Você Sabe (Mesmo) Ler, Manual de Língua Portuguesa. Instituto Federal do Espírito Santo (IFES)
Julielara1998
Julielara199827 de Março de 2017

Você Sabe (Mesmo) Ler, Manual de Língua Portuguesa. Instituto Federal do Espírito Santo (IFES)

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Leitura, o sutil mundo das palavras Edições Anagon Junho 2007
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19524 - VOCÊ SABE (MESMO) LER - LEITURA, O SUTIL MUNDO DAS PALAVRAS

Ana Maria Mendez González

Você sabe (mesmo) ler?

Leitura, o sutil mundo das palavras

Edições Anagon Junho 2007

© Copyright de Ana Maria Mendez González Primeira edição: julho 2007

Você sabe (mesmo) ler? Leitura, o sutil mundo das palavras

Capa: Paulo Papaleo Diagramação: Constantino K. Riemma Assistência editorial: Ana Cláudia Vargas

Nenhuma parte desta publicação pode ser armazenada, fotocopiada, reproduzida por meios mecânicos, eletrônicos ou outros quaisquer sem autorização prévia da Autora.

Visite: www.agonzalez.pro.br

Contato com a Autora: [email protected]

Dê sua opinião e sugestão.

A meu pai, que me ensinou o amor aos livros

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Agradecimentos

Ao Luiz Monteiro, pelo estímulo contínuo;

À Ângela Kleiman, pelas palavras generosas: "Não deixemos que esta chama se apague";

À Ana Cláudia Vargas, pela leitura atenta dos originais, inúmeras sugestões e parceria;

A Maria Ivonete Busnardo, pelas trocas e, principalmente, pela presença amiga;

Ao Roberto Samessima e a todos os amigos e amigas, que confiaram no meu trabalho e estiveram comigo neste caminho;

E à vida, pela oportunidade de todos esses encontros.

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Índice

Prefácio ....................................................................................................... 9 Carta ao Leitor ........................................................................................ 11

Parte II ......................................................................................................... 19 1. Leitura, questão de qualidade ................................................ 20 2. O cenário externo ........................................................................ 21 3. Outro cenário, o interno .......................................................... 22 4. Quando começa a leitura? ........................................................ 24 5. Um diálogo pouco convencional ............................................ 25

Parte II ......................................................................................................... 31

6. O texto, enfim! ............................................................................... 32 7. Quem se lembra do título? ....................................................... 34 8. A vizinhança amiga ..................................................................... 39 9. A linguagem e os discursos ...................................................... 44

10. O mundo dos textos ................................................................. 47 11. Novos patamares ..................................................................... 50 12. Outros níveis ............................................................................... 51 13. As camadas do texto, uma certa geologia ....................... 53 14. Estratégias para a travessia .................................................. 56 15. Os blocos de palavras .............................................................. 59 16. Coesão e coerência ................................................................... 66

Parte III ....................................................................................................... 71 17. Exemplo de leitura ................................................................... 72 18. A folha de registro .................................................................... 81 19. O diário de bordo ...................................................................... 84 20. Outro exemplo de leitura ....................................................... 86

Conclusão ................................................................................................... 87

Referências Bibliográficas ................................................................... 91

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Chega mais perto e contempla as palavras. Cada uma tem mil faces secretas sob a face neutra e te pergunta, sem interesse pela resposta, pobre ou terrível, que lhe deres: Trouxeste a chave?

Carlos Drummond de Andrade

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Prefácio

No século passado, os chamados recursos à disposição da sociedade eram: capital, trabalho, maquinário e terra.

Atualmente, todos esses recursos foram superados por ura outro: o conhecimento. Vivemos na era do conhecimento. Os especialistas dizem que ele é a principal moeda ou recurso do nosso século. Por outro lado, afirmam que a leitura é a principal fonte disponível para a aquisição desse conhecimento.

Sendo verdade o que está escrito acima, os cursos e textos escritos pela Profa. Ana González realmente fazem a diferença. Não são um mero modismo.

É verdade que muitos leitores estão resignados com o padrão de leitura em que se encontram, não acreditando na possibilidade de melhoria. Outros estão descrentes dessa possibilidade em razão das promessas mirabolantes de livros e cursos de leitura rápida.

Melhorar o rendimento nas leituras é um desejo de todos, principalmente dos candidatos que enfrentam a maratona dos concursos.

Há algum tempo atrás, tive a oportunidade de participar de um seminário de Técnicas de Leitura Analítica, também li com muita atenção este original. Acredito que hoje pratico uma leitura mais analítica, com um grau mais elevado de compreensão e até mesmo com um aumento na velocidade.

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Além do profundo conhecimento e paixão pelas técnicas de leitura, Ana González, bacharel e mestre, traz uma bagagem de conhecimento invejável na Língua Portuguesa. Para o domínio da leitura é necessário também o domínio do idioma e, portanto, o trabalho desta autora leva uma enorme vantagem.

Este é o livro que faltava nas livrarias e que de agora em diante poderá ser o livro de cabeceira dos bons leitores.

Finalmente, o título que ele apresenta é interessante e provocativo. Realmente esta é uma pergunta desafiadora: Você sabe (mesmo) ler?

Luiz Monteiro

Auditor Fiscal da Receita Federal do Brasil Coordenador Pedagógico do Pró-Concurso

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Carta ao Leitor

Qual Ioga, qual nada! A melhor ginástica respiratória que existe é a leitura, em voz alta, dos Lusíadas.

Mário Quintana

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Sabemos mesmo ler? Contamos com recursos eficientes? Estas perguntas nem sempre são objeto de nossa reflexão, até o momento em que precisamos dessa habilidade. E o que ocorre quando ela é chamada a agir? Nesse momento, podemos nos ver em apuros e, então, podemos chegar à conclusão de que a qualidade de nossa leitura talvez esteja longe de merecer elogios.

Podemos argumentar como defesa, que ela nem sempre é necessária no dia a dia. Por que, em meio às rotinas diárias, nos preocuparmos ainda com questões não urgentes?

Também nos lembramos de que o diagnóstico da competência da leitura nas instituições escolares brasileiras nos tem colocado a par de uma situação difícil de ser resolvida em curto prazo. Muitos são os problemas nessa área educacional e muitas são também as suas alternativas de resolução, seja na área política, seja na cultural, na maioria das vezes fora de nossa competência individual. Bem... Por que me preocupar com isso?

Porém, há momentos em temos que ler. E ler bem. Pois, foi em sala de aula que pude observar essa necessidade

de perto, nos idos de 2001, quando saí em busca de bibliografia na área. Tenho procurado compor, desde então, um exercício docente que possa juntar elementos da farta teoria disponível sobre o assunto a muitos exercícios práticos com a intenção de oferecer às pessoas um modelo eficiente de leitura. A ampliação de seus conceitos a respeito dessa experiência é consequência direta e, talvez, inevitável. Importante dizer que a referência bibliográfica básica para o desenvolvimento desta metodologia é Ângela Kleiman da Unicamp e do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL), cujos livros são citados no final deste livro.

A experiência anterior que tive de magistério no ensino médio, durante duas décadas, juntou-se à dos últimos

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sete anos, no curso superior e à de outros cursos fora do ensino regular. As dificuldades e a confissão de uma insatisfação nessa área são muito mais comuns do que se poderia imaginar.

Ao longo desse período, pude verificar que a necessidade de uma boa leitura é hoje um problema real e requisito essencial de muitas atividades profissionais e acadêmicas.

Algumas observações dessa experiência docente com públicos diferentes, em cursos regulares e de outras naturezas, servem neste momento para a compreensão de peculiaridades dessa experiência tão particular.

Esta metodologia foi desenvolvida inicialmente em sala de aula de cursos universitários regulares: Pedagogia, Comunicação Social, Administração de Empresas e Tecnologia de Processamento de Dados1. Os exercícios nestes cursos tinham por intenção desenvolver habilidades de leitura e, a partir delas, uma produção de texto também mais qualificada. Acresça-se a esses primeiros objetivos, ura outro: possibilitar aos alunos competências de boa leitura para acompanhar as diferentes disciplinas, fazendo-os aptos a funcionar o mais próximo possível do que se espera de um aluno universitário.

Pude também aplicá-la em um grupo2 que lida com alunos de escolas regulares que exigiu de mim atenção a outros aspectos da questão. Este grupo desenvolve um trabalho voluntário com um público infantil e adolescente com graves problemas de compreensão. Seus participantes precisavam conhecer o processo de leitura e se desenvolver como bons leitores. Sendo voluntários transformados em professores seriam assim melhores

1. Cursos do Centro Universitário Salesiano (UNISAL), campus São Paulo. www.unisal.com.br. 2. ACL, instituição que desenvolve um trabalho de voluntariado em escola do Jabaquara e outras. www.acl.org.br.

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mobilizadores dos trabalhos e modelos de leitura para seus alunos. Quem sabe, agentes divulgadores da leitura nessas comunidades de seu trabalho?

Um outro grupo de Terceira Idade3 realizou as atividades sempre com a presença do gosto pela cultura e lazer, com uma boa dose de liberdade e grande criatividade.

Estes dois últimos grupos citados despertaram necessidades de adaptação da metodologia a suas necessidades, enriquecendo assim minha reflexão a respeito dela.

De diferente natureza, porém, é a experiência de trabalho com candidatos a uma vaga em concurso público4. Na verdade, essa prática tem me proporcionado destreza na aplicação do método. O tempo para a realização das oficinas é muito exíguo e a necessidade dos indivíduos, que não têm tempo para questões teóricas, é muito grande. Acrescente-se a esse quadro que os grupos costumam se apresentar muito heterogêneos quanto ao gênero, à idade, à classe social e à formação escolar e intelectual.

Trabalhar com todos esses grupos, em que os participantes, além de objetivos diferentes, apresentavam um perfil diferenciado me proporcionou um refinamento da metodologia. Também me vi diante de uma pergunta essencial: como conduzi-los à leitura? Entenda-se: como conduzi-los a esse tipo específico de leitura e, ao mesmo tempo, como ampliar seu conceito dessa atividade.

Cheguei assim a um ponto chave: em que mundos vivem os leitores? De que realidades partilham? A escolha dos textos foi determinada a partir desses universos

3. Grupo do Centro Universitário Salesiano (UNISAL) campus São Paulo. 4. Pró-concurso, curso preparatório para concursos públicos. www.proconcurso.com.br.

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referentes a cada um desses cursos, porque somente uma leitura motivada pode realmente ser eficiente. Acreditei que somente uma escolha adequada de textos poderia induzi-los a uma postura capaz de despertá-los para a atenção nas questões mais técnicas que existem atrás do ato consciente de ler.

E, apesar de tão variadas situações didáticas, pude constatar que as necessidades de todos os grupos eram de natureza semelhante: problemas de compreensão, de atenção e de fixação de conteúdos. As mesmas reclamações se repetiam em todas as situações.

E todos também tiveram uma reação semelhante à troca de experiências, que, inesperadamente, mostrou-se sempre muito positiva. Percebi que esta troca de informações além de fortalecer e motivar todos os meus alunos, também ampliou a compreensão do universo da leitura.

O fato é que por ser uma habilidade teoricamente conquistada, não é agradável perceber-se com dificuldades, sensação muitas vezes tornada um verdadeiro peso.

Portanto, se você é estudante universitário, deseja prestar um concurso público, está elaborando um trabalho acadêmico ou simplesmente quer apreender mais dos textos que lê, saiba que este livro se dirige a você. Se você, simplesmente, quer ler melhor, seja bem-vindo a estas páginas!

A intenção é que esta competência - com suas delicadezas - seja compreendida em suas possibilidades e, principalmente, desenvolvida. Quando o material a ser lido e estudado se avoluma em uma vasta coleção de títulos, devemos nos colocar algumas perguntas. Com que recursos eu posso contar? Sei como age o leitor crítico? Que características devo ter para me tornar um deles?

Felizmente, há abordagens atuais do assunto que possibilitam o desenvolvimento de uma eficiência ledora.

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A partir de algumas delas e de minha experiência em sala de aula, desenvolvi este trabalho. Descobri também que, por incrível que pareça, o ato de ler evolui. Na teoria e na prática.

Na primeira parte deste livro, você encontrará indicações de preparo para a leitura e verá que ela é uma atividade que requer atenção desde o momento anterior a sua efetivação.

Na segunda parte, será o tempo de conhecer os passos do seu contato com o texto e de saber algumas informações a respeito dele, tais como seus níveis e estruturas. Paralelamente, serão apresentados recursos para que você tenha uma adequada postura de análise, reflexão e crítica.

As bases teóricas são mencionadas nas referências bibliográficas. Elas têm a função de emprestar a este texto consistência técnica, mas serão tratadas de acordo com a importância que apresentam a você e ao público deste texto, leigo e distante das questões teóricas específicas às letras. O vocabulário técnico será diluído na intenção de não se incorrer em excessos terminológicos.

Na terceira parte, como uma extensão natural, indicamos duas técnicas de estudo, na intenção de melhorar sua organização pessoal e a memorização dos conteúdos: a folha de registro e o diário de bordo.

Por fim, saiba qual é a natureza dos textos com que lidamos neste livro. Ainda que possa servir também para os textos literários e outros do mundo contemporâneo, esta metodologia é aplicada apenas a textos informativos, às vezes de caráter dissertativo. Ou seja, aquele tipo de texto presente principalmente nos momentos de pesquisa e de estudo. Será bom poder explorá- los em toda a sua extensão e infinitas possibilidades.

A organização deste texto tem como objetivo principal proporcionar a você instrumentos para tornar essa experiência eminentemente cognitiva e intelectual mais

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produtiva nas situações em que ela se faça necessária, solucionando as necessidades básicas de todo o leitor.

Mas, como um segundo objetivo, talvez um desejo, gostaria que a leitura deste livro significasse também a descoberta de um mundo de detalhes e sutilezas.

Há no mundo dos textos, em meio às palavras, a revelação de uma estética especial, bem de acordo com a complexidade do ato da leitura. Um terreno sutil de percepções delicadas, no qual se mesclam relevos construídos pelos múltiplos significados de palavras e pelas surpresas de seus encontros nas frases, intertextualidades, caminhos transversais. Tudo repleto de possibilidades e de aberturas. Em clima de quase mistério.

Ou seja, caro leitor, o caminho para a boa leitura pode ser, além do que se imagina inicialmente, surpreendente. Uma experiência muito peculiar.

Cada um de nós tem uma história de leitura que está sempre viva na memória. Esse repertório histórico faz da leitura uma atividade propensa a subjetivas características. Por isso, os tópicos aqui tratados devem ser entendidos e adaptados a cada caso individual, pois as soluções são sempre muito particulares. Daí, sermos observadores de nossas dificuldades e visarmos sempre o aperfeiçoamento de nossas habilidades. Você conhece quais são as suas?

Está em suas mãos a administração de todo o processo. Podemos começar?

Mãos à obra!

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Parte I

Meus filhos terão computadores, sim, mas antes terão livros. Sem livros, sem leitura, os nossos filhos serão

incapazes de escrever - inclusive a sua própria história.

Bill Gates

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1. Leitura, questão de qualidade

Preparar-se para atividades de pesquisa e de estudo significa depararmos com horas e horas frente a muitos livros, apostilas e textos de internet.

O material a ser lido parece não ter fim. Significa também ter que ler e memorizar em um tempo escasso uma grande quantidade de informações das muitas disciplinas de acordo com os editais e ementas, além da bibliografia indicada para análise em cada uma das situações possíveis.

Da leitura de todo esse material depende a vaga desejada, o diploma ou certificado, algo enfim que tem um valor muito especial. Aparentemente uma tarefa simples, uma competência garantida. Não foi na infância que aprendemos a ler?

Comumente, a leitura é percebida dentro da vida diária e até nas situações escolares, como algo já resolvido. Parece até tarefa pouco relevante, dentro do quadro de muitas outras preocupações. Mas é da qualidade da leitura que depende o desempenho nos concursos, provas e diplomações. Depende dela a boa compreensão dos textos e a incorporação dos conteúdos. Depende dela nossa capacidade para atingir os objetivos propostos.

Complexa e de caráter mental, a leitura exige muitos cuidados para ser de boa qualidade, exigência fundamental para que a tarefa não seja em vão.

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É experiência muito familiar a todos nós voltar e voltar de novo ao parágrafo anterior, trabalho de Sísifo sempre incompleto, tendo a impressão de que não gravamos nada.

"Dispersão, de novo? Será que é somente comigo que isso acontece?", você também já deve ter se perguntado com certo constrangimento, desconcertado.

Aprender a concentrar-se é importante para ter o melhor aproveitamento possível. Observe nos próximos capítulos a descrição de alguns cuidados iniciais que podem ajudar a manter a atenção. Vamos lá?

2. O cenário externo

Reclamações habituais falam de dificuldades de concentração e de necessidade de técnicas de memorização. Nada mais justo para pessoas que precisam ler muito em pouco tempo.

Porém, nem sempre há preocupação com o preparo da leitura. Você já pensou em cuidar disso? Na verdade, pequenos cuidados na rotina da leitura podem cooperar para a concentração o que, por sua vez, poderá ajudar na memorização.

Vários aspectos concorrem nesse sentido, desde o arranjo do espaço e a postura física adequada até a boa iluminação, ainda que tudo isso pareça estranho à primeira vista.

Por exemplo, para um corpo cansado, um relaxamento de dez ou quinze minutos antes de se sentar para estudar pode fazer muita diferença. A negociação com a família a respeito de silêncio ou privacidade é também importante

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para compor o quadro apropriado ao estudo. Uma cadeira adequada e a postura correta da coluna também podem propiciar a ativação de uma melhor oxigenação cerebral. Uma boa iluminação para proteger a saúde dos olhos também é importante. Ter o material de estudo organizado - canetas, lápis, borracha e papel - evita sua falta no momento oportuno da anotação. Ler com fundo musical também não é uma boa ideia, pois pode significar a divisão das energias disponíveis entre duas tarefas.

Essa preparação, como um pequeno ritual, pode auxiliar a apreensão cognitiva. O estado de atenção necessário à boa leitura depende de uma continência corporal adequada e de um ambiente propício, iluminado adequadamente e silencioso.

Construa um cenário que colabore para o estado de atenção necessário ao trabalho mental. Todos esses elementos devem ser levados muito em conta se temos intenções de estudo ou de pesquisa, situações em que o leitor não poderá prescindir deles.

Na verdade, ler uma revista ou jornal na sala de espera de um consultório dentário ou médico, distraidamente, não requer estas delicadezas, não é mesmo?

3. Outro cenário, o interno

Na verdade, a leitura começa "dentro". Além do cenário externo há ura interno, que também necessita de atenção e que é um pouco mais difícil de ser percebido. Essa dificuldade acontece porque os esquemas emocionais nem

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sempre são observados, embora nos acompanhem todo o tempo. Cansaço físico? Estresse de sexta-feira? Briga em

relacionamento? Sabe aquela ansiedade? Aquela preocupação com a conta que tem que ser paga? O recebimento de dinheiro que não aconteceu?

Tais preocupações, emoções cotidianas, devem ser neutralizadas para que a ação de sentar-se para a leitura não seja inútil. Ler com cansaço, com sono, com frio, cora fome, com dor, não ajuda a compreender o texto. Administrar essas variações deve ser ura trabalho realizado com objetividade e pode gerar diferenças. Minimizar os sintomas é fundamental em algumas fases da vida. E afinal de contas, há um estresse óbvio no momento de finalizar um curso ou no desejo de mudança profissional.

Exercícios de respiração e pequenos alongamentos podem ser positivos na construção da continência corporal necessária ao trabalho cognitivo, porque podem ser eficientes para a neutralização do campo emocional.

Você deve observar a afetação do campo de atenção provenientes de tais variações físicas ou emocionais, externas e internas. Cuidar desses aspectos nem sempre nos parece importante, mas, na verdade, as emoções podem ser bastante perturbadoras da ordem necessária.

Você está confortável, em um lugar agradável? Sente-se bem internamente? Então vamos adiante?

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4. Quando começa a leitura?

Ledo engano pensarmos que a leitura começa quando focalizamos os olhos nas palavras de uma página qualquer. Ela inicia antes e ultrapassa o momento de sua realização. Como e por que isso ocorre?

O bom leitor, em geral, tem um desejo a ser cumprido, sabe o que vai procurar. Tem um objetivo determinado. Já escolheu o texto e sabe para que vai lê-lo. Estabelece previamente uma expectativa em relação ao conteúdo escolhido.

Ao longo da leitura, se ele estiver realmente envolvido, saberá discriminar se houve uma frustração de expectativas ou a sua efetivação.

Por exemplo, se escolher um texto de determinado assunto para estudar, a partir dessa escolha já tenho uma série de elementos inferidos. No meu pensamento já se constroem referências. Minha leitura já começou.

Identificar a intencionalidade da leitura de determinado texto, ou seja, ter claros os objetivos dessa tarefa e levantadas algumas hipóteses de leitura, são importantes passos para que o leitor tenha antecipada a compreensão das ideias que ele espera encontrar. Essa postura consciente prepara a leitura e motiva a atenção do leitor.

Por outro lado, os resultados dessa atividade continuam após o tempo de sua execução. O texto permanece arquivado, podemos dizer, em nosso repertório mental.

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As informações, que são acrescentadas a cada nova leitura, ficam disponíveis no campo da memória e podem ser usadas na formação da rede de ideias que compõe nosso arquivo pessoal. Quando são bem apreendidas tais informações se organizam em campos, em relação a nossos interesses cognitivos. É assim que se forma nosso conhecimento, a partir das leituras que fazemos e dessa elaboração das informações em redes.

De maneira dinâmica, espelhando o desenho de sinapses cerebrais se conectando, os dados coletados em cada nova leitura se ligarão a outros. Assim, vamos aumentando a quantidade de nossas informações a respeito dos vários assuntos de nossa preferência.

Um capítulo de livro ou uma reportagem jornalística pode fazer diferença em nossa história de leitores. Observe como você tem alimentado seu repertório de ideias, como tem sido a construção de sua história de leitura. Todos os textos são diferenciais importantes. E a qualidade da apreensão desses conteúdos mais do que tudo.

E como se faz essa apreensão de conteúdos do texto? Com certeza, ela se faz de maneira muito mais elaborada do que parece à primeira vista. E parte de uma espécie delicada de diálogo. Quer ver?

5. Um diálogo pouco convencional

Você agora, sabendo o que vai procurar e tendo-se preparado adequadamente para a tarefa, está em condições de estabelecer um diálogo com o texto.

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