Tres Metros Acima do Ceu-Federico Moccia, Notas de estudo de Cultura
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Tres Metros Acima do Ceu-Federico Moccia, Notas de estudo de Cultura

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Tres Metros Acima do Ceu
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FEDERICO MOCCIA

Tradução de MARIO FONDELI

Título original TRE METRI SOPRA IL CIELO

Copyright © 2004 by Giangiacomo Feltrinelli Editore Milano

Os personagens deste romance são produtos da imaginação do autor. Qualquer semelhança com pessoas ou acontecimentos reais é mera coincidência.

Direitos para a língua portuguesa reservados com exclusividade para o Brasil à

EDITORA ROCCO LTDA. Rua Rodrigo Silva, 26 - 4º andar 20011 -040 - Rio de Janeiro - RJ

Tel.: (21) 2507-2000 - Fax: (21) 2507-2244 rocco@rocco.com.br www.rocco.com.br

Printed in Brazil/Impresso no Brasil

preparação de originais AMANDA ORLANDO

MARIA ANGELA VILLELA

CIP-Brasil. Catalogação-na-fonte. Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ.

M686t Moccia, Federico Três metros acima do céu / Federico Moccia; tradução de

Mario Fondelli. - Rio de Janeiro: Rocco, 2005.

Tradução de: Tre metri sopra il cielo ISBN 85-325-1931-8

1. Ficção italiana. I. Fondelli, Mario. II. Título.

Ao meu pai, um grande amigo com quem muito aprendi.

À minha mãe, maravilhosa, que me ensinou a rir.

1

“Cathia tem a mais bela bunda da Europa.” A pichação em vermelho aparece com todo o seu ostensivo descaramento numa pilastra do viaduto de Corso Francia.

Ali perto, uma águia real, esculpida há muito tempo, certamente viu o culpado, mas nunca irá contar. Logo abaixo, sentado como se fosse uma pequena cria protegida pelas vorazes garras de mármore, está ele.

Cabelo curto, quase raspado, parecido ao de um fuzileiro naval, vestindo uma jaqueta Levi’s escura.

Colarinho levantado, um Marlboro na boca, óculos Ray-Ban a ocultar os olhos. Parece ser um cara mau, embora não precise dessas coisas. Tem um sorriso lindo, mas são raras as pessoas que tiveram a chance de apreciá-lo.

No fim do viaduto, alguns carros detiveram-se ameaçadores diante do sinal. Lá estão eles, enfileirados como se estivessem numa corrida apesar da diversidade de modelos. Um pequeno Uno, um New Beatle, um Micra, um carrão americano não muito bem iden- tificado, um velho Punto.

Num Mercedes 200, um dedo fino com unhas mordiscadas empurra de leve um CD. A voz do vocalista de uma banda de rock toma vida inesperadamente nas caixas laterais do som Pioneer.

O carro volta a avançar acompanhando o fluxo. Ela gostaria de saber “Where is the love.... Mas será que isso existe de verdade? De uma coisa, no entanto, ela tem absoluta certeza, poderia passar muito bem sem a irmã que do assento de trás continua repetindo sem parar: “Bota Eros, muda esse troço, quero ouvir o Eros.”

O Mercedes passa justamente quando o cigarro, já no fim, cai no chão empurrado por um estalar dos dedos e com a ajuda da brisa. Ele desce dos degraus de mármore, ajeita os seus jeans 501 e monta na Honda azul VF 750 Custom. Como que num passe de mágica está entre os carros. O seu Adidas direito muda as marchas, refreia ou deixa à solta o motor que, poderoso, empurra-o como uma onda pelo tráfego.

O sol continua a subir no céu, é uma linda manhã. Ela está indo para o colégio, ele ainda não foi dormir depois da noitada de ontem. Um dia normal, como qualquer outro. Mas o sinal faz com que fiquem emparelhados. E aí o dia deixa de ser como os demais.

Vermelho. Olha para ela. O vidro está aberto. Uma madeixa loira-acinzentada vez por outra

esvoaça sobre o pescoço macio dela. Um perfil marcante e ao mesmo tempo delicado,

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olhos azuis, suaves e serenos, ouvem a música com ar sonhador. Toda aquela calma des- perta a curiosidade dele.

“Olá!” Ela se vira e olha para ele. A janela está aberta. O rapaz sorri, parado ao lado,

sentado na moto, de ombros largos, as mãos já bronzeadas demais para aquele começo de abril.

― Que tal dar uma volta comigo? ― Não dá. Estou indo para o colégio. ― Então não vá. Apenas finja. Pego você logo ali na frente. ― Desculpe. ― O sorriso dela é fingido, forçado. ― Acho que não me expliquei

direito, não estou a fim de sair com você. ― Não sabe o que está perdendo... ― Duvido. ― Sou a solução para os seus problemas. ― Não tenho problemas. ― Quem duvida, agora, sou eu. Verde. O Mercedes 200 dá um pulo para a frente apagando de vez o sorriso confiante dele.

O pai vira-se para ela. ― Quem era o sujeito? Um amigo seu? ― Nada disso, pai, apenas um idiota... Depois de alguns segundos, a moto encosta de novo. Ele segura com a mão esquerda

a janela e acelera de leve com a direita, só para não ter de fazer muita força para deixar-se puxar, embora aquele braço de estivador possa, sem dúvida alguma, aguentar o tranco sem maiores problemas.

O único que parece ter problemas, no entanto, é o pai. ― Que diabos esse infeliz quer fazer? Por que está chegando tão perto? ― Deixa comigo, papai. Vou cuidar dele... Ela se vira para o desconhecido decidida. ―- Olha aqui, você não tem nada melhor para fazer? ― Não. ― Então arranje. ― Já arranjei uma coisa legal. ― E o que é? ― Dar uma voltinha com você. Vamos lá, podemos dar uma esticada até a

Olímpica, acelerar firme com a moto e aí pago o seu almoço antes de levar você de volta para a escola na hora da saída. Eu juro.

― Não acho que os seus juramentos valham lá muita coisa.

6

― É isso aí ― ele diz sorrindo. ― Está vendo quantas coisas você já sabe a meu respeito? Diz a verdade, já está gostando de mim, não é?

Ela dá uma gargalhada sacudindo a cabeça. ― Muito bem, já chega. ― E abre um livro que tira da bolsa de couro Nike. ― É

melhor eu pensar no meu único problema atual. ― Que seria? ― A prova oral de latim. ― Achei que tivesse a ver com sexo. Ela vira o rosto irritada. Dessa vez, não sorri, nem mesmo de brincadeira. ― Tire a mão da janela. ― E aonde você quer que eu bote? Ela aperta um botão. ― Não posso dizer, o meu pai está aqui. O vidro começa a subir. Ele espera até o último momento para tirar a mão e se

soltar. ― A gente se vê. Nem tem tempo de ouvir o seco “não” dela. Inclina-se de leve para a direita. Troca

rapidamente a marcha para enfrentar a curva e desaparece entre os carros com uma aceleração espasmódica. O Mercedes segue em frente em sua viagem, agora mais tranquila, rumo à escola.

― Você sabe quem era? ― A cabeça da irmã desponta inesperada entre os dois assentos. ― Chamam ele de Nota Dez.

― Para mim, não passa de um idiota. Ela abre então o livro de latim e concentra-se no ablativo absoluto. De repente, pára

de ler e olha para longe. Será que é realmente aquele o seu único problema? É claro que a insinuação daquele cara não tinha nada a ver. De qualquer maneira, nunca mais irá vê-lo. Recomeça a ler decidida. O carro vira à esquerda, para a Falconieri.

― Pois é, não tenho nenhum tipo de problema e nunca mais vou me encontrar com ele.

Na verdade, nem desconfia como está errada. A respeito de ambas as coisas.

2

A lua aparece alta e pálida entre os galhos mais altos de uma árvore frondosa. Os ruídos chegam aos ouvidos estranhamente amortecidos. De uma janela, ouvem-se as notas de uma música lenta e agradável. Logo abaixo, as linhas brancas da quadra de tênis reluzem

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retas na alvura do luar enquanto o fundo da piscina vazia espera tristonho a chegada do verão. No primeiro andar de um palacete do condomínio fechado uma jovem loira, não muito alta, de olhos azuis e pele aveludada, olha indecisa para a própria imagem no espelho.

― Vai querer o tomara-que-caia com stretch da Onix? ― Não sei. ― E a calça preta? ― Babi grita mais alto do seu quarto. ― Não sei. ― E o fuseau, pode ser? Parada no batente da porta, Daniela está agora olhando para Babi diante das gavetas

abertas e as roupas espalhadas pelo quarto numa verdadeira balbúrdia. ― Acho que vou ficar com isso... Daniela avança entre vários pares de tênis Superga de cores diferentes, mas todos

trinta e sete. ― Não, esse não. Faço questão. ― Vou pegar assim mesmo. Babi levanta-se num pulo, apoiando as mãos nos quadris. ― Desculpe, mas ainda nem experimentei... ― Deveria ter pensado nisso antes. E, além do mais, vai alargar todo. ― Daniela

olha irônica para a irmã. ― Como é que é? Você só pode estar brincando! Lembre-se de que foi você, outro

dia, que vestiu a minha saia azul e agora nem alguém com visão de raios X consegue perceber as minhas curvas maravilhosas...

― Não tem nada a ver! Quem deixou a saia desse jeito foi o Chicco Brandelli. ― O quê? O Chicco tentou alguma coisa e você não me contou nada? ― Não tem muito o que contar. ― Eu não diria isso, pelo jeito que esta saia... ― É só aparência. O que acha deste casaquinho azul, com a camiseta pêssego por

baixo? ― Não mude de assunto. Conte o que aconteceu. ― Ah, você sabe como é. ― Não sei não. Babi olha para a irmã menor. Não pode ainda sabê-lo. É verdade, ela não sabe. Ela

não tem nada bonito o suficiente para fazer com que alguém amassasse sua saia. ― Nada demais. Está lembrada que outro dia disse para a mamãe que ia estudar na

casa da Pallina? ― Lembro, e daí? ― E daí que eu fui ao cinema com o Chicco Brandelli. ― E o que rolou?

8

― O filme não era nada demais e, pensando bem, ele também não. ― Tudo bem, mas vamos ao que interessa. Como foi que a saia ficou toda

descosturada? ― Bom, o filme já tinha começado havia uns dez minutos e ele não parava quieto.

Cheguei até a pensar: “É verdade que esse cinema não é lá muito confortável, mas acho que o Chicco está mesmo a fim de alguma coisa.” E não deu outra. Só levou mais alguns segundos para ele se virar levemente de lado e passar o braço por cima do meu encosto. Que tal esse aqui? O que acha do conjuntinho verde com os botões na frente?

― Continue. ― Resumindo, logo a mão dele começou a descer do encosto e foi parar nos meus

ombros. ― E você? ― Eu... nada. Não estava dando a mínima para ele. Assistia ao filme com a maior

atenção. Aí, ele me puxou e me lascou um beijo. ― Um beijo, o Chicco Brandelli? Uau! ― E precisa ficar tão animada? ― Como assim? Ele é o maior gato. ― É verdade, mas ele só pensa em como é bonito... Passa o tempo todo olhando

para si mesmo, procurando algum espelho... Resumindo, não demorou muito para ele se empolgar de novo. Até me comprou um Cometto. O filme tinha ficado visivelmente melhor, talvez também por causa da parte de cima do Cometto, aquela com a cobertura de amendoim. Estava uma delícia. Por isso, acabei baixando a guarda e ele se aproveitou para botar as mãos em lugares íntimos demais para o meu gosto. Tentei afastar aquela mão boba e ele nada, se agarrava mais ainda na sua saia azul. E foi aí que ela descosturou.

― Que nojento! ― Pois é, ele não queria me largar de jeito nenhum. E sabe então o que aquele

ridículo fez? ― O quê? ― Abriu a calça, segurou a minha mão e empurrou para baixo, bem para o pinto

dele... ― Fala sério! Esse cara é mesmo um porco! E aí? ― Então, para acalmá-lo, tive de sacrificar o meu Cometto. Enfiei o sorvete com

toda a força bem no meio da calça aberta dele. Nem imagina o pulo que ele deu! ― É isso aí, maninha! É isso o que eu chamo de coração de baunilha e chocolate... As duas caem na gargalhada. Então, Daniela, aproveitando o clima de alegria que se

criou, afasta-se com o conjunto verde da irmã.

9

Perto dali, sentado no confortável sofá de estampa cachemir, no escritório, Cláudio está preparando o cachimbo. Acha todo aquele ritual bastante divertido, mas, na verdade, trata- se apenas de um compromisso. Já não deixam que em casa fume os seus Marlboros. A mulher, fanática jogadora de tênis, e as filhas típicas representantes da geração-saúde, começam a gritar toda vez que acende um cigarro, de forma que achou melhor passar para o cachimbo. “Dá um toque de classe, faz com que você fique com um ar mais pensativo!” dissera Raffaella. Isso acabou fazendo com que ele pensasse no assunto. Melhor ficar com aquele pedacinho de pau entre os lábios e guardar o maço de Marlboro escondido no bolso do que brigar com ela.

Solta uma baforada enquanto zapeia os canais da tevê. Já sabe onde parar. Algumas garotas descem por uma escada lateral cantarolando uma musiquinha idiota e balançando as tetas empinadas.

― Cláudio, você já está pronto? Ele muda imediatamente de canal. ― Claro, meu amor. Raffaella olha para ele. Cláudio continua sentado no sofá, já não tão seguro como

antes. ― Toma, acho melhor você trocar a gravata. Use essa aqui. Raffaella sai do aposento sem dar qualquer possibilidade de resposta. Cláudio desata

o nó de sua gravata preferida. Depois, aperta o botão número cinco do controle remoto. Mas, no lugar daquelas garotas, tem de se contentar com uma pobre dona de casa que, emoldurada dentro de um alfabeto, tenta ficar rica. Cláudio levanta o colarinho e dedica ao novo nó toda a sua atenção.

No pequeno banheiro que separa os quartos das duas irmãs, Daniela está exagerando com o delineador. Babi chega perto dela.

― O que acha? Está usando um vestido florido, leve e rosado. Aperta delicadamente a sua cintura,

deixando o resto livre e solto para acariciar o seu quadril macio do jeito que quiser. ― E então, como estou? ― Bem. ― Mas não muito bem. ― Muito bem. ― Tudo bem, já entendi. Mas por que esse desânimo? Daniela continua tentando traçar sem tremores a linha que deveria tornar seus olhos

mais longos. ― É que não gosto da cor. ― Tudo bem, mas tirando a cor... ― Também não morro de amores por essas alças tão largas. ― Está bem, mas fora as alças...

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― Já sabe, não gosto de flores. ― Sei, mas esqueça as flores. ― Agora sim, você está maravilhosa. Nada satisfeita e sem ela mesmo saber o que teria gostado de ouvir como resposta,

Babi pega o vidro de Caronne que os pais compraram numa loja do free shop quando voltaram das Maldivas. Ao sair, esbarra em Daniela.

― Cuidado, sua desajeitada! ― Cuidado você! Não preciso de tanto tempo assim para deixar seu olho roxo. Veja

só que porcaria ficou essa maquiagem! ― É por causa de André. ― André quem? ― Palombi. Um carinha que conheci na saída do colégio. Ele estava conversando

com a Mara e a Francesca, do quarto ano. Quando elas foram embora, contei que também estudava na mesma turma que elas. Que idade você me daria, maquiada desse jeito?

― Bom, parece mais velha. Pelo menos quinze anos. ― Mas eu tenho quinze anos! ― Diminua um tiquinho aqui... ― Babi molha a ponta do indicador na boca e o

massageia nas pálpebras da irmã. ― Prontinho! ― E agora? Babi olha a irmã franzindo a sobrancelha. ― Está quase com dezesseis. ― Muito pouco, ainda. ― Estão prontas, meninas? Já perto da entrada, Raffaella liga o alarme. Cláudio e Daniela passam rápidos diante

dela, a última a chegar é Babi. Entram todos no elevador. A noite está a ponto de começar. Cláudio procura ajeitar melhor o nó da gravata. Raffaella apressa-se a passar várias vezes a mão direita por baixo do penteado. Babi arruma o casaco escuro com ombreiras vistosas. Daniela limita-se a dar uma olhada no espelho, já sabendo que vai encontrar os olhos da mãe.

― Não acha que está maquiada demais? Daniela ensaia uma resposta. ― Deixa para lá, já estamos atrasados, para variar. ― E, dessa vez, o olhar de

Raffaella cruza no espelho com o de Cláudio. ― Fiquei esperando por vocês, ora essa! Estava pronto desde as oito! Passam em silêncio pelos últimos andares. O cheiro do guisado da mulher do

porteiro invade o elevador. Aquele sabor da Sicília mistura-se por um momento com a turma francesa de Caronne, Drakkar e Opium. Cláudio sorri.

― É a senhora Terranova. O ensopado dela é uma coisa.

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― Leva cebola demais ― sentencia com segurança Raffaella, que de alguns tempos para cá optou pela cozinha francesa, provocando a sincera preocupação de todos e o desespero da empregada da Sardenha.

O Mercedes pára diante da entrada do prédio. Raffaella, com o ruído dourado das jóias que lembram datas e natais mais ou menos

felizes, quase sempre bastante caros, senta na frente, e as filhas atrás. ― Posso saber por que não deixam a Vespa mais encostada na parede? ― Ainda mais grudada do que isso? Ora papai, você é um barbeiro... ― Não fica bem você falar assim com seu pai, Daniela. ― O que acha, mamãe, de a gente ir à escola de Vespa amanhã? ― Não acho aconselhável, Babi, ainda está muito frio. ― Mas temos o quebra-vento. ― Daniela... ― Mas mamãe, todas as nossas amigas... ― Ainda estou para ver todas essas amigas de vocês, com suas Vespas. ― Não seja por isso. A Marina acaba de ganhar uma motinha Peugeot novinha em

folha que, além do mais, já que você está tão preocupada, corre muito mais do que a Vespa.

Fiore, o porteiro, levanta a barra. O Mercedes espera, como todas as noites, o vagaroso subir daquele longo ferro com tiras vermelhas. Cláudio esboça um cumprimento. Raffaella só pensa em encerrar a conversa.

― Se na semana que vem ficar mais quente, então voltamos a pensar no assunto. O Mercedes sai com uma migalha de esperança a mais no assento de trás e um

arranhão no espelhinho lateral direito. O porteiro volta a assistir ao seu programa na tevê. ― Ainda não me disse o que acha da minha roupa. Daniela vira-se para a irmã. As ombreiras são um tanto largas demais e, no seu

entender, Babi parece muito séria. ― Você está maravilhosa. ― Ela já tinha entendido perfeitamente como deveria

tratar a irmã. ― Não é verdade. As ombreiras são muito grandes e pareço certinha demais, como

você sempre diz, sua mentirosa! Sabe de uma coisa? E vai pagar por isto. O André nem vai olhar para a sua cara. Aliás vai olhar, sim, mas só para não reconhecê-la com esses olhos tão pintados, e vai acabar ficando com a Giulia.

Daniela tenta retrucar, principalmente no que diz respeito à Giulia, sua pior inimiga, mas Raffaella corta logo a conversa.

― Vamos parar com isso, meninas, se não vou levar vocês de volta para casa. ― Posso dar meia-volta? ― Cláudio pergunta com um sorriso, ensaiando voltar para

casa. O olhar da mulher, no entanto, faz com que logo se cale.

12

3

Rápido e livre, sombrio como a noite. Luzes refletidas lampejam rápidas nos retrovisores da moto. Chega à praça, só desacelera o bastante para certificar-se de que ninguém vem da direita, para seguir então pela rua Vigna Stelluti a toda velocidade.

― Não aguento mais esperar, já faz dois dias que não nos vemos. ― Uma linda morena de olhos verdes e traseiro apertado em cruéis jeans Miss Sixty sorri para a amiga, uma loirinha tão alta quanto ela, mas bem mais redondinha.

― Ora, Maddá, você sabe como é, mesmo que tenha rolado alguma coisa entre vocês não quer dizer que estejam juntos.

Montadas em suas motinhas, fumam cigarros fortes demais, tentando aparentar uma idade que na verdade não têm.

― Além do mais, soube que ele não costuma ligar para ninguém. ― Quem disse? ― Os amigos dele. Por quê? Ligou para você? ― Ligou. ― Vai ver que foi por engano. ― Duas vezes? Sorri satisfeita ao perceber que conseguiu deixar a amiga sabichona de queixo caído,

mostrar que não estava disposta a desistir tão fácil. ― Acho bom você não confiar muito nesses tais amigos ― continua. ― Já reparou

na cara deles? Ali perto, apoiados em motos tão poderosas quanto seus próprios músculos, Pollo,

Lucone, Hook, o Siciliano, Bunny, Schello e mais alguns outros. Nomes improváveis que escondem histórias complicadas. Nenhum deles tem um emprego fixo. E tampouco tem muito dinheiro no bolso. Mas estão à vontade e parecem aproveitar a vida. É tudo o que querem. Além do mais, gostam de brigar e as ocasiões para isso não lhes faltam. Parados ali, na praça Jacini, encostados em suas Harleys, nas velhas 350 Four com os quatro canos de descarga originais, ou com o clássico silencioso quatro em um de ronco mais profundo. Sonhadas, desejadas e finalmente conseguidas dos pais após inúmeras e incansáveis súplicas. Ou então graças ao sacrifício da infeliz poupança de algum desavisado que deixou a carteira no porta-volumes da Vespa ou no bolso interno de algum Henry Lloyd dando sopa na hora do recreio.

Lá estão eles, sorrindo satisfeitos, piadistas esculturais, com as mãos pesadas mostrando os sinais das muitas brigas. John Milius iria adorar.

13

Menos espalhafatosas e posudas, as garotas trocam risinhos. Quase todas escapuliram de casa com a desculpa de uma soneca tranquila na casa de alguma amiga, que por sua vez também está ali, filha da mesma mentira.

Glória, a menina de fuseau azul e camiseta da mesma cor com pequenos corações mais claros, abre-se num lindo sorriso.

― Ontem fiquei numa boa com Dario. Comemoramos os seis meses que estamos juntos.

“Seis meses”, Maddá fica imaginando. “E pensar que eu já ficaria satisfeita com um só.”

Ela suspira, então recomeça a sonhar embalada pelas palavras da amiga. ― Fomos comer uma pizza no Baffetto. ― Corta essa, eu também estava lá. ― A que horas? ― Deviam ser mais ou menos onze. Glória odeia aquela amiga que fica se metendo no relato dela o tempo todo. Sempre

aparece alguém para cortar seu sonho. ― Então é isso. A gente já tinha ido embora. Mas vocês querem ouvir a história ou

não, afinal? Ouve-se um coro de “sins” saindo daquelas bocas dos mais variados sabores de

batom e de brilhos roubados de vendedores distraídos ou banheiros maternos mais fartos do que muitas perfumarias de pequeno porte.

― Numa hora, apareceu o garçom com uma dúzia de rosas vermelhas enormes. E o Dario sorria enquanto todas as jovens na pizzaria olhavam para mim emocionadas e morrendo de inveja.

Quase se arrepende da frase, percebendo ao seu redor aqueles mesmos olhares. ― Não, não... Não foi por causa do Dario... Foi pelas rosas! Uma gargalhada boba faz com que se sintam novamente juntas. ― Então, ele me beijou na boca, segurou a minha mão e me deu isso. ― Glória

mostra às amigas um anel fino com uma pequena pedra azulada, de reflexos quase tão alegres quanto os seus olhos apaixonados. Murmúrios de surpresa e um “Que coisa mais linda!” acompanham a apresentação da pequena jóia.

― Depois fomos até lá em casa e ficamos juntos. Os meus pais não estavam, foi maravilhoso. Botei o CD de Cremonini, eu adoro. Ficamos deitados na varanda, juntinhos, contando estrelas.

― E tinha muitas? ― Madalena é, sem dúvida alguma, a mais romântica da turma. ― Um montão! Perto dali, uma versão diferente. ― O que deu em você, ontem? Parecia meio desligado...

14

Hook. O rapaz que usa um tapa-olho sempre preso bem firme. Longa cabeleira encaracolada, um tanto descorada nas pontas, que poderia lembrar um anjo barroco não fosse a sua reputação realmente infernal.

― E então, o que acabou fazendo ontem à noite? ― Nada de mais. Fui jantar no Baffetto com a Glória e aí, como os seus pais não

estavam, fomos para a casa dela e deixamos rolar. O de sempre, nada especial... Mudando de assunto, já viram como reformaram o Panda?

Dario procura despistar mas Hook não parece disposto a largar o osso. ― Acontece o tempo todo com os lugares como esse, pelo menos a cada três ou

quatro anos... Mas explique-me antes por que não me chamaram? ― Saímos quase sem pensar no assunto, assim, de repente. ― Estranho, você não costuma fazer as coisas sem pensar duas vezes. Tudo indica que a conversa pode acabar mal. Os outros logo percebem. Pollo e

Lucone param de chutar uma latinha amassada. Eles se aproximam sorrindo. Schello dá uma tragada mais longa no cigarro e faz a costumeira careta.

― Sabem de uma coisa, caras, ontem o Dario e a Glorinha comemoraram seis meses juntos, e acho que ele decidiu festejar sozinho.

― Que nada. ― É mesmo? Você foi visto comendo uma pizza. E me diga uma coisa, é verdade

que está a fim de abrir o seu próprio negócio? ― Pois é, andam dizendo que você está pensando em montar uma loja de flores. ― Uau! ― Todos começam a cutucá-lo com palmadas e cotoveladas nas costas

enquanto Hook lhe dá uma gravata e esfrega com força a sua cabeça. ― Uma florzinha, o menino... ― Me solta... Isso dói. E todos os outros caem em cima dele, rindo como se estivessem possuídos, quase

sufocando Dario com seus músculos anabolizados. Então, Bunny, deixando bem à mostra os incisivos responsáveis pelo apelido, grita quase que numa inspiração súbita.

― Vamos pegar a Glória! Os tênis All Star azuis, com a estrelinha vermelha no meio da rodela de borracha na

altura do tornozelo, pulam da Vespa e pousam agilmente no chão. Glória só consegue dar uns poucos passos, correndo, mas é logo agarrada pelos braços fortes do Siciliano. Os cabelos loiros do rapaz criam um estranho contraste com seus olhos pretos, com as sobrancelhas mal e porcamente remendadas, com aquele nariz mole e achatado, de frágil cartilagem há poucos meses amaciada por um soco bem dado na taberna da Fiermonti.

― Me solta, pára com isso! Schello, Pollo e Bunny logo se aproximam. Fingem ajudar a lançar para o ar aqueles

cinquenta e cinco quilos bem distribuídos cuidando de pôr as mãos nos lugares certos. As outras garotas também se aproximam.

15

― Parem com isto, deixem a Glória em paz. ― Quer dizer que acharam melhor comemorar sozinhos, não é? Agora é a nossa vez

de festejar, do nosso jeito! Voltam a jogar Glória para o ar, rindo e brincando ruidosamente. Dario, apesar de oferecer rosas de presente e de ser um tanto menor do que os

outros, consegue abrir caminho aos trancos e barrancos. Segura Glória bem na hora de ela voltar ao chão e a protege, empurrando Glória atrás de si.

― Agora chega. Já se divertiram o bastante. ― E daí? Vai tomar alguma atitude? O Siciliano sorri e planta-se diante dele de pernas abertas. Os jeans levemente mais

claros na altura dos músculos esticam-se. Glória, meio escondida atrás de Dario, só deixa entrever uma parte do rosto. Por enquanto, conseguiu segurar as lágrima