personalidade materna e resultados de crianças no psicodiagnóstico interventivo: o que significa mãe suficientemente boa?, Notas de estudo de Psicologia
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Personalidade materna e resultados de crianças no psicodiagnóstico interventivo: o que significa

‘mãe suficientemente boa’? Valéria Barbieri

André Jacquemim Zélia Maria Mendes Biasoli Alves

Universidade de São Paulo, Ribeirão Preto (USP)

RESUMO A noção de ‘mãe suficientemente boa’, essencial na indicação terapêutica e prognóstica da criança, é cerca- da por ambigüidades, por exemplo, a disparidade entre as características atribuídas a uma genitora nessas condições e os sucessos reportados por Winnicott na Consulta Terapêutica, de pacientes cujas mães eram deprimidas. A necessidade de definição desse conceito em bases empíricas justificou a execução desta pesquisa, em que seis mães cujos filhos apresentavam comportamentos anti-sociais foram avaliadas pelo Teste de Rorschach, contrapondo-se seus resultados com o sucesso ou fracasso terapêutico deles no Psicodiagnóstico Interventivo. Uma vez que a ‘mãe suficientemente boa’ é aquela que sustenta a melhora da criança, os resultados indicaram que as características maternas associadas ao sucesso do filho consistiram na ausência de prejuízos severos no Controle Pulsional e nos Relacionamentos Interpessoais. Assim, não é necessário que a mãe apresente um funcionamento egóico na plenitude de suas condições para ser classifica- da nessa categoria. Palavras-chave: Mãe; psicodiagnóstico; psicoterapia; teste de Rorschach; transtorno de conduta.

ABSTRACT Maternal personality and children’s results on the interventive psychodiagnosis: What is the meaning of ‘good-enough mother’? The notion of ‘good-enough mother’, essential to children’s therapeutic and prognostic indication, is full of ambiguities e.g. the disparity between the characteristics ascribed to a parent in such conditions and the success on the Therapeutic Consultations of patients whose mothers were depressed, as it was reported by Winnicott. The necessity of defining this concept on empirical data foundations justified this research in which six mothers whose children presented anti-social behaviour were assessed by Rorschach Test, comparing their results with the therapeutic success or failure of their infants in the Interventive Psychodiagnosis. Considering that the ‘good-enough mother’ is that one who supports children’s improvement, the results indicated that maternal characteristics linked to children’s success consisted in absence of severe handicaps on the Control of the Impulses and on the Interpersonal Relationships. Therefore, it is not necessary for a mother to have an ego functioning in its plenitude to be classified in this category. Key words: Mother; psychodiagnosis; psychotherapy; Rorschach test; conduct disorder.

v. 36, n. 2, pp. 117-125, maio/ago. 2005 PSICOΨ

INTRODUÇÃO

O papel da família no desenvolvimento afetivo in- fantil é reconhecido há muito tempo na literatura psi- cológica, especialmente após a introdução do conceito freudiano de série complementar, segundo o qual a etiologia dos transtornos mentais repousaria na heran- ça genética, na vida intra-uterina, no trauma do nasci- mento mas, sobretudo, nas experiências da criança.

Esse reconhecimento fundamentou teorias de que a patologia infantil seria determinada pelos complexos emocionais da família, dentre elas a do bode expia- tório, em que o filho é concebido como receptáculo da enfermidade dos pais (Soifer, 1983). A difusão desse pensamento fez com que permanecesse na Psicologia Clínica a idéia de que crianças doentes apresentariam pais doentes e, assim, não poderiam ser por eles aju- dadas.

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O exame de um artigo de Winnicott (1955/1993a) sobre um menino paranóide aponta a possibilidade de muitos enganos terem sido cometidos em nome da aplicação indiscriminada dessa teoria; nele o autor re- lata como o ambiente familiar dessa criança se trans- formou em uma espécie de hospital psiquiátrico, tam- bém se organizando de maneira paranóide, no qual ela se adaptava bem, até que lhe foi possível voltar ao nor- mal. Nessa situação a consonância entre a patologia infantil e a familiar significava que os pais emprega- vam os próprios recursos, inclusive sua capacidade regressiva, para atender às necessidades do filho e auxiliá-lo na retomada do seu desenvolvimento.

A possibilidade de contar com a família como um aliado ou agente terapêutico foi explorada em dois es- tudos psicanalíticos; o primeiro, clássico, refere-se à análise do pequeno Hans (Freud, 1909/1976) em que, devido à inviabilidade de assistir pessoalmente seu paciente, Freud utilizou-se do pai dele como interme- diário no tratamento. O segundo diz respeito à Con- sulta Terapêutica (Winnicott, 1971/1984) que, além de proporcionar à criança um espaço de auto-expressão, que permite realizar um diagnóstico dinâmico, inclui entrevistas devolutivas’ com os pais, seguidas de orientação. Após esse processo a criança é dispensada, sendo marcados retornos espaçados para acompanhar a evolução do caso, prescindindo da necessidade de um vínculo contínuo e duradouro com o profissional.

A despeito de seus fundamentos teóricos e resulta- dos positivos, a Consulta Terapêutica esbarra no pro- blema da impossibilidade de os pais ajudarem seu fi- lho, quando a patologia dele for expressão da familiar. Consciente dessa dificuldade, Winnicott (1071/1984) asseverou que embora seja possível fazer um trabalho eficaz mesmo com crianças muito doentes, esse méto- do é contra-indicado se o paciente vive em uma situa- ção social ou familiar anormal, que não lhe fornece a provisão que necessita; nos demais casos, poder-se-ia confiar em um ‘ambiente desejável médio’ ou ‘sufi- cientemente bom’, capaz de utilizar as mudanças que ocorrem na criança durante a consulta como indicativas da anulação da dificuldade.

A conceituação de ‘ambiente desejável médio’ aparece de forma esparsa na teoria winnicottiana, pela designação de algumas qualidades à ‘mãe suficiente- mente boa’. A despeito dessa ênfase nos predicados maternos não se pode dizer que Winnicott tenha negli- genciado o papel do pai, o que é atestado em seus es- critos sobre o tema (Winnicott, 1945/1982), e nos de simpatizantes de sua obra que organizaram e amplia- ram seu pensamento a esse respeito, como Outeiral (1997), Houzel (2000) e Rosenfeld (2000). Como a consideração conjunta das características das mães e

dos pais ‘suficientemente bons’ é complexa a ponto de inviabilizar sua abordagem em profundidade no escopo de um único artigo científico, será priorizado neste estudo a análise dos atributos maternos.

As características da ‘mãe suficientemente boa’ que podem ser depreendidas da obra de Winnicott e de psicanalistas que se ocuparam do tema, se modificam conforme os estágios de desenvolvimento do bebê, podendo ser sistematizadas como se segue.

Estágio de Dependência Absoluta: ante o predo- mínio do auto-erotismo, do processo primário de pen- samento e dos relacionamentos de natureza subjetiva no bebê, é papel da mãe oferecer-lhe holding, que implica no prosseguimento da provisão fisiológica intra-uterina e no estabelecimento de uma rotina de cuidados que produzem nele o sentimento de ter uma existência contínua. Esse sentimento também se de- senvolve com base nas experiências de ilusão quando a mãe, ao se ajustar aos objetos que o bebê cria impe- lido pela necessidade, vai ao encontro de sua onipo- tência, proporcionando-lhe a sensação de que a rea- lidade é gerada por ele. Paralelamente, ela introduz o mundo externo ao filho, de acordo com suas con- dições de assimilá-lo, auxiliando-o a adquirir seu sen- tido de self e iniciar as tarefas de integração, per- sonalização e realização.

A mãe do recém-nascido é auxiliada no cum- primento dessas funções pela preocupação materna primária, que se desenvolve ao final da gravidez (Winnicott, 1956/1993b) e que, segundo Geissman (2000), pressupõe a identificação da mulher com o bebê e com sua própria mãe. Portanto, a natureza da figura materna que ela dispõe é influência importante na qualidade do cuidado que oferecerá. No final dessa etapa a função da mãe é desiludir o filho capacitando-o para o desmame e alcance do próximo estágio de desenvolvimento, quando o pai lhe será apresentado, mas de maneira mediada por ela e, portanto, depen- dente da qualidade da sua figura paterna.

Estágio de Dependência Relativa: capaz de maior integração no tempo, de viver sem a completa fusão com a mãe e de uma simbolização mais desenvolvida, o bebê pode ingressar na área de conciliação entre as realidades interna e externa e fazer uso do objeto transicional. Este, significando ao mesmo tempo sepa- ração e união, permite que o bebê preencha o espaço vazio entre o seu corpo e o da mãe (períodos de ausên- cia dela), estando assim preparado para o desmame. Para tanto, é necessário que a criança disponha de um objeto interno vivo e suficientemente bom e, sendo a integração do self ainda precária, as qualidades dele dependem das características do objeto externo (Winnicott, 1951/1993c).

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Embora Winnicott atribua a tarefa do desmame à mãe, Furman (2000) defende que é o bebê quem toma a iniciativa e rejeita ativamente o seio, logo que con- segue diferenciar entre o objeto e o investimento libidinal nele realizado. Por conseguinte, é o bebê que desilude a mãe e não o contrário, sendo que a reação dela a essa experiência determinará a atitude da crian- ça diante do crescimento. A aptidão materna para suportar essa desilusão foi denominada por Furman como a capacidade de ‘être lá pour être quittée’, sen- do que se a mãe se sentir muito magoada porque o bebê a rejeita, ele perderá a chance de descobrir que crescer não é um processo arriscado nem maldoso para com ela, de modo a colocar a relação em perigo. Essa habi- lidade assemelha-se ao conceito winnicottiano da ‘ca- pacidade para estar só’ (Winnicott, 1958/1990), que implica na integração da personalidade e na presença de um objeto interno bom e consistente, que proporcio- na ao indivíduo auto-suficiência para viver na ausên- cia de objetos externos. Portanto, a capacidade mater- na para a transicionalidade (brincar e sonhar, preen- chendo o espaço entre si mesma e o bebê) é preditora de sua disposição para deixar o filho crescer. Ainda, como a maior integração pulsional dessa etapa promo- ve o sentimento de culpa ou de preocupação, a sobre- vivência da mãe é crucial, bem como suas condições de aceitar as restituições do bebê, o que o tornaria con- fiante na própria capacidade reparadora e livre para utilizar as pulsões.

Estágio de Rumo à Independência: a maior integração da personalidade e a crescente constituição da realidade externa limitam a onipotência dos perío- dos anteriores,epermitem à criança ir prescindindo do cuidado materno real por meio da introjeção dele e da projeção de suas necessidades pessoais. Como os conflitos principais deste período gravitam em torno do Complexo de Édipo, a criança se depara com o pro- blema de desenvolver defesas para a contenção e ma- nejo da ansiedade de castração, da ambivalência, dos sentimentos de exclusão e para prosseguir na aquisi- ção de sua identidade sexual, sendo esse o setor em que a mãe (e também o pai) poderia ajudá-la. Portan- to, o auxílio a ser proporcionado pelos pais depende- ria de suas próprias condições defensivas, da aceita- ção de sua identidade sexual e da transformação de seus sentimentos de rivalidade em solidariedade.

A análise dos pontos de vista de Winnicott, Furman e Geissman permite concluir que as características ma- ternas promotoras do desenvolvimento infantil harmo- nioso consistiriam em: dispor de uma figura materna boa e forte como objeto de identificação; dispor de uma figura paterna boa e preservada; ter sido suficien- temente iludida; capacidade para a transicionalidade;

capacidade para regredir e retornar da regressão; fle- xibilidade defensiva; aceitação da própria identidade sexual; apresentar pulsões integradas ao self; boa ela- boração edípica; capacidade de contenção das angús- tias e apresentar superego fundado em bases realistas. De modo sintético, a caracterização da ‘mãe suficien- temente boa’ vincular-se-ia à qualidade dos seus obje- tos internos (paterno e materno) e à natureza do seu ego e superego.

Essa listagem de predicados, demasiado ideal, co- lide com a assertiva de Winnicott (1971/1984) de que a ‘mãe suficientemente boa’ é a ‘devotada’, ‘comum’. O assunto torna-se ainda mais complexo quando se verifica que, na Consulta Terapêutica ele obteve êxi- tos com crianças cujas mães apresentavam traços depressivos ou, ao menos, evidência de uma imago morta em sua realidade psíquica, sugerindo que a des- peito da consistência e clareza teórica do conceito de ‘mãe suficientemente boa’, na prática existem várias indefinições.

A ambigüidade que paira sobre esse conceito, acrescida da observação sobre a dificuldade de avaliar a qualidade do meio externo da criança (Winnicott, 1971/1984), justificam a realização de um estudo vi- sando sua definição a partir de dados empíricos, já que ele é elemento essencial para a indicação terapêutica e enunciação do prognóstico da criança.

Partindo da premissa de que a ‘mãe suficientemen- te boa’ é aquela que coopera para promover e susten- tar a melhora da criança, esta pesquisa averiguou a existência de associações entre características de per- sonalidade de mães cujos filhos foram submetidos ao Psicodiagnóstico Interventivo1 , e os resultados tera- pêuticos deles. Além de uma definição mais precisa do conceito em questão, este estudo buscou estabele- cer, ainda que em caráter preliminar, as indicações e contra-indicações dessa recente e promissora prática clínica, no que concerne à personalidade materna. As características das crianças vinculadas ao sucesso ou malogro terapêutico foram abordadas em trabalho an- terior (Barbieri, Jacquemin e Biasoli-Alves, 2004).

MÉTODO Sujeitos

Seis mães de sete crianças entre 5 e 10 anos que foram submetidas ao Psicodiagnóstico Interventivo devido a comportamentos anti-sociais como mentiras, furtos, agressividade física ou verbal e comportamen- to desafiador. A maioria das crianças foi encaminhada pela diretora de uma escola pública de ensino funda-

1 A descrição minuciosa dessa prática clínica, em que os pais têm um papel ativo no tratamento dos filhos, é encontrada em Barbieri (2002).

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mental, com o nível socioeconômico das famílias va- riando entre médio e baixo. Todas as genitoras eram casadas, sendo que sua faixa etária se estendeu de 27 a 48 anos e o grau de instrução de não alfabetizada a ensino médio. Foram excluídos da amostra genitores (mães e pais) com história de comportamentos agres- sivos, internação psiquiátrica ou uso de drogas.

Material O instrumento utilizado para a avaliação das mães

foi o Teste de Rorschach, cujos resultados foram apu- rados segundo o referencial da escola francesa e inter- pretados de acordo com as normas brasileiras esta- belecidas por Augras (1969/1986). Para o atendimen- to específico da criança fez-se uso, além do Teste de Rorschach, da entrevista de anamnese, da entrevista familiar diagnóstica, de sessões lúdicas, da Bateria Gráfica de Hammer e do Teste de Apercepção Te- mática para Crianças – Forma Animal (CAT-A). Tam- bém foram realizadas entrevistas de follow-up com ambos os pais para determinar o resultado de sucesso ou malogro terapêutico da criança.

Procedimento A diretora da escola encaminhou os alunos para a

intervenção proposta acatando os critérios descritos no tópico Sujeitos. Os pais que concordaram em partici- par do trabalho foram convocados para a entrevista de anamnese e as mães, em sessão ulterior, submetidas à aplicação individual, não interventiva, do Teste de Rorschach, após o que se iniciou o atendimento do filho.

No primeiro contato com a criança era administra- do o Teste de Rorschach de modo tradicional e em se- guida procedia-se à aplicação interventiva dos demais instrumentos, iniciando com duas sessões lúdicas e prosseguindo com a entrevista familiar diagnóstica, Bateria Hammer e CAT-A. Finalizado esse processo, havia a convocação de ambos os pais para a entrevista devolutiva seguida de orientação, e a família era dis- pensada.

O período de follow-up variou entre 3 e 8 meses sendo que em um caso, quando não foi possível aos pais comparecerem pessoalmente, o seguimento foi realizado por telefone.

RESULTADOS Análise dos resultados

Os dados foram analisados de maneira descritiva, contrapondo-se os resultados das genitoras no Teste de Rorschach com o sucesso ou fracasso terapêu- tico do filho, avaliado por meio das entrevistas de follow-up.

Uma vez que as características das ‘mães suficien- temente boas’ poderiam ser investigadas em termos da natureza do seu ego e superego e da qualidade das fi- guras materna e paterna, os indicadores do Psicograma do Teste de Rorschach foram apreciados de modo in- tegrado, conforme os grupos representativos das fun- ções egóicas sistematizados por Loureiro e Romaro (1985): Produção, Ritmo, Pensamento, Teste da Rea- lidade, Controle Pulsional, Funcionamento Defensivo e Relacionamentos Interpessoais. O nível de integri- dade dessas funções foi aferido como preservado ou comprometido em grau leve, moderado ou severo, complementando-se a análise pelo indicador Natureza da Relação de Objeto e pelo diagnóstico da Estrutura de Personalidade. Como as condições do ego depen- dem de suas relações com o superego, e como a orga- nização da personalidade é determinada pelas fantasias que o ego tem sobre si mesmo e seus objetos (Segal, 1963/1975), a análise dessas funções foi considerada suficiente, sem necessidade de avaliações específicas das figuras materna e paterna e do superego das genitoras.

Quanto aos resultados terapêuticos, foram consi- derados bem sucedidos os casos em que foi relatado, no follow-up, melhora acentuada dos sintomas, mes- mo que houvesse necessidade de encaminhamento posterior à ludoterapia. Esse critério fundamentou-se nos objetivos do Psicodiagnóstico Interventivo que, similarmente à Consulta Terapêutica, não visa subs- tituir uma análise quando ela é necessária, mas quando ela não é (Barbieri et al., 2004). Os casos em que a criança não apresentou qualquer melhora ao final da intervenção foram considerados mal suce- didos.

Apresentação e discussão dos resultados Breve descrição dos casos: 1 – Beatrice: 10 anos de idade, nível socioeconô-

mico médio, residia com o pai, a madrasta e um irmão de 13 anos. A mãe biológica faleceu quando ela tinha 4 anos. Foi encaminhada por uma neurologista devido a furtos de dinheiro dos familiares, que deixaram de acontecer após o término do atendimento. O follow-up se estendeu por 6 meses. Sucesso terapêutico.

2 – Leonardo: 10 anos, nível socioeconômico bai- xo, residia com o pai, a mãe e um irmão de 22 anos. Foi encaminhado pela diretora da escola por agitação, brigas com os colegas e insubordinação aos professo- res, comportamentos que não aconteciam em casa. O período de seguimento do caso foi de 3 meses, com a mãe relatando melhora acentuada dos sintomas, não tendo mais recebido reclamações da escola. Sucesso terapêutico.

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3 – Tiago: 8 anos, nível socioeconômico baixo, re- sidia com os pais, um irmão de 5 anos e uma irmãzinha de 3. Foi encaminhado pela orientadora educacional, amiga da família, que descreveu a ele e ao irmão como crianças más, agressivas e desobedientes. Os pais, no entanto, o apresentaram como um menino doce, tran- qüilo e inteligente, e se preocupavam com o fato de ele não expressar seus sentimentos. Ao final do traba- lho relataram melhoras, afirmando que o filho estava mais ‘chato’, exigente e capaz de expressar o que de- sejava. O follow-up se estendeu por 8 meses. Sucesso terapêutico.

4 – Rafael: 5 anos, irmão de Tiago. Foi descrito pelos pais como desobediente, teimoso, rebelde e mui- to ciumento em relação à irmã. Um ano antes do aten- dimento maltratava seu cachorro e arrancava as folhas de uma planta, de que agora cuidava. Após o término da intervenção, embora os pais relatassem sua melho- ra significativa, ele solicitou continuidade do aten- dimento. Foi iniciada ludoterapia que durou apenas 3 meses, porque a família se mudou para outra cidade. Sucesso terapêutico.

5 – Paulinho: 8 anos, nível socioeconômico mé- dio, residia com os pais, uma irmã de 13 anos e outra de 1 mês. Foi encaminhado pela diretora da escola de- vido a brigas com os colegas, mentiras, uma fuga e um episódio de furto. Foi descrito pelos pais como um me- nino que irritava e atormentava os demais, embora cui- dasse de crianças pequenas. No decorrer do atendi- mento, o pai demonstrou que não concordava com as queixas, argumentando que havia exagero quanto a elas. No final do trabalho o casal relatou melhora dos sintomas mas, 5 meses depois, a mãe contatou a psicó- loga dizendo que eles haviam retornado e solicitando continuidade do tratamento. Paulinho foi atendido por mais 3 anos pela psicóloga, tendo posteriormente abandonado a ludoterapia em razão de conflitos entre

os pais sobre quem deveria trazê-lo às sessões. Suces- so terapêutico parcial.

6 – Daniel: 8 anos, filho único, adotado com 1 dia de vida. Foi encaminhado pela diretora da escola por ser desobediente e agitado, tendo já recebido diagnós- tico de hiperatividade. Os pais contaram que ele des- truía brinquedos e os rasgava com estilete, tinha aluci- nações visuais e auditivas. Recusava a alimentação, a menos que a mãe lhe desse a comida na boca. Também não aceitava dormir no próprio quarto, que passou a ser ocupado pelo pai, enquanto ele dormia com a mãe. Ao longo do Psicodiagnóstico Interventivo apresentou melhoras e passou a dormir sozinho em seu quarto, mas na última sessão estava angustiado e exigiu a pre- sença da mãe na sala de atendimento. A psicóloga ofe- receu-se para iniciar tratamento ludoterápico, mas ele recusou. O follow-up se estendeu por 4 meses, haven- do retorno dos sintomas. Fracasso terapêutico.

7 – Michael: 10 anos, filho único, nível socioeco- nômico médio. Foi encaminhado pela diretora da escola por desatenção, recusa a cumprir as atividades e agressividade com os colegas, queixas compartilha- das pelos pais e pela própria criança. O casal apresen- tava sérios conflitos conjugais, tendo sido cogitada a possibilidade de separação. O seguimento do caso se estendeu por 3 meses, sem melhora. Embora a psicó- loga se dispusesse a prosseguir o atendimento do me- nino, não foi mais procurada pela família. Fracasso terapêutico.

Personalidade materna e resultados das crianças no Psicodiagnóstico Interventivo

A contraposição entre os resultados terapêuticos das crianças e a integridade das funções egóicas das mães, expostos na Tabela 1, revela que aparentemente não houve associações capazes de discriminar entre os casos bem e mal sucedidos.

Resultados terapêuticos das crianças Funções egóicas e estrutura das mães Beatrice/

Sucesso Leonardo/

Sucesso Tiago e Rafael/

Sucesso Paulinho/

Sucesso Parcial Daniel/

Fracasso Michael/ Fracasso

Estrutura de Personalidade Limítrofe Neurótica Neurótica Limítrofe Limítrofe Neurótica Produção Média Média Baixa Baixa Baixa Baixa Ritmo Lento Lento Lento Lento Rápido Lento Pensamento Inibido Imaturo Inibido Inibido Inibido Déficit Teste da Realidade MC MC P MC MC MC Controle Pulsional MC (I) LC (I) MC (I) MC (I) MC (I) SC (RI) Funcionamento Defensivo MC MC MC SC MC MC Relacionamentos Interpessoais MC LC LC SC LC SC

Vínculo com o objeto Total Total Entre total e parcial Não há como

afirmar (H% = 0) Total Não há como

afirmar (H% = 0)

TABELA 1

Variáveis de personalidade das mães (funções egóicas e estrutura de personalidade) e resultados dos filhos no Psicodiagnóstico Interventivo

P = Preservado; LC = Levemente Comprometido; MC = Moderadamente Comprometido; SC = Severamente Comprometido; I = Insuficiente; RI = Restritivo-Inibidor.

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Embora esses resultados possam dever-se ao pe- queno número e variedade de sujeitos da amostra (não há nenhuma mãe com organização psicótica de perso- nalidade), é razoável supor que grande parte dessa indiferenciação refira-se ao fato de a mãe de Daniel assemelhar-se às genitoras das crianças bem sucedi- das. Assim, em certas funções como o Pensamento, Controle Pulsional e Relacionamentos Interpessoais, enquanto a mãe de Michael, e às vezes a de Paulinho, destoavam dos casos de êxito total, a mãe de Daniel os acompanhava. Portanto, é possível que ela apresente recursos estruturais para ser considerada ‘suficiente- mente boa’, mas que não se encontram atualizados por alguma razão. A análise cuidadosa dos Relacionamen- tos Interpessoaisdessa e das demais genitoras, com- preendida no contexto da Estrutura de Personalidade e associada ao Controle Pulsional, subsidia essa supo- sição.

De acordo com a Tabela 1, em termos da Estrutura de Personalidade, uma mãe limítrofe foi tão compatí- vel com o sucesso terapêutico do filho quanto uma neurótica.

Bergeret (1974/1998) descreve como característi- cas da organização borderline o ideal de ego como ins- tância dominante da personalidade, um eu separado mas altamente dependente do objeto, conduzindo ao estabelecimento de relações anaclíticas e a uma inten- sa angústia diante da possibilidade de sua perda, que mergulharia o indivíduo na depressão. As principais defesas contra essa ansiedade seriam a clivagem das representações objetais, a evitação, a forclusão e as reações projetivas.

Nesse sentido, os resultados indicam que a despei- to da depressão materna ser reconhecida como fator etiológico dos Transtornos de Conduta e Desafia- dor-Opositivo em crianças (Webster-Stratton, 1993; Davies e Windle, 1997; Nigg e Hinshaw, 1998), a mãe deprimida também poderia ser considerada como ‘suficientemente boa’.

Esses achados confirmam aqueles de Hipwell e Kumar (1996) que, estudando o prognóstico quanto à capacidade de cuidar dos filhos de mulheres com de- pressão unipolar, transtorno bipolar e esquizofrenia, segundo uma escala de interação mãe-bebê (BMIS), concluíram que 61% das mães deprimidas apresenta- vam resultados semelhantes às normais. Após uma in- tervenção breve, essa porcentagem elevou-se para 86% contra 77% dos quadros bipolares e 35% dos esquizofrênicos.

Em estudo anterior (Barbieri, 2002), com base nas afirmações de Winnicott (1957/1993f) de que a crian- ça, com sua vivacidade, alivia os pais de sentimentos de culpa e inutilidade, sustentamos que entre uma mãe deprimida e um filho saudável se estabelece uma rela-

ção de ajuda mútua, pois o contínuo desenvolvimento dele fortaleceria o bom objeto interno dela, tornan- do-a mais confiante para exercer suas funções. O surgimento de sintomas na criança, por sua vez, teria efeito desagregador na personalidade da mãe, já que implicaria na constatação da não integridade do seu objeto anaclítico.

Portanto, seria viável admitir que a comunicação de esperança realizada no Psicodiagnóstico Interven- tivo de que algo poderia ser feito pela criança e de que a própria mãe teria condições de fazê-lo, conduziria ao fortalecimento do bom objeto interno dela (e em conseqüência da capacidade reparadora), surtindo efeitos terapêuticos nela mesma.

Os resultados obtidos, sugerindo que a presença de dificuldades psicológicas não desqualifica neces- sariamente a mãe para o exercício de suas funções, encontram eco na confiança de Winnicott na capaci- dade da família ajudar os filhos, mesmo quando tenha vivido situações bastante adversas e angustiantes, e que se encontre presente uma mãe seriamente doente. A sua decisão de aplicar a Consulta Terapêutica em um menino cujo pai passou por uma fase difícil de de- semprego, que tinha uma irmã excepcional e uma mãe deprimida, baseada no argumento de que deveria ha- ver grande vigor numa família assim (Winnicott, 1951/ 1993c), enriquece nossas considerações de que a con- dição psicológica materna não pode ser concebida como dado isolado para estimar sua habilidade de au- xiliar o filho. Nesse sentido, sua capacidade de recu- peração e a forma como suas dificuldades são absorvi- das e manejadas pelo restante da família desempenha- riam papel fundamental.

O otimismo de Winnicott sobre o potencial de ajuda presente na mãe deprimida procede de sua conjectura do caráter auto-curativo dessa patologia quando há possibilidade de contato com os persegui- dores introjetados, sem necessidade de sua projeção (1958/1993g). Tais critérios, contudo, não diferencia- ram entre as mães borderline dos casos bem e mal su- cedidos desta pesquisa, já que nenhuma delas apresen- tou complicações paranóides e, apesar de perturbadas pela tarefa de integração da hostilidade no self, não se poderia apontar ausência completa de contato com os elementos persecutórios de sua personalidade.

Quanto aos Relacionamentos Interpessoais, a Ta- bela 1 revela que as mães cujos filhos alcançaram su- cesso total mostraram, no máximo, comprometimen- tos moderados e capacidade para a relação total de objeto, ou oscilando entre total e parcial2. Embora seja plausível dizer que um prejuízo severo nesse âmbito

2 A classificação deste tipo de vínculo, nesta pesquisa, não se deve a danos estruturais mas ao emprego de defesas obsessivas.

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reduza as chances de êxito no Psicodiagnóstico Inter- ventivo, a recíproca não é verdadeira já que a mãe de Daniel apresentou somente dificuldades leves.

Contudo, uma análise minuciosa do protocolo des- sa mãe revela a existência de sérias dificuldades fun- cionais no vínculo estabelecido. Sua resposta à lâmina III “duas pessoas (...) que estão transmitindo senti- mento uma para a outra sem expressar, sem palavras (...) bem espelho”, sugere que ela luta contra sua capa- cidade de perceber o outro como separado de si, bus- cando recuperar a relação fusional. Ao longo da asso- ciação livre e da investigação do teste, essa genitora forneceu mais elementos que permitiram compreender o quê a impelia a retomar essa ligação primitiva com o objeto. Nesse sentido, a seqüência de suas respostas à prancha I, referente ao autoconceito (Anzieu, 1961/ 1988) foi reveladora. De início ela conseguiu fornecer uma visão geral e bem adaptada de si mesma (borbole- ta) mas, ao se deparar com a angústia diante da possi- bilidade de perda do objeto (a pneumonia do filho) produzida pela segunda resposta (chapa do pulmão de Daniel), reagiu regressivamente buscando o relaciona- mento simbiótico, ilustrado na terceira resposta (a união de almas gêmeas), para se assegurar contra esse risco. Esse mecanismo reapareceu na resposta à pran- cha IV ‘alguma coisa fechada, impenetrável’, quando referiu que tudo o que é impenetrável é soberano, e a associou a outro episódio de chance de perda do obje- to: o infarto sofrido por seu pai.

A existência de episódios reais de perda é imputa- da por Bergeret (1974/1998) às organizações psicó- ticas de personalidade, especificamente as de cunho melancólico. No caso da mãe de Daniel, embora o de- saparecimento do objeto não tenha ocorrido de fato, as duas situações de doença, do filho e do pai, parece- ram implementar a sua angústia de tal modo que, se não foi possível atirá-la numa estrutura psicótica, ao menos a conduziram ao emprego de defesas próprias dessa organização. Portanto, embora apta a estabele- cer relações anaclíticas de objeto, a angústia diante do perigo da perda levava-a a remontar a um vínculo de tipo psicótico, comprometendo a capacidade do filho de constituir-se como ser separado e autônomo. Dessa maneira é possível compreender as razões pelas quais Daniel constituiu-se em caso mal sucedido: sem con- tar com o apoio da mãe para uma conquista gradual da independência, não se encontrava preparado para rom- per a simbiose, como pode ser visto na descrição do caso, particularmente em seu comportamento na últi- ma sessão.

Se o vínculo fusional da mãe com a criança com- promete o resultado do Psicodiagnóstico Interventivo, a questão que se apresenta é por quê no caso de Michael também ocorreu malogro, já que a mãe, dis-

pondo de um ordenamento neurótico de personalida- de, teria condições de perceber o filho como pessoa distinta de si.

A Tabela 1 mostra que essa mãe (bem como a de Paulinho) não emitiu nenhuma resposta de conteúdo humano no teste (H% = 0), o que implica em perda de contato profundo com o outro e ausência da capacida- de de se identificar com ele. Sem isso a mãe não pode proteger o filho das invasões ambientais de modo que ele comece a existir ao invés de reagir, o que é ponto de partida para a constituição do self e estabelecimen- to do sentido de ser.

O alcance de algum sucesso no caso Paulinho pode ser compreendido pelo fato de sua mãe, no momento da Pesquisa dos Limites, perceber o ser humano com- pleto na prancha III e emitir respostas Hd em I e II. Já a mãe de Michael, embora também fornecesse respos- tas parciais humanas em I e II nessa fase do teste, não conseguiu ver as duas pessoas completas em III. Em suma, apesar de existir em ambas sérios comprometi- mentos, a gravidade era maior no caso da mãe de Michael, o que se torna ainda mais claro ao considerar os dados referentes ao seu Controle Pulsional.

A Tabela 1 mostra que embora nenhuma genitora tenha apresentado essa função em condições solida- mente preservadas, a mãe de Michael foi a única que exibiu prejuízo severo e de natureza restritivo- inibidora, o que acarreta, entre outras coisas, dificul- dades de contato com as próprias ansiedades infantis, o que é concebido por Soifer (1983) como fator de contra-indicação para a terapia familiar com a técnica de jogo, já que impede a detecção e o manejo das an- gústias do filho.

Na mesma direção Brafman (1999), a respeito da Consulta Terapêutica com a família, assevera que quando o pai ou a mãe não tolera aparecer no papel de alguém que está errado e atribui à doença da criança aquilo que ela diz, isso indica mau prognóstico. Winnicott (1958/1993g) confere sustento a essa pro- posição ao afirmar que se a mãe não apresentar uma dose de hipocondria, será incapaz de reconhecer no fi- lho os sinais incipientes de qualquer patologia, como é necessário que faça. Como dado adicional é impor- tante apontar que ambas as mães das crianças mal su- cedidas, apresentaram tendências afetivas latentes coartadas ou coartativas, reiterando a significação de falta de recursos pouco amadurecidos da personali- dade, promotores do relacionamento empático com o filho. Assim, o contato da mãe com o que existe de mais primitivo em si mesma seria imprescindível para a compreensão das necessidades do filho e formulação dos nexos entre as dificuldades dele e as próprias, bases para as mudanças no seu relaciona- mento.

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Portanto, apesar de não se encontrarem diferenças globais nas condições das funções egóicas das mães dos casos bem e mal sucedidos, uma análise mais de- talhada do Teste de Rorschach revela que o modo como são estabelecidos os Relacionamentos Interpes- soais e como é efetuado o Controle Pulsionaldesem- penham papel importante no prognóstico do Psico- diagnóstico Interventivo. Assim, uma mãe com orga- nização de personalidade menos evoluída em termos libidinais, mas afetivamente capaz de se identificar com o filho estabelecendo com ele um vínculo não fusional, pode auxiliá-lo mais em um trabalho tera- pêutico do que outra com estrutura neurótica, porém incapaz de firmar relações calorosas.

CONCLUSÃO Os resultados desta pesquisa permitem concluir

que não é necessário que a mãe apresente um funcio- namento egóico na plenitude de suas capacidades para ser considerada ‘suficientemente boa’. Ao contrário, comprometimentos moderados nas funções do Contro- le Pulsional e dos Relacionamentos Interpessoais não foram incompatíveis com a obtenção de bons resulta- dos terapêuticos, conferindo uma qualidade mais hu- mana e menos idealizada às genitoras e permitindo compreender, por meio de dados concretos e objeti- vos, a acepção de Winnicott (1971/1984) de que a mãe suficientemente boa seria a ‘devotada’, ‘comum’.

Além disso, conforme apontado anteriormente, a maneira como as dificuldades da mãe são absorvidas e manejadas pelo restante da família podem ser decisi- vas na definição do prognóstico da criança. Nesse sen- tido, também é necessário investigar a existência de associações entre as características de personalidade paternas e os resultados terapêuticos dos filhos, o quê, em conjunto com os dados aqui apresentados, poderia fornecer uma compreensão mais dinâmica, global e precisa sobre as indicações e contra-indicações do Psicodiagnóstico Interventivo. Enfim, no que concerne aos alcances e limites desse método, encontra-se aber- to um extenso campo clínico e científico, fértil para o profissional que dispõe de uma sólida confiança na capacidade humana para o desenvolvimento pessoal.

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Recebido em: 22/12/2004. Aceito em: 11/08/2005

Autores: Valéria Barbieri – Psicóloga. Doutora em Psicologia Clínica. Professora da Universidade de São Paulo. André Jacquemin – Psicólogo. Professor Titular da Universidade de São Paulo. Zélia Maria Mendes Biasoli Alves – Psicóloga. Professora Titular da Univer- sidade de São Paulo.

Endereço para correspondência: VALÉRIA BARBIERI Departamento de Psicologia e Educação Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto – USP Av. dos Bandeirantes, 3900 – Campus Universitário CEP 14040-901, Ribeirão Preto, SP, Brasil Tel.: (16) 602-3798 – (16) 633-2876 – Fax: (16) 633-0931 E-mail: vbarbieri@netsite.com.br ; valeriab@ffclrp.usp.br

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