Questao indígena - artigo - Historia, Notas de estudo de História. Universidade do Vale do Sapucaí
Reginaldo85
Reginaldo851 de Março de 2013

Questao indígena - artigo - Historia, Notas de estudo de História. Universidade do Vale do Sapucaí

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Artigo: Os Índios na América Latina Colonial - controvérsias e conclusões.
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Os Índios na América Latina Colonial: controvérsias e

conclusões.

Trata-se de um caminho longo que permite amplos posicionamentos, assim

pode ser definida a questão indígena na América, pois é um assunto que surgiu há

mais de quinhentos anos e ainda hoje apresenta várias posições, várias opiniões

divergentes, que movimenta grandes populações e governantes em torno de uma

conclusão definitiva, à qual se tem hoje pouca chance de chegar.

Desse modo, quero trazer aqui alguns dos pontos principais que nos levam à

crer que este assunto, além de polêmico, é uma das controvérsias mais extensas e

inevitáveis quando se pretende fazer o estudo da colonização européia sobre os

territórios americanos.

Em primeiro lugar, vale denotar que a questão indígena teve seu nascimento

no final do século XV e início do XVI, quando a questão primordial era a existência

ou não de humanidade entre aquelas espécies de parecidas com homens que foram

encontradas no território americano.

Segundo Todorov - quando o mesmo fala sobre o posicionamento de

Colombo diante dos índios – deve-se perceber como a mente do descobridor

genovês se comportou diante da descoberta de uma espécie que, para ele, estava a

meio caminho entre os homens e os animais. Os índios que Colombo encontrou, e

sobre os quais deixou relatos, são tratados por ele como parte integrante daquela

natureza, como extensão da paisagem, como um simples adorno do ambiente:

Colombo fala dos homens que vê unicamente porque estes,

afinal, também fazem parte da paisagem. Suas menções aos

habitantes aparecem sempre no meio de anotações sobre a

Natureza, em algum lugar entre os pássaros e as árvores.1

Mas estes seres aqui encontrados, tratados por Colombo como partes

integrantes da natureza, logo viriam a ser encarados como homens, ou como

1 TODOROV, Tzvetan. A Conquista da América: A questão do outro. São Paulo: Martins Fontes,

1993. p. 33

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criaturas que tinham aspectos humanos: como instituições e valores que deveriam

ser combatidos.

Assim, surge a questão da maneira com que esses seres deveriam ser

enfrentados: como inimigos a serem destruídos ou como homens de bem a serem

convertidos para a fé cristã. A todo momento, durante a primeira metade do século

XVI, foi colocada em questão a natureza do índio, e o modo como os conquistadores

deveriam se portar diante desses seres.

Em momento algum, os índios foram tratados como homens independentes,

portadores de cultura, mas sim como uma espécie de seres inferiores que

precisavam saber o caminho certo, que precisavam conhecer a verdade, o que

significava aquilo que os conquistadores entendiam por verdade, aquela do

cristianismo:

[...] o Deus dos espanhóis é um ajudante e não um Senhor, um ser

mais usado do que usufruído [...]. Teoricamente, e como queria

Colombo [...], o objetivo da conquista é expandir a religião cristã; na

prática, o discurso religioso é um dos meios que garantem o

sucesso da conquista: fim e meios trocaram de lugar.2

Assim surge, no início do século XVI, um homem que entrega sua vida a

„defender‟ os índios. Bartolomé de Las Casas, um Frei dominicano que passa a

escrever contra os conquistadores em favor dos indígenas, suas palavras soam, de

um ponto de vista óbvio, como exageros extremados em nome de um interesse

maior, garantir a supremacia da Igreja e da Coroa sobre os interesses dos

conquistadores, escreve Las Casas:

[...] gentes infinitas, de todas as espécies, mui simples, sem finura,

sem astúcia, sem malícia, mui obedientes e mui fiéis a seus

Senhores naturais e aos espanhóis a que servem; mui humildes,

mui pacientes, mui pacíficas, amantes da paz, sem contendas, sem

perturbações, sem querelas, sem questões, sem ira, sem ódio e de

forma alguma desejosos de vinganças. 3

2 Idem, p. 104.

3 LAS CASAS, Frei Bartolomé. A Destruição das Índias Ocidentais. p. 27.

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O constructo de Las Casas foi uma grande herança para a história latino

americana, serviu de „pano pra manga‟ nas discussões sobre as intenções e o

comportamento dos conquistadores diante dos índios. Mas é inegável o fato de que

o Bispo de Chiapas era mais um dentre os vários indivíduos interessados em

conquistar e dominar aqueles povos, não com a violência física à procura de ouro,

mas com uma outro tipo de violência: a imposição de valores e verdades a um povo

acostumado com suas próprias tradições, que estavam sendo destruídas a seus

olhoes.

Que a imagem construída por Las Casas sobre os indígenas tenha

perdurado, é um fato extremamente compreensível, pois normalmente o que ocorre

é a falta de boa vontade em entender a cultura alheia. E aqueles que se dizem

defensores dos „pobres coitados‟ indígenas, geralmente são pessoas tão ligadas a

seus próprios valores e noções etnocêntricas de mundo, que mau enxergam que os

índios possuíam astúcia e inteligência, o que eles não tinham era a ânsia destruidora

dos espanhóis na busca pelo ouro.

Bruit, em seu relato apaixonado, demonstra o outro lado da moeda, ou seja,

trata da questão indígena de um ponto de vista totalmente adverso ao comum,

busca apresentar os índios como alguma espécie seres meticulosos, que usavam de

ardilosidades para resistirem aos espanhóis:

Mas, os surpreendente na história da conquista e apesar da

destruição e do genocídio é que os índios sobreviveram física e

culturalmente e a presença deles, de algum modo marcante em

quase todas as sociedades do continente, é um fato em face do qual

não se pode fechar os olhos.4

Esse ponto de vista revela, evidentemente, as ânsias de um historiador

marxista decepcionado com a queda do muro de Berlim, que busca evidencias de

uma resistência não revolucionária na América Latina em um momento onde as

esperanças quanto à possibilidade de autonomia dos latinos já se esfacelavam

diante do domínio Norte-Americano.

O diálogo entre presente e passado é algo fundamental, pois se o que Bruit

queria era desmoralizar Las Casas, acusando o seu derrotismo, o que acabou

4 BRUIT, Héctor Hernan. Derrota e Simulação: os índios e a conquista da América. p. 11.

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fazendo foi constatar o óbvio: Las Casas é filho de seu tempo e escreveu para os

leitores de seu tempo, assim como Bruit.

A principal questão levantada por Bruit, de acabar com o derrotismo, deve ser

pensada com muita atenção, para não acabarmos construindo uma outra lenda para

substituir a legenda negra, ou seja, para não acabarmos passando por cima da

história como se a resistência indígena justificasse a crueldade Americana.

Desse modo, os índios foram classificados e ordenados segundo o interesse

de cada um dos que resolveram analisá-los ou utilizá-los. Explorados em trabalhos

servis durante mais de trezentos anos, e ainda hoje existem resquícios deste

trabalho, os índios são tratados como empecilhos, como uma massa de homens

sem rosto e sem cultura.

Mas o inevitável, quando se pensa em história da América, é pensar na

maneira como esses homens foram utilizados, pois se a dominação dos espanhóis

sobre eles é um fato inegável, não se pode crer que o confronto foi uma via de mão

única, que os espanhóis sozinhos teriam dizimado milhões de índios em menos de

um século.

Quando Cortez chega à América, sua principal preocupação é a de se aliar

alguns grupos dentre aqueles homens, é entender os mecanismos de sua política e

se aproveitar desses mecanismos para conquistar e dali tirar todos os frutos que um

conquistador procura5.

O conquistador do México não se depara com um bando de seres misturados

à paisagem natural, nem com uma massa de coitados inocentes, de almas a serem

convertidas, mas sim um tipo de homem que se organiza em sociedade, que tem

desejos e anseios, que tem amores e ódios, que faz da rivalidade com seus vizinhos

um motivo para se aliar à estranhos, à seres vindos de lugares desconhecidos e com

uma aparência fora do comum.

Portanto, não há que se pensar que os conquistadores foram um bando de

animais, como queria Las Casas, ou que os índios foram dissimulados como queria

Bruit. Os índios se comportaram como homens, mesmo que seja a partir de sua

maneira de ver o mundo e as coisas desse mundo, demonstrando que o ódio, a

guerra e a „esperteza‟ faziam parte de seus cotidianos.

5 TODOROV, OP. Cit, passim.

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Não quero aqui inocentar os espanhóis alegando que os alguns índios

queriam tirar proveito da conquista, também não quero acreditar que a pura e

simples maldade espanhola tenha feito com que tantos índios morreram. Tratava-se

se de um momento estranho às duas culturas - claro que para os espanhóis as

condições da guerra, de explorar o desconhecido era algo a que já estavam um

tanto acostumados, devido aos enfrentamentos em sua terra natal diante dos

mouros6 - e que cada uma enfrentou a situação à sua maneira. Interessante é notar

a opinião de Romano:

Será que o historiador pode tentar fazer um „julgamento‟?

Questão inútil, já que sempre se julga e sempre se toma partido...

Mas existe hipocrisia em tomar partido em silêncio e a honestidade

em confessá-lo... Calar-se não significa dar provas de objetividade,

significa simplesmente conservar alguns na ignorância e levar outros

a fazer de conta que não entendem. Talvez possam criticar estas

páginas de ter feito „lenda negra‟, mas esconder os motivos da

„lenda negra‟ não será uma maneira de fazer „lenda cor-de-rosa‟?7

Talvez seja este o posicionamento que se deva tomar, não tomando partido

deste autor, mas sim concordando com o fato de que simplesmente assumir um

posicionamento é ser mais honesto consigo mesmo.

Desse modo, prefiro acreditar que a questão indígena na conquista e

colonização da América é um assunto em aberto, também acredito que não se deva

simplesmente aceitar as tradicionais idéias da „lenda negra‟, simplesmente pelo fato

de que os espanhóis não foram mais, ou menos, cruéis do que qualquer outro tipo

de colonizador imperialista.

Também não posso crer que os índios seriam um bando de inocentes sem

cultura ou sem sentimentos humanos, sejam bons ou maus sentimentos, do mesmo

modo que não posso tomar partido de uma idéia que acredita realmente que a

cultura indígena tenha sobrevivido fortemente na América Latina dos dias de hoje,

esse é um derrotismo maior do que o de Las Casas.

Isso porque, se um autor resolve assumir que os índios praticaram apenas

uma resistência simulada, e acredito que de algum forma isso ocorreu realmente, se

6 Ver ELLIOT, H. “A Conquista espanhola e a Colonização da América’ passim.7 ROMANO, Ruggiero. Mecanismos da Conquista Colonial. p. 65.

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perde as dimensões da humanidade indígena em relação aos sentimentos mais

comuns: como o ódio e a vingança.

Dessa forma, acredito que atualmente, seja nas palavras dos historiadores ou

dos governantes, insiste-se em tratar dos índios como uma espécie semi-humana,

que deve viver isolada do resto da população e alheia a suas qualidades e seus

defeitos.

Não quero dizer que se deva desrespeitar o que os índios conservaram de

valores e tradições dos tempos pré-colombianos, mas sim perceber não há como

acreditar em algum tipo de pureza cultural após quinhentos anos, por que eles são

índios sim, mas também são fruto de uma fusão entre europeus e indígenas,

portanto, também são “latino-americanos‟, sem me referir ao tom negativo que esta

expressão pode carregar.

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REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BRUIT, Héctor Hernán. Derrota e Simulação: os índios e a conquista da América. Centro de Memória: UNICAMP

ELLIOTT, H. “A Conquista Espanhola e a Colonização da América”. BETHEL, Leslie (Org.) América Latina Colonial I. Trad. de Maria Clara Cescato. São Paulo: Editora

da Universidade de São Paulo; Brasília: Fundação Alexandre Gusmão, 1998. pp 135 / 194. LAS CASAS, Bartolomé de. Brevíssima relação da destruição das Índias. 5ª ed.

Porto Alegre: L & PM, 1991. TODOROV, Tzvetan. A Conquista da América: A questão do outro. São Paulo: Martins Fontes, 1993 ROMANO, Ruggiero. Mecanismos da Conquista Colonial. São Paulo:

Perspectiva, 1973 (Coleção Khronos 4)

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