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Texto do poema 'Auto da Barca do Inferno' por Gil Vicente, atualizado para a grafia do português corrente. O poema apresenta a personificação do Inferno e sua luta para embarcar um falecido. O texto inclui interações entre o Diabo e um Fidalgo, que tenta embarcar em outra barca para o Paraíso.
Typology: Papers
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Obra anotada e atualizada para a grafia do português corrente pela equipa da Luso-Livros
Esta obra respeita as regras do Novo Acordo Ortográfico
Está feito, está feito!
DIABO Bem feito está! Vai agora, em má hora, Esticar aquele palanco (corda) E desocupar aquele banco, Para a gente que virá.
- falando para o ar – À barca, à barca, hu-u! Depressinha, que se quer ir! Oh, que tempo para partir, Louvores a Belzebu!
Em boa hora! Feito, feito!
DIABO Abaixa-me esse cu! Liberta aquela poja (corda com que se vira a vela) E afrouxa aquela driça. (corda com que se levanta a vela)
COMPANHEIRO Oh-oh, caça! Oh-oh, iça, iça!
DIABO Oh, que caravela esta! Põe bandeiras, que é festa. Vela ao alto! Âncora a pique!
Ó poderoso Dom Henrique, Cá vindes vós? Que coisa é essa?...
Parece-me isto um cortiço... (uma embarcação reles)
DIABO Porque a vedes daí de fora.
FIDALGO Pois sim, e por que terra passais?
DIABO Para o inferno, senhor.
FIDALGO Uma terra sem-sabor... (sem piada nenhuma)
DIABO O quê?... Mas também disso zombais?
FIDALGO E que passageiros achais
Para tal embarcação?
DIABO Vejo-vos eu em feição, Para ir no nosso cais…
FIDALGO Parece-te a ti assim!...
DIABO Em que esperas ter guarida? (salvação)
FIDALGO Que deixo na outra vida, Quem reze sempre por mim.
DIABO Quem reze sempre por ti?!... Hi, hi, hi, hi, hi, hi, hi!...
Não há aqui outro navio?
DIABO Não, senhor, que este preparaste, E assim que expiraste (morreste) Me deste logo sinal.
FIDALGO E que sinal foi esse tal?
DIABO De que vós vos contentastes. (que estava condenado)
FIDALGO Para a outra barca me vou.
- Já ao pé da outra barca –
Oh da barca! Para onde ís? Oh, barqueiros! Não me ouvis? Respondei-me! Olá! Ó!...
- O Anjo ignora-o –
Por deus, aviado estou! (perdido) Quanto a isto é já pior... Que jericocins, salvanor! (Mas que burro, com o devido respeito) Pensam que eu sou um grou? (um corvo, ou uma ave que diz coisas sem sentido)
ANJO Que quereis?
FIDALGO Que me digais, Pois morri tão sem aviso, Se a barca do Paraíso É esta em que navegais.
Muito pequena é esta barca.
FIDALGO Para senhor de bom nome, Não há aqui mais cortesia? Venha a prancha e atavio! (a prancha e apetrechos para se subir para o barco) Levai-me desta ribeira!
ANJO Não vindes cá a pensar De entrar neste navio. Aquele ali vai mais vazio. Ali a cadeira entrará, O rabo caberá E todo vosso senhorio. Ireis ali mais espaçoso, Vossa fumosa senhoria, (arrogante) A pensar na vossa tirania Contra o pobre povo queixoso.
E porque, de generoso, Desprezaste os pequenos, Achar-vos-ei tanto menos (*) Quanto mais foste fumoso. (arrogante)
[(*) Quer o Anjo dizer com isto que quer que o Fidalgo reflita e perceba que quanto mais ele era arrogante e mau, mais ele perdia o valor da sua própria pessoa]
- Grita o Diabo da sua barca –
DIABO À barca, à barca, senhores! Oh! que maré tão de prata! Um ventozinho que mata E valentes remadores!
- Diz a cantar: –
"Vós me vireis à mão, À mão me vireis.”
Esperai-me vós aqui, Voltarei à outra vida, Para ver a minha dama querida, Que se quer matar por mim.
DIABO Que se quer matar por ti?!...
FIDALGO Isto bem certo o sei eu.
DIABO Ó namorado sandeu, (atraiçoado, cornudo) O maior que já vi!...
FIDALGO Como poderá isso ser,
Ela que me escrevia todos os dias?
DIABO Quantas mentiras que lias! E tu... doido de prazer!...
FIDALGO Para que está a escarnecer, Se não havia quem me quisesse mais bem?
DIABO Assim deverias viver, amém, Como ela te havia de querer! (*)
[(*) O Diabo goza com o Fidalgo, dizendo - lhe que ele deveria viver tanto quanto a namorada o amava, ou seja, nem mais um segundo de vida.]
FIDALGO Isso quanto ao que eu conheço...
E não há choro de alegria?
FIDALGO E as lástimas que dizia?
DIABO A sua mãe lhas ensinou... Entrai, meu senhor, entrai: Aqui está a prancha! Ponha o pé...
FIDALGO Entremos, pois se assim é.
DIABO Ora, senhor, descansai, passeai e suspirai. Que entretanto virá mais gente.
Ó barca, como és ardente! Maldito quem em ti vai!
- Diz o Diabo ao rapaz da cadeira: –
DIABO Tu não entras cá! Vai-te daqui! Essa cadeira está cá a mais! Coisa que esteve na igreja Não se há de embarcar aqui. Aqui dar-lhe-ão outras de marfim, Mais chicotadas de dores, Dadas com tais lavores, Que ficará fora de si...
- Falando novamente para o ar –
À barca, à barca, boa gente,