psicologia da saúde e qualidade de vida, Notas de estudo de Psicologia
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CALVETTI, P. Ü.; FIGHERA, J.; MULLER, M. C.; POLI, M. C.18

Mudanças – Psicologia da Saúde, 14 (1) 18-23, jan-jun 2006

Copyright 2006 pelo Instituto Metodista de

Ensino Superior CGC 44.351.146/0001-57

Mudanças – Psicologia da Saúde,

14 (1), jan-jun 2006, 18-23p

Psicologia da saúde e qualidade de vida: pesquisas

e intervenções em psicologia clínica

Prisla Ükcer Calvetti*

Jossiele Fighera**

Marisa Campio Muller***

Maria Cristina Poli****

Resumo A Psicologia da Saúde – atual campo aplicado da área da Psicologia – tem desenvolvido inúmeras pesquisas relacionadas às questões de

saúde, demonstrando as possíveis formas de intervenções que dizem respeito à inter-relação pesquisa e prática. Neste âmbito, o presente

artigo visa discorrer acerca do entendimento desta área, através dos constructos saúde e qualidade de vida em psicologia clínica, apontando

estudos relacionados a este campo científico. Recentes pesquisas nesta área apontam para algumas possíveis intervenções em psicologia

clínica, nas quais destacam-se a qualidade de vida e a interdisciplinaridade.

Descritores: psicologia da saúde; qualidade de vida; interdisciplinaridade.

Psychologie de la santé et qualité de vie: recherches et interventions en psychologie clinique

Résumé La Psychologie de la Santé, actuel champ appliqué du secteur de la Psychologie, a développé d'innombrables recherches rapportées aux

questions de santé, en démontrant les formes possibles d'interventions qui concernent la relation recherche et pratique. Dans ce contexte,

le présent article vise à commenter l'accord de ce secteur, à travers les constructs santé et qualité de vie en psychologie clinique, en

indiquant des études rapportées à ce champ scientifique. Des recherches récentes dans ce secteur pointent sur quelques interventions

possibles en psychologie clinique, dans lesquelles se détachent la qualité de vie et l'interdisciplinarité.

Mots-clés: psychologie de la santé; qualité de vie; interdisciplinarité.

Health psychology and quality of life: researches and interventions in clinical psychology

Abstract Health Psychology – the current applied field in the area of the Psychology – has developed several researches related to the issues of

health demonstrating the possible ways of interventions concerned to the mutual relationship between the research and the practice. In

this scope, this paper aims to deal with the comprehension of this area by the constructs health and quality of life in clinical psychology,

pointing out the studies related to this scientific field. Recent researches in this area point to some possible interventions in clinical

psychology, in which the quality of life and the interdisciplinarity are outstanding.

Index-terms: health psychology; quality of life; interdisciplinarity

* Psicóloga. Especialista em Saúde Pública (ESP/RS-FIOCRUZ), Mestranda em Psicologia Clínica (CNPq) da PPGP da PUCRS. E-mail: prislauc@yahoo.com.br. ** Psicóloga. Mestranda em Psicologia Clínica do PPGP da PUCRS.

E-mail: jocielle@terra.com.br. ***Psicóloga. Doutora em Psicologia Clínica da PUCSP. Professora Adjunta da PUCRS.

E-mail: mcampio@pucrs.br. **** Psicanalista. Doutora em Psicologia da Université de Paris XIII (Paris-Nord). Coordenadora do Grupo de Pesquisa em Psicanálise do PPGP da PUCRS.

E-mail: crispoli@plugin.com.br. Endereço para correspondência: Profa Dra. Marisa Campio Muller. Coordenadora do Grupo de Pesquisa Psicologia da Saúde do PPGP – Av. Ipiranga, 6681. Partenon. Porto Alegre/RS. CEP: 90619-900. Programa de Pós-graduação da Faculdade de Psicologia da PUCRS. 9º andar – Prédio 11. Fone: (51) 33203633 R.219 E-mail: mcampio@pucrs.br.

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PSICOLOGIA DA SAÚDE E QUALIDADE DE VIDA: PESQUISAS E INTERVENÇÕES EM PSICOLOGIA CLÍNICA 19

Psicología de la salud y calidad de vida: investigaciones e intervenciones en psicología clínica

Resumen La Psicología de la Salud, campo actual aplicado en el área de la Psicología, ha desarrollado innumerables investigaciones relacionadas a

las cuestiones de salud, demostrando las posibles formas de intervenciones relacionando la investigación y práctica. En este ámbito, el

presente artículo pretende discutir acerca del entendimiento de esta área, a través de los factores benéficos de la salud y la calidad de vida

en psicología clínica, apuntando estudios relacionados a este campo científico. Recientes investigaciones en esta área apuntan para posibles

intervenciones en psicología clínica, en las cuales se destacan la calidad de vida y la interdisciplinariedad.

Descriptores: psicología de la salud; calidad de vida; interdisciplinaridad.

Introdução Durante muito tempo, a orientação da psicologia no

campo da saúde foi definida em termos de psicologia clínica, que, por sua vez, foi estimulada principalmente pelo desenvolvimento da psicanálise (Gonzalez Rey, 1997). Dessa maneira, para que se entenda o conceito de psicologia da saúde como é visto hoje, faz-se necessário voltar um pouco no tempo e fazer algumas considerações com relação ao surgimento da psicologia clínica.

Lagache, em 1949 (citado por Plaza, 2004), define a psicologia clínica como “uma disciplina fundamentada sobre o estudo aprofundado de casos individuais” (p. 6). Ainda, segundo ele, o objeto da psicologia clínica é o estudo do ser humano total e de suas condições, como a hereditariedade, maturação, condições fisiológicas e patológicas e sua história de vida.

Tendo em vista estas características da psicologia clínica, é possível entender o motivo pelo qual a psicologia da saúde teve nela seu início, pois a base conceitual utilizada pelos psicólogos da saúde é o modelo biopsicossocial. Essa perspectiva assegura a idéia de que os processos biológicos, psicológicos e sociais estão integralmente envolvidos tanto na saúde como na doença (Suls & Rothman, 2004).

A Psicologia da Saúde é definida por Matarazzo (1980), como sendo

um conjunto de contribuições de cunho educacional,

científico e profissional da disciplina de psicologia para

promoção e manutenção da saúde, a prevenção e

correlatos de saúde, doença e funções relacionadas, e a

análise e aprimoramento do sistema e regulamentação da

saúde (p. 815).

Conforme Castro e Bornholdt (2004), a finalidade da área é contribuir em relação à investigação dos fatores biológicos, comportamentais e sociais que influenciam no entendimento do processo saúde-doença.

Os mesmos autores referem que, historicamente, em 1970, a American Psychological Association desenvolveu um grupo de trabalho com psicólogos no âmbito da saúde. Em 1979, criou-se a divisão 38, chamada Health Psychology, cujos objetivos básicos são avançar no estudo da Psicologia que compreende o processo saúde e doença através de pesquisas também. A APA, em 1982, publica a primeira revista oficial da área, a Health Psychology. Em 1986, formou-se na Europa a European Health Psychology Society (EHPS), que busca promover pesquisas e aplicações para a Psicologia da Saúde. Desde então foram criadas outras revistas em relação à área.

Conceito de saúde O trabalho de psicólogos na área da saúde vem se

desenvolvendo de forma constante e crescente nos últimos anos, e, em função disso, torna-se fundamental conhecer como foi a construção dessa trajetória.

Para que isso seja possível, é necessário entender as evoluções referentes ao conceito de saúde que vêm ocorrendo já há muito tempo no Brasil e no mundo. Durante anos, a Organização Mundial da Saúde (OMS) conceituou saúde como ausência de enfermidade ou de invalidez. Isto é, o conceito de saúde estava diretamente associado com aspectos negativos.

Porém, este conceito evoluiu, e a partir da carta constitucional da OMS, em 1964, saúde passou a ser definida como um “estado de completo bem-estar físico, mental e social”. Desse modo, o aspecto físico do ser humano já não ocupa mais o único papel de destaque, passando a dividir espaço com as áreas mental e social (Remor, 1999). Desde a Assembléia Mundial de Saúde de 1983, a inclusão de uma dimensão “espiritual” de saúde vem sendo discutida a ponto de haver uma proposta para modificar o conceito clássico de saúde da OMS (Fleck; Borges; Bolognesi & Rocha, 2003).

Essa nova forma de conceituar saúde provocou muitas críticas devido ao ponto de vista extremamente

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utópico de entender a saúde como um estado de perfeição, de bem-estar completo. Para Segre e Ferraz (1997), a definição de saúde da OMS é inadequada, pois só se pode falar de bem-estar, felicidade ou perfeição para um sujeito que, dentro de seu sistema de crenças e valores, fornecesse sentido de tal uso semântico e, desse modo, o legitimasse.

Durante o século passado, o modelo biomédico tornou-se hegemônico e estava presente na maior parte das práticas de saúde. No entanto, devido ao crescente desenvolvimento e mudanças com relação aos padrões das doenças (diminuição de doenças infecciosas decor- rente de medidas preventivas e aumento das denominadas doenças crônicas ou funcionais) nas últimas décadas, torna-se mais claro o papel desempenhado pelos aspectos psicológicos e sociais – expressos pela personalidade e pelos estilos de vida – com relação às práticas de saúde. Como conseqüência disso, surge a importância da inter- disciplinaridade e a participação de outras áreas de conhe- cimento, como a psicologia (Traverso-Yépez, 2001).

É a partir dessa visão de saúde como uma realidade total e integradora que se dá a origem do desenvol- vimento do novo campo da psicologia da saúde. Em 1978, a American Psychological Association (APA) denomina oficialmente esse novo âmbito como Psicologia da Saúde. Em 1979, o primeiro livro monográfico sobre psicologia da saúde é publicado (Remor, 1999).

Para que a psicologia da saúde continue a obter su- cesso em suas intervenções, Suls & Rothman (2004) acreditam que é preciso um forte comprometimento com o modelo biopsicossocial e suas implicações. Isto significa enfatizar a interdisciplinaridade, o desenvolvimento de teorias e pesquisas que cultivem a natureza multivariada dos proces- sos de saúde e desenvolver políticas para que as próximas gerações de pesquisadores e praticantes reconheçam a complexidade que envolve a psicologia da saúde.

Além disso, são necessárias mudanças significativas nas áreas de educação, pesquisa e prática. A psicologia da saúde precisa acompanhar as evoluções que vêm ocorrendo no campo da medicina, pois à medida que ocorrem novas descobertas, faz-se necessário também a construção de novas formas de intervenção. Um exemplo disso são as pesquisas na área de genética e transplantes de órgãos e tecidos que são campos ainda carentes de pesquisas na área da psicologia da saúde (Keefe & Blumenthal, 2004; Saab; McCalla; Coons et al., 2004).

O entendimento de qualidade de vida A Psicologia da Saúde, além da visão interdisciplinar,

direciona-se para os aspectos de qualidade de vida (QV) do

ser humano no processo saúde e doença. A qualidade de vida é compreendida como sendo “a percepção do indivíduo de sua posição na vida, no contexto da cultura e sistema de valores nos quais ele vive em relação aos seus objetivos, expectativas, padrões e preocupações” (Fleck; Louzada; Xavier; Chachamovich; Vieira; Santos & Pinzon, 2000, p. 179).

A expressão qualidade de vida foi utilizada pela primeira vez em 1964, pelo então presidente dos Estados Unidos, Lyndon Johnson, ao declarar que “os objetivos não podem ser medidos através do balanço dos bancos. Eles só podem ser medidos através da qualidade de vida que proporcionam às pessoas” (Fleck; Leal; Louzada; Xavier; Chachamovich; Vieira; Santos & Pinzon, 1999, p. 20). A preocupação sobre a QV refere-se a um movimento dentro das ciências humanas e biológicas no sentido de valorizar parâmetros mais amplos que o controle de sintomas, a diminuição da mortalidade ou aumento da expectativa de vida.

A busca de um instrumento que avaliasse a QV dentro de uma perspectiva genuinamente internacional fez com que a Organização Mundial de Saúde (OMS) desenvolvesse um projeto multicêntrico. O resultado deste projeto foi a elaboração do instrumento WHOQOL-100, composto de 100 itens e que abrange os seguintes domínios: físico, psicológico, nível de independência, relações sociais, ambiente e aspectos espirituais/religião/crenças pessoais (Fleck et al., 1999).

A equipe WHOQOL GROUP do Brasil tem desenvolvido versões em português dos instrumentos de avaliação de QV da OMS: WHOQOL-100 e bref; WHOQOL-HIV; WHOQOL-OLD e WHOQOL-SRPB – módulo espiritualidade/religiosidade e crenças pessoais. Estes proporcionam variadas possibilidades de aplicações, tais como auxiliar na prática clínica, como forma de aprimorar a relação profissional de saúde e paciente, avaliação e comparação de respostas a diferentes tratamentos de saúde, avaliação de serviços de saúde e de políticas de saúde coletiva.

Desse modo, a Psicologia da Saúde, através de uma visão interdisciplinar e na busca da promoção, prevenção e tratamento da saúde, também tem por finalidade a melhoria da qualidade de vida do indivíduo e da população. Recentes pesquisas nesta área apontam para algumas possíveis intervenções em psicologia clínica, tendo como ponto em comum entre elas, geralmente, a relação com a QV.

Durante muito tempo, o constructo de qualidade de vida possuía um maior consenso. A partir da década de

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1990, no entanto, dois aspectos conceituais tornaram-se diretamente relacionados ao termo qualidade de vida: subjetividade e multidimensionalidade. O primeiro refere- se à percepção da pessoa sobre o seu estado de saúde e sobre os aspectos não médicos do seu contexto de vida. Ou seja, como a pessoa avalia a sua situação pessoal em cada uma das dimensões relacionadas à QV. Os estudiosos dizem que a QV só pode ser avaliada pela própria pessoa. Quanto ao segundo aspecto, este relaciona-se ao fato de que o referido constructo é composto de variadas dimensões, sendo que a identificação dessas dimensões tem sido objeto de pesquisa científica em estudos empíricos (Seidl & Zannon, 2004).

Esses mesmos autores referem que o processo saúde e doença tem sido compreendido como um continuum relacionado aos aspectos econômicos, socioculturais, à experiência pessoal e aos estilos de vida. Desta forma, a melhoria da QV passou a ser um dos resultados esperados nos campos da promoção da saúde, prevenção e tratamento de doenças. Os termos qualidade de vida e saúde parecem implicar as enfermidades e/ou as intervenções em saúde. Um aspecto importante a ser destacado é que os estudos sobre QV incluem pessoas saudáveis da população, não se restringindo apenas a amostras de pessoas portadoras de doenças específicas.

Na área da saúde, a QV tem sido avaliada também no âmbito da saúde mental e das doenças crônicas. Neste enfoque, o paciente é visto como pessoa inserida na efetividade do seu processo de tratamento (Orley; Saxena & Herrman, 1998). Pode-se entender a definição de QV como constituindo-se de três fatores: o bem-estar subjeti- vo, que se refere a percepção do indivíduo, seus valores e crenças; a saúde, entendida como um estado de bem-estar físico, mental e social e não meramente a ausência de doença e, em terceiro lugar, o bem-estar social, que se refere à situação da pessoa em relação ao seu ambiente e sociedade (Dimenas; Dahlöf; Jern & Wiklund, 1990).

Pesquisas e intervenções em psicologia da saúde: a clínica ampliada

A Psicologia Clínica visa ao estudo das relações entre comportamento e saúde no enfoque da promoção da saúde, prevenção e auxílio no tratamento de doenças. A área encontra-se em expansão, e, justamente por isso, é preciso pensar que a manutenção da credibilidade e do espaço conquistado depende em grande parte de uma formação profissional adequada, de um desempenho ético e do desenvolvimento de pesquisas na área (Miyazaki; Domingos; Valerio; Santos & Rosa, 2002).

A saída do psicólogo da clínica privada decorrente de uma maior preocupação com o contexto social gerou um aumento de interesse na área da saúde, ampliando-se o espaço público e as demandas no contexto institucional. Estes novos espaços sugerem aos profissionais a necessidade de uma intervenção global, aumentando os índices de adesão a tratamentos e redução do impacto da doença sobre o funcionamento integral do ser humano (Gioia-Martins & Rocha, 2001).

Um exemplo do que foi visto até o momento é o Serviço de Psicologia do Hospital de Base da FAMERP (Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto), iniciado em 1981, que vem desenvolvendo atividades de extensão, serviços à comunidade, ensino e pesquisa em Psicologia da Saúde. Todos os psicólogos do serviço participam de atividades como membros de equipes interdisciplinares – incluindo acompanhamento de pacien- tes, implementação de programas de prevenção, ensino/ supervisão e desenvolvimento de pesquisas (Miyazaki et all., 2002). Outro espaço de atuação do psicólogo é na prática de avaliação psicológica como instrumento para a compreensão dos potenciais do indivíduo, como nas áreas de Neonatologia, Transplante Cardíaco, serviços de Oncologia e Dermatologia, entre outros.

No Brasil, o surgimento deste novo campo re- laciona-se com a necessidade de o psicólogo estar inse- rido nas questões relacionadas à saúde de uma forma geral, não só especificamente na saúde mental, como aconteceu até a década de 1970. Desse modo, atualmente a Psicologia da Saúde encontra-se na fase inicial de descoberta de novos campos de trabalho e abertura de novos horizontes. Para tanto, torna-se necessária uma reflexão/revisão profunda sobre as representações exis- tentes no processo saúde/doença (Contini, 2001).

Perspectivas futuras Em termos de perspectivas futuras, a Psicologia da

Saúde necessita envolver ainda uma maior integração no desenvolvimento de atividades de extensão, ensino e pesquisa, bem como desenvolver atividades de caráter interdisciplinar. Neste sentido, a universidade tem o importante papel de formar profissionais capazes de discutir os aspectos relacionados à área da saúde.

Para romper com a barreira tradicional, a saída é uma formação adequada, que habilite o profissional a realizar uma análise crítica da realidade brasileira e capaz de pensar e criar alternativas de intervenção para a melhoria da qualidade de vida. Desta forma, Gioia- Martins & Rocha (2001) acreditam que o currículo

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acadêmico do psicólogo deve ser entendido como início de um percurso de formação continuada, em direção à responsabilidade social e ao compromisso com a ética.

A formação é considerada, para Contini (2001), como o período em que o aluno terá acesso ao conhe- cimento teórico produzido pela ciência, desenvolvendo aprendizagens básicas sobre o fazer psicológico. É possível, então, apontar na perspectiva de uma visão sistêmica de saúde, segundo a qual fatores relacionados ao modo de vida dos homens estarão atuando de forma direta nas reais possibilidades de uma vida saudável ou não. Com isso, a concepção de saúde é ampliada para além dos limites da ausência de doença, estando ligada aos vários aspectos presentes na vida do ser humano, como moradia, lazer, educação e trabalho. O equilíbrio desses componentes da vida diária irá compor o grande mosaico da saúde humana.

Pode-se observar, como assinala Gonzales Rey (1997), que o desenvolvimento da Psicologia da Saúde estimulou o trabalho do psicólogo no âmbito da prevenção e da promoção da saúde, assim como sua participação em equipes interdisciplinares tanto em instituições de saúde como no trabalho comunitário. De acordo com Brannon e Feist (2001), à medida que as pessoas adquirem maior consciência de sua saúde, advertem que a responsabilidade quanto ao seu bem-estar não se refere apenas aos profissionais da saúde, mas principalmente à deles mesmos. O psicólogo pode contribuir acumulando informações sobre os estilos de vida das pessoas, auxiliando na manutenção da saúde, contribuir na prevenção e no tratamento da saúde, bem como formular políticas públicas de saúde.

Neste âmbito, a interdisciplinariedade é uma exigência em todas as áreas de conhecimento que pressupõe uma intersubjetividade, incorporando assim os resultados de várias disciplinas. Quando os saberes e as práticas se fragmentam, resultando na perda do contato com a unicidade da realidade humana, “(...) não se trata de cercear o desenvolvimento da especialidade, mas de tornar o especialista um homem da totalidade” (Ramos- Cerqueira, 1994, p. 37).

Para tanto, podemos compreender a Psicologia da Saúde como sendo uma prática que atua na integração da

saúde mental com a saúde física e social do paciente. Uma psicologia que considera a compreensão integral do ser humano (psicooncologia, psiconeuroimunologia, psicologia hospitalar) e de sua intervenção no contexto saúde e doença nos diferentes âmbitos da psicologia clínica. Além disso, é importante considerar a historicidade da pessoa numa visão clínica e social (Camon, 2000).

Considerações finais A maior parte das pesquisas que estão sendo rea-

lizadas atualmente em Psicologia da Saúde relaciona-se com a questão da clínica ampliada – espaço interdisci- plinar – dentro de um contexto de muita preocupação no que se refere à questão da Qualidade de Vida.

Dessa maneira, destaca-se a importância de discutir aspectos relacionados com a formação dos profissionais de psicologia que optam por atuar na área da saúde. A partir do momento em que o psicólogo demonstra inte- resse em trabalhar com a Psicologia da Saúde, deve estar consciente de que estará se inserindo em um espaço que vai além de sua prática privada de consultório, que rompe com as barreiras de uma psicologia clínica “tradicional”. A Psicologia da Saúde exige de seus praticantes uma visão ampliada da clínica e o desenvolvimento da habilidade do trabalho em equipes interdisciplinares.

Além desses aspectos, pode-se constatar que as pesquisas envolvendo a Psicologia da Saúde ainda estão muito incipientes com relação a outras ciências. Na medida em que as pesquisas não acompanham os avanços tecnológicos da medicina, a Psicologia da Saúde torna-se facilmente ultrapassada. Um exemplo disso são os estudos na área da genética – transplante de células- tronco – em que ainda há de se produzir conhecimento sobre as possíveis implicações psicológicas relacionadas a este procedimento e suas repercussões. Para tanto, muitas outras questões de Bioética também devem implicar o interesse e o compromisso social da Psicologia Clínica e da Saúde (HIV; eutanásia; reprodução assistida; embriões; transplantes em geral). Certamente, o que todos estes estudos têm em comum é o respeito ao ser humano e a busca por uma melhor qualidade de vida.

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Recebido para publicação em reunião da Comissão Editorial, realizada em 25 de outubro de 2005.

Aprovado para publicação em 11 de abril de 2006.

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