Ruas estranhas - george r. r. martin, Manual de Literatura. A. Manzoni
argondizzo
argondizzo18 de Abril de 2015

Ruas estranhas - george r. r. martin, Manual de Literatura. A. Manzoni

PDF (2 MB)
362 páginas
849Número de visitas
Descrição
ruas estranhas - george r. r. martin
20pontos
Pontos de download necessários para baixar
este documento
baixar o documento
Pré-visualização3 páginas / 362
Esta é apenas uma pré-visualização
3 shown on 362 pages
baixar o documento
Esta é apenas uma pré-visualização
3 shown on 362 pages
baixar o documento
Esta é apenas uma pré-visualização
3 shown on 362 pages
baixar o documento
Esta é apenas uma pré-visualização
3 shown on 362 pages
baixar o documento
Ruas Estranhas

Ficha Técnica

Copyright © 2011 by George R.R. Martin e Gardner Dozois Copyright © 2012 desta edição Casa da Palavra

Publicado sob acordo com a Berkley Publishing Group, uma empresa da Penguin Group (USA) Inc. Todos os direitos reservados e protegidos pela Lei 9.610, de 19.2.1998.

É proibida a reprodução total ou parcial sem a expressa anuência da editora. Este livro foi revisado segundo o Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.

Direção editorial Martha Ribas

Ana Cecilia Impellizieri Martins Coordenador do selo Fantasy

Raphael Draccon Editora de textos

Fernanda Cardoso Zimmerhansl Editora assistente

Marina Boscato Bigarella Copidesque

Adriana Alves Barcímio Amaral Simone Campos

Suelen Lopes Revisão

Natalia Klussmann Capa e projeto gráfico

Rico Bacellar Foto de capa

Kentaro Kanamoto www.kentarokanamoto.com

www.dustthefilm.com

CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ

R822 Ruas estranhas / editado por George R.R. Martin e Gardner Dozois ; tradução Alexandre Martins. - Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2012.

Tradução de: Down these strange streets ISBN 9788577343225

1. Ficção fantástica americana. I. Martin, George R. R., 1948-. II. Dozois, Gardner R. III. Martins, Alexandre 12-2148. CDD: 813

CDU: 821.134.3(81)-3

CASA DA PALAVRA PRODUÇÃO EDITORIAL Av. Calógeras, 6, 1001, Centro Rio de Janeiro RJ 20030-070

21.2222-3167 21.2224-7461 divulga@casadapalavra.com.br www.casadapalavra.com.br

Para nosso amigo Jack Dann, que percorreu ele mesmo algumas ruas

bastante estranhas

O bastardo

Há hoje um garoto novo nas prateleiras das liv rarias. Com maior frequência, ele pode ser encontrado nos fundos, na seção de ficção científica e fantasia, caminhando com certa insolência entre as histórias épicas, as space operas, as narrativas de espada e feitiçaria e as distopias ciberpunk. Algumas vezes dá um passo à frente para passar um tempo com os best-sellers. Eles o chamam de “fantasia urbana”, e nos últimos anos tem sido o gênero mais quente do mercado editorial.

O termo “fantasia urbana” não é novo, verdade seja dita. Houve outro gênero com esse nome nos anos 1980; parecia envolver sobretudo elfos tocando em bandas de rock e pilotando motocicletas por paisagens urbanas – geralmente Minneapolis ou Toronto, cidades muito legais.

A nova fantasia urbana pode ter algum parentesco com aquela variedade dos anos 1980, mas nesse caso o parentesco é distante, pois o garoto novo é um bastardo. Ele mora em ruas muito mais miseráveis e sujas do que aquelas que seu primo percorria, em Nova York, Chicago, Los Angeles e cidades sem nome onde o sangue escorre pelas sarjetas e os gritos na noite abafam a música. Talvez ainda haja alguns elfos na área, mas nesse caso eles provavelmente são viciados em apostas de corrida de cavalos, cocaína ou drogas mais fortes, ou talvez sejam elfas prostitutas exploradas por um lobisomem cafetão. Esses seres sanguinários estão por toda parte, embora na verdade sejam os vampiros que mandam na cidade. E não se esqueça de zumbis, espíritos, demônios, feiticeiras e feiticeiros, íncubos e súcubos e todas as outras nojentas e repulsivas criaturas da noite. (E pior, aquelas que não fazem ruído algum.)

Tente ser policial em uma cidade assim. Tente ser detetive particular. A fantasia urbana de hoje é fruto de dois gêneros mais antigos. O horror é a mãe que o pariu. (E, por

favor, é horror; não me venha com uma baboseira do tipo “fantasia soturna”, essa não passa de uma tentativa pobre de revestir de respeitabilidade o crânio sorridente de um gênero cujas raízes remontam aos melodramas e ao teatro Grand Guignol.) Os vampiros, lobisomens, fantasmas e demônios que percorrem os becos da fantasia urbana de hoje surgiram nos guetos do horror, tendo recebido forma e voz de Bram Stoker, Edgar Allan Poe, H.P. Lovecraft e da geração de escritores que seguiu seus passos distorcidos e deformados.

O pai da fantasia urbana de hoje é a história de mistério. E não qualquer tipo de história de mistério. Não faz parte da herança a história de identificação confortável, em que velhinhas descobrem quem matou o vigário na sacristia sem usar qualquer arma além de um lenço rendado. Não, estamos falando de noir, estamos falando de coisas fortes, cruas e sujas. Os ancestrais de Harry Dresden, Anita Blake, Rachel Morgan, Mercy Thompson, Jayné Heller e o restante daquele bando durão de caçadores de demônios e matadores de vampiros que habitam os becos e travessas da fantasia urbana podem ser encontrados em Sam Spade, Lew Archer, Travis McGee, Mike Hammer e Race Williams. E, claro, Philip Marlowe, o icônico detetive particular de Raymond Chandler.

Em seu ensaio clássico na Atlantic Monthly, “The simple art of murder”, Chandler escreveu: “Por essas ruas ignóbeis tem de seguir um homem que não é ele mesmo ignóbil, que não é corrompido nem tem medo. O detetive tem de ser um homem completo e um homem comum, mas ainda assim, um homem incomum.”

Os heróis e heroínas da fantasia urbana se encaixam perfeitamente na receita de Chandler. Embora eu suponha que até o próprio Marlowe ficaria surpreso com como alguns deles podem ser incomuns. Ou

talvez não. Verdade seja dita, o investigador particular de Chandler e Hammett e seus sucessores têm mais em

comum com os vampiros e lobisomens da ficção de horror que com a maioria das investigações particulares da vida real. Enquanto seus equivalentes ficcionais estão solucionando assassinatos, desmontando tramas e caminhando por bairros ruins onde nem mesmo os policiais ousam entrar, os detetives particulares da vida real passam os dias documentando adultérios para advogados de divórcios vulgares, lidando com segurança empresarial, espionagem industrial e investigando fraudes em seguros. Os escritores de fantasia urbana estão dando um passo além. Sam Spade tem mais em comum com Harry Dresden do que qualquer um deles tem com as pessoas que você encontra relacionadas na seção “Investigadores particulares” das páginas amarelas.

Raymond Chandler também escreveu: “O detetive particular da ficção é uma criação fantástica que age e fala como um homem real. Ele pode ser totalmente realista em todos os sentidos, menos um, o de que na vida como a conhecemos um homem assim não seria um detetive particular.”

Os heróis da fantasia urbana saem do mistério policial, enquanto os vilões, monstros e antagonistas têm suas raízes no horror clássico. Mas é a combinação que dá sabor a esse gênero. A ficção de horror é mergulhada em escuridão e medo, ambientada em um hostil universo lovecraftiano impossível de os homens compreenderem, um mundo onde, como sugeriu Poe, no final, a morte tem o domínio de tudo. Mas a ficção de detetive, mesmo do tipo sinistro, duro, calejado, tem a ver com racionalidade; o mundo pode ser negro, mas o detetive é o portador da luz, um agente da ordem e, claro, da justiça.

Você pensaria que esses dois nunca poderiam se encontrar. Mas os bastardos conseguem quebrar todas as regras, e isso é metade de seu encanto. O convencional não se aplica nas histórias deste livro.

Pense, por exemplo, em um caso em que um corpo é encontrado com todo o sangue drenado. Se o leitor se depara com essa situação em um romance de horror, sabe imediatamente que há um

vampiro se escondendo em algum lugar. Os policiais podem ou não compreender isso, dependendo do mundo no qual a história é ambientada, mas o leitor conhece a resposta: o livro tem HORROR escrito na lombada.

Mas se o leitor se depara com situação idêntica em um romance de mistério, bem, ele sabe que definitivamente não é um vampiro, não importa o que pareça. Algum assassino psicopata que se acha um vampiro é o mais longe que irá qualquer romance de mistério “realista”.

Nos dois casos, as expectativas do gênero definem e moldam nossa experiência de leitura e colorem o modo como entendemos os acontecimentos da história.

É apenas quando o bastardo sobe ao palco que há verdadeira incerteza. Agora estamos lidando com uma forma híbrida: parte fantasia, parte mistério. Todas as convenções têm de ser questionadas. De repente o enigma é novamente um enigma. Talvez seja um vampiro, talvez um psicopata, talvez nada disso, talvez ambos, talvez algo totalmente diferente. Melhor continuar lendo para descobrir.

“Melhor continuar lendo para descobrir” são as palavras mais doces que qualquer escritor pode ouvir. Claro que os escritores de fantasia urbana de hoje não são de modo algum os primeiros a cruzar a

história clássica de detetive particular com fantasia e horror. O próprio Poe fez isso, com aqueles assassinatos na rua Morgue. Arthur Conan Doyle confrontou Sherlock Holmes com o Cão dos Baskerville. E embora, no final, o cão não se mostre mais sobrenatural que Lassie, todo o frisson da história vem da possibilidade de que ele seja algo muito mais soturno e assustador.

E há Robert A. Heinlein, o mais improvável de todos os escritores de fantasia urbana. Mas o que mais pensar de minha história preferida de Heinlein, The unpleasant profession of Jonathan Hoag, em que o tímido Hoag contrata um casal de detetives para investigar o que ele encontra sob as unhas toda manhã quando acorda? É sangue ou... outra coisa?

(Não vou estragar a história contando a vocês.) Essa é a parte boa deste bastardo. As ruas pelas quais ele anda são tão sinistras quanto aquelas que

Spade e Marlowe percorreram, porém consideravelmente mais estranhas. E podem levá-lo a qualquer parte. Como o livro que você tem em mãos mostrará.

Meu cúmplice Gardner Dozois e eu não nos limitamos a um único gênero ao selecionar essas 16 histórias. Em vez disso buscamos escritores de fantasia urbana, romances de mistério, policiais... e alguns dos maiores nomes da fantasia urbana contemporânea. Tudo o que pedimos a eles foi que o conto envolvesse um detetive particular e um caso com um tom fantástico, fosse real ou... nem tanto. Seja você fã de ficção de mistério, fantasia urbana, horror ou ficção científica, encontrará alguns de seus escritores preferidos nas páginas a seguir. E outros escritores dos quais talvez nunca tenha ouvido falar, e que achamos que apreciará tanto quanto. Então, venha percorrer estas ruas estranhas conosco e vejamos onde elas terminam.

George R.R. Martin

Morte por Dahlia CHARLAINE HARRIS

Frequentadora da lista de mais vendidos doNew York Times , Charlaine Harris é autora da popular série Sookie Stackhouse, sobre as aventuras de uma garçonete telepata em uma pequena cidade do sul dos Estados Unidos; série que incluiDead until dark,Living dead in Dallas,Club dead,Dead to the worlde sete outros. Os romances de Sookie também foram adaptados para uma popular produção da HBO chamadaTrue Blood. Para satisfazer a curiosidade dos fãs, Harris editou um guia da série Sookie,The Sookie Stackhouse companion. Harris também é autora da série paranormal em quatro volumes Harper Connelly (Grave sight,Grave surprisee dois outros), bem como de duas séries de mistério, Aurora Teagarden, em oito volumes (composta de Real murders,A fool and his honey,Last scene alivee cinco outros, recentemente reunidos emThe aurora teagarden mysteries omnibus 1eThe aurora teagarden omnibus 2), e a série em cinco volumes Lily Bard (composta de Shakespeare’s landlord,Shakespeare’s champione três outros, recentemente reunidos emThe Lily Bard omnibus), bem como dos romances isoladosSweet and deadlyeA secret rage. Ela também organizou as antologiasCrimes by moonlight, e, com Toni L. P. Kelner, Many bloody returns, Wolfsbane and mistletoe,Death’s excellent vacationeHome improvement: undead edition. Seu romance mais recente é um novo da série Sookie Stackhouse,Dead reckoning.

Aqui ela nos leva, na companhia da poderosa vampira Dahlia Lynley-Chivers, a uma grande festa de várias criaturas da noite na qual os festejos se tornam um pouco mais violentos e mortais do que até mesmo Dahlia poderia imaginar.

Dahlia Lynley-Chivers havia sido uma mulher de altura mediana em sua época. Sua época passara havia séculos e nos Estados Unidos modernos ela era considerada uma mulher bastante baixa. Como Dahlia era uma vampira e conhecida como lutadora maldosa, mesmo entre aqueles como ela, costumava ser tratada com respeito apesar de sua carência de centímetros e sua constituição delicada.

– Você tem o rosto de uma rosa – disse seu possível doador de sangue, um belo humano corpulento na casa dos 20 anos. – Veja, minha pequena dama, vou me agachar para que você me alcance. Quer subir num banquinho? continuou, rindo, definitivamente como a hiena Hardy.

Se seu comentário divertido sobre a altura de Dahlia não tivesse sido precedido por um elogio, ela teria quebrado suas costelas e o deixado seco. Mas Dahlia gostava de elogios. Ele, porém, teria de suportar algumas consequências pela pretensão.

Dahlia lançou ao jovem um olhar tão feroz que ele ficou quase tão branco quanto a própria Dahlia. Depois, ela deu um explícito passo para a esquerda abordar o doador desocupado seguinte, uma suburbana loura não muito mais alta que Dahlia. A mulher abriu os braços para receber a vampira, como se isso fosse um encontro, não uma refeição. Se Dahlia respirasse, teria suspirado.

Contudo, Dahlia estava com fome e já havia sido seletiva demais. O pescoço da mulher estava na altura certa e ela se encontrava inteiramente disposta, já que era registrada na agência de doadores. Dahlia mordeu. A mulher se contorceu quando as presas penetraram a pele, então Dahlia, por consideração, lambeu um pouco a ferida para anestesiar a área. Sugou com força, e a mulher se contorceu de modo diferente. Dahlia era uma consumidora educada, na maioria das vezes.

Os braços da loura apertaram Dahlia com força surpreendente e uma parte dos cabelos grossos,

ondulados e escuros de Dahlia que cascateavam quase até a cintura foram agarrados. A loura puxou ligeiramente os cabelos da vampira, mas não estava tentando afastar Dahlia, de modo algum.

Com sua idade, Dahlia não precisava beber muito de uma só vez (ou talvez de uma só mordida fosse uma frase mais adequada). Após alguns poucos goles prazerosos, a vampira estava satisfeita. Dahlia não queria ser egoísta, e consumira tão pouco que seria seguro a mulher doar novamente ali.

Dahlia deu uma última lambida e quando o ar tocou as marcas de furos no pescoço da mulher, seu coagulante natural entrou em ação quase instantaneamente. A loura pareceu desapontada por o encontro ter terminado e tentou segurar Dahlia. Com um sorriso duro, ela se afastou com um pouco mais de determinação. A doadora se virou para o vampiro seguinte na fila, que era Cedric. Ela teria de parar depois disso; a maioria das pessoas que gosta de ser mordida para se registrar na agência de doadores simplesmente não era inteligente sobre quando parar.

– Você poderia ter sido mais simpática – censurou Taffy, a melhor amiga de Dahlia. – Teria feito algum mal dizer à mortal como era boa?

Dahlia ignoraria qualquer outro que se arriscasse a dar conselhos daquela forma, mas Taffy era 200 anos mais nova que Dahlia. Elas eram as vampiras mais velhas do ninho e sua amizade sobrevivera a muitas provações.

Taffy havia sido praticamente uma amazona quando viva, e continuava uma mulher impressionante. Tinha 1,67m e muitas curvas. Seus cabelos claros explodiam em uma auréola emaranhada ao redor da cabeça e desciam abaixo dos ombros. O marido de Taffy, Don, era uma das provações a que haviam sobrevivido, e era em função das preferências de Don que Taffy usava maquiagem pesada e roupas justas. Ele achava que dava uma aparência imponente.

Don era um lobisomem. Seus gostos eram, na melhor das hipóteses, duvidosos. Taffy acenou para Don, que estava na mesa do bufê. Lobisomens sempre tinham fome, e podiam beber

álcool indefinidamente e depois comer novamente. Uma festa com comida e bebida liberadas era o paraíso para Don e seu novo executor, Bernie. Os dois lobisomens estavam aproveitando ao máximo, já que a política exigia que estivessem no ninho dos vampiros para celebrar a ascensão de Joaquin.

Dahlia percebeu Don e Bernie lançando olhares de desprezo para o grupo de doadores de sangue. Os lobisomens achavam que os humanos dispostos a dar sangue a vampiros eram da pior categoria. Qualquer lobisomem de respeito preferiria ter seu pelo raspado. Dahlia tinha certeza de que Don não se importaria de dar um gole a Taffy na intimidade. Pelo menos ela esperava que esse fosse o caso. Durante o breve casamento de Dahlia com o executor anterior, seu ex-marido não era avesso a um lanchinho.

Os demônios e meios-demônios estavam reunidos em um canto e caíram na gargalhada após uma fêmea muito magra ter dito algo. Dahlia procurou um meio-demônio rato de computador, a quem conhecia melhor que os outros. Com uma excitação de prazer, identificou a pele avermelhada e os cachos castanhos de Melponeu no meio do grupo. Seus olhos se encontraram. O meio-demônio e Dahlia trocaram sorrisos. Eles haviam passado noites memoráveis juntos no quarto de Dahlia no andar inferior da mansão. O brilho nos olhos claros de Melponeu disse a Dahlia que o demônio não se incomodaria de repetir a dose.

No final das contas, ela poderia extrair um pouco de prazer daquela noite tediosa. Algumas criaturas que Dahlia não conhecia estavam espalhadas na multidão. Nenhuma fada, claro; os

vampiros matavam de amor as fadas, literalmente. Mas estavam presentes outras criaturas, e uma feiticeira. Joaquin tinha fama de liberal, fizera a lista de convidados da festa e a apresentara a Lakeisha, que mantinha o cargo de assistente-executiva do xerife. Lakeisha não gostara de alguns dos nomes, mas obedecera sem comentários. Todos os vampiros estavam agindo com calma e cuidado até conhecer o caráter do novo líder. Como vivera sozinho fora do ninho até sua nomeação como xerife, Joaquin era um

tipo desconhecido. Enquanto Taffy pegava Dahlia pelo braço para levá-la até Don no bufê, Dahlia disse: – Não estou me divertindo, embora devesse. – Por que não? – perguntou Taffy. – Os humanos logo irão embora e poderemos ser nós mesmos. Não

se pode dizer que foi inesperado. Cedric está cada vez mais fazendo as coisas a seu modo. Ele é preguiçoso, descuidado. Todo dia de colete. Tão datado. Não consegue sequer fingir ser deste século.

Como todos os vampiros de sucesso, Dahlia sabia que o segredo para sobreviver séculos era adaptação. E a adaptação mais óbvia era seguir as tendências em roupas e linguagem. Isso havia sido essencial quando vampiros existiam em segredo, para que pudessem se fundir à multidão tempo suficiente para abater sua presa. Vampiros eram uma presença cada vez mais comum nos negócios e na política, mas eles descobriram que a sociedade ainda os aceitava mais facilmente se imitassem americanos modernos. Também era verdade que velhos hábitos se tornavam difíceis de eliminar. Havia apenas seis anos que os mortos-vivos tinham se revelado, e para vampiros isso era menos que um piscar de olhos.

– Eu sabia que Cedric precisava ser substituído – disse Dahlia. – Não conheço bem Joaquin, e talvez esteja preocupada em como irá comandar, como será viver no ninho com ele aqui. Mas pelo menos teve uma ascensão bastante convencional.

– Foi dentro do padrão – concordou Taffy. – Logo os convidados terão ido embora e poderemos nos divertir. Estou satisfeita com os primeiros passos de Joaquin. A mansão está bonita, mais bonita do que no meu casamento.

Taffy bateu com a ponta da bota no piso de madeira recém-encerado. A sala de recepção, que era grande e cheia de móveis de couro escuros e tapetes espalhados, ficava nos fundos da mansão, voltada para o jardim. Taffy se casara naquele jardim em uma noite memorável. Embora o clima estivesse frio, a fonte funcionava no pátio pouco iluminado do lado de fora das portas duplas. As luzes não precisavam brilhar; vampiros têm excelente visão noturna.

Dahlia sentia orgulho de a mansão, que abrigava o ninho de vampiros de Rhodes e era o quartel- general da área para todos os vampiros, estar encerada e reluzente, limpa e decorada. Contudo, o orgulho de Dahlia tinha um toque nostálgico. Embora durante décadas todos tivessem tentado convencer o velho xerife, Cedric, a colocar novos carpetes e a modernizar os banheiros, ela descobriu que sentia falta das antigas peças. Também sentia falta do antigo xerife. Talvez ele pudesse ser considerado uma peça ultrapassada.

– Vou falar com Cedric – anunciou Dahlia. – Não é uma atitude inteligente, cara – alertou Taffy. Ela sempre tentava usar gírias atuais, embora

algumas vezes errasse por cinco anos... ou dez. – Eu sei. O novo xerife certamente estava de olho para ver quem procuraria Cedric; mas Dahlia não tinha medo

de Joaquin, embora o visse com certo respeito por seu estilo indireto. O afastamento de Cedric havia sido conduzido com uma espécie de elegância impiedosa. Cedric, ocupado com o que achava que seria seu cargo confortável para sempre, fora tolamente despreocupado e desatento.

– Encontro você mais tarde – disse a Taffy. – Talvez pare para trocar uma palavrinha com Melponeus. – Brincando com fogo – comentou Taffy, dando um largo sorriso. – Sim, fizemos isso da última vez. Mesmo meios-demônios podiam produzir bolas de fogo. A lembrança provocou um sorriso em Dahlia,

enquanto se aproximava do antigo xerife. – Cedric – disse, inclinando a cabeça ligeiramente. Nem mesmo Dahlia ousava provocar Joaquin

parecendo prestar homenagem a Cedric.

– Dahlia – respondeu ele, a voz carregada de melancolia. – Está vendo como o pavão se exibe? Joaquin, no centro de um grupo de vampiros, estava vestido para matar. Obviamente se sentia o rei do

mundo na noite de sua ascensão. Tinha em sua mão magra e escura um cálice de Royalty (uma mistura do sangue de vários nobres europeus, que conseguiam manter abertos seus castelos em ruínas com o dinheiro que ganhavam furando as próprias veias). Sua artista preferida, Jennifer Lopez, tocava ao fundo. Ele vestia um terno cinza-escuro muito elegante com camisa de seda cinza-clara, e sua gravata carmim tinha um broche de pérola antigo. Ao redor de Joaquin se exibia Glenda, uma vampira dos anos 1920 que nunca havia sido a irmã de ninho preferida de Dahlia.

– Você poderia aprender um pouco disso, Cedric – observou ela. Cedric vestia calças castanho- amareladas e uma camisa de linho branca com colete florido, sua combinação preferida. Tinha muitas réplicas quase iguais das três peças penduradas em seu armário.

Cedric ignorou o comentário. – Glenda parece bem – disse ele. No passado, de tempos em tempos, Glenda ia ao quarto de Cedric, mais para manter o xerife calmo que

por qualquer grande afeto. Dahlia com frequência vira os dois colhendo rosas no jardim da mansão à noite. Ambos haviam sido ardorosos cultivadores de rosas em vida, ou pelo menos Glenda dissera ter sido.

Glenda, que não tinha mais de 90 anos, de fato parecia muito tentadora naquela noite em um fino vestido de seda azul sem mangas, e absolutamente nada por baixo. Alisava a camisa de Joaquin com o ar de alguém que sabia o que havia sob a seda. Dahlia reconheceu ter certo apreço pela inteligência de Glenda.

– Você sabe que ela é um lixo – disse a Cedric. – Mas um lixo delicioso. Após jogar a cabeça para o lado e tirar do caminho seus longos cabelos claros, Cedric tomou um gole

da garrafa de Red Stuff, uma marca barata de sangue sintético que os vampiros bebiam para fingir que não precisavam do produto real. Era pura pretensão; Dahlia vira Cedric se aproximar de um doador.

Red Stuff era muito diferente de Royalty em cálice de cristal. O bigode de Cedric se curvou para baixo e mesmo as flores e trepadeiras douradas da estampa do colete pareceram murchas.

Tendo servido a seu propósito, os doadores humanos estavam sendo conduzidos para fora da grande sala de recepção por um jovem vampiro sorridente. Eles seriam levados à cozinha, fariam um lanche, poderiam se recuperar de sua doação e, depois, seriam devolvidos ao ponto de encontro. Descobriu-se que esse era o método mais eficiente de lidar com os humanos enviados pela agência. Se não fossem conduzidos a cada passo, demonstravam uma tendência perturbadora a se esconder na mansão, para poder doar repetidamente. Alguns vampiros não tinham força de vontade suficiente para resistir, e então... Havia doadores mortos e uma indesejada atenção da polícia.

O único doador a ficar na sala foi o jovem que irritara Dahlia. Parecia estar fazendo o mesmo com Don, marido de Taffy, líder da matilha de Rhodes. Isso provava sua estupidez. Dahlia se virou novamente para Cedric.

– Você vai continuar no ninho? – perguntou. Estava muito curiosa. Caso se visse na posição de Cedric, faria as malas no segundo em que o rei escolhesse Joaquin.

– Vou achar um apartamento em algum lugar mais cedo ou mais tarde – disse Cedric com indiferença, e Dahlia achou que isso ilustrava com perfeição as falhas dele como líder.

Embora tivesse sido um xerife dinâmico em seu auge, Cedric gradualmente se tornara lento. E essa era a forma mais gentil de definir. Indolência e insuficiência, contaminando as determinações e decisões de Cedric ao longo das décadas, haviam sido sua ruína. Não fora surpresa para ninguém, além dele mesmo,

que tivesse sido desafiado e afastado. Para os vampiros mais novos, a única surpresa fora ele ter sido escolhido para o cargo.

– A situação não irá mudar – disse Dahlia. Cedric seria motivo de escárnio se mantendo melancolicamente na mansão durante o reinado de Joaquin. – Estou certa de que você poupou dinheiro durante seu período no cargo – acrescentou, para encorajá-lo. Afinal, todos os vampiros que viviam no ninho contribuíam para a conta bancária do xerife, assim como os outros vampiros de Rhodes que preferiam viver sozinhos.

– Não tanto quanto você imagina – argumentou Cedric, e Dahlia não conseguiu reprimir um pequeno gesto de irritação. Sua simpatia em relação ao ex-xerife se esgotara. Ela se desculpou.

– Melponeus pediu para falar comigo – mentiu. Cedric a dispensou com um gesto de mão que era um fantasma de sua antiga graça. Enquanto Dahlia cruzava o carpete na direção do grupo de demônios, em nada atrapalhada por seus

saltos muito altos, olhou para trás e viu Cedric abrindo a porta do hall que levava à cozinha. Ele entrou acompanhado de Taffy e Don. Glenda chamou “Taffy!” e foi atrás deles.

Então Dahlia parou na frente de Melponeus, com os demônios amigos dele abrindo caminho rapidamente. Embora, por natureza, Dahlia fosse uma mulher direta, também era inacreditavelmente consciente de sua própria dignidade e não se incomodou com a malícia nos sorrisos que os amigos do demônio lançavam para ela. O próprio Melponeus certamente sabia disso. Após uma conversa muito rápida, ele levou Dahlia para uma área vazia.

– Peço desculpas por meus amigos – disse ele instantaneamente. Dahlia forçou seu rostinho rígido a relaxar e parecer um pouco mais receptivo. – Eles veem uma mulher adorável como você e não conseguem controlar suas reações.

– Você aparentemente consegue – rebateu Dahlia, apenas para constranger Melponeus. Ele a conhecia melhor do que ela imaginava, pois após um instante de explicação confusa, riu. Eles tiveram alguns momentos ótimos com preliminares verbais, depois dançaram.

– Talvez mais tarde... – começou Melponeus, e foi interrompido por um grito. Gritos não eram algo incomum no ninho dos vampiros, mas como aquele foi dado no meio de uma

ocasião social importante, atraiu atenção total. Todas as cabeças se viraram para o lado leste, na direção da ala ocupada pela cozinha.

– Não se mexam – determinou Joaquin para deter a multidão que avançava em direção ao tumulto. De certa forma, para surpresa de Dahlia, todos o obedeceram. Ela achou isso interessante.

Ainda mais interessante foi o fato de que Joaquin vasculhou a multidão antes de seus olhos encontrarem os dela.

– Dahlia – disse –, leve Katamori com você e descubra o que aconteceu. Katamori havia sido uma espécie de policial, dois séculos antes. Dahlia teve de se esforçar para manter uma expressão neutra. – Sim, xerife – respondeu, fazendo um gesto com a cabeça na direção de Matsuda Katamori, um

vampiro que tinha um apartamento perto de Little Japan. Katamori, que parecia tão surpreso quanto Dahlia por ter sido escolhido, deslizou para o lado dela imediatamente. Foram até a porta que levava à cozinha da mansão.

Não era um espaço amplo, e o carpete havia sido colocado para abafar os sons, não para embelezar. Os dois vampiros estavam alertas enquanto percorriam silenciosamente a passagem para a cozinha. A porta de vaivém estava aberta.

Quando a mansão havia sido erguida no começo dos anos 1900, o construtor não podia imaginar que a cozinha seria usada por quem não comia. O piso de cerâmica branca e os enormes utensílios haviam sido

preservados, e até mesmo atualizados uma ou duas vezes no século anterior. Quando Cedric comprara a mansão por uma pechincha (havia encanto envolvido), deixara a cozinha como se ainda fosse necessária para preparar um banquete. Normalmente as peças de aço inoxidável brilhavam sob as luzes suspensas do teto alto.

Naquele momento o aço inoxidável estava coberto de vermelho. O cheiro de sangue era opressivo. De onde estavam, pouco depois da porta, Dahlia e Katamori não podiam ver o corpo por causa da

comprida mesa de madeira colocada no centro do aposento, mas sem dúvida havia um corpo ali. A única coisa viva na cozinha era um dos meios-demônios, uma garota magricela que Dahlia nunca vira. A garota estava de pé absolutamente imóvel, muito perto do cadáver, se a avaliação de Dahlia estava correta, com as mãos erguidas no ar. Esperta.

Dahlia gostou do cheiro de sangue, mas preferia seu sangue fresco e de uma fonte viva, como todos os vampiros, exceto alguns raros pervertidos. Depois que o sangue deixava o corpo vivo por mais de dois minutos perdia muito de seu aroma provocante, pelo menos para o olfato de Dahlia. Pela delicada contração nas narinas de Katamori, ele pensava da mesma forma.

Os pés da garota estavam ocultos pela velha mesa de madeira, originalmente projetada para as refeições dos empregados e a preparação de comida. O cheiro do sangue, no entanto, emanava do espaço ao redor dela, e o vermelho alcançara o forno e a geladeira reluzentes na parede do lado sul. Ela estava de pé exatamente em frente à geladeira.

A meio-demônio abriu a boca para falar, mas Dahlia ergueu a mão. A garota fechou a boca no mesmo instante.

– Parte desse sangue é seu? – perguntou Dahlia. A garota balançou a cabeça negativamente. Dahlia e Katamori se entreolharam. Dahlia não precisava erguer muito os olhos para encontrar os dele.

Ele esperou instruções. Ela era a vampira sênior. Gostou muito desse reconhecimento silencioso. Dahlia disse:

– Eu vou pela direita, você pega a esquerda. Ela não conhecia muito sobre Katamori, porém sabia que sua reputação de combatente era quase tão

formidável quanto a dela mesma. Sem uma palavra, o vampiro japonês começou a contornar o lado norte da mesa, com olhos, ouvidos e

nariz atentos. A parede norte tinha janelas enormes, naquele momento estavam negras. O efeito era desagradável, como se a noite observasse a cena na cozinha, mas Dahlia não seria distraída por qualquer perturbação noturna. Ela era a coisa assustadora.

Começou a contornar a mesa pelo lado sul. Os fornos e fogões, uma mesa de preparação de aço inoxidável com potes e panelas em uma prateleira inferior, e uma geladeira industrial e um freezer tomavam a parede. Alguns passos revelaram a cena do crime. A garota meio-demônio estava em pé absolutamente imóvel no limite da poça de sangue que escorrera da vítima. Dahlia capturou o quadro geral e depois começou a prestar atenção nos detalhes.

O cadáver era do jovem que a irritara, o doador humano que vira pela última vez falando com Don. A traqueia do homem havia sido arrancada. Dahlia vira coisas muito piores em sua longa existência, no entanto ficou irritada com o desperdício de sangue.

A meio-demônio não tinha uma gota de sangue a não ser nos sapatos, que eram Converse vermelhos de cano longo, um pouco mais escuros junto às solas de borracha. Dahlia ergueu suas delicadas sobrancelhas negras e olhou para o outro lado do aposento.

– Katamori? – chamou. – Muitas pessoas passaram – respondeu ele.

Pela resposta lacônica Dahlia entendeu que ele não encontrara nada tangível do seu lado do aposento, mas que farejara complexas trilhas de cheiros. Isso fazia sentido. O lado norte da cozinha era o caminho natural a pegar para chegar à porta no extremo oposto do cômodo comprido, que levava a uma antessala com cabides para roupas de inverno e de jardinagem. Do outro lado da antessala, uma porta mais pesada se abria para a ampla plataforma que marcava o fim da rampa de serviço. Todos os humanos que haviam ido à mansão para doar no começo da noite entraram e saíram por aquela porta.

– Por favor, fique onde está por um instante – disse Dahlia à meio-demônio, que balançou a cabeça em uma série de anuências secas. Como a poça de sangue e o corpo ocupavam todo o piso entre os equipamentos e a mesa, Dahlia curvou os joelhos e pulou sobre o móvel, aterrisando levemente sobre os saltos enormes do outro lado.

Encontrou Katamori no final da mesa e olharam juntos para o corpo. Havia uma série de pegadas ensanguentadas se afastando do cadáver, pegadas grandes demais para serem da meio-demônio. Aquela trilha levava à primeira porta de saída, a porta para a antessala. Eles a examinaram juntos. Não havia digitais ensanguentadas na maçaneta nem nas vidraças. Dahlia se curvou para cheirar a maçaneta, depois deu de ombros.

– Uma mão ensanguentada a tocou, mas isso não nos diz nada – disse ela, abrindo a porta. Katamori ficou tenso, pronto para tudo.

A antessala estava vazia. Os dois vampiros entraram no espaço apertado. O chão era coberto por um tapete de borracha e havia

bancos dos dois lados. Sob eles eram guardados alguns pares de botas, alguns dos quais estavam lá havia 40 anos. Aguns casacos pendiam dos cabides acima dos bancos. Pelo menos um deles estava ali havia duas décadas, um casaco preto bem-feito com uma grande gola de pele.

– Não acho que alguém voltará para pegar isto – disse Katamori, empurrando o casaco com o dedo. Uma nuvem de pó se ergueu. Dahlia percebeu que a maioria dos cabides estava igualmente coberta de poeira. Apenas dois deles estavam suficientemente reluzentes para indicar terem sido usados recentemente.

A maçaneta da sólida porta que levava para fora parecia intocada a olho nu, e quando Dahlia se curvou para cheirá-la notou apenas um indício de sangue, um traço um pouco mais fraco que aquele na maçaneta interna.

– Saiu por aqui – disse ela a Katamori. – Vamos terminar a cozinha, depois fazemos um relatório. Eles voltaram para a cozinha. – Há cheiro de vampiro aqui, muito recente – anunciou Dahlia. – Além do meio-demônio, estou sentindo humanos, um lobisomem e pelo menos dois vampiros. Lobisomens. Dahlia retorceu a boca. Mas antes de tudo ela tinha de interrogar a única criatura viva no

aposento. – Demônio – disse ela. – Explique-se. Quando Dahlia teve tempo de prestar atenção nos trajes da garota, arregalou os olhos. A criatura

magricela tinha cabelos curtos pintados de verde-limão brilhante. Os tênis vermelhos eram uma bela contradição com a minissaia lilás e o colete de pelica forrado de lã.

– Sou Diantha – informou a garota. Depois começou a pronunciar uma longa frase, quase parecia um idioma desconhecido.

– Pare – disse Katamori. – Ou terei de matá-la. Diantha parou no meio de uma palavra, a boca aberta. Dahlia podia ver como os dentes da meio-

demônio eram afiados e como pareciam encher sua boca pequena. Katamori estaria com uma bela briga nas mãos e Dahlia se flagrou torcendo para que não se chegasse a tanto.

– Diantha, sou Dahlia. Nossos nomes são parecidos, não? – disse ela. Havia um ou dois séculos que não tentava acalmar alguém e soou estranho. – Você precisa falar de modo que a entendamos. Talvez você se acalme mais facilmente se dissermos que sabemos que você não fez isso.

– Sabemos? Katamori entendia a razão, mas queria que Dahlia a anunciasse. – Não há sangue nela, a não ser nos sapatos – disse, sem se preocupar em baixar a voz. Os olhos

brilhantes de Diantha estavam tão fixos nela que sabia que a garota podia ler seus lábios. – SoumensageirademeutioemLouisiana – disse Diantha. Ela não parecia precisar respirar ao falar, mas

pelo menos dessa vez falou mais devagar, mais lenta que a velocidade da luz, para que os vampiros a entendessem.

– Você veio à festa da ascensão porque... – Os demônios de Rhodes foram convidados, eu ia passar a noite depois de trazer... O resto da frase se fundiu em um ruído incompreensível. – Mais devagar – disse Dahlia, se preocupando com que ela entendesse. Diantha suspirou ruidosamente, soando tão irritada quanto a adolescente que parecia ser. – Como eu iria passar a noite aqui, me convidaram para vir com eles – disse, colocando um espaço

quase palpável entre cada palavra. – Não tinha mais nada para fazer. – Você saiu de Louisiana a negócios e veio à mansão com os demônios de Rhodes que foram

convidados. Diantha concordou, seu cabelo verde sacudindo quase comicamente. Se Dahlia não tivesse visto

demônios lutando antes, teria dado risada. – Como veio parar na cozinha? – perguntou Katamori. Durante a conversa entre Dahlia e Diantha ele contornara a mesa para ficar atrás de Diantha. Ela se

voltara ligeiramente de modo a ficar de olho nos dois vampiros, já que estava presa entre eles. A despeito da garantia de Dahlia, a meio-demônio não gostava nada da situação em que se encontrava. Seus joelhos se curvaram e os punhos se cerraram, prontos para um desafio.

Mas quando falou a voz era bem firme. – Eu estava indo à geladeira – disse Diantha, ainda se esforçando para falar lentamente. – O Sprite

acabou e achei que não haveria problema ver se havia mais na geladeira. Eucheireiosangue... Dahlia ergueu a mão em censura e Diantha desacelerou. – Eu gritei porque senti o cheiro do sangue assim que entrei. – Não antes? A maioria dos sobrenaturais tinha um olfato bastante aguçado. – O cheiro de vampiro anestesiou meu nariz – explicou Diantha. Aquilo fazia sentido para Dahlia. Embora o cheiro de vampiro fosse naturalmente delicioso para ela,

haviam dito várias vezes que era opressivo para outros sobrenaturais. – O sangue ainda corria quando você entrou? Os fios mais densos saídos de artérias rasgadas mal se moviam sobre a superfície brilhante dos

equipamentos, e as gotas que haviam sido lançadas longe quando a garganta fora cortada começavam a secar nas beiradas.

– Pouco – respondeu Diantha. – Havia mais alguém aqui? – perguntou Katamori. Diantha balançou a cabeça negativamente. Os dois vampiros se entreolharam, sobrancelhas erguidas. Dahlia não conseguia pensar em mais nada

para perguntar. Evidentemente Katamori também não.

– Diantha, mais um segundo e você poderá se mover. Dahlia e Katamori se aproximaram dos dois lados do corpo. – Certo – disse Dahlia. – Afaste-se do sangue. Tire os sapatos e deixe-os aí. A meio-demônio seguiu as instruções de Dahlia ao pé da letra. Subiu na mesa de madeira para

descalçar os canos longos. Colocou os calçados manchados lado a lado no chão. – Vououfico? – perguntou, parecendo muito mais contente por não estar tão perto do corpo. Demônios

não costumavam comer pessoas, e a proximidade com o corpo não era agradável para ela. – Acho que você pode sair – disse Dahlia após pensar um momento. – Mas não vá embora. – Vouvoltarparaafesta – disse a garota, e fez isso. Concordando silenciosamente, os dois vampiros se concentraram na tarefa. Com excelente visão e

olfato, não precisavam de lentes de aumento ou lanternas para ajudar a analisar o que viam. – Os doadores humanos vieram à cozinha, comeram e beberam – começou Katamori. – Um vampiro os

pastoreou. – Como sempre – disse Dahlia com ar distante. – E é com ele que temos de falar, pois de alguma forma

este humano ficou para trás, ou se escondeu. Obviamente o pastor deveria ter percebido. – Um lobisomem veio aqui, provavelmente após a morte. Talvez mais de um – continuou Katamori. Ele

estava agachado perto do chão e olhou para cima na direção de Dahlia, os olhos escuros atentos. Seus cabelos negros caíram para frente quando se curvou para examinar o piso, e ele os jogou por sobre o ombro.

– Não discordo – disse Dahlia, se esforçando para parecer neutra. Qualquer problema que envolvesse os lobisomens envolveria Taffy. – Acho que devemos contar a Joaquin que o pastor precisa vir aqui agora, ou assim que voltar.

Katamori respondeu que sim, mas de forma distante. Dahlia foi até a porta de vaivém. Como era de se esperar, uma das amigas de Joaquin, uma morena delicada chamada Rachel, aguardava no saguão. Dahlia explicou do que precisava e Rachel saiu apressada. Cedric proibira o uso de telefones na mansão, e Joaquin ainda não suspendera a regra, embora Dahlia tivesse ouvido dizer que o faria.

Em dois minutos, Gerhard, o pastor da noite, cruzou o saguão a passos largos para se juntar à Dahlia. Pelo modo como andava, ela podia dizer que estava com raiva, embora sorrisse. Aquele sorriso perpétuo brilhava tão duro quanto os cabelos curtos cor de milho de Gerhard, que reluziam sob a luz como seda. Vivia em Rhodes havia 50 anos, mas ele e Dahlia nunca se tornaram amigos.

Dahlia não tinha muitos amigos. E gostava disso. – O que quer saber? – perguntou Gerhard. Seu sotaque alemão era forte, apesar dos muitos anos nos

Estados Unidos. – Fale sobre a escolta dos humanos para fora daqui – disse Dahlia. – Como você deixou este para trás? Gerhard ficou rígido. – Está dizendo que fui negligente em meus deveres? – Estou tentando descobrir o que aconteceu – respondeu Dahlia, sem muita paciência. – O modo como

você cumpre suas obrigações não é problema meu, mas de Joaquin. O homem está aqui. Não deveria estar. Como isso aconteceu?

Gerhard foi obrigado a responder. – Reuni os humanos para partir. Fomos para a cozinha. Eu segui os procedimentos mostrando a eles a

comida e a bebida. Após 10 minutos, disse a eles que era hora de partir. Contei enquanto saíamos, e o número estava correto.

– Mas aqui está ele – disse Katamori, se erguendo de sua posição agachada junto ao corpo. – Portanto, sua contagem foi incorreta, você está mentindo ou um humano a mais tomou o lugar dele. Qual sua

explicação? – Não tenho nenhuma – respondeu Gerhard em uma voz tão rígida que parecia engomada. – Procure Joaquin e diga isso a ele – falou Dahlia, sem um grama de simpatia. – Tudo bem – concordou Gerhard, ainda mais na defensiva. – Este homem e eu fizemos um acordo. Eu

o deixei aqui porque quando voltasse passaríamos algum tempo juntos. – Embora ele já houvesse doado esta noite – argumentou Dahlia. – O nome dele era Arthur Allthorp. Eu estive com ele antes – disse Gerhard. – Ele podia suportar

muita... Doação. Adorava. – Um viciado em presas – constatou Katamori. Viciados em presas, seguidores radicais de vampiros,

eram famosos por ignorar limites. Gerhard concordou abruptamente. Nem Dahlia nem Katamori comentaram o fato de que inicialmente Gerhard mentira para eles. Sabiam,

assim como Gerhard, que ele pagaria por isso. – Ele era minha fraqueza – disse Gerhard com violência. – Fico contente por estar morto. Essa repentina confissão de paixão chocou Dahlia e desgostou Katamori, que deixou que Gerhard lesse

isso em seu rosto. Gerhard deu meia-volta para sair da cozinha, mas Dahlia disse: – A que horas você saiu com os humanos? Havia alguém aqui com o homem Arthur quando você levou

os outros embora? Gerhard pensou por um segundo. – Mandei que entrassem nas vans às dez da noite, horário marcado pela agência que os mandou. Não

havia ninguém aqui. Mas pude ouvir pessoas vindo pelo saguão enquanto esperava que os outros doadores saíssem. Tenho certeza de que uma delas era Taffy.

Dahlia teria dito algo desagradável caso estivesse sozinha. Mas teve consciência do rápido olhar de Katamori para o lado. Todos na festa sabiam que Dahlia e Taffy eram amigas, apesar do infeliz casamento de Taffy. O breve matrimônio da própria Dahlia com um lobisomem havia sido perdoado, já que durara tão pouco. Mas Taffy apresentava todos os sinais de fidelidade a Don, e até mesmo parecia que eles eram felizes assim, para espanto dos outros vampiros de Rhodes.

– Temos de encontrar Taffy e Don e fazer várias perguntas a eles – disse ela. – Gerhard, você pediria isso a Joaquin?

Gerhard concordou e passou intempestivamente pela porta, empurrando-a com tanta força que ela ficou balançando de forma irritante.

Dahlia voltou a atenção novamente para o jorro de sangue e o sangue empoçado no piso, ainda molhado.

– Pela minha experiência – disse ela a Katamori –, demora mais de uma hora para o sangue começar a secar. Considerando-se a viscosidade e a baixa temperatura do aposento, acredito que o corpo permaneceu aqui por pelo menos 30 minutos, mais ou menos.

Katamori concordou. Ambos eram especialistas em sangue. Ergueram os olhos para o relógio na parede da cozinha. Marcava 22h45.

– Se Gerhard saiu com os humanos às dez horas... Digamos que tenha demorado cinco minutos para encorajá-los a colocar os pratos na pia e levá-los pela porta... Então esse Arthur foi deixado às 22h05 ou 22h10. Eu conversei com Cedric, depois dancei com Melponeus.

Dahlia estava tentando descobrir quando o grito interrompera a festa. – Nós ouvimos Diantha às 22h30 – disse Katamori. Com alguma surpresa, Dahlia viu que ele usava um

relógio, um acessório incomum para um vampiro. – E viemos para cá um minuto e meio depois disso. Investigamos durante talvez vinte minutos. Então,

alguém entrou na cozinha entre 22h10 e 22h25, sem muita margem de tempo. – E esse Arthur morreu ao ter sua garganta rasgada – disse Katamori. – Sim. Embora pudesse ter sido asfixiado antes disso. É difícil dizer. – Está ali – disse Katamori, apontando para um repugnante monte de pele e osso semiescondido sob

uma cadeira. Dahlia se agachou para olhar o material descartado. – Está tão destroçado que ainda não posso dizer se foi asfixiado. Esse tecido foi jogado fora, não

consumido. Katamori fez uma careta de desgosto. Dahlia disse: – Estava pensando no traço de lobisomem e em tudo o que isso significa. Lobisomens comem carne humana, pelo menos quando na forma de lobo. – Acha que vimos tudo o que há para ver, farejamos tudo o que há para farejar? – perguntou Katamori,

cuidadosamente deixando de lado a questão do lobisomem. – Vamos examinar os bolsos do humano – sugeriu Dahlia, e Katamori se agachou do outro lado do

corpo. Dahlia tinha dedos rápidos e leves, e foi cuidadosa. Encontrou enfiada em um bolso na lateral do corpo uma folha dobrada do escritório de doação com um ponto de encontro e o horário marcado para a doação daquela noite. Como Gerhard dissera, os doadores seriam apanhados às oito da noite e devolvidos ao ponto de encontro às dez.

Dahlia ficou pensando se Gerhard dissera a Arthur para se certificar de ser incluído na lista de doadores. Não podia ser coincidência que o viciado predileto de Gerhard fosse incluído no grupo de doadores. Nos quatro anos anteriores, se tornara um hábito que anfitriões de festas para as quais vampiros haviam sido convidados contratassem doadores de um escritório de doação registrado, para ter a certeza de que todos os lanches humanos oferecidos haviam sido examinados em busca de doenças no sangue e psicoses. Havia uma doença que os vampiros podiam contrair dos humanos (Sino-Aids), e os doadores eram investigados em busca de motivos ocultos desde que um doador em Memphis levara uma arma e abrira fogo contra os convidados reunidos.

Dahlia abriu a carteira de Arthur Allthorp em busca de seu cartão de doador, que tinha sete perfurações. O cartão era furado sempre que a agência o enviava. Após Dahlia ter virado o corpo para examinar os bolsos da calça, Katamori revistou as pernas de Arthur. Para surpresa deles, encontrou uma faca em uma bainha de tornozelo. A ineficiência de Gerhard deixara de ser uma colina e se tornara uma montanha.

Após se entreolharem em concordância silenciosa, os dois se levantaram, tendo conseguido todas as informações do corpo. Olharam ao redor da enorme cozinha em busca de algo que pudessem ter esquecido. O negror continuava a espreitá-los através das grandes janelas. O sangue permanecia umidamente agarrado às superfícies de aço inoxidável. Arthur Allthorp, viciado em presas, continuava morto.

Após Katamori ter trancado a porta da rua, ele e Dahlia saíram da cozinha. Rachel retomara seu posto no saguão e Dahlia pediu que vigiasse a porta de vaivém.

– Não deixe ninguém entrar na cozinha até termos certeza de que não precisamos mais dela – disse. – Ninguém poderá entrar pelo lado de fora.

Rachel assentiu, a expressão tensa. Ela ainda estava se testando como vampira e Dahlia teve certeza de que a moça resistiria a qualquer um que quisesse ver o corpo.

Na sala de recepção, Joaquin tomara seu lugar na cadeira que, semelhante a um trono, era reservada ao xerife. O clima festivo se transformara em apreensão desconfortável. Os convidados circulavam

ansiosos. Os demônios e meios-demônios haviam formado um grupo coeso em um canto, com Diantha no centro, e os elementais (uma oréade, um raro espírito da água e um elfo) se agrupavam junto deles.

Bernie Feldman, executor de Don, olhava para as portas duplas com inconfundível preocupação. Estava de pé de modo estranho, como se sentindo dores no estômago. Dahlia seguiu seu olhar. Taffy e Don se aproximavam, obviamente desgrenhados. Taffy levava os sapatos na mão livre. A outra segurava a de Don, e os dois olhavam um para o outro com o que Dahlia só podia descrever como olhos ternos.

– Lamentável – murmurou ela, e Katamori olhou para o casal feliz. – Eles passaram pela cozinha – disse ele. – Teremos de interrogá-los. – Melhor fazer um relatório a Joaquin primeiro. Os dois vampiros se colocaram diante de seu novo líder. Dahlia curvou a cabeça até um ângulo

cuidadosamente calibrado. A cabeça de Katamori foi talvez um centímetro mais baixo que a dela. Joaquin aceitou o gesto e esperou o relatório. Ele parecia ficar melhor na cadeira do que Cedric. Joaquin era alto e magro, com cabelos escuros finos e grandes olhos castanhos. O novo xerife não era vampiro há tanto tempo quanto Dahlia (apenas dois dos vampiros de Rhodes eram tão antigos), mas nem sempre os cargos eram dos mais velhos.

Glenda estava jogada sobre o encosto do assento do xerife como se ser a nova parceira de trepadas de Joaquin desse a ela um status especial. Dahlia olhou a vampira sem qualquer expressão. Sua antipatia por Glenda passou de vaga a específica.

– O que descobriram? – perguntou Joaquin, dando aos dois investigadores toda a sua atenção. Dahlia ficou satisfeita com o sinal de respeito. – O humano se chamava Arthur Allthorp. Era um brinquedinho de Gerhard – disse Dahlia, localizando

o vampiro louro, que tentava parecer estoico, mas só conseguia ser soturno. – Gerhard permitiu que Arthur Allthorp permanecesse na cozinha enquanto levava os outros doadores de volta ao ponto de encontro. Vejo que ele já lhe contou isso.

Gerhard estava ladeado por Troy e Hazel, os vampiros que Joaquin escolhera como seus disciplinadores.

– Ademais – disse Katamori –, encontrei uma faca presa ao tornozelo do humano. Outro prego no caixão de Gerhard, talvez literalmente. – Ele morreu muito rapidamente quando sua garganta foi rasgada – relatou Dahlia. – Sabemos que

morreu em 15 minutos, com margem de erro de um ou dois minutos, entre 22h10 e 22h25. Katamori completou: – Passaram pela cozinha perto da hora da morte os doadores humanos, Gerhard, mais um ou dois

vampiros que não posso identificar e pelo menos um lobisomem. Todos os olhos se voltaram para Don e Bernie, que sussurrava furiosamente no ouvido de Don. Don

parecia chocado e soturno. Taffy era o único vampiro perto deles e segurava o braço do marido. Ele dava tapinhas em sua mão para demonstrar que apreciava o apoio. Bernie estava do outro lado de Don e tinha uma expressão que Dahlia já vira antes. Ela dizia: “Estou pronto para morrer, mas preferiria não.”

– Não fará qualquer diferença para você, Joaquin, mas não fiz isso – disse Don com sua voz grave. – Não consigo imaginar por que teria algum motivo para matar o pobre infeliz, embora o motivo não o interesse.

Se Dahlia tivesse tido uma oportunidade, poderia ter advertido Don de que aquele não era momento para sarcasmo.

– Don e eu passamos pela cozinha – disse Taffy. – Mas íamos na direção do jardim para conversar. – Sobre o que era a conversa? – perguntou Glenda. – Você estava bem atrás de nós, então provavelmente já sabe. Mas não respondo a você – disse Taffy,

e a luz da batalha brilhou em seus olhos. – Qualquer vampiro que passe tempo com um lobisomem se degrada e não tem status no ninho –

rebateu Glenda, se empertigando e se afastando um passo da cadeira do xerife. Dahlia ficou alerta instantaneamente. Caso deixasse Taffy pegar Glenda, Don iria se envolver e toda a

situação se complicaria desnecessariamente. Quando Glenda deu outro passo na direção de Taffy, Dahlia estava pronta. Pulou e bateu com toda força, e Glenda voou pelo ar com seu belo vestido justo rodopiando ao redor, enquanto Dahlia pousava graciosamente e girava para ter certeza de que Glenda estava fora de combate. O estalo das costelas de Glenda pôde ser ouvido quando ela bateu na parede e escorregou para o carpete, sangrando e gemendo.

Joaquin não se moveu, mas seus olhos queimavam. De suas posições, ao lado de Gerhard, Troy e Hazel rosnaram. Houve um longo momento tenso, com todos os olhos sobre Dahlia.

– Desculpe minha punição prévia à Glenda, Joaquin – disse ela calmamente. – Agi sem sua permissão, mas fiquei furiosa com a presunção. Ela não tem direito de fazer tal pronunciamento com você sentado diante de nós. Apenas você tem o direito de determinar quem pertence a nossa comunidade, quem não. Glenda demonstrou um desrespeito imperdoável.

Joaquin piscou. – Interpretação interessante das palavras de Glenda – disse. Ninguém foi ajudar a vampira caída. Possivelmente todos temiam que Dahlia os considerasse inimigos

caso o fizessem. – Ela foi presunçosa – disse Joaquin após pensar um momento, e a sala relaxou. Dahlia podia dizer que

mais de um vampiro teria gostado de vê-la causar ainda mais danos à Glenda, mas deixara clara sua posição e interrompera a acusação da vampira.

Joaquin continuou: – Sabem quais foram os outros vampiros que passaram pela cozinha no momento fundamental? – Um deles foi Cedric – respondeu ela. – Conheço o cheiro bem demais para confundir. E testemunhei

Glenda seguindo Taffy, Don, Bernie e Cedric para fora da sala, mas não tenho certeza se entrou na cozinha.

As sobrancelhas grossas de Joaquin se ergueram de surpresa. Olhou para seu antecessor. – Eu atravessei a cozinha – disse Cedric, apoiado na parede. – Estava nos calcanhares de Taffy e seu

lobisomem, mas Glenda saiu antes de mim, não depois. Eu queria falar com ela. – Por quê? – perguntou Joaquin. Ele olhou para Cedric, cujo colete de estampa azul estava amassado

acima da barriga. Mesmo as botas de Cedric estavam gastas, enquanto os mocassins de Joaquin reluziam como espelhos. O contraste não podia ser mais agressivo: Cedric, o velho bagre, Joaquin, a barracuda esguia.

Na lateral da sala, Glenda gemeu enquanto ficava de joelhos para se levantar. Muito discretamente, outro vampiro se adiantou para permitir que ela bebesse dele. Dahlia percebeu que ele parecia o mais neutro possível, como se seu braço simplesmente estivesse no lugar certo na frente da boca de Glenda para que tomasse um gole curativo. Até mesmo manteve os olhos baixos para que Glenda não os visse. Dahlia sorriu por dentro. Era bom ser temida.

– Por quê? – disse Cedric. – Porque eu queria sair, e esperava que ela caminhasse comigo, pelos velhos tempos. Porque, caso você não tenha pensado nisso, esta é uma noite muito desconfortável para mim e eu precisava de amizade.

Os demônios pareceram se divertir, os lobisomens ficaram constrangidos e os vampiros desviaram os olhos. Uma admissão explícita de fraqueza não era o estilo dos vampiros. Apenas Dahlia parecia amável.

Joaquin perguntou:

– Taffy, o que aconteceu no jardim? Taffy curvou a cabeça para o xerife. – Claro que responderei se meu xerife pergunta – disse com graça, reforçando o ponto destacado por

Dahlia. – Conversamos com Bernie, o executor de meu marido, sobre sua falta de gentileza com um dos demônios.

Ela anuiu na direção de Dahlia, e continuou: – Bernie foi... deselegante o bastante... ao debochar de seus padrões de fala. Don sentiu a necessidade

de ensinar a Bernie uma lição de diplomacia. Como pode ver, Don foi claro. Agora que o perigo havia passado, Bernie voltara a adotar sua posição curvada. Estava claramente

desconfortável. Balançou a cabeça em reconhecimento, se empertigou e fez uma expressão de dor. – Meu líder me corrigiu – disse. – Enquanto estávamos no jardim – continuou Taffy –, nos lembramos de que ali tinha sido o local de

nosso casamento, e festejamos do modo adequado. Ela deu um sorriso refulgente para Joaquin, contente por ter formulado de modo tão diplomático. Taffy

nunca havia sido sutil. Don sorriu para ela e colocou o braço sobre seus ombros. – Tivemos uma grande celebração nos arbustos – disse ele. – Mesmo estando mais frio que a teta de

uma bruxa. A única bruxa presente abriu a boca para protestar, mas Dahlia virou a cabeça rapidamente e olhou

para a mulher de modo significativo. A boca da bruxa se fechou na mesma hora. – Mas nada disso oferece qualquer prova de que o humano não morreu em suas mãos – disse Joaquin

com a voz mais razoável possível. – Não temos uma gota de sangue sobre nós, xerife – argumentou Taffy, esticando os braços e os

oferecendo para inspeção. – Quando Don deu a aula de etiqueta a Bernie, não rasgou sua pele. Meu marido sabe que o cheiro de sangue é forte para a sensibilidade dos vampiros.

– O assassino estaria sujo de sangue? – Joaquin perguntou a Dahlia. – Você viu o ferimento. – Passo para Katamori – disse Dahlia. – É bem sabido que Taffy e eu somos amigas. – Um vampiro se movendo em alta velocidade, um vampiro que tivesse matado assim muitas vezes,

poderia ser capaz de evitar o sangue – disse Katamori. – Qualquer outro precisaria mudar de roupa. Ele caminhou até o casal e o examinou com muito cuidado. – Não vejo nem farejo sangue em Taffy e Don. Os ombros de Dahlia talvez tenham relaxado um mínimo. Gerhard disse rapidamente: – Eu cheiro a sangue porque tomei um pouco de um doador esta noite. Foi a vez de Dahlia trabalhar, e ela examinou Gerhard dos pés à cabeça. Depois se empertigou para

falar a Joaquin. – Ele tem traços de cheiro de sangue, e uma pequena gota no colarinho, mas nada fora do comum. – Você pode me examinar, Katamori – ordenou Cedric, embora ninguém houvesse sugerido isso. Katamori olhou para Joaquin, não recebeu nenhum sinal e foi até Cedric. Examinou-o com cuidado.

Dahlia sabia que Katamori nunca gostara de Cedric. – Não consigo encontrar nada nas roupas de Cedric, embora ele cheire levemente a sangue – disse

Katamori. Cedric deu de ombros. – Eu usei os doadores – disse. Houve uma batida na porta da frente da mansão.

Dahlia olhou para o relógio na parede, apenas como precaução. Eram 23h15. Arthur Allthorp estava morto havia aproximadamente uma hora. O porteiro da noite, um vampiro jovem chamado Melvin, entrou tão rapidamente na sala de recepção que deslizou pelo piso de tacos.

– A polícia está aqui, xerife – anunciou a Joaquin. – Dizem que foram informados sobre a existência de um corpo no recinto.

– O quanto conseguirá atrasá-los? – perguntou em seguida Joaquin. – Dez minutos – respondeu Melvin. – Vamos precisar deles – disse Joaquin. – Vá. Melvin começou a cruzar lentamente a passagem em arco de volta para a porta. Estava olhando para o

relógio. – Katamori e eu nos livraremos do corpo – disse Dahlia, e saiu célere com Katamori. Quando

passaram por Rachel, ainda de guarda junto à porta de vaivém, Dahlia disse: – Equipe de limpeza, agora mesmo!

Rachel se moveu com tanta velocidade que quase não foi possível vê-la sair, e Dahlia a ouviu chamar alguns nomes na sala de recepção.

Não era a primeira vez em que era preciso sumir rapidamente com um corpo da mansão. Enquanto Katamori destrancava a porta da antessala, Dahlia pegou uma antiga toalha de mesa no

armário. Juntos, os dois vampiros enrolaram o corpo no linho amarelo para evitar gotas. Dahlia segurou os pés e Katamori ergueu os ombros. Estavam carregando o corpo para fora enquanto a equipe de limpeza passava pela porta de vaivém. Convenientemente, todo material de limpeza era guardado na cozinha, e enquanto Katamori e Dahlia levavam seu fardo pela antessala até a porta da rua, ela viu os vampiros que estavam de serviço irem até os armários para pegar alvejante e abrindo torneiras nas pias enquanto outros apanhavam os esfregões.

O homem morto era alto e pesado. Como Katamori e Dahlia não tinham alturas muito diferentes, podiam dividir o peso igualmente, e eram ambos imensamente fortes, de modo que o peso de Arthur Allthorp não era um problema. Seu volume era. Eles carregaram o corpo através do jardim até a enorme fonte sóbria que jorrava no meio de um lago com água até a altura do joelho. A estátua no meio da fonte era de uma mulher em traje esvoaçante. Segurava um jarro inclinado, do qual caía água. Eles colocaram o corpo ao lado da fonte, distante da casa. Dahlia subiu na beirada larga da fonte e se esticou desajeitadamente para pegar uma chave nas dobras da roupa da estátua. Não estava na dobra habitual e ela ficou muito surpresa por um instante até sentir a beirada de metal na dobra seguinte. Todos os vampiros da casa conheciam a localização da chave e uma ou duas vezes ela havia sido colocada no lugar errado. Com uma enorme sensação de alívio, Dahlia desceu, um pouco molhada pela experiência.

Ela agachou para enfiar a chave na fechadura de um grande painel na base da fonte. O painel parecia projetado para dar acesso aos canos e ao mecanismo, mas os vampiros o haviam projetado para outra função. Embora aquele corpo fosse um pouco maior que os anteriores que haviam sido escondidos ali, e embora o buraco estivesse parcialmente obstruído, eles tinham de fazer com que desse certo. Dahlia chegou a rastejar para dentro do espaço de modo a puxar o corpo, enquanto Katamori permanecia do lado de fora para empurrar as pernas. Depois Dahlia precisou rastejar sobre o corpo, ficando ainda mais amassada e um pouco suja nesse processo.

Àquela altura, ela e Katamori podiam ouvir a polícia entrando na mansão. – Não posso ser vista assim – disse Dahlia incomodada, olhando para o vestido. – Então tire-o – disse Katamori, segurando aberto o painel de manutenção. – Tenho uma ideia. Quando a polícia saiu para vasculhar o jardim encontrou Katamori e Dahlia brincando inteiramente nus

na piscina. A visão os paralisou. Não apenas era outono e gelado, mas no jardim banhado pela lua Dahlia

era branca como mármore. – Totalmente – disse um dos policiais, impressionado. – E ele é só um pouco mais escuro. – Vocês precisavam falar conosco? – perguntou Dahlia, como se acabasse de percebê-los ali.

Katamori, atrás, a envolveu com os braços. – Espero que não – disse ele. – Temos outras coisas a fazer. – O frio não o afetou muito – murmurou o Policial Dois. Ele tentava desviar a atenção dos vampiros,

mas continuava disparando olhares na direção deles. Dahlia podia sentir o corpo de Katamori tremendo de diversão. Os humanos eram muito bobos em relação à nudez.

– Não, não, tudo bem com vocês. Nenhum corpo nesse lago? – perguntou o Policial Um, dando um largo sorriso.

– Apenas os nossos – disse Dahlia, tentando ronronar. Pareceu crível. – Provavelmente um trote – disse o Policial Um. – Desculpem ter interrompido sua noite. Teríamos

chegado aqui 20 minutos antes se não houvesse um acidente na nossa rampa de saída. Isso era interessante, mas eles tinham de continuar interpretando. – Vocês não estão atrapalhando nada – disse Katamori, inclinando a cabeça para beijar o pescoço de

Dahlia. – Vamos olhar nos arbustos – disse o Policial Dois, escandalizado, e os dois policiais vasculharam as

trilhas e olharam nos arbustos, tentando não acompanhar a atividade na água da fonte enquanto verificavam todos os lugares onde um corpo podia ser escondido.

Exceto o único lugar no qual ele estava. Mas trabalharam lentamente, porque continuavam se virando para olhar para Dahlia e Katamori, cuja

brincadeira passava de calorosa para ardente e fervente. – Meu Deus – disse o Policial Um. – Eles realmente... – Você sabia que eles podiam se mover tão rápido? – murmurou o Policial Dois. – Os peitos dela

sacodem como maracas! No momento em que os dois marcharam de volta para as portas duplas da mansão, os dois vampiros

estavam na beirada da fonte, as pernas de Katamori penduradas sobre a porta de manutenção, enquanto Dahlia se sentava em seu colo. Ambos pareciam satisfeitos e murmuravam um com o outro de modo amoroso.

Dahlia estava dizendo: – Estou renovada. Uma boa ideia, Katamori. – Gostei disso. Espero que possamos repetir. Mesmo aqui fora. Talvez sem uma plateia da próxima

vez. Havia quantos policiais lá dentro assistindo? – Pelo menos cinco, além dos dois aqui fora. Você viu o que eu encontrei no esconderijo? – Vi sim. Joaquin vai ficar contente conosco. Os humanos certamente partirão logo. Acho que fizemos

um excelente trabalho distraindo-os. Obrigado. – O prazer foi todo meu – disse Dahlia com sinceridade. Em meia hora o próprio Joaquin foi ao jardim para dizer a eles que a polícia partira. Ficou apenas um

pouco chocado ao encontrá-los ainda nus. – Fico contente de terem desfrutado da companhia um do outro – observou. – Tiveram alguma

dificuldade para esconder o corpo? – Deixe-me mostrar o que encontramos sob a fonte quando a abrimos – disse Dahlia, reabrindo o

painel para tirar um fardo de roupas. Não eram dela ou de Katamori. Ela sacudiu as peças e as segurou para que Joaquin visse. Ele ficou um longo momento em silêncio.

– Bem – concluiu. – Tudo resolvido, então. Levem-nas quando tiverem se arrumado. Mais tarde

mandarei Troy e Hazel se livrarem definitivamente do corpo. Lamento todo esse incidente. Para Dahlia, o novo xerife pareceu sincero. Ele se virou e entrou na mansão. Os dois vestiram suas roupas, embora Dahlia detestasse recolocar um vestido sujo. Havia sido um

risco deixar as roupas empilhadas junto à fonte, mas fora o toque certo. Katamori e Dahlia examinaram um ao outro para confirmar que estavam bem. Ela enfiou um pouco mais a camisa dele, ajeitando-a, e ele afivelou seus sapatos de saltos muito altos. Seguiram Joaquin de volta, passando pelas portas duplas brilhantemente iluminadas.

A multidão diminuíra. – Onde estão os demônios? – Dahlia perguntou a Taffy, sentada ao lado de Don em um sofá de dois

lugares. – Saíram depois da polícia – disse Taffy, passando os dedos pela sua enorme cabeleira. – Foram

espertos de partir enquanto ainda estava bom. – Não há nenhum mal nisso – disse Dahlia à amiga –, Diantha era a única envolvida e sabemos que ela

não fez isso. – Melponeus pareceu lamentar partir sem vê-la novamente – acrescentou Taffy com malícia. – Ele deu

uma espiada pela janela quando a polícia pareceu muito interessada no jardim. Acho que isso despertou algumas lembranças de que gostou muito.

– Você pegou o demônio? – perguntou Katamori, intrigado. – Sim – disse Dahlia. – O calor e a textura da pele tornaram a experiência muito interessante. Nada

comparado a você, claro. Dahlia sabia ser educada quando era importante. Joaquin e seus guarda-costas esperavam que Dahlia e Katamori apresentassem as descobertas. Todos

os vampiros de Rhodes se reuniram quando eles entraram. Joaquin, que voltara a ocupar seu lugar na enorme cadeira, esperava impassível pelo relatório. Cedric continuava a beber Red Stuff e parecia ainda mais infeliz, e Glenda, completamente curada, olhou furiosa para Dahlia. Mas eles se juntaram aos outros no grupo. Até mesmo Don e seu executor se levantaram para se reunir à multidão quando Taffy o fez.

– Aquela foi uma excelente estratégia para distrair a polícia – disse Joaquin. – Agora nos conte o que descobriram.

– Encontramos uma trouxa de roupas ensanguentadas escondidas na base da fonte – disse Dahlia, e uma excitação percorreu a multidão. – Se não tivéssemos de esconder o corpo, se ninguém tivesse chamado a polícia, poderíamos não encontrá-la nunca. Como o assassino de Arthur Allthorp foi quem chamou a polícia esperando colocar o ninho em apuros, pode-se dizer que ele deu um tiro no próprio pé.

Joaquin ergueu a trouxa ensanguentada. O cheiro era realmente forte e os lábios superiores dos lobisomens se ergueram em um esgar de desgosto. Até mesmo lobisomens gostavam de seu sangue fresco. Joaquin, com certa dose de dramaticidade, esticou os trajes, um a um.

– Cedric, acredito que sejam seus – anunciou. – Isso não é verdade – disse Cedric calmamente. Ele passou uma mão pelo peito. – Alguém está

querendo me incriminar. Eu estou vestindo estes a noite toda. – Não exatamente – retrucou Dahlia. – As flores de seu colete eram douradas no começo da noite.

Depois da morte do humano as flores eram azuis. Ela estava quase triste de ter de dizer as palavras, mas o despeito de Cedric quase condenara todo o

ninho a horas na delegacia, dias de ataques na imprensa e o fim do regime de Joaquin antes mesmo de começar.

– As roupas que você veste agora são aquelas que usa quando faz jardinagem, as roupas que deixa penduradas num gancho do lado de fora. Inclusive as botas.

Todos baixaram os olhos para as botas sujas. Certamente não eram calçados que alguém escolheria para usar em uma recepção, nem mesmo Cedric.

Por um segundo o medo passou por seus olhos azuis. Apenas por um segundo. Cedric então atacou Dahlia, um guincho selvagem saindo de seus lábios.

Ela esperava por isso havia dois segundos. Deu um passo para a esquerda mais rapidamente que o olho podia acompanhar, agarrou o braço direito de Cedric quando este passou, torceu-o para cima em um ângulo dolorido e, quando Cedric gritou, ela agarrou sua cabeça e lhe torceu o pescoço.

A cabeça de Cedric foi arrancada. Houve silêncio por um momento. – Lamento – disse ela a Joaquin. – Eu não pretendia decapitá-lo. A confusão... – Ele irá virar poeira, e pegaremos o aspirador de pó – disse Joaquin com algo bastante parecido com

calma. Antes de sua ascensão a xerife, Joaquin trabalhara com eliminação de corpos, recordou Dahlia. – Caso a sujeira não saia do tapete, compraremos outro.

Aquilo era algo que Cedric nunca teria dito, e Dahlia brilhou. – Obrigada, xerife. Ele quase me surpreendeu – respondeu, e mal acreditando nas palavras que saíam

de sua boca. Talvez ela fosse sentir mais falta de Cedric do que imaginava. – Quando os humanos atacam a polícia para levar um tiro, chamam a isso de “suicídio por policial” –

explicou Katamori, se curvando à sua nova amiga. Depois acrescentou em um galanteio: – Chamaremos a isso de “Morte por Dahlia”.

comentários (0)
Até o momento nenhum comentário
Seja o primeiro a comentar!
Esta é apenas uma pré-visualização
3 shown on 362 pages
baixar o documento