Tácito-Flavio Josefo- Lorenzo Valla, Notas de estudo de História
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Tácito-Flavio Josefo- Lorenzo Valla, Notas de estudo de História

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Públio (Gaio) Cornélio Tácito (56 d.C Juliana Bastos Marques* .=120 d.C) 1 O historiador e o seu tempo Tácito foi o maior historiador do mundo romano. A afirmação é consenso entre a maioria dos estudiosos em História, Filologia e Política que tenham lido suas obras. É também talvez o autor latino de linguagem mais complexa e sofisticada, o que demanda do leitor do texto origi- nal um conhecimento profundo de latim e do tradutor a missão quase impossível de reproduzir um imenso espectro de sutilezas, ironias e análises altamente perspicazes da realidade humana. Os temas da obra de Tácito se revelaram universais € transcenderam seu tempo: a liberdade de expressão ea tirania quea oprime. Se por tantos séculos a História tevê como principal objetivo Tornecer exemplos de vida a imitar eu evitar, como anunciado desde Hefódoro, o objetivo de Tá- “cito é apresentado de maneira categórica: como se portar e manter a virtude sob o govertio dos tiranos? Este for úm dilema que o próprio historiador vivenciou com 6 Imperador Domiciano é que transparece nas ações de dezenas de seus personagens, sejam cles Senadores proeminentes ou reles escravas torturadas pelos crimes de scus senhores. As questões levantadas por sua obra responderam de uma forma ou de outra aos dilemas dos diversos momentos políticos dos auto- res que o tiveram como influência, desde o Renascimento até os dias de hoje, e é por isso que a, to continua tão fiva agora como o foi em seus próprios dias! 1% pertinência de obra de Tá Em uma de suas cartas, Plínio o Jovem escreveu para seu amigo e colega de Senado dizendo “suas histórias serão imortais” (Epístolas, 7, 33). Porém, por motivos que não conhecemos, as obras de Tácito quase caíram no esquecimento apés o século II d.C. Quase nenhum historiador roimano posterior o menciona diretamente”, e autores cristãos é judeus dos séculos seguintes o condenara pelasua postura hostil a es iversidad cimentirestEna biografia do Imperador Táciti(275-276); parte do conjunto de breves biografias de imperadores da Ilistória Augusta: um dos primeiros decretos do novo imperador, que se apre- sentava como descendente do historiador, foi ordenar a confecção de novas cópias para que “sua abra não se perdesse por causa da negligência dos leitores” (SHA, 10.3). Durante o período medieval, gir no século IX, vindo do mosteiro de Hersfeld, o primeiro dos manuscritos que chegaram até praticamente não se tem notícia da leitura de Tácito, até sur- “uma parte do Agrícola. Chega a ser irônico que obras de tamanho impacto para o pensa- mento ocidental como as Ffiitórias e os Anais tenham vindo de apenas dois manuscritos: no pró- prio século IX surge o manuscrito dos livros Ta VI dos Anais em Fulda, na Alemanha, conheci ão como Codex Mediceus 1, e na segunda metade do século XI aparece o Codex Mediceus 1] vo mosteiro beneditino de Monte Cassino, na Trália, contendo o resto dos Anais cos livros Ta V das Histórias. Dada essa situação, o estado dos textos de Tácito é emblemático da dificuldade de lei- tura e interpretação do que sobreviveu do mundo antigo: sem outros manuscritos para compa- ração, os compiladores dos manuscritos se viram sem referências para trechos confusos ou des- das dúvidas de interpretação eração Beni imiídos do texto — e muit: ns es udos tacitianos se devem a essas dificuldades até agora insolúveis. ú RAS Não se sabe exatamente as datas de nascimento e morte de Tácito, e as conjecturas a respeito desua carreira são baseadas em alguns poucos indícios em seu texto é outras esparsas ocorrências Plínio o Velho cita na sua História Natural um certo Cornélio Tácito, da ordem equestre, que arua- va como procurador na Gália Bélgica; como o nome é incomum, acredita-se que seja provavel- mente o pai do historiador. Essa evidênçia, combinada com 9 tom moralizante típico dos “ho- mens novos” das províncias que vemos no texto de Tácito, aponta que seu local de nascimento deveter sido fora da cidade de Roma, inuito provavelmente na Gália Narbonense ou Cisalpina. Essas regiões, entre o norte da Itália e o sul da França, já cram de colonização romana antiga consolidada na época de Tácito, e os autores provenientes dessas províncias - ou mesmo do nor- te da Itália, como no caso de Plínio o Jovem — apresentam a ideia em comum de que a valorização dos costumes romanos antigos se mantinha mais preservada entre eles do que entre a dissoluta aristocracia oriunda da capital”. “Tácito afirma (Anais, XI, 11) que em 88, durante 6 principado de Domiciano, foi responsá- vel pela organização dos Jogos Seculares enquanto pretor e quindecênviro, sendo este um cargo religioso que configurava alta honraria na carreira pública. À partir disso, bascando-se no típico cxrsus honorum de um senador romano, ou seja, é sequência padrão de cargos públicos que um se- Verva, em 97. Ao creditar dos Flávios seu súbesso na vidá pública, Tácito se VE násiecessidade de professar ex- de fato, admito que minha carreira (dignitas) começou ento: plicitamente por que deverá ser i sob Vespasiano, cresceu com Tito e com Domiciano se desenvolveu mais ainda. Mas todo aque- fidelidade incorrupta deve falar sem amor nem ódio” (Histórias 1, 1). Ou sejáço le que profe: historiador não pode se mostrar ingrato ou injusto ao criticar os imperadores que o favoreceram, mas ao mesmo tempo deve também dizer a verdade. A questão se coloca sobre qual seria a me- lhor nianeira de se comportar sob os tiranos: com servidão e covardia, óu com rebeldia eimpro- pricdade? Sobreviver a uma tirania demonstra virtude e mérito ou revela a inevitável, mas in- digna subordinação dos sobreviventes? Sabemos mais alguns poucos detalhes sobre a carreira de Tácito através de outras fontes. Uma carta de Plínio o Jovem revela que o historiador conquistou renome em Roma pelas suas habilidades oratórias no funeral de Vexgínio Rufo enquanto era cônsul (Epístolas, IL, 1) e outra trata do caso contra Mário Prisco, procônsul da Ásia, em que Tácito atuou junto com Plínio. Uma inscrição com data posterior (112 ou 113) revela que o próprio Tácito também se tornou procônsul da Ásia, uni dos cargos mais prestigiosos do fim da carreira senatorial. É possível que tenha vivido até os primeiros anos do principado de Adriano, mas tal interpretação é baseada apenas em conjecturas indiretas nos últimos livros dos Anais. Esses detalhes da carreira de Tácito nos ajudam a compreender muitas das nuances de seu texto e sua opinião perante a situação política do principado. Tácito começou a escrever e publi- car suas obras apenas após a morte de Domiciano, afirmando que só com Nerva e Trajano se te- viá finalmente a “rara felicidade de uma época na qual podemos pensar o que queremos e dizer o que pensamos” (Histórias I, 1). Segundo afirma no prefácio de sua primeira obra, a biografia de Júlio Agrícola, “o Imperador Nerva reuniu duas coisas antes incompatíveis, o principado e a li- berdade” (3, 1) - otimismo tal que fez Tácito prometer que escreveria em seguida sobre esses “bons” imperadores. No entanto, cle nunca cumpriu sua promessa: preferiu escrever sobre a di- nastia Flávia ea guerra civil que a precedeu (Histórias) e depois retrocedeu mais uma vezno tem- pô para explicar as raízes do principado através do período dos imperadores Jálio-Cláudio: (Anais). Os estudos tacitianos têm mantido a pergunta: teria Tácito se desiludido com Nerva, “Trajano (e talvez Adriano), percebendo que a liberdade de expressão dos senadores propagandea- ica do que real? Teria sido então para ele im- da até por esses “bons” imperadores seria mais verá possível escrever sobre seu próprio tempo, pois o modelo da autocracia do principado inviabil” zaria a crítica contemporênca? Em última instância, seria de fato possível um “bom imperado dado que o principado por si só já pressupõe a tirania? aa Asobras menores de Tácito, publicadas antes de suas obras históricas e entre 98 e provavel- mente 102, oferecem os primeiros indícios dessas questões. Sua primeira obra, publicada logo após o assassinato de Domiciano ca ascensão de Nerva, é o Agrícola, misto de biografia, elogia lau- a obra E narrar a vi datória, história e até mesmo etnografia. O propósito ce da carreira foram as istas milit: —blica, No entanto, a questão final é clar vernador na Britânia. Boa parte do texto vaialém dos elementos biográficos, narrando os acori- tecimentos da província, exercendo as tradicionais regras da retórica latina através de pares de discursos e caracterizando também os povos da região, sendo que neste último sentido a obra é uma referência crucial para os estudos sobre a Grá-Bretanha na Antiguidade. Agrícola conse- guiu apaziguar as revoltas das tribos locais e conquistou toda a ilha, subjugando os belicosos po- vos da Caledônia (Escócia). No entanto, segundo Tácito, as conquistas militares € a administra- ção exemplar do sogro teriam talvez trazido 1 inveja a Domiciano e o temor de que homens mais virtãOSas SE Sobressáíssem, ainda mais considerando-se à atuação pífia do imperador como ge- feral na Dácia. Essa sutil dúvida sobre a motivação de Domiciano é crucial para a complexidade da retórica tacitiana: o que é declarado com certeza é que, sendo por isso ou por razões mais neu- ssas, Agricola foi chamado de volta a Roma pelo imperadoz e forçado a se afastar da carreira pá Saibam aqueles cujo costume é admirar o ilícito que podem existir grandes homens até mesmo sob maus imperadores, e que à obediência c a modéstia, se conjugadas ao engestho e ao vigor, podem chegar ao mesmo nível de reconhecimento que muitos conquistaram por caminhos perigosos, pois que se tornaram famosos por uma mor- te ostentosa que nada acrescentou ao Estado (Agrícola, 42). No mesmo ano de 98, mas já após a morte de Nerva e a ascensão de Trajano, é também pu- blicado o Germânia, um tratado etnográfico sobre a região dividido em duas partes: a primeira trata dos costumes dos povos germânicos, compurados com os dos romanos, e a segunda é uma descrição geográfica dos diferentes povos da região. A princípio, Tácito parece ter como prinei- » a . pi a do, pois catacteriza os germanos como puros, im corruptos e livres do comportamento dissoluto e desgenorado de Roma, quase como figuras idcalizadus, “bons bárbaros”, Porém, como tudo o que Tácito escréve mostra sutilezas dos dois lados do argumento, nem sempre seus germanos são tão puros, pois revelam a barbárie em muitos de seus costumes. Como todo tratado etnográfico da Antiguidade, o texto segue a regra de apresentar as características geográficas das regiões, segui- das da descrição das instinuiçõés e dos costumes da vida chtidiând, pomio o casamento, juntamente com o valor descritivo da segunda parte da obra, o Germânia tem sido uma obra alta- mente importante na Alemanha, não só pelo estudo das tribos do passado como também até mesmo para os discursos sobre pureza e superioridade da raça nos séculos XIX e XX"; atéhojeo Germânia é utilizado como texto padrão para o aprendizado do latim nas escolas alemãs. O outro principal ponto que os estados tacitianos ressaltam sobre a obra é a reflexão no pa- zágrafo 33 sobre u força e a fraqueza dos germanos, quase prevendo que esse será o fator crucial do ocaso do Império Romano: “Oxafá permaneça e endureça entre os povos se não o amor por nós, pras menos o ódio entre não pode , pois, enquanto urge o destino do Rn a fortur ”, Seria essa uma ilustração do sia de Tó cito quanto a êestino « imperador era um-gencral- vitorioso contra os bárbaros, e o governo parecia prenunciar uma re- 26 parágratos do livro V, trecho com uma característica única na historiografia antiga, já que tomada dos virtuosos costumes ancestrais, tal como Tácito afirma no Agrícola. Nesse sentido, o apresenta um período muito curto, de menos de dois anos. O relato do ano da guerra civil, ou Germânia funcionaria como um paníleto político para a expansão do império, que seria posta em “dos quatro imperadores” e do princípio do ano seguinte oferoce um ritmo denso e acelerado, prática por Trajano nos anos seguintes. De fato, como tantas outras questões em Tácito, esta com detalhes altamente precisos e fatos se sucedendo em dias ou às vezes em horas. ainda segue inconclusiva. Após o prefácio, que examinaremos adiante, Tácito começa a narrativa de uma maneira a Passados alguns anos, Tácito publica uma obra de formato muito diferente, o Diálogo dos princípio um tanto incomum. Em 68, o exército de Júlio Víndice na Gália havia-se revoltado oradores. Não sabemos a data precisa da publicação, que parece ter sido eim alguma data entre 102 contra Nero e esté, desesperado, comete stricídio antes mesmo da vitória de suas tropas contraos é 107, e por muito tempo o próprio estilo do texto fez com que os estudiosos acreditassem que insurgentes. No entanto, com o imperador morto e sem herdeiros, o caos se instaura elogoaste. não se tratava de uma obra escrita por elcº. O texto é um diálogo escrito no estilo ciceroniano, giões de Sérvio Galba na Hispânia declaram-no o novo governante do império. Galba marcha + com sintaxe e vocabulário muito distintos das formas típicas tacitianas, reconstitui uma dis- com seu exército para a capital e coriclui o ano como imperador, não sem enfrentar forte aposi- cussão que Tácito afirma ter testemunhado em sua juventude entre quatro personagens, todos são em grupos políticos de Roma. É exatimente com esse estado dé coisas, já no burbuzinho do Teais, a respeito da decadência da oratória depois do fim da República. A posição do próprio au- golpe que irá assassinar Galba, que Tácito abresua n. ara tiva, no primeiro dia de janeiro de69.A tor sobre o tema não está explícita, mas geralmente se assume que o argumento de Curiácio Ma- escolha da data não está relacionada à narrativa em si, mas é sim um indicador do formato espe- Terno seja correspondente ao seu próprio: a oratória havia atingido seu ápice durante as guerras cífico em termos de gênero literário que a historiografia assumiu no mundo romano. Conscr- civis da República porque a habilidade de convencimento das multidões era crucial para defen- ando os princípios do modelo grego, com busca pela verdade e da confrontação de testemu- | der as ideias das diferentes correntes políticas, mas com a calmaria do principado, em que todas nhos diretos é indireros que dessem verossimilhança à narrativa, a historiografia romana se ba- SS as decisões eram tomadas pelo imperador, não haveria mais sentido ou necessidade para gran- seava também no fórmato dos registros feitos pelos pontífices que citavam os acontecimentos j des oradores. No entanto, esse argumento está em contradição com toda a carreira do próprio “mó á'ano começando com a eleição dos cônsnles e magistrados — formaro esse conhecido, por- * Tácito que, como vimos, teve como maior marco de distinção exatamente sua habilidade orató- tanto, como analístico. É ria. O que torna o Diálogo dos gradores um texto tão complexo é exatamente que a resposta de Ma- Logo nos primeiros parágrafos, Tácito apresenta os grandes fracassos de Galba como im- terno para 0 problema da oratória não é a palavra final, Eos argumentos contrários apontados perador: seu caráter austero,e sua disciplina férrea não combinavam mais com o mundo disso- Pelos outros personagens também aparecem como explicações plausíveis. Sendo assim, resta a luto a que Nero havia acostumado a cidade, e a escolha de seu protegido Pisão como sucessor Tácito buscar as raízes do presente não mais em questões pontuais, mas sim na análise dos de: também não cativou o exército e os grupos políticos mais influentes do Senado. É interessante — senvolvimentos políticos do passado c na escrita da história propriamente dita. apontar um paradoxo da cgracterização tacitiana de Galba, que o autor considera como ho- mem “capaz de governar, se apenas não tivesse governado” - construção estilística esta típica RR Ê de seu texto. Tácito atribuia Galba um longo discurso ao apresentar seu sucessor às tropas, e 2 Percursos historiográficos U Ed uai esa E piso E as ideias que defende são emblemáticas da importância da escolha do homem mais capaz, e : se não da continuidade de uma dinastia como no caso dos Júlio-Cláudios e dos Flávios. Nesse As Histórias e os Anais passaram para & posteridade como duas partes de uma obra única: São Jerônimo afirma que a obra de Tácito perfazia 30 livros. Os títulos que usamos não são os originais - dos quais não se tem registro - começaram a ser usados durante o Renascimento a . À divisão tradicio- sentido, os argumentos de Galba podem muito bem ter ecoado os apresentados por Nerva na escolha de Trajano. Porém, o fato do próprio Galba não ser um exemplo virtuoso assim como Nerva mostra muito bem como Tácito se recusa a criar personagens unidimensionais, vilões partir das descrições que constavam nos inícios dos manuscritos medieva nal entre as duas obras admite 14 livros para as Elistórias é 16 para os Anais, embora a teoria pro- posta por Sir Ronald. Sy que ame bos os livros foram planejados e distribuídos em grupos de seis (bêxades); um bloco para Vespa- ão de jus seu ou heróis absolutos. Muito o tem-se procurado entre os estudiosos ler a erdadeira” opi Tácito dentro dos seus s disçurs € caracterizações ao longo dos textos, mas o faro é irundo domínio dos artifícios reróricos eu prefinado e extenso da ironia trazem também aqui. de e 18 livros, respectivamente, Essa teuriwdciend diversas complicações interpretativas. s, para Tibério, Calígula me siano e ottiro para Tito e Domiciano nas Histórias e três blocos nos 47 E ra Galba logo é assassinado pelos partidários de Oto, um antigo amigo Rue te Nero que havia re- e Cláudio, e Nero q deumo nem período como governador na Las 2 poncos meses de domínio sobre o império, co fim do principado de De m hoje os q O io declaram guerra mais imirvez: Oto é para Tácito um exemplo de homem de-caráter dissoluto que se reabilita no último instante de vida, pois resolve se matar no acampamento antes da pri- meira batalha de Bedriaco contra as forças de Vitélio, sacrificando-se para evitar 0 prolonga- mento da guerra fratricida entre os romanos. À guerra, tal como apresenta o historiador, a mais indigna de todas (JL, 38): enquanto os soldados dos tempos antigos da república lutavam entre si para defender a liberdade em nome de grandes homens, não há virtude alguma em lutar por Oto ou por Vitélio, homens degenerados que só trazem ignomínia para o império. A vitória das tropas vitelianas assinala a ascensão da figura mais baixa c degenerada dentre os imperadores caracterizados por 'Lácito. Apesar da sua origem nobre, filho de um distinto se- nador, Vitélio aparece no texto como um homem incapaz de se ocupar com algo mais do que co- mida e bebida, um nome qualquer elevado ao posto de imperador apenas para impor a suprema- cia das tropas germânicas de seus generais, Cecina e Valente — estes dois sim os personagens re- almente atuantes no campo de batalha. É com Vitélio que Tácito utiliza um dos seus mais reve- ladores recursos retóricos, ainda que seja, como sempre. algo muito sutik: o imperador não tem Y Yoz própria no texto, não tem discurso algum ou qualquer expressão.verbal de sja vontade ou ' opinião - quem fala por ele são seus generais e às vezes grupos anônimos de partidários. O mes- cu usado 's perso- mo recurso será usado, em menor escala para Nero nos Anais, para que a construção de: nagens revele sua fraqueza de caráter e ausência de virmdes.. ” Asgrandes baralhas pelo controle de Roma terminam com o livro HIT, no qual Vitélio émor- to de maneira absolutamente indigna, capturado em trapos, linchado e jogado ro Rio Tibre. Vespasiano, o grande rejlentor do império, já havia aberto o livro II com sinais de que o triunto estaria logo por vir, fosse por conta do sucesso estratégico de seus partidários, pelo destino que 405 deuses teriam determinado ou mesmo porque cle próprio acreditava cada vez mais nessa |! mensagem da fortuna. Vespasiano e seu filho Tito estão na Judeia, contendo a revolra que se ini- ; f cia em 66 é que em 70 culminará na ocupação total de Jerusalém pelos romanos e na destruição | “Gitos comandados pelos seus generais, Licínio Muciano e Antônio Primo, personagens que irão fazer um contraponto com os generais de Vitélio até os últimos momentos da guerra civil. É no livro HI que o estado das coisas em Roma chega a seu ponto mais grave, que é simboli- ade retórica de Tácito chega a seu zado pela destruição e incêndio do Capitólio. Aqui a habil auge: os exércitos estão fora de controle, o povo romano perde totalmente a dignidade e assiste imbolo máximo da grandeza de Roma, lugar os combates como se fosse entretenimento, e o mais sagrado de todos, arde em chamas por conta do descaso com o bem comum e a ambição sresloucada. A passagem reproduzida em seguida, do parágrafo 72, é emblemática da importên- jo momento, pois “Tácito personifica o Capitólio e lhe dedica um obituário tal como para to- outros personagens principais: + ==5-0s auspícios por nossos ancestrais como un símbolo do império =que nem Porsena, quando a cidade se rendeu a cle, nem os gauleses, quando a capruraram, consegui- destruído pela fária dos imperadores. O Capitólio havia sim ardido antes, na guerra civil, mas por crime privado. Agora, era publicamente assaltado, publicamente queimado, e por quais bélicas razões? Qual foi o preço pago por tal desastre? Enquanto lutamos por nossa pátria, ele esteve intacto. O Rei Tarquínio Prisco o consagrou na guerra contra os sabinos é lançou suas fundações mais para a esperança de uma grandeza futura do que pelos recursos, ainda modestos, do povo romano. Depois, Sérvio Túlio o erigiu com a ajuda dos aliados, e ainda Tar- quínio, o Soberbo, o complementou com o espólio dos inimigos na captura de Snes- a Pomécia, Mas a glória de completar a obra estava reservada para a liberdade: de- pois da expulsão dos reis, Horácio Pulvilo a dedicou no seu segundo consulado, e sua magnificência era tão grande que as riquezas adquiridas posteriormente pelo povo romano mais adornaram do que aumentaram seu esplendor. O templo foi re- construído no mesmo lugar depois de um intervalo de quatrocentos é cinquenta anos, após ter sido incendiado durante o consulado de Lúcio Cipião e Caio Norba- no. O vitorioso Sila se encarregou do trabalho, mas ainda não o dedicou: esta foi a única felicidade que lhe foi negada. O nome de Lúcio Catulo [que dedicou o templo em 69 2.C,] foi mantido entre todas as obras dos Césares, até os tempos de Virélio. Eis o templo que foi eremado. ram violar— A paz interna finalmente volta no livro IV, que assinala o início da reconstrução física emoral do império — é nesse sentido que se explica a presença bem mais expressiva de debates senatoriais e casos jurídicos. No entanto. Tácito aguarda o fim do relato da guerra civil para narrar a gravere- volta dos poros gauleses sob o comando de Túlio Civilis, líder local que havia servido no exército 1omano. Essa revolta começou sinda pequena, no fim do principado de Nero, mas acabou toman- do grandes proporções com o desequilíbrio político da guerra civil c.com as sucessivas derrotas militares romanas perante os gauleses. Seu elímas, no fim do livro, se dá com a vitória do General Petílio Cerialis e funciona como uma préria da vitória de Tito sobre os judeus, que se daria no li- antes da batalha final contra Civilis é tido como um dos textos mais emblemáticos jamais escritos no mundo antigo na defesa dos bene- vro seguinte. O discurso de Petílio Cerialis aos povos locai: fícios do imperialismo romano, contribuindo para gerar um vasto corpus de estudos sobre o assun- to que se relaciona também com as formas mais modernas de imperialismo”. Sempre houve na Gália déspotas e guerras até que ela passou ao nosso controle. Nós, apesar de tantas provocações, impusemos a vós pelo direito da conquista apenas o farda necessário para a manutenção da paz. À tranquilidade das nações não pode ser preservada sem exércitos, nem os exércitos sem pagamento, nem pagamento sem VÓS mesmos muitas vezes comandais nossas legiões, e — não há segregação ou exelasão. Os imperadores benquistos vus beneficiam assim como 4 nós, embora viveis tão longe, mas os tiranos forçam sua vontade apenas aos mais próximos. [..] Pela boa fortuna e disciplina de vitocentos anos a trama do império re; impostos, “Tudo o mais é dividido igualmente entre nós, governais estas e outras províre: ode ser destruído sem condenar também aqueles q dado, e elo não Mas vossa situação será mais perigosa, pois tendes as riquezas e recuz: dores e conquistados, demendamos direitos iguais ra rebelião & à cidade onde nós, congui Aprendam as lições da fortuna em ambas as suas formas para não prefe ca ruína à submissão e à segurança, Embora não tenhamos o texto das Histórias além do início do livro V, podemos ter uma ideia do que esperar dos trechos perdidos a partir do que Tácito relata no prefácio. É também ali, con- forme as regras da tradição historiográfica antiga, que cle apr senta uma interpretação mais am- pla da história de Roma e principalmente os motivos profundos que eh sua opinião ajudaram a moldar a situação política do império em seus próprios dias. Sendo assim, embora o prefácio in- teiro seja muito extenso para ser citado na íntegra, é fundamental analisar suas características principais. O texto que abre o prefácio trata especificamente do que os historiadores produziram no passado sobre a história romana. Segundo Tácito, nos 820 anos desde a fundação de Roma, os re- atos se dividem em três períodos, O primeiro era a República, quando se podia escrever “com iguais cloquéncia e liberdade”, Como o autor cessa rapidamente as menções sobre esse período, tudo o que se segue de Augusto a Domiciano pode ser interpretado logicamente como sendo seu oposto- ou seja, não há mais obras de mérito e muito menos liberdade para escrevê-tas. Quais as razões para que isso tivesse acontecido? Em um primeiro momento, como afirma o prefácio, pela falta de consciência da nova realidade política do Principado, e depois pela adulação irres- trita ou pelo ódio. O terceiro momento, em quese encontra o antor seria a superação da necessi- dade de adulação ou ódio e a retomada das “iguais eloquência e liberdade” de antes, o período de liberdade atual. Portanto, Tácito delineia um esquema cíclico na história romana, sinda que partindo da historiografia: 1) República (bom); 2) Augusto a Domiciano (ruim); 3) Nerva e Tra- jano (tempo presente — bom). pasado de dr io a ai SE O que é interessante notar é que a lecadência da historiografia romana é para Tácito rever- sível, já que ele anuncia que retomará os padrões antigos de mérito do trabalho do historiador. Isso também significa que não é o Principado em si como sistema político que determina essa decadência, mas sim a postura dos historiadores no seu primeiro momento, ou seja, até Domici- ano, que não compreenderam ou aceitaram a verdadeira satureza da nova situação e se compor- taram inadequadamente (sem eloquência), aliado ao fato de serem governados por imperadores que tolacram sua possibilidade de legítima expressão (sem liberdade). A segunda parte do prefácio, nos parágrafos 2 e 3, se dedica a apresentar 0 tema que será de- senvolvido e inuhcia a situação em que se encontra o tempo inicial narrado (o ano de 69), 0 que o es imporrância da obra. O formalmente éum topos destinado aju primeiro dos parágrafos descrey ocorreram não só através das diversas pério, zas províncias e depois na Itália e em Roma. Et pela sério dE Colapos sem guorras € revoltas, em particular a civil, mas especial ia a ocorrén: acontecimentos são a erupção do Vesúvio, com o desaparecimento de Pompeia é Herculano,e o incêndio do Capitólio, qi; embora já tivesse sido atacado em épocas anteriores, nunca antes fora alvo da fúria caótica, desordenada e insana dos próprios cidadãos romanos. À seguir, ele descreve genericamente exemplos da degradação moral nas províncias, e atrocidades antes im- pensáveis em Roma, com todo tipo de crime, traição e corrupção superando a prática da virtude, Apesar disso há esperança, pois a virtude não se extinguiu de todo. As primeiras menções de Tácito são relativas a indivíduos de status inferior e/ou determinadas por relações de parentesco , parentes, escravos). Apenas depois aparecem os cidadãos eminentes, cuja digni- (mães, espos dade se mostra principalmente em sua morte, não nos atos em vida, aproximando-se assim da glória dos antepassados. Sua conclusão é bastante curiosa c aparentemente pessimista, pois ele afirma que nem qualquer tipo de premonição, positiva ou negativa, foi mais indicadora dos de- sastres do que a própria atitude moralmente degencrada do povo romano: R Ao Jado das mais diversas calamidades que se abateram sobrea humanidade, prodf- gios ocorreram no céu e na terra, avisos dados pelos raios, profecias sobre o futuro, felizes ou tristes, duvidosas ou claras, Pois nunca antes foi tão evidentemente prova- do por catástrofes terríveis para o novo tomano cu par claros sinais que os deuses não se importam com a nossa segurança, mas sim com nosso castigo. Essa menção sobre o papel dos deuses! também traz outros elementos para a análise. Em primeiro Ingax, ele se afasta da tradição consolidada de que Roma era protegida pelo favor divi- no, co sentido de inevitabilidade é marcante, Este é um dos elementos mais claros que demons- tram seu ceticismo em relação à religião, pois memva punição dos deuses é tão ou mais, determi- nante do que o movimento inexorável de decadência provocado pelos próprios indivíduos - como, por exemplo, no caso dos próprios imperadores Galba, Oto e Vitélio. E No tgreeito e último bloco do prefácio (4-11), Tácito descreve a situação da capital e das províncias quando do início do ano de 69, justificando o contexto do conflito inicial da obra. Tanto em:Roma quanto em todos os outros lugares sobre os quais trata, o foco principal da aten- ção de Tácito será o clima no exército e a comparação das forças políticas e de manobra de seus principais comandantes. Assim, junto a um breve excurso sobre as diferentes reações na capital perante 2 morte de Nero, ele enuncia o tema que irá determinar, explícita ou implicitamente, todu a situação política do império no decorrer da narrativa: o fundamento militar do sistema do Principado: “o segredo do império havia agora sido revelado, que um imperador podia ser feiro fora de Roma”. O significado da frase é claro: em primeiro lugar, qualquer um poderia ser impera- dor, não mais havendo « ilusão de que uma determinada dinastia, a dos descendentes de Augus- to, m disso, poderia quer um fora de Roma; ou seja, homens novos das províncias, perenus como Vespasiano tam- bém tinham suas chances, desde que - em segundo lugar controlassem o exército mais podero- so. à legitimidade do poder não sra derer= ontade do Senado, d guidade das magistraru pública. :, iambém se cevelazam m deterinigantes do que as das províncias distantes, como u Germânia, Panônia ou Judeia. Eram os primeiros indícios do que chegaria ao cúmulo na crise militar do século II. Com a escrita dos Anais, a promessa de escrever sobre os tempos de Nexva e Trajano dá lu- gar a outra preocupação, que pode ter surgido exatamente das reflexões sobre a siruação política do impéxio nas Flistórias, culminando na tirania de Domiciano. Como se configuram os meca- nismos de funcionamento do principado, desde seu estabelecimento por Augusto? Daí aparece uma questão muito debatida nos estudos tacitianos no século XX, rélacionada com o tema que vimos no Diálogo dos oradores, que procura estabelecer se Tácito teria sido um pessimista em re- lação ao principado e nostálgico dos anos da República. Porém, estudos mais recentes têm pro- curado interpretar a análise ferrenhamente crítica do autor através dos artifícios retóricos am- plamente utilizados na historiografia romana, indicando que a sua conformidade com a situação política não é necessariamente contraditória em relação às críticas, e que as guerras civis no fim da República também não significavam para ele um período ideal para o Estado. 3 Conceito-chave Os Anais representam o ápice da obra de Tácito e são talvez o texto mais emblemático de toda a historiografia romana. Também dessa obra temos apenas blocos de fragmentos, que tota- lizam provavelmente pouco mais do que à metade do texto original. Os livros que sobreviveram xão do 1 ao começo do Y e parte do livro VI, narrando a morte de Augusto e o principado de Ti- bério, recomeçando com a segunda parte do livro XI até talveZa metade do XVI, narrando dos últimos anos de Cláudio até 66, 0 que abarca quase todo o período de Nero. Após o prefécio, Tá- cito escolhe para o início do seu relato os últimos momentos de Augusto, um ponto que revelaa grande importância para ele dos mecunismos de sucessão do ptincipado como objetivo da obra, mais do que apenas à narrativa dos governos dos imperadores em si. A sucessão de Augusto por Tibério, incerta pela nebulosidade dos critérios de escolha, consolida pacificamente o novo sis- tema político, apenas porque “a nova geração havia nascido após a vitória em Ácio [31 a.C.], eaté muitos dos homens mais velhos haviam nascido durante as guerras civis. Quão poucos então (L, 3). Aliada ao esquecimento, vemos no ainda restavam dos que haviam visto a Repúblic: texto a necessidade de sobrevivência da aristocracia que se convertia rapidamente na adulação escancarada tão condenada por Tácito é desprezada pelo próprio Tibério. o assassinato de Agripa e a sub- A ascensão de Tibério consolida essas características, com da vez maior do Senado, mes apesar da mamiténcão das aparências constitucionais missão em que o novo imperador insiste a princípio. De certa forma, tal estado das coisas é também ca- ractorísrico da guerra civil, com a diferença fundamental que no Principado estabelece-se a ar- demea paz. No entanto, os mecanismos de garantia do poder, através da coerção e da violência, mbição pessoal, e estarão rados pela g: são essencialmente os mesmos, poi RR cisões são agorá tri feridas do domínio público para a esfera privada, a dos rumores e maqui- nações da corte real, e o texto enfatizará daqui em diante tal paradoxo ao se focar em primeiro plano no ambiente privado dos Jálio-Cláudios, tornado público. Assim, enquanto que nos primeiros livros das Histórias o que se destaca é a desenfreada su- cessão de fatos, a grande característica da narrativa nos Anais é a construção de personagens: Tibério é considerado o mais complexo personagem da historiografia antiga, talvez de toda a literatura latina: quieto, acanhado, cauteloso ou simplesmente arrogante, ardiloso e dissimu- lado — a linha entre a descrição objeriva e a crítica subjetiva é constantemente ressaltada por Tácito, muitas vezes de forma irônica. O governo de Tibério é a construção de antíteses entre o caráter cada vez mais aberto de sua natureza nefasta c outros grandes personagens qué o con- trapõem diretamente, sejam heróis dos exércitos, como seu sobrinho Germânico, ou vilões mais ardilosos ainda, como o préfeito do pretório Sejano, que irá dominar a narrativa após a morte de Germânico. É nessa virada, a partir do livro III, que o governo de Tibério irá adqui- tir características mais negativas, em uma mudança de ares que também será vista com Nero é reflete o topos da visão antiga sobre o caráter pessoal, fixo no nascimento e que tende a se reve- lar progressivamente com a diminuição das amarras externas a que a pessoa está sujeita, Eis o fimal do obituário de Tibério (VI, 51): Seu caráter também teve fuses distintas. Enquanto era um cidadão privado ou co- mandante sob ordens de Augusto, sua vida e reputação eram excepcionais. Enquan- * to Germânico e Druso estavam vivos, manteve segredo e fabricou virtudes do ma- neira enganosa. Durante a vida de sua mãe [Lívia, esposa de Augusto], havia nele tanto bondade quanto maldade, e enquanto amou —ou temeu — Sejano, sua oruelda- de era detestada, mas seus vísios disfarçados, Por fim, irrompeu em crimes e degra- dação quando sua vergonha e temor desapareceram e cle passou a contar apenas consigo mesmo! Não temos preservado o texto dos Anais relativo a Calígula, que deve ter ocupado os livros Vila IX, nem os primeiros anos de Cláudio. Quando o texto é retomado, no ano de 47, o Impera- dor Cláudio é apresentado como um homem fraco, doriinado pela bebida, por sua esposa infiel, Messalina (epítome da devassidão na tradição moderna), e pelos libertos que atuam como fin- cionários da corte. Tácito destaca os interesses antiquários e assuntos tangenciais a que o impe- rador se dedicou, tal como a invenção de novas letras para o alfabero, para ressaltar a pouca rele- vância polírica do personagem perante a corte e o Senado. É no texto relasivo a Cláudio que temos o único exemplo de adapração feita por um histor dor de um discurso imperial, fundamental para compreendermos como funcionem os mecanis- mos reróricos da historiografia antiga envolvidos na recria de discursos proferidos no passa- do. O problema suscita a pergunta: dado que não havia fo mas de se registzar um discurso por to são Os discursos que encon- No livro XI, TáGito apresenta um discurso dê Cláudio relativo à admissão ao Senado de ho- mens novos vindos da Gália, defendendo a ideia de que deveriam ser reconhecidos tal como os senadores romanos. Existe também uma versão do mesmo discurso escrita em uma tabuleta de bronze encontrada em Lyon, na França, o que permite que seja feita uma comparação direta en- tre o texto tacitiano e a versão oficial. Esta última se mostra mais prolixa e imprecisa; Tácito pa- ece ter ordenado e enxugado os mesmos argumentos utilizados originalmente por Cláudio, re- sumindo com mais eficiência e elegância de estilo as ideias contidas na argumentação do impe- rador. De fato, a técnica está em conformidade com as regras antigas de retórica, que pressu- imilhança em relação ao caráter põem domínio da ordenação lógica dos argumentos e da veros do orador, sem jamais perder de vista a importância do estilo clevado?. Quando o principado de Nero começa, abrindo o livro XII, Tácito faz um paxalelo explíci- to cora o início do principado de Tibério, usando a mesma linguagem e o mesmo tema. Mas Nero definitivamente não é como Tibério, pois é muito mais cruel, devasso e descontrolado. Tal como este, Nero começa seu governo de maneira positiva, guiado pela competência do prefeito do pretório, Afrânio Burro, e de seu tutor, o filósofo Sêneca. Sua mãe, Agripina, também exerce uma considerável influência no jovem imperador, e é exatamente a eliminação progressiva des- ses três personagens que leva Nero a exibir cada vez mais sem caráter degenerado. Apavorado com as ameaças da mãe e com o controle que ela exerce sobre os bastidores do poder, Nero resol- vc conceber um elaborado plano para que cla sofresse um acidente fatal - mandando construir ao amar. O plano úm navio para um banquete noturno, que a um sinal rachasse e a derrubas: acaba dgndo errado e o que resta a Nero é ordenar a execução da própria mãe, crime q mais hedi- ondo possível para Tácito. Essa situação leva ao afastamento de Burro e Sêneca do poder e abre Lo caminho para a licenciosidade do imperador Tácito caracteriza essa torpeza de caráter através da impropriedade absoluta dos maiores interesses de Nero, inaceitáveis dentro da yisão tacitia- nada figura pública virmmosa: cada vez mais, Nero passa a se dedicar à música, ao teatro, à poesia e às corridas de cavalos, promovendo espetáculos grandiosos c participando ele mesmo de com- petições artísticas, encorajando — cúmulo da infâmia - senadores e matronas dispostos a fazer o mesmo. É durante essa parte da narrativa que Tácito mostra suas observações mais agudas sobre a ironia do poder tirânico, com o público forçado a aplaudir as performances do imperador sob a mira dos soldados dispostos nas arquibancadas, metáfora da submissão do povo romano tal como a escravidão aparece para o Senado. Em 65 foi descoberta uma conspiração contra Nero, conhecida como a conspiração de Pisão — Caio Calpúrnio Pisão seria o senador escolhido pelo grupo para se tornar imperador. Alguns dos tais eminentes representantes do Senado foram prontamente julgados e executados ou força- dos a se suicidar, como Sêneca. Daí até o fim do texto que temos dos Anais, Tácito sublinha constantemente os horrores da perseguição política e da supressão da liberdade de expressão, provavelmente em paralelo com a narrativa dos últimos anos de Domiciano nas Histórias. que viveu, Nesse sentido, é emb! aPeio-a “yiruude erpessoa"-segundo qualifica Tá defende suas cpiniões mesmo que contra o imperador, como no caso da morte de Agripira, mas to. Trásew Pétô apárece como 6 opositor ideal) pois” nunca pretende ele seus interesses pessoais acima do bem-estar comum. Assim como nas Histórias, todo o plano ternárico dos Anais já aparece delineado no prefácio, que aqui é bom mais breve e objetivo: o texto se transforma gradualmente no próprio corpo da narrativa sobre o principado de Tibério, e não é uma simples descrição da situação corrente. Não há nenhuma menção de caráter pessoal de Tácito a não ser a promessa do relato “sem ran- cor ou partido”, que é na verdade um topos estilístico. O primeiro parágrafo, de inspiração salustiana, traz uma rápida descrição da história da Re- pública até Augusto. À aparente objetividade na abertura sobre o período dos reis contrasta com o estabelecimento do consulado e da liberdade com Lúcio Bruto, comp: nia com um de liberdade e associando diretamentesta com a instituição da República. Porém, tal indo um período de tira- associação não é tão simples e automática, pois há várias fases de tirania dentro do próprio período republicano. Dois instantes diferentes se destacam, sendo o primeiro marcado por exceções bre- ves e dentro das possibilidades legais. O segundo instante, com os dois triunviraros, é marcado pelo aspecto militar e ilegal da tirania, que no entanto acaba gradualmente consolidado até o pon- to da cstabilidadetrazida por Augusto. Assim, diferentemente das Jlistórias, onde a liberdade é en- fatizada como tema, aqui o processo primordial éa consolidação da tirania, num ciclo que retorna em última instância à primeira época da história de Roma, com a tirania dos reis, As duas outras seções, que tratam do período de Augusto e de sua sucessão, trazem uma ca- ractcrística importante, representando a consolidação do caráter do principado e, portanto, & natureza do poder imperial para Tácito, refletida em toda a extensão da obra. A narrativa enfati- ze o caráter violento opressor da tomada do poder, a eliminação sistemática da oposição, o ali” ciamento através do dinheiro ou a submissão pelo fnedo, ou mesmo pela acomodação em troca do [im do estado de guerra. A paz, enfim, consolida um mundo de valores invertidos, onde todas as atenções estão voltadas para a antoridade do imperador: “Era na verdade um mundo alterado, e nada restou do antigo e íntegro caráter romano: todos, finda a igualdade, esperavam pelas or- dens do imperador” (4,1). Tal pessimismo, oua princípio um “pendor para a decadência” e valorização de um passado ideal, não é característico apenas de Tácito, mas sim da historiografia romana como um todo € em especial de Salústio, historiador republicano que mais o influencia quanto ao tema e ao esti- 192, Herdeiros dos pressupostos gregos para a escrita da história, tais como imparcialidade, au- toridade e busca de testemunhos fidedignos para o estabelecimento da verdade, os historiadores romanos também apresentam como característica especílica a preocupação com o desenvolvi- mento do Estado romano, focado primariamente no destino da própria cidade de Roma. Tal ob- jetivo se reflete no formato analístico, derivado, como vimos, dos registros pontificiais feitos des- mbém na compe s da Hi: do passado, já eriv sentido, a historiografia rormina se mostra como uh recorté das preocupações da classe senatori- al, de onde vem a maioria de seus autores, o que em Tácito fica evidente a partir de seu foco nas questões da liberdade e tirania. 4 Considerações finais É também por isso que a influência e relevância de Tácito após sua redescoberta no Renas- cimento se faz de maneira tão poderosa em vários pensadores, embora a princípio ele tenha sido menos popular do que Tito Lívio dentre os pensadores humanistas. Seu estilo complexo, muitas vezes dúbio pela riqueza de artifícios reróricos, serviu tanto para criticar governos tirânicos quanto para justificar comportamentos resignados. Leonardo Bruni já o utilizava como exem- plo na crítica à monarquia, precedendo Maquiavel na questão da autonomia florentina. O pró- prio Maquiavel utiliza muitas das ideias de Tácito sobre como se comportar perante o governo de tiranos, onde se deve temê-los para garantir o descjo da estabilidade. Qutras leituras posteriores inverteram o foco principal do autor, adaptando-o às suas pró- prias circunstâncias políticas; assim, surgem várias obras que utilizam Tácito como manual so- bre como construir um estado despótico — aqui muitas vezes Tibério se destaca como governan- surge como representante máximo dos te ideal. No período iluminista, no entanto, Tácito n ideais republicanos e contrários à tirania, e é bastante utilizado tanto pelos revolucionários fran- ceses quanto pelos americanos - Thomas Jeflersoà o considerava como a melhor fonte de exem- plos instrutivos para a conduta moral; não é de seidmirar que Napoleão o detestava. A leitura de Tácito não se esgota no século XXI, mostrando-se na verdade tão relevante e atual como nas questões sobre as quais o autor refletiu. Tiranias continuam existindo pelo mun- dó é calândo vozes dissidentes; muitas vezes, aindá se faz necessário resignar-se para sobreviver. No entanto, os que lutam e são perseguidos e mortos por defender suas ideias, tais como Trásea Peto, sobrevivem através da memória de seu exemplo e mostram, hoje tal como no mundo ro- mano, que não há tirania que consiga sufocar para sempre a voz da liberdade. Notas nte feltam traduções da obra de Tácito na língua portuguesa cue sejam recentes e de qualidade, e de Carva- Hofetia tanto no Brasil quenro em P liopazs's Coleçã sal. Os Anais podem ser encontrados na peida F , de 1949, Já 2 tradução brasile! é s edições da Locb, Belles L.ettzes e Gredos são referência, mas a de 4.J. Woodman para us Anais é mais precisa (cf. Referências). or o ano de 96 d.C. com o de Tácito. Porém, », historiador do século IV, escolheu iniciar sua narrativa ória de Roma quando terminam as Hist texto que chegou até nós. Amiano Marcelf objetivo evidente de continuar to” dos senadores da capital e as conservadoras elites provinciais durante os festivais artísticos de Nero (Anais, XVI, 5). * O consulado era a mais alta magistratura romana, desde os tempos da República, e conservou seu prestí- gio durante o principado. Cada mandato durava um ano, amas o cônsul regular (ordinarius) era geralmente substituído pelo cônsul suffectus na metade do ano. * Tanto que Arnaldo Momigliano caracterizou o Germánia como um dos textos mais perigosos jamais es- critos. Para uma análise sobre o assunto cf. KREBS, C.B. A dangerous book: the r eception of the Germania. In: WOODMAN, AJ. he Cembridgo Companion to Tacius. Cambridge: Cambridge University Press, 2009, p. 280-299. é Seu nome não consta do manuscrito medieval que conservou o texto. 7 Syme, 1958, p. 686-687. A teoria é aceita pela maioria dos estudiosos, mas refetada por Goodyear, 1970, p. 1719, $ Muitos estudiosos presumem que o período entre à morte de Neto c o início de 69 sequer tenha sido trara- do posteriormente nos Anais, já que a ênfase de Tácito nesta obra está na dinastia Júlio-Clándia. * O mesmo do qual hoje resta apenas o Muro das Lamentações. Soria Tácito um defensoz incondicional do imperialismo ou estaria le consciente dos males deste? A questão se coloca ao compararmos a discurso de Cerialis com o poderoso libelo do fíder bretão Calgaco no Agrícola (par, 30-32), fonte da famosa frase: “Roubar, trucidar, saquear, a isso [os romanos] dão o falso nome de império; eles eriam o deserto e chamam isso de paz”. A divergência de opiniões não reflete postu- sas contraditórias do autor, mas sim a sua habilidade retórica para convencer a audiência com ambos os la- dos de uma questão. Sobreo tema, cf. GUARINELL.O, N.L. O imperialismo greco-romano. São Paulo: Ática, 1987. + HINGLEY, R. O imperialismo romeno: novas perspectivas a partir da Bretanha, São Paulo: Anna. blume, 2010, 1 Q trabalho de Davies (2006) é um excelente estudo, comparando a visão religiosa de Tácito com a de Tito Lívio e de Amiâno Marcelino. A tendência mais rcente dos estudos sobre historiografia antiga, que ressalta essa importância da retóri gostem com ralho pioneiro obra de à Woodaraa: Ri Clascl Eiorneraps: Fer Studies - Londres/Sidnei: Croom Helm, 1988... “ Embora Tácito mncione algumas de suas fontes, como Plínio, o Velho, Clíívio Rufo e Fábio Rústica, muitas de suas influências diretas são para nós apenas nomes, já que a maioria das obras historiográficas romanas se perden. Referências Edições da obra de Tácito Em português TÁCITO. Anais, Rio de Janeiro: Ediouro, 1967 [Trad. de Leopoldo Pereira — Anais, São Paulo: W.M. Jackson, 1949 [Coleção Clássicos Jackson — Trad. de ].1.. Freire Envespanhol » «see na DOREY, "ITA. Titus — Studies in Latin Literature and its Influence. 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Tacitus Revigs WOGDMAN, Az nbridge Univer- sity Press, 2010. 6 Flávio Josefo (34/37 d.C,-100 d.C.) Vicente Carlos Rodrigues Alvarez Dobroruka* 1 Flávio Josefo e seu tempo A biografia do historiador judeu helenizado Flávio Josefo é, em si mesma, fascinante e re- presentativa de uma época definidora na formação do cristianismo, do judaísmo e da sucessão imperial romana, é existem introduções acessíveis e de grande qualidade ao alcance do público”. Por outro lado, como Josefo não é, nos dias de hoje, tão conhecido como outros antores clássicos (pensemos em Heródoto ou Tucídides), uma breve análise biográfica faz-se necessária. José ben Matias (nome de nascimento de Flávio Josefo) nasceu provavelmente entre 34-37 d.C. de família à nobre por parte da mãe e sacerdotal por parte de pai, como ele mesmo nos conta em sua 4 utobiografia”: “Não apenas meus ancestrais é eram sacerdotes [...] por parte de mãe tenho sangue real [..J" (V 1). Embora não tenha sido o primeiro historiador a fornpcer dados Galiobssgsa De do sol pa co, Josefo foi o primeiro a nos legar uma obra completa que tem por tema a própria vida de quem escreve”. Pelos padrões atuais, a autobiografia de Joscfo é maçante e desigualmente dividida (a maior parte do texto trata de seu desastrado comando na'Galileia, durante os estágios iniciais da revolta de 67), mas ainda é uma fonte excelente para se obter informações sobre o historiador. | Os eventos mais marcantes na formação de Joscfo são, em meu entender: seu treinamento com um asceta do deserto chamado Bannus, no qual ele pôde tomas contato muis próximo com. variedades a: ticas do judaísmo” e sua visita a Roma antes da guerra. Depois desses, seguem-se em importância o comando na Galileia (tema principal da Autobiografia); daí em diante Josefo deixa de ser ator dos er rentos quedas sete e pos E a specador privilegiado, amigo da dimastia aí O nome “Fláy io Josefo » parcialmente mbro do À: | | | citemos Dr. 19,14, referência aos limites do terreno de cada vizinho, relido.como um problema de stasis em AJ 4.225; a cobiça de Sara pelo Faraó poderia causar comoção política, ou seja, stasis (AJ 1.164); o próprio Abraão fugiu de Ur em função da stasis que suas opiniões científicas e filo- sóficas causaram naquela cidade (AJ 1.281). A sedição de Corá contra Moisés é um dos temas pré-exílicos preferidos por Josefo em relação ao conceito de stasis (AJ 4.13; 32), Entre as coisas que Moisés implora a Deus como bênçãos sobre Israel, Josefo o faz pedir a ausência de stasis, numa oração extrabíblica (AJ 4.294-295). O atribulado período da monarquia unificada também propícia o uso do conceito por Josefo: stasis relaciona-se ao problema entre Davi e Shemei (2$m 19,23; AJ 7.265); c Deus garantiu a Salo- mão a ausência de stasis de seu reinado (AJ 7.337; 372) — talvez como consequência ou presente adicional 20 que Salomão lhe pedira, ou seja, sabedoria (LRs 3,5-12; cabe registrar que o dom obti- do por Salomão foi, como tantos episódios na vida de Josefo, também ligado a um sonho). Em Tucídides, o contexto em que se dão a discórdia e falência da coesão política é, em con- trapartida, totalmente leigo!*. E Quando vejo estes jovens sentados aqui atendendo ao apelo desse homem, sinto medo; e faço um contya-apelo aos mais idosos, se algum estiver sentado 20 lado de qualquer deles, para não se enverigonharem de parecer covardes se não votarem pela guerra e, embora este possa ser seu sentimento, para não mostrarem um apetite mórbido pelo que está fora de seu alcance, cientes de que poucos sucessos são obri- a 5 o dos pela paixão, mas muitos pela ponderação [...) emelhante à de Tucídi- des, dará-sc não entre dois grupos definidos em termos de faixa etária, mas entre radicais e mo- derados. Em Tucídides é o próprio tecido político da cidade que se rompe, na medida em queos Suicóssores de Péricles não estão à sua altura e dão vazão à todos os desvarios da massa urbana. Sobre esse tema é interessante notar ainda o paralelo entre Péricles e Moisés nas Antiguidades ju- daicas: Josefo apresenta um Moisés admirável pelas mesmas razões que Tucídides fez a apologia de Péricles, ou seja, pelo fato de ele ser um hábil condutor e crítico das massas, ao invés de se dei- xar conduzir por elas (AJ 4.328)”. O tema do radicalismo da liderança ateniense surge em Tucídides essencialmente vincula- do à figura dos demagogos, em especial ao oportunismo de Aleibíades que, em sua carreira espe- tacular, encarna as contradições e limites da Atenas democrática c imperialista do século Y a.C.; não emerge do quadro composto por Josefo nenhum líder rebelde de estatura semelhante, De- ual- um dos principais líderes rebeldes) é re- | Vese notar que Ananas é chamado por Josefo, em BJ 4.210; 319-321, de lider do demos; à mente, o tratamento dado por Tito a Sin ativamente honroso, uraa vez que ele foi poupado para execução durante o triunfo, cm Roma ambém considere a pulverização do poder per vários um dos faroros que Tev . Não devemos € o scg- doou quese judo é pera nele comportamentos que conduziriam-à degradação maior do tecido social, tal como a vandali-so 2 zação das estátuas, no qual o próprio Alcibíades esteve implicado”. Josefo e Tucídides partilham outro viés hipocrático além de imputarem a responsabilidade. eo Edo de pela guerra a gripos extremistas que fazem “adoecer” o tecido social: a ideia de que por irá eventos aparentes há causas operantes profundas. “Também aqui Josefo mostra-se um eco confuso) de Tucídides: embora os insultos sobre os rebeldes de Jerusalém sejam semelhantes ãos juizos de Tucídides sobre os inepros sucessores de Péricles, o historiador grego sabe que Alcibíades, Cleon e Nícias, em toda a sua inabilidade, são produtos típicos da cidade; “aparentemente as pessoas simples, em toda e qualquer democracia, correm orisco de se sentir atraídas por uma vulgaridade que lhes parece familiar e alentadora”* A tentativa de Josefo isentar parcelas significativas dos judeus da responsabilidade na guerra — ou seja, em atribuir a “vulgaridade democrática” a certos grupos ou indivíduos particulares, e não ao demos de Jerusalém como um todo — resulta por sua vez desastrada e pouco convincente. Uma possível explicação para essa discrepância talvez resida no peso do elemento religioso como motivador da revolta e animador da guerra entre os judeus, quando se pensa que as causas “sobrenaturais” estão virtualmente ausentes do texto de Tucídides”, O tema da stasis, por importante que seja em Josefo, não esgota suas estratégias de análise e nar- arecer os sativa. Josefo, como outros historiadores antigos, serve-se do proêmio de sua obra para cs pontos de vista que adotará na análise propriamente dita dos eventos. Dessa forma, a insensatez crueldade do radicalismo judaico são contrastados com a benevolência romana já em BJ 1.2 Descreverei o tratamento brutal dispensado pelos tiranos q seus compatriotas, e à clemência dos romanos quanto a uma raça que lhes é estranha [...] Farei distinguir os sofrimentos e calamidades do povo, culminando em sua derrora, como sendo atribníveis respectivamente à guerra, à sedição [Thc otdoeuç] e à fome. + Mas os grandes “vilões” de Josefo não têm a sutileza psicológica dos-demagogos de Tucídi- des; entre os personagens de Josefo, os poucos que mostram perfis sofisticidos e cheios de nuan- ces são aqueles envolvidos com Herodes e sua corte, principalmente o espartano Euricles e o f- lho conspirador de Herodes, Antípatro; mas eles não têm participação direta nos eventos que »s com personagens muito mais simplórios para os eventos diretamente conduzirão a 67. Fica ligados à guerra, aos quais corresponde uma caracterização isualmente simplória: Simão bar Guiora, Justus de Tibérias, Ananus e Eleazar ben Yair”. Além disso, os rebeldes de Josefo, por mais que estejam caracterizados à moda da Guerra do giusos e econômicos as eri- de dividir com outros fatores étnicos, políticos, atenção especial dos analistas moder- gens da guerra. Entre esses fatores, o econômico receder nos em suas relações com o conceito de stasis, À sedição pode estar relacionada aos coníliros de classe em BJ 7.260-261º, ou em AJ 20.179%, Segundo Josefo, a diferença entre ricos c pobres vação de ca da, nem mesmo quando ambos encontram-se em situag De resto, Josef faz una análise que, ainda que parcial e tendenciosa, não mente quanto aos E - O estilo é muitas vezes desagradável fatos, mas eventualmente o faz quanto à sua interpret: (nisso Josefo faz-se acompanhar tanto por Tucídides quanto por Políbio, entre os nomes mai c importantes em sua lormação) e, como eles, Josefo também alega estar descrevendo eventos sin. eularmente importantes e unicamente decisivos no curso da história humana: A guerra dos judeus contra os romanos — a maior não apenas entre as guerras de nosso tem- Po, imas também, na medida em que outros relatos chegaram até nós, a maior de todas as que aconteceram entre cidades ou nações — não teve carência de historiadores (BJ 1.1). Para efeitos didáricos é possível separar o esforço interpretativo. propriamente historiográ- fico de Josefo, de sua interpretação geral, meta-histórica — evidentemente o próprio Josefo não deveria ter essa diferença tão clara, se pensarmos que mesmo para os historiadores modernos a fronteira-não se faz tão nítida, E De todo modo, as linhas mestras em que Josefo interpreta o sentido da história que descreve em detalhe são as seguintes: , 1)O sentido da história humana é dado por Deus. 2) Esse sentido é apreensível pelos profetas, em cuja tradição hermenêutica Josefo pretende aparentemente se inserir. 3) A interpretação errônea dos sinais dados por Deus quanto ao sentido da história leva a desastres como o de 70. 4) Como senhor da história, Deus tem o poder de deslocar o foco de seu favor dos judeus para Quiros povos, como de futo ocorreu com relação aos romanos, segundo Josefo. E Ositensacimamesclimi-S6 alciir disso, com à trajetória pessoal do próprio Joscio, que neles encontrouyconscientemente ou não, a justificativa para sua defecção para o campo rombno após a queda da cidade de Jotapara na Galileia, por cuja defesa era responsável. A primeira proposição acima mostra-se absolutamente ortodoxa em termos da tradição ju- daica corrente na época — isto é, a história, seguindo o padrão deuteronômico, constitui-se da re- lação didática de Deus com o povo judeu, que remete ao padrão erro - punição - arrependimen- to — perdão. Por isso mesmo Josefo harmoniza o papel da Providência Divina com o li- “it-arbítrio, de modo semelhante ao que à teologia rabínica posterior faria: Refletindo sobre essas coisas [a morte de um certo Jesus, tido como foco e que pas- se importa esaminho d sava os dias a apregosr nos berros artína de Jerusalém] vemos que De com os homens, mosira ao seu povo, p salvação, enqua E eles mesmos [...] metades adas pe vida à louci entender a punição Templo tis itrócidades diversas cometidas pelos iebeldes contra seus opositores. A partir da. 5 conceitos-chavedefinitores da obra de Josefo: seu uso do conceito de stavi é tão importante que. pareçe-me mais ligado au xeu percurso intelectual c apropriação do aparato qui entramos nt intelectual de Tucídides do que ao conceito-chave realmente diferenciador de sua obra. 3 Conceito-chave Josefo não tem a pretensão de ser o única intérprete dos desígnios divinos, mas reivindica a capacidade de ser o único a fazê-lo corretamente: no fim das contas a tradição revelatória na qual tanto ele quanto os rebeldes se basciam é a mesma, mas os rebeldes leem os sinais divinos de modo errôneo. Mas o que os incitou à guerra mais do que tudo foi um oráculo ambíguo, encontrado em seus livros sagrados, que dizia que naquele tempo alguém do seu país tor- nat-se-ia governante do mundo, Eles entenderam isso como dizendo respeito a al- guém de sua própria raça, e muitos sábios se perderam com essa interpretação. O oráculo, na verdade, dizia respeito à ascensão de Vespasiuno, proclamado impera- dor em solo judaico. Por tudo isso, é impossível aos homens escaparem ao próprio destino, mesmo quando podem antevê-lo (BJ 6.310-315). A mesma ídeia encontra-se nos Oráculos sibilinos 3.350-380 e constitui-se num desses temas compositores do “banco de dados” temático de que nos fala Momigliano, composto por topoi lire- rários que aparecem aqui e ali em grande número de histórias eenredosno Mediterrâneo antigo”. Em termos da história pessoal do próprio Josefo, a ideia de que a história tem um sentido determinado por Deus é igualmente importante — nó episódio da rendição em Jotapara, um so. nho, cuja interpretação consiste exatamente no entendimento do sentido da história, é usado Dot Josefo como clemento-chave para justificar sua sobrevivência e aparente deserção para o lado romano: [..] subitamente vieram à sua mente aqueles sonhos noturnos, nos quais Deus lhe tinha revelado o destino iminente dos judeus e dos soberanos romanos. Ele [Josefo] eraum intérprete de sonhos c hábi! em adivinhar os proferimentos ambíguos da di- vindade; ele mesmo erz sacerdote, e descendente de sacerdotes, e cle não ignorava as profecias dos livros sagrados. Naquele momento teve a inspiração de ler seu sig- uificado e, lembrando-so das imagens recentes de sonhos tertíveis, rezou em silên- cio a Deus. “Tá que teagrada”, ele disse, “a ti que criustea nação dos judeu: a tus obra, já que a fortuna passou para os romanos, e já que escolheste meu espíri pera anunciar o que está por vir, rendo-me de boa vontade aos romanos e me permi- tirei viver; mas és testemunha de que não vou como traidor, mas como teu mir (BJ 3.352-354), eizado para encaixar-se na Outro exemplo do úsó por Josefo dé tradições religiosas amplamente difundidas encon- tra-se no tema das vozes que abandonam o Templo antes de sua destruição final, evocando Jere- mias: é tema presente também no Apocalipse siríaco de Baruch (2Br) e, surpresa das surpresas, nas Elistórias de Tácito: E após essas coisas eu ouvi aquele anja dizendo aos anjos que traziam as tochas: Agora destruam as muralhas e arrasem-nas até suas fundações para que os inimigos não se vangloriem: [.. E os anjos fizeram o que lhes foi ordenado; e após quebrarem os cantos da muralha, uma voz foi ouvida de dentro do Templo após a queda da mv- ralha, dizendo: Entrem, inimigos, e venham, adversários, pois quem guardava esta casa à abandonou (2Br 7:1-8:2)”. Em Histórias 5.13 - “Subitamente as portas do templo abriram-se e uma voz sobre-humana gritou: “Os deuses estão indo embora”. Joscfo pretende, além disso, apresentar-se simultancamente como um “novo” Daniel e um “novo” Jeremias: o episódio da pedrada recebida pelo historiador quando exortava os judeus à rendição do lado de fora das muralhas de Jerusalém é deliberadamente interpretado por Josefo como paralelo entre ele mesmo e Jeremias (Jr 38,3-485.). Por fim, Josefo em momento algum mostra-se cético quanto à possibilidade da história hu- mana não ter sentido: pelo contrário, a ação de Deus é perceptível mesmo quando contraria os interesses imediatos do povo eleito. Nesse sentido, Josefo serve-se da tradição apocalíptica leito- ra do mito dos impérios mundiais, dos quais o último é Roma, Mas Josefo não tem como igno- rar as leituras correntes à época que questionam a estabilidade da última monarquia universal, Roma. Nesse ponto sua interpretação é notavelmente similar à do autor do apocalipse conheci- do como Quarto livro de Esdras, embora seja comprecnsivelmente mais. discreta: “Estaéainter pretação da visão que tivestg: a águia que viste saindo do mar é o quarto reino que apareceu numa visão a teu irmão Daniel. Mas não lhe foi explicado como agora explico ou te expliquei [JP (4Ezra 12: 10-13), o Em suma, Josefo não discute a literatura apocalíptica em detalhe, nem em termos propria- mente historiográficos, nem-a assume plenamente como concepção meta-histórica”, mas a conhe- ce: cita um apocalipse extensamente (Dn, nas AJ) e dá indicações de conhecer bem o livro 3 dos Oráculos sibilinos*, que não são propriamente um apocalipse, mas têm muito em comum com eles (e que repetem um tema clássico na Antiguidade, o da vingança da Ásia sobre o Ocidente) O termo apotatypsis não aparece na obra de Josefo, embora o verbo apobabyprein surja em quairo oportunidades (BJ-1.207,5.250; AJ 12.90,14.406 = BJ 1,207) para falar das revelações do oculto que lhe são feitas por Dens; para a “revelação” do divino atili- za. àssriduny referindo-se a Dn, em AJ 10.210 ou deikmmi - Emsenonde — em AJ 10.271; 277; no mesmo sentido apocalíptico, nhdiv é usado em AJ 4.105; 10.177, 195, 198, 201, 202, 205, 208, Josefo asa outros termos É precisoser em mente, ao relacionar Joscfo à apocalíptica, que osapocálipses tratam dá rem! fica de eventos particulares. Um tex- To historiográfico, ainda que não tenha como se isentar de concepções meta-históricas, relígio- tória em termos de scu sentido geral e não da análise espe: sas ou seculares, apoia-se nas evidências de que o historiador dispõe, e que lhe impõem limisos Nesse sentido, não há como considerar Josefo, Daniel ou 0 Apocalipse siríaco de Baruch como se. melhantes, Uma tentativa particularmente desastrada nesse sentido foi feita por Pierre Vi- dal-Naques, o qual afirma que o discurso de Eleazar ben Yair aos defensores de Masada (última fortaleza a ceder aos romanos), tema do último livro de BJ, seria um apocalipse. O discurso con- siste de uma longa e erudita exortação ao suicídio, tido por Eleazar como preferível à desonra da captura; sob qualquer ângulo que se analise, um típico discurso da historiografia antigas, Não se tem como levar à sério a afirmação de Vidal-Naquet - a menos que esvaziemos o termo “apo- calipse" de qualquer significação precisa, co utilizemos em sentido vulgar. Nesse caso, qualquer texto de tom mais sombrio passa a serum “apocalipse”; tal é a consequência lógica do raciocínio de Vidal-Naquer, que no entanto admite a semelhança essencial do discurso de Masada com ou- tros na historiografia antiga”. Noutro aspecto da discussão temos a culpa que Josefo utribuí à expectativa messiânica; faz-se necessária uma análise das relações que Josefo estabelece entre a dissensão civil na Judeia Gsrasis), a guerra contra Roma e a referida literatura apocalíptica produzida até o final do século I á.C., já que por vezes todo esse conjunto de referências parece se entrecortar na perspectiva de Josefo. Apesar do esforço para fazer dialogar entre si conceitos tão diferentes como stasis é messi nismo, dée-se ter em mente que Josefo foi virtualmente ignorado tanto pelo público greco-roma- Ho habituado à noção de stasis quanto pelos judeus (familiares com o milenarismo), tendo sido cu” fapmltado para a divilgação UniNersal pela parrística””, o público judeu a que Joselo parece ti dereçar-se no começo de BJ acabou lendo-o de modo imprevisto, em termos de exortação à pie- dade religiosa e resistência cultural. Um fenômeno de difícil explicação a esse respeito é o fato do único manuscrito completo do Apocalipse siríaco de Beruch, o Ambrosiano, ter junto de si oi. vro 6 de BJ - que trata da queda de Jerusalém. Mais bizarro ainda é o-fato de esse trecho de Jo- sefo ser apresentado, no Ambrosiano, com o título de Quinto livro dos Macabeus (SM), Os “falsos profetas”, denunciados com tanto vigor por Josefo, podem igualmente constiruir um canal para se entender a penetração popular da literatura apocalíptica no seio dos revoltosos (AJ 17.278-284; 20.171 e BJ 2.60-65,262,263; 6.283-285); também aqui coloca-se a indistinção, pelo historiador, entre profetas, apocalípricos e divinadores em geral. Algumas das referências de Josefo aos “falsos profetas” merecem ser consideradas, ainde que brevemente, uma vez que o watitude- que descrevem está muitas vezes em contorriidade com outras € ências para profetismo da época (Novo Testamento, Manuscsitos do Mar Morto, literatura apocalíptica ju- duica do período intertestamenrário). Um É so dos mais notáveis em sua obra é o dos judeus mortos no Teraplo, aguardando o Messias (BJ 6.283-285): Eles devem sua des cidade que Deu Jara subir ao Mont sua salvação: Vários profetas, nequela época, foram subornados pelos tixanos [termo pelo qual Josefo designa ofensivamente ns líderes rebeldes] para iludir o povo, exor- tando-o a aguardar o socorro divino, com o intuito de desencorajar es deserções e exortar os que estavam acima do medo e da precaução a terem esperança, Na adver- sidade os homens são persutadidos com facilidade; mas quando o impostor promete alívio das tribulações, então os que sofrem entregam-se por completo à expectativa (BJ 6285-287). Essc é um tema que merece atenção especial. Com todo o seu cinismo, Josefo não chega ao extremo de Políbio, que diz explicitamente que a religião é um instrumento de controle das massas; mas a vinculação feita por Josefo entre oportunismo político e ativismo messiânico é única entre os grandes historiadores antigos. O papel de Roma como potência estrangeira, pagã, inimiga de Deus etc. é virtualmente eli- minado pelo historiador judeu como elemento causador ou potencializador da revolta, uma vez que Josefo não está particularmente interessado nas causas da guerra, mas antes no que condu- ziu à destruição do Templo; nesse sentido, Josefo lista os erros dos rebeldes, responsáveis pela queda da cidade: êssencialmente a crueldade, o pecado e o autoritarismo. E por “pecado” osapo- logetas cristãos entenderam tratar-se da morte de Jesus — um trecho de AJ que, interpolação par- cial ou total, merece atenção mínima de Josefo (AJ 18.63-64)º; mas vimos que Josefo refere-se de fato às profanações ocorridas dentro do Templo, que tiveram, em sua opinião (bastante orto- doxa), papel decisivo no desfavor divino e, portanto, na destruição do Templo e de Jerusalém —e a consequente transferência do favor divino para Roma. Wlconsiderações nais o CR RE Como conclusão, podemos dizer que, mesmo Josefo não sendo o mais brilhante dos historia- dores antigos (para isso os modelos mais populares são, ao menos tos dias de hoje, Heródoto e Tu- cídides), foi o historiador helenístico-romano gue chegou até nós completora.fato de seu texto mesclar, amiúde de modo confuso, concepções gregas com judaicas só torna a sua leitura e apre- ciação da história judaica — logo universal - mais fascinantes. Um modo de encaminhar nossa discussão acerca dos paralelos entre o entendimento do ra- dicalismo político em Tucídides e Josefo reside na análise da influência, em termos literários, dos autores gregos em geral e de Tucídides cm particular. Nesse sentido, mais do que indicar pia ou o uso despudorado de temas clássicos gregos por assistentes pouco. inspirados, os paralelos podem mostrar um Josefo entusiástico com a cultura grega e, em especial, com a tragé- dia. Em Tucídides, a ideia de que a História da Guerra de Peloponeso foi concebida como uma tragédia teve em F.M. Cornford um de seus grandes defensores, embora como tese geral a ideia storiografia e tragédia, no que diz o tenha gagho aceit: anto nos | f | diálogos; que muitos já afirmaram serem equivalentes ao diálogo entreprotagonista e coro”, e nos afastaria do tema central deste capítulo. Por inserir-se entre a historiografia clássica (que tem por modelo), a helenística (na qual se insere como autor) e a teologia judaica do século 1 d.C., em todos os seus matizes c possibilida- des, Josefo define-se como um autor que, tanto em sua metodologia quanto cm suas concepções meta-históricas, tem por horizonte um futuro muito semelhante ao da apocalíptica judai Nesse sentido, o contraste com seu contemporâneo Tácito não poderia ser maior: quando este último mostra alguma preocupação com o futuro nunca o faz abstratamente —, mas restrin- ge-se ao futuro do Império Romano. Em suma, mesmo não sendo categorias idênticas, profetas falsos e verdadeiros, livros apo- calípticos, oráculos síbilinos e o texto bíblico reconhecido como sagrado na época de Josefo mis- turam-se. Longe de indicar confusão mental por parte de Josefo, essa mescla sublinha apenas a artificialidade das categorias que nós impomos à religiosidade judaica da época da revolta = arti- ficialidade que, se não temos como evitar, podemos ao menos olhar com suspeição. As dificuldades que as afirmações de Josefo sobre o peso dos apocalipses e assemelhados nos colocam são muitas, mas não são de forma alguma incontornáveis. Devemos ter em conta, antes de tudo, duas coisas: Josefo não concebe a apocalíptica como gênero literário próprio, e nem leva em conta a noção de pseudepigrafia — isto é, não aborda Daniel criticamente, considerando-o um profeta do século VI a.C. e não como um apocalipse redigido em nome do personagem Dani- el, muito posteriormente (séc: II 2.C.). Mas são dificuldades que não se podem evitar; vejamos dois artigos que tratam mais detidamente da relação Josefo-apocalíptica, os de Per Bilde e de Arnaldo Momigliano. É Comecemos pela análise do artigo de Momigliano, “Wai Josephus did nor see”, A ideia” central do autor é a de que o judaísmo de Josefo é apenas retórico, sendo “insosso e sem cor”, já que Josefo ignora duas das principais instituições judaicas da época, a sinagoga e a literatura apocalíptica. Quanto à sinagoga, ela aparece efetivamente na obra de Josefo, ainda que en passent: ao ter de visitar uma na Galileia, subitamente Josefo se vê ameaçado de morte e tem de fugir (V 29385). Mas para a outra ausência, que nos interessa mais detidamente, não há como defender o ponto de vista de Momigliano. Além disso, a apocalíptica é solidária do desenvolvimento da ideia da ressurreição dos mor- tos (logo, da possibilidade de salvação individual"); não se tem como avaliar o impacto da mu- de expettativa cont a ideia de uma ressurreição individual -, mas gerado pela noção de era messiânica foi enorme”. É de se supor, no entanto, que a precipitação do Juízo por meio da ação direta contra Roma não fosse a única via de atuação aberta aos apocelípticos. Retomarei o tema adiante. mesmo a tos de BJ, destacando-se 3.350-334/400:402: Posta sob a luz da imitação de profetas e personagens bíblicos em geral por Josefo, a relação entre ele c a apocatíptica reveste-se de outros problemas — o das concepções meta-históricas em geral na historiografia antiga, ou mais simplesmente do peso do juduísmo na formação da ideia de história em Josefo”. Mas isso jámos leva além do escopo deste artigo e nos faria incorrer nas mesmas falhas de Momigliano e Bilde— não se trata aqui de discutir a natureza das relações entre apocalíptica e historiografia e Josefo do ponto de vista da estrutura da obra, mas de verificar o peso da apocalíptica nos eventos que Josefo descreve — e não na forma pela qual eles são descritos”. Vista como a atividade profética viva no tempo de Josefo, a apocutípuica acaba por envolvê-lo também, na medida erm que elo possui certos dons em comum com os heróis dos apocalipses — recebe a missão de revelar segredos por parte de Deus, é exímio em interpretar sonhos e tem a chave para o entendimento da história dos homens”. « Dentro da indistinção que Joscfo mantém entre profecia c apocalipses, um elemento soa particularmente estranho. Nos livros proféticos, as nações dos gentios são instrumentos Gaia para a punição dos judeus (cf. 1s 41; Jr 25º; nos apocalipses, pelo contrário, são adversários da divindade. Josefo une esses dois pontos de vista, aparentemente contraditórios entre si, ao afir- mar que Roma é potência mundial pela graça de Deus (ponto de vista profético), ao peno tem po em que evita falar da interpretação de Daniel que define Roma como a quarta o última mo- narquia (ponto de vista apocalíptico)”, Portanto, mesmo pretendendo seguir Tucídidos tão de perto quanto possível, Josefo repete o padrão de compreensão da história deuteronômica: peca- da - punição — perdão” + Todo o conjunto da obra de Josefo reflete, portanto, as contradições que els mesmo não ti- nha condições de solucionar, ou mesmo de perceber: aquelas resultantes de sua formação reli- “gibsa judaicayde seu autodidatismo na cultura grega e, por fim, sua inserção.como espectador dosmundo político romano. Ou seja, os três pilares sobre os quais assenta-se 3 Weltanschauung * Ee ocidental com relação às culturas orientais”. ; Notas : Para as referências clássicas utilizei as edições da Locb Classical Library E pactos age ntos RD dores, Felix facoby. Die Hragmente der griechischen Histarieer. Leiden: Brill, 2003. ae em CD-| ç e £FIGH). Para as citações bíblicas servi-me da Biblia de Jerusalém (São Paulo: Paulinas, 1985) Ea E depígeatos, ja edição de CHARLESWORTH,. T. (o The Old Testament Pseudepigrapha. 2 vols. Nova York: Doubleday. 1983-1985. CE esp KAJAK, T. Fosepnni HADAS-LEBEL, M. Flávio Josefo, o ju geral mais simples. ra dos judeus; à a) pare 9 Contra pe chefiada por Steve MasendYork University, Toronto). As demais referências e cita ções de autores clás. sivos foram também retiradas das edições da LCL, exceto quando assinaladas. Deve-se observar que a antobiografia não era reconhecida como gênero amiônomo na Antiguidade: cf * MISCILG.A History of Autobiography in Anciquity. Vol. 1. Londres: Rourledye and Kegan Paul, 1950, p. 5. * MOMÍGLIANO, A. The Development of Grech Biography. Massachuscits: Harvard University Press ' 1970, p. 14. * Sobre a experiência de Josefo no deserto já se especulou bastante, e boa parte das sugesrões oferecidas po- Jos estudiosos mostraram-se sem fundamento. Uma das teorias faz Bannus parecer-se com João Barista- ouros querem ver nele a fonte para o conhecimento que Joscib alega ter dos essênios (o que implica outro erro grave, o de supor que a comunidade responsável pelos chamados Manuscritos do Mar Morto seja idêntica aos essênios descritos por Josefo; cf. AJ 18.19). Como tanto na obra de Josefo e na historiografia £ antiga, provavelmente estamos aqui diante de iogoi literários que encerram algo de verdadeiro e de conbe- cimento em primeira mão, mas que devem sez lidos com cautela. Além de tado isso, interessante como é, o personagem Flávio Josefa é notório por sua presunção e vaidade, o que coloca seus depoimentos sob suspei- tas ainda mais gray 9 História eclesiástica 3.9.2 * FGrlI 70207. * FGrli 90TI3. CE tb. WACHOLDER, B.Z. Nicolaus of Damascus. Berkeley/Los Angeles: University of California Press, 1962. * GRANT, M. The Ancient Historians. Nova York: Charles Scribner's Sons, 1970. i * Heródoto é dispensado como universalmente criticado, numa passagem em que Josefo alega não estar so- inho na acusação: CÊ CA 1.16. 1 MOMIGLIANO, à. “History between medicine and rhetoric”. Ottavo contributo alla storia degli ssudiclas- ici de mondo antico. Roma: Storia e Lerteratura, 1987, p. 14-15,» GOODMAN, M. À classe dirigente da J- deia — As origens da revolta judaica contra Roma, 66-70 d.C. Rio de Janeiro: Imago, 1594, p. 108-109. » GRANT, M. Op. cit. p.79. = CE GOODMAN, M. Op. cit, p. 109. E: "Grande parte da discussão abaixo é um resumo de pmirhas ideias publicadas anteriormente em “Conside- taçÕes sobre o conceito de stasis na obra de Flávio Josefo”, Tn: Boletim do Centro de Pensamento Antigo. Nol. — 12. Campinas: Unicamp, 2001, CE tb. FELDMAN, L. Josephust Interpretation of the Bible. Berkeley: Uni- versity of California Press, 1998, “ “No Liddeli-Scort médio (An Intermediate Greek- English Lesicon, Eounded Upon the Severdl Edition af Lid- del and Scot's Greek-English Lexicon. Oxford: OxfordUniversity Press, 2001 [1. ed,, 1889), são dadas as se- guintes definições: em sentido amplo e mais antigo no idioma, stasis significava “posição”, “posição de quem está em pé”. Por extensão passou a significar também “condição”, “estado de conservação”) “grupo” ou “scita” de filósofos; no sentido que nos interessa aqui, “sedição”, “discórdia”. “Guerra civil” não consta como possibilidade, mas infere-se dos contextos em que o termo surge. Deve-se tomar cuidado com essa tradução, no entanto, pelo faro de nem sempre situações de extrema degradação da comunidade política re- sultarem em confronto civil aberto. “Thid. TUCÍDIDES. História da Guerra do Peloponeso, 3.82. Já Fista údri nativo colvoz seja algo precipitada, levario-se wa conta indissociabilidade entre reli. | giãoe política na cidade — p episódio da mutilação das estáreas (415 4.C,)c 0 processo de Sócrates bastam. para nos recordar disso. Quero apenas deixar claro que Tucídides não enxerga o componente divino como elemento ativo na degradação de politcia ateniense, quando a questão da ofensa a Deus é pedra de toque em toda a argumentação de Josefo para explicar 6 caos da liderança em forusaléra VTUCÍDIDES. História os atenienses a desistirem d própria im “sIbid, 2.65. CE ROMILIY; História e razião em Tucídides. Brasília: UnD, 1998. O tema é especialmente - ro à análise de RAJAK, T. Op. cit. p. 90ss. * FELDMAN. osephus's Interpresatiom, p. 177. = História da Guerra do Peloponeso, 6.72. “1 MOSSÉ, C. O processo de Sócrates. Rio de Janeiro: Zahar, 1989, p. 215s. = ROMILLY, J. Alcibiades ou os perigos da ambição. Rio de Janeiro: Ediouro, 1996, p. 2585. Os cavaleiros, de Aristófanes, trata exatamente dessa “vulgaridade democrática” (126-145, onde se sucedem na cidade, de acordo com um oráculo, um mercador de estopas, um de carneiros, e por fim um salsicheiro; este último mão possui qualquer instrução). = É dese notar aqui o peso das formulações religiosas para o entendimento dos fatores econômicos ligados à eclosão da guerra. CE APPLEBAUM, S. Josephms and the Economic Causes of the Jewish War. In: FELDMAN, L. & HATA, G. (orgs.). Fosephus, the Bible and History. Detroit: Wayne Site University Press, 1989, = É de se notar aqui que a caracterização de Herodes por Josefo deve muito ao que dele escreveu seu secre- trio particular Nicolau de Damasco, autor da Llistória universal supracitada. Eleazar mostra grande capaci- dade de argumentação em seu discurso de Masada, mas a artificialidade retórica do episódio é inegável e, se mostra sutileza psicológica, devemos atribuí-la ao próprio Josefo e não ao suposto autor do discurso. 5 GOODMAN, M. Op. cit, p. 26. * Para Rajak, este é o único uso claro do termo stasis relacionado a conflitos de classe em toda a obra de Jo- sefo, o que não o impede de tocar no assunto por outros meius. CÊ RAJAK, T. Op. cit. p. 33 = GOODMAN. M. Op. cir. p. 104. 23 O teima repete-se na crítica de Jsefo ao cstoicismo, quando cle comenta a teologia da história daniélica ão final de AJ 10, Josefo jamais abre mão da certeza de que Deus interfere no destino dos homens, ainda que eventustmente de modo desfavorável aos judeus, = MOMIGLIANO, A. “Eastern elements in Post-Exilic Jewish, and Greek, historiography”. In: Essays in Ancient and Modern Historiograpio. Middletown: Wesleyan University Press, 1987, p. 26 (lembra-nos dos inúicros temas comuns ão Orienté é Ocidente): CE 1: AUNE; D-E: Prophecy ii Earby Christiandty and tha Ancient Mediterrancan Wortd. Grand Rapids: William B. Herdmans, 1983, p. 140. Como leitura geral: FUCHS. H. Dor geistige IWiderstand gegen Rom in der antiken Welt. Berlim: Walter de Gruyter, 1938. » KOCSIS, E. “Ost-West Gegensatz in den Júdischeu Sibyllinen”. Novum Testamentum, 5, 1962, p. 105-110. * COLLINS, 1]. Studios in the Sibyiline Oracles of Egyprian Judaism. Missoula: SBT, 1974 * Curiosamente, um herói judeu que não é tido por traidor, muito pelo contrário, serviu-se do mesmo mito para justificar sua opção de fuge diante do mesmo Vespasiano. Trata-se do rabino Iohanan ben Zakkai, evadido do cerco fingindo-se de morto. Ben Zakkai é reyerenciado como “salvador” da tradição judaica após a queda do Templo, ao estabelever uma escola om Jamnia (também com o benepláciro do imperador romano). CÊ o Talmude da Babilônia, Gittin S6u. CE tb. RAJAK, T. Op. cit. p. 191. 3: O texro de 2By, com comentários, encontra-se em OTP L, p. 6235. Um paralelo interessante para o tema da passagem de 2Br pode ser encontrado em Jr 34.2. = O tema das variações na interpretação do quem são os impérios mundieis nas representações sucessivas que remetem à Clésias (FGrH 688ÊIS, passim) ea complexos míticos ainda mais antigos não tem como ser tratada com propriedade aqui, e fugiria ao escopo deste artigo. Até o momento não há um estudo exaustivo do tema, embora exista um certo número de artigos devotados ao assunto. Como introdução, sugiro WIDENGREN, G. cial. Apocalyprique iranienne st dusalisme goumrânien. Paris: Adrico Maisonneuve, 1995, RTJ. Op.ei * Como discussão mais dei Phoini Phoi — snileneorismo — Ensaios sobre tempo, história e o milênia. Brasília: UnB, 2004), * BILDE, P. Josephus and Je- wish Apocalypticism. In: MASON, S. (org.). Underszanding Fosephais: Seven Perspectives. Sheffield: Shef- field Academic Press, 1998. * Esp. 3.385ss. CE tb. OrSib 4.119-124 e 145-148. Para um estudo recente das relações dos oráculos sibili- nos com o judaísmo, cf, HASEL, G. “The Four World Empires of Daniel 2 against its Near Eastern envi- ronment”. Journal for she Study of the Old Testament. 12, 1979. * FLUSSER, D. “The Four Empires in the Fourth Sybit and in the Book of Daniel”. Isruel Oriental Studies. Vol. 2, 1972. COLLINS, JJ. “The place ofthe Fourth Sibyl in the development of the Jewish Sibyllina”. Journal of Jewish Studies, 25, 1974. *BILDE, P. Op. cit, p. 42. * Tbid. SNWALBANK, FW. Specches in Greek Historians (The Third 7 L.Myres Lecture). Oxford: Blackwel], [sd]. PVIDAL-NAQUET, P. “Flavio Joscfo y Masada”, Los judíos: la memoria y el presente. Cidade dó-México: Fondo de Cultura Económica, 1996, p. 76. “A exceção notável aqui é a referência de Suetônio a Josefo, nas Vidas dos Doze Césares (Vida de Vespasiano, 5.6). O exemplo mais famoso de lcirura piedosa/enviesada de Josefo é sem dúvida o texto medieval conhecido por Josippon — em linhas gereis, uma leitura edificante, em termos judaicos, de Josefo. CL FLUSSER, D. Sefer Iosippon. Jerusalém: Bialik, 1964 (em hebraico) e, do mesmo autor, Josibpon, a medieval version of Jo- seplus. In: FELDMAN, L. & HATA, G. (orgs.). Josephys, Judaism and Christianiry. Detroit: Wayne Stato University Press, 1987, Para um contraponto interessante e bem argumentado à leitura habitual do episó- dio de Masada em BJ 7, c£ LADOUCEUR, D. “Josephus and M lasada”, no mesmo livro organizado por Feldman e Hata. O ponto mais forte da argumentação de Ladouccur no sentido de que o discurso final de Elcazar em Masada constitui não um ato de heroísmo, mas sim de advertência aos opositores dos Flávios encontra-se na p. 97, em que Ladoucenr argumenta que Josefo apresenta o tema do suicídio num discurso antitético ao seu (BJ 3.372) e que apoia-se fortemente no Fédon de Platão. No segundo discurso de exorta- ção ao suicídio, quando “fala” da libertação da alma do corpo (BJ 7.350), Eleazar obtém o sucesso que lhe Jora negado na primeira exortação. a *º Histórias. 6.56;11.12;10.2. O cerco de Numáância é especialmente evocativo em Masada, tal como dêscrito por Josefo: j RE ERA ONE “Trata-se do eliamado “Testimonium Flavianur”, isto é, a passagem de Josefo em que se faz referóhcia a Jesus Cristo. Sua autenticidade tem sido disputada desde o século XVI c constitui-se, até hoje, num dos te- as mais “quentes” envolvendo a historiografia antiga. As opiniões dos historiadores variam desde a des- crença total na originalidade do testemunho até a confiança total em Josefo; curiosamente, as mesmas fon- tes servem de argumentos para todas as facções (p. ex. ORÍGENES. Contra Celso 4.11 e seu Comentário a Mateus), Para uma visão geral do problema (ainda que numa posição extremada), cl. BARDET, S. Le Testi- moniwm Flavianum: examen historique, considérations historiographiques. Paris: Cerf, 2002: para versões. secundárias da passagem em árabe, siríaco ou grego, cf. o opúsculo de PINES, S. An Arabic Version of the Testimonium Flavianum anil its Implications. Jerusalém: Israel Academy of Sciences and Humanities, 1971. * Para ral, é especialmente importente o artigo de PRICE, ]. “Drama and History in Josephus. BJ” (paper apresentado nº sessão de 1999 do seminário da SBI, sabre Josefo, York University, Toronto [disponível em hitp:/fyww josenhus.yorkn.ca/links-articles.himl — Acesso em 18/10/10]. É um artigo especialmente úxil, embora se detenha no entedo trágico com que é apresentada « sega da família de Flcrades em sua su s que trilharam esse casninho deve-se destacar ephus. Ia: OVADIAIL, À. Hellenistic and Fezoish Arts; Interaction, Tradition and Renewal, 1998, p. 51-80. Ainda há uma tese doutora! sobre o assunto, à gua! não tive acesso, que tem ecebido os maiores elogies (CHAPMAN, H. Spectacle and Tragedy in Jo Stanford University » 1907, apud PRIC! * GRANT, M. Thp Ançicyt Llistorians, Nova York: Charles Seribner's Sons, 1970, p. 9 “In: On Pegans, Jews and Christians. Hanover: Wesleyan University Press, 1987. “CE Da 12, possivelmente o trecho mais antigo a falar cm salvação pós-morte em sermos de ressurreição e julgamento individ * GOODMAN, M. Op. cit, p. 97. Do primeiro não cabe tratar aqui, pois é tema distante de nossa questão; convém não esquecer ainda es semelhanças entre Josefo e José, grande intérprete de sonho 31 Para maior aprofundamento dessas questões cf. o último capímio desta coletânea. Há, a esse respeito, dois textos fundamentais aos quais não tive acesso: HALL, R.G. Revealed Histories: Techniques for Anci- ent Jewish and Christian Ilistoriography. Sheffield: Sheffield Academic Press, 1991, * DAVIES, G.J. “Apocalyptic and Historiography”. Journal jor the Study of the Old Testament, 5, 1978, p. 15-28. sº Para uma visão oposta, cf BLENKINSOPP, J. “Prophecy and priesthood in Josephus”. Journal for Jenvish Studies, 25 (1974), p. 239-262, As principais referências de Josefo a si mesmo comparando-se a Jeremias e Da- niel encontram-se respectivamente na RJ 3.351-3.354; 5.362-5.419 cem V.80-84, CE tb. RAJAK, T. Josephus. Londres: Duckworth, 1983, p. 170. SCE BJ 3.350-354; 400-402. Cf. BILDE, P. Op. cit. p. 46. “Também se podem encontrar trechos de imprecações contra os gentios nos profetas; mas na apocalíprica a rejeição a eles parece total e completa, embora o plano de Deus para a história seja também mais abran- gente é universal. = Obviamente, pode-se supor que Josefo omitiu a interpretação que condena Roma por deftrência aos seus patrocinadores, tentando evitar o mal-estar *BJ5.362-419c Dn 2-7; para Bilde, este seria um padrão não apenas deuteronômico como também apoca- líptico. Discordo da afirmação, já que = “pedagogia” deuteronômica não supõe um desfecho cósmica c de- finitivo para o processo de desenvolvimento histórico dos judeus como pôvo eleito. CL. Lv 26,15-33; Dr 28 e Dn 9,11-i4. + = MOMIGLIANO, A. Os limites da helenização. Rio de Janeiro: Zahar, 1991, p. 18. Bibliografia a Para as obras de Flávio Josefo, o texto padrão foi estabelecido por Niese no século XIX, cas edições modernas seguem sua crítica textual. Obra rara e de acesso comparativamente difícil, trata-se de NIESE, B. Flavii Josephi Opera | edidit et apparaiu critico instruxit Benedicrus Niese. Be- rolini: Weidmannos, 1885-1895 [Le. Berlim: Weidmann]. À obra é composta de sete volumes, em grego e comentários emlatim. Os textos modernos E são as duas traduções inglesas modernas e a francesa: izadospor Henry St, J, Thackeray, Ralph Mar- = Loeb Classical Library cuse Louis H. Feldman — texro g eps otd ção inglesa, muito boa qualidade. O aparato crítico é suficiente para o leitor mé sefo, que apresenta muitas dificuldades nem sempre confiável, mas em geral de e, deve-se notar, contém notas muito importantes sobre o texto eslavônico de +BriflMtritasse de Flavius Josephus: Translation àrid Commentary, coordenado por Steve Ma- som; em 12 volumes, dos quais aré à data da conclusão deste capírulo 6 foram publicados. Entre e . Begg e Paul Spilsbury. Para não encarecer ainda mais os exemplares, a editora optou por não incluir o texto os editores encontram-se nomes de peso como John M.G. Barclay, Christopher 1 grego (ou latino, para certas seções): por isso sugiro que aqueles que optem pela excelente edição Brill tenham em mãos também o texto grego da Loeb Classical Library. * Belles Lettres: (JOSEPHE, F. Guerre des Juifs, Contre Apion e Vita). Referências APPLEBAUM,S. Josephus and the Economic Causes ofthe Jewish War. In: FELDMAN, L. & HATA, G. (orgs.). Josephus, the Bible and History. Detroit: Wayne State University Press, 1989. AUNE, D.E. Prophecy in-Early Christianity and the Ancient Mediterranean Worla. Grand Rapids: William B. Eerdmans, 1983. BARDET, 8. Le Testimonium Flavionum: examen historique, considérations historiographi- ques. Paris: Cerf, 2002. BERNARDI J. “Des quelques sémitismes de Flavius Josephe”. Révue des Éludes Grecques 100, 1987, p. 18-29. : BILDE, P. Josephus and Jewish Apocalypricism. In: MASON, S. (org). Understanding Jo- sephus: Seven Perspectives. Shefficld: Sheffield Academic Press, 1998. “BLENKINSOPP, ]. “Prophecy nd priesthoodin Tosephus”, Journal of Jezvish Studies, 25, 1974, p. 239-262. BRUCE, F. 148-162. . “TJosephus and DanielP. Annual of he Saedish Theological Institute, 4, 1965, P. CHAPMAN, H. Speciacle and Tragedy in Josephus' Bellum Judaicum, [s.L]: Stanford University, 1998 [Tese de doutorado). : COLLINS, J.J. Studies in the Sitiyltine Oracles of Egvprian Judaism. Missoula: SBL, 1974. 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