várias formas.

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P EAROF O delírio é uma alteração transitória na qual o paciente não con-

segue reter, fixar e evocar informações, a atividade mental organizada é reduzida. O ciclo sono-vigília geralmente é desorganizado, pois tende a oscilar durante o dia e ser mais marcante à noite, isto é dorme e logo após acorda em crise de delírio.

A despersonalização e desrealização acontece quando o indi- víduo não reconhece a si e o que o rodeia, perdendo a sensação de familiaridade, deixando de reconhecer a própria identidade. Já quando apresenta estranhamento ou não reconhecimento de partes do próprio corpo denomina-se alterações da consciência corporal, como no caso de uma jovem que ao ser questionada quem era sua acompanhante, respondeu: “Ela diz que é minha mãe”.

Nos estados crepusculares, o paciente pode aparentar estar em pleno domínio de sua consciência, mas há um estreitamento da mesma. É como se o paciente estivesse totalmente voltado “para dentro”. Mos- tra-se psiquicamente ausente, age “no automático” e sem objetivos cla- ramente definidos. Muito comum em pessoas com epilepsia, em mo- mentos que antecedem à crise.

Quando o indivíduo não consegue ter uma percepção globalizada das situações, havendo geralmente considerável diminuição no padrão de sensopercepção, pouquíssimo entendimento das impressões senso- riais e lentidão da compreensão denominamos de obnubilação. Nor- malmente, a pessoa mostra-se confusa.

No estado de confusão, o indivíduo não consegue falar nem pen- sar “coisa com coisa”, não consegue integrar coerentemente o que está vivendo, e a ligação que faz entre o que vê, ouve, fala sente e pensa, ocorre de forma muito estranha.

Já no estupor o indivíduo entra em um estado de profunda alte- ração sensorial, onde praticamente não se consegue estimulá-lo, sendo somente possível mediante estímulos muito potentes. O coma é a falta total de consciência.

A hipervigília caracteriza-se por um aumento do estado de vigí- lia, o que dá uma sensação de “estar ligado”, porém não quer dizer que haja aumento de atenção. Na maioria das vezes ocorre o oposto.

6.2.5 Alterações da atenção e da orientação Atenção é quando se focaliza seletivamente algumas partes da

realidade. Para que aconteça, é necessário que o indivíduo esteja em estado de alerta (desperto). Como alterações mais comuns, podemos citar a dificuldade de concentração ou inatenção e a mudança cons-

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Saúde Mental

tante de focos de atenção ou distração, que podem vir a acontecer nos casos em que estamos sob efeito do sono ou de alguma droga, sem que com isso se configure em uma alteração duradoura.

Orientação é a capacidade de integrar informações a respeito de dados que nos localizem, principalmente, no tempo e no espaço (dados estes que dependem também da memória, atenção e percep- ção). Como alterações podemos citar a desorientação, onde o pacien- te é incapaz de relacionar os dados a fim de perceber onde e em que época se encontra, e a dupla orientação, onde o indivíduo oscila entre uma orientação adequada e uma inadequada, misturando os dados, como um paciente que sabe que mudou de século, mas continua afirmando estar em 1959.

6.2.6 Alterações da memória Por memória podemos entender todas as lembranças existentes

na consciência. Suas alterações podem ser quantitativas ou qualitativas. A hipermnésia é alteração em que há clareza excessiva de al-

guns dados da memória. De forma contrária, a amnésia é a impossibi- lidade de recordar total ou parcialmente fatos ocorridos antes do início do transtorno (amnésia retrógrada), após o seu início (amnésia anterógrada) ou fatos isolados (amnésia lagunar). A amnésia pode ain- da se dar como uma defesa, suprimindo da memória fatos muito carre- gados afetivamente (amnésia afetiva).

Já a paramnésia constitui-se de distorções dos dados da memó- ria. Pode ocorrer um falseamento na recordação de determinados fatos (paramnésia da recordação), ou ainda ao lançar mão dos dados da me- mória para reconhecer alguém, alguma coisa ou lugar (paramnésia de reconhecimento).

6.2.7 Alterações da afetividade Muito resumidamente, podemos dizer que afetividade consti-

tui-se na capacidade de experimentar sentimentos e emoções. Dentre suas alterações, podemos citar a labilidade afetiva em que ocorre mudança dos estados afetivos sem causa externa aparente. Por exem- plo, o paciente pode mudar da mais profunda tristeza para a mais es- trondosa alegria em segundos, alternando estes estados.

Na tristeza patológica, a pessoa sente profundo abatimento, baixa auto-estima, geralmente acompanhados de tendência para o iso- lamento, choro fácil, inibição psicomotora, sendo característica da de- pressão.

É comum que algumas pes- soas achem “graça” do indiví- duo desorientado, muitas ve- zes ironizando os dados que ele apresenta. Esta, obvia- mente, não deve ser a atitude do auxiliar de enfermagem, pois por mais desorientado que esteja, o paciente percebe esse tipo de reação e sente-se bastante desamparado.

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P EAROF Na alegria patológica, o paciente mostra-se eufórico, agitado,

com elevada auto-estima, verborréia, grande desinibição, sendo carac- terística de episódios de mania.

6.2.8 Alterações do sono Podem ocorrer como um sintoma ou como o próprio transtorno

mental, ou ainda, como reação adversa a determinados medicamentos. Encontramos mais facilmente a insônia, que é a falta de sono durante uma parte ou toda a noite (ou período habitual de sono do indivíduo). Pode ser inicial (a pessoa custa a “pegar no sono” – mais característica de quadros de ansiedade), ou terminal (a pessoa acorda de madrugada e não consegue voltar a dormir – mais característico da depressão). Já a narcolepsia é sono em excesso durante todo o dia.

6.2.9 Alterações do Movimento Na estereotipia, o indivíduo costuma repetir continuamente e

sem necessidade determinados movimentos, sem que haja uma lógica facilmente observável.

Já os tiques são movimentos rápidos e involuntários, também repetitivos.

E a catalepsia que é uma atitude de imobilidade, tal como se fosse uma estátua, mantida pela pessoa inclusive com posturas aparen- temente incômodas. Típica da catatonia

6.3 Principais tipos de transtorno mental

Diagnosticar um transtorno mental não é tarefa das mais fáceis. Justamente por essa razão podemos encontrar várias teorias dos trans- tornos mentais, algumas mais voltadas para os mecanismos psicológi- cos, outras mais voltadas para os ambientais ou biológicos. No entanto, percebe-se a necessidade de que os profissionais “falem a mesma lín- gua”, a fim de que troquem melhor as informações e experiências que possuem. Assim, são cada vez mais utilizadas as classificações interna- cionais de doenças mentais. Para fazer essas classificações, várias co- missões de profissionais reúnem-se a fim de ter soluções de consenso. As mais usadas atualmente são o DSM-IV (Manual Diagnóstico e Esta- tístico de Desordens Mentais, em sua quarta versão) e a CID-10 (Clas-

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Saúde Mental

sificação Internacional de Doenças – décima revisão), realizado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e mais usado em nosso país.

A CID 10, em seu capítulo V, que constitui um volume separado, especifica os transtornos mentais e de comportamento, usando como critérios de classificação os próprios sinais e sintomas de cada quadro mental, não procurando buscar explicações de suas causas. Isso é compreensível, uma vez que sua intenção é uniformizar a linguagem dos profissionais, não suas cabeças. Nessa revisão, foi usado o termo trans- torno ao invés de doença ou distúrbio, como antes aparecia, a fim de evitar os problemas inerentes a esses termos, tais como a discriminação.

Transtorno é, assim, usado para definir um conjunto de sinto- mas que geralmente envolvem sofrimento pessoal e interferência nas funções que o indivíduo necessita exercer em sua vida.

O transtorno mental precisa ser identificado para que possa re- ceber tratamento adequado. Embora não seja objetivo da equipe de enfermagem elaborar diagnósticos psiquiátricos, é muito importante que deles tome conhecimento a fim de que possa fazer a sua parte no tratamento do paciente.

A seguir veremos um resumo das características presentes nos principais transtornos mentais.

6.3.1 Transtornos mentais orgânicos Podem aparecer com uma enorme gama de sintomas, inclusive

idênticos a outros transtornos, mas sua causa é comprovadamente or- gânica, seja por doença degenerativa, lesão ou doença sistêmica que leve a uma disfunção do cérebro. Esse tipo de transtorno pode ocorrer em qualquer idade, podendo ser transitório ou não, dependendo da possibilidade de reversão de sua causa primária.

Dentre os quadro mentais orgânicos, os demenciais merecem aten- ção especial devido à sua freqüência. Na verdade, dificilmente haverá algum de nós que não se recorde de algum conhecido, amigo ou famili- ar que apresente tais sintomas.

De acordo com a CID-10, demência pode ser caracterizada como um conjunto de sinais e sintomas, isto é, uma síndrome causada por alguma doença cerebral, onde encontraremos perturbações de vários aspectos do funcionamento mental, tais como memória, pensamento, compreensão, cálculos, capacidade de aprendizagem, orientação, lin- guagem e julgamento, não havendo, no entanto, obnubilação da cons- ciência. Podem-se observar também diminuição progressiva de com- portamentos de adaptação, como o controle de esfíncteres, hábitos de higiene e alimentação, por exemplo, e do próprio controle emocional, o

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P EAROF que leva a maioria das pessoas a dizerem que a pessoa está “voltando a ser criança”. Podemos citar a doença de Alzheimer e as demências vasculares, mas elas podem ocorrer em outros quadros.

6.3.2. Transtornos do humor Geralmente oscilamos entre um es-

tado de ânimo mais elevado (elação) e um mais baixo. Quem nunca acordou indispos- to para uma atividade, ou nunca se sentiu “eufórico” com alguma boa notícia? No entanto, isso não costuma prejudicar nos- sas atividades diárias. Quando o indiví- duo fica fixado em uma destas polarida- des, ou varia entre elas de forma muito intensa, a ponto de começar a prejudicar sua vida habitual, podemos falar em transtornos do humor.

Os transtornos do humor são tam- bém chamados transtornos afetivos, pois se caracterizam principalmente por dificul- dades na área do afeto, que é nossa capaci- dade de vivenciarmos internamente nos- sos sentimentos.

A depressão não é o mesmo que “baixo astral”, por mais que esteja incluída na gíria como “fulano está na maior ‘deprê’ ”. Ao contrário da tristeza comum, a depressão caracteriza-se por um estágio mais pro- longado e grave de abatimento do humor. A pessoa com depressão apre- senta tristeza patológica com perda da auto-estima, normalmente recla- ma de falta de ânimo, cansaço fácil e de não sentir interesse por nada.

Outros sintomas identificados na CID-10 são: concentração e atenção reduzidas, autoconfiança reduzida, idéias de culpa e inutilida- de, visões desoladas e pessimistas do futuro, idéias ou atos auto- destrutivos ou lesivos ou suicídio (dependendo da gravidade do episó- dio) e dificuldades em relação ao sono e apetite.

Este é um transtorno muito freqüente (em torno de 20% dos pa- cientes em geral). Pode apresentar-se em diferentes graus, podendo ser leve, moderada ou grave, mais incapacitante em alguns casos, menos incapacitante em outros. Algumas pessoas, embora sentindo-se todo o tempo mal e deprimidas, continuam desempenhando suas atividades cotidianas. Quando este humor permanece um tempo igual ou superior a dois anos, denominamos distimia.

Como a pessoa não tem inte- resse por si mesma, dificil- mente se interessará em bus- car e manter um tratamento.

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Saúde Mental

Quanto à causa, a depressão pode ser dividida em endógena, psicogênica ou somatogênica.

A depressão endógena é vista como de origem interna, indefi- nida. Embora o primeiro episódio possa se dar após alguma perda ou crise, os outros geralmente não apresentam causas observáveis. Geral- mente é uma forma grave de depressão, apresentando grande risco de suicídio (10 a 15% dos casos). Antigamente era chamada de depressão psicótica. Responde melhor a tratamento medicamentoso.

A depressão psicogênica tem suas causas mais facilmente lo- calizadas na história de vida do indivíduo, que apresenta fatos que o levaram aos sintomas. Tanto que já foi chamada de depressão reativa ou situacional. Os sintomas são menos graves que na depressão endógena, e o risco de suicídio, embora existente, é menor. Responde melhor à psicoterapia do que ao tratamento medicamentoso.

A depressão somatogênica é aquela causada por algum fator de alteração principalmente orgânico, como o uso de algumas medica- ções (por exemplo, alguns tipos de anti-hipertensivos, anti-inflamatóri- os e contraceptivos orais) ou ainda a interrupção do uso de psicoestimulantes.

Os episódios de mania caracterizam-se como o oposto da de- pressão. O indivíduo apresenta um ritmo acelerado, fala muito (e geral- mente alto), trocando constantemente de assunto (fuga de idéias), movimenta-se amplamente, tem energia de sobra, tanto que, muitas vezes não consegue dormir (hiperatividade). Mostra-se eufórico, com auto-estima exagerada (achando que pode tudo), a sexualidade também pode estar exacerbada, gosta de atrair atenções. Não acha que tenha pro- blema algum, o que muitas vezes prejudica a aceitação do tratamento. Às vezes, evolui para um episódio claramente psicótico e a pessoa pas- sa a apresentar delírios, alucinações e comportamento estranho.

Como na depressão, também há uma variedade de graus de gra- vidade, sendo o mais leve a chamada hipomania, caracterizada por euforia, hiperatividade e desinibição mais leves.

A pessoa com transtorno bipolar geralmente apresenta uma variação de estados de humor, ora apresentando mania, ora apresen- tando depressão. Essas variações podem se dar em intervalos de dias, semanas ou meses, e é comum falarmos em “fase de mania” e “fase depressiva”. Na verdade, uma pessoa muito raramente apresenta ape- nas mania, como descrito no item anterior, o mais comum é que ela intercale episódios maníacos com episódios depressivos. O transtorno bipolar também pode se apresentar de forma mais grave ou mais leve, quando é chamado de ciclotimia.

Um indivíduo portador de transtorno psicótico é o que mais se aproxima da idéia popular de “louco”. Uma pes- soa com psicose está com pouco contato com a realida- de, já que apresenta distúrbi- os do pensamento, do senti- mento e da ação. Com trans- tornos desse tipo, ela pode “ouvir vozes” ou “ver coisas” que objetivamente não exis- tem ou ter idéias estranhas e irreais.

Euforia – É uma alegria exa- cerbada.

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P EAROF 6.3.3. Transtornos de ansiedade Sabemos que a ansiedade faz parte de todos nós. Como sintoma,

ela pode aparecer em vários transtornos. Nos transtornos de ansiedade, entretanto, ela aparece como sintoma central.

Os transtornos de ansiedade constituem grande parte da deman- da psiquiátrica e envolve um grande grupo de classificações de trans- tornos, dos quais veremos os principais:

O paciente com Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG) é, normalmente, considerado um paciente difícil, pois permanece em constante estado de irritabilidade, impaciência, apreensão. Geralmente ele reclama de tensão, suores constantes (frios ou não), sensação de “cabeça leve”, tonteiras, mal-estar gastrintestinal, palpitações e dificul- dade para dormir. A pessoa com TAG costuma mostrar-se constante- mente preocupada. O fato é que se trata de uma ansiedade “impossível de controlar” sem o tratamento adequado, fazendo com que a pessoa tenha suas atividades limitadas.

Algumas vezes dizemos, descompromissadamente, que tal pes- soa é “hipocondríaca” por acharmos que vive com mania de doença. Estamos, nesse caso, cometendo dois graves erros: o primeiro é que a pessoa com TAG não tem mania de doença e sim sintomas físicos de ansiedade (que também se expressa por essa via). O segundo é que hipocondria é um transtorno totalmente diferente e específico, que será visto mais tarde. Se a pessoa que faz tal comentário for um auxiliar de enfermagem deverá ficar atento para seus sentimentos e sua conduta com tais pacientes, a fim de não cometer um terceiro erro, que seria desvalorizar seus sintomas, demonstrando impaciência com esse tipo de paciente.

Nos Transtornos Fóbico-Ansiosos, os sintomas de ansiedade ocorrem diante de objetos ou situações bem definidos, que não costu- mam causar temor nas pessoas em geral. Geralmente os sintomas pio- ram, a um nível sentido como insuportável, diante de tais objetos e situações, o que faz as pessoas evitá-los a qualquer preço, desenvol- vendo, muitas vezes, comportamentos estranhos - de evitação, que pas- sam a fazer parte do quadro. Tais transtornos também são chamados de fobias, que podem ser social, específicas ou agorafobia.

A fobia social é o medo de expor-se mesmo para grupos peque- nos e situações informais. A pessoa geralmente conta com uma auto- estima rebaixada e não é incomum que procure o isolamento como for- ma de evitação do medo. Costuma comprometer muito a vida da pes- soa, visto que ela passa a perder boas oportunidades, muitas vezes até no trabalho, pela necessidade de “passar despercebida”.

As fobias específicas referem-se ao medo de objetos ou situa- ções específicas, tais como avião, altura, animais. Às vezes passa des-

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Saúde Mental

percebida durante um tempo, pois a pessoa vai procurando evitar o estímulo temido, até um ponto em que o próprio comportamento de evitação passa a se tornar um problema.

Já a agorafobia constitui-se em medo excessivo de espaços aber- tos, multidões e situações em que haja dificuldade de fuga (lojas, su- permercados, teatros, transportes coletivos, túneis, elevadores) e de ficar sozinho, mesmo que seja em sua própria casa. A ansiedade pode chegar ao pânico. Esta é a mais incapacitante de todas as fobias.

Muito divulgado por vários meios de comunicação, o Transtor- no de Pânico parece uma nova doença, embora isso não seja verdade, pois vem sendo descrita na literatura psiquiátrica há muito tempo.

O transtorno de pânico caracteriza-se por ataques de pânico re- correntes e sem motivo inicial aparente. Nesses ataques de pânico, a pessoa experimenta diversos sintomas característicos de alteração do sistema nervoso autônomo, tais como: coração acelerado, respiração rápida e sentida como ineficiente, dor no peito ou no estômago, suores, tremores, dormências, tonturas, náuseas e outros.

Mas o principal desses ataques é a sensação de terror que a pes- soa experimenta diante da nítida sensação de que vai morrer ou perder totalmente o controle (ter um desmaio ou ter uma amnésia irreversível). Na verdade, essa sensação é tão real que a pessoa passa a temer outro ataque de pânico, passa a ter medo de ter medo. Com isso, passa a desenvolver comportamentos evitativos em relação às situações em que se encontrava em cada ataque de pânico, desenvolvendo uma agorafobia correlata.

O Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC) é um transtorno de ansiedade no qual o indivíduo desenvolve pensamentos ou ações repetitivas que ele próprio considera na maioria das vezes como inapropriadas, mas que não consegue controlar, muitas vezes porque acredita que algo trágico ocorrerá a si ou a outros caso ele não as exe- cute. Por exemplo, diante de um pensamento obsessivo de que há do- enças espalhadas por todo o ar e que poderá contraí-las a qualquer momento através de sua pele, o indivíduo com TOC poderá desenvol- ver o ato compulsivo de tomar longos e repetidos banhos, o que na verdade é um comportamento evitativo da ansiedade que pode causar- lhe imaginar-se doente.

Esse é um transtorno que pode ser extremamente incapacitante, pois, dependendo do grau em que se encontra, o indivíduo fica preso em uma série de rituais, não conseguindo, muitas vezes, realizar nem mesmo tarefas de organização diária a contento. Além disso, depen- dendo do ato compulsivo realizado, a pessoa pode provocar lesões em si mesma, como por exemplo na lavagem quase contínua das mãos.

No Transtorno de Estresse Pós-Traumático o paciente refe- re geralmente um evento fortemente traumático (estupro, catástrofes,

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P EAROF seqüestros), muito gerador de estresse e a partir do qual passou a de- senvolver repetidos episódios nos quais, mediante a lembrança do even- to, desenvolve toda uma série de reações como entorpecimento, ausên- cia de respostas aos estímulos do ambiente, sonolência excessiva, redu- ção da memória ou concentração.

6.3.4 Transtornos dissociativos Antigamente chamados de histeria de conversão, os transtornos

dissociativos são aqueles em que o paciente parece perder, parcial ou totalmente, o controle entre suas funções de memória, sensopercepção, idéia de si mesmo e movimentos corporais. Dentre os tipos de dissociação que o paciente pode apresentar observa-se: a amnésia dissociativa (esquecimento de situações traumáticas ou estressantes), o estupor dissociativo (a pessoa mantém-se imóvel, sem responder ao ambiente), transtorno de transe ou possessão (a pessoa age como que possuída por outra personalidade, espírito ou força), dissociação de movimento e sensação (o indivíduo deixa de sentir ou de conseguir movimentar alguma parte do corpo) e convulsões dissociativas (são convulsões incompletas, onde não ocorre perda total da consciência).

Para que um transtorno seja considerado dissociativo, é necessá- rio que se comprove a ausência de uma causa física para o problema, além de geralmente se perceber alguma relação com evento traumático. Este é comumente um paciente que pode gerar reações negativas na equipe que o atende, pois é muitas vezes considerado “pitiático” ou “fricoteiro”.

6.3.5 Transtornos somatoformes Os pacientes com esse tipo de transtorno são aqueles que vão

repetidamente à clínica geral, com queixas de problemas físicos que não são identificados como de causa orgânica, o que não lhes satisfaz, fazendo com que solicitem continuamente novas investigações (às ve- zes mudando de um médico para outro). Só conseguem identificar seu “mal estar” como tendo origem no corpo, o que faz com que geralmen- te resistam a um encaminhamento para o setor de Saúde Mental, ou se sintam, até mesmo, ofendidos.

O paciente pode apresentar queixas de dores que não passam, ou problemas gastrintestinais, cardiovasculares, respiratórios, ou ainda queixas sexuais ou menstruais. Em muitos casos, podem aparecer pro- blemas na pele ou outros. Dentro desse grupo de transtornos, um dos mais graves é o transtorno hipocondríaco, de difícil tratamento, no qual

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Saúde Mental

a pessoa se encontra “convencida” de estar portando grave doença (cân- cer, AIDS), buscando todos os recursos para confirmá-la. Em muitos casos, estes pacientes chegam ao cúmulo de serem submetidos à cirur- gias, sem a menor necessidade.

6.3.6 Transtorno esquizofrênico Normalmente chamado esquizofrenia, esse é um dos mais gra-

ves transtornos mentais. É também o que mais freqüentemente as pes- soas identificam como loucura, pois escapa mais claramente a nossa idéia de normalidade.

O indivíduo com transtorno esquizofrênico está com suas fun- ções perceptivas alteradas, vê, ouve e sente coisas que não são reais (as chamadas alucinações); seleciona estímulos do ambiente que normal- mente passam despercebidos, com freqüência estando alheio ao que se passa à sua frente. Seu pensamento encontra-se invariavelmente esva- ziado, sem sentido. Ás vezes, sente que alguém lhe “rouba os pensa- mentos da cabeça”. Seu comportamento é geralmente identificado como estranho e sua aparência também pode causar estranheza, pois, estando imerso em percepções distorcidas do mundo e de si mesmo, acaba dei- xando de cuidar de si (inclusive hábitos de higiene) ou pode vestir-se de acordo com os pensamentos delirantes, que comumente apresenta.

O indivíduo apresenta também atividade psicomotora anormal, como ficar se balançando, fazendo movimentos estranhos ou perma- necer totalmente imóvel. A comunicação fica bastante prejudicada, seja pelo mutismo, por expressão incoerente de idéias ou por uso inadequa- do da linguagem como frases incoerentes e neologismos.

Tal como outros transtornos, a esquizofrenia pode apresentar-se em diferentes graus, podendo até mesmo ser confundida com outros quadros.

6.3.7 Transtornos alimentares Dos transtornos mentais que levam a dificuldades na alimenta-

ção talvez o mais freqüente e grave seja a anorexia nervosa. Nesse transtorno, a pessoa não consegue comer, emagrecendo exageradamente, entrando muitas vezes em estado de desnutrição grave. Muitos casos necessitam de internação para um tratamento adequado. Outro trans- torno bastante falado é a bulimia que se caracteriza pela pessoa pro- vocar vômitos após a ingestão de comida pelo medo de ganhar peso, sendo comum entre as modelos e as atletas. Já a hiperfagia é a fome insaciável, fazendo com que a pessoa coma compulsivamente.

Se acredita ser um profeta, por exemplo, pode querer deixar longas barbas crescerem e querer usar roupas em forma de mantos.

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P EAROF 6.3.8 Transtornos mentais e de comportamento decorrentes do uso de substâncias psicoativas Consideram-se como psicoativas as substâncias que provocam

um estado de alteração em nosso funcionamento mental, aumentando, diminuindo ou distorcendo sua atividade, e que causam dependência. Podemos citar vários exemplos de substância psicoativa, desde o álco- ol, o cigarro e as substâncias ilegais (cocaína, maconha, LSD), até aquelas prescritas pelo médico tais como os ansiolíticos e hipnóticos.

O uso abusivo de substâncias psicoativas envolve complicadas causas e conseqüências em nível físico, social e emocional e uma pes- soa pode desenvolver um transtorno mental a partir deste uso. O auxi- liar de enfermagem muitas vezes terá informação de que o transtorno mental de algum paciente é conseqüência do uso de alguma droga ou presenciará reações mais agudas; por isso, é importante que conheça as mais comuns.

A intoxicação aguda é a alteração do estado mental pelo au- mento dos níveis da substância no organismo, como por exemplo a embriaguez, o coma alcóolico, as convulsões pelo uso de substâncias. Quando o uso contínuo de alguma substância está causando algum dano à saúde física ou mental do paciente diz-se que a mesma é de uso noci- vo como exemplo, o Delliriuns tremens.

O estado de abstinência é o conjunto de sintomas que podem ser muito graves, em reação à ausência da substância da qual o indiví- duo tornou-se dependente, como convulsões, alucinações, contrações musculares involuntárias e dolorosas, entre outros.

O indivíduo pode também apresentar um quadro com alterações de comportamento semelhante a outros transtornos psicóticos, indu- zido pelo uso de substâncias psicoativas.

7 - FORMAS DE TRATAMENTO DE TRANSTORNOS MENTAIS

É preciso saber também que existem tratamentos adequados para cada tipo de transtorno, o que não é só feito através de medica- mentos. Na verdade, o tratamento medicamentoso é um valioso instru- mento da psiquiatria para o controle dos sintomas e, com o avanço das pesquisas nesse campo, muito se tem conseguido em melhora da quali- dade de vida da pessoa com transtorno mental.

Agora você já sabe que ter um transtorno mental não é ser “louco de pedra”. Qual- quer pessoa pode vir a apre- sentar um transtorno mental, e você provavelmente conhe- ce alguém que já apresentou ou apresenta esse tipo de problema.

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Saúde Mental

No entanto, cada vez podemos ter maior certeza de que uma abordagem mais ampla, onde se ofereçam outras possibilidades tera- pêuticas, mostra ser mais adequada e eficaz, afinal apenas o controle não ensina o paciente a lidar com seus problemas cotidianos e emocio- nais. A cada dia surgem novas abordagens no lidar com o paciente de Saúde Mental.

A criatividade e dedicação dos profissionais neste campo permi- te conhecer e perceber a cada momento diferentes facetas da mente humana, o que resulta em novas nuanças no tratamento.

7.1 Terapia Medicamentosa A prescrição de medicamentos para pacien-

tes portadores de transtorno mental é a forma de tratamento mais conhecida, porém uma das mais criticadas. É comum ouvir-se dizer: “Eu não vou a médico coisa nenhuma. Para ele me mandar tomar remédio de maluco?” Muitas vezes chega-se a crer que pode-se “ficar maluco usando esses remédios”.

Tratando este problema superficialmente po- deríamos até achar estas colocações divertidas, se não fossem lamentáveis.

Como um profissional de saúde, no entanto, você não pode estar alheio a esta problemática, e acreditamos que a única maneira de com- bater as trevas da ignorância é acendendo a luz do raciocínio. Por esse motivo, você não encontrará neste tópico apenas uma tabela para que decore os nomes e efeitos colaterais das medicações mais usadas.

É indispensável que você as conheça e que se familiarize com seus nomes ainda que complicados, para que de fato possa fornecer informações aos usuários e familiares e reconhecer seus efeitos colaterais e “sinais de alerta”, exercendo assim seu papel, pois esse medo de usar a medicação vem afastando grande parte da demanda, quando ainda num estágio menos grave do problema.

Outro ponto importante nessa questão é o fato de, ao iniciarem o uso da medicação, receosos de suas “reações”, muitos pacientes a utilizam em dose inadequada ou interrompem o uso assim que “melho- ram”. Ora, de uma forma geral, os medicamentos promovem o con- trole, não a cura do transtorno. Assim que interrompem a medicação, os sintomas voltam a aparecer, o que muitas vezes interfere de forma desfavorável no ânimo do indivíduo que passa a sentir-se “incapaz”, “dependente”, e “viciado”, “condenado a usar esses remédios por toda a vida”.

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P EAROF Uma pessoa portadora de diabetes provavelmente tomará remé-

dio a “vida toda”. Com um hipertenso, muitas vezes isso também ocor- re, mas um paciente portador de transtornos mentais passa a portar o “rótulo” de viciado por manter o tratamento.

É verdade que inúmeras vezes as medicações utilizadas em psi- quiatria promovem efeitos colaterais extremamente graves. Mas, quan- do lembramos das formas de tratar o “doente mental” antes do advento da clorpromazina, na década de 1950, fica fácil considerar a medicação como um avanço.

Essa droga estava sendo testada em anestesia e produzia um alheamento chamado “indiferença afetiva”, até que comprovaram sua eficácia na diminuição de alucinações, idéias delirantes e agitação psicomotora. Em que tipo de transtorno você geralmente observa estes sintomas? O transtorno psicótico, não é? Esta droga foi então introduzida no campo dos antipsicóticos.

Contribuindo de uma maneira significativa para a redução da per- manência hospitalar de pacientes psicóticos e facilitando a reabilitação de pacientes crônicos, a clorpromazina não podia evitar, no entanto, as reincidivas e conseqüentes reinternações. Porém, durante 25 anos, nada de mais substancial foi introduzido no campo dos antipsicóticos.

Com toda a revolução que a clorpromazina causou no campo da psiquiatria, todo o dinheiro e trabalho foi investido em suas pesquisas, o que ocasionou um considerável atraso no reconhecimento dos sais de lítio nos transtornos afetivos.

Desde 1948, um psiquiatra australiano descobriu que a urina de pacientes maníacos produzia efeitos tóxicos em cobaias. Tentando au- mentar essa toxicidade, resolveu administrar sal de lítio. Teve uma sur- presa! O efeito foi contrário! O lítio parecia fornecer uma defesa contra a urina. Além disso, os animais tornaram-se mais calmos, respondendo menos à solicitações externas.

Ao experimentar os sais de lítio em pacientes maníacos, os resul- tados foram extremamente satisfatórios. E, embora com alguns anos de atraso, devido ao seu baixo custo e conseqüente falta de interesse co- mercial, aliado ao medo de seus efeitos tóxicos quando administrado em doses excessivas, hoje essa droga tem reconhecida a sua eficácia na mania e nas depressões endógenas recorrentes.

Outra feliz descoberta acidental se deu com a iproniazida, tam- bém na década de 1950. Utilizada no tratamento de portadores de tu- berculose, teve reconhecidos seus efeitos antidepressivos.

No início de 1960, houve a descoberta dos benzodiazepínicos. Seu efeito quase imediato e bastante seletivo sobre a ansiedade assu- miu um papel importante no tratamento, numa época em que surgiam novos rumos para a sociedade. Sua venda assumiu proporções alar-

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Saúde Mental

mantes, chegando a ser comparada com o tabaco e o álcool, as drogas mais utilizadas para produzir alterações no psiquismo. Basta que você enumere quantas pessoas conhece que fazem ou fizeram uso de um benzodiazepínico como o DiazepanR, por exemplo, para que tenha uma idéia dessa estatística.

Até agora você pode observar de que forma surgiram os psicofármacos e a importância que possuem no tratamento de trans- tornos mentais. No entanto ...

7.1.1 O que é um psicofármaco? Quando você está com dor de cabeça, toma um analgésico, não

é? Mesmo que a dor passe, você sabe que a medicação apenas atuou na redução de um sintoma, e não na sua causa.

Os psicofármacos são drogas cujo principal uso é modificar as funções psíquicas, normais ou alteradas. Portanto, não curam o doente mental, apenas diminuem seu sofrimento.

O tipo de psicofármaco, assim como o tempo de utilização e as dosagens, vão depender do tipo de sintoma que se deseja combater e da maneira como reage o organismo do usuário. Algumas pessoas ne- cessitam de doses mais altas ou de utilizá-los por um tempo mais lon- go. Em outras, se consegue o mesmo efeito com doses menores e em prazos menores. Os efeitos colaterais também são variáveis de pessoa para pessoa.

É muito importante que um profissional de Saúde Mental conhe- ça os efeitos das drogas utilizadas neste setor, pois é comum ouvir-se entre os usuários colocações do tipo: “O remédio dele acabou, eu pos- so dar o meu?” ou “Minha vizinha estava como eu fiquei e eu dei meu remédio para ela”. Este tipo de dúvida ou afirmação chega com maior freqüência para o auxiliar de enfermagem que para outros profissionais do setor, e ele precisa ter segurança ao afirmar que esta prescrição só pode ser feita pelo médico e que o uso indevido destas medicações pode ser perigoso.

Mais importante que você conhecer cada droga em particular, é entender os princípios gerais do grupo, pois a ação e efeitos colaterais são semelhantes dentro de cada um deles.

Os psicolépticos são drogas que atuam diminuindo a atividade psíquica normal ou alterada. Produzem estes efeitos de formas varia- das conforme a indicação. Induzem o sono como os hipnóticos (PentobarbitalR, FlurazepanR, NitrazepanR, MetaqualonaR, TrazolanR), aliviam ansiedade e tensão como os ansiolíticos (DiazepanR, LorazepanR, MeprobamatoR) e reduzem sintomas psicóticos como alu-

Muitos médicos prescrevem psicofármacos diante de pro- blemas psicológicos. No en- tanto, o psicofármaco não é um substituto para a psicoterapia. Os medica- mentos controlam, mas não curam.

A idade, o sexo, o peso, o me- tabolismo individual, os hábi- tos e a dieta são fatores que devem se levar em conta quando se pensa em ação medicamentosa, e a coleta destes dados pelo auxiliar de enfermagem é indispensável para que o psiquiatra possa fazer a prescrição adequada.

Os psicofármacos podem interagir com outras drogas, causando efeitos catastróficos. Por isso, ao entrevistar o paci- ente, não esqueça de infor- mar-se se faz uso de alguma medicação, ou se tem o hábi- to de ingerir alguma droga.

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P EAROF cinações e idéias delirantes como os antipsicóticos ou neurolépticos (ClorpromazinaR, HaloperidolR, ReserpinaR, TioridazinaR, FlufenazinaR, PipotiazinaR, TiotixeneR).

Os psicanalépticos são drogas que atuam aumentando a ativi- dade psíquica normal ou diminuída. Podem atuar de duas diferentes formas: estimulando a vigília, combatendo a fadiga ou aumentando o desempenho, como os psicoestimulantes (AnfetaminaR, CafeínaR, MetanfetaminaR) e combatendo formas patológicas de depressão men- tal como os antidepressivos (ImipraminaR, AmitriptilinaR, FenelzinaR).

Os psicodislépticos são drogas que promovem o aparecimento de estados psíquicos anormais, como alucinações, idéias delirantes ou euforia. Seu uso se dá habitualmente de forma ilegal. Atuam de duas formas, seja produzindo desinibição e euforia, como é o caso dos euforizantes (álcool, cocaína, heroína), seja alterando a percepção, fa- zendo com que o indivíduo perca muitas vezes o contato com a realida- de, como acontece com os psicotogênicos ou psicodélicos (canabinóis, LSD, mescalina, psilocibina).

Já os normalizadores psíquicosnão atuam sobre estados psí- quicos normais, mas podem ser utilizados para corrigir os estados psí- quicos alterados. Também atuam de duas formas diferentes: normali- zando o humor ou prevenindo distúrbios afetivos como é o caso dos eutímicos ou normalizadores do humor (sais de lítio) ou como energizantes ou estimulantes da memória. Esta atuação, ainda em estudo, vem aos poucos comprovando sua eficácia, tendo como princi- pal meta diminuir os distúrbios psíquicos decorrentes do envelhecimento.

7.1.2 Atuação e efeitos adversos dos psicofármacos Para atuar no psiquismo, os psicofármacos precisam vencer uma

série de barreiras até atingir o SNC. A área onde irão atuar está intima- mente ligada aos efeitos que produzem, sejam eles desejáveis ou não. Assim, vejamos:

Os hipnóticos são utilizados em todos os transtornos que envol- vam distúrbios no sono. Uma queixa bastante comum na Saúde Mental é a insônia ou a dificuldade de conciliar o sono. Ao ouvir e relatar esta queixa, é muito importante detalhá-la, pois muitas vezes o distúrbio se dá mais pela ansiedade que pela falta de sono. Além disso, pode haver pessoas que sofrem de apnéia do sono e, por não o saberem, queixam- se apenas de acordar freqüentemente à noite. Nesse caso, o uso de hip- nóticos pode agravar o quadro.

Vale ressaltar que o sono induzido não é igual ao sono fisiológico e que, com o tempo de uso de hipnóticos, estes tendem a diminuir seu

Estas são drogas que nem sempre são usadas com prescrição médica ou para tratamento de transtornos, sendo comum o seu uso indevido.

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Saúde Mental

efeito devido a tolerância. Ao tentar se suspender a medicação, a insô- nia pode surgir mais acentuada que antes do uso da droga. A esse efeito chamamos “rebote”.

Freqüentemente há queixas de acordar na manhã seguinte com uma sensação de torpor e sonolência (ressaca). Isso pode resultar da falta do sono fisiológico ou dos resíduos da droga, ainda não elimina- dos do organismo. Por isso são contra-indicadas, para quem faz uso de hipnóticos, atividades que exigem maior concentração, como dirigir um automóvel por exemplo.

Drogas ansiolíticas são capazes de aliviar os sintomas de ansie- dade sem interferir excessivamente em outras funções cerebrais. O tra- tamento medicamentoso de ataques de pânico e das fobias é diferente dos demais tipos de ansiedade.

Embora já existam uma diversidade de ansiolíticos disponíveis, o termo “ansiolítico”, ainda é utilizado mais especificamente para benzodiazepínicos, como DiazepanR, LorazepanR, BromazepanR, CloxazolanR e outros, por serem os preferidos para distúrbios da maior parte das ansiedades. Nos casos em que a depressão acompanha a ansi- edade e em muitos ataques de pânico, também se utilizam antidepressivos associados.

Existem outras importantes indicações dos benzodiazepínicos que são como medicação pré anestésica, antiepiléticos nas crises convulsivas e no combate a crise de abstinência alcóolica.

A administração oral dos benzodiazepínicos é bastante eficaz e seu efeito atinge o auge de 1 a 4 horas de sua administração. Ao ser administrado por via endovenosa, exige uma infusão lenta e monitorizada devido ao risco de parada respiratória. Não se recomenda a sua utilização por via intramuscular, principalmente em casos de emer- gência, pois há relatos que por esta via acontece uma má absorção.

Os benzodiazepínicos são metabolizados no fígado (com exce- ção do OxazepanR e LorazepanR), por isso são contra-indicados para pacientes com disfunção hepática ou idosos.

Os efeitos colaterais dos benzodiazepínicos não são numerosos e traduzem-se em sonolência e perda de coordenação, podendo surgir também fadiga, lentidão ou confusão mental. O que contra-indica seu usuário para atividades que exigem concentração. É importante que as mulheres usuárias sejam orientadas ao planejamento familiar, pois há relatos de mal formações fetais quando utilizados durante a gravidez, assim como de sua passagem no leite materno.

Os benzodiazepínicos podem causar tolerância e dependência, podendo induzir a vícios e produzir reação de abstinência. Esta é a razão porque não se recomenda mais normalmente tratamentos pro- longados com essas drogas. Após um longo período de tratamento, as

Quando uma criança está utilizando um medicamento, é essencial o controle por parte de todos os responsáveis. O profissional de saúde deve orientar quanto aos sinais de efeitos colaterais que nem sempre a criança informa espontaneamente.

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P EAROF doses devem ser gradualmente diminuídas, antes de serem completa- mente suspensas.

Os neurolépticos ou antipsicóticos reúnem um grupo de dro- gas com propriedades terapêuticas e farmacológicas comuns, em espe- cial no tratamento de transtornos psicóticos como a esquizofrenia. Po- rém, sua associação com formas dirigidas de psicoterapia parece me- lhorar ainda mais o prognóstico em relação ao funcionamento global e à adaptação social de pacientes crônicos. Transtornos psicóticos não esquizofrênicos associados ou não a distúrbios orgânicos, deficiências mentais e transtornos afetivos com sintomas psicóticos, também res- pondem a esta classe de drogas.

Muitos pacientes esquizofrênicos usam antipsicóticos continua- mente para evitar recaídas ou devido à permanência de sintomas resi- duais. Uma das principais causas de recidivas em pacientes esquizofrênicos é a interrupção da medicação.

Grande parte da melhora clínica ocorre de seis a oito semanas do início do tratamento, podendo este prazo estender-se de 12 a 18 sema- nas. Essas drogas não causam tolerância, dependência ou síndrome de abstinência associadas ao seu uso.

O ajuste da dose é variável de acordo com o paciente, sendo muitas vezes necessária a associação de neurolépticos orais durante os primeiros dias de tratamento, até que a dose de equilíbrio seja estabelecida.

Os neurolépticos utilizados no controle da agitação psicomotora em geral são administrados por via intramuscular.

Os efeitos colaterais dos neurolépticos são inúmeros, porém só alguns deles se desenvolvem em dado paciente. É importante que você os conheça para comunicar ao médico ou enfermeira assim que detectá- los, evitando assim seus agravos ou mesmo a morte de usuários.

A escolha medicamentosa no caso destas drogas se dá muito mais pelo perfil de efeitos colaterais e riscos que causam, que por sua ação terapêutica, muito semelhante em todas elas.

Os efeitos colaterais dos antipsicóticos que ocorrem ao nível do Sistema Nervoso incluem:

! Efeitos oculares: A retinite pigmentosa é causada pelo depósito da droga na reti-

na, provocando um processo inflamatório, que pode levar ao prejuízo da visão e até à cegueira.

O bloqueio que esta droga causa no Sistema Nervoso Autônomo (SNA) periférico pode dificultar a acomodação do cristalino, fazendo com que a visão de objetos próximos fique borrada, podendo chegar ao glaucoma nas situações mais graves. Aparece no início do tratamento e pode vir acompanhada de fotofobia decorrente de midríase.

Quando um tratamento é in- terrompido, podem ocorrer reações de abstinência que podem ser confundidas com uma piora do quadro de ansi- edade. Por isso, o auxiliar de enfermagem deve estar aten- to e relatar caso tenha perce- bido qualquer sinal ou sinto- ma que a indique, como: an- siedade, tremores, cefaléia, insônia, anorexia e, em casos mais graves, febre, convul- sões e psicose.

Muitas vezes, observa-se no paciente que utiliza neurolépticos a Síndrome Parksoniana, também cha- mada de impregnação, caracterizada por tremor devi- do à ação do medicamento no sistema nervoso central. Por isso constantemente asso- cia-se drogas antiparkso- nianas no controle dos sinto- mas de impregnação.

Quem já trabalhou em Saúde Mental sabe que não é raro receber comunicados de que usuários de antipsicóticos tive- ram uma “morte súbita”.

Glaucoma – Aumento da pressão intraocular

Fotofobia -Dificuldade de en- xergar em locais iluminados.

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Saúde Mental

! Efeitos hematológicos: - Agranulocitose (taxa de neutrófilos é menor que 500/mm3) - Deve-

se a ação tóxica desses medicamentos na medula óssea, ocorrendo no iní- cio da oitava a décima segunda semana do uso da droga com alta taxa de mortalidade. Seu início pode ser súbito, com febre, mal estar e infecção.

! Efeitos gastrointestinais: - Xerostomia – É a secura excessiva da boca, sendo uma fonte

freqüente de queixas devido ao desconforto que traz no início do trata- mento. O bloqueio no SNA que o antipsicótico faz ocasiona a inibição da secreção da saliva ocasionando a boca seca, amargor, aftas, dificul- dade para mastigar e aparecimento de cáries.

- Disfagia - É a dificuldade de deglutição, podendo ser causada por alterações no peristaltismo esofágico ou por discinesias (alterações com movimentos involuntários) da boca e língua. O paciente pode as- pirar os alimentos, o que pode resultar em infeções pulmonares e asfi- xia. Pode ainda ocasionar a perda de peso.

- Hipersalivação - Ocorre principalmente com a clozapina. É mais intensa à noite, chegando a perturbar o sono do paciente. Pode persistir ou não durante o tratamento.

- Náuseas e vômitos - É conseqüência do bloqueio no SNA do sistema digestório que dificulta a saída do alimento do estômago. É comum a queixa de “peso no estômago”.

- Esofagite de refluxo - Caracteriza-se por pirose epigástrica (azia). O refluxo acontece devido ao relaxamento do piloro, aliado a diminuição da motilidade esofágica. Agrava-se devido ao fato de que o estômago deste paciente retém o alimento por muito tempo.

- Constipação intestinal – Ocorre devido a diminuição da motilidade intestinal, que pode levar a obstrução por formação de fecaloma.

- Icterícia - Geralmente surge no início do tratamento e dura algumas semanas. É considerada uma manifestação de hipersensibilidade, pois encontra-se infiltração de eosinófilos no fíga- do. Provavelmente o indivíduo não vai ficar bonito com a coloração amarelada, mas não há comprometimento hepático.

! Efeitos no sistema genito-urinário: - Retenção urinária - Ocorre com mais freqüência em pacien-

tes idosos ou naqueles com hipertrofia prostática. - Incontinência urinária - Pode ocorrer aos esforços ou ser no-

turna. É uma ocorrência rara e se dá pelo relaxamento dos esfíncteres. - Impotência ou alterações de ejaculação - Esses efeitos,

embora comuns, são muito problemáticos, pois levam ao abandono do tratamento. São conseqüências da diminuição de testosterona.

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P EAROF - Priapismo – É a disfunção vascular que causa a ereção do pê-

nis por período prolongado, podendo levar a isquemia e necrose tecidual. Quando ocorre, deve ser tratado imediatamente com cirurgia, para evi- tar impotência.

! Efeitos dermatológicos: Incluem reações de hipersensibilidade, que ocorrem desde o

primeiro ao oitavo dia de tratamento. Podem ser urticária, manchas avermelhadas que se transformam em bolhas (maculopapulares) e edema. A forma injetável dá reação intensa no local da aplicação. O profissional de saúde que manipula a clorpromazina deve ficar atento ao fato de que esta pode causar dermatite de contato.

! Efeitos no sistemas termo-regulador: - Síndrome neuroléptica maligna - Caracteriza-se por

hipertermia. O nível de consciência se altera, variando de agitação e mutismo alerta para estupor e até coma.

Ocorre hipertensão, taquicardia, taquipnéia, leucocitose (leucócitos acima de 15.000/mm3) e aumentos dos níveis de creatinina no sangue. A taquicardia e as arritimias podem levar ao colapso cardía- co. É responsável por uma taxa de 21% de mortalidade quando não tratada. É mais freqüente ocorrer duas semanas após o início do trata- mento ou do aumento da dose, podendo ocorrer em qualquer período.

Sua evolução é rápida e seu tratamento exige suporte em UTI, e imediata suspensão dos neurolépticos.

- Hipertermia - No início do uso da ClosapinaR, pode ocorrer uma elevação da temperatura corporal ( de 0,5º a 1ºC acima). Geral- mente é benigna e transitória.

! Efeitos cardiovasculares: - Hipotensão ortostática – Ocorre pelo bloqueio no SNA, que

tem como conseqüência o bloqueio da vasoconstricção. Acontece ge- ralmente com a primeira dose e piora no segundo ou terceiro dia, vindo então a melhorar. Caracteriza-se por taquicardia, tontura e escurecimento da visão quando o indivíduo se levanta, devido a queda da pressão arterial (PA), sendo detectada perante a aferição de PA e pulso do paciente sentado e depois em pé. Sua maior complicação, prin- cipalmente em idosos, são as quedas e o risco de lesões.

- Distúrbios de ritmo cardíaco - Geralmente aparecem no ECG, sem implicações clínicas. Devem-se a ação direta das drogas no múscu- lo cardíaco.

! Efeitos endócrinos: - Galactorréia - Embora ocorra num grande número de pacien-

tes, só é percebido em cerca de 5%, quando se faz a expressão do ma- milo É decorrente do bloqueio da glândula pituitária, que provoca o

Mutismo alerta – O indivíduo não fala, mas se encontra consciente.

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Saúde Mental

aumento da secreção de prolactina (hormônio do leite) aumentando o volume das mamas e estimulando a produção de leite. Apesar de ser um efeito incômodo, não apresenta maior gravidade.

- Amenorréia - Ocorre pelo aumento de prolactina, que altera hormônios sexuais (estrógeno e progesterona ). Se acontece junto com a galactorréia e ginecomastia, pode levar a um diagnostico errôneo de gravidez.

- Secreção inapropriada de hormônio anti-diurético - É um efeito colateral raro, porém apresenta riscos de complicações como convulsões. Causa a poliúria (secreção excessiva de urina) e hiponatremia (diminuição de ions de sódio no sangue).

! Efeitos no Sistema Nervoso Central (SNC): - Sedação, tontura e hipotensão ortostática - Caracteriza-se

por tontura e escurecimento da visão quando a pessoa levanta, além de efeitos idiossincráticos ligados especificamente a esse grupo de subs- tância, como:

! Síndrome parksoniana - Aparece rigidez facial e de postura, lentificação motora (movimentos lentos) e tremores. Pode surgir em qualquer época do tratamento, a partir de poucos dias ou semanas do início. Geralmente melhora dentro de três meses, mas pode persistir ao longo do uso. ! Acatisia - Neste caso o paciente não consegue ficar parado e mantém-se em contínua movimentação, principalmente dos membros inferiores. Quando estão de pé dão sempre a im- pressão de estar “marchando”. Surgem nos primeiros dias de uso da droga. ! Distonia aguda - Pouco freqüente, é caracterizada por espas- mos involuntários de músculos que produzem posturas anormais, brevemente sustentadas ou fixas. Inclui posições bizarras do tron- co e membros, língua projetada para fora da boca (protusão da língua), torcicolo e contração da laringe e faringe. São dolorosas e aterrorizantes, podendo causar deslocamento de mandíbula e até morte súbita por espasmo da laringe. Os sintomas ocorrem dentro dos primeiros cinco dias do trata- mento ou do aumento da dose. É mais freqüente em crianças e em adultos jovens. ! Discinesia tardia - É a mais grave complicação do uso de neurolépticos. Caracteriza-se por movimentos involuntários de face, como mascar, movimento de protusão e verniculares da língua (movimentos semelhantes aos de um verme), movimento de beijos, piscar repetido e rapidamente e movimentos de abrir e fechar os lábios. Podem ocorrer também alterações dos movi- mentos dos membros e do tórax. Pioram com a retirada do

Ginecomastia – Aumento do tecido mamário no homem.

Efeitos idiossincráticos - Efeito anormal individual de uma pessoa a uma droga.

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P EAROF antipsicótico e melhoram com o aumento da dose deste. Agra- vam-se quando o paciente está nervoso. Ocorre após vários anos do uso contínuo de neurolépticos. Como você pode observar, o tratamento de portadores de

esquizofrenia é longo. O cuidado e atenção que você, como profissio- nal de saúde, precisa dispensar, resulta não só na redução do sofrimen- to do paciente como na manutenção de sua vida. Seus registros são imprescindíveis para este tipo de assistência.

Os psicoestimulantes são drogas utilizadas para aumentar o estado de alerta e atenção e suprimir o sono e a fadiga. Embora atuem sobre o humor, seus efeitos são agudos e de curta duração, geralmente associados a um aumento de ansiedade, sendo por isso inúteis no trata- mento da depressão. Como efeito colateral suprimem a fome, por isso são usados, indevidamente, em muitas dietas de emagrecimento. Exis- te um alto índice de incidência de dependência psíquica e por isso seu uso deve ser restrito em Medicina.

As anfetaminas são as drogas-padrão de grupo. São capazes de produzir um quadro psicótico com predomínio de idéias persecutórias (idéias de perseguição), comportamento compulsivo estereotipado (mo- vimentos repetidos, como um sorriso, repetição de uma frase ou ges- tos), alucinações visuais, auditivas, táteis e olfativas, aumento do ape- tite sexual com preservação da consciência e orientação.

A esse quadro denominamos psicose anfetamínica, que geral- mente ocorre perante o uso contínuo de altas doses. É semelhante a um transtorno esquizofrênico, e geralmente responde bem a neurolépticos.

Com o uso contínuo das anfetaminas, desenvolve-se a tolerância. Seu uso abusivo consiste em passagem de ingestão oral (as chamadas “bo- linhas”) para intravenoso (metanfetaminas), chegando a ser administrada em doses crescentes, várias vezes ao dia, por quatro ou cinco dias.

Após esse período, quando o indivíduo experimenta uma sensa- ção de bem estar (semelhante ao orgasmo sexual), seguida de depres- são, alimenta-se minimamente e não dorme. Segue-se dois a três dias de sono quase contínuo, sem uso da droga.

Ao despertar, o usuário volta a experimentar esses ciclos, poden- do desenvolver psicose e desnutrição, pois embora não desenvolva síndrome de dependência física, e portanto síndrome de abstinência, suas reservas encontram-se esgotadas.

Os antidepressivos parecem ter uma ação específica sobre os mecanismos fisiopatológicos da depressão. São, portanto, eficazes em muitas formas deste transtorno, melhorando notavelmente o humor depressivo sem produzir euforia. Existem dois grupos principais de antidepressivos, que se distinguem por inibirem ou não a enzima mitrocôndrica monoaminoxidase (MAO): os inibidores da MAO e os tricíclicos.

O fato do quadro de psicose anfetamínica responder bem ao grupo medicamentoso, poderia justificar a continuida- de de seu uso, se não tives- sem os neurolépticos os gra- ves efeitos colaterais anterior- mente descritos.

O profissional de saúde deve orientar a população quanto ao uso de “energizantes”, que podem conter psicoestimu lantes, causando os desagra- dáveis efeitos descritos.

Enzima mitrocôndrica - É uma enzima produzida pela estru- tura celular responsável pela produção de energia da célu- la (mitocôndria).

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Saúde Mental

O primeiro antidepressivo descoberto e apontado como inibidor da MAO (IMAO), foi a IproniazidaR, que, apesar de ser eficaz, causava lesões hepáticas graves. Por isso, teve seu uso interrompido até que surgissem outros IMAOs. Posteriormente, modificações estruturais em sua molécula levaram a diversos derivados capazes de inibir a MAO, mas menos tóxicos.

Algum tempo depois se descobriu que a MAO não é uma enzima única, mas provavelmente um grupo de enzimas semelhantes que se diferenciam por suas atividades em relação a determinados substratos e por sua sensibilidade a determinados inibidores.

Isso explica os efeitos colaterais dessas drogas, que, por não se- rem seletivas, inativam a MAO cerebral e periférica. Inibindo a MAO intestinal e hepática, elas permitem a entrada de monoaminas ingeridas que podem causar efeitos indesejáveis, como crises hipersensiveis se- veras e algumas vezes letais.

A única via de administração medicamentosa dos IMAOs é a oral, e sua ação é rápida, ocorrendo o seu pico de concentração plasmática em duas horas. Atravessam a barreira hematoencefálica com facilidade e atingem o sistema nervoso central em altas concentrações. Mães que amamentam devem informar ao médico o uso dessa medica- ção, pois a mesma passa para o leite materno.

Os efeitos colaterais mais freqüentes dos IMAOs são a hipotensão postural que deve ser mais preocupante nos idosos, devido ao risco de um acidente vascular, e nos diabéticos, devido a neuropatia periférica. Também podem apresentar a boca seca, obstipação, ausência de orgas- mo (anorgasmia), contrações musculares involuntárias (mioclonias), obesidade, diminuição da libido (desejo sexual), edema de membros, daltonismo e crises hipertensivas espontâneas. Os sintomas maníacos e esquizofrênicos podem piorar.

Dos antidepressivos tricíclicos, a ImipraminaR é utilizada como droga modelo. Seu pico de concentração plasmática (momento em que se encontra em maior quantidade na corrente sangüínea) é de duas a seis horas após a administração oral, podendo chegar a doze horas em pacientes idosos. São empregados no tratamento de estados depressivos, especialmente os de caráter endógeno, e nos transtornos ansiosos. O aparecimento de seus efeitos pode demorar até três semanas; os efeitos colaterais, no entanto, aparecem em menos tempo.

São eficazes no tratamento de ataques de pânico e têm sido utiliza- dos com sucesso no transtorno obsessivo-compulsivo (ClomipraminaR e FluoxetinaR). Os efeitos colaterais surgem logo após as primeiras semanas, do início ou do aumento da dose, mas melhoram ou desaparecem ao cabo de alguns meses ou com a suspensão completa do antidepressivo. São eles: boca seca, constipação, retenção urinária, visão turva, distúrbios da me- mória, taquicardia, piora de glaucoma, tontura, sedação, hipotensão ortostática, galactorréia e lesões cutâneas (pele).

Um paciente que faz uso de certos tipos de IMAO pode fa- zer um pico hipertensivo grave com o uso de alimentos ricos em tiramina (presentes em queijos, miúdos de aves, certos tipos vinhos, feijoada, conser- vas em geral e cerveja) ou uso de descongestionantes nasais e broncodilatadores. Portanto, o usuário de MAO deve ser en- caminhado ao serviço de nutri- ção para ser orientado quanto a sua dieta restritiva em tiramina, se necessário.

Barreira hematoencefálica - É formada por células nervosas denominadas gliais que en- volvem os capilares que irri- gam o sistema nervoso central, impedindo que algumas dro- gas penetrem neste sistema.

Neuropatia periférica – É uma disfunção dos nervos periféri- cos decorrente do depósito de glicose, provocando altera- ções de sensibilidade.

Daltonismo – Disfunção visual em que o indivíduo não con- segue perceber as cores ver- melho e verde.

Caso o usuário de IMAO quei- xe-se de cefaléia occipital ou temporal, calor, palpitação, sudorese profusa, náuseas ou vômitos, o auxiliar de enfer- magem deve verificar imedia- tamente a pressão, notificar a enfermeira ou ao médico e registrar o fato em prontuário, pois este paciente pode estar fazendo um pico hipertensivo grave e até mesmo letal.

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P EAROF Os Eutímicos ou Normalizadores do Humor têm o lítio como

medicamento de primeira escolha no tratamento de transtorno afetivo bipolar. Controla as crises de agitação e euforia e evita a ocorrência de novos episódios durante o tratamento de manutenção pois suprime as oscilações do humor.

Sua ação terapêutica se evidencia em cerca de 5 a 14 dias do início do tratamento, através da redução dos sintomas graves dos qua- dros de mania. No entanto, podem passar vários meses até que o trans- torno seja totalmente controlado.

Muitas vezes é necessária a associação de antipsicóticos durante os primeiros dias de tratamento para ajudar no controle dos sintomas até que o lítio comece a atuar. Assim como no período em que surgem os sintomas depressivos do transtorno bipolar pode ser necessário que se introduzam antidepressivos em associação.

O lítio é administrado por via oral em doses crescentes. Algumas pessoas respondem bem ao tratamento, não apresentando novos episó- dios. Outras, no entanto, apresentam várias recidivas que tendem a di- minuir com a continuidade da terapêutica. Infelizmente, embora não haja explicações científicas para o fato, há pessoas que não se benefici- am com esta terapia medicamentosa.

Durante o tratamento, é imprescindível que freqüentemente seja feita dosagem sangüínea dos níveis de lítio, para determinar a dose ide- al da medicação. Em doses baixas, pode não surtir efeito; e, em doses altas, pode agravar os efeitos colaterais. A diferença entre uma dose alta e uma dose baixa é mínima.

Uma vez estabelecida a dose ideal, a dosagem sérica de lítio pode ser realizada com intervalo de meses, não podendo deixar de ser feita porque o metabolismo individual, a condição física e a gravidade da doença é capaz de influenciar na dosagem necessária.

Qualquer fator que diminua o nível de sódio no sangue pode le- var a um aumento dos níveis de lítio na corrente sangüínea, produzindo uma intoxicação, com risco de vida para o paciente se não for tratado a tempo. Por isso, o médico deve ser informado sobre qualquer redução na ingestão de sal, sudorese intensa, febre, vômitos ou diarréia, para que a dose de lítio seja ajustada convenientemente.

O lítio é contra-indicado no período anterior à gravidez planeja- da ou durante o primeiro trimestre da gravidez. Bebês nascidos de mães em uso de lítio têm uma incidência maior de anormalidades cardíacas. Essas contra-indicações incluem a amamentação. Também são contra- indicados na insuficiência renal severa, cardiopatias, epilepsia e lesões cerebrais.

Os efeitos colaterais do lítio podem ocorrer no início do trata- mento, traduzindo-se como sonolência, fraqueza, náuseas, vômitos, cansaço, mãos tremulas, polidipsia e poliúria.

Dosagem sérica – Realizada através de análise laboratorial em que se procu- ra a presença e/ou quantida- de de determinadas substân- cias no sangue.

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Saúde Mental

Esses efeitos geralmente desaparecem ou diminuem rapidamen- te, podendo permanecer o tremor das mãos. O aumento de peso tam- bém pode acontecer, e uma dieta adequada pode ajudar, devendo esta ser bem orientada para não afetar o nível sangüíneo de lítio.

Devido à polidpsia e poliúria durante o tratamento, podem surgir alterações renais que podem ser atenuadas com a redução da dose.

Durante o tratamento, também se faz necessário o controle das funções da tireóide, pois pode aparecer o hipotireoidismo, sendo ne- cessária, muitas vezes, a administração de hormônios da tireóide jun- tamente com o lítio.

Os Euforizantes e Psicotogênicos ou Psicodélicos possuem seu uso terapêutico limitado, porém este não se dá pelas ações que produzem no psiquismo. Desta forma você pode encontrar opiáceos que são utiliza- dos como hipnoanalgésicos; a cocaína, utilizada como analgésico local; e o álcool, no tratamento local de algumas dores de origem neurológica.

As drogas deste grupo não são utilizadas no tratamento de trans- tornos mentais e sua atuação no psiquismo é muitas vezes a causa de seus usuários necessitarem de ajuda.

Dentre os Euforizantes, têm-se o álcool etílico, a cocaína e os opiácios. O álcool etílico é um depressor do Sistema Nervoso Central (SNC). Em baixas doses, promove a euforia e desinibição comportamental, o que leva as pessoas a o acharem quase indispensá- vel em festas e comemorações. Doses mais altas produzem um efeito hipnótico e incoordenação motora, também conhecido como “pileque”. Poucas pessoas sabem que doses elevadas de álcool podem levar a morte. É que normalmente o efeito hipnótico faz com que o usuário fique inconsciente antes de atingir a dose letal.

O álcool absorvido ao longo do tubo digestório atravessa com rapidez a barreira hematoencefálica, produzindo efeitos imediatos. A quantidade da substância contida no sangue do usuário determinará as reações comportamentais que este irá apresentar.

Você já deve ter observado, e talvez até experimentado algumas dessas reações. Em doses mais baixas surge a sensação de bem-estar, euforia e desinibição. Com o aumento da dose, podem surgir altera- ções fisiológicas como taquicardia, comprometimento da memória e dificuldade em tomar decisões. Quando se aumenta mais ainda a dose, há redução da coordenação motora e tempo de reação, sonolência, li- beração da agressividade, náuseas e vômitos. Nesta fase, é comum sur- girem ocorrências policiais e acidentes. Por último, quando a concen- tração da droga na corrente plasmática ultrapassa 400 mg %, ocorre sedação profunda, que pode chegar a coma e morte.

O tratamento do alcoolismo crônico é multidisciplinar e necessi- ta da disposição do usuário. Os grupos de apoio, como os alcóolicos

O uso de café e chá pode re- duzir o nível de lítio no sangue, causando intoxicações. Como estas são bebidas normal- mente utilizadas pela maioria das pessoas, o profissional de saúde precisa reconhecer os sinais de intoxicação por lítio.

Para metabolizar o álcool, o organismo sintetiza colesterol, que acaba por se infiltrar no fígado. É por isso que freqüentemente o abuso de álcool resulta em cirrose he- pática.

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P EAROF anônimos, têm obtido excelentes resultados, embora muitas vezes o indivíduo necessite da ajuda psiquiátrica e psicoterápica para lidar com as seqüelas do uso.

Já a cocaína é extraída das folhas da “coca” e normalmente uti- lizada pelos nativos com o objetivo de reduzir a fadiga, sendo identificada e isolada em 1858. Seus efeitos anestésicos locais fizeram com que rapidamente entrasse na “medicina doméstica”, chegando a ser vendi- da em farmácias e quitandas da Europa, que mais tarde passou a utilizá- la também como revitalizante. Até 1906 estava presente em alguns re- frigerantes e só em 1914 seu uso foi proibido.

A cocaína é um pó branco com potente ação vasoconstritora e anestésica local. Seu uso se dá por via oral, nasal e venosa. Sua utiliza- ção por via nasal pode levar à lesão das células olfativas e ocasionar a perda do olfato (anosmia). Por via venosa, seu uso é muito perigoso, pois embora não desenvolva tolerância que exija doses maiores, seu efeito é de pouca duração, o que pode levar à sua administração a cada 10 minutos. A dependência que causa é apenas psíquica. Mais recente- mente tornou-se popular o seu uso fumado, o “crack”, que vem levan- do seus usuários não raro à morte súbita.

Sensações que fazem com que muitas pessoas a utilizem são a de possuir grande força muscular, alerta mental e euforia. Geralmente sur- gem idéias persecutórias, alucinações visuais, auditivas e tácteis. O conjunto de todas estas reações pode agravar o comportamento agres- sivo e anti-social do usuário.

Seu uso constante pode ocasionar distúrbios digestivos, anorexia, emagrecimento insônia e até convulsões. A depressão freqüentemente está presente após a euforia, o que leva muitos usuários a associarem a heroína e morfina que apresenta efeitos mais prolongados.

Dentre os opiáceos, destaca-se o ópio que é extraído da papou- la. É dele que se origina um poderoso hipnoanalgésico, muito utilizado na Medicina: a morfina. A heroína também se origina do ópio e, curi- osamente, surgiu para tratar a dependência da morfina. Estas drogas causam intensa dependência e desenvolvem tolerância mesmo quando utilizadas em doses terapêuticas.

O efeito obtido com o uso de opiáceos é variável com a dose e sensibilidade do usuário. Produz uma sensação de prazer semelhante a um orgasmo, acompanhada pela sensação de que se está flutuando e de que tudo está bem.

Observando alguém sob efeito desta droga, você vai percebê-lo apático, letárgico, com respiração superficial, hipotensão ortostática, vasodilatação e miose (contração da pupila), podendo apresentar dimi- nuição da mobilidade intestinal e obstipação.

Como sua abstinência é muito desagradável, o indivíduo necessi- ta estar a maior parte do tempo sob o efeito da droga e, a menos que

Quem ainda não ouviu falar do pó? Todos os dias os jor- nais apresentam apreensões de quilos e quilos de cocaína que parecem não ter fim.

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Saúde Mental

tenha uma boa situação financeira, muitas vezes se vê obrigado a reali- zar atividades criminosas para manter o seu uso.

Alguns autores defendem que até a quarta ou quinta dose, o uso dessas drogas se dá pela curiosidade ou para obter seus efeitos euforizantes. A partir daí, o que o usuário deseja é evitar as reações de abstinência.

Dentre os psicotogênicos, temos a maconha e os alucinógenos. Derivada da Cannabis sativa, a maconha tem seus efeitos variáveis de acordo com as características genéticas da planta, o local de cultivo, o tempo decorrido após a colheita e condições de estocagem. A parte da planta a ser aproveitada interfere no nome que recebe. Quando com- põe-se de folhas e flores é chamada de maconha; quando composta apenas de flores, é mais potente e denomina-se ganja. A mais potente de todas as preparações chama-se haxixe, sendo composta da resina obtida da planta.

Usualmente as preparações de Cannabis são fumadas, produzin- do efeitos mais fortes e intensos que quando ingeridas com alimentos. Embora existam inúmeros fatores que influenciem nos efeitos dessa droga, como ambiente, a expectativa, as condições físicas e até a per- sonalidade de quem usa, em geral inclui-se a euforia, alterações da sensopercepção, diminuição do senso de identidade e algumas vezes alucinações visuais e auditivas.

Os sinais que possibilitam identificar os usuários crônicos dessas drogas incluem: olhos vermelhos, diminuição da força muscular, taquicardia, sedação e sono.

Embora seja muito popularizada e muitas vezes se diga que é inofensiva, a maconha, em altas doses, ocasiona um estado de intoxi- cação aguda com idéias de perseguição, despersonalização, excitação e alucinações. Em alguns casos, surgem os distúrbios de pânico.

Em pessoas não acostumadas com seu uso, este estado de intoxi- cação pode ocorrer mesmo em pequenas doses.

O uso freqüente dessas drogas pode desenvolver tolerância, e seu uso prolongado pode levar a uma síndrome caracterizada por apa- tia, falta de iniciativa, de crítica e de satisfação. Também pode surgir uma psicose paranóide (psicose “canabínica”) ou a precipitação de psi- coses semelhantes à esquizofrenia.

Já os alucinógenos são drogas capazes de produzir a alteração da sensopercepção. Seu representante mais potente é a dietilamida de ácido lisérgico, mais conhecida como LSD, que com uma dose diária de 25mg por via oral produz efeitos por até 6 horas. Devido a isso, o uso dessas drogas, bem como os das demais drogas deste grupo, como a MescalinaR e a IpomeaR, é periódico e não contínuo. Além disso, em- bora desenvolva tolerância, esta desaparece com facilidade, e como

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P EAROF não causa dependência física (apenas psicológica), não exige adminis- trações repetidas para impedir os sintomas de abstinência.

Os efeitos provocados por essas drogas incluem euforia, depres- são, ansiedade, perda da noção de tempo e espaço, forma e cores, aluci- nações visuais algumas vezes bastante complexas, idéias delirantes de grandeza ou de perseguição, despersonalização, midríase (dilatação da pupila), hipertermia e hipertensão.

Durante as “viagens” (sensação experimentada quando sob o uso da droga) algumas vezes podem surgir a sensação de pânico, experiên- cia de despersonalização, perda de identidade – o que caracteriza as “viagens más”, que podem levar ao suicídio.

Este tipo de droga pode levar o indivíduo a apresentar os flash- backs, ou seja, re-experimentar as alterações de sensopercepção tem- pos após ter ingerido a droga.

7.2 Terapias psicossociais

Dentro desse conceito se agrupam vários tipos de atendimento terapêutico e nem sempre fica muito claro para o paciente, sua família e até para os outros profissionais como são e para que servem esses atendimentos. É importante que isso fique esclarecido a fim de que não tenham um caráter “burocrático” – fazer porque tem que fazer ou “por- que o doutor mandou”. Muitas vezes é para o auxiliar de enfermagem que o paciente vai expor suas dúvidas. Por isso, é importante que ele saiba do que se tratam os atendimentos, para que possa tranqüilizar o paciente, aconselhando-o sempre a discutir suas dúvidas com o pro- fissional que o atende.

Podemos dividir as terapias psicossociais em dois grupos: as psicoterapias e as terapias pela atividade.

O tratamento psicoterápico é, na maior parte das vezes, realiza- do pelo psicólogo (às vezes também pode ser feito pelo psiquiatra) e seu objetivo é variável de acordo com o caso, mas, em linhas gerais, visa ajudar o indivíduo a retomar um estado de equilíbrio pessoal.

O atendimento psicoterápico pode ser feito de forma individu- al em que o paciente fica sozinho com o terapeuta; em grupo em que estes são relativamente pequenos, onde são tratadas não apenas as dificuldades de cada um, mas também o relacionamento do grupo como um todo; em família, onde o atendimento é feito com o paci- ente e sua família e voltado para o reestabelecimento do equilíbrio familiar, essencial, muitas vezes, à melhora do paciente; conjugal, sendo semelhante ao anterior, só que apenas o paciente e seu cônjuge são atendidos.

.

A abordagem de atendimen- to é algo específico do terapeuta, mas o auxiliar de enfermagem freqüentemente ouvirá comentários a respeito do jeito que o psicoterapeuta atende, sendo essencial que oriente o paciente a tirar suas dúvidas com o próprio profis- sional. No entanto, acontece de o auxiliar de enfermagem formar imagens de certo e errado em relação à forma de tratar de cada um, o que pode ser um problema. Por isso, deve, ele próprio, procu- rar informar-se diante de suas dúvidas

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Saúde Mental

Cada psicoterapeuta pode ter uma forma diferente de lidar com o paciente, seja por seu jeito pessoal (se é mais fechado ou mais expan- sivo), seja pela sua abordagem de tratamento. As abordagens mais co- muns são:

! Terapia cognitivo-comportamental – Aborda os pensamen- tos e comportamentos atuais.

! Psicanálise – Aborda as razões inconscien- tes dos problemas atuais.

! Psicodrama – Atua com dramatizações de situações.

! Terapias interpessoais – Abordam os re- lacionamentos atuais.

! Terapias pela Atividade - Sob esse título, agrupamos as atividades terapêuticas que usam a atividade do paciente como ponto principal. Pode- mos classificá-las como ocupacionais e recreativas.

! Terapia ocupacional – Constitui importan- te modalidade de atendimento, indispensável nos casos mais graves, como a esquizofrenia, que ofe- rece ao paciente diferentes possibilidades de ati-

vidade laborativa (de trabalho), geralmente em forma de “ofi- cinas terapêuticas”, isto é, grupos de pacientes que se reúnem para realizar um trabalho em comum.

As oficinas terapêuticas têm o objetivo de oferecer ao indivíduo com transtorno mental diferentes possibilidades de se expressar no mundo, estabelecendo com ele um canal de comunicação mais saudá- vel; por se dar em grupo, estimula o relacionamento interpessoal, ajuda o paciente a lidar com conquistas e frustrações e a desenvolver maior independência, retomando aos poucos a responsabilidade por seus atos.

Alguns tipos de oficinas terapêuticas que podemos citar são: de poesia, de teatro, de música e canto, de radiofonia, de marcenaria, pin- tura, artesanato, informática, jardinagem, do corpo (tai chi chuan, dan- ça, capoeira) e outras.

Os pacientes geralmente escolhem aquelas das quais desejam participar com a ajuda do terapeuta ocupacional e outros profissionais, e pacientes habilitados podem atuar como monitores.

As oficinas terapêuticas constituem importante instrumento de ligação, inclusive com a sociedade como um todo, se forem articuladas atividades reunindo outros segmentos da sociedade – por exemplo, a exposição dos trabalhos realizados pelos pacientes.

- Terapia recreativa – Tem objetivos parecidos com os da terapia ocupacional, mas as atividades desenvolvidas têm um cunho recreativo, tais como os jogos, atividades esportivas, festas e comemorações.

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P EAROF Os pacientes também podem ser envolvidos nas tarefas de rotina

de acordo com suas condições e desejo de participar, sem, no entanto, serem obrigados a isso ou substituírem os profissionais em suas funções.

7.2 - ECT - eletroconvulsoterapia ou eletrochoque

É um tipo de tratamento que consiste em fazer passar uma cor- rente elétrica pelo corpo, por meio de eletrodos colocados em uma ou ambas as têmporas, produzindo alterações neuroquímicas e neuroendrócrinas. O tempo de aplicação é de 5 a 15 segundos, não bas- tando apenas uma sessão. Normalmente são prescritas várias aplicações.

A ECT é prescrita sempre pelo psiquiatra, e hoje em dia seu uso se restringe a casos de depressão grave que não respondam a outras formas de tratamento e estados de grande agitação e desorganização.

Você pode observar que, em ambos os casos, há risco de vida para o paciente, e estes costumam responder a tal tipo de terapia.

O eletrochoque é aplicado por uma equipe composta de psiquia- tra, enfermeiro, anestesista e auxiliar ou técnico de enfermagem. É re- alizado em uma sala específica da unidade, que desde o início deve estar preparada para o caso de surgir uma emergência, com medicações de urgência, como Sulfato de AtropinaR, Cloreto de CálcioR, DiazepanR, LidocaínaR, Bicarbonato de SódioR e outros, assim como material que inclua: aspirador (em bom estado de funcionamento), eletrocardiógrafo, material para infusão venosa, desfibrilador, laringoscópio, tubo endotraquial, tubo de oxigênio com manômetro, protetor de língua etc.

Procurando amenizar os efeitos e evitar complicações fisiológi- cas e legais do uso do eletrochoque, é importante que antes do procedi- mento o auxiliar de enfermagem tome alguns cuidados.

Antes de encaminhar o paciente ao procedimento, é preci- so confirmar a prescrição médica no prontuário e a autorização da família através da assinatura na folha de consentimento.

Descrever ao paciente o procedimento, mesmo que pense- mos que ele não compreenda, tranqüilizando-o e escutando seus receios, enquanto o acompanha a sala do procedimento.

Para diminuir o risco de vômitos e broncoaspiração, o paci- ente deve estar em jejum por pelo menos 4 horas.

Estando prescrita (AtropinaR, DiazepanR), administrar a me- dicação aproximadamente 30 minutos antes do procedimento.

A parada cardiorrespiratória e prolongamento da convul- são são as emergências mais comuns nessa terapia.

Este tratamento continua sen- do um método muito discutido pela sua agressividade. Ao mesmo tempo em que o pa- ciente apresenta melhora do seu quadro clínico, é exposto a riscos que muitos profissio- nais de saúde acreditam ser desnecessários. É rejeitado também pelos usuários e fa- miliares da saúde mental pelo medo que produz porque foi usado, por muito tempo, como punição.

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Saúde Mental

Como o procedimento causa o relaxamento dos esfíncteres, é importante solicitar que urine e evacue previamente.

Procurando oferecer mais conforto e evitar lesões corporais, vesti-lo/a com pijama ou camisola larga, como também pedir que retire grampos, jóias e/ou próteses e colocar protetor de língua

Para manter as vias aéreas pérveas, pedir ao paciente que se deite em decúbito dorsal sem travesseiro, verificando os sinais vitais em busca de anormalidades na iminência do tratamento, registrando e avisando à enfermeira ou ao médico, caso encontre alterações.

Untar as têmporas do paciente com geléia eletrolítica para instalação dos eletrodos e para melhor condução elétrica, auxili- ando o anestesista na administração de anestésicos.

Neste ponto, o psiquiatra realizará o eletrochoque.

Imediatamente após a aplicação acontecem convulsões crônicas que podem ser acompanhadas de sal ivação, lacrimejamento, sudorese e por vezes ejaculação e emissão de urina. A equipe deve proceder de forma muito rápida, procu- rando evitar complicações imediatas ao tratamento.

Para tanto, é preciso proteger as articulações temporo-man- dibular, escápulo-umeral, coxo-femural e dos joelhos durante a convulsão, para evitar luxações ou fraturas.

Virar a cabeça do paciente para o lado, após a convulsão, manteendo as vias respiratórias permeáveis, aspirando secreções e administrando oxigênio.

Permanecer junto ao paciente até que volte à consciência (o que pode acontecer rapidamente), atentando para seu estado neuromuscular, cardiorrespiratório e mental, mantendo-o em po- sição de segurança (de lado ou em Sims) como também verificar sinais vitais, procurando identificar anormalidades.

Ajudá-lo a orientar-se ao acordar, pois seu estado de con- fusão dura várias horas, e isso pode assustá-lo; procurando ob- servar e registrar queixas de cefaléia, amnésia e confusão mental decorrentes das alterações das ondas cerebrais. Ajudá-lo a levan- tar-se e verificar se há hipotensão postural.

Deixá-lo dormir se desejar ou acompanhá-lo ao refeitório para o desjejum.

Registrar todo o procedimento em prontuário, após reco- lher todo o material, enviá-lo à esterilização conforme o caso e deixar a sala de tratamento arrumada.

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P EAROF As complicações do tratamento são decorrentes da descarga elé-

trica e de acidentes durante o procedimento. As mais comuns são: apnéia prolongada; acidentes osteoarticulares; cefaléias; mordedura de língua ou do lábio inferior; perda da memória, que pode se recuperar nos seis meses seguintes; confusão, que pode alterar as relações, provocando desorientação.

8 - CONDUTAS DO AUXILIAR DE ENFERMAGEM NO SETOR

DE SAÚDE MENTAL

8.1 Setores de atendimento em Saúde Mental

A criatividade é marca registra- da da rede terapêutica que envolve a Saúde Mental. A partir da Reforma Psiquiátrica dos fins dos anos 1980 - 1990, que abre as portas dos asilos e manicômios, passa-se a enxergar o por- tador de transtorno mental como al- guém que está “vivo” e, portanto, “reabilitável”. Diante das três áreas de atuação (primária, secundária e terciária) começam a surgir a cada dia novas e revolucionárias alternativas e estratégias que permitem levar a cabo o tratamento de transtornos psíquicos, sejam agudos, crônicos ou de reabilitação.

Gradualmente, o hospital psiquiátrico deixa de ser uma institui- ção fechada para se tornar palco de uma assistência de portas abertas, integrada numa rede de saúde regional. Se dizemos gradualmente, é porque não se pode romper de repente com pensamentos, preconceitos e medos, mantidos a séculos, principalmente em um país onde as con- dições de amparo social ainda encontram-se deficientes.

O investimento no tratamento ambulatorial passou a inovar for- mas mais eficazes de atender e de reinserir na sociedade os portadores crônicos de transtornos mentais.

Desta forma, para que não houvesse um rompimento abrupto entre a unidade de internação e o atendimento ambulatorial, surgiram

É muito importante que o pro- fissional de saúde observe ações de prevenção de riscos de acidentes, para que ele mesmo não receba uma des- carga elétrica.

Dar altas hospitalares não será solução se o paciente não tiver condições de ser inserido na sociedade.

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Saúde Mental

estruturas intermediárias entre a hospitalização psiquiátrica e a integração do paciente à sociedade, que receberam nomes como hospitais- dia, lares abrigados, CAPS, com atuações diferentes descritas a seguir:

Os hospitais-dia são locais onde o paciente passa um período limitado (algumas horas durante o dia) sem se afastar de seu meio soci- al, familiar, de trabalho ou acadêmico, prevenindo assim a reclusão e a marginalização do paciente, ao mesmo tempo em que proporciona a sua reabilitação e reinserção social. Dispõe de um programa terapêutico que dá ênfase a manifestações clínicas e terapêuticas.

Num hospital-dia, trabalha-se com terapias individuais, com in- tervenções familiares, mas, sobretudo, trabalha-se em grupos, assim denominados: grupo de pacientes, grupo terapêutico (equipe terapêu- tica e pacientes) e equipe terapêutica (equipe multiprofissional e interdiscilinar).

De forma direta ou indireta, toda a equipe terapêutica participa nas diferentes atividades assistenciais, fazendo com que haja uma to- mada de decisões de forma conjunta, troca de informações entre os diferentes profissionais, planejamento e estabelecimento conjunto do conteúdo das atividades assistenciais e, definição por todos dos papéis e tarefas de cada membro da equipe em cada uma delas.

As atividades terapêuticas de um hospital-dia podem se resumir em: ! Reuniões matinais - Como o nome indica, acontece na primeira

hora da manhã, como uma forma de acolhimento entre a equi- pe terapêutica e os pacientes. Permite à equipe prever a de- manda de trabalho que o grupo de pacientes vai solicitar, pos- sibilitando novas estratégias, caso haja necessidade.

! Sessões de expressão corporal, musicoterapia e dramatização, mobilização corporal e psicomotricidade - Pode participar qual- quer membro da equipe, além dos pacientes e o monitor ou terapeuta correspondente.

! Assembléia de grupo terapêutico - Participa todo o grupo terapêutico (equipe e pacientes).

! Psicoterapia de grupo - Participam pacientes, com um psicólo- go e outro membro da equipe.

! Psicodrama - Necessita de um psicodramatista e outros mem- bros da equipe, além do grupo de pacientes.

! Dinâmica de grupos ou grupos de discussão - Necessita do grupo terapêutico completo.

! Atividades de animação sociocultural - Pode participar toda a equipe terapêutica com o grupo de pacientes.

! Oficinas de expressão plástica - Terapeuta ocupacional, a en- fermagem e o grupo de pacientes.

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P EAROF ! Psicoterapia individual - Psicólogo e paciente. ! Intervenções familiares - Realizadas entre psicólogo ou psiquia-

tra, paciente e família. ! Tratamento psicofarmacológico - Realizado pelo psiquiatra, en-

fermeiro, técnico ou auxiliar de enfermagem e paciente. As atividades do auxiliar de enfermagem serão definidas como as

dos demais membros da equipe multiprofissional, através de reuniões onde levanta-se as necessidades. Porém o registro de suas observações é indispensável. É muito importante que você registre tudo o que ob- servar nos pacientes, desde aspectos físicos, conduta até a participação nas atividades.

Os Lares Abrigados são locais onde podem viver ou morar um grupo de portadores de transtornos mentais num clima familiar, sob tutela de uma equipe assistencial, por um período mais ou menos lon- go. É totalmente integrado à comunidade e permite uma vida autôno- ma. Não raro, devido à ausência da família, alguns lares tornam-se uma residência definitiva.

A equipe que trabalha com lares abrigados apresenta um progra- ma estruturado cujos objetivos são o desenvolvimento da autonomia da pessoa e do grupo e a ressocialização. Para detectar se estes objeti- vos foram atingidos, são necessárias reuniões periódicas entre os pro- fissionais da equipe. Essas reuniões servem para os levantamentos de problemas e conflitos que surgem nas relações e nas tarefas cotidianas para ajudar a superá-los.

A equipe de enfermagem assume aqui uma importância vital. Ela é quem mais está presente em visitas e as suas orientações de educação em saúde e higiene são indispensáveis. Nestes lares, a detecção precoce de agravos à saúde assume tal relevância que pode por o trabalho a perder caso falhe.

Também está a cargo da equipe de enfermagem a supervisão e, em alguns casos, até a administração medicamentosa, assim como a detecção de possíveis efeitos colaterais.

O CAPS (Centro de Atenção Psicossocial) é uma forma de assistência do SUS para problemas de Saúde Mental individual ou cole- tiva que se distingue principalmente pelo acesso local. É um exercício de democracia, pois atua com uma sensível redução da hierarquia assis- tente/assistido. Essa parece ser, na verdade, a maior diferença entre os CAPSs e os hospitais-dia, pois o CAPS questiona os papéis da equipe na família e na comunidade.

Atua através de Oficinas onde realizam-se trabalhos manuais e artísticos que proporcionam ao usuário via de acesso à expressão de seus sentimentos, emoções, criatividade. Mas quando necessário pode ser feito o atendimento individual.

Se você já teve contato com setores de Saúde Mental, pode verificar que estas ativi- dades citadas não são obri- gatoriamente realizadas por todo hospital-dia, assim como não têm que ser as únicas. A criatividade da equipe tera- pêutica, assim como suas habilidades pessoais, podem modificar sempre que neces- sário esses modelos, que, no caso, servem apenas para ilustração.

É necessário que os pacientes desenvolvam hábitos de vida saudável, horário de alimen- tação, exercício físico, expres- sando seus sentimentos e difi- culdades etc. Porém o profissi- onal de saúde deve respeitar os hábitos que estes pacientes já possuem, ainda que pouco tradicionais, desde que não prejudiquem a saúde.

O registro detalhado de tudo o que foi observado poderá fornecer argumentos impor- tantíssimos para toda a equi- pe terapêutica. Por isso, ANO- TE TUDO!

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Saúde Mental

Deste trabalho surgiram as Associações, formadas a partir de gru- pos de egressos dos hospitais psiquiátricos, que se organizaram e incor- poraram familiares e profissionais de diversas áreas, em busca dos di- reitos dos usuários do serviço de saúde mental na defesa de sua cidada- nia. Não negam a marca que os faz singulares, porém lembram que são iguais a todos os cidadãos, com direito a saúde, lazer, amor, segurança e sobretudo RESPEITO. Estas associações deram origem a articula- ção Nacional da Luta Antimanicomial.

Com a organização e o trabalho desses usuários do serviço, que descobrem suas próprias e ilimitadas capacidade, surgem as coopera- tivas. Seu funcionamento não se distingue em muito das demais coo- perativas, a não ser pela disposição dos pacientes que nela atuam e que há muito não percebiam-se como seres capazes. Embora funcio- nem nas dependências do CAPS, seu lucro é revertido para a própria cooperativa.

De acordo com a realidade local, o CAPS assume táticas diferen- tes para enfrentar os problemas decorrentes das diversas formas de viver. Assim você jamais encontrará um CAPS igual ao outro. Porém, eles trazem como ponto comum a luta pela desospitalização, a realiza- ção das oficinas terapêuticas e a atuação de uma equipe multiprofissional. Pode atuar em associação com uma emergência psiquiátrica, e o paci- ente que sai deste setor será avaliado imediatamente para ser inserido em atividades do CAPS, sem que haja necessidade de internação.

Em todos os níveis de atuação, a conduta do auxiliar de enfer- magem é sempre um ponto muito importante da ação em saúde.

“Dizem que a primeira impressão é a que fica”. Esta frase popular bem pode estar expressando uma realidade quando pensamos em assis- tência em saúde. No setor de Saúde Mental, ela assume uma conotação especial, pois a sensação que o paciente ex- perimenta quando chega ao setor não é somente relevan- te; assume um papel essenci- al no seu tratamento.

A maneira como é recebido, a expressão das pessoas que lhe aten- dem ou mesmo o tom de voz com que falam, são capazes de gerar sentimentos que tanto podem determinar o tratamento como afastar o indivíduo. Não é raro o paciente sair de um setor de atendimento juran- do que não volta mais porque foi maltratado pelo profissional que o atendeu ou porque não “foi com a cara” daquele profissional. Não cabe

Egressos – Se refere às pesso- as que passaram por um de- terminado processo. Neste caso, são os pacientes que ficaram internados nos hospi- tais psiquiátricos e já tiveram alta.

No Instituto Philip Pinel, no Rio de Janeiro, podemos encon- trar um exemplo desse traba- lho que é a Cooperativa de Culinária.

Diante disso: Como atua a enfermagem?

Assim como acontece quando chegamos a algum lugar, o “acolhimento” é de extrema relevância para o paciente sentir-se bem e aberto ao tra- tamento.

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P EAROF discutirmos aqui se ele volta ou não ao setor, mas sim no tempo em que ele adiará o tratamento.

A recepção do paciente é o primeiro item quando nos referimos ao ambiente terapêutico. E embora o auxiliar de enfermagem seja o pro- fissional que, normalmente, recepciona uma pessoa que procura um se- tor de saúde, não é o único responsável pela manutenção deste ambiente.

Um ambiente terapêutico é aquele em que o indivíduo consegue se sentir bem e seguro, física e psicologicamente, e que ao mesmo tem- po estimule a recuperação da saúde. Alguns fatores são indispensáveis para que se promova um ambiente terapêutico. E por mais incrível que pareça, promover um ambiente não é muito diferente do que preparar a sua casa para uma festa.

- Planta física - O ambiente deve ser arejado e de preferência amplo e bem iluminado, de modo a transmitir sensação de segurança e bem-estar. O profissional deve preocupar-se em tornar o ambiente o mais belo e agradável possível, simples porém aconchegante.

- Higiene ambiental - Ninguém pode sentir-se bem num ambi- ente sujo. Muitas vezes devido ao fato de que os transtornos mentais não são transmissíveis, os profissionais de saúde tendem a relaxar com a manutenção da higiene. No entanto, é importante que ela mantenha- se não somente pela questão do bem-estar, mas também para evitar surtos de doenças infecto-parasitárias e infestações.

- Arrumação e decoração - O excesso de mobília ou o mobili- ário mal disposto, além de tumultuar o ambiente, podem atrapalhar o atendimento num caso de emergência. Também deve-se evitar objetos e adornos que possam por em risco a segurança, assim como objetos ou imagens religiosas ou ritualistas. Isso faz parte do respeito ao que cada um acredita. É importante a participação de todos nesta questão, inclu- sive dos pacientes.

- Som ambiente - Não obstante os avanços da musicoterapia, a utilização de aparelhos sonoros nem sempre favorece a formação de um ambiente terapêutico. Ao contrário, uma escolha inadequada pode causar irritação e até mesmo desencadear crises. Por isso, a escolha de músicas, bem como o momento de utilizá-las, deve sempre ser ori- entada por um profissional competente (se possível um musicoterapeuta). Vale ressaltar ainda o emprego freqüente de mú- sicas religiosas, que também são contra-indicadas, pois é muito im- portante respeitar a religião de todos.

- Atividades - Num ambiente terapêutico, o paciente não ve- geta pelos corredores e salas em uma atitude passiva. Neste ambi- ente, embora tenha tempo para repousar ou refletir, ele mantém-se em atividades como reunião de grupo, exercício físicos, trabalhos manuais e outros.

O portador de um transtorno mental é alguém que traz consigo toda uma carga de sentimentos e emoções com os quais não sabe lidar, po- dendo ser muitas vezes os fatores causadores de seus problemas. Lidar com esse tipo de paciente requer mais que paciência e educação, exige respeito e amor.

Num ambiente terapêutico, não podem existir situações ou objetos que possam provo- car danos ao próprio paciente ou a outros, particularmente em situações como agressividade, tentativa de suicídio e abuso de drogas. Porém, isso não quer dizer que estes pacientes não pos- sam trabalhar em oficinas com o material necessário, mesmos que sejam objetos cortantes. Apenas a supervi- são é essencial.

Ruídos excessivos podem ser os causadores de estresse e desencadear reações nem sempre esperadas.

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Saúde Mental

A equipe terapêutica é formada por vários profissionais, de- pendendo de cada programa terapêutico que o tratamento englobe. Na equipe básica encontram-se o enfermeiro, psicólogo, psiquiatra, assis- tente social, técnico e auxiliares de enfermagem. Pode contar ainda com terapeuta ocupacional, nutricionista, professores de Educação Física, musicoterapeuta, fisioterapeuta, fonoaudiólogo, animador sóciocultural, artista plástico etc.

A chave de um ambiente terapêutico está no estabelecimento de uma relação de confiança entre a equipe terapêutica e os pacientes.

8.2 Relação terapêutica: a ferramenta indispensável

Relação terapêutica é aquela que se estabe- lece entre o membro da equipe terapêutica, os fa- miliares e todo o grupo de pacientes. Uma vez estabelecida, torna-se uma ferramenta de trabalho importantíssima para que o profissional possa in- tervir junto ao paciente.

Para que o profissional consiga estabelecer uma relação terapêutica, é muito importante o seu autoconhecimento, para que não confunda seus desejos, crenças, valores morais, necessida- des, sentimentos e emoções com as do paciente, o que o levaria a fazer interpretações erradas.

Certa vez, num registro de enfermagem, en- controu-se a seguinte anotação: “Paciente tenso com o fato de sua mulher não ter comparecido a visita. Diz que ela nunca o amou e que só se ca- sou com ele para não ficar solteira. Fala que quer

morrer por isso. Aconselhei que tivesse mais fé em Deus, não pen- sasse mais em morrer, e que assim que estivesse bom voltasse para sua terra e arrumasse uma outra mulher.”

Uma relação, para ser terapêutica, necessita de um início de confian- ça, de aceitação e de comunicação clara. A comunicação verbal com o paciente portador de transtorno mental nem sempre é muito fácil, e algu- mas técnicas podem auxiliar para favorecer o autoconhecimento do paci- ente na mesma medida em que você o compreende.

- Escuta - É muito importante que você escute o que o paciente tem a dizer, mostrando-se receptivo, olhando-o numa atitude aberta, de modo que ele perceba a sua importância.

É muito importante lembrar que a promoção da Saúde Mental também passa pela promoção da saúde do corpo. Por isso, não devemos esque- cer as medidas e orientações de saúde.

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P EAROF - Paráfrase - Consiste em repetir ao paciente o conteúdo do que

disse, com o objetivo de fazê-lo tomar consciência do que falou. - Clarificação - Pode-se pedir ao paciente que torne a mensagem

mais clara, para que se compreenda o que foi dito ou para complemen- tar uma idéia exposta.

- Frases por repetição - Quando um paciente fica bloqueado, pode-se repetir uma palavra ou uma frase no decorrer da conversa para convidá-lo a falar mais.

- Silêncio - É uma pausa mais ou menos longa na conversação que deve ser respeitada para que o paciente possa refletir.

- Propostas abertas - Trata-se de permitir que o paciente con- duza e escolha o assunto.

8.3 Intervenções do auxiliar de enfermagem diante de determinados comportamentos

Até agora vimos maneiras de promover um ambiente terapêutico e estabelecer uma relação terapêutica com o paciente, mas no que se refere ao auxiliar de enfermagem isto não é o suficiente. É necessário intervir para ajudá-lo na manutenção da integridade física também, e o relacionamento terapêutico é a ferramenta para atingir os objetivos que, neste caso, não correspondem a tecer diagnósticos ou fornecer rótulos do tipo “esquizofrênico”, “psicótico”, “deprimido” e outros.

Mais importante do que conhecer diagnósticos é saber identificar determinados comportamentos nos pacientes que atende e conseguir lidar com cada um deles individualmente, de modo a atender suas ne- cessidades básicas. Para isso, o auxiliar de enfermagem deve seguir a prescrição de enfermagem que é realizada pelo enfermeiro a partir dos problemas apresentados pelo paciente e buscar formas de agir de acordo com o comportamento que detectar no momento. O registro de todas as observações e procedimentos é sempre um cuidado indispensável.

! Diante do paciente ansioso:

“Eu já não durmo direito. Morro de medo de tudo. Tem horas que me dá uma crise e eu preciso estar perto de alguém. Eu sei que parece um absurdo, mas não consigo controlar.”

Você se lembra das reações de um paciente com transtorno de ansiedade?

Apesar de todas estas técni- cas, o auxiliar de enfermagem não deve descartar a comuni- cação não-verbal, que é feita através de gestos, expressões, tom de voz e atitudes.

Muitos profissionais, quando chegam no setor de Saúde Mental, encantam-se pelas entrevistas e se esquecem de prestar cuidados básicos, como a higiene e alimentação.

Embora muitos portadores de transtornos mentais tenham dificuldades em buscar a sa- tisfação de suas necessida- des básicas, estas necessitam ser atendidas.

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Saúde Mental

Este é, muitas vezes, tido por toda a equipe como um paciente “chato”. Pode apresentar vários níveis, assim como vários aspectos para a sua ansiedade. Muitas vezes queixa-se de medos injustificáveis, “in- comoda” e solicita a equipe em demasia, pois sentir-se só diante de tantos medos pode ser ainda mais assustador, não acha?

Na manutenção de um ambiente terapêutico, ouvir as queixas e re- ceios é essencial, em todos os casos. Mostrar-se tranqüilo, utilizando frases curtas, com um tom de voz firme, na conversação também pode ajudar.

Este indivíduo pode apresentar um padrão respiratório ineficaz. Portanto, você deve observar a possibilidade de estar usando roupas muito apertadas, auxiliá-lo e estimulá-lo na execução de exercícios respiratórios, além de observar a coloração de mucosas e leito ungueal.

É muito importante observar também o padrão de alimentação (pode apresentar hiperfagia) e uma nutricionista pode lhe fornecer ori- entações quanto à dieta mais adequada para evitar aumento ponderal exagerado. As excretas devem ser observadas e anotadas.

Você deve orientar sempre o indivíduo em relação ao tempo, es- paço e pessoas caso esteja desorientado, porém é inútil tentar mostrar- lhe que o medo que sente é irreal. Dizer-lhe que não deve se preocupar pode fazer com que se sinta incompreendido e sozinho, aumentando assim a tensão.

Pode ser bastante salutar a sua participação em atividades simples, porém não competitivas, e você deve estimulá-lo. Inicialmente, é espera- do que ele apresente medo de realizá-las. É inútil tentar provocar situa- ções para que ele “perca o medo”, correndo-se o risco de fazê-lo entrar em pânico. Comece participando com ele, até que se sinta seguro.

! Diante do paciente deprimido:

“Eu sinto vontade de morrer. Já tentei suicídio por três vezes. Acho que estou sendo um estorvo na vida de meu marido e meus filhos. Eles são muito bons para mim e eu não queria mais atrapalhá-los.”

Este paciente apresenta-se triste, culpado e isola- do. É descrito muitas vezes como “baixo astral”. É co- mum encontrarmos membros da equipe que não gostam de trabalhar com esse tipo de paciente, por razões óbvi- as. Pode ser muito difícil ver nos outros um quadro agra-

vado do que sentimos, e depressão não é um problema incomum. Para lidar com este tipo de transtorno, é necessário que o profis-

sional se concientize de que “sentir pena” não só não ajuda como pode

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P EAROF atrapalhar. O ambiente terapêutico requer respeito, e “sentir pena” pode não ser a melhor forma de demonstrá-lo.

O maior risco em lidar com esse tipo de paciente é o de suicídio (esse risco aumenta quando começa a melhorar de seu transtorno). Este deve ser mantido sob vigilância quando em uso de objetos pontiagudos e cortantes e cordas – isto é, tudo o que possa por em risco a sua inte- gridade física – até que passe o perigo. Esta vigilância deve ser discreta para não lembrar ao paciente todo tempo de seu risco.

Você pode perguntar ao paciente se deseja morrer, pois a pergun- ta não irá induzi-lo. No entanto, fornecerá um dado para seus cuidados. Porém, é contra-indicado tecer comentários quanto a essa atitude. Sua presença constante, ouvindo-o e participando das atividades, é uma boa maneira de manter a vigilância e integrá-lo ao grupo. Caso o paci- ente pergunte se está sendo vigiado, você pode lembrá-lo de que já fez referência à vontade ou tentativa de morrer e que a equipe deseja protegê- lo. É um bom momento para fazê-lo sentir-se valorizado.

Certo profissional, depois de ouvir um paciente falar que tomou 20 comprimidos de DiazepanR porque queria morrer, afirmou: “Você não queria morrer! Quem quer morrer dá logo um tiro na cabeça!” Dois dias depois, recebeu a notícia de que o paciente se suicidara. Com um tiro na cabeça.

No caso de uma tentativa de suicídio, o auxiliar deve prestar os primeiros socorros (hemorragia, asfixia etc), evitar deixar o paciente sozinho e, uma vez que ele seja removido, atuar junto aos outros paci- entes para evitar o pânico.

Um paciente deprimido costuma se descuidar de seus cuidados básicos por não valorizá-los ou por achar que deve ser punido. Por isso, é muito importante a enfermagem estar atenta a questões como:

! Alimentação - A comida deve ter bom aspecto e temperatura adequada. No caso de se recusar a comer, deve-se fracionar a dieta.

! Hidratação - Deve-se ter uma atenção especial a este item, ob- servando na pele e mucosas qualquer sinal de desidratação e oferecendo líquido em abundância.

! Excreta - Observar se está defecando e se há algum sinal de alteração. Como muitas vezes fica acamado, pode apresentar constipação.

! Perda ponderal - O paciente com depressão grave deve ser pe- sado diariamente.

! Sinais de infecções ou lesões - Deve-se examinar o paciente em busca de sinais que possam ocasionar uma solução de con- tinuidade.

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Saúde Mental

! Vestuário - É importante valorizar o aquecimento do corpo, pois sua circulação pode estar mais lenta. Estar bem vestido, arrumado e penteado também pode melhorar sua aparência e auto-estima.

! Medidas posturais de conforto - Consiste em evitar transtornos musculares por posições inadequadas.

! Padrões de sono e repouso - Observar o tempo que o paciente dorme e se pela manhã se sente pior.

! Atividade física - Estimulá-lo a realizar atividades físicas (pe- quenos períodos ao longo do dia), procurando saber como se sentiu ao realizá-las e quais são as de sua preferência.

! Diante de um paciente agitado:

“Não agüento mais meu ir- mão. Ele quase não dorme, e o pior é que não me deixa dormir. Anda pela casa a noite inteira falando e cantan- do. Agora inventou de anunciar a volta de Jesus, e anda por tudo quan- to é ônibus e metrôs...”

A equipe muitas vezes descreve esse paciente como “irritante”, e numa equipe despreparada pode muitas vezes ser alvo de zombarias e deboches. É extremamente ativo, pode falar, gritar, cantar, dançar etc.

A melhor forma de interagir com ele é chamá-lo para as ativida- des e conversar sobre assuntos gerais. Você deve estabelecer limites para ele, porém somente após ter criado com ele uma relação de con- fiança e, mesmo assim, com o cuidado de não fazê-lo de forma autori- tária para não provocar reações desagradáveis que possam gerar a ne- cessidade de contê-lo.

Este é um paciente que dorme pouco e em geral acorda cedo. Pode vestir-se de maneira extravagante, com cores berrantes e vários enfeites, utilizando-os de forma desarmônica. Também alimenta-se mal, pois sua hiperatividade não lhe permite sentar para alimentar-se. É muito importante que lhe sejam oferecidos líquidos e alimentos que possa ingerir enquanto mantém a atividade. A aferição de seus sinais vitais, perda ponderal e grau de hidratação são imprescindíveis.

É comum pensarem que um paciente nunca se lembra do que fez durante um surto. No entanto, isso não é verdade. Após uma crise, apresentan- do-se mais controlada, uma paciente passou a recusar a atenção de uma auxiliar de enfermagem. Quando se per- guntou a razão disso, ela ex- plicou: “Ela estava zombando de mim quando eu estava falando bobagens...”

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P EAROF ! Diante do paciente que se acha perseguido:

“Eu gosto da minha mãe, mas não confio nela. Existem muitos interesses na minha pessoa ...”

Este é o paciente descrito pela equipe como “difícil”. É claro que sua desconfiança pode apresentar um grau variado, desde a dúvida até delírios paranóicos, porém é importante estar ciente que este paciente pode estar pronto a responder de maneira ameaçadora, agitando-se e tornando-se agressivo. Com freqüência, interpreta mal qualquer co- mentário. É como se estivesse se defendendo todo o tempo. Por estas razões tende a provocar o medo das outras pessoas, causando o seu afastamento.

Ganhar a confiança deste paciente não é fácil. No entanto, mantê- la é quase impossível. Qualquer atitude não planejada pode gerar des- confiança. É preciso ter cuidado com mensagens verbais e não-verbais para evitar que “confirmem suas suspeitas”. Deve-se evitar situações que lhe provoquem ansiedade.

A alimentação e hidratação desse paciente pode estar prejudica- da, pois ele pode achar que estão tentando envenená-lo. Por isso deve- se permitir que escolha o que deseja comer e, se possível, que ele mes- mo prepare seus alimentos. Pelo mesmo motivo, deve-se verificar sua boca após a administração de medicamentos, ou administrá-los na for- ma líquida.

Manter uma conduta firme e franca com o paciente, ouvindo seus receios, pode ser uma boa maneira de ganhar sua confiança.

! Diante do paciente com comportamento anti-social: São vistos na equipe como “sedutores” e desafiadores. Não se

consideram doentes e, se buscam o serviço de Saúde Mental, geralmen- te o fazem por alguma imposição. Apresentam boa verbalização, são inteligentes e agradáveis, atributos que muitas vezes usam para atrair simpatia e conseguir o que querem. É importante que o profissional de saúde esteja alerta a estas manobras, para não ser usado.

Nesta categoria, podem estar incluídos os dependentes de drogas ilícitas e os alcoolistas. Deve-se estar alerta aos sinais de intoxicações ou abstinência.

Conselhos ou promessas “arrancadas” destes pacientes não serão capazes de resolver seus problemas enquanto não admitirem que têm um problema para controlar o uso da substância. É bastante útil estimulá- los a participar de atividades.

Nesta situação estes pacien- tes conseguem perceber os prejuízos que eles causam a si e aos seus. Isso gera culpa e acaba por fazê-los buscar a droga, agravando o seu transtorno.

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Saúde Mental

Em relação ao potencial de violência, o auxiliar de enfermagem não deve demonstrar receio, porém não deve se expor desnecessaria- mente. É conveniente solicitar a ajuda de mais pessoas do serviço e até mesmo conter o paciente em caso de necessidade. O que não deve ser esquecido é que, seja qual for a medida adotada, ela deve vir acompa- nhada de respeito pelo indivíduo, evitando-se desafios do tipo: “Vem me bater agora!” Também é indispensável que se explique ao paciente que a medida adotada se deu porque ele passou do limite ou para protegê-lo.

As contenções podem ser medicamentosa (química) ou mecâni- ca (física). As primeiras são sempre prescritas pelo psiquiatra. As con- tenções mecânicas são indicadas em estados de agitação não controlá- veis com medicação ou em episódios agudos, como conduta violenta que implique em risco de lesões físicas para si e para os outros.

Perante a necessidade de contenção mecânica, é importante que esta seja feita por profissionais preparados, para evitar agravos ao paci- ente. Para tal, é necessária a utilização de técnicas apropriadas e uma boa dose de compressão e carinho.

Para realizar uma contenção mecânica você necessita de ataduras, braçadeiras, camisa de força e/ou lençóis, podendo tam- bém ser realizada com o corpo do profissional de saúde ou de outra pessoa.

O emprego das técnicas deve ser feito com firmeza e rapi- dez, longe dos olhos de outros pacientes para não impressioná- los. Acima de tudo, nunca se emprega uma contenção se não for absolutamente necessário e sem passar informações ao paciente durante todo o procedimento. Ele não deve se sentir agredido.

Os outros membros da equipe terapêutica devem estar avi- sados e alertas, quanto a medida adotada para que apoiem aos profissionais envolvidos e demais pacientes, evitando maiores transtornos.

Para evitar fraturas que podem ser ocasionadas por uma queda, procura-se colocar o paciente no chão o mais depressa possível, segurando-o pelos ombros, braços e pernas. Reter o paciente, apertando o pescoço “numa gravata” ou o tórax, pode causar acidentes.

Proceder a contenção mecânica com camisa-de-forças. Caso esse recurso não esteja disponível, pode-se colocar um lençol forte ou cobertor debaixo do corpo do paciente. Segurando uma das extremidades, passá-la por cima do corpo, prendendo-a entre o tórax e o braço oposto, abaixo do cotovelo. Fazer o mesmo movimento com a outra ponta do lençol ou cobertor. Aplicar esparadrapo para fixar enquanto for preciso.

É importante que durante o procedimento de contenção, o profissional com maior vínculo com o paciente, conduza o diálogo, orientando, explicando e lembrando a ele, os motivos que levaram a necessidade da contenção.

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P EAROF

Transportá-lo para seu leito, colocar ataduras almofadadas nos punhos e tornozelos, prendendo no estrado da cama. Quan- do prescrito, administrar a medicação por via parenteral (conten- ção química).

Conversar com os demais pacientes sobre o fato e após registrar o ocorrido e os procedimentos realizados.

9 - PROMOÇÃO E PREVENÇÃO EM SAÚDE MENTAL

Prevenção em Saúde Mental costuma ser um assunto bastante delica- do. Até onde estaremos ajudando o indi- víduo a evitar um sofrimento mental e até onde estaremos querendo que todos se- jam iguais, como “robozinhos”, com ati- tudes e comportamentos previsíveis?

Esta é uma pergunta que deve per- manecer sempre em nossa mente ao pen- sarmos em ações de prevenção, a fim de que estejamos avaliando nossos objetivos.

Cada pessoa tem uma forma de ser, de agir, de estar no mundo. Uns são mais alegres e expansivos; outros, mais sérios e fechados; uns mais responsá- veis; outros, mais “cabeça fresca”; uns vêem o mundo de forma mais simples; outros, de forma mais complicada. As mudanças que se pro- cessam nas pessoas no dia-a-dia são resultado das interações e negoci- ações que fazem com outras pessoas e circunstâncias.

Não se pode pensar numa ação preventiva de Saúde Mental com- pulsória, onde se estabeleçam normas de como deve ser o sujeito men- talmente saudável e se estabeleçam programas com esse fim. Isso seria utilizar a Saúde Mental em favor de todo um sistema político-social no qual vivemos, ajudando-o a excluir os que não estão dentro da norma. Isso não seria saúde ... muito menos mental.

Fica assim claro que, em Psiquiatria, ou melhor, em Saúde Men- tal, são possíveis ações de prevenção e promoção. Entretanto estas ações devem se dar em torno de melhorar as condições de atendimento com medidas tais como: aumentar o número de unidades ambulatoriais de

Comumente, ouve-se coloca- ções do tipo: “Só trabalho num setor de Saúde Mental se tiver apoio policial.” No entanto, portadores de transtorno men- tal não são criminosos e tampouco os policiais são profissionais preparados para atuar na área de saúde. Preci- samos aprender a lidar com os usuários do serviço de Saú- de Mental, e não a nos defen- der deles.

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Saúde Mental

atendimento; capacitar melhor os profissionais, a fim de que possam, inclusive, fazer menor número de prescrições medicamentosas; ofere- cer uma abordagem multidisciplinar; e oferecer maior facilidade de aces- so a quem necessite de ajuda psicoterápica.

É verdade que, se lembrarmos que a atuação em Saúde Mental não está restrita à Psiquiatria, mas permeia outros setores, poderemos pensar em outras formas de prevenção e promoção. Atuar em áreas onde a crise está acontecendo, como oferecer atendimento adequado à mãe que acaba de dar a luz a um natimorto, ou ao paciente que acaba de receber a notícia de uma doença grave ou de uma cirurgia mutiladora são exemplos de ações de promoção e prevenção em Saúde Mental.

Também podemos pensar em todas as ações informativas (como palestras, grupos de reflexão) que podem se dar dentro do hospital ou posto de saúde, ou fora deles, como em comunidades, escolas, empresas etc.

Assim, pensar em prevenção em Saúde Mental é ainda um desafio, seja porque muito se tem a fazer, seja porque, ao programar alguma ação, temos que ter o tempo todo em mente a quem estaremos favorecendo.

10 - O AUXILIAR DE ENFERMAGEM E A (SUA PRÓPRIA) SAÚDE MENTAL

Além de todos os conhecimentos próprios da sua área de atuação, o auxiliar de enfermagem precisa estar atento para o seu estado interno, isto é, como vem se sen- tindo, como anda sua relação com os cole- gas de trabalho, com os pacientes, seus re- lacionamentos fora do trabalho, pois quan- do trabalhamos com Saúde Mental nós mes- mos passamos a ser nosso mais importante instrumento de trabalho.

Como é que podemos saber como vamos nós, enquanto “instrumentos de tra-

balho”? Estando atentos para nós mesmos e para o retorno que outras pessoas nos dão. Estando atentos para a maneira como nos sentimos com cada pessoa, não achando sempre, por exemplo, que se nos senti- mos irritados com tal paciente é porque ele é que é difícil ou chato, mas tentar perceber o que se passa conosco. Nesse sentido, as reuniões com a equipe podem ser um bom momento de auto-avaliação, se for criado

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P EAROF o “clima” adequado para isso (com o ojetivo voltado para a integração da equipe e para a qualidade do atendimento, e não para a competiti- vidade e comparações improdutivas).

Além disso, podemos perceber em nós mesmos os sinais de que as coisas estão mais ou menos equilibradas ou de que não vão tão bem assim. Todos nós passamos por períodos de sofrimento, algumas vezes conseguindo lidar com eles, outras vezes precisando de ajuda. Nesses mo- mentos, é natural que apareçam sintomas como ansiedade, dores ou doen- ças orgânicas, falta de ânimo ou outros. Mas se percebemos que se tornam muito prolongados, devemos buscar ajuda – se for o caso, profissional.

Dentre os fatores causadores destes sintomas, encontramos fa- cilmente o estresse. Além de todo o estresse do dia-a-dia, o auxiliar de enfermagem que trabalha com Saúde Mental está sujeito a um fator de estresse adicional, que é o fato de lidar freqüentemente com pessoas portadoras de transtorno mental, que além de solicitarem muito de nos- sas energias ainda “mexem” com coisas mal resolvidas em nossas vi- das, pois todos somos humanos e, no contato com o outro, sempre descobrimos muitos pontos em comum.

Talvez algumas “dicas” possam fazer com que você reflita e con- siga algumas mudanças que podem reduzir o nível de estresse a que você se expõe. Embora sejam para seu uso pessoal, podem colaborar para o seu desempenho profissional:

! Procure ser cooperativo - Perceber que trabalhamos (e vive- mos!) junto de outras pessoas e que elas são tão importantes quanto nós, ajuda a estabelecer um clima de cooperação.

! Ouça as razões do outro e expresse as suas - Evitar acumu- lar mágoas e mal entendidos diminui em muito a carga de ten- são que temos que carregar.

! Não “empaque” diante dos problemas - Ao invés de ficar se queixando da vida (ainda que seja só em pensamento), tome uma atitude, mude algo que esteja ao seu alcance. Pode não resolver todo o problema, mas uma mudança sempre nos dá uma nova visão do problema.

! Reconheça e aceite os seus limites - Você não pode resolver tudo, sempre. Diante de algo que está fora do seu alcance, apren- da a aguardar. Diante de uma tarefa muito grande, aprenda a dividir e a pedir ajuda.

! Fale de você, compartilhe seu estresse - Falar sobre o pro- blema nos ajuda a pensar melhor sobre ele, alivia e acalma. Pro- cure alguém de sua confiança ou um profissional, se você achar que seu problema é muito grave.

! Cuide de você mesmo - Reserve um tempo para fazer o que você gosta. Pode ser que nem sempre você consiga fazer tudo o

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que gosta, mas sempre poderá descobrir alguma coisa. Faça exercícios físicos (caminhar é grátis e é ótimo), melhore sua alimentação, evite álcool, cigarros, meios inadequados de bai- xar a ansiedade. Medicações psicoativas? Só depois de uma boa avaliação médica.

! Comemore cada vitória - Não fique esperando o ideal de sua vida para ser feliz. Procure perceber as pequenas vitórias e alegrar-se com elas. Com isso você se dá pequenas “folgas” no estresse diário.

11- EMERGÊNCIA PSIQUIÁTRICA

Com a abertura das portas dos “manicômios”, a tendência é que a emergência psiquiátrica faça parte da rotina de atendimento em hospital geral. Isto impõe aos profissionais que aí atuam maior sensibi- lidade em relação à ocorrência de situações que em uma primeira ava- liação parecem de origem orgânica, mas que na maioria das vezes são desencadeadas a partir de problemas sociais e mentais.

A discussão sobre como são feitos os atendimentos dos clientes com transtornos mentais nas emergências gerais leva-nos à seguinte reflexão: serão eles resistentes aos transtornos clínicos, como trauma, infarto agudo do miocárdio, cetoacidose diabética e outras disfunções orgânicas que colocam a vida em risco?

Certamente que, estes usuários, quando acometidos por proble- mas de origem mental, social e/ou clínica, procuram os serviços de emergência específicos ou gerais. A recuperação, conforme a gravidade do caso, depende de três fatores básicos: equipe capacitada, interven- ção imediata e acesso à equipamentos/medicamentos que auxiliam na reversão do quadro.

Uma realidade é que, nas emergências gerais, as equipes médica e de enfermagem cuidam com reservas dos clientes com transtornos de comportamento, o que pode ser justificado como decorrência dos anos em que este tipo de paciente era atendido no espaço dos manicômios. O cuidado deles era restrito à área da psiquiatria e as outras especiali- dades só mantinham contato com os intitulados “loucos” quando estes precisavam de exames mais especializados, como tomografia, ultrassonografia, punção lombar ou até mesmo uma cirurgia.

Este breve contato era cercado por um aparato de segurança, e o medo era visível na face de todos os membros da equipe. A melhor notícia para todos que ali trabalhavam era o retorno de tal paciente à sua unidade de origem: o “hospício”.

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P EAROF A maioria dos usuários que aparecem nas emergências clínicas

apresentam transtornos psiquiátricos que freqüentemente são ignora- dos pela equipe e/ou rotulados de “piti”, ou em termo técnico, distúr- bio neurovegetativo (DNV). Estes são clientes alcoolistas e drogaditos, indivíduos confusos devido a complicações clínicas, pacientes entriste- cidos com idéias suicidas. Todos apresentam sintomas que precisam de intervenção imediata por parte da equipe de profissionais que traba- lham num setor de emergência.

Mesmo com algumas resistências, a idéia de manter a separa- ção das emergências psiquiátricas das emergências clínicas está sen- do ultrapassada, tendo em vista os diversos fatos que aconteceram nos espaços das emergências dos hospitais gerais que culminaram em mortes de pacientes psiquiátricos.

Para exemplificar, certa vez uma paciente com transtornos mentais por duas vezes procurou atendimento numa emergência, queixando-se de dor no peito, sendo medicada com analgésico. Logo após, recebeu alta, sendo orientada a manter repouso abso- luto em sua casa. No mesmo dia, pela terceira vez, ao ver a se- nhora, o médico disse: “Já vem esta mulher ‘pitiática’ de novo”. Orientou que instalassem uma solução glicosada e colocou a pa- ciente em uma enfermaria vazia até o “piti” acabar. Não permitiu a companhia da filha.

Mais de uma vez os auxiliares de enfermagem informaram que a paciente continuava queixando-se de dores cada vez mais fortes. O médico continuou não dando importância à queixa da “louca” e foi atender outros pacientes, garantindo que, se a igno- rassem, a “dor” iria passar. Sua filha, inconformada com a demo- ra e a falta de informações sobre a mãe, invadiu a enfermaria, encontrando sua mãe morta, vítima de um infarto agudo do miocárdio. Sem credibilidade por ser “louca”, morreu sozinha e sem assistência.

Essa história serve como alerta para refletirmos sobre a dinâmica de avaliar e cuidar adotada nos serviços de emergência, que faz deste setor um lugar da unidade hospitalar cujo princípio básico de atendi- mento é começar imediatamente a terapêutica dos transtornos que colo- cam a vida em risco. E, apesar de ser um setor que exige rapidez e eficiência no atendimento, não tem que ser desprovido de sensibilidade.

Mas que transtornos são esses? Os sociais? Os mentais? Os clínicos? A estas perguntas, nenhum protocolo na área de emergência con-

segue responder, já que esses três transtornos estão entrelaçados e arti-

Distúrbio neurovegetativo – Distúrbio nervoso de fundo emocional que se caracteriza por agitação, confusão e an- gústia.

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culados. Sendo assim, o diagnóstico precoce depende apenas do poder de observação de cada profissional ao analisar uma determinada situa- ção. Pode-se definir a observação como o ato de perceber, com todos os órgãos do sentido, o mundo que nos rodeia, através do olhar atento (visão), da percepção dos odores (olfato), do escutar além do que foi dito (audição), do relacionar as sensações gustativas com transtornos clínicos e psíquicos (gustação) e da reação ao toque (tato). Mesmo que alguns destes sentidos não sejam usados rotineiramente por nós em nosso trabalho, o importante é que cada profissional desenvolva a sen- sibilidade como habilidade.

Por isso, uma das fases mais importantes para demonstração da sensibilidade na emergência é a avaliação primária, que deve conside- rar a singularidade de cada cliente, através da coleta de dados subjeti- vos, objetivos e da história de doenças pregressas e atuais.

Quando a sensibilidade é deixada para segundo plano, normal- mente a equipe se confunde diante de um transtorno mental que simu- le sinais e sintomas de obstrução de vias aéreas, insuficiência cardio- pulmonar, coma e choque, comuns nas síndromes de ansiedade, como no pânico ou na dissociação.

É bom descartar todas as possibilidades de falência nos sistemas orgânicos, sempre pensando na possibilidade dos transtornos mentais que podem somatizar e simular quadros de angústia cardiorrespiratória. Qualquer displicência pode induzir a equipe ao erro de desenvolver procedimentos desnecessários que colocam o cliente em risco de vida.

Isto não é difícil de acontecer nos casos de pacientes com trans- tornos do pânico, diagnosticado ou não. Chegam às emergências com dor no peito, dificuldade de respirar, palpitação, dispnéia e aperto no peito. Inicialmente, estes dados subjetivos e objetivos levam a equipe a pensar em déficit respiratório com comprometimento do coração, su- gerindo oxigenioterapia, monitorização cardíaca e respiratória e possí- vel entubação.

Nestes casos, a equipe deve estar alerta à história clínica do paci- ente e aos eventos relacionados aos sinais e sintomas apresentados. Sempre que o poder de observação é superficializado e metódico, a equipe pensa em tudo, faz manobras de ressuscitação dignas de um “Plantão Médico”, mas não consegue perceber que o foco desta crise está localizado nos transtornos da mente.

A ausência de uma avaliação correta e de sensibilidade pode acar- retar em problemas para a equipe. Certa vez, em um hospital de emer- gência, a equipe médica, diante de um quadro de dificuldade respirató- ria, decidiu por uma traqueostomia. Este fato resultou em abertura de inquérito pela família da paciente já que a mesma apresentava a síndrome do pânico e a equipe, ironicamente, entrou em pânico.

Dados subjetivos - Dizem res- peito a tudo aquilo que não se pode mensurar, como angús- tia, palpitação, astenia, dor...

Dados objetivos - São dados observáveis e mensuráveis, tais como: sinais vitais, satura- ção de oxigênio, sudorese, ansiedade e agitação psicomotora.

Não estamos aqui dizendo que nestes casos deve-se desconsiderar a dispnéia e a taquipnéia. Mas convém alertar que somente as mano- bras de reanimação previstas nos protocolos nem sempre dão conta da complexidade dos casos desencadeados a partir de disfunções mentais.

Somatizar – Diz respeito aos sintomas que se evidenciam no corpo. Atenção.

Displicência – Descuido, ou mesmo desleixo nas manei- ras, no vestir, no proceder; descaso, desmazelo, negli- gência.

Plantão Médico - Seriado de televisão que reproduz o aten- dimento agitado de uma grande emergência.

Traqueostomia – É um proce- dimento de emergência e consiste na abertura cirúrgica da traquéia para facilitar/ permitir a entrada de ar para os pulmões quando o pacien- te apresenta dificuldade res- piratória.

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P EAROF Para que essas histórias não façam parte do cotidiano dos nossos

locais de trabalho, passaremos a discutir sobre as diversas maneiras de intervir em situações de crise, dando subsídios ao profissional para es- colher as mais adequadas perguntas e comportamentos para realizar a avaliação de usuários, que independem da história psíquica apresenta- da. Apresentaremos, também os principais quadros de emergências psi- quiátricas.

11.1 Caracterizando as intervenções diante das crises Pelos corredores das Unidades de saúde encontramos vários in-

divíduos que vivenciam uma crise, mesmo quando a apresentação da sintomatologia é de natureza clínica. Qualquer contrariedade pode se transformar em distúrbio nervoso de fundo emocional, trazendo danos para o indivíduo e principalmente para aquelas pessoas que o cercam. Isto nos faz defender que a emergência psiquiátrica deve estar integra- da geográfica e funcionalmente à emergência clínica, e vice-versa.

Em qualquer circunstância, o ambiente ideal de atendimento de- verá propiciar a segurança necessária para o usuário e a equipe de saú- de. Nas salas não devem ter objetos perfurocortantes ou objetos que podem se transformar em armas e serem usados contra o outro no mo- mento da raiva.

Em alguns países economicamente dependentes de outros, como o Brasil, são freqüentes os distúrbios mentais que se desencadeiam ten- do como “pano de fundo” a pobreza. A distribuição desigual da renda e do acesso ao trabalho, à moradia digna, ao lazer, à segurança, à alimen- tação, à saúde e à educação contribuem para a desestruturação da men- te humana.

Pode-se encontrar, nas emergências clínicas, alcoolistas em abs- tinência; indivíduos com crise do pânico, buscando avaliação cardiológica; suicídios por superdosagem de medicamentos; vítimas de violência doméstica; e reação de estresse por estar desempregado ou enlutado em decorrência de acidentes ou morte súbita. Enquanto que nas emergências psiquiátricas são comuns as situações de psicoses, agi- tação por drogas, indivíduos com descompensação de quadros esquizofrênicos e maníacos.

A crise não escolhe umas pessoas e poupa outras; é universal. Acomete ricos, pobres, negros, brancos, profissionais bem-sucedidos, chefes de família e parlamentares, como também indivíduos que por quaisquer causas estejam fragilizados nas relações com o mundo.

Nem a equipe de profissionais de saúde escapa do risco de desen- volver algum transtorno mental. Quantas vezes notamos que nossos

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colegas de trabalho estão vivenciando momentos de angústia em famí- lia, estão ingerindo medicamentos exageradamente e até estão se tor- nando alcoólicos “sociais”? Na verdade, todos nós podemos, de uma hora para outra, entrar em crise, pois vivemos no mesmo mundo e estamos suscetíveis às mazelas da modernidade.

Durante o período de uma crise, o indivíduo tem a oportunidade de desenvolver mecanismos que o ajude a controlar suas ações e rea- ções ou passar por ela com uma total desorganização da compreensão de sua essência. Ele pode tornar-se mais vulnerável e psicologicamen- te instável, ou pode retomar sua vida normal, tendo o controle da sua natureza. A compreensão e delimitação da fase que o cliente está vivenciando requer que a intervenção seja precisa, coordenada e em tempo adequado de restaurar os mecanismos de defesa do indivíduo.

Mas quem são os indivíduos mais vulneráveis à crise? Geralmente são: desempregados, subempregados ou não satis-

feitos com sua ocupação; usuários de drogas lícitas e ilícitas; indivídu- os que não conseguem lidar com seus próprios problemas, com baixa estima que alimentam excessivamente os sentimentos de insegurança; pessoas com história de crises mal resolvidas; indivíduos que subutilizam os recursos de apoio social ou não acessam o sistema de apoio, como família, amigos, igreja; pessoas que cultivam o sentimento de isola- mento ou são impulsivas em excesso.

A suscetibilidade à crise normalmente é precipitada a partir de eventos que popularmente as pessoas dizem ser a “gota d’água” – como a morte de um ente querido, mudança de status, casamento, separação, gravidez especialmente fora do casamento ou indesejada, doença físi- ca, perda de emprego, mudança nas condições de trabalho, aposenta- doria, climatério, violência sexual, desastres naturais (enchentes, que- das de barreiras).

Após contornada a crise, pensar no retorno deste indivíduo ao meio social deverá ser a principal meta dos profissionais de saúde. A intervenção a ser adotada é o diálogo direto, ativo, dirigido para os sintomas e para o real acontecimento. Auxiliar o indivíduo a retornar sua vida normal depois da crise é garantir sua permanência com o mes- mo grau de importância nos espaços antes ocupados por ele, ou seja, no trabalho, na escola, na família e na comunidade.

Para tal, as pessoas da equipe responsáveis em fazer a primeira abordagem, de forma geral devem ter capacidade de escutar e ser des- providas de preconceitos para melhor conhecer o mundo de inserção deste indivíduo. Pode-se sugerir um modelo básico de seis etapas a ser utilizado para intervenção em crise:

! Explorar e definir o problema com base na perspectiva do paci- ente, prestando atenção nas mensagens não-verbais - Nem tudo o que o indivíduo fala é o que sente. Os gestos, o olhar, o corpo

Essência - O que constitui a natureza íntima das coisas, o seu modo de ser, ou seja, a própria existência.

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P EAROF podem indicar emoções que nem sempre são expressas em pa- lavras. Um paciente pode pedir a você que o deixe sozinho en- quanto chora e segura firmemente sua mão.

! Demonstrar de modo verbal e não-verbal que você se importa com ele - O olhar, o tom de voz, a expressão são itens indispen- sáveis para que o paciente confie no profissional de saúde.

! Providenciar segurança ao paciente, avaliando o grau de risco para a segurança física e psicológica do mesmo e de terceiros. Não se trata de fazer ameaças, mas sim de alertar o paciente das conseqüências de atitudes impensadas, dialogando sobre alternativas para comportamentos destrutivos impulsivos.

! Auxiliá-lo a buscar alternativas de escolhas disponíveis, faci- litando a busca por apoio situacional (família e amigos), me- canismos de defesa/adaptação e padrões construtivos de pen- samento.

! Construir junto com o paciente planos realistas de curto prazo que identifiquem recursos disponíveis e mecanismos de adap- tação bem definidos. Isso só pode se efetuar através do hábito de ouvir e conversar com o paciente. Mas é muito importante que o profissional não se veja como um conselheiro e resolva decidir as questões da vida do indivíduo.

! Obtenha do cliente o compromisso de seguir os passos neces- sários, possíveis e aceitáveis para correção do problema.

Tentativas de auto-extermínio são crises. A conduta inicial é ava- liar se o cliente apresenta risco de tentar novamente o suicídio. Em geral, quanto mais agressivos, mais distantes da ideação suicida estarão. A equipe de saúde deve ter consciência desta agressividade para abor- dar, se possível, a questão com o cliente, trazendo-o para a realidade.

O risco de suicídio está relacionado com o seguinte perfil: idade acima de 45 anos; sexo masculino; não casado; desempregado; instabi- lidade nas relações interpessoais; tentativas anteriores de suicídios; ca- sos de suicídio em família (principalmente dos pais); ser portador de doença crônica ou dor crônica; história de depressão; psicose; abuso de substâncias; distúrbios de personalidade; pouco acesso a tratamento por razões sociais; idéias suicidas intensas, freqüentes; prolongado de- sejo de morte e auto-punição; e isolamento social.

De uma forma geral, o cuidado de um indivíduo em situações de crise tem como objetivo o resgate dele como dono de sua vida, responsável pelo seu rumo, tendo em vista as opções oferecidas pela realidade. O difícil é auxiliar o paciente a perceber que o controle das opções em sua vida depende, entre outras coisas, da sua vonta- de em superar a crise.

Dizer ao paciente que, se não se comportar, será contido, não é alertá-lo para riscos, pois a contenção deve ser sempre vista como um recurso para evitar que o paciente se exponha a riscos.

Ideação suicida – É o pensa- mento ou idéia de morte.

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11.2. Avaliação Primária na Emergência Psiquiátrica Junto com o tratamento de emergência que segue as normas de

preservação das funções vitais do homem, é útil realizar uma avaliação padronizada e inicial do estado psíquico de cada cliente.

A enfermagem deve estar preparada para dar início a esta avalia- ção, já que é responsável, em casos de agitação psicomotora, por técni- cas de contenção, sejam medicamentosas ou físicas, nas quais o conta- to físico é inevitável. Além disso, geralmente é este grupo que circula com o paciente nas dependências da unidade hospitalar, quando este submete-se a exames complementares.

Geralmente os pacientes agitados portadores de transtornos men- tais são excessivamente sedados, e podem necessitar emergencialmente de proteção de vias aéreas por conta dos riscos de depressão respirató- ria. Por outro lado, quando recebem medicações psicoativas, a despei- to de terem se alimentado, correm o risco de broncoaspirar, se não forem colocados em decúbito dorsal ou com a cabeceira elevada e a cabeça lateralizada. Outra preocupação é com os sinais vitais, pois al- guns psicofármacos podem ocasionar diminuição da pressão arterial. Essas precauções de segurança, fruto da avaliação primária, evitam agravos e complicações administrativas.

A avaliação primária realizada pela equipe de enfermagem nas emergências psiquiátricas deve ter como base questionamentos e ob- servações que sirvam como instrumentos do cuidar, considerando os seguintes aspectos:

! Aparência - O paciente está extremamente limpo, sujo, agita- do, calado? Olha nos olhos das pessoas que conversam com ele? A atividade psicomotora está aumentada, diminuída ou assume posturas bizarras. Está cheirando a álcool ou tem as pupilas dilatadas (midríase) por uso de cocaína ou anfetaminas? Interage com aqueles que lhe trouxeram à emergência ou recu- sa a presença destas pessoas?

! Consciência - Está confuso e/ou sonolento? Compreende o que está se passando ao redor? Apresenta distúrbios neuropsicológicos como linguagem, memória e atenção preju- dicadas? Conhece as pessoas que lhe trouxeram?

! Pensamento - Pensa e fala muito rápido, como em quadros de mania, ansiedade, intoxicações? Está com pensamento lento, como em depressão? É estranho e incompreensível, como em psicoses? Vê vultos, insetos nas paredes, como no caso de Delirium tremens? Escuta vozes, como na esquizofrenia? Pen- sa que alguém quer lhe tirar a vida ou quer lhe prejudicar, como nas paranóias?

Posturas bizarras – São postu- ras extravagantes, estranhas, esquisitas.

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P EAROF ! Humor e afetividade - Está profundamente triste, eufórico ou

normal? De repente se irrita com qualquer coisa? Apresenta idéias suicidas ou homicidas? Mostra-se indiferente afetivamente?

! Julgamento e crítica - Demonstra bom senso em suas idéias? Entende os procedimentos que estão sendo realizados pela equi- pe de saúde? Admite ter um problema psiquiátrico ou culpa outra pessoa por suas dificuldades? Percebe que está doente?

Depois desta avaliação, a equipe de enfermagem estará mais se- gura para administrar os medicamentos orais/parenterais e monitorar as reações adversas. Além disso, o diálogo com o paciente é sempre o melhor meio para estabelecer uma relação de confiança, mesmo quan- do este necessitar de contenção e restrição no leito.

11.3. Classificando as Emergência Psiquiátricas Em geral, as síndromes ou sintomas psiquiátricos mais freqüen-

tes encontrados na prática das emergências podem ser classificados como agitação e/ou agressividade; depressão e tentativa de suicídio; ansieda- de; conflitos interpessoais; abuso de substâncias.

11.3.1 Agitação e/ou agressividade

Alguns pacientes chegam neste setor agudamente agitados, com risco iminente para si e para outros. Geralmente, precisam ser fisica- mente restritos, mas a equipe deve sempre optar por uma abordagem menos restritiva e mais humana.

Entre a restrição medicamentosa e a mecânica, a primeira sem- pre será a mais coerente. Entretanto, em alguns casos, quando o com- portamento violento é secundário em relação a doenças clínicas como hipoglicemia e traumatismo craniano, a escolha por medicamentos pode dificultar a avaliação real da evolução do quadro neurológico inicial.

Em alguns casos, o cliente pode estar agitado mas não violento. Entretanto, quando agitado, precisa de observação constante e isola- mento, sempre acompanhado por membros da equipe, até que o trata- mento emergencial se complete. A contenção mecânica é inevitável para evitar quedas que gerem traumatismos e fraturas.

O conhecimento de fatores de risco do comportamento agressi- vo tem sido de grande validade no momento da avaliação primária. Por isso, clientes com história de agressão e impulsividade, labilidade emo- cional, baixa tolerância a frustração, história de delinqüência, idéias

Labilidade emocional – É um humor instável. O paciente ora está alegre, ora triste, ora furioso, e assim por diante.

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delirantes de perseguição, alucinações auditivas de comando (vozes que o ordenam a fazer coisas) e comportamento agressivo recente são fortes candidatos à agitação acompanhada de agressividade.

O que pode ser um alerta na identificação deste paciente é a postura. Geralmente ele se mantém inclinado para a frente, em estado de vigilância constante; fala alto ou grita; faz comentários pejorativos e sua expressão facial é tensa, com os olhos arregalados. O excesso de tensão pode ser perce- bido através da rigidez da musculatura corporal. A exigência da perfeição e a atividade motora visível de irritabilidade são suas marcas registradas.

Diante deste paciente, a equipe de enfermagem deve manter-se calma, porém com atitudes firmes, demonstrando que o domínio da- quele espaço não é apenas dele. Isto estabelece limites. A fala deve ser calma e suave, e não provocativa. Os movimentos devem ser lentos, evitando tocar o paciente, pois a aproximação brusca e a fixação do olhar em direção a ele podem ser consideradas como ameaças, resul- tando em agressão física aos membros da equipe.

Nestes casos, a equipe que o assiste deve dispor-se na sala sem- pre mais próxima da porta do que do paciente, evitando também que no recinto haja objetos que possam se transformar em armas, como cinzeiros, suportes de solução móveis e luminárias. Outra precaução é a presença de pessoas na equipe que dominem as técnicas de conten- ção, para utilizá-las de imediato. É bom lembrar que esta ação não deve ter a intenção de punição, e sim de cuidado.

Ao ser contido fisicamente, o cliente não deve ser abandonado à sua própria sorte, pois este procedimento dá uma sensação de retalia- ção, tornando-o mais agressivo ainda. Tal exacerbação da agressividade gera movimentos que podem, nos casos de contenção no tronco, interfe- rir na respiração, dificultando a expansão pulmonar e, em conseqüência, diminuir os níveis de oxigênio, cujo desdobramento é o quadro de insufi- ciência respiratória. Em casos de imobilização dos quatro membros, o garroteamento dos vasos periféricos, diminuindo o fluxo sangüíneo, de acordo com o tempo pode levar a necrose e futura amputação.

Os cuidados de enfermagem mais prementes que devem ser adotados são o controle freqüente dos sinais vitais e pulsos arteriais dos quatro membros. A manutenção de decúbito dorsal ou com a cabe- ceira elevada e a cabeça lateralizada são indispensáveis para evitar a broncoaspiração, pois, em algumas síndromes, náuseas e vômitos são freqüentes. A estimulação da ingesta hídrica e a monitorização da hidratação venosa servem para evitar quadros de desidratação.

Para o tratamento químico, os medicamentos mais utilizados são os antipsicóticos. Sua vantagem está em não exercer efeitos considerá- veis nos valores da pressão arterial e no ritmo cardíaco, assim como não predispõe o paciente a convulsões. O mais importante é que per- mite o controle da agitação em pouco tempo.

Retaliação – É uma represália, vingança, desforra.

Exacerbação – É o agrava- mento do distúrbio, da irritação, da aflição.

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P EAROF A combinação de antipsicóticos com benzodiazepínicos tem sido

uma alternativa para diminuir a dosagem do primeiro. Os benzodiazepínicos podem causar excitações paradoxais em determina- dos pacientes, mas o seu uso para o tratamento de agitação vem aten- dendo ao propósito da terapia.

Após o atendimento emergencial, este paciente pode ter dois des- tinos: a internação ou a alta com agenda para tratamento ambulatorial. Isto irá depender, se de fato não corre o risco de se auto punir ou de tentar o suicídio. Nas duas alternativas de encaminhamento pós-crise, é imprescíndível que paciente e familiares tenham as informações devi- das para evitar complicações futuras.

11.3.2 - Depressão e tentativa de suicídio

O paciente levado à emergência com pensamento suicida ou após tentativa de suicídio exige da equipe de saúde determinação e poder de decisão. Dados colhidos nas emergências de todo o Brasil constatam que grande parcela dos indivíduos que se suicidaram tiveram contato com profissionais de saúde nos seis meses que antecederam ao ato. Todos buscaram apoio no sistema de saúde.

A maioria ingeriu grande quantidade de medicamentos prescritos pelo próprio médico, ou outros medicamentos de venda livre que cau- sam danos e seqüelas graves, como Ácido acetilsalicílicoR e AcetaminofemR.

Inofensivo, o AcetaminofemR, quando combinado com bebida alcóolica, pode resultar em insuficiência hepática. Portanto, quando se avalia o tipo de medicamento, deve-se levar em consideração os medi- camentos prescritos e os demais produtos tóxicos disponíveis na casa do paciente.

Por exemplo: Um profissional da área de saúde foi hospitalizado com intoxicação exógena pela tentativa de auto-extermínio através da ingestão de mais ou menos 280 comprimidos de barbitúrico batidos no liqüidificador com leite. O mais importante é que, antes de tomar a “vitamina de barbitúricos”, ele mesmo avisou que iria executar o ato para sua namorada, ou seja, pediu socorro.

No comportamento suicida, estão envolvidos o desejo de ajuda, o desejo de morrer e a agressividade subjacente. Autores relatam que as mulheres, por serem mais emotivas e apaixonadas, apresentam maior predisposição em tentar o suicídio. Mas são os homens que, ao toma- rem esta decisão, tornam esse evento letal e escolhem métodos mais agressivos, como armas de fogo. Os suicidas mais radicais ateiam fogo no próprio corpo.

Na tentativa de suicídio apelativa, o paciente garante a existên- cia de socorro antes de consumar o ato, fica contente por ter sobrevivi-

Paradoxal – É tudo aquilo que é anormal para o que você deseja, contrário. Neste caso, são efeitos não esperados para o medicamento.

108

Saúde Mental

do, resolve parcialmente conflitos precipitantes, retoma a atenção de familiares (que ficam preocupados com ele) e não expressa planos fu- turos de suicídio.

Na emergência para retirá-los do risco de vida, é utilizado outra substância que inativa o efeito da substância escolhida, lavagem gástri- ca, hemoperfusão e/ou hemodiálise. Passada esta fase, são utilizados medicamentos antidepressivos. O melhor efeito terapêutico é obtido pelo uso combinado de antidepressivos e psicoterapia.

Independente de ter tentado o suicídio, todo paciente que se apre- senta com depressão na emergência precisa ser informado de que esta tristeza profunda é uma doença, e que existe tratamento eficaz à dispo- sição, sob o ponto de vista biológico e psicológico.

11.3.3 - Ansiedade

A ansiedade faz parte do cotidiano de cada cidadão. Quando pres- tamos um concurso, quando esperamos o resultado de um exame médi- co, ou mesmo quando passamos por situações de violência, nosso co- ração dispara por medo ou ao pensar na possibilidade de não alcançar os resultados esperados. Na verdade, é um sentimento indispensável para a sobrevivência e o desenvolvimento do homem, mas em diversas condições a ansiedade se manifesta de maneira patológica.

Os transtornos de ansiedade relevantes para a emergência são: ataques de pânico e agorafobia, ansiedade generalizada e transtorno de ajustamento com ansiedade, quadros conversivos, somatizações, qua- dros dissociativos e estresse pós-traumático.

Os transtornos do pânico são quadros de início súbito, com ansi- edade intensa, sensação de morte iminente, acompanhados por palpi- tações, desconforto precordial, vertigem, parestesia, tremores e sudorese. Esses sintomas levam o cliente e a família a procurar imedi- atamente os serviços de emergência em função da sensação de morte iminente.

A fobia é tanta que estes pacientes se desesperam quando estão em algum lugar que não lhes garanta assistência imediata disponível. Por isso, é importante que a equipe de saúde, depois de descartada qualquer falência física, reassegure que ele não vai morrer deste ataque.

O diálogo e a administração de antidepressivos ou benzodiazepínicos e ácido valpróico são os primeiros passos terapêuticos, além do acompanhamento da função cardiovascular atra- vés de monitorização cardíaca e dos sinais vitais.

Já na ansiedade generalizada o paciente apresenta-se inquie- to, com dores musculares, tensão e vertigem. Esse quadro é caracteri- zado naqueles clientes que se levantam a toda hora, não podem esperar a sua vez e solicitam a presença do médico a cada instante.

Hemodiálise - Processo de remoção dos produtos metabólitos de refugo, líqui- dos do sangue e substâncias químicas em excesso. A má- quina responsável por este processo é chamada de rim artificial.

Hemoperfusão - Passagem de sangue por um material absorvente para remover uma substância tóxica. Freqüentemente é usado o carvão ativo, devido às carac- terísticas absorventes que possui.

109

P EAROF Nas emergências, estas características são encontradas não so-

mente nos pacientes, mas principalmente em seus familiares. A tera- pêutica medicamentosa de escolha é o benzodiazepínico e um sistema que mantenha-os informados sobre seu estado clínico, o que deve ser estendido à família. Essa gentileza por parte da equipe diminuirá o grau de ansiedade de cliente/família.

Os quadros conversivos são freqüentes nas emergências gerais e costumam irritar os médicos e profissionais de enfermagem. Nesse quadro, o paciente mostra uma queixa ou sintoma localizado, não vo- luntário, que não tem justificativa fisiopatológica ou anatômica, não podendo ser explicado por doença física. Essas pessoas são tão presen- tes nas emergências que acabam tornando-se íntimas da equipe, que normalmente não percebe que essa é a forma encontrada por elas para comunicarem que precisam de ajuda.

A abordagem inicial nas emergências deste caso deve ser o auxí- lio ao paciente para que exponha seu sofrimento verbalmente, além de mantê-lo em local calmo, longe dos acompanhantes e perto da enfer- magem. Ao entrevistar os acompanhantes e/ou familiares, deve-se pesquisar os fatores desencadeantes deste quadro.

Encontramos também, nos corredores das emergências, pessoas que apresentam queixas vagas, com múltiplos sintomas, exigindo pro- cedimentos e exames. Em geral, já fizeram uma via crucis nos serviços de saúde da região onde residem e trazem consigo exames e medica- mentos antigos. As queixas geralmente são: dificuldade para deglutir, dores abdominais, fraqueza, tonturas, dentre outras – todos sintomas característicos de somatização.

Tal qual a ansiedade generalizada, na emergência esses sintomas significam que este paciente tem problemas e que esta foi a melhor forma de expressá-los. Apesar de existirem tratamentos para a síndrome de fadiga crônica, o melhor é convencê-lo que ele precisa da ajuda de um especialista.

Como este paciente está sempre retornando à sala de espera dos hospitais, a evolução deste quatro é a auto-mutilação. Ele se auto inflige lesões ou relata sintomas para obter internação. Nesta fase, o que dife- rencia da simulação inicial é a compulsão para produzir os sintomas.

Uma outra situação são os pacientes que passaram por experiên- cia de estupro, assaltos, seqüestros e foram vítimas de violência urba- na. Estes devem ser avaliados nas emergências para o diagnóstico de transtorno de estresse pós-traumático, o qual freqüentemente é acom- panhado de quadros dissociativos que são caracterizados por uma dissociação da consciência, de origem psíquica.

Eles podem apresentar fenômenos amnésicos, estranhamento de si (despersonalização) e do mundo que os rodeia (desrealização). Para tratar desses pacientes no pronto socorro, é importante que haja um

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Saúde Mental

lugar tranqüilo para mantê-los em observação. Se estiverem apresen- tando agitação psicomotora, a medicação de escolha são os benzodiazepínicos ou os antipsicóticos.

Faz-se necessário que a equipe da emergência, de uma forma geral, saiba distinguir o quadro dissociativo do tipo personalidade múl- tipla da amnésia global transitória. Esta ultima é caracterizada por epi- sódios de perda de memória de curto e longo prazos, provavelmente conseqüente a distúrbios transitórios nos lobos temporais.

Os pacientes suscetíveis são geralmente de meia-idade e incapa- zes de se recordar de dados pessoais, como nome, idade, endereço. Nes- tes casos, retê-los na emergência ou interná-los é uma medida de segu- rança para evitar que fiquem perambulando na cidade sob risco de maus cuidados pessoais e de se tornarem vítimas de violência ou acidentes.

11.3.4 - Conflitos interpessoais

Esses tipos de pacientes não suportam o abandono mesmo quando este é imaginário e tendem a misturar sua identidade com as da pessoas ao redor. Geralmente chegam nas emergências após superdosagem de medicamentos, auto-mutilações e vitimização repetida. Eles percebem o mundo sempre com a confrontação de duas idéias, o bem/o mal, certo/errado; e desenvolvem rápidas reações de raiva quando se sen- tem desconsiderados. As superdosagens e as mutilações não visam o suicídio, mas servem para dispersar o vazio interno e a sensação de plenitude com eles próprios.

Esses pacientes resolvem mal os seus problemas, sendo que uma das metas da intervenção na emergência, depois de socorrer os trans- tornos físicos, é auxiliá-los através do diálogo a encarar os obstáculos realisticamente e utilizar mecanismos construtivos, sem fantasias, para enfrentá-los.

11.3.5 - Abuso de substâncias

O uso indiscriminado de substâncias como álcool, anfetaminas, estimulantes, sedativos, inalantes como colas, tintas, removedores e gasolina, tem levado muitas pessoas a serem atendidas nas emergênci- as. Além dos quadros crônicos, ocorrem freqüentemente quadros agu- dos secundários ao uso destas substâncias, como acidentes automobi- lísticos. As mais importantes, sem dúvida, são as relacionadas ao uso de álcool, tendo em vista que o indivíduo começa a consumir esta dro- ga na adolescência, chegando à vida adulta com uma sensação de ple- nitude sempre quando o assunto é a disputa de quem consegue beber mais. Daí para o alcoolismo é um passo.

Vitimização – É quando a pes- soa é vítima de violências. Neste caso, a pessoa se expõe a violências com freqüência.

111

P EAROF A intoxicação pelo álcool envolve vários estágios de alteração do

comportamento, mas freqüentemente ocorre prejuízo do julgamento, diminuição da atenção, respostas emocionais inapropriadas, labilidade afetiva e desinibição de comportamentos agressivos.

As intervenções, nestes casos de intoxicação alcoólica, são: ! Exclusão de complicações clínicas graves, como insuficiência

hepática, hematoma subdural, sangramento digestivo e Síndrome de Wernicke.

! Tratamento da agitação e/ou violência com antipsicótico. ! Restrição física, se necessário. ! Em casos de diminuição do nível de consciência, é preconizada

administração de glicose endovenosa. ! A mensuração do teor de álcool no organismo, é extremamente

importante. Na falta deste exame pode ser utilizado um apare- lho (bafômetro) que mede o nível do álcool no organismo atra- vés de uma baforada ou sopro.

! Observação e monitoração da febre, hipotensão ou hipertensão. Em relação aos níveis sangüíneos e sinais de intoxicação alcoóli-

ca, podemos utilizar a seguinte tabela:

A Síndrome de Wernicke se caracteriza por um quadro neurológico em que se obser- va confusão mental, ataxia (deficiência de controle e coor- denação dos músculos volun- tários) e oftalmoplegia (parali- sia parcial ou total da muscu- latura do olho).

Níveis Sangüíneos Sinais de Intoxicação Alcóolica

30 mg/dl Euforia em indivíduos sem tolerância prévia.

50 mg/dl Efeitos depressores no SNC mais proeminentes: prejuízo cognitivo, dificuldades motoras.

60 mg/dl Limite para condução de veículo estabelecido pelo Código de Trânsito brasileiro (1997) - Art. 297.

80-100 mg/dl Limite legal para intoxicação nos EUA.

200 mg/dl Náuseas e vômitos, acentuação da ataxia, diploplia.

300 mg/dl Hipotermia, disartria, amnésia, estágio 1 de anestesia.

400-700 mg/dl Coma, falência respiratória, morte.

As pessoas que estão acostumadas a fazer uso de doses diárias de álcool, quando são levadas a parar ou reduzir a ingestão desta bebida, em questão de horas ou dias, desenvolvem a síndrome de abstinência, quadro que pode levar à morte.

Nesta síndrome, o paciente fica ansioso, irritado, com sensação de desconforto, falta de sono e dificuldade de ficar parado em um mes- mo lugar. Na parte física, libera adrenalina, resultando em sudorese, taquicardia, tremores, náuseas e vômitos. A progressão leva a crises

Diplopia - Visão dupla; per- cepção de duas imagens.

Disartria - Dificuldade na arti- culação das palavras

112

Saúde Mental

convulsivas, rebaixamento do nível de consciência com agitação psicomotora e desorientação evoluindo para alucinações visuais ou tá- teis em forma de insetos na parede ou na pele. A este conjunto de sintomas é que se dá o diagnóstico de Delirium tremens.

O tratamento desta síndrome depende da história anterior. Paci- entes com história de crises convulsivas devem ser tratados com um anticonvulsivante, como a FenitoínaR. Algumas dessas crises podem ser prevenidas pela reposição de magnésio juntamente com os fluidos endovenosos administrados durante oito horas.

Em casos de agitação e/ou violência, a restrição medicamentosa e mecânica faz-se necessária. Além disso, a equipe de enfermagem deve dar ênfase à hidratação, a tiamina para melhorar os sintomas neurológi- cos e manter próximo do leito a cânula de Guedel, para, em casos de convulsões, proteger de trauma a mucosa oral.

O uso de estimulantes como cocaína, anfetaminas e fenciclidina é mais freqüente entre os jovens e desenvolve uma série de complica- ções clínicas e psiquiátricas. Independente da potência de cada subs- tância, as pessoas que as usam buscam um “grande barato”, ou seja, buscam uma viagem expressa em forma de alucinação.

Quando chegam às emergências, apresentam hipervigilância, aumento da ansiedade, midríase e complicações clínicas graves, como convulsões, infarto do miocárdio, arritmias e acidente vascular cere- bral. O tratamento deve ser conduzido como o da ansiedade, com benzotiazídicos. A agitação psicomotora e os quadros de delírios paranóides requerem uso de antipsicóticos. Lógico que as falências neurológicas e cardiovasculares devem ser tratadas em primeiro lugar, evitando a morte súbita.

Aquelas pessoas que usam barbitúricos, como benzodiazepínicos, indiscriminadamente, correm risco de quadros de abstinência grave, semelhantes à do álcool, quando decidem não mais utilizá-los. Essas medicações por vezes são freqüentemente prescritas pelos profissio- nais médicos sem orientação apropriada quanto a seus riscos de de- pendência e abstinência.

A redução desta medicação deve ser realizada através de um plano terapêutico que interaja benzodiazepínicos de curta e longa duração.

Sempre que um paciente chega confuso nas emergências, é bom desconfiar de ingestão de substâncias sedativas. Além dos procedimentos usuais, como lavagem gástrica, a equipe pode utilizar substâncias anta- gônicas. Como exemplo, podemos citar o NaloxoneR EV para reverter sobredosagem de heroína, e o FlumazenilR para reverter superdosagem por uso de benzodiazepínicos. Embora as prescrições medicamentosas sejam feitas pela equipe médica, a previsão da demanda medicamentosa é uma importante atribuição da enfermagem para a eficiência no atendimento.

113

P EAROF Em casos de abstinências a opiáceos como a heroína, o descon-

forto é maior do que os riscos da letalidade apresentada na abstinência do álcool. O usuário desta droga, ao parar de usá-la, sente náuseas, vômito, diarréia, dores musculares, piloereção (arrepio), rinorréia (coriza) ou lacrimejamento e mal-estar generalizado. A melhor opção terapêuti- ca é o uso de ClonidinaR, cujo principal problema é a queda da pressão arterial, fato que exige o controle rigoroso dos sinais vitais.

Outras substâncias, como maconha e inalantes, levam vários jo- vens aos serviços de emergência, principalmente nas madrugadas de sexta-feira e sábado, quando as festas estão em seu auge. O uso de maconha pode desencadear quadros de ansiedade, e o uso de maconha de excelente qualidade, sem mistura, pode desencadear um quadro psicótico.

Por outro lado, inalantes como colas, tintas, removedores e gaso- lina são solventes, ou seja, são substâncias capazes de dissolver gordu- ra. Como grande parte do cérebro é formado da gordura mielina, o uso crônico destas substâncias pode, paulatinamente, ocasionar sérias con- seqüências neurológicas. O tratamento, nestes casos, é voltado para os sintomas apresentados, impondo à equipe maior poder de observação para retirá-lo da crise.

Percebe-se que os limites entre os transtornos psiquiátricos e clí- nicos são de difícil delimitação. Na verdade, a grande maioria dos qua- dros atendidos nas emergências são manifestações agudas de proble- mas crônicos. Diante desta realidade, o sucesso do atendimento depen- de da abordagem sistemática realizada por uma equipe multidisciplinar e interdisciplinar sensível, atuando simultaneamente e consciente da sua função no processo de preservação imediata da vida.

“O espírito humano é mais forte que qualquer droga! É isso que precisa ser alimentado, com trabalho, lazer, amizade e família. É isso que é importante... E foi disso que nós esquecemos.... das coisas mais simples...”

(Extraído do filme Tempo de Despertar).

114

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12. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AMARANTE, Paulo (Coord.) Loucos pela vida: a trajetória da reforma psiquiátrica no Brasil. Rio de Janeiro: Fiocruz, 1995.

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____________________________. Se você tem mais de 65 anos e está deprimido. Rockville, EUA:, 1992.

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PITTA, Ana. Reabilitação psico-social – São Paulo: HUCITEC, 1996

RAPAPORT, Clara Regina. Psicologia do desenvolvimento - São Paulo: EPU, 1981.

ZANINI, Antonio Carlos e OGA, Seizi. Farmacologia aplicada 3. ed. São Paulo: Atheneu, 1985.

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Saúde Mental

13. ANEXOS

LEI No 10.216, DE 6 DE ABRIL DE 2001.

Dispõe sobre a proteção e os direitos das pessoas portadoras de transtornos mentais e redireciona o modelo assistencial em saúde mental.

O PRESIDENTE DA REPÚBLICA Faço saber que o Congresso Nacional decreta e eu sanciono a

seguinte Lei: Art. 1o Os direitos e a proteção das pessoas acometidas de

transtorno mental, de que trata esta Lei, são assegurados sem qualquer forma de discriminação quanto à raça, cor, sexo, orientação sexual, religião, opção política, nacionalidade, idade, família, recursos econômicos e ao grau de gravidade ou tempo de evolução de seu transtorno, ou qualquer outra.

Art. 2o Nos atendimentos em saúde mental, de qualquer natureza, a pessoa e seus familiares ou responsáveis serão formalmente cientificados dos direitos enumerados no parágrafo único deste artigo.

Parágrafo único. São direitos da pessoa portadora de transtorno mental:

I - ter acesso ao melhor tratamento do sistema de saúde, consentâneo às suas necessidades;

II - ser tratada com humanidade e respeito e no interesse exclusivo de beneficiar sua saúde, visando alcançar sua recuperação pela inserção na família, no trabalho e na comunidade;

III - ser protegida contra qualquer forma de abuso e exploração; IV - ter garantia de sigilo nas informações prestadas; V - ter direito à presença médica, em qualquer tempo, para escla-

recer a necessidade ou não de sua hospitalização involuntária; VI - ter livre acesso aos meios de comunicação disponíveis; VII - receber o maior número de informações a respeito de sua

doença e de seu tratamento; VIII - ser tratada em ambiente terapêutico pelos meios menos

invasivos possíveis; IX - ser tratada, preferencialmente, em serviços comunitários de

saúde mental. Art. 3o É responsabilidade do Estado o desenvolvimento da po-

lítica de saúde mental, a assistência e a promoção de ações de saúde

13. ANEXOS

ANEXO I

117

P EAROF aos portadores de transtornos mentais, com a devida participação da sociedade e da família, a qual será prestada em estabelecimento de saú- de mental, assim entendidas as instituições ou unidades que ofereçam assistência em saúde aos portadores de transtornos mentais.

Art. 4o A internação, em qualquer de suas modalidades, só será indicada quando os recursos extra-hospitalares se mostrarem insufici- entes.

§ 1o O tratamento visará, como finalidade permanente, a reinserção social do paciente em seu meio.

§ 2o O tratamento em regime de internação será estruturado de forma a oferecer assistência integral à pessoa portadora de transtornos mentais, incluindo serviços médicos, de assistência social, psicológi- cos, ocupacionais, de lazer, e outros.

§ 3o É vedada a internação de pacientes portadores de transtor- nos mentais em instituições com características asilares, ou seja, aque- las desprovidas dos recursos mencionados no § 2o e que não assegurem aos pacientes os direitos enumerados no parágrafo único do art. 2o.

Art. 5o O paciente há longo tempo hospitalizado ou para o qual se caracterize situação de grave dependência institucional, decorrente de seu quadro clínico ou de ausência de suporte social, será objeto de política específica de alta planejada e reabilitação psicossocial assisti- da, sob responsabilidade da autoridade sanitária competente e supervi- são de instância a ser definida pelo Poder Executivo, assegurada a con- tinuidade do tratamento, quando necessário.

Art. 6o A internação psiquiátrica somente será realizada median- te laudo médico circunstanciado que caracterize os seus motivos.

Parágrafo único. São considerados os seguintes tipos de internação psiquiátrica:

I - internação voluntária: aquela que se dá com o consentimento do usuário;

II - internação involuntária: aquela que se dá sem o consentimen- to do usuário e a pedido de terceiro; e

III - internação compulsória: aquela determinada pela Justiça. Art. 7o A pessoa que solicita voluntariamente sua internação, ou

que a consente, deve assinar, no momento da admissão, uma declara- ção de que optou por esse regime de tratamento.

Parágrafo único. O término da internação voluntária dar-se-á por solicitação escrita do paciente ou por determinação do médico assis- tente.

Art. 8o A internação voluntária ou involuntária somente será au- torizada por médico devidamente registrado no Conselho Regional de Medicina - CRM do Estado onde se localize o estabelecimento.

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§ 1o A internação psiquiátrica involuntária deverá, no prazo de setenta e duas horas, ser comunicada ao Ministério Público Estadual pelo responsável técnico do estabelecimento no qual tenha ocorrido, de- vendo esse mesmo procedimento ser adotado quando da respectiva alta.

§ 2o O término da internação involuntária dar-se-á por solicita- ção escrita do familiar, ou responsável legal, ou quando estabelecido pelo especialista responsável pelo tratamento.

Art. 9o A internação compulsória é determinada, de acordo com a legislação vigente, pelo juiz competente, que levará em conta as con- dições de segurança do estabelecimento, quanto à salvaguarda do paci- ente, dos demais internados e funcionários.

Art. 10. Evasão, transferência, acidente, intercorrência clínica grave e falecimento serão comunicados pela direção do estabelecimen- to de saúde mental aos familiares, ou ao representante legal do pacien- te, bem como à autoridade sanitária responsável, no prazo máximo de vinte e quatro horas da data da ocorrência.

Art. 11. Pesquisas científicas para fins diagnósticos ou terapêuticos não poderão ser realizadas sem o consentimento expresso do paciente, ou de seu representante legal, e sem a devida comunicação aos conse- lhos profissionais competentes e ao Conselho Nacional de Saúde.

Art. 12. O Conselho Nacional de Saúde, no âmbito de sua atua- ção, criará comissão nacional para acompanhar a implementação desta Lei.

Art. 13. Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação. Brasília, 6 de abril de 2001; 180o da Independência e 113o da

República. FERNANDO HENRIQUE CARDOSO

Jose Gregori José Serra

Roberto Brant

119

P EAROF 13. ANEXOS

ANEXO II

UM PASSO A FRENTE

A “Cartade Direitos dos Usuários e Familiares de Serviços de Saúde Mental” representa uma importante conquista dos doentes mentais em nosso país. Ela nos faz confiar numa perspectiva de mudança ao mesmo tempo em que revela, em cada um dos seus princípios, um pouco da história de dor e exclusão que tem marcado a vida da maioria dessas pessoas em nossa sociedade.

Ela é o resultado de muitas lutas: dos familiares, de organizações com- prometidas com os direitos humanos e de todos aqueles que se perfilam na luta por um mundo mais justo e mais igualitário. Com ela, dá-se um passo à frente em termos de reconhecimento desses direitos e lança-se mais uma pá de terra sobre essa instituição medieval chamado “manicômio”, que foi e, infelizmente, ainda é o cenário onde se utilizam métodos bárbaros e desumanos para o tratamento dos doentes mentais.

A assistência em saúde mental, por incrível que possa parecer, levou um bom tempo para começar a incorporar a idéia de que os seus usuários são cida- dãos. Ainda não foram varridos da face da terra alguns instrumentos e métodos “terapêuticos”, como a camisa de força e as superdosagens de medicamentos, que, na verdade, são testemunhos de uma postura discriminatória em relação a homens e mulheres titulares de direitos civis, políticos e humanos.

Há ainda muito o que fazer. Para que possamos oferecer aos doentes men- tais um tratamento mais digno, temos que abrir várias frentes de luta. É preciso atuar junto ás famílias, junto aos legisladores, junto aos poderes constituídos; sobre tudo é preciso trabalhar no sentido de promover uma grande mudança cultu- ral que permita ao conjunto da nossa sociedade exercer pressão sobre aqueles que têm o poder de realizar efetivas mudanças. A “carta de Direitos” é um valioso documento que sintetiza os principais aspectos dessa luta, por isso ela merece a sua cuidadosa leitura e atenção.

MANIFESTO DO III ENCONTRO NACIONAL DE ENTIDADES DE USUÁRIOS E FAMILIARES DA LUTA ANTIMANICOMIAL

Somos radicalmente contra os manicômios e a cultura manicomial. Compreendemos como “cultura manicomial” aquela men- talidade e atitude institucional que reúne, num espaço físico com ca-

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racterística de prisão, um grande número de pacientes que são enclausurados, segregados e permanecem sem direitos e liberdades fun- damentais, como o direito de ir e vir e o direito de inserção social. Pessoas excluídas da sociedade através de um ritual e um processo de morbificação que as torna crônicas (irreversivelmente e sem motivos para querer viver em sociedade) e as transforma em objeto de lucro e manipulação. Exigimos ser sujeitos sociais, autores de nosso próprio destino com identidade definida, psicológica, social, econômica, cultu- ral e politicamente.

O tratamento manicomial não é tratamento, é tortura. Ele degrada e avilta o paciente, a família e os técnicos.

ABAIXO O MANICÔMIO! Que vivam a vida, a justiça e o nosso maior patrimônio, que é uma

liberdade consciente e responsável, ciente dos seus direitos e deveres. Só assim os usuários poderão se tornar verdadeiros cidadãos, vivendo seu enorme potencial para criar, amar e produzir.

CARTA DE DIREITOS DOS USUÁRIOS E FAMILIARES DE SERVIÇOS DE SAÚDE MENTAL

I – DIREITOS GERAIS NA SOCIEDADE

- A todos os usuários deve ser garantido o direito a uma vida plena em suas dimensões psicológica, existencial, social e política;

- A assistência à saúde mental é um direito de todo cidadão, independente de sua situação social, familiar e racial e essa assistência não poderá, em hipótese alguma, justificar a violação a quaisquer direitos de cidadania;

- Todo usuário tem direito à liberdade, à dignidade e a ser tratado e ouvido como pessoa humana, com direitos civis, políticos e sociais como qualquer cidadão;

- Não haverá discriminação ou preconceito em relação ao usuário de serviços de saúde mental, inclusive no mercado de trabalho e em seus direitos trabalhistas e instituições sociais em geral;

- Todo usuário tem direito de expressão, de ser respeitado em seus credos religiosos, manifestações culturais e sexualidade;

- Nenhum usuário pode ser submetido a exploração econômica, sexual, abuso físico e moral, ou comportamento degradante.

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P EAROF OBSERVAÇÃO: Utilizamos a expressão “usuário”, assim como a expressão “téc-

nicos” para designar situações específicas. Na verdade, nós, usuários entre aspas, somos pessoas, seres humanos totais e integrais, acima das condições apenas circunstancias e da comunidade dos serviços de saú- de mental. Queremos ser autores do nosso próprio destino. Desejamos a verdadeira integração na sociedade, com os chamados normais. En- tretanto, as pessoas neste movimento não se chamam umas às outras de usuários, mas de companheiros, participantes e amigos.

II- CARACTERÍSTICAS GERAIS DOS SERVIÇOS DE SAÚDE MENTAL E SERVIÇOS COMPLEMENTARES

- A assistência em saúde mental abrange não só a assistência psiquiátrica, mas também assistência médica, odontológica, social, jurídica, reabilitação, educação e garantia de trabalho, protegida ou não;

- A atenção em saúde mental não deve ser realizada em manicômios, mas em serviços abertos, e o menos restrito possível, tais como: hospitais gerais, centros e núcleos de atenção psicossocial, centros de convivência e cooperativas, grupos de trabalho em microempresas, hospitais dia-e-noite, lares e pensões abrigados, associações comunitárias, grupos de auto-ajuda, oficinas abrigadas, etc;

- Todo serviço de saúde mental deverá ter um representante jurídico do caráter reconhecidamente público e legal, capaz de assegurar a escuta e a implementação dos direitos de cidadania de seus usuários;

- Os serviços de saúde devem permitir e incentivar os usuários a se organizarem em grupos, conselhos populares, associações de usuários, familiares, trabalhadores de saúde mental e comunidade que objetivem propor e construir ações que transformem a relação com a loucura na sociedade em geral, na legislação e na vivência organização e fiscalização dos serviços;

- Os serviços de saúde mental devem ser localizar o mais próximo possível da moradia dos usuários, de forma descentralizada, garantindo-se o direito de escolha do usuário pelos serviços e profissionais de sua preferência;

- Todo serviço de saúde mental deverá garantir o bem-estar físico, mental e emocional de seus usuários, e as exigências mínimas de higiene, segurança, condições ecológicas e ambientais, conforto, privacidade e alimentação de qualidade com super visão profissional;

- Todo usuário terá direito ao meio de transporte que garanta o acesso gratuito ao serviço de saúde mental, bem como à medicação, se com isso induzir à discriminação ou preconceito;

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Saúde Mental

- As crianças e os adolescentes não poderão ser tratados em serviços exclusivos de adultos, exigindo-se serviços especializados que garantam os direitos reconhecidos no Estatuto dos Direitos da Criança e do Adolescente;

- Os serviços de saúde mental devem ser gratuitos e preferencialmente públicos. Todos os serviços, e preferencialmente os de caráter privado e lucrativo conveniados devem estar sob a supervisão e fiscalização em qualquer momento pelo poder público e entidades de usuários, familiares e profissionais.

III- CARACTERÍSTICA DOS TRATAMENTOS EM SAÚDE MENTAL

- Todo serviço de triagem em saúde mental deve incluir uma avaliação psiquiátrica, psicológica, médico-clínica e social que garanta uma visão ampla e integrada do usuário e que respeite a sua fragilidade e dignidade de pessoa humana;

- Deverão ser proibidas as formas de tortura e violência pretensamente “terapêuticas”:

· Camisa-de-força

· Psicocirurgia

· Insulinoterapia

· Esterilização involuntária

· Cela forte

· ECT

· Amarrar

· Superdosagem de medicamentos do tipo DEPOT e “Sossega Leão”

- Sobre as formas de admissão: qualquer internação psiquiátrica efetuada deverá ser comunicada num prazo de 48 horas ao Ministério Público e a um ouvidor não convocado pela própria instituição, mas sim escolhido pelas entidades de usuários;

- Todo usuário deverá ser informado, em linguagem do seu entendimento, das opções de serviços e tratamentos, e a decisão final deverá contar com o consentimento do usuário e/ou pessoa de sua confiança;

- Todo programa de saúde mental deverá promover abordagens e serviços especializados e adequados aos diversos grupos da clientela, tais como alcoolistas, crianças e adolescentes, idosos, autistas, drogaditos, portadores de deficiência, de HIV positivo, etc;

- Todo serviço de saúde mental deve oferecer orientação, suporte e/ou terapêutica para os familiares dos usuários, bem como mecanismo de participação nas decisões e fiscalização dos serviços;

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P EAROF IV- DIREITOS DOS USUÁRIOS DE SERVIÇOS DE SAÚDE MENTAL

- todo usuário tem direito à expressão responsável de sua afetividade e sexualidade nos serviços de saúde mental, bem como à orientação, educação sexual e acesso aos meios de contracepção;

- todo usuário deve ter garantido o direito:

· de acesso às informações contidas no prontuário;

· de acesso aos meios de comunicação, tais como TV, jornais, rádios e telefone;

· ao sigilo e inviolabilidade de correspondência;

· à privacidade e individualidade,

· a participar das decisões nos serviços, nos conselhos populares, conferências e encontros de saúde;

· a uma representação legal gratuita em caso de incapacidade civil;

· ao acesso às informações dos direitos dos usuários e familiares.

V- REIVENDICAÇÕES – TEMAS DE LUTA E MOÇÕES

- Que seja encaminhada, aos poderes Legislativo e Judiciário, a proposta de considerar a aplicação do ECT como crime inafiançável;

- Que a “Carta de Direitos dos Usuários” seja publicada nos principais jornais privados e oficiais, que seja afixada em lugar visível em todos os serviços de saúde mental, e seja difundida, em cartilha, entre os usuários de serviços;

- Encaminhar ao Congresso Nacional a proposta de emenda ao Código Civil, eliminando a expressão “loucos de todo o gênero” e “incapazes para os atos da vida civil” (artigo 5º do Código Civil em vigor), e que seja amplamente discutidas e revisadas as categorias de periculosidade e imputabilidade atribuídas ao portador de transtorno mental no Código Penal em vigor;

- Promover programas de orientação aos policiais, Corpo de Bombeiros e outros técnicos que prestam serviços sociais em relação aos cuidados especiais e direitos do portador de transtorno mental em crise;

- Que a coordenação do movimento e a Comissão Nacional de Reforma Psiquiátrica façam uma campanha na mídia, a nível nacional, para esclarecimento da população sobre o que vem a ser saúde mental, e não doença mental;

- Que se tomem medidas contra a discriminação ao usuário com relação a empregos e vida pública. Sugerir ao governo que se facilite apoio ao usuário através de abertura do campo de trabalho, por exemplo, através de leis que estabeleçam que firmas com mais de 100 empregados tenham de oferecer vagas, numa proporção

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Saúde Mental

ainda a ser definida, para usuários dos serviços de saúde mental. Que esta mesma medida se estenda ao poder público de maneira geral e também, de forma específica, aos equipamentos de saúde mental, tais como: Centros de Convivência, cooperativas, hospitais-dia, lares abrigados, etc. que haja incentivos fiscais para as firmas que contratarem usuários e para aquelas que colaborem em programas de reabilitação e treinamento de usuários para o mercado de trabalho;

- Que a fala em qualquer encontro da luta antimanicomial seja simplificada para atendimento de todo usuário;

- Que o movimento procure sensibilizar os candidatos a cargos políticos a integrarem em suas plataformas os objetos da luta antimanicomial;

- Que em todo os municípios sejam implantados, na prática, os conselhos municipais e distritais de saúde, bem como os conselhos municipais da pessoa deficiente, com inclusão dos representantes dos movimentos de saúde mental nestes conselhos;

- Que sejam denunciados os municípios que não cumprirem a legislação do Sistema Único de Saúde;

- Que os municípios e serviços de saúde mental invistam na formação e treinamento dos trabalhadores de saúde mental, com ênfase na abordagem dos objetivos da luta antimanicomial;

- Estimular a criação e o desenvolvimento das organizações não-governamentais especializadas em questões jurídicas para defender a cidadania dos portadores de transtorno mental;

- Estabelecer uma instância de revisão obrigatória para todos os casos de interdição civil, com a participação de todos os segmentos da sociedade civil. Que essas instâncias criadas comtemplem também os casos das pessoas com sofrimento psíquico presas em medida de segurança;

- Exigir do Estado uma questão integral e um programa de ressocialização específica para aqueles usuários de longa permanência nos estilos;

- Exigir do Judiciário uma revisão das políticas de manicômios judiciários com o desenvolvimento de programas alternativos;

- Exigir que ensaios clínicos e experimentais sejam revistos, considerando as propostas aprovadas e as diretrizes da II Conferência Nacional de Saúde Mental (Dezembro, 1992) e do I Encontro Nacional da Luta Antimanicomial de Salvador, e basear-se na Carta dos Direitos dos Usuários, produzida no III Encontro Nacional de Entidades de Usuários e Familiares, realizado em Santos;

- Que se incentive o desenvolvimento de associações populares e organizações não- governamentais na prestação de serviços alternativos e inovadores em saúde mental, com amplo suporte técnico e financeiro dos governos e do Sistema Único de Saúde;

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P EAROF - Que se encaminhe uma revisão e ampliação da discussão do projeto-de-lei estadual

de Política de Saúde Mental, em discussão na Assembléia Legislativa de Rio de Janeiro, tendo como base a “Carta de Direitos dos Usuários e Familiares”.

- Que seja criado pelo poder público um sistema especial de atendimento aos portadores de transtorno mental que vivem nas ruas das cidades em nosso país.

1 – Esta plenária manifesta o seu repúdio à política deliberada de destruição da rede de serviços alternativos em saúde mental pela atual prefeitura de São Paulo;

2- Esta plenária expressa o seu repúdio ao projeto de lei de deputada Laura Carneiro, do Rio de Janeiro, que delibera o recolhimento da população de rua em uma instituição de saúde mental privada;

3- Esta plenária manifesta seu repúdio ao corte da Supervisão Institucional dos Trabalhadores de Saúde Mental da Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo;

4- O III Encontro Nacional de Entidades de Usuários e Familiares de Saúde Mental vem exigir que seja aprovado imediatamente o projeto-de-lei 366/92 de Reforma Psiquiátrica do Estado de São Paulo, de autoria do Deputado Estadual Roberto Gouveia e outros, que se encontra em tramitação na Assembléia Legislativa de São Paulo.

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